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rs COPIA CAMPOS Citagie SEvoculs agprerariat ff EXCELENTISSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL DO FORO CENTRAL DE PORTO ALEGRE FELIPE VIEIRA, brasileiro, jomalista, residente na Rua Marcilio Dias, n° 524, Ap. 402, Menino Deus, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, vem, respeitosamente, perante Vossa Exceléncia, através de seu bastante procurador, devidamente constituido com poderes especiais, oferecer a presente QUEIXA-CRIME contra MARCELO RUSCHEL TRASEL, brasileiro, jomalista e professor, com enderego profissional na Faculdade de Comunicagao Social (FAMECOS) da Pontificia Universidade Catélica do Rio Grande do Sul (PUCRS), localizada na Av. Ipiranga, n° 6.681, Prédio 7, CEP 90619-900, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, por ofensas a honra- dignidade e 4 honra-reputago do querelante que, em tese, constituem crimes de injuria e difamagao, tendo sido perpetradas por meio de assertivas veiculadas no sitio da _—_—internet_ ~— denominado “www.trasel.com.br/blog” a partir do dia 06 de agosto do ano em curso, estando as aleivosias ainda disponiveis naquele sitio e podendo ser agrupadas sob pesquisa de tag com o nome do querelante, pelo que vem dizer e, ao final, requerer 0 quanto segue: cahpos cM 1 DOS FATOS: O querelante FELIPE VIEIRA é jornalista, com atividade no radio e na televisdo (Grupo Bandeirantes). O querelante também mantém, entre outras atividades, um sitio de internet denominado “www.felipevieira.com.br”, sendo sub-denominado “jornalismo on-line”. Em tal espago, 0 querelante colaciona noticias e informagées as mais variadas e procedentes de diversas fontes, especialmente das versdes eletrénicas das grandes agéncias nacionais e internacionais de noticias. Em razdo de Ihe ter sido atribuida participagéio em pretenso “esquema de mensalinhos que os jornalistas gatichos receberiam para que néo criticassem os governos”, entre outras afirmagdes difamatérias e injuriosas, no final do ano passado o ora querelante ajuizou queixa-crime, que ainda tramita no 3° Juizado Especial Criminal (Proceso n® 2.08.0084554-5), contra os que eram entdo responsaveis pelo sitio “www.novacorja.org”. Pois 0 ora querelado, MARCELO RUSCHEL TRASEL, em que pese tenha chegado a colaborar com 0 aludido “blog”, ficou de fora daquela agi penal privada porque, na época dos fatos que motivaram a iniciativa penal do querelante, nao figurava no rol dos responsaveis por aquele sitio da internet. Mais recentemente, ocorreu que aquele sitio da internet encerrou suas atividades, tendo 0 ora querelado publicado em seu préprio “blog”, o “www.trasel.com.br/blog”, longos comentarios acerca de tal fato, o fim do “www.novacorja.org”. Ocorreu que tais comentérios, intitulados “Um prego no caixtio da democracia” e “postados” pelo querelado no seu “blog” no dia 06 de agosto de 2009, contém afirmagées de cardter rematadamente injurioso ¢ difamatério ao ora querelante (em anexo, em cépia impressa autenticada da versio eletrénica), Com efeito, ao atribuir o fim do “wwww.novacorja.org” aos processos movidos pelo ora querelante e por outras pessoas, 0 querelado inicia por dizer 0 seguinte: “o motivo principal para © encerramento das operagées é 0 desainimo causado pelos processos de Polibio Braga, Felipe Vieira e Banrisul”. f CAMPOS No entanto, logo adiante 0 querelado vai mais longe, passando a afirmar — referindo-se aos processos, entre os quais estava o do querelante — que “os poderosos foram perturbados e resolveram se aproveitar do Judicidrio para tentar calar a boca da Corja”. E mais ainda: ao lamentar a atribulagdo porque teriam passado os jornalistas do “novacorja”, amigos seus, ao terem que se defender nos processos contra eles movidos, 0 querelado afirmou que “O tempo livre antes dedicado ao jornalismo passou a ser dedicado a defender-se da litigancia de mé-fé. Algumas familias até mesmo sofreram ameagas.” No mesmo contexto (dos processos que teriam determinado o fim do “novacorja”, entre eles 0 movido pelo querelante), 0 querelado afirma também o seguinte: “politicos e empresas — especialmente aqueles envolvidos em atitudes imorais, antiéticas ou ilegais — passam a combater @ liberdade de expressdo com instituto favorito dos canalhas: a Justiga. E lamentével que as leis possam ser usadas em prejuizo da democracia, mas o Estado de Direito ainda é preferivel & barbdrie. Cabe & sociedade Jiscalizar e organizar-se para impedir ou diminuir esse tipo de traméia.” Preocupou-se 0 ora querelado, ademais, com a necessidade de criar instituigées para proteger “repérteres amadores e demais vitimas de litigancia de mé-fé e outras injustigas”. Em suma, a pretexto de lamentar 0 fim do “blog” dos seus amigos, 0 ora querelado envereda para as ofensas a honra objetiva € subjetiva do querelante, extravasando — em muito — os limites da liberdade de expressao. E esta nfo é a primeira vez em que tal acontece. Veja-se que em outra ocasido, ainda em 25 de margo deste mesmo ano, em comentdrio sobre a noticia da ago penal privada movida pelo ora querelante contra os responsaveis pelo “novacorja”, o ora querelado ja dissera em seu “blog” que “esse negécio de jornalista processar jornalista é coisa de maricas” (c6pia néo-autenticada, também em anexo). ff CAMPOS f egpresariat 2. DA MATERIALIDADE E DA AUTORIA DA DIFAMACAO E DA INJURIA PERPETRADAS PELO QUERELADO As folhas impressas que vém em anexo a presente inicial, devidamente autenticadas por tabelionato, reproduzem a totalidade das citagSes feitas no item precedente, posto que trazem 0 contetido exato do “post” que se encontra na intemet, no sitio aludido: “www trasel.com.br/blog”. Veja-se que tal texto ainda hoje esta disponivel na rede, diretamente ou através de citagdes de outros sitios, mediante pesquisa que pode ser realizada em qualquer uma das diversas — quase infinitas, no labirinto das modalidades de procura e entrecruzamento de informagao — ferramentas oferecidas pela internet. De tal maneira, nao podem subsistir quaisquer diividas sobre a materialidade das condutas aqui imputadas, ofensivas que siio 4 honra do querelante. De outra parte, nfo podem remanescer dividas maiores quanto a autoria das ofensas, vez, que na pagina correspondente ao texto aludido aparece o nome de MARCELO TRASEL como responsdvel por aquele “post”. E em se consultando os “links” disponiveis no sitio que abriga o “blog”, o “www.trasel.com.br”, obtém-se os dados profissionais e © nome completo do querelado: MARCELO RUSCHEL TRASEL. 5 DO CARATER REMATADAMENTE CRIMINOSO DA DIFAMACAO E DA INJURIA PERPETRADAS PELO QUERELADO Da analise conjunta dos fatos e dos dispositivos legais incidentes, é possivel concluir que a atitude do querelado se amolda perfeitamente aos tipos penais da difamagao e da injiria. CAMPOS Ademais, as assertivas injuriosas e difamatérias foram veiculadas pela intemet ¢, sendo reproduzidas e discutidas em ampla escala, so aptas a atingir nimero elevado de pessoas, de modo a fazer incidir a causa de aumento de pena do artigo 141, III, do Cédigo Penal. Tal se demonstra, inclusive, pelas numerosas incidéncias do “post” nas ferramentas de pesquisa disponiveis. Assim, também, se considerado o expressivo n sitio mantido pelo querelado, em comen mero de mensagens postadas no io a0 veiculado por ele. Com feito, o querelado praticou rematada difamagéo na medida em que imputou fato ofensive a reputacdo do querelante, atribuindo-lhe “litigancia de mi-fé” e participago em “traméias”, a par de insinuar o seu envolvimento com “afitudes imorais, antiéticas ou ilegais”, para nfo falar na sugestio de eventual protagonizagéo de “ameagas” as familias dos responsaveis pelo “novacorja”. © querelado associou 0 querelante, ainda, & pritica do prevalecimento do direito de agao, do abuso do acesso a justiga para “combater a liberdade de expressio”. Justiga, esta, que, segundo 0 querelado, seria “o refiigio dos canathas”. Com o que, no contexto e na motivagao do texto de responsabilidade do querelado, entre os “canalhas” estaria o querelante! Desnecesséria seria maior digress&io sobre o carater gravemente difamatério de tais imputagdes — umas mais, outras menos —, mas todas manifestamente ofensivas 4 honra, naquilo que so aptas a enodoar a reputagao do querelante. Desnecessério, tampouco, minudenciar 0 carater rematadamente injurioso da alcunha de “eanalha” que é associada ao querelante. Mas vale ressaltar, a esta altura, que ha dois aspectos que estéo a agravar ainda mais as aleivosias perpetradas, no que diz respeito ao querelante. Primeiro, porque as imputacdes atingem sobremaneira a honra do querelante, que ¢ jomnalista e muito depende de sua honorabilidade e credibilidade profissional, nao sendo toleraveis as imputagdes de “litigancia de mé-fé”, nem de participagdio em “traméias”, ou de conduta “imoral, antiética ou ilegal”, feitas pelo querelado. Be aioe ram 8 Gyn 9m Caan Cato “a Sat =F GN 28S - eae does CAMPOS Segundo, porque as imputagdes sao propaladas, a partir do meio tecnolégico utilizado pelo querelado, a numero indeterminado, mas certamente numeroso, de pessoas. Tudo isto torna a difamagao ainda mais perversa ¢ os prejuizos honra objetiva do querelante mais pronunciados, devendo se projetar na exasperago da pena eventualmente aplicada e, inclusive, ensejando a incidéncia da majorante do art. 141, III. De outra parte, 0 querelado praticou injuria ao ofender a dignidade do querelante, expondo-o perante terceiros estimulando que estes terceiros 0 expusessem, dando conta de fatos que diriam com a sua dignidade pessoal e profissional (0 “ponto de honra”, n: sentido de que falava a doutrina de Nelson Hungria e de outros penalistas classicos). Consumada, assim, também a ofensa a dignidade, a honra subjetiva do querelante, assumindo os contomos tipicos criminais da injuria, Trata-se a dignidade, como se sabe, de direito de personalidade que assume protegao privilegiada na ordem constitucional e legislativa do direito brasileiro. Nao € 0 caso, assim, de se subestimar a sua tutela pelo direito penal, como aqui se busca. E se & evidente, ressalve-se, que nio esteja em discusséo © direito do querelado de se manifestar e expressar 0 seu pensamento ¢ as suas opinides, inclusive por meio de veiculos de amplo acesso e divulgagao como a internet, também é certo que tais liberdades nao podem se traduzir em irresponsabilidade sobre 0 que dizem e escrevem. De modo algum os direitos de expressio relacionados as assertivas veiculadas pelo querelado autorizariam os abusos pelos quais enveredou, ofendendo a dignidade e a reputagao do querelante. Tampouco a liberdade de expressio pode implicar a concessao de uma espécie de imunidade ao querelado, ou aos seus amigos da “novacorja”. Isto porque, no sistema constitucional do Estado de direito brasileiro, 0 regime & 0 de liberdade, mas com a ressalva da devida responsabilidade pelos eventuais abusos, como se conclui da leitura sistemética que deve recair sobre o encontro dos incisos IX e X do art. 5°. CAMPOS 4 E por maior que seja o sentimento de onipoténcia — ou de “miss%io” — do querelado e de seus colegas, é elementar que nos Estados consitucionais de nossos dias, em que vigora o principio republicano, as condigdes de jornalista ou de “blogueiro”, por mais importantes, dignas e elevadas que sejam, n&o colocam o sujeito 4 margem da aplicagdo do direito, como se pertencesse a uma casta de aristocratas intangiveis as maos da Justiga. De igual maneira, no pode 0 querelado pretender, de sdo consciéneia, negar ao querelante 0 acesso a jurisdigo para salvaguardar os seus direitos e ver responsabilizados aqueles que contra eles atentem (art. 5°, XXXV, da Constituigaio da Repiblica). Nao pode o querelado ento pretender que se aceite, como afirma em seu texto, que recorrer ao Judiciério se constituisse em abuso e em “refiigio dos canalhas”. Finalmente, cumpre destacar que uma solucdo constitucional de compromisso entre as liberdades de expressio e de manifestacdo do pensamento, de um lado, e os direitos de personalidade, de outro, ndo exclui a eventual responsabilizagdo pela via criminal, aqui palmilhada, daqueles que incorrerem em exercicio abusivo das liberdades, em detrimento da honra ou de outros direitos alheios. 4, DOS PEDIDOS: Ante todo o exposto, serve a presente para requerer que seja determinada a notificagéo do querelado, nos termos do artigo 520 do Cédigo de Processo Penal, para audiéncia a ser aprazada pelo Juizo. E sendo ulteriormente recebida a queixa-crime, o que também se requer, seja devidamente processada, até a final condenagio do querelado pela pratica dos crimes de difamagao (art. CAMPOS 139 do Cédigo Penal) e injuiria (art. 140), devendo incidir a causa de aumento de pena prevista no art. 141 III, como medida de inteira e rematada justica Protesta, outrossim, pela producao de toda a prova admitida em direito. Nestes termos, pede e espera deferimento. Porto Alegre, 27 de outubro de 2009. Norberto Flach OABIRS 25.889 Sih hn Se detompesnse A a Sanat Rts Pe =e an a ‘mseraasanomsca