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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ – UNIOESTE CAMPUS DE MARECHAL CANDIDO RONDON

REITOR: Prof. Alcibíades Luiz Orlando PRÓ-REITOR DE PÓS-GRADUACAO e PESQUISA – Prof. Mário César Lopes DIRETOR GERAL DO CAMPUS: Prof. Davi Félix Schreiner DIRETOR DE CENTRO – CCHEL – Prof João Carlos Cattelan COORDENADOR DO CURSO DE HISTÓRIA: Prof. Valdir Gregory

CONSELHO EDITORIAL Antonio de Pádua Bosi, Carla Luciana Souza da Silva, Gilberto Grassi Calil, Méri Frotscher (Coord.), Petrônio José Domingues, Valdir Gregory

CONSELHO CONSULTIVO Adriana Facina - UFF Ana Lúcia Vulfe Nötzold - UFSC Arno Alvarez Kern – PUC/RS Astor Antônio Diehl - UPF Bartomeu Meliá – Univ. Católica Assunción Célia Calvo – UFU Cristina Scheibe Wolff – UFSC Dilma A . de Almeida – UFU Edmundo Fernandes Dias – Unicamp Eurelino Coelho UEFS Gilmar Arruda – UEL Heloisa de Faria Cruz – PUC/SP Jaime de Almeida - UnB João Klug - UFSC Jorge Luiz Ferreira - UFF José Fernando Kieling – UFPel Jozimar Paes de Almeida – UEL Marcelo Badaró Mattos – UFF Mário Maestri - UPF Osvaldo Coggiola – USP Paulo Pinheiro Machado – UFSC Paulo Roberto de Almeida - UFU Paulo Zarth - Unijuí Pedro Paulo Funari – UNICAMP René Ernani Gertz – PUC/RS Sidney Munhoz – UEM Sílvia Helena Zanirato – UEM Théo L. Piñeiro - UFF Virgína Fontes – UFF

PARECERISTAS AD HOC DESTE VOLUME:

André Pereira Neto - Fiocruz Angela Katuta - UEL Arlene Renk - UNOCHAPECÓ Celso Castro - FGV Davi Félix Schreiner - UNIOESTE Edmundo Dias - Unicamp Eliane Cardoso Brenneisen - UNIOESTE Eliézer Rizzo de Oliveira - Unicamp Frederico Neves - UFC Gisálio Cerqueira - UFF Heloísa Reichel - UFRGS José Ames – UNIOESTE José Rivair Macedo - UFRGS Márcia Menendes Motta - UFF Marcos Broietti - UNIOESTE Marta de Almeida - MAST Renan Frighetto - UFPR

APRESENTAÇÃO

É com especial satisfação que apresentamos ao leitor o volume 7 da Tempos Históricos, publicação científica do Colegiado de História da UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus de Marechal Candido Rondon, neste ano em que tivemos a grata notícia da aprovação pela CAPES do projeto de Mestrado em História desta instituição. Abrindo esta edição, encontram-se duas conferências proferidas durante o VIII Simpósio em História da UNIOESTE “História, Poder e Práticas Sociais”, ocorrido entre 24 e 27 de outubro de 2005, cujo tema remete à denominação da Área de Concentração do recém-aprovado projeto de Mestrado, cujo curso se iniciará em 2006. A conferência de abertura do evento, da Professora Virgínia Fontes, da Universidade Federal Fluminense, sintetiza reflexão em torno do tema geral do evento, em que a autora aponta algumas formas de abordagem do tema, concentrando-se na relação entre a História como uma prática social e o poder. A conferência de encerramento do evento é apresentada em forma de artigo pela professora Sílvia Zanirato, da Universidade Estadual de Maringá, no qual apresenta algumas reflexões em torno da gestão do patrimônio cultural que permitam a participação comunitária e seu entendimento como um instrumento importante para a construção da cultura de cidadania.

A sessão de artigos deste volume reúne nove textos com temáticas e reflexões teórico- metodológicas bem diversificadas. Reflexões sobre historiografia constituem tema dos três primeiros artigos. O primeiro, de Diogo da Silva Roiz e Jonas Rafael dos Santos, trata da

“Escola dos Annales” enquanto uma tradição historiográfica inventada e das estratégias de construção de hegemonia historiográfica. O segundo artigo, de José D´Assunção Barros, faz uma discussão sobre metodologia e escrita da história, discutindo aspectos relacionados aos diversos “domínios” da história, em especial ao da Biografia. O artigo que segue, de Manoela Pedroza, tem como objeto a historiografia marxista brasileira, procurando analisar a forma com que o campesinato e a questão agrária se estruturaram como objetos de estudo por esta historiografia, entre as décadas de 1930 e 1980.

Em seguida, apresentamos o artigo de Maria Aparecida de Oliveira Silva que trata das mudanças havidas no Exército romano, à época do imperador Augusto, as quais teriam

contribuído para a construção de uma nova ordem militar, cuja influência teria se estendido por toda a história política de Roma. O artigo seguinte, de Bruno Miranda Zétola, trata da transição da Antigüidade ao Medievo, especialmente no que se refere à substituição do evergetismo clássico pelo modelo caritativo, o qual se constituiu em importante veículo de legitimação do poder político e econômico da Igreja, e em especial, do episcopado.

Os artigos que seguem se inserem na temática História & Cidade, muito embora tematizem a cidade sob abordagens diversas. O artigo de Rosângela Maria Silva Petuba, sobre a cidade de Uberlândia – MG, aborda a cidade a partir das experiências vividas de trabalhadores ocupantes de terra de um de seus bairros, avaliando a importância da luta política como fonte de aprendizado para esses trabalhadores. O artigo seguinte, de Marco Antonio C. Sávio, trata da cidade de São Paulo, nos primeiros trinta anos do século passado, procurando discutir a adoção de novas tecnologias da eletricidade trazidas pela empresa canadense Light & Power, com o auxílio das forças políticas da cidade. O artigo de Marie Felice Weinberg tematiza São Paulo focalizando a imigração judaica, entre o final da Segunda Guerra Mundial e 1956, em especial, mulheres empresárias. Através da História Oral, a autora procura revelar o papel das mulheres nas relações de poder entre os gêneros.

E, por último, a revista traz artigo de Tarcísio Vanderlinde que desenvolve seu argumento baseado na idéia da existência de mediações entre concepções da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – e o ideário do CAPA – Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor. Encerram o volume duas resenhas, a primeira do professor Pedro Paulo Funari,

sobre o livro L’Histoire culturelle, de autoria de Pascal Ory, publicado em 2004, na França, e a segunda, de Ana Paula Cantelli Castro, sobre o livro Reforma Urbana e Luta de Classes: Uberabinha/MG (1888 a 1922), publicado por Antônio de Pádua Bosi.

O Conselho Editorial agradece a todos os autores e pareceristas que contribuíram

para que mais este volume fosse publicado.

O conselho ainda informa que já estamos recebendo, até dia 10 de março de

2006, contribuições para o próximo volume, cujo tema do dossiê é “Poder e Práticas Sociais”. A pré-definição de dossiês temáticos, adotada pelo Conselho Editorial, tem como objetivo dar continuidade à sua política de qualificação da revista.

O dossiê “Poder e Práticas Sociais” pretende reunir artigos resultantes de pesquisas

que articulem reflexões teórico-metodológicas na área de História, em torno de questões relativas a poder e práticas sociais. Apreendem-se as relações entre história e poder de forma ampla, presentes nas diversas dimensões da vida social, política, cultural e econômica, bem como as múltiplas práticas de contestação, subordinação ou consenso à ordem social. De outro modo, nas relações entre história e práticas sociais, abrem-se possibilidades de compreender os processos sociais vividos e construídos por sujeitos, individuais e coletivos, em meio a tensões e conflitos, historicamente experimentados e reelaborados.

Profa. Dra. Méri Frotscher Coordenadora do Conselho Editorial

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

CONFERENCIAS

História, Poder e Práticas Sociais Virgínia Fontes

As instituições de proteção do patrimônio cultural: gestão política e participação

comunitária

Sílvia Helena Zanirato

ARTIGOS

A invenção de uma tradição: a “Escola dos Annales”

Diogo da Silva Roiz e Jonas Rafael dos Santos

A historiografia contemporânea e seus domínios: deslocamentos e mutações

José D`Assunção Barros

O debate na historiografia marxista brasileira sobre trabalhadores rurais no século XX Manoela Pedroza

A política do poder: o Exército na era de Augusto

Maria Aparecida de Oliveira Silva

Da Antigüidade ao Medievo: o cristianismo e a elaboração de um novo modelo caritativo – Bruno Miranda Zétola

Pelo direito à cidade: articulações e aprendizados na luta política dos trabalhadores ocupantes da terra urbana na cidade de Uberlandia Rosangela Maria Silva Petuba

A Light & Power e a construção do momentum da eletricidade em São Paulo

Marco Antonio S. Sávio

Imigrantes empreendedoras em São Paulo (1945-1956): Ashkenazitas, Sefarditas e

Orientais

Marie Felice Weinberg

CAPA: o jeito luterano de atuar com os pequenos agricultores no Sul do Brasil Tarcísio Vanderlinde

RESENHAS

ORY, Pascal. L’Histoire culturelle. Paris: Presse Universitaires de France, 2004. Pedro Paulo A. Funari

BOSI, Antonio de Pádua. Reforma Urbana e Luta de Classes: Uberabinha/MG (1888 a 1922). São Paulo: Xamã, 2004. Ana Paula Cantelli Castro

Conferência História, Poder e práticas sociais 1

Virgínia Fontes 2

Em primeiro lugar, gostaria de falar sobre minha imensa felicidade de estar aqui, na Unioeste, Universidade com a qual mantenho estreito contato apesar de ser a primeira vez

que aqui venho. Participei desde os primórdios do convênio interinstitucional com a UFF, mas não pude vir – por razões alheias à minha vontade – na época dos primeiros cursos. Participei entretanto intensamente das atividades de orientação e de bancas de diversos colegas daqui e tenho mesmo a impressão de já conhecer a cidade, através das dissertações e teses que tive o prazer de acompanhar de forma bem próxima. Além desses espaços mais formais e institucionais, ganhei também laços de grande amizade, construída em debates, longas tardes e noites de estudo e em encontros festivos – com chopp e conversa, em

almoços coletivos e jantares animados. Assim, me sinto em casa

mencionar, em especial, Carla Luciana Silva e Gilberto Calil, mais que amigos, companheiros. Agradeço pois a honra de estar com vocês neste VIII Simpósio em História que tem um certo sabor especial, de vitória: comemoramos o novo Curso de Mestrado em História da Unioeste, com votos de longa vida, de sucesso e, sobretudo, de coerência intelectual e de defesa da Universidade Pública, laica, gratuita e de qualidade. Vamos, pois, a nosso tema, História, poder e práticas sociais. Há muitas maneiras de abordar as inúmeras questões que o tema suscita, assim como há diversos caminhos teóricos para seu tratamento. Vou levantar algumas desses temas e problematizá-los um pouco, de forma a que pensemos juntos sobre algumas dessas possibilidades, e, em seguida, nos centraremos no primeiro ponto.

e faço questão de

1 Conferência de abertura do VIII Simpósio em História da UNIOESTE – História, Poder e Práticas Sociais, ocorrido entre 24 a 27 de outubro de 2005.

2 Professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFF (Universidade Federal Fluminense). Email: vfontes@superig.com.br.

1. A relação entre a História como uma prática social e o poder. Que laços unem nossa prática, a de historiadores, com o poder? Podemos partir de dois caminhos: o da história de nossa disciplina e o das maneiras pelas quais os historiadores lidam com o poder. Retornaremos a este ponto mais adiante.

2. As concepções tópicas do poder. Há uma forte tendência a conceber o poder como se estivesse “acima” e separado da vida social, enquanto as práticas sociais estariam figuradas como se estivessem “abaixo”. Essa disposição tópica caracteriza o pensamento liberal, que vê o poder como resultando de pactos (ou do grande pacto, o Leviatã) que, uma vez instaurado, se autonomizaria frente ao conjunto das demais relações sociais. Pensar o poder, ao contrário, nos parece exigir pensar as relações sociais que não somente o instauram, mas que permanentemente o reconstróem. É nas relações sociais – econômicas, políticas, culturais, organizativas, de cotidiano – onde se implanta e se exerce a desigualdade como condição de existência, que se originam os meios de coerção para assegurar a desigualdade.

3. O poder externalizado. Derivada, em grande parte, da modalidade anterior, alguns tendem a pensar o poder isoladamente do conjunto (da totalidade) das

relações sociais. Muitas vezes nos deparamos com interpretações do poder como se fosse externo às relações sociais (providencialismo, por exemplo); nesse viés,

o poder constituiria uma “esfera própria” ou “específica” de existência, sendo

abordado isoladamente. Aqui se apóia a suposição de senso comum de que tudo ‘derivaria’ do poder, que se torna, assim, a-histórico, isento de processo, numa seqüência linear de auto-desdobramento infinito.

4. O desafio histórico de explicar e compreender o poder na totalidade histórica. Uma quarta possibilidade seria tratar o desafio que significa para nós, os

historiadores, explicar (e compreender) os processos históricos que instauram formas específicas de poder derivadas das relações sociais – e portanto das lutas

e das práticas. Enfrentar este desafio exige superar as linearidades, quer sejam sociológicas (que às vezes o analisam como instantâneos fixos ou como desdobramentos lineares), quer sejam temporais (como concebem a história

como um longo fio de tempo contínuo, esquecendo suas contrações, acelerações, rupturas bruscas e, também, as persistências do velho no interior do novo). Este desafio exige pensar a totalidade das relações sociais (a objetividade e a subjetividade nas quais nos constituímos), analisar o chão social no qual toda e qualquer forma de poder lança raízes. Exige identificar as formas cristalizadas que, por parecerem naturais e corriqueiras, permeiam toda a vida dos seres singulares, como as formas diferenciadas dos Estados e sua íntima conexão com as diferentes maneiras de assegurar, consolidar e legitimar a dominação de pequenos grupos sobre a maioria, assentada sobre a exploração. Mas também exige decifrar a razão pela qual essa dupla, dominação/exploração se apresenta, muitas vezes, como seu próprio contrário! Como se fosse vontade subjetiva externa à história (vontade divina), ou, mais complexo ainda, como se fosse o próprio desejo dos dominados e dos explorados – o de submeter-se “livremente” ao jugo social que lhes é imposto. Esta é a característica mais perversa do capitalismo, ao empurrar, pela massiva expropriação na qual se sustenta e da qual retira sua seiva (o sobretrabalho), a imensa maioria da população para uma procura incessante de trabalho (expresso como se fosse emprego, contrato

estável, direitos), acreditando que o faz

“livremente”. Esta imagem alterada,

falsificada de si, apenas apresenta a percepção de uma parte da sociedade – percepção daqueles que se beneficiam desse processo – como se expressasse a realidade efetiva da grande maioria. Este movimento perverso – e complexo – aparece hoje também na questão democrática, onde o fato de votar parece querer responsabilizar a grande maioria pela expropriação política que lhe retira seus direitos, a começar pelo próprio contrato de trabalho, espraiando-se sobre a destruição de conquistas de cunho universalizante – saúde, educação, habitação, alimentação, dignidade, direito à vida, etc Como se pode observar, qualquer das vias que tomemos para abordar o tema implica desafios similares. Retornemos, pois, ao primeiro ponto, para aprofundá-lo um pouco mais, relacionando a prática social dos historiadores ao poder.

1. A relação entre a História como uma prática social e o poder

Como todos sabem aqui, o termo história tem inúmeros significados, é polissêmico e essa riqueza de significados deriva do intenso uso social – e da importância - que adquiriu com o tempo. Como exemplos, a palavra história pode designar namoro (“Fulano está de história com Sicrana”); pode significar objeto ou coisa (“que história é essa na sua roupa?”); confusão, complicação (“não me venha com histórias”). No dicionário Houaiss,

Para nosso intuito, podemos classificar as acepções

diretamente ligadas às atividades dos historiadores em dois grandes grupos: no primeiro, nos referimos aos processos sociais passados ou em curso; no segundo grupo, designamos a atividade de conhecimento que se exerce sobre o conjunto daqueles processos. No primeiro sentido, a matéria prima e, no segundo sentido, a atividade (a “fábrica”) de explicações. No primeiro sentido, o movimento no qual estamos imersos; no segundo sentido, a procura da reflexão sobre as grandes linhas e as grandes direções nas quais esse movimento nos impele. Nosso trabalho, dos historiadores, nos move a nos interrogar sobre o significado desse fluxo do qual participamos, assim como sobre as possibilidades que se descortinam para nós, como seres coletivos que somos. Por exemplo, em nossos dias podemos nitidamente identificar a catástrofe social e humana que se abate sobre nós. Vivemos sob relações sociais que realizam também uma destruição brutal (mas extremamente lucrativa) da própria natureza. Esse processo hoje envolve inclusive privar de água a maioria da população do planeta, através da privatização das fontes e mananciais e de sua mercantilização. A miséria social, a degradação humana, a destruição dos elos afetivos, a mercantilização das almas (corações e mentes) e a inutilidade da grande maioria dos objetos mercantis dos quais estamos cercados são características que se impõem à nós, de forma assustadora. Porém nossa reflexão deve ir adiante, analisando as formas de construção histórica dessa barbárie, identificando as possibilidades existentes de exercício de nossa historicidade efetiva e a capacidade de transformação social que subsiste. As duas atividades – viver historicamente e pensar e escrever a história – não estão totalmente imbricadas. As formas de escrever, pesquisar, explicar, pensar e sentir a história

estão listadas 15 acepções

se alteram segundo os períodos e momentos históricos e segundo o ponto de vista social no qual nos localizamos. Nossa forma contemporânea de pensar a história (tanto o processo real quanto a disciplina histórica) nasceu estreitamente ligada com a justificativa do poder e dos poderosos. Em outros termos, a disciplina acadêmica história se configura, desde os primórdios renascentistas (com Maquiavel, O Príncipe e, principalmente, em sua História de Florença e Guicciardini, História da Itália e História de Florença – esta última publicada apenas em 1859), muito próxima ainda da genealogia das famílias reais (traços marcantes dos textos, digamos proto-históricos anteriores) mas, sobretudo, como uma reflexão sobre o poder, ligando-o diretamente ao Estado e aos homens que encarnavam este poder, os príncipes e os guerreiros. Com muitas oscilações, a disciplina História se consolidaria somente no século XIX, quando se constituiu como um corpus de conhecimentos incorporando a crítica erudita, uma definição, ainda que muito frágil e descritiva, do que poderia ser sua matéria-prima (os “fatos históricos”) e uma profunda desconfiança com relação à filosofia (e, portanto, com relação à explicação e à compreensão). Lastreada na descrição e, em sua forma mais literária, em narrativas épicas, permaneceria muito próxima das grandes questões suscitadas a partir do poder, pensado como algo em si. A História, concebida dessa forma, seria a disciplina avalista da construção do Estado-nação moderno (juntamente com o direito), investigando no passado as linhagens do “povo”, que doravante se impunha, ao lado das linhagens nobiliárquicas. Encontramos, assim, grandes relatos dos povos anglo-saxônicos, dos gauleses, dos germânicos como protagonistas de uma unidade específica cujo percurso era apresentado de forma linear, congregando uma matriz histórica (temporal), um território, uma forma de ser (identidade) e uma unidade política que figurava como se tivesse sido, desde sempre, a meta a atingir. A Revolução inglesa e, principalmente, a Revolução francesa, com a irrupção do povo comum nos processos políticos (isto é, dos não-nobres, dos burgueses, mas também do “populacho”, do que era até então apontado como a “ralé”), exigia sua incorporação no grande painel histórico até então reservado às famílias nobres. A construção das nações seria, em parte, obra de historiadores. Escrever a nação era inscrevê-la na História. As nações resultavam de um processo complexo, fruto de uma intensa aspiração à igualdade, expressa nas reivindicações populares e,

simultaneamente, derivavam de tradições inventadas, incorporando subalternamente a grande maioria. A nação, lugar de luta, se mirava numa tradição inventada (e produzida também por historiadores), onde uma comunidade de desiguais inventaria uma igualdade fictícia, a de “nacionais”. O estado burguês moderno que se consolidava no século XIX extraía sua legitimidade, em grande parte, da nova disciplina que ele apoiava, sustentava e difundia, através, por exemplo, da criação dos Institutos Históricos nacionais (implantado no Brasil em 1838). Os historiadores tinham o augusto papel de naturalizar a nação e de demonstrar sua indissociabilidade do Estado. Em muitos casos, isso implicou na destruição de culturais regionais, cujo caso mais evidente foi o da Itália. Para o tema que nos interessa, o poder, vale lembrar que o Estado era considerado como seu lugar “natural”, o condutor “natural” da nação, como sua expressão imediata. Assim, a nova disciplina reatava os laços com as tradições anteriores, agora alargadas – a História era, sobretudo, a história dos homens no poder do Estado. Não mais suas genealogias nobiliárquicas, mas as estratégias e ardis dos grandes homens, sua psicologia e suas batalhas. O povo, dignificado como “origem”, permanecia como mero coadjuvante. Uma prática social – dos historiadores – distanciada das grandes massas e próxima dos aparatos governamentais produzia a legitimação dos Estados paralelamente à consolidação de tradições nacionais. Uma história de base eurocêntrica, colonizadora e “civilizadora” exaltava os países centrais (e suas “raças”), enaltecendo seus “povos” os quais, entretanto, deveriam manter-se distantes dos cenários de poder nos quais ela se desenvolvia. Num século como o XIX, povoado de revoltas populares e de grandes revoluções (como a Comuna de Paris, em 1871), essa maneira de apresentar a história seria fortemente contestada pelos movimentos operários e populares. Em seguida, essa crítica seria consolidada pela poderosa reflexão de Marx. Abria-se uma profunda cisão no mundo dos historiadores, agora já plenamente profissionais. O eixo principal até então dominante, a narrativa dos grandes feitos, dos grandes homens, a exaltação abstrata das qualidades dos povos (os alemães, os franceses, os ingleses), que se completava com a exposição dos supostos vícios e da degradação dos povos subalternizados 3 , seria fortemente questionado. Uma nova prática social, feita por

3 . Não se pode esquecer que, enaltecidos enquanto origem nacional, os setores populares (mesmo os “nacionais”) continuavam desconsiderados, apresentados como brutos, incompetentes, incapazes de dirigir-se, devendo depender, portanto, de seus governantes.

grupos sociais concretos, que se organizavam e combatiam as práticas sociais naturalizadas da exploração e da produção de desigualdades, inclusive simbólicas (a própria classe operária, então reunida em enormes instalações fáusticas), demandava e exigia outra forma de pensar a história. Esta se evidenciaria doravante como um processo de transformação, resultante não da vontade singular dos dirigentes, mas do caudal volumoso das inúmeras e anônimas lutas sociais. Pensar historicamente passava a exigir a compreensão da forma social da dominação de classes, como lugar de lutas e de conflitos no interior da própria sociedade (e não apenas de batalhas épicas entre indivíduos singulares com seus projetos de poder). O mundo da economia, até então reservado dos olhares populares como se fosse um lugar técnico, se evidenciava como encharcado de política. A fala técnica (e cada vez mais matematizada) da economia era desnudada como o discurso específico da ocultação das relações sociais que sustentavam a dominação de classes. Expor a economia como um concentrado de relações sociais, como lugar de exploração social e de produção (e não um mundo feito unicamente de “coisas”), resultava de – e impunha – uma crítica completa do que era exibido como “necessidade” 4 . Agora, o próprio poder (o Estado) deveria ser explicado, não se limitando mais à fonte de explicação. Marx demonstrava claramente que o poder não é uma coisa em si, mas deriva da exigência de coerção homogeneizada (e naturalizada por seus ideólogos) engendrada pelas diferentes formas históricas de extrair sobretrabalho, e, para tanto, de organizar a vida social. Para Marx, o poder deriva portanto da organização da dominação de classes, ou do modo de produção (mais precisamente, dos modos de ser, maneira mais próxima de sua formulação). A prática dos historiadores, ou a atividade histórica como prática social tornava- se, também, lugar explícito de luta social. O século XX demonstraria o quanto essa luta atravessaria o mundo dos historiadores e, a rigor, todo o conjunto das disciplinas sociais. A neutralidade fictícia de uma descrição dos fatos se mostrava como seleção parcial e arbitrária.

4 Podemos entender isso com um exemplo anacrônico, mas tristemente pertinente: o episódio da “blindagem” de Henrique Meirelles e da defesa da “independência” do Banco Central. Um jornal como O Globo defendeu explicitamente a intocabilidade legal do dirigente do Banco Central como forma de assegurar a manutenção de uma política econômica que não mais se submetesse à política na qual todos podem, ainda que subalternamente, participar. O interesse dos setores financeiros dominantes foi assim apresentado como necessidade social.

Não poderemos fazer, neste curto espaço de tempo, uma longa apresentação das

grandes questões da historiografia do século XX, mas uma das mais importantes polêmicas

foi a que opôs uma ciência histórica neutra e apassivadora a uma história engajada e

fortemente crítica. Basta lembrar dos primórdios dos Annales 5 , quando Marc Bloch

aprofundou, a partir de uma leitura muito sagaz das classes sociais, a compreensão do

mundo medieval e de suas formas de ser; quando os primeiros textos de Lucien Febvre

apontam para a materialidade das relações culturais (como o problema da descrença em

Rabelais).

Os Annales, porém, de local de luta pelo reconhecimento de uma leitura histórica

engajada, totalizante, explicativa e crítica se transformaram numa instituição forte e

consolidada, espécie de espelho no qual se mirava a historiografia francesa contemporânea.

Plenamente integrados à lógica do Estado francês, num viés republicano (contra a força

ainda remanescente da Ecole de Chartes e de seu viés conservador e, até mesmo,

monarquista) paulatinamente perderiam sua força contestadora e crítica. Gradualmente, o

foco das análises se modificaria, para instaurar uma espécie de “revolução permanente” de

técnicas de pesquisa que se distanciou grandemente dos grandes questionamentos sobre o

conjunto da vida social que o originaram.

Permito-me transcrever uma citação um pouco extensa de Pierre Bourdieu, um dos

filhos da EHESS – Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, instituição sob o controle

do grupo dirigente da revista Annales, num texto redigido no final dos anos 70:

a classe dominante “nada tem a esperar das ciências sociais, a não

ser, no melhor dos casos, uma contribuição particularmente preciosa para a

legitimação da ordem estabelecida e um reforço do arsenal dos instrumentos

o que está em jogo na luta interna pela autoridade

científica no campo das ciências sociais, isto, o poder de produzir, impor e

inculcar a representação legítima do mundo social, é o que está em jogo entre

A idéia de uma ciência neutra é uma

ficção, e uma ficção interessada, que permite fazer passar por científico uma forma neutralizada e eufêmica, particularmente eficaz simbolicamente porque particularmente irreconhecível, da representação dominante do mundo social. Desvendando os mecanismos sociais que asseguram a manutenção da ordem estabelecida, cuja eficácia propriamente simbólica repousa no desconhecimento de

as classes no campo da política” (

simbólicos de dominação. (

)

)

5 Originalmente, Annales d’histoire économique et sociale; depois Mélanges d’histoire sociale; em seguida Annales. Economies, Sociétés, Civilisations (1945-1993) e, finalmente, após 1994, Annales. Histoires, Sciences Sociales.

sua lógica e de seus efeitos, fundamento de um reconhecimento sutilmente extorquido, a ciência social toma necessariamente partido na luta política.” 6

Essa luta é ainda hoje constitutiva do mundo das práticas historiográficas e sociais

dos historiadores. Utilizando termos próximos aos de Bourdieu, o que divide as ciências

sociais (e a história) é a admissão – ou não – da divisão social e, portanto, da luta social.

Assim, enquanto para alguns a vida social é local de harmonia (visão irenista) ou da

sobreposição de indivíduos, para outros é lugar de divisão e de luta de classes, divisão

funda e instauradora de uma determinada maneira de ser, de existir e de pensar que conflita

com a vida real da maioria, com as experiências e processos efetivos de sua vida. Essa

divisão conforta a exploração através reprodução generalizada de seus mecanismos de

dominação, como a própria violência simbólica.

No entanto, essa luta constitutiva das ciências sociais – e da história, ou da

historiografia - vem mudando de forma, se alterando, se metamorfoseando nas últimas

décadas.

Antes porém de comentarmos alguns dos recentes desdobramentos dessa complexa

relação entre prática historiadora e poder, vale retornar um pouco ao campo do marxismo e

a algumas de suas dificuldades. A revolução soviética, ao entrar na fase de cristalização e

de enrijecimento do período stalinista, produziu também seus historiadores oficiais,

similares aos dos países capitalistas. Mais grave ainda, a mitificação do poder stalinista

forjava uma caricatura do próprio marxismo. Este era brandido como teoria necessária e, ao

mesmo tempo, esterilizado. Suas exigências críticas eram podadas e, com isso, uma espécie

de tecnicismo analítico de manuais se generalizava no mundo soviético. A reflexão

histórica produzida dessa forma cumpria uma função legitimadora – e não mais

questionadora – ainda que falando em nome do marxismo. O uso do referencial do

marxismo, amputado de sua força profundamente subversiva, tanto intelectual quanto

socialmente, abriria espaço para ecletismos diversos, que ocorriam nos países capitalistas

mas também nos pós-revolucionários, gerando marxismos pragmáticos, economicismo,

messianismo, politicismos, que conviviam perfeitamente (e disputavam espaço) com os

ecletismos fundados em outras áreas teóricas. Os embates tendiam a se limitar à ocupação

6 P. Bourdieu, O campo científico. In: Bourdieu, P. Sociologia. SP, Ática, 1982. (p. 147-8). Itálicos do autor, PB; negritos VF.

de espaços no interior das universidasdes e academias, perdendo sua força social. Se

academicizavam e se tecnificavam (pragmatismos diversos), ou, em outra vertente, se

esterilizavam na pura erudição. Este não foi, felizmente, um processo monolítico. Ao lado

de uma vertente que se fossilizava, brotavam novos e originais pensadores, em diferentes

regiões do mundo e que, partindo de plataformas similares (com base em Marx), descortinavam novos horizontes. Vou referir-me apenas a dois destes pensadores. O mais importante, sem dúvida, foi Antonio Gramsci, com sua arguta denúncia do reducionismo dos manuais e, principalmente, do mecanicismo e do economicismo no interior do marxismo. Não era historiador de ofício. Reintroduzia a cisão entre o mundo oficial dos historiadores e a

reflexão histórica. Podemos dizer que Gramsci (como Marx), é um historiador sem o ser. Refaz e reconstrói a explicação da vida social italiana (elabora a categoria de transformismo; renova a reflexão dialética apresentando a relação histórica entre o norte e o sul da Itália); esclarece de maneira incisiva as modalidades de organização do estado capitalista contemporâneo, pensando de forma original a questão da totalidade (hegemonia

e coerção; sociedade civil e sociedade política); inaugura a compreensão do

“americanismo”, cuja hegemonia era então incipiente. Mantendo-se muito próximo às reflexões de Marx e de Lênin, não os toma como textos canônicos e, assim, analisou a maneira como o Estado – e seu aparato – se erigia a partir da vida social, a partir da luta entre as classes, das formas organizativas que a elas se ligam, da produção de visões de mundo e da cultura. Mostrou como as classes se articulavam na sociedade civil e como o Estado se cristalizava como relação entre forças profundamente desiguais, nascidas no chão fundamental da produção da vida (“a hegemonia nasce da fábrica”). Como exemplo de historiador de ofício que retomou explicitamente Marx e Gramsci para sua prática de se trabalho, um dos mais importantes foi E. P. Thompson. Mas – quiçá para fugir do oficialismo a que muitos historiadores são induzidos – Thompson sempre recusou o mundo das academias, sendo um professor do setor de extensão (aulas para adultos e para operários), concentrando suas pesquisas nos processos de constituição das classes sociais como modo de ser (priorizando a experiência como forma de articulação entre objetividade e subjetividade). Em Thompson, a questão do poder liga-se diretamente às classes sociais, às formas de subordinação do mundo do trabalho.

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Nos últimos anos e, em especial, na década de 1990, a relação entre o poder e as práticas sociais dos historiadores parecem se tornar mais opacas e confusas. Refiro-me ao período do pós-modernismo, com uma expansão requentada do pragmatismo, período que se traduz por disputas no interior de um campo de historiadores profissionais cada vez maior, mais competitivo e crescentemente hierarquizado. Vou sugerir alguns caminhos para compreender isso. A evidência dos profundos problemas no mundo soviético levou muitos autores a criticar fundamente a concepção marxiana de poder, considerando a experiência soviética como se fosse uma “aplicação” imediata do marxismo. Outros procuraram outras fontes de rebeldia, como por exemplo a reflexão de Foucault, desencantado com a maneira pela qual os que se proclamavam contestadores do poder (os Partidos Comunistas) reproduziam lógicas de dominação em seu próprio interior. Essa constatação o leva a abandonar a reflexão sobre as formas centrais de constituição do poder dominante (o capital, em primeiro lugar e o Estado) e a dedicar-se às porosidades, aos micro-poderes, às margens aparentemente não ‘contaminadas’ pela lógica dominante (loucos, doentes, bruxos, marginais). Reflexão vigorosa, com profundo impacto sobre os historiadores mas que, no entanto, virava as costas a dois problemas centrais. No primeiro, abandonava o tema da historicidade, ou das formas (e sujeitos) da transformação histórica, que constituem o cerne do marxismo. No segundo ponto, centrando suas análises na questão do poder, desconsiderava entretanto o fulcro fundamental que expressava o poderio de classe, a exploração, e sua forma mais visível de convencimento, o Estado. Deixava de lado assim suas bases fundamentais, as classes sociais. No final da vida, Foucault voltaria a apontar a questão da “estatalidade” como eixo importante de análise, mas os historiadores que o seguiram não o fizeram. As práticas de antipoder propugnadas por Foucault derivaram, entretanto, na constituição de novas linhagens – e poderosas – de historiadores. Sem mais ter as classes sociais (ou o Estado) como um problema, alguns assumiram um papel ambivalente:

ocupavam o lugar social da legitimação social do poder dominante através do Estado (e, portanto, das classes), lugar clássico dos historiadores, porém não mais questionavam sua

própria inserção, dedicando-se ao estudo das margens e deixando de lado o eixo central que, a rigor, definia inclusive o limite e a extensão de tais margens. O Estado (como condensação de relações de classe e expressão central desse poder) ficaria secundarizado nas pesquisas. Esse esquecimento, entretanto, não correspondia ao que ocorria na vida social e vale pensar sobre o enorme o papel e a constituição, então em curso, do poderio bélico estadunidense, e em sua íntima conexão com o Estado. Outros autores confundiram a vulgata marxista (ou o marxismo stalinista) com as formulações marxianas. Algumas vezes por engano, pois só haviam conhecido a vulgata. Outras vezes como uma estratégia para reduzir o tamanho do adversário e, dessa forma, aparentemente derrotá-lo. Nunca Marx morreu tantas vezes como nos últimos 30 anos e, em especial, neste decênio neoliberal. Entretanto, não era mais possível supor uma história (ou uma ciência social) neutra. As ciências chamadas de “naturais” mostravam cada vez mais suas conexões sociais e a própria física incorporava questões sociais e subjetivas. O que poderia ser um enorme

avanço, com a desnaturalização das ciências e com a exigência mais rigorosa da articulação entre objetividade e subjetividade levou a um giro peculiar – a suposição de que seria possível eliminar a própria realidade da reflexão histórica. Dois foram os caminhos principais utilizados: o do giro lingüístico (e o culturalismo) e o do pragmatismo. No primeiro, tratou-se de descolar a linguagem da vida social que a possibilita, a molde e a transforma. Se só podemos expressar o mundo através de representações lingüísticas – e isso é verdadeiro – derivaram daí que o mundo real não existe, sendo o resultado de

Não haveria mais ciência, para estes, nem sentido ou significado

representações e crenças

histórico. Existiriam apenas culturas, representações, formas incompatíveis, umas com as outras, de ver o mundo. A dominação e o poder voltaram a ser apresentadas como entidades abstratas, sem chão social consistente – derivadas diretamente da linguagem, sem vínculo social, eram mostrados como se fossem puro convencimento (e a filantropia voltou a ser convocado para corrigir as eventuais distorções). Em outros casos, expressariam circunstâncias casuais (inteligência, eficácia, competitividade, etc.) e, assim sendo, eram legitimados. Apresentavam-se como entidades intangíveis, tal como o mercado ou o capital, desaparecendo o mundo das classes sociais. O Estado voltava a figurar como lugar imediato da vontade de seus integrantes e de sua capacidade de convencimento (o grande consenso).

A proximidade com a expansão e a oligopolização da mídia neoliberal, difundindo e

naturalizando esta concepção, foi uma das condições e uma de suas mais graves conseqüências. De maneira peculiar, essa forma de pensar aderia como uma segunda pele à lógica desenfreada da mercantilização no final do século XX.

O segundo caminho foi o do pragmatismo utilitarista (R. Rorty). Partia também da impossibilidade de definir uma realidade que desse fundamento à análise. Considerando

todos os fenômenos sociais como pura contingência, abandonava as questões cruciais da organização da vida social para enveredar pelo estudo do que tivesse utilidade prática mais

Onde ser mais útil imediatamente do que coligando-se, por cima, aos poderes

estabelecidos? Onde a “utilidade” aparece de forma mais evidente do que na pregação

filantrópica? O mundo deixa de ser histórico (e transformável) para limitar-se aos remendos úteis a serem aplicados num tecido social “esgarçado” mas que é apresentado como eterno, calcado na “natureza humana contingente”. O terceiro caminho foi o mais propagandístico de todos e, de certa forma, incorporava os dois primeiros – a negação de qualquer história futura. Teríamos chegado ao ponto máximo do processo histórico e ele assinalaria o fim da história. Nem é necessário falar de Fukuyama 7 . No entanto, o mundo real continua colocando desafios efetivos. A barbárie não desaparece porque deixamos de pensar nela ou porque a enfeitamos de filantropia, (quer derivem de ONGs, de formas associativas empresariais ou confessionais); a violência fundamental, estrutural, não desaparece porque passamos a pensar unicamente em termos

de um consenso que só tem plena validade para alguns (como fizeram muitos em nome de

imediata

um “agir comunicacional”, por exemplo). Nós, historiadores, estamos imersos em práticas que nos relacionam intimamente ao poder e a luta social. Se não tivermos uma reflexão crítica, podemos construir belos textos, mas que naturalizam o mundo; nos arriscamos a fazer derivar todo o poder de sua imagem

mais aparente, o Estado e seus ocupantes (ou de entidades para-estatais internacionais ou, ainda, de algum Estado específico, como os EUA), esquecendo a extração do sobretrabalho

7 O artigo de Fukuyama, publicado em 1989, foi difundido em todo o mundo pela John M. Olin Foundation, instituição estadunidense que gasta milhões de dólares para favorecer um giro à direita no ensino das ciências sociais e que financiou também François Furet, historiador francês contestador da Revolução francesa e que foi um dos diretores de Annales, em sua nova etapa. Ver Fontana, J. La historia después del fin de la história. Barcelona, Ed. Crítica, 1992, p. 7.

que a tudo produz e sustenta. Nos arriscamos a não ver o fundamento das divisões sociais

na extração crescente de sobretrabalho para nutrir classes sociais dominantes e conter a

rebeldia social. Não devemos, pois, passar ao largo das lutas e práticas transformadoras,

assim como do movimento histórico que efetivamente exercem. Nosso desafio é o de

mostrar as entranhas, mostrar como se enraízam, na vida social e na história, as formas

específicas e peculiares de que se veste o poder de classes em cada momento, a maneira

como o convencimento e a coerção revestem e aderem às transformações no mundo do

trabalho. Vivemos um dos momentos de maior subalternização do trabalho e de intensa

extração real (e não fictícia, nem resultante de uma forma de ver o mundo) de mais-

trabalho, inclusive sob formas de trabalho compulsório, de tráfico de mulheres e de

crianças, de trabalho infantil, além de uma cascata hierarquizada de subordinação, que vai

desde as formas contratuais até as modalidades mais precarizadas de trabalho.

Se tivermos a ousadia de reconhecê-lo, talvez tenhamos a capacidade de combatê-lo.

Nosso papel social é difícil e muitas vezes ambíguo. Nossa relação é ao mesmo tempo

subordinada (como trabalhadores) e combativa, se pensarmos em nossa função tal como

Gramsci pensou o papel dos intelectuais. Somos responsáveis pela socialização do

conhecimento e das lutas que o atravessa, somos organizadores de uma forma de ver e

pensar e sentir o mundo. Quem sabe, assim, conseguiremos avançar na explicação e na

compreensão de nosso mundo, de sua historicidade transformadora necessária e, dessa

forma, sejamos mais que historiadores, mas também sujeitos plenamente históricos.

Bibliografia adicional:

Anderson, Benedict. Nação e consciência nacional. (Comunidades imaginadas). SP, Ática,

1989.

Anderson, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Porto, Afrontamento, 1976. Bloch, Marc. La société féodale. Paris, Albin Michel, 1968. Duayer, M. e Moraes, Maria Célia M. “Neopragmatismo: a história como contingência absoluta”. Tempo. Revista do Departamento de História da UFF. Vol. 4, 1997. Fontana, Josep. – Historia, analisis del pasado y proyecto social. Barcelona, Critica/Grijalbo, 1982. Foucault, Michel. Microfísica do poder. 5ª ed., Rio, Graal, 1985. Gramsci, A. Cadernos do Cárcere. Rio, Civilização Brasileira, 2001 a 2002 (6 volumes). Hobsbawm, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio, Paz e Terra, 1990. Hobsbawm, Eric J. e Ranger, T. A invenção das tradições. Rio, Paz e Terra, 1997.

Lefebvre, Georges – El nacimiento de la historiografia moderna. Barcelona, Martinez- Roxa, 1974. Marx, K. Manuscritos econômico-filosóficos (Manuscritos de Paris). In: Os Pensadores. SP, Nova Cultural, 1982. Meszáros, I. Para além do capital. SP. Boitempo, 2002. Thompson, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio, Paz e Terra (3 volumes).

As instituições de proteção do patrimônio cultural:

gestão política e participação comunitária 8

Silvia Helena Zanirato 9

Resumo

O conceito “patrimônio cultural” passou por transformações de sentido nos últimos

anos. De um discurso patrimonial referido aos grandes monumentos artísticos do passado,

interpretados como fatos destacados de uma civilização, se avançou para uma concepção do

patrimônio como o conjunto dos bens culturais que são referentes das identidades coletivas.

Ele agora compreende as múltiplas paisagens, arquiteturas, tradições, festas, gastronomias,

expressões de arte, documentos, sítios arqueológicos, ritos, músicas, expressões

reconhecidas e valorizadas pelas comunidades e organismos governamentais na esfera

local, estadual ou nacional. Essa nova concepção não pode deixar de ser associada ao

processo de “mundialização” e a tentativa de homogeneização de hábitos e consumos em

face ao vertiginoso ritmo de transformação e trocas que se processa na contemporaneidade.

Os bens que hoje formam o patrimônio têm permitido a cada sociedade reconfigurar seus

elementos de identidades e de pertencimento a um tempo e lugar. Esses bens conformam o

patrimônio de uma comunidade a partir de diversas perspectivas, fortalecem o sentido de

pertencimento e impulsionam a participação coletiva ao recompor o tecido social, recuperar

a herança e definir os caminhos do que virá. Com base nesses preceitos neste texto me

proponho a apresentar algumas reflexões em torno da gestão do patrimônio cultural, que

permitam a participação comunitária e seu entendimento como um instrumento importante

para a construção da cultura de cidadania.

Introdução

Por patrimônio cultural entendem-se os diferentes modos de vida e de expressão dos

seres humanos, as manifestações materiais e imateriais que afirmam e promovem a

identidade cultural de um povo.

8 Texto-base da conferência de encerramento do VIII Simpósio em História da UNIOESTE – História, Poder e Práticas Sociais, ocorrido entre 24 a 27 de outubro de 2005.

9 Professora da Universidade Estadual de Maringá. E-mail: sizani@uol.com.br.

Esse entendimento, bem como as medidas de proteção destinadas a salvaguardar o patrimônio são resultantes de uma formulação lenta e gradual da cultura no mundo ocidental. É claro que se pode encontrar desde a Antiguidade objetos valorados e conservados, bem como medidas jurídicas para sua proteção, advindas de motivações de ordem cultural, política, econômica e religiosa. Todavia, uma reflexão crítica acerca dos valores históricos, artísticos e culturais dos bens considerados patrimônio e a busca de meios para sua conservação ocorreram em épocas mais recentes. Foi em finais do século XVIII, sobretudo a partir da Revolução Francesa, que se elaborou uma outra sensibilidade quanto a proteção e conservação de bens dotados de valor. Se no decorrer da Revolução houve a depredação dos signos pertencentes ao passado monárquico, ela instigou, por outro, o desejo de conservação de elementos considerados ‘testemunhos irrepreensíveis da história’, os monumentos que faziam referência à memória do país, considerados então de interesse público, cujo conhecimento e desfrute deveria ser disposto a todos os cidadãos. Buscaram-se então ações políticas para a conservação desses bens, entre as quais uma administração encarregada de sua conservação e da preparação dos instrumentos jurídicos e técnicos para esse fim (CHOAY, 2001, p. 95). Assim, a partir do século XIX podem ser encontradas as primeiras medidas para a proteção do patrimônio e o surgimento dos conceitos modernos de conservação e restauração, forjados diante da necessidade de se evitar novas destruições. O século XIX também transformou o conhecimento histórico em conhecimento científico e, nesse processo, os monumentos considerados por seus valores históricos, cognitivos, econômicos e artísticos, passaram a ser valorados principalmente pelo valor histórico, que se tornou preponderante para o reconhecimento de um bem como um patrimônio. Os monumentos tornaram-se testemunhos das etapas do desenvolvimento evolutivo da humanidade (GONZÁLEZ-VARAS, 2003, p. 37-38). Naquele contexto, a atribuição de valor ao monumento amparava-se em critérios estéticos ou históricos. As obras de arte eram consideradas dotadas de muito mais valor do que um objeto de uso utilitário, com isso, as produções das classes subalternas raramente apareciam como bens cuja conservação devesse ser contemplada, o que favoreceu a perda de inúmeros objetos considerados não relevantes (IDEM, pp. 43-44). O bem considerado

patrimônio era preservado como uma figura museal, isolada de uso, disponível apenas para a contemplação (CHOAY, 2001, p. 181). A aceleração da urbanização nas décadas iniciais do século XX mudou o entendimento a respeito do que é uma cidade. Esta passou a ser compreendida como um

tecido vivo, com espaços que podem ser conservados e, ao mesmo tempo, integrados à vida, conciliando sua morfologia com novos usos. A cidade tornou-se então um nível específico da prática social na qual se vêm paisagens, arquitetura, praças, ruas, tradições, festas; um lugar de expressão da memória coletiva, de identidades compartilhadas pelos diferentes habitantes que a integram e que não é um todo homogêneo e articulado, mas antes um mosaico muitas vezes sobreposto, que expressa tempos e formas diferenciadas de viver (IDEM, p. 200-236).

A compreensão de que a cidade é composta por edificações e por pessoas implicou

na reformulação do conceito de patrimônio, uma vez que nos bens a serem preservados se incorporou o valor cultural, a dimensão simbólica que envolve a produção e a reprodução

das culturas, que se expressa nos modos de uso dos bens.

A partir da segunda metade do século passou a haver um interesse cada vez maior

aos aspectos nos quais se plasma a cultura de um povo. As línguas, os instrumentos de comunicação, as relações sociais, os ritos, as cerimônias, os comportamentos coletivos, os

sistemas de valores e crenças passaram a ser vistos como referenciais culturais dos grupos humanos, signos que definiam a cultura de um povo e que necessitavam de salvaguarda. Frente a isso se ampliou a noção de monumento histórico como elemento condensador de valores, que expressa as capacidades criativas de uma cultura. Surgiu assim a definição de bem cultural como a manifestação ou testemunho significativo da cultura humana (GONZÁLES-VARAS, 2003, p. 44).

A ampliação do conceito permitiu a compreensão de que os signos das identidades

de um povo não podem ser definidos tendo como referência as culturas ocidentais, assim

como a cultura campesina não pode ser vista como menor em face às atividades industriais.

O reconhecimento da mudança conceitual se fez presente nos fóruns internacionais

destinados a refletir sobre a preservação de bens culturais ou patrimônio cultural. A Convenção de Haia de 1954, patrocinada pela UNESCO, empregou o conceito dessa forma. A partir de então ele passou a ter o sentido de objetos e estruturas herdados do passado,

com valores históricos, culturais e artísticos, bens que representam as fontes culturais de uma sociedade ou de um grupo social e que podem ser materiais ou imateriais. Ao longo das duas décadas seguintes, a essa definição incorporaram-se as noções de cultura e natureza, compreendidas como complementares e formadoras das identidades dos povos. O patrimônio cultural converteu-se no conjunto de elementos naturais ou culturais, materiais ou imateriais, herdados do passado ou criados no presente, no qual um determinado grupo de indivíduos reconhece sinais de sua identidade (CASTILLO RUIZ, 1998, p. 22). Ao mesmo tempo em que houve essa mudança, houve também um processo de aceleração da ocidentalização, “uma americanização dos costumes, que caracterizam uma maneira de viver, de produzir, de consumir, de vestir, de comer e de dilapidar” (MARIN, 2005) Não obstante, a ocidentalização do mundo não deixou de ser sempre confrontada com a resistência cultural. A valorização da diversidade cultural surgiu então como a expressão positiva de um objetivo geral que procura a valorização e a proteção das culturas do mundo, frente ao perigo da uniformização. A questão que passou a ser colocada foi a de como proteger os valores ancestrais da diversidade cultural do “rolo compressor” da padronização cultural. Isso porque esse mesmo processo de globalização acarretou o afastamento do Estado das atribuições que lhes eram próprias, entre as quais a gestão dos bens culturais. As transformações políticas, sociais e econômicas havidas em diferentes partes do mundo tornaram bastante complexa a manutenção da responsabilidade do Estado em gerir e conservar os bens culturais. Essa complexidade, assim como a privatização crescente, acabou por acarretar uma necessidade de compartilhar responsabilidades e envolver outros segmentos da sociedade nessa tarefa. Nesse contexto, a conservação do patrimônio natural e cultural passou a ser reconhecida como um componente essencial do processo de planejamento integrado, ciente de que os múltiplos campos de interesse e as conseqüentes situações de conflito que envolve a gestão, não tornam fácil essa empreita. Baseada na compreensão dessas transformações e na necessidade de redirecionar a gestão dos bens culturais de uma forma mais eficaz, a Constituição Brasileira de 1988 estabeleceu as competências locais para a gestão do patrimônio. Ficou definido que o

município pode instituir legislação própria que proteja os bens históricos e regulamente o seu uso e conservação. Assim, conforme o art. 30, inciso IX, compete ao município “promover a proteção do patrimônio histórico – cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora

federal e estadual”. A partir desse dispositivo o poder local pode estabelecer políticas para gerir a conservação dos I - conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, ecológico e científico;

II - museus, as casas de cultura ou de memória, os arquivos, as obras, objetos,

documentos e edificações que reflitam e registrem a história, a cultura e a arte do povo e da

região;

III

-

criações

científicas,

tecnológicas,

artísticas,

artesanais

e

folclóricas,

os

monumentos e estátuas erguidas em praça pública;

 

IV

-

festas

religiosas

populares

e

as

manifestações

profanas

peculiares

ao

Município;

V

- bens tombados por Lei Municipal e Estadual, localizados dentro do Município.

E

é com a preocupação de gerir e conservar o patrimônio que entendo a importância

de traçar os principais pontos que embasam um plano de gestão dos bens culturais para a cidade, ou seja, um conjunto de medidas destinadas à implantação de políticas públicas municipais capazes de:

1. Estabelecer mecanismos institucionais de gestão dos bens culturais,

2. Realizar um mapeamento e a identificação precisa de todos os bens da cidade,

3. Promover campanhas de educação patrimonial em todo o município, integrando o

tema da conservação nos currículos das escolas locais,

4.

Sensibilizar a sociedade para a importância dos bens culturais,

 

5.

assegurar

a

manutenção

e

a

conservação

do

que

existe

de

específico,

irreprodutível e não renovável na configuração da cidade.

O Plano de Gestão dos Bens Culturais

O Plano de Gestão é um conjunto normativo constituído de ações e recursos

técnicos, institucionais e financeiros que estrutura todos os procedimentos que devem atuar na operação e na normatização da gestão dos Bens Culturais, que busca organizar o desenvolvimento das atividades de criação, conservação e difusão dos bens culturais da cidade, mediante um quadro temporal de 5 anos, utilizando todos os atores e recursos disponíveis (Pontual, 2002, p. 115). Para a sua elaboração é fundamental articular em sua montagem requisitos tais como o desenho de uma estrutura organizacional com a definição de mecanismos de participação, negociação e decisão, a constituição de uma equipe técnica, a montagem de um programa de trabalho que atue na mobilização e sensibilização dos atores envolvidos e na elaboração de um esquema de divulgação e comunicação do trabalho.

O objetivo central de um plano assim proposto deve ser o de promover a gestão

compartilhada dos bens culturais da cidade de forma a manter a especificidade, diversidade

e autenticidade da morfologia urbana bem como das expressões de vivência e tradições culturais, integradas às exigências contemporâneas de novos usos e atividades (Pontual, 2002, p. 115). Assim, esse plano deve:

a) Contribuir para a integração de todos os atores públicos e privados envolvidos na atividade de gestão;

b) Articular as políticas públicas federal, estadual e municipal;

c) Promover um melhor planejamento das atividades de criação, conservação e difusão dos bens patrimoniais;

d) Associar a atividade com a conservação integrada do patrimônio cultural;

e) Integrar o processo de gestão dos bens patrimoniais ao processo de desenvolvimento sócio-econômico da cidade;

f) Indicar os mecanismos de negociação e de participação entre os diversos atores envolvidos na gestão.

A atividade da gestão pode ser organizada mediante um modelo que trabalhe a diversidade cultural existente na cidade e que também atue na gestão das tarefas simples e complexas do dia-a-dia, bem como naquelas do planejamento estratégico. Um planejamento capaz de garantir a execução de quatro tarefas ou fases que se integram e que se interligam e são consideradas permanentes durante o processo. Essas tarefas são:

Análise e Avaliação

A tarefa de “análise e avaliação” consiste na sistematização de dados e informações relativos aos bens culturais na cidade, bens materiais e imateriais. Por meio dela podem ser avaliados a diversidade de formas e funções da configuração urbana, bem como os valores da tradição cultural dos habitantes da cidade.

Monitoramento e Controle

Essa tarefa compreende uma atividade direcionada para o planejamento do futuro do desenvolvimento da gestão dos bens culturais na cidade. Tem como objetivo observar e mensurar o resultado sócio-econômico e de indução do desenvolvimento de atividades culturais, bem como os impactos e os riscos impostos ao patrimônio. Deve também propor e orientar ações corretivas à programação das atividades, no tempo e no espaço da cidade.

Negociação

Esta tarefa, por sua vez, compreende a mediação dos conflitos, dos interesses e objetivos dos atores envolvidos com o patrimônio cultural da cidade. Nele se empregam técnicas de construção de consenso visando parcerias para tornar o planejamento efetivo e eficaz. Pode ser executada mediante a criação legal de um Fórum de proteção dos bens culturais da cidade, composto por representantes e por todos os atores envolvidos no processo e pela adoção dos termos negociais da parceria.

Proposições

As proposições se referem à formulação de alternativas de intervenção técnica, institucional e financeira relacionada aos bens culturais. Nela se podem construir cenários que possibilitem avaliar o impacto da intervenção nos bens culturais (Pontual, 2002, p.114).

O plano pode ser ainda mais aprimorado mediante a execução de:

I – Um Plano Diretor Para os Bens Culturais que contemple:

1. A definição, no âmbito do Plano Diretor da Cidade, de políticas destinadas a preservar, proteger e recuperar o meio ambiente e o patrimônio cultural, histórico, paisagístico, artístico e arqueológico municipal;

2. A realização de estudos e pesquisas objetivando avaliar a dimensão, composição e importância dos bens culturais da cidade;

3. A efetivação de projetos que possam priorizar a memória, a história, a contemplação e a imagem dos bens culturais da cidade.

II – Um Plano de Parceria Público-Privado no qual se organizem ações e tarefas compartilhadas:

1. A recuperação da história do local e que permita contemplar os bens arquitetônicos do município;

2. A adequação de um espaço de animação fixa, aberto para a exposição dos bens culturais, sobretudo os bens imateriais.

3. A devida importância à paisagem natural, proporcionando maior transparência na relação dos edifícios com essa paisagem.

É importante que tal plano envolva em sua composição atores das esferas municipal,

estadual e federal, ou seja o âmbito governamental, bem como atores oriundos da sociedade civil tais como representantes de associações profissionais, de associações comunitárias, de associações de ensino.

Para a organização e o cumprimento das diretrizes é importante que sejam elaborados convênios de parcerias com vistas à gestão compartilhada e à formulação das normas de PPP – Parceria Público Privada, estabelecendo-se um conjunto concreto de medidas e de competências de cada um dos atores.

A gestão dos bens culturais assim proposto pressupõe os seguintes componentes:

a) A criação de um organismo municipal, no âmbito da administração direta, próprio e específico da Secretaria de Cultura da Cidade, dentro da estrutura básica da Administração Municipal;

b) A criação e implementação do Conselho Municipal de Patrimônio Cultural – CMPC, com composição paritária público – privado. Esse Conselho será responsável pela discussão e aprovação do Plano Diretor dos Bens Culturais da Cidade, dentre outras tarefas;

c) Criação, instalação e posse de um Fórum de Gestores dos Bens Culturais – FGBC da cidade. Uma organização aberta, composta por atores públicos e privados, além de pessoas físicas e jurídicas interessadas na gestão dos bens culturais. O FGBC necessitará de um calendário periódico de reuniões, de pautas definidas e de uma coordenação executiva a ser exercida em Colegiado. Suas tarefas são: indicar ao Conselho as prioridades da criação, conservação e difusão dos bens culturais, em constante integração com o planejamento das atividades gerais da cidade como um todo;

d) Criação e Implantação de um Fundo Municipal de Preservação dos Bens Culturais, vinculado a SEC, recursos oriundos do setor público e privado e alocados mediante diretrizes do CMPC e do FGBC (ZANIRATO et. alli, 2004).

Gabinete do Prefeito Sec. Sec. Sec. Sec. Séc. Edu. Plan. Turism In d Cultura Com.
Gabinete do
Prefeito
Sec.
Sec.
Sec.
Sec.
Séc.
Edu.
Plan.
Turism
In
d
Cultura
Com.
Fórum de
Munic.
Gestão dos
Patr. Cult.
Bens Cult.
Diretoria
Diretoria
Diretoria
Diretoria
Eventos
Marketing
Técnica
Adm
Fina

A tarefa dos organismos propostos por esse arranjo é a de integrar todos os setores da administração municipal que atuem em prol dos bens culturais e assim promover melhorias no sistema de gestão das atividades voltadas para esse fim.

Com isso, tarefas de animação de atores, coordenação de atividades, integração de planos de trabalho, ações integradas, parcerias público-privado, qualificação do pessoal técnico, organização institucional moderna e enxuta e compartilhamento da gestão, podem ser executadas com precípua finalidade de executar essa missão. Acredito que um plano como esse possa ser orientado pelos princípios de uma nova postura ética, apreendida do conceito de desenvolvimento sustentável, que visa a atender as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades, e que considere a multidimensionalidade da sociedade, em seus aspectos econômico, político, social, ambiental e cultural. Para que a gestão do Plano dos Bens Culturais seja sustentável é necessário que ele

seja:

a) economicamente viável, que gere riqueza para sua própria manutenção;

b) ecologicamente equilibrado, que observe a natureza em sua capacidade de regeneração limitada em face ao crescimento econômico e populacional e considere os critérios ambientais para preservar os recursos naturais estratégicos;

c) socialmente includente, que através da integração inter e multisetorial das políticas públicas, da participação social e da implementação de projetos promova a inclusão social;

d) culturalmente conservador, que seja capaz de preservar o patrimônio natural e construído;

e) urbanisticamente adequado, que suas normas e leis sejam adequadas à conservação do patrimônio;

f) administrativamente ético e competente, que seja dirigido do ponto de vista político por uma liderança competente e que atue democraticamente.

Dentro de tais preceitos, levando em conta ainda os instrumentos institucionais propostos como o Fórum, o Conselho Municipal e o Fundo, viabilizam-se possibilidades de sustentabilidade do Plano de Gestão ao mesmo tempo em que se abrem espaços para a resolução de conflitos entre os grupos e atores sociais envolvidos, de modo a garantir a legitimidade dos pleitos. Somente assim criam-se mecanismos de concertação de idéias e práticas para fazer convergir valores e concentrar ações que, em suma, promovam a conservação integrada do patrimônio cultural da cidade. Ter uma cidade preservada através de iniciativas públicas e privada demonstra consciência cultural, bem como a oportunidade de transmitir às gerações futuras o que somos hoje, dando-lhes referências históricas e fortalecendo os laços em comum. Omitirmo-nos diante dessas necessárias medidas fará com que nos esqueçamos de quem somos.

Referências bibliográficas

CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000. CASTILLO RUIZ, J. Hacia una nueva definición de patrimonio histórico? PH Boletín del Instituto Andaluz del Patrimonio Histórico, n. XVI, Sevilla, IAPH, septiembre 1996.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo, Estação Liberdade, ED. UNESP,

2001.

GONZÁLEZ-VARAS, Ignácio. Conservación de bienes culturales. Madrid, Cátedra, 2003. MARIN. Jose. Globalização, neoliberalismo, educação e diversidade cultural. In PELEGRINI, S. e ZANIRATO, S. Narrativas da modernidade na pesquisa histórica. Maringá, EDUEM, 2005. PONTUAL, Virgínia A gestão da conservação integrada. In JOKILEHTO, J. et alli. Gestão do Patrimônio Cultural Integrado. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2002. ZANIRATO. Sílvia Helena et alli. A gestão do turismo no Bairro do Recife. Especialização em Gestão do Patrimônio Cultural Integrado ao Planejamento Urbano da América Latina. Cátedra UNESCO. CECI. UFPE. Recife, março 2004.

A invenção de uma tradição: “A Escola dos Annales” 10

Diogo da Silva Roiz 11 Jonas Rafael dos Santos 12

RESUMO: Preocupa-se, neste artigo, com o estudo da construção de uma tradição inventada, a “Escola dos Annales”, na França, por meio das estratégias de manutenção de uma hegemonia historiográfica, com aqueles que ficaram conhecidos como a terceira geração do grupo nos anos 1970 e 80.

PALAVRAS-CHAVE:

historiografia francesa.

Revista

Annales;

Escola

dos

Annales;

relato

fundador;

ABSTRACT: It Worries, in this article, with the study of the construction of one invented tradition, ‘Annales School’, in France, by the maintenance strategies of a historiographical hegemony, with the ones that they were known as the third generation of the group in the 70ths and 80ths.

KEY WORDS: Annales Magazine; School of the Annales; founder report; French historiography.

Propõe-se a estudar, neste artigo, a possibilidade de elaboração de um relato sobre

a história do surgimento da revista Annales (que ao longo dos anos agrupou diversos

intelectuais franceses, como também de outras nacionalidades), nas décadas de 1970 e

1980, fundamentalmente, pela ‘terceira geração’ do grupo [1968/9-1988(?)]. Para justificar

um projeto historiográfico proposto depois da década de 1960 e contrapor críticas à ‘Nova

História’ francesa, na medida em que se buscava, com àquele relato fundador, construir

uma possível identidade para o grupo, ao redor da revista Annales, em todas as suas fases.

10 Este texto é uma versão reformulada de parte do primeiro capítulo de uma pesquisa concluída no final de 2003. Foi elaborada entre 1998 e 2002, e se originou no Programa Especial de Treinamento (PET) do curso de História da Unesp, Campus de Franca. A pesquisa foi orientada pela Prof.ª Dr.ª Aparecida da Glória Aissar. O texto completo é intitulado: A recepção da “Escola dos Annales” no Estado de São Paulo: da FFCL\USP a FHDSS\UNESP. Partes da pesquisa já foram publicadas sob a forma de artigos.

11 Mestre pelo programa de pós-graduação em História da Unesp, Campus de Franca, com financiamento da CAPES. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campus de Amambaí. E-mail: diogosr@yahoo.com.br 12 Mestre e Doutor pelo programa de pós-graduação em História da Unesp, Campus de Franca, com financiamento da CAPES. Professor da Rede Pública Municipal de Campinas/SP. E-mail:

jrafsantos@yahoo.com.br

A revista Annales foi fundada, em janeiro de 1929, por dois historiadores que despontavam no campo dos estudos históricos, na universidade de Estrasburgo. No período a instituição incorporava um grupo de cientistas sociais, que anos depois seriam inovadores em suas áreas de pesquisa. Não foi nos primeiros números que a revista havia sido notada internacionalmente, mas a partir deles que o projeto do grupo despontava como crítica direta, e alternativa possível, à “Escola metódica” na França (CAIRE-JABINET, 2003). Com os desdobramentos dos conflitos gerados pelas guerras mundiais ocorridas nas primeiras décadas do século XX e as transformações do cenário político e econômico mundial, que as críticas levantadas, a partir da revista (pelo então movimento gerado pela Annales), passariam a ser reconhecidas, pelos historiadores franceses e de outros países. E as inovações da revista e o projeto do grupo viriam a servir de inspiração em outras iniciativas. Na década de 1940, com a criação da IV seção de estudos históricos (posteriormente transformada em VI seção) da Escola Prática de Altos Estudos, de Paris, o movimento inseria-se institucionalmente na França, começando a ser denominado como uma ‘escola’ (HUNT, 1992: 1-11). Quando a revista Annales foi fundada, Marc Bloch e Lucien Febvre já haviam absorvido parte do debate que ocorria nas primeiras décadas do século XX, e estavam lecionando na Universidade de Estrasburgo. M. Bloch havia passado por universidades francesas e alemãs (entre 1908 e 1910) e se familiarizava com os métodos da lingüística e da sociologia, além de publicar textos e artigos. L. Febvre se familiarizava com as discussões da época e desenvolvia a sua crítica contra a ‘história dos vencidos de 1870’. Embora ambos pretendessem constituir carreira acadêmica nas principais universidades francesas, somente em 1933 L. Febvre conseguia uma vaga no Collège de France, e em 1936, M. Bloch alcançava uma vaga na Sorbonne. Enquanto M. Bloch recebia a influência dos Anais de Sociologia e de E. Durkheim, L. Febvre a recebia da Revista de Síntese Histórica e de H. Berr (REIS, 2000: 65-90). Assim, enquanto M. Bloch enfatizava em sua análise, a estrutura sobre os eventos – como exemplo se poderia mencionar A sociedade feudal (elaborada entre 1930 e 1940) –, L. Febvre enfatizava a análise estrutural de uma época, a partir de acontecimentos ou personagens, tal como fez em Martin Luter, um destino (de 1928) e em O problema do anacronismo no século XVI: a religião de Rabelais (de 1942). Mas foi com Apologia da História ou o ofício de historiador, obra póstuma e

inacabada, publicada originalmente em 1949, que Marc Bloch se expressou de forma sistemática sobre os limites e os campos da pesquisa histórica. Enquanto, numa outra base, Lucien Febvre reuniu parte dos artigos e resenhas que publicou nos primeiros anos do periódico, sob o título Combates pela história (de 1953), com o qual demonstrava sua insatisfação em relação aos estudos históricos produzidos, particularmente na França, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Em especial, aqueles elaborados pela historiografia (que de modo genérico se denominava) positivista i . Na história do movimento, embora repudiassem a história dos acontecimentos, voltada aos eventos políticos e construída, em parte, pela ‘escola histórica alemã’ e pela ‘escola metódica francesa’, não deixaram de aproveitar daquelas as suas contribuições à pesquisa histórica, ao refazerem diagnósticos e interpretações sobre fontes ‘oficiais’, e abrirem caminho para o estudo e a interpretação de fontes, até aquele momento, não incorporadas ao corpus documental do historiador (BOURDÉ & MARTIN, 1983). É sabido que as críticas sobre os metódicos (REIS, 1999) transparecem melhor do que as contribuições que deixaram, porque para se colocarem como uma alternativa no estudo das sociedades passadas, os Annales acabaram por silenciar o que de profícuo foi feito pela historiografia oitocentista (BOUTIER & JULIA, 1998; SILVA, 2001). Se por um lado, a historiografia ‘positivista’ fora repudiada pelos Annales (ainda que não de forma completa) e seus elos sejam pouco visíveis num primeiro olhar, as relações, entre a historiografia francesa, em especial à dos Annales, e o marxismo, aparecem também como amistosas. Marx e o marxismo sempre foram heranças difíceis de serem incorporadas nas universidades francesas. Mesmo trazendo questionamentos sobre as formas de se estudar as sociedades passadas da maneira como os metódicos (e positivistas) as haviam pesquisado, por trazerem junto ao seu suporte metodológico um projeto político de transformação social, o marxismo também foi, por isso, criticado pelos Annales (LOPES, 2002; CHAUVEAU & TÉTARD, 1999). Nesse sentido, L. Febvre, que firmou seus combates contra a história metódica, embora continuasse a pesquisar seus temas, mas sob outra ótica, junto com M. Bloch, que desenvolveu uma abordagem mais estrutural e criticou as concepções sobre a história da época, inovaram com algumas teses: a “história-problema”, a “história total”, a “interdisciplinaridade”, o “alargamento do campo das fontes históricas” e o “fato histórico

como construção teórica” (REIS, 2000: 73-85). Por meio das contribuições que receberam das Ciências Sociais, junto com outros integrantes do grupo nesse período, desenvolveram áreas como a história econômica, a história social e a geo-história, que igualmente estavam sendo desenvolvidas em outros países. Nesse momento, eram elaboradas diversas teses na França, por meio de monografias regionais, em que as principais fontes pesquisadas foram:

documentos pessoais e correspondências, censos populacionais, registros paroquiais, fontes literárias. Foi a época das grandes coleções sobre a história das civilizações, na França. Sendo nas décadas de 1950 e 1960, proliferadas com as coleções de história social. Esse foi o momento em que os fundadores da revista buscavam firmar novos campos de pesquisa e ocupar postos de comando dentro dos meios universitários franceses, ainda dominados pelos metódicos (BURKE, 2002). Nos anos 1930 a revista Annales, de Estrasburgo passa para Paris. No entanto, os “Annales mudam porque em torno deles tudo muda também: os homens e as coisas; em uma palavra, o mundo. Já o de [19]38 não era mais o de [19]29” (MOTA, 1978: 174). Dentro desse contexto social que surgiu o pensamento de Fernand Braudel, ao buscar sintetizar as abordagens de L. Febvre e M. Bloch e desenvolver teoricamente uma interpretação do tempo histórico, expressando-se de forma sistemática no artigo ‘História e Ciências Sociais: a longa duração’ de 1958 (REIS, 1994).

Em 1958, com o nascimento da Quinta República, pode-se até falar de uma

verdadeira política das ciências sociais rumo à institucionalização. Esse impulso

ao qual será preciso

responder tanto no plano institucional, em que a concorrência é acerba, quanto no teórico, para mostrar a capacidade de adaptação da escrita histórica (DOSSE, 2001: 23).

representa um novo desafio para os historiadores (

)

Sobre a época, assim se expressou Fernand Braudel:

Em 1958 (

( )

se quiserem, descobri ou encontrei em meu caminho. Eu queria apenas, nessa

época distante [da década de 1950 e de 1982/3, quando escreveu o texto], depois

orientar com certo vigor a revista

Annales numa nova direção, pois esta revista pretende estar, por vocação, na vanguarda da pesquisa e da mudança, qualquer que seja o preço a pagar, o objeto ou o setor a escolher, o erro a afrontar. Uma revista assim está condenada a evoluir, a mudar. Orientei-a, portanto, para a longa duração, que tanto Marc Bloch como Lucien Febvre não haviam privilegiado ou posto em evidência até então. No entanto, ela se inseria virtualmente na linha de pensamento de ambos, não obstante suas afirmações em contrário (BRAUDEL, 2002: 368-69).

do desaparecimento de Lucien Febvre (

expliquei-me minuciosamente nos Annales sobre a longa duração

E não foi naquele ano que percebi a importância da longa duração, a qual,

)

),

Ele se forma em meio às influências de acontecimentos como as duas guerras mundiais, e de sua experiência com a História Africana e da América do Sul. Com ele os Annales avançam em seus combates, que se desdobrariam pela economia, sociologia e

antropologia. “Mas parece-me que Braudel encerrou (

ainda ligada às velhas tradições e às velhas estruturas universitárias” (LE GOFF, 1989:

215). Com ele o grupo obteve uma expansão pelas universidades e pelas áreas da história serial, da história quantitativa e da história econômica. A história imóvel, nesse período, era pouco comentada, desenvolvendo-se, essencialmente, na fase seguinte do grupo. “Com a era F. Braudel, ocorre também a evolução para uma história cada vez mais imóvel [ainda que a dinâmica dos tempos curto, médio e longo fosse a base das expectativas a serem atingidas nas pesquisas, sob um viés econômico, mais até, talvez, do que social]. Ela rompe, portanto, com a concepção da primeira geração de uma história-ciência da transformação” (DOSSE, 2001: 22). Nessas áreas abria-se a oportunidade de análises que visavam pesquisar sistematicamente fontes: cartoriais (inventários, testamentos, nascimentos, casamentos, impostos, livros de abertura de firmas), correspondências, censos populacionais, registros paroquiais como: registros de nascimento, casamento e morte, além de um retorno aos documentos oficiais sobre novas perspectivas de análise (CARDOSO & VAINFAS, 1997). Entretanto, na década de 1960 e 70, em função do movimento estudantil de ‘Maio de 1968’, do estudo das obras de Sigmund Freud (que resultaram nas análises de Lacan, Deleuse e Derrida) e da expansão do estruturalismo (com Althusser, Passeron, Nicos Poulantzas, e que culminou na obra crítica de Michel Foucault), houve uma revisão sobre àquelas orientações (FERRY & RENAUT, 1988).

uma fase da escola dos Annales

)

A agitação intelectual dos anos [19]70, no campo da historiografia, é fruto também do desconforto provocado pelas práticas políticas do mundo socialista, cujos vícios e impasses colocaram em discussão a mais bem-sucedida teoria global da história, o marxismo, que marca profundamente o mundo intelectual francês desde a primeira metade do século. No campo dos estudos históricos, é nítida a influência da reflexão marxiana, mesmo em territórios não filiados a essa proposta, como o grupo dos Annales. São inúmeros os estudos que mostram a aproximação entre o marxismo e as metamorfoses da historiografia francesa a partir da ruptura com a escola chamada positivista. Porém, os sinais mais nítidos dessa aproximação estão nas próprias obras produzidas pelos Annales: a hegemonia da abordagem econômico-social na primeira e segunda gerações, a busca insistente da história total, a explicação estrutural como condição indispensável à exploração de qualquer objeto de investigação. Essas posturas e

esses procedimentos metodológicos não podem ser desvinculados da atmosfera marxiana que impregnava, direta ou indiretamente, a formação dos intelectuais franceses (D’ALÉSSIO, 1998: 15-6).

Da análise sobre as fontes quantitativas, estudadas até aquele período sobre padrões sociais e econômicos, passou-se a dar maior preferência aos estudos de longa duração de modo a perceber a psicologia social, a mentalidade e o imaginário de sociedades passadas (TÉTARD, 2000). Destacando-se, nesse sentido, as atitudes culturais, mais que os quadros sócio-econômicos.

A nova tarefa do historiador já não consistirá em ressaltar as acelerações e mutações da história, mas sim os agentes de reprodução que permitem a

repetição idêntica dos equilíbrios existentes (

plural e sem maiúscula: ela renuncia a realizar um programa de síntese para

melhor se desdobrar com vistas aos múltiplos objetos que se oferecem a seu olhar sem limites (DOSSE, 2001: 26-9).

História se escreve agora no

)

Se no período de 1929 a 1946, e no de 1946 a 1968, tal perspectiva não fazia parte da maioria dos trabalhos publicados (e no corpo central das orientações do grupo), a partir do final dos anos 60, um grande número de pesquisas, foram desenvolvidas sob a perspectiva de estudo das mentalidades e do imaginário das sociedades passadas (LE GOFF, 1998). Embora a maior parte desses trabalhos estudasse a cristandade ocidental na época medieval, houve trabalhos que pesquisaram o desdobramento daquelas mentalidades nos séculos XVI, XVII e XVIII, como foi o caso das obras de Robert Mandrou e Phillipe Ariès, pioneiras na recuperação do estudo das mentalidades de sociedades passadas, nos anos 1950 e 1960 na França, porque inspiraram uma retomada em diversas pesquisas sobre essa linha de estudos históricos – que haviam sido anteriormente produzidos por Marc Bloch e Lucien Febvre, ainda que sob perspectivas distintas (GURIEVITCH, 2003). Nos anos 1960 e 70, os estudos sobre a história das mentalidades e a história do imaginário social contribuíram no desenvolvimento de metodologias de pesquisa, com novos padrões de análise sobre as fontes quantitativas, seriais, demográficas, fundamentalmente produzidas em cartórios e paróquias. Nessa fase muitos trabalhos se baseavam e desenvolviam metodologias para a história oral (VAINFAS, 2002: 13-51). Embora nesse período a revista não possuísse mais uma direção centralizadora, mas sim colegiada, o grupo teve grande repercussão na mídia e com o público francês e de outros países.

Para Rogério Forastieri da Silva (2001), ao mesmo tempo em que, muitas vezes, não ocorria um debate, no campo historiográfico internacional entre grupos franceses, alemães, italianos, norte-americanos e ingleses, algumas vezes até se desconhecendo uns aos outros, o sucesso atingido pelas primeiras fases da revista Annales fez com que, grosso modo, a terceira geração do grupo construísse um relato pertinente aos seus objetivos, tanto que os justificassem dentro e fora da França. Assim, levanta-se a possibilidade de fabricação de uma imagem na década de 1970 sobre os Annales que viria a constituir-se como uma tradição. Destarte, conforme havia dito Eric Hobsbawm, na introdução do livro: A invenção das Tradições, “muitas vezes ‘tradições’ que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas”. Assim:

por ‘tradição inventada’ entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em

relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade

com um passado histórico apropriado (

referência a um passado histórico, as tradições ‘inventadas’ caracterizam-se por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Em poucas palavras, elas são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória (HOBSBAWM, 1997: 9-10).

Contudo, na medida em que há

).

Para este, a invenção de uma tradição, que envolve a elaboração de práticas e de um relato fundador que se repita no tempo, ocorre, fundamentalmente, quando os atores sociais que fazem parte deste relato fundador deixam de desempenhar as suas funções. Segundo Ângela Alonso:

É da natureza dos movimentos intelectuais e políticos inventarem rótulos de identidade, como estratégia de diferenciação, bem como uma tradição, um panteão de heróis e obras de legitimação de suas posições, especialmente em períodos de mudança social (ALONSO, 2002: 32).

Os movimentos intelectuais e políticos, portanto, ou inventam uma tradição por meio de um repertório discursivo que os diferenciem de outros grupos, ao mesmo tempo em que delineiam uma pretendida originalidade teórica e prática, com obras e manifestos de seus atores sociais originários, ou elaboram retrospectivamente uma tradição discursiva como forma de definir campos de atuação, em meio às obras e autores das fases iniciais do

movimento, para os quais se preocupam em situar objetivos paralelos, com base numa identidade comum. Embora houvesse, no início do século XX, movimentos intelectuais propondo renovações no campo da pesquisa histórica em vários países, tanto dentro como fora das universidades, costuma-se verificar (no Brasil e em outros países), preferencialmente, aquelas proporcionadas pela historiografia francesa. Para tanto, ressalta-se que a Nouvelle Histoire, isto é, a História sob a influência das Ciências Sociais foi uma criação francesa, fundamentalmente desenvolvida, a partir da fundação da revista Annales, em 1929, por Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), mediante uma inovação quanto ao conceito de tempo histórico (REIS, 1996; WALLERSTAIN, 1996).

O projeto original de uma nouvelle histoire não partiu de historiadores, mas de sociólogos durkheimianos. Ao adotarem o ponto de vista desses sociólogos, traduzindo-os para o discurso histórico, os historiadores dos Annales romperam com a influência até então predominante da filosofia sobre a história (REIS, 2000: 37).

Antes destes haveriam discussões, principalmente efetuadas entre sociólogos e antropólogos, sobre as formas como deveriam ser interpretadas as sociedades e os homens no tempo. Todavia, supõe-se que foi com àqueles pesquisadores, fundadores e colaboradores da revista Annales, que os estudos históricos efetivamente teriam sido repensados, e em função disso abertas possibilidades de ‘novas’ leituras sobre o passado. Para estes, a concepção iluminista sobre o tempo histórico, no século XVIII, e sua recepção no século XIX pelas principais “escolas históricas” do período: o marxismo, o positivismo e o historicismo viram as sociedades e os homens apenas enquanto sujeitos históricos (REIS, 1999). Elas se limitariam a perceber as ações humanas na dinâmica do processo histórico, sem com isso notarem a possibilidade de verificar naqueles atores sociais, objetos de pesquisa.

A matriz da revolução historiográfica surgida com a revista dos Annales foi (

a elaboração de uma nova concepção de tempo histórico. A história tradicional foi questionada no momento em que o tempo curto, por ela praticado, foi considerado insuficiente para a explicação da experiência coletiva dos homens. Os fundadores da revista e seus seguidores tomaram essa questão como o grande tema da história e seus ecos perduraram durante décadas (D’ALÉSSIO, 1994:

)

129-30).

Entretanto, a revolução historiográfica conduzida a partir de uma ‘nova’ concepção de tempo histórico, não manteve apenas continuidades entre os membros das

várias fases do movimento, mas houve também redirecionamentos sobre a interpretação do tempo. A interpretação do tempo histórico de Lucien Febvre, inaugurada entre as décadas de 1920 e 1930, não foi a mesma de Fernand Braudel, desenvolvida nos anos 40 e 50, e que não foi a mesma de Emmanuel L. R. Ladurie, construída nos anos 60 (REIS, 1994). Se ainda hoje se ressalta os méritos do grupo em torno da revista Annales, que surgiu naquele contexto, foi, em parte, pelo sucesso que obtiveram depois da segunda guerra mundial, em função do conjunto de métodos, problemas e fontes propostas ao campo de pesquisa histórica, quando renovaram intercâmbios entre a História e as Ciências Sociais, por meio de inovações à interpretação do tempo histórico (REIS, 2000: 29). De uma abordagem ‘acontecimental’, voltada para os fatos que irrompem em curto espaço de tempo, antes praticada para estudar homens (que ocupavam funções de destaque nas instituições que circunscreviam o Estado) e sociedades, passou-se a rastrear movimentos duradouros, por meio de uma abordagem estrutural (REIS, 2003). Por esse e outros motivos foram posteriormente interpretados como uma das grandes contribuições, na época, para a pesquisa histórica. Todavia, se as contribuições que envolvem a “Escola dos Annales” em suas diversas fases é notoriamente observada, os motivos que levaram a elaboração de um discurso fundador sobre a história dos Annales foi ainda muito pouco questionado (SILVA,

2001).

Em função da organização institucional e do sucesso alcançado pelos fundadores da revista, na sua fase do pós-guerra, que houve a elaboração de um relato fundador sobre a história dos Annales, principalmente, por parte da terceira geração do grupo. Tal relato indicava que a ‘Nova História’ seria uma criação, essencialmente, francesa, uma vez que sua expansão estaria fortemente vinculada com os projetos do grupo desde a fundação do periódico (DOSSE, 2001; 2003). No entanto, os desdobramentos da ‘Nova História’ vieram a demonstrar que a sua história estava comprometida com um determinado relato da história geral da historiografia no qual os elos importantes seriam: da ‘história positivista’ à ‘escola dos Annales’ e em direção a ‘Nova História’ (SILVA, 2001). Para Carlos Antonio Aguirre Rojas:

mas allá de la continuidad formal que se establece a partir de la publicación periódica u regular de la revista, durante casi toda su existência, existen sin embargo claras divergências en torno a los sucessivos proyectos intelectuales que la han animado, y que dándole vida y continuidad, la han utilizado al

mismo tiempo como foro de proyección y como mecanismo de vinculación y de debate côn el médio académico exterior (AGUIRRE ROJAS, 1995: 18).

De fato, segundo Daniel Roche (PALLARES-BURKE, 2000: 153-85), a ‘Escola dos Annales’ não era uma realidade, mas uma fabricação dos anos 80, pois, até meados da década de 1970 não era assim designada.

Havia, certamente, um movimento ao redor da revista, porém, não era uma escola; ou seja, não havia uma vontade de definir objetivos muito precisos, mas, ao contrário, uma grande abertura, sendo a principal a abertura para as

ciências sociais. Ora, tal abertura era muito diferente da que caracterizava os estudos históricos que se faziam a essa época na Sorbonne, onde havia grandes

mestres representativos da tradição erudita, letrada, positiva

(2000: 158).

Provavelmente, apenas na década de 1970, que se inauguraria, na França, por meio de projetos-manifestos a ‘Nova História’, sob a direção de Jacques Le Goff e Pierre Nora, culminando com a organização, em três volumes, da obra: Fazer História, traduzida para o português (no Brasil), simplesmente, como História, com os subtítulos: novos problemas, novos objetos, novas abordagens. “Se nos autores ou no espírito da obra

freqüentemente for encontrada a marca da pretensa escola das Annales, isso se deve ao fato de a nova história ser bastante devedora a Marc Bloch, a Lucien Febvre, a Fernand Braudel a todos os que continuam a inovação por eles iniciada” (LE GOFF & NORA, 1976: 11). “A

passou a história dos Annales para um público mais

Não bastava fornecer uma imagem da disciplina tal como ela era; era preciso

pensar em que ela estava prestes a tornar-se” (LE GOFF, 1989: 222). Naquela coletânea participaram 33 pesquisadores, sendo 30 dos quais parisienses, apenas um provinciano, ainda que este se trate, nesta época, de Paul Veyne, que viria ser professor do Collège de France e dois estrangeiros, Jean Starobinski (professor em Genebra) e H. Zerener (professor em Harvard). Entre os pesquisadores franceses, 11 estavam na VI seção da Escola Prática de Autos Estudos, então administrada por Jacques Le Goff (substituindo a Fernand Braudel, que alguns anos antes havia solicitado a sua aposentadoria), outros 12 vinham das diferentes universidades parisienses, que surgiram da fragmentação que se iniciava com o turbilhão de acontecimentos que envolveram o movimento estudantil em Paris no ano de 1968, sendo que: de Paris – I vieram 4 pesquisadores; de Paris – IV, 2; de Paris – VII, 3; de Paris – VIII, 3. Houve ainda aqueles que estavam em instituições de pesquisa, muito respeitadas, como: do Collège de France, 3; do CNRS outros 3 e do

elaboração desses três volumes (

amplo (

)

).

Instituto de Estudos Políticos mais 1 pesquisador. A maioria estava na faixa de 35 a 40 anos de idade (BOUTIER & JULIA, 1998: 21-61). No conjunto eram jovens pesquisadores, alguns já consagrados (em suas áreas de pesquisa) dentro e fora da França, mas nem por isso aquele elenco de intelectuais estava completo, seja por parte daqueles que contribuíam diretamente com o periódico, seja entre os que estavam inovando campos da pesquisa histórica. A ausência de Fernand Braudel, embora muito notada no período, talvez se explique pela alteração de projetos no direcionamento do periódico, ruptura de projetos então efetuada por aqueles que assumiram a administração da VI seção da dita Escola Prática de Autos Estudos e da revista Annales. Por outro lado, Pierre Vilar, encontrava-se entre aqueles que faziam parte de um elenco de intelectuais que estavam na faixa dos 50 aos 60 anos de idade e defendiam posições políticas e metodológicas distintas – como neste autor eminentemente marxista – do conjunto de pesquisadores que compunham a obra coletiva Fazer História. De fato, este autor, assim interpretou o grupo:

A palavra ‘Escola’ parece significar que há uma doutrina ensinada e imposta por mestres. Ora, não foi, de forma alguma, o que se passou em torno da revista dos Annales. Essa revista simplesmente pediu aos historiadores – dentro do espírito da síntese histórica, já inaugurado no início do século [XX] – que se ocupassem das sociedades em geral, tanto de suas bases materiais quanto de seu coroamento

intelectual, sentimental e ideológico, e que olhassem se existem, entre esses três níveis, relações a estabelecer, problemas a resolver. Jamais uma recomendação foi feita pelos Annales para que se tratasse dessa ou daquela maneira um

problema colocado. Havia, é verdade, grandes mestres ( Annales foram conhecidos, sobretudo, por suas exclusões (

um espírito dos Annales, mais que uma escola; e, sobretudo, jamais existiram

Ou seja, esta abertura dos Annales a outras disciplinas fazia parte

Além disso, existe em torno da Escola dos Annales

de suas características (

) Houve, portanto,

Ocorre que os

)

‘capelas’ (

)

)

toda uma atmosfera ideológica que faz parte da história de nosso tempo (D’ALÉSSIO, 1998: 64-5).

Por fim, resta notar a ausência de autores como Maurice Agulhon, Michel Vovelle, Philippe Ariès e Alain Gerreau, que estavam abrindo campos, que nos anos subseqüentes se tornariam férteis à pesquisa histórica, e apenas nos anos 1980 foram incorporados ao movimento dos Annales. Desde os anos 1970, pelo menos, que o hábito, de tempos em tempos, na França, de se voltar a História e a sua escrita (com vistas a propor quais os caminhos que se tornariam pertinentes ao pesquisador e quais procedimentos de análise das sociedades

passadas deveriam ser revistas na pesquisa histórica), se tornou recorrente, como uma estratégia de constituição de um discurso historiográfico, em busca de hegemonia nos setores e lugares produtores de pesquisas históricas, dentro e fora da França, isto é, na própria história das historiografias internacionais (BÉRIDA, 1995; DOSSE, 2003). Até então, a ‘Nova História’, como foi efetivada, era apenas uma expectativa e não um caminho a se chegar. Nos períodos anteriores os projetos foram distintos. Quando Fernando Braudel (1902-1985) dirigiu o periódico, entre 1956 e 1968, desenvolviam-se projetos junto ao grupo dos Annales, que viriam a possuir vínculos com a ‘Nova História’, mas eram essencialmente divergentes desta. Conforme disse o próprio Fernand Braudel nos anos 1970, sobre o movimento:

de sua vivacidade [os Annales], nunca constituíram uma escola, no

sentido estrito, isto é, um sistema de pensamento fechado sobre si mesmo. Ao contrário. A senha de entrada é a paixão pela história, nada mais – porém é muito –, e, confundindo-se com essa paixão, igualmente a pesquisa de todas as suas novas possibilidades, a própria mudança da problemática segundo as necessidades e as lógicas do momento. Porque passado e presente mesclam-se inextricavelmente. Sobre esse ponto, todos os diretores sucessivos dos Annales estão de acordo(BRAUDEL, 2002: 30).

apesar

Por certo, esta não foi à primeira vez que Fernand Braudel analisou o grupo ao redor da revista Annales. Em 1957, logo após o desaparecimento de Lucien Febvre da direção do periódico (ocorrido em 1956), Braudel faria o seguinte comentário no primeiro número da revista daquele ano:

En moins de trente ans de leur propre histoire, les Annales de Marc Bloch et de Lucien Febvre ont connu un essor et un reyonnement exceptionnels. Elles ont oussi connu d’exceptionnelles difficultès. La mort tragique de Mar Bloch en 1944; il y a quelques mois à peine, la mort brusque de Lucien Febvre. Mais les

Ni Marc Bloch, ni Lucien Febvre n’ont en

Annales se doivent de continuer (

la volanté ou l’illusion d’avoir fondé une Ecole, avec ses formules et ses solutions (BRAUDEL, 1957: 1) ii .

)

Naquele editorial intitulado ‘Os Annales continuam’, F. Braudel falava das características dos Annales no tempo de Febvre e Bloch, e ressaltava que não tiveram a pretensão de limitar o movimento em uma escola. Para ele esta idéia foi, a princípio, supostamente elaborada com a fundação da IV (depois VI) seção da Escola Prática de Autos Estudos. Mas apenas retrospectivamente teria sido construída. Entretanto, se a idéia de ‘escola’ para os Annales foi muito criticada, não foram poucos os autores que adotaram esta tradição discursiva para pensar o desenvolvimento do

movimento ao redor da revista Annales, em suas diferentes fases, tanto na França como em outros países. Traian Stojanovitch (1976) foi um dos pioneiros a interpretar o grupo dos Annales enquanto um paradigma, caracterizando-o dentro do movimento geral da nouvelle histoire, na França, em quatro fases: a) de 1900 a 1920, cujo período foi caracterizado genericamente de fase de ‘crise da consciência histórica’, em que houve a criação de diversos periódicos, em muitas áreas do saber, e de expansão de debates nas Ciências Sociais, criticando-se procedimentos de pesquisa da ‘escola histórica alemã’ e da ‘escola metódica francesa’, principalmente nos Anais de Geografia, nos Anais de Sociologia e na Revista de Síntese Histórica; b) de 1929 a 1946, com a fundação da revista “Annales de História Econômica e Social” e dos combates travados por Marc Bloch e Lucien Febvre, junto com outros intelectuais daquele período, pois, muitos dos quais não fizeram parte do periódico recém inaugurado e nem por isso deixaram de trazer grandes contribuições à pesquisa histórica; c) de 1946 a 1968, com a expansão institucional, a partir da VI seção da Escola Prática de Autos Estudos e a denominação do periódico, agora como: “Annales. Economias, Sociedades, Civilizações”, tendo a sua frente Fernand Braudel na administração do periódico, e em instâncias universitárias. Segundo este autor o período posterior à saída de F. Braudel, junto aos acontecimentos de ‘maio de 1968’, na França, resultaram numa revisão das metas e orientações, até então, seguidas internamente pela revista.

Mesmo entre aqueles que herdaram a tradição historiográfica dos Annales mais diretamente, como foi o caso de Jacques Revel (1989, pp. 13-41), isso não o privou de ter uma visão crítica sobre o movimento. Quando, em 1979, publicou um artigo intitulado ‘História e Ciências Sociais: os paradigmas dos Annales’, a princípio uma crítica dirigida à interpretação de Stojanovich, procurava revelar as peculiaridades do movimento, aproveitando os ensejos da comemoração dos cinqüenta anos de fundação da revista. Ressaltava a contribuição da Sociologia durkheimiana para o desenvolvimento das propostas do movimento na década de 1930, e demonstrava a variedade de procedimentos de pesquisa, então utilizados pelos membros do movimento. Já na década de 1990, em duas entrevistas concedidas a professores universitários do Brasil, assim se referiu sobre os Annales:

a Escola dos Annales não é propriamente uma escola, mas ao mesmo tempo sei que há traços reconhecíveis em sua produção, que alias tem se transformado

ao longo do tempo, renovando a sua agenda (

)

Por outro lado, os Annales

o que não significa admitir uma falta de

coerência. Diria que se trata de algo mais plástico, preocupada sempre em pensar

No entanto, de uns 20 anos para

cá, muitas coisas mudaram nos Annales e também, é claro, em torno da revista

(

dos Annales’, enquanto muitos utilizam esse modo cômodo de chamá-la. O movimento historiográfico fundado pela revista de Bloch e Febvre baseou-se em

que não existe, no meu entender, ‘a escola

as relações entre História e Ciências Sociais (

renovaram-se inúmeras vezes (

)

)

)

Gostaria de começar dizendo (

)

convicções gerais ambiciosas e, ao mesmo tempo, simples: por um lado, a de que

a história é uma ciência social, o que não é evidente em muitas tradições

historiográficas. E por outro lado, a de que as disciplinas que compõem as

ciências sociais tendem a se cruzar, a se confrontar, a se enriquecer mutuamente

( )

função da evolução interna da disciplina-mãe, a história, e também porque as

relações entre a história e as ciências sociais ( 3 e 201-2).

mudaram (DAHER, 2001: 192-

Os Annales não pararam de redefinir sua posição, ao mesmo tempo em

)

Todavia, as reflexões desse autor, compõem uma análise retrospectiva sobre a recepção de um discurso construído nos anos 1970 e 80. Pois, a história escrita sobre os Annales pelos integrantes da ‘terceira geração’ do grupo e que, necessariamente, visava demonstrar o desenvolvimento de um pensamento que se desdobraria e ao mesmo tempo justificaria o projeto historiográfico do grupo, depois da década de 1960, foi também à base de um relato fundador, que atingiu um consenso relativo mesmo em parte significativa dos maiores críticos da ‘Nova História’ (SILVA, 2001). Por outro lado, George G. Iggers (1988) caracterizou o movimento em duas fases:

uma anterior a 1945, quando esteve em efervescência estudos com aspectos mais qualitativos, e um segundo momento, para o qual as pesquisas passaram a ter uma abordagem mais quantitativa, fundamentadas nos estudos de F. Braudel e E. Labrousse. Peter Burke (1997), ao estudar a história do movimento, dividiu-a em três períodos: a) de 1920 a 1945, quando ainda era pequeno e não ocupava a hegemonia no campo intelectual francês e seus projetos foram mais subversivos; b) um segundo, de 1946 a 1967, aproximadamente, quando de discurso subversivo passa a ser o hegemônico, do ataque aos metódicos (positivistas) franceses, que ocupavam os cargos de comando e do discurso vigente nas universidades e institutos de pesquisa na França, à defesa das criticas recebidas pelos remanescentes daquela concepção da pesquisa histórica, tanto quanto a de profissionais vindos da antropologia e das ciências sociais; c) e um terceiro momento que se iniciaria com os desdobramentos provocados pelos movimentos estudantis de 1968, nas universidades francesas (e em outros países), ao trazerem a tona ‘novos sujeitos e fontes’ a

pesquisa e ao discurso historiográfico. André Burguière (1993: 49-55), ainda que não expressasse propriamente uma divisão no conjunto do movimento (embora tenha notado mudanças sucessivas entre seus atores principais, no comando administrativo e intelectual do grupo), vinculou-o a “escola dos Annales”: a revista criada em 1929; a rede de intelectuais, colaboradores e simpatizantes, que se formou ao redor do periódico e se transformou, depois da Segunda Guerra Mundial, em instituição universitária, com a VI seção da Escola Prática de Autos Estudos em Paris; a concepção da história, nas suas exigências metodológicas, seus objetos e suas relações com as outras ciências do homem. José Carlos Reis (2000: 91-146), a partir das contribuições dos autores mencionados acima, assim definiu as fases da ‘Escola dos Annales’: a) de 1929 a 1946, b) de 1946 a 1968; c) e de 1968 a 1988 [?], período sob a influência inicial do movimento estudantil de ‘maio de 1968’, que obrigou a reformulação da orientação da revista e a reorganização institucional. Contudo, vislumbrou também o período que antecedeu a criação do periódico, como um momento de formação do ‘espírito’ dos Annales, do que se denominou, de forma genérica, como nouvelle histoire no campo intelectual francês e que, depois dos anos 1950, desdobrou-se em outros países sob a forma de uma ‘Nova História’. Para ele, depois de 1988, houve redefinições quanto às fronteiras da interdisciplinaridade e uma revisão sobre os campos de pesquisa, que culminaram com a mudança no título do periódico para ‘Annales. História, Ciências Sociais’, em 1994, mas esse momento do grupo ainda não estaria muito bem definido. Embora ainda estejam pouco definidas as fronteiras de atuação dos Annales, para este período, os membros do grupo, dentre os quais, André Burguière, Jacques Le Goff e Jacques Revel, participantes do comitê de direção da revista, pontuaram, no editorial de 1994, entre os objetivos do periódico: a) o estudo de processos de construção do conhecimento e das relações sociais; b) e a análise do tempo atual. Foi Roger Chartier quem ofereceu um painel bastante coerente sobre o clima dos estudos históricos anos antes do redirecionamento da revista, com as seguintes palavras:

O editorial da primavera de 1988 da revista Annales conclamava os historiadores

a uma reflexão a partir de uma dupla constatação (

de uma ‘crise geral das ciências sociais’, percebida no abandono dos sistemas

o texto não aplicava à história a integralidade de um

A história era então vista como uma disciplina ainda sadia e

vigorosa, atravessada, no entanto, por incertezas devido ao esgotamento de suas aliadas tradicionais (como a geografia, a etnologia, a sociologia) e ao

ele afirmava a existência

)

globais de interpretação (

tal diagnóstico (

)

)

apagamento das técnicas de tratamento como modos de inteligibilidade que davam unidade a seus objetos e a seus procedimentos (CHARTIER, 2002: 61).

Portanto, muitas foram às críticas subseqüentes sobre a terceira geração dos Annales e a ‘Nova História’ (COUTAU-BEGARIE, 1989). Tais críticas – efetuadas desde a década de 1960, quando ocorreu uma renovação no movimento, em relação aos seus projetos – podem ser uma das razões para a necessidade da elaboração de um relato fundador sobre a história dos Annales. Nesse período os combates do grupo foram mais internos, provavelmente porque não houve uma linha mestra a ser seguida como nos momentos anteriores, em função das direções centralizadoras (DOSSE, 2004). Um outro motivo está atrelado com o próprio sucesso dos Annales dentro e fora da França, que veio a criar a necessidade de elaboração de uma identidade comum ao grupo em todas as suas fases: daí a denominação de diferentes gerações, daí também a construção da imagem de uma ‘escola’ em constante processo de desenvolvimento. Ressaltava-se, nesse sentido: os grandes debates travados pelos administradores do periódico, em suas diferentes fases; as características do diálogo entre História e Ciências Sociais; os acontecimentos chave que repercutiram na reorientação e no posicionamento do grupo perante o estudo dos homens e das sociedades passadas e, enfim, a delimitação das abordagens que acompanhavam os ‘novos’ objetos e os ‘novos’ problemas, levantados a partir das próprias transformações sociais, observadas pelos ‘novos’ historiadores, em suas pesquisas. (Quadro – 1).

Quadro n. 01: Distribuição das diferentes fases do movimento da Nouvelle Histoire francesa, representada pelos membros das diversas gerações da ‘escola dos Annales’.

 

1929-45 – 1ª Geração

1946-68 – 2ª Geração

1968

1988

(?)

1988/9 (?) – 4ª Geração.

Geração.

 

Principais

Lucien Febvre (1878-1956)

Fernand Braudel (1902-1985)

Jacques

Le

Goff;

Marc

Jacques Revel;

André

representantes

Ferro;

Emmanuel

L.

R.

Burguière; Roger Chartier.

Marc Bloch (1886-1944)

Ladurie.

 

Colaboradores

H. Pirenne; M. Halbwachs; H. Hauser; P. Monbeig; A. Demageon; etc.

E. Labrousse; P. Vilar; R. Mandrou; Ch. Mozaré; etc.

P. Nora;

M.

Vovelle;

G.

J-C. Schmitt; F. Hartog; M. Ozouf; R. Remond; etc.

Duby; D. Roche; Chaunu; F. Furet; etc.

P.

Inspiradores/

Paul V.

de

La Blache;

Claude Lévi-Strauss; Karl H. Marx; Maurice Dobb.

Michel Foucault; Michel De Certeau; Paul Veyne; Sigmund Freud; Jules Deleuse; Lois Althusser; Nicos Polantzas; Phillipe Ariès; Eric Hobsbawm; Paul E. Thompson; Perry Anderson; Cornelius Castoriadis; Michele Perrot.

Pierre Bourdieu; Norbert Elias; Peter Burke; Louis Marin; Hayden White; Carlo Ginzburg; Geovani Levi; R. Willians; Lynn Hunt;

Discussões

Ferdinand Saussure; Ch. Seignobos; Ch. Langlois; Emile Durkheim.

Acontecimentos

I e II Guerra Mundiais; Crise da bolsa de valores em 1929; Questionamentos sobre as Filosofias da História;

Congressos internacionais;

Movimento

estudantil

de

Queda do muro de Berlim em 1989; Fim da URSS; Globalização; Questionamentos de regimes políticos; conflitos religiosos;

Inauguração

de

centros

de

1968;

Feminismo;

pesquisa;

avanços

nos

Homossexualismo;

 

combates pela

história;

movimento

negro

e

das

 

Discussões sobre as origens do Capitalismo;

minorias;

 

Propostas

História-problema; História total; Interdisciplinaridade; Alargamento do campo das fontes históricas; O fato histórico como construção teórica;

Simultaneidade de tempos (curto, médio, longo); A história total é a história das civilizações?

Um

tempo

imóvel

no

Renovação do campo político;

social?

Debate

sobre

o

estilo

do

História

Total

ou

História

Historiador (narrativa);

Geral?

Revisão

dos

estudos

 

biográficos;

 

Novas Áreas

História Econômica e Social; Geo-história;

História Econômica; História Quantitativa; História Demográfica; História Serial;

História das Mentalidades;

Nova História Cultural; História das representações sociais; Nova História Política; Nova História Biográfica;

História

Imóvel; História

 

Antropológica;

História

 

Oral;

História

do

Imaginário;

   

Disciplinas

Geografia;

Sociologia;

Economia;

Geografia;

Psicologia

Social;

 

Auxiliares

Psicologia; etc.

Antropologia; etc.

Lingüística;

Crítica

   

Literária; etc.

Títulos

do

Annales

de

História

Annales.

Economias,

 

Annales.

História,

Ciências

Periódico.

Econômica e Social (1929-43)

Sociedades,

Civilizações

Sociais (1994)

 

(1946-93)

 

Fontes

Documentos pessoais; Diários; Correspondências; Fontes

Literárias;

Censos

Registros Paroquais (nascimentos, batismos, casamentos, óbitos) Registros Cartoriais (inventários, testamentos, nascimentos, casamentos, óbitos) Censos populacionais, etc.

Entrevistas

 

Fontes

Literárias;

Censos

Livros (historiografia) Censos populacioanais;

eleitorais; populacionais; Entrevistas; etc.

populacionais; Fontes Oficiais; etc.

Registros

paroquiais

e

Cartoriais; etc.

 

Fontes: DOSSE, 1994; REIS; 1994; 1999; 2000; BURKE, 1997; 2002; 1992; AGURRE ROJAS, 1999; 1995; BOUTIER & JULIA, 1998; FONTANA, 1986; HOBSBAWM, 1998; 2002; SILVA, 2001; STOJANOVICH,

1976.

Com base no quadro acima se nota, de imediato, uma contradição entre o discurso e a prática de pesquisa daquele grupo que dirigiu a revista Annales, depois de 1968, e que está relacionada à própria história escrita por eles sobre o movimento (que envolveu diversos grupos ao redor do periódico). Há em toda história dos Annales (que vai da criação do periódico até seu momento atual) uma tradição de rupturas em meio a continuidades, isto é, a substituição de discursos, de ‘uma geração’ sobre a outra ao se contraporem posições, mas que se desdobra dentro de um mesmo projeto, construído, principalmente, por Marc Bloch e Lucien Febvre. Ou seja, se na prática de pesquisa historiográfica dos integrantes que compunham o grupo nos anos 1960 e 1970 existia uma crítica sobre a idéia de progresso material, no relato sobre a história do movimento dos Annales a idéia de progresso foi adequada naquele discurso, na medida em que a história da historiografia referida por aqueles, desdobrava-se da ‘escola histórica alemã’ e da ‘escola metódica francesa’ à ‘escola dos Annales’, até vir, enfim, culminar com a ‘Nova História’ francesa dos anos 60 (SILVA, 2001).

Por outro lado, quando se volta ao período inicial da revista, entre as décadas de 1930 e 40, nota-se (no pouco que é ainda conhecido da correspondência entre Lucien Febvre e Marc Bloch) não uma afinidade total entre os editores e outros membros do grupo, mas uma grande diversidade de pensamentos. Não menos controvertidas foram as relações travadas entre Fernand Braudel e outros intelectuais colaboradores e críticos do movimento, no período posterior a Segunda Guerra Mundial, bastando para tanto, apenas como um exemplo entre outros possíveis, se verificar o clima amistoso entre Braudel e Robert Mandrou depois da morte de Lucien Febvre, em 1956, no setor administrativo do periódico; ou ainda entre os debates públicos de Braudel com Claude Lévi-Strauss. Enfim, ainda existe a sobreposição de uma representação construída sobre o grupo, aos fatos ‘vividos’ por aqueles que administraram o periódico em suas primeiras fases. A tal ponto, que se passou a lembrar de Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel e dos Annales daquele momento, a partir das obras escritas como uma referência aos pioneiros e como uma forma de justificar as posições ulteriores do periódico. Portanto, as obras que compuseram o relato ‘oficial’ sobre os Annales e que são a representação de eventos e circunstâncias históricas precisas, atingiram um consenso relativo abrangente a ponto de suplantar àqueles fatos precisos. Evidentemente existe a representação, mas não se pode esquecer as circunstâncias históricas que lhe deram origem. Por que a representação silenciou a história da qual ela se originou? Porque a história é escrita segundo relações de força retórica e poder de ação (GINZBURG, 2002), e o poder emanado por aqueles que falam de determinados lugares sociais, e que, portanto, são reconhecidos por seus pares, se torna não apenas o discurso ‘oficial’, mas também, a própria história existente daquelas circunstâncias e eventos do passado (CHAUVEAU & TÉTARD, 1999). Alinha-se, desse modo, a idéia de ‘escola’ nos Annales, não apenas, uma correspondência direta ao periódico criado em 1929, mas também, imagens, em torno das quais, construiu-se sobre a direção da VI seção da Escola Prática de Autos Estudos que estaria, desde, pelo menos, a década de 1940, envolvida sobre uma perspectiva interdisciplinar, e, portanto, sendo um canal e um veículo de circulação das idéias desenvolvidas no interior do grupo, em cada uma de suas diferentes fases iii . Todavia, se as circunstâncias históricas viabilizam o aparecimento de formas de se escrever a história, ao mesmo tempo em que se questionava formas anteriores, deve-se

notar, que por traz dos procedimentos de pesquisa anunciados como inovadores, existia

todo um projeto político, que não apenas procurava camuflar as contribuições de projetos

historiográficos anteriores, mas, muitas vezes, reduzir outras inovações que ocorriam de

modo simultâneo em outros países (DOSSE, 2003, 2004), na tentativa de criar uma

hegemonia nacional e internacional, no campo historiográfico.

Portanto, a história sobre o movimento dos Annales até agora conhecida foi à

história construída a partir daquele discurso historiográfico que se tornou hegemônico no

interior do grupo, na década de 1960, e que coexiste junto a uma história ainda pouco

conhecida sobre os Annales iv . Pois, esta só virá a ser escrita na medida em que o período de

memória coletiva v que ainda cerca o grupo se dissipar. Porque torna a escrita da história

ainda emotiva e comprometida com certas posições, por parte, essencialmente, dos

membros ainda vivos da ‘terceira geração’ e que, em alguns casos, continuam a ocupar

cargos administrativos importantes no periódico e na VI seção da Escola Prática de Autos

Estudos em Ciências Sociais. E mais, daí então, com a publicação de artigos, manuscritos e

correspondências trocadas entre os membros que compunham o movimento nas suas

primeiras fases, será viável a elaboração de outros relatos sobre a história dos Annales, e

que procurem, além de complementar os existentes, dar uma melhor compreensão sobre a

história do grupo em todas as suas fases, demonstrando os pontos convergentes e os

distanciamentos, entre a ‘história vivida’ pelas pessoas que fizeram parte do movimento,

nas duas primeiras ‘gerações’, junto à ‘terceira geração’ que passou a escrever a ‘história

conhecimento’ a respeito dos Annales.

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1 . Segundo José Carlos Reis (1994), a História sob a influência das Ciências Sociais produziu uma terceira revolução na compreensão do tempo histórico. A primeira havia sido feita pela cristandade ocidental, ao criticarem a concepção circular dos gregos e delimitarem linearmente a interpretação do tempo, com um passado e um futuro organizados segundo um projeto político, fundamentado numa filosofia da história. A segunda foi produzida pelos filósofos iluministas, no século XVIII, ao criticarem a religião e a fé e secularizarem a sua concepção, embora tivessem mantido uma interpretação linear do tempo, na compreensão que faziam do progresso material. No inicio do século XX, houve uma terceira revolução na interpretação do tempo histórico, produzida sistematicamente pelo grupo dos Annales, ao criticarem a abordagem ‘acontecimental’ e a postura das ‘filosofias da história’ (por projetarem perspectivas teleológicas), com uma abordagem estrutural dos acontecimentos, a partir de uma história problema, que recebia influências e mantinha intercâmbios com as Ciências Sociais. 2 . Tradução: “Em meados de [19]30, os Annales de Marc Bloch e de Lucien Febvre sofreram uma mudança excepcional. Eles também encontraram dificuldades excepcionais. A morte trágica de Marc Bloch em 1944;

Nem Marc

Bloch, nem Lucien Febvre tiveram a vontade ou a ilusão de fundar uma escola, com suas fórmulas e suas soluções.”

3 . Segundo Josep Fontana: “A escola dos Annales teve uma função renovadora importante nos anos que se seguiram a Segunda Guerra Mundial. A viragem que Lucien Febvre havia realizado para facilitar a sobrevivência da revista nos tempos da ocupação alemã a preparou para entrar no mundo do pós-guerra como uma opção que tinha um prestígio progressista, mas que havia eliminado claramente as marcas do marxismo. Foi a partir do momento do seu acesso ao ‘poder’ na seção VI da École Pratique des Hautes Études que os homens dos Annales, dirigidos por Lucien Febvre, encontraram, desde 1947, um instrumento de projeção, nos cursos que contaram com a participação de Febvre, Labrousse, Braudel, Leroi-Gourhan,

a morte brusca de Lucien Febvre [em 1956]. Mas os Annales continuaram se desenvolvendo

Lévi-Strauss, Raymond Aron, Barthes, Bourdieu, Derrida, Le Goff, Taton, Pierre Vilar

com seu propósito de combinar o estudo das estruturas e das conjunturas, e Fernand Braudel, com seu modelo de encadeamento de ritmos temporais distintos, deram à escola a base teórica para o cultivo de uma história social adequada às demandas do momento, cujo efeito foi plenamente aceitável nos anos da guerra

Ernest Labrousse,

fria, durante os quais pôde ser vista como uma substituta do marxismo” (FONTANA, 1998: 8-9). 4 . De acordo com a tese de Paul Veyne (1998) – em Como se escreve a história – segundo a qual não existe

ou seja, quando aquele autor se pergunta: o que é a história,

segundo a construção do discurso do historiador, que seleciona não tudo o que ocorreu no passado, mas os

fragmentos que dele restou e pôde consultar, portanto, a história escrita pelo historiador não é a ‘História’,

a ‘História’, mas sempre ‘histórias de

’,

‘que só poderia ser escrita por Deus’, mas simplesmente, histórias possíveis, isto é, ‘histórias de

’.

5 . Para Maurice Halbwachs (1990), a memória coletiva resulta de um quadro histórico de uma época. É uma construção social que dá sentido a identidade de um grupo de pessoas, que ao mesmo tempo estão limitadas as circunstancias sociais de sua época, e por isso entendem aquela história rememorada como ‘real’; sendo esses atores sociais resultados e resultantes daquela atmosfera psicológica que construiu suas personalidades individuais.

Deslocamentos e mutações na Historiografia Contemporânea – a Biografia e outros campos históricos 13

José D’Assunção Barros 14

RESUMO

Este artigo busca esclarecer e discutir alguns aspectos relacionados às diversas modalidades da História, criticando os critérios que presidem estas divisões historiográficas e sintetizando uma visão panorâmica dos vários campos em que se divide o conhecimento histórico nos dias de hoje, particularmente no que se refere às divisões historiográficas que denominaremos “domínios”. Entre outros domínios possíveis, enfatizamos no texto o domínio da Biografia Histórica. Ao lado disto, são discutidos ainda aspectos diversos, incluindo os objetos, fontes e abordagens mais comuns a cada um dos campos aqui discutidos. Palavras-chave: Campos da História, metodologia da historia; escrita da história, Biografia.

ABSTRACT

This article attempts to clarify and discuss some aspects related to the modalities of History, criticizing the categories in which ones these modalities are elaborated, and organizing a panoramic view of the various fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays. Among others, the article emphasizes the domain of the Historical Biography. Otherwise, the aspects to be discussed are diverse, and include the objects, sources and approaches more common in the fields presented here. Key Words: Fields of History, historical methodology; historical writing, Biography.

A História, nos dias de hoje, divide-se em inúmeras modalidades. Ouve-se falar em

História Cultural, em História das Mentalidades, em História do Imaginário, em Micro-

História, em História Serial, em História Quantitativ

Em obra recente, tivemos por objetivo central precisamente o esclarecimento destas várias modalidades do saber histórico, discutindo suas singularidades, suas interpenetrações umas

o que define estes e outros campos?

13 O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado recentemente pelo autor, e que se refere a um estudo das várias modalidades da História. BARROS, José D’Assunção. O Campo da História – Especialidades e Abordagens, Petrópolis: Vozes, 2004, 222 p.

14 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor da Universidade Severino Sombras (USS) de Vassouras, nos Cursos de Mestrado e Graduação em História, onde leciona disciplinas ligadas ao campo da Teoria e Metodologia da História. E-mail: jose.assun@globo.com

com as outras, suas relações interdisciplinares, suas fontes e objetos privilegiados (BARROS,

2004).

A tese central daquele trabalho é a de que existem três grandes grupos de critérios que presidem a divisão da História em modalidades mais específicas, e a de que muito da confusão sobre o que é uma sub-especialidade ou o que é outra, ou sobre como enquadrar uma dada obra neste complexo caleidoscópio de sub-especialidades que coincide com o campo

disciplinar da História, está no fato de que algumas coletâneas de balanceamentos historiográficos misturam inadvertidamente critérios de classificação sem alertar devidamente

o leitor, que acaba perdendo a oportunidade de desenvolver uma maior clareza sobre a rede de

modalidades que organiza o pensamento historiográfico na atualidade. A chave para compreender estes vários campos da História, conforme a argumentação que desenvolvemos na referida obra, está em distinguir muito claramente as divisões que se referem a dimensões (enfoques), as divisões que se referem a abordagens (ou modos de fazer

a História), e as divisões intermináveis que se referem aos domínios (áreas de concentração em

torno de certas temáticas e objetos possíveis). Para registrarmos algumas exemplificações, podemos dizer que o primeiro grupo de critérios que gera divisões internas na disciplina histórica e que se refere ao que chamamos de dimensões corresponde àquilo que o historiador traz para primeiro plano no seu exame de uma determinada sociedade: a Política, a Cultura, a Economia, a Demografia, e assim por diante. Desta maneira, teríamos na História Econômica, na História Política, na História Cultural ou na História das Mentalidades campos do saber histórico relativos às dimensões ou aos enfoques do historiador. Um historiador cultural, por exemplo, estuda os fatos da cultura; um historiador político estuda o poder nas suas múltiplas formas; um historiador demográfico orienta o seu trabalho em torno da noção que lhe é central de “população”. Um segundo grupo de critérios para estabelecer divisões no saber histórico é o que chamamos de abordagens, referindo-se aos métodos e modos de fazer a História, aos tipos de

fontes e também às formas de tratamento de fontes com os quais lida o historiador. São divisões da História relativas a abordagens a História Oral, a História Serial, a Micro-História

e tantas outras. A História Oral, por exemplo, lida com fontes orais e depende de técnicas

como a das entrevistas; a História Serial trabalha com fontes seriadas – documentação que apresente um determinado tipo de homogeneidade e que possa ser analisada sistematicamente

pelo historiador. A Micro-História refere-se a abordagens que reduzem a escala de observação do historiador, procurando captar em uma sociedade aquilo que habitualmente escapa aos historiadores que trabalham com um ponto de vista mais panorâmico, mais generalista ou mais distanciado. Por fim, podemos pensar divisões da História que chamaremos de domínios, e que se referem a campos temáticos privilegiados pelos historiadores. O objetivo deste artigo será precisamente o de refletir sobre os vários domínios da História que têm surgido e desaparecido no horizonte de saber desta complexa disciplina que é a História. Estamos falando de domínios quando nos referimos a uma História da Mulher, a uma História do Direito, a uma História de Sexualidade, a uma História Rural, ou a uma História da Vida Privada. Tentaremos esclarecer a seguir este grupo de critérios.

Os domínios da História são na verdade de número indefinido. Alguns domínios podem se referir aos ‘agentes históricos’ que eventualmente são examinados (a mulher, o marginal, o jovem, o trabalhador, as massas anônimas), outros aos ‘ambientes sociais’ (rural, urbano, vida privada), outros aos ‘âmbitos de estudo’ (arte, direito, religiosidade, sexualidade), e a outras tantas possibilidades. Os exemplos sugeridos são apenas indicativos de uma quantidade de campos que não teria fim, e qualquer um poderá começar a pensar por conta própria as inúmeras possibilidades. Tal como dissemos, os critérios de classificação que estabelecem domínios da História referem-se primordialmente às temáticas (ou campos temáticos) escolhidas pelos historiadores. São já áreas de estudo mais específicas, dentro das quais se inscreverá o objeto de investigação e a problemática constituídos pelo historiador. A maioria dos domínios históricos presta-se a historiadores que trabalham com diferentes dimensões históricas, e certamente às várias abordagens. Mas existem domínios que têm muito mais afinidade com uma determinada dimensão, dada a natureza dos temas por eles abarcados. Assim, a História da Arte ou a História da Literatura são praticamente sub- especialidades da História Cultural (embora se deva chamar atenção para uma História Social da Arte, ou uma História Social da Literatura, que não deixam de ser possibilidades dentro da História Social). De modo análogo, um domínio como o da História das Imagens (entendida como história das imagens visuais obtidas a partir de fontes iconográficas, fotográficas, etc) é quase

que um anexo da História do Imaginário. Mas, bem entendido, uma série de imagens visuais tomadas como fontes históricas sempre poderá dar a perceber qualquer das dimensões que discutimos atrás, como a História Econômica, a História Política, a Geo-História ou a História da Cultura Material. Pense-se em uma iluminura de Livro de Oras, [Horas] da qual o historiador lança mão para perceber aspectos da economia rural no ocidente medieval, as suas representações políticas, as relações do homem medieval com o seu meio natural ou traços de sua cultura material; ou pense-se em uma pintura impressionista utilizada para captar aspectos da História Social na Belle Époque; ou ainda nas cerâmicas gregas utilizadas para levantar aspectos da História Política da Atenas da Antigüidade Clássica. Mas de uma maneira ou de outra, em todos estes casos sempre estará ocorrendo um diálogo evidente da História do Imaginário com uma destas outras dimensões. Também a História das Representações, por motivos análogos, sempre terá intimidade com o campo definido como História do Imaginário, embora também se abra a uma História das Mentalidades. Já a História do Cotidiano, ou a História da Vida Privada, abrem-se a inúmeros campos de enfoques para além da História das Mentalidades, como a História da Cultura Material, a História Social a História Econômica ou a História Política (neste último caso, focando a questão dos micropoderes). Raciocínios similares podem ser encaminhados para outros domínios igualmente abertos, como a História das Religiões ou a História da Sexualidade. Conforme estamos vendo, os domínios tendem a ser englobados por uma dimensão (são poucos os casos) ou então partilhados preferencialmente por duas ou mais dimensões. Mas é possível ainda que algum campo que hoje esteja sendo tratado como ‘domínio’, mas que possua uma abrangência em potencial, possa vir a transformar-se futuramente em uma ‘dimensão’. A História da Sexualidade tem sido pouco estudada em relação à importância da sexualidade para a vida humana na concretude diária, e é talvez isto o que lhe dá um status de domínio. Mas seguramente esta poderia ser vista como uma dimensão tão fundamental como a Economia, a Política ou as Mentalidades. O que ocorre é que estas não apenas são dimensões significativas que definem a vida humana, elas constituem na verdade ‘macro-campos’, ou tornaram-se ‘macro-campos’ devido à atenção que lhes prestaram os historiadores e outros pensadores.

As dimensões, deve-se ter percebido, são sempre macro-campos capazes de se desdobrar em ambientes internos, de produzir interfaces mais diversificadas, e de darem margem a um número significativo de obras historiográficas. Além disto, para nos apropriarmos de uma imagem de Fernando Braudel utilizada com um sentido totalmente distinto, as dimensões correspondem ao leito do rio, mais perene e abrangente, que só muda muito lentamente; e já os domínios correspondem às espumas que se fazem e refazem na duração mais curta da superfície, por vezes atendendo a tendências da moda ou a movimentos de ocasião (É verdade, contudo, que há domínios extremamente duradouros, conforme veremos oportunamente). Voltando ao problema de a História da Sexualidade ser atualmente um domínio histórico, e não uma dimensão histórica de acordo com o critério que operacionalizamos neste ensaio, há algo ainda a ser dito. É claro que um novo giro do caleidoscópio historiográfico pode mudar um dia isto, e a Sexualidade poderá então passar a ser apreendida como ‘dimensão’ historiográfica, inspirando tantas obras como a História Demográfica ou a História Econômica. Mas por ora ela está apenas nos seus primórdios, mesmo que o seu potencial em extensão e capacidade de desdobramentos seja inegável – e para confirmar isto basta lembrar que a primeira História da Sexualidade, definida como uma dimensão mais ampla, foi escrita por Michel Foucault há alguns anos atrás (FOUCAULT, 1977-1985), sem que haja muitas experiências no gênero. O giro do caleidoscópio historiográfico, enfim, ocorre em consonância com as motivações de uma época, com as suas necessidades sociais, com as suas nem sempre perceptíveis imposições políticas, com a sua capacidade de colocar determinados problemas (que geralmente ocorre quando esta sociedade tem a capacidade de resolvê-los, conforme já se disse alhures). No século XIX, os historiadores praticamente só prestavam atenção à ‘dimensão política’, e assim mesmo em um pequenino traço da dimensão política. Marx e Engels começaram a atentar para a dimensão econômica, mas também para a dimensão social. Os Annales, no século XX, reforçaram este olhar pioneiro, no que logo foram acompanhados por todos os historiadores que quiseram acompanhar o movimento da modernidade, isto é, o giro do caleidoscópio historiográfico. Depois os olhares dos historiadores foram se voltando sucessivamente para a Demografia, para a Cultura Material, para a Geo-História, para as

Mentalidades, para a Cultura. Nada impede, podemos prever, que novas dimensões apareçam nos horizontes historiográficos das próximas gerações (ou que um domínio migre para o campo mais abrangente das dimensões) e a Sexualidade pode ser uma forte candidata. Voltando ao campo de critérios que estamos categorizando como domínios, podemos dizer que também existem aqueles domínios que se conservam como setores mais limitados, ou sob estrita vigilância da racionalidade científica, em função de interditos não declarados. No moderno mundo laico e tendente a uma ciência materialista, por exemplo, a Espiritualidade só pode ser um domínio. É difícil que venha a ser reconhecida como uma dimensão historiográfica da vida humana enquanto persistir a atual tendência paradigmática de organizar os saberes científicos. Fora dos ambientes científicos e acadêmicos, contudo, grande parte dos seres humanos acredita ou movimenta-se nisto que eles definem como espiritualidade, inclusive os cientistas. Mas para a Ciência oficial de hoje em dia, este território é por demais ambíguo, avesso a comprovações ou experiências mais diretas. O resultado é que se tem um domínio como a ‘História Religiosa’ – que pode se desdobrar em histórias dos sistemas religiosos, das Igrejas, das formas espiritualizadas de sentir ou das crenças – mas não uma ‘dimensão historiográfica’ Religiosa ou da Espiritualidade, com o mesmo status científico e gerando tantos desdobramentos como a Economia ou a Política. Em suma, com a História da Igreja poderemos ter a história de uma instituição, com a História da

Religião ou das crenças religiosas poderemos ter a história de uma representação, com a História das práticas religiosas (ou da religiosidade stricto sensu) poderemos ter a história de

mas a História Religiosa definida dimensionalmente da mesma maneira como

uma prática

se define a História Política ou a História Cultural não existe nos atuais parâmetros disciplinares da historiografia. Até aqui falamos dos domínios históricos que se referem a âmbitos (Arte, Sexualidade, Religiosidade, Representações). Conforme definimos antes, existem outras categorias definidoras de domínios históricos que se referem a agentes históricos específicos (História da

Mulher, História dos Excluídos), ou a determinados ambientes sociais (História Rural, História Urbana). Naturalmente que, em um caso ou outro, teremos domínios que se prestam a todos os enfoques (dimensões) possíveis – da História da Cultura Material à História das Mentalidades. Os ‘excluídos’ podem ser historiados com a atenção voltada para as Mentalidades, como fez Bronislaw Geremek, com a atenção voltada para a Economia, como

fez Kula, ou com a atenção voltada para a Cultura, como fez Thompson, ou com a atenção voltada para o Social, como fez Michel Mollat. A História Urbana ou a História Rural podem ser avaliadas a partir de enfoques direcionados para cada uma das dimensões que já foram mencionadas neste livro, da Cultura Material às Mentalidades – afinal, estes domínios são rigorosamente ambientes menores dentro do mundo humano que não deixam de ser unidades totalizantes (são mundos humanos específicos, que podem ser examinados na totalidade de seus aspectos). Vale lembrar também que existem os domínios que são aparentemente sub-campos de um domínio maior. A História das Doenças poderia ser inscrita em uma História do Corpo. A História da Prostituição poderia ser inserida na História dos Excluídos (embora em alguns

aspectos também possa ser incluída na História da Sexualidade). A História da Criança, da maneira como têm funcionado até hoje as nossas instituições familiares, poderá ser inscrita sem maiores dificuldades em uma História da Família. Tudo isto, por outro lado, ficará bem se englobado por uma História da Vida Privada. Para além disto, são inúmeros os domínios que se enquadram opcionalmente como sub-campos em mais de um domínio mais abrangente, ou que se localizam nos interstícios situados entre dois ou mais outros domínios. A História da Medicina, enquadrar-se-á na História das Ciências, na História dos Sistemas de Pensamento ou dos sistemas repressivos

estará em afinidade com os já mencionados domínios da

História das Doenças ou da História do Corpo? Incluirá como subconjunto a História da Clínica? Temos nestes e em tantos outros casos um entrelaçado de domínios históricos, abrindo espaços por dentro do labirinto do saber historiográfico. Poderemos também desviar um pouco do campo da historiografia profissional, para vislumbrar este universo ambíguo e limítrofe que espreita o saber histórico, mas que também chama a si de História (e quem poderia convencê-los, aos seus cultuadores, de que não temos aí também uma História, tão legítima como as outras?). Existem assim aqueles domínios que são tão pontuais que praticamente se confundem com um objeto único, não faltando entre eles aqueles que beiram o absurdo e que aparentemente poderiam ser inscritos em um campo novo que poderia ser ironicamente denominado de História das Futilidades. Pense-se na História dos Perfumes, na História das Nádegas, na História do Estupro, ou em uma História do

(como propôs Michel Foucault)

Onanismo, curiosidades que mereceram edições recentes, e que por vezes passam longe da historiografia profissional feita com maior seriedade. Os domínios da História, enfim, multiplicam-se. Para o bem e para o mal, a criatividade dos historiadores sempre poderá organizar mais e mais campos, prontos a acolherem novos objetos ou a receberem no seu seio objetos antigos, deslocados com um novo propósito. O grupo dos ‘domínios’ é a parte mais móvel, mais flutuante, mais diversificada e

intercambiante do caleidoscópio historiográfico (com o perdão da insistência nesta metáfora). Assim, enquanto as dimensões costumam sofrer alterações em uma duração mais longa (que

às vezes pode ser medida em décadas); as abordagens costumam surgir, alterar-se ou serem

desativadas com uma rapidez maior, cumprindo uma espécie de média duração; já os

domínios, por fim, surgem e desaparecem com a rapidez da curta duração, às vezes perseguindo ditames da moda e caindo para segundo plano tão logo se saturam.

*

Neste momento passaremos a falar de um domínio, que é na verdade um gênero. A Biografia pode ser tanto encarada como um domínio ou como uma abordagem (neste último caso, um ‘campo de observação’ ou um ‘meio’ para alcançar uma História Social ou para realizar um trabalho de Micro-História). Como ‘domínio’, praticamente se confunde com este ‘gênero’ historiográfico ou literário que já é conhecido desde a Antigüidade. Se for possível situar a Biografia como domínio, ela será talvez o único domínio tão perene e duradouro quanto a própria História – pois, ao que se sabe, os homens de todas as épocas sempre foram freqüentadores assíduos deste fascinante campo de estudos que poderia ser chamado de “História das Vidas Humanas”. A velha pergunta, que indaga se uma biografia é História ou Literatura, certamente jamais será respondida de maneira única e definitiva. Com algumas variações, é uma indagação tão antiga quanto o gênero, e que desde a Antigüidade desperta polêmicas tão acirradas como hoje. Políbio pretendeu demarcar bem a fronteira: a História devia buscar a

síntese, a sobriedade do estilo, o registro da verdade desvencilhado da ornamentação ilusória;

a Biografia poderia investir na narrativa dramatizada, possuir um estilo mais livre e

conseqüentemente um compromisso menor com a verdade. Por outra parte, acreditando que o

que havia de mais verdadeiramente humano escondia-se precisamente na alma individual, Plutarco dedicou-se por inteiro a este gênero que havia sido desprezado por Tulcídides. Na verdade, praticamente inventou um novo gênero: a biografia comparada, ou o que ele chamou de “vidas paralelas”. A polêmica atravessa a Idade Média, o Renascimento, todo o período moderno e atinge a Idade Contemporânea. Mas a partir da terceira década do século XX, o novo modo de fazer a História – doravante reconhecido como o paradigma a orientar a historiografia profissional – passa à tendência de rejeitar este gênero que estivera em alta na historiografia do século XIX. Os historiadores profissionais já não o discutem: a Biografia é banida para um limbo – para um espaço especial entre a História e a Literatura que será pouquíssimo freqüentado pelos historiadores acadêmicos. E, apesar disto, a despeito do desprezo dos historiadores profissionais de novo tipo, talvez nunca tenham sido escritas tantas biografias como neste século. Literatos e diletantes invadem prazerosamente este antigo domínio historiográfico, abandonado pelos pregadores dos Annales e dos novos marxismos da primeira metade do século XX. Mas a partir das últimas décadas do século XX, depois das quatro décadas de quarentena, os historiadores profissionais retomam o gênero. De novas maneiras, eles dirão. Agora os mais variados sujeitos históricos merecem ser biografados: não apenas os heróis e as grandes individualidades políticas, mas também os indivíduos anônimos que jamais sairiam dos arquivos empoeirados se de lá não os tivessem arrancado os historiadores – um moleiro herético, um padre exorcista de segundo plano, um impostor que se faz passar por um marido desaparecido até ser desmascarado, e que carrega em sua própria vida um enredo tão novelesco que se tornou matéria prima para uma produção cinematográfica. São estes os novos biografados da Micro-História (se é que é possível chamar de “biografia” a uma prática que não pretende se concentrar no indivíduo examinado em si mesmo, mas apenas se valer dele para examinar o seu ‘em torno’). De fato, a estes indivíduos cuidadosamente escolhidos, a Micro-História pretende tratá-los como pequenos fragmentos privilegiados para através deles perceber realidades mais amplas, ou pelo menos para estudar problemas históricos ou sociais específicos. Do moleiro herege, como já vimos anteriormente, Carlo Ginzburg almeja perceber algo sobre as trocas culturais, sobre o diálogo de culturas que transparece através dos detalhes de um processo de Inquisição (GINZBURG, 1989). Do

impostor que toma o lugar do marido de uma obscura camponesa do século XVI, a historiadora Natalie Davis (1987) extrai um diversificado panorama da vida camponesa de sua época, do seu cotidiano aos seus modos de sentir. Do padre exorcista, o micro-historiador italiano Giovanni Levi (2000) pretende extrair variados elementos para a compreensão da economia das sociedades rurais do Antigo Regime, das suas hierarquias sociais e estratégias de ascensão e enriquecimento, dos saberes mágicos oriundos da cultura popular, do imbricamento destes saberes mágicos com a medicina taumatúrgica daqueles meios rurais. Tal como nos ensinam estes exemplos, deve-se ter sempre em vista que o interesse micro-historiográfico no estudo de caso ou no fragmento de vida que se examina é conquistar um acesso a aspectos que, embora não visíveis a uma primeira aproximação, têm uma existência real e cujo desconhecimento comprometeria a efetiva compreensão de um problema mais geral. Giovanni Levi, em entrevista concedida em Costa Rica, oferece como exemplo o clássico problema das “migrações” (2002). Se queremos ultrapassar o questionamento meramente quantitativo (quantos migram?), deveremos começar a fazer a pergunta certa:

“quem migra?”. Enquanto a pergunta sobre quantos migram pode não ser uma pergunta necessariamente interessante para o historiador (ela pode mesmo, se ficar nisso, dar uma imagem totalmente distorcida do problema), já as perguntas “quem migra?” e “quem não migra?” tornam-se necessárias em todos os casos. Mas para começá-las a responder é preciso descer às vidas. É preciso ir, por exemplo, ao âmbito da família, aos ciclos da vida familiar, às redes de solidariedades locais. Um caminho, poderíamos acrescentar, seria o de seguir o indivíduo no interior de suas trajetórias familiares e comunais. “Biografar” talvez não fosse a palavra exata para este estudo de uma vida com objetivos bem definidos, mas como não existe um verbo substituto poderemos empregá-lo sem maiores problemas. Tal como assinala Levi, é aqui que entra o problema fulcral da ‘escala de observação’, empregada não como uma redução por si mesma, mas como uma redução de escala que visa uma finalidade específica – a de examinar um problema mais geral, mais extensivo. Deve-se ter uma consciência especial do que significa aqui “generalizar”. Generalizar para a Micro- História não é “equalizar”, ou reduzir a complexidade. Para o micro-historiador, generaliza-se nas perguntas, mas não nas respostas. Admitir a riqueza e a complexidade da vida humana não impede, contudo, a possibilidade de alcançar uma extensão maior no conhecimento essencial a respeito da vida social. Retomando a metáfora do microscópio proposta por Levi, examina-se

o “micróbio”

enfermidade:

não

para

entender

propriamente

o

micróbio,

mas

sim

para

entender

a

“En este sentido, la discusión de la reducción de escala es fundamental. Es imposible estudiar al microbio sin el microscopio. El microbio puede matar, como puede ser el caso de la peste bubónica, pero si no lo observas a través del microscopio no puedes entender cómo se causa la peste. Al percibir el microbio puedes generalizar y entender la enfermedad” (LEVI,

2000).

Esta colocação é fundamental, pois contribui para desfazer determinados mal- entendidos a que já nos referimos antes. Conforme alerta Giovanni Levi, muitos pensam que a Micro-História significa estudar coisas pequenas, mas na realidade ela analisa coisas grandes:

muchos italianos piensan que micro historia es historia local, debo decir que esto es una locura total. Para ellos uno puede estudiar una comunidad o la historia de una persona, a lo mejor alguien con un mal patológico y presentan su trabajo como micro histórico sin serlo. Justamente, un amigo mío, un historiador español, Jaime Contreras, ha llamado a esa historia, la historia basura. Me parece que hay que diferenciar entre micro historia y la historia basura, o la historia pequeña que no es interesante por que no es generalizable. Es decir aquella micro historia que busca a través del microscopio las formas

(LEVI, 2000).

O que podemos extrair da entrevista de Levi para a compreensão destas “biografias” de novo tipo é bastante claro: não se trata de estudar qualquer pessoa por qualquer motivo. Estuda-se através de uma vida com vistas a enxergar mais longe, mais profundo, mais densamente, de maneira mais complexa, ou porque o estudo desta vida permite enxergar a vida social em sua dinamicidade própria, não excluindo os seus aspectos caóticos e contraditórios. O “indivíduo qualquer” é um “qualquer” cuidadosamente escolhido (estamos muito longe da prática da amostragem). Escolhemo-lo porque ele nos dá acessos aos

problemas que nos interessam, ou porque as fontes em torno deste indivíduo concentraram-se

de determinada maneira. Podemos estudá-lo por ele ser “demasiado comum” ou por ele ser

estranhamente incomum, não importa. As perguntas que faremos a esta ou àquela vida é que nos dirão se a escolha é menos ou mais adequada.

Outro aspecto remarcável é que a vida a ser escolhida pelo micro-historiador não se desenvolverá de maneira autônoma, “biográfica” no mal sentido. Ela ocorre no interior de uma configuração relacional. Micro-historiadores como Giovanni Levi têm procurado trabalhar de maneira muito específica com o conceito de “configuração social”. A configuração social não é feita de coisas ou aspectos imobilizados, mas sim de relações que envolvem todos os seus protagonistas. Quando modificamos algum de seus elementos, modificamos a totalidade das relações. Esta noção é muito importante para compreender o modo como o micro-historiador trabalha o gênero biográfico. Uma vida não existe por si mesma, suspensa teleologicamente e tendente a um destino, de modo que o que ocorre em torno são personagens coadjuvantes e situações de apoio que apenas confirmam ou reforçam os caminhos mais ou menos autônomos desta vida. Não existem propriamente as vidas coadjuvantes, pois todas elas desempenham um determinado papel na configuração relacional mais ampla. Posso tomar um “biografado” como ponto focal, mas ele não se destaca de forma alguma do meio em que vive, da configuração social dentro da qual ele estabelece múltiplas relações. Por isto, o micro- historiador está atento a tudo: um pequeno ponto pode ser importante para dar um sentido maior a uma determinada configuração social. Quando se estuda o indivíduo, estuda-se a sua comunidade, a sua localidade, ou, conceitualmente falando, a sua configuração social –

mesmo que se tenha escolhido o caminho metodológico de acompanhar uma trajetória individual, neste caso necessariamente imbricada e inter-relacionada com outras trajetórias. É neste sentido que, conforme assinalamos atrás, a Biografia torna-se para o historiador uma ‘abordagem’, e não um ‘domínio’ ou um mero gênero. Ela é o meio escolhido pelo historiador

para compreender uma determinada configuração social

Um caminho para fora, e não para

dentro da vida do indivíduo. Por fim, algo que costuma distinguir algumas das biografias que são produzidas no âmbito da macro-história tradicional das produzidos no seio da abordagem micro- historiográfica é que, neste último caso, procura-se enxergar mais de perto a liberdade dos indivíduos no interior dos grandes sistemas normativos que o envolvem. Como indica Giovanni Levi na entrevista atrás mencionada, “o poder deixa sempre uma margem de liberdade, uma margem que cria uma ‘intersticialidade’ e a possibilidade de mover-se entre as contradições dos sistemas normativos”. O indivíduo não é inteiramente determinado de fora,

nem constrangido sem margens de ação pelo sistema que o envolve. Não se trata de resgatar aqui o antigo modelo do século XIX para a biografia dos grandes indivíduos, onde estes moviam a História com a força do seu gênio e da sua ação. Mas não se trata também de cair no modelo oposto, da sobredeterminação absoluta, que move o indivíduo ou que o constrange de maneira imperiosa. As pesquisas em Micro-História têm levado precisamente à percepção das estratégias que os indivíduos desenvolvem nos sistemas que os comprimem, à compreensão das suas negociações, da sua inventividade realizada através da vida cotidiana e das práticas sociais.

De uma maneira geral, é o que se poderia dizer a respeito da abordagem micro- historiográfica da Biografia. Com relação às fontes apropriadas para estas biografias de novo tipo (ou para estes estudos micro-historiográficos de vidas anônimas) são freqüentemente processos criminais, inquéritos, registros da inquisição – documentos que têm por característica proeminente o rastreamento obsessivo e rigoroso de detalhes, a exposição de contradições reveladoras, o registro de minúcias, de tudo o que possa incriminar ou absolver, expor o réu na tentativa de tornar transparentes os seus pensamentos, os seus hábitos, o seu cotidiano mais inconfessável. Usam-se também os diários íntimos, as correspondências pessoais, os livros de notas que geralmente só aparecem nos períodos menos recuados (a não ser para o caso de pessoas com um mínimo de notoriedade), e que também fornecem flagrantes excepcionais pelo simples fato de que em geral não foram escritos com a intenção de serem lidos senão pelo seu próprio autor, ou no máximo por um interlocutor para o caso das correspondências. Para registrar exemplos brasileiros de estudos biográficos elaborados de acordo com os parâmetros da Micro-História, poderemos citar a biografia de Luiz Mott sobre Rosa Egipcíaca, uma ex-escrava do Brasil Colonial (1992), ou a obra de Eduardo Silva intitulada Dom Obá II D’África, o Príncipe do Povo: vida, tempo e pensamento de um homem livre de cor (1997). Este último utiliza o estudo de caso em torno de uma trajetória individual para apreender precisamente o cotidiano dos ex-escravos na transição do antigo sistema colonial- escravocrata para o âmbito capitalista, fundado exclusivamente nas relações de inclusão e exclusão em torno do trabalho assalariado – este mundo que tem significativas dificuldades de acolher os egressos do sistema antigo. Trata-se de perceber, através deste fragmento que é uma vida humana, não apenas o cotidiano do grupo social de ex-escravos na passagem para o novo

século, mas também a sua ambiência mental e as relações com os demais grupos sociais. Na verdade, o “biografado” é escolhido precisamente por ser um ponto fulcral para a percepção destas relações, já que se apresenta como uma espécie de ponte mediadora entre elementos dos novos grupos dominantes e os ex-escravos que a custo vão sendo absorvidos pelos novos regimes de produção, quando não permanecem à margem. Para além das biografias de indivíduos sem importância política em sua época, e que por isto mesmo se tornam reveladores de aspectos que não poderiam ser percebidos através das fontes tradicionais, também retornam nas últimas décadas do século XX as biografias de indivíduos ilustres. Jacques Le Goff biografa São Luís (1999) e escreve artigos sobre São Francisco de Assis (2001); Georges Duby constrói uma narrativa em torno da vida de Guilherme Marechal (1988), com o fito de compreender a vida cavaleiresca na Idade Média; Christopher Hill, com O Eleito de Deus (1970), aborda a vida de Oliver Cromwell (2001). Agora, estes indivíduos que foram proeminentes nas suas épocas oferecerão suas vidas não para o enaltecimento de sua memória ou para o deleite de leitores interessados em curiosidades históricas e na vida dos grandes homens. Suas vidas serão matéria prima para uma “biografia-problema”, tornar-se-ão índices de uma significação histórica mais ampla. É assim, por exemplo, que Christopher Hill trata o seu eleito de Deus. O calvinismo que ele vê refletido e refratado através do seu fragmento humano “Oliver Cromwell” é mais do que um credo – trata-se na verdade de uma cosmovisão que abrange todas as áreas da vida, e que dota os seus portadores de um sentido especial que eles mesmos imputam à sua existência. É a apropriação deste sentimento e desta cosmovisão no elan revolucionário do movimento puritano na Inglaterra do século XVII o quer ele pretende captar, e não a mera singularidade humana de Oliver Cromwell. Hill está precisamente interessado nas complexas tensões que permeiam a relação entre o indivíduo e a sociedade, mas que não são exclusivas do carismático líder da revolução puritana:

comentou-se amiúde o aparente paradoxo de um sistema baseado na predestinação e que suscita em seus adeptos uma ênfase sobre o esforço e a

energia moral. Uma explicação para esse fato postula que, para o calvinista, a fé se revela por si mesma através das obras e que, portanto, o único modo pelo qual o indivíduo poderia ter certeza da própria salvação seria examinar cuidadosamente seu comportamento noite e dia, a fim de ver se ele, de fato,

resultava em obras dignas de salvação (

julgavam eleitos, pois possuíam uma fé interior que os fazia sentirem-se livres,

Os eleitos eram aqueles que se

).

quaisquer que fossem suas dificuldades externas(HILL, 2001: 205)

Através de Cromwell, o que Hill procura resgatar é o perfil destes indivíduos que na sua época aceitaram o calvinismo e o inseriram tanto em sua vida cotidiana como em uma prática revolucionária, transformando-se em um grupo social através de uma rede de identificações mútuas e reciprocidades. A maneira como a crença em uma missão junto a Deus entretece a vida nos seus múltiplos aspectos e a revolução encaminhada por estes homens – eis o objeto criativamente construído através desta “biografia” (se é que poderíamos chamá-la assim). Em certo sentido, e por paradoxal que pareça, Cromwell está interessando aqui não tanto pela sua singularidade política, mas pelo que ele tem de comum em relação a outros homens, pelo que ele revela das tensões psicológicas e sociais de sua época, pelo que ele dá a perceber com relação a determinadas práticas sociais. É verdade que Cromwell permite um acesso a privilegiado a estes múltiplos elementos, em virtude da sua posição de liderança beneficiar-se de maior iluminação histórica e dos registros que deixou através de suas atividades revolucionárias. Mas o historiador aproveita-se desta posição mais iluminada precisamente para visualizar um extrato mais amplo da sociedade e a sua inserção em uma dinâmica específica.

Esta oportunidade de aproveitar a especial iluminação de que se beneficia o indivíduo biografado é portanto fundamental no novo estilo de biografar dos historiadores profissionais. Os micro-historiadores, vimos atrás, escolhem indivíduos anônimos, sim, mas que por uma circunstância específica achem-se especialmente iluminados (por exemplo, por um processo inquisitorial ou judicial que lhe rastreia todos os passos e que lhe dá uma voz especial que ele não teria na sua vida cotidiana de indivíduo comum). Por um caminho complementar, é também um pouco de luz especial o que buscam os historiadores que escolhem o chamado ‘personagem-chave’, de importância política reconhecida na sua época e que por isto deixou maiores registros. Assim em uma entrevista em que fala das biografias que escreveu, Jacques Le Goff expõe com tranqüilidade as razões de sua escolha:

Por outro lado, acho que só se pode escrever uma boa biografia se esta for sobre um personagem de quem se acredita ser capaz de chegar bem perto. Pois bem, antes do século XIII a ausência de fontes confiáveis tornava essa empreitada impossível. Decidi então ficar no século XIII, onde três personalidades se destacavam não apenas por sua importância, mas sobretudo

por causa das fontes disponíveis sobre eles: São Francisco de Assis, o imperador germânico Frederico II e São Luís(LE GOFF, 1996).

O problema central, como assinala Jacques Le Goff, é o das fontes. A biografia tem de ser coberta por muitos lados, tem que dar a perceber aspectos da vida pública e da vida privada, tem de trazer à tona os gestos teatralizados do indivíduo proeminente, mas também os seus gestos espontâneos. Tanto um tipo de gesto como o outro – o teatralizado e o espontâneo – são reveladores de práticas e representações específicas. Em seguida à oportunidade especial oferecida pelas fontes, Le Goff acrescenta um segundo aspecto fundamental para as novas escolhas biográficas: um problema adequadamente colocado.

“Sobre os dois primeiros [São Francisco e Frederico II] já existem ótimos estudos, portanto São Luís logo se impôs. Mesmo porque a maior parte das numerosas biografias feitas sobre ele nos últimos vinte anos não me parecem atender suficientemente as exigências de rigor histórico. Duas obras no entanto, de grande qualidade e publicadas nos anos 80 por dois historiadores, um americano, Edil Jordan, o outro francês, Jean Richard, eram exceção. Mas, nem um nem outro colocou a si mesmo a pergunta quanto ao indivíduo (e contrariamente às idéias recebidas, a noção de indivíduo emerge no século de São Luís), e todos dois haviam centrado mais ou menos seu estudo nas cruzadas. Sem negar sua importância na vida de São Luís, eu não acho que as cruzadas tenham sido o grande pensamento de seu reinado. Do ponto de vista da historiografia, achei portanto que o terreno estava livre” (LE GOFF, 1996).

Assim, Le Goff delineia com muita precisão um problema que acompanhará em contraponto a sua construção biográfica, que é o da “emergência do indivíduo” – ou a emergência de uma nova maneira de conceber o indivíduo – no século XIII. Em seguida, o historiador francês explicita simultaneamente a ordem de dificuldades que deve acompanhar o historiador-biógrafo e um programa ou estilo de biografar, que se refere àquele ir-e-vir entre a vida individual e a vida coletiva que já fizemos notar para o caso da biografia realizada por Christopher Hill. Ouçamos as próprias palavras de Jacques Le Goff:

Fiel à concepção de história-problema da Escola dos Anais, minha primeira dificuldade consistiu em definir uma problemática que me permitisse apreender o indivíduo São Luís em interação com a sociedade do século XIII, evitando o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de a "ilusão biográfica", que pretende que se considere a vida de um grande homem como alguém com um destino já traçado, excluindo as eventualidades da vida. Eu, ao contrário, limitei-me a mostrar as hesitações, as decisões e os momentos cruciais da vida de São Luís, a

partir da sua infância de rei. Porque se o homem constrói sua vida, ele também é construído por ela.(LE GOFF, 1996).

Colocar-se em guarda contra a tendência em enxergar o grande indivíduo de maneira teleológica (como um caminho que aponta já para um fim que está previamente inscrito na cabeça do historiador, antes mesmo que ele comece a biografar) é portanto um alerta que deve acompanhar o biógrafo, pelo menos se ele pretende efetivamente realizar uma biografia múltipla e verdadeira (e que por ser múltipla e verdadeira deve ser, de certo modo, tão contraditória como a própria vida). Da “ilusão biográfica”, o historiador deve passar ao enfrentamento da ilusão das fontes – porque também elas impõem a sua teleologia, sobrepondo-a à teleologia que o historiador pode trazer espontaneamente antes de iniciar o seu trabalho:

“Foram as fontes, na verdade, que representaram as principais dificuldades de meu trabalho de historiador, e isso por causa de sua própria natureza. De fato, uma grande parte dos documentos disponíveis sobre São Luís é de caráter hagiográfico ou normativo. Através de São Luís pinta-se mais o retrato do rei que ele deveria ter sido do que o que foi realmente, como em Les Miroirs des Princes, textos que nos informam mais sobre a concepção do soberano ideal do que sobre a verdadeira personalidade dos reis. As qualidades e os fatos atribuídos a São Luís - freqüentar os pobres e os leprosos, oferecer numerosas esmolas, etc. - são assim atribuídos a outros reis. No entanto, eu tive algumas vezes a impressão de cair em detalhes suficientemente concretos de sua vida cotidiana para dizer: é ele finalmente. Mas mesmo aí eu tive surpresas desagradáveis” (LE GOFF, 1996).

Existe portanto um perigo que espreita o biógrafo dos personagens ilustres, e que já o biógrafo dos personagens anônimos pode facilmente contornar. O indivíduo célebre – um rei, um líder, um santo – tem despejada sobre a sua memória, que vai se construindo já no seu próprio tempo, uma espécie de luz falsa (ou um feixe de luzes falsas). O indivíduo que nasce na notoriedade, ou que a adquire em função de alguma situação-limite, começa a ser construído coletivamente em paralelo à sua existência física e concreta. As fontes nos dão os sinais precisamente desta construção. Elas são a parte mais visível desta construção. Mas o historiador-biógrafo pode se beneficiar precisamente deste caráter construtivo, desde que esteja dela consciente. Ele pode se valer, como fontes, dos trabalhos dos biógrafos da época, que são co-responsáveis (conjuntamente com toda a coletividade) pela construção

do indivíduo imaginário que chega até o historiador através dos arquivos. Assim, também Jacques Le Goff teve o seu interlocutor nesta empreitada:

“Em primeiro lugar, os textos laudatórios não escondiam, apesar de tudo, alguns de seus defeitos. Nós sabemos, principalmente graças às confidências de seu confessor, dispensado do segredo da confissão para o processo de canonização, quais eram as tentações de São Luís e como ele lutava para não sucumbir a elas! Uma série de historietas revelam-nos o temperamento de um homem muito voltado para a carne, dividido entre a tentação e o escrupuloso respeito às

Em seguida, nós dispomos do testemunho mais do que

proibições da Igreja

excepcional de um companheiro próximo do rei, Jean de Joinville, autor de Uma História de São Luís” (LE GOFF, 1996).

Identificar a posição do biógrafo-fonte em relação ao seu biografado é um procedimento primordial para o historiador. No caso que tomamos para exemplo, existia precisamente uma proximidade que poderia ser aproveitada pelo historiador – uma “relação” entre o biógrafo-fonte e o biografado, que nem sempre ocorre, mas que quando ocorre deve ser bem aproveitada pelo historiador:

Joinville foi o primeiro não-religioso a escrever sobre a vida de um santo, ainda por cima em língua vulgar, ou seja em francês e não latim. Como freqüentou o círculo mais íntimo de São Luís, Joinville foi uma testemunha privilegiada de sua vida cotidiana. Embora tivesse uma grande admiração pelo rei, Joinville sabia ao mesmo tempo julgá-lo e não hesitava em repreendê-lo quando achava, por exemplo, que o rei se comportava mal com sua mulher. O título da obra demonstra aliás essa distância tomada pelo autor em relação ao assunto. Esse documento permitiu-me assim chegar ao indivíduo, o que chamei de "verdadeiro" São Luís, e de "trazer" junto com ele uma grande parte da sociedade e dos problemas de sua época(LE GOFF, 1996).

Percebe-se aqui que, além de biografar o personagem-foco, o historiador deve como que biografar os biógrafos-fontes, identificar o lugar de produção em que se encontravam os homens que registraram as primeiras construções do personagem na sua própria época. Pode ser que o historiador veja-se levado a construir um conjunto de entremeados biográficos: o biografado principal acompanhado de uma pequena órbita daqueles que foram os responsáveis pela construção de sua imagem na própria época. Munido dos elementos para resgatar o indivíduo por trás da pele imaginária, o historiador não descuidará contudo de aproveitar-se dele como fragmento privilegiado para a

percepção do coletivo. Só assim o historiador começa a sobrepor à mera vida individual – mesmo que seja a vida de uma pessoa ilustre que possa eventualmente interessar a inúmeros leitores – aquilo que efetivamente terá uma significação histórica hoje em dia, de acordo com os atuais parâmetros historiográficos:

São Luís foi beneficiado em vida por um extraordinário prestígio, que repercutiu por toda a França. Ele se baseava, acredito eu, em três coisas. Em primeiro lugar, num inegável carisma de chefia, retomando a noção do sociólogo alemão Max Weber. As pessoas que o encontravam eram atingidas por essa aura que o envolvia, em parte de forma física, e que sua devoção contribuía, sem sombra de dúvida, para aumentar. Mas os dois traços de sua personalidade mais impressionantes, ainda hoje, residem em seu apetite pela justiça e na sua paixão pela paz. Constantes no Ocidente desde o ano 1000, essas aspirações concretizam-se finalmente sob o reinado de São Luís. Sua vontade de pacificar o reino sucede a movimentos populares contra o poder feudal e senhorial, que repousa na violência e na guerra. São Luís era, por essas razões, o que se poderia chamar de consciência da cristandade(LE GOFF,

1996).

São Luís mostra-se aqui, portanto, a sede de uma expressão coletiva. Os movimentos pela paz (a “paz de Deus”), em um jogo de tensões com os movimentos pela guerra (as cruzadas), falam eloqüentemente através dele. São Luís, tanto o indivíduo concreto como o indivíduo imaginário, mostra-se aqui como construção de uma época – produto de um trabalho coletivo que deve ser decifrado pelo historiador. É aliás este tenso diálogo entre a paz e a guerra que Jacques Le Goff se permite recuperar, porque ele é um diálogo que se projeta dentro de São Luís mas que, na verdade, corresponde a um diálogo que é inerente à sua própria sociedade:

Na época, fazer a paz entre cristãos e partir em cruzada contra os "infiéis" não parece ser absolutamente contraditório. É preciso lembrar que São Luís está profundamente impregnado pela concepção cristã de guerra definida por Santo Agostinho. Segundo este, é justa toda guerra feita aos pagãos ou que vise restabelecer a justiça onde existir injustiça (invasão territorial, por exemplo). Aliás, é unicamente neste caso que Santo Agostinho admite a guerra entre cristãos. E finalmente, para limitar as guerras, Santo Agostinho pretende que elas dependam da ordem política, ou seja do Príncipe, único a ter o direito de declarar a guerra e fazer a paz. Uma idéia que inspirará muito São Luís. Ao abolir a guerra entre os fidalgos, mais uma vez ele acerta em dois alvos: pacifica o reino e fortalece consideravelmente o poder real(LE GOFF, 1996).

Vemos aqui como se cruzam todas as grandes questões da época no interior do biografado. No caso, a desfeudalização, a centralização estatal, as aspirações imaginárias da cristandade pela paz, a construção e o monopólio de um novo sentido de justiça, a oposição e

a alteridade em relação ao inimigo muçulmano sem falar na intertextualidade que se

todos

derrama sobre os modos de pensar a política e a vida a partir de Santo Agostinho estes fios encontram o seu lugar nesta trama.

“finalmente, partir em cruzada também significa para São Luís uma maneira de perpetuar a tradição de seus ancestrais, os reis cristãos, que remonta a 1095. Suas outras motivações são de ordem religiosa, porque São Luís teve uma visão da cristandade que compreende, do ponto de vista territorial, a Europa, onde o cristianismo se instalou, mas também a Terra Santa, local de suas origens e da presença mística do Cristo. Ao mesmo tempo em que São Francisco de Assis preconiza na Terra Santa uma cruzada pela palavra, São Luís realizará uma cruzada militar. Entretanto, no momento da entrega aos muçulmanos do resgate que deveria libertá-lo, São Luís havia obrigado os de seu círculo a entregar-lhes uma quantia espertamente retirada no momento da transação. Um senso de ”

justiça quase universal para a época

(LE GOFF, 1996).

Construir uma biografia, desta forma, remete à necessidade de não apenas instaurar um diálogo entre o indivíduo e a sociedade de sua época, mas também de dar voz aos diálogos que atuam na própria constituição do indivíduo que vai sendo biografado. Este indivíduo também constrói a si mesmo a partir destes diálogos, e reconstruí-los também faz parte do trabalho do historiador. O indivíduo biografado, enfim, é ponto de encontro de muitos imaginários, de muitas práticas e representações, de intertextualidades diversas, e tudo isto se agita no redemoinho formado tanto pelas circunstâncias como pelos grandes processos históricos e coletivos, de média ou de longa duração. A biografia sobre São Luís realizada por Jacques Le Goff é representativa, postulamos, de um modo novo de biografar que é o da atual historiografia profissional.

Mergulhadas e produzidas neste novo modus operandis, as biografias de personagens- chaves da história, portanto, têm na atualidade um novo sentido que antes não comportavam. Assim mesmo, apesar desta nova função da biografia-problema na produção historiográfica profissional, continuarão sendo produzidas em quantidade as biografias de grandes homens no estilo antigo. Jacques Le Goff queixa-se da proliferação destas biografias superficiais e

anedóticas que concorrem com as novas biografias-problema – biografias “incapazes de mostrar a significação histórica geral de uma vida individual” (LE GOFF, 1989). Com relação ao estilo, as novas biografias clamam por novos modos de narrar e por novas possibilidades de perceber a natureza humana. Pierre Bourdieu, ao falar sobre a “ilusão biográfica”, chama atenção para o fato de que mesmo as biografias elaboradas no seio da historiografia profissional descrevem a vida individual ainda de maneira demasiado linear, como um simplificado caminho teleológico que comporta “um começo (uma estréia na vida), etapas e um fim, no duplo sentido de termo e de objetivo” (BOURDIEU, 1986: 62-63). Pergunta-se pela multiplicidade de “eus” que cada um esconde dentro de si, pelos diversos papéis que qualquer indivíduo precisa desempenhar na sua vida social

multidiversificada, pelas suas incoerências, pelas várias histórias que atravessam a sua vida sem convergirem necessariamente para o mesmo fim. Pergunta-se pelos vários projetos interrompidos que fazem de todo homem um “projeto inacabado”, como diria Jean-Paul Sartre, e que nas biografias tradicionais têm as suas arestas aparadas para encontrar uma coerência em um enredo central, ou que simplesmente são esquecidos quando se rebelam contra o pensamento centralizador do biógrafo. Esta multiplicidade de eus que a psicanálise já examina, e esta fragmentação da unidade individual ou mesmo o desaparecimento do sujeito, que a moderna filosofia toma

eis aí um universo de possibilidades que a literatura

como um de seus objetos privilegiados

moderna já explora, mas que a historiografia contorna em biografias que, embora já problematizadas, continuam por vezes a serem teleológicas, portadoras da moral única que orienta a trama, de um roteiro que apaga as incoerências internas e as muitas vidas dentro da vida.

De qualquer modo, o antigo gênero e domínio historiográfico retorna anistiado para o bem vigiado universo da historiografia profissional. Boas biografias históricas continuarão a abundar na nova produção historiográfica, mas também na literatura histórica mais romanceada, e em um caso ou outro teremos sempre um gênero que atrairá a atenção do público leitor. Leitores de vários tipos e competências culturais poderão se comprazer com biografias extremamente sofisticadas como a de Le Goff sobre São Luís, ou como a de Christopher Hill sobre Oliver Cromwell. Mas também o leitor interessado em um outro tipo de curiosidades históricas poderá sempre se deleitar com um farto material continuamente

presente na literatura produzida nestes dois últimos séculos, como alguma obra sobre A Vida Amorosa de D. Pedro I ou coisas do gênero.

*

Será oportuno encerrar esta reflexão sobre os domínios historiográficos e este ensaio chamando atenção, mais uma vez, para o fato de que – como qualquer campo de saber – a História está fadada a permanentes transformações no interior do seu espaço disciplinar. Os rearranjos internos serão sempre possíveis. E mais, o que está dentro da História um dia, como objeto de estudo possível, pode se ver repelido para o seu exterior no outro dia. Será eficaz, para retermos uma maior compreensão acerca das variâncias da disciplina historiográfica, retomar um célebre trecho de A Ordem do Discurso, onde Michel Foucault esclarece como ninguém o que é uma disciplina (em geral):

uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode servir-se dele” (FOUCAULT, 1996: 30)

Este sistema anônimo, contudo, como faz notar Foucault logo adiante, está em permanente mutação porque é aberto a expansões – na verdade ele depende para existir de desencadear expansões. Conforme ressalta o filósofo francês, “para que haja disciplina é preciso, pois, que haja possibilidade de formular, e de formular indefinidamente, proposições

novas” (FOUCAULT, 1996: 30).

E no entanto existe um incessante jogo entre o interior e o exterior da disciplina, e entre um campo de estudos e o seu campo de objetos. A História (campo de conhecimento) jamais será constituída por tudo o que se pode dizer de verdadeiro sobre a História (campo dos acontecimentos). Para que uma proposição pertença à disciplina “História” de uma época, é preciso que ela responda às condições desta disciplina tal como a definem ou definiram os seus praticantes de então. A História, como qualquer outra disciplina, estará sempre repelindo para fora de suas margens determinado conjunto de saberes, proposições e domínios que em

momento anterior poderiam ter estado ali, e que em um momento subseqüente da história dos saberes e dos discursos já não estão. Ou, como registra Michel Foucault para todas as disciplinas científicas em geral:

O exterior de uma ciência é mais ou menos povoado do que se crê: certamente, há a experiência imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar crenças sem memória; mas, talvez, não haja erros, em sentido estrito, porque o erro só pode surgir e ser decidido no interior de uma prática definida; em contrapartida rondam monstros cuja forma muda com a história do saber. Em resumo: uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas

para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina [

30)

](FOUCAULT,

1996:

A disciplina História atrai e repele objetos, domínios, proposições, métodos, práticas, representações. Houve um tempo em que a hagiografia caía dentro da História, em que Deus conduzia a História. Depois, no século XVIII, a História tende a se tornar imanente entre os historiadores profissionais. Deus sai da História, e a deixa aos homens – ou, se ele permanece na História, como ocorre com vários dos historiadores do século XIX, é como uma grande sombra providencial que age através dos homens (mas não mais de milagres). Com o Iluminismo, o mundo extrafísico ou sobrenatural parece ter sido definitivamente repelido para fora da História. Voltará um dia? Atualmente, não se escreve uma história dos fenômenos paranormais. Quem quer que queira historiar estes fenômenos terá de fazê-lo do exterior histórico, já que este não é um dos assuntos de que tratam os historiadores profissionais. Outros tantos exemplos poderiam ser dados. Os historiadores escrevem a História das Ciências, dos saberes jurídicos, da Medicina, da Psiquiatria – mas quem historia a Astrologia são os astrólogos (os historiadores só o fariam para avaliar socialmente ou culturalmente as suas representações, para indagar pelas ideologias que se escondem por trás das representações astrológicas, e assim por diante). Há os exemplos políticos. O Nazismo entrou na história como monstro – quem quiser historiá-lo com maior simpatia terá dificuldade em fazê-lo no interior dos círculos historiográficos ocidentais. Deverá fazer isto do seu exterior, como simpatizante de uma doutrina. Isto porque, na historiografia ocidental, o Nazismo é estudado no corpo dos estudos dos autoritarismos, dos fanatismos, das patologias sociais, da violência. Não se estuda, por exemplo, a Arte Nazista, a não ser ligada a um destes aspectos.

Um exemplo não muito distante de proposições que até então caíam como luvas para o campo histórico, e que hoje são repelidas enfaticamente, refere-se ao circuito da “evolução” e do “progresso”. Com os desenvolvimentos antropológicos, e com o auto-reconhecido descentramento do homem europeu, já não se admite falar no campo da historiografia profissional em “evolução de sociedades” (com aquele sentido próximo ao darwiniano). Também já não se fala no “Espírito da Nação”, que teria animado as narrativas nacionalistas de historiadores como Ranke ou Jules Michelet nos idos do século XIX. Estas proposições estão atualmente em baixa – ou melhor, estão como que fora da órbita do campo histórico. Exemplo mais recente de idas e vindas, agora já relativo a uma das antigas especialidades da História, é o campo da História das Civilizações. Com Arnold Toynbee (1953), este domínio parecia ter conhecido o seu último grande investimento. No final do segundo milênio, ele parece querer voltar com toda a força, pelo menos a julgar pelo impacto de O Choque das Civilizações de Samuel P. Huntington (2000). Exemplo importante de resgate de um domínio ou de uma prática historiográfica – que, depois de ter sido expulsa da órbita da historiografia profissional pela ojeriza ao factual dos anos 1930, começa a ser atraída de novo pela sua gravidade – é este gênero que poderia ser descrito como “história de acontecimento” (a descrição de uma batalha, por exemplo). O primeiro sinal foi dado por Georges Duby, quando aceitou em 1968 escrever um livro sobre o Domingo de Bouvines (famosa batalha na história da Idade Média francesa). O seu prefácio para esta obra é precisamente uma justificativa para a sua aceitação, como historiador profissional, em retomar este gênero (DUBY, 1993). Para pontuar com um último exemplo de domínio que veio à tona, é bastante lembrar que a História da Loucura só começou a ser historiada recentemente. E naturalmente que começou a ser historiada do ponto de vista de uma racionalidade que desde já a imobiliza, com a exceção do trabalho pioneiro de Foucault (FOUCAULT, 1978). Mas, em todo o caso, é um tema que começa a entrar na moda – a invadir a órbita do historicizável. Desta forma, o que um dia esteve no exterior histórico é hoje atraído com menor ou maior força para o núcleo historiográfico, tal como vimos acontecer com os vários objetos descontraídos ou desvendados pela História das Mentalidades, pela História Vista de Baixo, pela Micro-História. Da mesma forma, os assuntos mais amplamente tratados pela história, hoje, poderão um dia ser repelidos.

Isto novamente produzirá reviravoltas nos domínios históricos, nas suas dimensões, nas suas abordagens.

*

Chegamos ao fim desta reflexão sobre os domínios da História e seu incessante surgimento, desaparecimento, deslocamento e mutabilidade. Para além dos domínios e campos aqui comentados, o leitor de História poderá continuar contando cada vez mais com uma multidão de novos objetos. Os domínios multiplicam-se. Tal como foi se discutiu em ensaio mais desenvolvido sobre o assunto (BARROS, 2004), a profusão de uma infinidade de domínios da História nos quais foram se especializando diversos historiadores é decorrente de um duplo processo. De um lado, lembramos que esta profusão inscreve-se na tendência dos saberes modernos à hiper-especialização crescente. Por outro lado, a chamada “pulverização da História” é a decorrência mais visível da crise dos grandes modelos explicativos e do declínio das ambições totalizadoras dos historiadores ocidentais que, notadamente na época de Fernando Braudel e em algumas das abordagens marxistas do início do século, almejavam construir exclusivamente “histórias-sínteses”. Atualmente, a historiografia ocidental mostra-se como um grande vitral de possibilidades. Para retomar a imagem empregada no primeiro capítulo do ensaio mencionado (BARROS, 2004), vivemos a época de Clio Despedaçada. A História partiu-se em muitos fragmentos; os editores recolhem as suas migalhas para vendê-las a preço de ouro a uma multidão de consumidores que não cessam de se interessar pelos mais variados objetos historiográficos. Há os que preferem se deleitar nas sofisticadas tabelas de logaritmos que abundam nos ensaios de História Econômica, há os que preferem as aventuras cavalheirescas que os conduzirão aos castelos medievais. Há os que se interessam pelo Poder em todas as suas formas, e existem os que, confortavelmente sentados em salões de luxo, têm alguma curiosidade a respeito da história dos marginalizados. Talvez existam os leitores do sexo masculino que ainda hoje destratem suas mulheres na alcova de seus casamentos e que busquem na poeira dos tempos os seus pares na misoginia dos tempos antigos; ou que, ao contrário, achem-se perplexos diante das conquistas femininas do último século e por isto sonhem secretamente com um tempo em que os homens dominavam explicitamente as

mulheres. E haverá também os que nas páginas da historiografia profissional buscarão a aventura ou as raízes de sua nacionalidade, a origem de seu pessimismo ou de seu otimismo com relação aos seres humanos, ou quem sabe um conforto para os seus medos presentes e futuros. Estes são os leitores comuns, que consomem História como qualquer outro gênero literário. Já os historiadores vivem seus temas por vocação ou por necessidade profissional, e repartem-se naqueles que pretendem dar uma feição mais artística ao seu trabalho e naqueles que buscarão aproximá-los mais rigorosamente de um imaginário da ciência concebida de acordo com os parâmetros da racionalidade da última hora, sem contar os que esperam com o saber histórico transformar a própria História. Entre os historiadores profissionais – não há como evitar (e nem talvez porque evitá-lo) – os compartimentos se multiplicam. Dimensões, domínios e abordagens são fundamentalmente os critérios distintivos que podem ser empregados para criar subdivisões no interior do Campo Histórico. Critérios que não se misturam, mas que eventualmente se complementam. O importante é deixar claro que as ‘dimensões’, ‘abordagens’ e ‘domínios’ da História articulam-se de múltiplas maneiras, e que não se trata de o historiador encontrar um compartimento para dali empreender um trabalho isolado e hiper-especializado. Muito da confusão que tem sido estabelecida em torno destas classificações decorre daquelas grandes coletâneas de artigos, escritas por diversos autores, em que são apresentados desavisadamente os diversos campos da História sem ser desenvolvida uma explicação mais sistematizada de que existem diversos critérios imissos ali envolvidos. Outrossim, mesmo dentro das divisões geradas por um mesmo critério de coerência, é possível perceber que existem abundantemente as possibilidades de interfaces e interpenetrações, as combinações de duas ou três dimensões historiográficas, as convivências de duas ou três abordagens, seja por alternância ou por complementaridade, e por fim as ambigüidades e objetos comuns aos vários domínios. Apenas para mencionar uma última vez uma vez o problema das ‘dimensões’ da realidade social, existem pelo menos três delas que são extremamente complexas e de certo modo deixam suas marcas em todas as outras: a Política, a Cultural e a Social. De alguma maneira, tudo nas relações humanas é perpassado pelo “poder” nas suas múltiplas formas (macro-poderes e micro-poderes), tudo o que é humano é parte da “cultura” no seu sentido mais amplo, e o “social” pode estar identificado

com a própria sociedade. De qualquer modo, a historiografia será sempre um campo complexo, que resiste às subdivisões, o que não impede que elas sejam pensadas como parâmetros mais gerais de orientação. Por fim, resta retomar aquele alerta a que havíamos chegado na primeira parte deste texto. Ter plena clareza do solo particular em que está sendo estabelecida uma determinada ação historiográfica (uma pesquisa, por exemplo) não deve servir de pretexto a uma insuficiente hiper-especialização que por vezes é bem intencionada, mas por outras vezes é preguiçosa ou oportunista. No mundo dos especialistas, onde por vezes são convocados para receber cifras significativas aqueles que falam javanês, é uma tentação sempre presente tornar- se uma grande orelha, um grande olho ou uma grande boca, para utilizar uma significativa metáfora de Friedrich Nietzsche (1976).

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Giovanni.

Entrevista

a

Juán

José

Marin.

O debate na historiografia marxista brasileira sobre trabalhadores rurais no século XX

Manoela Pedroza 15

RESUMO

Sabendo que foi dentro da corrente marxista que se processou a maior parte das discussões teóricas e políticas sobre o “problema do campesinato” em países capitalistas, com grande influência na academia brasileira, o objetivo deste artigo é analisar a forma com que o campesinato e a questão agrária se estruturaram como objetos de estudo para as ciências humanas no século XX, a partir da aceitação ou rejeição das teses de Karl Marx e das transformações econômicas e sociais ocorridas, sobretudo, fora do mundo acadêmico. Optou-se pela análise dentro do campo da historiografia marxista brasileira, entre as décadas de 1930 e 1980, tentando entender os motivos pelos quais esta área do conhecimento não incorporou as discussões e novos conceitos sobre a ‘questão camponesa’ que estavam sendo formulados em outros campos. Palavras-chave: campesinato, questão agrária, debates.

ABSTRACT The objective of this article is to analyze the form that the “peasantry” and agrarian question have rendered itself as objects of study for humans sciences in the XX century, with point of start: the accept or rejection of the Karl Marx’s thesis and the economic and social transformations that occurred over all outside of the academic world. The option was made for the analysis over all inside the Marxism field, not forgetting that in this tendency that the majority of the theoretical and politic discussions were made and it was the most important influence for the debates in the Brazilian academic. Key words: peasantry, agrarian question, debates.

Introdução: Capitalismo no campo: um tabu para a historiografia?

Os pesquisadores de história agrária brasileira, ou das histórias dos homens e mulheres que viveram de seu trabalho no campo, têm uma série de dificuldades que já foram muito lamentadas: o difícil acesso às fontes documentais, a descentralização e desorganização dos arquivos, os diversos interesses políticos e econômicos contrários à que se mexa nesse assunto, entre outros. Mas, ainda há um outro tipo de problema, ligado aos

campos disciplinares e seus respectivos instrumentais teóricos e metodológicos que lidam com este objeto, que conformaram atualmente a situação de que quase não há trabalhos de História sobre este grupo social, ao passo que eles abundam em outras disciplinas, como a Sociologia, a Economia, a Geografia e a Antropologia. Trabalhos sobre ‘universo rural’ ou ‘mundo do trabalho agrícola’ na Grécia antiga, na França medieval, nos impérios asiáticos, entre outros exemplos, são numerosos e muito ricos em suas análises (CARDOSO, BOUZON & TUNES, 1990; CARDOSO, 1985; 1994; DUBY, 1962). O problema se coloca quando lidamos com estes grupos de trabalhadores na história contemporânea, sobretudo no século XX. Explicando com outras palavras, a questão que se tornou tabu é a relação destes grupos de trabalhadores/as com o desenvolvimento industrial e a conseqüente penetração capitalista no campo, processos marcantes em nosso país após 1930. Mais do que um fato consumado que deva ser lamentado como leite derramado, vou encarar estas opções acadêmicas de recortes temporais e temáticos como históricas, frutos de dois outros processos: primeiro, o papel político que foi sendo atribuído aos camponeses desde os primeiros escritos de Marx até a década de 1970; segundo, as sucessivas clivagens e o enrijecimento das ossaturas dos campos acadêmicos nas áreas das ciências humanas. Minha hipótese é que a compreensão ampla destas relações entre campos acadêmico e político – por vezes negligenciada – é o que pode tornar inteligível este dar de ombros da historiografia do mundo do trabalho em relação ao trabalhadores e trabalhadoras do campo. Por isso, o objetivo deste artigo é sondar as causas do silenciamento da historiografia no debate a respeito de grupos camponeses no século XX.

Parte 1: estudos sobre campesinato

O primeiro pesquisador contemporâneo que se debruçou sobre o problema da relação difícil entre campesinato e capitalismo se situava na fronteira entre a história e a sociologia: Karl Marx. Ele nos legou um vasto campo conceitual utilizado pelas ciências humanas até nossos dias para análise e explicação do problema (MARX, 1991) 16 . Sobre a

16 Max Weber também travou uma discussão a respeito da especificidade ou não da economia da Grécia Antiga, que em certo sentido pode ser considerada camponesa. Cf WEBER, Max. General Economic History. New York. Colliers. 1961. Para uma revisão deste debate sobre o Oikos ver POLANYI et al. Trade and Market in the early empires. New York. The Free Press. 1957.

relação entre o camponês e o capitalismo, a que chamou de questão camponesa, a conclusão que Marx expressa no 18 brumário é de que

"Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu

modo de produção os isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio

a grande massa da nação francesa é assim, formada pela simples adição

de grandezas homólogas, da mesma maneira por que batatas em um saco constituem

na medida em que existe entre os pequenos camponeses

apenas uma ligação local e em que a similitude de seus interesses não cria organização política, nessa exata medida não constituem uma classe" (MARX, 1969:

um saco de batatas (

mútuo (

)

)

115).

Neste trecho, conhecido como 'metáfora do saco de batatas', Marx utilizou os conceitos de classe social, relações sociais, organização política e modo de produção (já aplicados na análise do sistema capitalista) ao estudo do caso específico do campesinato francês na segunda metade do século XIX. Ao fazer isso ele tinha duas intenções distintas:

por um lado tentava investigar teoricamente um grupo social não capitalista com um instrumental cunhado para análise do capitalismo, mas também intervir politicamente na luta social perdida pelo proletariado francês com o golpe de Luiz Bonaparte. O uso desse instrumental levou Marx a duas conclusões na análise do campesinato:

a primeira é que, enquanto a estrutura capitalista -- as condições de exploração fabris, as tensões entre trabalho social e apropriação privada, a vivência coletiva da exploração -- possibilitaria ao proletariado forjar sua consciência de classe para si e, ao final, acumular forças para derrubar esta mesma estrutura e implantar o socialismo; no universo rural tradicional a estrutura social fazia o trabalho contrário: isolava os camponeses, criando neles o senso de manutenção de suas pequenas propriedades ao invés do sentimento de ação coletiva revolucionária. A segunda tese, decorrente da primeira, era que os camponeses existiriam como vestígios do passado feudal, sem papel funcional no momento em que viviam. Em sua visão evolutiva das relações sociais, o camponês tradicional para Marx seria parte de um passado pré-capitalista, cujo sentido histórico só poderia ser o desaparecimento no novo sistema que se afigurava. Isso porque a totalidade do sistema capitalista não seria baseada no modo de produção camponês, isto é, ele não seria uma relação social determinante para seu desenvolvimento. O capitalismo então se relacionaria com o campesinato apenas como contingência histórica a ser paulatinamente eliminada pela diferenciação social dos

camponeses em proprietários ou proletários rurais. Neste sentido, a estrutura capitalista que Marx propôs se desenvolveria, inexoravelmente, engolindo as relações de produção tradicionais, num processo de expansão que chegaria a ser total (em profundidade) e global (em extensão). Esta ficou sendo a mais lembrada posição de Marx a respeito do campesinato, embora não seja a única. Essa é a idéia básica do paradigma marxista sobre a questão agrária, e daí se inicia uma série de estudos que, de maneira valorativamente negativa, caracterizaram a estrutura social do modo de vida camponês como contendo uma série de características específicas que impediriam ou dificultariam sua ação coletiva. 17 Essa linha de pensamento pode ser verificada sobretudo nos textos de Karl Kautsky (1980) e de Vladimir Lênin (1982), seus seguidores. Karl Kautsky era ativista e pensador influente do Partido Social Democrata Alemão. Ele defendeu que os camponeses eram burgueses por serem proprietários, e a pequena propriedade camponesa deveria ser aniquilada pelo capitalismo pelo seu atraso técnico, cunhando os termos "industrialização da agricultura" e "lei tendencial de concentração da propriedade" (Kautsky, 1980). Para Kautsky “a expropriação do pequeno produtor e a sua transformação em trabalhador rural assalariado seria, portanto, não apenas um processo inevitável – decorrência necessária do desenvolvimento do capitalismo no campo – como também positivo” (Araújo, 2002:66). Ele elaborou, desdobrou e generalizou o exemplo inglês de Marx para produção industrial n’O Capital, vol. I parte 8 (Shanin, 1980; Araújo, 2002; Hegedüs, 1984). Depois dele, Lênin vaticinou a aldeia camponesa russa -- o mir -- como um resquício da sociedade feudal que devia ser totalmente destruído e dar lugar ao capitalismo agrário. 18 Debatendo diretamente com os populistas russos, para ele o desenvolvimento do

17 Michael Duggett, baseando-se sobretudo nos Grundrisse [MARX, 1991] matiza a forma taxativa exposta em Marx dizendo que se deve considerar a dificuldade teórica deste em conceituar o campesinato como classe ou não a partir de um instrumental que se aplicava bem para o proletariado urbano e para os clubes da burguesia, mas não para camponeses dispersos em um vasto país. A essa busca por rigor teórico e intervenção política atravessa toda a produção teórica marxiana sobre o campesinato, mas não foi concluída a ponto de ter sido possível, após sua morte, que diversos intelectuais no campo do marxismo formulassem conclusões ou opiniões distintas a respeito dos mesmos textos (DUGGETT, 1976).

18 LENIN, V. O desenvolvimento do capitalismo agrário na Rússia, original de 1899. O mir russo funcionava como controlador e distribuidor de terras segundo critérios costumeiros que não obedeciam ao código civil russo. Ao analisar a situação em que as famílias camponesas mais ricas eram beneficiadas na distribuição das terras porque com freqüência agregavam novos membros, Lênin concluiu que essa situação estaria contribuindo para a diferenciação social e a criação de classes sociais antagônicas no meio rural russo (Moura, 1986). Segundo Hamza Alavi, foi por esse motivo que, mesmo mudando suas táticas

capitalismo no campo implicaria na extinção pela diferenciação social dos camponeses feudais em burguesia agrária, pequenos burgueses ou proletários rurais. Essa proposição poderia não ter tido tanta repercussão não fosse o sucesso político de Lênin após 1917. A partir daquele momento, suas teses tiveram decisiva influência nas posteriores gerações de marxistas no que concerne ao debate sobre campesinato e capitalismo, e seus escritos dominaram as análises de sociedades camponesas na III Internacional e nos movimentos comunistas do Leste Europeu 19 (Shanin, 1980:54; Hegedüs, 1984). Essa concepção marxista dominante compreendia o desenvolvimento histórico em etapas: do feudalismo ao capitalismo e deste ao socialismo. A partir dela, o VI Congresso da III Internacional, realizado em 1928, determinou uma estratégia revolucionária a ser adotada por todos os países do terceiro mundo: a realização de uma revolução burguesa, nacional e democrática, de caráter anti-imperialista e anti-feudal, que primeiro alçaria esses países à condição de capitalistas para depois poderem, com suas massas proletárias no campo e na cidade, chegarem ao socialismo (Araújo, 2002). Veremos mais adiante a repercussão dessas políticas no Brasil. Com raras exceções, as correntes marxistas hegemônicas neste campo político exacerbaram as interpretações que Marx fez sobre a França e a Inglaterra no século XIX para todo o mundo. A preocupação com a problemática da transformação capitalista no campo foi expressa em dois debates conceituais: a diferenciação do campesinato e a especificidade ou não de um 'modo de produção camponês' (SHANIN, 1980: 53). Tudo isso a partir do critério de propriedade ou expropriação da terra como definidor dos grupos sociais camponeses, e as possibilidades de sua organização política mecanicamente decorrentes. É claro que isso não aconteceu sem matizes nem contradições. Porque o significado político do conceito camponês garantiu uma periodicidade em seu próprio uso, sempre refletindo a história social em sentido amplo, mas, também, uma dinâmica específica do pensamento acadêmico. A exemplo disso, podemos perceber que até o começo do século XX, na Europa do Leste, a sociologia rural e a economia agrária contribuíram enormemente para os trabalhos sobre a especificidade da economia camponesa. Como passavam por um

políticas em 1905, os bolcheviques jamais chegaram a conseguir uma base sólida junto ao campesinato russo (Alavi, 1969: 311). Sobre esse assunto ver também Hegedüs, 1984.

19 Isso não quer dizer que a obra de Lênin não possa ter mudado no que trata do campesinato. Mas essa discussão já foge dos objetivos deste capítulo. Para aprofundar as discussões, ver Shanin, 1980, parte 3.

momento de profundas mudanças econômicas (industrialização) e políticas (ascensão dos movimentos nacionalista, populista e socialista), o debate sobre o conceito e repercussões do campesinato que se produziu neste período formou a maior parte do instrumental conceitual e ideológico relevante de que hoje dispomos, sendo bons exemplos os trabalhos de Galeski (1972) e Chayanov (1966).

Esta torrente de estudos foi interrompida nas décadas de 20 e 30 do século passado e passou por um longo silêncio forçado, provocado pela polarização ideológica, pela intensa vigilância na produção acadêmica do leste europeu e, posteriormente, nas décadas de 40 a 60, pelo auge das "teorias da modernização pós-coloniais" (SHANIN, 1973). O sentimento geral era de que o desenvolvimento e a modernização incessantes situavam os camponeses na jaula do rústico, do tradicional e da bruxaria, junto com tudo o que seria fatalmente relegado a segundo plano nas preocupações de quem era "progressista". Uma taxonomia básica de moderno/tradicional (com uma implícita suposição nós/eles) tornou os camponeses terminologicamente invisíveis, dentro do pacote geral dos "tradicionais" e outros exóticos, que ficavam a cargo dos estudos antropológicos (SHANIN, 1973: 72) Na década de 60, quando houve uma sucessão de crises dos países pobres e da agricultura mundial, com o colapso das prescrições modernizantes simples e rápidas, a decisão da China de 'andar com os próprios pés' e a conseqüente descoberta de uma tenacidade camponesa (sobretudo depois que camponeses derrotaram a potência mais moderna do mundo no Vietnã), essa situação mudou. A análise apurada do conjunto destes fatos mostrou aos pesquisadores do tema que as profecias de fim do campesinato propaladas pelos clássicos de Marx (1991, 1969, 1968-1983, 1978), Lênin (1982) e Kautsky (1980) efetivamente não se realizaram. Mesmo nos países desenvolvidos o pequeno produtor não se tornou necessariamente miserável, nem se tornou proletário rural, e o progresso técnico não foi incompatível com a produção familiar (ABRAMOVAY, 1992).

Se o camponês tornou-se um fascinante e problemático tema de estudo contemporâneo, foi exatamente porque os esquemas que o interpretavam como resíduo de uma formação social anterior, como resquício ou sobrevivência de épocas passadas, revelaram-se um instrumento analítico e conceitual inadequado à apreensão de sua condição social viva em tantas regiões agrárias (MOURA, 1986:

Estes fatos históricos contundentes fizeram com que pesquisadores buscassem, a partir de então, encontrar ou cunhar outras maneiras de explicar a relação do capitalismo com o campesinato. Campos disciplinares distintos resgataram autores esquecidos e criaram um novo aparato conceitual para a análise dos camponeses no mundo. Em benefício do próprio objeto de análise, vários aspectos da estrutura social camponesa foram enfocados: o geral e o específico, a escala nacional e o nível da unidade familiar de produção, entre outros. Para embasar esse esforço, vieram a tona as teses de Alexander Chayanov 20 que, ainda na década de 1920, tivera a preocupação de melhor conhecer a lógica que presidia a tomada de decisão pelos agricultores russos, na URSS recém criada. Mas, essa retomada de interesse já não se processava no mesmo contexto de antes. Neste meio tempo, as estruturas acadêmica mundial e brasileira se segmentaram em campos com seus próprios objetos e métodos preferidos. “O afastamento entre os campos disciplinares e sua falta de comunicação levou a várias 'redescobertas' de coisas que já eram conhecidas por outras disciplinas, além de várias formas de mútua ignorância e até hostilidade” (ABRAMOVAY, 1992: 47). Penso que um desses casos se deu nos estudos sobre camponeses no Brasil. Vejamos mais a fundo as particularidades deste processo.

Parte 2: O debate sobre o campesinato no Brasil

No Brasil, a trajetória dos estudos sobre campesinato também se relacionou intimamente com os diferentes momentos e transformações da questão agrária e camponesa no país, daí a necessidade de reconstituir aqui o processo de conformação da questão agrária tanto no campo econômico e político quanto em suas decorrências no campo acadêmico brasileiro. O conceito de camponês referia-se originalmente a um grupo social bem localizado estrutural e historicamente, [os camponeses feudais europeus] não sendo criado pelos cientistas sociais, mas tendo sido apropriado por estes (Velho, 1979:41). No Brasil, a situação do camponês não se equipara com o caso camponês clássico nem mesmo com

20 Alexander Chayanov, russo, foi professor e trabalhou no Instituto Agrário de Moscou ainda nos tempos do czar, sendo Ministro da Agricultura depois da revolução de 1917 e durante toda a década de 20, quando organizou cooperativas agrícolas de pequeno e médio porte na URSS. Terminou eliminado pelos expurgos de Stálin. Um balanço de sua biografia e pesquisas pode ser encontrado em Abramovay, 1998: cap 3, e Araújo, 2002, e na palestra proferida por Theodor Shanin em http://www.msses.ru/shanin/chayanov.html.

outros países latino-americanos onde sobreviveram comunidades indígenas. A definição conceitual dos homens e mulheres que trabalham no campo brasileiro foi, portanto, fonte de polêmicas, geradora de muitos debates dentro e fora das ciências humanas. Mesmo assim, nas décadas de 1930 e 40 não houve propriamente uma discussão nacional sobre a questão agrária. Isso porque o Estado, que se instaurava com o golpe de 1930, em grande parte pactuava com as oligarquias rurais, que mantinham seu velho estilo de produzir e dominar. Se esse pacto, por um lado, não impediu que os capitais gerados no setor primário passassem a viabilizar o processo de industrialização crescente, fazendo com que esses antigos "donos" do Estado perdessem a partir de então sua posição dominante dentro desse aparelho, por outro condicionou essa subordinação geral do setor agrícola à não intervenção estatal direta sobre ele. Isso se materializou economicamente no assim chamado "complexo rural" 21 , que possibilitou a manutenção por mais algum tempo das formas de propriedade, poder e trabalho tradicionais (Oliveira, 1987; Martins, 1981; Facó, 1976; Leal, 1949; Medeiros, 2002). Os estudos sobre homens e mulheres pobres das áreas rurais mudaram completamente seu teor a partir dos anos 50. Essa mudança teve relação direta com o afrouxamento da costumeira 'obrigatoriedade da não modernização' no campo brasileiro, que começava a ser posta em xeque nos anos do desenvolvimentismo. A crença geral de que o país alcançaria em pouco tempo o "primeiro mundo" se chocava frontalmente com a situação de "atraso" e "arcaísmo" na zona rural, para usar os termos da época. Assim, a partir desses anos, malgrado a vontade do setor latifundista mais conservador de que a questão agrária continuasse a não existir, crescia o debate sobre as possibilidades de transformações no universo rural, tanto da "esquerda-revolucionária" quanto do Estado. Ao mesmo tempo, esses anos presenciaram a progressiva publicização tanto a partir da identidade política de camponês quanto dos problemas que enfrentava, produto de um conjunto de lutas sociais por certos direitos trabalhistas, sociais e agrários dessa categoria que se firmava enquanto classe social (Medeiros, 2002). O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1977) trabalha com a noção de identidade como um produto de lutas. Para ele, a representação que os grupos fazem de si mesmos e dos outros contribui, em grande parte, para fazer deles aquilo que eles são e o que fazem.

21 Por complexo rural entendemos um conjunto intrincado de atividades agrícolas e manufatureiras indissoluvelmente ligadas e internalizadas nas fazendas, que reproduziam em nível local os setores agrícolas e manufatureiros que eram a base da economia colonial brasileira. Mais detalhes em Silva, 1996.

Essa representação, por sua vez, não é um dado ou um simples reflexo, mas fruto de ações de construção que se realizam a cada momento, nas lutas entre os grupos para imporem a representação do mundo social mais de acordo com os seus interesses. Dessa forma, uma das facetas da dominação estaria, justamente, na imposição de uma representação do mundo social. Ela incidiria sobre a produção da identidade social do dominado. Os grupos dominados se constituem, assim, naquilo que Bourdieu chama de uma “classe-pour-autri”, isto é, uma classe que conta com uma verdade objetiva de si mesma que não foi ela quem produziu. E de todos os grupos dominados, aquele onde isto se colocaria de forma mais evidente seria o campesinato (Grynspan, 1987:86). Entenderemos o processo de disputa entre mediadores políticos segundo a teoria de Pierre Bourdieu, que nos diz que as lutas travadas no campo político têm uma dupla determinação: ao mesmo tempo são lutas entre os seus agentes (os próprios mediadores) pelo poder, e são também lutas pelos grupos sociais que se encontram fora do campo. Moacir Palmeira, antropólogo do Museu Nacional da UFRJ, em um texto e um artigo publicado na coletânea Igreja e Questão Agrária (Palmeira, 1985, 1975), se ocupou de duas questões: o porquê da diferença na periodização dos sindicatos de trabalhadores rurais em relação aos sindicatos urbanos no Brasil, e o papel da CONTAG e do sindicalismo rural na formação da identidade política camponesa. Privilegiando a análise de relações de poder, o autor defendeu que foi a diferenciação política do campesinato e a redefinição das relações entre este e o Estado que possibilitaram a “internalização da luta de classes”. Parte desse processo complexo se deveu à substituição de mediadores tradicionais por novos, capazes de introduzir novas diferenciações sociais no seio da comunidade camponesa tradicional. Por fim, a autor concluiu que foi a mobilização política que gerou o campesinato no Brasil como uma identidade política nova. Algumas das hipóteses sugeridas nesse pequeno artigo de Moacir Palmeira parecem ter suscitado uma série de novas questões para estudos posteriores, como demonstra sua constante citação. É nesse ponto da conjuntura política e econômica brasileira, momento de intensas transformações, que se situam os debates sobre a “questão camponesa” dentro do Partido Comunista Brasileiro. Um dos primeiros pesquisadores comunistas a tentar definir a especificidade desse grupo social foi Caio Prado Jr., ainda na década de 1940, com a intenção de

"dar à expressão campesinato um conteúdo concreto e capaz de delimitar uma

realidade específica, dentro do quadro geral da economia agrária -- trabalhadores e pequenos produtores autônomos que, ocupando embora a terra a títulos diferentes --

-- exercem sua atividade por conta própria.

Esse tipo de trabalhadores, a que propriamente se aplica e que se deve reservar a designação de camponeses, forma uma categoria econômica e social caracterizada e distinta dos trabalhadores dependentes que não exercem suas atividades produtivas

por conta própria e sim a serviço de outrem (

proprietários, arrendatários, parceiros

)

(PRADO JR., 1966, 204/5)".

O primeiro aspecto bastante conhecido da atuação política de Caio Prado Jr foi a posição crítica assumida por esse intelectual comunista em relação à linha e às práticas do PCB, críticas que ficam evidentes sobretudo nos seus dois últimos textos publicados na Revista Brasiliense em 1963 e 1964 22 , o que acabou lhe conferindo uma imagem de “intelectual maldito”. Dentre essas críticas, consagrou-se como mais importante a que considerava uma desatenção das “forças políticas de esquerda e progressistas” à luta pela ampliação da “legislação social-trabalhista para o campo” 23 , que seria para Caio Prado Júnior o caminho mais eficaz para a solução da questão agrária no Brasil, deixando claro seu desacordo com a tese dos “restos feudais”, sustentada oficialmente pelo PCB e por outras forças políticas “nacionalistas”. Para ele, somente uma interpretação amparada em modelos vindos de fora, aplicáveis às situações históricas verificadas na transição do modo de produção feudal para o capitalista na Europa, explicariam o estímulo dado pelas “forças de esquerda” às reivindicações tipicamente camponesas e a “subestimação” do potencial transformador da implantação de uma “legislação social-trabalhista” no campo. Na visão de Caio Prado Júnior, a ênfase dada pelas “forças políticas de esquerda”, entre elas “os comunistas”, ao entendimento da reforma agrária como o parcelamento das grandes propriedades de terra era provocada por um grave erro teórico cometido por essas forças e seus intelectuais. Caio Prado Júnior interpretava os “acentuados traços servis”

22 É importante notar, porém, que em resenha do livro Manual de Economia Política, publicado pelo “Instituto de Economia da Academia de Ciências da URSS” (tradução espanhola), presente no n. 5 da Revista Brasiliense (maio-junho de 1956), Caio Prado Júnior já acusava a impropriedade do uso do “modelo colonial” que analisava a questão agrária brasileira em termos de “restos feudais”. No entanto, nesse texto de 1956, não apontaria com tanta veemência, como aconteceria nos artigos de 1963 e 1964, os erros políticos provocados ao se considerar a existência de um importante setor camponês no Brasil (FRIED DA SILVA, 2005).

23 Caio Prado Júnior, “O Estatuto do Trabalhador Rural”, Revista Brasiliense, n. 47, maio-junho de 1963, p.

verificados nos “setores mais atrasados do país” como permanências do longo período de utilização da mão-de-obra escrava no Brasil 24 . A negação da existência dos camponeses no Brasil por Caio Prado Júnior pode ser considerada um desenvolvimento de formulações anteriores nas quais defendeu que o Brasil seria capitalista desde a origem, premissa que fundamentou toda uma corrente de interpretação historiográfica que se consolidou a partir da Universidade de São Paulo (USP). A partir de uma visão circulacionista, todo um conjunto de pesquisadores concluiu que o Brasil participou de uma suposta fase comercial do capitalismo através de sua inserção no circuito mercantil formado no Atlântico com a expansão marítima européia iniciada na passagem do século XV para o XVI. Inserção com um papel bem definido, qual seja, o de fornecer matérias-primas produzidas em grandes propriedades monocultoras que se utilizavam largamente de mão-de-obra escrava. Em linhas gerais, Caio Prado Júnior lançou as bases desse modelo interpretativo no livro Formação do Brasil Contemporâneo. No texto “O sentido da colonização”, o autor apontava os “objetivos” que, na sua opinião, nortearam a montagem da colônia portuguesa na América, isto é, servir como espaço de exploração. Podemos perceber ainda hoje uma relativa influência da tese do “capitalismo desde a origem”, principalmente entre os historiadores paulistas. Sem podermos avançar na discussão sobre os modelos interpretativos de nosso passado colonial, é importante apenas ressaltar que o debate entre Caio Prado Júnior e os intelectuais que defendiam a “tese feudal”, entre eles Alberto Passos Guimarães, passava por uma disputa sobre o passado do país, pois era na história colonial que buscavam alicerçar suas posições. Em concordância com Carlos Maurício Fried da Silva, em importante balanço da obra de Caio Prado Jr sobre a questão agrária (2005), consideramos que a negação da existência da “classe camponesa” no Brasil no pensamento de Caio Prado Júnior já se encontra devidamente superado na historiografia, principalmente com as pesquisas que se desenvolveram inspiradas na idéia de “brecha camponesa” presente na obra de Ciro Cardoso e Jacob Gorender, demonstrando a existência de setores camponeses nos períodos

24 Idem, ibidem, p. 12.

colonial e imperial da história do Brasil 25 , quando se desenvolveu novo modelo explicativo que se convencionou denominar de “modo de produção colonial-escaravista” 26 . Mas também é importante frisar, sobretudo em um balanço historiográfico, que a peremptória negação da existência de uma agricultura camponesa no Brasil sustentada por Caio Prado Júnior nos seus dois textos publicados na Revista Brasiliense nos anos de 1963 e 1964 não é encontrada nos seus artigos anteriores presentes nessa mesma revista. Antes, Caio Prado Júnior reconhecia a existência dos camponeses no Brasil e a importância da desconcentração da propriedade fundiária como política de reforma agrária para o país 27 . Mesmo nestes últimos textos, o reconhecimento, mesmo que indireto, da existência de um setor camponês pode ser percebido na importância que deu à reforma agrária entendida como parcelamento das grandes propriedades e posterior distribuição para os “trabalhadores sem terra” 28 . Carlos Maurício Fried da Silva (2005) sustenta que o próprio raciocínio do autor se modificaria durante os anos. Nos principais artigos produzidos sobre a questão agrária, nos anos de 1960 e 1962, além de colocar como primeira tarefa da reforma agrária a desapropriação das grandes propriedades de terra e não a extensão da “legislação social- trabalhista” para os “trabalhadores rurais”, Caio Prado Júnior defendeu que uma maior oferta de terras criaria melhores condições para o desenvolvimento das lutas dos empregados rurais por melhor remuneração. Já nos textos produzidos nos anos de 1963 e 1964, defenderia o contrário, isto é, que a ampliação dos direitos trabalhistas para o campo levaria ao parcelamento da terra, já que a aplicação dessa legislação encareceria a mão-de-

25 O Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense concentrou um grande número de trabalhos que percorreram essa trilha aberta por Ciro F. S. Cardoso. Nesse sentido, podemos destacar as pesquisas de Márcia Maria Menendes Motta, Nas Fronteiras do Poder: conflito e direito a terra no Brasil do século XIX, 1998; Hebe Mattos de Castro, Ao Sul da História, 1987; Sheila de Castro Faria, Terra e Trabalho em Campos de Goitacases (1850-1920), 1986; entre outros, que, em grande medida, comprovaram empiricamente a existência dos camponeses na formação do Brasil.

26 Uma síntese interessante sobre essa discussão pode ser encontrada na introdução do livro de João Fragoso & Manolo Florentino, O Arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro (1790-1840), 1993.

27 Carlos Maurício Fried da Silva (2005) se refere ao uso do termo “servil” e à expressão “semifeudalismo” que aparecem em alguns momentos nos diferentes textos de Caio Prado Júnior produzidos no período pesquisado.

28 Caio Prado Jr. Contribuição para a análise da questão agrária no Brasil, in Revista Brasiliense, n. 28, março-abril de 1960) e Nova Contribuição para a análise da questão agrária no Brasil in Revista Brasiliense, n. 43, setembro-outubro de 1962.

obra, exigindo, assim, dos grandes proprietários investimentos em tecnologia para compensar o aumento dos custos com aumento da produtividade 29 . Como observamos, Caio Prado Júnior não ficou imune ao clima conturbado daqueles anos, produzindo interpretações divergentes de acordo com o avanço da conjuntura. O que, aliás, não deve ser entendido como nenhum demérito, mas sim como característica da evolução do pensamento social brasileiro ocorrida naqueles intensos anos das décadas de 1950 e 1960. Mesmo para além do circuito comunista, se pudermos resumir o ambiente intelectual e político de 1950 até 1968, poderíamos enxergar que, para a sociedade civil brasileira daquele momento, a questão agrária era um problema que deveria ser superado por um movimento nacional de transformação, mesmo sabendo dos rumos diversos que cada grupo (trabalhistas, comunistas, católicos, proprietários) imprimia a essas mudanças. Havia um consenso nacional no desejo de democratização interna, industrialização e justiça social, e isso marcava o paradigma da questão agrária naquele momento. Mas, a partir do golpe militar, o debate sobre a questão agrária perdeu sua polarização e deixou de ser propriamente um debate. Isso porque a repressão às oposições políticas e a aplicação sem meios-termos do receituário da "modernização conservadora" no campo se tornou a proposta claramente vencedora. Isso gerou uma grande crise e forçou uma reestruturação das teses de esquerda, motivada pela tentativa de compreender, ou mensurar, os efeitos desta modernização para as classes sociais envolvidas no processo, e depois, revisitar as teses das décadas de 50 e 60 sobre a questão (PRADO JR, 1966). De fato, o governo ditatorial implantado sabia bem a quem agradar e, já no final dos anos 70, o Estado tinha sido eficaz no aprofundamento das relações capitalistas no campo:

aumento de produtividade e do mercado interno, internalização do D1 agrícola nos complexos agroindustriais, diferenciação do campesinato tradicional, criando uma situação bem diferente da que havia antes de 1950. Nestes anos, a concepção de Reforma Agrária em curso se tornou praticamente sinônima de "política de terras", e isso também se explica com o termo 'modernização conservadora': processo em que transformações na base técnica e econômica não tiveram correspondência nos planos social e político. Disso decorreram 'conseqüências perversas', dentre elas a expropriação de milhares de famílias por empresas capitalistas ou pela especulação fundiária das metrópoles em expansão, concentração das

29 Id., ibid., p. 10.

propriedades, disparidade das rendas, êxodo rural, aumento da exploração tanto dos empregados rurais quanto dos minifundistas, deterioração da qualidade de vida da população rural e do meio-ambiente (SILVA, 1996; STÉDILE, 1994; LEITE & PALMEIRA, 1998). Neste contexto, começaram as discussões de alguns grupos de pesquisadores brasileiros, sobretudo antropólogos do Museu Nacional, sobre o problema específico do desenvolvimento capitalista aqui, onde a 'modernização conservadora' se dera a revelia tanto de grupos de oposição política quanto de grande parte dos pesquisadores do tema. Estas mudanças no universo rural brasileiro eram fato social que tinha que ser mais bem entendido, e para isso foram buscados os conceitos e teorias já dados no cenário intelectual da época, marcadamente no campo do marxismo europeu. Dentre os trabalhos que começaram a ser produzidos aqui no início dos anos 70 sobre sistemas econômicos camponeses,

existiam os que buscavam compatibilizar reflexões sobre o sistema econômico camponês (feitas a partir dos neo-populistas russos) com o materialismo histórico, mas alguns só o tinham um relativo sucesso, pois tratava-se de esforço extremamente difícil e do qual surgiu a noção do modo de produção camponês (VELHO, 1979).

Concordamos aqui que o uso ou não do conceito de camponês para designar um tipo social no Brasil se relaciona com a subestimação (ou não) da penetração do capitalismo no campo levando à proletarização rural; e também com a prioridade da pequena propriedade em projetos de reforma agrária, para saber se a reivindicação básica dos rurícolas é a posse da terra ou o aumento de salário. É essa problemática que dá o caráter extra acadêmico deste “debate agrarista”, e suas profundas motivações políticas (VELHO, 1979). É fundamental conhecer os trabalhos de José de Souza Martins como balizas deste debate, ele que se apresenta como o fundador da sociologia rural no Brasil. Professor da USP por quarenta anos, durante boa parte deste período se dedicou a pesquisar e pensar as transformações no mundo rural brasileiro, que, para ele, eram sintomáticas das características peculiares que assumiu o desenvolvimento capitalista no Brasil. Os novos conceitos criados por ele, somados à inversão das premissas com que tradicionalmente era

tratado o mundo rural, fazem de sua obra um divisor de águas do “debate agrarista” brasileiro 30 . Analisando criticamente o que já havia sido produzido de conhecimento sobre o mundo rural brasileiro, Martins concluía que este era marcado por uma análise simplificada, onde predominavam análises evolucionistas e economicistas, preocupadas em explicar a sociedade brasileira sob a ótica de modelos europeus, ou a partir de categorias estranhas que não correspondiam à realidade social brasileira. Sua crítica estava baseada principalmente na existência de uma leitura ortodoxa do marxismo realizada por muitos autores no Brasil, amplamente dominante naqueles anos. A seu ver, as leituras “apressadas” das obras de Marx apresentavam uma sociedade que evoluía linearmente em modos de produção, como se o modo de produção fosse unicamente caracterizado pelo processo de trabalho. Essas análises desconsideravam o processo de exploração e as formas de dominação e sujeição, estas sim definidoras do modo de produção. Para essas teorias, a mesma mentalidade que regeria o capitalista urbano regeria o capitalista do mundo rural. Martins afirmava que estes equívocos, presentes em muitos estudos sobre o mundo rural, continuavam a separar aquilo que o capital já unificara, o rural e o urbano. Além disso, Martins ressaltava que essas teses careciam de pesquisas empíricas, de investigações teoricamente fundamentadas, “em que o pesquisador tem o domínio tanto do método de investigação quanto do método de explicação” (Martins 1986: 100). Martins partia de algumas hipóteses principais para compreender a dinâmica do rural. Sua tese central é de que a complexidade do capitalismo no Brasil se expressa, no mundo rural, pelos diferentes ritmos e tempos deste desenvolvimento (Soto 2002: 105). Neste sentido, ele relativizava as teses de Marx em “O Capital” e se utilizava mais dos “Grundrisse” (1991), para provar que os modos de produção coexistem e se transformam em ritmos diferentes. Para provar essa tese, Martins fez uma série de estudos empíricos na região da fronteira, ratificando que era possível a produção capitalista de relações não-capitalistas

30 É importante frisar que as obras de referência citadas na bibliografia não esgotam nem de longe o conjunto da produção de José de Souza Martins nem de suas reflexões, já que ele escreveu mais de 195 textos, entre livros e artigos publicados. Aqui se faz um recorte para um das fases de trabalho do autor, que versa sobre o “debate agrarista”. Para os interessados na obra desse autor, há também uma tese e uma dissertação que versaram sobre este autor e discutiram suas balizas teóricas principais (Soto 2002 e Alves 2003), e uma entrevista concedida pelo próprio Martins para a revista Informe, no segundo semestre de 2004.

(Soto 2002: 106,144-146). Distinguiu os termos não-capitalista e pré-capitalista, abandonando esse último por estar este carregado de evolucionismo (Soto 2002: 144). Criticou os evolucionistas, dizendo que

“nessa orientação teórica, a articulação e a subordinação substituem a noção de contradição e eliminam, portanto, as formas não-capitalistas de exploração do trabalho enquanto mediações determinadas pelo processo de reprodução ampliada do capital, de acumulação. Desse modo, a forma passa a ser o seu próprio conteúdo, que aparece nas ilusões mecanicistas e evolucionistas como “restos” de modos de produção pré-capitalistas que serão varridos pelo desenvolvimento do capital que os subordina” (Martins 1984: 77 apud Alves 2002: 47).

Disse também que o capitalismo ao expandir-se redefinia e subordinava relações sociais não-capitalistas, mas também engendrava estas relações, igual e contraditoriamente necessárias à sua reprodução. Martins dava como exemplo disso a subordinação da renda da terra e do modo de produção camponês (Soto 2002: 145-6; 168). Concluindo que o capitalismo era uma totalidade inacabada, constituída de partes distintas em conflito, com incoerências e contradições, e que a reprodução das relações sociais implicava também a reprodução dessas contradições (Martins 1975; 1997; 1979; 1994). A partir daí, Martins passou a estudar a funcionalidade contraditória de estruturas arcaicas, ou não-capitalistas, dentro do sistema capitalista brasileiro, que seriam necessárias para sua reprodução enquanto totalidade dialética, e não como simples reprodução de dualismos (Soto 2002: 91-95). Como objeto maior dessa pesquisa, Martins elegeu a cultura caipira, para provar que ela não está necessariamente em contradição com a modernização tecnológica e o desenvolvimento capitalista (Soto 2002; 82). Em “Capitalismo e Tradicionalismo” (1975), ele defendeu que

“a modernização da agricultura restringiu-se à adoção de práticas e de técnicas sem fazer com que as unidades de produção agrícolas adotassem uma racionalidade capitalista. Para ele, esta é a contradição fundamental. Em “A imigração e a crise do Brasil agrário” (1975) mostrou que o agrarismo rústico e o caipira são o fundamento do processo de industrialização e de formação do capitalismo no Brasil” (Soto 2002: 107-108).

Uma segunda hipótese importante de Martins é a de que os meios de vida têm importância histórica tanto na sociabilidade, quanto na solidariedade e reprodução social do homem do campo. Percebe-se aqui a influência dos textos de Lefebvre, do Marx de “A

ideologia alemã” e de Antonio Candido sobre cotidiano (1977), onde estes defenderam que a historicidade do homem se constrói cotidianamente com os seus meios de vida. Para Martins,

“O que define a natureza de um processo não é seu resultado, mas o modo como foi obtido, isto é, o modo de produção do excedente econômico. No caso da escravidão, o resultado pode ser capitalista (na produção de mercadorias), mas o modo de obtê- lo não é.” (Martins 1997:96)

Por isso, ele postula que não dá para avaliar só o resultado, mas sim todo o processo social em si, porque só é possível dizer que o capital é progressista e o camponês é reacionário se se tem uma visão já teleológica e dogmática do processo de expropriação (Soto 2002:186). Segundo Martins,

“Seria pura imbecilidade tentar convencer o camponês que está sendo despejado, cuja casa está sendo queimada pelo jagunço e pela polícia, de que deve aceitar tal

fato como uma contingência histórica, como ocorrência que é ruim para ele, mas que

pois é o que vai permitir o desenvolvimento do capital,

é boa para a humanidade (

daquele mesmo que o antagoniza patrocinando violências”. (Martins 1981:13 apud Soto 2002: 191-2)

)

Martins nesse sentido faz um esforço de relacionar processos microssociais com situações macrossociais, e dirige sua prática de pesquisa centralmente aos processos microssociais (Soto 2002: 96-97). Dessa forma, a maior parte da sua obra será preocupada com aspectos que muitos cientistas sociais considerariam como “menores”, pois não estão condicionados à análise das grandes estruturas e dos grandes processos, especialmente os econômicos. Na obra de Martins, é exatamente o “homem simples” e sua sociabilidade que revelam as grandes contradições de nosso tempo (Martins 2000: 12 apud Alves 2003: 26). Uma outra opção de pesquisa de Martins foi estudar as particularidades do mundo rural – o atrasado, as vítimas, o anômalo e o marginal -- como forma de entender os limites e particularidades do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Martins discorda das teses de influência leninista que pregam o fim do campesinato no Brasil. Ele acha que o camponês é, ao mesmo tempo, resultado e necessidade do desenvolvimento capitalista brasileiro (Soto 2002: 35). Em seu balanço da obra de Martins, Soto afirma que

“Para Martins, a existência de relações não-capitalistas e, por conseguinte, do campesinato no Brasil, está dada pelo movimento do capitalismo, que recria e subordina relações sociais não-capitalistas, portanto, é resultado do seu processo de ampliação e desenvolvimento” (Soto 2002: 258).

Por último, o autor defende que não são as relações de assalariamento que caracterizam o capitalismo no campo, mas sim a instauração da propriedade privada da terra, isto é, a mediação da renda capitalizada entre produtor e sociedade (Soto 2002: 124, 143; Martins 1975). Para ele, o campesinato surge na transição do trabalho escravo para o livre, com a lei de Terras de 1850 e a imigração estrangeira (Martins 1979). É a propriedade privada da terra que provoca as contradições sociais e crises no campo e dá origem à questão agrária. O movimento de expropriação, gerado pela penetração da propriedade privada capitalista, é o que dá início à questão agrária, pois gera migração para terras mais distantes, migração para as cidades ou resistências à expulsão (Soto 2002: 126-127).

Parte 3: E onde entra a história nessa história?

Ainda não nos detivemos no campo historiográfico. Que se passava por lá no período de crises e re-estruturações da ditadura militar? A historiografia marxista de viés althusseriano penetrou com toda força historiografia brasileira na década de 1970, carregando consigo tanto a tendência vanguardista de ditar as regras de certo e errado para as ações dos trabalhadores que estudava, quanto a prescrição das classes com e sem futuro. Para entender a conformação específica deste campo entendo que, se não grassava nestes meios uma produção teórica ufanista do capitalismo, mesmo assim ela compartilhava da mesma problemática da industrialização mundial e suas conseqüências. Em outras palavras, se a lógica do capitalismo era aceita como avassaladora na análise da historiografia (CUEVA, 1979), as estratégias dos trabalhadores também deveriam seguir às mesmas orientações das ditadas por Marx, quando este generalizou a partir da análise do operariado londrino as explicações sobre a possibilidade de revoluções socialistas em todo o mundo 31 .

31 Embora não se relacione diretamente com o que discutimos neste momento, vale a pena lembrar da ressalva de Tiago B. de Oliveira quando concluiu que "apesar de se alterar a hegemonia da história quanto aos seus personagens principais, colocando "os de baixo" em evidência, a historiografia do movimento operário reproduz velhos esquemas do poder político, econômico e intelectual que uma região "definidora

Não é de se esperar outra coisa naquele contexto:

o Brasil e os demais países do terceiro mundo durante o século XX estavam fadados

a "tirar o atraso", pensando e desenvolvendo políticas apoiadas em modelos externos de industrialização, de esquerda ou de direita (Hobsbawm, 1998: 15-16)

Na problemática das pesquisas acadêmicas, a industrialização era um ponto consensual que representaria o grau máximo de desenvolvimento humano. Pelos partidários do capitalismo era sinônimo de progresso, fartura e conforto jamais vivido e presenciado nestes anos dourados; para os seus críticos, era a etapa em que afloravam as contradições sociais, a luta de classes entre operariado e burguesia se explicitava e se construiria o socialismo. Para ambos os lados era consenso que o capitalismo imperialista transformou e continuaria transformando todas as regiões do globo. Algumas delas, mesmo mantendo lógicas internas diversas, nunca mais funcionariam como antes, numa tendência unívoca de estreitamento dos laços de dependência (IANNI, 1998). Quando falamos antes que os primeiros estudos sobre trabalhadores no Brasil a

contrapor a produção tradicional se inseriam na mesma problemática da industrialização mundial, isso teve como principal conseqüência teórico-política o fato de a classe operária ser privilegiada como o agente central -- ou mesmo único – da revolução. O movimento operário, para os setores acadêmicos ligados ao pensamento de esquerda, era a esperança de futuro e, conseqüentemente, deveria ser mais bem estudado no passado. Para tanto, este foi o foco privilegiado da resistência política no campo da historiografia, desde uma produção dita 'tradicional' -- ligada ao estudo das organizações formais de classe (sindicatos e partidos), das lideranças e das instâncias de dominação (a burguesia e o Estado) -- até os novos estudos que passam pela cultura operária, formação e cotidiano da classe (com clara influência da Nova Esquerda Inglesa) (PETERSEN, 1997; BATALHA, 1998: 151). A isso se somou uma outra divisão 'costumeira' de campos acadêmicos em que à História, segundo novos critérios e metodologias de rigor e crítica, que se consolidavam naquele momento, caberia destrinchar "o mais antigo", visto como "o mais difícil" no trabalho de decodificação das fontes arquivísticas, algo que pudesse se submeter ao crivo metodológico que qualificaria a formação de historiador. Os estudos temporais mais

recentes eram vistos como muito escorregadios

fontes arquivísticas escassas ou de acesso

restrito levando a necessidade de "ir a campo", fazer entrevistas ou buscar novos meios alternativos aos arquivos, métodos estes que continuam sendo mais habituais às outras ciências sociais (HOBSBAWM, 1998). Assim, a historiografia brasileira 'dos de baixo', ao priorizar o olhar para grupos sociais não dominantes nem determinantes, optou pelos caminhos que considerou melhores para elucidação de processos históricos e seus problemas teóricos: os escravos na colônia, os homens livres e pobres no império e o proletariado urbano na primeira república. Estas vertentes são fruto de um amadurecimento muito benéfico do olhar que incidia sobre estes grupos sociais e dos métodos que os tratavam, graças à trajetória de debates internos ao campo historiográfico e às influências de outros campos disciplinares, sobretudo da antropologia (PEDROZA, 2003; NEGRO, 1997; SERNA & PONS, 1993). Mas, ao mesmo tempo, enquanto a historiografia se encarregaria de pensar um passado com possibilidades de futuro, ou, em outras palavras, as origens do que (e de quem) construiria o futuro, ficou relegado à antropologia o estudo sobre grupos que "não fizessem diferença" no conflito com o capitalismo mundial (índios, bruxas, camponeses).

Pelas mesmas razões por que o camponês foi considerado marginal e residual na produção, a avaliação de suas representações e ações na análise política sempre foi minimizada. A minoridade conferida à ação política do camponês está presente em diversas tendências de interpretação sobre o meio rural brasileiro. É ilustrativo relembrar as análises que explicavam o comportamento político do camponês como patológico ou certas concepções da esquerda que julgam o camponês um indivíduo preso a ficções alienantes, cabendo aos ativistas a tarefa magistral de "ensiná-lo" (Moura, 1986: 52)

Seguindo o raciocínio de Margarida Maria Moura,

O uso abusivo e formalista de conceitos, como 'classe fundamental', por exemplo, tem servido, muitas vezes, para atribuir aos operários ideologias e práticas sociais que concretamente não desempenham, mas que utopicamente desejava-se que viessem a desempenhar (Moura, 1986: 53)

Portanto, a conseqüência destas concepções tem sido, freqüentemente, a glorificação do proletariado urbano (e às vezes também do rural) como classe redentora da ordem social injusta.

Antes de finalizar, é preciso ao menos registrar a influência dos trabalhos de Edward P. Thompson sobre os novos estudos historiográficos “dos de baixo”, ao criticar as teorias consagradas e desmontar preconceitos macrológicos e ortodoxos recorrentes na

historiografia até então (1981; 1998; 2001). Sobre o universo rural, a influência de Thompson serviu, por exemplo, para relativizarmos a generalização do modelo de ação das Ligas Camponesas para julgamento de todas as ações camponesas, e criticarmos a manutenção da dicotomia operários X camponeses. Mesmo entendendo que as cisões disciplinares fizeram com que Thompson fosse apropriado diferentemente entre historiadores e sociólogos, sua contribuição para esses campos acadêmicos foi inegável para o alargamento dos objetos da história e sociologia do trabalho rumo a uma nova visão não institucional do processo político, que passa pela construção de identidades na luta de classes, e pela apreensão de que a resistência camponesa no Brasil é uma herança cultural. Mas o conjunto de trabalhos surgidos a partir destas novas preocupações já é tema para outro artigo.

Considerações finais

Espero ter conseguido percorrer com o/a leitor/a um pouco da trajetória histórica dos estudos sobre campesinato na historiografia brasileira. Mas este artigo tem muitas limitações. Dentro deste limite de páginas, seria muito difícil fazer uma discussão mais completa, das principais obras sobre o campesinato dos fisiocratas até toda a produção acadêmica atual. Por isso, o recorte necessário que fiz tentou pontuar as principais discussões sobre a “questão camponesa” dentro da historiografia de vertente marxista brasileira, com suas principais influências internacionais, inflexões políticas e alguns debates com outras escolas. Essa linha-base exclui, deliberadamente, tanto os fisiocratas quanto todos os trabalhos que, baseados em referenciais teóricos mais diversificados, e atuais, já se colocam outros problemas que não as questões básicas pensadas pelos marxistas durante pelo menos um século (quais sejam, a extinção/diferenciação do campesinato pelo capitalismo). Busquei pontuar o início dessas mudanças em meados da década de 1970, com o início da discussão sobre o modo de produção escravista colonial e o novo papel dos homens livres e pobres na história. A idéia era que esta “revisão de bibliografia contextualizada” pudesse explicar as razões das preferências da historiografia pela análise de outros grupos de trabalhadores que não o campesinato. A hipótese que aventei é de que, malgrado as origens comuns destes

estudos em fins do século XIX, a ossatura já consolidada dos campos acadêmicos com o

ressurgimento do interesse pelo tema, na década de 1960, fez com que os interesses e

problemáticas da historiografia tivessem se distanciado deste recorte.

Por isso, nos dias de hoje, no debate sobre campesinato falta que os historiadores e

historiadoras vejam que podem contribuir com o hábito de desnaturalizar o que parece

dado desde sempre, pela busca de articulação entre os diferentes fenômenos, pelo costume

de pensar processos, integrando tempo e lugares diferentes (FONTES, 1998: 2). Se já nos

atrasamos ou ignoramos este debate, considero este silenciamento uma falta grave.

Primeiro, porque me parece considerar como “poeira da história” um campo tão crucial

para nosso devir quanto o é a questão agrária nos países de terceiro mundo. Depois, porque

algumas vozes já têm há muito nos alertado que em fatias acadêmicas o verdadeiro

conhecimento nunca se dará, e não parece ser esse isolamento o caminho para qualquer

proposta supradisciplinar de sucesso (SANTOS, 1989). Enfim, o campesinato precisa de

reflexão histórica. Não de qualquer uma, mas daquela que

incorpora as diversas modalidades de explicação dos processos sociais, desde as

dimensões mais abrangentes (estruturais ou psicologizantes) até as proposições mais

pontuais, não se limitando a produção dos historiadores stricto sensu (

histórica pois, será tomada em seu sentido mais amplo, incorporando contribuições

oriundas de diversas áreas (

) Reflexão

)(FONTES,

1998: 2).

Deixo aqui a idéia, como instrumento de análise para a historiografia, que o

campesinato passe e ser visto como processo, que se tece -- e destece -- nas experiências e

relações sociais, para que se possa ser historicizado. E que também o processo histórico do