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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a
um novo nível."

J. M. COETZEE

Homem lento
Oito palestras

Tradução
José Rubens Siqueira

Seja porque suas pernas desobedecem. desliza metro após metro. Relaxe!. depois se ponha de pé. duro. Fica esticado no chão. O corpo que voou tão leve no ar ficou pesado. tirando-lhe o ar. o ousado rapaz do trapézio voador”]: verso de uma conhecida canção norte-americana. Há coisas piores do que largar o corpo. distante. roda. (N. já que. seja porque de momento está tonto (ouve. o impacto do crânio no asfalto. ele apaga. O choque o colhe pela direita. Como um gato. O toque do sol é suave. como é bem sabido. pode haver coisas piores do que tirar uma soneca rápida. pronto para o que vier em seguida. um jovem de cabelo arrepiado e espinhas na testa. E alguém está parado em cima dele. * “He flies through the air with the greatest of ease. mas antes de chegarem essas palavras ele apaga de novo. surpreendente e doloroso. ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar (voa pelo ar tão cheio de graça!)* e de fato sente os membros obedientemente moles. Na verdade. Mas não é bem assim que as coisas acontecem. oco.) . como uma faísca elétrica. sem parar. Quer perguntar o que aconteceu com sua bicicleta. esperar a força voltar. “Minha bicicleta”. Por um momento. uma bicicleta pode desaparecer num relâmpago. A palavra pouco usual limber ou limbre** também está à vista. como um golpe de marreta). (N. breve. É uma manhã gloriosa. o mundo oscila debaixo dele. tão pesado que não consegue levantar nem um dedo. se cuidaram dela. e levanta seu corpo da bicicleta. mais do que sente. volta a si. enunciando a palavra difícil sílaba por sílaba. em paz. Fecha os olhos.1. ao contrário. até se sentir quase embalado pelo deslizar. this daring young man on his flying trapeze” [“Ele voa pelo ar tão cheio de graça. diz a si mesmo: role. ele diz ao rapaz.) ** Maleável. T. T. ele absolutamente não se levanta.

Está sendo embalado de um lado para outro. e assim por diante. O que está acontecendo? Se abrisse os olhos. saberia. Em torno dele. a parte interna de sua própria pálpebra. “Calma. diz uma voz. depois F-T-I-V-O-L. mas não consegue. dizem as letras. depois o pânico. portanto. Alguma coisa está vindo até ele. também uma brancura granulosa como pasta de dentes velha em que sua mente parece envolta.2.” A picada de uma agulha. Tarde demais! Com um sorriso e um tapinha tranqüilizador no braço que ele parece estranhamente ouvir. a pergunta deverá ser essa. Mas não consegue ainda. Isto é grave?: se houver tempo para uma pergunta apenas. “Dói muito?”. transportado. querendo dizer O que é isto que está acontecendo comigo? ou Que lugar é este onde eu me encontro? ou mesmo Que destino é esse que me coube? Aparece do nada uma garota de branco. depois E. “O que é isso?”. de forma que não consegue pensar direito e se desespera. Desperta em um casulo de ar morto. um tumulto que sobe e desce com ritmo próprio. uma brancura inexorável: teto branco. da caverna interior um gemido cresce e explode de sua garganta. Ainda mais urgente. muito provavelmente. luz branca. faz uma pausa. depois a consciência em si. depois Q-W-E-R-T-Y. Tenta sentar-se. chegam-lhe vozes. Uma letra de cada vez. Se retorce. depois um tremor. é como se estivesse revestido de concreto.* É tomado por algo como pânico. E-R-T-Y. De longe. olha para ele vigilante. ela segue seu rumo. embora ele prefira não se deter no que a palavra grave possa significar. lençóis brancos. . mas não sentir. pronuncia ou talvez grite mesmo. ele tenta criar uma interrogativa. Um instante depois. Em sua confusão mental. Frivole. uma mensagem sendo datilografada em uma tela rosada que treme como água cada vez que ele pisca e é. claque claque claque. a dor é lavada.

mas vamos salvar o que for possível. e a sua perna ficou muito comprometida. repete o médico. aninhando sua cabeça de velho. não sei até que ponto se lembra. o dano foi muito grande.” Uma pausa. “Este não é um daqueles casos em que temos escolha. Estende a mão para tocar seu rosto e deixa a mão pousada ali. Você levou uma trombada. antes que se passe um minuto um jovem que deve ser o médico mencionado se materializa ao lado da garota e murmura no ouvido dela. “Roupa”.porém. diz ele. que a questão da gravidade. É porque tomou uma dose de morfina. porque o jovem faz uma coisa surpreendente. a perna que manda obscuros sinais de que agora é a perna errada.” Como se soubesse que estão falando a respeito dela. levantando o mais que pode as sobrancelhas para indicar urgência. diz a garota e dá-lhe a bênção de mais um de seus sorrisos. “Bom dia. Paul. Vamos entrar em cirurgia daqui a pouquinho. “Paul?”. seus sorrisos positivamente angélicos. “Está me ouvindo? É esse mesmo o seu nome. uma mulher com uma pessoa que amasse. Paul Rayment?” “É”. “Salvar?”.” Algo deve acontecer com o rosto dele nesse momento. Paul”. tudo sob controle. “Está tudo certo. Onde está minha roupa? Onde está minha roupa e até que ponto é grave a minha situação? A garota flutua de novo para seu campo de visão. “Salvar sua perna”. por exemplo. e dá-lhe um tapinha no rosto. mas temos o seu consentimento para prosseguir? Vamos salvar o que for possível. tenta dizer. a perna direita emite uma pontada de dor branca e aguda. recuperar-se. de fato. O joelho foi quase completamente esmagado e uma parte da tíbia também.” . como se essas terríveis palavras a acordassem de um sono inquieto. diz o jovem. “Hora de ir. não sei dizer agora se vamos conseguir salvar o joelho. O médico vem falar com o senhor daqui a pouquinho. Tenta tocar a perna direita. sentar-se em ambiente familiar. Você entende? Dá sua permissão? Não vou pedir que assine nada. diz o médico. O gesto o deixa constrangido. mas você levou uma pancada e tanto. É o tipo de coisa que uma mulher poderia fazer. fechar a porta. “Ótimo. mas por educação não pode recuar. nada sai do lugar. Ele ouve a própria respiração entrecortada e depois o sangue latejando nos ouvidos. “Não temos escolha. é a necessidade de encontrar seu rumo para casa. “Vai confiar em mim?”.” E. “Certo”. mais urgente que a espreita da pergunta do que realmente aconteceu na rua Magill para atirá-lo nesse lugar morto. ele pisca os olhos. ele responde com cuidado. diz o jovem médico. “Não se preocupe”. “Vamos ter de amputar.” Ele arqueia as sobrancelhas de novo. Minha roupa: talvez essa deva ser a inócua questão preparatória. Vamos dar uma olhada e ver quanto podemos salvar. mas sua mão não sai do lugar. Deve estar se sentindo um pouco tonto agora. com um imenso esforço. Tonto. ele diz.

Hansen) espera que ele (Paul Rayment) aceite o . para mantê-lo atualizado. vai cicatrizar dentro de uma ou duas semanas.. embora ao mesmo tempo agradavelmente letárgico. mas uma reconstrução dessa ordem exigiria uma série toda de operações. em parte boas. afinal. uma depois da outra. Isso que dá ficar desatento um minuto que seja! E a bicicleta: o que aconteceu com a bicicleta? Como é que eu vou fazer compras agora? Culpa minha ter ido pela rua Magill! E amaldiçoa a rua Magill. em parte não tão boas.”. É isso que dá!. diante do que pode acontecer e do que efetivamente acontece com o corpo humano quando é atingido por um carro em alta velocidade. mas ele foi salvo pelo capacete que estava usando. ao longo de um ano. O dr. embora. Voltando à perna. não conseguiram salvar o joelho. A porta se abre e uma enfermeira aparece. “Está melhor?”. e depois notícias mais específicas sobre a perna. abençoado. quanto ao estado geral. Hansen) e seus colegas. os indícios preliminares são de que não foram afetadas. então. na verdade.. mas isso foi substituído. A abrasão das costas e dos braços parece pior do que é. Ele (o dr. O impacto — ele mostrará depois o raio X — foi diretamente no joelho e houve mais um componente de rotação. andasse de bicicleta pela rua Magill havia anos sem que tivesse acontecido nenhum acidente. Fica evidente que o que ela precisa fazer enquanto ele fica tranqüilo é inserir um cateter. Hansen quer apresentar a ele. sim. realmente elefantina. Perdeu algum sangue. precisamos fazer uma coisa. ele (o dr. O que o jovem dr. É uma coisa desagradável de ser feita. a perna foi que recebeu a pancada. uma cara nova. está apenas ferido. é a tal ponto o contrário de grave que ele pode se considerar um felizardo. A perna que levou a pancada dá a sensação de ser enorme. A batida provocou uma concussão. ele está de parabéns por não ter sido nada grave. deixando um bom pedaço de osso para uma prótese. fresca. o maxilar não quebrou. é primeiro um rápido panorama geral de seu caso. Quanto às funções motoras. ao chegar. acharam melhor remover a perna exatamente acima do joelho. ralha consigo mesmo. talvez dois. O monitoramento vai continuar. ele é o seu velho eu (cheio de energia!. Primeiro. poderiam talvez ter optado por uma reconstrução. seria capaz de escorregar para uma soneca a qualquer momento. Em uma pessoa mais jovem. Tiveram uma discussão rigorosa e a decisão foi unânime. com uma porcentagem de sucesso de menos de cinqüenta por cento. pergunta e acrescenta depressa: “Não tente falar ainda. Na verdade. de forma que a junta foi esmagada e torcida ao mesmo tempo.Acorda muito mais tranqüilo consigo mesmo. de forma que. considerando a idade dele. mas não há dor. Se está preocupado com a rigidez do maxilar. pensa). ele fica contente que seja com uma estranha. protegido. no fim das contas. Então vou pedir que o senhor fique bem tranqüilo enquanto eu. Hansen vai chegar daqui a um minuto para conversar. mas não há sinal de sangramento intracraniano. Enquanto isso. A cabeça está clara.

A família é uma questão menos direta. “Data?”. escapou-lhe inteiramente. Porém pode ser mais assertivo sobre o fato de não ter esposa nem filhos. mas ainda vive nele ou com ele. por exemplo. Antes do que você espera vai estar andando de novo. É só treinar um pouco. os três? Aqueles de cuja vida se nasce não morrem. claro. Não é o fim. solteiro. mas é assim que é: ela escapou para uma vida própria. e os papéis resultam surpreendentemente difíceis. e como deve ser informada? E seguro-saúde. Por que não me perguntou primeiro?. apenas machucado. se quiser. Primeiro a violação. “e vou gostar de responder a todas. Um membro artificial. assim como tem uma mãe que. conclui ele. Há papéis a assinar antes de ser deixado em paz. “Você. ele é acima de tudo prudente (mas onde está a carteira. Qual é a sua seguradora? Que cobertura o seu plano proporciona? O seguro não é problema. os dois. vai começar a gritar. ele gostaria de informar a quem formulou a pergunta. Funções motoras não afetadas. Para todas as razões práticas. e certamente para os propósitos do formulário. mas a parceira nesse empreendimento não faz mais parte dele. a enfermeira supervisionando. tem na carteira um cartão para provar isso. Assim que a cirurgia estiver cicatrizada vamos adaptar uma prótese. assim como espera ser levado por aqueles que vêm depois de você. Está coberto de cabo a rabo. nos momentos em que não está nele ou com ele. depois que você dormir um pouco. Foi casado uma vez. sente menos vergonha da dificuldade com as palavras. no cemitério de Pau. “Uma prótese. diz ela. solitário. Quem é sua família? Qual a resposta correta? Tem uma irmã. com certeza. Serão sua família. Alguma pergunta mais?” Ele sacode a cabeça. Quatro semanas. portanto. Você leva esses com você. sozinho. Os comprimidos que aceita são destinados a amortecer a dor e fazê-lo dormir. “2 de julho”. que ele raramente vai visitar. e traça uma linha nas outras perguntas. ele não é casado: não casado. deve estar cheio de perguntas”. assina os formulários. Hansen. depois o consentimento à violação. Escapou dele. Como ela conseguiu esse truque. diz o dr. mas se pronunciar as palavras vai perder o controle. talvez menos. se bem que agora. escreve em letras de fôrma. De bicicleta também. ele não faz ainda nenhuma idéia. perguntam os papéis. A família. “Cabeça erguida!” Isso não é tudo. pergunta à enfermeira.equilíbrio dessa decisão. mas talvez não agora. ele quer dizer. espera a trombeta dos anjos em seu jazigo no cemitério de Ballarat. sabendo que o queixo não está quebrado. Ela morreu há doze anos. Família: NINGUÉM. mas ele . mais distante em sua espera. outra palavra difícil. Mas o formulário não tem espaço para respostas extensas. Quem é e onde está a família dele. diz ele. “Então converso com você de manhã”. Ele escreve a data.” “Prótese”. onde está a roupa?). melhor de manhã. porém. Um pai também.

É só um sonho. devido ao trauma e ao repouso no leito. os molares daquele lado também estão moles. vai preferir o quê?” “Prefiro me virar sozinho. “Hoje à tarde. diz o dr. É surrealista. arrancou fora minha perna e jogou no lixo para alguém recolher e atirar no fogo. de vaga urina — isto tudo não é um sonho. diz o dr. usando as mãos em concha para demonstrar como fizeram. só alguns passos para ver como se sente. Hansen. não consegue mastigar. vai haver uma . só agora ele nota) e aperta a coisa branca. Não tem nenhuma sensação. “Não é da prótese que estamos falando mesmo. ao mesmo tempo. “e suturamos aqui. a realidade real mesmo.” “Tudo bem.” Acena com a cabeça para a enfermeira. Decerto esta coisa. Hansen. a coisa de que o jovem com aqueles óculos brilhando loucamente falou com tamanho entusiasmo — quando é que aquilo vai aparecer? Nunca em toda a vida viu uma prótese nua. A enfermeira Elaine. É como um toco de madeira. Agora posso falar da sua perna? Posso falar sobre os cuidados com a perna?” Cuidados com a minha perna? Ele está fervendo de raiva — será que não percebem? Você me anestesiou. Está aprendendo a falar entre dentes cerrados.não dorme. No entanto. é a coisa real. se tudo é o mesmo dia. diz a si mesmo e cai em sono muito profundo. Mas podemos começar amanhã ou depois de amanhã. todo o dia de hoje. você pode marcar com a ortopedia?” “Não quero andar hoje”. que agora ele inspeciona pela primeira vez debaixo do lençol.” “Vou repetir: não quero prótese. este cheiro de antisséptico e. não vamos apressar você para nada. Não é só o maxilar que está machucado. dá a sensação de um sonho. Só para você ver que não é o fim do mundo perder uma perna. A imagem que vem à mente é a de um bastão de madeira com uma farpa na ponta como um arpão e ventosas de borracha nos três pezinhos. Não uma caminhada longa. “Hoje vamos fazer você andar”. Estende a mão (os três dedos do meio estão enfaixados juntos. se o tempo ainda significa alguma coisa. Elaine e eu vamos ajudar. diz ele. prometo. Assim que a ferida cicatrizar. “Se não quer uma prótese. este quarto nu. diz o jovem dr. Hansen e a enfermeira Elaine trocam olhares. assunto encerrado. vem direto da terra dos sonhos. “Não quero que me apressem.” “Tudo bem”.” O dr. Não quero uma prótese. Como pode se pôr aqui na minha frente e falar de cuidados com a minha perna? “Estendemos o músculo remanescente por cima da ponta do osso”. agora é apenas reabilitação. o primeiro passo da reabilitação. Saído de Dalí. o que nós queremos é que o músculo forme uma almofada em cima do osso. Hansen. Durante os próximos dias. este objeto monstruoso enfaixado de branco e ligado a seu quadril. E aquela outra coisa. “Elaine. Isto tudo — esta cama estranha. isso ainda está bem mais para a frente.

pode sentir o tempo agindo sobre ele como uma doença mortal. Os ponteiros não se mexeram. De vez em quando.tendência a edema e inchaço. consegue escutar o fantasmagórico arrepio da carne tentando cicatrizar de novo. Noite ou dia. em sua avó sentada à mesa da cozinha depenando um frango. e às vezes o fazem dormir. . como a cal viva que despejam em cima de cadáveres. “Vamos combater isso com alongamento. é súbito e breve. como se rajadas de restos de anestésico subissem de seus pulmões para dominá-lo. mas o tempo não. Mas é claro que está errado. As enfermeiras são boas.” A enfermeira Elaine assente com a cabeça. fechada em suas bandagens. com os sonhos ruins. O tempo o mastiga. dois idosos no mesmo barco. Olha o mostrador do relógio. Vanity Fair. meramente enviar uma ou duas faíscas. ele pergunta. tenta pensar em outras coisas — na própria respiração. Dois velhotes. Temos de cuidar disso. A Elaine vai mostrar para você alguns exercícios de alongamento e. nem pelas revistas que alguma agência gentil providenciou (Who. cutuca o traseiro. nas abelhas entre as flores. discretamente. É como se tivessem de abrir caminho através de cola. voltando de uma cirurgia no quadril. conveniente para sua raiva de dentes cerrados. o tempo se arrasta. não tem de pressionar muito para convencê-lo disso. O homem fica o dia inteiro de olhos fechados. Quando prende a respiração. Abre os olhos. Mesmo parado ali. “Quem me acertou?” Há lágrimas em seus olhos. se precisar. sente frio. mas ele não se interessa pela televisão.” Ele se põe de lado. devorando uma a uma as células que o constituem. mas também deixam sua cabeça confusa e introduzem tamanho pânico e terror em seus sonhos que ele resiste a tomá-los. A dor não é nada. assim. Mudaram alguém para seu quarto. “Quem fez isto comigo?”. Do lado de fora da janela fechada. Os comprimidos que lhe dão a cada seis horas varrem o pior da dor. são gentis e alegres. grava a posição dos ponteiros na cabeça. um homem mais velho que ele. em qualquer coisa. ela pode ajudar. Ele sente calor. Australian Homes & Gardens). Vai haver também uma tendência do músculo de se retrair para o quadril. Não pode gritar porque não consegue abrir os maxilares. Há um aparelho de televisão na frente da cama. As noites não terminam nunca. Alongamento é muito importante. diz a si mesmo. o que é melhor. A dor não é mais real que uma chapa de raio X. um grilo canta para si mesmo. O relógio está parado. Suas células estão se apagando como luzes. depois disso ele logo se contenta com a confusão. a perna. Quando o sono vem. não tem de pressionar nada. só um alerta do corpo para o cérebro. uma dupla de enfermeiras fecha as cortinas em torno da cama e. atende às necessidades corporais dele. mas isso é conveniente. o que é bom. Depois fecha os olhos. coça e não dá para alcançá-la. A dor é a coisa pra valer.

uma vez que isso parece tornar mais fácil para seus tratadores . como se ele estivesse pregando uma peça em todo mundo. por baixo da gentil consideração. aquela que se permite brincar com ele. No final da segunda semana de sua estada na terra da brancura. de rabugice. agora.mas por baixo de sua alegre eficiência ele consegue detectar — não está errado. “Daria uma levantada. Só não quero ver nenhum deles. “Não sou Robinson Crusoé. quando está tudo em ordem. “O senhor não tem família?”. diz ela. se ao menos fosse permitido. que o fazem desejar a morte. toma consciência mais agudamente das implicações de ser solteiro. sabe que não faria nada disso. o seu e o de seu companheiro. ele grita para si mesmo. se instalar na frente da porta fatídica. Tão jovens e tão desalmados!. identifica chaves e depois. não contam. vai começar a feder. engolir a dose. sem mais delongas. Se houvesse um jeito de dar um fim a si mesmo por meio de alguma atitude puramente mental ele daria fim a si mesmo imediatamente. quase sem peso. A única coisa de que não podem cuidar é o corpo que deixam. depois de um ou dois dias. Hansen. se instala direitinho na cama arrumada e compõe as feições para o esquecimento. É apenas a dor e as noites arrastadas. obrigado”. neste hospital. Tenho certeza.” “Vou receber visitas quando sentir vontade. podiam pegar um táxi para o crematório. Mas. Se ao menos fosse possível. diz ele. mas para ele não há futuro. apertar o botão que os precipitaria nas chamas e permitiria que saíssem do outro lado como nada além de uma pazada de cinza. sem nenhum lugar para se esconder do olhar impiedoso dos jovens. de irascibilidade. Janet. ao mesmo tempo que pensa nisso. Todos heróis que ninguém canta. Está com a cabeça cheia de histórias de gente que busca o próprio fim — que metodicamente paga contas. antes que a consciência se apagasse. portanto. escreve cartas de despedida. sente a mesma indiferença. insistem com ele para fazer exercícios que vão prepará-lo para esse futuro. e depois. a porta para o futuro foi fechada e trancada. solitário e sozinho. insones. Não é irascível por natureza. pergunta a enfermeira da noite. É como se em algum nível inconsciente esses jovens que foram destacados para cuidar deles soubessem que eles não têm mais nada para dar à tribo e. engole os comprimidos que reservou para a ocasião. ninguém louva. Está convencido de que acabaria consigo se pudesse. veste a melhor roupa de domingo.” “Ver os amigos podia fazer o senhor se sentir melhor”. Estou decidido a não dar trabalho. já viu isso muitas vezes antes — uma indiferença real por seu destino. mas nesse lugar ele se permite crises de mau humor. No dr. já. “Não tem amigos?” Ela torce o nariz ao falar. os moribundos dos moribundos! E que loucura ser sozinho no mundo! Falam de seu futuro. Como é que eu fui cair nas mãos deles? Melhor os velhos cuidarem dos velhos. ele responde. infernizam-no para que saia da cama. “Tenho todos os amigos que podia desejar”. nesta zona de humilhação. o monte de carne que. queima velhas cartas de amor.

as pessoas vão saber o que aconteceu. Hansen.. depois com uma prótese. embora bem comum dr. imagina os colegas respondendo. claro. parecendo querer dizer Quem passou por cima de mim?. Ser um velho lascivo faz parte do jogo. um jogo que ele prefere não jogar. Acredito que vão colocar uma prótese. e ele rejeitou. nem ele espera que venha a valer. “Não tenho nenhuma intenção de processar”. Pelo telefone é fácil inventar uma história. espera-se dele que experimente vulgares desejos por essas mulheres jovens. em última análise. diz ele. Em pessoa. é simplesmente porque não quer ser visto nesse novo estado restrito. Mas evidentemente. Fica morrendo de vergonha quando se lembra de que gritou Quem fez isto comigo? para o sem dúvida perfeitamente competente. não conseguem evitar e que por isso emergirão em momentos inconvenientes e deverão ser eliminados tão depressa e decididamente quanto possível. Foi-lhe apresentada a oportunidade de ouro de dar um exemplo daquele que aceita de bom grado um dos golpes amargos do destino. mas afirmando de fato Quem teve o descaramento de cortar fora minha perna? Ele não é a primeira pessoa no mundo a sofrer um acidente desagradável. Deixo esse lado para o pessoal da companhia de seguro. imagina Janet dizendo aos colegas. “Espero que você processe”. com uma amargura que espera que não passe pela linha.. diz ela. desejos que os pacientes homens. de uma forma ou de outra. até o visitam. Quero minha perna de volta.” Margaret sacode a . “Essa parte da minha vida acabou. perder uma perna não é mais que um ensaio para perder tudo. do incidente na rua Magill até o presente momento. ele responde. humilhante e humilhado. Isso não lhe vale nenhum crédito entre as enfermeiras. não esteve à altura da situação: isso está claro. essa pureza de coração. Vou andar de muleta durante algum tempo.” “Está cometendo um erro”. Mandam bons votos. numa perspectiva mais ampla? Numa perspectiva ampla. Aquele velho peidorreiro!. uma vez que a abominação pelo coto que terá de arrastar consigo de agora em diante está muito claramente escrita em seu rosto. ele responde.” “Acho que não”. não é o primeiro velho a se ver no hospital com bem-intencionados. mas. No fundo ele não é tão mau. ele não se comportou bem. a cena é mais difícil de desempenhar. Uma perna perdida: o que é perder uma perna. É só uma perna. A verdade é que ele não tem esses desejos. indiferentes jovens desempenhando as ações de cuidar dele. agora que está melhorando. Seu coração é tão puro como o de um bebê. Hoje em dia fazem próteses tão maravilhosas que você logo vai estar andando de bicicleta outra vez. independentemente da idade. com um ronco de desdém. Se recusa contato com amigos. Com quem irá gritar quando esse dia chegar? A quem vai culpar? Margaret McCord faz uma visita. senão. “as pessoas que dirigem sem cuidado têm de aprender uma lição.deixá-lo em paz. Desde a abertura do capítulo. Os McCord são seus amigos mais antigos em Adelaide. “Muitas possibilidades cômicas. Margaret está incomodada por ter demorado tanto para ficar sabendo e cheia de virtuosa indignação contra quem quer que tenha feito isso com ele. Ele sabe que. diz ela.

que difícil o que você está tendo de passar!: era isso que ela queria dizer. no panorama que está traçando para si em seus momentos mais serenos. “Na sua opinião. “Está cicatrizando muito bem. ele teria sido sincero com ela. ele não é o tipo de amputado que domina seu novo estado transformado e geralmente se vira. mr. entra em cena. A longo prazo. ele gostaria de lembrar a ela. O que o surpreende em toda a história do hospital é a velocidade com que a preocupação passa de consertar a perna (“Excelente!”. nós todos temos de enfrentar alguma coisa desse tipo. limpeza etc. Hansen. de uma enfermeira especializada. diz. diz . do tipo que. “Que pena!” Bondade dela dizer isso. Rayment. sua pessoa aleijada (palavra dura. vou ser capaz de me cuidar sozinho. “O senhor ainda é moço.”) para a questão de como ele irá (palavras deles) se virar quando for solto no mundo de novo. uma assistente social. Dorianne”. que ela sabia que ele entenderia que era o que queria dizer. Putts. Pobre Paul. Tenho pensado muito em me virar. mesmo quando estiver se movimentando. que deve ser mais franca com o pessoal médico do que foi com ele. O senhor logo vai se sentir inteiro de novo. fazer as compras. com o que quer dizer — e acha que mrs. Indecentemente cedo. Putts ou Putz. na ausência de apoio profissional. e sim do tipo crepuscular. mas o que importa agora se lento ou rápido? Mas essa não parece ser a opinião deles. “Vai continuar querendo ser independente e isso. mas durante um bom tempo vai precisar de cuidados. No fim. com a ajuda de muletas ou de algum outro suporte. mas por que se enganar?) irá. ela vai se sentir na obrigação de. Se contar para mrs. diria a ela. diz o dr. “Não. é claro. na opinião de uma profissional. Putts estivesse preparada para ser sincera. Paul”. mais devagar que antes. Putts. por exemplo. Mas as regras do jogo tornam difícil para ambos ser sincero. mrs. ninguém”. ou pelo menos lhe parece. Putts entende — que não há ninguém que venha a considerar seu dever confuciano devotar-se a cuidar de suas necessidades. De seu próprio ponto de vista. Se mrs. fazer a limpeza etc. vai precisar de alguém à sua disposição. sua comida. de alguma forma. Na visão deles. Putts da caixa de Somnex no armário do banheiro de seu apartamento. ao que parece. apalpando o coto com um dedo lindamente manicurado. ela o informa com as maneiras alegres que deve ter aprendido a usar para tratar com os velhos. segundo as regras do jogo. cozinhar. mais franca e mais direta. talvez.cabeça. mrs. ele pensa depois. coitado. que nós podemos ajudar a arrumar. confiá-lo a uma profissional para protegê-lo de si mesmo. Tem alguém para isso?” Ele pensa um pouco. Ele suspira. acabará em uma instituição de velhos e enfermos. Há muito tempo me preparei para isso. sacode a cabeça. mesmo que o ruim fique ainda pior. O que lhe interessa na questão é o que ela revela de seu estado do ponto de vista de mrs. para dar uma mão. é muito bom. Dessas conversas mais diretas ele evidentemente concluiu que mesmo a longo prazo não vai poder passar sem uma mão. se virar no mundo. diz. “Que pena!”.

(N. não vamos querer nos arriscar. “Bom. “se o seu seguro cobre cuidados com fragilizados?” Uma enfermeira. que pudesse cambalear por aí sem que se quebrassem. Alto demais para má sorte sua. assim de improviso”. “de preferência uma enfermeira particular. não é?”. Hansen. Quanto mais alto.ele. Não que o senhor seja frágil. mais uma enfermeira. acho que meu seguro não cobre isso. com toda certeza”. Mas até poder se movimentar de novo. Putts. E em seguida corou com a gafe. mais frágil. Uma mulher com um chapeuzinho branco e sapatos confortáveis andando por seu apartamento. diz ele. Achou difícil acreditar que aqueles ossinhos de aranha revelados nas chapas pudessem sustentá-lo de pé. . diz mrs. * Em francês. claro. dizendo em tom alegre Hora do comprimido. Nunca operei um homem tão alto. Ele nunca havia pensado em si mesmo como frágil até ver os raios X. Putts. com pernas tão compridas. Cuidar de fragilizados. T. Putts. alguém com experiência em cuidar de fragilizados. “O senhor sabe. mr. diz mrs. não é mesmo?” “Não. R! “Não. dissera o dr. não vamos”. ele responde. “frívolo”. “que atitudes a senhora sugere?” “Vai ter de contratar alguém para tomar conta do senhor. Fragilizado. então o senhor vai ter de arcar com isso. não”. diz mrs.

também não praticou nenhum bem. Wayne alguma coisa. Frívolo. Na véspera da alta. em qual canto do universo. embora . acreditar que a gente será avisada. à maneira como era antes do evento e pode ser ainda. de fato: antinatural. Abaixo o velho. No arrasar de cidades. na matança de inocentes. ele recebe uma visita-surpresa: o rapaz que se chocou com ele. nem mesmo um herdeiro para levar seu nome. para respeitar a palavra dos deuses. prosperar tranqüilamente. aquele dia na rua Magill. Não vai deixar nenhum traço de sua passagem. ele só pôde sorrir. abram alas para o novo! O que poderia ser mais egoísta. Como ele se esforçou.3. mas ali em sua cama de hospital. se o Maior Juiz de Todos desistiu de julgar e se retirou para aparar as unhas. consumindo tempo e sendo consumido. que costumavam designar as vidas como a dele: cuidar de seus interesses. na pilhagem de tesouros. como se em seu nível mais profundo a História soubesse o que está fazendo. ele parece estar revendo suas opiniões. débitos numa coluna. não atrair nenhuma atenção. Wayne veio ver como ele está passando. Quais seres poderiam restar. mais miserável — é isso especificamente que o atormenta — do que morrer sem filhos. datilografada na máquina de escrever oculta deles! Relembrando. Que estranho. Nunca pensou que um dia teria boas coisas a dizer da guerra. ele começa a detectar uma certa sabedoria. quando chegar o momento. Bright ou Blight. interessados em conferir toda a contabilidade do leito de morte que ascende aos céus. créditos na outra? No entanto. De passagem pelo mundo — era assim. então ele julgará a si mesmo: uma oportunidade perdida. numa época anterior. furtando-se à grande obra da geração? Pior que miserável. frívolo não é uma má palavra para resumi-lo. para colocar a alma em ordem. em toda essa descuidada destruição. Se no curso de uma vida ele não praticou nenhum mal significativo. terminando uma linhagem. que definitivamente antiquado. Se não restar ninguém para julgar uma vida dessas.

Wayne que se abateu sobre ele. constrangido outra vez. não intencional. decerto sofreu um acidente. ele. Wayne está esperando um sinal e ele quer ver Wayne fora da sua vida. “Sinto muito pelo que aconteceu. Rayment”. Wayne ainda está ao lado da cama. foi. E. cara!” aos velhos esquisitos ao passar correndo por eles! E agora ali está ele. algo não intencional. até logo. gritar “Foda-se. Ele abre os olhos. só com dirigir muito mal mesmo. Há um leque de respostas que ele consegue imaginar. dos professores e tudo.revele que não veio admitir erro nenhum. como ele fica sabendo depois. Então. Um acidente: algo que cabe a alguém. mas em hipótese alguma admita que fez alguma coisa errada”. tendo de mostrar uma cara submissa. Que alívio deve ter sido para Wayne quando finalmente se viu livre da escola. da parte dele ou da companhia de seguros. mascar chiclete. haveriam de caçoar a caminho de casa. diz Wayne. não esperado. quando conseguiu pisar direto no acelerador. aumentar o volume o mais alto que quisesse. “mas estou com dor de cabeça e preciso dormir. “Bondade sua ter vindo. Wayne. Devem estar tremendo com a idéia de um processo. porém não desagradável.” Não é nenhum artista com as palavras. de caçar palavras que soem como desculpas. de fato. gotas de suor no lábio superior. “Resolvi vir ver como o senhor está passando. Ele fecha os olhos. Paul Rayment. Foi muito azar. diga que sente muito. mr. sem dúvida. Deve ser por isso que Wayne escolhe as palavras tão judiciosamente. esquisito. inesperada. devem ter martelado em cima de Wayne que não se sai da sala enquanto o professor não der um sinal de que a aula acabou. como se tivesse sido alertado de que o quarto tem escuta. Será que se pode dizer que o que ocorreu no malfadado cruzamento se abateu sobre Wayne? Se alguma coisa se abateu. escutando. O tipo de pronunciamento sentencioso. de que os Blight. Por essa definição. rapaz”. Sem dúvida instruiu Wayne antes: “Seja respeitoso com o velho filho-da-mãe. mas seu pronunciamento é cautelosamente evasivo. o jovem Wayne. desejando que Wayne vá embora. ele pode imaginar muito bem. Muito azar. diz. à sua maneira. a começar por Não tem nada a ver com azar. E Wayne Blight? Será que Wayne também teve um acidente? O que terá Wayne sentido. no instante em que o míssil que estava pilotando em uma névoa de música alta mergulhou na doce maciez de carne humana? Uma surpresa. Mas lei é lei: mesmo velhos burros filhos-da-mãe em bicicletas têm o direito de não ser atropelados e Wayne e o pai sabem disso. O que pai e filho dizem um para o outro em particular a respeito de andar de bicicleta em ruas movimentadas. Claro! Na escola. Então a charada se resolve. Mas de que adianta marcar pontos com um rapaz que não tem o poder de consertar o que foi esmagado? Vá e não peque mais: é o melhor em que ele consegue pensar agora. em sua opinião. o pai de Wayne estava no corredor durante toda a visita.” . baixar o vidro e sentir o vento no rosto. pai e filho.

No admirável mundo novo em que tanto ele como mrs. Sheena parece ter dezenove anos. mrs. Se. cuja divisa é Laissez faire!. supervisiona a faxineira. em algum momento. “Sheena já trabalhou com amputados. e sob todos os aspectos inabalavelmente bemhumorada. não a quer. se acordarem vivos na manhã seguinte. Quando os homens da ambulância o levam para casa. desatualizado. mrs.4. que esteja superestimando a preocupação de mrs. confiante. Se neste novo mundo os aleijados ou enfermos. Ele desgosta dela imediatamente. sorte deles. Putts não se veja nem como sua mantenedora. Só tem a si mesmo. que precisa ser protegido da própria incompetência. de uma gordura dura. determina onde os pedreiros . talvez mrs. contanto que se inscreva em um serviço de emergência e mantenha um pager sempre à mão. claro. diz mrs. quase com certeza. os sem-teto querem comer da lata do lixo e estender seus colchonetes na entrada de prédio mais próxima. os indigentes. Putts concorda que ele não precisa contratar uma enfermeira noturna. Putts porque faz o que julga ser uma idéia precisa dos poderes de mrs. Saúde social significa cuidar de pessoas que não podem cuidar de si mesmas. Putts chama-se Sheena. nem como guarda de seu irmão. Putts renasceram. Quando se trata de saúde social. “É trabalho especializado. mas mrs. eles que façam isso: eles que se embrulhem bem e. É ela quem reorganiza o quarto para ele. É possível. enfermeira particular”. Putts vier a decidir que ele é incapaz de cuidar de si mesmo.” Então ele cede. que recurso ele teria? Não tem aliados para batalhar em seu favor. Putts insiste. mas seus documentos comprovam vinte e nove. Putts. Ela faz parte do sistema de saúde social. quando se trata de cuidados e das profissões que lidam com cuidados. Sheena está pronta à espera. Ela é gorda. A enfermeira do dia recomendada por mrs. Em troca. Putts. ou de qualquer um. Seria bobagem sua dispensar a moça. de toucinho. Putts. Ele tem o cuidado de não contrariar mrs. ele está.

ele é assistido por uma seqüência de enfermeiras da agência.” Livrar-se de Sheena acaba não sendo assim tão fácil. “De volta para a cama já”. verdade mesmo. A senhora vai ter de me arrumar outra. “Tão melhor que muleta. com Sheena dando apoio a seu cotovelo. enfermeiras que se chamam de temps e vêm um ou dois dias de cada vez. diz mrs. diz ela. tem ataques do que considera choro seco. “Não pode me arrumar alguém fixo?”. “Quando vamos colocar a perna?”. Depois de Sheena. uma perna nova. antes de lidar com o coto. Inclusos. Quer que o deixem em paz. Quando ele lhe pede que abaixe o volume. durante o qual ela se retira à cozinha para relaxar. faz uma pausa e assume uma voz de bebê. “Muito bem”. Ela já elaborou para eles um horário dia a dia abrangendo refeições. mesmo quando ele não se dá ao trabalho de responder. outro ao meio-dia. depois telefona para mrs. “Não agüento essa moça. elas dizem. há três intervalos. está fraca como uma pasta. sem nenhum esforço. a perna que lhe restou. É derrotado pela manobra de sentar: a perna esquerda. diz ela.” E dá-lhe um tapa de brincadeira no braço para mostrar que é só uma piada. tudo pregado com fita na parede acima da cabeça dele. um no meio da manhã. “Vou pedir a Sheena que não volte”. exercícios e o que ela chama de SC. que elas fingem para ele. Não gosta de nenhuma das temporárias — não gosta de ser tratado como criança ou como idiota. Imagina quantas vezes em sua carreira de enfermeira ela já aprontou golpes nessa mesma escala. mesmo assim.” Ela chama o penico de troninho. O senhor vai ver. ela abaixa o volume. em uma estação que alterna clamorosos anúncios com música bateestaca. rotulados de SD TEMPO LIVRE. “Vou trazer o troninho. Putts. Para conseguir abrandar o orgulho profissional dela. Cai em um mau humor e esse estado de espírito não vai embora. Guarda seus suprimentos na geladeira em uma prateleira que rotula como SD PARTICULAR. Talvez o rádio tenha sido apenas um golpe para enlouquecê-lo e o tatibitate também. Se ao menos viessem lágrimas de . Seja paciente. mantém ligado o rádio na cozinha. “Estou no meu limite”.devem instalar as alças de apoio e assume o comando geral.” De irascível. um à tarde. alegres. dizem. tem de desembolsar o salário de dois meses.” Sua animação por ter escapado do hospital não dura muito. ele tenta usar o banheiro. Daquelas meninas sapecas. Putts pelo telefone. Para não morrer de tédio. Sheena aperta os lábios. não gosta das vozes animadas. Na metade de um banho de esponja. “Está havendo uma grande demanda por tratamento de fragilizados. ele passa a taciturno. não quer falar com ninguém. saúde do coto. diz ele. o senhor está na minha lista A. ele consegue ouvir. “Senão ele vai pensar que Sheena é uma daquelas meninas sapecas. dizem. chama seu pênis de piupiu. O primeiro teste de suas capacidades físicas vem quando. “Agora se ele quiser que a Sheena lave o piupiu dele vai ter de pedir com muito jeitinho”. quando se pega o jeito. “Como está hoje?”. Putts. ele pergunta a mrs. Ele suporta Sheena até o final da semana.

Nunca mais vai passear pela Black Hill. ia ao cinema. Não consegue dar respostas porque não está com vontade de dar respostas. Claro que ele não é um caso especial. Era alto. O que Sócrates diria disso? Pode uma vida vir a ser tão circunscrita a ponto de não valer mais a pena ser vivida? Homens saem da prisão. bom de corpo. com ou sem membros artificiais. Tem gente perdendo membros ou o uso de membros todos os dias. Mas a melancolia não desaparece. Se ao menos eu pudesse me desaguar em lágrimas! Agradece por aqueles dias em que por uma ou outra razão ninguém aparece para tomar conta dele. Putts. Havia sempre mais que o suficiente para mantê-lo ocupado. de poetas cegos e reis malucos também. sem que a melancolia tome posse de suas almas. Se . ele. Se esse modo de vida fazia dele um excêntrico. É isso que quer dizer estar melancólico: num nível muito abaixo do jogo tremeluzente do intelecto (Por que não isto? Por que não aquilo?). Sob o signo desse corte. Antigamente. a imobilidade. no caso dele. pensa. fazer parte do clima. era o tipo de homem que podia durar até os noventa anos. ele ainda pode viver até os noventa. O que há de tão especial em perder um membro? Uma girafa que perde uma perna certamente perecerá. nunca mais irá pedalando ao mercado para fazer as compras. antes do acidente. Podia ter sido solitário. com excentricidades e tudo. depois de anos olhando a mesma parede vazia. O que é pior: a nuvem de melancolia na cabeça ou a dor no osso que o mantém acordado a noite inteira? Tenta passar sem os comprimidos e ignorar a dor. a zelar por seu bem-estar. incorporadas em sras. Bem. muito menos descer depressa de bicicleta pelas curvas do Montacute. Uma vida circunscrita. até fazia o próprio pão. está inteiramente disposto a abraçar a escuridão. não tinha o que se poderia chamar de temperamento melancólico. Tirava livros da biblioteca. ele. A História está cheia de marinheiros de um braço só e de inventores em cadeiras de rodas. o ele que ele às vezes chama de você. a extinção. Mas.verdade!. Culpa os analgésicos pela melancolia. e não vai se expandir de novo. às vezes de eu. havia preservado uma certa energia rija. o corte parece ter distinguido o passado do futuro com uma clareza de tal forma incomum que dá um novo sentido à palavra novo. mas aquele que tem dor a noite inteira. mas girafas não têm as agências do Estado moderno. Ele: não aquele cuja mente costumava voar para cá e para lá. cozinhava para si mesmo. A melancolia parece ter se instalado. mas só do jeito que certos animais machos são solitários. era uma excentricidade que ficava dentro dos limites australianos. mesmo que isso signifique ter de passar a bolachas e suco de laranja. O universo contraiu-se a esse apartamento e a um ou dois quarteirões em torno. Por que ele não haveria de se conformar com uma modesta vida circunscrita em uma cidade que não é inóspita com os idosos frágeis? Não consegue responder a perguntas como essas. que uma nova vida comece. mas se isso acontecer não será por escolha. mas andava de bicicleta ou caminhava. Perdeu a liberdade de movimentos e seria ingênuo pensar que ela algum dia lhe será restaurada. não tinha carro.

e de que gosta bastante. não quer engolir quatro ou vinte Somnex. o corpo cai como um boneco de madeira. Têm um filho no colegial. os membros se desataram e agora seu espírito também está desatado. ele tomará o cuidado de não se salvar. de carro. Estudou na Alemanha. os membros se desatam. se houver tempo para um último pensamento. Veste um uniforme azul-celeste que ele acha um alívio depois de toda aquela brancura. descobre-se relutantemente agradecido pela chegada dela. exibe na cintura um engrossamento que é bem matronal. pode daqui por diante ser um cão. quando veio para a Austrália obteve um diploma da Austrália do Sul. Desatado: essa é a palavra que lhe volta de Homero. Aos domingos. A questão é falsa. ele não tem grandes esperanças com a senhora dos Bálcãs. o sangue jorra. conforme diz. Seu espírito está pronto para tombar. a meia hora da cidade. uma filha na escola secundária. se acontecer de Wayne Blight o atropelar uma segunda vez e jogá-lo voando pelo ar tão cheio de graça. de segunda a sábado. Deixou para trás a terra de seu nascimento faz doze anos. Putts para tempo integral chama-se Marijana. Mrs. é croata. Nos dias seguintes. ele terá de contar com o serviço de emergência. Além de enfermeira particular. nada de se pôr de pé. Ele não quer cortar os pulsos. Depois das desventuras com Sheena. O arranjo feito entre ele e mrs. cozinhar e fazer a limpeza mais leve. porém. “ganhar um extra”. ela é faxineira para. que devem captar dos colegas de classe. Ele desistiu? Quer morrer? É a isso que se resume? Não. mas como um . dedicando a ele nesses dias todo o âmbito de seus conhecimentos de cuidados pessoais. É uma variante de língua com a qual ele não está familiarizado. É isso que a voz diz. com uma vida de homem. A segunda candidata de mrs. Trata-o não como um velho idiota e senil. vivem em Munno Para. e tem um domínio incerto dos artigos definidos e indefinidos. é que ela trabalhará seis dias por semana. com uma vida de cão. ela o atenderá não só como enfermeira. Putts. fala um inglês australiano aproximado. Bem. uma terceira que ainda não está em idade escolar. cheio de consoantes eslavas. informa durante a entrevista. ao norte de Elizabeth. Não quer a morte porque não quer nada. em Bielefeld. Nada de rolar com o golpe. Jokić. Jokić — Marijana — parece capaz de intuir as coisas para as quais ele está pronto e para as quais não está. mas cuidará também das necessidades do dia-a-dia. a voz que sai da nuvem escura. Enquanto sua capacidade de deslocamento estiver restrita. o que quer dizer sair para as compras. com a mediação de mrs. se não exatamente de meia-idade. O marido trabalha em uma montadora de automóveis. De origem. Se tiver um último pensamento. Mas.você até agora foi um homem. não quer se atirar da sacada. será simplesmente: Então é assim que é um último pensamento. com manchas de umidade debaixo dos braços. Marijana Jokić é uma mulher de rosto pálido que. A lança espatifa o esterno. coloridos por gíria que ela deve captar dos filhos.

lava-o. “cirurgia muito difícil. podiam ter tentado reconstruir.” Ele fica interessado em observar até que ponto a conversa é desprovida de duplo sentido. Anos e anos entra e sai de hospital. Para quê. os que nunca envelhecem? Raramente viu alguém se dedicar tão completamente a seus deveres como Marijana.* Le jambon mantém uma boa distância desdenhosa. Se eu soubesse a diferença que faz perder o joelho nunca teria dado consentimento. Parece-lhe uma pena que Marijana deva cair tão cedo e tão decididamente na primeira categoria. Gostaria de não chamar de nome nenhum. separa as mãos em um gesto que lembra a mãe dele. Talvez. eles não gostam de reconstrução. “Bem-feito. diz ele.” Ela avalia o peso do coto judiciosamente com uma mão. “Ela faz as compras e cozinha também. Ele divide as pessoas com quem tem contato em duas categorias: os poucos que viram o coto e o resto. Se tem um nome para aquilo. diz ela. ele reclama com ela. o coto. mas não é possível. Mesmo que a junta estivesse quebrada. Pacientemente. cada item riscado ou..” Não se refere a ela como . Ele reclina. nem tão velhos?. “Vê muita coisa. Hansen. diz o gesto dela. entre os não velhos?. salvar a vida. hã? Para quê?” Ela o coloca entre os velhos. Ela aperta os lábios. Está começando a parecer menos como um presunto defumado do que algo como um peixe cego de água profundas. quando tem de mudar. diz. Bom cirurgião. ela desenrola a coisa. “Não entendi por que não puderam deixar o joelho”. entre aqueles que não vale a pena salvar — salvar a junta do joelho. ela sai. ele desvia os olhos. os 7 cruzados e os 9 pernudos. ela o ajuda em suas abluções. anotados em sua boa caligrafia de Velho Mundo com os números 1 farpados. assim?” Com as pontas dos dedos. “Quem fez suturas?” “O dr. ele imagina. “Boas suturas”. Mas é bom. sem fala de bebê. Só para moço.” Marijana sacode a cabeça. é le jambon. A lista com que sai às compras volta com os recibos de caixa nela pregados. muito difícil. “Reconstrução”. Quando ele diz que quer ficar sozinho.. os nem tão jovens. Não conheço Hansen. ele se refere a Marijana simplesmente como a enfermeira diurna.” “Hansen. depende. Não me disseram nada. não chama aquilo de coto. toca muito de leve a si mesmo. e passa um dedo por aquela face nua. como se fosse uma melancia.” Ensaboa-o. aqueles que agradecidamente nunca o verão. Da tempestade de sua atividade na cozinha emergem refeições que são invariavelmente apetitosas. A água morna faz surgir um enrubescimento.homem de movimentos limitados por uma mutilação. Para si mesmo. pergunta. Onde. “Osso cresce. ela encaixaria a si mesma: entre os jovens?. Aos amigos que telefonam para saber como está indo. “Claro. Para paciente. “Contratei uma enfermeira diurna muito competente”. sabe. gostaria de não pensar naquilo. mais velho. “Você vê muitas operações malfeitas?”.

ela é. Objetivamente. Ljubica. Orgulhosa. ela traz com ela a filha mais nova. Algumas manhãs. Quanto à menina. embora por causa dele se retire para a sacada.) . diz a si mesmo quando sente a nuvem de melancolia baixando de novo. O filho dela. ombros retos.Marijana para que não soe muito familiar. E se dão bem também. aprova-o. pele perfeita e olhos que cintilam com o que só pode ser inteligência. de boa constituição. intransigentes. É rápida. seu patrão. “o presunto”. de geração em geração. T. amarelados de nicotina. Ela fuma à maneira da velha Europa não reconstruída. Marijana ajuda a filha a assar bolinhos ou biscoitos de gengibre. Da cozinha vem o murmúrio constante de suas vozes. sólida. pele cor de oliva mais que pálida. ele pensa. Controle-se! Ainda não sabe se gosta de Marijana. tanto quanto gosta do nome dela. melhor ainda. Se ela não flerta. uma mulher positivamente bonita. Os dentes. É como chamar uma menina de Aimée ou. Marijana vai chegar de manhã. de cachos escuros. é alegre: essa é a cara que ela mostra a ele. Embora nascida na Austrália. nas conversas com ela. ela informa. acabou de completar dezesseis anos. Dezesseis: ela deve ter se casado jovem. É melhor que a menção engraçadinha ao piupiu dele. Gosta do nome dela. é eficiente. lyubov quer dizer amor. Mas na companhia dele ela parece ter a capacidade de anular o sexo. Mais que não desprovida de atrativos. ele desiste de ser irascível e se esforça por encontrá-la com um sorriso. que é a cara pela qual ele paga e com que deve se contentar. com suas quatro sílabas cheias. Rayment. Lado a lado as duas fazem uma bela figura. seios para a frente. se não se engana. assim como ela o chama de mr. Mãe e filha: os protocolos da feminilidade passando adiante. de Amour. Jokić. Então. continua a chamá-la de mrs. Ele gosta do nome. Enquanto está cozinhando. uma mulher de bom porte. Gostaria que ela pensasse bem dele em todos os aspectos. caçando uma palavra em inglês que capte o que ela é. o nome da menina é Ljuba. * Em francês. a mulher. é uma beleza. o primeiro. (N. Em russo. ele não se importa. a que ainda não está na escola. ela não é atraente. às vezes. são sua única falha objetiva. Ele está em processo de revisar sua estima por ela. com cabelo castanho. olhos escuros.

Por intuição. Nesse estado. ele pensa. ele se acomoda ao regime de cuidados de Marijana. Quando não dá para evitar a nudez. Onde ela adquiriu essa delicadeza. ele desvia os olhos para ela ver que ele não está vendo quando ela o vê. O que tem de ser feito em particular. mas ele desconfia que venha de fontes mais profundas. é tentador abandonar todo decoro. sobre sua experiência na Austrália. Mas ele resiste à tentação. ele imagina. e uma lembrança que depressa se apaga. massageia os músculos debilitados e debilitantes. inteiramente decente. . Não tem interesse em consertá-lo. ela está pronta a falar — sobre o trabalho. ela faz o possível para garantir que seja feito em particular. Quando ele está a fim de ouvir. mesmo que um homem diminuído. e não podia estar mais claro que Marijana entende e concorda. no que nunca aprenderá a fazer sem ajuda. diz ela quando aperta com os polegares os músculos das coxas obscenamente reduzidos.5. discretamente o ajuda naquilo que ele não pode fazer sem uma ajuda. “Me diga se dói”. na escola de enfermagem? Talvez. pura e simples. Marijana Jokić ter entrado em sua vida. Faz o que pode para manter a decência e Marijana o apóia. como o corpo dele irá reagir. Ainda tem a sensação de ser uma alma com uma vida anímica não diminuída. Uma intuitiva. ela parece saber o que ele sente. O amor que ele pudesse ter tido pelo próprio corpo há muito desapareceu. ou. Uma mulher decente. Uma das melhores coisas que aconteceram com ele. Passam as semanas. O homem que era é apenas uma lembrança. quanto ao resto. pensa consigo. a dor é tão parecida com prazer que ele não consegue identificar a diferença. Toda manhã ela o orienta nos exercícios. uma delicadeza que suas predecessoras tão claramente não tinham? Em Bielefeld. ela se contenta em ficar quieta também. se dói. Mas nunca dói. Quando ele se cala. fazer com que volte a alguma eficiência ideal. ele é apenas um saco de sangue e ossos que é forçado a carregar. Ele está procurando ser um homem nisso tudo.

” “Então passe”. nasceram três — três almas para o céu. a ausência de filhos lhe parece loucura. como uma pós-imagem. Paulo dirá.” Marijana podia tê-lo endireitado. apenas não tão feroz. explicando como será além da vida. agora que é tarde demais. um ou nenhum: a toda a sua volta. Seus avós Rayment tiveram seis filhos. ainda não é nenhum ser espiritual. Marijana podia ser mãe de seis. porque pequei”. a não ser mostrar as mãos vazias. um pecado mesmo.. sim. Seus pais tiveram dois. e amargamente. não tão consumidor. ao contrário. As palavras são de são Paulo. e dará um passo de lado: “na casa de nosso Pai há lugar para todos. Um homem não inteiramente homem. “Que sujeito triste”. “Me abençoe. Seis. por trás de portas fechadas. o fantasma de um homem que olha para trás e lamenta o tempo mal utilizado. como o amor de Deus. mesmo para a ovelha estupidamente solitária. Do ventre de dois. Paulo dirá. Mas não é nada disso. pai. É apenas enfermagem. Marijana o teria auxiliado a sair da falta de filhos. mas um homem de algum tipo. Um dos mistérios. a ausência de filhos certamente era uma virtude. “você é um sujeito triste. seu santo padroeiro. apenas cuidados. Agora. me arrependo de mim. je me repens. disso ele tem certeza — são Paulo. na alegoria ou talvez na analogia desenvolvida por irmão Aloísio. pai. mais almas? Como o céu vai se encher se a terra pára de mandar suas cargas? Quando chegar ao portão. Ele. ele esquece qual. dez. Podiam estar realizando um ato sexual. ela é da Croácia católica. e acredite. mas agora entendo. um pós-homem. “E como pecou. quando todos amarão a todos com um amor puro. o maior dom de todos?” “Quando eu estava vivo eu não entendi. como a paciência. portanto: um meio-homem. Ele não tem nenhum. mas. penetrá-la e abençoá-la com sua semente — semente que. ele dirá. pai. Costumava pensar que fazia sentido: em um mundo superpovoado. se ele tivesse encontrado Marijana a tempo. Uma mulher construída para a maternidade. Não entendeu por que lhe foi dada a vida. mas para ele será Paulo) estará esperando. amor materno. Mas o quê — o que seremos quando estivermos além de homem e mulher? Impossível para a mente mortal conceber. triste. eu me arrependo. doze e ainda ter amor sobrando. Uma frase da aula de catecismo de meio século atrás flutua em sua mente: não haverá mais homem e mulher. Marijana e seu esposo. como a serenidade. Que bem maior pode existir além de mais vida. do tipo que fracassa ao realizar aquilo que o homem é trazido ao mundo para realizar: procurar sua metade.. seu xará. Mas é tarde demais agora: que triste. uma loucura de manada. dois. meu filho?” Ele então não terá palavras a dizer. vê a miserável seqüência repetida.Um homem e uma mulher em uma tarde quente. representa a palavra de Deus. são Paulo (para outras almas novas poderá ser Pedro. que pena! . ai.

6.

Ele saiu do hospital com um par de muletas de antebraço e uma coisa chamada andador
Zimmer, um suporte de alumínio de quatro pés para usar no apartamento. O equipamento
é emprestado, deve ser devolvido quando não mais necessário, quer dizer, quando ele se
diplomar em formas superiores de mobilidade ou morrer.
Há outras ajudas que se podem obter (ele descobre no folheto), que vão desde um
aparelho que acrescenta rodas e um freio de segurança ao suporte quadrangular Zimmer
até um veículo propulsionado a motor de bateria, com barra de direção e uma capota de
chuva conversível, destinada a aleijados avançados. Se quiser um desses aparelhos mais
luxuosos, porém, terá de adquirir por conta própria.
Com os cuidados de Marijana, aquilo que ela gosta de chamar de perna vai, dia a dia,
perdendo a cor furiosa e o ar congestionado. As muletas estão se transformando em uma
segunda natureza, embora ele se sinta mais seguro apoiado no andador. Quando está
sozinho, vaga de cômodo em cômodo com as muletas, pensando que se trata de exercício,
quando na verdade é apenas inquietação.
Visita o hospital para checkups semanais. Em uma dessas visitas, sobe no elevador com
uma velha, curvada, com nariz de gavião e pele escura, mediterrânea. Pela mão leva uma
versão mais jovem de si mesma, de ossos pequenos, quase tão morena, usando chapéu de
abas largas e óculos escuros tão grandes que escondem a parte superior de seu rosto.
Apertado contra a mulher mais jovem, ele tem tempo, antes de sair, de aspirar o perfume
bastante sufocante de gardênia e de notar que, estranhamente, ela está usando o vestido
pelo avesso, com as instruções de lavagem a seco à mostra como uma ousada bandeirinha.
Uma hora depois, ao sair do hospital, observa a dupla de novo, enfrentando dificuldades
com a porta giratória. Quando chega à rua, só consegue enxergar o grande chapéu preto
oscilando na multidão.

A imagem delas permanece dentro dele: a megera levando a princesa vestida às pressas
em um sonâmbulo passeio enfeitiçado. Não tão jovem para ser princesa, talvez, mas
atraente mesmo assim: de carne macia, mignon, seios fartos, o tipo de mulher que ele
imagina que dorme até o meio-dia e como café-da-manhã come bombons servidos em uma
bandeja de prata por um menino escravo de turbante. O que será que fez para precisar
esconder o rosto?
É a primeira mulher a despertar seu interesse sexual desde o acidente. Ele tem um sonho
no qual ela está de alguma forma presente embora não se revele. Em absoluto silêncio,
uma rachadura se abre no chão e avança para ele. Duas vastas ondas de poeira sobem no ar.
Ele tenta correr, mas as pernas não se movem. Socorro!, sussurra. Com cegos olhos negros,
a velha, a megera, olha fixamente para ele e através dele. Murmura insistentemente uma
palavra que ele não consegue captar, algo como Toomderoom. A terra debaixo de seus pés
cede, ele afunda.
Margaret McCord telefona. Sente muito não ter mantido contato, está fora da cidade.
Pode levá-lo para almoçar, talvez, no domingo? Podiam dar um passeio de carro pelo vale
Barossa. Infelizmente, o marido dela não poderá ir junto: está fora do país.
Ele adoraria ir, responde, mas, ai, acha que a viagem longa de carro seria como um
calvário.
“Então quer que eu só apareça aí?”, ela pergunta.
Anos atrás, depois do divórcio, ele teve um breve relacionamento com Margaret.
Segundo ela, em quem ele não confia necessariamente, o marido nada sabe dessas
intimidades.
“Por que não?”, diz ele. “Venha no domingo. Venha jantar. Tenho um canelone
excelente que minha enfermeira preparou.”
Eles comem na sacada, numa noite bastante fresca, em meio aos chamados de despedida
dos pássaros, com velas de citronela piscando em cima da mesa. Há um certo
constrangimento: o que aconteceu um dia entre eles não está de forma alguma esquecido.
Margaret não menciona o marido ausente.
Ele conta a Margaret como foi o período sob as ordens de Sheena; conta de mrs. Putts, a
assistente social, que o preparou para a vida após a morte em todos os aspectos, menos sexo,
tópico que ela se sente modesta demais para abordar, ou talvez considere inadequado para
um homem de sua idade.
“E é inadequado?”, pergunta Margaret. “Sinceramente?”
Sinceramente, ele responde, ainda não sabe dizer. Não está incapacitado, se é isso que
ela está perguntando. Sua coluna está intacta, assim como as ligações nervosas relevantes. A
pergunta ainda não respondida é se ele será capaz de realizar os movimentos necessários ao
participante ativo de um par sexual. Uma segunda questão, correlata, é se a vergonha e o
embaraço não vão suplantar o prazer.
“Eu pensei”, diz Margaret, “que dadas as circunstâncias você poderia ser dispensado de

desempenhar o papel ativo. Quanto à segunda questão, como é que você vai descobrir se
não tentar? Mas por que você ficaria envergonhado? Não é assim como se você tivesse
lepra. Você só sofreu uma amputação. Amputados podem ser bem românticos. Pense em
todos aqueles filmes de guerra: homens que voltam da guerra com tapa-olhos, ou com a
manga vazia presa com alfinete no peito, ou de muletas. As mulheres caíam em cima
deles.”
“Um amputado apenas”, diz ele.
“É. Você foi vítima de um acidente, de uma colisão. Não é vergonha nenhuma, nada
censurável. Depois disso, você teve uma perna amputada. Parte da perna. Parte de uma
estúpida parte do corpo. Só isso. Você ainda tem saúde. Ainda é você mesmo. É o mesmo
homem bonito, saudável que sempre foi.” Ela lhe dá um sorriso.
Eles podem testar no quarto agora mesmo, os dois, testar se ele ainda é o homem que
sempre foi, testar se mesmo com uma parte do corpo faltando o prazer pode superar seu
oposto. Margaret não seria avessa, disso ele tem certeza. Mas o momento passa e eles não
aproveitam, coisa que, depois, olhando em retrospecto, ele agradece. Não quer se tornar
objeto da caridade sexual de mulher nenhuma, por mais bem-intencionada. Nem gostaria
de se expor ao olhar de alguém de fora, mesmo que seja uma amiga de outros tempos,
mesmo que ela afirme que acha amputados românticos, este novo corpo não amável dele,
isto é, não apenas a coxa brutalmente encurtada, mas os músculos flácidos e a obscena
barriguinha que inchou feito um balão. Se ele algum dia for para a cama com uma mulher,
vai ter o cuidado de que seja no escuro.
“Recebi uma visita”, ele conta a Marijana no dia seguinte.
“É?”, diz Marijana.
“Talvez haja outras visitas”, continua, sombrio. “Mulheres, quero dizer.”
“Para morar com senhor?”, diz Marijana.
Para viver com ele? A idéia nunca lhe ocorrera. “Claro que não”, diz. “Amigas apenas,
mulheres amigas.”
“Muito bom”, diz ela e liga o aspirador.
Marijana, ao que parece, pouco se importa se ele recebe mulheres no apartamento. Não
tem nada a ver com o que ele apronta com o tempo dele. E o que tanto poderia aprontar
afinal?
Ao contrário de Margaret, Marijana nunca o viu como era antes. Para ela, ele é
simplesmente o cliente mais recente, um velho de pele clara, de músculos frouxos e
muletas. Mesmo assim, sente vergonha de Marijana, e de sua filha também, como se a
corada boa saúde da mãe e a angélica clareza da menina estivessem fazendo um duplo
julgamento dele. Vê-se evitando o olhar da menina, se escondendo na poltrona em um
canto da sala como se o apartamento pertencesse às duas mulheres e ele fosse algum tipo de
praga, algum roedor que conseguiu entrar.
A visita de Margaret deflagra uma série de devaneios sobre mulheres. Todos de colorido

seu corpo novo e alterado não é mencionado em palavras. diz para ela. Nesses devaneios. está tudo bem. deixe eu ajudar a arrumar. é tudo como antes. piscinas escuras nas quais ele mergulha. A voz é grave. Ela levanta a mão para tirar os óculos.sexual. Tudo bem. . na maioria das vezes. os olhos. Seu vestido. diz ela. ele e a mulher chegam a ir para a cama. É. nem visto. Mas a mulher com quem ele está não é Margaret. a mulher que viu no elevador. em alguns. aquela de óculos escuros e roupa pelo avesso.

eles terem empacotado suas coisas e atravessado a fronteira em busca de uma vida melhor. Sem falar de criminosos de guerra diversos e do jogador de tênis alto com o saque forte cujo nome lhe escapa (Ilja? Ilić? Roman Ilić?). apostando corrida. como aprova qualquer demonstração de que ela não se livrou do Velho Mundo em favor do Novo. os croatas são gente desconhecida para ele. Ela tem medo de que ele quebre algum membro ou coisa pior. provavelmente nunca conhecerá. ele diz a Marijana. Não se pode impedir rapazes de explorar seus limites. “Seu filho já é um rapaz”. Querem ser admirados. o marido comprou para Drago uma motocicleta. Ele e os amigos ficam nas ruas laterais. Iugoslavos são outra coisa. Mas gosta da atitude de Marijana. No trabalho. na Austrália. Para o recente aniversário de dezesseis anos dele. Agora Drago sai toda noite. Marijana e seu marido que monta carros? De que estavam fugindo quando fugiram do velho país? Ou seria simplesmente o caso de. mas um lenço de cabeça como qualquer boa dona-de-casa dos Bálcãs. mas evidentemente nunca lhe ocorreu perguntar a eles que tipo de iugoslavo eram. Onde é que Marijana se encaixa no quadro iugoslavo. cujo nome é Drago. praticando derrapagens e sabe Deus o que mais. Marijana usa não uma touca de enfermeira. não faz a lição de casa. Deve ter cruzado com dezenas de iugoslavos na época em que ainda existiam iugoslavos. na opinião de Marijana. mais pacífica? E se não encontraram uma vida melhor. gosta dessa transparência: bem-educada demais para se vangloriar do filho. Querem ser os mais fortes. Querem ser os mais rápidos. mas que é conhecido pelos amigos como Jag. “Está se experimentando.7. pula refeições. em vez disso ela . Ele aprova o lenço. Um grande erro.” Não conhece Drago. mais pacífica. onde a encontrarão? Marijana conta-lhe sobre o filho. cansados e enjoados de tanto conflito.

Tínhamos outras coisas na cabeça. da temeridade dele. dentro dos limites do pessoal impessoal. Está numa prateleira da cozinha.” Está tudo dentro dos limites. Rayment?” “Não. Rayment? Ele diz não é nada. Uma conversa entre um homem e uma mulher.reclama da rebeldia. Então. Ele guardou a lata como lembrança. Não chegamos a isso. minha esposa não pensa em nós não termos filhos. de sua joie de vivre. Ou talvez não diga que ela é uma boa mulher coisa nenhuma. Tiveram um filho juntos e viraram uma dessas famílias modernas. não. mr.” Ele ainda tem a bicicleta no depósito do andar de baixo. ai. complicadas. Casou com um divorciado que tinha filhos. nos divorciamos. Se o filho não sabe. E depois: Pense um pouco na sua mãe.” Agora ela tem uma pergunta para ele. o que está se passando entre eles. aquele dia na rua Magill. como costumavam dizer as moças antigamente. de botas e jeans apertados. principalmente quando fiquei mais velho. não. de que ele será a ruína dela. diz a Marijana.” “E sua filha. junto com uma parte das compras matinais: uma lata de grão-de-bico com um afundamento. duzentos e cinqüenta gramas de brie que derreteu ao sol e depois endureceu. ele pergunta. Depois a polícia a levou. um estranho. outras ambições. sugere. embora tenha ficado na sarjeta até a noite.” “Acha que ele escuta. sem a gente perceber.” “E senhor nunca pensa nisso depois?” “Ao contrário. pensei cada vez mais. quem é ele. Não tenho muito contato com ela. Recolheram também a caixa de plástico que estava amarrada ao bagageiro. “traga ele aqui um dia. cabeça nas nuvens. Marijana traz uma fotografia: Drago de pé ao lado da motocicleta em questão. em eu não ter filhos. dirá a ele. debaixo do braço um capacete com um raio pintado. ela muito nova para planos. uma mulher que por . Quer que você tenha uma vida longa e feliz.” “E esposa? Ela pensa nisso?” “Minha esposa casou de novo. Consegue bolsa de estudos para isso. a roda de trás dobrada em duas. Um pão. mr. não inteiramente a sério. para dizer? Na manhã seguinte. Vai mostrar a lata para Drago. ai. “Ele quer Academia da Força de Defesa. Ninguém se deu ao trabalho de roubá-la afinal. “Se quer dar um susto em Drago”. Minha ex-mulher.” “Mostro para ele o que sobrou da bicicleta também. “Que planos tem o seu filho?”. as varetas enroladas nos suportes. sua filha mais velha?” “Ah. Não foi um casamento feliz. só acidente de bicicleta. É uma boa mulher. em que todo mundo chama todo mundo pelo primeiro nome. assim como para sua mãe devia ter sido um broto. “Senhor não tem filhos. E depois. eu e minha esposa. um memento mori. que levou um tempo surpreendentemente longo para chegar. Eu mostro a perna para ele. Ela se preocupa com você. Sem dúvida vai partir muitos corações. Quer ser marinheiro. Imagine se fosse sua cabeça.

eu me cuido sozinho”. “Então quem vai tomar conta de senhor?” Uma estranha pergunta. então. Não contei? Me trouxeram para a Austrália quando era criança. talvez. não tenho família para cuidar de mim. Tenho família na Europa. Ele não é mais nada. por exemplo. ficou englobado naquela frase. Marijana pode não aprovar pessoas que casam e descasam e nunca chegam a ter filhos. esse filho agora teria trinta anos. o tomar conta de que ele falou compreende vestir seu melhor terno e engolir a caixa de comprimidos. Je m’en occupe: eu cuido disso. saindo para um passeio. Eu nasci na França. em Adelaide não. os membros trêmulos. em Lourdes. está cheio de arrependimentos. “Não espero uma velhice longa.” E deixam as coisas assim. deitado em seu cestinho nos últimos estágios da cinomose. O principal deles é o arrependimento de não ter tido um filho. um homem independente. Inimaginável. conversa de homens. a conversa de particularidades. Minha irmã tinha nove. então o que significa sua resposta: Eu me cuido sozinho? Será que tomar conta. mas o filho que ele não tem é de quem realmente sente falta. com cesto e tudo. de câncer. Eu tinha seis anos. nada sério. Então. dois de cada vez. je m’en occupe”. Mesmo assim. Mas a pergunta dela fica ressoando na cabeça dele: Quem vai tomar conta do senhor? Quanto mais encara as palavras tomar conta de. os dois se conhecendo melhor em um país em que todas as pessoas são iguais. esperando vazar. conversando disto e daquilo. Lembra-se de um cachorro que tinham quando era criança. com um copo de leite quente. acho. mas o inimaginável está aí para ser imaginado. ganindo sem parar. ou se importavam um com o outro.acaso é a enfermeira. meninas têm um encanto próprio. Seria bom ter uma filha. “Bon. catolicismo ou nada. ele ouviu na floresta o estampido chato de uma espingarda. nunca mais viu o cachorro. faxineira e empregada geral do homem. não. você ou qualquer outra pessoa que eu empregue para esse fim. Ela já morreu. Marijana é católica. ele e Marijana. e acabou-se. eles voltam toda noite como lembretes. ajudante de compras. e saiu da casa. mas ela é esperta o suficiente para calar sua reprovação.” “Tem família em Adelaide?” “Não. minha mãe e meu padrasto. A resposta óbvia é: Você. enquanto ainda se amavam. disse seu pai a certo momento e pegou o cachorro. Se assim é. e deitar na cama com as mãos cruzadas no peito? Ele tem muitos arrependimentos. o focinho quente e seco. Durante uma . Esse tipo de cuidado. ele responde. Mas provavelmente existe uma forma mais caritativa de interpretar a pergunta — como Quem vai ser seu apoio e suporte?. Eu e minha irmã. eu cuido disso. eu faço o que tem de ser feito. você vai tomar conta de mim no futuro imediato. mas perdi o contato com eles há muito tempo. pai e filho. com uma arma. ou estavam enamorados um do outro. Mas neste país uma coisa é tão boa quanto outra. Imagine os dois. e todas as crenças. mais inescrutáveis parecem. Morreu cedo. Se ele e Henriette tivessem tido um filho logo. não era decerto o que Marijana tinha em mente. “Ah. Cinco minutos depois.

encerrar o expediente. se gratificante. Podia. uma versão mais jovem. querendo dizer Sim.dessas conversas ele deixaria escorregar uma observação. um filho homem em seu útero. eu aceito. vai ter de pedir. ou pagar a ela. casar com ela. Ele não tem certeza se jamais gostou de paixão. confiar uma criança aos cuidados de um velho aleijado e solitário sejam zero. A história parece indicar que manifestações apaixonadas não fazem parte de sua natureza. O piupiu. por exemplo. Se quiser que lave seu piupiu. O que ele quer é um filho. excluindo sua esposa. o tipo de amigo com quem se vai distraidamente para a cama. depois se tenta lembrar se realmente aconteceu. Ou podia localizar (mas como?) alguma jovem fértil. seu filho imaginário mas imaginado. cuidou de mim. suas entranhas têm a capacidade de gerar um filho? Terá a semente e a paixão animal suficiente para levar a semente ao lugar certo? A história não parece indicar que sim. mas adequada. Putts. na verdade: não uma palavra de que goste. ou aprovou isso. a língua pendurada para fora. Em resumo. Como amante. dissera Sheena no tempo que passara a seu lado. ou qualquer coisa. para não pegar com maior seriedade depois. ou induzi-la de algum outro jeito a permitir que ele gerasse. diria o filho. Você já fez o seu dever. menos devastadoras. algum embrião de Wayne Blight. Mas não é um bebê que ele quer. não um homem de paixão. Cachorros dominados pela paixão copulando. William. se oferecer para adotá-lo e esperar ser aceito. Será que seu piupiu. sobre ser hora de entregar os pontos. agora é minha vez. em uma das suas variedades mais brandas. embora as possibilidades de o sistema de bem-estar social. sensualidade — isso é o que Margaret McCord lembrará dele. O filho. . Um homem bom para se aconchegar em uma noite fria. um filho de verdade. como caxumba. representado por mrs. mesmo tão tarde na vida. ela e meia dúzia de mulheres. ou tentasse gerar. Eu cuido de você. Paixão: um território estrangeiro. localizar (mas como?) algum órfão rebelde. Uma afeição agradável. uma branda. entregar a sucessão. entenderia de imediato: entregar o encargo. mais forte e melhor de si mesmo. filho e herdeiro. Robert. menos que zero. por exemplo. uma dessas observações indiretas que as pessoas fazem nos momentos em que as palavras verdadeiras são difíceis demais de pronunciar. um tanto canino. sorriso infeliz na cara. uma aflição cômica. mas inevitável. “Hum”. que se espera sofrer ainda jovem. Não está fora dos limites do possível adquirir um filho.

“Não. “Colecionador de livros. não livros. não é?” Guardador-de-livros: é assim que chamam gente como ele na Croácia? O que será que quer dizer guardador-de-livros? Um homem que protege os livros do esquecimento? Um homem que se apega a livros que nunca lê? Seu escritório está forrado do chão ao teto de livros que nunca abrirá de novo. quando ainda dava para comprar fotografias de primeira geração. Como esse campo de estudo não é popular nem propriamente definido. se eu guardei alguma coisa foram fotografias. mas porque ele não terá mais tempo. dali até ali. E quando eu ainda tinha ânimo para ir a leilões. Ia me deprimir demais agora. Quer ver?” Em dois armários antiquados. Senhor guardador-de-livro. Para a visita do fotógrafo. Só essas três estantes. Guardo naqueles armários. se quiser. Outros se contentam com uma camisa limpa. Pode passar o aspirador em cima deles com aquele bico especial. O resto é de livros comuns ou de jardinagem. Há um punhado da Austrália do Sul também. as mangas arregaçadas até o alto para mostrar os braços morenos e talvez um . Espólios de falecidos. é assim que se chama aqui. até mesmo do mundo. “Tudo bem. “Senhor quer que eu espano os livros?” Onze da manhã e Marijana parece ter ficado sem nada para fazer. não porque não valham a pena ler. ele tem centenas de fotografias e cartões-postais da vida nos primeiros campos de mineração de Victoria e Nova Gales do Sul. eu limpa bem limpo. sua coleção pode ser a melhor do país. são uma coleção propriamente dita. Guardador-de-livro.” Ela sacode a cabeça. Não. ele tira o grupo de fotografias que é o cerne da coleção. “Comecei a guardar nos anos 1970.8. não quer poeira nos livros. os mineiros vestiram suas melhores roupas.” Para ela ver. de cedro. Aqueles são meus livros sobre fotografia.

ela está certa. dizem que Austrália não tem história porque na Austrália todo mundo novo. Não interessa se a pessoa vem com esta história ou aquela história. para países árabes.” Ela tira o lenço da cabeça. Coleção Rayment. Quem são esses nós? Marijana e a família Jokić. entende? Isso que dizem na minha terra. países de petróleo. “São de Antoine Fauchery. iriam visitar nas noites de sábado em busca de você sabe o quê. mostra que Austrália tem história também. Se nomes valem tanto quanto imagens. “Olhe estas”.” Ao lado delas. mas que agora parece ter desaparecido da face da Terra. cauteloso. Assim as pessoas não pensa que Austrália país sem história. Então muito bom alguém guarda fotografias velhas. sorrindo timidamente por cima de um roliço ombro nu. não vou vender. será um legado. em déshabillé. eles fala. hã. claro.” “Mas fotografia também. para que se dar ao . se é isso que é. Zero história. é bom. quem fica com elas. o que dizem na Europa. Confrontam a câmera com o ar de grave segurança que vinha naturalmente para os homens dos tempos vitorianos. diz. não só mato. para Qatar. onde estão os castelos e catedrais? Imigrantes não têm uma história própria? Você deixa de ter uma história quando muda de um ponto do globo para outro?” Ela descarta a censura. arruma atrás. não?” “É. Garotas que Tom e Jack. Está tudo arranjado. Flora. na Alemanha também. “Na Europa. na Europa inteira. sacode os cabelos soltos. ele diz. sim. Mas eu fala da Europa. saindo das escavações. É igual ir para deserto. na Austrália começa do zero. dizem. Como nós. dizem?” “Quer dizer. Senão. Marijana”.” “Mas eles bota seu nome. essas fotografias. É bom guardar história. ou Marijana e ele? “Não é só mato. sabe. Como eu. depois capitão Cook. “É bom. Por que quer ir para Austrália?. Fotografia não é mesma coisa que só nome. diz Marijana quando termina a exibição. Para que no futuro crianças cochichem umas com as outras: ‘Quem era esse Rayment da Coleção Rayment? Era alguém famoso?’. só mato e bando de imigrante. não?” “Colocam meu nome na coleção. depois de senhor?” “Quando eu morrer. Mato. Povo aborígine. Ele morreu jovem. dá um sorriso para ele.” “Então. Mas elas vale muito dinheiro. expõe alguns cartões-postais marotos: Lil mostrando um pedaço de coxa ao estalar uma liga. Como nós.lenço de pescoço limpo. você está dizendo? Elas vão para a Biblioteca Estadual. Rayment. “Então é isso que senhor faz”. Só se vai por dinheiro. “Não. talvez. mais vivo. depois imigrantes — onde está história. A Biblioteca Estadual aqui em Adelaide. valem dinheiro.” “Senhor não vende elas?” “Não. senão podia ter se tornado um dos grandes fotógrafos. para que guarda fotografias?” Sem dúvida. Ele mostra duas de Fauchery. não só nome? Fotografia de mr. cheios de dinheiro.

a em Marijana? E qual é o nome desse sedimento.” Tirar o pó dos livros. “para os livros voltarem na mesma ordem. ele pensa. mas também os filhos que vieram com ela. Jokić viria atrás dele com uma faca? Ele faz piadas com Jokić porque tem inveja dele. que depois de sua morte ficarão juntando poeira no porão de uma biblioteca junto com outros legados menores. diria que é admiração. Escrivaninha e armários são cobertos com jornal. diz ele. olhando as panturrilhas sólidas e as ancas apertadas que ondulam quando ela se estica para as prateleiras mais altas.trabalho de guardar imagens? Por que guardar as imagens de luz desses mineiros. Deus me livre. Como eu era antes. coisa que faxineiras anteriores realizavam passando um espanador de penas por cima das lombadas. De onde essa mulher tira energia? Será que toca sua própria casa nos mesmos moldes? Como mr. é tarefa atacada por Marijana como uma grande operação. Pode o desejo brotar da admiração. que estava flutuando no ar nessas semanas passadas começou a assentar. “Só tome o cuidado”. Uma coleção de fotografias. depois.” Ela lhe dá um olhar de tamanho desdém que ele se retrai. Não muito longe dali vive e respira um mr. mais trabalho do que . imagens dos mortos. e o rapaz altivo com a motocicleta. Forte como um cavalo. a filha querida. pelo menos a perfeição de um certo tipo feminino. se transforma em uma outra coisa. faute de mieux. metade de uma estante por vez. ele intervém. ou pan Jokić. cujo nome ele não lembra. não pode se esquecer disso. os livros são levados para a sacada e espanados individualmente. por que não apenas digitar seus nomes e expor a lista em uma vitrine? “Vou perguntar ao pessoal da biblioteca”. com uma mulher que principalmente se admira? Não apenas uma mulher: mas uma mulher casada. Será que mr. J reage a isso? Ou será para ele apenas. Se tivesse de escolher uma palavra para isso. No final das contas. seja o que for. as prateleiras vazias imaculadamente limpas. Será que algo. ou são as duas coisas de espécies bem diferentes? Como seria deitar lado a lado. nervoso. Jokić. que saíram de dentro dela: Ljubica. Jokić tem essa mulher admirável e ele não. ou gospodinb Jokić. desse sentimento? Não dá a sensação de desejo. mas sem dúvida igualmente bonita filha do meio. ou qualquer nome que use. “Vamos ver o que eles acham da idéia. nu. um interesse que não ia muito além de curiosidade. para seu patrão australiano: mostrar o quanto de si mesma está disposta a doar a seu novo país? É no dia da limpeza dos livros que aquilo que havia sido apenas um tênue interesse em Marijana. Mas não uma foto de mim como sou hoje. explodiria de raiva se soubesse que o patrão de sua mulher se abandona a devaneios de deitar peito a peito com ela — explodiria em uma daquelas raivas elementares balcânicas que dão origem a choques entre clãs e a poemas épicos? Será que mr. Jokić tem não apenas a mulher. Forte como uma égua. Jokić tem todos e ele tem — o quê? Um apartamento cheio de livros e móveis. Ele começa a ver nela se não beleza. a distraída. Marijana Jokić. peito a peito.

é daqui que nós viemos: do frio. Não só mato. E a mesma coisa vale para o resto da equipe. Não zero história. Nossa história. poderia ser uma mulher e seis filhos. Não apenas gente escura. ele gostaria de dizer a Marijana. nosso passado. um corcel negro de olhos brilhantes e narinas dilatadas representando os apetites baixos e um corcel branco de índole mais calma . Quer dizer. dessas mulheres com seus olhos negros desamparados. Mas será verdade? A mulher da foto o aceitaria como um membro de sua tribo — um menino de Lourdes. Fizeram por ele o que puderam enquanto puderam. nos Pireneus franceses. trazida para tomar o lugar da primeira. não reclama. Olhe. ou a garota mais velha podia ser não uma filha. o coração. episódios de mau tempo que cruzam o céu e passam. congelada. Vem-lhe à lembrança a capa de um livro que tinha. Mostrava uma carruagem puxada por dois corcéis. Nunca mais terá sua velha capacidade de recuperação. Um povo com uma história própria. Seja o que for que dentro dele recebeu a tarefa de consertar seu organismo depois de tão terrivelmente atacado. uma das suas crises de lúgubre autopiedade que se transformam em negra melancolia. que parece esgotada de vida. ele costumava pensar. um passado. Gosta de pensar que isso vem de outro lugar. afinal. os músculos. Essa. está cansado demais para a tarefa.valem para os catalogadores. os pulmões. com a mãe que tocava Fauré no piano? Será que a história que ele quer chamar de sua não é. Na mão que a criança menor leva à boca. proibida a entrada de estrangeiros? Apesar da presença estimulante de Marijana. uma edição popular de Platão. também. dessa pobreza e desse trabalho triturante de barriga vazia. agora querem descansar. Nunca mais será o que foi antes. ele parece estar à beira de um de seus maus momentos de novo. sobrecarregado demais. Prefere não pensar que vêm de dentro dele e são dele. como bois na porta do matadouro. Por que então não consegue resistir a esses mergulhos na escuridão? A resposta é que está decaindo. capta cada marca da pele e das roupas. exausta de corpo. Ele não consegue imaginar como essa coisa toda pôde ser realizada com as longas exposições que eram necessárias naquela época. mas uma segunda mulher. uma segunda esposa. são parte dele. mas amedrontada. O destino dá as cartas e você joga a mão que recebeu. apenas uma questão de ingleses e irlandeses. A luz os banha direto no rosto. da umidade. a luz expõe o que pode ser geléia. da fumaça dessa pobre cabana. era a sua filosofia. primeiro na rua. depois na sala de operações. mas é mais provável que seja lama. o cérebro. Dentre as fotos de Fauchery. Não choraminga. não mostrou para Marijana uma que o fascina mais profundamente. É de uma mulher e seis crianças agrupadas na porta de uma cabana de barro e sapé. Todos têm a mesma expressão: não hostil ao estranho com a máquina fotográfica último modelo que um momento antes desse momento enfiou a cabeça debaixo do pano preto.

Ele próprio. mijar e cagar.” “Flash. Ljuba. Hora de descansar. De pé na carruagem.c Fleshd é do que nós somos feitos. e se o chicote começar a zunir em volta de seus quartos. Depois de sessenta anos de acordar toda bendita manhã. “Não sei o que faria sem ela. ele acha que ela não se dá ao trabalho de ouvir o que ele diz. Mas escapar da morte devia tê-lo abalado. em seu livro. mastigar a ração de aveia. Ela senta-se à mesa da cozinha. Ele está preso no mesmo velho eu de antes. Ljuba aceita. diz ele. que mal se agüentam com o próprio peso. aquilo que chama a si mesmo de eu. ele de pé ao lado dela. Não fez nada disso. um jovem de torso nu e nariz grego. representando possivelmente o eu. renovado sua sensação da preciosidade da vida. E se o descanso lhes for negado. como se a usasse todo dia. cansado de si mesmo — cansado mesmo antes de a ira de Deus. eles simplesmente dobrarão as pernas e se acomodarão em seus arreios. “Largue a limpeza. parece gostar. só que um pouco mais curta. estará sentado em uma carroça arrastada por uma junta de pangarés e rocins que bufam e chiam. e. Wayne Blight. apenas mais cinzento e lúgubre.” Ela não responde. o atingir. Ele jamais diminuiria esse evento. que zuna. está começando a choramingar. Encolheu seu mundo. a colisão.” “Tem um parafuso na sua perna?” . acho que não. Uma da tarde e Marijana ainda não terminou os livros. verdade seja dita. cansado até os ossos. receber os arreios para puxar a carga do dia. aberto janelas dentro dele. mas o quê? O que crianças pequenas comem além de pipoca. “Sua mãe é uma grande ajuda para mim”. é a mesma perna que eu sempre tive. bem. no livro dele. “Não. Você tem uma perna artificial no armário?” “Não. A flash of lightning. É o que basta para levar uma pessoa à bebida. Bem. Às vezes. transformou-o em um prisioneiro. uma fita amarrada na testa. Termine amanhã”. não tem nada assim no meu armário. o livro de sua vida. esse que se chama Paul Rayment. ele diz a Marijana. a junta de Paul Rayment estará farta. Foi nada menos que uma calamidade. “Termino num flesh of lightning. bolachas e cereal tostado incrustado com açúcar.representando as menos identificáveis paixões mais nobres. geralmente uma boa menina — se ainda é permitido dividir as crianças em boas e más —. apoiado na invenção de Zimmer. segurando as rédeas. se um dia for escrito. “Quem sabe senhor dava alguma coisa para ela comer. ela responde. Cansado de coração. hora de sair para o pasto. transmitida por intermédio de seu anjo. dirá a parelha. coisas que ele não tem na despensa? Tenta misturar uma colher de geléia de ameixa em um pote de iogurte. cansado de cabeça.” “Mas no armário do banheiro. Devia dar alguma coisa para Ljuba comer.” “Verdade que você tem uma perna artificial?” Ela pronuncia a palavra comprida com naturalidade. a imagem será mais sem graça que no de Platão. carne e ossos.

a Em francês. nem a despesa. Em criança. Tem um osso dentro. T. ele limpa também a manga.” “Não tem um parafuso. Sem que ninguém percebesse. Com um estalar de lábios. que eu saiba não. Depois. em direção à axila. e indo para o sul em busca de sua desamparada e pulsante presa? Será que deveria contar a história para Ljuba. igual às suas pernas e às pernas da sua mãe.” E não diz mais nada. Por que está perguntando?” “Porque sim. Ele pega um guardanapo e limpa os lábios dela. contornando a curva axilar. (N. no passado.“Um parafuso? Não. ele se lembra. contaram-lhe a história de uma mulher que num momento de distração enfiou uma minúscula agulha de costura na palma da mão. Minha perna é toda natural. “senhor”. “não tenho nenhum parafuso em mim.) c Um relâmpago. a agulha subiu pelas veias da mulher e com o tempo perfurou o coração dela e a matou. parafusos e porcas. Talvez. correias. Elas chegam do útero com tudo novo. com membros esquisitos ou um cérebro que solta faíscas. No momento. mas em retrospecto parece mais um conto de fadas. Cada novo nascimento um novo milagre. Talvez seja essa a explicação. (N. para parafusar a sua perna artificial?” “Não. (N.) b Em tcheco ou eslovaco (pan) e em croata (gospodin). passar adiante sua críptica sabedoria. T. É a primeira vez que toca um dedo em uma criança. Mesmo nas que chegam danificadas. não valia a pena nem o esforço. tão limpa. Porque eu não tenho nenhuma perna artificial. T. Marijana tenha cuidado de um homem com parafusos nas pernas. tudo em perfeita ordem.” Mas Ljuba perdeu interesse na perna que não é uma perna mecânica. (N. E não sou. pinos e suportes. do tipo que não foi dado a ele porque era velho demais para isso.) . Um parafuso na perna. Será que o aço é realmente contrário à vida? Agulhas podem realmente entrar na corrente sangüínea? Como poderia a mulher da história não ter notado a minúscula arma metálica viajando por seu braço acima. “na falta de coisa melhor”. o que ela permite. fosse qual fosse? “Não”.) d Carne. tão nova como no dia da criação. tudo feito de ouro ou titânio — um homem com uma perna reconstruída. Se tivesse parafusos eu seria um homem mecânico. o pulso dela está abandonado na mão dele. T. nenhum parafuso. ele repete. termina o iogurte e leva a manga do macacão à boca. A história foi-lhe apresentada como alerta para não tratar agulhas com descuido. cada célula é tão fresca. Perfeito: nenhuma outra palavra servirá.

Você resolveu que acabou a sua vida sexual? Me diga francamente. “Então acabou. obrigado. que ela recusa. “Acabou o quê?” “Você sabe do que estou falando. Você fez uma pergunta. ele está sozinho no apartamento. Quando vou conhecer essa pessoa?” “Não leve para o lado pessoal. chega por trás até onde ele está sentado.” “Então sua ajudante diarista salvou sua vida. de agora em diante me trate como um eunuco? Como pode dizer isso se talvez nem seja verdade? Porém. eu cheguei ao fim da minha vida sexual.” “Não. Margaret faz uma segunda visita. Paul. eu estou tentando . Merece um prêmio. Que decepção.” “E a sua ajudante diarista?”. É um domingo. Ele sempre gostou disso nela. Perna amputada não mata ninguém. desta vez sem avisar. Ela gira pela sala. “Como estão se dando você e sua ajudante diarista?” “Minha ajudante e eu nos damos bem. Não fosse por ela eu não me daria ao trabalho de sair da cama de manhã. ele diz. em que os vizinhos sentem um cheiro ruim e chamam a polícia para arrombar a porta. “me dê um tempo. acaricia a cadeira. ela pergunta. Margaret. Mas como deve responder? É. pergunta Margaret. mas que alívio também! “Margaret”. Não fosse por ela eu podia acabar como um daqueles casos que se lêem no jornal. e se for mesmo verdade? E se o resfolegante corcel negro da paixão tiver entregado os pontos? O crepúsculo de sua virilidade. Oferece chá. Ela merece uma medalha. para eu saber como me comportar no futuro.” Não é de ficar dando voltas no assunto. Ele fica imóvel como uma pedra.” “Não seja melodramático. Paul?”. indo direto ao ponto fraco. Que ótimo.9. mas as pessoas morrem de indiferença pelo futuro. Margaret.

responder com sinceridade.”
Mas Margaret leva para o lado pessoal. “Eu já vou indo”, diz ela. “Não levante, eu saio
sozinha. Me telefone quando estiver pronto para a sociedade humana de novo.”

Nas sessões com o fisioterapeuta, foi alertado sobre a tendência de os músculos
seccionados se retraírem, puxando para trás o quadril e a pelve. Ele se apóia no andador e
com a mão livre explora a parte baixa das costas. Estará sentindo o começo de uma
protuberância para trás? Será que esse feio meio-membro está ficando ainda mais feio?
Se ele fosse ceder e aceitar uma prótese, haveria uma razão mais forte para exercitar o
coto. Na situação presente, o coto não lhe serve para nada. Tudo o que pode fazer é levá-lo
de um lado para outro como uma criança enjeitada. Não é de admirar que ele queira
encolher, se retrair, recuar.
Mas se esse objeto carnoso é repulsivo, muito mais ainda seria uma perna moldada em
plástico rosa com uma dobradiça no alto e um sapato embaixo, um aparelho que você
amarra no corpo de manhã e desamarra à noite, derruba no chão, com sapato e tudo!
Estremece ao pensar nisso; não quer saber disso. Muleta é melhor. Muleta pelo menos é
honesta.
Mesmo assim, uma vez por semana ele permite que um carro de aluguel venha buscá-lo
para ir à rua George em Norwood, para uma aula de reabilitação, dada por uma mulher
chamada Madeleine Martin. Há meia dúzia de amputados na classe, todos eles do lado
errado dos sessenta anos. Ele não é o único que não usa prótese, mas é o único que recusou
a prótese.
Madeleine não consegue entender o que chama de atitude dele. “Tem uma porção de
gente pela rua”, diz ela, “que ninguém diria que está usando próteses, de tão natural o jeito
como andam.”
“Não quero parecer natural”, diz ele. “Prefiro me sentir natural.”
Ela sacode a cabeça com risonha incredulidade. “É um novo capítulo na sua vida”, diz
ela. “O capítulo velho se encerrou, tem de se despedir dele e aceitar o novo. Aceite: é só isso
que precisa fazer. Então todas as portas que o senhor acha que estão fechadas se abrirão.
Vai ver só.”
Ele não responde.
Será que realmente se sente natural? Sente-se natural diante da ocorrência da rua
Magill? Não faz a menor idéia. Mas talvez seja isso que quer dizer natural: não fazer idéia.
Será que a Vênus de Milo se sente natural? Apesar de não ter braços, a Vênus de Milo é
tida como ideal da beleza feminina. Um dia ela teve braços, conta a história, mas seus
braços foram quebrados; a perda deles só faz sua beleza mais pungente. No entanto, se
descobrissem amanhã que a Vênus foi de fato feita a partir de uma modelo amputada, ela
seria imediatamente removida para um depósito no porão. Por quê? Por que a imagem

fragmentada de uma mulher pode ser admirada, mas não a imagem de uma mulher
fragmentada, independentemente de os cotos terem sido bem costurados?
Ele daria quase tudo para estar pedalando sua bicicleta pela rua Magill de novo, com o
vento no rosto. Daria tudo para abrir de novo um capítulo que está encerrado. Queria que
Wayne Blight não tivesse nascido nunca. Só isso. Fácil de dizer. Mas fica de boca fechada.
Membros têm lembranças, Madeleine diz à classe e tem razão. Quando ele dá um passo
com as muletas, o lado direito de seu corpo ainda gira no arco pelo qual a velha perna teria
girado; à noite, seu pé frio ainda procura o fantasma de seu gêmeo frio.
Sua missão, diz Madeleine, é reprogramar os sistemas de memória velhos e agora
obsoletos que nos ditam como nos equilibrar, como andar, como correr. “Claro que
queremos nos apegar a nossos velhos sistemas de memória”, diz ela. “Senão não seríamos
humanos. Mas não devemos nos apegar a eles quando atrapalham nosso progresso. Nem
quando se põem no nosso caminho. Estão me acompanhando? Claro que estão.”
Como todos os profissionais de saúde que ele encontrou ultimamente, Madeleine trata
os velhos confiados a seus cuidados como se fossem crianças — não muito inteligentes, um
tanto morosas, um tanto preguiçosas, que precisam de um empurrão. A própria Madeleine
está do lado certo dos sessenta, do lado certo dos cinqüenta, até mesmo do lado certo dos
quarenta e cinco; ela sem dúvida corre como uma gazela.
Para reprogramar as memórias do corpo, Madeleine usa a dança. Mostra vídeos de
patinadores com roupas justas escarlates ou douradas deslizando no gelo em curvas e
círculos, primeiro o pé esquerdo, depois o direito; ao fundo, Delibes. “Escutem e deixem o
ritmo tomar conta de vocês”, diz Madeleine. “Deixem a música correr pelo corpo de vocês,
deixem que dance dentro de vocês.” Em torno dele, os colegas que já adquiriram seus
membros artificiais imitam o melhor que podem os movimentos dos patinadores. Como
não consegue fazer isso — não consegue patinar, não consegue dançar, não consegue andar,
não consegue nem ficar em pé direito sem ajuda —, ele fecha os olhos, agarra-se nas barras
e oscila o corpo ao ritmo da música. Em algum lugar, em um mundo ideal, desliza pelo
gelo de mãos dadas com sua atraente instrutora. Hipnotismo, é só isso!, ele pensa consigo.
Que estranho; que antiquado!
Seu programa pessoal (cada um tem um programa pessoal) consiste em grande parte em
exercícios de equilíbrio. “Vamos ter de aprender a nos equilibrar de novo”, Madeleine
explica, “com nosso novo corpo.” É assim que ela chama: nosso novo corpo, não nosso
velho corpo truncado.
Há também o que no hospital era chamado de hidroterapia, e que Madeleine chama de
trabalho aquático. Na piscina escura na sala escura, ele segura a borda e caminha na água.
“Fique com as pernas retas”, diz Madeleine. “As duas. Como uma tesoura. Snip snip snip.”
Antigamente, ele seria cético com gente como Madeleine Martin. Mas, por enquanto,
Madeleine é o que tem à disposição para acreditar. Então, em casa, às vezes diante do olhar
de Marijana, às vezes não, repassa o programa de exercícios, até mesmo a parte de oscilar

ao ritmo da música.
“É bom, bom para senhor”, diz Marijana, concordando com a cabeça. “É bom senhor ter
ritmo.” Mas ela não se dá ao trabalho de esconder a nota de desdém profissional da voz.
Bom?, ele gostaria de dizer a ela. É mesmo? Não tenho tanta certeza de que seja bom para
mim. Como pode ser, se eu acho humilhante tudo isso, essa história toda do começo ao fim?
Mas não pronuncia as palavras. Se contém. Entrou na zona da humilhação; é o seu novo
lar; nunca mais o deixará; melhor calar a boca, melhor aceitar.
Marijana junta todas as calças dele e leva para a casa dela. Traz todas de volta dois dias
depois com as pernas direitas bem dobradinhas e costuradas. “Não cortei”, diz ela. “Senhor
muda de idéia e usa, sabe, o próstese. Vamos ver.”
Próstese: ela pronuncia como se fosse uma palavra alemã. Tese, antítese, e próstese.
A ferida cirúrgica, que não tinha dado nenhum trabalho até agora e que ele achou que
havia cicatrizado definitivamente, começa a coçar. Marijana a cobre com pó antibiótico e
enrola com bandagens novas, mas a coceira continua. De noite, piora. Ele tem de ficar
acordado para se impedir de coçar. A ferida lhe parece uma grande jóia inflamada
brilhando no escuro; ao mesmo tempo guarda e prisioneiro, ele está condenado a se
agachar em cima dela, para protegê-la.
A coceira diminui, mas Marijana continua a lavar o coto com particular cuidado, coloca
pó, enfaixa.
“Acha que perna cresce de novo, mr. Rayment?”, ela pergunta um dia, assim, do nada.
“Não, nunca pensei nisso.”
“Mesmo assim, quem sabe senhor pensa às vezes. Que nem bebê. Pensamento de bebê,
senhor corta, ela cresce de novo. Sabe como? Mas senhor não é bebê, mr. Rayment. Então
por que senhor não quer essa próstese? Quem sabe senhor tímido igual mocinha, hã? Quem
sabe, senhor pensa, anda na rua, todo mundo olha. Esse mr. Rayment, tem uma perna só!
Não é verdade. Não é verdade. Ninguém olha senhor. Senhor usa próstese, ninguém olha.
Ninguém sabe. Ninguém liga.”
“Vou pensar nisso”, ele diz. “Tem muito tempo. Todo o tempo do mundo.”
Depois de seis semanas de trabalho aquático e oscilação, de ser reprogramado, ele desiste
de Madeleine Martin. Telefona para a sua clínica fora do horário e deixa um recado na
secretária eletrônica. Telefona para o serviço de transporte e fala para não virem mais.
Pensa até em telefonar para mrs. Putts. Mas o que diria para mrs. Putts? Durante seis
semanas, esteve disposto a acreditar em Madeleine Martin e na cura que ela oferecia, a
cura para os velhos sistemas de memória. Agora parou de acreditar nela. Só isso, não se
trata de mais nada. Se resta ainda algum resíduo de convicção nele, mudou para Marijana
Jokić, que não tem estúdio e não promete nenhuma cura, só cuidados.
Curvada ao lado de sua cama, apertando sua virilha com a mão esquerda, Marijana
observa, balançando a cabeça, enquanto ele flexiona, estende e gira o coto. Com uma
ligeira pressão ela o ajuda a expandir a flexão. Massageia o músculo dolorido; vira-o de lado

uma dupla de garotas camponesas com lenço na cabeça conduz um burro carregado de lenha por um atalho de uma montanha rochosa. como se sentem na Austrália. mas é o que basta. segurando firme no corrimão. podiam estar mortas e enterradas. Será que era assim que os Jokić se sentiam em sua terra: presos entre o Oriente ortodoxo e o Ocidente católico? Se assim for. Enquanto as histórias — a história da agulha na corrente sangüínea. uma vez que deixam a câmara escura. ele chama um táxi e embarca sozinho na lenta descida de lado da escada. com tamanho sentimento que ela olha para ele intrigada. é provavelmente nada mais que prática de enfermagem ortodoxa. “Obrigado”. mas porque. crismas. imutáveis. suando de medo de que uma muleta possa escorregar. Uma noite. ele aprende tudo o que precisa saber: que Marijana não acha desagradável esse corpo desgastado e cada vez mais frouxo. reuniões familiares. Todo o amor que existe na coisa fica do lado dele. diz quando acaba o tempo. “Não preocupe”. ou a história do encontro dele com Wayne Blight na rua Magill — parecem . As duas meninas podiam ser avós agora. Quando o táxi chega de volta ele está pronto. antes de Marijana ter sido concebida. Tira um livro chamado Povos dos Bálcãs. galinhas e baldes de água com uma crosta de gelo de manhã. não é feito com amor. cabras. A garota mais nova sorri timidamente para a câmera. não há nada. Quando o táxi estaciona. Sua tendência é confiar nas imagens mais do que confia nas palavras. Uma pena que ele não possa ver isso. um mundo imemorial de burros. depois que Marijana sai. No toque da mão dela. Será esse o mundo em que Marijana nasceu. ele chegou à rua. Em uma delas. Povos dos Bálcãs: entre o Ocidente e o Oriente é o título inteiro. por exemplo.e massageia a parte inferior das costas. As fotos datam sabe-se lá de quando. Não porque imagens não possam mentir. Não é uma cura. se puder e se ele permitir. onde Oriente e Ocidente têm sentidos bem diferentes? O livro tem páginas com fotos em preto-e-branco. são fixas. O burro também. encontra dois livros sobre a Croácia: um guia da Ilíria e da costa dalmática e um guia de Zagreb e suas igrejas. Sobre aquilo que veio procurar iluminar-se. casamentos. Na biblioteca pública — onde felizmente não tem de sair do andar térreo —. revelando uma falha nos dentes. esperando. que ela está preparada. ou será ela filha do paraíso operário? Muito provavelmente. a lhe transmitir através de seus dedos uma boa porção de sua própria boa saúde corada. Povos dos Bálcãs é de 1962. também diversos livros sobre a Federação Iugoslava e sobre as recentes guerras balcânicas. ela replica. os Jokić trouxeram com eles do velho país a sua própria coleção de fotografias: batizados. porém — o caráter da Croácia e de seu povo —.

algum estranho ainda não nascido se volte para o passado e guarde uma foto dele. ele às vezes experimentava um pequeno arrepio de êxtase. na medida de suas possibilidades. venham a ter um bom lar depois que ele for embora. de abertura? A história que contou a Marijana foi que guardava velhas fotografias por fidelidade a seus personagens. do extinto Rayment da Coleção Rayment. depois quando ficou claro que a velha magia das emulsões sensíveis à luz estava se acabando. no meio da estática. começou a perder o interesse pela fotografia: primeiro quando a cor dominou. nunca interrogou Marijana e não tem intenção de fazê-lo. fidelidade. No aniversário da monarca. ele acendia uma vela diante da imagem dela. Ao mesmo tempo. se ficavam em silêncio na presença deles. tentando captar. Infidèle Europe. Talvez. que podiam ser sugadas para dentro de uma máquina e emergir dela retocadas. como se estivesse presenciando o dia da criação. fé. essa preferência natural por preto-e-branco e tons de cinza. Como a maioria dos imigrantes. imagens que podiam espoucar no éter sem residir em parte alguma. que para a nova geração o encanto estava em uma techne de imagens sem substância. A câmera. Mas isso não é inteiramente verdade. Se os nativos não eram receptivos. os homens. Por isso é que. Quanto à política da família Jokić. estava desesperado para que o país de sua nova devoção se mantivesse à altura da idéia que havia feito dele à distância. outra ali. Diante de uma esposa dúbia e dois enteados infelizes. mais tarde.mudar de forma o tempo todo. Quando a imagem fantasmagórica aparecia debaixo da superfície do líquido. falsificadas. em troca. na medida das possibilidades de qualquer um. À noite. O holandês que casou com sua mãe e a trouxe com os filhos de Lourdes para Ballarat mantinha uma fotografia da rainha Guilhermina lado a lado com uma estatueta de gesso da Virgem Maria na sala de estar. Ele desistiu de registrar o mundo em fotografias então e transferiu suas energias para a conservação do passado. sua esposa em particular: de cor. únicas. os sentimentos que têm pelo velho país provavelmente são mistos. com seu poder de captar luz e transformá-la em substância. quanto ao nicho que eles podiam ocupar no mosaico das lealdades e inimizades balcânicas. Será que isso revela alguma coisa sobre ele. Seu primeiro trabalho de verdade foi como técnico de câmara escura. ele costumava dizer da Europa. a Austrália tinha de ser a terra ensolarada da oportunidade. ou caçoavam de seu inglês errado. não importava: tempo e trabalho duro . Dá-lhes um bom lar e cuida para que. ele se encolhia diante do rádio de ondas curtas. as cópias em papel. essa falta de interesse pelo novo? Será disso que as mulheres sentem falta nele. uma palavra aqui. como se fosse uma santa. seu maior prazer estava sempre no trabalho no escuro. o retrato da rainha trazia a divisa Trouw. sempre lhe pareceu mais um aparelho metafísico do que mecânico. mulheres e crianças que ofereceram seu corpo à lente do estranho. da rádio de Hilversum. Ele as guarda também por fidelidade às próprias fotografias. quando veias escuras no papel começavam a se juntar e ficar visíveis. a maioria delas últimas sobreviventes.

aos noventa anos. Quanto a seus filhos.esgotariam essa hostilidade. Ljuba e a outra. mais clara e mais distanciada. deviam se apegar a uma variante da fé do holandês. pálido como um cogumelo. arrastando os pés entre os vasos de plantas de sua estufa caindo aos pedaços. Os Jokić. . A fé desse homem ainda resistia quando o viu pela última vez. marido e mulher. eles deviam ter formado sua própria imagem da Austrália. Drago.

“Veja o que acha. podem provavelmente desentortar o cano e repintar com spray. não consegue fazer o conserto sozinho. Mas mesmo assim.” (Mas ele se pergunta o que deu a ela a idéia de que quer que consertem os restos de uma bicicleta. diz Marijana. é o que ele próprio diria.” “Claro. “Meu filho vem olhar sua bicicleta”. Se a estrutura está rachada ou não. inconfundível: Drago. “Quem sabe conserta. Na minha opinião. Marijana aparece em companhia de um rapaz alto. É o rapaz da fotografia. mas desajeitado também. prazer em conhecer você.k.10. “Sua mãe me disse que você gosta de .”. mr. Drago volta da inspeção e faz o relatório.” Pesca a chave do depósito de uma confusão de chaves numa gaveta e entrega ao rapaz. obrigado por ter vindo. Uma manhã. É um conselho absolutamente razoável. com roda. é impossível dizer de imediato.” Como ele disse? O que pode ter dito? Que podia dar a Drago uma lição de segurança no trânsito? A história que Marijana inventou para fazer o filho desistir da própria manhã aparece só pouco a pouco: que mr. Mas dê uma olhada. renderia a ele. não tem mais jeito. Drago. um dos quais tem acesso a uma loja de peças. Rayment. diz ele. Rayment tem uma bicicleta que quer consertar para poder vender. eixo do cubo. diz o rapaz. Ele e seus amigos. o suficiente para uma boa bicicleta de segunda mão. sendo não só aleijado. mas que. claro. A possibilidade de os canos estarem rachados é de dez para um. A estrutura entortou. câmbio e freios novos. “Como senhor disse. “Obrigado por ter dado uma olhada nisso”. diz Marijana quando estão sozinhos.” “O. “Eu traz ele para conversa com senhor”. Provavelmente.) “Olá.

meu pai comprou para mim uma Yamaha de duzentas e cinqüenta cilindradas. Fiquei um tempo no hospital. explodindo de saúde. o rapaz propõe.” “Que ótimo. É só isso que eu vou dizer. do motociclismo. que faça o rapaz entender as agonias da mutilação e as humilhações do estado de aleijado. poderia acontecer com você da mesma forma. eu voltava. E que profunda transformação Marijana quer que ele produza afinal? Será que realmente espera que esse belo rapaz. Olhando para mim você pode achar que não. Acho que devia ouvir o que ela diz. Disse que estava com o sol contra. E tudo aconteceu em uma fração de segundo. Ela quer que ele seja mais eloqüente — que alerte o rapaz sobre os perigos do ciclismo e. sua mãe me pediu que trocasse uma palavra com você em particular. não vale a pena.” “O que aconteceu?” “Um carro me pegou quando eu estava virando. Mas não é nada assim. ansioso para o velhote acabar logo. o mais provável é que fosse do lado de Wayne Blight. “Olhe. um jovem rápido por trás da direção. filho. um ligeiro mas nada agressivo sorriso nos . Mas ela me pediu que falasse com você e eu concordei. Na verdade. Sua mãe é uma boa pessoa. Drago olha para ele com franqueza. A balada de Drago Jokić. Será que o rapaz está absorvendo a lição que deve absorver? Marijana está recebendo o que quer? Ele desconfia que não. Disse que eu não dei sinal. “É. Bom.” Ele dá uma olhada para Marijana que o rapaz finge não perceber. Ele se volta para o rapaz.” “Mau. amaldiçoando a mãe por tê-lo trazido ali. eu não significo nada para você.” Marijana sai da sala.” Um silêncio. Entende?” Se lhe pedissem para prever. O que eu quero dizer é o seguinte: se eu pudesse voltar o relógio para antes do acidente. se Drago tivesse de ficar do lado de alguém na história do choque da rua Magill. um velho esquisito e distraído de bicicleta. Mas a sensação que ele tem é que esse jovem prefere o laconismo. por analogia. diria que o jovem Drago iria ficar sentado ao longo de um sermão desses com os olhos baixos. passe as noites em casa curvado em cima de um livro enquanto os amigos estão na rua se divertindo? Que deixe a Yamaha nova e cintilante na garagem e pegue um ônibus? Drago Jokić: nome de um épico folclórico. do nada. Tenho de depender de outras pessoas para as menores coisas. sou só o homem de que sua mãe cuida e muito grato a ela por isso. O que mais ela quer que ele diga? “Minha mãe disse que o senhor teve um acidente muito sério”. beliscando as cutículas. “Drago.motocicletas. que não vai receber bem um sermão. pode crer. do que de Paul Rayment. Agora não posso nem sair para fazer compras. O motorista disse que não me viu. Ele pigarreia. Ao longo de seu discurso. ela ama você. Não arrisque sua vida.” “É. Sua mãe quer que você seja cuidadoso com a moto. mas eu tinha uma vida bem movimentada.

diz a si mesmo. Não é de admirar que a mãe esteja temerosa. Muito bom em tudo. espanando as cordinhas das palavras como se fossem teias de aranha. que dê uma palavrinha com você. Rayment. “Eu já vou indo”. O primogênito dela. Sinto muito pela bicicleta. Certo?” Existem as palavras em si e depois. o sorriso não sumiu dos lábios dela. não dá para prever. esse rapaz! Deve ser a inveja dos deuses. “Que ótimo.” E depois de uma pausa: “O senhor gosta da minha mãe. Podia dizer mais. Ele faz que sim com a cabeça. Tenho certeza de que vai ter uma vida longa e feliz. só isso”.” Ela gosta dele também.”. “Minha querida Marijana”. é o que diz apenas. Pode ajudar sua mãe a saber que você sabe que ela te ama e que quer o seu bem. diz ele. não gosta?”. mas o movimento basta por enquanto. O respeito dele pelo rapaz está crescendo. não dá para evitar. mas agora exprime pura alegria: apesar do fato de ele ser inútil com as mãos e um aleijado na expressão da palavra. Eu não gosto dela apenas. diz Marijana. “Por isso falei com você. Marijana volta. crescendo aos saltos e pulos. Ao falar. existe a intenção. Um telefonema nas primeiras horas da manhã: “É mrs. Vou tomar cuidado. Como uma agulha no coração. em torno ou por baixo das palavras. por trás. “Mensagem recebida. Nada comum. “Tchau. Mas isso pode ajudar sua mãe. ele tem consciência de que o rapaz está observando seus lábios. ela acredita que ele tem o poder de predizer o futuro. em um momento de alta emoção a pessoa é desculpada por deslizar em alguma expressão de carinho —. “Tchau. mãe. a ponto de pedir a um estranho. se é isso que ele quer. mr. que vai chegar a almirante. eu a amo!: são essas as palavras que estão a ponto de explodir de dentro dele. diz ele ao final. “Só estou tentando ajudar.k. “O. Seu coração incha desmesuradamente. já que uma coisa destas” — dá um tapa de leve no quadril ruim. “tenho certeza de que ele vai se cuidar bem. “Muito bom na natação. “É muito bom no tênis”.” “Acha mesmo?”. Muito inteligente. focalizando o ouvido na intenção.” Do alto de sua estatura. eu. A balada de Drago Jokić.lábios bem desenhados. “Ela gosta do senhor também. Jokić? A senhora tem um filho chamado Dragon? É do hospital de Gumeracha”. curva-se e encosta os lábios na testa dela. diz ele — alta emoção. jocosamente — “simplesmente acontece. Não porque eu ache que possa salvar você falando. Drago se levanta.” .” Dá um pálido sorriso. ou uma espada.” E vai embora.

A situação é absurda. agora repentina e urgentemente tem fome de maternidade. não ainda. quer. velha demais para isso. Será que quer virar amante dela também? Quer. claro. Mesmo assim. há muito necessária. Quer um lugar no coração dela. Fome suficiente para roubar o filho de outra: é uma coisa louca assim. Quanto ao marido. aquela em quem ele ainda tem de pousar os olhos. porém antes de ela chegar no dia seguinte ele se agita no apartamento. sim. Ele é o empregador de Marijana. Quer amar e agradar a Marijana e seus filhos. aquele cujos desejos ela é paga para satisfazer. É o sorriso de Marijana. Drago. e marido de Marijana — co-pai se for preciso. o patrão dela. que sorria para ele. Está pronto a se interpor entre Drago e o raio dos deuses invejosos. Deseja ao marido toda a felicidade e boa sorte. Mas Drago acima de tudo ele quer salvar. Ele é como uma mulher que. em certo sentido. que provoca a mudança há muito esperada. demorando em sua memória. Quer tomar conta deles. de todos eles. O que ele quer da mulher? Quer que ela sorria de novo. daria tudo para ser o pai daqueles filhos belos. todas as nuvens escuras. . não tem a menor das más intenções em relação a ele. De imediato a melancolia desaparece. ardentemente. pronto a desnudar o próprio peito. Salvá-los de quê? Não sabe dizer. por pequeno que seja.11. platônico se for preciso. pode jurar. salvá-los. fazendo o possível para deixar as coisas brilhando para ela. não tendo parido filhos nunca. co-marido se for preciso. Chega a pedir que entreguem flores para alegrar a insipidez. protegê-los. Ljuba e a terceira. excelentes.

ele responde.” “É.” “Vão de moto. Acho também que é um erro. “Este país não é fácil para um rapaz crescer”. Falou. Ele espera mais. não dá para acreditar. tão novinhas. Só umas palavras paternas.” “Não foi nada. É assim que diz — Tunkalulu?” “Tunkalilla. achar que num colégio interno os jovens são vigiados dia e noite para garantir que não sofram nenhum acidente. A . “Existe um clima de machismo. “Esse fim de semana ele vai com os amigos para praia de Tunkalulu. Muita pressão para o rapaz se superar em atitudes masculinas.12. disso não há dúvida. É igual gangue. Estou com medo. Amigos malucos. Rayment?” “O que eu acho de colégio interno? Acho que pode ser muito caro. É isso que está pensando para Drago? Já se informou da mensalidade? Deve fazer isso primeiro. esse o problema. Para ser ousado. Agora que ele escuta as palavras. Mas ela está pensando em outra coisa. Mas pode-se receber uma boa educação em um colégio interno. elas soam condescendentes. meninos malucos. Fiquei contente que senhor fala com ele semana passada. cauteloso. desanimada. como senhor diz.” Lá na sua terra.” É a primeira crítica que ela formula ao marido ausente. ele não tem muito palavras paternas. mas não há mais. Meninas também. em esportes masculinos. “O que senhor acha de colégio interno. “Como vai o Drago?”. mr. um erro grave. Por que os rapazes não haverão também de ser rapazes lá na terra dos Jokić? O que ele sabe sobre as formas que a virilidade assume no sudeste da Europa? Espera que Marijana o corrija. Provavelmente é diferente lá na sua terra. Assumir riscos. ou nos melhores colégios internos. ele pergunta a Marijana o mais despreocupadamente possível. Ela dá de ombros.

Amo você e quero te dar alguma coisa. “Agora diga.” “Ou a gente arruma empréstimo.” Ela sacode a cabeça de novo. outra de meia roxa. diz Marijana. . fosse contra o calor ou contra o frio. com o tênis e tudo”. não fossem os olhos pretos atentos. “Claro. Deixe. mr. “Pronto”. astronômica mesmo.” “Por quê?” “É um investimento no futuro dele. ele sussurra. “Você. sempre sabe. “Uma mulher. “Não entendo. No futuro de todos nós. Só isso. Sem juros. falei. uma bolsa sem dúvida é uma possibilidade. Não dá para voltar atrás. livros sobre os quais sua mãe suspirava na sala de estar de Ballarat onde as venezianas estavam sempre fechadas. eu poderia ajudar financeiramente. Ou cujas mães são enfermeiras de idosos. vocês podem investigar isso. diz Marijana. Vocês podem me pagar quando Drago começar a ganhar. repete. estendida no sofá. Está com a boca seca.” Nos livros que sua mãe costumava encomendar em Paris quando ele era criança. a menina podia ser tomada por uma boneca. que franze a testa. talvez até que seus lábios se curvaram de desdém enquanto os olhos cintilavam de secreto triunfo. “Nós pensamos. mas não consegue se controlar.” “Eu te amo. deve saber. com as pernas uma de meia escarlate. “Por quê?”.” Agora o eco das palavras dele parece ter chegado a ela.mensalidade pode ser alta. os braços largados ao longo do corpo. Obedientemente.” Ela sacode a cabeça. Rayment?” “Posso fazer um empréstimo.” Há um momento de silêncio. absurdamente alta. “Senhor empresta dinheiro para nós. o coração batendo forte.” “Eu conto. quem sabe ele consegue bolsa de estudos.” O que ele se controla para não dizer é: Alta a ponto de excluir filhos cujos pais trabalham em montadoras de carros para ganhar a vida. sem dúvida. Podemos pensar nisso como um empréstimo. pensa ele. sem dúvida. “Mas se você está falando sério”. “Não entendo. Parece genuinamente perplexa. em particular. e que ele leria secretamente depois dela. “e se o próprio Drago quer mesmo ir. que talvez não tenha assimilado as palavras dele e o que possa haver por trás delas. como parte de sua sempiterna busca de descobrir o que lhe agradava. Ljuba pega sua mochilinha pink e vai para a cozinha. que chegavam em pacotes de papelão pardo com o timbre da Librairie Hachette e uma fileira de selos com a cabeça da severa Marianne envergando seu barrete frígio. e ao falar sente a precipitação do que está dizendo. não quer se controlar. Então. estaria escrito que os lábios de Marijana se curvaram de desdém. De jardineira escarlate. Marijana”. ele investe.” Ela murmura alguma coisa para a menina. é tão horrível e tão emocionante como quando tinha dezesseis anos.” É um dos dias em que trouxe Ljuba com ela. pulando as palavras que não conhecia.

permitiria que se lessem infalivelmente os movimentos transitórios de lábios e olhos humanos. Pelo que pagará qualquer coisa. despejou todas as suas esperanças. Ele. confessou seu amor. Se algum dia existiu — coisa de que duvidava — um código de olhares que. Sobre toda a prole ele quer estender o escudo de sua benevolente proteção. “Temos de ir embora”. sem previsão. rapidamente. Marijana sacode a mão como se estivesse limpando um vidro ou sacudindo um pano de prato. Mas será que ousa. vê sentido em uma perna artificial. e se fizer isso poderá se desequilibrar. “É”. virase e o inspeciona curiosamente. Um momento depois está de volta. Peito contra peito. ela sai da sala. venha a amá-lo de volta? . se ainda tiver a ambição.” E num rápido movimento desaparecem. esperar que essa mulher. Pela primeira vez. de polegar na boca. “Obrigada. ele perdeu a fé no mundo da Hachette. depois disso. Então. uma perna com um mecanismo que trava no joelho e assim libera os braços. diz ele. Está murmurando no ouvido da menina. levado pelo vento. mãe deles. Isso acima de tudo. Traz num braço Ljuba. um velho de dedos nodosos. e o encanto se quebra. Ele quer que Ljuba e a irmã mais velha cresçam felizes também e alcancem o desejo de seus corações. sem nenhuma hesitação. Quer que Drago tenha uma boa educação e. parece efetivamente preparada para ouvir mais dessa extraordinária e irregular declaração.” Ela enfrenta o olhar dele francamente. ela não poderia escapar. em quem. “Senhor paga para Drago ir para colégio interno?”. esse código teria desaparecido agora. A menina. Mas para abraçá-la teria de pôr de lado as absurdas muletas que lhe permitem ficar em pé. Se o lábio dela se curva ou não. Marijana nada faz para ajudar. quando deixou a infância para trás. Marijana diz. no outro a mochila pink. Embora ele não possa jurar. uma vez dominado.Mas. Cai um silêncio. talvez cair. era abraçar a mulher. qualificar-se como oficial naval. se o mar realmente ainda for o desejo de seu coração. ela diz. O que ele devia fazer. por um momento que seja. Mas ao menos não vira as costas. Ele agiu. acredita que Marijana corou. O lenço vermelho desapareceu. o cabelo está solto. claro. É isso que ele quer? Pagar pela educação de Drago? É. E quer o amor dessa excelente mulher. “É isso que estou oferecendo.

13.

No dia seguinte, Marijana não vem. Também não vem na sexta-feira. As sombras que ele
achou que tinham ido embora para sempre retornam. Telefona para a casa dos Jokić,
atende uma voz feminina, não a de Marijana (de quem?, da outra filha?), na gravação de
uma secretária eletrônica. “Aqui é Paul Rayment, para Marijana”, diz ele. “Pode me
telefonar, por favor?” Ela não telefona.
Ele se senta para escrever uma carta. Cara Marijana, escreve, temo que tenha me
entendido mal. Deleta o me e escreve minhas intenções. Mas o que ela pode ter entendido
mal? Quando a conheci, escreve, começando um parágrafo novo, eu estava num estado
dilacerado. O que não é verdade. O joelho podia estar dilacerado, e seus projetos, mas não
seu estado. Se ele soubesse a palavra para descrever o estado em que estava ao conhecer
Marijana, saberia também o que quer dizer, no dia de hoje. Deleta dilacerado. Mas o que
colocar no lugar?
Enquanto está nessa hesitação, a campainha da porta toca. O coração dele dá um salto.
Será que, afinal, não vai precisar da palavra perturbadora, e da carta perturbadora?
“Mr. Rayment?”, diz a voz no interfone. “Aqui é Elizabeth Costello. Posso falar com o
senhor?”
Elizabeth Costello, seja ela quem for, demora bastante para subir a escada. Quando
chega à porta, está ofegante: é uma mulher de seus sessenta e tantos anos, ele diria, os
últimos mais que os primeiros sessenta, com um vestido estampado de flores decotado
revelando ombros não atraentes, sardentos, um tanto carnudos.
“Coração ruim”, diz ela, se abanando. “Impedimento quase tão grande quanto” (ela faz
uma pausa para recuperar o fôlego) “uma perna ruim.”
Vinda de uma estranha, a observação parece a ele inadequada, imprópria.
Ele a convida para entrar, para sentar no sofá. Ela aceita um copo de água.

“Eu ia dizer que era da Biblioteca Estadual”, diz ela. “Ia me apresentar como uma
voluntária da Biblioteca, que vim avaliar o porte de sua doação, o porte físico eu quero
dizer, as dimensões, para podermos planejar com antecedência. Depois eu revelaria quem
sou de verdade.”
“Não é da biblioteca?”
“Não. Isso ia ser uma desculpa.”
“Então, a senhora é...?”
Ela dá uma olhada pela sala com algo que parece aprovação. “Meu nome é Elizabeth
Costello”, diz ela. “Como eu já disse.”
“Ah, a senhora é aquela Elizabeth Costello? Desculpe, eu não imaginei. Me perdoe.”
“Não tem de quê.” Das profundezas do sofá ela luta para se levantar. “Vamos direto ao
assunto? Nunca fiz isto antes, mr. Rayment. Pode me dar sua mão?”
Por um momento, ele fica confuso. Dar a mão? Ela estende a mão direita e ele a pega.
Durante um momento, a mão feminina, roliça e bastante fresca repousa na sua, que ele
nota, desgostoso, ter assumido o tom lívido que assume quando ele fica muito tempo
inativo.
“Então”, diz ela. “Eu sou como são Tomé, como pode ver.” E quando ele se mostra
perplexo: “Quero dizer, por querer descobrir por mim mesma que tipo de ser é o senhor.
Por querer ter certeza”, continua ela, e agora ele realmente não entende nada, “de que
nossos corpos não iam atravessar um ao outro. Ingênuo, claro. Não somos fantasmas,
nenhum de nós dois — por que eu haveria de pensar isso? Podemos continuar?”.
Ela torna a se sentar, pesadamente, endireita os ombros, e começa a recitar. “O choque o
colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faísca elétrica, e levanta seu
corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar, e assim por diante.”
Ela faz uma pausa e inspeciona o rosto dele, como se quisesse medir o efeito que está
obtendo.
“Sabe o que eu perguntei a mim mesma quando ouvi essas palavras pela primeira vez,
mr. Rayment? Eu me perguntei Por que eu preciso desse homem? Por que não esquecer dele,
pedalando tranqüilamente a sua bicicleta, inconsciente de Wayne Bright ou Blight, vamos
chamar de Blight, vindo com estrondo por trás dele para arruinar* sua vida e jogá-lo
primeiro no hospital, depois de volta a seu apartamento com essa escada inconveniente?
Quem é Paul Rayment para mim?”
Quem é essa maluca que eu botei pra dentro de casa? Como vou me livrar dela?
“E qual a resposta para sua pergunta?”, ele replica, cautelosamente. “Quem sou eu para a
senhora?”
“Você veio a mim”, ela diz. “Sob certos aspectos, eu não controlo o que me vem. Você
veio, junto com a palidez, as costas curvas, as muletas, o apartamento ao qual se apega tão
obstinadamente, a coleção de fotografias e todo o resto. Junto também com Miroslav Jokić,
o refugiado croata — é, é esse o nome dele, Miroslav, os amigos o chamam de Mel —, e

seu vago envolvimento com a mulher dele.”
“Não é vago.”
“É, sim. A quem você expôs seus sentimentos, em vez de guardar para si mesmo, mesmo
não fazendo idéia, e você sabe que não faz a menor idéia, das conseqüências. Pense um
pouco, Paul. Está pensando seriamente em seduzir sua funcionária a abandonar a família e
vir morar com você? Acha que vai trazer felicidade para ela? Os filhos dela vão ficar bravos
e confusos; vão parar de falar com ela; ela vai ficar deitada na sua cama o dia inteiro,
chorando, inconsolável. Você vai gostar disso? Ou tem outros planos? Planeja que Mel se
jogue no mar e desapareça, deixando esposa e filhos para você?
“Volto à minha primeira pergunta. Quem é você, Paul Rayment, e o que há de tão
especial em suas inclinações amorosas? Acha que é o único homem que no outono de seus
anos, no fim do outono, posso dizer, pensa ter encontrado o que nunca conheceu até então,
o amor verdadeiro? Mr. Rayment, histórias assim existem aos montes. Vai ter de achar uma
desculpa melhor para o seu caso.”
Elizabeth Costello: está começando a lembrar quem é ela. Tentou ler um livro dela uma
vez, um romance, mas desistiu, não prendeu sua atenção. De vez em quando, topava com
artigos dela na imprensa, sobre economia, ecologia ou direitos dos animais, que deixou
para trás porque os assuntos não o interessavam. Houve tempo (ele agora está varrendo a
própria memória) em que ela foi famosa por uma coisa ou outra, mas isso parece ter
acabado, ou talvez tenha sido só outra tempestade da mídia. Cabelo cinzento; cara cinzenta
também, com um coração ruim, como ela disse. Respiração acelerada. E aqui está ela
pregando para ele, dizendo como deve levar a vida!
“Que rumo a senhora preferiria que eu tomasse?”, ele diz. “Que história me tornaria
digno de sua atenção?”
“Como é que eu vou saber? Pense em alguma coisa.”
Mulher idiota! Devia jogá-la para fora.
“Força!”, diz ela.
Força? Forçar o quê? Força! é o que se diz para uma mulher em trabalho de parto.
“Invente diante da morte”, diz ela. “Rua Magill, o próprio portão da morada dos mortos:
como você se sentiu quando rolou pelo ar? A sua vida inteira passou diante dos seus olhos?
Como lhe pareceu em retrospecto a vida que estava a ponto de deixar?”
Será verdade? Será que ele quase morreu? Sem dúvida existe uma distinção entre estar
correndo risco de morrer e estar às portas da morte. Será que essa mulher sabe alguma coisa
que ele não sabe? Voando pelo ar aquele dia, ele pensou — em quê? Que não se sentia tão
livre desde que era menino, quando podia saltar sem medo de árvores, uma vez até de um
telhado. E depois a exalação quando atingiu a rua, a respiração saindo de dentro dele num
chiado. Poderia uma mera exalação ser interpretada como um último pensamento, uma
última palavra?
“Fiquei triste”, ele diz. “Minha vida pareceu frívola. Que desperdício, eu pensei.”

o ousado rapaz do trapézio voador. os hóspedes não convidados? Faça de conta que não estou aqui. olha pela janela. vai encontrar paracetamol. de subir a escada. sim. Melancolicamente. de meias. ela tira os sapatos e se estende. em retrospecto. de sabe-se lá que mais. obrigada. com veias azuis. Ainda vou ficar com você um pouco. quero deitar um pouquinho.“Triste. Não soa saudável. É só isso que eu tenho. diz ela. “Não pedi o senhor. Eu ainda não faço a menor idéia de por que a senhora veio. O coxo carregando o aleijado. Ele voa pelo ar tão cheio de graça. E. tanto quanto o senhor. O que quer de mim?” . “não é assim.” “Vou deixar a senhora descansar”. diz ela. Quero. diz ela. ele olha de novo.” Ela faz um gesto para empurrar as almofadas do sofá. Apesar das meias de náilon. “Quando estiver se sentindo melhor. A dentadura de baixo faz um volume para fora. O futuro previsível é que vou acompanhar o senhor. apoiado em uma muleta. de repente não estou me sentindo bem”. A vida dele parece frívola. A pele dela está perceptivelmente pegajosa. nós.” Ela levanta o braço que estivera protegendo os olhos e ele vê que ela sorri ligeiramente. como cascalho mexido. não”.” “Não. ele replica.” Ele se levanta e. Há uma tosse. dentro do armário.” “Então vá! Saia do apartamento. eu telefono pedindo um táxi. e fica triste. “Não é o fim do mundo. “Eu não pedi por isto. acho que sim. “Não é isso que nós dizemos. Ele tenta voltar para o livro que estava lendo. pergunta. “Deixe ajudar. diz ela. um som ligeiramente raspado. sai do fundo de sua garganta. Que mais?” Que mais? Nada mais. A cama no escritório é de fato bem confortável. Posso oferecer uma xícara de chá?” Ela abana a mão. resmungando. mr. Não pedi para passar uma tarde perfeitamente boa neste triste apartamento seu. Rayment”. diz ela. está nauseada. Ela está parada na porta. “Agüente”. de fato.” “Pedir o quê?” Não consegue evitar a irritação na voz. do calor. se é tão ofensivo para a senhora. Rayment. “É só uma tontura. pega o braço dela. pensa. um braço sobre os olhos. “Não ligue para mim”. “Gostaria de deitar? Tenho uma cama no escritório. eu acho.” “Não adianta fazer cara feia para mim. mr. “No banheiro. Ele faz o que pode para remover a bagunça de cima dela. não. ele nota as panturrilhas gastas. não.” “Acho que não. O que essa mulher está querendo fisgar? Mas a mulher parece ter perdido o interesse em sua questão.” “Ah. fazendo força para se levantar. “Tem uma aspirina?”. mas não consegue se concentrar. Ela está dormindo. “Desculpe.” Meia hora depois.

diz ela. não faço a menor idéia. O senhor me veio. especializado em tecnologia de antigüidades.. diz ele. O senhor. ele grasna como um pato comum.. É uma das pièces de résistance da coleção deles. O senhor tem alguma proposta?” Ele fica quieto. Daí o trabalho na fábrica de carros. no concreto? Como ela pode ter intuições sobre um estranho total. quer simplesmente despejar seu amor sobre ela. O sol está se pondo. pelo que dizem. mr. não distingue a cabeça do rabo de um burrico. é uma mulher educada. Marijana não vai pagar o preço. para a busca de intuições. Foi lá que se conheceram. alguém em quem nunca botou os olhos? “A senhora pegou meu nome da lista telefônica”. Pena que na Austrália não haja demanda para os conhecimentos que ele domina. “O que mais posso dizer que você ache interessante? Marijana nasceu em Zadar. Ela acha isso cansativo. O senhor me ocorreu — um homem com uma perna ruim. Aqui não temos patos mecânicos. o pato mecânico que havia ficado duzentos anos aos pedaços no porão do instituto. a menos que a gente seja inteiramente sem consciência. Agora vou ter de encontrar outro trabalho: é isso que ela pensa consigo mesma. é uma moça urbana. “Está só arriscando. Para onde vamos daqui.“O senhor me veio.” “Eu entendo. Ele era um técnico. bota ovos.” “Não estou tentando ninguém.” “Eu vim até a senhora? A senhora é que veio a mim!” “Sh. “A senhora mencionou os Jokić”. ele diz. Mas ser amado tem um preço. ficam um momento sentados ouvindo os pássaros guinchar suas vésperas nas árvores. E ela é casta.” Ela se deixa cair em uma poltrona. como um velho casal de marido e mulher que declara uma trégua. com pacientes que ficaram caídos por ela. Ela não contou? Passou dois anos no Instituto de Artes de Dubrovnik e diplomou-se em restauração. enferrujando. Estou sendo clara?” . afinal. “Desculpe. Não faz a menor idéia de quem eu sou de verdade. que cuida de você. sem futuro e com uma paixão inadequada. tão baixinho que ele mal capta as palavras. “Pode não ver razão para isto. Foi ele quem remontou. não grite.” Ela sacode a cabeça.” Seguir intuições: o que será que isso quer dizer. por exemplo. Foi aí que começou. Foi assim que construí minha vida: seguindo intuições. Rayment. “Gostaria que fosse assim tão simples”. eu sei. “O que sabe sobre eles?” “Marijana Jokić. Quer dar. os vizinhos vão pensar que está me batendo. Em todos os seus anos de casamento nunca foi infiel. aquelas que de início não consigo entender. Ela já esteve nessa situação antes. O marido dela também trabalhava no instituto. Como você disse. Nunca caiu em tentação. mas é isso que eu faço. inclusive aquelas que de início não consigo entender. só posso dizer isso. que não conseguem se segurar. Acima de tudo. Eles se aquietam e. nada. Agora. Estou invadindo.

Nós dois vemos isso. para a esquerda. para a direita.. Mas a razão por que os filhos dela tanto impressionaram você. de ricota e espinafre”. Luminoso demais. é um bom lugar. os dois.” “E por que tenho de aceitar isso? E se eu recusar?” “Vai ter de aceitar. Só um toque no ombro. Não vou deixar minhas calcinhas penduradas no banheiro. decidida. em você e em outros homens também.” Devagar. diz ele. “Você está fisgado por alguma coisa. “Alguma qualidade dela atrai você. Você quase nem vai notar que estou aqui. Paul. é também o sobrenome do personagem. Como muito pouco.” “Porém. diz ela. então não vou dar. Não depende de você. o rapaz e a menina pequena.Ele fica quieto. “Não é possível.. lúgubres e sonolentos. mas vamos só até aí. a expansividade de uma fruta plenamente madura.” “É. tão amada quanto se pode esperar neste mundo. Para eles. de vez em quando. Você não vai querer ouvir os detalhes. “Aceita? Depois disso não sei quais são seus planos. Deixe eu sugerir por que Marijana deixa essa impressão. essa qualidade é a expansividade dela. T. prometo.” Estão ficando lúgubres. Queira ou não. esteja à vontade. porém o rapaz tem a marca da morte nele. Não vou ficar no seu caminho.” * Jogo de palavras intraduzível: blight. Ela se expande porque é amada. Se sentem à vontade no mundo. Elizabeth Costello sacode a cabeça. sinto muito. (N.” “Dá vontade de chorar.) . “Ainda tem um resto de canelone de Marijana no freezer. de manhã vai ter de ir embora. No meu entender. é que eles cresceram encharcados de amor. Ele reage. vou ficar com você um bom tempo. o verbo aqui usado para “arruinar”. Serei uma hóspede-modelo. Bonito demais. Se quiser passar a noite aqui. para manter você no rumo. não está?”.

no qual parece estar fazendo anotações. sem dizer uma palavra. “Antes fosse assim tão simples. diz ele no domingo à noite. talvez se sente em um café e mordisque um croissant olhando o trânsito. E vice-versa. Vai achar um alívio se ver livre de mim. É verdade mesmo. Não vou deter você.” Ele está ficando cansado de ouvir que veio a essa mulher.” “E a sua paixão inadequada? Onde é que eu vou achar outra assim?” . De vez em quando. uma ou duas circunstâncias da sua vida. apenas para ver o que é. O que faz consigo mesma ele só pode adivinhar: talvez fique vagando pelas ruas de North Adelaide. Está escrevendo um livro e vai me colocar nele? É isso que está fazendo? Se for. mas não consegue encontrar. simplesmente iria em frente. mr. Não sou uma pessoa afável. e por que não acha que precisa de meu consentimento antes?” Ela suspira. você não vai demorar para descobrir. que tipo de livro é. Curvada em cima da mesinha de centro no canto da sala de estar que ela anexou para si. “Desista de mim. Com toda a certeza não precisaria vir morar com você. “Se eu fosse colocar você num livro.14. “que você veio bater na minha porta para me estudar e me usar em um livro?” Ela sorri. “Você não acharia mais fácil usar alguém que venha a você de mais boa vontade?”. Rayment. Mudaria seu nome. ele caça o texto. como diz. passa o fim de semana absorta em um volumoso texto datilografado.” “Por que não é simples? Me parece bem simples. o mais seco que pode. Durante uma dessas ausências. como eu disse: o homem com a perna ruim. Não. Elizabeth Costello é uma hóspede-modelo. “Devo concluir”. Se afaste. para evitar a lei de difamação. você veio a mim. e pronto. ele observa. desaparece do apartamento. Ele não lhe oferece refeições e ela não pede isso.

k. “Não leve as coisas tão a sério. Onde fica esse lugar? Como você ficou sabendo?” “Em Canberra. que rima com spider. Wellington College: Cinco Décadas de Excelência. pertinho de Veneza.. Formulário de inscrição. tão secamente quanto consegue. um menino bem-arrumado em mangas de camisa e gravata.?” Então é esse que vai ser o faz-de-conta entre eles: ela estava doente. dão-lhe um susto. diante de um teclado de computador. Ele nunca ouviu falar do Wellington College. É food school da Academia da Força de Defesa. só puxavam ele para baixo.” “Marijana volta ao trabalho amanhã”. o. “Parece escola boa. Carreiras em negócios. Vem amanhã. Rayment? Aqui é Marijana. Em Canberra ele encontrou outros amigos. preferência. Se fosse uma muleta antiga de verdade. sacode a cabeça. O telefone toca.” “Feeder school. prédios imitando gótico em extensos gramados.”** “Feeder school. em vez de ser de alumínio. “Instituição irmã do Wellington College de Pembrokeshire”. tantos quantos fossem necessários. o sangue empapando o tapete. Sabe que as mensalidades em escolas internas é alta: mesmo assim. Marijana. “Mr. uma chuva pesada e fumarenta. claro que está o. sabe. Não vou incomodar. não é da sua conta. mrs. os valores.” Ele volta ao folheto.” Ela dá um sorriso invernal. “Drago diz que quer ir para lá”..” E quando ele lhe dá um olhar zangado: “Está preocupado de ela pensar que eu seja uma das suas amigas de antes?”. preto no branco.* Por causa de Dubrovnik. como sempre. como você diz. Costello. Os amigos de Adelaide não bons. ele informa à hóspede. Estava doente. lê em voz alta. “Não é você quem resolve o que é da minha conta”.” Ela pronuncia Adelaide à maneira italiana. golpe após golpe. com algum peso. “Quantos anos ele vai ficar lá?” . ciência e tecnologia. diz Marijana. “Preparando jovens para os desafios do novo século. “Sei. forças armadas. Espero que esteja se sentindo melhor. com aroma de eucalipto —. Na capa. Paul.. Antes mesmo de tirar a capa — está chovendo. Como vai senhor? Desculpa eu falta meus dias. A mão dele se aperta na muleta.” A razão de Marijana resolver voltar vem à tona assim que ela entra pela porta. Tabela de preços. com um colega igualmente bem-arrumado olhando por cima de seu ombro. Hora de você se mandar: espera que ela entenda o recado. Ela dá um sorriso que não é nada menos que alegre. até ela cair morta a seus pés. em um boxe. ele desceria na cabeça da velha megera.k. responde baixinho. bate na mesa um folheto de papel brilhante. e que fizessem com ela depois o que bem entendessem. senhor não acha?” Ele folheia o prospecto.“Minha paixão. de madeira de freixo ou eucalipto australiano. “E onde você ouviu falar do Wellington College?” “Drago sabe tudo. Tem. Até amanhã. “Tudo bem.

Chegou em Dubrovnik em 1680. fazer barulho assim como quem diz quack. O que ele não diz é: Mas por que você abandonou o emprego. É só mensalidade de dois anos que precisa. De qualquer forma.” “Não sei se concordo”. e mrs. avermelhada. “Um montador de carro não é um nada. “Eu conto para Drago. quer algum sinal de contrição de Marijana. conversar com o diretor. está embriagado do prazer de tê-la de volta. seu marido e Drago não gostariam de primeiro visitar o Wellington College?” Marijana tira a capa — é feita de algum material plástico transparente. Mas aqui” — ela levanta os olhos para o céu — “quem liga? Na Austrália ninguém fala de pato mecânico. Se alguém está embaraçado. diz ela. Transformou-se em padrinho. diz Marijana. o que eu sei é que o Wellington College vai ficar bem contente de receber seu dinheiro. Miroslav Jokić e pato mecânico. se vocês são de Munno Para ou de Timbuktu. Quer ir. Sem nenhum traço de tensão por causa do último encontro com ele. Tem certeza de que você. “E senhor? Perna tudo bem? Sem dor? Fez exercício?” “A perna está boa. mr. Vou fazer um cheque agora mesmo para a taxa de inscrição. ele passa a ano doze. Vá em frente e inscreva o rapaz. Ninguém é nada. é ele. Será que vai ter de levar Drago a Deus? “Está bom”. mais ou menos. pronto. diz ele. Está com a pele quente. comer” — ela bate no peito — “e outras coisas também. os pais darem uma olhada na escola antes de se comprometerem. Uma semana. Simples assim. da Suécia. Miroslav Jokić.” “É normal. sabe. ele é homem famoso na Croácia. Eu pago.” Uma pausa. “Na Croácia. absolutamente prático — e pendura nas costas de uma cadeira. montador de carro. Dar sempre o anima. Único homem que faz pato mecânico andar. Ele ainda está todo ofendido. Ao mesmo tempo. Da Suécia. “Wellington College”. Pato velho. Não é nada.“Se ele começa em janeiro. Na televisão” — com dois dedos ela faz movimento de caminhar no ar — “fotos de pato mecânico. Não acredita? Tem foto dele em todos jornais. se você vai visitar ou não. Marijana? Por que me abandonou? Não é uma conduta muito profissional. Só montador de carro. Rayment. meu marido era homem famoso. não é? Aposto que não ia gostar que mrs. Senhor deixa ele muito feliz. diz ele. dois anos. Ninguém conserta. duas semanas. Anima-o a dar . Não sabe o que é. isso ele sabe sobre si próprio. Padrinho: aquele que leva um filho a Deus. Ele está comprometido. excitado também por causa do dinheiro que está a ponto de dar. sabe. Jokić de Munno Para visita. “Acha que Wellington College quer que mr. sem dor”.” “E Drago está entusiasmado com a escola? Concordou em ir?” “Muito entusiasmado. Então Miroslav Jokić conserta perfeito. Dar uma volta pelas instalações. ninguém fala. Putz ficasse sabendo. Em dois anos. sentir o lugar. aí pode ter bolsa de estudo. ver se Wellington College é bom para filho deles?” Seu tom é bem-humorado.” Então. velho.

Marijana já está trabalhando. Mal ela vai embora. pode sentir o calor que vem dele. A emoção de perder.” Minutos depois. Pela janela. esta é mrs. Colega apenas. Não devia nem pensar nisso. “Não preocupe. diz Marijana. ele ouve a porta da frente fechar. despe a cama e arruma-a com lençóis limpos. nem um pouco. eu acredito. À sua maneira ocupada de sempre. Se por algum milagre pudesse abraçar Marijana agora mesmo. ele corrige. dia especial. A queda descuidada. os seios. Mrs. claro. a chave gira na fechadura e Elizabeth Costello está de volta. Se o pessoal do Wellington College tiver algum juízo. não os pais. parece. senhor paga depois. Costello. tem de pegar Ljubica no jardim-de-infância”. “Uma coisinha”. tira uma quiche congelada.” Marijana está com pressa. entra em cena de camisola e chinelos. diz. aproveitar a maré enquanto está alta. Aqui tem uma coisa pequena que eu compra para almoço. Costello. Mas hoje ela não menciona exercícios. Pior que imprudente. vai ficar aqui enquanto isso. Vai ficar um pouco aqui. “Vai haver uma entrevista. diz ela. Acha que Marijana vai se sair bem?” “Entrevista?” “Para essa escola. um chapéu seu que não usa há anos. disso ele tem certeza. Está secando o cabelo com uma toalha. negligente. “Tenho de ir embora. ele superaria toda a retidão dela. “Ela amiga?” “Amiga? Não. Eros sempre foi forte com ele de manhã. Está na cidade a negócios.” “Uma coisinha”. Da bolsa. Perda sobre perda. mas principalmente os pais.” Marijana estende a mão para ela e com uma solenidade apalhaçada Costello a aperta. nesse estado de espírito. Normalmente. “Eu volta de tarde. Mas impossível. Jokić. Vão querer entrevistar o rapaz e os pais. Onde ela encontrou? Será que andou fuçando os armários? “Bonita senhora”. talvez. Coloca um saco plástico em cima da mesa.” “E se perguntarem diretamente aos pais como vão fazer para pagar essas mensalidades . para ter certeza de que são do tipo certo. Então a porta do banheiro se abre e a mulher. maluco. vai aceitar Drago imediatamente.” “É o Drago que vai se inscrever. Imprudente.mais. diz. Eu deixo nota. Como no jogo. vê Costello descer a rua na direção do rio. acariciando as coxas dela. Ele a apresenta displicentemente. Começa pelo quarto. Mas sente os olhos dele em cima dela. está disposto a apostar. a primeira coisa que faz de manhã é cuidar da perna e conduzi-lo nos exercícios. “Marijana.” “É bom. “Prometo não atrapalhar”. “Comprei frutas”. anuncia. revelando retalhos do couro cabeludo rosado. Está usando um chapéu de palha que ele reconhece.

J. Pense no passado. isso qualquer criança pode dizer.” “É. o homem que não tem uma perna. Jokić e a sua fixação nela. uma de muitas lições. na companhia de uma mulher mais velha? Claro que lembra. você me devolve minha fé.” Ela está construindo uma pequena pirâmide de frutas — abricós.absurdas?” “Eu escrevo uma carta para eles. Dou garantias. eu tenho uma alternativa a propor. Não tem nada a ver com ele. Esqueça mrs. verdadeiro. J. Ou que vá querer que suas obrigações pecuniárias sejam assumidas por um homem que a mulher dele visita seis dias por semana. diz ela. Até eu vejo isso. “não esqueça que resta ainda a barreira de Miroslav a superar. Só a verdade vai bastar. Eu me curvo a você. “Do filho para a mulher.” “Não. Você me dá confiança.” Com a ponta do dedo ela toca a testa dele.” Ela faz uma pausa no que está fazendo e. E também seduzir os filhos de mrs. Está tentando ficar íntimo de mrs. Você toca o orgulho dele. Ficou impressionado com ela. O que vai dizer quando esse dia chegar? ‘Só estou querendo ajudar’? É isso que vai dizer? Isso não basta. Faço o que for preciso. está tentando travar o funcionamento da família Jokić. Paul. no fim das contas. o que você vai fazer com Miroslav? Tem de pensar. um. afastar as crianças dele e transformar em suas. “Fico tão contente de ter a oportunidade de conhecer você melhor. uvas — na tigela da mesinha de centro. com o futuro do filho.” “Alternativa a quê?” “Uma alternativa a todo esse imbróglio seu com a família Jokić. . É uma das lições que as histórias nos contam. a honra masculina dele. sem ironia. da mulher para ele: é assim que o fio corre. só isso. Miroslav não vai ser tolerante com você. Desistiu de ler histórias? Um erro. não está certo”. Você não deve confiar que Miroslav vá aceitar que o filho entre numa escola de luxo a mil e quinhentos quilômetros de distância. Não devia. Tem de pensar. É que é constrangedor. e será que está errado? Portanto. Lembra quando foi a última vez que visitou o departamento de osteopatia do hospital? Lembra da mulher de óculos escuros no elevador. “Admirável”. Ao contrário. E a verdade é que você não está tentando ajudar.” “Eu dou confiança? Nunca ninguém me disse isso antes. Mais cedo ou mais tarde vai ter de encarar Miroslav. continua. dois. inclina muito ligeiramente a cabeça. ela diz baixinho. se ver na presença de um amor antigo. “Porém”. Não. Já pensou no que vai fazer com Miroslav?” “Seria burrice dele recusar. nectarinas. Não é o que eu chamaria de um panorama amigável. a um muro em branco. ou seja. Paul. você não é amigo de Miroslav. Não deve levar a sério o que eu disse a respeito de você e de mrs. de jeito nenhum que eu consiga ver. até os três. Jokić. Tem a ver com o filho dele. “E se seu pensamento levar aonde eu acho que vai levar. “Nada que acontece na vida da gente deixa de ter um sentido.

tenha tirado a fotografia dela. Ou talvez você é que esteja enganado. É. ou pelo menos altamente atraente. que você não seria capaz de conceber sozinho nem num mês todo de domingos. Mas não existe diário. talvez eu esteja enganada. As profundezas do oceano. como resultado de um tumor maligno. em que vocês dois eram jovens. Perdeu um olho inteiro. como você à sua maneira quer ser como era antes. cega. muito menos adoração. por exemplo. Antes da tragédia ela era bonita. “A mulher a que se refere. você coxo? “Vou dizer mais uma coisa sobre Marianna. mas amor em sua expressão mais física. onde ela não pode ter me visto. uma pena!. Como se ele tivesse um diário e essa mulher se infiltrasse toda noite no apartamento para ler seus segredos. como uma vaca ou uma porca no cio. não nela. ela cega.“Deixe eu informar você sobre a mulher de óculos escuros. repugnada. coitada. um dia. Vou dizer uma coisa: por que não ver o que vocês podem conseguir juntos. inteiros e bonitos de se olhar. É preferível não olhar para o rosto dela. “Ser cega é pior do que disseram que seria. como era antes.” . Mas não tem nada errado com a minha memória e não me lembro dessa experiência. Ou então a pessoa se vê encarando e desvia os olhos. Costello”. não pode me conhecer. Ela é. a fonte da imagem.” “É. e você tenha simplesmente esquecido disso. é possível. o nome dela é Marianna. Marianna conhece você. A mulher existe. diz ele. “Está enganada. ela conhece você. Ela quer se esconder. e o uso do outro também. Não consegue suportar o ar livre. não era? Talvez. a menos que ele escreva durante o sono. Perdeu a visão há um ano.” “Talvez. Tem consciência do olhar dos outros como de dedos que a toquem. Quer morrer. Ela quer ser. Este mundo aparentemente tranqüilo que habitamos contém horrores. a quem chama de Marianna — só encontrei com ela uma vez. Você era fotógrafo profissional. nem mesmo no sentido mais trivial. mas ela sente isso mesmo assim. Sabia disso?” É como se ela tivesse lido o diário dele. e aconteceu de estar com toda a atenção concentrada na imagem que estava fazendo. E ao mesmo tempo — não consegue evitar — está cheia de luxúria infeliz. mrs. Está no calor de sua vida de mulher. por definição. hoje. Ela está desesperada. Você e ela são conhecidos. pior do que ela jamais imaginou. removido cirurgicamente. “O que Marianna quer não é consolação. evidentemente. Em questão de meses se transformou em um objeto de horror. dia após dia. apalpando e recuando. invisível para ela. o fundo do mar — o que acontece lá vai além de qualquer imaginação. ela geme alto de luxúria. “Você se surpreende com o que eu estou dizendo? Acha que é só uma história que estou inventando? Não é. não é bonita do jeito que cegos não são bonitos. no hospital. onde pode ser vista. Então. não importa se brevemente. Paul. você viu com seus próprios olhos. Essa repulsão é. você e Marianna. Talvez Marianna pertença a uma parte mais antiga da sua vida.

seja o que for que você e ela resolvam fazer. como eu disse.. eu diria apenas que tenha um pouco menos de segurança. Dois enes. velhos amigos ou não. Revire a sua memória e vai ficar surpreso com as imagens que vêm à superfície.“Bom. mas depois do golpe do destino que descrevi o casamento acabou. “. “Fique sabendo de uma coisa. Minha proposta é aceitável? Se for. se quiser. Me permita sugerir que. qualquer coisa.” Ele tem de dizer alguma coisa perspicaz. do dia em que você pode ou não ter tirado a foto dela. Ela estende a mão e encontra outra mão. Vai poder recolher o resto dos próprios lábios dela. Uma tempestade está em curso. Vamos construir o nosso lado da história partindo do fato de que você só viu essa mulher de relance. é como se estivesse drogado ou tonto. o que vai nascer? Paixão na maior escala? Uma grande conflagração outonal? Vamos ver. Lave-se bem. você e Marianna? Dadas as circunstâncias especiais do caso. Pense em sua cama como uma caverna. no elevador. Desde a cirurgia. O velho perneta na esquina parado/ Pedindo esmola com o chapéu virado. Se estou falando com crueldade.. se houver alguma proposta eu coloco para ela de um jeito que permita a ela vir até aqui sem perder o auto-respeito. É sempre mais tarde do que se pensa. mas foi o bastante para incendiar seu desejo. É melhor você também estar bem limpo para ela. quem não comete esse erro ocasional ao se vestir no escuro? “Agitada. como todo o resto acabou. Você só precisa esperar e se preparar. Isso acontece com alguns cegos. . a matrona. assim como tudo na vida dela. perder uma perna é cômico. continua Costello. A vida dela está em desordem. Se não fosse. aquela mulher que você viu com ela. gatinha. querida. Mas não quero pressionar. Do seu desejo e da necessidade dela. “Uma última coisa. E assim por diante. Não há como evitar. E livre-se dessa cara triste. Perder qualquer parte do corpo que se espeta para fora é cômico. ela passou a ser morbidamente escrupulosa com a limpeza. por que não tentar descobrir o que vocês podem conseguir juntos. diga sim. a cirurgia extremamente delicada. a sua. só responda com a cabeça. mora com a mãe. bem ao contrário da grosseira carnificina da amputação. Então aproveite enquanto ainda está com saúde. Como uma gentileza a ela. um apelido. com dois enes. A roupa dela está em desordem. mas não consegue. “Basta de informações por enquanto. nas suas e nas dela. Ou. Sim? “O nome dela é Marianna. Ao contrário. não haveria tantas piadas sobre o assunto. Não está em meu poder mudar nomes. eu me encarrego pessoalmente de arranjar um encontro. E assim por diante. No momento. Pode dar para ela algum nome provisório. Lave tudo. que seja no escuro. Ela foi casada. mas limpa. Perder uma perna não é uma tragédia. Pode ter certeza. com os cheiros dela mesma. me perdoe. “Sobre o episódio que você diz não ter lembrança”. Era uma vez a filha de um criador de porcos. A questão está em suas mãos. Só viu de relance. uma caçadora virgem entra procurando abrigo. se estiver muito envergonhado. mas isso pode ser perdoado. Paul: os anos passam num piscar de olhos.

Paul. com seu rosto devastado e a luxúria cheia de remorso em que está presa. Marianna tem possibilidades.) ** Jogo de palavras intraduzível: food school. pelo que vejo. se é isso que está pensando. Quase o tempo todo acha que estou falando bobagem. “Você não consegue me entender. voando como um gato? Que triste declínio desde então! Cada vez mais devagar. sua paixão inadequada. Pérolas no lugar de olhos. não ainda. não é? Acha que eu sou uma prova. blá-blá-blá. A questão é a seguinte: você é homem que baste para ela? “Me responda. levado para cá e para lá pelas correntes das profundezas. feeder school. cuja pronúncia em inglês australiano soa semelhante a “spaide”.) . não minha. Diga alguma coisa. a mulher que insiste e insiste. * “Aranha”. T. a outra Marijana. eu sou um dos seus sofrimentos não merecidos. Na verdade. O bater da água que com o tempo despirá seus ossos do último fiapo de carne. em seu entender. escola que. Marianna é uma mulher e tanto. Eu repito: esta história é sua. inventando as coisas na hora. (N. Não vai mais ouvir falar de mim. quando o jovem Wayne colidiu com você e te jogou no ar. eu desapareço. Porém você ainda não se rebelou. vai ser como se eu nunca tivesse existido. “alimentadora” (feeder) de alunos para determinadas escolas de elite. Você me tolera com a esperança de que eu desista e vá embora. A Marijana de Dubrovnik. nos sistemas educacionais de língua inglesa.” É como um mar batendo na cabeça dele. “Não precisa ser assim. está escrito na sua cara. T. “Pense como você começou bem. você e ela vão ter liberdade para trabalhar as respectivas salvações.(N. Essa promessa eu estendo à sua nova amiga Marianna também. Vou me retirar. a enfermeira. Na hora em que você decidir assumir o comando. O que poderia ser mais bem calculado para captar a atenção de alguém do que o acidente na rua Magill. coral em vez de ossos. cheia de planos de salvar você de você mesmo. Mas não desanime. quando tudo o que você deseja é paz. Essas coisas não têm método. Putts. para todo mundo ver. Paul. preso dentro de um apartamento abafado com uma enfermeira que não podia ligar menos para você. chegou via sua amiga mrs. é fornecedora.“E não. Não negue. podia já ter caído no mar. não foi idéia minha. Não tem nada a ver comigo. Você é Jó. até agora você estar quase parado. “escola de comida”.

ninguém pode ajudar. Marijana telefona. não Ljubica: com Blanka. o. Vista-se bem. quando ele está a ponto de sair do apartamento. . Para segurar no lugar. Paul. Um problema com a filha. Não pisque. amarrada atrás da cabeça. mesmo ela não podendo ver. ela reaparece. “É só uma pasta de farinha e água. não é mágica. “Vou amanhã. Aqui. acho que é esse o nome. que não pode vir hoje. não é? Não finja. Ela insiste. e dou o meu adeus. Alfredo’s. Não. Mesmo antes de ela falar. abaixe. “Posso ajudar?”. Está sendo” — dá um ronco exasperado —. Esteja no café da esquina. Posso usar sua cozinha?” Volta da cozinha trazendo uma tigelinha de algo que parece creme. a cega — não consegue tirar ela da cabeça. “Imagino que problema poderia ser. “Mudança de planos”. Tudo pronto. “Então. Desculpe ser tão complicado. “está sendo difícil.” Costello fica fora a tarde toda. com certeza. Mas eu não recomendaria. não vai machucar. “Não. E para segurar as folhas no lugar.15. Às quatro e meia. mas é assim que nós. Por que tem de usar isso? Porque Marianna não quer que você olhe para ela. não mesmo. Marianna. Não tenha medo. Acontece que Marianna está perdida hoje. uma meia de náilon. às cinco da tarde hoje. Fique quieto. ele pergunta. A mulher de que falei. Ela não gosta da idéia do Alfredo’s. Não me pergunte como eu faço essas coisas. Não sabe o que fazer consigo mesma. sinceramente. Pode tirar a hora que quiser. Eu trago a mulher. Para colocar nos olhos.k. reflete Elizabeth Costello. dá para ler você como um livro. eu simplesmente faço. uma folha de limoeiro em cima de cada olho. sem fôlego. ele sabe o que vai dizer: que sente muito. prometo. não há nuvem sem sol por trás. “Marianna está aí embaixo.” Ela suspira. seres humanos. lavadinha. Mesmo assim. eu trago a mulher para conhecer você. diz ela.?” “Problema com a filha”.

Não se preocupe comigo. é assim que ela mantém o auto-respeito.” Então lhe ocorre que o andador pode ser tomado como uma barreira. A fechadura da porta soa de novo. diz ele. “Estamos em cena. Desculpe eu não poder ajudar. Costello. uma depois da outra? “É uma estrutura de alumínio. Os dedos traçam a linha de seu queixo. O aroma das folhas úmidas sobre seus olhos domina qualquer outro cheiro. mas seu coração parece estar martelando. você se acomode e espere. não vai despir sua visão até a nudez. Que mundo atrapalhado. complicados. Até logo.” Uma mão. “Estou de olhos fechados. diz. Mas em certo sentido estão sendo observados. “Quer sentar ao meu lado? É um sofá. mesmo não tendo espectadores.” Ele culpa mrs. Sente que já está pronto? Quer mesmo isso? Sim? Ótimo. um farfalhar. ele já pode ouvir que não é Marijana Jokić: mais leve. me fez usar. aqui um ou dois passos à frente. Com um farfalhar (o que ela pode estar vestindo que faz tanto barulho?) a mulher senta- . Há um murmúrio de vozes no poço da escada. Lembre-se. Uma pressão no andador. que ele sente nas mãos. “Deixe eu largar isto aqui. vou-me embora e deixo vocês dois se conhecerem melhor. “Não estou acostumado a ser cego. correm por seus cabelos. Ele fica de frente para a porta. seja tolerante. Vamos jogar até o fim. no escuro. não é? Mas é o único que temos. que sentido poderia ter uma fileira de croatas. Acho o andador menos cansativo que as muletas. diz a voz leve. ele tem certeza disso. Sou dura na queda. colados”. Não volto até amanhã ou depois.somos. que eu vou buscar Marianna. seria o melhor de tudo”. Croata? Outra croata? Com certeza não. É esse o arranjo. Costello. pode sentir na nuca. mais uma criatura do ar. leve. Eu perdi uma perna. Além disso.” Ela vai embora. num certo sentido. por causa da venda que nossa amiga comum. Que se dane. mas ainda não vai tirá-la. “Se você cantar. Através do véu do limão ele sente o cheiro tênue de lã. ele diz. Um deslizar. conhecida no dia-a-dia como andador. “Assim que ela estiver entregue. “Estou aqui”. tem de pagar a ela. ele pensa: volta-se para a mão e a beija. apoiado no andador.” Coloca o andador de lado e senta-se no sofá. claro. passam pela venda. mrs. Costello pela venda e por muita coisa mais. O sotaque não é australiano. cada um à sua maneira única. “O que é isto?”. “Deixe eu ouvir sua voz”. nem inglês.” Mesmo não tendo espectadores. Ela tem de explicar muita coisa. Mal consegue acreditar. e ele sente o andador oscilar ligeiramente. ele diz. pequena. toca seu rosto e fica pousada nele. Ela pigarreia e pelo tom agudo. as unhas cortadas curtas. mrs. com certeza os croatas não são assim tão numerosos ali. Agora. Dedos exploram seus lábios.

não.” Ele diz Marianna. e ela vem. prateado: não tão rápido quanto mercúrio. Não é uma mulher grande. depois uma mandíbula curta. Durante um momento. Não é de admirar que ela seja inquieta. mesmo os dedos de alguém como ele. Uma pena. ele estende a mão. contas. Costello me contou dos seus problemas. pontudo. mas como água corrente. Costello me disse. O rosto colado ao dele. como um cobertor para estender em cima deles dois. O que é preciso. e o começo de penugem ou cabelo que ele tem a sensação de ser escuro. buscar equivalentes que soam demais (regato murmurante) como má poesia? “Não o Marianne francês?” “Não. Ele sente um ligeiro tremor percorrê-la. A gola ou o corpete dela. mas não sabe o que fazer em seguida. “Obrigado pela visita”. mais sólido. assim como a pele dá a sensação de ser escura. um brinco. não andam. ele diz. os óculos escuros também. está em um mundo de absoluta escuridão. Mas é isso que quer fazer? Quer explorar aqueles olhos ou algum ponto perto deles? Quer ficar — como é a palavra? — horrorizado? O horror. talvez os mesmos óculos escuros que usava no elevador. Ela está de óculos. dois nós que mantêm o peito dela afastado do dele.” Ela não diz nada. frutinhas bordadas numa bainha. ele pode tocá-la como ela o toca. novato na terra dos cegos? Hesitante. não correm. um regato murmurante.” Não. E é assim. não andam de bicicleta.se a seu lado — senta em cima de sua mão. “Não é preciso”. mrs. algo que revira o estômago. Sente um cacho duro de alguma coisa. deixa pálido e trêmulo. Do Marianna dela só pode dizer que é líquido. mas que os dedos relatam. A pasta de água e farinha funciona surpreendentemente bem. depois uma coisa dura. “Seu nome é Marianna. “Mrs. ser cego: ter de pesar cada palavra na mão. Um queixo firme. ele continua.” “Marianna. Alguém pode se horrorizar com algo que não pode ver. Não é de admirar que esteja pronta a visitar sozinha um homem estranho. a mão fica debaixo de suas nádegas de um jeito muito vulgar. Francês teria sido alguma coisa em comum. grandes e macias. bolas. Centímetros acima. Porque os cegos são inativos. óculos que se curvam para trás por cima das maçãs do rosto. Francês. Mesmo que esteja com as pupilas dilatadas ao máximo. o queixo. pesar cada tom. desumaniza. De onde Costello tirou essa idéia? De um livro? Uma receita herdada dos antigos? Com os dedos ainda nos cabelos um tanto encaracolados dela. ela diz Marianna. ele a puxa para si. o . embora seus punhos estejam levantados. na verdade. O Marianna dele ainda está colorido de Marijana: é mais pesado que o dela. decerto. mas tem nádegas grandes. Toda aquela energia acumulada sem nenhuma via de expressão. Sinto muito. mas não é o mesmo nome. Agora que está com as mãos livres. até ela se levantar e ele poder tirá-la.

“Seu dinheiro”. Se tivesse.” É? O que quer dizer isso. diz ele. Seios grandes. “Sugiro que a gente não fale muito”. que felizmente vai até a cintura. mas não sozinha. Ele tem de ajudá-la. bunda grande. “Não é preciso”. sólido. A imagem que tem dela vem apenas do elevador e do que seus dedos lhe dizem agora. Posso precisar de ajuda. alguma coisa a ver com ceder à. ele começa de novo. Somos livres. o tipo de coisa que ele imagina as carmelitas usando. “Estou colocando na mesinha lateral. e um cheiro provavelmente desagradável para as narinas supersensíveis dela. Mas entre o que eles são. Se ela tivesse ficado sentada em cima de sua mão um pouquinho mais. e o exercício da luxúria abre-se um verdadeiro abismo. ele deve ser uma mixórdia ainda maior de dados sensoriais: a frieza das mãos. Um homem de uma perna só e uma mulher parcialmente despida esperando o quê? O clique do obturador da câmera? Gótico . Nada acontece. desliza para mais perto. frutinhas e bolas no pescoço dela acabam sendo puramente decorativas.” “Eu sei disso. o raspar da voz. obediente. Mrs. Deve ser difícil para ela. O vestido se abre com um zíper atrás. “Mesmo assim. mas esguia no resto. Não tive nenhuma experiência desse tipo desde o meu acidente. como um pássaro. homem e mulher. Está bom?” Ele sente que ela concorda com a cabeça. Ela não pode saber o que eu não sei.que não é preciso? Alguma coisa a ver com o fato de serem homem e mulher. Porque há nela uma sede que não pode ser saciada. As contas. Passa-se um minuto. porque o transformaria em gelo. por questões práticas. na época em que ele visitava escolas para tirar fotos de grupos.” “Mrs. dentro de um envelope. e ela. Calor animal. Talvez ela fizesse parte de um grupo.” Ela ainda está tremendo. grilo e sagüi. “Chegue mais perto”. Costello me disse. raposa e baleia. estão nisso juntos. Para ela. Marianna. para usar o termo de Costello. os dedos teriam se aquecido. do rosto devastado. Costello não sabe tudo. visão não vista? É como um experimento primitivo de biologia — como colocar juntas espécies diferentes para ver se se cruzam. diz a mulher Costello. Quatrocentos e cinqüenta dólares. a aspereza da pele. diz ele. Não é preciso fazer nada que a gente não queira. não teria se esquecido dela. é? Ele duvida profundamente que jamais tenha fotografado essa mulher sozinha. é bem construído. Por causa do rosto dela. isso é possível. Será que isso basta para ela construir a imagem de um homem? É uma imagem à qual ela esteja preparada para se entregar? Por que concordou em vir. não por solicitude a ele. luxúria. Quanto ao sutiã. ele diz. Os dedos dele são lentos e desajeitados. tem uma coisa que preciso mencionar. “seguir nenhum esquema. tremendo ou vibrando. que ele foi alertado a não olhar e talvez nem tocar.” “É. Que está aqui. mas por si mesma.

o amor e a bondade? E. Quando ele tenta acrescentar seios pesados e nádegas largas. para ele. porém. os mutilados. desajeitados. partes do corpo despencando ou caindo. problemas de ordem muito diferente. tenta puxar a mulher para ele. seja porque não quer ceder os lábios. o evitar. de fato.australiano. mas é. seja porque não quer dar a ele a possibilidade de levantar os óculos e explorar o que há por baixo — não quer porque no tocante a mutilações os homens são incrivelmente enjoados. Por que a visão do belo chama Eros à vida? Por que o espetáculo do horrendo estrangula o desejo? Será que a relação com o belo nos eleva. ela vira o rosto. ele ainda está tateando. O tremor da mulher não passou. um ato que embora não o ato de sexo conforme entendido no geral é assim . ele terá problemas próprios a enfrentar. poderem ter uma aula de filosofia. não consegue fazer as partes combinarem. deixou em sua memória apenas um vago esboço. Se vão prosseguir com o ato para o qual ela foi paga. o filosofar. outra coisa. uma vez removida a questão sexual. uma coisa imaginável. como volumes de líquido presos em balões de seda ao chapéu de palha de abas largas. que começou a sufocá-lo (por que está de gravata?) —. medo ou apreensão (mas qual?). o melhor seria ela ficar por cima dele. ela tem de superar seu atual constrangimento e dar o próximo passo. os repulsivos que melhoramos a nós mesmos? Que perguntas! Será por isso que Costello juntou os dois: não pela comédia vulgar de um homem e uma mulher com partes do corpo ausentes fazendo o possível para se encaixar. Quanto tempo faz que ela perdeu a visão? Será decente perguntar? E será decente passar para a próxima pergunta: se fez amor desde que aconteceu? Foi a experiência que ensinou a ela que seus olhos devastados aniquilarão o desejo de um homem? Eros. Enquanto ela está negociando essa passagem. envergonhados. Matilda e seu parceiro. Talvez entre os cegos se desenvolvam intuições de beleza baseadas apenas no toque. de alguma forma. em meio a tudo isso — o constrangimento. deitados um nos braços do outro discursando sobre a beleza. Ele pode jurar que se contaminou também: uma leve vibração da mão que pode ser atribuída à idade. enfrentam o fotógrafo uma última vez. ou será abraçando os doentes. aos óculos escuros e à curva de um rosto escondido. durante o qual sua atenção foi despertada tanto pela mulher mais velha como por ela. Como ele iria achar difícil ficar por cima de uma mulher. de uma forma ou de outra. mas não tão desajeitados quanto poderiam ser. de sua estrutura geral pouco confiável. mas a fim de. A beleza sem visão da beleza ainda não é. macias de um modo não natural.* cansados de uma vida inteira de dançar valsa. nos torna pessoas melhores. Como pode ao menos ter certeza de que pertencem à mesma mulher? Suavemente. eles conseguem deslizar para o ato físico ao qual se comprometeram vacilantes. O episódio no elevador. Foi avisada com antecedência da perna ruim dele. mas não tão envergonhados a ponto de se paralisarem. No reino do não-visto. para não falar de uma tentativa dele de desatar o nó da gravata. Embora não resista. para o qual aceitou pagamento.

” “Por outro lado. lado. então?” Há um longo silêncio.” “O que mais ela disse?” “Só que você estava solitário. O que mais o inquietou na descrição que Costello fez de Marianna foi o que ela disse sobre a fome ou sede que assolava o corpo dela. “Marianna”. Onde isso aconteceu. nem para o langor filosófico subseqüente. “Foi há muito tempo”.mesmo um ato de sexo e que.” “Solitário. e embora. sem coberta. se desenrola com alguma prontidão do começo para o meio e para o fim. Mrs. apesar do membro truncado de um lado e do olho perdido do outro. mas não desagradável. Mrs. Mas Marianna parece saber como se conter. quer dizer. os dois logo estejam sentindo frio. imodéstia. ela rapidamente faz tudo decente de novo. saboreando os dois enes. movimentos loucos. mas é assim que as pessoas chamam você? Não usa nenhum outro nome?” “Marianna. Costello falou disso?” “Falou. “Sei que é o seu nome. não é próxima. e quão inesperado. não se trata ainda de procurar o rumo de uma cama de fato em um quarto de fato. É isso. diz ele. mesmo que a mulher seja invisível. Mrs. subindo e descendo. seios. Ele a acaricia por cima da roupa. “Marianna. Você tirou minha fotografia. . mais ou menos. berros e gritos. Andamos juntos de elevador no Royal Hospital. O único sinal que ele tem de uma sede feroz ou fome feroz vem na forma de um desusado.” “E onde era esse estúdio?” Ela se cala. Embora o sofá não tenha sido construído nem para o acasalamento sexual. Quando foi?” “Faz muito tempo. experimentando o nome na língua. Só isso. “Não consigo lembrar.” “O quê. uma vez terminado. calor no cerne do corpo dela. Era para o meu aniversário. ele diz.” “Muito bem”. Seja o que for que está acontecendo dentro dela. ter a liberdade de um corpo de mulher outra vez. Interessante. E não pode ser por você se lembrar de mim porque não sabe como eu sou. No elevador. em todas as suas partes naturais. diz por fim. gemidos. Que prazer. Não se lembra?” “Não e não consigo lembrar porque não sei como você é. Ele nunca apreciou imoderação. essa sessão de retrato?” “No seu estúdio. ela guarda para si. e. Costello disse que nós nos encontramos antes. como se seu útero ou talvez seu coração estivesse brilhando com fogo próprio. nossos caminhos realmente se cruzaram muito mais recentemente. coxa. Costello é muito amiga sua?” “Não.

ouve quando engole em seco e.” Não tem ninguém aqui. fazendo o possível em uma situação incômoda. e o riso provoca soluços. ela deve ter razão. Não é a palavra certa. diz ela. ele diz. “Pensei”. ele prossegue. sobraram os ductos lacrimais. talvez? O coxo guiando a cega?” A observação era para ser leve. O primeiro impulso. pigarreia. Mesmo não havendo ninguém para ver.” “E é. “que ela ainda esteja na sala. para ela própria ou para Marianna. mas ele deixa. “A menos”.” Ele sente que ela mexe a cabeça de um lado para o outro. Marianna diz. sem dúvida. é. “Desculpe”. incapaz de crescer.” Ele está apenas falando. ela está chorando. Provavelmente ela tem outras hipóteses a seu respeito. Elizabeth Costello nunca usou a palavra crescer. Ela dá instruções.” “Não”. Agora é. de repente. sacudindo a cabeça de um lado para o outro. pensa ele. meio vestida. “Desculpe. de olhar para ela como é. ele não perdeu a sensação de que basta apenas estender a mão e seus dedos encontrarão Elizabeth Costello estendida no tapete como um cachorro.” Ela aspira com ruído no que talvez seja uma risada. mas ele sente que ela enrijece. “De qualquer modo.“Ela simplesmente abordou você?”. Estende a mão para tocar seu rosto. Deus sabe o que acontecerá em seguida.” Antes mesmo de terminar. Como cega e. Mesmo assim. “Ela simplesmente me abordou. observando. uma vez atravessado o limiar. agora somos livres para prosseguir para coisas mais elevadas e melhores. “Será que a intenção dela. sinceramente. Essa é a hipótese que ela está testando no meu caso. por que estamos permitindo que alguém que mal conhecemos dite a nossa vida? É isso que eu me pergunto. o momento de tirar a venda. Ouve quando ela abre os lábios. Crescimento é coisa que sai dos manuais de auto-ajuda. Ele espera. Deus sabe a qual teoria da vida ou do amor ela realmente se apega. nós obedecemos. “que era isso que você queria. nós obedecemos. Ela se senta ao lado dele. a idéia veio de nossa amiga Elizabeth. você acha. sintonizada com as emanações mais sutis de seres vivos. ele sabe que é mentira. não pense que não. Pelo menos. de limpar a pasta dos olhos. Deus sabe o que Elizabeth Costello quer de fato. “não tem ninguém aqui. observando e esperando. Mas ele não faz isso. portanto. para ele. soluçando abertamente. Retarda. Ela já deve estar acostumada com as pessoas dizerem “ver” quando querem dizer outra coisa. Mesmo assim. Ela é da opinião de que enquanto eu não atravessar um certo limiar estarei preso em um limbo. diz ele. Fica. pelo que ele saiba. Está banhado de umidade. conferindo. tentando animar .” Ver. “Nossa amiga advogou isto aqui” — ele acena uma mão vaga — “porque aos olhos dela isto representa atravessar um limiar. era transformar você e a mim em um casal? Só para se divertir. Ela assoa o nariz em um lenço de papel que deve ter trazido consigo. Mas se nós somos adultos.

que agora lhe parece menos que precipitada. sem desistir ainda da esperança de formar uma imagem dela.” “Se acha que sim”. “O táxi deve estar esperando. E eles caíram nisso. Essa pobre mulher que ela mandou para ele é uma mulher menor também. um positivamente velho. o que pode estar se passando em sua cabeça? Que tipo de conversa fiada deve ter ouvido para ser convencida a vir bater na porta de um homem estranho e se oferecer para ele! Assim como no caso dele houve um longo preâmbulo a esse lamentável encontro. ou o mau gene. Do envoltório de escuridão. começando por Wayne Blight e Paul Rayment saindo de suas respectivas casas naquela fatídica manhã de inverno. um inútil experimento biológico-literário. assim como um homem com uma perna só é um homem menor. aqui está o dinheiro para pagar a corrida. e esperar que se comportem como Romeu e Julieta? Que ingenuidade! E trata-se de uma conhecida literata! E essa maldita pasta que. Por que. estou colocando em sua mão. e eu vou estar lá. Um experimento. está começando a irritar seus olhos ao secar: como ela pode ter imaginado que ser cegado com farinha e água transformaria seu caráter. Toda a sua animação o abandona. menor do que devia ter sido antes. um preâmbulo que se estende tanto no passado a ponto de constituir um livro independente. em sua misericórdia. ou uma fagulha qualquer? Quanto à mulher em si. diz ele. ambos. simplesmente estúpida? E o que essa pobre mulher cega e infeliz vai fazer consigo mesma neste ambiente menos que acolhedor enquanto espera que sua mentora. Grilo com sagüi. pairando ao fundo. apenas solitário. ela ao dela! “Tenho de ir embora”. afinal. Um homem sem visão é um homem menor. velho e frio.uma mulher que sofre a tristesse que baixa depois do coito com um estranho. não precisa ficar nervosa. o homem em questão é bem inofensivo. Dois seres menores. ou a agulha. em North Adelaide. e no ato mergulha em um golfo escuro próprio. não um novo homem. ele estende a mão de novo para tocar seu rosto. diz a mulher. a sagüi. e prosseguindo passo a passo até seu encontro com a velha plausível (ainda mais plausível se você tem só a voz para se basear) dizendo que tem os meios para saciar sua sede abrasadora se você concordar em tomar um táxi até um café chamado Alfredo’s. ou a mancha solar. volte para liberá-la? Será que Costello realmente acredita que poucos minutos de inflamado congresso físico podem se expandir como um gás para preencher toda uma noite? Será que acredita que podia juntar dois estranhos. também no caso dela deve ter havido um prelúdio começando com o vírus. “Como sabe do táxi?” . nenhum dos dois jovem. ou qualquer coisa que seja culpada por sua cegueira. esfriando minuto a minuto a seu lado. limitados. ele a seu modo. protegendo vocês — se você se orienta apenas pela voz e não pode ver o brilho louco do olhar. é só isso que é. um sem saber da existência do outro. embora ela tenha jurado ser inofensiva. faria dele um novo homem? Cegueira é uma limitação pura e simples. vai tratar você como uma garota de programa e pagar pelo seu tempo. diminuídos: como ela pode ter imaginado que uma fagulha do divino espoucaria entre eles. por que ele confiou em Costello a ponto de embarcar nessa performance.

No instante em que a porta se fecha depois de ela sair. * Menção à canção folclórica Waltzing Matilda.) . Costello?” “É.” “Mrs. Mas a pasta virou uma placa e endureceu.“Mrs. Ele xinga: vai ter de lavar com água. Posso pagar o táxi?” “Não. “Bom. Costello. Costello. que é o hino nacional nãooficial da Austrália. Costello sabe quando você vai precisar de um táxi?” Ela dá de ombros. enquanto ela se veste. (N. se controlando. mrs. T. dê os meus cumprimentos a mrs. porém. ele arranca a venda e arranha os olhos. Costello cuida bem de você. então. A escada pode estar escorregadia. E cuidado ao descer. Se puxar muito forte vai perder os cílios. está tudo incluído.” “Bom. Costello ia mandar.” Ele fica sentado imóvel.” “Como mrs. não. mrs.

“Ela veio a mim do mesmo jeito que você veio a mim”. “Uma mulher das trevas. mas não agora. Em algum momento futuro. O que ele quer de você. originária da Moldávia. O que ele quer é a garantia de que não foi enganado. Esse é o seu papel. também. que ela realmente vive com a mãe corcunda. “Meu cunhado. é que você se apresente como Marianna. pronunciadas por aquilo que antigamente seria chamado de anjo me chamando para uma luta corporal. O que ele quer mesmo agora é uma garantia de que a história que lhe foi contada é a história verdadeira: que a mulher que veio a seu apartamento é realmente a mulher que viu no elevador. conhecida também por Tanya. Uma vez. a teria envolvido em uma charada. a sua Marianna. não. prefere ficar com a cabeça nas nuvens. uma atriz. e para . posso dar o número do telefone. conhecida por Natasha. tendo sido abandonada pelo marido por causa de sua perda. Mas. Não é isso que ele quer. que o nome dela é realmente Marianna. Se quer que ela repita a visita. uma mulher em trevas. teria dito a ela. Por telefone. Costello teria localizado a bunduda Marianna. “tem certas excentricidades. diz Costello. via Dubai e Nicósia. Pegue a história dessa aí: as palavras no meu ouvido adormecido.16. e o que uma mulher pode fazer. Porque existe uma alternativa para a história. Sempre tratei com ela pelo telefone. usando certos complementos ou objetos que eu vou fornecer. Na história alternativa. e assim por diante. Portanto. ele perdeu a cabeça por uma mulher chamada Marianna. se ela quer se virar. que ele acha bem fácil de inventar sozinho. você precisa saber”. e de forma indireta me pediu para lhe comunicar. talvez. a atriz. não faço idéia de onde ela mora. Prefere o reino do imaginário. nas Páginas Amarelas. senão achar um jeito de satisfazer essas excentricidades? A principal excentricidade do meu cunhado é que ele prefere não ver a mulher com quem está. qual homem não tem as suas pequenas excentricidades.” Repetir a visita.

não está zangado agora. Deve haver muitos velhos zoológicos para vender.” “Chamado externo é extra”. nem cômico. mas sem dúvida há prazer em se permitir falar —. Costello. Podia cobrar entrada. Escreva sobre essa sua Marianna cega no meu lugar. ele reclama. Podia ganhar a vida com isso. por que insiste comigo. Dá para ouvir na sua voz. mrs. “vou ter o cuidado de não o deixar se esquecer disso. esperando que ela morda a isca. . Paul. isso que ele tem de arrancar de Costello. eu suplico.” Com algum detalhe a mais ou a menos aqui e ali. ou um zoológico. Seja boazinha com ele. Me esqueça. uma vez que sou tão sem graça.desempenhar esse papel ele vai pagar. e não é mais o mesmo de antes. Perder uma perna não é nem trágico. Ela fica calada. foi menos de nervoso do que pelo esforço para segurar o riso enquanto o homem com a meia amarrada na cabeça lutava com sua roupa de baixo? Atravessamos um limiar. Só quando tiver essa resposta poderá se voltar para a questão mais profunda: o que importa quem era a mulher de fato. Devia abrir um teatro de fantoches. e quem pode censurar alguém que enfrentou tudo o que enfrentou?” Ele pega as muletas. Fileiras e fileiras de jaulas com gente que. “Posso passar sem a sua comiseração”. pegar Marianna: talvez eu não faça isso. Mais fácil que escrever livros que ninguém lê. Pais podiam trazer os filhos nos fins de semana para nos olhar de boca aberta e atirar amendoim. Uma última palavra. “Trata todo mundo como fantoche. Não sou um herói. talvez faça. Perder uma perna não qualifica ninguém para um papel dramático. Inventa histórias e nos força a representar as histórias para você. poderia ser essa a verdadeira história por trás da visita da pretensa Marianna? Os óculos escuros foram usados para esconder o fato não de que ela era cega. Compre um e nos ponha em jaulas com os nossos nomes: Paul Rayment: canis infelix. me deixe prosseguir minha vida. “O que eu não entendo”. mas o fato de que ela não era cega? Quando ela estremeceu. em um acidente de trânsito. agora que ficaram fora de moda. ele prossegue — não estava zangado ao começar sua tirada. Você está amargo.” “Não seja amargo.” Ele faz uma pausa.” “Claro que está. diz. Deixar você. seco. Ela tem mais potencial do que eu jamais terei. veio a você no transcorrer de sua carreira de mentirosa e fabuladora. Costello teria concordado. Marianna era Marianna ou Marianna era Natasha? É isso que ele precisa descobrir em primeiro lugar.* E assim por diante.” “Não estou sendo amargo. o que importa se foi enganado? “Você me trata como um fantoche”. Agora podemos prosseguir para coisas mais elevadas e melhores. Ele acabou de perder uma perna. Que tolo solene! Ela deve ter ido embora para casa dando risada no táxi. Quem sabe a que se pode ser levado. Entende?” “Claro”. tão imune a seus esquemas. “Vou sair agora. Natasha ou Tanya teria dito. como você diz. Marianna Popova: pseudocaeca (migratória). “mas chamado externo é extra. apenas falta de sorte. “o que eu não entendo é.

histórias sobre personagens que sofrem uma perda (a visão em um caso. com certeza vou trancar a porta. pega A fornalha feroz. se você não se importa. Hoje em dia. o primeiro no elevador. Às ilhas amigas. e. Qual é o problema dela? Não consegue inventar personagens próprios? Devolve o livro.914. pensa ele — por que o brilhante fica apagado e o apagado nunca fica brilhante? O que seria preciso para fazer o . teriam sido os dois encontros. episódios da vida não de Paul Rayment. talvez faça. tranque a porta. sapos. Leopold Bloom. depois repuxa a massa em figurinhas de animais: pássaros. inclina os pescoços delas para trás como se estivessem uivando para a lua. mas de Marianna Popova? Claro que em certo sentido ele é um personagem passageiro na vida dessa Marianna. mas isso não soa implausível. a locomoção em outro) com a qual têm de aprender a conviver. Em cima da mesa. Mas será que ele é um personagem passageiro em um sentido mais fundamental também: alguém sobre quem a luz se apaga muito rapidamente antes de seguir em frente? Será que aquilo que aconteceu entre ele e Marianna vai resultar em apenas uma passagem entre muitas da busca de amor de Marianna? Ou será que Costello pode estar escrevendo duas histórias ao mesmo tempo. sob o número A823. gatos. assim como Marianna e todo o resto do mundo são personagens passageiros na vida dele. É massinha velha. Examina o índice: nenhuma menção a Marianna ou Marijana. Nem dá para dizer o quanto estou querendo um banho quente. Talvez eu não faça isso. Quando sair. Hugh Boylan. o segundo no sofá. Marion Bloom. de sua última meia de Natal. Folheia A casa da rua Eccles. Na biblioteca pública. ela pode ter ajeitado para essas duas linhas de vida se cruzarem? Ele não tem nenhuma experiência com romancistas e como eles trabalham. encontra toda uma fileira de livros de Elizabeth Costello: A fornalha feroz. Os blocos de puro vermelho-tijolo. em vez dele. Mas não acho que seja isso que vou fazer. como um experimento ou mesmo como uma espécie de piada profissional. Polidez. Ele enrola a massinha na palma das mãos até ficar quente e mole. coloca as figuras num semicírculo. Tango com mr. Dunbar. As raízes do tempo. isso é um luxo.” “Se eu sair. azul-céu se misturaram e viraram agora um roxo pesado. Será assim tão passageiro o interesse dela por ele? Será que Marianna. Mas sua última evasão o irrita e ao mesmo tempo perturba. A casa da rua Eccles em vários exemplares muito manuseados. ou de qualquer outra pessoa cujo caminho venha a cruzar.” Não é a primeira vez que Costello se recusa a se explicar. acabará sendo a escolhida? Deixando de lado a fantasmagórica sessão de retrato. cachorros de orelhas em pé. Então é isso que vou me dar de presente. verdefolha. além de um volume azul-escuro bem severo com o título Uma chama constante: intenção e determinação nos romances de Elizabeth Costello. nenhum item cegueira. latindo ou coaxando. lê a esmo. Por quê. da qual ele nada se lembra.Não sei quando volto.

o azul. nela. mas na mesinha de centro está o caderno dela. nenhum amputado. Sua mãe passou a morar comigo. O Autores mundiais contemporâneos. Prolongada residência na Europa. até apagado. . Mesmo assim. regras do universo. mas provavelmente mais bonita na meia-idade do que na juventude. Ela escreve com ponta grossa e tinta preta. 1957. Bastava se estender ao lado dele na cama tão conhecida para sentir o esgotamento começar a verter dele e inundá-la em uma maré sem cor. Se ele der uma olhada será mais uma vitória dela. um certo ar comum. Do múltiplo para o uniforme e nunca de volta. é um peixe? Não exatamente bonita. Bibliografia. sem cheiro. Escuro escuro escuro. por quê? Por que ela faz uma pergunta e não consegue responder? A resposta é simples: o vermelho. até mesmo uma mulher romancista. em uma caligrafia grande e solta. Costello não está. Não o tipo de homem nenhum. venham imediatamente. Ele procura o registro mais recente. Folheia até o meio do livro. talvez. um estranho total. lê. Não o tipo dele. se é que é popular? Há uma foto dela na sobrecapa: uma Elizabeth Costello mais jovem. mas nenhuma Marianna. que é irreversível e irrevogável. Lista de prêmios. a pele profundamente bronzeada. Os olhos dela estão apertados por causa da luz. honrarias. poucas palavras por linha. Como é que Elizabeth Costello pode ser uma escritora popular. Já era difícil controlar o próprio cansaço. Primeiro livro. Um filho e uma filha. vestindo blusão esportivo. Uma mulher do mar? Existe essa expressão ou uma mulher do mar tem de ser uma sereia. Tinha de escapar! Agora! Uma Marion. internem. até onde pode ver. Eles vão todos para os espaços interlunares vazios. Levem sua mãe embora. na seção de referência da biblioteca. escuros. Estou quase fora de mim. cheval marin. Casada duas vezes. Muito possivelmente ela o deixou ali de propósito. sem cheiro. em 1928. Não vai se expor mais a nenhum gás sem cor. como pintinhos de uma casca de ovo? Por quê. Nenhum cego. inerte e depressivo que emana de suas páginas. Setenta e dois anos! Tão velha assim! O que anda fazendo. Até mesmo um literato deveria saber disso. Ele volta ao apartamento. mas nenhum resumo de enredos. Enfim. Folheia para trás. e se recusa a ir embora. Nascida em Melbourne. Ela não conseguia ficar com um homem que estava o tempo todo cansado. o verde surgirem de novo. inerte. de pé diante do que parece ser o casco de um iate. Austrália. façam o que for necessário para me libertar. dormindo em bancos de praça? Será que a cabeça dela começou a fraquejar? Estará caduca? Será que isso explica tudo? Será que o filho e a filha deviam ser chamados à cena? É dever dele encontrar os dois? Por favor. Do pintinho animado para a velha galinha caída na poeira.roxo apagar e o vermelho. assim como um cavalo-marinho. Fecha A fornalha feroz com uma batida. o azul e o verde não vão voltar nunca por causa da entropia. tem uma biografia ao lado da mesma foto náutica.

Se não está com as orelhas queimando. o que constitui? O maior de todos os segredos pode ter acabado de se revelar para ele. E em seguida. com certeza!”. Orando em hebraico. uma vermelha. deveria estar. não consegue juntar os itens. os olhos arregalados. Ela está trancada no ritmo de sua dor como uma corredora de longa distância. comprimindo a narrativa. Porém. entre os vagalhões de dor. Durante um instante. com aquela mulher infernal em cima dele. uma depois da outra. sem dúvida ficará mais claro quem é a mulher que chora. como uma erupção de gás. cores malucas. Mas o diabrete da curiosidade parece estar a desertá-lo. o tempo pára. Na Alemanha. onde o tempo é retomado e a ação prossegue — . A pessoa se move no primeiro durante certo período de tempo. palavras sublinhadas. Adeus: Deus esteja com você. as que pulam por cima da lua. correndo para lá e para cá. um momento copernicano. saltando impacientemente de uma cena para outra. acomoda-se numa poltrona. emerge em um segundo mundo idêntico ao primeiro. Ela disse seus adeuses. ele lê. Ljuba? Só pode ser Ljuba. ouvindo. No correr de longos trechos. algo ímpio. Lá fora.. latindo. de quem é o corpo. Maldita seja! O tempo todo que achou ser senhor de si mesmo estava em uma gaiola como um rato. tomando nota. Mas então uma frase capta o seu olhar: Uma perna azul. vacas malhadas são as vacas loucas. Por que não? O horror da carne fria? Será o horror afinal mais forte que o amor? Ou quem sabe. então o anjo da morte chega na pessoa de Wayne Blight ou de alguém como ele. não o toca nem uma única vez (a “ele”. provocador. incomparavelmente pior. tão pior que a mente ameaça dobrar-se? É isso que significa ser traduzido para o que no presente ele só pode chamar o outro lado? Foi isso o que aconteceu com ele?. Arlequim. em cima da página: Escuro escuro escuro. Oscilando rígida para a frente e para trás na beira da cama. Se ninguém vier falar com ela. isso o que acontece com todo mundo? Cautelosamente. uma afronta à decência? Folheia cautelosamente desde o começo. observando. como se tivesse medo de perder o momento em que. Mutt e Jeff. choramingando consigo mesmo. mas não a esse ponto. registrando seu progresso. as mãos nas orelhas. as lunáticas. cada vírgula. vai continuar assim o dia inteiro. sem piscar. como sempre. Ela escreve como se estivesse passando depressa por alguma história que ouviu escondida. Uma maratona de tristeza. cada ponto. desvendando o que não pertence à luz do dia. um vira-latinha que abane o rabo para todo mundo. o corpo dele). sol. pronto. Tragam um cachorro. os adeuses estão encerrados. a alma deixa o corpo e sobe pelas camadas de ar.** Ele fecha o caderno batendo as partes. cortando o diálogo. louco para agradar? Reação de PR: “Posso ser canino. É o que ele temia: ela sabe tudo. Será o caderno inteiro assim: uma provocação. até a estratosfera e além. Há algo improvável nessa escrita.. Se ele ler mais para trás o bastante. insuspeitado. canto de pássaros. a pessoa cai por um buraco escuro. a tinta grossa espalhada descuidadamente sobre as pautas. Há um segundo mundo que existe lado a lado com o primeiro.Chorando em cima do corpo. Ou será pior que isso. Então. um éon. E o cachorrinho ri. Se isto não constitui um grande momento. ela tenha se endurecido para não tentar retê-lo.

Ele podia estar errado. Ele está exausto. Ele ainda está sentado na poltrona quando é sacudido de leve. Estava no apartamento enquanto ele dormia? “Gostaria que eu falasse com seu marido?”. mas Marijana Jokić. Se a morte se revela nada mais que um truque que poderia ser muito bem um truque com palavras. diz ela. Costello tem uma palavrinha para nos aconselhar. meu marido diz. Atrás dela. Outro universo de discurso. Diz que não aceita dinheiro de outro homem. “E a educação de Drago?” “Drago pode ir para escola igual antes. Tem de organizar as idéias. mas eu sou . “sou amiga da sua mãe. só que agora a pessoa tem Elizabeth Costello pendurada no pescoço. Claro que estou o. a mulher de lenço de cabeça vermelho que é. Costello. as costas duras. Tem de começar a tomar consciência de uma certa qualidade dela. Ele não está o. que nada tem a ver com a aparência dela. Rayment. e detesta ser surpreendido. Costello desliza discretamente para a sala. o primeiro epíteto que lhe ocorre. mais que canina. não precisa escola interna. Ljuba”.” Dinheiro. Mas se está certo ou errado. aquela que se encerrou na rua Magill. o bando de observadores curiosos. o dr. o hospital. sim. datilografado letra a letra por dentro de suas pálpebras pela máquina de escrever celestial. farejando. a ambulância. vamos pensar um pouco no que se pode fazer agora. “Que horas são?” Marijana ignora a pergunta. “E o Drago?”. está o.k. Sente um gosto ruim na boca. se a morte é um mero soluço no tempo depois do qual a vida continua como antes.?” “Marijana! Estou. diz Elizabeth Costello. nós não aceitamos dinheiro. Pode muito facilmente imaginá-la espreitando de cômodo em cômodo. devolva. Coloca um envelope na mesinha ao lado dele. pode me chamar de Elizabeth ou de tia Elizabeth. a raiz. Hansen. Desculpe ter ouvido seus problemas. Mais que provável que esteja errado. basta fechar os olhos e vai afundar no sono. ou alguém como ela. se aquilo que com a maior das hesitações chama de o outro lado é verdade ou ilusão. distraída. “Seu cheque”. “Ele diz. origem ou fonte de todas essas complicações. Não pode imaginar nada pior. esse destino insignificante? Quero a minha velha vida de volta. Diante dele está não a vulpina mrs. nada mais burro. Um salto e tanto. chupando o polegar. ele não se lembra como. et cetera —. Marijana sacode a cabeça vigorosamente. ele pergunta. é insignificante.” “Olá. a cabeça rodando.” A menina Ljuba brinca com a saia da mãe. da palavra D-O-G escrita em um caderno para a vida depois da morte.voando no ar como um gato. “Bom. Mas não quer estar ali deitado inerte e exposto quando Costello voltar. mas que o deixa nervoso e em que ele não confia nada. Meu marido. sua cabeça está muito confusa). diz ele.k. “Mr. no escuro. caçando. de alguma forma (de momento.k. Marijana. Drago. vulpina. Um louco resumo. por que tanto agito? Será permitido recusar isso — recusar a imortalidade. Quem sabe mrs.” Mas não é verdade.

Costello sacode a cabeça. Esconde os olhos. Por que está aqui senão para interferir? Com um suspiro que é quase um grito. diz ela. Se não quiser fazer isso. Fala para a menina alguma coisa que ele não entende. Fale com seu marido de novo. Aqueles olhos escuros enxergam dentro de seu coração. há algumas dificuldades práticas que eu prefiro não mencionar. “se é de uma questão de honra que se trata. Não desejo nenhum mal. beijaria as lágrimas até secarem. O que você fez com minha mãe?. ele pensa. diz ela. venenoso. desesperançada. “Acho que eu não posso interferir”. ele continua. Fui infiel a você. um mundo em que ele era jovem. a interferir. diz ele com sua voz mais sóbria. Vá embora e nos deixe em paz!” . Marijana se joga no sofá. ela repete. cheiros. ele diria. A filha assume o posto ao lado dela. Marijana assoa o nariz ruidosamente. Costello possa se dispor a preencher o cheque e servir de intermediária nessa boa causa. como disse. se se recusar. estou nas garras de uma força que é maior que eu! “Temos muito tempo”. se seu marido acha impossível aceitar um empréstimo de outro homem. a criança trota para fora da sala e volta com um punhado de lenços de papel. vou pedir a meu advogado que escreva uma carta dando a garantia para a escola.” Marijana encolhe os ombros.nova em cena. você e Drago juntos. “Além disso. as lágrimas estão vindo agora. Tenho certeza de que vai conseguir convencer seu marido. culpa dele. naquele mesmo sofá onde está sentada? Será que sente? “Ou então”.” “Como o quê?”.” Você interfere o tempo todo. vêem o desejo secreto. ele diz. não sei por quê! Aconteceu só uma vez e não vai acontecer de novo! Me admita em seu coração e eu tomo conta de você. Mrs. Sente uma onda de perverso triunfo. ele pegaria Marijana nos braços. Eu garanto as mensalidades. “Tão bom rapaz. Tudo culpa sua! É. diz ele. quando ele se acalmar. Nada mais simples. olhando direto nos olhos da menina. ela parece perguntar. “Falta ainda uma semana para o encerramento da inscrição para o ano que vem. ele pergunta. então simplesmente vá embora.” É a primeira vez que ele coloca Costello em cena. Lágrimas. ranho: o lado menos romântico da tristeza. até o dia em que eu morrer! Os olhos escuros da menina estão pregados nele. mudo. desculpe. Me perdoe também!. inteiro e seu hálito era doce. o lado inferior. juro. talvez mrs. “Eu faço o cheque para você e você faz um cheque para a escola. Será que ela sabe o que aconteceu ali. não lamentar. “Tão bom rapaz”. “Que eu prefiro não mencionar”. Desculpe. vêem que bem lá no fundo esse primeiro lampejo de uma rixa entre marido e mulher o faz exultar. muco. “Quer tanto ir!” Em outro mundo.” Os soluços a dominam. assim não parece tão pessoal. Como o lado inferior do sexo: manchas. acho que não devo interferir. “Não vejo nenhum dificuldade prática”. de fato.

Me salve. romances. Elizabeth é escritora profissional. Marijana lhe dá um tênue sorriso. não é uma amiga. Parece que está colocando as esperanças em mim. Atualmente. os dentes descoloridos. Mas eu não me encaixo. o nariz inchado. Não conhecia até pouco tempo atrás. e se vai. ela olha para ele. * Em latim. longe dos ouvidos de Costello. “Temos de ir embora”.” “Mama!”. Tentando me fazer encaixar. Mas ela não fica nada abalada. Não uma grande amiga. Marijana”.) ** Mutt (vira-lata) e Jeff. Mas parece injusto fazer um apelo a Marijana em seu atual estado. É isso que ele gostaria de dizer. Em você também. “Estou do seu lado”. prometo. diz. Quem é essa mulher. choraminga a menina. está caçando personagens para colocar em um livro que está planejando. criada em 1907 pelo norte-americano Bud Fisher.Ele espera que essa grosseria vá abalá-la. canis infelix: “cão infeliz”. baixinho. “Por favor. “Vou ajudar você. assoa o nariz de novo. Vou ajudar Drago. o que vai ser de vocês?” Marijana levanta o rosto. a quem eu anseio me entregar? Um mistério. (N. de certa forma. nem amiga próxima. tudo um mistério. “Se eu deixar vocês em paz” — os olhos dela meneiam na direção de Marijana —. protagonistas daquela que é considerada a primeira história em quadrinhos a aparecer diariamente em jornais. diz. “Temos de ir embora”. pseudocaeca: “pseudocega”. “Deixar vocês em paz?”. “Elizabeth — ela grande amiga?” “Grande? Não.” Está tentando dominar a minha vida. Marijana retira a mão. Escreve livros. enfia o lenço de papel na manga. T. os olhos dela ainda estão vermelhos. “se eu deixar vocês dois em paz. diz. tão baixinho que ele mal escuta. ele pensa. “Me ajude a levantar. ele diz. T. diz. Embora as lágrimas tenham secado. (N. Na verdade.” No patamar. Ele pega a mão dela. a pele áspera sem maquiagem. decidida. Por isso ela está me infernizando. acho que não. A luz brilhante da clarabóia a revela cruelmente.) .

Lendas douradas. talvez. enquanto o herói passa pela torrente com água até a cintura. aperta as pernas em torno do pescoço de Simbad até ele sentir que está sufocando. em seu baú de livros em Lourdes. De volta para o lugar de onde veio. as pernas finas em volta do pescoço do herói.” “Ah! E onde acha que eu devia ficar?” “Eu não sei. Paul.17. ‘Agora você é meu escravo’. diz ela. ‘Me carregue até o outro lado e Alá há de te abençoar.” E depois: “Você lembra. Está em um livro chamado Légendes dorées. diz o velho.” Há um silêncio. Fico contente de ver que está voltando à atividade social. O que aconteceu com o livro? O que aconteceu com o baú de livros e outros remanescentes de uma infância francesa que atravessou o oceano . “À margem de um riacho cheio”. “Estou esperando visitas”.” “Claro. Talvez queira fazer outro arranjo. Simbad levanta o velho nos ombros e atravessa o riacho.’” Ele se lembra da história. diz o velho. “Bom”. quero dizer fazer arranjo para dormir em outro lugar.’ Como tem bom coração. Deixe eu pensar. “Simbad encontra um velho. ‘tem de fazer tudo o que eu mandar. Não é da minha conta dizer para onde vai quando sair daqui. Na verdade. Está passando alguma coisa que valha a pena. O que vou fazer? Talvez eu vá ao cinema. da história de Simbad e o velho?”. você sabe?” “Eu não estou sendo claro.. Quando eu digo fazer outro arranjo. diz ela.. ele anuncia a Costello. Ele se lembra vivamente da ilustração: um velho magrinho só de tanga. “Pelo menos você é franco. Ele não responde. ‘Estou velho e fraco’. “Acho que não vai ser uma noite do seu tipo. Mas quando chegam do outro lado o velho se recusa a descer.

com eles até o novo país? Se voltasse para a casa do holandês em Ballarat, encontraria os
livros no porão, Simbad e a raposa e o corvo e Joana d’Arc e o resto de suas histórias
companheiras, fechados em caixas de papelão, esperando pacientemente seu dono voltar e
resgatá-los; ou será que o holandês os jogou fora há muito tempo, depois de ter ficado
viúvo?
“É, eu me lembro”, diz ele. “Devo entender que eu sou o Simbad da história e você o
velho? Nesse caso, vai enfrentar uma certa dificuldade. Você não tem meios de — como
dizer isso delicadamente? — subir nos meus ombros. E eu não vou ajudar.”
Costello dá um sorriso cheio de segredos. “Talvez eu já esteja aí”, diz ela, “e você não
saiba.”
“Não, não está, mrs. Costello. Não estou sob seu controle, em nenhum sentido da
palavra, e vou provar isso. Peço, por gentileza, que me devolva minha chave — a chave que
pegou sem minha permissão —, que deixe meu apartamento e não volte.”
“É uma coisa dura de dizer para uma velha, mr. Rayment. Tem certeza de que é isso que
quer?”
“Isto não é uma comédia, mrs. Costello. Estou pedindo que vá embora.”
Ela suspira. “Muito bem, então. Mas o que eu sei é que não faço idéia do que vai
acontecer comigo, com a chuva caindo desse jeito e o escuro chegando e tudo.”
Não está chovendo, não está escurecendo. É uma tarde agradável, quente e parada, o tipo
de tarde que devia dar alegria de viver.
“Aqui está”, diz ela, “a sua chave.” Com cuidado exagerado coloca a chave em cima da
mesinha de centro. “Vou precisar de uma pequena tolerância, para pegar minhas coisas e
dar um jeito no rosto. Depois vou-me embora, e você vai ficar sozinho de novo. Tenho
certeza de que está querendo muito isso.”
Impacientemente ele vira as costas. Minutos depois, ela volta.
“Adeus.” Transfere a sacola plástica de compras da mão direita para a esquerda, estendelhe a mão direita. “Vou deixar uma maleta pequena. Mando buscar dentro de um ou dois
dias, quando tiver encontrado outro lugar para ficar.”
“Gostaria que levasse a mala com você.”
“Não é possível.”
“É possível e prefiro que faça assim.”
Nenhuma palavra mais trocada entre eles. Da porta, ele fica olhando ela descer a escada
oscilando, degrau a degrau, levando a mala. Se fosse um cavalheiro, se ofereceria para
ajudar, com perna ou sem perna. Mas nesse caso não é cavalheiro. Só quer que ela saia de
sua vida.

18.

É verdade: ele está mesmo querendo ficar sozinho. De fato, anseia por solidão. Mas,
assim que Elizabeth Costello sai, Drago Jokić, com uma volumosa mochila no ombro,
aparece na porta.
“Oi”, Drago saúda. “Como vai a bicicleta?”
“Não fiz nada com a bicicleta, não. Tive de cuidar de outras coisas. Em que posso ajudar
você? Quer entrar?”
Drago entra, larga a mochila no chão. O ar de segurança não é mais tão intenso; na
verdade, ele parece constrangido.
“Veio falar do Wellington College?”, ele pergunta. “Quer falar disso?”
O rapaz faz que sim.
“Bom, mande. Qual é o problema?”
“Minha mãe disse que o senhor vai pagar as mensalidades.”
“Isso mesmo. Garanto as mensalidades durante dois anos. Pode considerar como um
empréstimo, se preferir, um empréstimo a longo prazo. Para mim não importa como você
vai chamar isso.”
“Minha mãe contou quanto dá. Eu não sabia que era tanto dinheiro.”
“Não tenho nada para fazer com esse dinheiro, Drago. Se a gente não gastar na sua
educação, vai ficar simplesmente parado no banco, sem fazer nada.”
“É”, diz o rapaz, insistente, “mas por que eu?”
Por que eu? — a pergunta que está na boca de todo mundo, ao que parece. Podia
impingir a Drago alguma fórmula polida, mas não, o rapaz veio perguntar pessoalmente,
então vai lhe dar uma resposta, a resposta verdadeira ou parte da resposta verdadeira.
“Nesse tempo em que sua mãe está trabalhando aqui, acabei ficando com um fraco por
ela, Drago. Ela fez uma grande mudança na minha vida. Para ela não é nada fácil, nós dois

sabemos disso. Eu quero ajudar no que eu puder.”
Agora, o ar evasivo desapareceu. O rapaz está olhando para ele direto nos olhos,
desafiando: É só isso que vai dizer? Vai só até esse ponto? E a resposta: É, só vou até esse
ponto, neste momento.
“Meu pai não vai deixar”, diz Drago.
“Eu soube. Para seu pai, provavelmente é uma questão de orgulho. Eu entendo. Mas
você devia conversar com ele, não é vergonha nenhuma aceitar um empréstimo de um
amigo. Porque é assim que eu gostaria que pensassem em mim: como um amigo.”
Drago está sacudindo a cabeça. “Não é isso. Eles tiveram uma briga por causa disso, meu
pai e minha mãe.” O lábio dele começa a tremer. Dezesseis anos: ainda uma criança.
“Tiveram uma briga ontem de noite”, continua, baixinho. “Mamãe foi embora. Foi ficar na
casa da tia Lidie.”
“E onde é isso? Onde mora a tia Lidie?”
“No fim da rua, em Elizabeth. Em North Elizabeth.”
“Drago”, diz ele, “vamos falar francamente. Você não teria vindo até aqui hoje, eu sei, se
não tivesse idéias perturbadoras sobre sua mãe e eu. Então deixe eu tranqüilizar você. Não
tem nada de vergonhoso acontecendo entre sua mãe e eu. Não tem nada de vergonhoso no
que eu sinto por ela. Respeito sua mãe tanto quanto respeito qualquer mulher na Terra.”
Nada vergonhoso. Que estranha fórmula! Será que não é apenas uma folha de parreira
para esconder uma coisa muito mais grosseira, uma coisa indizível: Não estou trepando com
sua mãe? Se é de trepar que se trata, se é trepar que lança Miroslav Jokić em um ataque de
ciúme e leva seu filho próximo das lágrimas, por que ele está fazendo um discurso sobre
honra? Não estou trepando com sua mãe, nem pedi isso: vá e diga isso para seu pai. Porém,
se não está planejando propor nada a Marijana, se não pretende trepar com ela, o que, em
nome de Deus, está planejando ou pretende fazer, em palavras que façam sentido para um
rapaz nascido nos anos 1980?
“Sinto muito ser uma fonte de problemas entre seus pais. É a última coisa que eu quero.
Seu pai está fazendo uma idéia errada de mim. Se me conhecesse pessoalmente não faria
isso.”
“Ele bateu nela”, diz Drago, e agora o controle está começando a ceder — o controle da
voz, o controle sobre as lágrimas, talvez o controle sobre os movimentos de seu coração.
“Odeio ele. Bateu na minha irmã também.”
“Bateu em Blanka?”
“Não, na minha irmãzinha. Blanka fica do lado dele. Diz que mamãe tem casos. Disse
que mamãe está tendo um caso com o senhor.”
Mamãe tem casos. Costello disse que ela era uma esposa fiel. Que ele não devia perder
tempo tentando a sorte com Marijana Jokić, disse ela, porque Marijana Jokić era uma
esposa fiel. Quem tem razão, a filha desprezível ou a velha maluca? E que quadro
horrendo! Miroslav, sem dúvida um homem grande como um urso, enfurecido e bêbado,

quase dá um grito de exasperação. “Ela nem sonharia com isso. imediatamente? Vai ficar na sua casa ou com sua mãe?” Drago sacode a cabeça. Contei que não vou voltar. “Uma amiga está comigo aqui embaixo”. Tem uma cama extra no meu escritório. como cães rivais. Posso telefonar mais tarde? Posso deixar minha mochila aqui?” “Esteja à vontade.” Mas. Tudo bem. Tenho certeza de que ele está arrependido do que fez. Falei que ia ficar na casa deles. “Encontrei com Drago na praça Victoria”. trouxe muita coisa. Ele nunca se arrepende.” “Tome um banho.” “Não estou perguntando de você. se quiser. Mas só no dia seguinte é que Drago volta. Depois vá para casa. “Não vou voltar. “Não é provável que o pai de Drago se . Ao lado de um sujo Drago de ar cansado está Elizabeth Costello.” Tudo bem. Ele parece mergulhado em desânimo. não se fala mais nisso. subam. não vou tentar convencer você. Claramente não está nada bem com o rapaz. “Era lá que ele ia passar a noite.” “Não sei. ele diz a Drago. fervendo! Paixões balcânicas! Como pôde ter se envolvido com balcânicos.”* “Achei que você disse que ia ficar com um amigo”.” Ele fica acordado até meia-noite.” Pelo aspecto da mochila. diz ela. Vou dormir com meus amigos. esperando Drago. “Se não acredita. O que você vai fazer agora. enquanto o filho assiste. diz Elizabeth Costello. Como ela está?” “Ela está o. “Ela pode subir?” Uma amiga. Será que nunca vai se livrar dessa mulher? Ele e ela trocam um olhar arisco. Limpe-se. que uma bebedeira não pode ter ajudado. ele anuncia pelo interfone.k.” “Posso dizer uma coisa?”. Faça as pazes com seu pai. eu não sonharia com isso. Vá. Durma um pouco. “Não deu certo. “Pode dormir aqui.batendo em Marijana com os punhos.” Dá um chute na mochila. um mecânico balcânico e seu pato mecânico! “Sua mãe e eu não estamos tendo um caso”.” Que mentira! Sonho com isso diariamente. “Trouxe as minhas coisas. “Falou com sua mãe?” O rapaz faz que sim. Drago. uma namorada: então foi aí que passou a noite! “Pode.” “Não está. insiste. “E?” “Telefonei para ela. ele repete. estou perguntando dela. batendo também em sua filha de traços de porcelana. Que estavam apresentando a ele os frutos da Barossa. Na companhia de uns sujeitos. quando abre a porta.

E eu própria não estou nada exultante. Mas até que escolha agir tenho de atender você. é o que move o mundo — fofoca. Você. e satisfatória do que o que tenho de agüentar aqui. E. Qual viria a ser essa linha de ação eu não posso aconselhar. é dono do seu nariz. Irmã de Miroslav. fama. Não faz nenhum sentido. “Você não gosta de mim.” Ele sacode a cabeça.” “É essa Lidie? Lidie é irmã de Jokić?” “Lidija Karadzić. posso lhe garantir. ou no que diz respeito à dama de negro que visitou você outro dia. posso lhe garantir. não é preciso entender antes de agir. como pode um observador de fora ter certeza da verdade do que está acontecendo? Do que podemos ter muito mais certeza é que murmúrios foram soltos no ar. ou. deixa isso bem claro. com ele vivemos. Mas o que um ato sexual conta hoje em dia? E que peso nós atribuímos a um encontro rápido num canto escuro diante de meses de ardente desejo? Quando se trata de amor. é assim que eu vejo a coisa. é só porque não tem nenhum outro lugar para onde ir. Quanto a Marijana. Permita lembrar que existe uma coisa que se chama agir por impulso e eu sem dúvida aconselharia isso se tivesse permissão. Pelo menos. seja como for. Rayment. ou mesmo no que diz respeito a mrs. “Não entendo o que quer dizer. “Para Lidie. O que interessa é que estão correndo histórias no círculo bastante estreito da comunidade croata. Se eu soubesse o que vai acontecer em seguida. mr. não haveria necessidade de estar aqui. há fogo’. é isso que . como diz o ditado. Se foi se refugiar com a cunhada. o ar é o que nós respiramos. eu poderia voltar para a minha vida. mais cedo você e eu.” “E como é que você sabe dessas coisas? Como sabe o que Lidie diz?” Costello ignora a pergunta. Você nos diz que de verdade não está tendo um caso com a mãe de Drago porque você e ela de verdade não praticaram (desculpe. Lidija e Marijana não se dão bem. quanto mais forte a negativa dos rumores. não a verdade. quer se livrar de mim. Na opinião de Lidie. Paul.arrependa enquanto estiver convencido de que tem razão. não entorte a boca com desprezo. não importa se na verdade Marijana está tendo um caso extraconjugal. independentemente do que possa dizer ao filho pelo telefone. de me ver de volta a este horrendo apartamento. Jokić. ela deve vir de você. para nosso mútuo alívio. diz Lidie. A cunhada não dá nenhum apoio a ela. como chamaram os romanos. mais eles estão no ar. ‘Onde há fumaça. tia de Drago. a menos que a pessoa seja excessivamente filosófica. que é bastante mais confortável. Preste atenção. Você diz que está apaixonado pela mrs. McCord. Drago) um ato sexual. o que Marijana está recebendo não é nada mais do que ela merece. que nunca mencionou em minha presença. nunca se deram. já que ela parece ser a luz da sua vida — quanto mais cedo decidir por uma linha de ação e se comprometer com essa linha. quem sabe por quem.” “Claro que entende. pelo menos quando Drago não está por perto. opinião pública. mas principalmente no que diz respeito à mãe de Drago. Provérbio croata. E o ar é comum a todos. Fofoca. poderemos nos separar. com toda a certeza não está bem. Quanto mais cedo decidir por uma linha de ação no que diz respeito à mãe de Drago.

Mas parece que o rapaz. Você tem paixões. de repente. “Parte da educação de um rapaz em crescimento. pois seu desejo anseia por se saciar. E. Mas será que ele pode confiar nessa sensação? Será. faz agora? Obedece cegamente às imposições do desejo. Eu tenho dezesseis anos. Põe música em nossa voz e balanço em nosso andar. uma manhã. É de mr. mais ou menos. brotado do amor. talvez. Mr. faça alguma coisa com o seu amor. deixe eu colocar a pergunta de outro jeito”. Rayment tem um acidente e a conseqüência é que perde uma perna. Não sei o que ele faz. como se pilota pelas estrelas — a Ursa Maior e a Menor. Drago?” Drago fica em silêncio. é verdade.. como vou saber como é ter sessenta? Quando a pessoa tem sessenta é outra coisa — ela pode lembrar. Deve haver alguma coisa entre a mulher e o rapaz. Sagitário e assim por diante. Rayment. Mas o quê? “Deixe eu perguntar uma coisa. diante da situação que eu descrevi. Tem a sensação de que um miraculoso reflorescimento da juventude. Faz correr os fluidos. Ele já deve ter alguma paixão dele agora. Rayment. Faz o coração bater mais depressa. diz mrs. bem casada. Rayment se não posso entrar dentro dele?” Ficam em silêncio. pesando os prós e os contras. um meio-irmãozinho para você). O que você faria?” Drago sacode a cabeça devagar.diz. Imagine: você tem sessenta anos e. “Então. só está disposto a se arriscar no hipotético até esse ponto. O Cruzeiro do Sul. ou alguém como mr. Mas. já tem idade para ter paixões. Drago?” Drago dá um sorriso torto. ele até sonha em fazer um filho (é.. a propósito. conclui que jogar-se de corpo e alma em um caso amoroso com uma mulher casada seria imprudente e então se recolhe à sua concha?” “Eu não sei. fantasia de um velho caduco? Então a questão em que temos de pensar. e vamos examinar o caso de mr. acorda perdidamente apaixonado por uma mulher que não só é vinte e cinco anos mais nova como é também casada. Bom. Rayment?” “O que eu faria?” “É. Melhor que mandar o rapaz para esse colégio pretensioso em Canberra. não tem. Costello. só para poder continuar a discussão. Rayment que a gente está falando. esperando mais. se fosse mr. “Não é uma boa pergunta. pode estar ali na esquina. Permitir que ele tenha um relance das praias mais loucas do amor. que apesar da ressaca tem ainda a aparência de um anjo do Senhor. Deixe que ele veja como uma pessoa navega as paixões. Rayment. não é? Como é que eu posso ser mr. é a seguinte: o que mr. ou. O que a senhora acha?” . Vamos concordar que é assim. mas o sorriso não desaparece de seus lábios. Rayment. Contrata uma enfermeira para tomar conta dele e bem depressa se apaixona por ela. “Algumas pessoas dizem que o amor faz a gente ficar jovem de novo. Drago: o que você faria se estivesse no lugar de mr. um pouco mais de franqueza na frente de Drago não vai fazer nenhum mal — não é.

Chato. Drago? Vamos lá. é nisso que ele vai se transformar. Não sou. não ainda. a memória da própria pusilanimidade. Por alguma razão. mas em vez disso está atrelado a mim. desperta sentimentos. Antes que Drago possa responder. estranho. Você principalmente. porque nós dois realmente não temos nada a ver um com o outro. o homem de uma perna só que não consegue se decidir.k. Marijana!. igualmente. Os dias dele vão ficar nublados com uma monotonia cinzenta. Qual você acha que é a conseqüência?” “Se ele não fizer nada?” “É.. contra a paixão. se ao menos! A memória vai roê-lo por dentro como um ácido. ele vai lamentar. eu não disse isso.. E pare de falar de mim como se eu não estivesse na sala. Mas aqui estamos. ele vai acordar assustado.” “O. Até morrer. Drago. não acha. Vamos fazer uma hipótese. alguém que eu espero nunca mais ver na minha frente. Você é uma estranha para mim.” “Só que. Paul.“Eu também não sei o que ele faz. como a senhora diz. quando a gente era.” “Não. logo o arrependimento vai começar a tomar conta de você.” “Então. ele resolve refrear a paixão. diz Elizabeth Costello. Se vocês não gostam um do outro. Ele vai continuar sendo como ele era antes. “Pare de arrastar o rapaz para os seus jogos. basta. “É.. Elizabeth.. Ah. só Deus sabe. mas estou atrelada a você. O que você faria?” “Eu acho que vocês deviam se separar. nenhum estranho tem nada a ver com isso. recebe olhares.” “E Paul e sua mãe? Deviam se separar também?” “Do mr. uma sombra de si mesmo. desejos brotam no coração de estranhos. uma família. Quem sabe ela gostaria que fosse tudo como era antes. Pense na situação do ponto de vista .” “Então vai ficar tudo como antes. Rayment. se ele ficar sentado aqui no apartamento dele e não fizer nada. Dizer adeus. Rayment não age.” “Só que o quê?” “Só que logo. e num piscar de olhos se acendem paixões imprevistas com que a pessoa tem de se haver.” “Mas sua mãe é uma mulher bonita. Uma bela confusão. Mas por que ninguém pergunta para minha mãe o que ela quer? Quem sabe ela gostaria de nunca ter vindo trabalhar para mr. Como foi que eu e você nos vimos ligados. À noite.” “Estranho?”. Rayment não sei. levantando uma sobrancelha. Primeiro. vamos pensar que mr. ele vai se arrepender. a paixão extraconjugal. rilhando os dentes e resmungando para si mesmo Se ao menos. Não sei. ele intervém. Você quer ficar com Marijana. Se ao menos eu não tivesse deixado Marijana ir embora! Um homem triste. o que ele deve fazer para não morrer cheio de arrependimento?” Para ele. nos aconselhe. O jeito como eu levo a minha vida é assunto meu... Eu preferia um personagem mais interessante.” “Então você é contra a paixão. Mas. ajude a gente.” “Igualmente.. Mas vamos examinar a questão metodicamente. Quando ela sai.

O mais longe possível. diz. Para isso é preciso ter gelo nas veias. Drago. “por favor. não nos ajuda em nada. abra os ouvidos para o que estou dizendo. “Obrigado”. Não é seu lugar. Costello”. Estamos todos infelizes. Vou te dar uma chave. Seu pai está infeliz porque acha que as pessoas estão rindo dele. É isso que eu estou dizendo: por que ninguém pergunta para ela?” “Eu perguntaria a ela agora mesmo se pudesse”. Mas ceder e ter um caso com um homem de sessenta anos que ela está contratada para ver seis dias por semana. como você gostaria que sua mãe se comportasse? Devia se trancar em casa? Usar um véu?” Drago dá uma estranha risada latida. parece. Sinto por Marijana. por assim dizer. mas principalmente porque não faz a menor idéia de como realizar os desejos de seu coração. Dá para entender isso? Será que não consigo convencer você a nos deixar em paz para resolver nossa salvação à nossa maneira?” Há um longo e incômodo silêncio. por mais bem-intencionado que seja. O que está acontecendo entre a família de Drago e eu não é da sua conta. porque a confusão na sua casa obrigou você a armar sua barraca na praça Victoria no meio dos bebuns. está bem longe das preocupações dela. “Não”. como vagabundos de Beckett. “Você não pode voltar para o parque. diz Elizabeth Costello. em quatro cantos.de sua mãe. É fácil resistir a esses estranhos cheios de paixão quando eles se declaram. Paul?” “Bem longe mesmo. eu diria. Não está em cena. Nenhum de nós sente por você. Só podemos adivinhar. mas talvez ela não tenha vontade de ter um caso” — ele ronca ao pronunciar a frase. todos. Mas não sinto nada por você. como se pertencesse a alguma curiosa língua estrangeira. sendo perdida pelo tempo. e pelas irmãs dele também. Sua mãe está infeliz porque tem de se hospedar entre parentes que não aprovam o comportamento dela. “Tenho de ir embora”. A senhora não tem nada o que fazer aqui. Pode entrar e sair quando quiser. E eu estou infeliz porque nada está acontecendo. mas é menos fácil ignorar isso. Sendo perdida pelo tempo: é uma espécie de argumento que a mulher está fazendo. Quatro pessoas. mas muda de idéia. de outro jeito.” “Então é isso. deliciada. Posso sentir muito até pelo pai de Drago. simplesmente nos confunde. O que você diria. diz ele. Você está infeliz. enxugando o rosto. “Não. Então por que ele fica tão notavelmente impassível? “Mrs.” Drago parece a ponto de dizer alguma coisa. tem uma cama no meu escritório. “E eu?”. “Mas ela não está disponível. seus pais vão ficar horrorizados se souberem.” Ficam em silêncio. Sinto por Drago. Dentro do razoável. “Devo ser jogada na rua para sofrer o calor do sol e . Você é a única estranha entre nós. É perigoso. Eu não permito. Diante de homens estranhos e seus desejos. diz ele. diz Drago. Seu envolvimento. se é isso que está pensando. faça chuva ou faça sol. Tem comida na geladeira. O Paul aqui está infeliz porque a infelicidade é sua segunda natureza. perdendo tempo. pergunta Elizabeth Costello. talvez bárbara — “com todo homem que — sabe como é — que bate os olhos nela. e eu no meio. nem sua esfera. é uma coisa que.

(N. Pode se cuidar sozinha. enquanto o jovem Drago é alojado como um príncipe?” “Você é uma mulher adulta.a fúria do inverno.” * Região produtora de vinhos da Austrália. T.) .

“Mr. Podemos dar uma volta? Posso convidar para uma cerveja? Há um pub virando a esquina. aquela pele de urso? Ele não tem nenhuma experiência de confronto com maridos ofendidos à qual recorrer. o homem ali dentro desce o vidro da janela e deixa sair uma nuvem de fumaça de cigarro envelhecida. Saltando o mais depressa que consegue. O pub está quase vazio. Ele escorrega para uma baia e Jokić o acompanha. “Posso ir direto ao assunto? Você quer saber por que estou me oferecendo para ajudar na . Há um carro parado do outro lado da rua em frente a seu apartamento. Jokić não é a criatura corpulenta. blusão de couro preto. Deveria sentir pena do homem? Não sente nenhuma. Ele dá uma olhada nas mãos de Jokić. cobrindo-a. Será que Marijana gosta de todo aquele pêlo. Um corpo como um chicote. camiseta preta. uma velha perua vermelha Commodore. que ele imaginava. Está lá desde o meio-dia. Pêlos na gola da camiseta também. mas só pode ser Miroslav Jokić. agressiva. Está com botas de trabalho. O vulto atrás da direção é indistinto. unhas cortadas rentes. ele indica o caminho. Tem quadris tão estreitos que parece quase não ter nádegas. O que é menos certo é o que Miroslav pretende. ele leva quase dez minutos para navegar pela escada e pelo saguão. ele pensa. ele pergunta. é alto e esguio.” Jokić sai do carro. lhe vem uma visão daquele corpo em cima de Marijana. se pressionando para dentro dela. nariz aquilino. com um rosto estreito e escuro.19. calça jeans. e quase a mesma coisa para atravessar a rua. Involuntária. Ao se aproximar do carro. Dedos longos com tufos de pêlos pretos. Jokić?”. Está espionando a esposa? Está tentando intimidar o casal culpado? Com as muletas. “Eu sou Paul Rayment. de boca fechada. Ao contrário.

É quando a gente se conhece. Silêncio. é ridículo que seja odiado em retribuição. Ela é estudante na Academia de Belas-Artes de Dubrovnik quando eu conheci. Essa é minha história. vai entender. eles ajudam. Afinal. Primeiro. Jokić. Depois eu vou para Coober Pedy com colegas. como se colocasse as cartas na mesa. economiza dinheiro. Devia ter falado com você além de sua mulher. Nada sobre Melbourne ou Coober Pedy.” Ele hesita. diz Jokić. Conhece Coober Pedy?” “Conheço Coober Pedy. trabalha duro. Bom emprego. tenta a sorte com opalas.educação de seu filho. vive pobre — entende o que digo? — e se inscreve para vir para Austrália. Apesar das panturrilhas dela. “Dezoito anos. Opalas. Muito duro para mulher. casa boa. mr. entende o que digo? Mas meus colegas. naquele momento ama Marijana de coração puro e benevolente. “Eu não me envolvo com mulheres.” “Lugar muito quente. mas minha situação é confortável e não tenho filhos. que ele não esqueceu. o que vocês dois faziam em Dubrovnik. mas não se sente assim. eu trabalho na oficina de solda. Eu — sem sorte. “Sinto muito que meu oferecimento tenha perturbado a sua família. Fiquei impressionado com Drago. Primeiro a gente mora em Melbourne. eu estava no Exército federal.” “Entendo. depois arrumei emprego na academia. “Eu e minha mulher estamos casados desde 82”. mr. voz de urso. Depois. Não sou um homem rico. nunca ouvi falar. Fim do recital. Minha irmã também. Elizabeth Costello está trabalhando num novo livro e parece estar me usando como personagem. apesar dos seios. “Porque ela parece conhecer você. Os olhos do homem são como a boca de uma arma voltada para ele. como Deus a ama. Jokić. Bata essa.” “Muito duro para mulher com filhos. Então eu consigo emprego com Holden e a gente vem para Elizabeth. Quatro juntos. e assim por diante. Quando me conhecer melhor. precisa ter sorte. Quanto à escola que escolheu. Ele devolve o olhar tão direto quanto pode. Marijana vem. Me contou uma parte dessa mesma história que você acabou de me contar — como você e Marijana se conheceram. uma mulher mais velha. me permita dizer simplesmente que minhas relações com ela foram sempre corretas. Depois nós vamos para Alemanha. como soldador.” Está mentindo? Poderia estar. Coniston Terrace! “Você por acaso conhece uma mulher chamada Elizabeth Costello. praticaria de outro jeito. não mais. Essa parte de minha vida ficou para trás. mas ele me disse que tem boa reputação e eu aceito isso. a gente se ajuda. escritora profissional?” Jokić sacode a cabeça. Ele é muito promissor. Se ainda praticasse o amor. agora me dou conta disso. Uma voz profunda. Drago ainda pequeno. Três anos a gente fica em Coober Pedy. Ofereci um empréstimo ao seu filho porque gostaria que ele se desse bem. por . mr. em que ele daria tudo para afundar o rosto. ele parece estar dizendo. por esse homem ou por qualquer um. pelo menos isso ele tem. “Quanto a sua mulher.” Ele pousa o copo vazio.

Não tem nada a ver com meu apartamento. estará terminada. não consegue sentir nenhuma curiosidade por ele. diz. coloque nela. agora é a vez de Jokić — a vez de Jokić pagar a bebida. se interessou por Marijana e você.assim dizer. a vez de Jokić dizer o que pensa. Mas não oferece. Você fala de confortável. essa cena. Posso fazer a caridade que eu quiser. Significa que tenho o suficiente para minhas necessidades e para sobrar um pouco. não sou fã de escolas chiques. para mim não faz diferença. mesmo relutante. Uma faculdade chique de verdade não precisa anunciar. Seu interesse é por Marijana: Marijana e tudo de Marijana que tiver passado para seus filhos. “Devia fazer as pazes com Marijana. ‘Situação confortável’ é uma expressão usada por gente que acha embaraçoso falar de dinheiro.” Jokić espera que ele complete o parágrafo. soaria ridículo demais. Não me entenda mal. num camarada. ele continua. “Você tem apartamento bom. ele devia oferecer outra cerveja a Jokić. Isso não se pode negar. Jokić. Ele faz que sim. Devia facilitar ao máximo para Jokić engolir o orgulho e se transformar. qualquer um percebe. “Talvez”. A questão é abstrata demais para seu estado de espírito atual. Drago colocou todas as esperanças no Wellington College. Depois disso. Já disse o bastante.” Uma pergunta? Uma afirmação? Deve ser uma pergunta. uma vez que Jokić nunca esteve no apartamento.” Nesse ponto. Não fui eu que sugeri o nome do Wellington. para o bem de Drago. O que ele hesita dizer é: Essa confusão em que você e eu estamos envolvidos é obra de Elizabeth Costello. da qual participou tão relutantemente. entende o que digo?” “Entendo. ele espera. “talvez a gente pode fazer um fundo de previdência . por favor. arruma amigos chiques. isso que eu disse. talvez até três. Embora esse homem tenha gerado em Marijana dois filhos angelicais.” “Meu filho vai para escola chique. Seu interesse por Marijana é um interesse interessado ou desinteressado? O Deus com cujo amor por Marijana ele compara o próprio amor é um Deus interessado ou desinteressado? Ele não sabe. aceite o empréstimo. Confortável o apartamento. ela andou desencavando o seu passado.” Jokić fica pensando. Evidentemente. Se quer colocar a culpa em alguém. Uma escola chique pode ensinar seu filho a desprezar a própria origem. esse encontro. mr. O que eu desconfio é que o Wellington não é tão chique quanto pretende ser. ou posso fazer uma boa ação mandando seu filho para a faculdade. Por causa do interesse dela em mim. “Confortável. Podemos fazer esse empréstimo ser tão formal ou informal quanto você quiser.” “Minha situação é confortável. “Não se ofenda com o que vou dizer”. dou meu apoio a ele. Podemos firmar documentos ou dispensar os documentos. significa que recebo uma renda confortável. Além disso. mas ele não consegue ainda. Jokić irrompe em suas idéias. Elizabeth Costello é uma intrigante. No meu caso. Ela está por trás de tudo isso. Mas se é para lá que Drago quer ir. vai querer tudo que é coisa chique.

tenha ou não tenha caído. Uma pessoa culta. Não enfermagem mesmo. embora cada vez mais receoso.” Jokić está olhando para ele cheio de intenções. nem na Austrália. está no processo de ser atraída para fora de seu lar por um . Aiello. Então a gente pensa. Eu não sabia que Marijana tinha dois empregos. Mas Marijana é pessoa culta. mais serviço doméstico. Paul Rayment. depois de espancar a mulher e expulsá-la de casa. Dois trabalhos ela tem. Podemos falar com um advogado. cauteloso. Aí não fica.. Há alguma coisa que ele não está percebendo? “Vou sentir falta dela se sair”. sabe. “Assim como o resto da minha relação com ela. “Se quiser fazer tudo legalmente. profissionalmente. nem na Croácia.” “Desculpe. Rayment. Será a ficção de um fundo de previdência o que basta para preservar o orgulho de Jokić? “E Marijana. sabe. Diploma de restauração — ela contou? Não tem trabalho de restauração na Austrália. quem sabe ela pára de ser enfermeira. Mas o que esse refugiado do socialismo estatal pode saber sobre fundos de previdência? “Podemos pensar nisso”. diz Jokić. “Eu. está disposto a tirar um dia de folga no trabalho e ficar sentado dentro de um carro em Coniston Terrace. com quem ela pode conversa? O. Drago está interessado em porção de coisa. diz ele. “É uma mulher muito capacitada. cinqüenta horas por semana. mas mesmo assim. Marijana. a mulher de quem falei. no sentido absoluto. O que você quer dizer de Marijana?” “Marijana está sempre cansada.” No caso de quê? No caso de ele. mudar de idéia e deixar Drago desamparado? No caso de ele morrer? No caso de deixar de amar a esposa de Miroslav Jokić? “É. Costello.. sessenta horas. Mecânico não é nada. Muito limitada. diz ele. Nunca mencionou um segundo emprego para mim.para Drago.” “Minhas conversas com Marijana têm sido bem limitadas”. “A gente pode abrir conta para Drago. ele responde.” “É”. No caso de. Você deposita dinheiro numa conta de previdência. dois pacientes. Em Munno Para.. muito garantido legalmente. Ela volta para casa cansada todo tempo. e dirige carro. embora seja uma solução cara para um problema simples. Aí é seguro. diz Jokić. serviço doméstico. sabe.” Um fundo de previdência? Não é uma má idéia.” “É.k. encontra outro tipo de trabalho. por causa da enfermagem. Jokić deve achar que sua mulher. Somando. Só recentemente fiquei sabendo da formação dela em arte. você e essa outra velha.” Lentamente está começando a ficar claro para ele por que Jokić. mrs. por mrs. podemos fazer isso”. para pessoa culta.” “Ou com banco”. ela conversa com ele. tão pessoal. todo dia dirige carro. Isso não é bom. uma conta de previdência. eu sou só mecânico. diz ele. conhece mr. Aí.

ele pergunta. ouvindo o tiquetaque do relógio da sala.” Jokić tem de ir embora. Marijana com sua pernas longas e torneadas. pro forma. Ele tem de ir embora. os dois? Um para uma cama vazia em Munno Para. Jokić está fazendo um apelo. . onde pode ficar acordado a noite inteira se quiser. o outro. “Quer outra cerveja?”. também o ambiente elegante de Coniston Terrace a está ensinando a desprezar o Munno da classe operária. Para onde têm de ir. para uma cama vazia em Coniston Terrace. Você ainda tem os membros que Deus lhe deu. sobre a qual não se fazem perguntas? Como funciona o amor entre os animais? Entre raposas? Entre aranhas? Existem coisas como pernas torneadas entre senhoras aranhas. e a sua força atrativa intriga o macho no mesmo momento em que o atrai? Ele imagina se Jokić tem alguma opinião a respeito. Já basta de Jokić por um dia e Jokić. pernas torneadas têm a ver com amor. enquanto eu tenho de arrastar comigo esta obscena monstruosidade! Metade do tempo eu mijo. mijo no chão! Não conseguiria seduzir sua mulher a abandonar você mesmo que tentasse. por que esperou para se instalar em seu coração até o instante em que ela mostrou as pernas para ele? Por que o amor. ou com desejo? Ou se trata apenas da natureza da natureza. Mas certamente não vai perguntar.cliente cheio de dinheiro e com fácil familiaridade com o mundo da arte e dos artistas. precisa do espetáculo da beleza para ser trazido à vida? O que. rival odiado. Podiam até montar casa juntos. mesmo o amor que ele afirma praticar. ele gostaria de protestar. no mesmo momento a memória emite de novo a imagem de Marijana se esticando para tirar o pó das estantes. em abstrato. tenho de ir embora. Mutt e Jeff. um apelo ao melhor em sua natureza. Se seu amor por Marijana é puro mesmo. E se esse apelo falhar — o quê? Será que Jokić está planejando bater nele também? Olhe para mim. ele suspeita. já está farto dele. “Não. não em qualquer sentido da palavra! Porém.

O que disse para ele?” “Pedi para ele repensar.” “E os vínculos do coração. confesso que ainda estou para entender o que você vê na sua dama balcânica. a encontra à margem do rio. coitado. está tão humilhado. Primeiro por seu próprio ciúme. diz ele. O dinheiro é para a educação de Drago. É absurdo sugerir que estou tentando comprar a mãe dele. Aos . e agora por descobrir que tipo de homem é o rival. os vínculos de afeição?” “Vínculos afetivos não entram em jogo. Repeti que não havia nenhum vínculo em meu oferecimento.” “Não seja obscena. mas ainda dá para sentir o peso do sol de verão. para localizar Elizabeth Costello. Não vai perguntar de mim? Não está curioso para saber onde eu passei a noite depois que você me expulsou tão rudemente?” Ele ignora a pergunta. Pedi que colocasse os interesses de Drago em primeiro lugar. “Sabe onde posso encontrar?” “Drago? Não faço idéia.20. os patos se espalham alarmados e deslizam clamorosamente de volta para a água. Uma mão lava a outra.” “Nenhum vínculo absolutamente. Ela pode pensar diferente. Para cada mão há outra mão.” “Absurdo? Devíamos perguntar a Marijana a respeito. Leva quase uma hora inteira. Passa das seis da tarde. “Estou procurando Drago”. “Acabo de ter um encontro com o marido de Marijana. sentada em um banco.” “Nenhum vínculo visível. Você ofereceu uma mão. Achei que ele estava na sua casa.” “Bom. Agora é dela o ônus de aparecer com a mão certa. Paul. cercada de patos que parece estar alimentando. Por fim. Ele se finca na grama diante dela. É. você quer dizer. a mão adequada. Quando ele se aproxima.” “Miroslav. cambaleando para cá e para lá pelo parque.

panturrilhas bem torneadas. Aceite. devido a sua limitação. é que.’ “Não me olhe assim. com bons peitos. a pobre Marianna. uma tarde por semana. Para um cavalheiro solteiro de sua idade. Belos seios. Nada de servir de cupido. impetuoso e fácil de agradar. alimentando a conversa. “Minha opinião. Um arranjo com Marianna. por menos valor que tenha. a Marianna dos dois enes. ela geme. quem sou eu para protestar? Nesse caso. ou com alguém como ela. filhos não são obstáculo. Dispenso aventureiras. que tem de ser Marijana ou nada. “É. como se guarda um resfriado para si mesmo. “Mas talvez eu tenha interpretado completamente errado. Paul. eu digo — o coração dele é que está em outro lugar. alguém que em troca de favores dispensados concordaria em aceitar um presentinho uma vez ou outra. et cetera. estou só brincando. velhos como nós. de preferência não fumante. está profundamente ofendida pela maneira como foi tratada. Paul. devia desistir de mrs.meus olhos ela é um tanto atarracada e bastante acabada. afinal. Devo informar.* acho. objetivamente falando? Ou alguém como eu? De nada. Sua melhor opção continua sendo Marianna. que Marianna. Jokić. Putts? Diga a ela que você está em busca de uma nova enfermeira. “Porém. se seu veredicto for que Marianna não se encaixa. só isso. não gosta de aparecer em público. Ou talvez sua busca de amor seja um disfarce para uma busca por alguma coisa bem diferente.” “Não posso amar quem eu escolher?” “Claro que pode amar quem escolher. Ele me acha muito gorda!. ‘Cavalheiro. “Ou por que incomodar mrs. procura companheira. Nós não precisamos de amor. Absolutamente nada. Homem alto e mulher corpulenta: uma dupla de comédia. que. funcionaria muito bem. a outra. Talvez não seja a recompensa do amor que você está buscando. ou um ataque de herpes. Depois de tudo o que fez por você. paternidade espiritual. Mas chacun ses goûts. Soluços no lenço. Se já resolveu que ninguém consegue substituir Marijana em seus afetos. Você tem de se acostumar a pagar. eu digo a ela. O que nós precisamos é de cuidados: . prometo. 35-45. porém. seria bem adequado receber em casa. por que não telefonar para mrs. por consideração com os vizinhos. Paul. sem filhos. regalos. Mas ela não se consola. Bobagem. o orgulho dela levou um choque e tanto. se é de recompensa que você está atrás. vigoroso embora com mobilidade reduzida. Não pensei que você gostasse das suas mulheres desse jeito. Mas talvez de agora em diante deva guardar o amor para si mesmo. independente. mas também não tão velha. Diga que quer alguém não tão nova. Um sujeito como você podia conseguir coisa melhor. Ela não é para você. eu aceito. Pode ter certeza de que aprendi a lição. de amor recompensado. Que mais? De temperamento impetuoso. eu cedo. com vistas a amor. De quanto amor uma pessoa como você precisa. Putts? Por que se submeter à trapalhada de contratar enfermeiras e se apaixonar por elas? Coloque um anúncio no Advertiser. tem muito peixe no mar. presentes. Nada de amor grátis mais. 60. uma amiga discreta como Marianna.

Ele está com os braços doendo. Espera ouvir qual será o fim.” “Em cada um de nós?” “É. Decerto não vou jogar meus sentimentos em cima de Marijana de novo. Entendo perfeitamente bem a diferença entre amor e cuidados. Não vou expor todas elas. Minha esperança. mrs. o desejo humano.” Chega de falar. prossegue ele. de verdade. topei com uma hipótese depois da outra. desvia dele os olhos. por fim ele tem a chance de falar. Cuidado é um serviço que qualquer enfermeira que valha o que ganha pode fornecer. Paul. “não ouvir você afiando seus argumentos em cima de mim. para alguns padrões. diz ele. você pode estar certo. você pode ter sido um erro. Quanto a meus sentimentos. se fosse se acomodar ao lado de mrs. “Deveria então admitir a derrota? Deveria abandonar você e começar de novo em algum outro lugar? Tenho certeza de que você ficaria contente. “Uma palavra mais. Alguém para fechar nossos olhos quando chegar a hora. Costello? Eu sou arraia-miúda. mas digo que nenhuma é muito elogiosa a você. Mas. Mas não posso. A questão é: para quais padrões? A questão é: miúda quanto? Paciência. já que você está decidida a ser cética. quando ficamos trêmulos. eu digo para mim mesma: talvez ainda haja alguma coisa a espremer dele. você é arraia-miúda. Nunca esperei que Marijana me amasse. vou concordar com isso. gostaria de sentar. “Claro que me perguntei isso. Se você não fosse um erro. até o duro fim. ou como sangue de pedra. Até em você. Não subestime o desejo em cada um de nós. “Afinal”. para nos ajudar a descer a escada. Muitas vezes.” Ela faz uma pausa para respirar. como a última gota de suco de um limão. afinal. Fico porque não sei o que fazer com você. contanto que você não peça mais. Costello. “Por que colocar todo esse esforço em mim. para nos fazer uma xícara de chá. eu provavelmente não estaria mais aqui. uma última coisa a dizer. Cuidado não é amor. Seria um golpe muito grande para o meu orgulho. pareceriam demais com algo que não são: um velho casal que saiu para respirar um pouco. em cada um de nós. como um cavalheiro sessentão. “Vim aqui procurar Drago”. de estender uma asa protetora. E ali está. Nunca se perguntou se me pegar não seria um erro — se eu não seria um erro do começo ao fim?” Um jovem casal em um pedalinho com a forma de um cisne gigante passa por eles.” “Até o fim?” “É. sorrindo alegremente. E claro que. em Adelaide. Mas. Não. Mas ela cala a boca. tenho de continuar até o fim. é simplesmente fazer o bem que eu puder por ela e pelos filhos dela. Se você for humana. sentindo calor. meus sentimentos são assunto meu. claro.alguém para segurar nossa mão e depois. “ao tentar entender o que você está fazendo na minha vida. A primeira e ainda a mais plausível é que me quer como modelo .” Ele espera ouvir mais.

Desde o dia do meu acidente. eu não falava de mim mesmo com tanta liberdade como falo hoje. Por que iria querer fazer isso. Entendo isso. Entendo muito bem. na minha vida. no negócio de confidência. porque não tenho filhos para abençoar. Antes de o holandês nos desenraizar e trazer para os confins da Terra eu estudava com as boas irmãs de Lourdes. desde que eu podia ter morrido. o decoro ou a vergonha. quero abençoar essas pessoas e permitir o progresso delas. Mas deixe eu lembrar que houve tempo em que fui um perfeito menininho católico. vai falar quando? Então: Jesus aprovaria? Essa é a questão que coloco para mim mesmo hoje.” “Um perfeito menininho católico. Por quê. Antes que seja tarde demais eu gostaria de praticar algum ato que seja — desculpe a palavra —. É esse o padrão que tento seguir. que com toda a certeza não é nada sua amiga? Só pode haver uma resposta: porque ela o esgotou. Não ter filhos foi o grande erro da minha vida. Mas você é uma profissional. como um médico. vai ter de entender isso. Se não falar agora. acho isso tudo muito rico. Mas continue. um contador. Não esqueça dos padres. independentemente do que Jesus possa dizer. Não tão escrupulosamente quanto deveria. em Melbourne. estritamente falando. eu mesma sou uma correta menina irlandesa católica. admito. Mesmo para Marijana não abriu de fato o coração. isso eu lhe digo.” “Antes. continuamente.” “Ou um padre. Meu coração sangra por isso o tempo inteiro. Não esqueça. depois do meu acidente comecei a deixar de lado uma parte dessa reticência. Perdão. deixe eu repetir o que estava dizendo há um minuto e que você parece achar difícil de aceitar. Mas Marijana e os filhos dela — quero estender uma mão protetora sobre eles. Se quer ser a cronista da minha vida. mas parece que fui poupado. Por que se desnuda diante de Costello. me persegue a idéia de fazer o bem. Paul. acho fascinante. eu disse a mim mesmo. Costello. na vida de outros. Por que falo nisso: porque não quero mais ferir Jesus com minhas ações. não posso esquecer. Costello. sobre falar com franqueza. como faz um pai. não é verdade. mrs. um advogado. E assim que chegamos a Ballarat fui entregue aos cuidados da Irmandade Cristã. De qualquer forma. por modesta que seja. continue. Meu coração tem uma blessure** por isso.” “Ou um padre. Não quero fazer o coração dele sangrar.” O que disse sobre deixar de lado a reticência. mesmo eu tendo há muito tempo deixado para trás a Igreja. Nesse caso. Uma performance inteiramente profissional da parte . “Sorria se quiser. você pergunta? Em última análise. mrs.para um personagem de um livro. Isso é uma coisa que você devia levar em conta em mim e acho que não leva. por exemplo: não tenho nenhuma intenção de perdoar o rapaz que bateu em mim com o carro. Paul. uma bênção. uma Costello de Northcote. O decoro me retinha. menino? Por que iria querer cometer um pecado? Não está vendo como o coração de Nosso Senhor sangra por causa do seu pecado? Jesus e seu coração sangrando nunca se apagaram da minha memória.

A família de patos. ela murmura. alimentando os patos. Siga até o fim e você vai crescer com eles. A pessoa toma posição ao lado da presa. esmigalha um pedaço de pão e joga para os patos. Siga por elas até o fim. diz ela. O que disse mesmo aquele poeta americano? Sempre se tece uma cobertura de algo para algo. Minha memória está indo . Seus pensamentos e seus sentimentos. Mas somos criaturas complicadas. ele responde. contrair. maior e mais expansiva. mais nu. Costello remexe na sacola plástica que tem no colo. Expandir. “Deixe eu dizer o que você vê. “de que não está vendo complicações onde elas não existem. “Sente. “E tem certeza”. O que você vê?” Ele fica quieto. É a nossa natureza. Uma velha que irrita você com o que você considera insinuações maliciosas. Escuro. O tipo de coisa que todo padre sabe. que ameaçam perfurar o corpo dela. Bom. Paul. Inspirar. pensara em oferecer à mulher se não abrigo para a noite. Olhe para mim. “Complicação desnecessária? Acho que não. Lanças de luz que ferem essa mulher. os seus esforços de se desnudar. O ritmo da vida. Mas isso tem um preço. espera. “Seu coração sangrando”. Você próprio quer ser mais simples. está se reunindo para mais um assalto à terra. mais que uma família. Mas agora se vê inundado de novo pela velha irritação. e a presa acaba por ceder. Paul”. Na verdade. Paul. eu fico olhando fascinada. Evidentemente ele. Você quer que eu seja mais simples. “cada um de nós. Tem certeza de que não está com o coração um pouco escuro. “Mas a realidade é mais complicada que isso. Paul”. Principalmente quando vamos chegando perto do fim. seres humanos. acredite. Folclore de abutre. Está dentro da gente ser uma pessoa mais plena. mas você não admite isso. expirar. o coração simples que você tanto deseja. o coração e seus movimentos. Paul.” “O coração pode ser um órgão misterioso. apenas em função das lúgubres histórias que escreve?” Mrs.” Ele se deixa cair pesadamente ao lado dela. Uma velha sentada à margem do rio Torrens. dizem os espanhóis. meu coração sangrando. Uma velha que por acaso está ficando sem roupa de baixo limpa para vestir. “Não consigo mais ficar apertando os olhos para olhar para você. você vê muito mais — vê e bloqueia. gelado. el oscuro corazón. Uma expansão. Uma figura envolta por essa luz ao lado da água que corre mansamente. o clã dos patos. pelo menos a passagem aérea de volta para Melbourne. “É. o intruso. Há uma imensa comoção enquanto eles convergem para essa bênção. Ou todo abutre. A luz com uma certa intensidade. Como respirar. diz ela. apesar de tantas boas intenções?” Ele pensara em fazer uma oferta de paz. Eu insisto: não elimine essas vertentes do seu pensamento. por exemplo. ou o que você diz a si mesmo que está vendo. O sol que se põe olha tão ferozmente da superfície da água que ela tem de proteger os olhos com a mão. nós. foi avaliado e considerado inofensivo. O escuro coração. “Nós todos gostaríamos de ser mais simples. o jeito simples de ver o mundo.dela.

Além de uma ou outra uva. E não do tipo de cansaço que pode se resolver com uma boa noite de sono em uma cama de verdade. para usar a palavra de Homero. Não sei por quanto tempo mais sou capaz de suportar meu modo de vida atual. você não diria que eu vivo com uma maleta. Podia ter alugado um quarto em um hotel.embora. porque acha que ela é tão descolorida. Nem dá para dizer o quanto estou cansada. basta isso a meu respeito. Eu me sinto. diria? Ou que não como nada há dias. É como uma tintura que começou a se infiltrar em tudo o que eu faço. Eu empresto o dinheiro. Não se lembra? Eu avisei que não tinha para onde ir. em tudo o que eu digo. sentada em um banco. Paul. vender seu apartamento e se mudar para um bem organizado asilo de velhos. Como já disse. Mas por favor. O cansaço a que me refiro passou a fazer parte do meu ser. desatada. assim como acha suas roupas tão absolutamente sem personalidade. Fica mais vaga a cada dia que passa. intempestivos Jokić. Em parte. quando não estou com você.” Ele fica quieto. É elementar assim. Foi assim que os dados resolveram. cercada de patos que parece estar alimentando — pode ser simples. mas não basta. Como eu fico dizendo para mim mesma. Paul Rayment não pediu para você abaixar em cima dos ombros dele. Podia ter pegado o avião de volta para Melbourne ou qualquer outro lugar que quisesse. Assim como podia se livrar dos problemáticos. Mas não faz isso. não de fato. Mas agora volta para ela sua total e deliberada atenção e . mas tem a desvantagem de não trazer você à vida também. se você prefere que eu não esteja no centro do quadro.” “A que modo de vida está se referindo?” “A vida em público. A mente também: frouxa. e ela trará você à vida. e temos de viver essa vida. juro. Isto. o que nós costumamos chamar de vagabundos. pare de confundir. como um relato. você podia fazer isso. Traga esses humildes patos à vida e eles trarão você à vida. Traga Marijana à vida. pronta para o sono facilitador. Porém seria um grande favor se Paul Rayment se apressasse. tão sem feições. Daí essa pequena lição que estou tentando dar a você. Mas não se castigue. A gente é o que é. por enquanto. Me trazer à vida pode não ser importante para você.” “É. Uma pena. Não me traz à vida.” “Está falando bobagem. Está surpreso de me ouvir falar assim? Não devia. sou uma sem-teto. “Enfim. como um favor a mim. Quando estou com você. A vida na companhia de bêbados e pessoas sem teto. parece que me lembro. Tenha paciência. Eu fiquei incrivelmente bem nessa nova vida. Ele a encontra à margem do rio. Olhando para mim. Nenhuma força tensorial mais. tenho um teto. dependendo das instalações públicas. Palavra com a qual você tem familiaridade. se tem de ser Marijana.” Ele não olha para Elizabeth Costello há um bom tempo. essa simplicidade pode até enganar. E não apenas o eu corpóreo. posso estar chegando ao meu limite. é a vida que nos foi dado viver. O arco que costumava ser tenso ficou frouxo e seco como um fiapo de algodão. A vida em praças públicas. Ou os patos até.

De verdade. o rosto pálido. repetir. A verdade é dita. Tentei explicar o melhor que pude. expirar. Até mesmo a mulher que foi sua esposa concorda: ele é bem-intencionado.” Ela se põe de pé. “Adeus”. com o olhar amoroso. e não posso me tornar excepcional só para você. Mas quanto ao resto” — ele dá de ombros — “não estou fazendo confusão. se é que chega a ser dita. o nariz parece um bico. uma penitência incompreensível que ela está condenada a dizer. Seus amigos podem comprovar isso — gente que o conhece bem melhor que Costello. que quando age. Ele não aceita o encargo. nem francês . deviam ter? Do que faria uma mulher feliz? O que faz uma mulher feliz é um enigma tão velho quanto a Esfinge. dentes amarelos e pernas nada más. Não sou uma pessoa excepcional. com tudo menos amor. estimulados por sua imobilidade. ela diz. Por que isso. acostumados a ser alimentados. Vai comprar a passagem. achei que faria alguma idéia. A verdade não é dita em raiva. age de coração? Frio não era uma palavra que sua esposa usasse. diz ela. mrs. acenar adeus para ela. vê a tímida gazela de olhos negros escondida dentro dela? É isso que Elizabeth Costello não entende. “Que homem frio”. mas você não entende nada. quer sempre o melhor. Como pode ser chamado de frio alguém que de coração deseja o bem. com um sorriso. Frio: será mesmo essa a impressão que dá a desconhecidos? Ele quer protestar. Por que um francês haveria de ter o poder de desamarrar isso. pelo menos não aos meus próprios olhos. Quem é Marijana? Uma enfermeira de Dubrovnik de cintura grossa. diz ele. Elizabeth Costello pensa nele como um castigo que veio infernizar os últimos dias de sua vida. O que ela dizia era bem diferente: Achei que você era francês. depois que ela o deixou. Agora você tem de se curar o melhor possível.” Ele vai ajudá-la.de fato é como ela diz: perdeu peso. O amor vê o que é melhor no amado. Desculpe. É bemintencionado. muito menos um francês imaginário como ele? Frio. em termos práticos. Vou tentar não apressá-lo mais. mesmo quando o melhor no amado acha difícil emergir para a luz. com exasperação. mas ele não lhes dá atenção. ele fica ali. Estou agindo num ritmo que é natural para mim. recitar. Ela olha para ele com desgosto. Alguma idéia de quê? Durante anos. só Deus sabe. O olhar amoroso não se ilude. ele dirá. mesmo que apenas os franceses da lenda. Durante muito tempo depois de ela ir embora. Quem a não ser ele. Bem. Idéia do que os franceses. “eu teria ajudado. não sem dificuldade. não acredita na sua verdade. dizia. ele tentou entender essas palavras. Você me foi enviado. em amor. “Pobre homem frio. abalado. ele vai lhe dar uma lição. olhando o rio com olhos apertados. cego. vai com ela ao aeroporto. Estou pronto a ajudar agora. Inspirar. chegam quase a seus pés. eu fui enviada a você. Costello. “Se tivesse pedido”. Os patos. Fala a palavra condenatória com leveza. com desânimo. a pele dos braços está pendurada. Não frio. dobra a sacola vazia. quando encontrar com ela de novo. com o coração pesado. Vai pagar uma refeição para ela.

tampouco. Um homem que vê o mundo à sua maneira e que ama à sua maneira. ele dirá. “cada um com seus gostos”. “gosto não se discute”. T. E um homem que não há muito tempo perdeu uma parte do próprio corpo: não esqueça isso.) . * Em francês.) ** Em francês. T. literalmente. Tenha um pouco de caridade. (N. Então talvez possa encontrar em você a força de escrever. “ferida”. (N.

a irmã. Nenhum narcisismo em Marijana tampouco. Por outro lado. não se dá ao trabalho de cuidar de si mesmo. Graças a Deus virá o dia. Drago. pior que isso. Quando ela foi embora. chato. Nenhum narcisismo em Drago. Uma das coisas mais irritantes que Costello fez durante sua estada foi tirar o pano. acima de tudo. nada reflexivo. se tivesse consciência de si mesmo perderia parte daquele ar de destemida candura. O rosto que ameaça confrontá-lo no espelho é o de um vagabundo magro. envelhecido. não ainda. enrolou um pano no espelho do banheiro e aprendeu a se barbear às cegas. Na verdade. Porém cada vez que se curvava para beijar aqueles lábios atraentes. Toda vez que sorria. a parte desconhecida: como ela é? Nunca a conhecerá? Narciso descobriu no tanque de água um gêmeo de quem não conseguiu se soltar. Não tem apetite. talvez nunca. Ele próprio nunca se sentiu à vontade com espelhos. considerando que no passado sempre se apaixonou por mulheres que amavam a própria imagem. Nada narcisista. a seu modo.21. não tem comido adequadamente. Muito tempo atrás. mal vendo a luz do sol. Um traço admirável. Em uma banca . Continua sendo intrigante para ele o quanto Drago é pouco consciente da própria beleza. Ele cobre o espelho do banheiro não só para se poupar da imagem de um eu feio. daquele olhar de guerreiro. Desde que Marijana parou de vir. Existe um equivalente feminino à candura dragoniana? A pureza amazônica? Blanka. o gêmeo se dissolvia em fantasmagóricas ondas. A maior parte desse tempo passou enclausurado em seu apartamento. em que não terei mais de ver esse aí! Quatro meses se passaram desde que teve alta no hospital e permissão para voltar à vida de antes. barbudo. É curioso que ele tenha se apaixonado por Marijana. o gêmeo sorria de volta. diz para si mesmo. Não: o gêmeo aprisionado atrás do vidro ele acha. ele o colocou de volta.

Por favor aceite assim. melancolia. Está pensando em Drago porque. muito mais do que ele. Desculpe a lição de . Assim como ela deu a ele. que seu trabalho dali em diante seria demonstrar caridade com as pessoas ou cuidar das pessoas. no fundo de mim. desde o episódio de Marianna. nunca cometi a tolice de confundir sua gentileza com amor. Apesar das barbas desgrenhadas. agarrada à sua garganta. muito mais do que o dever exige. também seu coração quer retribuir. Talvez ela tenha aceitado sem pensar o que lhe disseram na junta de credenciamento: que a profissão em que estava se iniciando era conhecida no mundo de língua inglesa como uma profissão de caridade. o serviria fielmente até o fim. Ele gostaria de acreditar que. cérebro —. O que ofereço a Drago. a forma de uma megera desgrenhada. Costello sobre o velho que transformou Simbad em escravo. ele devia acrescentar numa nota de rodapé. a manteve à distância. com a coisa em si. Ele agora anseia por servir Marijana. ou para a casa dela. fazer dela seu discurso. mas seu coração. forçada. claro. Cara: ele pode colocar a palavra no papel. testado e provado primeiro na rua Magill. é uma mostra de gratidão. Então conheceu Marijana e seu coração passou por uma mudança. Mrs. Retribuir não é a mesma coisa que pagar o devido. Mas terá razão? Treme ao pensar no que um mero olhar de relance no espelho possa revelar: rindo por cima de seu ombro. não corte o contato comigo. Foi um erro. profissional da caridade. ou pelo menos para aliviar parte de sua carga. Qualquer um de seus órgãos irmãos podia falhar — bexiga. demência. a viver a vida em uma língua estrangeira. brandindo um chicote. Talvez a Marijana dos Bálcãs. de seios nus. resistiu aos esquemas dela. agora quero lhe dar alguma coisa em troca. ou para onde quer que ela esteja. primos que tinham ido adiante na estrada que ele um dia seguiria. Me ofereço para cuidar de você. também se sinta acanhada. doença de Huntingdon. ele imediatamente reconheceu neles irmãos de alma. Por favor. Uma palavra inglesa demais. mas ficaria acanhado demais para pronunciála. e que esse cuidar não devia ser entendido como nada relativo ao coração. nos últimos meses. Ou talvez não. Drago não retornou nem mandou nenhum recado. no caso de cardíacos. para a casa da cunhada. E está pensando em espelhos por causa da história de mrs. uma palavra de um nativo da língua. depois na mesa de operações. depois de uma noite passada no apartamento. não foi exatamente nisso que ele se transformou — em um paciente de coração.do Sena ele um dia pegou um texto médico com fotografias de pacientes do Salpêtrière: casos de mania. nada mais. Você cuidou de mim. Marijana e todos os que pertencem a ela. apesar das camisolas do hospital. você me é muito cara.* No entanto. Seja o que for que eu disse. a não ser. Mesmo tendo feito por mim muito. e a você através de Drago. Não vou mais tentar atrair você para nenhuma intimidade. Seu coração não é mais o que era. Costello quer sujeitá-lo a alguma ficção que tem na cabeça. prometo nunca repetir. baço. Devia escrever uma carta a Marijana. un cardiaque? Houve tempo em que o coração era seu órgão mais forte. se permitir. Você e os seus. de cuidados. Me ofereço a isso porque em meu coração.

T. Se for preciso um fundo de previdência para tranqüilizar Miroslav. é apenas como uma maneira de pagar essa dívida. Consegui seu endereço com mrs.língua. “exercer cuidados com alguém”. nem em sonho. Sinceramente. que tem sentido múltiplo em inglês. reconsiderar e me dar a grande honra de aceitar um presente que não terá. Querida Marijana. Miroslav e eu discutimos a possibilidade de um fundo de previdência. “Nenhuma mulher com dois olhos na cara aceitaria uma pessoa como você”. diz mrs. que parece saber tudo. Será que você. garantindo que eu me mantenha na linha. mrs. Paul Rayment * Todo o parágrafo usa variações intraduzíveis do verbo to care. Costello está sempre por perto. Costello. ele escreve. demais talvez. na verdade para seus três filhos. Eu concordo plenamente com ela. de qualquer forma. ou seu marido. e. Se me ofereço para me encarregar da educação de Drago. (N.) . nenhum vínculo. É tanto “gostar de” (no sentido de preocupar-se com alguém. tê-lo como pessoa “cara”) como “cuidar de”. Você e Miroslav poderiam. desta vez com caneta de verdade e papel de verdade. zelar por ele. como se diz em inglês. Costello. eu também estou tateando meu rumo. Você teve de conviver muito comigo por dever profissional. por favor. também estou em solo estrangeiro. acha realmente que em troca das mensalidades escolares de Drago eu iria me impor a você? Eu jamais faria isso. eu providenciarei a abertura disso — para Drago. Deixe que eu simplesmente diga estas palavras: pelo cuidado imparcial que me dedicou eu serei grato enquanto viver.

e o judeu diz que a corrente que nem é de prata de verdade custa quarenta e nove e noventa e nove e quer levar Blanka à justiça por causa disso. agora Blanka está se recusando a comer. Marijana?”. Falei sem querer. que se pode comprar por um dólar e cinqüenta no mercado chinês.” “Talvez eu seja judeu. judeu. embora Blanka não tenha pegado. uma amiga dela pegou e passou para ela e ela queria devolver. ela se complica. Para que eu estou no mundo senão . Claro que quero ajudar.” E vem à tona uma longa história sobre uma corrente de prata. Então.. à justiça juvenil. mas de um telefonema. Então será que ele. Lidija Karadzić em North Elizabeth. uma corrente que nem é de prata de verdade. Tem certeza de que eu não sou judeu?” “O. que algum comerciante. “O. não importa. algum judeu. fica no quarto o dia inteiro a não ser ontem de noite que se vestiu e saiu sem dizer para onde.k. Blanka — sabe Blanka? —. na forma não de uma carta — ele nunca esperou uma. Não é nada. só dizer. embora falte apenas uma semana para os exames. Não quer falar comigo. “mas nós estamos com muitos problemas. conhece alguém com quem possa falar a respeito de Blanka.” “Claro que quero conversar. Esqueça. mas não deu tempo. é capaz de imaginar o problema que seria para ela escrever em inglês —. alguém que possa falar também com o judeu e retirar a queixa? “Como sabe que ele é judeu.k. está se recusando a ir à escola. ele espera ter acertado os acentos. não-judeu.22. A resposta de Marijana vem dois dias depois. Rayment”. A carta a Marijana é endereçada aos cuidados de mrs. acusa Blanka de ter pegado. mr. diz ela. acaba conversa. Paul Rayment. “Desculpe eu não vem ver senhor. E Mel não sabe o que fazer e ela não sabe o que fazer. ele pergunta.

Tem. Matthews tem de ser dito ali mesmo. que sem dúvida deve ter aprendido a lição agora — ou seja. diz Marijana por fim.” “E quando foi isso. então por Marijana e pela infeliz filha dela.” “Deixe eu ver o que posso fazer. Blanka Jokić. Será que Marijana está errada. Matthews gerente. Matthews.” “Telefonar para sua casa? Achei que estava com sua cunhada. diz ele. ele nem tem certeza se aprova o fenômeno do homem influente. endurece visivelmente. essa história da corrente de prata. ele está disposto a tentar. que é judeu ou não. Talvez Tracy. Sexta de tarde. há música vibrando em algum lugar acima deles e isso é tudo. Não recebeu minha carta?” Há um longo silêncio. mas vou ver o que posso fazer. “Meu nome é Paul Rayment”. ter mais cuidado ao roubar coisas —. Lembra desse caso?” Mr. Não sei. essa que estava com ela na loja. Escrevi para você aos cuidados de sua cunhada.para ajudar? Me dê os detalhes. o tipo de estabelecimento em que se pode trocar uma palavra em particular. e cabelo descolorido espetado em pontas. em pensar que um homem com um nome bacana como Rayment e uma casa confortável em uma parte eminentemente confortável da cidade e dinheiro para distribuir pode fazer as coisas acontecerem de um jeito que um mecânico de automóveis com o nome esquisito de Jokić não pode? “Mr. “Pode telefonar. Posso lhe contar . “no Shopping Rundle. é alto e magro. Mr. e que foi todo afabilidade até agora. diz ele. há um balcão e um caixa.” *** O que Marijana quer é um homem influente e ele não é um homem influente. essa história com a Happenstance?” “Sexta-feira. Há prateleiras abarrotadas de roupas.” “Tenho aqui. Marijana. E me conte mais sobre essa amiga de Blanka. “Sou amigo da família Jokić. tem sobrancelhas grossas.” “Podemos conversar em particular?” Happenstance — que vende o que chama de acessórios — não é. no máximo. escuras. Matthews tem seus vinte e poucos anos. Mas é assim que as coisas são feitas na Croácia. e mr. Me conte quando e onde aconteceu. “Acabou tudo”. Então o que ele tem de dizer a mr. Matthews?”. “Sim. Onde posso encontrar você?” “Pode telefonar.” “E a amiga dela?” “Blanka não diz nome de amiga. afinal. ele insiste. tem meu número. Loja é Happenstance” — ela soletra a palavra —. “Uma garota foi detida aqui por roubo”. “Sexta-feira passada. cinco metros quadrados. porém. Não sou a melhor pessoa para esse tipo de coisa.

Mas Blanka não é uma ladra. estou disposto a comprar aqui peças no valor de. quinhentos dólares. Arriscaria dizer que ela aprendeu a lição. não vale a pena. cauteloso. E tudo absolutamente honesto. vira as costas para ele e pega o celular.” O jovem mr. tormento pessoal. unilateralmente. Temos de mostrar uma atitude para os ladrões: se roubar de nós. ficou muito arrasada com isso.” “Fale com seu gerente de área agora. Tem o nosso gerente de área. apenas apontando um fato. vai ser processado. por causa de roubos. Vou falar com ele. DeVito está fora da cidade. Você faz um telefonema.” “Você é o gerente.” “Mr. Matthews retira-se para trás do caixa. se concordar em retirar a queixa. Desculpe.alguma coisa sobre Blanka?” O rapaz — o que ele é senão um rapaz? — assente com a cabeça. já deu a lição. Matthews está hesitante. Se quer dar uma lição. diz ele. as filiais todas. É só uma criança. visivelmente. Então.” Mr.” “Vocês perdem cinco por cento. aqui e agora. O jovem mr. não vai acontecer comigo. Eu espero.” “Quarenta e nove e noventa e nove. Não estou criticando vocês. Azar acontece para os outros. Tolerância zero. mas recuperam esses cinco por cento aumentando os preços. a política da empresa é dar queixa. Matthews sacode a cabeça. Aqui está meu cartão.” “Não posso tomar essa decisão. acredito que não se vai ganhar nada processando a menina. “Blanka nunca fez nada assim antes. Não vai roubar de novo. que acredito ser uma corrente de prata vendida pelo preço de cinqüenta dólares. Resolva essa questão. Mas não posso prometer nada. Com vergonha do que fez. Vocês têm uma política voltada para ladrões. mas não impossível de contatar. agora ela sabe que está exposta ao azar também. Bom. A polícia não gosta de levar esses casos adiante. Matthews está a ponto de ver seu dia estragado. Telefone para ele. eu pago a corrente e além disso compro quinhentos dólares em mercadorias. É justo. Quero pagar a peça que ela pegou. voltando à minha proposta. Como sinal de boa vontade. Vou falar com o gerente. Está relutante em se mostrar em público. Desde sexta-feira passada está num grande tormento. Essa é a nossa política. O peso total da lei. Ela não vai esquecer. “É política da empresa”. Então vim fazer uma proposta. ela acha. É o único jeito de mostrar que somos sérios. tipo. retira a queixa. “Seiscentos dólares.” “Eu sou só o gerente deste outlet.” “Mr. Não passa de uma criança. pensando como pensa uma criança. “Todo ano perdemos cinco por cento do estoque.” O jovem mr.” “Além disso. e por um aleijado . Telefone para ele. DeVito pode estar fora da cidade. Volta na segunda-feira. Como eu disse. digamos. boba. Têm mais o que fazer com o tempo deles.

Blanka Jokić: Matthews não vai esquecer esse nome tão cedo. no fim das contas. Se ele combate a multidão no Shopping Rundle. com uma deficiência. de um homem engaiolado sozinho por tempo demais. outro policial. todo o desamparo têm sido unilaterais. não é. é assim que a Happenstance o vê: como um cavalheiro mais velho. Algo errado nisso?” “Nada. Como isso deve ter incomodado e irritado a ela: palavras de amor vindas de um objeto de mera enfermagem. Verdade. Ele não é brigão de natureza. pela garota que nunca viu na vida. A assistente. Ele está olhando nos olhos.” Um amigo da família. Irritante. “Onde o senhor mora?” “Em North Adelaide. nem mesmo um beijo — nem um simples selinho no rosto. A fantasia. de cabeça erguida. um entusiasmo.ainda por cima. Por que não estaria?” Ela dá uma olhada para o homem a seu lado. se ele barganha.” Ele engancha as sacolas da Happenstance no braço. agarra as muletas e desencosta do latão de lixo onde estava apoiado. pergunta uma voz. não foi uma experiência desagradável. “Me ajude a escolher umas coisas”. meros cuidados. Eu te amo. ou não é apenas. há já algum tempo — por mais tempo do que duram muitos casos amorosos. Ele é de fato um cavalheiro mais velho. mas não toda a verdade. mas. que Deus sabe por que razão escolhe zelar pelo bem-estar de uma garota com um nome esquisito. aquele benfeitor de bom coração. Sem dizer uma palavra. O que seria preciso para Marijana vê-lo como a coisa real? O que é a coisa real? Desejo físico? Intimidade sexual? Eles são íntimos. Sem dúvida. vai abrindo caminho na multidão. Como Marijana verá essa vontade de dar com que ele tão insistentemente a persegue? Ela já teve outros clientes como ele. Para uma menina de catorze anos. induz e paga por coisas de que não precisa. não uma coisa real. “Tudo. mas procurar a fraqueza do rapaz e depois fazer pressão em cima dele. uma mulher sempre sabe. “Da última moda. diz ele. de uma garota de farda azul. ficou olhando os dois disfarçadamente. apertá-lo. Ele faz sinal para ela se aproximar. Em Coniston Terrace. E é verdade. nos olhos inteiramente gentis. toda a nudez. . uma garota de horrenda maquiagem branca e lábios violeta. Tráfego de mão única. nenhuma troca. Nada de errado.” “E como vai voltar para casa?” “Vou andar até a rua Pulteney e pegar um táxi. Dois ex-europeus! “Tudo bem?”. do começo ao fim. Uma policial. É assim que ele se apresenta à Happenstance. Mas toda a intimidade. não sério. conseguindo aflorar à superfície. outros velhos apaixonados? Sem dúvida você deve saber. ele e Marijana.

Não é difícil de brincar. Ele está animado. e o que acontece? A pessoa é recompensada com seiscentos dólares de acessórios. Três almas balcânicas. “Ela não pode aceitar”. o anjo com a espada. objetiva. a ovelha negra da família. Você devia aderir. diz o . Vai estar tudo fora de moda dentro de um mês. se ela concordar em ir para a escola. Miroslav é menos preso à terra.* “Esconda isso tudo num armário”. Ia dando como incentivo. Não consegue se lembrar de ela ter jamais correspondido a suas brincadeiras. diz Marijana. “Eu faria isso. peça por peça. Drago se debatendo entre pai e mãe. Será que é frívolo demais para o gosto dela? Ela o acha leve demais. É impossível. RAN. Três tipos balcânicos. A alma de Marijana: sólida. certamente deve ter senso de humor. Miroslav. brincalhão demais? Ou simplesmente não tem segurança suficiente com o inglês para brincar com as palavras? É só uma brincadeira. Gracejo. Drago também.23. Mas vai ter de ir depressa. Marijana diz. Um bom jogador de tênis. Para lá e para cá. como velhos amigos. Mas desde quando ele é perito em leveza. Alguém é pego roubando uma corrente de prata que nem é de prata.” Marijana não responde. não mais prata do que se pode comprar na lojinha chinesa por um dólar e cinqüenta. velhos fofoqueiros. ele devia dizer para ela. a luz refulgente. pesopluma demais. Drago. essas coisas. “Não. não exige que se altere a alma. diz ele a Marijana. ou em Bálcãs? “Muitos croatas”. se chama em alguns ambientes. com sua risada bravia. Comandante Drago Jokić. Onde fica a justiça nesse caso? O que Drago vai dizer se ficar sabendo? Blanka. contida. defensor da honra familiar. que passou um ano de sua vida montando um pato com engrenagens e molas e apareceu com esse bicho de estimação na televisão croata. Ele e ela no telefone outra vez.” Ele concorda plenamente. Impossível.

Drago não pode vir morar no meu depósito. sobre papel que foi mergulhado.Povos dos Bálcãs. fixado quimicamente. Eu tinha um estúdio em Unley. Depois. para um representante inteligente da nova era. “negam que a Croácia pertença aos Bálcãs. Rayment não é um homem bom. só está tentando ajudar. nem ninguém pode. não era. Muito pouco para atrair um rapaz para ser seu afilhado espiritual. É um jeito de imprimir que tinham acabado de inventar na época de Fauchery. Obedientemente espia pelo microscópio. “Brigando? Quem está brigando?” “Drago e pai. Olhe. pode voltar e ficar aqui uns dias. compare com esta cópia pré-albumina. Mas se as relações entre ele e o pai estão abaladas.” “Sempre brigando”. ele conta a Drago. não é nada menos que polido. Em resumo. e se você permitir.” “Mr. mr.” E é isso que acontece. “O papel é revestido com clara de ovo diluída na qual há cristais de cloreto de prata em suspensão. excelente filho de uma excelente mãe e — quem pode dizer? — de um excelente pai também. Rayment?” “Era. Depois.” Ele quer se tornar interessante para Drago. O que tem a oferecer? Uma bicicleta quebrada. Está em idade de crescimento. elas se dissiparam. isso é bobagem. mr. provavelmente mais repulsivo que atraente. Um membro truncado. Mas Drago. mais luminosa? Por causa da profundidade do revestimento de albumina. Rayment homem bom. Marijana está dizendo ao telefone. Percebe como a de Fauchery é mais cheia. já teve muito problema com família Jokić. Sempre . registrando o milímetro de ovo de galinha seco que dizem fazer uma grande diferença. O que ele gosta de comer no jantar? Pizza? Diga que eu mando entregar uma pizza gigante toda noite.** Se havia nuvens no horizonte. dizem eles. Eu digo. A Croácia faz parte do Ocidente católico. Dê uma olhada com o microscópio. Mas nunca fui — como posso dizer? — um artista da câmera. mas não é fácil. mas esse milímetro faz toda a diferença. “O senhor era fotógrafo. o papel é exposto à luz embaixo de um negativo de vidro. em pessoa. Drago diz que quer ficar no seu quarto depósito. muito pouco. Duas pizzas gigantes se ele quiser.” “No meu depósito?” “Eu digo não. também dei aula de fotografia à noite. só para ele. não revestido — mergulhado em uma solução de sais de prata. quer dizer. E um armário cheio de fotografias velhas. “Estas são chamadas de cópias de albumina”. Durante algum tempo. diga que ele é bem-vindo. Menos de um milímetro de profundidade. Num relâmpago.

Não é tão difícil quanto restaurar afrescos. Surpreendentemente. Sua mãe deve ter achado difícil desistir da pintura e passar para a enfermagem. os pincéis. Aí.” “Não. Minerou um pouco como amador em Victoria. “Foi quando descobriu que tinha talento. o menininho de Lourdes. . Era o que eu dizia para mim mesmo. “Onde conseguiu essas fotos. para pegar um gostinho. ter o poder de aproximar os dois.” “Minha mãe queria ser pintora. comprei caixas cheias de fotografias antigas. Por quê? Porque ousa mencionar a própria morte a esse rapaz. Mas é uma enfermeira de primeira classe. Parte do nosso registro histórico. Procurava em lojas de antigüidades. Primeira regra da restauração: obedecer à intenção do artista. Nosso registro. pelo menos pode ser dedicado a alguma coisa útil.” “Que interessante! Não sabia disso. esse precursor da geração que vai assumir o mundo e pisar em cima dele? Talvez. Mas o mais provável é que seja por causa do nosso.” É algo por que deva se desculpar. essas partículas de prata distribuídas que registram a forma como a luz do sol banhou. como um amuleto místico — eu estive aqui. Quando morrer. Restauração é uma profissão especializada. vou doar a coleção. não participou e da qual Drago.” E levanta as mãos em um gesto estranho. ia a leilões.” Drago concorda com a cabeça. na Croácia. Honra a profissão. Vai virar propriedade pública. vivi. Passou a ter domínio total do meio. sabe. Se o seu tempo já não vale muito mesmo. sabe. em um dia de 1855. Simplesmente porque a imagem diante deles. “pelo menos não até chegar à Austrália.” Aponta um grupo de mulheres na porta de uma cabana de pau-a-pique. Mas não tem mais tempo. os rostos de duas irlandesas há muito desaparecidas. E aperfeiçoou a técnica também. eu mesmo fazia a restauração. Como qualquer fotógrafo tem de ter. está quase em lágrimas. Espero que você saiba disso. mr.fui mais um técnico. essas coisas. não ser um artista? Por que se desculparia? Por que o jovem Drago haveria de esperar que ele fosse um artista — o jovem Drago. comprava velhos álbuns. não deve ter mesmo. filho de Dubrovnik. Era assim que eu passava as horas livres. só não pode pretender ser original. seu e meu. também não participou. Ela ainda pinta?” “Ela ainda tem. entrou na de restauração. involuntário. mas principalmente tirou fotografias. Pode até ser considerada uma arte. o equipamento e tudo. Rayment?’ “Fui colecionando ao longo de muitos anos. Ela foi para a escola de arte. depois da escola de arte. para restaurar afrescos antigos. Quando uma foto estava em más condições.” “É mesmo?” “É. uma imagem de cuja confecção ele. Ele veio de Paris durante a corrida do ouro dos anos 1850. diz ele. pode. mas é um trabalho especializado mesmo assim. sofri —. cujo objetivo na vida é ser um técnico de guerra? “O próprio Fauchery não era um artista”. mas de vez em quando havia alguma coisa que valia a pena guardar. Nunca tentar melhorar. quase tudo lixo. Foi o meu hobby durante anos.

quando comprou o apartamento. diz ele. do nada. mr. Estão na cozinha na noite seguinte. sabe. diz Drago. perplexo. diz ele.” Drago não deixa o assunto morrer aí.” “A conexão. quando está se preparando para ir para a cama. mr. “O senhor não gosta de coisas novas. Só não tire de dentro das capas. o estilo de tudo.” Uma hora depois. se viver bastante.“Enfim”.” “Desculpe. como prometeu. “Tudo no . “Não. jantando. Por que está perguntando?” “Não estou reclamando. Vai acontecer com você também. a cabeça de Drago aparece na porta. um pouco mais sombrio. É só o estilo. Tem pé-direito alto. O que você quer fazer? Para que precisa disso?” Drago lhe dá um sorriso de incredulidade. indica o espaço com um gesto de mão ao dizer tudo. reformado. Eu fui ultrapassado pelo tempo. Não uso muito. como solteiro redescoberto. Agora me diga: do que é que você está falando de verdade? É sobre o computador que não está à altura do que você espera?” Drago olha para ele chocado.” Drago logo volta. Está no chão. Só perguntei. “Tem computador.” Recosta-se na cadeira. Rayment?” “Tenho. sempre quis trocá-la. E tome o cuidado de colocar de volta na ordem. Se você precisa de alguma coisa mais avançada. Eu usava para escrever cartas de vez em quando. “se estiver aborrecido. Por que essas palavras duras? O que o coitado do rapaz fez para merecer isso? O senhor não gosta de coisas novas? Uma pergunta normal de se fazer para um velho. queria. Faz anos. Em vez disso. Quando o senhor comprou esse computador?” “Não me lembro. E ele de fato surpreende a si mesmo. Mora ali desde então. ficou ele próprio um pouco mais pesado. Rayment. Ele não pediu pizza. era ficar com a mobília do dono anterior. Nada de estranho nisso — em ser ultrapassado pelo tempo. Ao contrário. Por que se zangar com isso? “Isto tudo um dia foi novo”. Este apartamento. “É legal. era exatamente o que ele. foi ultrapassado. mr. O senhor não tem um fio que liga com a net?” “Não. eu não tenho como ajudar. e tudo o que existe dentro dele. ao longo dos anos se acomodou ao ambiente. Tem alguma coisa nova de que o senhor goste?” O apartamento de Coniston Terrace faz parte de um quarteirão pré-guerra. não é esse tipo de computador. “Para tudo. Ele o comprou depois do divórcio. tem toda a liberdade de olhar o resto das fotos. “Não estou achando o cabo. é espaçoso. com cogumelos e vinho branco. pela história. embaixo da mesa. mas não quero que dê risada de mim. se não tiver mais nada para fazer. com um gesto de mão igual ao de Drago. mas nunca sentiu ânimo para isso. cozinhou um belo risoto. não era de seu gosto. Rayment?”. Drago. A mobília era pesada e escura. Para o modem. Não é moderno. mas não grande demais. Parte do negócio. “Vou dar uma resposta direta. não entendi. Mil novecentos e oitenta e pouco.

Eles gostam. Minha mãe comprou um computador para eles e nós mostramos como se usa. que já ocorreu antes: flash. nós podemos mandar fotos. diz. Marinha Real Australiana. (N.mundo um dia foi novo. Drago.” * Royal Australian Navy. minha mãe e minhas irmãs. jogo de palavras intraduzível com a pronúncia equivocada de Marijana. Eles também foram. “Só isso. Do mesmo jeito que vai agir sobre você. mais nova da face da Terra. in a flesh. ultrapassados pelo tempo. Então eles agora podem fazer compras pela internet. T. corpo do ser humano”. como o senhor diz.” “E daí?” “Daí que dá para escolher”. eu era a coisa mais moderna. diz Drago. E são bem velhos. É lá que moram os parentes da minha mãe. uma última garfada de salada. flesh. “relâmpago”.” Drago come uma última garfada de risoto. T. Até eu era novo. Na hora em que eu nasci. “carne.) ** In a flash. Um dia.) . “Eu. “Nós fomos para a Croácia no Natal passado”. O tempo vai te engolir. Para Zadar. (N. espero que você se lembre desta nossa conversa. você vai estar sentado na sua bela casa nova com sua bela esposa nova e seu filho vai virar para vocês dois e dizer Por que vocês são tão antiquados? Quando esse dia chegar. podem mandar e-mails. São bem velhos agora. Aí o tempo foi agindo sobre mim.

ou um futuro filho. “Vou sair. ele anuncia o mais casualmente possível. Ele e Drago saem depois que anoitece. até onde consegue enxergar seu coração. sente que Drago o está afastando. não vai muito à escola porque toca numa banda. Shaun. com quem ele antipatizou à primeira vista. Irritado . nada que considerasse — ele pega a afetada palavra reprobatória moderna. diz Drago. obrigado. depois voltam e se trancam no ex-escritório dele. Drago traz amigos. “Quer que faça para você também? Presunto e tomate?” “Para mim não precisa”. Na verdade. minha mãe me deu dinheiro. ele numa poltrona com um livro. que qualquer homem pode sentir por um filho adotado. nem comem mais juntos. Quando convidou Drago para ficar em sua casa. A música e o murmúrio da voz deles o mantêm acordado até de madrugada. era e é puro. que virou o quarto de Drago. Um amigo vem me buscar. ficam na rua até tarde.” “Tem dinheiro?” “Tenho. logo o apartamento está tão barulhento e confuso como uma estação de trens. adequado. segundo Drago. assombra o apartamento. Depois da noite do risoto de cogumelos. A convivência que previra para ambos seria da mais branda escala: algumas noites de companhia recíproca. enquanto esperam os ânimos esfriarem na casa dos Jokić. A gente vai comer alguma coisa. Mas não é assim que acontece. suas motivações inocentes. por trás do convite.” O amigo em questão é um ruivo cheio de espinhas chamado Shaun. o banheiro está sempre ocupado.24. Nada do tranqüilo aumento de intimidade que ele esperava acontece. que. pondera. Drago curvado sobre a lição de casa na mesa da sala. A cozinha vira uma bagunça de embalagens de comida para viagem e pratos sujos. testa — inadequado. “Vou fazer uma omelete para o jantar”. Gosta de Drago com um carinho comedido. Seu coração. não havia.

Marijana diz que ele e o pai vivem às turras. Se não. ou iludida? Mas lembre de uma coisa. tão acomodado no seu ritmo. Um dia desses. Não. Eu podia ser uma peça de mobília. Aprenda com Drago enquanto pode.” Falar por imagens. o mais duro que consegue. Anjos do céu. Não é tarde demais. Olhe dentro do seu coração. ela está de volta. ao que parece. e agora tão ranzinza também! Que impensada aventura na criação de filhos! Em teoria. nós nos tornamos servos do tempo. o que me incomoda é o jeito como ele reage quando eu ouso pedir um pouco de consideração. como você diz. “No fim da vida. Será que está com a cabeça atrapalhada porque está em jejum? Será que está querendo fazê-lo de bobo outra vez? Será que deveria oferecer a ela mais que uma xícara de chá? Dá um olhar duro para ela. isso parece ter virado fumaça. Não dá para amar por um ato de vontade. Então preste atenção quando eu falo. parece mais que um pouco frágil.” Depois das palavras frias que ela disse à margem do rio. Bom. sem uma palavra de explicação. possam nos conduzir pela dura estrada do amor. não espirituais. talvez porque não possa desistir dele. Por meio dos nossos filhos. sua irritação. reclama com Elizabeth Costello. Mas ela não vacila. Não me enxerga mais. “Pobre Paul!”. e a energia. Eu sei para que servem os filhos. ao crescer em nossa companhia. Desde o começo você vislumbrou alguma coisa angélica em Drago e tenho certeza de que não está errado. Paul. tão monástico. diz ela. você não criou nenhum. ouvindo a BBC. ele achou que não veria mais Elizabeth Costello. não é. estou começando a entender por quê. os últimos vestígios da glória que ele deixa atrás de si vão desaparecer no ar e ele será simplesmente um de nós. tenho certeza de que você adoraria gostar do jovem Drago.e infeliz. talvez você devesse desistir. Dia após dia ela se mantém distante. “Não é só o barulho”. filhos da vida real. tem uma tosse insistente. Ela acredita no que está dizendo. ele fica no escuro. “Drago está acostumado com uma família grande. por . O filho. eu criei dois filhos. Supere a sua decepção. Perdeu peso. Pergunte a si mesmo se você tem as reservas de fortaleza de que vai precisar para a viagem. mas os fatos da vida estão atrapalhando. “Você acha que eu estou louca. não espero dele um silêncio de monge. Quanto ao contrato solenemente celebrado entre Marijana e ele. mas também talvez porque não esteja bem. É o discurso mais mistificador que ela fez desde a confusão sobre a mulher de óculos escuros. Drago se manteve em contato com sua origem no além por mais tempo que a maioria das crianças. Mas não. Nós temos filhos para aprender a amar e servir. você ainda é ignorante. Estou começando a simpatizar com o pai dele. Por isso é que as almas descem do seu reino lá em cima e se submetem a nascer de novo: para que.” “Como ele reage?” “Fecha uma cortina. Nós temos de aprender. mesmo que eu fale por imagens.

“Bom! Senhor tem visita nova!” Durante um momento. outro ali. Blanka diz obrigada. banhado em pétalas de limão. Ela ainda. resposta idiota. “Mr. Costello usou para vendar seus olhos. pfu!. quando ele menos espera. diz ela. a meia que por alguma razão ele amarrou na base do abajur de cabeceira e esqueceu. “Muito bom! Sua amiga gosta de limão. Drago ainda não voltou da escola. hã? Bom. Não arroz. hã? Na Croácia. “Aí. eu bati e não veio ninguém. Por causa da louca paixão por sua faxineira que foi tolo a ponto de declarar. Quer que eu faz chá?” “Não. obrigado. A ausência de minha perna não vai bem.outro lado. “Como vai a perna?” “A perna? A perna vai bem. tenho certeza. filhinha do papai. Da ponta de Drago na conversa. E tudo por sua causa. Marijana aparece. Por causa da tempestade que você provocou.” “Não foi nada. Depois reconhece o que ela está segurando para inspecionar: a meia de náilon que mrs. flor de limão. Não muito boa mais. uma tarde. Marijana abre caminho pela bagunça do chão e apóia-se no pé da cama. boa e sossegada”. Ele tem de se adaptar.” O humor de Marijana. . hã? Desculpe? Não quer chá? Certeza? Como senhor e Drago se dão?” “Nenhuma reclamação. pfu!.” “Senhor e ele ficaram amigos. ele não consegue entender o que ela quer dizer. Costume antigo. Por causa da criança. Marijana trouxe Ljuba com ela.” Pergunta idiota. sabe. Nada sutil.” O que ele entende como: ainda existem dois campos na família Jokić. Me faz bem. Me anima. que é em croata. Paul Rayment. Então. ele tenta esconder a irritação. diz ela. Como a perna pode ir bem? Não existe perna. é abençoado com freqüentes telefonemas. carro pega senhor. ele está tirando uma soneca. “Senhor tem vida boa. ele escuta apenas um monossílabo aqui. Para terem muitos filhos. se aspira ser um dia seu noivo espiritual. Rayment.” “Blanka um dia vem dizer obrigada em pessoa. isso é que ela devia perguntar. Aí. Mas não hoje. Marijana leva a meia delicadamente ao alcance do nariz. A gente até que se dá bem. A ausência de minha perna deixou um buraco em minha vida. família Jokić pega senhor. sabe. A perna em questão foi arrancada faz tempo e incinerada. Como vai a ausência de sua perna?. “Flor de limão!”.” Ele está zangado de ter sido pego dormindo. o campo do pai e o campo da mãe. como qualquer pessoa com olhos na cara consegue perceber. estar com gente jovem. a gente joga flor de limão na mulher e no homem quando eles casam na igreja. se quer a verdade. acordei senhor? Desculpa.

Adorada. ele nota que seus pés são largos e chatos. nós já nos conhecemos o suficiente agora. ela pergunta. diz ela. ele pensa consigo mesmo.k. exercícios de alongamento. diz ela. pare. Estende uma toalha discreta sobre o meio do corpo dele. nem agora. Tirou as sandálias.” Marijana sai da sala. “Hora de privacidade para mr. tão .. as unhas estão pintadas com um surpreendente vermelho-escuro. “Agora.k. diz ele.” “O. “Não vou explicar. “Precisa ajuda?”.” Marijana segura a meia com o braço estendido e ostensivamente deixa que caia no chão. enxuga com pancadinhas da toalha. não fale nisso. ele diz a si mesmo. Depois do alongamento. Rayment? Só bebezinho acha isso — corta. para ter nosso pequeno contretemps. mr. fecha a porta. Está tudo bem. Nada. “Bom”. “Ljubica.. “Vá fazer desenho para mama. A menina não responde. Não dói? Não coça?” Ele sacode a cabeça. toda enfermeira deve estar acostumada: homens sob seus cuidados ficarem fisicamente excitados. Ele sacode a cabeça. diz ela.“Não é o que parece”. “O. melhor assim.” Ela conduz a menina para fora. de encerramento. Marijana e eu.” Desliza o polegar pela cicatriz. nem nunca. Deve ser por isso que é sempre tão rápida. levanta o coto no colo. Não quero falar.” Cai um silêncio.. “Quer saber o que eu acho? Não acho nada.”.. “Oi.” O termo carinhoso soa estranho em sua boca. da cor de uma batida forte. Qualquer coisa. é? Acha que perna cresce de novo. habilmente desenrola a bandagem. depois fazemos exercício como sempre. ver sua perna e dar banho.. Só aceite o que eu digo. e começa a ensaboar o coto. Ljuba”. amigas vem visitar. “Nada de próstese. quase roxo. Está atrasado com exercício. Depois da primeira massagem. Já tivemos essa conversa antes. por favor. Pensa na idéia com tamanho fervor que é impossível que ela não se comunique para Marijana. tira a calça. começa a primeira massagem. Marijana volta com uma grande bacia. O assunto está encerrado. a segunda massagem. Adoro esta mulher! Apesar de tudo! E também: Ela me tem na palma da mão! Marijana termina de lavar o coto. Que isso não acabe nunca! Ela deve estar acostumada. presunçoso. ele pensa consigo mesmo. o. diz ele. Senhor fica em casa. dá um tapinha de aprovação na coisa nua. diz Marijana. Rayment”.. Por favor.” “Marijana. Não é o que você pensa. eu daria qualquer coisa para. Tem certeza que não quer próstese?” “Não quero a prótese. O mau humor dele está evaporando como névoa matinal. Ljuba continua olhando para ele com os grandes olhos negros que ele acha cada vez mais impressionantes. não falo mais da próstese. Mas o rosto de Marijana fica impassível. “Deite”. hã? Talvez senhor não faz exercício tão bem quando fica sozinho. cresce de novo. pela primeira vez. “Mais barato.k.

“Agora o lado esquerdo.. Tão longe!.. Felix lapsus. pelo menos preenche o que de outro modo seria um vasto e devorador buraco vazio.” Ela arruma a toalha para mantê-lo composto. ele pensa de novo. caída para longe de Deus. Os braços morenos. mama?”** . o inchar do desejo. Números que sobem.. agora relaxe”. ele pensa. o inchar do coração. o que quer dizer que não considera o dia de hoje um dia de trabalho.* Tudo é para o bem. Marijana não está usando o uniforme azul. essa urgência. Antes da Queda. as pernas morenas. Está usando um vestido verde-oliva com cinto preto e uma pequena abertura do lado esquerdo que revela um joelho e um vislumbre da coxa. todos os movimentos do corpo estavam sob a direção da alma. os polegares encontram um nódulo dolorido no alto de uma nádega e começam a desmanchálo. que partilha a essência de Deus. Se Wayne ouvisse isso. contrabalançando. se hoje nos encontramos à mercê dos movimentos caprichosos de partes corporais. E graças a Deus Costello não está ali para observar e comentar.. o que ele haveria de dizer! Se não fosse Wayne Blight ele nunca teria conhecido Marijana Jokić. Provavelmente é assim que são treinadas a lidar com a excitação masculina. afinal. Agora. Portanto. Eu daria qualquer coisa! E de alguma forma essa qualquer coisa! e a sua admiração pela roupa verde-oliva. Se não fosse Wayne Blight ele nunca teria sentido essa pressão. diz Agostinho. As mãos de Marijana deslizam por baixo da camisa dele. “O. ele tem de fazer pressão para a frente. “Agora: encoste em mim. não são diferentes de seu amor por Deus. que o fez dormir antes e que não foi desligado.. Momentos animados em uma palestra sob outros aspectos maçante. um homem está falando da indústria automobilística coreana. esse amor. apoiando o peso contra ele. “Bom.. frente. O melhor é. Os dois mantêm a posição brevemente. ou pelo menos não o considerava assim ao sair de casa.prática. Felix.” Ela ergue o vestido e monta em cima dele. ele agarrado à beira da cama. ele pensa. que. isso é conseqüência de nossa natureza decaída. porque ela evita olhar nos olhos dele. resistindo. felix. Não consegue imaginar como amar a Deus mais do que ama a Marijana neste momento.. Esses movimentos são involuntários e são embaraçosos tanto para o paciente como para a enfermeira. Deus. um movimento único: o inchar da alma. que ele acha irresistivelmente atraente. Isso às vezes acontecerá. nus. Mas o abençoado Agostinho tinha razão? Os movimentos das partes corporais dele próprio eram caprichosos? Tudo lhe parece uno. “Sto to radis. Tão perto e tão longe! Peito contra peito poderiam muito bem estar os dois. se não existe. diz Marijana. números que descem. apertando seus seres decaídos um contra o outro..” Ela aperta o coto para trás. No rádio. juntos: ela apertando a coxa encurtada com ambas as mãos. É importante compreender..k. lisas: Qualquer coisa!. Obrigado.

Ele abre os olhos num sobressalto. quando a menina falou. (N.k. Rayment está com dor”. “momento feliz”. diz ela. Rayment. “O que você está fazendo. lutando com a mãe dela. feio.) . calça as sandálias. Ali está ele. Marijana”. ele sentiu Marijana se imobilizar. O. À distância de um braço Ljuba está olhando diretamente para ele. “É feio. Por um momento. “Mr. T. mr.) ** Em croata. (N. Talvez dor vá embora agora. velho. seminu e sem dúvida malcheiroso para aquelas narinas angélicas. lembra?” “Já basta por hoje. Ela agora retoma o ritmo da massagem.” Marijana sai da cama. Não há como não perceber a severidade daquele olhar. diz. pega Ljuba pela mão.” * Em latim. os dois travados em uma postura que não tem nem a repulsiva majestade do ato sexual. ele diz. “Obrigado. mamãe?”. “Não chupe o dedo”.. T. peludo. “Mama enfermeira. apressando-se em cobrir o corpo.

como Costello está sempre a lhe dizer. Marijana mal acabou de sair quando se ouvem vozes na escada e Ljuba reaparece com Costello e Shaun. a paternidade não do tipo espiritual. o melhor seria ele descobrir a paternidade como ela é de fato. infreqüentes aplicações de cuidados de saúde do tipo profissional. Paul”. Shaun hoje vestido com camiseta solta e bermudas até as panturrilhas. ele chama.” Ele e ela ficam sozinhos por um momento. “Venha tomar um iogurte!” A menina o ignora. os dois estão tendo o que soa muito parecido com uma briga. Porém. fazendo barulho. dominando-a. rápida e insistente. saltando para cima e para baixo dos degraus. Sem problema.25. “Ljuba!”. A voz dela. é?. querida. talvez até outra sessão de cuidados corporais. diz Costello. a tiracolo. diga para Drago que Shaun está aqui. mais e mais irregulares. Marijana trancou-se no escritório com Drago. “Tudo bem se eu deixo Ljuba aqui? Ela fica com Drago. “Espero que não se importe de a gente ir entrando. um pequeno mecanismo do banco transfere dinheiro da conta Rayment para a conta Jokić. Duas vezes por mês. Marijana sai do escritório. o amigo de Drago. “Não é bem da mesma classe de Drago. “Olá. em troca do lar postiço que fornece a Drago. diz Costello. ele recebe — o quê? Serviços de compras. como um relógio. Ljuba está na escada. É sábado. mas evidentemente isso não vai acontecer. Uma troca não desvantajosa. sobe de vez em quando acima da voz do filho.” Ele estava esperando receber de Marijana um pouco mais do que aquilo que paga para ela fazer. se ele quer ser pai. Em troca desse dinheiro. Ljuba. “Mas é assim que deuses e anjos parecem ser: escolhem os mortais mais perturbadoramente . o nosso amigo Shaun”. Volto depois para pegar. do ponto de vista de Marijana. os dois mais velhos.

Não há nenhuma ruína espetacular pendendo em cima da cabeça dele. Então. do tempo de minha juventude. “Tem uma história que sempre penso contar que acho que vai ser divertida para você”. Pode até escolher o ramo dos imóveis. Elizabeth Costello murmura. como escolher. Devia ter uns catorze anos na época. “Por câmeras. as do século XIX. Uma Hasselblad é igual a um veleiro para ele. funileiro ou alfaiate. mr. Ele também passa horas olhando minhas fotografias. ou um trirreme. Um dos meninos da nossa rua era muito parecido com Drago.” Ele fica quieto. Uma antigüidade.” “Não têm tempo nem para Drago Jokić? É essa a moral de sua história?” “Não têm tempo nem para Drago Jokić. Jokić no centro. Mas cuidado e coloque de volta nos estojos depois que acabarem. ele era um pouco mais velho. do tipo eletrônico. a mesma beleza não inteiramente humana. Ele deve estar tentando . não virei nunca uma filha de Deus. ela.” “Drago se interessa por fotografia?”. eu ainda rezava. Ele pode relaxar. mas talvez não seja tão esquisito afinal. Cílios foi que havia se casado e mudado para a Costa Dourada.” “Como nós todos. seja para nos amar por um lado ou nos castigar por outro. Eles já têm problemas suficientes em sua comunidade fechada. ela continua. A última notícia que tive de mr. Seria esta a verdadeira explicação de por que a mulher apareceu para ele do nada: não para introduzi-lo num livro. Meus anseios de donzela nunca foram satisfeitos. Para variar. com sua imprudente e até esse momento infrutífera paixão por mrs. Só conhece as novas. Achei esquisito no começo.’” “E aí?” “Deus não prestou nenhuma atenção. mas para induzi-lo à companhia dos mais velhos? Poderá afinal toda a história dos Jokić. não ser mais que um complicado rito de passagem para o qual Elizabeth Costello lhe foi enviada como guia? Ele pensara que Wayne Blight era o anjo designado para esse caso. Rayment?” “Podem. ‘permita que ele me dê um só dos sorrisos dele que serei sua para sempre. ‘Deus’. estão os dois do mesmo lado: dois velhos se juntando contra a juventude. mas talvez eles trabalhassem juntos. Nem o menino. Ele nunca viu nada igual às minhas. até amigável. Drago enfia a cabeça pela porta. Os mesmos olhos. eu dizia. “Vem do passado distante. onde está ganhando fortunas no ramo imobiliário.” “Como nós todos.” É a primeira conversa que ele tem com Costello que chamaria de cordial. Wayne e Drago.comuns para consorciar com eles. “Shaun e eu podemos dar uma olhada nas suas câmeras. ai.” “Então é tudo mentira: quem os deuses amam morre cedo?” “Temo que sim. Drago está por sua própria conta. Naquele tempo. os mesmos cílios. Pode ser marinheiro ou soldado. Temo que os deuses não tenham mais tempo para nós. Eu era apaixonada por ele.

uma ascendência australiana. depois.” Ele acena com a mão em um gesto que imita o dela. aonde se vai para se aquecer. e ele segue atrás feito um carneiro. diz Elizabeth Costello. “Sempre achei esse conceito muito inglês. quando declarei minha independência e voltei para a França.”a “Que rima com vraiment. Ele encolhe os ombros. Drago amarrou com elástico uma boneca nas costas da irmã.” “É isso que ele diz para você?” “Não. tem de me contar mais sobre esse período da sua vida. Não me sinto em casa na França. Os dois rapazes estão sentados na frente da tela da televisão. além da cidade. Mr. “Você sabe que não precisamos agüentar isso”. depois. que rima com payment. “E Marijana? Não tem vontade de se juntar ao nós de Marijana e Drago? E Ljuba? E Blanka. que emite apitos e zumbidos baixos. O meio-dia passa e Marijana não aparece.b Tive três doses da experiência imigrante. e isso o deixa ligeiramente enjoado. fazendo um zumbido igual ao de um aeroplano. Será este o meu lugar?.c dizem os ingleses. Shaun trouxe alguma espécie de jogo eletrônico. Primeiro. ele nunca me diria uma coisa dessas. A experiência imigrante não me é estranha. Eu não sou o nós de ninguém. Mas eu posso adivinhar. ele retruca. antepassados australianos do tipo espiritual. Nós podemos sair quietinhos. Rayment. Posso ficar do lado dele. de lamentar a própria sorte. no meio da nossa gente.” É o mais próximo que chegou. Não. Em vez de ser apenas um rapaz refugiado com um nome de piada. quando desisti da França e voltei para a Austrália. os montes. O lugar onde não se é abandonado no frio. uma sugestão jogada ali. em quem você nunca pousou um olho?” “Isso é outra questão”. Um cavalheiro anglo-adelaideano tão perfeito que esqueço que você não é inglês. Hearth and home. “Eu pareço ser frio em todo lugar aonde vou. Isso é transparente. como sabe. montanhas e desertos do continente. É este o meu verdadeiro lar?” “Você voltou para a França — eu tinha esquecido disso. voltar para o parque. quando fui desenraizado em criança e trazido para a Austrália. os braços esticados.descobrir como é ter um passado australiano. Eu sempre esqueço. lar. mas também a cidade e. Mas qual é a resposta para sua pergunta? Aqui é o seu verdadeiro lar?” Ela acena com a mão em um gesto que abrange não só a sala em que estão sentados. esses jovens. não só uma. “Eles não precisam de babá. eu perguntava a cada movimento. com Costello. Para eles. não estou aquecido aqui.” “Claro. ela trota de cômodo em cômodo. de forma que ficou bem profundamente gravada em mim. numa paródia. Não foi isso que você disse de mim? Você é um homem frio?” A mulher fica calada. Não sou o nós de ninguém: como ela consegue arrancar dele palavras assim? Uma pista jogada aqui. Entre os franceses estar em casa é estar entre os nossos. “Entre os franceses. E não vai se deixar levar adiante. não existe home. . Um dia. home é um lugar onde o fogo queima na hearth.

silenciosas como ratinhos. para ele e vira-se para ela. Elizabeth suporta bem a investigação. deixa o cachorro fazer o que quer com ela. Uma época inesquecível. Parecia prometer segurança e era isso que minha mãe queria acima de tudo para mim e minha irmã: que encontrássemos para nós um nicho seguro nesta terra estrangeira. De forma que quando fui para a universidade me matriculei em ciências.f era o que ele dizia. segundo ele.” “Achei que você achava que os franceses eram ótimos na paixão. Me contando da França. o que em inglês era mais uma addere do que uma víbora. as garotas nunca registraram sua existência. Ótimos para organizar. Me deixou com um filho nas mãos. ou apenas saboreando os cheiros novos. muito mutável. Em todo o tempo em que moram em Coniston Terrace. complexos? Ele sempre pensou em Elizabeth como um ser assexuado. “Paixão e ordem. depois o empurra. não era excepcional em nada. saiba melhor. Mas chega disso.” Ele está preparado para aceitar uma ajuda de Marijana. . Ele me deixou. “Bom”. Podemos considerar isso nossa pequena excursão de fim de semana. Enquanto desce. Mas continue com a história de seu caso amoroso com a França. não uma ou a outra. por outra mulher. Ele a cumprimenta com a cabeça. nossa pequena aventura. é ultrapassado por uma vizinha. Paixão. uma garota esguia.. confiando em seu nariz. Eu fui casada com um francês. apenas bom. o apartamento em cima do seu. Estávamos falando de você. Vipèred era outro termo que ele aplicava a mim. Sempre embaraçoso quando um cachorro enfia o focinho nos fundilhos de uma mulher. Paul. Não excepcionalmente bom. Minha irmã foi ser professora. Ótimos para saber onde estão pisando com você. que afinal de contas é uma enfermeira paga.” “Não é uma longa história. e eu fui para as ciências. que era um jeito de ter segurança. Eu era. Manda Costello esperar no saguão de entrada enquanto batalha com a escada em suas muletas. “Você estava me contando. Sale vipère. Ciências parecia uma boa escolha naquela época.” Ela volta para ele um olhar reflexivo. mas talvez um cachorro. Ele e Costello encontram um banco vazio. bem-humorada. de Cingapura. As duas coisas. onde o homem que ela havia acompanhado. Um cachorro passa trotando: dá uma rápida olhada. Autosuficiência. não ordem. os franceses. Nunca sabia onde estava pisando comigo. de sexo canino. Estará se lembrando de sexo. diz ela. altiva. Cada um por si: isso é que devem ter ensinado a elas em sua nação-ilha. que ocupa junto om suas duas irmãs. sabe Deus por quê. onde ela se debatia com a língua e não conseguia captar o jeito local de fazer as coisas. ela não corresponde à saudação. no fim. Na escola eu era bom em ciências.Podemos sentar na sombra e ficar ouvindo os passarinhos. onde não tínhamos família com que contar. Não contei? Meu primeiro casamento. estava se recolhendo cada vez mais em si mesmo.” “O que eu estava contando?” “Estava me contando a história de sua vida. mas não de uma mulher mais velha que ele próprio.. de óculos.

Roger. Ela era do Marrocos: isso realmente me isolou. a família é tudo. da família de minha mãe. e tão duradouras quanto.g Para mim foi um choque. Mas você não sabe disso tudo? Achei que sabia tudo sobre mim. repolho cozido e tudo. Então larguei a universidade e comprei uma passagem para a Europa. já que não tinha nenhuma ligação com a Inglaterra. até onde pude. australianos eram simplesmente ingleses. transplantados para o fim do mundo. Eu era sempre o que sobrava. Não conseguiam entender o que eu estava fazendo lá. uma era passada. porque na França de onde viemos. Um homem com uma perna só e uma paixão infeliz pela enfermeira. “Eu tinha um amigo.“Mas então minha mãe morreu e parecia não haver mais sentido em usar um avental branco e espiar dentro de um tubo de ensaio. de repente. Estou falando dos anos 1960. Tinha perdido muito daquilo que deveria ter sido a minha formação: não só uma educação escolar adequadamente francesa. É diferente hoje. a primeira vez que ouvi isso. com que rapaz ou garota iam casar. claro.” “E aí?” “Não me saí bem. “Depois. passávamos as noites ao ar livre. me chamavam de l’anglais. pessoas da minha idade. “Foi naqueles dias antes do romance dos franceses com o automóvel se firmar de verdade. o estranho no canto nas reuniões familiares. lutando pela vida no meio dos kangourous. A primeira de minhas paixões . Entre eles. eu e ele arrumávamos as mochilas e partíamos de bicicleta para SaintGirons ou Tarascon.” “Isso é novidade para mim. que fazia entregas para o estúdio onde eu trabalhava. Nunca dissemos muito um para o outro. Aos olhos deles. Mudou tudo. Mesmo antes de sair da escola. onde iam viver. o melhor copain. vasculhar o campo de bicicleta não era uma coisa tão estranha assim. Meus primos podiam ser mecânicos de automóvel e chefes de estação. aquele sujeito magrelo de sotaque engraçado e ar perplexo. Não fui recebido. Mas a Austrália estava além do horizonte deles. tinha outros usos para meus fins de semana. porque também não sabia. digamos. de braços abertos. Comíamos em cafés. Você me veio sem nenhuma história. Sua vida anterior era território virgem. Fiquei com minha avó em Toulouse e arrumei trabalho em um laboratório fotográfico. ou mais longe nos Pireneus. até Oust ou Aulus-les-Bains. que podem ser tão intensas quanto o amor. inclusive amizades jovens. porém agora ele me parece o melhor amigo que eu tive. a França camponesa. mas uma juventude francesa.” “Fiquei com minha avó e tentei me aproximar. ele e eu. As estradas eram mais vazias. voltávamos domingo à tarde exaustos e cheios de vida. me envolvi com uma garota e. Paul. sabiam que métier iam seguir. e eu não podia dizer a eles. já estavam assentados na vida. só isso. mas no fundo ainda eram camponeses. distantes apenas uma geração do pão preto e do esterco de vaca. Meus primos e as pessoas que conheci por intermédio deles. nunca nem tinha ido lá. pedalávamos o dia inteiro. capas de chuva. Foi assim que começou minha carreira em fotografia. Nas tardes de sábado. juro.

Um inglês tem lar. eu sempre me senti uma espécie de boneco de ventríloquo. Foi tudo muito decoroso.” “E aí?” “Só isso. diz ele. Não sou eu que falo a língua. Eu tenho um domicílio. “Não é significativo. Quanto à língua. corrige-se. muito respeitável. como dizem os ingleses. é só disso que se trata na questão da identidade nacional: onde passar por. se a família dela não tivesse tornado isso impossível. uma residência. não pode nem mesmo andar. os que ficam com os pés plantados na sua terra natal. Um pombo tem lar. se arrebenta no chão.” “Realmente.” “Mas é significativo.” “Posso passar por australiano. residentes temporários. Não tem nada a ver com fluência. Ela estava estudando para ser bibliotecária. Costello. Elizabeth”. em vez disso. até ser chamada para casa. existem as borboletas. um dia. Sem dúvida uma lição se apresenta aí. Lar é místico demais para mim.inadequadas. dá para arrancar uma lição da seqüência de acontecimentos mais fortuita. não é nada mais que uma massa de carne muito sólida. como tenho certeza de que pode perceber. Meu país. você sofre uma queda.” “Mas você é australiano. e onde não. o inglês nunca foi a minha língua do jeito que é a sua. depois. é só uma biografia do tipo incoerente. Paul!” “Não caçoe. mon coeur. Uma lição. como dizem os franceses. Sou vazio no cerne. Não é francês. talvez. Não veio junto com o leite materno. pousando ali. Mas o inglês me veio tarde. não veio de jeito nenhum. é a língua que se fala por meu intermédio. uma queda calamitosa. Minha cidade. Com um pouquinho de engenho. Está tentando me dizer que Deus tinha algum plano em mente quando me jogou no chão na rua Magill e me . pousando aqui. uma mancha no imaculado lençol doméstico.” “Lar. mrs. Até eu vejo isso. Como um dedão machucado. O que quer dizer isso? Já disse o que acho de lar. Sou perfeitamente fluente.” “De volta ao lar. O pai dela mandou chamar. Na verdade. Fiquei em Toulouse mais seis meses. ao contrário.” Ele hesita. criaturas da luz e do ar. onde. como você pode ver. quer ser uma borboleta. mas aí. acabou o caso. Esta é a minha residência..” “Atingido pelo raio da paixão! E por uma donzela exótica além do mais! Material para um livro inteiro! Que magnífico! Que extravagante! Você me surpreende. de verdade que é! Sabe.. uma abelha tem lar. e quando se levanta descobre que não pode mais voar como um ser etéreo. ela obedeceu. No que me diz respeito. Em particular. e desisti. ou como uma mancha. Paul. “Não tente carregar esta conversa com mais sentidos do que ela é capaz de suportar. tem gente que eu chamo de ctônicos. Não vem do meu cerne. Ela e eu podíamos ter casado. a pessoa se destaca. uma lição para a qual você não pode ficar cego e surdo. Não posso passar por francês. me parece. estava a ponto de dizer. Este é o meu apartamento. Você diz ser uma borboleta.

se não se importa que eu diga. Paul”. Se quer se divertir” — ele acena a mão para os corredores. não estava inventando história. de qualquer malícia. Para ser preciso.” Ele dá de ombros. Que lição Deus tinha em mente quando atingiu você no coração?” “É verdade. deixando a tarde passar. “Não fui posto no mundo para divertir você. Podiam voltar para o apartamento ruidoso e desarrumado. Se ele é um bebê ignorante quando se trata das dores do amor. Mas não sou a única que sofre disso. diz ela.” Ele dá de ombros de novo. era adoração. Você pode usar para ilustrar meu personagem ou não. olhando as aves da água se divertirem. E bonita. “mas não a esse ponto. E. Pode-se igualmente dizer que o amor é um raio que cai onde bem quer. Estou velha demais para saltar.” “É de uma época em que eu ainda tinha o estúdio em Unley. Minha mulher não iria me agradecer por oferecer a pessoa dela como um personagem menor em uma das suas obras literárias. os ciclistas. Ela não tinha nenhuma expectativa comigo. de rosto fresco. não era amor. não foi para descobrir como um homem anda de bicicleta com uma perna só. Como eu disse — lembra? —. Traduza o seu problema de coração para mim. Mas não vai discutir com ela. Você é a minha rocha. diz ele. você até agora está sendo uma triste decepção. Paul. Mande.” “Tudo bem. Você também sofre do coração a seu modo — não sabe mesmo disso? Quando fui bater na sua porta. saltando de uma pedra para outra. Qual? “Me conte do seu casamento”. “tem uma ampla gama a explorar. Uma garota de vinte anos. “Você quase nunca menciona sua mulher. Uma xícara de chá desceria muito bem. não. “Eu posso ser caprichosa. Eu tinha duas assistentes e uma delas acabou se apaixonando por mim. O amor é uma fixação. Por isso podia ser tão aberta a respeito. . Eles podiam atravessar a ponte até a casa de chá na outra margem.” “Melhor não”. Está cansado de discutir. Ou podiam esquecer o chá e continuar vadiando ali à margem do rio. o amor é uma fixação. Caprichosa: caprina. a boa gente que leva os cachorros a passear —. como quiser. Uma garota perfeitamente inteligente. diz Elizabeth Costello. eu sofro mesmo do coração. vou contar uma história da época do meu casamento que não envolve minha mulher. não vê Costello muito melhor. “Seria impróprio. Por que perder seu tempo com alguém que tanto exaspera você com seu embotamento e está sempre decepcionando? Desista de mim como um trabalho que não deu certo. até onde ele pode perceber.transformou em um aleijado? E você? Você me disse que sofria do coração. Está com sede também.” Ela se vira e lhe dá um sorriso desprovido. Vá visitar outro candidato. Eu fui para descobrir o que acontece quando um homem de sessenta anos compromete seu coração com a pessoa errada. Vou ficar com você por enquanto. Mas se é história que você quer.

a mãe perguntou. Fim da história. ela nos disse que tinha conversado com o senhor e que o senhor tinha ficado bem chateado. Falei com a colega dela.’. havia um recado na minha mesa: ‘Toda vez que precisar de mim. simplesmente parou de vir trabalhar. no que era a politécnica.’ “No dia seguinte.bonita. eu disse para ela.” “E aí?” “Só isso. ‘Ninguém tem de agradecer a ninguém. Princípios de fotografia. atarracado. Nenhum regime podia salvar aquele corpo. obrigada!’. nada chateado. Eu fiquei bem chateado: ao lado da lição de amor. ouvir. E aprendi uma lição: que o amor não precisa ser recíproco. “Ela trabalhou para mim mais dois anos. para absorver essa lição. Não podia fazer nada a respeito.’ Era assim que ela definia ficar a sós comigo: ter a liberdade de sentar na classe. Mas não telefonei mais para ela. Sem uma palavra. Paul. Ela nunca ficava vermelha. Uma vez bastou.. especialista em coração. Mas não foi nada humilhante. Porque eu não fiquei chateado. Ah. Sem ficar vermelha. Sentava no fundo e ficava olhando para mim. Eu chegaria mesmo a dizer que foi alegre. “Eu estava dando aulas num curso noturno nessa época. desapareceu. sem censuras. Ela foi e fomos para a cama. eu disse. Três noites por semana. Não anotava nada. Deixei um recado para ela: um horário. Será que a garota realmente pensou que eu ficaria chateado porque ela deixou o emprego? Ou a história de o patrão ficar chateado era só alguma coisa que ela contou à mãe para não ficar parecendo muito abjeta?” “Está perguntando a minha opinião? Eu não sei a resposta. “Você provavelmente está esperando que eu diga que foi uma experiência humilhante. Desobedeci à regra. mas sabia disso? Se você ama muito profundamente. Ellen?’. ‘Tudo bem’.” Costello fica silenciosa. “Ela me agradeceu. Sem lágrimas. ‘É a minha única chance’. “‘Não acha que isso está ficando excessivo. contanto que haja amor suficiente no quarto. Depois. essa foi a parte que mais me interessou. “Eu tinha uma regra: nunca me envolver com funcionários. transfigurar a garota em uma sílfide. não precisa ser amado de volta. eu disse. disse a mãe. minha outra assistente. não tentei repetir a experiência. nada mais. corpo de jogador de rúgbi. ‘Sua única chance de quê?’ ‘De ficar sozinha com você. manteve uma distância correta porque era isso que eu parecia querer. Ellen tinha arrumado um emprego novo e mudado para Brisbane como representante de uma companhia farmacêutica. Dizer que você. Você é escritora. mas ela não sabia de nada. Não estava sabendo?. para ela e conseqüentemente para mim. Telefonei para a mãe dela. com um corpo sólido. Ela não avisara? Não. chorando e ofegando ‘Obrigada. essa garota ia à minha aula. obrigada. Ficou em meus braços. assistir. ela respondeu. Mas nesse caso cometi um deslize. um lugar. patrão .. Essa garota tinha amor suficiente para dois. estou sabendo agora.

obrigada! É o obrigado. Obrigado por me deixar dar dinheiro para você. Eu simplesmente peguei a sua pista. e bem contada também. é o Abbéh de Cîteaux. preservar as verdadeiras. não é Deus. Até a interpretação que você faz é interessante. Achei interessante. Será que você é mesmo tão patético?” Ele enrijece. obrigado! que você planeja dizer para Marijana se e quando ela ceder a você? Por que você não disse Obrigado. Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades. mas não é o que me interessa. Marijana (Marijana com j desta vez). descartar as histórias falsas. Depois eu digo alguma coisa que você não quer ouvir e você imediatamente se fecha. a história de você com sua jogadora de rúgbi. igual a cerveja? Que. você disse. eu estou pouco me importando se você me conta histórias inventadas. É a vez dele? Ele não tem mais nada a dizer.” Ela faz uma pausa. Foi você que trouxe a mulher para mim. Você teve sonhos com ela. Se eu tenho um modelo. Obrigado por me deixar amar seus filhos. você podia acrescentar. O que me interessa é o Obrigada. contanto que você leve uma embalagem. Paul”. Disse que quer ouvir histórias. repito. Sinto muito se não gosta dela. o francês. Mas o que interessa se é verdade? Sem dúvida não cabe a mim fazer papel de Deus e separar o joio do trigo. “Você me pediu uma história.” . levanta uma sobrancelha para ele. Eu não disse que não gostei da sua história. sai furioso ou me pede que vá embora. ela retoma. Foi porque pagou para ela.dela. aquele que disse para os soldados que estavam sob seus cuidados pastorais: Matem todos — Deus vai saber quais são Dele. aquela que você selecionou para suas atenções porque ela não seria capaz de enxergar você em seu estado tristemente reduzido?” “Eu não selecionei ninguém.” “Claro que é verdade. obrigado! para a mulher que arrumei para você. Acha mesmo que amor pode ser medido? Acha que amor vem por volume. Você selecionou a moça no elevador do hospital. “como as conversas entre eu e você acabam caindo sempre no mesmo padrão? Durante algum tempo tudo corre muito bem. “Não. ficou chateado pode ser a parte da história que você acha interessante. Mas a pergunta que está me infernizando é a seguinte: por que ele escolhe essa história para me contar. Se verdade e mentira são a mesma coisa. Será que não podemos ir além dessas explosões? Não temos mais muito tempo. eu te dei uma história. Paul. de coração vazio? Obrigado. por me deixar amar você. então discurso e silêncio podem ser a mesma coisa também. eu ofereço histórias e não recebo nada em troca além de escárnio e desprezo. a outra parte tem permissão de ir de mãos vazias — de mãos vazias. Por que não agradeceu a ela?. e pagando você não precisa dizer obrigado? Sua jogadora de rúgbi tinha amor suficiente para dois. nenhum de nós. “Você percebe.” “Bobagem. o famoso. Que tipo de troca é essa?” “Que tipo de amor?. essa entre todas as outras?” “Porque é verdade.

Continue. sendo morta pelo tempo. T. (N. (N.” “Você pensa que eu acho esta existência menos difícil do que você? Acha que eu quero dormir ao ar livre.) h Em francês. (N. aos olhos frios de Deus.) d Em francês. a “Pagamento”. nossos dias estão contados.” Ele sacode a cabeça. porém estou aqui. esperando — esperando você. (N. “Força!”. T. “sinceramente”. ela diz.) f Em francês.) b Em francês.(N. “mensalidade”. “Não sei o que você quer”. “lar”. “víbora imunda”. indica mais uma pessoa maldosa. “o inglês”. matando tempo. “abade”. “o fogo em torno do qual se reúne a família”.” “Não. perversa. (N. “verdadeiramente”. É uma profissional próspera. T. embora também signifique “cobra”.” Ele dá uma olhada dura nela. Paul.) g Em francês.) e Adder refere-se à cobra da família Viperidae. “víbora”.) c Hearth. Posso estar exagerando um pouco. T. não temos. (N. T. “Você está inventando história. T. desamparado. (N. debaixo de um arbusto no parque. Aos olhos do céu. T. “lareira”. Pode ver como estou declinando. Conforme estou tentando fazer você entender.” “É verdade. diz. T. condizente com a minha condição. maledicente. não precisa dormir debaixo dos arbustos.“Não temos. viper (“víbora”). mas é uma história condizente.) .” “Pode ser. está tão bem de dinheiro quanto eu. e fazer minhas abluções no rio Torrens? Você não é cego. entre bêbados. home. os seus e os meus.

por acidente deixa cair o frasco de xampu. No entanto. AS FOTOS TODAS EM ORDEM. não explicam nada: era melhor acostumar-se com isso. DRAGO. mãe ou filho. Além disso. se desembaraçar do andador. manobrar para sair do boxe. Ele passa a tarde arrumando o escritório. OBRIGADO POR TUDO. depois.26. Sempre tensão. segundo. coisa bem diferente é repartir a própria casa com um rapaz desordeiro e imperfeitamente atencioso. Ele respira devagar. que alívio ficar sozinho de novo! Uma coisa é viver com uma mulher. As “coisas” a que Drago se refere revelam-se um saco de lixo cheio de roupas. quarto. e não consegue sentar sem gemer de dor. muito tempo para acertar as coisas. P. tenta mexer os membros. . MR. o andador. Um tremor de dor aguda percorre suas costas e desce pela perna boa. vão. depois toma uma ducha. Eles vêm. Que não tenha quebrado nada: é sua primeira prece. Uma escorregada no banheiro. DEIXEI UMAS COISAS. primeiro. Ao se abaixar para pegá-lo. terceiro. Muito tempo para pensar. profundamente. avaliar o que fez nas costas. Na mesa do hall. e. pode ser que ainda dê tudo certo. escorrega de lado. Ele perde o equilíbrio e cai. diz a si mesmo. nada para se alarmar. RAYMENT. haver-se com o que vier em seguida. que sempre traz para o boxe. acontece com muita gente. nem sinal dos Jokić. bate a cabeça na parede. um recado rabiscado: TCHAU. O problema está entre o primeiro e o segundo. PEGO AMANHÃ. Acertar as coisas (tenta ficar calmo e lúcido) significará. sempre inquietação quando dois machos ocupam o mesmo território.S. No chuveiro. Fique calmo. Enrolado no andador. às quais ele acrescenta uma cueca que encontra entre os lençóis. colocando as coisas onde costumavam ficar. Não consegue se desembaraçar do andador Zimmer sem se colocar sentado.

diz por entre dentes que batem. no chão de ladrilhos. “Mrs. tive um acidente. que levou uma batida na extremidade mole. mas você pode vir imediatamente?”. imóvel. incapaz de empurrar o andador Zimmer para longe. Boceja até estar com a cabeça leve de bocejar. enquanto a água continua a jorrar. Old blood. o xampu que vaza cresce em espuma à sua volta e o coto.* as palavras martelam sua cabeça.k. Estou o. Quando se aposenta do serviço. enquanto no estábulo atrás da casa a vaca leiteira geme no sono. imaginou Zimmer como uma figura de homem de rosto magro. atende uma voz de criança. conquistando assim uma modesta imortalidade. “Que acidente?” “Tive uma queda. se empenha à luz de velas em cima dos livros de anatomia. Os vinte anos seguintes passa tratando ferimentos e amputando membros em nome de Sua Serena Majestade Imperial Carl Joseph August. Toda a vergonha já desapareceu agora. aterrissa em Bad Schwanensee. Que confusão!. liga para o número de Marijana.” “Venho. e depois: “Marijana. Não há calor suficiente nas veias. nem ninguém ao alcance de um grito. Jokić. Depois de passar raspando nos exames (não é um estudante dotado). por favor”. depois de diversos passos errados. começa a latejar. lábios apertados. Certamente poderá ficar caído ali a noite inteira sem correr nenhum risco de ninguém caçoar dele.. .” Agarra e puxa as cobertas da cama e se enrola nelas. espasmos o dominam durante os quais fica rígido demais até para tremer. Não consigo me mexer. um dos spas menos importantes da Boêmia. mas não consegue se aquecer. Ali tem a inspiração de adaptar para as mais frágeis entre suas pacientes um aparelho que lá na Caríntia vem sendo usado há séculos para ensinar crianças a andar. Arrasta-se pelo chão até o telefone. vestido com colarinho alto e gravata larga dos anos 1830. em não ter nem Drago.Ninguém se deu ao trabalho de informá-lo e ele não pensou em perguntar quem é ou foi esse Zimmer que veio a desempenhar tal papel em sua vida. Leva uma boa meia hora para escapar da prisão que armou para si mesmo. não só o couro cabeludo e o nariz. nem Costello. um tipo especial de dor. apelidado O Bom. cold blood. pensa. ele se vê debaixo de uma ducha fria. As torneiras estão além de seu alcance. decidido a escapar do tedioso trabalho na fazenda da família. Incapaz de se levantar. Uma delas é que. consegue um posto de cirurgião do Exército. com a invenção de Zimmer em cima dele bloqueando a porta do boxe. para tratar de mulheres de classe alta com artrite. Não só as mãos e pés. Para si próprio. mas ao amanhecer terá morrido congelado. nu. como a própria barriga e o coração estão tomados de frio. porém. Graças a Deus Drago não está aqui para ver isto! E graças a Deus Costello não está aqui para fazer piadinhas! Há desvantagens. ao acabar a reserva de água quente. até que as dobradiças estalam. por fim rilha os dentes e força a porta do boxe para fora. Johann August Zimmer. Agora ali está. Fiz alguma coisa nas costas. filho de camponeses austríacos.

mas essa presença macia. se eu fumo?”. “Agora quem sabe pára com essa história de chuveiro sozinho. eu entendo. pronto. consegue sentir o gelo dentro dele começar a derreter. fique calmo. “O. outros humilhantes pedidos de ajuda. obediente. O que ele precisa nesse momento. nenhuma reprimenda de mrs. Então. Nenhum osso quebrado. é natural. eminentemente feminina. Rayment. “Cuidado.” “Instável. Como aconteceu deve estar muito claro pelo caos do banheiro. É essa a palavra que você está procurando. coloca um comprimido entre os lábios dele. Com os lábios congelados. Senhor tem sentimento. fala coisa. tenta formar um sorriso. nenhuma gozação de mrs. pergunta ela. Sofro um acidente e fico profundamente . geme. Na verdade.” Graças a Deus. “Não pode ficar mais um pouco?”. sentimento de homem. de repente. ele tem um súbito sentimento de aflição. a presença tranqüilizadora de um anjo que deixou de lado tudo o mais para vir em seu socorro. fecha os olhos.Tem uma visão de si mesmo pendurado pelos tornozelos em uma câmara fria em meio a uma floresta de carcaças congeladas. não é dessa desanimadora e deprimente perspectiva. com força surpreendente levanta-o do chão para a cama. Não há mais chá. Falo demais. Sou muito instável para o seu gosto. depois. mas pelo gelo.” Embora a dor pareça estar diminuindo. consoladora. formar palavras. “É.k. outras quebras.” Ele concorda com a cabeça. eu entendo. Que é mercê dos sentimentos?” “Não importa. Pronto.” “Senhor passa momento ruim. é o. fica enfermeira de senhor? Então não fala essas coisas como” — acena com o cigarro — “senhor sabe o quê. “Só esta vez?” Ela acende um cigarro. diz ele. Cai numa espécie de sonolência. dá uma tragada. “Senhor fica com medo. “Minhas costas”. “Não pode dormir aqui?” Ela se senta de novo na cama. ajuda-o a beber. Falo o que sinto muito abertamente. pelo chiado do chuveiro frio. diz ela. Putts.k. porém. Eu acho que entendo você. não precisa explicar como aconteceu. acertar as coisas.” “Mercê. Marijana está curvada em cima dele. o futuro reserva outros acidentes para um aleijado idoso. Não pelo fogo. pergunta. E também: Vou ficar ao seu lado enquanto dorme. senhor perde a perna e tudo. Costello. Mas. tudo o. Sem dúvida.” “Não posso falar dos meus sentimentos por você. quando Marijana se levanta e agilmente veste o casaco e pega as chaves. ele ainda não consegue sentar. mr.k. deitado de costas. tenho sentimentos”. “Nós tem de conversar. Sob os cuidados dessa excelente mulher e soberba enfermeira. hã?”. “Senhor tem sentimento. mas Marijana faz café. volta. acabou: é isso que quer ouvir. Muito à mercê dos sentimentos a que você se refere. O que senhor quer de mim? Senhor quer que eu pego no trabalho. Então. solta a fumaça para longe dele.

algum estranho falando através de um espelho. não é porque eu sofri um choque. as costas doloridas. Fala de amor. assumindo a voz dele (mas qual espelho?). mas parece haver um rubor subindo pelo pescoço de Marijana. Devíamos todos ser mais instáveis. deixa que ele prossiga. Eu. “Bom. apaixonado por ela. revisada. Qual mulher não desejaria uma torrente de palavras de amor jorrando sobre ela de vez em quando. Fala de amor. É porque de vez em quando o estranho que diz ‘eu’ quebra o espelho e fala dentro de mim. a primeira mulher atenciosa. e assim por diante — subindo-lhe pela garganta como bile.abalado. me ligo à primeira mulher que aparece na minha frente. mas não desmente. desculpe a palavra. por mais questionável que seja sua origem? Marijana está corando e pela simples razão de que ela também é instável. Através de mim. mesmo que não se goste do que se vê. Posso ser instável. Ele não tem certeza. Marijana. portanto meses depois ele cai no chuveiro. que passa as noites comigo. tremendo intermitentemente. Há mesmo. Marijana diz que quer que ele se controle. Meu humor melhora. Olhe este ser que come comigo. você está errada. ele percebe o prazer sensual que pode haver em fumar. meu humor piora. E então? O que vem depois? E portanto tudo efetivamente se encaixa! Portanto. ela não pode estar dizendo uma coisa dessas. Não estou me referindo à devastação do tempo. Estou me referindo à criatura presa por trás do vidro cujo olhar tomamos sempre tanto cuidado em evitar. Como resultado. de um outro jeito. não está mais sob meu controle. Devíamos também nos fortalecer e dar uma olhada no espelho. sopra para fora. que fui sempre sem filhos. Não é isso que você está me dizendo?” Ela dá de ombros. Não está acostumado com café à noite. o coto sensível. A rua Magill me abalou a tal ponto que até hoje deixo jorrar meus sentimentos sem avaliar as conseqüências. uma lógica divina está efetivamente se operando! Wayne Blight aparece do nada para esmagar a perna dele até virar papa. . de repente quero filhos meus. que diz ‘eu’ em meu lugar! Se me acha instável. Fala agora. Marijana. mas que tolice. o choque posterior ao recente acidente — a batida na cabeça. não está de óculos. Pela primeira vez. como vômito? Na verdade. por trás do caos da aparência. Eu não sou nada assim. neste momento. Fico. Que torrente de palavras! Tão estranha a ele! Marijana deve estar surpresa. Fala esta noite. o chuveiro gelado. vertendo filosofia à enfermeira. Essa é a minha nova opinião.” Ele se detém. mas ser instável não é uma aberração. nós todos. poderia ser simplesmente efeito do comprimido que Marijana lhe deu (que comprimido seria?). portanto esta cena passa a ser possível: um homem de sessenta anos preso mais ou menos rígido ao leito. Não estou confuso. ou mesmo do café? Não devia ter tomado o café. me apaixono por seus filhos também. Daí este atrito de agora entre você e eu. ou é o presente que está vertendo mais um surto de instabilidade. E a origem de tudo isso pode ser encontrada no meu esbarrão com a morte na rua Magill. Em vez disso. Devíamos nos abalar mais vezes. aspira a fumaça gulosamente.

Espasmo nas costas não é emergência.. faz aquilo. seu rosto. diz ele. Depois se liberta. “Você foi a primeira pessoa em quem eu pensei”. Minutos atrás ela estava corando. “não exijo nada. Emergência. ele já sabia disso. Venha. “Elizabeth”. não só segura mão. como diz.k. abre janela. “Marijana”. tal (parece-lhe) fúria. velhos. só vem por favor segurar minha mão.” “Espasmo. Agora é ele quem tem de corar. me salve!. é isso que senhor diz. nem no futuro. devolve ao maço. Seu nome. Mas isto aqui” — ela acena com a mão —. Nenhuma emergência médica. “Seu nome foi o primeiro que me veio. Nunca se dirigiu a ele com tal força. correspondendo! Exultante.vertendo amor. não gosto daquilo. eu cuido velhas.” “É?” Ela inclina a cabeça. “Senhor acha que sabe como é ser enfermeira. vem segurar minha mão. Eu. ela diz. pode vir? Claro. Senhor cai no banheiro. Acha que isso não conta — ser a primeira?” .” Ela faz uma pausa. “esta história de chuveiro não é emergência. não preciso dizer.” Ela faz uma pausa. Ninguém morre de frio em um apartamento com ar-condicionado em Coniston Terrace. nem agora. não emergência médica. o. por favor.’” “Eu não estava só com medo.. chamou pelo espaço sul-australiano. vem. Volto para casa cansada até a alma. traz comprimido. isso que eu exijo. Ao discar o número dos Jokić. levanta-se e começa a abotoar o casaco de novo. “Não exige? Acha que não sei nada de homem? Homem sempre exige. Se tem coração solitário. traz cobertor. Durante um momento.”. senhor quer. e é bom que senhor telefona. mr. isso não contaria como emergência. mais quente. senhor chama algum amigo. reflexiva. “Senhor chama Elizabeth ou chama outra amiga mulher. traz aquilo. dá-lhe um olhar matreiro. apaga o cigarro. senhor quer mais. de noite: Emergência. venha. senhor telefona. a coisa pra valer. eu quero.. traz isto. E o sangue se move dentro dela. limpo a sujeira deles. telefone toca. ‘Estou com medo. então quem sabe senhor fica sócio clube dos corações solitários. eu quero. troco lençol. de manhã. quem liga para a dor!) e coloca a sua grande e (observa) muito pouco atraente mão lívida em cima da mão de Marijana. “Senhor telefona.” Ela respira. indicam um temperamento sensual. Não conseguia me mexer. Mas chamou mesmo assim. troco roupa. Eu quero. fecha janela. não estou sentindo bem.” Ela pega outro cigarro. menor. Você pode ver isso. Sempre estou ouvindo Faz isto. Eu me machuquei. ele estende a mão (Ignore a dor. Marijana deixa a mão debaixo da dele. muda de idéia. eu quero fazer meu trabalho. não estou dizendo não pode telefonar. Eu deixo comprimido para isso. eu não conheço amigas suas. com dedos cônicos que. ‘Estou com medo. Meu trabalho na Austrália é enfermeira. Rayment? Todo dia. traz xícara de chá. Uma emergência. por favor’. na língua das profissões de cuidados. limpo eles. North Adelaide.. olha para ele. segundo sua avó de Toulouse. não gosto disto. Só espasmo. ele diz. qualquer hora. traz copo de água. “Ou então.

metade para fora. Dor nas costas não é emergência. . dolorido. Os botões do casaco estão todos abotoados agora. Palavras que afloram dentro dele sem pensar. de baixo até em cima. “Não ainda. álcool e comprimido não é bom. Três minutos. parte de envelhecer. que ele contratou para salvá-lo de degradações exatamente como essa. Seu nome me veio. “É longe de carro até Munno Para. Incomodado. Ela se levanta. Por favor. “Só amor”. insiste. nem pisca. o que se chama de pânico. ele repete com alguma amargura. que justifica os horários prolongados. a ingratidão e as indignidades. “Cinco minutos. uma palavra sufocante para receber assim: primeira. Ela aceita bem o golpe desta vez. uma enfermeira de verdade.” Um tanto rígida. mas talvez o sermão seja o jeito de. Bom.k. “Agora eu vou”. tenta desajeitadamente engatinhar para fora da cama. Mesmo que seja apenas angústia. “Mesmo que seja só amor. Chega o amanhecer.” Ele nunca fez sermão para Marijana. Seu nome. Marijana”. Mas não é a palavra que o faz pausar. ele pergunta. Vamos tomar alguma coisa. diz. a verdade escolher se revelar. diz Marijana. indisposto. ela vem. como essas que mencionou: que vocês estão atendendo a um chamado. Mesmo assim. ele fica acordado a noite inteira. Como precisa ir ao banheiro. cheio de remorso. enrijecido. rende-se e urina no chão. os ganhos baixos. Certo?” “O. “Hora de ir embora”. Três minutos. nos acalmar e ser normais.Ela dá de ombros. claro que não. A meio caminho a dor ataca de novo e o imobiliza. É assim quando a pessoa é instável: as palavras simplesmente vêm? “Sempre pensei”. Mesmo que não seja uma emergência real. ela diz. Um dos três minutos passa. angústia humana. Mas sem bebida para mim que dirige e sem bebida para senhor. diz. Faz-se um silêncio entre eles. nesta noite em particular. a perna presa entre as cobertas amassadas. ele controla uma nova crise de tremores. É só parte da vida.” Com considerável esforço. quando uma enfermeira é chamada. assim. vêm a ele. ela retoma seu lugar. Não quero sentir que nunca mais posso chamar você de novo.” Amor: a maior das grandes palavras. gelado. Os comprimidos que Marijana disse que ia deixar não estão em parte alguma. “que enfermagem era uma vocação. Pensei que o que caracteriza a enfermagem. por vergonha. mas que por razões pessoais parece não estar — o encontra quando chega para pegar a mala com suas coisas: metade na cama. ela não faz perguntas. vamos socá-la com isso. É nessa posição que Drago — que deveria estar na escola. Será que não conseguir controlar a bexiga conta como emergência? Não. do nada. Até logo. Evidentemente é uma grande palavra. Você veio a mim. Miseravelmente. “O que exatamente seu marido sabe?”.

volta.” “Tudo bem. Tem um esfregão em algum lugar?” “Atrás da porta da cozinha.” “Obrigado. o senhor faria o mesmo por mim. Drago?” “Hã?” “Eu fico bem agora. Ela disse que ia deixar alguns. Drago faz um telefonema. Paul Rayment. relaxe e a gente cuida do senhor num minuto” — e tira as roupas de cama. é Drago quem encontra um pijama limpo e pacientemente. Costello.” O comprimido mágico acaba sendo nada mais que ibuprofeno. E o senhor devia comer antes. “Mamãe falou para tomar um a cada quatro horas. porque seu coração está repleto. ajuda-o a se trocar. ele. E Drago não se abala! Será que é de família. se tiver. como por exemplo: Sua mãe me abandonou. moveria céus e terras. a noite inteira. aí. ao fim de tudo. diz ele. Estou com o nome aqui.. ficaria vermelho. Posso descer até a farmácia. desculpar sua fraqueza. você! Mas controla-se. Rayment. Daria ao mundo uma lição de como cuidar de um filho amado. E é verdade! Se algum cataclismo se abatesse sobre Drago.” “Isso não é nada. é Drago que o faz calar — “Não esquenta. um velho desamparado de pijama urinado arrastando atrás de si um obsceno coto cor-de-rosa do qual estão escorregando as bandagens encharcadas. Agora ali está. você chegou. Se não estivesse com tanto frio. Mas não. Rayment. e quando ele tenta se explicar. Queria dizer mais. me abandonou. Tem um momento de choro. ficaria ao lado da cama dele. Com Drago é outra história.Se ele não esconde mais nada de Marijana. Seria tudo para ele. filho. É só um minutinho.. vira o colchão e (um tanto desajeitadamente. mr. na gaveta da escrivaninha. choro de velho que não conta porque vem muito fácil e que ele esconde com as mãos porque deixa os dois embaraçados.” Para completar a passagem. mas toma o cuidado de não estar por perto quando se precisa de cuidados. Se ao menos! . essa objetividade com o corpo? Assim como a mãe de Drago o ajudou a ir para cama.. mas. fez o possível para não se expor diante de Drago. O dia inteiro. “Minha mãe disse que eu tenho de ir buscar comprimido para dor para o senhor. Quer que eu pegue alguma coisa na cozinha?” “Me pegue uma maçã ou uma banana. que fala e fala sobre cuidados. é porque não pode ser mais abjeto diante dela do que já foi. mrs. Drago teria de dizer: Tudo bem. “Obrigado. gastaria cada centavo que tem para salvá-lo. Até então. pai e mãe. Você não precisa ficar. se algum estranho descuidado se chocasse com ele em sua motocicleta. também Drago agora o ajuda.” “Tem dinheiro na minha carteira.. Muito obrigado por tudo. afinal de contas é apenas um rapaz) estende lençóis limpos. todo mundo me abandonou. mas esqueceu. desviando os olhos como exige o pudor. até o filho que eu nunca tive. bondade sua”. mr.

T.Na porta.) . (N. acena e dá-lhe um de seus sorrisos angelicais que deve deixar as meninas tontas. Drago se volta. “Até mais!” * “Sangue velho. sangue frio”.

O que tem nas mãos é uma cópia. É a grossura a mais . hoje. mais ou menos. em tons de marrom que imitam o sépia original. achou que estava às portas da morte. Mais maduro que a idade que tem. de fazer um sanduíche. mais calmo. não é grande coisa. agora estou bom de novo. Bom rapaz.27. Nada está faltando de fato. você disse. No meio da tarde. um tantinho de outra coisa. “Escorreguei no banheiro e torci as costas. A contusão nas costas. tudo misturado e transformado em um comprimido numa fábrica em Bangcoc e o monstro da dor se reduz a um camundongo. ela veio e deu um jeito em mim. é capaz de se vestir. assim que ele tira a foto da capa plástica para a luz. mais objetivo dos relatos dos acontecimentos. ele é capaz de fornecer o mais breve. “Drago apareceu de manhã para conferir.” “E você está bem. quando Elizabeth Costello chega. nenhuma menção ao pijama no cesto de roupa suja. feita numa copiadora eletrônica em papel semibrilhante. Um traço disto. Chamei Marijana. está bom de novo. Na noite passada. um toque daquilo. como Marijana disse. De forma que. já consegue se movimentar. Por que não estaria?” “Talvez seja melhor dar uma olhada.” Não que nenhuma das fotos esteja realmente faltando.” “Estou. a aparência errada também. embora cuidadoso. Mas um dos Fauchery dá uma sensação errada e. de fato.” Nenhuma menção ao traiçoeiro Johann August. Milagroso.” “E suas fotografias? Sua coleção de fotografias?” “O que tem?” “A sua coleção de fotografias está bem também?” “Acho que sim. nenhuma menção aos tremores e às lágrimas. O papelão da montagem é novo e ligeiramente mais grosso que o original.

senão a sua coleção de fotografia. O que então pode absorver a atenção deles. pergunta a ela. Você é que vai ter de descobrir. desse vandalismo?” “Eu não sabia. Fora isso.. Garotas têm filhos com dez anos de idade. Mas tenha em mente uma coisa: trata-se de rapazes jovens e vivos em uma cidade sonolenta que não fornece vias de escape para toda a inquietação que têm nos ossos. não tenho como ajudar. Paul. Temos aqui Drago e o amigo dele. “Como eu sabia que Drago e o amigo estavam aprontando alguma? Eu não sabia. Eles aprendem. Devem ter feito aquilo com algum tipo de técnica digital. Por que se dar a todo esse trabalho de fabricar” — ele apóia a ponta da muleta na foto e amassa no tapete — “uma fraude?” “Aí. Paul”.” Com a unha. O tempo está se acelerando à nossa volta toda. você particularmente tem poucos livros sujos. se entediam com aquilo e seguem em frente para alguma outra coisa. ela bate num rosto na segunda fila. Não: em vez disso se trancam horas e horas no seu escritório.” Ela segura a cópia. ele nunca teria notado. dois saudáveis rapazes australianos.” “Então como você sabia desse.que primeiro entrega a falsificação. “Não fui eu que recebi Drago em minha casa e mostrei minha preciosa coleção de fotografias. Sorri para a cópia no chão. Vira-se para Costello. “Não me pergunte. Se não fosse Costello falar. Talvez Drago e o amigo tenham achado que . “Como você sabia?”. E olhe — olhe este sujeito. Não fui eu que abri caminho para a mãe através do filho.” “Mas por que desconfiou? O que está deixando de me contar?” “Controle-se. “O que aconteceu com o original?”. É o desrespeito que ele sente mais: os mortos desrespeitados por uma dupla de jovens arrogantes e irreverentes. uma coleção que segundo você é tão preciosa que tem de ser doada à nação?” “Mas não vejo que motivos possam ter. Não beijando as meninas. Como já disse. usando chapéu e colarinho aberto. estava apenas desconfiada. Pense. “Sabe o que aconteceu com ele?” Ouve a própria voz se descontrolar. não é um mau trabalho. Não surfando. Meninos — meninos levam meia hora para aprender uma habilidade que nós levamos meia vida para aprender. Não jogando futebol. Paul. “Menino burro. “Eu não ia ficar surpresa se um desses mineradores fosse o bisavô Costello de Kerry. burro! O que ele fez com o original?” Elizabeth Costello lhe dá um olhar arregalado de perplexidade. pergunta. mas não se importa. diz ela. exibindo um bigode também. e como é que eles passam as horas livres? Não correndo de motocicleta. Ele nunca teria conseguido uma montagem tão convincente numa câmera escura convencional. toda a agitação de planos e desejos na cabeça deles. Debruçados em cima de sacanagem? Não: a menos que eu esteja errada. Simplesmente desconfiei. “Ele não é a cara de Miroslav Jokić?” Ele arranca a foto da mão dela. Shaun. Miroslav Jokić: é ele mesmo. lado a lado com aqueles mineiros da Cornualha e da Irlanda de uma era passada..

” . Você sabe muito bem disso. Console-se. que as fotos não eram suas. entre os jovens indisciplinados. Talvez seja apenas isso: uma gozação elaborada e de bastante mau gosto que deve ter custado a eles um pouco de tempo e talvez alguma orientação especializada também. opa! — quem é esse no meio da pièce de résistance da coleção senão um membro do clã dos Jokić da Croácia! Grande truque — é o que Billy Bunter* teria dito. a restauradora da família. mas nenhuma malevolência também. em inserir um Jokić na memória nacional. apenas uma exsudação de água.” Sem afeto.” Ele sacode a cabeça. por exemplo? Só uma brincadeira. Nem afeto. E ela é.” “Qualquer coisa?” “Vai assumir a culpa. não esqueça. Você não achou que era o próprio Miroslav na foto. bem sublime. Na verdade. nem tudo está perdido. por outro lado. É dez vezes mais provável que o seu querido Fauchery ainda esteja nas mãos de Drago. cujas conseqüências ele pode não ter avaliado. “Não. “Quanto ao original. e tem toda a razão. quem sabe onde estará? Talvez ainda esteja debaixo da cama de Drago. talvez. apenas um pouco empedernidos. O pai de Miroslav. eu achei. Se quiser ir em frente e armar uma cena. Será tão claro assim. Ou talvez ele e Shaun tenham passado para um comerciante. Vêm lágrimas aos seus olhos de novo. Diga para ele que vai chamar a polícia se não for devolvido imediatamente. um pouco rústicos de coração. sussurra. Se não. não. Drago faz parte dessa história também. se você tiver sorte. nada está perdido. que você estava simplesmente guardando as fotos pela história da nação. porém. Inclusive Drago. Vai fazer qualquer coisa para proteger o primogênito. Drago não é um mau rapaz. Um punhado de bons croatas e um punhado de maus croatas com milhões de croatas pelo meio. afinal de contas. Bom. Só uma piada. quantos avaliam as conseqüências de seus atos?” “Vovô Jokić?” “É. pensa Drago. uma piada impensada. Existem croatas e croatas. Mas não havia malevolência por trás disso. mas sem força por trás delas. “É isso que eles são então?”. Que mal há. você sabe disso. O que acontece depois depende de você. Deixe eu lembrar uma coisa: você mesmo disse a ele.” “E daí?” “Não sei. Ele vai simplesmente se assustar e queimar a foto.” “Então fale com a mãe dele. mesmo que um tanto prematuramente — vovô Jokić. um ou outro figurão chato desvendando a Coleção Rayment e — opa. um bando de cavalheiros importantes e senhoras de idade se abanando contra o calor. tão claro para todo mundo? É como se o coração no peito dele de repente ficasse cansado demais para bater. esses ciganos croatas?” “Não seja melodramático. Ela vai ficar envergonhada. Pode achar que foi vítima de uma piada. juvenil. “Ciganos? O que mais eles roubaram de mim. pode armar a cena. Paul. achou? Mas pense bem. Fale com Marijana. seu precioso original de Fauchery.seria divertido: a Biblioteca Estadual. Os Jokić não são croatas particularmente maus.

lhe diz Costello. Absolutamente. Mas o que poderia dizer? Marijana? Olá. suprimindo a instabilidade desta vez. como chama mesmo?. de Drago ou daquele. Faça comigo o que quiser. batendo em alguém e matando com tiro. você vai acabar com o quê? Com uma história inconseqüente sobre um rolo com os ciganos. como cliente. fornecendo uma exposição fria. Mea-culpa. Será que poderia pedir para Drago olhar na mochila dele e ver se não levou por engano? Acima de tudo.” “Não. Não gostaria de ouvir mais?” “Não. Se você soubesse. como vai? Quero me desculpar pelo que eu disse na outra noite. Mas se minha sugestão te ofende. tomando o máximo cuidado com as palavras. Elizabeth. cuja essência é moral. Paul. Shaun. Não fale com a mãe dele. Mas talvez não haja golpe nenhum.” *** Falar com Marijana. Você já se encolhe antes mesmo do golpe. Não consigo te convencer? Senão. ou uma surra. espera que o marido descubra e me dê um tiro. Até você é capaz de admitir isso.” “Não seja ridículo. sensata de sua situação em relação a ela. Eu me recuso. . da coisa distinta. a mulher cigana esperta e o belo jovem cigano. Mais que telefonar a Marijana. decerto que não posso forçar nada.” “Não gostaria de saber por que você foi escolhido como vítima. Não se resolve uma crise como essa de agora. Mas quem escreve cartas hoje em dia? Quem as lê? Será que Marijana leu a primeira carta dele? Será até que a recebeu? Ela não deu nem um sinal. os Jokić vão negar e isso será o fim de qualquer tênue posição que possa gozar entre eles — como paciente. na noite em que eu escorreguei no chuveiro. Devo ter perdido a cabeça. ele não deve acusar. Sem ameaças. De quem foi a idéia. não sei o que me deu. Talvez Marijana se prostre na sua frente. em relação a Drago. Então. ação do tipo mais vulgar. Sem cenas. como estou cansado de levar esses seus cutucões e isso tudo para alimentar essas histórias malucas na sua cabeça! Eu entendo o que você quer. Não chega nem perto da coisa principal. Se você se contenta em perder sua preciosa fotografia. violência. que seja. eu retiro a sugestão. E assim por diante. em relação à fotografia desaparecida. como pato?” “Não. Se eu não consigo convencer você. Você nunca terá certeza enquanto não fizer a cena com ela. A propósito. Só quero saber a verdade. talvez devesse escrever outra carta. ciúme. ou de Marijana?” “Eu diria que esse é um âmbito bastante modesto da verdade. não quero ouvir mais. não é? Sexo. Você gostaria que eu — qual é a palavra? — explorasse Marijana. Se acusar. Esse é o tipo de coisa principal que você espera provocar.“Não quero nenhuma cena.” “Pobre Paul. notei que está faltando uma foto da minha coleção. Não fale com Drago.

talvez os Jokić não achem tão estranho receber comunicações pelo correio. nos momentos em que você estiver ocupado em . ele escreve. Quando a portinhola do tubo era aberta. você. O padrinho é o homem que fica ao lado do pai na pia batismal. Caro Miroslav.Uma lembrança retorna: uma visita de infância a Paris. lembra-se. a vaca cega teve cria. Mas não é por isso que escrevo. Bem. que colocam selos nelas e jogam em caixas de correio: Ivanka ganhou o prêmio de declamação. Um personagem sem substância. no Brasil. O que aconteceu com aquelas coisas. em meu estado de limitação. provavelmente. não alimento nenhum plano de tirar de você sua esposa e filhos. Para mim não é nada fácil. Sinceramente. evidentemente. Assim como. além talvez de uma chave da porta dos fundos. Não é só dinheiro que ofereço. para fazer revestimento de bombas ou de mísseis teleguiados. racionalizado até desaparecer. para dar a sua bênção e jurar apoio pela vida toda. a peça é muito conhecida no mercado. Mas você deve conhecer o conceito. todos aqueles cartouches prateados? Derretidos. Minha proposta é a seguinte. Empreguei a palavra padrinho. olhando as folhas de papel enroladas dentro de cartouches e disparadas de um departamento para outro por tubos pneumáticos. além da raiva e do desejo. espiritual. poderia encontrar um lugar para um padrinho em seu lar e em sua morada. Mas talvez com os croatas seja diferente. no ritual do batismo.) Se não sabe do que estou falando. quando vamos nos ver outra vez? Então. talvez não. mas apenas pensado nela. Tentei invadir o seu lar. Um mundo desaparecido. abriria seu lar para mim? Não quero nada em troca. com Marijana. como vai você. pergunte a seu filho. vinha das entranhas do aparelho um rugido abafado de ar. em seu coração e em seu lar?** Não sei se na Croácia católica vocês têm a instituição do padrinho. pergunte a sua mulher. ou acima da cabeça da criança. o Pai. Talvez no velho país ainda existam tias e avós que escrevem cartas para a família distante no Canadá. nada palpável. impalpabilidades humanas. se não com você. bastante longe da cidade. (Permita que eu acrescente que Drago não vai conseguir vendê-la. e o pai é. Em troca de um substancial empréstimo a prazo indefinido. principalmente. Mesmo assim. Ofereço também certas impalpabilidades. Peço apenas para observar. na Austrália. Ou talvez não tenha pronunciado a palavra. fazer uma visita. em princípio. Tem razão. e com isso quero dizer. Você vive em Munno Para. é assim que eu entendo. Pelo menos. Um sistema de comunicação desaparecido. amor. não vou me calar. o padrinho é a personificação do Espírito Santo. para abrir meu peito. Escrevo para fazer uma proposta. Você desconfia que tenho intenções quanto a sua mulher. Uma rara fotografia pertencente a mim desapareceu e eu gostaria de recebê-la de volta. Os livros que consultei não dizem. para cobrir a educação de Drago e talvez de outro filho seu. Mas não tire conclusões precipitadas sobre qual o tipo dessas intenções. o padre é a personificação do Filho e intercessor. Talvez sim. então você sem dúvida acha que eu devia calar a boca e aceitar todo e qualquer castigo que os deuses me enviarem. às Galeries Lafayette.

antes que eu mude de idéia. “coração” e home. ou Drago (não voltei as costas a Drago. cartas são estranhas a seu uso. Se. fazer a viagem até a caixa de correio mais próxima. estou apenas usando a abertura criada por esse desagradável incidente para deixar minha caneta correr e meu coração falar (além disso. sob alguns aspectos. Não. e ela sugeriu que eu chamasse a polícia. mas agora abomino hesitações. sempre existe o silêncio. quantas cartas se tem hoje a oportunidade de escrever?). Sei que uma proposta deste tipo não era o que você esperava ao começar a ler esta carta. heart. Falei com uma conhecida minha sobre o que aconteceu em meu apartamento — o desaparecimento de um exemplar da minha coleção de fotografias e tudo —. “lareira”. Se preferir não dizer nada a elas por enquanto. Vou fechar e selar esta carta agora e. sempre se pode usar o telefone (8332-1445). Paul Rayment * Personagem central de uma série popular de livros infanto-juvenis sobre a vida num colégio interno. por fim. E. Drago não deve ter mais nenhuma dúvida quanto ao lugar que aspiro na família. por outro lado. melhor que o nosso. Ou Blanka. O silêncio pode significar muita coisa. longe disso: por favor. Eu costumava hesitar muito. Ou Marijana pode trazer um recado.. diga a ele). T. hesitava sempre. (N. para despejar as bênçãos de meu coração sobre a sua família.) ** Há aqui um jogo de palavras intraduzível com hearth. in your heart and home. eu compreenderei. As crianças menores talvez achem mais difícil.. “lar”: a place in your hearth and in your home. Mas nada poderia estar mais distante de minha intenção. Uma vez que vem de um mundo mais antigo e. (N. Não sei o que você acha de cartas.outro lugar.) .T. Sinceramente. talvez não ache estranho tomar da caneta por sua vez.

sopra uma brisa forte.28. ela pergunta. sim. diz ele. Se ela está realmente doente. Ela olha. “Não acha que devia procurar um médico?”. era melhor ficar dentro de casa. mas não consigo mais encontrar nas lojas. Está escuro. Tenho uma na bolsa. “Nenhuma notícia de Drago? Nenhuma notícia dos Jokić?”. só um resfriado. “Você deve ter pegado debaixo dos arbustos”.” “Óleo de eucalipto!”. Inútil. Até reviraria o armarinho de remédio para ver se tem Bálsamo do Frade. “Não é nada. Vai passar. Minha garantia antes era Bálsamo do Frade. As pessoas usam bombinhas agora. É uma maravilha para os brônquios.” “É mesmo? Como dizem nossos amigos americanos. um punhado de cada vez.” Ele pegaria o óleo de eucalipto para ela. “Não ouço falar de óleo de eucalipto há séculos.” Não soa como resfriado coisa nenhuma. como se os pulmões estivessem tentando expelir. “Uma colher de chá de óleo de eucalipto em uma panela de água fervendo. Você inala o vapor. “Você não disse que está dormindo debaixo dos arbustos no parque?” “Ah. diz ele a Costello. Pode encontrar aqui em Adelaide. uma camada de muco profunda.” “Eu recomendo óleo de eucalipto”. diz ele. ela chamou ontem — e ele não é responsável por ela. É uma tosse e tem uma característica úmida. ela diz. Ela sacode a cabeça. faz sentido. sem entender. Basta ela pedir. Mas ela não faz o menor esforço para disfarçar o quanto desgosta do apartamento — “sua casa funerária bávara”. Estão sentados na sacada com uma garrafa de vinho. . Mas ela não pede. Ferveria uma panela de água.” “Nas lojas do interior se consegue.

é a paixão que faz o mundo girar. “Lembre-se. Porque cada bendito passo que dá custa um esforço. de fato. pode-se rasgar e começar de novo. não estaríamos neste aperto agora. com sua formação francesa.) Grite! Diga: ‘Não admito ser tratado assim!’.” “Uma carta! Outra carta! O que é isso. que ainda tenho de pôr no correio. Dom Quixote não é um livro sobre um homem sentado numa cadeira de balanço reclamando da chatice de La Mancha. você. e eu podia estar de volta a Melbourne. Ao contrário de um discurso. A vida não é uma troca de mensagens diplomáticas. Escrever é isto. Ao contrário de explosões de paixão. Você podia estar bem acomodado no seu belo apartamento. Não se pode ser mais francês que Racine. Racine trata de confronto. você. nada de errado com a polidez. deve saber disso. Au contraire. Mas é tarde demais para isso agora. “existe um espaço para cartas antiquadas. você não rabisca a primeira coisa que vem na sua cabeça e manda para seus editores.” “Por que me chama de tartaruga?” “Porque você fica séculos farejando o ar antes de espetar a cabeça para fora. Sem dúvida você espera as reconsiderações. . um jogo de xadrez postal? Dois dias para suas palavras chegarem a Marijana. vida é drama. Racine não trata de gente enrolada pelos cantos arquitetando. Escrever não é justamente uma questão de reconsiderar — duas. Pense no teatro francês. se uma carta não parece certa. mas não às custas das paixões. Pense em Dom Quixote. vida é ação. dentro da sua variante de paixão de tartaruga. É sobre um homem que mete uma bacia na cabeça. É desse jeito que pessoas normais se portam.“Nenhuma notícia. Paul. sim: reconsiderar até a potência n.” Ela está febril? O que provocou essa explosão? “Se existe um espaço no mundo para Bálsamo do Frade”.” “Eu?” “É. dois dias para ela responder: vamos todos morrer de tédio antes de chegar a uma solução. se quiser. muitas vezes?” “É. Paul. Sem paixão o mundo seria vazio e sem forma. Paul. três. de uma imensa tirada contra outra. se não tivesse tola e irrecuperavelmente declarado sua paixão pela faxineira. Só nos resta agüentar e ver para onde os ventos nos levam. Escrevi uma carta. Sem dúvida. Você mais do que ninguém devia saber disso. Vá lá na casa dela! Confronte Marijana! Faça uma cena como tem de ser! Bata o pé! (Estou falando metaforicamente. Pense em Racine. Simplesmente gostaria que procurasse em seu coração para ver se não consegue encontrar meios dentro da sua personalidade de tartaruga. Não estou pedindo que seja uma lebre. Pelo menos. sabe disso. ação e paixão! Sem dúvida. diz ele. esperando as visitas da dama de óculos escuros. pessoas como Marijana e Miroslav. de acelerar essa sedução de Marijana — se é realmente sua intenção continuar a seduzir Marijana. Não estamos na era de romances epistolares. Seja polido. calculando. você e eu. se tivesse esperado a vinda de reconsiderações. Sem dúvida você revisa. que são irrecuperáveis. Você não é nenhum analfabeto. Mas quem é você para pregar reconsideração para mim? Se você tivesse sido fiel à sua personalidade de tartaruga.

tão pouco aventureiro como você? Pode me explicar? Será que tudo isso se deve à língua inglesa. Já te ocorreu que se a sua vida parece repetitiva. mais ou menos. “Conhece esses versos? John Clare.” “Ó céu estrelado. Ó céu estrelado. o homem com o coto e a mutável dama balcânica. os anglo-australianos. Para valer a pena colocar você num livro. De forma que o que adianta reclamar? Escute! Eu sou. Cresça.” Ele nunca sabe. “Não ainda. não é bem comédia que Costello parece ter em mente para ele. Emma Rouault. numa comédia.” “Ver o que eu consigo inventar para você poder me colocar em um livro. Emma Bovary. para que vale a vida? “Vamos lá. sai e compra roupas elegantes. de ficar velho. Faça alguma coisa. Ele consegue perceber que alguém poderia querer transformar a ele e Marijana. Senão. velho e desinteressante. como John Clare. ou símbolo. Me surpreenda. Faça alguma coisa. quando está sendo levado a sério e quando está sendo alvo de gozação. nós todos perdemos uma perna. diz ele. apesar de toda a gozação. quer dizer. e a marca irlandesa na Austrália. não-sei-quê. eu sei. Ao lado de Alonso e de Emma. qualquer um — não só eu. Só eu me consumo no que me angustia. Sua perna perdida é só um sinal. Como veio a acontecer. diz Emma. mas. Paul. de eu me ver atada a um homem tão pouco curioso. você acha. Os irlandeses é que sempre lhe criaram problemas.. Paul: é assim que você vai terminar. limitada e cada dia mais chata é porque você quase nunca sai deste maldito apartamento? Pense um pouco: em algum lugar em uma selva no estado de Maharashtra. depois de certa idade. alguém talvez colocar você num livro. Alguém. Ser um personagem principal. Paul. um tigre neste exato momento está abrindo os olhos cor de âmbar e não está absolutamente pensando em você! Pouco importam a ele você ou qualquer outro habitante estrangeiro de Coniston Terrace. vai ligar a mínima. não me lembro qual é qual. Quando foi a última vez que saiu para dar um passeio debaixo do céu estrelado? Você perdeu uma perna. Mas. Para alguém talvez querer colocar você num livro. então vamos agitar! Agitar. ó não-sei-quê. mesmo sem fazer a menor idéia de como vai pagar por elas. Agüenta bem os ingleses.” “Para alguém. Viva como herói. “Nós devíamos entrar”. e isso é que o deixa intrigado. Porque ninguém mais. ou avalia. isso é o que ele chama de elemento irlandês. Veja o que você consegue inventar.monta em cima do seu fiel cavalo de arado e parte para realizar grandes feitos. Como continua?” “Não sei. ao fato de você não ter segurança . Tome cuidado. único consumidor de suas próprias angústias. diz Alonso. Meus amigos me abandonam como uma lembrança perdida. com Costello. Só se vive uma vez. mas o que sou ninguém sabe. ou sintoma. e andar não é brincadeira. pode ter certeza. É isso que os clássicos nos ensinam..

Ensino você a falar com o coração. diga adeus a Adelaide. não é assim. Sou estrangeiro por natureza e fui estrangeiro a minha vida inteira. Tudo o que eu digo é que você fala inglês como estrangeiro. Eu diria mesmo que o inglês é um disfarce para você. Está sugerindo que eu volte para o francês? Está sugerindo que eu cante Frère Jacques?” “Não caçoe de mim. uma depois da outra. mais convencida fico de que a chave para o seu caráter está no seu discurso. se eu for a que sobrar. juro que consigo ouvir palavras sendo selecionadas. Limpos como anjos abençoados nós seremos. que levava os livros muito a sério. Paul. Eu te dou aulas de inglês. mas bem aceitável. Deixe eu fazer uma proposta.” “Falo inglês como estrangeiro porque sou estrangeiro. Quando o dia chegar. Houve um tempo em que você era um menininho pálido. Quando você fala. você é que fechará meus olhos e encherá de algodão minhas narinas. Não é assim que um falante nativo de verdade fala. Aí. quanto mais escuto você. Paul. recitará uma breve oração para mim. não existiriam os nativos. Sob todos os outros aspectos.” “Um estrangeiro por natureza? Não. não. Você fala como um livro. no entanto o inglês não é a sua verdadeira língua. e que são encaixadas no lugar. Não tem mais vida nenhuma para você aqui. provavelmente pensa em inglês. alguém que nasceu na língua. Que mais? Nada de prazeres arrebatados — você vai ficar aliviado de ouvir isso. Você tem uma natureza perfeitamente boa. parte de seu casco de tartaruga. ou uma máscara. sabe. no sétimo dia. canta junto com elas. Por assim dizer. E. bem-comportado — posso ver isso —.suficiente para agir em uma língua que não é a sua? “Desde que você me lembrou do seu passado francês. Se não existissem estrangeiros. As palavras brotam de dentro e ele canta as palavras.” “Como é que fala um nativo?” “Do coração. de uma caixa de palavras que você leva sempre com você. Eu não disse nada de voltar para o francês. mesmo que um pouco subdesenvolvida. estou ouvindo com as orelhas em pé. Adelaide parece demais com um cemitério. E ainda é isso. Não. pode até sonhar em inglês.” “Ainda sou o quê? Pálido? Bem-comportado? Subdesenvolvido?” “Um menininho que tem medo de soar engraçado quando abre a boca. eu cuido de você. você tem razão: você fala inglês. Tranque este apartamento. E não vejo por que eu deveria me desculpar por isso. Eu até cozinho para você. pode me contar mais histórias do seu tesouro escondido. Uma aula de duas horas por dia. depois do jantar. podemos descansar. que eu depois conto de volta para você em uma forma tão acelerada e melhorada que você não vai nem reconhecer.” “Entendo. Ou vice-versa. não ponha a culpa na sua natureza. se você ficar inspirado. seis dias por semana. Você perdeu contato com o francês há muito tempo. e talvez em troca você aprenda a cuidar de mim. O que lhe parece?” . Venha morar comigo em Carlton. Não tão bem como Marijana. claro.

fale sério pelo menos uma vez. esvazia a mente. Não consegue ir além disso. a plena voz?” “Fale com uma voz tão plena que até um tapado como eu consiga entender. Costello: você existe de verdade?” “Se eu existo de verdade? Eu como. me responda: eu estou vivo ou estou morto? Aconteceu alguma coisa comigo na rua Magill que eu não consegui perceber?” “E eu sou a sombra escolhida para acompanhar você no além — é isso que está perguntando? Não. Deus me perdoe se sei por quê. só isso que eu sou. dele o de agir. uma espécie de casamento. dia após dia. Paul. Elizabeth?”. me deixe perguntar francamente. uma vez ao menos. meu o de escrever. isso mesmo. fazer sua voz cantar? Fecha os olhos. o que estiver em seu coração estará embaraçando a melodia. enquanto não tiver uma resposta à sua pergunta. “Por quê. ou quer que eu entregue tudo a você plenu voce. Por favor. espera as palavras virem. Podíamos até pegar um avião para a França.” Ela pigarreia. basta. para ninguém. Uma velha que escreve. mas soa sincera. Agora é a vez dele. podíamos comprar uma van de campista e viajar pelo continente para olhar as paisagens. Um casamento compassivo. Tarascon. Mais?” “Não. com seu chicote. Paul e Elizabeth. “Eu sou rebotalho. Elizabeth Costello fica em silêncio. com apenas .” “Por favor. Um semfim de opções. Não sou redimível. e me dá uma lambada com o chicote. esta é uma história muito comum. Claro que sou de verdade. meu o de seguir. página após página. de certa forma. não tenho valor. Pálido demais. Agora. Tão de verdade quanto você. Será que consegue. frio demais. fique sossegado. Que tal? Você poderia me mostrar seus velhos locais de passeio. vou ao banheiro. eu sou uma pobre criatura cindida. Porém. mrs. Pego resfriado. medroso demais. sofro. Isso serve por enquanto. durmo. metal inferior. Levanta-se e fica apoiado na mesa na frente dela. ou semi-sincera. vêm as palavras.” “É. Companheiros. Continue o trabalho agora! Não. Se existe algum espírito-guia — e eu não acho que exista —. a mesma velha melodia decepcionante.“Parece casamento. Ou. não de você. Não tenho nenhuma utilidade para você. as Galeries Lafayette. os Pireneus. O que levou você a me escolher? O que lhe deu a idéia de que poderia fazer alguma coisa comigo? Por que fica comigo? Fale!” Ela fala. Dele é o poder de liderar. nada diferente de você. muito. eu?” As mesmas velhas palavras. se Carlton não for atraente para você. Sem preguiça. diz ele. como eu fui feita para você. jovem Elizabeth Costello!. “Por que eu. “Só para mim Paul Rayment nasceu e eu para ele. o que me diz?” Ela pode ser irlandesa. Elizabeth e Paul. “Você foi feito para mim. Vamos lá. Elizabeth. então é em cima de mim que ele paira. muito comum mesmo. de todas as muitas pessoas no mundo.

de sua mãe e do marido novo dela — do hálito. Será que um casamento compassivo inclui beijos? Ele baixa os olhos. eu ainda estar aqui. mas percebe. Eu a teria tomado para mim. Mas agora não consegue evitar de imaginar como seria beijar aquela boca. se fosse menos polido.três dimensões. mas não acrescenta. das carícias? Como você pode esperar que alguém como Marijana Jokić possa amar um homem com tamanha aversão pelo físico?” “Não tenho aversão pelo físico”. é: Minha aversão é pelo feio. Você vai gostar de lá. Teria se curvado e muito suavemente teria tocado os lábios em meu ombro. peito a peito. a copine de seus últimos dias. nem uma palavra atravessada. Paul. Esqueça mrs. no momento mesmo em que está falando. ela disse. igual à vida real. Deixe eu perguntar uma coisa: acha que sou assim por natureza?” Ele segura a língua. comprimento. do toque. Acabar comigo mesmo!. Vamos repartir nossas migalhas enquanto ainda temos dentes. Está pensando em outra coisa. Que artificial! Que insincero! Como todas as confissões em que ela me atira! E. “Aposto que quando era pequeno não gostava que sua mãe o beijasse”. você não tem a menor chance com ela. tem muitas mansões. senti nos meus ossos. e a sombra de penugem em cima. ele protesta. ele olha a boca. Jokić. “que conservei meu humor excepcionalmente bem desde o dia em que apareci na sua porta até agora? Nem um xingamento. mais nada? E seu padrasto holandês de jeito nenhum? Queria ser um homenzinho desde o começo. no mesmíssimo momento. Então teria ficado tudo bem. sem dever nada a ninguém.” Ele esteve olhando os lábios dela enquanto ela fala. Volte comigo para Melbourne. deixava que ela beijasse a testa. Aproveite a sua chance comigo. O reino do lar. Nada de prazeres arrebatados. senão eu me ver socado no físico dia após dia? É um testemunho de minha fé no físico eu não ter acabado comigo mesmo. ela diz baixinho. aí você me pegou. nos braços um do outro. tenho certeza. O que me diz?” “O que eu digo com a caixa de palavras que levo comigo ou com o coração?” “Ah. Não é um ser superior. Paul” (a mulher ainda está falando). Não lhe importa como Elizabeth Costello é por natureza. um homenzinho independente. largura e altura. com aqueles lábios secos. e é uma proposta bem comum a que estou fazendo para você. como você é rápido! Do coração. “Estou certa? Abaixava a cabeça. pensa. respirando o hálito um do outro. . frio. talvez até murchos. fica claro para ele o que a mulher queria dizer com a caixa de palavras. self-made man. “No que você acha que consiste a minha vida desde a rua Magill. é um hábito dele: outras pessoas olham os olhos. Marijana teria me beijado. ela e eu teríamos descoberto como é deitar lado a lado. só para variar. E ela percebe isso. do cheiro. Tinha nojo deles. em vez disso uma porção de piadas e um toque de lisonja irlandesa. Eu sou a sua melhor copine. se Ljuba não tivesse entrado como um cachorrinho de guarda. Isso estava chegando. O que quer acrescentar. “Você não concorda. para a minha bela casinha velha em Carlton.” Porém. está pensando: Se nós tivéssemos tido cinco minutos mais aquela tarde. estremeceria.

Como vai fazer para matar três horas? Há uma luz acesa na sala. A última coisa que ele quer é acordá-la e se expor a mais outras de suas farpas. Então temos de nos contentar com menos. evidentemente. a esta altura. pode crer. o pior e mais danoso. quando uma madrinha bondosa se oferece para nos remover de nosso ambiente deprimente. Você acha que o que eu disse é o pior que se pode dizer de você — que você é lento como uma tartaruga e meticuloso até não se poder agüentar? Tem muito mais coisa além disso. Paul. sem saber para que lado virar. suprime tudo e continua a sorrir para nós e a fazer piadinhas? Chamamos de afeto. por mais que a gente queira segurar nos braços a beleza de todo o mundo. Mas a beleza de todo o mundo não quer saber de nós. Está cansado das farpas dela. temos de aceitar o que está em oferta ou passar fome. Como é que a gente chama quando alguém conhece o pior de nós. patéticos. Desde o aperto de mão exploratório que trocaram ao se conhecerem. A tendência dele é deixá-la estritamente sozinha. se você insistir em manter o seu demorado curso atual. e não diz nada. você vai encontrar afeto. eu conheço essa palavra também. Mas não se trata de um conto de fadas. Ele nunca murcha em nós. ou mesmo o belo. devemos pensar duas vezes antes de desdenhar o convite. Paul. Muitas foram as vezes em que tive de me controlar para não explodir. O cabelo dela tem uma qualidade sem vida. Foi só porque prometi que ia ser boa que fui assim tão fácil de você agüentar. pode crer. Paul. feio. Um tanto víbora. Se o objeto de seus cuidados fosse uma criança — Ljuba.“Eu sou por natureza uma pessoa rabugenta. Enfim. E por baixo do cabelo está o crânio. cruel. vinte e quatro horas. “Vou lhe dar um dia. velhos e feios. por exemplo. De fato. Então. muito menos. muito suavemente ele a levanta e enfia uma almofada debaixo de sua cabeça. seu velho feio? É. esse seria o momento em que a megera horrenda se transforma em uma linda princesa. então vou mostrar a você do que eu sou capaz. Mas no caso dessa . para repensar. Enfim. ao contrário. irrealizáveis. a cabeça aninhada nos braços em cima de uma confusão de papéis. A metade do tempo sente-se como um pobre urso no Coliseu. Elizabeth Costello está dormindo na mesa de que se apossou. ele poderia chamar de terno aquele ato. dentro do qual ocorrem atividades de que ele preferia não ter conhecimento. Três horas ainda para o amanhecer. ele e Elizabeth Costello não tiveram nenhum contato físico. Mas tem sido uma batalha. vou mostrar a você como eu posso cuspir.” O relógio dele marca três e quinze. traiçoeiro Drago —. A morte dos mil cortes. Num conto de fadas. esse desejo. Nós dois somos feios. uma falta de viço. Onde mais no mundo. de nossos sonhos sem esperança. para falar a verdade. e dada às mais negras raivas. Se você recusar.

E mais: Depois da refeição. É meramente o que um velho faria por outro velho que não está bem. Uma inteligência estreita. por vias tão obscuras. PR e Blanka. enfrenta o fim roída por uma sensação de que perdeu alguma coisa. Acabarão sendo uma família. Em letras gordas: (EC pensa) romancista australiana — que sina! O que esse homem tem correndo nas veias? Debaixo das palavras. A cabeça ocupada da escritora repousa tranqüila no travesseiro. se ele ouvir com cuidado. relaxada. que ridículo. Ele dá uma olhada no que ela está escrevendo. Uma refeição e um jogo de cartas. um retratista aposentado. em uma casa vazia. Em algum lugar distante estão os dois filhos de Costello sobre os quais leu na biblioteca. tão labirínticas que a mente resiste em explorá-las. e a quem ela se volta em busca de alívio. só que não há ninguém em torno para entender. Ele apaga a luz. É de se supor que. estão interligadas. também estejam cansados das farpas de Elizabeth Costello. ou não a amam o bastante. vem um tênue chocalhar quando o ar entra e sai. quer dizer. Usam o jogo para expor suas diferenças. PR tenta usar o jogo para fazer amizade com Blanka. Drago não é bom com as cartas — descuidado demais. Do peito dela. filhos sobre os quais ela não fala. como ele. se não a um homem em outro estado. de alguma forma. procurando coisas com que se ocupar. uma linha riscada violentamente no papel. ela topou com ele. A gélida reprovação dela. orgulhosa de seus rebentos. mas ela mantém distância. afinal. Sozinha em Melbourne. como todo mundo. intensa. porém um homem que sofreu um golpe pessoal e que tem sua própria necessidade de amor. ele com gelo nas veias e os Jokić tão sangüíneos? O que mais Costello está tramando naquela cabeça ocupada dela? A escritora dorme. fiando suas fantasias na noite. humanitária. Quase ao acaso. faminta de amor.mulher não é terno. provavelmente porque não a amam. assim como todo mundo. Marijana sorrindo. Ele não os censura. e. ela parece ser do tipo que fica acordada até tarde. a necessidade de ser amada e a de contar histórias. um estranho total. como uma abelha pousa em uma flor ou uma vespa em um verme. entrando em seus últimos dias. Como poderiam montar casa juntos? . Blanka vence. Parece estar se transformando no tipo de pessoa que dorme cedo e acorda quando ainda está escuro. Se tivesse uma mãe como ela. E. Humano. Como ele pode ser o elo perdido quando durante toda a sua própria vida ele se perdeu de si mesmo? Homem ao mar! Perdido em um mar agitado num litoral desconhecido. Uma piada. É de se supor que. deve ser essa. manteria distância também. eles jogam cartas. a confusão de papéis na mesa. para a situação dela. Se existe uma explicação humana. confiante demais. o personagem ronda. Elizabeth Costello quer ser amada. É isso que está procurando nele: seja lá o que for que perdeu? É essa a resposta à pergunta recorrente dele? Se é isso.

les enfants. É tão mais espontâneo que escrever cartas. curvado em cima da direção. para retornar à avenida Wirramunda. com o rosto impassível. chez elle?”a A cabeça dele viaja no passado até sua infância. Foi na propriedade de Mittiga. carregados de tomates. soyez sages!”. entre as teias de aranha do atravancado espaço atrás da imensa caixa-d’água. De que outro jeito você vai conseguir ver a sua noiva espiritual em território doméstico. em quarta marcha. anunciou a irmã do banco improvisado na traseira da van. O holandês dirigia em marcha lenta.b advertiu a mãe. tão mais amistoso. “Não sei”. Andrea Mittiga. estavam voltando para a van. “desobedeça às suas regras uma vez só. quando. Prinny Mittiga sussurraria ao terminar a visita. Quanto ao holandês.29. o motor da van martelava e . embora estivesse queimando por dentro para continuar com as lições. prometa”. “Não uma visita inesperada”. que ele realizou com Prinny Mittiga suas primeiras ofegantes explorações das diferenças entre macho e fêmea. desviando dos buracos e saliências da estrada dos Mittiga.” “Mesmo assim”. até a Ballarat nos dias antes da proliferação dos telefones. ou laranjas do pomar dos Mittiga. aprendida na Holanda. disse. ele diz. quando os quatro se enfiavam na van Renault azul do holandês no domingo à tarde e partiam para fazer visitas inesperadas. Quando chegavam às montanhas. ou ameixas. não ouviu nada. tomado o suco de framboesa e comido o bolo de amêndoas. diz Elizabeth Costello. Era a sua teoria de direção. “Não estava!”. E ele teve de dar de ombros. ele protestou e deu-lhe uma cotovelada nas costelas. “Não gosto que venham me visitar sem avisar e não faço visitas sem avisar. Que tédio! As únicas visitas que ele relembra com algum prazer são as que faziam à pequena propriedade do amigo horticultor de seu padrasto. “Paulie e Prinny estavam brincando de médico de novo”. “Allez. “Volte domingo que vem.

merde!” O holandês tinha resolvido usar bermudas. *** Anos atrás. com chão de terra nua atrás. merde. Nada de van Renault ali em Adelaide. raspando as consoantes à bárbara maneira holandesa. os Holdens. rolando de rir. eram apenas algumas casas pontilhadas em torno de um posto de gasolina. “Merde. “Nem em sonho eu vou sem você”. para economizar a bateria. ele pensa. os Studebakers ultrapassavam. Narrapinga Close. “Ils sont fous! Ils gaspillent de l’essence. “Oh là là. “O continente escuro de Munno Para. um mundo desaparecido ou desaparecendo. outros carros formavam fila atrás e buzinavam. quase explodiam de vergonha e indignação. “Toujours pressés. vindos do mesmo mundo. sem faróis. Ele a havia comprado de segunda mão de um outro holandês. “Não tem nada em mim de que eu precise escapar. oferecerão chá e bolo e os despacharão de volta para casa carregados de presentes? “Uma verdadeira expedição”. Só a coisa em si. Nada de brincar de médico.engasgava. Nada de Prinny Mittiga. pressés!”. Na época. l’auto la plus économique. Então eles se arrastavam. número sete: era esse o endereço nos formulários que teve de assinar . em termos gerais. Nada podia ser mais embaraçoso do que o holandês com sua bermuda larga. ou. diz Elizabeth Costello. Tenho certeza de que vai arrancar você de dentro de si mesmo.” “Se nós fizermos uma visita a Munno Para não será para me tirar de mim mesmo”. A buzina não exercia efeito algum sobre ele. costumava passar de bicicleta por Munno Para. “Você não preferia ir sozinho?” Sempre alegre. Será que devia fazer uma última visita inesperada. embora de fato houvesse sempre alguma coisa errada com a van. que tinha cheiro de bulbos de dália podres. Agora. diz ele. acelerados. fileiras de novas construções se estendem até onde a vista alcança. assim como os Mittiga. as pernas brancas e a meia xadrez até o tornozelo no meio dos australianos de verdade. continua Elizabeth Costello. c’est tout!”d Ele não gaspiller a sua própria essence por ninguém. a caminho de Gawler. enquanto os carros de verdade. A van Renault do holandês era única em Ballarat. Renault. em honra dos velhos tempos? Como os Jokić receberão isso? Baterão a porta na cara dos visitantessurpresa. estava sempre no mecânico esperando chegar de Melbourne uma peça ou outra. os receberão bem. sufocando o riso. Que cansativo deve ser viver com alguém tão resolutamente alegre. Por que a mãe casou com ele? Será que ela deixava ele fazer aquilo com ela no quarto escuro? Quando pensavam no holandês com o negócio dele fazendo aquilo com a mãe deles. diz ele. os Chevrolets. no escuro.e ele anunciava.c ele dizia com sua dissonante voz holandesa. ils gaspillent de l’essence!”.” “Bondade sua me convidar para ir junto”. ele e a irmã cochichavam um para o outro no banco de trás da van.

Ele meio que esperava que ela pudesse ser uma beldade como a irmã. a ladra de lojas.” “Um passeio no campo”. ele não faz idéia. “Não é assim que chamam hoje em dia? Nossos . diz Elizabeth Costello de novo. Se há uma coisa de que Paul sente falta no velho jeito de viver é aparecer na casa de amigos para tomar um chá. sente. Marijana não fez nenhum esforço de se embelezar. Veio junto comigo porque o dia está bonito.” “Isso é bom”. Um ventilador gira no teto. diz Elizabeth. Então. Mas não. dirigidas a ele. diz Elizabeth Costello. e Paul também. Elizabeth me conhece melhor do que eu mesmo. Eles esperam e esperam na entrada. O que pretendem dizer. “Como vai. ele paga a corrida. são inspecionados desconfiadamente por uma garota de rosto pálido. de um lado. Vêem-se em uma sala de estar com mobília de couro branco. senhor traz sua secretária”. O táxi os deixa em frente à casa de estilo colonial com gramado verde em torno de um austero jardinzinho japonês retangular: uma pedra de mármore preto com água correndo por cima. (“Tão verdadeiro!”.” Sem uma palavra a garota desaparece. “Eu sou Paul Rayment. a filha do meio. “Tão verdadeiro!”. descendo do carro. uma argola de prata em uma narina. ele acha. Elizabeth Costello se entusiasma. dominada. seixos cinzentos. nada que faça pensar no velho país. por um grande aparelho de televisão e do outro por uma imensa pintura abstrata. pensamos em dar um passeio de carro. Querem chá?” “Eu adoraria uma xícara de chá. diz ele. Mal preciso abrir a boca. entoa e se retira. diz Elizabeth Costello afinal. “Acho que a gente entra”. “Estamos com um pequeno problema nas mãos e achei que o melhor jeito de esclarecer seria ter uma conversa tranqüila. sua protegida involuntária. apático. vazia. mas através das lâminas dá para ver dois altos eucaliptos no quintal e uma rede pendurada entre eles. verde-limão e amarelo contra um campo branco. “Tão autêntico! Você quer que eu te dê uma mão?”) O motorista passa-lhe as muletas. juncos. diz Marijana. “O que senhor quer?” “Isto não pretende ser um confronto”. “Olá”. Marijana?” “Bem. sem preliminares. um redemoinho de laranja. Elizabeth não é minha secretária. Nenhuma boneca em traje típico. “Então. diz ele.para Marijana. Está de jeans azul e top de algodão branco que não valoriza em nada sua cintura grossa. nenhum pôr-do-sol sobre o Adriático. diz ela. “Vou fazer chá. “Estilo de vida”. acha que são feitas com ironia. não é. A porta se abre um palmo. “Ela já vem”. Esta é mrs. A suposta Blanka coloca a cabeça pela abertura da porta. de alguma forma. É só uma amiga. Blanka. Nós queríamos ver sua mãe.” As persianas estão em ângulo contra o sol feroz.” “É. “Quem haveria de pensar!” Ele pensa que essas observações sobre o verdadeiro são. Costello. nem nunca foi. Nada acontece.

Sandálias azuis e unhas roxas: ele pode ser um ex-fotógrafo de retratos e Marijana pode ser uma exrestauradora de quadros.amigos Jokić têm de manter seu estilo de vida. diz ele. tão definitiva. quando eu chegasse em casa.” “Não sei por que você censura”. Drago tem a chave do meu apartamento. pegou emprestado um ou dois exemplares que você gostaria que devolvessem?” Ele faz que sim com a cabeça. que orgulhosos os seios dela. encontrar tudo como antes.” Faz-se um longo silêncio. roubo. Quero cuidar de você. petty larceny.. “Senhora também acha meu filho ladrão?” Elizabeth encolhe os ombros teatralmente. Eu esteja ou não em casa. A mulher que ele sonhara tirar do marido. com toda a certeza”. “Eu não saberia o que pensar. tão inocente que se confunde com um mero empréstimo. e todas as gradações entre um e outro. Pode dizer para Drago que seria muito bom. há um isqueiro de cromo em forma de concha de náutilo. A palavra ladrão. “Senhor deu chave para Drago?” “Drago tinha uma chave da porta de entrada enquanto estava morando comigo. Não vejo como eu possa me expressar com mais clareza. diz ela para Elizabeth. Marijana acende um cigarro. Marijana está usando sandálias de plástico. Às nove já terei saído e não volto antes das três. as pessoas têm o mesmo direito a um estilo de vida em Munno Para como têm em Melbourne. Por outro lado. “Então. “Senhora também tem reclamação?”. Grand larceny. É muito provável que outras coisas entre eles também sejam diametralmente opostas. Enquanto estava usando meu apartamento. Paul? Que Drago. Usando a chave dele. pergunta. azuis. tão pesada. Como seria. por exemplo. Não é isso que você estava querendo dizer. Na América se usa o termo larceny. por que vocês vêm?”. que atraentes! “Não sei nada de chave”. diz ela. estou cheia de admiração. Meu palpite é que o que Paul tem em mente é um furto. das duas filhas hostis e do filho traiçoeiro? Quanto tempo ele resistiria. “Tenho uma proposta a fazer. A atitude em relação a meu e seu. mas as estéticas dos dois são diametralmente opostas. só bate na porta igual polícia? O . “Para isso que vieram?”. “Sem dúvida.” Em cima da mesa. Quero estender uma asa protetora sobre você... na realidade. ou mais provavelmente um dos amigos de Drago. rapidamente?” Ela sacode a cabeça..” Marijana volta com o chá. dos mais inocentes. Ao contrário. ele e sua asa protetora? Por outro lado. “Não está em casa. Na terça-feira de manhã. “Posso falar com Drago. Por que teriam deixado a Croácia senão para ter o estilo de vida que escolheram?” “Não estou censurando. diz ele.. “Os jovens são sujeitos a tantas tentações hoje em dia. Tão grande. “Não telefona. apropriação indébita. eu vou sair e ficar fora de casa quase o dia inteiro. Você tem uma chave e Drago tem outra chave. Chá. diz Marijana. Ele pode tirar coisas do apartamento e pode levar de volta. diz Marijana. mas sem bolo. cuidar dela..” “Tudo bem”. furto.

Uma fotografia não é a coisa em si. depois faz cópias. Para quê? Para senhor morrer e deixar original para biblioteca? Para senhor ficar famoso? Famoso mr. uma nova vida. Oferece Drago escola nova. Drago. escola chique em Canberra. o Wellington College. dez vezes original. diz ela. nova no mundo. click. por que senhor tão zangado? Por que vem bater na porta? Domingo e senhor vem bater na porta igual polícia.” . Dinheiro não é o problema. Não vão aceitar isso nessa nova escola dele. Depois do que não haverá mais nenhuma questão e ficará tudo como antes. os amigos dele podem me visitar. Me ofereci para cuidar das crianças também. “Original?”. Agora ele fala nós rouba dele.” Marijana acena para o telefone. Oferece pagamento. Eu me ofereci para cuidar de você. Mas isso não faz nenhuma das duas ser cópia. Ele oferece nós todos vida nova. uma duas três quatro cinco. fez uma cópia que retocou. uma cópia que foi retocada. retirou uma fotografia da minha coleção. faz fotografia. Assim que câmera funciona.” “Se não é dinheiro.” “Wellington acabou. nenhuma cópia? Que que é bobagem agora? Senhor vem aqui.” “Isso é só meia verdade. faz cópia. Rayment?” Ela se volta para Elizabeth Costello. Fauchery. Shaun. ele pode passar a noite em minha casa se quiser. você entende dessas coisas melhor do que eu. A polícia não vem de táxi. “Mr. Câmera igual fotocopiadora. Rayment ofereceu dinheiro para nós. Marijana. Isso não existe. Não sou assim tão burro. Bang bang. Discussão inútil. Isso é ridículo. Nós não tem dinheiro para Wellington. uma cada um. Não é bom. Nós só temos uma vida. Então que é original? Original já é cópia. fotografia original? Aponta câmera. minha oferta continua de pé.” “Isso é bobagem. um novo original.” “Eu falo bobagem? Você faz fotografia. adquirir o hábito de pegar emprestado e não devolver. Drago pode ir me visitar.” “Então por que senhor diz Drago rouba?” “Não acredito que eu tenha jamais usado a palavra roubar e se usei retiro o que disse incondicionalmente. Não é igual pintura. E nós não somos polícia. como senhor diz. Mas não ofereci uma nova vida. E pago outras coisas também. Cada uma se torna uma coisa nova. uma coisa verdadeira. cem vezes original.” “Eu me ofereci para pagar o Wellington. esse homem. Foi colocada uma cópia no lugar do original. ou mais provavelmente o amigo de Drago. levou emprestada. não é bom para um rapaz em crescimento. da minha coleção. Nada mudou. Perdi uma foto original que tem valor para mim e quero de volta. e essas fotos todas original. Nem uma pintura. Uma de Fauchery. senhor diz para Drago ele tem de achar original. cinco vezes original. não pretendo saber como. Estão sendo dispensados? Ele nem terminou de tomar o chá. Marijana. “Que é isso. Agora eu gostaria que devolvessem o original. não sei dizer com que finalidade. Sabia disso? Ele oferece para me tirar da enfermagem.que ele pega? O que senhor diz que ele pega?” “Uma fotografia.

Ele nunca foi bom em discussões. diz Elizabeth Costello. Ljuba não está por perto para lhe dar um dos seus olhares. “Se telefona primeiro. Que chatice estar amarrada a um homem que não consegue nem enfrentar uma briga! E a mesma coisa com Marijana. diz Marijana. Talvez se tivesse vencido uma discussão uma vez ou outra. diz ele. Vou deixar aqui. honrosamente a ponto de merecer uma revanche ou perdeu abjetamente? “Senhor quer táxi?”. ele segue atrás. “Único que vem bater na porta é polícia”. De fato. despertando.” Ele batalha para se levantar. “Quer que eu chame táxi?” Ele e Costello trocam olhares. Se ele conseguir inverter a balança de volta talvez ainda possa se ligar a ela. Embora ela veja o esforço que está lhe custando.” “Concordo”. amigável. Seria uma pena que morresse. “Vá em frente”. diz Marijana e abre a porta. ele e Henriette pudessem ter ficado juntos.” “O Paul aqui não tem mais nada a dizer”. Graças a Deus. Marijana. ISSO VALE PARA VOCÊ. Pensei também” — dá uma olhada para Elizabeth Costello —. se senhor diz que vem tomar chá.” Mas Elizabeth Costello não ajuda em nada. Erro nosso. mas ele perdeu honrosamente.” Silêncio. como se costumava fazer antigamente. Ele dá uma olhada para Elizabeth Costello. o enrolavam em argumentos. Talvez no fundo do coração ela secretamente queira que ele vença. “Eu fico aqui e recupero o fôlego antes de começar o próximo ato. não faz um gesto para ajudar. “Vem!”. Um passo por vez. “Devíamos ter telefonado. talvez tenha sido por isso que seu casamento terminou: não que tivesse havido muitas discussões. É uma boa prática. sociável.” Ele tenta se levantar do sofá.” “Assustar. Nós devíamos ter telefonado. diz a placa brilhante na porta. Ele pode ler quando tiver tempo. diz ela. Marijana já está na metade da escada. diz Elizabeth. Desculpe. Eu tenho uma carta para entregar e achei que seria mais rápido entregar pessoalmente. É essa a conclusão da peleja? Ele está simplesmente perdido. “Está endereçada a Mel. As mulheres. “A menos que o Paul aqui tenha mais alguma coisa a dizer. diz Elizabeth Costello. “nós pensamos também que seria gostoso aparecer para tomar um chá e conversar. diz Marijana. “Queremos”. “Quer ver que tipo de ladrão é Drago. mas ele estava sempre perdendo. Isso era sem dúvida verdade com sua mulher. Isso que nós devíamos ter feito. abstraída. PARTICULAR. principalmente. mas a partir deste momento Paul desiste. “O quarto de Drago”. . Talvez Marijana queira que ele tente mais.” Coloca a carta em cima da mesinha de centro. então eu não assusto igual polícia. agora que pensa nisso. faz um gesto imperioso. Sei. de olhos fechados.” Marijana levanta-se. Elizabeth Costello está recostada. “Paul veio esperando conseguir de volta o que é seu. agarrado ao corrimão. “Ninguém está zangado. eu mostro.

mr. Essas fotografias” — ela acena para as três fotos na parede — “tudo no website. diz ele. não”. O encaixe não é perfeito: a posição da cabeça não combina exatamente com o jeito dos ombros. Marijana Jokić. diz Marijana. colorida. Imagens. escrivaninha.” “Só imagens. e não sem gentileza. “Por favor. Eu falo para ele também. diz Marijana. minha imagem. “Muito bom”.” A opinião dele sobre Drago. você quer ir para Marinha. pouco me interessa. Só — como diz? — cartaz. quer viver no submarino.O quarto é mobiliado funcionalmente em pinho claro: cama. Só quero de volta os originais. Senhor quer ver website?” Ela aponta o computador.” “Originais. A terceira. “Muito arrumado. mas porque é um tolo. sua casa aqui. é que ele mantém o quarto em ordem provavelmente porque a mãe está sempre buzinando no ouvido dele. Qualquer um pode ver. Imagens.” Ela faz uma pausa. mostra oito ágeis corpos masculinos em pleno ar mergulhando numa piscina. É só um menino. Uma presença e tanto para ter em mente no futuro. Não é segredo o que Drago faz. você aprende a ser arrumado. que tem de ladrão nisso? Coisa moderna isso. Montado no corpo da menina pequena com as mãos sujas de lama está o rosto de Ljuba. como se entendesse de repente que se ele não entende de computadores.” Marijana dá de ombros. Com as mãos nos quadris espera que ele fale. Quem quer viver num submarino tem de ser organizado. “O. não precisa. “ela vem morar com senhor agora?” . que zune suavemente. As que foram tocadas pela mão de Fauchery. Duas são Fauchery: o grupo de mineiros e as mulheres e crianças na porta da cabana de sapé. Quando Drago voltar eu falo com ele sobre originais. não é por má vontade. os olhos escuros fixados nele. nem nada mais. “Não entendo de computador. quando quer. Ele é jovem.” “Formas. Ele se aproxima e examina a segunda fotografia. As fotos originais. workstation de computador. Rayment deixa você fazer bagunça para você gostar dele.” De repente. “Elizabeth”. Brinca com imagens no computador.k. “Quem sabe. mas aqui você não fazer bagunça. Não poderia ser mais despojado e organizado. Drago nunca foi tão ordeiro enquanto ficou comigo. Pregadas na parede acima da cama de Drago há três fotografias ampliadas para o tamanho de pôster. “Então”. É isso que Drago quer fazer: viver em um submarino?” Marijana dá de ombros de novo. ela sorri. diz. estante de livros.” “Verdade. “Não coisa séria. Drago pode fazer todas as cópias que quiser. “eu sou ladrão. Bem intimidante. “Só brincadeira”. eu aponto câmera para senhor” — ela finca um dedo no peito dele —. diz ele. “Eu falo para ele. Fico surpreso. roubo sua imagem? Não: imagem é grátis — sua imagem. uma opinião que ele não externa. quem é dono? Senhor quer falar. nem o conceito de original.

Então talvez senhor fica negativo no seu apartamento também. alerta. Você pega. Alguma coisa vem. “Mas boa idéia talvez. então senhor esquece Marijana. eu sei disso. Paul.” “O. Palavra engraçada. eu sei. “Mandava construir uma cabana. Será tarde demais para aprender? Será que consegue encontrar um professor ali em Adelaide? Lição um: verbo amar. talvez para surpresa dela também. “Não. só bebê e eu — Ljuba era bebê —. padrinho.” Mais uma vez. meninos na escola. Muito.” E para surpresa dele. dorme onde? Senhor dorme na cama de Drago. mas não quer dizer melancólico. uma mulher?” Ela agora está borbulhando de riso.“Não.” Ela ainda está sorrindo. Na Croácia a gente diz ovaj glumi. Mas senhor não está fingindo. então eu sei. mr.” “Melancolia. gloom. eu não sei como diz. Sem filhos. Mas fica muito sozinho no apartamento — sabe o que quero dizer? Eu fico sozinha também em Coober Pedy.” “Acaba melancolia. Sentada em casa dia inteiro. “Enfim”. Porque onde ele mora.” Com uma mão ela mostra a ele como se agarra.” “Muito melancólico?” Ela sacode a cabeça. “Quer isso?” Ele não consegue rir.” “Paul.” “É. e nessa pausa ele sente que seu objetivo ao levá-lo para o andar de cima podia não ser apenas mostrar as fotos de Drago. talvez fosse capaz de cantar do coração. quer dizer que está fingindo. É a primeira sugestão que ela dá de que o inglês improvisado que emprega não lhe é suficiente. “Podia morar no quintal”.” “Senhor vem viver aqui. ela arruma tudo.. sussurra. ele sugere. ou seja lá o que for.”. dois homens. diz ela. negativa. não estamos planejando nada disso. Não é boa idéia. hã?” “Não. “chega de conversa. Está com a garganta seca. emergência. Então senhor não está sozinho quando acontece. Se ele ao menos falasse croata! Em croata. ela se põe na .k. sabe. que não é verdadeiro. De vocês todos. Esquece padrinho também. diz ela. sabe. acaba melancólico. esse padrinho? Senhor quer padrinho vem viver em Narrapinga Close? Não realista — entende?” “Nunca pedi para viver com vocês. pessoa fica. ela faz uma pausa. não é realista. Rayment. “Se apega a ninharias”. “Elizabeth vem viver com senhor. Elizabeth vem viver com senhor. ninguém. ljub. onde Drago dorme? Ou senhor quer dormir com Mel e eu. “Senhor bom homem. você pega. Podia viver numa cabana no quintal e cuidar de vocês.. antes de mudar para Adelaide. não.” “Senhor bom homem.

T. só isso!”. dois beijos. T. apressados!”.) d Em francês. (N. “Sempre apressados. T. “Renault. “Vamos lá. sejam bonzinhos”. T. “na casa dela”.” a Em francês. o carro mais econômico”. “São loucos. (N.) b Em francês.ponta dos pés e lhe dá um beijo. (N. (N.) .) e Em francês. Desperdiçam gasolina. (N. T.) c Em francês. meninos. “Vem. a gente desce agora. um em cada face.

“Estava mudando as colméias. e antes dele o avô. íntimo.. aí eu tenho de.” “Como vai. diz Marijana. Ouvi falar de você. zar opet!”. sabe. Ele a levanta: seu rosto está vermelho de calor. diz Elizabeth Costello. Costello. Uma relação íntima com uma briga de vez em quando. Elizabeth Costello não está sozinha. aqui na Austrália. Ao contrário. vira-o e começa a soltar a máscara de seu cabelo comprido. o riso e a liberdade dos dedos de Marijana no cabelo dele. Ela ginga para escapar.” A soltura entre os dois revela tudo — isso. Um casal nada estremecido.” “Só umas colméias”. ele explica. “São as abelhas”. por assim dizer. ele parece estar de bom humor. Rayment. diz Mel. mas nunca nos encontramos em pessoa. De pé acima dela está uma estranha figura: um homem de macacão branco largo. ela é amiga de mr.” Ela faz movimentos de girar com os dedos. Miroslav estica as mãos para trás. Mel?”. a cabeça escondida debaixo do que parece um balde de lona. dos eucaliptos principalmente. “Conhece meu marido? Essa mrs. O homem parece estar falando. mas suas palavras são irrecuperavelmente abafadas pela máscara.. para acrescentar um certo tempero: .30. solta a máscara. Rapidamente. “Seu cabelo está preso! Toda vez que ele veste” — ela aponta com um gesto o estranho chapéu — “o cabelo fica preso. a família dele sempre trata abelhas”. rindo. Mel. Você cuida de abelhas?” “É só tipo um hobby”. “O pai dele. diz Mel ou Miroslav. Marijana atravessa o piso. Tem um gostinho de eucalipto. Então ele trata abelhas também. ao estilo balcânico.* ela exclama. diz Marijana. “Mas é bom mel. “Zaboga.” “Meu marido tratador de abelhas”. agarra-a pelos quadris. “Elizabeth. “Meu marido. Agarra o homem pelos ombros — é Miroslav —.

“Talvez senhor pode explicar. diz Mel. Filha do pai. que presente esplêndido”. seguidos de ardente amor físico. “Paul está querendo muito isso. ao lado. “Só soldagem fui eu. “É magnífica”. usando bermuda. Lá está o conhecido Commodore vermelho e.” “Bom. “Drago parou de trabalhar nela um pouco. exclama Elizabeth. Que bicicleta?” “Adoraríamos ver a bicicleta”. Rayment. Ele sabe o quanto paga a Marijana. Até Blanka. depois.” “E Drago que construiu?”. . Ljuba apareceu do nada. mas algumas mulheres se desenvolvem tarde.” “É o que chamam de bicicleta reclinada”. diz Elizabeth. Liberdade de sair por aí. Paul? Vai ser a sua liberdade. a começar nas orelhas. “Nossa. trabalhando num presente? O que seria? Uma carteira bordada? Uma gravata estampada à mão? Ele pode sentir um rubor se espalhando pelo corpo. o que Miroslav chama de bicicleta.” “Adoraríamos”. poderia acrescentar. já que vieram aqui tão longe.acusações. pode adivinhar quanto Miroslav ganha. nossa!”. Mas podem dar olhada.” “Drago quer agradecer”. diz Elizabeth. “Sozinho?” “É”. alastrando-se para a frente. “Agradece mr. É o que ele merece. juntou-se ao grupo. Seguidos de remorsos e lágrimas. A menos que toda a história da briga e da fuga para a tia Lidie tenha sido uma mentira.” Pródigo também. “Onde está?” “Não está pronta”. sobre o rosto. Ele levanta a porta da garagem. E como isso é esperado dele e como é a coisa certa a fazer.” Saem da casa em grupo. diz Marijana. mas não o faz. ele pergunta. diz Elizabeth. sandália e uma camiseta que diz: Equipe Valvoline. “Vou trocar. uma trama que nem chega a entender? “Muito quente este macacão”. Rayment por tudo. “Não. Tem umas coisas que ainda precisa fazer. a pessoa não pedala. Na oficina. repete. pergunta Elizabeth. Ele não vai ligar. volta-se para ele. “Que estranha invenção! Como funciona?” Miroslav roda a máquina para fora da garagem. “Um presente magnífico.” “Então vão. recriminações. mr. “Neste modelo.” Ele faz uma pausa. tipo. Mas para quê? Será que ele pode ser objeto de uma extensa trama. Nenhuma beleza. pratos quebrados. Muito mais do que mereço. Não tem vontade nenhuma de que pare. “Vieram ver bicicleta?” “A bicicleta?”. Encontro vocês lá fora. Movimentos ágeis. diz Miroslav. portas batidas. “Magnífica”. gira a corrente com as mãos. diz.” Todos os olhos estão sobre ele. diz ele. uma invenção. um rubor de vergonha. Corpo esguio. com um sorriso. Miroslav vai encontrá-los. Será que Blanka vai ter a sua vez para agradecer a ele também? Será que está ocupada feito uma abelha. diz Mel. que não o aprovou desde o início. especializado. Soldagem é. “Não acha. dá um passo para a frente com as muletas e inspeciona o prêmio mais de perto.

Devem ter passado semanas naquilo. Ela desenhou. o ciclista ficará praticamente invisível. e nós moldamos em fibra de vidro. “Sem cabo”. permite-se imaginar que está rodando pela rua Magill. a mãe também. Por um momento. Miroslav o empurra para a entrada pavimentada. O assento é esquisito. vai pegar jeito. Ele se inclina para a frente. vermelho-vivo. a família por ele? A brisa sopra em seu rosto. experimenta dar uma girada. de encomenda. mas não vou largar porque.? Eu empurro. a valente bandeirinha tem por fim alertar os Wayne Blight do mundo. a gente acerta o assento. Todo o tempo e trabalho que os Jokić colocaram naquilo terá sido em vão. “Marijana ajudou com assento”. o. “Com pé esquerdo. ele pergunta. a flâmula tremulando brilhante acima da cabeça para lembrar ao mundo de ter pena dele. Drago montou uma vareta de fibra de vidro com uma flâmula laranja na ponta. “Não dá para comprar uma dessas em loja de bicicleta. com um conjunto de engrenagens e uma corrente.” Nenhum carro em Narrapinga Close. Claro que nunca vai colocá-la em uso.k. Será que sabem disso? Será que sabiam o tempo todo. filho.” Ele deixa as muletas.” Não horas apenas. “Sem cabo de marcha. a bicicleta — na verdade um triciclo — tem menos de um metro de altura. pai. isso é que mais parece: um carrinho de bebê com um bebê grisalho dentro dele. assim senhor pode ajustar para a frente e para trás. Mas já que está aqui. Então. não tem breque. Voejando acima da cabeça do ciclista. diz de novo. tira o casaco. Pintada a spray. Vou dar empurrada para senhor sentir um pouco. Dias. “Sabe — para sua perna. Ele nunca andou em uma antes. “Como dirige?”. esperando que a máquina se dirija sozinha. O rubor não desapareceu do rosto e ele não quer que desapareça. sem cabo de breque. então a gente pensou fazer esta especial. dando uma volta. montamos o assento num trilho. assim como não gosta de tudo o que é falsificado. diz Miroslav. agarra os cabos da manivela. atrás do assento. Na rua. Como os transeuntes vão sorrir! Sorrir e rir e . Miroslav dá um pequeno empurrão. abaixo da linha de visão de um motorista de automóvel. diz ele. Vai ficar no quarto de depósito de Coniston Terrace e ali se encherá de pó. “Estou ficando sem palavras. permite que Miroslav o ajude a montar. mas instintivamente não gosta de reclinadas. ele pela família. “Magnífica”. Um carrinho de bebê. enquanto estavam construindo aquilo? A lição prática é apenas parte de um ritual que estão celebrando. Uma reclinada. Drago ainda não pôs. as rodas menores de trás simplesmente rodam. Posso dar uma volta?” Miroslav sacode a cabeça. Tem uma barra aí — viu? — com mola. semanas. Está vendo. lembra.A roda da frente é do tamanho-padrão de roda de bicicleta.” Os observadores se afastam. assim como não gosta de próteses. Não se preocupa.

Ljuba deva saber. cabos e essas coisas. a cada um de vocês. “Quer dizer que eu vou muito depressa”. Só mais umas coisas para arrumar. Miroslav o ajuda a se levantar. é isso que está pintado no tubo do triciclo. obrigado. Até o dia em que Wayne Blight disparar sua máquina e partir para cima dele outra vez. Blanka certamente sabe. meu cavaleiro”. “Bom. embora de vez em quando tenha um lampejo de esclarecimento. Marijana segura o queixo. “PR. “E agora nós temos de ir embora. Ela percebeu desde o começo como ele tem batalhado para preservar sua dignidade masculina e nunca caçoou dele por isso. É a clássica pose de pensar. “Não se preocupe”. Marijana o conhece melhor que o marido. Uma das paisagens locais. diz ele.” Ele a ignora. O que Marijana acha? Será que ele deve continuar batalhando por dignidade ou já é hora de capitular? “É”. então”. Ela deu a devida importância à pergunta dele e respondeu. seja exatamente isso que os Jokić querem lhe ensinar: que devia desistir de seus ares solenes e se transformar no que é de fato. ele gostaria de dizer. “Bravo. hein. Com toda a sinceridade. Elizabeth aplaude. diz ele (ia dizer Bom. “Meu cavaleiro da triste figura. não temos?”. “O que você acha. Agora. a mulher que. ronda as ruas com seu triciclo feito em casa. melhor que Elizabeth Costello.” Ele se volta para Elizabeth. os outros acompanham. “bom. um velho senhor de uma perna só que. “Combina com senhor. PR EXPRESS. A mulher cujo toque de lábios ele sentiu na face. vovô! Mas talvez. “O que quer dizer Expresso PR?” E. eu vou dar uma experimentada. Muito obrigado. em termos amplos. e para Miroslav: “Pode me dar uma mão?”. diz ele. uma figura engraçada. Acho que devia experimentar. o homem-foguete. com a direita apóia o cotovelo esquerdo. de fato. diz Marijana devagar. por razões que nunca ficaram inteiramente claras para ele. de reflexão madura. “Que eu julguei mal e ofendi”. “Acha que eu devia sair por aí de novo?” Porque Marijana até agora não pronunciou nem uma palavra. um dos tipos estranhos que emprestam colorido ao tecido social. diz Ljuba. então. detém o coração dele. quando não está pulando por aí com suas muletas. Marijana?”. Miroslav não saiu do lado dele.” Que eu julguei mal e ofendi. diz ele. mas se contém porque não quer ferir Miroslav.assobiar: Que bom. ela falou. responde Miroslav. está escrito na cara dele). então. com letras que sugerem artisticamente o vento soprando. toda a minha sincera gratidão. meu amor. “Vamos colocar no trailer e levar no próximo fim de semana talvez.” . Agradeçam principalmente ao ausente Drago. pergunta. embora Miroslav deva saber. Miroslav vira a máquina em uma grande curva que permite que voltem para a entrada. “Expresso PR”. diz ela.” Com a mão esquerda.

Pode perguntar para ele então. Por uma velha fotografia! Uma fotografia de um bando de estranhos que não podiam ser mais indiferentes a você. “Um fiasco”. não. em sua forma original e talvez na forma nova. Não é realmente um assunto para continuar discutindo. ela continua.. Os mineradores de Ballarat. Eu sou tão ignorante. não agüento mais. de fato.” “Mas e se eu nunca tivesse descoberto? Se eu fosse para o túmulo em completa ignorância dessa pretensa brincadeira? Se a brincadeira passasse despercebida à Biblioteca Estadual também? Se continuasse despercebida até o fim dos tempos? Dêem uma olhada nestas fotos. “você estava a ponto de perder um afilhado e por quê? Eu mal podia acreditar no que ouvia. Drago não podia ser mais indiferente ao dinheiro. Olhem aquele sujeito com os bigodes ferozes! E daí?” “Daí vai passar a fazer parte do nosso folclore que os bigodes de brigão estavam na moda na Victoria dos anos 1850. “Uma derrota. Quanto a por que Drago resolveu publicar as fotos assim. ele diz para Elizabeth.” “Brincadeiras podem. O que quer dizer isso. você não se saiu bem. Uma falsificação é feita para ganhar dinheiro. uma brincadeira é só uma brincadeira. ter uma relação com o inconsciente. . O que mais podia ser?” “Brincadeiras têm relação com o inconsciente. meninos. Quem mais? O homem que não ri. não sou a pessoa certa para você perguntar. O homem que não consegue aceitar brincadeiras.” “Dirigida contra. Marijana me disse que as fotos estão agora no website de Drago. abraça as coxas da mãe e esconde o rosto. estar no website?” “Quer dizer que qualquer pessoa no mundo que tiver curiosidade pela vida e época de Drago Jokić pode inspecionar as fotos em questão. Ela dá um sorriso a ele..” “Por favor”. o primeiro que lhe dá.“Homem-Foguete”. a caminho de casa. Nunca senti tanta vergonha. “Você não é Homem-Foguete. Ele virá no sábado que vem entregar seu veículo. nada mais. Só isso. diz ele. você é Homem Lento!” E cai na risada.” “Não é nem uma falsificação. Mas também: às vezes. Claro que é só uma brincadeira. O que dá a Drago o direito de pegar minhas fotografias eu ainda não entendo.” “Marijana diz que a história toda da falsificação é só uma brincadeira.” “É. nada menos. A um menininho francês que não tinha nem nascido ainda. mais uma discussão. na privacidade de sua casa. Estão num táxi. mas vamos deixar passar. diz Ljuba. uma derrota moral. Aquela fúria toda! Toda aquela indignação!” Fúria? Do que ela está falando? “Imagine”.” “Dirigida contra você. revisada e aumentada. indo para o sul. “por favor.

Ele martela e ofega como um carro velho quando subo escadas.” “E daí?” “Daí encerra-se o assunto. nenhuma das quais vai chegar perto de tocar seu coração como Marijana Jokić tocou. não tenho dúvidas. vai haver eu. à altura do seu gosto exigente. O tempo. continuarão vindo as contas trimestrais do Wellington College. E os cartões de Natal: Desejamos um Feliz Natal e um próspero Ano-Novo — Marijana. mrs. vai haver alguém para substituir Marijana ou Marijana é o fim da linha para você? Isso depende. De mrs.” “Está esquecendo da foto desaparecida. algumas não tão bonitas. Blanka.” “Sua preciosa fotografia não desapareceu. Se vier para Melbourne. Se você continuar em Adelaide. fora de lugar. Drago. você pagará.Paul. E o que mais você gostaria de revelar do meu futuro. Seja qual for a opinião que tem de fotografias e da relação delas com a realidade. Costello. Por que pergunta? Está preocupado de ser você a fazer o papel de enfermeiro? Não tenha medo — eu nunca pediria isso a você. ai. o fato é que uma das minhas Fauchery. prevejo apenas enfermeiras. Da esplêndida linha do busto. ai. Porém. o fiel e velho pangaré. o episódio é da mais absoluta insignificância.” “Então não será hora de telefonar para seus filhos? Não é hora de seus filhos fazerem alguma coisa por você?” “Meus filhos estão longe. inclusive mrs. Ljuba.” “E daí?” “Daí o quê? Depois de domingo? Não tenho certeza de que vá haver mais alguma coisa depois de domingo. por outro lado. Embora minhas panturrilhas não estejam. o grande curador. Esse é o único resultado que conta da chamada falsificação. Mel. Olhe no seu armário outra vez. O que conta é que você saiu do seu apartamento e visitou Munno Para. Ouso dizer que não vai durar muito mais. Domingo pode muito bem marcar o seu último contato com os Jokić. como tendem a fazer as memórias. desapareceu. Por que fala dos meus . Aposto dez contra um que está lá. que vale mais que dinheiro. Ou então Drago vai encontrar no meio das coisas dele e devolver no domingo que vem. uma galeria de enfermeiras. Jokić. Das panturrilhas macias. nada mais que lembranças restarão para você. Que. do outro lado das grandes ondas. creio. Paul. onde trocou palavras em particular com sua amada Marijana e pôde ver o marido dela com sua roupa de tratador de abelhas e a bicicleta que o filho dela está construindo para você. enquanto está nessa veia profética?” “Quer dizer. com desculpas. Jokić. tocadas de remorso. Memórias queridas. algumas bonitas. como homem honrado. No mais.” “E quanto ao estado do seu coração?” “Meu coração? Tem altos e baixos.” “Entendo. que desaparecerão com o passar do tempo. Dos encantadores erros de linguagem. um genuíno tesouro nacional.

Se tiver de escolher entre boa enfermagem e um par de mãos amorosas. não é?”.” “Não. Tem espaço para passageiro.filhos? Quer adotar os dois também. juventude!” O taxista os deixa em Coniston Terrace. Elizabeth.” “Brincadeira. ai. eu vou para um asilo. Paul.” “É. Drago”. isso é realmente difícil de encontrar hoje em dia. diz Elizabeth Costello. nem coração amoroso. Se bem que o tipo de cuidado que eu procuro. em frente ao apartamento dele. “Olhe!” Três figuras de motocicleta passam.” “É. “O de capacete vermelho — não era Drago?” Ela suspira. vou escolher as mãos amorosas sempre. zelosa. embora com sangue correndo igualmente quente nas veias. perfeito demais. eu nunca sonharia em me impor aos meus filhos. em resposta à sua pergunta. Isso existe. Tão atencioso de Drago. Mas não para outro adulto. ser padrasto deles? Isso seria uma infinita surpresa para eles. Nunca ouviram falar de você. Mas não. pode se limitar ao caminho da beira do rio. cuidados amorosos. eu não tenho mãos amorosas.” Ela agarra o braço dele. a imortalidade!” Provavelmente não era Drago. ia querer um veículo meu mesmo. a juventude! Ah. não tem. Não. mesmo assim. Como vamos trazer o seu coração para fora do esconderijo? — essa é a questão. Um rapaz atencioso. ela repete. Provavelmente um trio de rapazes sem nenhuma relação. você acha?” “Espaço para uma criança no banco de trás. não quero ser um peso para você. ai. “Então”. “Ah. Vai ficar com os braços fortes bem depressa. “Fim de um longo dia.” “Bom. “É o presente certo. Coincidência demais.” “Então esse seria o seu conselho: me contentar com a enfermagem. não existe em nenhum asilo que eu conheça. oferecer uma refeição e um lugar para dormir. que o de capacete vermelho era Drago. Você talvez tenha de se contentar com mera enfermagem boa. em rápida sucessão. isso é o que eu diria. boa enfermagem. Se todo o resto falhar.” “E que tipo de cuidado seria?” “Cuidados amorosos. Eu discordo.” Esse é o momento em que devia convidá-la para entrar. Vai ser um bom exercício. para Munno Para. “sua nova bicicleta. “Ah. Pense em Marijana. Mas eles que finjam. sim. Vai melhorar seu humor. indo na direção oposta. Um coração oculto. Nem mãos amorosas. Mas ele não diz nem uma palavra. Se ainda estiver preocupado com Wayne Blight. Será que ainda vendem aqueles motorzinhos que se prendiam na bicicleta e que faziam put-put para ajudar nas subidas? . Dá para ser uma boa enfermeira sem amar os próprios pacientes. Agora você está livre para rodar por onde quiser. diz ela. de preferência com motor. “Ah. Se eu resolvesse passear. sabe.

cada veia. Você já tem a sua bela flâmula cor de laranja e arrumo outra para mim.” “Que tal uma manopla? Uma manopla em preto sobre fundo branco e embaixo a divisa Malleus maleficarum. Mas não se chama deux cheveaux. volumoso tratado escrito em 1486 pelos dominicanos James Sprenger e Heinrich Kramer. e lhe restou Elizabeth Costello.” “Sei do que está falando. cada fio de cabelo. pode ver cada detalhe. T. depois examina o próprio coração. nós dois. dois cavalos. Mas Marijana ficou no passado agora. outra vez?”. eu me lembro. do tipo que tinha um toldo franjado e uma barra de direção? Podemos vasculhar as lojas de antigüidades. por toda esta vasta terra marrom. Paul. (N. quanto a agora: adeus. vira-se. Talvez seja isso que eu deva arrumar para mim. pelo que sei. Aí vamos estar prontos para partir para nossas aventuras. esquerda direita esquerda. Podíamos viajar pelo país inteiro. Malleus maleficarum para mim e Para frente e para o alto para você.”** “Malleus maleficarum. Excelente! Você realmente está ficando muito esperto. Lembra daquelas cadeiras motorizadas. usado durante trezentos anos como fonte de provas e manual de torturas nos processos movidos pela Inquisição contra mulheres acusadas de bruxaria. Alguma coisa menos. Nós nos transformaríamos em uma amada instituição australiana. Quem haveria de pensar que você sabia uma coisa dessas. * Em croata. tenho certeza de que encontraria uma. ou quase nada. você acha? Nenhuma esperança de fazer você mudar?” “Eu temo que não. leste e oeste. você e eu. Elizabeth.) . Isto é alguma outra coisa. Ele coloca os óculos de novo. “Isso é você quem sabe. T. Que idéia! Que idéia brilhante! Isso é amor. “Não”. mas seus lábios estão tremendo. Adelaide é o lugar certo para uma cadeira antiga dessas.” E ele se inclina para a frente e a beija três vezes à maneira formal que aprendeu em criança. Você podia me ensinar obstinação e eu ensinava você a viver com nada.” “E essa é sua última palavra. Existe mais gente no mundo. Podemos pedir para Miroslav fixar uns chevaux nela. Paul? Nós encontramos o amor afinal?” Meia hora atrás ele estava com Marijana. com um desenho.) ** O martelo das feiticeiras. Na luz clara do fim da tarde. Deux cheveaux.” “Mas o que eu vou fazer sem você?” Ela parece estar sorrindo.Tinham disso na França. Ele a examina. (N. “isto não é amor. diz afinal. Deux cheveaux é outra coisa.” “Ou uma cadeira de rodas motorizada. norte e sul. “Meu Deus. dá uma boa olhada nela. Escreveriam artigos sobre nós nos jornais. Quanto a mim.

Peter Rose.Nota do autor Pelos generosos conselhos e apoio. . John Williams e Sharon Zwi. Catherine Lauga du Plessis. meus agradecimentos a Arijana Bozović. Peter Goldsworthy.

entre eles o Nobel. África do Sul. e. e por Desonra. COETZEE nasceu em 1940 na Cidade do Cabo.BERT NIENHUIS J. caso único. a Companhia das Letras também publicou O mestre de Petersburgo. dois Booker Prize. Além desses. em 2003. É um dos maiores escritores contemporâneos de língua inglesa e já recebeu diversos prêmios por sua obra. e atualmente vive na Austrália. Elizabeth Costello.M. em 1983. A vida dos animais. . por Vida e época de Michael K. em 1999. Juventude e À espera dos bárbaros.

“Todos os direitos são reservados pelo proprietário (J. Nova York 10176-10187. Preparação Cacilda Guerra Revisão Isabel Jorge Cury Cláudia Cantarin ISBN 978-85-438-0291-6 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ LTDA. Coleção Nilza Micheletto e Rodrigo Naves.com. Suite 1613. Rua Bandeira Paulista. Coetzee) ao redor do mundo. 551 Fifth Avenue. M. Inc. cj. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 www. Estados Unidos. Coetzee Publicado mediante acordo com Peter Lampack Agency. 702.M.” Título original Slow Man Capa João Baptista da Costa Aguiar sobre Sem título (1996) óleo e cera sobre tela de Fábio Miguez.companhiadasletras.br .Copyright © 2005 by J.

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