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Psicologia em Pesquisa | UFJF | 2(01) | 11-19 | janeiro-junho de 2008

Considerações a respeito da ansiedade em jovens atletas a partir dos estágios


psicossociais do desenvolvimento

Considerations about the anxiety in young athletes from stages of psychosocial


development

Robério Silva de Paiva*


Thaísa Vilhena Silva**

Resumo
Esta revisão bibliográfica tem como objetivo considerar o processo de estruturação da ansiedade dentro
da teoria de Desenvolvimento Psicossocial de Erik Erikson e discutir a questão da limitação dos estudos
de ansiedade no esporte. Desse modo, parte-se do entendimento de que os mecanismos de ansiedade no
contexto esportivo podem influenciar no desempenho dos atletas e que, portanto, uma metodologia de
intervenção diante desse fenômeno precisa ser feita. Assim, é discutida a necessidade de um sistema de
estruturação de treinamento psicológico para que os atletas possam atuar com mais equilíbrio e lidar com
situações de estresse no contexto do esporte competitivo.

Palavras-chave: ansiedade; desenvolvimento psicossocial; treinamento psicológico

Abstract
This review aims to consider the process of structuring the anxiety within the theory of Psychosocial
Development Erik Erikson and discuss the issue of limitation of the studies of anxiety in sports. Thus, it is
understood that the mechanisms of anxiety in the sporting context can influence the performance of
athletes and therefore a methodology for action ahead of this phenomenon needs to be done. Thus, it
discussed the need for a system of structuring of psychological training so that athletes can act with
greater balance and deal with stress in the context of competitive sports.

Key-Words: anxiety; psychosocial development; psychological training

________________________________
* Professor de Educação Física da Rede Municipal de Machado – MG, especialista em Fisiologia do
Exercício (FMU) e Treinamento Desportivo (UNICAMP).
** Psicóloga pela Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre –MG
Contato: Rua José Patrício de Paiva, 145, Centro, São João da Mata – MG. CEP 37568-000,
e-mail: tvilhena@bol.com.br

Introdução Entretanto, alguns estudiosos


preocuparam-se com os efeitos de
A participação de crianças e ordem negativa da competição para o
jovens em competições em vários desenvolvimento da criança. Cratty
esportes tem aumentado muito (1984), por exemplo, diz que
(Wilmore & Costil, 2001). dificilmente o impacto da competição
A Federação Internacional de nos jovens participantes é neutro, seja
Medicina Esportiva (1997) considera em termos físicos ou psicológicos.
que o esporte competitivo contribui para Tani et al (1988, p. 131) dizem
o desenvolvimento físico, psicológico e que a competição “não pode ser
intelectual de crianças e jovens. Assim, eliminada nem indevidamente
o esporte de competição deve ser ressaltada, mas sim orientada para
incentivado. promover um melhor relacionamento
humano.”

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Nesse sentido, considerando que A teoria de Spielberger (1972


a competição pode trazer efeitos apud Gonçalves & Belo, 2007) constitui
negativos para a criança ou jovem um bom exemplo e tem contribuído
atleta, e que eles podem interferir tanto muito para as pesquisas na área do
no seu desempenho quanto na sua esporte.
personalidade, nosso objetivo é propor a Assim, de acordo com De Rose
compreensão da estruturação da Junior (1995), Spielberger (1972)
ansiedade através da teoria do caracterizou a ansiedade como um
Desenvolvimento Psicossocial de Erick sentimento subjetivo de apreensão e
Erikson. tensão, provocando um medo geral no
Partindo dessa teoria, que indivíduo, além de reações físicas,
descreve oito estágios de psicológicas, psicomotoras e sociais. De
desenvolvimento ao longo da vida, acordo com o mesmo autor, a ansiedade
pretendemos mostrar a necessidade de nos moldes de Spielberger pode ser
se considerar as forças sintônicas e classificada em ansiedade-traço ou
distônicas, que, respectivamente, ansiedade-estado.
representam influências positivas e O estado de ansiedade (A-
negativas no desenvolvimento. estado) refere-se a um estado emocional
Acreditamos que o prevalecimento das transitório ou à condição do organismo
primeiras em contrapartida às segundas humano caracterizado por sentimentos
proporcionará para o futuro atleta desagradáveis de tensão
melhores condições psicológicas de conscientemente percebidos, e por um
controle da ansiedade. aumento na atividade do sistema
nervoso autônomo, gerando reações
Ansiedade como taquicardia, "frio na barriga",
"arrepio na espinha", entre outras. Por
O avanço nos estudos sobre outro lado, o traço de ansiedade (A-
ansiedade se deu a partir de Freud. traço) refere-se a diferenças individuais
Antes, havia somente a discussão no relativamente estáveis em propensão à
campo da filosofia (Rosamilha, 1971). ansiedade. Em geral, seria de se esperar
A princípio, Freud postulou que que os indivíduos que apresentam alto
a ansiedade seria como uma nível de A-traço demonstrassem
transformação da libido reprimida elevações de A-estado, pois se a
(May, 1980). Mais tarde, em torno de circunstância for percebida como
23 anos depois dessa postulação, Freud ameaçadora, sem objeto de perigo, ou
definiu a ansiedade de maneira mais seja, simbólica, inespecífica e
complexa, o que abrangeria tanto antecipada, o indivíduo responde com
manifestações fisiológicas como alta ansiedade-estado. Porém, se a
palpitação cardíaca, transpirações, circunstância for percebida como não
agitação, quanto manifestações ameaçadora, o indivíduo reage com
comportamentais (Costa, 2001). ansiedade-estado baixa (Spielberger,
Freud foi o primeiro a chamar 1972 apud Gonçalves & Belo, 2007).
atenção para a importância da ansiedade
na compreensão dos distúrbios Ansiedade e o esporte
emocionais e psicológicos (May, 1980).
Essas concepções teóricas de Freud A teoria de Spielberger acabou
sobre ansiedade foram cruciais para o influenciando a construção da teoria da
desenvolvimento de outras teorias ansiedade-traço competitiva de Martens
(Rocha, 1976; May, 1980). (1977), que seria a predisposição de
perceber eventos esportivos como

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ameaçadores e a eles responder com estariam ligados a crenças e


níveis variados de ansiedade-estado pensamentos disfuncionais.
competitiva. Assim, a ansiedade-traço Grande parte dos estudos têm se
competitiva é uma característica preocupado em comparar níveis de
relativamente estável e pode produzir ansiedade com gênero, idade e
variações predizíveis no desempenho. modalidades esportivas. A título de
Dessa forma, a ansiedade-traço exemplo, temos De Rose e Vasconcelos
competitiva pode ser um indicativo de (1997), que encontraram níveis de
como um atleta reagiria ao interpretar ansiedade mais altos nos esportes
certas situações competitivas que individuais. Martins, Lopes Júnior e
ameaçam o seu bem-estar físico, Assumpção (2004) mostraram que as
psicológico e social. Quanto à atletas do sexo feminino de basquetebol
ansiedade-estado competitiva, trata-se apresentam um grau mais elevado de
de um estado emocional imediato e ansiedade-estado diferente do
transitório expresso por respostas do apresentado pelos atletas do sexo
indivíduo, que percebe algumas masculino. Lavoura et al (2006) em
situações como ameaçadoras, havendo estudo com atletas femininos e
ou não o perigo real. (Martens, 1977 masculinos de canoagem mostraram
apud De Rose Junior e Vasconcellos, que o gênero feminino apresenta um
1997). nível de ansiedade somática, assim
Com o avanço da metodologia como cognitiva, maior que o gênero
científica das teorias de treinamento masculino. Bertuol e Valentini (2006)
desportivo, da fisiologia, da nutrição e encontraram níveis moderados de
com a equidade de rendimento dos ansiedade em adolescentes, tanto nos
atletas nas competições, é preciso esportes coletivos como nos individuais.
ressaltar que a condição psicológica, a Já Cratty (1984) reportou o inverso.
ansiedade competitiva são assuntos Santos e Pereira (1997) não observarm
controvertidos e importantes, que diferença alguma. Bertuol e Valentini
merecem estudos mais aprofundados, relatam que o nível de ansiedade que se
especialmente quando a ela relaciona-se manifesta em uma situação particular
o esporte praticado por crianças e deve ser considerado em relação à
jovens (de Rose Junior, 1998). impressão imposta, ao nível da
A ansiedade pode desencadear habilidade e à natureza da atividade.
alterações na percepção do esforço, nas O que podemos perceber é que
diferentes estratégias cognitivas, nos os estudos supracitados apenas tratam o
níveis de motivação, entre outros. Esses fenômeno da ansiedade como alvo a ser
fatores podem muitas vezes ser os medido e comparado, e não se levam
responsáveis pela pequena diferença de em consideração a natureza individual e
desempenho e, portanto, pela tampouco uma perspectiva teórica de
classificação final dos atletas na estruturação da ansiedade.
competição (Ward & Williams, 2003). É justamente na questão da
Román (2003), em seu estudo na estruturação da ansiedade e sua
abordagem cognitiva comportamental, influência na formação da personalidade
mostra que níveis de ansiedade do atleta que devemos dar uma maior
negativos podem ativar mecanismos de importância. Partimos do pressuposto
fuga ou evitação, não encontrando de que fatores como modalidade
respostas adaptativas relacionadas aos esportiva, gênero, idade, natureza de
mecanismos fisiológicos, emocionais e pressão imposta e nível de habilidade,
comportamentos mentais e que estes quando relacionados à ansiedade,
poderão ser mais facilmente entendidos

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e controlados. Consideraremos, assim, uma vez que estamos nos referindo a


que uma forma de viabilizar esse jovens atletas.
conhecimento é por meio da Teoria do
Desenvolvimento Psicossocial de 1ª.Idade - Confiança básica x
Erikson. desconfiança básica
Para Kaplan, Sadock e Grebb
(1997), este estágio inicia-se no
A Teoria Psicossocial de Erikson nascimento e vai até aproximadamente
1 ano.
Erick Erikson em sua teoria Erikson (1976) explica que, à
propõe oito estágios no medida que as necessidades fisiológicas
desenvolvimento humano, desde o da criança como sono, fome, frio são
nascimento até a morte. Bordignon atendidas, ela vai criando confiança em
(2007) nos explica que cada estágio tem uma possibilidade exterior de que será
uma crise que tanto pode ser um atendida, constituindo em confiança.
momento de oportunidade para o Já a desconfiança básica se
desenvolvimento, quanto de desenvolve na medida que a criança não
regressividade, dependendo da sua encontra satisfação para as suas
resolução entre as forças distônicas e necessidades, dando-lhe uma sensação
sintônicas de cada estágio. Assim, o de abandono, separação e confusão
mesmo autor diz que, quando há uma existencial sobre si, sobre os outros e
resolução positiva da crise, emerge uma sobre o significado da vida. (Bordignon,
potencialidade que passa a fazer parte 2005).
da vida da pessoa, e, da mesma forma, Segundo o autor supracitado, da
quando não há resolução da crise, resolução positiva da antítese confiança
emerge uma patologia que também e desconfiança, emerge a esperança.
passa a fazer parte da vida da pessoa. Da resolução da antítese
Erikson não cita na sua teoria confiança e desconfiança, surge a
idades cronológicas, logo, as idades que esperança que é obrigatória e necessária
aqui serão expostas, são aquelas que para todas as outras fases (Erikson,
Kaplan, Sadock e Grebb (1997) 1976).
colocaram aproximadamente para as Aprender a desconfiar também
fases do desenvolvimento psicossocial. pode ser muito importante. Conforme
Interessante perceber que, de nos explica Evans (1979), a
acordo com a teoria eriksoniana, assim desconfiança faz com que analisemos a
como nos explica Bordignon (2007), situação antes de uma ação.
num momento específico da vida, as Compreendemos, portanto, que
experiências anteriores preparam o o desenvolvimento tanto da confiança
caminho para a emergência da força quanto da desconfiança são importantes,
seguinte e as experiências posteriores embora a confiança deva prevalecer.
podem, até certo ponto, ajudar na
resolução das crises anteriores. 2ª. Idade - Autonomia x vergonha e
A teoria de Erikson tem uma dúvida
elaboração bastante complexa. Nesse Este período inicia-se por volta
sentido, percorreremos de forma breve de 1 ano e vai até aproximadamente 3
os pontos principais dos estágios anos de idade (Kaplan, Sadock &
propostos por Erikson na sua Teoria do Grebb, 1997).
Desenvolvimento Psicossocial até o 5º A criança se prepara para
estágio, que se refere à adolescência, realizar mais coisas, inicialmente com
duas ações: de agarrar e de soltar. Seus

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conflitos, assim como em outras fases, A força distônica dessa etapa é o


podem levar a atitudes hostis ou sentimento de culpa que nasce do
favoráveis. A criança deve fracasso da aprendizagem psicossexual,
Nessa fase, a criança adquire cognitivo e comportamental. A virtude
autonomia física, hábitos higiênicos e que nasce da resolução positiva da crise
capacidade de verbalização. Tais é o propósito, o desejo de ser, que pode
capacidades constituem a fonte do ser sintetizado na expressão “eu sou o
desenvolvimento da autonomia. A perda que posso imaginar que serei”
do autocontrole pode fazer surgir a (Bordignon, 2005).
vergonha e a dúvida. É necessário,
então, um equilíbrio entre as forças para 4ª. Idade - Indústria x Inferioridade
a formação da consciência moral, do Período que se inicia por volta
significado de justiça, da ordem. Além dos 6 anos de idade e vai até
disso, um equilíbrio entre as aproximadamente 11 anos de idade
experiências de amor ou ódio, (Kaplan, Sadock & Grebb, 1997).
cooperação ou isolamento. Da resolução Há o desenvolvimento do
positiva da autonomia x vergonha, sentido da indústria, da aprendizagem
nasce a vontade de aprender, de cognitiva, da iniciação científica e
discernir e decidir em termos de tecnológica, da formação do futuro
autonomia física, cognitiva e afetiva, de profissional, da produtividade e
tal forma que o conteúdo dessa criatividade (Bordignon, 2005). O autor
experiência pode ser expresso como “eu citado acima ainda explica que a força
sou aquilo que posso ser livremente” sintônica corresponde à competência
(Bordignon, 2005). pessoal e profissional, que pode se
Erikson (1976) considera que a expressar na frase “eu sou o que eu
autonomia continua até o final da vida, posso aprender para realizar um
e que a vergonha e a dúvida trabalho”. Já da força distônica, surge o
constantemente vão desafiar a nossa sentimento de inferioridade e, o que
autonomia. poderia ser um momento de prazer,
acaba sendo um processo desintegrante
3ª. Idade - Iniciativa x culpa e formalista.
Inicia-se por volta dos 3 anos e Esse período abrange vivências
vai até os 5 anos de idade (Kaplan, do indivíduo em idade escolar. É
Sadock & Grebb, 1997). quando a escola passa a ter um
Nessa fase, há o significado mais importante pois, por si
desenvolvimento da capacidade de só, contém uma cultura. É nesse período
empreender, planejar e colocar em que a criança desenvolve, então, um
prática uma atividade pelo gosto de sentido de indústria, o que significa um
estar em movimento. A criança torna-se encaixe às leis do mundo das
mais desimpedida, mais estimulante, ferramentas, tornando-se assim, uma
esquece mais rapidamente os fracassos unidade viva e integrada a uma situação
e se aproxima do que lhe é desejável, produtiva. Há ainda nesse período a
em função de uma excedente energia. polaridade da atividade em confronto
Os habituais fracassos, entretanto, com a inferioridade, as quais estão
podem levar a criança à resignação, ao operando, e a virtude da competência
sentimento de culpa e à ansiedade. Há emerge. Quando a inferioridade se
nessa fase, um sentimento de propósito, desenvolve é porque as tentativas da
a partir das experiências vivenciadas criança para exercer o domínio
pela criança em sua interação com o fracassaram (Erikson, 1976).
meio (Erikson, 1976).

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5ª.Idade - Identidade x Confusão de miniatura, justificando então a


papéis necessidade de se respeitar cada fase de
Começa por volta dos 11 anos e seu desenvolvimento.
vai até o final da adolescência (Kaplan, Weineck (1991), quando se
Sadock & Grebb, 1997). refere ao desenvolvimento psicológico,
O período da puberdade e da afirma que a mentalidade da criança não
adolescência inicia com a combinação é somente quantitativa, mas também
do crescimento rápido do corpo e da qualitativamente diferente do adulto.
maturação psicossexual, que desperta Pode-se dizer que tem sido dada
interesse pela sexualidade e formação uma maior atenção ao processo de
da identidade sexual (Bordignon, 2005). aplicação de cargas no treinamento
Esta etapa abriga uma transição desportivo e na pedagogia do ensino
da infância para a vida adulta. A dos esportes em geral.
infância propriamente dita acaba em Assim, no que diz respeito às
decorrência do estabelecimento de uma experiências motoras (Gallahue &
boa relação inicial com o mundo das Ozmun, 2001) citam a necessidade de
habilidades, das ferramentas, ou seja, o estruturação do treinamento de crianças
produzir coisas. Em consequência do e adolescentes apropriado ao
crescimento e do desenvolvimento, os desenvolvimento. Para tal, Clark, citado
jovens se deparam com uma revolução por Isayama e Gallardo (1998),
fisiológica interior e com as concretas descreve seis estágios do
tarefas adultas. O indivíduo inquieta-se desenvolvimento motor:
com o que os outros pensam que ele é e - reflexivo
com o que ele mesmo pensa que é - pré-adaptativo
(Erikson, 1976). - habilidades motoras
Erikson (1976 apud Evans, fundamentais
1979) esclarece que o nosso sentido de - habilidade motora específica
identidade é composto tanto de do contexto
elementos positivos quanto de - habilidosa
negativos. Há coisas que queremos ser, - compensatória
e que devemos ser, às quais são dadas Esses estágios não são rígidos,
condições para podermos realizar. Há, são individuais a cada um e sempre se
porém, coisas que não queremos ser ou manifestam de forma interligada.
que não devemos ser. Quanto à preparação
A força distônica é a confusão psicológica, embora se reconheça a
da identidade, das regras. A força importância da preparação psicológica
específica que nasce pela construção da na formação do atleta, é aceito que
identidade é a fidelidade. O equilíbrio equipes de alto nível brasileiras não
entre a formação da identidade e a possuem psicólogos e, quando possuem,
confusão de papéis alimenta uma busca o trabalho apenas se resume em
constante de novos estágios de palestras e dicas (Santos & Shigunov,
aperfeiçoamento (Bordignon, 2005). 2000).
Esses autores ainda dizem que
os estudos na área da psicologia do
A teoria psicossocial e o processo de esporte se direcionam apenas a
preparação desportiva a longo prazo diagnóstico. De Rose, citado por Santos
do jovem atleta e Shigunov (2000), reforça a idéia da
No sistema de preparação a falta de conhecimento na preparação
longo prazo de crianças e adolescentes é psicológica.
dito que a criança não é um adulto em

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A necessidade de se favorecer fundo a teoria do desenvolvimento


um desenvolvimento psicossocial psicossocial de Erik Erikson.
saudável é citado como importante, mas Entende-se que é da resolução
parece não existir uma proposta de das forças sintônica e distônica de cada
entendimento desse processo de fase proposta que se tem o momento de
desenvolvimento psicossocial. Assim, oportunidade ou regressividade, que vão
acreditamos que a discussão da teoria fazer parte da vida da pessoa.
psicossocial de Erik Erikson no Acreditamos que, se assim for
contexto de preparação de crianças e feito, expressões como ansiedade
adolescentes a longo prazo se torna seriam mais bem compreendidas em sua
importante. estrutura e manifestação, podendo a
Desse modo, o processo de criança ou o adolescente tornar um
treinamento psicológico no sistema de adulto atleta mais equilibrado, lidando
preparação desportiva a longo prazo de com mais confiança com os
crianças e adolescentes poderia ser mecanismos de estresse promovido pela
aplicado no contexto teórico da Teoria disputa desportiva.
de Desenvolvimento de Erikson, a qual
propõe adequar-se às etapas do Referências
desenvolvimento psicossocial, partindo
do entendimento de que as virtudes, Bertuol, L., & Valentini, N. C. (2006).
como confiança, autonomia, iniciativa, Ansiedade Competitiva de
indústria e identidade precisam ser Adolescentes: Gênero, Maturação,
alcançadas. Nível de Experiência e Modalidades
Outrossim, os polos negativos Esportivas. Revista da Educação
como desconfiança, vergonha e dúvida, Física/UEM 17 (1), 65-74.
culpa, inferioridade e confusão de Bordignon, N. A. (2005). El desarrollo
papéis quando se manifestam, trazem psicossocial de Erick Erikson. El
várias outras atitudes negativas, como a diagrama epigenetico del adulto.
ansiedade. É nesse sentido que Revista Lasallista de Investigación
acreditamos que o processo de 2 (2), 50-63.
treinamento psicológico de atletas Bordignon, N. A. (2007). O
precisa ser incentivado e que a desenvolvimento psicossocial do
compreensão desses estágios constitui jovem adulto em Erick Erikson.
uma ferramenta para a prática voltada às Revista Lasallista de Investigación
necessidades individuais dos atletas, 2 (4), 7-16.
respeitando sempre o estágio em que se Costa, E. R. (2001). As Estratégias de
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Considerações Finais Implicações para a Prática
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impactos sobre eles seria um ato Prentice-Hall do Brasil.
inconsequente. Impactos esses que tanto De Rose Junior, D. & Vasconcellos, E.
podem ser positivos quanto negativos. G. (1997, jul/dez). Ansiedade-Traço
Para tanto, o que se sugere é que esse Competitiva e Atletismo: Um
sistema de disputa seja adequado. Tal Estudo com Atletas Infanto-Juvenis.
adequação pode ser feita tendo como Rev. Paul. Educ. Física, 11 (2), 148-
154.

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