Você está na página 1de 2

A ideologia do gênero não é marxista

Lendo a última edição do Jornal Opção, me deparei com o texto do padre Luiz Carlos Lodi a respeito da
ideologia do gênero. O autor busca questionar tal ideologia e faz um conjunto de afirmações que gostaria de
comentar.

O primeiro ponto que destacaria é a afirmação de que tal ideologia tem “origem marxista”. Vou ter, devido a
questão de espaço, que ser bastante sucinto sobre as origens de tal ideologia. Para uma visão mais
aprofundada basta consultar meu artigo “Gênero e Ideologia”, na coletânea A Questão da Mulher (Rio de
Janeiro, Ciência Moderna, 2006). O marxismo exercia uma forte influência no feminismo dos anos 60, mas
perde tal influência na década seguinte. A partir dos anos 70 surge o pós-estruturalismo (mais conhecido
como “pós-modernismo”) que passa, paulatinamente, a ganhar espaço e se tornar hegemônico, se
apresentando como a superação do marxismo — o novo grande adversário desta teoria que vem substituir
os antigos adversários derrotados pelo marxismo após as lutas sociais do final dos anos 60, o
estruturalismo, que foi o substituto do funcionalismo.

A nova referência do feminismo, hegemonicamente falando, passa a ser o pós-estruturalismo, e o
surgimento da ideologia do gênero ocorre justamente nos anos 70 e se fortalece nos anos 80, quando o
pós-estruturalismo ganha força mundial. A ideologia do gênero, assim, nasce em oposição ao marxismo,
principalmente por substituir a questão das classes sociais pela questão do gênero, substituindo uma teoria
social por uma ideologia culturalista.

Dizer que a origem da ideologia do gênero é marxista, ou então afirmar que ela é de caráter marxista, é um
equívoco, pois o princípio fundamental do marxismo, a luta de classes, é substituído por uma fantasiosa
“luta de gêneros”. Outra diferença radical entre a ideologia de gênero e o marxismo é epistemológica, pois,
para o marxismo, a categoria totalidade é fundamental e só se pode compreender um fenômeno social no
conjunto das relações sociais, enquanto que, a ideologia do gênero, seguindo a moda pós-estruturalista,
abandona a visão da totalidade, autonomizando e essencializando a “relações de gênero”. A questão da
mulher, na abordagem marxista, está envolvida no conjunto das relações sociais e não se pode abandonar
a questão da corporeidade para analisar as relações entre os sexos.

A existência de algumas semelhanças entre tal concepção e o marxismo não faz dela uma concepção
marxista. Isto não é um método louvável ou eficaz para compreender o desenvolvimento histórico (ou
cultural) da humanidade, pois o mesmo procedimento poderia ser utilizado e ver semelhanças entre
nazismo e cristianismo, ou entre fascismo e feminismo contemporâneo, e afirmar que o nazismo tem origem
cristã e o feminismo contemporâneo tem origem fascista, o que somente com muita irresponsabilidade e
descontextualização poderia ser afirmado. Sem dúvida, é possível encontrar algumas semelhanças entre a
ideologia do gênero e o marxismo, bem como notar que existem algumas feministas que buscam juntar as
duas concepções. Porém, se um caderno tem folhas e uma árvore também, isto não faz com que a árvore
seja um caderno ou vice-versa, mesmo por que são folhas “diferentes”.

Sobre as propostas práticas derivadas da ideologia do gênero, notamos que elas derivam do culturalismo
que está em sua base. Se, de um lado, temos a concepção da questão da mulher que é “naturalizante”,
biologista, que é típico da visão conservadora, por outro lado temos a ideologia do gênero, onde tudo se
transforma em “construção cultural”. Tal ideologia, tal como na visão mais extrema de Judith Butler, acaba
gerando uma inversão da visão tradicional e chega ao absurdo de dizer que a heterossexualidade é
compulsória e que o sexo (corporeidade) é construído pelo gênero. Ora, a visão de que os papéis sexuais
são constituídos socialmente foi produzida pela sociologia e pela antropologia, bem como a crítica do
determinismo biológico sobre a questão das relações entre os sexos foi efetivada pioneiramente por Simone
de Beauvoir nos anos 40. Isto sem falar do marxismo e de várias correntes da psicanálise.

Aceitar e naturalizar que “o lugar da mulher é em casa” é não somente um grande conservadorismo, mas
também uma posição pré-científica e pré-marxista. O extremo (e erro) oposto que é desvincular “gênero” e
sexo significa nada mais do que abolir uma parte da realidade concreta para defender seus interesses, ou
então para ficar “na moda”, o que é uma forma de interesse, já que a vinculação com o modismo permite
“vantagens acadêmicas competitivas”.

Sendo assim, devemos questionar não somente as teses pós-estruturalistas, como o conservadorismo
redivivo (e se manifestando sob várias formas, inclusive sob a forma de fundamentalismo religioso) na
sociedade contemporânea.
NILDO VIANA é professor da UEG e doutor em sociologia pela UnB.

Goiânia, 10 de março de 2010Dados da edição:
De: 21 a 27 de janeiro de 2007
ANO: XXXI
Edição Nº: 1646