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A Tempestade

Com o episódio do Adamastor, Vasco da gama termina a sua narração ao rei de


Melinde. Depois das despedidas, os portugueses retomam a viagem em direcção a
Calecut. Mas Baco, que se opõe ao sucesso dos portugueses, convence os deuses
marítimos, em consílio, a impedirem que aqueles atinjam os seus objectivos. Por sua
vez, os portugueses, que contam e ouvem histórias para não adormecerem, são
surpreendidos por uma violenta tempestade.

Divisão em partes:

A primeira parte do texto é constituída pela primeira estrofe, que estabelece a


transição brusca da repousada despreocupação dos marinheiros para a agitação da
tempestade; na segunda parte (de 71 a 80), é feita a descrição da tempestade; a terceira
parte (81, 82 e 83) contém uma sentida prece, em tom de queixa dolorosa, de Vasco da
Gama ao Deus verdadeiro (divina guarda, angélica, celeste); há a seguir uma quarta
parte (84) em que O poeta volta à descrição da tempestade; finalmente, na quinta e
última parte (85 e seguintes), Vénus intervém, fazendo com que as belas ninfas
acalmem a fúria dos ventos.

Síntese (75 – 79)

Os marinheiros acordam, repentinamente, com o apito do comandante para a


manobra, pois o vento aumenta e avista-se uma nuvem negra. Ainda os navegadores não
tinham terminado as manobras de preparação para a tempestade, quando o temporal cai
sobre a embarcação. O terror é grande, pois a embarcação está a destruir-se e o vento
não pára. Ouvem-se gritos de desespero; as aves marítimas, lembrando-se do último
naufrágio, manifestam tristeza; e os golfinhos, não se sentindo seguros, fogem. Nunca
se viu tamanha tempestade. Nem Vulcano fabricou tantos raios para Eneias na guerra
dos Gigantes, nem Júpiter lançou tantos relâmpagos no dilúvio. As enormes ondas
derrubam montes, os terríveis ventos arrancam árvores e as areias do fundo do mar vêm
para a superfície.

Análise
1. Indica os substantivos e verbos (estrofes 75 a 79) que estão intimamente
relacionados com a navegação:

Substantivos Verbos

1.1. Que nome se dá a este conjunto de substantivos e verbos ligados a um


tema específico?
R.: ___________________________________________________

2. O mestre dá ordens aos navegadores. Identifica-as, sublinhando as respectivas formas

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verbais no texto que se segue.

“Alerta (disse) estai, que o vento cresce


Daquela nuvem negra que aparece."
Não eram os traquetes bem tomados,
Quando dá a grande e súbita procela:
"Amaina (disse o mestre a grandes brados),
Amaina (disse) amaina a grande vela!"
Não esperam os ventos indinados
Que amainassem; mas juntos dando nela,
Em pedaços a fazem, com um ruído
Que o mundo pareceu ser destruído.

O céu fere com gritos nisto a gente,


Com súbito temor e desacordo,
Que, no romper da vela, a nau pendente
Toma grã suma de água pelo bordo:
"Alija (disse o mestre rijamente),
Alija tudo ao mar, não falte acordo!
Vão outros dar à bomba, não cessando;
A bomba, que nos imos alagando!"

2.1. Indica o modo em que se encontram.


R.: _______________________________________________________

O modo Imperativo serve para exprimir ordens, conselhos ou pedidos e


conjuga-se sem a colocaçao do pronome pessoal.

3. Completa o texto preenchendo os espaços em branco com as palavras da lista:


(aflição, sensações, movimento, exclamativo, realismo, dinamismo, auditivas,
acelerado, alegria).

3.1. A tempestade é descrita de uma forma muito realista e dinâmica. De


facto, podemos encontrar vários elementos que permitem uma visualização
do desenrolar das situações.
3.1.1. A abundância de frases do tipo _____________ reforça o sentimento
de _______________ dos navegadores e a necessidade urgente de
agir, realçando a veracidade dos factos.

3.2. Repara na maioria dos verbos usados: tocar, acordar, despertar, alertar,
amainar, destruir, ferir, romper, alijar, alagar, correr, derrubar, menear, pôr,
crescer, derramar, subir, descer, alumiar, arder, levantar, entrar, fugir,
fabricar, obrar, arremessar, converter, arrancar, revolver.
3.2.1. Todos estes verbos traduzem ________________, manifestam acção,
impondo um ritmo muito ________________, quer na progressão da
tempestade, quer na aproximação iminente da morte.
Simultaneamente, a presença de várias ______________ - visuais,
_____________, tácteis, cinéticas – também proporciona ao leitor
_____________ e permite-lhe quase “presenciar” as situações.

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Síntese (80 – 83)

Vasco da Gama vendo-se perdido, confuso e impotente perante a tempestade,


agora que estava tão perto de alcançar o seu objectivo, resolve pedir ajuda a Deus,
argumentando que já ultrapassaram muitos perigos em nome da fé. Menciona que com
aquela viagem não pretendem ofender mas servir a Deus. Refere também que são felizes
aqueles que morreram em luta pela fé em +Africa. Enquanto Gama suplicava, a
tempestade avassaladora continuava.

Exercícios:

1. Assinala com V (verdadeira) ou F (falsa) as seguintes afirmações:


a) O narrador deste episódio é Vasco da Gama.
b) Este episódio é bélico.
c) O mestre toca o apito.
d) A descrição da tempestade é dinâmica.

2. Classifica este episódio:


a) Bélico
b) Lírico
c) Mitológico
d) Pictórico
e) Simbólico
f) Naturalista

3. Completa o seguinte quadro com os fenómenos fonéticos correspondentes:


(epêntese, assimilação, paragoge)

Arcaísmo Forma actual Fenómeno fonético


dece desce
nacem nascem
fermosas formosas
assi assim
mi mim

4. Associa o respectivo significado às passagens do texto:

Medidas tomadas pelo mestre Respectivos versos

a) Toca o apito “alija tudo ao mar”

b) Manda tomar as velas do mastro grande “amaina a grande vela”

c) Manda colher a vela “vão todos dar à bomba”

d) Manda lançar tudo ao mar “o apito toca”

e) Manda os marinheiros dar à bomba “os traquetes das gáveas tomar manda”

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5. Associa os versos aos respectivos argumentos que Vasco da Gama apresenta
para que a “Divina Guarda” o auxilie.

Argumentos Versos

a) O facto de a viagem ser um “Que os céus e os mares senhoreias”


serviço prestado a Deus

b) O poder divino “Ditosos aqueles que puderam /


Entre as agudas lanças africanas morrer”
c) A preferência por uma morte
heróica a combater pela Fé Cristã,
a um naufrágio que depressa “Mas antes Teu serviço só pretende”
cairia no esquecimento.

A intervenção de Vénus e das Ninfas (84 – 91)

Luís de Camões narra que a deusa Vénus, ao ver o estado do mar e o perigo que
corria a armada portuguesa, sentiu medo e ira. Vénus diz de imediato que aquela
situação é obra do atrevimento de Baco, mas que não irá permitir tal maldade. A
protectora dos portugueses desce ao mar e ordena às ninfas que se enfeitem com
coroas de flores para acalmar os ventos. Estes, ao verem as belas ninfas, ficam sem
forças para lutar e a ninfa Orítia ameaça o seu amante, o vento Bóreas, que, se não
terminar com a tempestade, em vez de o amar vai passar a temê-lo. Galateia também
prometeu amor ao feroz vento Noto e as outras ninfas, de igual modo, amansaram os
seus amantes. Assim, Vénus prometeu favorecer os ventos com seus amores e estes
ser-lhe-iam leais durante a viagem dos navegadores portugueses.

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Conjunções e locuções subordinativas
Relembra, no quadro seguinte, as principais conjunções e locuções subordinativas:

Subclasse Conjunções Locuções

porque
pois pois que uma vez que
Causais porquanto por isso que visto que
como já que visto como (...)
que

a menos que
a não ser que excepto se
se
Condicionais contanto que no caso de (que)
caso
dado que salvo se, se não (...)
desde que

para que
Finais que por que
a fim de que

quando antes que primeiro que


enquanto depois que sempre que
apenas logo que tanto que
Temporais
mal assim que todas as vezes que
como desde que à medida que
que até que ao passo que (...)

ainda que
por mais que
embora mesmo que
por menos que
Concessivas conquanto posto que
apesar de que
que bem que
nem que
se bem que

do que segundo/consoante/conforme
como
assim como ... assim
conforme
também tão/tanto ... como
Comparativas consoante
bem como como se
segundo
mais ... do que que nem
que
menos ... do que qual (...)

de maneira que de modo que


Consecutivas que
de forma que de sorte que (...)

que
Integrantes
se

Repara na frase:
“Enquanto manda as Ninfas amorosas” (est. 86)

Se leres em voz alta o verso “Enquanto manda as Ninfas amorosas”, verificas


facilmente que a ideia não está terminada, que falta uma continuação, ou seja, esta
oração depende de outra que a completa. Por essa razão, esta é uma oração subordinada.

As orações subordinadas são introduzidas por conjunções (uma só palavra) ou


locuções (mais do que uma palavra) subordinativas e não podem existir isoladas, dado
que dependem de uma oração principal.

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Processos estilísticos usados pelo poeta para realçar o medonho temporal:

Verifica-se em primeiro lugar o contraste estabelecido, na estrofe introdutória


(70), entre a despreocupação em que vinham os marinheiros e a súbita agitação em que
entraram logo que a tempestade irrompeu. Atente-se na expressividade dos adjectivos e
expressões caracterizantes da tempestade e dos seus agentes: grande e súbita procela;
ventos indinados; mares temerosos; os ventos eram tais...; ondas de Neptuno furibundo;
os ventos queriam arruinar a máquina do mundo; a noite negra e feia, as furiosas águas;
O grão ferreiro; relâmpagos fulminantes; fúrias indinadas; os ventos lutavam como
touros indómitos, relâmpagos medonhos, feros trovões. A fúria da tempestade é também
posta em relevo pela actuação de certo modo desorientada dos marinheiros: despertando
os marinheiros duma e doutra banda, amaina, amaina a grande vela; alija, disse o mestre
rijamente, alija; vão outros dar à bomba, à bomba (note-se a aflição e rigor das ordens
do mestre, reveladas sobretudo pelo advérbio rijamente, pela repetição dos imperativos
e pela frequência dos verbos de movimento); O céu fere com gritos nisto a gente, com
súbito temor e desacordo; a gente chama Aquele que a salvar o mundo veio (note-se a
desorientação dos marinheiros e do Gama, que também pede a intercessão da Divina
Guarda). A força da tempestade é ainda realçada pelos seus efeitos sobre os barcos e
animais marinhos: em pedaços a fazem (a vela); a nau toma grão suma de água; nos
imos alagando; num bordo os derribaram; os delfins fugindo à tempestade e ventos
duros. O poeta recorre também a expressivas comparações: os ventos eram tão fortes
como se viessem destruir a torre de Babel (74); os raios fabricados por Vulcano eram
mais terríficos do que os usados na fabulosa guerra contra os gigantes e os relâmpagos
lançados por Júpiter eram piores do que os do grão dilúvio (78).

A chegada à Índia (92 – 93)

Já tinha amanhecido, quando os marinheiros avistaram terra. A tempestade tinha


passado e o temor também, quando o piloto de Melinde diz que aquela “Terra é de
Calecu”, a Índia que procuravam. Luís de Camões conta que Vasco da Gama, com
enorme emoção e de joelhos no chão, ergue as mãos para o céu e dá graças a Deus.

Exercícios:

1. Que planos da narração estão presentes neste excerto?


a) Plano da Viagem
b) Plano Mitológico
c) Plano da História de Portugal
d) Plano do Poeta

Neste episódio, o plano da Viagem e o plano Mitológico entrecruzam-se, pois a


intervenção de Vénus e das ninfas, aquando da tempestade, ocorre durante a viagem.

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Planos narrativos:

Mais uma vez se verifica que a intriga dos deuses é paralela à acção funda-
mental d' Os Lusíadas – a viagem até à Índia. Com efeito, na altura em que os
portugueses singravam admiravelmente em direcção à Índia, mais uma vez os deuses se
debatem em consílio. Por efeito do discurso de Baco é desencadeada esta tempestade
contra a armada portuguesa. Mas, mais uma vez, Vénus intercede pelo povo luso,
mandando as ninfas acalmar os Ventos.
Também o maravilhoso cristão não só se cruza, mas até se confunde com o
maravilhoso pagão. Com efeito, os marinheiros imploram a protecção de Cristo e
Vasco da Gama, a da divina guarda celeste (Deus verdadeiro), mas, ao fim e ao cabo, é
Vénus que vem acalmar a tempestade. Daqui, como de todas as vezes que Gama
implora a protecção do Deus verdadeiro, se conclui que esta atitude traduz apenas a fé
cristã dos marinheiros portugueses, porque só os deuses pagãos agem (alegoricamente)
como verdadeiras personagens intervindo e modificando a acção.

2. Associa as palavras ao fenómeno fonético que sofreram.

a) Menham > manhã


Paragoge
b) calecu > Calecut
Metátese
c) Geolhos > joelhos
Assimilação
d) Agardeceo > agradeceu

3. Selecciona a figura de estilo comum aos seguintes versos:

a) “Em pedaços a fazem cum ruído Metáfora


Que o mundo pareceu ser destruído”
Hipérbole
b) “O céu fere com gritos nisto a gente”
Metonímia

4. Faz corresponder os diferentes tipos de sensações aos respectivos exemplos:

a) Sensações visuais “Ventos duros”


b) Sensações auditivas “Quantas árvores velhas arrancaram”
c) Sensações tácteis “Gritos vãos”
d) Sensações cinéticas “Noite negra”

Bom trabalho! Maria Filomena Ruivo Ferreira Santos

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