Fernandes, Rogério G. (Bellouesus Isarnos) & Hansen, Steve. Anthologia
Gallica; Senobrixta - Galathách hAthevíu poesia & prosa, pp. 18-28.
2 Garīōsed Dēwūs Īwerionos
Garīōsed Dēwūs Īwerionos: Anū, Māter Dēwom, Walniamoni Saitlī Allī;
Dagodēwe, KwaryoTegerne, Roudī Rowiđđous, Ekwodeξ Olloφāter;
Dwēnī Kwekwtom, YakkitoBere, KāgnityoMāre; Mororīgani, Sentikwi
Wikuris NemoRīgos; Lugus, Wēdonđ Ouξisame, Eludānāke; Ogmī
Sulabarisame, TreξnoWire, GrēnoEnekwom; Neχtone, Walos Touξberī
Koslom; Brigantī, Benā Eξgnoyī, BanoLīagis, BanoGobans; Manawyāgne,
Kommedu Kēwyānom, Ollosamū Briχtānom: tewe dworestum moi adkorī.
Tares abonem agonto, Kađđeyes, so ādetā swīs esti sulāmis. Westei
swesron tares wrestum agete eti toandemoyaneket ratā swesron.
Gára mi Déié Ériu
Gára mi Déié Ériu: Anu, Máthir in Déié, Uláth in Anthúmn; In Dáidhé,
Tiern in Bár; Ródh Roís; Epódhech Oláther; Dwén Péith, Beríath Iachas;
Caghnith Wár; in Rhían Wár, ben’chel ghargh Rich in Nem; Lúi, Gwelaun
Ucham, Penchwídh Cerdhlé Élu; Oghwé Sulavar; Trechnóir; Grenénep;
Néithon, Tiern Anón in Prené Col; Brían, Ben Gwísu, Médhich’ven,
Gov’ven; Manaughn, Tiern in Nivlé, Olsam Lichíné: dichóri riem só
dórath.
Diái tré in ávon, Doné Lóchúach, esi in lóch-sin súlam risú. Tré in dhórath
diái a só úlidh ach ródhi adhim só rathúé.
Chamo os Deuses de Ériu
Chamo os Deuses de Ériu: Anu, Mãe dos Deuses, Governante do Outro
Mundo; o Dagda, Senhor do Caldeirão, Ruadh Rofhesa, Eochaid
Ollathair1; Dian Cécht, Portador de Saúde, Grande Cáinte2; a Morrígu,
Esposa Bravia do Rei do Céu; Lugh, Comandante Nobilíssimo, Mestre em
                                                            
1

Ruadh Rofhesa (“Senhor do Grande Conhecimento”) e Eochaid Ollathair (“Melhor
Cavalo, Pai de Tudo/Grande Pai”) são dois dos vários epítetos do Dagda.
2
Cáinte, “satirista” em irlandês antigo; deriva do verbo cainid, “insultar, reprovar”.

 
 

Muitas Artes; Ogma, o Muito Eloquente, Trenfer, Gríanenech; Nechtan,
Senhor da Fonte das Aveleiras; Brigit, Mulher Sábia, Curandeira, Ferreira;
Manannán, Senhor das Brumas, Ollamh3 de Encantamentos: abri para mim
o vosso portal.
Vinde pelo rio, ó Seres Brilhantes, este lugar está pronto para vós.
Cruzando o portal, vinde a vossa celebração e concedei-me vossas
bençãos.
Comentário
a) Anu
Talvez idêntica a Danu ou Dana, Anu é a deusa mãe da mitologia
irlandesa4. As Tuatha Dé Danann eram os seus filhos divinos, os deuses e
deusas que governavam a Irlanda antes da chegada dos Filhos de Mil. Não
é impossível que os monges que escreveram as sagas irlandesas a partir do
séc. VI tenham diminído o seu papel divino original nas compilações
literárias, que registram um mundo orientado sobretudo para o gênero
masculino, onde guerreiros estariam muito à vontade. O culto de Anu
estava especialmente associado a Mumhan5 e duas colinas em Contae
Chiarraí6 são ainda conhecidas como Da Cich Anann7.
b) O Dagda
Seu nome significa “deus bom” (dag día, em irlandês antigo). É o grande
deus da mitologia irlandesa, comumente representado como um homem
em trajes rústicos que arrasta uma enorme clava suportada por rodas. Com
uma das extremidades dessa arma, o Dagda podia matar os seus inimigos e
com a outra, trazer os mortos de volta à vida. Atribuía-se grande sabedoria
ao Dagda e o domínio de todas as artes mágicas. Era também um dos
líderes das Tuatha Dé Danann. O Dagda é um grande guerreiro e foi
                                                            
3

Ollamh (ollam em irlandês antigo), “mestre-poeta, mestre de um ofício, homem
instruído, douto, professor”.
4
O Sanas Chormaic (“Glossário de Cormac”, séc. X, atribuído a Cormac Ua Cuileannáin,
bispo e rei de Caisel), ensina que Anu era mater deorum Hibernensium, “mãe dos deuses
dos irlandeses”.
5
Munster, a antiga província (cúige) ao sul da Irlanda.
6
County Kerry.
7
“Dois Seios de Anu”.

 
 

amante da Morrígu, deusa da matança. Os ossos de seus inimigos foram
descritos como “pedras de granizo sob as rodas dos seus cavalos” no
momento em que ele empunhava a sua poderosa clava. Como líder de
enorme poder, o Dagda conduziu as Tuatha Dé em batalha, massacrando
todos os que ousassem confrontá-lo. No entanto, ele é também associado à
abundância, sendo capaz de satisfazer o apetite de qualquer número de
indivíduos por meio do seu caldeirão inesgotável. O próprio Dagda tinha
grande prazer em comer, pois antes da Segunda Batalha de Mag Tuired8 ele
visitou o acampamento dos Fomoirí, seus ferozes inimigos, durante uma
trégua na Véspera de Novembro9. Ali cozinharam para ele um mingau de
leite, farinha, gordura, porcos e bodes, o suficiente para cinquenta homens,
que o Dagda teria de consumir totalmente sob pena de morte. Com uma
colher de madeira “tão grande que um homem e uma mulher poderiam
nela dormir juntos”, o Dagda facilmente consumiu a gigantesca refeição, o
que temporariamente o transformou num velho obeso, mas não o impediu
de manter relações com uma jovem fomoir que lhe prometeu usar a sua
magia para ajudar as Tuatha Dé. A derrota dos Fomoirí na Segunda
Batalha de Mag Tuired foi devida realmente a Lugh, porém o Dagda
continuou a ser a figura mais respeitada, mesmo depois que as Tuatha Dé
foram derrotadas pelos Filhos de Mil, ancestrais dos irlandeses. Foi ao
Dagda que coube a importante tarefa de conduzi-las ao mundo
subterrâneo. Com a passagem dos séculos, essas deidades um dia
poderosas foram gradualmente transformadas nos Daoine Sídhe10, as fadas
do folclore irlandês.
c) Dian Cécht
                                                            
8

Cath Maige Tuired (em irlandês moderno: Cath Maighe Tuireadh), “Batalha de Mag
Tuired” (“Batalha da Planície dos Pilares” ou “Batalha da Planície das Torres”) é o nome
dado a dois relatos fundamentais da mitologia irlandesa que descrevem batalhas ocorridas
em locais diferentes, ambas na província de Connacht. O primeiro, Cét-chath Maige
Tuired (“A Primeira Batalha de Mag Tuired”) ou Cath Maighe Tuireadh Cunga (“A
Batalha de Mag Tuired em Cong”) ou ainda Cath Maighe Tuireadh Theas (“A Batalha
de Mag Tuired do Sul”), conta como as Tuatha Dé Danann tomaram a Irlanda dos Fir
Bolg, descendentes de Nemed. O segundo, Cath Dédenach Maige Tuired (“A Última
Batalha de Mag Tuired”), Cath Tánaiste Maige Tuired (“A Segunda Batalha de Mag
Tuired”) ou ainda Cath Maighe Tuireadh Thúaidh (“A Batalh de Mag Tuired do Norte”),
conta como as Tuatha Dé, depois da vitória sobre os Fir Bolg, caem sob o domínio
despótico dos Fomoirí e lutam para recuperar a liberdade, triunfando sob a liderança
principalmente dos deuses Lugh Lámhfhada (“Mão Longa”) e Dagda.
9
Isto é, no Samhain.
10
“Povo dos Montes Encantados”.

 
 

É o deus irlandês da cura. Diz-se que junto a sua filha, Airmid, Dian Cécht
guardava uma fonte cujas águas podiam restaurar a vida dos deuses
moribundos. Depois que Nuada, rei das Tuatha Dé Danann, perdeu um
braço na luta contra os Fir Bolg, por ocasião da Pimeira Batalha de Mag
Tuired, Dian Cécht lhe deu uma mão de prata, o que valeu a Nuada o título
Argetlámh11. Embora impressionadas pela habilidade de Dian Cécht, as
Tuatha Dé sentiram que, devido à mutilação sofrida, Nuada não seria mais
apto para exercer a realeza e Bres, cuja mãe (Ériu) pertencia às Tuatha Dé,
sendo seu pai (Elatha) um príncipe fomoir, ocupou o seu lugar. Bres,
entretanto, era um tirano e tornou-se extremamente impopular, de modo
que Nuada foi outra vez levado à liderança após o filho de Dian Cécht,
Miach, fazer-lhe um novo braço de carne e osso. Enciumado da perícia
médica de Miach, Dian Cécht matou-o.
d) A Morrígu
Também Morrígan, Mórríghean, Mór-Ríogain, seu nome significa “Rainha
Fantasma” ou “Grande Rainha”. É a deusa irlandesa da morte no campo de
batalha, magia e soberania que ajudou as Tuatha Dé Danann nas duas
batalhas de Mag Tuired. Não raro ela é apresentada como uma tríade de
deusas, todas irmãs, sendo Badb, Macha e Nemain / Badb, Macha e Anand
as combinações mais comuns, caso em que o grupo é designado pelo
plural Morrígna. Sua forma favorita (embora não a única) é o corvo, que
ela assumiu para pousar no ombro do moribundo Cúchulainn, o grande
heroi de Uladh12, quando este foi finalmene vencido e morto na guerra13
contra a rainha Medb de Connacht14. Cúchulainn não havia somente
recusado o amor da Morrígu, mas chegou mesmo a agredi-la, o que selou o
seu destino trágico.
e) Lugh
É o nome daquele que pode ser o deus sol irlandês, chamado Llew pelos
galeses e Lugus na velha Gália. Lugh é sempre descrito como um guerreiro
jovem e belo. Pertence em parte à raça dos Fomoirí, pois seu avô, Balor,
era um dos seus grandes líderes. Os Fomoirí eram deuses marinhos que
                                                            
11 

“Mão de Prata”.  
Ulster, a antiga província ao norte da Irlanda.
13
Trata-se do Táin Bó Cuailgne (“O Ataque às Vacas de Cúailgne”), o grande épico da
literatura irlandesa medieval.
14
Connaught, a antiga província a oeste da Irlanda.
12

 
 

desafiaram as Tuatha Dé Danann pelo controle da Irlanda. Às vezes
descritos como criaturas disformes, com um só olho, mão e pé, podiam
também ser muito formosos, como se diz teria sido Elatha. A mãe de Lugh
era Ethlinn, filha única de Balor. De acordo com uma profecia, Balor seria
morto por seu neto. Assim, ele trancou Ethlinn numa torre de cristal em
Toraigh15, mas Cian, filho de Dian Cécht, conseguiu chegar até ela e Lugh
nasceu como resultado desse encontro. Os relatos mitológicos deixam em
dúvida se foi Manannán Mac Lir ou o deus ferreiro Goibhniu, irmão de
Cian, quem salvou Lugh, dele cuidando até a idade adulta. Bem antes da
batalha final entre as Tuatha Dé e os Fomoirí, o valor de Lugh como
guerreiro já tinha sido reconhecido. Nuada, líder das Tuatha Dé, renunciou
em seu favor e, na Segunda Batalha de Magh Tuireadh, Lugh cumpriu a
profecia da morte de Balor, quando o matou com um arremesso de funda.
Antes de desferir o golpe decisivo, Lugh rodeou o exército inimigo com
uma só perna e com um olho fechado, um percurso mágico que copiava a
deformidade de muitos Fomoirí, dotados de uma só perna e um só olho,
particularmente Balor. Parece que, como o herói de Uladh, Cúchulainn, e
os berserkers da mitologia germânica, o frenesi bélico tomava Lugh de tal
forma que um olho desaparecia dentro de sua cabeça enquanto o outro
inchava num olhar fixo medonho e paralisante. A pálpebra do olho único
de Balor tinha de ser levantada por quatro servos e Lugh lançou sua pedra
ao olho no momento em que este foi aberto. O olho de Balor foi
empurrado para dentro da cabeça, fazendo com que o seu olhar terrível
caísse sobre as tropas fomorianas que se achavam atrás dele. Assim, Balor
morreu e os Fomoirí dispersaram-se. Lugh tornou-se conhecido como
Lamfhada (“o do braço longo”). É bem provável que essa grande vitória
tenha representado a ascensão de deuses mais jovens entre as próprias
Tuatha Dé Danann, pois o jovem Lugh derrubou Balor com uma arma
mais moderna do que a velha clava do Dagda. Nesse sentido, outro epíteto
de Lugh era Samildanach (“o das muitas habilidades”). A essa
engenhosidade pode-se atribuir a apresentação de Lugh como o pai de
Cúchulainn nas sagas com componentes mais históricos. Acreditava-se
que o deus solar tivesse lutado ao lado de seu filho durante a invasão da
rainha Medb de Connacht a Uladh. Depois da morte de Cúchulainn, seu
irmão adotivo Conall afirmou ter recebido a ajuda de Lugh ao perseguir

                                                            
15

Ou Oileán Thúr Rí (Tory Island), uma pequena ilha na costa noroeste de Contae Dhún
na nGall (County Donegal), Uladh (Ulster).

 
 

oss matadores de Cúchulainn. Em certa ocasião, o deus mostrou em meio à
névoa mágica16.
f) Ogma
Ogmios (Ὄγμιος em grego) é um deus gaulês conhecido de uma passagem
de Lucianus de Samósata (c. 120 - após 180 d. C.) que, de passagem pela
Gallia Narbonensis17, viu uma imagem sua mostrando-o com os atributos
usuais do Hércules clássico como psicopompo (condutor das almas ao
Outro Mundo). Contudo, esse Hércules gaulês era um ancião calvo e
bronzeado (o que leva Lucianus a compará-lo e Caronte e Jápeto) de cuja
língua uma corrente de ouro puxava seguidores aparentemente felizes.
Além dessa menção literária, Ogmios foi atestado numa inscrição
encontrada em Reims (a antiga Durocortorum) e em duas tábuas
execratórias18 (tabellae defixionum) de Bregenz (< Brigantium), às
margens do Lago Constança. Uma dessas tábuas (hoje desaparecida) liga
Ogmios ao Dīs Pater romano e à gaulesa Aeracura. A segunda,
encomendada por uma mulher possuída pelo ciúme, entrega o seu amante
a Ogmius, o deus da morte e do Outro Mundo. O irlandês Ogma, invocado
nesta oração, possuidor dos epítetos Gríanainech (“Rosto de Sol”) e
Trénfher (“Homem Forte”, isto é, “o Campeão”), filho de Elatha, membro
das Tuatha Dé Danann e, conforme o Auraicépt na nÉces19, inventor do
alfabeto ogâmico (ogom, ogum em irlandês antigo; ogham em irlandês
moderno) tem sido identificado a Ogmios pelos escritores modernos em
razão da óbvia semelhança dos nomes, apoiada igualmente nos atributos
comuns de força heróica, notável habilidade linguística e pela
                                                            
16

V. o texto no. 23, Sweton Wēdontos.
Prouincia Gallia Narbonensis (“Província da Gália de Narbo”, nome do seu principal
centro urbano). Província romana desde o ano 123 a. C., a Narbonensis ocupava os
territórios dos atuais Languedoc e Provence, na França meridional.
18
As tabellae defixionum (“tábuas de maldições”) eram textos comumente gravados em
pequenas placas de chumbo (embora tenham sido encontrados exemplares em outros
materiais) onde se inscreviam fórmulas e sinais mágicos, imagens das deidades invocadas
e dos seus invocadores e ainda das próprias vítimas contras as quais se dirigia o conjuro.
Eram frequentemente depositadas em tumbas, para que os defuntos irados se
encarregassem de causar dano aos indivíduos assinalados nas imprecações.
19
O Auraicept na nÉces (“Manual do Sábio”) é basicamente um grande texto sobre a
gramática da língua irlandesa. In Lebor Ogaim (“O Livro dos Oghans”) é um tratado que
dele faz parte e traz dezenas de diferentes alfabetos ogâmicos. O próprio Auraicept
integra uma grande compilação de textos medievais (datada do séc. XIV) hoje conhecida
como Leabhar Bhaile na Mhóta (“Livro de Ballymote”).
17

 
 

correspondência dos epítetos de Ogma com a descrição de Lucianus
(Rosto de Sol x ancião bronzeado). Tido como patrono do conhecimento,
do estudo, da eloquência e, por extensão, dos poetas (filí), Ogma forma
com o Dagda e Lugh uma tríade de deidades conhecidas como tré dée
dána (“três deuses da arte ou conhecimento”), título também aplicado a
outras tríades divinas.
g) Nechtan
Nechtan é um deus aquático irlandês cujo nome é cognato ao romano
Neptunus, o deus do mar. De acordo com a lenda, na morada de Nechtan
(Síd Nechtain, o “Monte Encantado de Nechtan”20) localizava-se a Fonte
de Segais, famosa como a fonte do conhecimento sobrenatural que podia
ser obtido ao comer o salmão mágico que nela nadava ou as avelãs cheias
de sabedoria das nove aveleiras que a cercavam e ao cair na água, eram
comidas pelo salmão (Éo Fis, o “Salmão do Conhecimento”). Certa vez, a
deusa Bóand, tomada de curiosidade, aproximou-se da fonte. Havia um
tabu (geis) que proibia qualquer indivíduo além de Nechtan e seus três
copeiros de aproximar-se da Fonte do Conhecimento. Quando Bóand
acercou-se dela, três ondas irromperam e atingiram-na, desfigurando um
dos seus pés, um dos seus olhos e uma das suas mãos. Bóand fugiu em
direção ao mar, porém foi seguida pelas águas brancas da fonte e afogada.
O caminho feito pelas águas da Fonte de Segais até o mar criou o curso do
rio Boyne, o mais importante da Irlanda, bem como foi a origem do rio
Shannon (Sionna).
h) Brigit
Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no
be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7
baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant
poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis
Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai insin.
de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit
vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.
Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a
sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os
poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a
proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam

                                                            
20

Carbury Hill, Co. Kildare.

 
 
sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram
Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira
[mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses
denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breoshaigit [“seta flamejante”]21.

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como
mindica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da
arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in
Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma
deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a
quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria
*Brigantī, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”,
derivada do adjetivo indo-europeu *bherĝh, “alto”. É equivalente à
Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida
como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada
a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou
Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a
esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as
Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um
filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o
deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o
primeiro keening22 ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc23 (1o. de
fevereiro), que celebra estação do nascimento e do aleitamento dos
cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade.
Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira)
como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos
Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean24 e é nessa
região que a “Geografia” de Ptolomeu25 situou os Brigantes da Irlanda.
                                                            
21

Trecho do Sanas Chormaic.
Do irlandês caoineadh ("lamentar-se, chorar").
23
O Sanas Chormaic menciona o nome oí-melc, “leite de ovelha”; atualmente, a
celebração é conhecida como Lá Fhéile Bríde (“Dia de Santa Brighid”).
24
O quinto (isto é, a província) dos Laighin. Trata-se de Leinster, a província leste da
Irlanda, que abrange os antigos reinos de Mide, Osraige e o Cúige Laighean propriamente
dito.
25
Klaúdios Ptolemaîos (c. 100 - c. 178 d. C.) foi um astrônomo, matemático e geógrafo
nascido no Alto Egito. Entre outras obras de grande influência na Antiguidade tardia e
Idade Média, conta-se a Γεωγραφικὴ Ὑφήγησις (Geōgraphikḗ Hyphḗgēsis, “Orientação
Geográfica”), comumente chamada apenas “Geografia”, em que esse autor, usando
grande número de fontes, cobriu todo o mundo conhecido em sua época, oferecendo a
22

 
 

Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de
Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da
antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras
dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e
da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam
enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.
i) Manannán mac Lir
Manannán mac Lir é o soberano de um reino misterioso localizado numa
ilha do mar ou mesmo sob suas as águas, que tem vários nomes: Emain
Ablach (“Emain das Macieiras”26), Mag Mell (“Planície das Delícias”), Tír
Tairngiri (“Terra da Promessa”)27. No Sanas Chormaic, Cormac Ua
Cuileannáin apresenta Manannán como um personagem do passado28:
Manannan mac lir .i. cennaige amra bói aninis Manand. ise
luam as deach boi aniarthar Eorpa. nofmdad tre nemgnacht
(.i. gnathugrud nime) inoiret nobíd insoinind agus in
do[i]nind agus intan nosclaechlóbad cechtar don dá résin.
inde Scoti et Brittones eum deum vocaverunt maris. et inde
filium maris esse dixerunt .i. mac lir mac mara. et de nomine
Manandan Inis Manand dictus est.
Manannán mac Lir, isto é, um renomado mercador que
morava na Ilha de Man. Ele foi o melhor comandante no
oeste da Europa. Por meio da familiaridade com o céu
[nemgnacht .i. gnathugrud nime, “nemgnacht, ou seja,
familiaridade com o céu”], ele sabia em que região haveria
bom tempo e mau tempo e quando cada um desses dois
períodos mudaria. Por isso, os irlandeses e britanos
chamaram-no um deus do mar e por isso disseram que ele era
filho do mar, ou seja, mac lir, “filho do mar”. E do nome
Manannán a Ilha de Manann foi nomeada.

                                                                                                                                                    
maior coleção sobrevivente de topônimos e etnônimos célticos do mundo antigo,
inclusive de regiões que nunca estiveram sob o domínio romano. 
26
Identificada à Ilha de Mann (Ellan Vannin ou Mannin [em gailck, a língua goidélica
falada na ilha, que se chama manx em inglês]).
27
Todas são designações para Saol Eile, o “Outro Mundo” da mitologia irlandesa.
28
A visão de que os deuses teriam sido um dia seres humanos foi proposta por
Euhemerus de Messina (mitógrafo grego que viveu nos sécs. IV/III a. C.) e tornou-se
comum desde então, sendo muito empregada pelos apologistas do Cristianismo ao
condenar a adoração às deidades pagãs. Chama-se “evemerismo” em português.

 
 

Manannán surge em antigos contos em prosa irlandeses: Compert
Mongáin (“O Nascimento de Mongán”): Manannán gera uma criança
miraculosa com uma mulher assumindo a forma do marido desta; Immram
Brain mac Febail (“A Viagem de Bran mac Febail”): Manannán dirige sua
carruagem sobre as ondas como se atravessasse uma campina florida e
Serglige Con Culainn (“A Enfermidade Debilitante de Cúchulainn”):
Manannán usa o seu manto mágico para fazer Cúchulainn e Fand não
conseguirem mais ver um ao outro29.
Em textos mais recentes, o filho do mar é contado entre as Tuatha Dé,
aparecendo como conselheiro e sábio, possuidor de objetos mágicos que
figuram nas lendas de vários outros importantes heróis da mitologia
irlandesa. É uma figura de primeira linha na literatura e folclore da Ilha de
Man, da qual teria sido o primeiro rei conforme a tradição popular.

                                                            
29

Fand é a esposa de Manannán e tomou Cúchulainn como amante num período em que o
tinha deixado depois de uma séria briga de casal, o que não vem ao caso no momento.        

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