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Era mais um dia de escola.

Como de costume, eu saía de casa e deixava a


porta trancada, não fosse “o diabo tecê-las”. Punha o telemóvel dentro da
mala e ia com muito cuidado na rua, para que ninguém visse o que levava
comigo. Aquela zona costumava ser calma, mas, com o mundo de pernas
para o ar como anda, nunca se sabe.

Costumava ir na rua com maior movimento, seguindo o conselho da minha


mãe de nunca escolher ruas quase desertas, para não correr o risco de “ser
apanhada pelos ladrões”. Mas, naquele dia, estava um pouco mais atrasada
do que era costume, pelo que optei por ir pelo atalho que via sempre como
perigoso. Seriam só uns minutos, ninguém me iria fazer mal. Se alguém
desse pela minha presença era uma questão de correr e depressa estava na
estação.

Fui então pelo lado esquerdo, com o coração nas mãos e a olhar sempre de
um lado para o outro. Felizmente não apareceu ninguém e eu cheguei a
horas, sã e salva, à escola. Às vezes penso que os comentários do meu avô
é que me causam esta insegurança. Afinal, não tinha sido assim tão difícil.

O meu avô era um homem com 80 anos, baixo, carrancudo e de mal com a
vida. Está sempre a dizer que o nosso mundo já não é o que era, que já
ninguém pode dormir de porta aberta e que sair à rua até dá medo. Coisas
de avô. Eu não vejo maldade nenhuma no que ele vê!

Aliás, a minha mãe está sempre a discutir com ele porque ele diz que nos
deitamos muito tarde, que não temos horários para nada, que ela não me
soube educar e mais um monte de coisas sem sentido que lhe vão
passando pela cabeça ao longo do dia. Já para não falar na sua doentia
admiração pelo “Doutor Oliveira Salazar que tanto fez bem ao nosso país e
Capítulo I Andreia Carrilho Um olhar sobre Abril

a quem nunca souberam dar valor”. Francamente avô, o relógio não pára
por sermos retrógrados!

O meu dia correu como de costume. As aulas foram a mesma balbúrdia de


sempre, os assuntos no intervalo não passaram de vernizes e penteados e
do vestido novo que a Mónica comprou.

A Mónica está sempre a gastar dinheiro em roupa e acessórios novos.


Admito que tenho uma certa inveja, visto que, de todas as minhas amigas,
sou a única que não tem uma mala para cada conjunto que visto. A minha
mãe acha que isso é consumismo e que não há necessidade de esbanjar o
dinheiro em coisas supérfluas. Começo a pensar que estão todos contra
mim e que não estão minimamente preparados para viver os dias de hoje.

Hoje em dia não há ninguém que não compre “coisas supérfluas”, que não
tenha uns óculos ou uma mala que, na verdade, não fazem falta e que
nunca vão usar.

O que vale é que já estamos em Abril e daqui a dois dias faço anos. Não me
vão impedir de comprar uma ou duas pecinhas de roupa novas. Vou fazer
16 anos e quero uma festa em grande, digna de uma princesa! E claro que,
para isso, tenho que me vestir a rigor.

Desde que me lembro que quero fazer 16 anos, sempre achei que os anos
pares eram bons para mim. Aos 10 fiz a minha primeira viagem, aos 12 fui
ao meu primeiro concerto, aos 14 namorei com o Tiago, agora aos 16 tem
que ser ainda melhor!

Dois dias depois…

Hoje é o meu dia de anos, estou tão entusiasmada! Na escola, os meus


amigos fizeram-me uma surpresa e a Mónica deu-me uns brincos muito
giros.

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Capítulo I Andreia Carrilho Um olhar sobre Abril

Durante a aula, a professora de História esteve a falar do dia de hoje, 25 de


Abril, e da importância que teve a nível nacional. Lembrei-me do meu avô
durante a aula inteira.

Às vezes pergunto-me porque será que ele deu tanta importância ao Sr.
Oliveira Salazar se ele só fez mal às pessoas. Perseguia todos os que não
estavam a seu favor, a população vivia continuamente ressaltada, com
medo do que pudesse dizer ou até mesmo pensar, as mulheres quase que
eram vistas como máquinas, como criadas que os homens sustentavam
para, ao final do dia, terem tudo pronto. Como é que as mulheres
conseguiam amar assim? A minha avó sempre pareceu gostar tanto do meu
avô, mas não sei como aguentava aquele rancor todo e aquela revolta que
ele transmite sempre que fala.

Talvez hoje seja o dia ideal para o confrontar com esse assunto. Vou
esperar pelo jantar de logo à noite para falar com ele.

Enquanto espero, vou estudar a lição de história de hoje.

Eram oito horas da noite, o meu avô chegava agora da terra para o meu
jantar de aniversário. Ele ia aproveitar o meu dia de anos para ficar uns dias
cá em casa e fazer umas análises no médico de família.

O jantar era bacalhau com natas, o meu prato favorito, mas estava tão
ansiosa com a conversa que ia ter com o meu avô que só queria que todos
acabassem de comer o mais depressa possível.

Quando, finalmente, acabaram, tomei coragem e comecei a conversa:

- Avô, eu queria falar contigo sobre um assunto muito importante para


mim… - comecei eu.

- Diz, minha querida. O que te apoquenta? – Perguntou com um ar


brincalhão, mas, simultaneamente, curioso.

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Capítulo I Andreia Carrilho Um olhar sobre Abril

- Eu sei que o dia de hoje tem um significado muito especial para ti, tal
como para mim. Eu sei que hoje se comemoram 35 anos desde a Revolução
dos Cravos. – Disse.

- Sim, é verdade. Mas o que queres saber sobre isso? – Perguntou, ansioso e
com aquela expressão enrugada no rosto.

- Queria que me dissesses como é que se vivia na época e porque é que


pensas tão mal dos nossos tempos. – Interroguei-o, embora hesitante.

- Escuta com atenção: Quando era mais novo, tinha eu a tua idade, já o
Salazar estava há mais de 10 anos no poder e eu cresci a ouvir os teus
bisavós, revoltados com as decisões do Governo, questionarem-se sobre as
promessas que tinham ouvido, mas sem nunca manifestarem isso com
ninguém. Aquela altura era muito crítica para nós, para os do povo. O
dinheiro mal chegava para alimentar todos os filhos e as luxúrias estavam,
completamente, fora de questão. Não podíamos frequentar a escola
durante muito tempo, porque havia muito trabalho para se fazer, lá na
terra. Acabei por frequentar até à quarta classe que julgo ter sido bem
diferente da tua. Os tempos eram difíceis e as regras tinham que ser
seguidas à risca. – Contou.

- Então mas se era tão mau, porque é que apoias tanto o Doutor Salazar? –
Perguntei, confusa.

- Na altura em que me juntei às Forças Armadas, com 20 anos,


sensivelmente, julgava que derrubar o regime seria a atitude mais correcta,
uma vez que era o grande causador da nossa miséria. Ainda tivemos
esperança que com o afastamento do Doutor Salazar as coisas estivessem
destinadas a melhorar, mas só pioraram. Juntei-me ao Movimento e, no dia
25 de Abril, depois do soar da música na rádio, fiquei com o coração na
boca. Batalhámos tanto pela Liberdade que existe hoje e sinto que ninguém
dá valor ao nosso esforço. É por isso que, agora, ao contrário do que
pensava naquela altura, apoio o regime do Doutor Oliveira Salazar, porque,
por muito mal que tivesse feito, era um homem com orgulho em ser

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Capítulo I Andreia Carrilho Um olhar sobre Abril

português. Um homem ligado à Pátria de alma e coração, que faria de tudo


para conseguir o melhor para Portugal. – Continuou.

- Mas mudou assim tanta coisa? – Perguntei, cada vez mais interessada.

- Claro que sim, minha filha! Certamente saberás que as mulheres nunca
trabalhariam, isso era dever dos homens. A tua avozinha fez tanto por mim,
minha querida. Antigamente, antes da revolução, nunca poderias estar a ter
esta conversa comigo de consciência tranquila. – Completou.

- Sim, eu percebo avô. – Disse, pensativa.

- Então? – Perguntou a mãe. – Pode-se dar a conversa por encerrada?


Amanhã há aulas e ainda temos que cantar os parabéns.

- Espera mãe, deixa-me perguntar uma última coisa ao meu avô. – Dirigi-me
ao meu avô e perguntei: - Foi por isso que partiste para a África do Sul?

- Foi sim. Quando vi que a revolução tinha levantado muitos problemas,


sentia que os meus ideais tinham sido em vão, então decidi partir para a
Rodésia do Sul, para trabalhar. É um terceiro mundo. As pessoas davam
valor ao que eu fazia, respeitavam-me. Sentia-me muito bem lá. – Concluiu.

Senti-me satisfeita com a conversa, tinha conhecido um lado do meu avô


que nunca pensei que existisse, ele mostrava-se sempre tão frio e distante.
Afinal, era “só” a revolta e a frustração de uma vida de sofrimento e de
actos falhados, que nunca perdoará a si mesmo.

Cheguei à conclusão que a sociedade de hoje em dia sente-se livre quando


não o é. As pessoas andam tão cegas com as “coisas supérfluas” que não
têm tempo de ver o que realmente as rodeia e não se apercebem que agora
somos todos máquinas de fazer dinheiro. Não passamos disso. Quem me
dera poder fazer uma revolução, para mostrar a todo o mundo o quanto
está gasto e o quanto Portugal caiu. A Liberdade não existe, ninguém é
totalmente livre, mas mesmo assim, sempre que podemos, tiramos mais
um bocadinho da liberdade do outro e, sem termos consciência disso,

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Capítulo I Andreia Carrilho Um olhar sobre Abril

caminhamos para um fosso do qual vai ser muito complicado sair. Não peço
que Salazar volte, mas, pelo menos, que haja um Messias salvador da
Pátria, que tenha o poder de abrir os olhos aos portugueses, para que estes
vejam o que, realmente, é Portugal. Portugal está sujo, apagado e acabado.

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