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FLORESTAN FERNANDES 7. HUCITEC Apresentacao 4 HELOISA RODRIGUES FERNANDES | Apontamentos sobre A‘“*TEORIA DO AUTORITARISMO” | Por sus origem ¢ natureza, este ndo é — nem poderia ser — 0 que se entende vulgarmente como um “livro acabado"” ¢ definitive. En- gendrado em uma sala de aula, el busca d rflendo ertia cao debate. © ialogo, que antes se abria para o estudante, agora se prope a0 Ieitar que esteja interessado pelos ruimos da histéria contempordaca em seu fluir para a frente, Tem-se_insistido demais no contraste entre “democracia”” ¢ ““autoritarismo” e, como consequéncia, na oposigao linear e misti- ficadora entre teoria do tiberalismo ¢ teorie do auroriterismo. F. Fernandes aproveitou o seu curso, sobre o ultimo tema, dado 1a PUC de Sio Paulo, para colocar as questdes eandentes de uma perspectiva ‘socinlsta, Dai o giro que a andlise sociologica sofre em suas mos. [Nio se trata de foealizar a *'democracia"” em geral e tampouco de en toar a cantilena dos que confundem a *'democracia burguesa"” com a liberdade perfeita. Mas, de discutir as formas concretas da demo cracia burguesa, no centro e ns perteria do mundo capitalista, ¢ as foormas igualmente concretas de rensigdo para o socialism em nossos as. [As aniotacOes s6 contém o essencial. Aina assim, elas fornecem os dados fundamentais para uma sondage mais ‘ampla. Como salienta Heloisa R. Fernandes em seu belo prefacio, a indagasdo sociologica apanha, provocativamente, os varios aspectos erucias da formagio desagregagio das estruturas capitalistas de poder ¢ da emergéncia das sociedades socialists. Desdobra-se um painel que permite focalizar as chamadas ‘revolusdes de nossa época”” de uma Perspectiva global e que fundamenta o exame objetivo do problema a democracia. Esta nao se confunde com 0 capitalism e 0 desa- Darecimeato dele surge como a condicao historia, necessaria & pas- pager a formas de regime politico que concliem a democracia com & igualdade social c, a largo prazo, coma diluicdo e a suoressao final do Estade como entidade-chave de dominaglo de classe ¢ come aparelho repressivo. © livto suscita, pois, © tema da relagao da sociologia com 0 socialismo. A chamada Sociologia da ordem sofreu force influéncia ideologica de conotagao liberal e conservadora. Essa influencia con- vertewse, com o iempo — especialmente quando a dominacao bburguesa passou a uma posisao de defesa de caréter reacionatio contra-revolucionérie — em uma espécie de bota de chumbo. Ela ex- treitou o ambito de reflexdo sociologica e Lornou-a, ao mesmo tempo, nti-historica € mais ou menos cega ao presente. ‘A polarizagao socialista provoca um inflaxo inverso. Ela libera a analise soclologica, projetando-a no amago da “historia em proces- 50”. O que permite nao s6 entender melhor “o presente como his- ia’; mas, amber, comporta una indagacao de tipo especial: como cstrutura c historia esido relacionadas dialesicamente, de tal ‘maneira que se pode passar do aqui e do agora para 0 fuluro em elaboragdo? Em suma, a erise do capitalismo nao é 0 “fim do rmun- do”. E'os regimes do socislismo de acumulagto, apesar de seus dramas e insuficiéncias, constituem 0 ponto de’partida de uma realidad hist6rica inteitamente nova, AS proprias contradigoes do sovialismo de acumalasao operam no sentido da supressao daquelas limitagbes ¢ da gestarto gradual de novas modalidades de democracia direta’e total. Coleco Pensamento Socialista direedo de Florestan Fernandes DO MESMO AUTOR NA EDITORA HuCITEC FLORESTAN FERNANDES Circuito Fechado, segunda edigao Folelore emt Questo A Condigio de Soacidlos : Fr APONTAMENTOS SOBRE A “TEORIA DO AUTORITARISMO” ‘POMBO. . -63506 To usr EDITORA HUCITEC Sao Paulo, 1979 © Dircitos autorais, 1978, de Flocesten Fernandes, Direitos de publi cago reservados pela Editora de Humanismo, Cigacia © Tecnologia Hiucitec Ltda, Alameda Jat, 404, 01420, S30 Paulo, SP, Bresil: Tele fone (O11) 287-1825. Caps de Claus P.'Hergner. Servigos grificos da Empresa Grafica da Rey 38, 01512, 8i0 Paulo, SP, Ww Nv DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI WORALUAVNY | 21200050096 I A TODOS AQUELES QUE LUTAM, SOFREM i E MORREM SEM ESPERANCAS. | a § Preficio Como escrever 0 prejicio ao livro do proprio pai? Impossivel wrailuzir m0 papel verdadeiro pinico que se apodera de aiguém sujeito a wm desafio téo intimo, to direta. Pai ¢ filha sto submetidos ao face-a-face mais aberto, mais dec rado, mais sem subterfigios: quem eu sou, quem é vecé, na raiz. Um confronto, wm ajuste, um chogue de duas pessoas que, no final, nio sto dois outros, mas produtos una do outro. Quem @ voc® ja esid indicado pelo Jato de vocé néio ter pe- dido, mas exigido, que eu fizesse este preficio. Quem sou eu também & sugeride neste entreato: a filha que entra em panic com © confronto mas que, de qualquer modo, 0 aceita, ainda que como desafio. Um desafio pessoal? Acettet, portanto, 0 confromio, Li e reli seu trabalho aten- tamente, pacieniemente, criticamente. Li, reli, refiz a leitura E posso afiancar que este livro é imprefacidvel. Um preficio, garantie 0 diciondrio, signifiea aguilo que se diz no prinetpto Trata-se, portanto, de uma adveriéncia, de um prologo. Logo, quem escreve © prefacio demonstra dominar, em algum nivel, © prdprio livro ou seu autor, Quanto ao autor, & desnecessirio repisar aqui aquilo que iodos admitem, inclusive seus oponentes: voc é um intelec- ‘tual insubmisso, inquieto, indomével. Uma inteligdncia que nao se domestica, ndo se submete frente ao adversirio: aos que dominam, opriment, reprimem. Entretanto, submete-se @ disci- plina Jérrea ¢ estafante do trabalho intelectual, Horas ¢ horas de uma vida quase integralmente consumida nas bibliotecas, nas pesquisas, na producto de livros, nas salas de aula, nas re conforéncias © na pritica politica Em resumo, uma inteligén- cia que ndo se submeie & dominacdo porque firmou um com- promisso com 0 socialismo ¢ a tarefa histérica da Revolugao. Quanio ao livro, traduz quem 0 produz. A hisiéria da do- minagio burgtesa se nos apresenta como ela é: selvagem, dura, estratural, mas, por isso mesnio, historica, gravida de contra digdes que se afirmam como potencialidades, brechas, ruptu ras que seu trabalho nao s5 alude mas aponta e denuncia. Uma realidade histérica impossivel de ser dominada por uma pessoa, mas apenas pela pritiea revoluciondria de uma classe, Ea partir dela, sobre ela e para ela que este livro é escrito Entretanto, esta classe nao excreve prefdcios. Age, ele bord, recria na histéria da sua propria Iuta. Neste processo ela incorpora um trabatho intelectual como o seu da Jorma que the é especifica: ela se apropria da teoria como sua arma da e para a pratica. Nao escreve prefécios, mas faz « Histéria, E nesta Hisidria que, no ajuste de contas, serd escrito, como realizacio, 0 “prefidcio” deste sew livro. Eniretanio, se tanio 0 produtor como seu produto sito inulo- miveis e no se prestam ao artificio de um prefdcio que os contenha nas linhas de um resurao, é porque possuens “linhas de jorga”, no sentido mais vital e hist6rico do termo. Se a inteligéncia nao se submete € porque luta contra ¢ se afirma ‘no seti proprio campo. Esta luta se traduz em linhas de forga do. préprio trabalho. Primeira insubmissio. Esta pode ser salientada io processo mais formal que da origem a producto deste livro: tratese de cnotacées de aules para um curso de graduagdo para alunos do Departamento de Poltiica da PUC. Portanio, é 0 resultado de wm trabalhio-pedagégico especifico: sto aulas que tm por Jinalidade a formagao de wn determinado ptiblico universit rio. Entretamio, isto nio significa que os temas sejam tratedos superfictaimenie. Ao contrério, se twansforma esta limitagtio na primeira forca vital do teabatho: os temas sao demarcados € examinados em extensdo e profundidade sem qualquer compla. eéncia ow pseudopaternalisino — é impossivel sequer realizar um Tevantamento bibliogrdfica integrat dos autores utilizados 440 longo desie curso. Do prisma da qualidade ndo se faz ne- nhuma concessto co pitblico: esie 6 submetido a um trabalho pedagégico sbrio, projundo, extenso @, por isso mesmo, esta: Jante, Eniretanto, — dat nova linha de jorca — 0 respeito a0 piblico se traduz na forma da exposigdo: a clareew cons tilui 0 principio pedagdgico a partir do qual idéias e concetios se ligam dialeticamente na delimitagao da problemdtica da curso. Principio que traduz a sua concepedo do trabalho pe: dagégico: educar 6 clevar, construtivamente e criticamente, A clareza € um instrumento deste trabalho. Segunda insubmissio. Esta ocorre quando é subyertido 0 te ma do préprio curso. Esta subversio ocorre em dois momen: os, No primeiro momento, com a justificativa de nao ser um ciemista politico, quendo, na verdade, subjacente a esia ofir magio esté uma questo de método: aceitar as “formagées aca- démicas especificas” significava, no fundo, validar uma pos- ura que condus 2 pulverisagdo do proceaso do real em ‘tveis" compartimentalizados, estanques ¢, por isso mesino, estérels & pritica politica, Subjacenie é justificativa esta, de fato, uma postura através da qual se preserva a esséncia deste proceso: sua unicidade, apreendida, entretanto, nas miltiptas ¢ muiua- mente contradit6rias formas de sua manifestagdo. Em sintese, rovamente se transforma uma aparente limitacdo pessoal em nova linha de forca:/a realidade é apreendida na sua his dade mesma, Afirma-se, portanto, como trabalho que reivir- dica @ afirina seu lugar no eantpo do materialismo historico. No segundo momento, quando subverte a problemdtica do proprio curso. Aqui, de fuio, a eritiea nao 6 sub-repticia mas direta e radical. O trabalho se inicia pela critica contundente @ definitiva nao s6 a propria teoria que empresta realidade 0 conceito ¢ ao tena, como denuncia as jorcas sociais subja xT ( ) \ comes a esta teoria; jorgas airavés das quais “a ‘defesa do ordem’ se instaura no horizante intelectual do analista pott tico. (...) Portanto, a ciéncia politica fecharse dentro do uni verso burgués ¢ introduz o elemento autoritdrio na substaricia mesma do ‘raciocinio cientifico’. Ou tal defese da erdem nao se junda na idéia de que a autoridade da ‘ciéncia’ confere unt cardter racional, definitive ¢ eterno co modelo de democrac ‘que. resultou do capitalismo?”, Ou seja,(ileruncta a problené tiea do adversdrio gue elabora ¢ justifica 0 conceito mesmo de “autoritarismo”, concetio que permanece corprometide com a critica liberal burguesa @ cujo verdadeiro oponente niio é, de Jato, a ditadura jascista mas @ revolucto proletéria ¢ a de- mocracia popular. Noyamente, portanto, aquito que tridicava ‘uma limitacdo do trabalko — submetido ds exigencias in postas por um tema produzido pela problemdtica do adverse rio — se transforma emt linka de fore Através da critiea do conceito, se recusa a problemidtica do ‘eponente ¢, no mesmo processo, se afirma a esséncia ¢ os Ii mittes da prépria: “A partir do elemento bucgués da democracia tem-se feito a defesa militante do liberalismo ou da denocracia parlamentar. E iguatmente legitimo fazer 0 inverso: a partir do elemento proletério da democracia, jazerse a defesa do socialismo e da revolucdo social. (...) A equacdo que foi posta em relevo: estrutura e histéria. O que permite ao socidlogo combinar a investigagio rigorosa ¢ a responsabilidade intelectual (. O que isso tem a ver com o presente curso? Titdo! Pri- meico,fnio vemos o poder como,uma realidade transcendenial ‘e-em iermos formuis-dedutivos. Mas como uma realidade histé- rica, Segundo, porque no nos separamos do processo hisidrico- social descrito. (...) Essa perspectiva é que permite encarar © capitalismo recente om termos de jorgas soctais que ‘enfren- fam 0 desmoronamento’, corn vistas a corsolidar a defesa da \ ordem existemte e a sua reprodugao: ¢ as jorcas sociais alter \nativas, que ‘aprofundam 0 desmoronamento’, procurando criar entro das condicbes existentes nto x6 ina ‘mudanca da ordem/ xn mas, também, a transicdo social para uma ordem social dife” \rente.” 7 ie sin, « problemétiea central desie trabathor Jas > realizacao e reprodugao da dominagao burguesa @ as formas de luta € transjormacéo do protetariado, Estritura € histéria apreendidas por e através das forcas sociais en Init Estrutura e histéria da dominacdo burguesa — apreendida no préprio processo de realizecdo iniensiva e extensiva do mode de producto capitalista. Historia das Iuias das classes. domi nadas ¢ estrutura de wine nova hisiéria: do movimento socia lista € da revolucao proletéria (na Reissia, China, Tugoslavia, Cuba, Viema ...). Problemética cuja andlise 6 balizada pela perspectiva que pentra a diica do curso: a tua de classes, } Cerco cipiialista ¢ os problemas reise de) prio “socialisimo de acunnulagao’s Histéria da nossa época, da nOSSO~ CTD sa conjuntura. Histéria que néo adm te “preficios”. mas exige respostas wbricas e decisbes priticas, Eis 0 come deste trabalho, Entretanto, as insubmissbes afirmarese dentro de limites claramente demarcados pela responsabilidade intelectual. A and- lise que reconstréi o proceso do real objetiva & prética, mas & pritica sem ideulismos ¢ sem dogmatismos. Insubmissao res. ponsavel e cientifica porque nto menospreza a eavergadura da arefa a realizar ros dois campos. De um lado, porque, sob 0 campo da dominagao burguesa 4 “questio do ‘tigre de papel’ precisa ser evocada, Os que subestimam a flexibilidade do capitatisma na era do imperia- lismo e a capacidade de decisio de una burguesia aneagada devem rever 0 diagndstice (...) para interpretar methor 6 presente endo ‘simplijicar a histéria’. O cerco capitalista 6 uma realidade externa ¢ interna ao funcionamento do capita: lismo no plano nacional e no plano mundial, Temas de com preender isso para entender melhor 0 fluxo da historia ¢ as alternativas da contra-revolugiio ¢ da revolugao,”” = de outro lado, porque, sob 0 campo sociatisia, a “prin- cipal conseqiidrcia econdmica do ‘socialismo em um 36 pais! XUL aparece wa prioridade do desenvolvimento econémice sobre a Prdpria revolugao soctaista", Nao obstante, mais. “do que fi! Preiismo, democrético, o gue se espera da Rissia, neste ult mmo quartel do séeulo XX é uma demonsiracao da viebilidade do proprio corunismo” Conhecer ¢ onsar, esirutura ¢ hist6ria, teoria e prética, ideals com reatisma, este o campo de forgas a partir do qual se inadia a problemdiica deste trabalho. Propositadamente, adiet para o final uma tltina insubmi: cio, Meubmisszo que consitiai sua forea pessoal: obstinalt, ‘nflexivel, inquebranidvel. Insubmissto daguele que se reek inoncio oe afirma sua presenca a qualquer custo: por rodos os poros & por todas as brechas. Bate trabalho, j4 foi dito, & o resultado de um curso reali cade na PUC. E nto na Universidade de Sto Paulo, Nao nt USP 4 qual voce dedicou metade de sua vida. Com a ual Myriam, Noémia, Beairiz, Silvia e eu, @, wm pouco menos © Tanior e a Litela repartimos vinie ¢ cinco anos da sua exis vimeta, E que rival! Quanto amor e dedioagao voc? the deu! ‘Guanias railhares de toras de estudo, de pesquisa, de aules de trabalho durot ‘Até que, em 1969, vocb joi promlado por sua dedicagio, aposentadoria compulsoria. Sei quanto isto Jol duro. ‘Mas voc? ‘ilrapassou tudo isso. Voce que saira grande da Universidade fagigantouse uinda mais. Sua obra posterior foi crescendo, {o- vem se quebrando as amarres da Academia. O esparo do see Tia da apreseniogto e do ciertista do texto se adensou. Hole sovalista « ctentisia estio jundidos num mesma toxto, AS ra, Saduras ue the afligiam foram sondo preenchidas. Voo® 38 superou, Voee nao esié vivo x6 para a Universidade, mas para a sociedade, para a revoltcdo social. B é por isso que disse que seu livro é imprefactavel. Porae ale é tm desofto, Nao s6 2 mim que five essa ineumbenela, xv mas a toda a minha “‘goragao”. ha “geragio”. E a cla yi Z neg crac que transfiro esse de safe: de um trabalho cientificanente coerente, € Hones f Moonie onagenie) Gussala A st en motion de 0 og date may de crs intelectual, E muito Jail nader com as 4 favor, mas é preciso ext fe resistencia vciso extrema ten éncit fera‘nadar conn sas. oe@ eomegiia xv 1.2 —0 ponto de vista socilggico no eudo do problema 11 2, O Estado sob 0 capitalismo revento aS 19 2.1 — Classe ¢ conflito de classes sob o expitalismo mono- polista 19 2.2 — 0 Ewado capitatista na era atwal 8 2.5 — O Estado capitalists da periferia ,.... 3 2.4 — A contrarevolugio em escala mundial a 3. O Estado na “transigie para o socialisme” . 58 3.1 — Auworitarismo © s0cistisme eee cece 39 3.2 — O cerca capitalists ......... sii os 3.5. — As revolugies sociaises do século XX: ox dimes do “socialismo de acumulayio” Sienerenaee 80 PASTA. Explicagio Este opaseulo contém as anatagées de um curso sobre a “Teo: ria do Autoritarismo”, que dei em parte do dltimo trimestre de 1977 para os alunos do terceiro ano de graduagio do De- ypartamento de Politica da Pontificia Universidade Caidlica de ‘So Paulo, O convite nasceu de uma iniciativa do professor Miguel Wadih Chaia ¢ se concretizou gragas ao empenho dos professores Maria Tereza Aina Sadek ¢ Paulo Edgar Rezende. ‘A esses professores, ¢ aos estudantes que os apoiaram decidi- damente, devo essa oportunidade de desobediéneia civil na “es: fera académica”. Outrossim, sou imensamente grato aos colegas do Departamento de Politica da PUC, que me receberam com um calor humano ¢ ums camaradagem intelectual que me pa reciam extintos em nosso ambiente universitirio Na vetdade, nav suu cieniista politico nem tonho ereden cisis para corresponder criadoramente a um curso sobre maté ia to complexa, Nio obstante, aceitei o convite e organizet © programa de modo a enfrentar as tarefas didéticas decorren- tes como me seria possivel fazé-lo. Eis aqui o projeto ori- ginal do. curso: 1. Existe uma “‘teoria do autoritarismo”? 1.1 — parte conceitual ¢ critica, 1.2 — 0 ponto de vista sociolégico no estude do pro blema. 2. 0 Estado sob o capilalismo recente. 2.1 — classe @ conflito de classes sob o capitelismo monopolist. NIX 2 — 0 Estado capitalista da era atual, 5 —o Estado capitalista da periferia 4 — a contra-evolugao em escala mundial, Estado na “transig&o para socialismo””®, 1 — auloritarismo e socialismo. 2 — 0 cerco capitalista. -3 — a3 revolucdes sovialistas do século XX: os dic Temas do “socialism de acumulagao”. +4 —O Estado do periodo de transigao ¢ fungdes. Bung SRE F claro que os apontamentos apenas serviram como pontos de partida e de referéneia das prelecdes. O “trabalho reali: zado", abalango-me a afirmélo, foi mais longe © ere mais ex- tenso. O que fica, para os leitores, ¢ 0 travejamento, 0 “essen- cial”, aquilo que guiou o meu pensamento ¢ 0 diflogo com 98 estudantes. Por que publicar tais apontamentos? Porque eles dio teste- munho de nossa produgao. ** Fomos oxcluidos da universi: dade © despojados de nosso meio de trabalho — mas ngo paramos nem desertamos. Muito a0 contracio! E se nao. faco mais, elaborando os apontamentos, € porque acredito que eles contém, como estéo, a contribuigao que posso dar. Expostos @ mpoténcia que manietou a sociedade brasileira, dos estu- dantes e professores aos operdrios ¢ destituidos, tentamos mos- rar que uma pedagogia de contestardo se recusa ao siléncio, Fui avante, pois, na tentativa de combinar sociologia e socia- = As ocorténcias que afeiaram 2 PUC € 0 feriado de 15 de novem- ‘bro tomaram impossivel desenvolver todo o programa. A iltima questio fei absorvida pele peniiltima, 0 que temou © terceiro tema mais inclu: sivo ¢ foreou uma elaboraric mais ampla do segundo. No essencial, apesar desses modificacdes © do congestionamento diditico sesultante dos temas 2 ¢ 5, toda a maiéria foi exposta, Cada unidade diddtice abrangia, em média, trée horas de trabalho (dues horas, mais ox menes, de exposicio: © uma de debate) ** Quando passo do singular para o plural 6 preciso que se entenda: tenho em mente outros colegns ¢ corpanheiras que se defron- tam com a mesma situacio e de aeordo com Identiffeacdes ou responsa Dilidades andlogas 2x lismo ede aczitar os riscos intelectuais da publicagao deste ‘optisculo — nao para dar int exemplo, mas para pér em pré- tica uma profissio de {é ¢ de luta, Nem # sociologia nem os socidlogos foram esterilizados. A contratevoluczo tem ganho muitas batalhas. Porm, 0 Povo brasileito € 0 nosso part metro: com ele e através dele venceremos a contra-revolucgo. Sao Paulo, 18 de janciro de 1978 FLonestaN FerNanpes xx TEORIA DO AUTORITARISMO | 1. Existe uma teoria do autoritarismo? (Guss aulas: 1, parte coneeitual ¢ eritica: 2. 0 ponto de vista sociolégico no esiudo do problema) 1.1 — parte conceitual erttica © conceito de autoritarismo & um conceito logica- mente ambiguo e plurivoco (Max Weber 0 chamatia de “amorfo”), O que cle tem de pior € uma espScie de perver- séo Igica, pois esté vinculado a0 ataque liberal aos “abusos de poder” do Estatlo e a eritiea neokantiana da “exorbitincia da autoridade”, © melhor exemplo das duas polarizagées é 0 celebre livro de E. Lassirer (I'he Myth of the State, Londres, Oxford University Press, 1946). Esse livro desvenda a natt- reza © 05 limites da critica Iberal: nfo se busca o desmasea- ramento do Fstado burgués, mas a dentineia de sua versio tiré- nica mais completa, Mesmo so propor-se uma tarefa tao com- plexa ¢ dtdua como vem a ser a descricfio © a andlise das origens e das manipulagses politicas do “mito do Estado” — @ 20 confrontar-se com o nazismo — Cassirer mantém-se preso & idéiw de que’ é preciso conhecer 0 adversério para com. baté-to! No aparecimento das cigneias sociais 0 termo acabou sendo corrente na psicologia, na sociologia e nos tratadistas do di- relic, sempre numa dessas duas linhas de compreensio do que se poderia chamar de “‘aspectos sociopaticos” da autoridade constituida © da “irracionalidade do comportamento humana” 3 na época do liberalismo. A liberdade era negada no plano das relagdes do individuo com o Estado ou desaparecia nas “re: ages de conformismo” do individuo com a sociedade (0 que pressupunha que em todos os grupos instituigoes 0s requi sites sociais da liberdade da pessoa cram mais ou menos de- turpados e solapados por uma ordem social competitiva que nao impunhe seus yelores axiométicos — fundamentos axio- Jogicos dela prépria, acima de interesses, impulsos ou da vicr eneia pura e simples). Dai o fato corriqueiro para os autores alemaes: 0 Rechisstadt niio garantia os “direitos do cidadao”; ou, por sua vex, a familia, a empresa, a escola ou a igreja ope- ravam normalmente como um foco de repressao institucionali- zada, contra os requisitos “racionais’” ¢ “‘normais” de uma socic- dade competitiva e individvatista, fundada no contrato © na liberdade fundamenial do individuo. Tudo isso aparece nos varios campos des ciéncias sociais, embora tenha sido a psico- ogia a disciplina na qual 9 tema encontrou um desenvolvi- mento empitico © teGrico mais sistemético (nfo s6 por causa da psicandlise, mas principalmente por sua causa). De inicio, houye uma tentativa de delimiter a esfera da autoridade com referencia 2s manifestagbes do poder em ger ‘Max Weber encarna de modo preciso essa tentstiva: ele define como poder “a probabilidade de impor a propria yontadc, dentro de uma relacao social, mesmo contra toda resistencia € qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade” e como dominagdo “a probabilidade de encontrar obediénci mandato determinado contido entre pessoas dadas” mia y Sociedad, yol. 1, Teoria de la Organizaci ‘Trad. de J. Medina Echavarsia, México, Fondo de Cultura Eco- n6mica, 1944, p. 53). Por af ele contrapde autoridade e poder, pois inclui a autoridade enire as relacGes de dominacio. Como diz: [A dominegao] "Nao é, portanto, toda espécie de proba- bilidade de exercer ‘poder’ ow “influéncia’ sobre os outros homens”, “No caso conereto, esta dominscGo (‘autoridade’), no sentido indicado, pode descansar nos mais diversos mo- tivos de submissio: desde o habito inconsciemte até 0 que so consideracdes puramente racionais com relacao a fins, Um de- imo de volume de obediéncia, ou seja de inte- esse (externo ou interno) em obedever, & essencial em toda relagio auténtica de autoridade” (idem, p. 221). [Cui dentro dessa. categoria 0 comportamento de militares que procurem, por exemplo, monopolizar a autoridade mas nfo 0 poder = Iciwse a respelio “Notas sobre a Teoria da Ditadura”, de F. Neumann, ensaio publicado em Estado Democritico ¢ Esicclo Autoritério, organizacéo ¢ prefécio de H. Marcuse, trad. de 1 Congo, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969, cap. 9). No entanto, aguilo que se poderia chamar de escapismo eo que parece ser uma formiddvel “‘perplexidade ideoldgica” levou os chamados cicntistas politicos, em particular, € os vien- {istas socials, em geral, a um uso abusivo do conesito de autoritério e autoritarismo (as derivegdes meis empregadas do vonceito de autoridade). Na yerdade, ambas as tendéncias sao intrimsecas a crise da sociedade burguesa na era do capitalis mo monopolista e de transicGo para © socialismo, De um lado, muitas menipulagdes repressivas da “‘eutoridade” (aparente- mente “legitimas"” ou claramente “ilegitimas”) passaram a ser dissimuladas, atenuadas ou ocultas através de oporagées se ménticas. © methor exemplo: Carl J. Friedrich e Zbigniew K. Braezinski (Totalitariaa Dictatorship and Totalitarianism, Cambridge, Mass.,” Hacvatd University Press, 2." ed., 1965, ci. esp. p. 89, onde consideram ditaduras como as de Franco @ Salazar “ditaduras téenicas” © instrumentais para a defesa da demecracia). De outro, sc apareceram tendéncias de auto- defesa da ordem da liberdade que “condenaram o fascis- mo” (por exemplo, o estudo do “fascismo potencial”, T. W. Ademo, E. FrenkekBrunswick, D. J. Levinson ¢ R. N. San- ford, The Authoritarian Personality, New York, Harper & Bro- thers, 1950, sob influéneia de coneepedes de Max Herkhei met), 0 fim da décadz de quarenta (0 apés Segunda Guerra Muadial) e todo 0 periado queme da guerra fria gerou um clima de intoleréneia para com o solapamento interno da “de mocracia”. Firmou-se, assim, uma tentativa de confundir os regimes de transigso sccialista com o fascismo; ¢ uma ten- dencia generalizada de estabelecer confusdes sistemiticas, peles quais: a) “regime autoritério” seria equivalente de “de- mocracia forte” (o melhor exemplo: J. Linz, “The Case of Spein”, in R. Dahl, org., Regimes and Oppositions, Yale Uni versity Press, New Haven, 1974), © 0 “regime soviético” (e todas as variantes) podiam ser postos no mesmo saco do tota Titarismo (como fazem 0s dois autores acima citados; ¢ re petem varios outros cientistas politicos, que se identificam com © papel de “paladinos da liberdade” © edyogedos do libera Tismo ou do “pluralismo”), © que isso pressupde, em termos de “caos terminokégico” e de austneia de teoria (ou, apenas, de “teorita”’, no sentido de R. B. Braithwaite, “Models in Empirical Scicnco”, in E. ‘Nagel, P. Suppes e A. Tarski, Logte, Methodology and Philo- sophy of Science, p. 224-295), nem precisa ser ressaltado. Tanto autoritatismo pode designar uma “variacéo normal” (no sentido de ditadtira técnica, em defesa da democracia), quanto pode se confundir com uma compulsio ou disposisio “universal” de exacerhago da autoridade (de uma pessoa ou de um grupo; dentro da democracia ou fora dela). O que permite aplicar 0 termo autoritatismo em conexiio com qual- ‘quer regime, emt substituleco ao conceito mais preciso de dit dura — ver esp. “Notas sobre a Teoria da Ditedura”, F. Neumann, Estado Democrético ¢ Estado Auioritério, cap. 9 — como sinénimo de totalitarismo ou como qualificagao para variagées de regimes totalitirios. S6 para que tenham uma idéia dese caos terminoldgico: exemplo de uma classtficagao de tipos de sistemas politicos (G. A. Almond e C. Bingham Powell Jr., Uma Teoria de Politica Comparada, trad. de M. de Almeida Fitho e revisio técnica de B. de Lima Figueiredo, Rio de Janeiro, Zahar Editotes, 1972, cap. 10) Sistemas Moderos (infrmestruturas politicas diferenciades) A) CidadesBstado Secularizadas iferenclagio Limitada (Atenas) ) Sistemas Modernos Mobilizados Alta diferenciagio © secularizacso 1. Sistemas democriticos Tndependéncia de subsistemes e cultura perticipante @ Hleyada independéncia de subsistemas (Gri-Bretanha) 5) Elmitada independéncia de subsistemas (IV Repiiblica Francesa) ©) Baixa independéncia de subsistemas (México) ‘Sistemas Autoritirios Controle de subsistemas e cultura sidito-psrticipante 4) Totalitério radical (U.R.S.S.) 8 Toit eonseryador (Alena nazis) 4d) Autoritério modemizante (Brasil) 3. Sistemas modemos prémobilizados Diferenciayao ¢ secularizasdo limitadas ©) Autoritério prémol 6) Democréticn p Podemos passar, egora, para as inconsisténcias de uma tipologia dicotOmica, qualquer que seja o seu funda: mento, E velha, na andlise politica, 0 estudo das variagdes sociopaticas, Jai AristGteles afirmava — “Os governos viciados sio: a tirania para a realeza, a oligarquia para a aristocracia, a demagogia para a ropéblica. A tirenia ¢ uma monarquie que nfo tem outro objeto além do interesse do monarca; 2 oligarquia s6 cnxerga o interesse dos rivos; a demagogia sé enxerga 0 dos pobres. Nenhum desses governos se ocupa do interesse geral”. (A Politica, trad. de M. Silveira Chaves, Seo Paulo, Edigdes Cultura Brasileira, sd., p. 118). As inconsis téneias de uma tipologia dicotdmica, baseada na oposigéo do pOlo democracia (iberal) x democracia (autoritériay [ow em qualquer variacfio semAntica como democracia x (otalitarismo] , sio varias. Todavia, 0 essencial aparece om dois pontos, Pri meiro, a demoeracia tipica da sociedade capitalista é ume democracia burguesa, ou seja, uma democracia na qual a repre sentagdo se faz tendo como base o regime eleitoral, os par tidos, 0 parlamentarismo e 0 Estado constitucional, A ela é inerente forte desigualdade econmica, social ¢ cultural com ‘uma alta monopolizagio. do poder pelas classes possuidoras dominantes e por suas elites. A liberdade e x igualdade sao meramente formais, 0 que exige, na teoria e na pritica, que © elemento autoritério seja intrinsecamente um componente estrutural e dinimico da preservario, do fortalecimento e da expansiio do “sistema democrético capitalista”. Segundo, a Stica capitalista circunscreye 0 horizonte intelectual do analista politico (seja ole um “homem de acéo”, um fildsofo, um so- cidlogo, um jurisia ou um cientista politico), 0 que se pode comprovar facilmente pelo que j4 vimos, a respcito de concei- tuagdes © anilises de autores como Friedrich e Almond. Isso significa uma identificagdo insanavel entre “consciéncia social’ e ideologia. Esca identificagio nfo foi um obstaculo nas fases hrist6ricas em que as classes possuidoras, dentro do capitalismo, foram classes revolucionatias (na destruigdo do antigo regime © na consolidasio da ordom social competitiva). Assim que esse limite € ultrapassado, porém, 0 direito racional ow posi tivo deixa de ser um “diteito revoluetonério” © a ética liberal forna-se prisioncira de uma ideologia conservadora, primeiro € de uma ideologia reacionaria, em seguida. O que quer dizct que, & medida que as classes possuidoras perdem suas. ten déncias © disposigGes revoluciondrias, © componente e a tendéncias autoritérias erescem no aritmeticamente, mas dia- Jeticamente (em proporgdes gcométrices). Com mos, apenas, diante de uma fatalidade, descrita precisamente Por Marcuse: “A burguesia como elasse dominante néio podia ter interesse algum pela teoria 2 qual se ligou como classe em ascens£0 @ que se encontrava em conttadieao gritante com 0 presente. E assim que a teoria verdadciramente burguese da sociedade 36 existe antes do dominio real da burguesia, e quo y dominante nao & mais uma teoria bur guoca.”” (ldéias sobre uma Teuria Critica da Suctedade, Rio de Janeiro, Zahar, Edliores, 1972, p. 147; no sentido, é elato, de que a burguesia deixa de ser ume “classe revoluciondria” © passa a ser uma “‘clesse dominante”: cf. esp. K. Marx © F Engels, The German Ideology, trad. de S. Ryazanskaya, Mos. cou, Progress Publishers, 1964, p. 62. Adiante, teremos de voltar a esse importante assunto c de retificar a afirmagto de Marcuse, A tcoria continua burguesa, to-somente deixa de ser revolucionéiria). Estamos diante de uma impossibilidade de andlise cientifica yerdadeiramente objetiva. O analista ape- nas percebe uma parte da realidade; 0 que entra em contra. digo com a ideologia dominante & percebido confusamente ou nao chega a sor explicado racionalmente. A “reificacso”, a “mistificagiio” ¢ 0 “fetichismo” Himitam ou eliminam 0 ponto 8 de vista cientifico na andlise politica. De um lado, porque o amalista nao expurge a carga ideoldgica de sua perspectiva de interpretacdo. De outro porque, mesmo que ele quisesse fazé-lo, 20 se identificar com a “democracia liberal” cle fica prisio. neiro das limitagdes insaniiveis da conscigncia burguesa. Como diz Lukécs, “a barreira que faz da conseiéneia do classe da burguesia uma consciéncia “‘falsa” & pois objetiva; é a pr ria situagGo de classe, Tratase de uma conseqiténcia objetiva da csirutura econdmica da sociedade e nfo de algo arbitrario, de subjetivo ou psicolégico. Pois a conscigncia de classe da burguesia, se pode refletit do modo mais claro todos os pro blemas de organizacio dessa dominac&o, da revoluggo capis talista, e de sus penctrego no conjunto da producao, deve nnocessatiamente se obscurecer desde o instante em que surjam problemas cuja solugéo remetam além do capitalisimo, mesmo dentro da experifncia burguesa” (Histoire et Conscience de Classe, trad, de K. Axclos ¢ J. Bois, Paris, Les Editions Minuit 1960, p. 76-77). Em conseqiiéneia, a “defesa da ordem’ se instaura no hori onte intelectual do analista politico, Primeiro, ele tends a privilegier uma concepeo minoritétia e elitista do regime de- mocrdético. B possivel ver como isso ocorre com um forma lismo iretorquivel através de Harold D. Lusswell © Abraham Kaplan, Power and Society. A Framework for Political Inauiry (New Haven, Yale University Press, 1950). Nao se trata epe- nas de privilegiar a “lei de ferro” dos pequenos mimeros, como fizeram M. Weber, Michels ¢ Pareto. Vaise mais longe. A “sociedade democritica” & a sociedade perfeita. Como zem, em um conciso pardgrafo: “A democracia é portanto de- Finida aqui através de trés caracteristicas do proeesso de po- der: 1. 0 poder € exervido com o méximo de aulo-responsa- bilidade. A democracia ¢ incompativel com qualquer forma de autoriterismo, independentemente dos boneficios resuliantes de tal concentracio de responsabilidade; 2. 0 processo de poder AAO 6 absoluto © autodelimitado: as decis6es so condicionais ® sujeitas ao desafio. A democracia é incompativel com 0 exer: cicio arbitrério incontrolavel do poder, independentemente das maiorias pelas quais ele é cxercido; 5. Os beneficios do 9 processo de poder so distribuidos através de todo o corpo politico, A democracia € incompativel com a exisiéncia de castas privilegiadas, independentemente das expectativas rela cionadas ao ‘interesse comum’ pressuposto” (p. 234). Trata-se de uma definicgo formal “perfeita” ¢, ao mesmo tempo, exem: plar e apologética. Onde existe esse objeto “ideal”? Ele jé existiu ou poderd existir na sociedade cepitalista? Por isso, 4 contaminacio ideolégica desemboca na “ciéncia politi como lingriagem perfeita, como ciéneia construtiva formal (sis temética, sob a influgncia de Parsons; ou sistémica, sob a fnfluéneia de modelos cibernéticos, como em David Easton, Uma Teoria da Andlise Politica, trad. de G. Velho, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968; © mesmo quando ela se pre- tende “‘comparada”, como em Almond, cla se mantém formal, abstrata e construtiva, operando no com tipos ideais cons- urufdos através da adequacio empftica © causal, explorada pot Weber, mas gragas a uma arbitréria manipulagéio de catego- rigs abstratas, gerais © supostamente “hist6ricas”). Em se- gundo lugar, ela faz no 6 a critiea como o reptidio da “de- moctacia popular”. A massa neutraliza a agio criadora das elites (cf. J. Ortega y Gasset, La Rebelién de las Masas, Bue- nos AiresMéxico, Espasa-Celpe Argentina, 5.° ed., 1942); poe 0 estémago em primeiro plano (como alirma Rickert) © de loca a razio, destruindo-a. Por isso, a inovagio de Max Weber nfo suscita apenes o reconhecimento de como opera a Ici dos pequenos niimetos, em vantagem dos mais iguais dentro da democracia (liberal ou parlamentar). Ela leva também a uma inexorayel filosofia da histéria, 2 qual corresponde uma polt- tica ao nivel pritico. Trate-se de condenar a democracia po pular, de demonstrar que ela & intrinsecamente aberrante ¢ corrompida (vejase P. Q. Hirst, Evolugiio Social ¢ Categorias Soeioldgicas, cap. 7, “Critica a Democracia Popular”, trad. de S. B. Sales Gomes, revisiio técnica de M. B. de Mello Leite Antunes, Rio de Jenciro, Zohar Editores, 1977). Porianto, a cléncia politica feche-se dentro do universo burgués ¢ introdur ‘© clemento autoritério na substfincia mesma do “raciocinio 10 cientifico’. Ou tal defesa da ordem nao se funda na idéie de que a autoridade da “ciéncia” confero um caréter racional, definitivo © etemo ao modelo de democtacia que resultou do capitalism? 1.2 — © ponto de vista sociolégico no estudo do. problema A exposiciio anterior nfo nos levou a uma conceituagéo de auloritarismo. Apesar de nossa posigao pessoal, temos de su- perar essa lacuna ¢, em particular, de pdr em relevo como pensamos discutir os problemas que serdo vistos sob a rubrica de autoritarismo, Por isso, esta exposigao vai cobrir duas fun- es, Primeiro, esbocar um “concelto aproximado” das relagdes de autoridade, que permita isolar certas formas de impos da obedigncia que se vinculem, objetiva e/ou subjetivamente, 4 “abuses ou exacerbago da autoridade” (0 que eavolye uma aceliagao implicita da legitimidade da imposigio da obedién- iw dentro de certos mateos externos ¢ intemos das relagSes de dominagio); segundo, indicer como tais relagées de domi- ago sero deseritas « interpretadas sociologicamente (ao nivel da sociologia diferencial ou histérica). E preciso ressaltar, po- rm: 1. quanto ao primeiro ponto, que a aceltagao de um ctitério objetivo de caracterizacio de legitimidade de uma forma de dominago nio exclui que ela aparega, ao grupo heterond- mico (e porianto dominado), como ilegitima (0 que por vezes fundamente manifestagdes de inconformismo coletivo, de al cance “refarmista” © mesmo “revolucionério") [ou seja, com siderando-se a Iegitimidade no marco de referéncia de uma cordem social dada}; 2. quanto ao segundo ponte, que iremos nos concentra no agiti € no agora, focalizando nossa atengao nas relagdes autoritérias que séo tipicas do capitalismo recente © da tansigdo para 0 socialismo (0 que nos afasta de temas como “0 autoritarismo nas sociedades estratificadas”; ou “o autoritarismo na emergéncia © na consolidacdo di sociedade de i S-A.S.T.A. classes”, pois esta formagio soci a ayancado de seu desenvolyin: eaten ne a : jento € na “época de crise” finale hegelino) fou seja, considerando-e. a dominagho, bon esa Em suas conexdes diretas ac : - com a reproduce. da or social existente © com a sua desogregacdoy, pes © poder indiretamente Politico, ‘uma entidade auténoma, isolada da soci oe an © caso de lembrar gels: “O Estado na um poder impasto de fora de sociadade: ce ven? a m ‘a realidade da idéia ‘moral’, ‘a tae ie ida i la razio’, como pretendia Hegel. Ele é antes um aa ecessidade de um pod endo em aparéncia aviina di eID > oon : nein wvima dw soviedade, deve dissinne > 2 ene — limites da ‘orden’: eas ae ido da sociedade, mas que se coloca acim th toma cada vee mais estranho, 8 ence o . € 0 Estado” (FP. Engels “ ine de la Familie, de ta Propriété Privée et ile Nent ion » de 'ropriété Privée et de VEtat, brs Ce Paris, Editions Sociales, 1954, p, 155150)" macs ae razdes forcam-nos a it do indiretamente politico a0 ekpe a oun : © a determinar como a soviedade de cla: = trigada por relacées autoritérias, em tados os sous nf Organizagao, funcionamento e transformagéo, MCS 4° e da méquina estatal. De um lado, temos de considerar as alia relotiva, que impoe formas préprias de despotism burgués no amago mes- mo do conilito basico, vinculado & propriedade privada dos meios de produgio ¢ A expropriagao do trabalhador [explicar]. De outro, temos de considerar as implicagoes estruturais © di- namicas de um orclem social que se funda na desigualdade econdmica, sovial e politica engendrada por essa forma de produgée (¢ de reprodugao da ordem), a qual vincula 0 des- potismo burgueés ao Estado nacional e a democracia represen- tativa [explicar]. Do micro ao macro, a sociedade capitalista contém toda uma rede de relagdes autoritérias, normalmente incorporadas ais instituigSes, estruturas, ideologias e proces- sos sociais, € potencialmente apias a oscilar em fungéo de alte- ragdes do contexto (ou, mesmo, de conjunturss sdversas), ten= dendo a exacerbarse como uma forma de autodefesa dos interesses econdmicos, soviais ¢ politicos das classes possui- doras e dominantes (ao nivel institucional ou ao nivel global). © que Horkheimer, Adomo © outros fizeram com relacdo ao narismo — o que é a potencialidade fascista — poderse-ia fazer em um plano mais geval: como 28 potencialidades auto- ritérias, intrfasecas ao capitalismo, crescem com a passagem para a fase de crise e de possivel desmoronamento (pouca importando a base da interpretagdo: 9 2¢ trata de uma desin- legragio catasirGfica, como supdem K, Mars, R. Luxemburgo e E, Mandel, ow de um preco do éxito, como sugere J. Schum- peier em Capitalisme, Socialisme et Démocratie, trad. de G. Fain, Paris, Payot, 1972). A autodefesa cria um enrijecimento inevitivel, nasca cla dos riscos de uma greve geral, das ame cas do movimento operdrio ou da viabilidade de ums revolueso sociatista. Automaticamente, os requisitos do contrato, do con: senso ¢ da representagao sofrem um debilitamento, que se traduz por uma exacerbagio das formas de dominagio but- guesa. O componente autoritério oscila, as relagGes autoritérias ganham saligncia e 2 democracia fica um privilégio dos mais iguais (ou des elites no poder). Voltaremos ao assunto adiante, © que importa salientar, agora, so 0s dois aspectos que incrus- tram 0 autoritarismo na normalidade da vida burguesa 2 em 15 suas crises — como Bismarck, 0 burgués precisa de uma mio de ferro para impor a obediéneia nas “condigdes normais da cxdem” e, em especial, para dar labilidade a0 Estado capite- lista, que nao pode enfrentar as “‘condigdes de cmergéncia” sem um earijecimento répido © crescente, pelo qual a minoria mostra as suas garras (ou seja, revela que ao monopélio da dominago burguesa corresponde um monopélio de poder poli- tico estatal: sem nenhuma magica, 0 Estado de excegso brota do Estado democrético, em que esti embutido). Esirutura ¢ Aistéria esto correlacionadas. Quando as tclacdes autoritérias se exacerbam, a estrutura ganha saliéncia, 0 que & mais pro- fundo vem a tona ¢ revele a face burguesa da imposigéo da autoridade. Quando as foreas antiburgueses ganham salién- ia, a hist6ria prevalece e 0 elemento democritico se expande, amparsdo nos interesses situagdes de classe da maioria. Por af se vé que © contrast entre autoritarismo e democracia Usixou de vincular-se & pressio burguesa. Esta deixou de en- carnar “a yontade comum”, Como escreveram Marx ¢ Engels: “A classe que faz uma revolucio aparece, do principio, na medida em que cla se opde a uma classe, néo como uma classe mas como represcntante de toda a sociedade; ela aparece como toda a massa dw sociedade que esté em confronto com uma classe dominante” (The German Ideology, Op. cit. p. 62). Essa comigay se dissipou depols que a burguesia realizou 0 ciclo das varias revolucoes que asseguraram a “transformagiio capitalisia”. Passade esse perfodo, 0 despotism burgués des- peende-se da impulsio revoluciondria; 0 conformismo, a rea- (0 © a conira-revolucio marcam as etapas da consolidagiio do autoritarismo ¢ de sua generalizacio. 2 © problema cas relacdes autoritéries na Gpoca atual: Duas coisas precisam ficar elaras em nossas relagdes. Pri- meiro, nio tentarei explorar os caminhos da “newtralidade ética”. Segundo, procurarei projetar » ponto de vista sociolé- ‘gico no Amago da situacao de conflito © das tensbes que geram ‘os moyimentos sociais, com suas alternativas de “transformacao do mundo”. & preciso oper uma veemenie repulsa ao que 14 Barrington Moore, Jr., chama de “o novo escolasticismo” (ver Political Power and Social Theory, New York, Haxper Toreh- books, 1965, cap. 3, “The New Scholasticism and the Study of Politics”, leitura fundamental neste caso). $6 que vou mais longe, pois a critica nao deve apanhar apenas 0 empirismo, 0 grande teoria © © absolutismo moral (combinando-se a Moore um pouco de Wright Mills, The Sociological Imagination, New York, Grove Press, 1961, esp. caps. 1-3 ¢ 8), mas também © que, na linguagem de Lénin, se poderia chamar de a nova infeccdo pequeno-burguesa do marxismo, ligeda a um pre- tenso marxismo ahistérico, Retirar do macxismo 0 modelo explicativo que se delineia no posfécio da Contribuicao a Cri tiea da Economia Politica (trad. de F. Fernandes, Sao Paulo, Editora Flama, 1946) [ef. F. Fernandes, Fundamentos Empl: ricos da Explicactio Sociotégica, S. Paulo, Companhia Editora Nacional, 1959, parie I, caps. VI © VIL; G. Della Volpe, Critique de VIdéologie Contemporaine, iad. de P. Méthai Paris, Presses Universitaires de France, 1976], seria 0 mesmo que restabelecer 0 reinado do “naturalismo” nas ciéncias so- ciais. A equacio gue foi posta em relevo: estrutura e histéria (© que permite 20 sociélogo combinar a investigagao rigorosa, com a explicagio precisa e a responsabilidade intelectual (a qual, conforme as circunstincias, vai da athude participante a militineia potitica “contra a ordem”, néo em nome de cerios valores, mas como contestacio fundada em movimentos revo- lucionais potenciais ou reais). A partir do elemento burgués da democracia, tem-se feito a defesa militante do liberalismo ou da democracia parlamentar. E igualmente legitimo fazer o inyerso: a partir do elemento proletdirio da democracia, fazer- se a defesa do socialismo e da revolugdo social. Nao mais como K. Mannheim, em busce de uma “terceira via" (“liber- dade com planejamento"), mas em busca de um navo padrtio para a civilizagio industrial © que isso tem a ver com o presente curso? Tudo! Pri- meiro, nfio vemos 9 poder como uma realidade transcendental € em termos formais-dedutivos. Mas, como uma realidade histé- ica, Segundo, porque no nos separamos do processo histé- rico-social deserito. Como assinala Marx, “a questio de saber 15 ‘se ao pensamento humano cabe verdade objetiva nao 6 uma questéo de teoria, mas uma questio prética” (ver Fundameri- fos, p. 280). Essa porspectiva € que permite encarar 0 capite- lismo recente em termos das forgas sociais que “‘enfrentam o desmoronamento”, com vistas a consolidar a defesa da ordem existente © @ sua reproducdo; e as forcas sociais altemnetivas, que “aprofundam o desmoronamento”, procurando criar dentro das condigées existentes no sé uma “mudanga da ordem” mas, também, a transi¢ao social para uma ordem social dife- rente. Na verdade, o conflito de classes possui multiplas pola- rizegSes. Ele tanto pode ser utilizado para ‘“reforgar a ordem” quanto para destrii-la. A maioria pode ser impotente, se sv- cumbir & ideologia dominante © d cooptacdo dircta e indireta. Por isso, 0 fundamental ¢ 0 desemburguesamento da classe operiria. O capitalismo ameagado nao aumentou seu corco apenas conira as revolugSes sovialistas; ele manietou 0 con {lito social © procurou despojé-lo de sentido politica, nao s6 através da massificagdo da cultura mas também pela fragmen- taco © pulverizacio das prdprias condigties objetivas de exi téncla da classe social revoluciondria. De outro lado, onde processo hist6rico no avangou tanto: os “‘malditos da terra” (Fanon; como descricéo global, Eric Wolf, Peasant Wars o} the Twentieth Century, New York, Harper & Row, 1969) so mais “fracos” mas ao mesmo tempo menos. dehifitadas © corrompides pele préprio capitalismo, Nao t8m Iealdades erradas nem interesses contraditérios (o que explica, por exet plo, a sedugio de um “tio” Ho, pois Ho Chi Minh encarna essa polaridade: “As calamidades me temperaram ¢ entijeceram ‘Transformando a minha mente em 2¢o”). Quando os conflitos soviais fortalecem a ordem existente, @ hegemonia do elemento burgués na democracia, temos uma altemativa histérica. Yemos 0 capitalismo recente como uma forga aivante, através de grupos de homens que tentam, atra: ‘és do controle conservador ou contra-tevolucionsrio da mu- danga, preservar © padiio capitalista de civilizacio industrial 16 (no centro © na periferia). B tarde? Eis uma palavra que se deve eviter. Toda a hist6ria do capitalismo no sSeulo XX desmente certas simplificag6es mecenicistas. Lukécs escreve que a crise 6 inexorével. Todavia, ela nfo constitii um pro- cesso automftico. Ela nao s6 depende de uma cottelacio de forcas e da vitéria das forgas revoluciondrias (com condigSes ‘objetivas ¢ subjctivas que podem existir ou nao, ser suficien temente fortes ou nfo etc.); como também depende de uma evolugfio em que 0 fator humano esté implicado no pdlo co: servador © contra-revoluciondrio (niio se deve ignorar que as opgGes valem dos dois Iados © ambas decidem a hist6ria da €poca atuel). Vemos também a transicfo para o socialismo como a eclosio do elemento proletério da democracia na histé- in. Também aqui é preciso evitar as simplificacdes mecani cistas, A eatéstrofe ou o desmoronamento é fatal? Sim, se a maioria tiver condig&es objetivas e subjetivas para se converter atuar como uma forca social revoluciondria, Nao estamos lidando com tropismos. Uma classe emergente desegrega o regime dentro do qual ela se expands, Todavia, essa néo 6 uma funcSo “naturel” ¢ “inexordvel”. Para que ela ocotra, é preciso que se forme uma consciéncia de classe revoluciondria © que a “massa” se comporte revolucionariamente. O enlace &, de novo, estrutura e historia, Estruturas que sia modificadas, desagrepadas © transformads pela ago coletiva de grupos de homens que se opem & ordem existente ¢ lutam por sua tran formagéo revoluciondria, Nos dois pélos, nflo estamos no parai- so. O conservantismo e a contra-revoluedo desembocam na via autoritéria e mesmo no fascismo. O reformismo ¢ reyolugao também desembocam na via autor e numa ditadura de classe que no é equivatente ao fascismo ¢ ao totalitarismo por causa de seus fins, de sua duracdo e de sua prdpria histéria (que dove culminar na liberdade, na igualdade, na extingao do pré: prio regime de classes, com suas estruturas econémices, sociai € politicas). Os chamados te6ricos do “pluralismo politico” t€m_procurado fazer © difundir tal confusio, No entento, seus molivos ideolégicos e contra-revolucionétios so tio evidentes, que nem vale a pena discutir mais a fundo « questéo. Essa ‘transigio parece Tonga demais? Por que? A questo do “tigre 7 de papel” precisa ser evocada. Os que subestimam a flexi- bilidade do capitalismo na era do imperialismo e a capocidade de decisfio de uma burguesia ameacada devem rever o diaenés- tivo, Nao para modificar suas opinides, Porém, para interpretar melhor © presente ¢ nao “simplificarem a historia”. O cerco capitelista € uma realidade extema ¢ interna ao funcionamento do capitalismo no plano nacional ¢ no plano mundial. 'Temos de compreender isso para entender melhor o fluxo da histéria € as alternativas de contra-revoluesio e da revolugfo. As duas unidades didéticas cubseqiientes iro permitir uma descrigio global de nossa época, voltada para a localizacio dos compo- nentes do autoritarismo nas duss direcdes apontadas. SS me resta fazer uma profissio de f€ explicita. Ao reconhecer os dois lados e as implicagtes da situac3o global no sucumbo nem ao relativismo historicista nem a0 pessimismo, ambos ex- dluidos da ética socialista. 18 2. O Estado sob 0 capitalismo recente (quatro aulas: 1. classe ¢ conflito de classes sob 0 capi- {alismo monopolista; 2. o Estado capitalista da era atual; 3. 0 Estado capitelista da periferia; 4. a contrarevolu- cao em escala mundial). 2.1 — Classe ¢ conflita de classes sob 0 capitatismo mono polista . Ha duas orientagdes dogmiticas igualmente noci- yas: a dos que pretendem ver 0 capitalismo recente — (0 que Sombart qualificon como late capitalism mas em sua forma atual; om sua classificecdo: early, full and late) — como “pés-industrial”, destitufdo de classes © de ideologias; ¢ a dos que, ossificando 0 marxismo, se fixam nos quadros do capital industrial do século XIX ¢ do desmoronamento catastréfico por assim dizer automético, Nao podemos fazer andlises sociol6- gicas “‘acima das ideologias”. Mas, para ser cientifica, a ané lise sociolégica deve absorver ¢ superar a ideologia, @ “fetichi- zacéo", a “reificagao” (© que 6, io” ou a “‘mitificagao do real alis, importante, para os que sAo ou se consideram marxis- tas). A questiio central continua a ser: & possfvel um capi lismo sem classes ¢ sem conflito de classes? £ possfvel capita- lismo sem apropria¢zo da mais-valia relativa e, portanto, sem concentracio do poder econdmico, social e politico dos que possuem a propriedade priveda dos meios de produco com as formas correspondentes de dominacio e de poder? Em 19 | ia suma, transformando-se © capitalismo de modo ti profundo — mesmo a yariedade monopotista do capttelismo: que era tuma coisa entre 0 fim do século XIX e 0 comego deste sé culo; ¢ 6 outra realidade em nossos dias — por onde passam, como se menifestam ¢ 0 que resulta das formas sociais de estretificacdo em classe? Ao socidlogo norte-americano que diz corretamente que nao existem classes sociais nos Estados Uni- dos do mesmo modo que existiram na Inglaterra, na Franca, na Alemanha ou na Ltilia do século XIX, 0 que devemios opor? Na verdade, seria ingénuo partir de resultados de uma ani lise que nao foi & “cstrutura intima” da sociedade (ai, nem do ponto de vista de Marx, nem no de Durkheim ou no de M. Weber). Se 6 yordade que’o capitalismo se transformou, temos de estabelecer quais sf0 os limites dessa transformagéo. Sio, de fato, transformacoes profundas: na tecnologia; no sis- tema de produeéo, mercado © finznciamento; na forma mun- dial assumida por todas as atividades econOmicas; no estilo de vida © nos padrdes de consumo; na divisio social do tra- balho ¢ na estratificacdo das classes: transformagées essas que afetam os focos de pobreza, ampliam os setores intcrmedidrios © massificam até certes formas mais ou menos conspicuas de consumo; na socializacdo pré-escolar, escolar e pés-escolar; na comunicagio de massa; na organiragio do movimenio sindical. sua buroctatizagio © “corporativizagio”, ¢ no padraio do pro- testo operirio; ¢ por af afora. Basta que se tome um resumo muito sumério e elementar, como o de Wilensky © Lebeaux (cl. H. L. Wilensky e Ch. N. Lebeaux, Industrial Society and Social Welfare, New York, The Free Press, 1965, cap. IV: 0s dados quantitativos devem ser expostos em classe); ele & suficiente para demonstrar 0 quanto as corporagdes © 0s trustes alteraram a estrutura ocupacional da “‘sociedade moderna”, om toda a estratificagto de base econbmica, ¢ como se modi Ficaram as proporeses de trabalhadores quallificados © técnicos no quadro geral ou como se comportaram nas tiltimas décadas as alteragdes dos setores primério, secundiio ¢ terciirio. Toda uma rede de “transformacoes recfprocas” mudaram a morfo- ogia © cs dinamismos da economia, sob 0 impacto de suces- sivas “revolucées tecnoldgicas” — que deslocaram as frontei- 20 Hi ras e © significado do “‘capitalismo” e do “socialismo” em nossos dias, como ressalta Mandel — com implicacées bem conhecidas sobre a internacionalizaedo da producdo capitalista 0 alcance ou a eficdcia do controle ideolégico “dentro da orden”, © que éxprimem essas transformacdes? Deixou de haver apropriagio privada dos meios de producio, desapareceu a propriedade privada, a importfincia e a busca do lucto, ate nuou-se ou diluiuse 0 despotismo burgués, obliterouse a de- sigualdade ccondmica, com seus efeitos sobre a concentragio social, racial, regional, nacional da renda etc.? Deixou de haver contradigo entre a forma de produgdo e reprodueio da ordem € a cstrutura da sociedade global (a qual opde liberdade e igualdade a uma democracia dos mais iguais)? Pelo que s infere: 1. das evoluetes ocorridas primeiro nos Estados Uni- dos: 2. das evolugdes ocorridas nas nagies capitalistas mais avangadas (Suscia, Inglaterra, Franca, Alemanha, Japao etc.) — regime de classes no desaparcceu; cle apenes perdeu carfier que posswia sob o “capitalismo antigo” ou soh o “‘capitalismo pleno”. Em certo sentido, o regime de classes ficou mais flexfvel. O que parecia ser peculiar aos Estados Unidos tende a generalizar-se sob um “capitalismo de afiuén- cia”, Tal eapitslismo nifio pode eliminar 0 que ¢ basico e intrin- seco av capltalisino sem destruir v prdpriv eapitalisuw © sua forma social, a sociedade de classes. O que quer dizer que uma sociedade de classes dijereate nfo é 0 mesmo que uma socie- dade de classes sem captialismo. Isso seria um contra-senso. HG uma imensa bibliografia para assinalar as transformagées ocorridas (ver esp, H. L. Wilensky ¢ C. N. Lebeaux, Indus- trial Society and Social Welfare, Op. cit., cap. IV, “"The Later impact of Industrialization on Society”; P. A. Baran e P. M. Sweszy, Capitalismo Monopolista. Ensaio sobre a Ordem Eco- nomica e Social Americana, trad. de W. Dutra, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1966; N. Birnbaum, The Crisis of Industrial Society, Londres, Oxford ¢ New York, Oxford University Press, 1969; A. Touraine, La Société Post-Industrielle, Paris, Editions Denodl, 1969, A. Gorz, Estratégia Operdria ¢ Neo- capitalismo, trad. de J. Cestro, Rio de Jenciro, Zahar Edi- 2 a tores, 1968). A bibliografia, A direita ou a esquerda, assinala ou o “deseparecimento da ideologia” (D. Bell, The End of Ideology. On ihe Exhaustion of Political Ideas in the Fifties, New York, The Free Press, ed. rev., 1962) ou a manipulagao hneutralizedora do conililo (H. Marcuse, One.Dimensional Man. Studies in the Ideology of Advanced Indusirial Society, Londres, Routledge & Kegan Paul, 1964). Todavia, por tras do que & novo, as estruturas capitalistas possuem 0 mesmo ca réter contraditério (ver esp. P. M. Sweezy, “The American Ruling Class", im M. Zeitlin, org., American Society, Inc. Study of the Social Structure and Political Economy of the United States, Chicago, Markham Publishing Co., 1970, cap. 29; a maioria dos artigos reunidos em G. Fischer, org. The Re. vival of American Socialism, Selected Papers of the Socialist Scholars Conference, New York, Oxford University Press 1971, esp. Stanley Aronowitz, cap. 10, “Does the United States Heve a New Working Class?”; ¢ as conhecidas obras de C. Wright Mills, The Power Elite, New York Oxford University Press, 1959, © de G. William Domhoff, Who Rules Amorica?, Englewood Cliffs, N. J., Prentice-Hall, 1967). O que significa que a afluéncia (J. K. Galbraith, The Afjtuent Society, Penguin Books, 1962) era uina realidade histérica nova (embore inca- paz de eliminar certos bolsGes de miséria c certas tensbes seciais — of. esp. M. Hattington, The Other America. Poverty in United Staies, Baltimore, mpressio de 1968; 0 survey de C. A. Valentine, Culture and Poverty. Critique and Counier Proposals, Chicago © Londres, The University af Chicago Press, ‘imp. de 1970; ¢ livros como: N. Glazer e D. P. Moynihen, Beyond the Meliing Pot. The Negroes, Puerto Ricats, Jews, Utalians, and Trish of New York, Cambridge, Mass., The M.L-T. Press, imp. de 1966; St. Clair Drake and H. R. Cayton, Black Metropolis. A Study of Negro Life in a Northern City, New York, Harcourt, Brace and Co., 1945, cu K. B. Clark, Dark Ghetto, Dilemmas of Soctal Power, New York, Harper Torch- hooks, 1967). Néo ¢ nosso filo fazer um balanco complete dessa realidede. O que reduziu o alcance da bibliografia su- gerida ¢ nos fez negligenciar ocorréncias similares na Europa (especialmente 0 que ocorre na Alemanha, Franca ou Ingla- 22 tera com as correntes migratGrias que alimentam 0 “trabalho sujo’’). Cumpre-nos indieé-la e “apontar dois fetos, Primeiro, © que cla traduz como maior flexibilidade do capitalismo (em seu desenvolvimento © na lus por sua sobrevivéncia: inclu. sive, em sua irradiagao no centro e na periforia). Segundo, o que ela pressupée como potencialidade de autodefesa. A nova tecnologia, as novas estruturas de poder e de socializacdio, bem como os dinamismos dw cultura de massa ¢ de controle poli- cial-militar: conferem ao capitalismo uma potencialidade de autodefesa e de ataque contra seus inimigos (“internos” ¢ “externos”) que ele no possuie no século XIX: ¢ @ qual passa por todas us institui¢des da sociedade capitalista. Por isso, & fase do “socialismo em um 86 pais”, scguese uma nova mo- dalidade de corco capitalista do socialismo, que opera de dentro para fora (da sociedade capitaliste na diregio do exterior) © de cima para baixo (das instituigdes-chaves sobre todos setores da sociedade, especialmente os “‘perigosos”, em busea de alter- natlyas através do uso do conflito contra a ordem capitalista), A defesa da democracia se confunde com a defesa do capita. lismo c cla blogueia a histéria ** Feitas estas constatagdes: podemos tirar trés con clusdes, Primeiro, no podemos confundir as transformacdes struturais © dinfmiens da sociedade de claccec moe paises centrais com 0 desaparecimento propriamente dito quer daa relagdes de classe, quer do conflito de classes, femburguesa- mento © hegemonia de classe