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NESTA EDIÇÃO

21º CONGRESSO
Nº 34 ! Junho de 2005
DO CONASEMS
Encontro destaca Av. Brasil, 4.036/515, Manguinhos
pacto de gestão Rio de Janeiro, RJ ! 21040-361
e solidariedade
federativa do SUS w w w. e n s p . f i o c r u z . b r / r a d i s

Atenção Básica
O SUS que queremos
começa bem aqui
SÚMULA: CAI O TÍQUETE-SAÚDE | MUSEUS DE CIÊNCIA, ESSES AGITADORES
Roquette-Pinto: um brasiliano
textos que contam a história deste com exibição diária dos curtas-

P ara quem só conhece Roquette-Pinto


como antigo nome de rádio, eis a
oportunidade de saber quem foi Ed-
grande brasileiro incentivador das ci-
ências. Médico, antropólogo e edu-
cador, Roquette-Pinto destacou-se na
metragens Rondônia, Miocárdio em
cultura, Preparo da vacina contra a
raiva, O poraquê e Céu do Brasil.
gar Roquette-Pinto em exposição que ciência, na divulgação científica, no
estará no Museu das Ciências da Ter- rádio e no cinema. Local Museu das Ciências da Terra,
ra, no Rio de Janeiro, até 15 de julho Na temporada da exposição será Av. Pasteur, 404, Urca, Rio de Janeiro
de 2005. Organizada pela Casa de exibida mostra de filmes educativos Temporada Até 15 de julho de 2005
Oswaldo Cruz/Fiocruz em parceria e científicos feitos no Instituto Naci- Funcionamento Terça a domingo e
com a Casa da Ciência/UFRJ e a Rádio onal de Cinema Educativo à época em feriados
MEC, há fotos, charges, caricaturas e que Roquette-Pinto foi seu diretor, Entrada Franca
Horário 10h às 16h
Visitas em grupo (21) 2546-0440 e
(21) 2295-7596

FOTOS: ROBERTO JESUS OSCAR E VINICIUS PEQUENO DE SOUZA


editorial
Nº 34 — Junho de 2005

Entre o leitor
e o governador
A brimos esta conversa mensal com
o leitor pedindo desculpas pelo
atraso de até um mês na entrega da
ritório e comunidades, trazer o ci-
dadão aos postos de saúde e che-
gar até sua casa, com atendimento Comunicação e Saúde
revista pelo correio. Concluída den- interdisciplinar como nas equipes de ! Roquette-Pinto: um brasiliano 2
tro do prazo, a publicação cai na ro- Saúde da Família, para promover saú-
tina lenta e amadora do serviço con- de, prevenir agravos, tratar e rea-
tratado para expedição. Mensagens bilitar. Hospitais de maior complexi- Editorial
sobre esta irregularidade nos ajudam dade e unidades de emergência ! Entre o leitor e o governador 3
a enfrentar a burocracia que nos man- ficariam com o menor percentual
tém reféns da inépcia. dos atendimentos.
Por falar em mensagens, a seção Gente saudável também implica Cartum 3
de cartas cresceu nesta edição e tem ambientes e cidades saudáveis. Polí-
polêmica interessante sobre ato mé- ticas intersetoriais são indispensáveis,
dico e linha editorial do Programa analisa Sílvio Fernandes da Silva no Cartas 4
RADIS que deve suscitar novas cartas Pós-Tudo. Sílvio foi eleito presidente
de leitores. Na Súmula, matérias do Conselho Nacional de Secretários
imperdíveis honram a tradição de Municipais de Saúde pelo 21º Congres- Súmula 6
nossa antiga revista do mesmo nome. so do Conasems, que defendeu novo
Tratam da reação brasileira às impo- pacto de gestão no SUS.
sições da Usaid, artigos científicos No evento, o governador Blairo Toques da Redação 7
“plantados” pela indústria farmacêu- Maggi disse querer toda a população
tica, aumento da gravidez na adoles- de Mato Grosso atendida pelo SUS.
cência e vitória da universalidade do Dias depois, seu nome ganhou desta-
SUS em votação no Congresso. que no Brasil e no mundo (ver To-
Na matéria de capa abordamos ques da Redação) por ser o principal Atenção Básica
uma das principais políticas para o responsável pelo segundo maior re-
sucesso do SUS, muito cobrada na corde de desmatamento na história ! Equipes e unidades de saúde
crise do Rio de Janeiro: a Atenção do país. Nada mais contraditório com mais perto do cidadão 8
Básica. Para cuidar das pessoas no o conceito de saúde coletiva. ! Enfim, um acordo no Rio 12
contexto em que vivem, unidades
e equipes de saúde têm que levar Rogério Lannes Rocha
em conta conhecimentos sobre ter- Coordenador do Radis

21º Congresso do Conasems


car
rttu
umm ! Com as graças do Pantanal 13

Luz e movimento
! Museus e Centros de Ciência
em ação! 16

Serviço 18

Pós-Tudo
! Medicina social e gestão
pública — da teoria à prática 19

Capa e ilustrações Aristides Dutra


RADIS 34 ! JUN/2005
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C AR
RTTA S

lheres solteiras sem filhos recebem o que vi na conferência (maior racionali-


P ASTORAL NÃO - DIGITAL Bolsa-Família, enquanto muitas mães zação dos recursos e mais humanização),
no mais lastimável estado de pobreza por cobrar de forma coerente os prin-

D esculpe-nos, mas nós, da Pastoral


da Saúde de Olinda e Recife, dis-
pomos de poucos recursos, e não pu-
não têm direito. Pessoas cadastradas
não recebem seus cartões.
Na qualidade de integrante do
cípios que norteiam o SUS, fui perse-
guido, expulso do conselho e transferi-
do de minha cidade, onde me dedicava
demos digitar ou mandar pela internet Comitê Gestor do Município, gostaria ao controle da diabete, da hiperten-
esta lista. de poder distribuir este pequeno re- são, da tuberculose e da hanseníase.
Solicitamos que envie, por favor, curso a todas as famílias em extrema Hoje sou lotado no Centro de Saú-
a revista Radis a essas pessoas, agen- necessidade, com justiça, respeito, de de América Dourada (BA), ciente do
tes da Pastoral da Saúde. Trabalha- sem discriminação de cor ou partido. dever cumprido, engrossando as filei-
mos em comunidade, visitando casas Já que não posso, registro aqui o meu ras dos discriminados por exercerem
e hospitais, e no controle social da protesto, e faço saber às autoridades seu verdadeiro papel de conselheiro.
saúde pública. do meu país que tudo poderia ser Por aqui o domínio dos conselhos por
! André Cervinskis (mais 29 assinatu- muito melhor se todos agissem com parte dos gestores é arma essencial
ras), Olinda, PE mais responsabilidade, honestidade, para coibirem o controle social.
respeito e fraternidade. ! José Bento Oliveira, Morro do Cha-
Todos o nomes foram cadastrados. ! José Gomes de Lucena, Paulista, PB péu, BA

M AU USO DO B OLSA -F AMÍLIA C ONSELHEIROS SOB PRESSÃO

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais


de Paulista, na Paraíba, agrade- S ou funcionário público estadual há
24 anos (técnico em enfermagem).
Q uero aproveitar esse precioso
espaço para relatar que o Conse-
lho Municipal de Saúde está sofrendo
ce o envio da Radis, e reforça a ne- Um militante apaixonado pelo SUS des- perseguição do prefeito de Juazeiro
cessidade de defesa da manutenção de a década de 80. Tive o orgulho de (BA), que por lei municipal alterou a
dos programas sociais do governo fe- ser escolhido para delegado à 12ª CNS, composição do CMS e determinou que
deral, priorizando as famílias mais em Brasília, pois era conselheiro de saú- o presidente seja o secretário munici-
desfavorecidas, como instrumento de de em minha terra. Tive a honra de pal de Saúde. O prefeito insurgiu-se
combate à pobreza. As denúncias não participar daqueles momentos tão im- na imprensa contra o Conselho de Saú-
são fictícias: trata-se da realidade. Em portantes para o fortalecimento do de, afirmando seu propósito de adequá-
Paulista há uma série de irregularida- nosso sistema, porém, ao retornar de- lo à nova gestão e destituir o presi-
des, a começar pelo Cadastro Único. parei-me com a realidade totalmente dente atual, violando a Resolução 333/
Aposentados e pensionistas com até adversa no que concerne aos nossos 2003 do CNS, que recebeu atribuições
dois benefícios, comerciantes, fun- gestores e ao controle social. Por ten- da lei federal 8.142/90 para atuar na
cionários públicos municipais e mu- tar colocar em prática um pouco do formulação de estratégias e no con-
trole da execução da política de saú-
de, em especial a diretriz que trata da
expediente organização dos Conselhos de Saúde,
com a seguinte redação:
“(...) O Conselho de Saúde será
Subcoordenação Justa Helena Franco
Edição Marinilda Carvalho
composto por representantes de
Reportagem Jesuan Xavier (subeditor), usuários, de trabalhadores de saú-
Katia Machado, Wagner de, do governo e de prestadores de
Vasconcelos (Brasília/Direb) e Thiago serviços de saúde, sendo o presiden-
Vieira (estágio supervisionado) te eleito entre os membros do Con-
Arte Aristides Dutra (subeditor)
Documentação Jorge Ricardo Pereira,
selho, em reunião plenária”.
Laïs Tavares e Sandra Susano A sábia decisão do CNS estabelece
RADIS é uma publicação impressa e online Secretaria e Administração Onésimo também que “o mandato dos Conselhei-
da Fundação Oswaldo Cruz, editada pelo Gouvêa, Fábio Renato Lucas, ros não pode coincidir com o mandato
Programa RADIS (Reunião, Análise e Cícero Carneiro e Mario Cesar G.
Difusão de Informação sobre Saúde), F. Júnior (estágio supervisionado) do governo municipal, estadual, do Dis-
da Escola Nacional de Saúde Pública Informática Osvaldo José Filho e Geisa trito Federal e do Governo Federal”. O
Sergio Arouca (Ensp). Michelle (estágio supervisionado) mandato do atual Conselho de Saúde
Periodicidade mensal Endereço de Juazeiro somente expira em agosto
Tiragem 42 mil exemplares Av. Brasil, 4.036, sala 515 — Manguinhos de 2005; portanto, a lei recente não
Assinatura grátis Rio de Janeiro / RJ — CEP 21040-361
Tel. (21) 3882-9118 pode atingir mandato ainda em vigên-
(sujeita à ampliação do cadastro)
Fax (21) 3882-9119 cia, pois violenta o direito adquirido.
Presidente da Fiocruz Paulo Buss E-Mail radis@ensp.fiocruz.br ! João Leopoldo Viana Vargas, presi-
Diretor da Ensp Antônio Ivo de Carvalho
Site www.ensp.fiocruz.br/radis dente do CMS de Juazeiro, BA
PROGRAMA RADIS Impressão
Coordenação Rogério Lannes Rocha Ediouro Gráfica e Editora SA B RASIL , MEXA - SE !

USO DA INFORMAÇÃO — O conteúdo da revista Radis


pode ser livremente utilizado e reproduzido em qual-
quer meio de comunicação impresso, radiofônico,
televisivo e eletrônico, desde que acompanhado dos
sáveis pelas matérias reproduzidas. Solicitamos aos
veículos que reproduzirem ou citarem conteúdo de
nossas publicações que enviem para o Radis um exem-
plar da publicação em que a menção ocorre, as refe-
G ostaria de parabenizar a revista
e registrar a minha indignação com
o Sistema Único de Saúde. É triste sa-
créditos gerais e da assinatura dos jornalistas respon- rências da reprodução ou a URL da Web.
RADIS 34 ! JUN/2005
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ber que várias pessoas morrem nas fi- anos e três meses e gostaria de pas- letânea Radis 20 anos, em nosso site
las de exames e cirurgia por causa do sar algo aos outros agentes. (www.ensp.fiocruz/radis). O Proposta
descaso dos governos estaduais e fe- ! Domingas Maria de Oliveira, Bom era “o jornal da Reforma Sanitária”
derais, que não tomam posição. Ga- Jesus da Lapa, BA e os comentários das revistas Súmula
rantem que saúde é direito de todos e Tema, e da atual Radis, sempre to-
e dever do Estado, mas não fornecem maram partido da saúde pública, do
instrumentos para a realização destes
direitos. Na verdade, o que vemos são
hospitais falidos devido a enormes dí-
S ou funcionária pública e fico feliz
por trabalhar num lugar que rece-
be uma revista com informações tão
SUS, das resoluções das conferênci-
as. Ao contrário da mídia, que simula
imparcialialidade, sempre fomos crí-
vidas que o SUS tem e pessoas mor- preciosas e importantes como essa. ticos, sem deixar de expor as diferen-
rendo à espera de tratamento, pro- Li a revista n° 26 e gostaria, se possí- tes opiniões. Político-partidários não,
gramas ineficientes. É hora de a vel, de mais informações sobre o porque integrantes de todas as legen-
população se organizar e exigir seus hantavírus: o que é e como se mani- das já foram questionados quando agi-
direitos, não dá mais para ficar olhan- festa no indivíduo? Desde já agrade- ram contra a saúde da população. A
do essa eutanásia social que o gover- ço a atenção de uma revista que nos voz descontente de leitores como Fá-
no aplica no seu povo. Vamos lá, Bra- traz brilhantes matérias informativas. bio é parte desta polifonia que valori-
sil, mexa-se, vamos nos organizar e ! Margareth Nogueira, Pedrão, BA zamos e nos servirá de parâmetro para
protestar pelos nossos direitos. continuarmos buscando o equilíbrio.
! José Augusto Pacheco, farmacêuti- Amigos, as sugestões entraram em
co generalista, secretario de Saúde pauta. P OSTURA PERIGOSA
de Espera Feliz, MG

A MEAÇAS NA B AHIA
RADIS PA RT I D Á R I A
L endo carta de Fábio Mota Filho, que
critica a posição contrária ao Ato

G ostaria de receber o exemplar


da revista Radis n° 25 de setem-
H á anos sou assinante e leitor da
Radis. Gostaria de alertar seus
atuais dirigentes sobre a forma parti-
Médico, lembro que essa postura é pe-
rigosa para a saúde do país. Essa lei ape-
nas regulamenta o que, há milênios, é
bro de 2004. Esta publicação faz de- dária-eleitoral em sua linha editorial. feito pelos médicos, ou seja, formula-
núncia sobre a meningite em Maracás, Isto é um desserviço à história da ção de diagnóstico e prescrição tera-
Bahia. Não recebi esta edição, soube Fiocruz. Defendem a saúde sem médi- pêutica das doenças. Quanto à CNS, é
por um amigo médico de Jequié. A ci- co, como quando se colocam con- sabido que em muitos conselhos, via de
dade, com 20 mil habitantes e 150 trários à Lei do Ato Médico, alegando regra, os componentes têm prevenção
anos, têm muitos problemas de saúde que se trata de decisão democrática contra médicos que, pela participação
pública. Hoje só há médicos clínicos, da Conferência Nacional de Saúde minoritária, têm voz mas não têm vez.
e todos os exames são realizados em (resposta à minha correspondência ! Helio Custodio, médico, Rio Gran-
cidades distantes. Tenho reivindicado publicada na sessão Cartas). de, RS
melhorias na saúde pública e na edu- Agora são contra a Lei de Biosse-
cação deste município e por isso re- gurança, mesmo sendo aprovada de- A 12ª já se manifestou. Está aberto
cebo ameaças constantes. Continua- mocraticamente pelo Congresso Naci- o debate entre os leitores.
rei cobrando melhores condições. onal, e até pouco sutilmente faz grave
! Claudia Santiago, Maracás, BA acusação, de que os congressistas fo- P ROFESSOR S EBASTIÃO
ram comprados pelas “transgenetes”
Prezada Claudia, a revista já lhe
foi enviada.
(“garotas contratadas em agências de
modelo para distribuir cartazes, folders
e brindes aos parlamentares”, Radis 32,
G ostaria de agradecer e comen-
tar a matéria sobre meu pai, Se-
bastião José de Oliveira, na edição
P A U TA S pág. 13). Nós leitores merecíamos uma nº 33, mês de maio de 2005 desta tão
reportagem menos tendenciosa e mais importante revista. Acredito que vocês

S ou agente de Vigilância Sanitária


em Vitória (ES). Informo que o Pro-
jeto de Lei nº 3870/04, que cria a pro-
esclarecedora.
A reportagem “Mutirão socorre a
saúde do Rio” é ainda mais clara na
conseguiram passar exatamente quem
ele era, sua forma de comentar as ques-
tões com humor e tiradas divertidas.
fissão de Agente de Vigilância Sanitá- posição político-partidária, já não mais Mostra que ele não era aquele pesqui-
ria, de autoria do deputado federal disfarçada. Fico aguardando qual a po-
sador sisudo e sorumbático que o sen-
Renato Casagrande, está tramitando sição da instituição após a decisão so-
so comum supõe. Devo acrescentar
na Câmara, sendo de grande impor- berana do Supremo Tribunal Federal.
que ele não gostava de jornalistas e
tância para os profissional da saúde, Na reportagem com o Sr. João Pedro
para sua valorização profissional e de- Stédile, a manipulação de informações sempre dizia que os jornalistas nunca
senvolvimento do SUS. Solicito uma nem merece maiores comentários. publicavam o que ele dizia nas entre-
matéria sobre o assunto na Radis. Quando uma instituição com a vistas. Posso afirmar que essa matéria
! Ermínia Gomes Pimentel, Vitória história da Fiocruz se aventura na seria aprovada por ele! Por isso tudo,
propaganda político-partidária se ar- muito obrigada pelo carinho.
risca a perder sua credibilidade ci- ! Leila de Oliveira, Rio de Janeiro

G ostaria que divulgassem algo sobre


os agentes comunitários de saú-
de e Programa Saúde de Família. Nós
entífica. E a ter de publicar somente
as cartas com elogios!!!!
! Fábio Lentúlio Mota Filho, Belo
NORMAS PARA CORRESPONDÊNCIA
A Radis solicita que a correspondên-
aqui não somos informados. Recebe- Horizonte cia dos leitores para publicação (car-
mos um salário mínimo e gostaríamos ta, e-mail ou fax) contenha identifi-
de saber se não há alteração no salá- Ao longo da história do Programa cação completa do remetente: nome,
rio quando passamos a fazer parte do Radis, nossas publicações nunca foram endereço e telefone. Por questões de
PSF, porque o serviço dobrou. Sou neutras. O que pode ser conferido nos espaço, o texto pode ser resumido.
agente comunitário de saúde há seis artigos desde 1982, disponíveis na Co-
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SÚMULA

da, mas reconhecível, do manuscrito


C OMISSÃO DERRUBA “ TÍQUETE - SAÚDE ” que recusara assinar, informou a Fo- B RASIL É SEGUNDO EM MORTES POR TIRO
lha de S. Paulo em 20/4. Os editores

A Comissão de Trabalho, Administração


e Serviço Público da Câmara dos
Deputados deve ter ouvido as preces
da Journal rejeitaram o trabalho e in-
centivaram uma discussão internaci-
onal sobre a prática do ghostwriting
P esquisa da Unesco constatou que
o Brasil é o segundo país com maior
número de mortes por armas de fogo,
do pessoal da área da saúde e rejeitou na área científica, alertando: “Estu- numa lista de 54 países. Em primeiro
por unanimidade, no dia 4 de maio, o dos submetidos podem não reconhe- lugar está a Venezuela. Uma segunda
Projeto de Lei 4.332/04, do deputado cer apropriadamente financiamento pesquisa revelou que a violência está
Adelor Vieira (PMDB/SC). Pelo projeto, de corporações ou co-autoria.” presente no cotidiano das escolas: 35%
seria criado o Tíquete-Saúde, que da- A empresa de comunicação médi- dos alunos entrevistados em seis capi-
ria direitos aos trabalhadores de car- ca era a Mx Communications, e a com- tais disseram já ter visto algum tipo de
teira assinada de realizarem uma pri- panhia farmacêutica, a AstraZeneca, arma no colégio (12% viram revólveres).
meira consulta e exames laboratoriais ambas do Reino Unido. “Duvido que No Brasil, a taxa é de 21,72 mortes por
básicos em instituições de saúde pri- eu seja convidada novamente para ser 100 mil habitantes, das quais 19,54 por
vadas — um retrocesso aos tempos dos uma autora de mentirinha, mas certa- homicídio. O representante da Unesco
IAPCs e IAPIs. A Radis abordou o assun- mente há outros médicos que estari- no Brasil, Jorge Werthein, cobrou em-
to na edição 34 (“Inimigos do SUS?”). am dispostos a propagandear essas penho dos deputados na votação do Pro-
O projeto determinava que o se- enganações”, disse a médica. O novo jeto de Decreto Legislativo 1274/04, e
tor privado pagasse pelo serviço, re- anticoagulante da AstraZeneca, alvo disse que o país pode servir de exemplo
compensado por um intrigante incen- do “estudo”, ganhou aprovação par- mundial em desarmamento e proibição
tivo fiscal de 1% a ser descontado do cial na França e foi vetado nos EUA. de venda de armas.
lucro líquido. O deputado Adelor Vieira, A Comissão de Constituição e
autor do projeto, acreditava que sua Justiça e de Cidadania da Câmara dos
iniciativa traria benefício ao SUS, di- A EXPLOSÃO DA GRAVIDEZ NA Deputados aprovou em 11/5 o proje-
minuindo as filas em postos de saúde ADOLESCÊNCIA to, que define a pergunta para o re-
e hospitais públicos. Os deputados ferendo sobre o comércio de armas,
Roberto Gouveia (PT-SP) e Rafael Guer-
ra (PSDB-MG), da Frente Parlamentar
da Saúde, logo criticaram a proposta,
O IBGE anunciou, com base no Censo
2000, que de 1991 a 2000 o nú-
mero de jovens de 10 a 14 anos que
previsto no Estatuto do Desarmamen-
to: “O comércio de armas de fogo e
munição deve ser proibido no Brasil?”.
uma agressão ao princípio da univer- foram mães pela primeira vez quase O projeto, dependente de aprovação
salidade do SUS, pelo qual todos os duplicou: subiu 93,7%. O segundo no Plenário, prevê o referendo para
brasileiros têm direito a atendimen- maior aumento foi na faixa de 15 a 19 o primeiro domingo de outubro.
to. Agora, o projeto jaz num escani- anos, 41,5%. As brasileiras estão ten- No dia 9 de maio, o Ministério
nho da Câmara. Que lá continue. do filhos mais cedo e a idade média da Justiça divulgou pesquisa mostran-
das mulheres que foram mães pela pri- do que caiu o número de internações
meira vez caiu de 22 anos, em 1991, hospitalares por ferimentos provoca-
P ESQUISADOR - FANTASMA , A POLÊMICA para 21,6 anos, em 2000. Segundo o dos por arma de fogo, entre agosto
IBGE, 32,5% dos bebês nascidos em de 2004 (início da Campanha do De-

A prática de contratar pesquisadores


para assinar estudos que não reali-
zaram, habitual na indústria farmacêu-
1991 eram filhos de mães com idades
entre 10 e 19 anos. Em 2000, a taxa
chegou a 38%.
sarmamento) e fevereiro. O estudo,
da Secretaria de Vigilância em Saú-
de, do MS, analisou dados de SP e RJ
tica, gerou pequeno escândalo na co- Na outra ponta do fenômeno, o — os estados que mais arrecadaram
munidade científica internacional. A número de mães pela primeira vez na armas na campanha, que terminará em
médica e pesquisadora Adriane Fugh- faixa de 35 a 39 anos (depois de esta- 23 de junho. No Rio, as internações
Berman, da Universidade Georgetown, bilizadas profissionalmente) subiu 46% eram 180 por mês, e caíram para 160
em Washington, denunciou que foi pro- de 1991 a 2000; dos 40 aos 49 anos: (menos 10,5%). Em São Paulo, a redu-
curada por uma empresa de comuni- 26,9%. Para Juarez de Castro Oliveira, ção é de 7,5%: de 475 para 442. A cam-
cação médica para que assinasse um gerente de Estudos e Análises de panha já recolheu 300 mil armas.
artigo de revisão (consolidação e ba- Demografia do IBGE, gravidez aos 14 e
lanço de pesquisas paralelas). Adriane aos 40 fala sobre a desigualdade como
pediu mais informações, mas meses marca social brasileira: “A gravidez PAÍS R E J E I TA I M P O S I Ç Õ E S D A USAID
depois recebeu um rascunho do estu- adolescente está muitas vezes asso-
do já assinado por ela, para que fizes-
se eventuais modificações. A pesquisa-
dora então recusou a proposta.
ciada à baixa escolaridade e à baixa
renda”, diz, “e alerta também para o
despertar mais precoce da sexuali-
O Brasil recusou ajuda financeira dos
Estados Unidos, que renderia R$
56,2 milhões à área de combate às do-
Por uma feliz coincidência, dade”. Já as mulheres com mais de enças sexualmente transmissíveis até
Adriane foi convidada pela Journal 40 anos têm situação financeira está- 2008. Motivo: a Usaid, agência ameri-
of General Internal Medicine vel e escolaridade alta. “É uma mu- cana de ajuda internacional, impôs clá-
(www.blackwellpublishing.com/ lher que optou por estudar e traba- usula excluindo do acordo organizações
journal.asp?ref=0884-8734) para avali- lhar, deixando para mais tarde a opção de apoio a prostitutas, além de exigir
ar um artigo: era uma versão revisa- de ter um filho.” condenação pública da prostituição.
RADIS 34 ! JUN/2005
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Indignadas, as ONGs que receberiam a


ajuda rejeitaram o acordo, com apoio
de Pedro Chequer, coordenador do
Programa de DST/Aids do Ministério da
Saúde. “A Aids não será controlada a
partir de princípios maniqueístas, teo-
lógicos, fundamentalistas e xiitas”, dis-
se ele ao Wall Street Journal (2/5) — mais do que dobrou. Em entrevista
posição reafirmada em carta à Usaid, no ano passado, ele disse: “Para mim,
com apoio do ministro da Saúde. As in- um aumento de 40% no desmatamento
formações são da Agência de Notícias nada significa, e não sinto a menor
da Aids (www.agenciaaids.com.br). REI DO DESMATAMENTO — No dia 19 culpa. Uma área maior do que a Eu-
A Usaid investe na área de saúde de maio o Partido Verde (do ministro ropa continua intocada, então não
brasileira há oito anos. Mas no último Gilberto Gil) abandonou a base de há com que se preocupar”. O Gru-
edital informou que não mais mandaria apoio ao governo no Congresso em po Maggi, que faturou 600 milhões
dinheiro a ONGs que trabalham com protesto contra o desmatamento de de libras [2,6 bilhões de reais] em
profissionais do sexo. Obviamente, o 2004, o maior da história: 26.130km², 2004, anunciou que pretende dobrar
Brasil tem o direito de agir como qui- só atrás dos 29.050km² de 1995. No a área de plantio.
ser nesse assunto”, disse o senador dia 20, The Independent, de Londres, O coordenador do Greenpeace-
Sam Brownback, líder das causas con- publicou a manchete “O estupro da Amazônia, Paulo Adario, disse que “o
servadoras no Congresso americano. floresta tropical... e o homem por trás rei tem culpa, mas a corte em Brasília
Ele disse esperar que os subsídios se- disso”, de Michael McCarthy e também: o combate ao desmatamento
jam redirecionados a outros países com Andrew Buncombe. “Hoje mostramos não é prioridade do governo Lula”.
políticas alinhadas às do governo Bush. o homem que mais do que qualquer Entre 1995 e 2004, a área cultivada com
Essas “políticas”, em resumo, são o outro representa as forças” respon- soja cresceu 77% no Centro-Oeste, e
chamado “ABC”, de Abstinence, Be sáveis pela “brutal destruição da flo- Mato Grosso tornou-se o maior produ-
faithful and if it’s necessary use Condom resta amazônica”. tor. Duas companhias dominam o mer-
(abstinência, seja fiel e, se necessário, “Ele é Blairo Maggi, fazendeiro cado da soja no Brasil: o Grupo Maggi
use camisinha), que não vêm apresen- milionário e político descompromissado é o maior produtor individual do mun-
tando resultados. “Estamos falando de que lidera o boom da produção da do e a empresa exportadora número 1
promoção da prostituição, que a maio- soja. Ele é conhecido como Rei da é a gigante americana Cargill.
ria da Câmara dos Deputados e do Se- Soja, mas os ambientalistas o cha-
nado acreditam serem prejudiciais às mam de Rei do Desmatamento. O DISPARIDADE MAGISTRAL — Depois de
mulheres”, acrescentou Brownback. boom da soja, que alimenta o insaci- uma visita ao médico, nosso repórter
Vladimir Reis, da Articulação Aids ável mercado de rações, é o princi- Inocêncio Foca percorreu três farmá-
Pernambuco, afirmou que o sucesso da pal motor da destruição da floresta. cias de manipulação para saber em
política brasileira de combate à Aids deve- No ano passado, “área do tamanho quanto ficariam os remédios receita-
se principalmente ao trabalho preventi- da Bélgica foi desmatada, e metade dos. Na primeira, R$ 99; na segunda,
vo realista justamente nos segmentos mais da destruição se deu no estado de R$ 75; na última, R$ 45. A diferença gri-
vulneráveis da sociedade: “profissionais do Mato Grosso, onde o Sr. Maggi, cujo tante levou nosso singelo jornalista a
sexo, homossexuais e usuários de drogas”, Grupo Maggi, de agronegócio, é o conferir o debate que vem ocorrendo
e a restrição destruiria esse trabalho. maior do mundo, por acaso é tam- em torno das novas regras para funcio-
Uma prova disso: pesquisa feita em fe- bém governador”. namento das farmácias de manipulação
vereiro pela ONG Estruturação com “O Sr. Maggi não derrama lágri- (ou farmácias magistrais, como o setor
travestis de Brasília e Taguatinga (DF), mas pelas árvores perdidas”. Em 2003, é formalmente chamado).
divulgada em 10 de maio, apontou que seu primeiro ano de governo, a taxa Recentemente, a Associação Na-
98% deles usam preservativo. de desmatamento em Mato Grosso cional de Farmacêuticos Magistrais
“Essa é uma questão da qual não (Anfarmag) encaminhou à Agência Naci-
poderíamos abrir mão, porque isso fere onal de Vigilância Sanitária (Anvisa) do-
a autonomia das nossas políticas naci- cumento em que contesta as novas re-
onais que, com certeza, são bem mais gras, cujo ponto mais polêmico é a
avançadas, mais modernas e apontam proibição de preparação de medicamen-
melhores resultados do que essa polí- tos já vendidos pela indústria. Segundo
tica anacrônica que, em vez de se ba- a presidente da Anfarmag, Vânia Regina
sear na fundamentação científica, bus- de Sá, em nenhum momento esse pon-
ca outros princípios que não a to foi discutido com a associação.
ciência”, disse Chequer. “Essa cláusu- Para o presidente da Anvisa, Cláu-
la é um desrespeito aos profissionais dio Maierovitch, a restrição visa a segu-
do sexo. Nós defendemos a legaliza- rança dos pacientes. Ele estranha que
ção da profissão, com direito a reco- medicamentos produzidos artesanal-
lher INSS e aposentadoria.” mente tenham preço menor (até 60%!)
que o da indústria. Vânia esclarece: as
farmácias magistrais não gastam com pro-
SÚMULA é produzida a partir do acom- paganda, não têm uma rede de interme-
panhamento crítico do que é divulgado diários nem despesas com embalagem.
na mídia impressa e eletrônica. Se é assim, estranha Inocêncio, por que
tamanha disparidade de preços?
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 8 ]

AT E N Ç Ã O B Á SSII C A

Equipes e unidades
de saúde mais
perto do cidadão

Jesuan Xavier e Katia Machado

A
intervenção federal e o acordo entre a
Secretaria Municipal de Saúde e o Mi-
nistério da Saúde (MS), efetivado em
maio (ver box), amenizaram o caos na
saúde do Rio (Radis 33), mas evidenciaram um
importante nó do Sistema Único de Saúde,
sobretudo nas capitais e regiões metropoli-
tanas do país: a falha na adoção das políticas
de Atenção Básica à Saúde, especialmente a
Estratégia de Saúde da Família. A constatação
não é de hoje: as publicações do Programa
RADIS vêm há anos repisando essa tecla, não
por acaso sempre lembrada pelos defensores
históricos da Reforma Sanitária e de seu filho
mais querido, o SUS.
Como o médico-sanitarista Gastão Wagner
de Sousa Campos, professor da Faculdade de Me-
dicina da Unicamp. Para ele, este é um ponto
básico a repensar para que o SUS dê certo.
Gastão participou do ciclo de debates Conver-
sando sobre a Estratégia da Saúde da Família na
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca
(Ensp-Fiocruz), encerrado em 6 de maio, e des-
tacou a necessidade do programa como estra-
tégia da Atenção Básica do SUS.

P olítica do SUS que compreende um


conjunto de ações, individuais e cole-
tivas, englobando promoção da saúde,
prevenção de agravos, tratamento e rea-
bilitação. É o primeiro nível da atenção.
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 9 ]

Na opinião de outro palestrante


do ciclo, o também médico-sanitaris- BELO HORIZONTE CONTA COM
ta Luiz Odorico Monteiro de Andrade,
do Conselho Nacional de Secretários
Municipais de Saúde
138 centros de saúde
FOTO: ARISTIDES DUTRA

(Conasems), a Saúde
da Família é funda-
mental porque supe-
6 unidades de pronto-atendimento
ra o modelo vigente,
da biomedicina, vol-
6 postos de atendimento médico
tado para a doença
e a assistência mé-
2 policlínicas
dica. “A estratégia
trouxe o conceito da
7 centros de referência em saúde mental
interdisciplinaridade, 9 centros de convivência
em que são sistematizadas práticas
e saberes de diferentes categorias 2 centros de referência do trabalhador
no campo da saúde, gerando assim
políticas mais eficazes para a popu- 1 hospital municipal,
lação”, repetiu. Para ele, a ação do
educador físico no cuidado da hiper- 2.580 agentes comunitários de saúde
tensão é tão importante quanto a
ação do médico que diagnostica a 1.200 agentes sanitários de saúde.
doença propriamente dita. Ou seja,
a interdisciplinaridade constrói um
espaço comum a todos os profissio-
nais, precioso para o paciente. fazendo ao longo dos anos. “Preci- que diagnosticar doenças, essas equi-
Para Odorico, que em janeiro samos nos indignar quando vemos pes atuam também na prevenção de
assumiu a Secretaria de Saúde de pessoas dormindo nas filas dos pos- suas causas”, disse.
Fortaleza, a estratégia da Saúde da tos de atendimento e de hospitais Atualmente, segundo ela, já es-
Família incorpora o conceito de à espera de uma consulta”. tão em atividade 504 equipes de Saú-
“território” ao trabalho dos agen- Gastão lembrou que todos os sis- de da Família, que beneficiam 1,8
tes e constrói a idéia de “responsa- temas públicos que deram certo no milhão de moradores, de 412 mil fa-
bilidade sanitária”. Ou seja, cada mundo, como os de Canadá, Cuba e mílias. “Na realidade, já atendem
equipe se torna responsável pela Suécia, tiveram como componente mais do que 70% de toda a popula-
saúde de uma família ou de uma co- estratégico o desenvolvimento de um ção de Belo Horizonte (cerca de 2,2
munidade. “A saúde pára de ser vis- amplo sistema de atenção básica milhões de pessoas)”.
ta como enfermidade e se pensa o vinculatório, atingindo 80% dos pro- Primeiro, em janeiro de 2003, foi
território em que se vive de uma blemas de saúde da população. O sis- criado o Programa Assistência Domicili-
perspectiva epidemiológica”, disse. tema brasileiro, no entanto, seguiu ar (PAD), que visa a saúde integral do
Trabalha-se na lógica do cuidado, e um caminho contrário: pautou-se no paciente na pós-alta médica. “O PAD
não na do receituário”. hospital, dando pouca atenção à pro- prevê visitas ao usuário acamado em
Essa estratégica está sendo fan- moção da saúde. “Com esse desenho seu próprio domicílio”. A freqüência
tástica para o país, acredita Odorico. brasileiro é quase impossível chegar- dessas visitas, disse ela, depende do
Todos os indicadores de saúde me- mos à universalidade no atendimen- histórico de cada paciente. “Há casos
lhoraram a partir da década de 90, to, porque é muito caro”, ressaltou. que necessitam de um acompanhamen-
como mortalidade infantil, hiperten- “A discussão da Atenção Básica no Bra- to mais específico, com visitas que po-
são, pré-natal. “A Saúde da Família sil tem que ser cada vez mais articu- dem variar de duas a três por semana”.
está se espalhando por todo o terri- lada com a viabilidade do SUS”. Os benefícios práticos desse mo-
tório brasileiro”, afirmou. “Sabemos Gastão exaltou um exemplo de delo de assistência são facilmente
que ainda não é o ideal, mas é um política de Atenção Básica no país: o percebidos: humanização do cuidado,
sistema que tem potencial”. Segun- de Belo Horizonte, que consegue redução dos índices de reinternação
do ele, o Rio (e de resto outras ca- atingir 70% da população. e diminuição do risco de infecção
pitais) não conseguiu fazer a transi- hospitalar. “O custo de um paciente
ção da lógica biomédica para a da BELO HORIZONTE DO SUS internado é muito grande. Além dis-
estratégica Saúde da Família. Na capital mineira, o programa so, o programa abre mais vagas de
Ele citou os desafios de uma co- BH Vida: Saúde Integral virou modelo leitos nos hospitais”. Vale citar que a
bertura maior da atenção básica e para outras cidades. A secretária-ad- Prefeitura de Belo Horizonte investe
da Saúde da Família: um deles é a junta de Saúde, Maria do Carmo, con- atualmente 19,3% do seu orçamento
criação de bolsas de incentivo para tou à Radis que o projeto de Aten- em saúde, mais do que os 15% deter-
residência em Saúde da Família. Ou- ção Básica, adotado a partir de 2003, minados por lei. No ano passado, o
tra é investir na educação perma- mudou toda a lógica de atendimen- montante chegou as R$ 268 milhões.
nente do profissional de saúde. Uma to. São cerca de 2.300 agentes co- Segundo Maria do Carmo, a Se-
terceira é discutir pactos de ges- munitários de saúde que visitam men- cretaria de Saúde estratificou a ci-
tão, acordos que aumentem a salmente as casas das famílias dade em quatro níveis: população de
resolutividade do sistema de saúde. cadastradas, dando orientação e fa- muito elevado risco; população de
Ou seja, tudo o que o Rio não vinha zendo vigilância de saúde. “Mais do elevado risco; população de médio
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 10 ]

FOTO: MARCOS ALENCAR/ENSP


Afra Suassuna no ciclo de debates da Ensp-Fiocruz sobre a crise do Rio: a saída é o rompimento do modelo hospitalocêntrico

risco; e população de baixo risco. com idade entre 0 e 14 anos. O ob- A política de saúde mental do
“Hoje posso afirmar que a SF cobre jetivo é melhorar a qualidade de vida município recebeu, no ano passado,
100% dos que estão enquadrados do dos pacientes de asma brônquica. importante prêmio do Ministério da
muito elevado até o médio risco”. Ain- “Temos conseguido bons resulta- Saúde (o David Capistrano) pelo tra-
da estão de fora moradores na faixa dos”. Atualmente, as 17 mil crianças balho desenvolvido. Em Belo Horizon-
do baixo risco. Mas esse grupo já inscritas no programa são acompa- te, os tradicionais leitos psiquiátricos
conta com uma equipe de apoio (clí- nhadas freqüentemente por equipes foram substituídos por uma rede de
nico, pediatra e ginecologista) em especializadas. assistência aberta e qualificada.
unidades de saúde nas proximidades
de suas casas. “Elas procuram espon-
taneamente a assistência”. SAÚDE DA FAMÍLIA
MAIS CUIDADOS População atendida (%) — 1998-2004
A Atenção Básica de BH conta
com outros bons exemplos. Em 2003,
foi implantado o Serviço de Atendi-
mento Móvel de Urgência (Samu).
“Temos 14 ambulâncias do tipo bá-
sico, com equipamentos e medica-
mentos, e três do tipo avançado,
com equipamentos para procedi-
mentos de restabelecimento, esta-
bilização e manutenção das funções
vitais das vítimas”, informou Maria
do Carmo.
O controle da dengue também
pode servir de parâmetro para outros
municípios. A cada dois meses, 1.200
agentes sanitários de saúde visitam
cerca de 800 mil domicílios para tra-
tamento e remoção de focos do
Aedes aegypti.
Desde 2003, o programa deno-
minado “Criança que Chia” já con-
FONTE: MINISTÉRIO DA SAÚDE
seguiu reduzir em 80% o número de
internações dos pacientes asmáticos
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 11 ]

Além disso, acordo entre a Se- mas e doenças, para aliviar um mal pes de saúde da família dentro dos
cretaria Municipal de Saúde e o go- ou curá-lo. Na clínica ampliada, o ob- hospitais?”, perguntou Gastão. Para
verno estadual possibilitou ampla jetivo não só o diagnóstico mas, so- ele, sistemas falidos como o do Rio
reestruturação da Santa Casa de Mi- bretudo, entender e formular polí- de Janeiro suportariam essas equi-
sericórdia. Para garantir a viabilidade ticas de saúde para a população, pes nas unidades municipalizadas de
financeira da entidade, que tem mais aumentando a eficácia nas interven- saúde. “As equipes ampliariam o aten-
de 100 anos, convênios foram feitos ções clínicas e analisando os aspec- dimento e abrangeriam uma parcela
com várias instituições privadas. tos subjetivos de cada sujeito. “A maior da população”.
Mesmo satisfeita com os resul- doença é vista no contexto em que Para Afra Suassuna Fer-
tados obtidos, a secretaria almeja vive o sujeito, ou seja, é uma doen- nandes, diretora do Departa-
índices de Primeiro Mundo. ça encarnada numa pes- mento de Atenção Básica do MS,

FOTO: GUTEMBERG BRITO/ENSP


A Prefeitura credenciou, soa, numa cultura”. O ob- a Saúde da Família é estratégi-
no fim do ano passado, 90 jetivo deste novo conceito ca na Atenção Básica, o primei-
prestadores de serviço, en- de clínica é o de produzir ro nível de atenção à saúde no SUS. A
tre instituições públicas, fi- saúde e ampliar o grau de equipe básica é composta por médi-
lantrópicas, universitárias e autonomia dos sujeitos. O co, enfermeiro, auxiliares de enfer-
privadas, considerados ap- diagnóstico é realizado com magem, agentes comunitários de saú-
tos a atender pelo SUS na base na história de vida do de, cirurgião-dentista, auxiliar de
capital. Segundo a secretá- cidadão, associado ao saber consultório dentário ou técnico de
ria, esses prestadores faci- clínico do profissional, e as higiene dental. “A Saúde da Família
litarão o atendimento a usu- ações terapêuticas visam a procura o fortalecimento da aten-
ários, abrindo novas portas de entrada educação em saúde, o autocuidado ção com a ampliação do acesso”, dis-
para consultas especializadas. “Nossa e o modo de viver do sujeito. se ela no ciclo de debates da Ensp.
prioridade agora é a construção, num Algumas estratégias são essenci- Ela apresentou dados da cober-
prazo de três anos e meio, de nove ais quando se fala em clínica amplia- tura nacional: no ano passado, a
Centros de Especialidades Médicas”. da. Entre elas, a necessidade de dis- Saúde da Família atingiu 39,7 milhões
positivos de organização que facilitem de pessoas. Na opinião de Afra,
PORTA DE ENTRADA DO SUS o vínculo entre sujeito e profissio- “uma evolução surpreendente”, por-
A Atenção Básica deve cumprir o nais de saúde, definindo claramente que em 1998 eram apenas 6,6 milhões.
papel de “uma das portas de entrada as responsabilidades de cada um; mon- Em 2004, foram cerca de 1 bilhão de
mais importantes do SUS”, e atender tagem de equipes de referência; su- procedimentos de Atenção Básica.
80% dos problemas de saúde da popu- porte matricial para as equipes, quer “Os indicadores apontam para a
lação. O restante, disse Gastão Wagner, dizer, uma rede de especialistas ou melhoria da qualidade de vida, a par-
cabe à rede hospitalar. Para isso, ele profissionais de apoio clínico; equipes tir da organização da Atenção Bási-
confere à Atenção Básica três impor- interdisciplinares; avaliação de risco ca com base na estratégia Saúde da
tantes funções: e de vulnerabilidade dos casos, com Família”, disse.
elaboração de Projeto Terapêutico O desafio é organizar ainda mais
! Promoção da saúde — ações pre- Singular (ações voltadas para deter- esse nível da atenção à saúde. Segun-
ventivas num determinado território, minado grupo ou família); e espaços do Afra, isso representa, na prática,
buscando melhorar a qualidade de coletivos que permitam o contato uma mudança na visão do paciente,
vida de um grupo populacional, dimi- entre a direção das unidades, a rede com humanização, acolhimento e vín-
nuindo o risco e a vulnerabilidade do de serviços e os representantes dos culo, rompendo o modelo hospitalo-
adoecer e aumentando o potencial usuários, além de redes de ajuda for- cêntrico e privatista. Nesse senti-
de defesa da população. Isso é possí- madas pelas famílias, os voluntários e do, ela cobra do próprio ministério:
vel com projetos intersetoriais, ações as associações. quer prioridade no financiamento da
de educação em saúde e de desen- Atenção Básica, maior responsabi-
volvimento comunitário e outras tan- TAREFA NADA FÁCIL lização de gestores e trabalhadores
tas de prevenção, como a vacinação. Sabemos que essa não é uma ta- municipais na reorganização da ABS e
! Acolhimento da demanda — busca refa fácil. Na prática, articular tudo capacitação, formação e contratação
ativa, com avaliação de vulnerabilidade, isso num modelo organizacional de ABS de recursos humanos. “É necessária
atendendo as necessidades da popu- é difícil. Mas vale tentar, porque dá uma política de avaliação e acompa-
lação no momento da demanda. “Para certo. “Por que não se pode ter equi- nhamento permanente”.
isso”, disse, “basta organização e pre-
paração da equipe para receber, em
momentos variados, grande varieda- Radis adverte
de de demandas”. É necessário ainda
avaliar os riscos implicados e assegu-
rar o atendimento e a máxima O Pacto de Gestão
resolutividade possível nas visitas do- faz bem à saúde pública
miciliares, com descrição da cliente- “O acesso à saúde e o acesso
la, análise das condições de saúde e com qualidade precisa ser uma
identificação dos riscos da comuni- obsessão de todos os gestores
dade em dado território. do país.” (Ministro da Saúde na
! Clínica reformulada e ampliada — abertura do 21º Congresso do
hoje, pode-se afirmar que o traba- Conasems, em 11/5/2005)
lho em saúde está reduzido a sinto-
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 12 ]

Enfim, um acordo no Rio


e diabéticos, com o programa “Re-

FOTO: ARISTIDES DUTRA


médio em Casa”. Com o Ministério da
Saúde criamos os centros de referên-
cia secundária em odontologia na
rede básica e também a Casa de Par-
to Davi Capistrano Filho, em Bangu/
Zona Oeste. Nas maternidades foram
criados pólos para atendimento às mu-
lheres vítimas de violência,
Em 1.032 escolas municipais há ati-
vidades educativas em sexualidade e
autocuidado, alimentação e nutrição,
drogas e violência, além de consultas
oftalmológicas com distribuição gratui-
ta de óculos, para 700 mil alunos do
primeiro grau. Ocorreu também a ex-
pansão do Programa Dentescola, de tra-
balho educativo.

Quantas são as unidades do SUS no Rio?


Por que a saúde do Rio chegou à cri- São 130 unidades próprias — 32

A pós cinco meses de sucessivas ten-


tativas de negociação e quase dois
meses de intervenção federal, a Se-
se? Foi a falta de organização da Aten-
ção Básica?
A situação de crise na minha ava-
hospitais e institutos, 12 CAPS, 15 pos-
tos de assistência médica, 22 centros
de saúde, 50 postos de saúde, 44 pos-
cretaria Municipal de Saúde e o Mi- liação é dependente da grande ex- tos de Saúde da Família e 31 do PACS.
nistério da Saúde chegaram a acordo, pansão de ações e serviços nos últi-
em reunião no dia 6 de maio, sobre a mos anos. É necessária uma reflexão Quantas equipes de Saúde da Famí-
administração do SUS na cidade. sobre a descentralização da política lia??
O ministério promete reassumir os pública de saúde para analisar a aten- São 111 equipes de saúde da fa-
quatro hospitais federais municipaliza- ção básica no Rio. Tínhamos um gran- mília: 46 com equipes de saúde bu-
dos em 1999 — Lagoa, Andaraí, Ipanema de desafio institucional com relação cal. Dessas, 71 de PSF e 21 de saúde
e Cardoso Fontes; repassar ao municí- à descentralização e à unificação do bucal já cadastradas no ministério.
pio R$ 135 milhões pela reposição de SUS. A tradição e a vocação munici-
1.594 servidores federais afastados nos pal eram o atendimento básico à mu- A meta acordada com o ministério
cinco anos de municipalização; provi- lher, à criança, à vigilância das doen- será cumprida?
denciar em até três anos a substitui- ças transmissíveis e as emergências, A meta, de 180 equipes, está em
ção dos servidores municipais lotados principalmente nos hospitais Souza processo de realização e será plena-
nas unidades reassumidas; repassar R$ Aguiar, Miguel Couto, Salgado Filho e mente cumprida.
17,8 milhões do Qualisus para comple- Lourenço Jorge. A cidade, no entan-
mentar obras e investir em equipamen- to, como antiga capital federal, con- Quantos procedimentos pelo SUS?
tos nos hospitais municipais. centrava complexa rede federal e Tivemos um total de 54,5 milhões
A Prefeitura do Rio promete am- estadual. Ao assumir a condição de de procedimentos — da atenção bá-
pliar a Saúde da Família para 180 equi- gestor pleno do SUS, em 1999, a se- sica, da média e da alta complexida-
pes até o fim deste ano e mais 80 cretaria assumiu essa rede. de —, já informados ao Sistema de
equipes no ano que vem; implantar o Informações Ambulatoriais do SUS
Serviço de Atendimento Móvel de E o que aconteceu? (SIA-SUS) em 2004. Isto significa que
Urgência (Samu), que presta socorro A rede ambulatorial do SUS cres- cada habitante do Rio teve em média
em emergências, no qual 25% dos ceu. Foram implantadas novas unida- nove contatos com o sistema de saú-
custos cabem à cidade, o que repre- des principalmente na Zona Oeste e de público para consultas, exames,
senta custo anual de R$ 7 milhões na Comunidade do Alemão, represen- internações, vacinações etc. Os Pro-
Maria Cristina Boaretto, superin- tando 100% de ampliação na capaci- cedimentos da Atenção Básica foram
tendente de Saúde Coletiva da secre- dade instalada. Ampliou-se o número 17.203.338; desses, 75,6% em unida-
taria, falou à Radis por e-mail. Segun- de equipes de Saúde da Família e de des próprias municipais, responsáveis
do ela, o Rio está com 111 equipes Agentes Comunitários de Saúde (PSF/ também por 91% dos procedimentos
de Saúde da Família — o dobro do ale- PACS) e de equipes de saúde bucal. de ações básicas em odontologia.
gado, na intervenção, pelo ministé- Foram introduzidas inovações no A análise dos indicadores do Pac-
rio da Saúde — 71 de Saúde da Famí- modelo de atenção com os Centros to de Atenção Básica no Rio revela
lia e 21 de saúde bucal já cadastradas de Atenção Psicossocial (CAPS) para melhorias importantes, porém apon-
em Brasília. “A meta acordada com o atendimento em saúde mental, den- ta a necessidade de remoção de bar-
ministério, de 180 equipes, está em tro dos princípios de desospitalização reiras de acesso aos serviços e equi-
processo de realização e será plena- da reforma psiquiátrica. Ampliou-se a pes cada vez mais próximas dos
mente cumprida”, afirmou. assistência aos pacientes hipertensos usuários. (K. M.)
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 13 ]

21º CONGRESSO DO CONASEMS

FOTOS: LUÍS OLIVEIRA/MS


Humberto Costa
e o painel de Deusenir Félix:
“Responsabilidade compartilhada”

Com as graças do Pantanal


são de Constituição, Justiça e Cida- Félix, autora das belas pinturas usa-
Wagner Vasconcelos
dania da Câmara dos Deputados, do das na divulgação do evento.

A
referendo sobre a Lei do Desarma- No discurso de abertura, Luiz
li, entre a Chapada dos Gui- mento. Houve até uma caminhada Odorico alertou para a necessidade de
marães e o Pantanal, obser- pela paz no Parque Mãe Bonifácia, uma construção da “regionalização solidá-
vados do alto pelo imponente das mais belas áreas verdes de Cuiabá. ria”, para potencializarmos os esforços
Morro Santo Antônio e sub- Ao fim do congresso foi assinada de humanização no atendimento à po-
metidos a um calor que chegava fácil a Carta de Cuiabá, documento que pulação e propiciar acesso à tecnologia
aos 40 graus, 1.447 secretários muni- define sete pontos norteadores para principalmente aos municípios com
cipais de saúde de todo o Brasil se a atuação do Conasems, dos Cosems menos de 20 mil habitantes. Em segui-
reuniram para o evento por que mais (os conselhos de secretários munici- da, ao dar as boas-vindas aos partici-
anseiam ao longo do ano: em sua 21ª pais nos estados) e das secretarias pantes, o prefeito de Cuiabá, Wilson
edição, o Congresso Nacional dos Se- municipais de Saúde. Trata do Pacto Santos, arrancou risos da platéia ao
cretários Municipais de Saúde, entre de Gestão, cultura de paz e não-vio- dizer que a cidade, terra do marechal
10 e 13 de maio, paralelamente ao 2º lência, garantia de medicamentos no Rondon, detém “o maior calor huma-
Congresso Brasileiro de Saúde, Cul- SUS, estratégias do Saúde da Famí- no do Brasil; um calor de 45º C”, brin-
tura de Paz e Não-Violência. Cuiabá, lia, gestão do trabalho em saúde, cou. Já sério, cobrou do Ministério
a capital do estado de Mato Grosso, Amazônia Legal e, por fim, o apoio da Saúde a urgente adoção do Cartão
foi escolhida para sediar o encontro, à realização em 2006 do Congresso SUS em Cuiabá. As cidades-pólo, como
que trouxe novidades. Talvez a maior da Rede Américas, em Porto Alegre. a capital de Mato Grosso, disse, aca-
delas tenha sido a apresentação, pelo Ver a íntegra do documento na pá- bam gastando até 30% dos recursos
Ministério da Saúde, do Novo Pacto gina do RADIS (www.ensp.fiocruz.br/ para atender as demandas de outros
de Gestão para o SUS. 34-web-01.html). Por fim, ficou deci- municípios. “O cartão acabará com
Foi eleita a nova diretoria do dido que os próximos congressos do isso, pois o município receberá por
Conasems. Sai Luiz Odorico Monteiro Conasems serão realizados em Recife esses procedimentos”.
de Andrade, secretário de Saúde de (2006) e Joinville, SC (2007). A segunda cobrança foi aos par-
Fortaleza, assume Silvio Fernandes da lamentares, pela aprovação do PLP
Silva, secretário de Goiânia. Também NO CALOR DA NOITE 01/03 (Radis 33). Wilson Santos afir-
houve cobranças: a implantação defi- Numa noite de termômetros ner- mou que Cuiabá já adotou a filosofia
nitiva do Cartão SUS e, claro, mais ver- vosos, em que a linha do mercúrio atin- do projeto e investe em saúde 21%
bas para a saúde, foram as principais. gia 30º C, a abertura do evento teve de seus recursos — o PLP estipula
E como saúde e paz andam de início às 20h. Um gigantesco palco foi um mínimo de 15% para municípios e
mãos dadas — ou pelo menos deveri- armado no pátio do Centro de Even- 12% para estados. O prefeito pediu
am — o evento também abordou essa tos do Pantanal. Nas laterais, dois gran- majoração no teto dos repasses da
temática. O debate ganhou amplitu- des painéis exibiam imagens de traba- União à cidade, “os mesmos há qua-
de graças à aprovação, pela Comis- lhos da artista plástica local Deusenir tro anos”. Mato Grosso, afirmou ele,
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 14 ]

é o estado com as maiores taxas de dução da inflação, o dinamismo das portante para evitarmos os artifícios
crescimento no Brasil: 9% ao ano, em exportações, a democracia e a esta- que fazem desviar recursos que de-
média. Foi novamente muito aplaudi- bilidade econômica. Entre as “trevas”, veriam ser investidos em saúde”.
do. Diante da platéia, o ministro o desemprego, a informalidade, a má O secretário chamou a atenção
Humberto Costa e o prefeito assina- distribuição de renda e a dependên- para um equívoco que a equipe eco-
ram então carta-compromisso na qual cia de investimentos externos. nômica cometeu no Orçamento de
o ministério se compromete a repas- Nesse contexto, a saúde se de- 2005: incluiu os gastos com hospitais
sar, entre 2005 e 2008, um total de R$ para com desafios como a urbanização militares como despesas do SUS. “O
3 milhões em verbas a Cuiabá. crescente e o envelhecimento de seus Ministério da Saúde vai lutar para re-
O ministro brincou, dizendo que povos. As reformas do Estado não trou- tirar essa atribuição, já que os hospi-
o Ministério da Saúde é muito rápi- xeram melhoria na qualidade de vida tais militares são sistemas fechados,
do, tanto que, imediatamente após o das populações. A diminuição da mor- fugindo dos princípios do SUS”. Ele
pedido do prefeito, resolveu o pro- talidade materna e infantil contrasta, endossou a defesa do ministro — e na
blema. Em seu discurso, Humberto segundo Pedro, com o preocupante verdade de qualquer um que pense
Costa falou dos avanços do SUS nes- aumento do número de infectados com na melhoria do SUS — pela definição
ses 15 anos de existência, inclusive o HIV. Ele pediu políticas claras de fi- das responsabilidades dos gestores.
em relação ao financiamento, apesar nanciamento da saúde, políticas que Um Novo Pacto de Gestão para o
das dificuldades. “O governo, em dois precisam vir rapidamente, pois há na SUS é um compromisso entre os
anos e quatro meses, tem cumprido América Latina 230 milhões de pesso- gestores das três esferas de governo e
a EC-29, e o ministério vai continuar as sem planos ou seguros privados de tem por objetivo qualificar a gestão do
lutando para que o cumprimento seja saúde, afirmou. Na região, 27% dos ha- SUS em função de seus princípios e
a tônica desse governo”. bitantes não têm serviços básicos de diretrizes. Esse termo de compromisso
Humberto Costa defendeu a lei de saúde permanentes, e 17% dos recém- indicará claramente as responsabilida-
responsabilidade sanitária, a ser envia- nascidos não recebem assistência des e os compromissos sanitários e de
da ao Congresso em complemento ao prestada por pessoal qualificado. Além gestão, com os respectivos prazos, as
que a Constituição de 88 estabeleceu disso, 82 milhões de crianças não com- vigências e as metas. Os compromissos
com os princípios do SUS. “Não deve pletam um programa de vacinação. serão guiados por eixos, como a redu-
ser uma lei apenas para estabelecer ção das desigualdades em saúde, a
punições, mas, sobretudo, para criar UM PACTO PARA A SAÚDE ampliação do acesso com qualificação
uma responsabilidade compartilhada Mais tarde, o Auditório das Flo- e humanização da atenção, a redução
entre todos”. Segundo o ministro, o novo res ficou superlotado para a mesa- de riscos e agravos e o aprimoramento
SUS requer menos entraves, menos redonda Responsabilidade Sanitária e dos mecanismos de gestão, financia-
“caixinhas” e mais responsabilidade. Pacto de Gestão. As cadeiras não fo- mento e controle social.
Em sua fala, o governador de Mato ram suficientes para comportar to- Os gestores ficam comprometidos
Grosso, Blairo Maggi, contou que em dos os interessados, cerca de 400 pes- a: reduzir as mortalidades materna e
pesquisa no estado 70% dos entrevista- soas. A razão da procura? Ele: o infantil; eliminar a hanseníase e con-
dos revelaram sua maior preocupação: ministro. Bem, pelo menos era isso o trolar tuberculose, dengue, malária,
o setor saúde. Desses, apenas 45% já que estava na programação. Para a DST/Aids e doenças imunopreveníveis;
haviam utilizado o SUS, e 65% tiveram frustração de muitos, aparentemen- controlar a hipertensão e o diabetes;
bom atendimento. “Temos, agora, de te o Palácio do Planalto convocou reduzir a desnutrição e outros distúr-
lutar para conquistar os outros 35%”. Humberto Costa para uma reunião, e bios nutricionais; reduzir os riscos à saú-
Uma inusitada cena de tietagem em seu lugar falou o secretário-exe- de relacionados às desigualdades ét-
marcou o fim dos discursos: centenas cutivo do ministério, Antônio Alves. nicas, raciais, regionais e sociais e
de pessoas cercaram não os artistas O documento, discutido no dia 12 na grupos populacionais em situação de
do show que encerraria a noite, mas o reunião da Comissão Intergestores risco e maior vulnerabilidade; garan-
ministro Humberto Costa. Queriam ti- Tripartite, foi apresentado pela pri- tir acesso a medicamentos, entre
rar fotos a seu lado. A imprensa nem meira vez ao grande público. Traz, muitos outros itens. O Pacto de Ges-
conseguiu chegar perto do ministro, acima de tudo, mais responsabilida- tão deverá ter o seu modelo discuti-
tamanho o assédio dos secretários. des para os gestores. do até setembro deste ano, e deverá
Com bom humor e paciência, o minis- Antônio Alves observou que, de- ser aplicado ainda em 2005.
tro, entre empurrões, beijos e abra- pois de 15 anos de SUS, o ministério O secretário de Fortaleza, Luiz
ços, atendeu a todos os pedidos. tem consciência de que muitos ou- Odorico Monteiro de Andrade, de-
tros passos são fundamentais para o fendeu maior responsabilidade para
SAÚDE NAS AMÉRICAS avanço da saúde. “Mas o SUS é muito gestores, mas com planos muito bem
Às 9h20 da ensolarada e quente complexo e mesmo com todo o definidos. “Não adianta desabilitar
manhã do dia 13, o belo Auditório das arcabouço construído há muitas difi- município, porque a população fica
Borboletas ficou quase lotado para a culdades para conseguirmos avançar”. desassistida. Se tem gestor picare-
conferência do médico peruano Pedro Dentre essas dificuldades ele apon- ta, que seja punido”. Sua fala foi
Brito, que representou a Opas/OMS tou a “escassez crônica” de recur- muito aplaudida. Odorico mostrou-
no evento. Por falha da organização, sos. Admitiu que o Brasil gasta pouco se preocupado com alguns proble-
ele falou em espanhol sem sistema de com saúde, e também gasta mal o mas atuais, como a dificuldade de
tradução simultânea. Ele deu um pa- pouco que tem — uma tese do pró- interiorização da saúde. “A falta de
norama da situação da saúde na Amé- prio ministro. Por isso, a necessidade médicos no Brasil é um fator limitante
rica Latina de 1995 a 2004, período premente de qualificação da gestão da municipalização: os secretários mu-
que, segundo ele, pode ser dividido pública, para maior eficácia e efici- nicipais deste país estão desespera-
entre luzes e trevas. Como “luzes”, ência. Reiterou a necessidade de dos atrás de médicos e não conse-
Pedro apontou aspectos como e re- regulamentação da EC-29. “Será im- guem”, afirmou. “O Programa Saúde
RADIS 34 ! JUN/2005
[ 15 ]

da Família está em xeque, e o ministé-


rio tem de entrar em alerta máximo
sobre PSF no Brasil”. Na maior parte
dos municípios, afirmou Odorico, te-
mos de 300 a 400 equipes flutuando
sem médico, mês a mês. “Temos que
discutir a questão da quantidade de
médicos no Brasil, inclusive a questão
da residência, a questão do trabalho”.
À tarde, duas mesas-redondas
despertaram a atenção dos congres-
sistas: O Financiamento Compartilha-
do e a Pactuação no SUS e Saúde da
Família. A primeira, no Auditório dos
Minerais, atraiu mais de 200 pessoas
A mesa de abertura: no calor de Cuibá, pacto de gestão e regionalização solidária
para ouvir o diretor de Economia da
Saúde do Ministério da Saúde, Elias Família. Para ele, algumas questões são profissionais de saúde. Lá foi implan-
Antônio Jorge, e o deputado federal cruciais, como a vigilância em saúde, a tado um programa de Residência em
Roberto Gouveia (PT-SP). O deputado, articulação entre urgência e emergên- Saúde da Família. As pessoas são for-
autor do PLP 01/03, que regulamenta cia e o controle de doenças como hi- madas já no cenário de saúde com o
a EC-29, estabelecendo percentuais pertensão e diabetes. A capacitação é qual vão se deparar na prática diária,
mínimos de investimento na área por importante porque, segundo Jorge Solla, para que aprendam a lidar com as di-
parte da União, estados e municípi- muitas equipes do PSF ainda não diag- ficuldades do dia-a-dia da profissão e
os, enfatizou a importância de sua nosticam essas doenças. desenvolver métodos que redundem
aprovação rápida. O tempo para isso Depois dele, foi a vez do secretá- em melhorias do sistema.
está muito apertado pois, com a pro- rio municipal de saúde de Aracaju, Ro- A secretária de Gestão do Tra-
ximidade do período eleitoral — gério Carvalho Santos. O leitor deve re- balho e Educação do Ministério da
“quando os políticos ficam mais sen- cordar que a capital sergipana é Saúde, Maria Luiza Jaeger, disse que
síveis aos temas da saúde” — é impor- destaque em diversos assuntos de saú- a área em que atua é prioritária no
tante uma mobilização em larga esca- de pública, como a implementação do atual governo. Reforçou a necessida-
la de toda a sociedade. Aprovar o cartão SUS (Radis 30) e a infra-estrutu- de de que o estado assuma seu papel
projeto já no segundo semestre de ra de suas unidades de saúde. E o se- na questão da regulação dos servi-
2005 é fundamental, disse: ele teme cretário contou um pouco dessa expe- ços de saúde. Lembrou os problemas
alguma articulação por parte dos go- riência, afirmando que, em 2000, existiam da precarização, dizendo que eles
vernadores para que o projeto não apenas 48 equipes de Saúde da Família ocorrem não só no Saúde da Família,
seja aprovado no Plenário da Câma- em Aracaju, das quais 39 era completas. como também em outros programas,
ra. Elias fez retrospecto da saúde no Hoje, elas são 120 e há mais 20 chama- como o Samu. Mas disse que as nego-
Brasil, assim como no Fórum Social das de “ampliadas”, que contam com ciações com os trabalhadores estão
Mundial da Saúde, em janeiro deste médico especialista além do clínico ge- sendo realizadas constantemente e
ano em Porto Alegre (Radis 31). ral. Também havia 30% de cobertura sem que o PCCS (Plano de Carreiras, Car-
A poucos metros dali, no Auditó- avaliação de risco. No ano passado, esse gos e Salários) está sendo elaborado
rio dos Pássaros, o secretário de Aten- número saltou para 85%. As Unidades de acordo com essas negociações.
ção à Saúde do MS, Jorge Solla, par- Básicas de Saúde (UBS), que em 2000 Maria Luiza disse que, apesar de
ticipava da mesa-redonda Saúde da totalizavam 22, agora são 42. todo o desenvolvimento do SUS — um
Família. Ele expôs uma série de dados processo cujas bases começaram a
sobre a distribuição das equipes de FORMANDO PARA O SUS ser construídas na década de 70 —,
Saúde da Família pelo Brasil e disse No Auditório das Flores, cerca até hoje apenas iniciativas pontuais
que há diversos indicadores positivos, de 200 pessoas se uniram para parti- foram realizadas no que diz respeito
como a redução da mortalidade in- cipar da mesa-redonda “Formação à formação de recursos humanos para
fantil — resultado da política de pro- Multiprofissional do SUS”, no último o sistema. O que precisa ser feito,
jetos estratégicos de expansão e dia do evento. O secretário-executi- segundo ela, é uma política de edu-
qualificação da atenção básica no vo da Rede Unida, Márcio José de cação consistente.
Brasil. De acordo com ele, 231 muni- Almeida, alertou para o fato de que a Para a secretária, é importante
cípios com mais de 100 mil habitantes formação multiprofissional para o SUS que a população trabalhe como autor
estão recebendo recursos externos ainda não é uma preocupação entre e ator de todo o processo da saúde.
do Proesf (Projeto de Expansão e os dirigentes das universidades brasi- E fez aí uma crítica ao uso do termo
Consolidação do Saúde da Família) leiras, que, por ano, formam milhares “paciente”, a pessoa em mera posi-
para investir na iniciativa. de profissionais na área da saúde. Ele ção de alguém que apenas recebe o
Solla apontou algumas medidas im- cobrou mais interação entre o setor serviço, mas dele não participa. Maria
portantes para o desenvolvimento da saúde e o Ministério da Educação Luiza disse que é preciso uma articu-
Saúde da Família: a constante formação para que se trabalhe melhor a forma- lação permanente entre educação e
e qualificação dos recursos humanos, a ção dos profissionais da área. saúde, e isso não é fácil de realizar.
desprecarização dos vínculos do traba- A representante da Secretaria No entanto, o processo já foi inicia-
lho, o controle social e a atuação dos Municipal de Saúde de Sobral, no do, afirmou, e agora é irreversível.
conselhos locais e a melhoria da estru- Ceará, Ivana Cristina Barreto, apre-
tura física e da disponibilidade de equi- sentou uma estratégia que vem ren- Mais informações
pamentos das unidades de Saúde da dendo bons frutos na capacitação de Site Conasems www.conasems.org.br
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[ 16 ]

L UZ E M
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tância de tais instituições em qualquer

A
Jorge Ricardo Diniz Pereira * sociedade que se pretenda mais primeira foi em 2000 (Pune/

A
participativa, independentemente da Índia), por iniciativa do Cen-
ação transformadora da edu- concepção ou modelo adotado. tro Nacional para Comunicadores
cação novamente em foco e O Congresso, maior do gênero de Ciência, instituição indiana cri-
o Brasil, mais precisamente o já realizado nas Américas, contou ada para a disseminação da ciên-
Rio de Janeiro, em cena. Esta com outros eventos associados — a cia. A Conferência cresceu, foi re-
foi uma das impressões registradas por 9ª Reunião da Red-POP, anteceden- conhecida internacionalmente e
cada um dos muitos participantes do gerou a criação da União Interna-
4º Congresso Mundial de Centros de cional para Comunicadores de
Ciência, realizado entre os dias 11 e
16 de abril no RioCentro (centro de
convenções do Rio de Janeiro). Ten-
R ede de Popularização da Ci-
ência e da Tecnologia na
América Latina e no Caribe
Ciência (http://216.15.204.147/
cgi-bin/ncsc/IUSC.asp).

do como tema Centros de Ciência: (www.redpop.org), criada no


Rompendo Barreiras, Engajando Cida- Rio de Janeiro, em 1990, duran- do o evento principal, e, paralela-
dãos, os participantes apresentaram te o Programa de Ciência, mente, a 3ª Conferência Internacio-
e discutiram — em conferências, Tecnologia e Sociedade da nal para Comunicadores de Ciência
debates, mesas-redondas e oficinas Unesco. Hoje com mais de 80 e a ExpoInterativa: Ciência para To-
— aspectos e características pre- integrantes de 15 países, promo- dos — que resultaram em 242 traba-
sentes na relação entre a socieda- ve, com mecanismos de coope- lhos apresentados a 1.144 partici-
de e os museus e centros de ciên- ração, a articulação de centros pantes de 550 instituições oriundas
cia em diversas partes do globo, e programas de popularização de 44 países, e, aproximadamente,
possibilitando intensa troca de expe- da ciência da região. 50 mil visitantes da ExpoInterativa
riências. Ficou demonstrada a impor- (Radis nº 33).
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Números impressionantes que bilitaram a inclusão de grupos social-


comprovam o crescente interesse mente desfavorecidos ou marginaliza-
nas áreas de educação em ciências dos nas atividades propostas por mu-
e divulgação e popularização da ci- seus de ciências, proporcionando
ência, além de ratificar ações e po- novas formas e mecanismos de efetiva
líticas públicas nacionais voltadas mudança social. Os relatos, bem dis-
para o setor. tintos na forma e no conteúdo, de-
monstraram uma vez mais o potencial
MODELOS E VERTENTES de transformação das instituições em
Ao relatar sua trajetória, desde questão. Os exemplos apresentados —
a infância até se tornar astrofísico e Petrosains/Malásia, Universum/Méxi-
cosmólogo, o conferencista indiano co, Exploratório/Argentina e Museu da
Jayant Narlikar descreveu algumas das Vida/Brasil — revelaram a importância

em
etapas do processo de constru- da articulação com programas e pro-
ção da educação cessos educacionais em cada um dos

a ç ã o!
países, otimizando e potencializando
as ações desenvolvidas. como Museo de la Ciencia Y el Juego/
Uma profunda e instigante re- Colômbia; David Heil Associates/EUA;
flexão sobre os modelos e as formas Faculdade de Educação-USP/Brasil e
em ciência de construção do conhecimento e outros — e nas visitas técnicas aos
nos centros de ciência indianos até sua exibição em museus de ciências principais museus e centros de ciên-
chegar à atual rede de centros de foi proposta ao público na sessão A cia sediados na cidade do Rio de Ja-
ciência — referência mundial reco- construção do conhecimento cientí- neiro: Planetário da Cidade, Museu de
nhecida por especialistas de diversas fico e a representação da ciência: O Astronomia e Ciências Afins, Jardim
áreas, a Índia se destaca no cenário que esperar dos museus?, por espe- Botânico e Museu da Vida.
internacional por ter desenvolvido di- cialistas que abordaram, entre ou-
versas iniciativas na área de educa- tros aspectos, a gênese dos museus AGENTES DE MUDANÇA
ção em ciência, sendo, por exemplo, de ciência e algumas das formas de Um desafio a ser vencido. É des-
o primeiro país a construir um par- representação da cultura material sa forma que o tema central do pró-
que de ciências. presentes na construção de “mode- ximo Congresso Mundial de Centros
Narlikar classificou e analisou o los” de exibição (Margareth Lopes- de Ciências, “Centros de Ciência
trabalho desenvolvido em diversos Unicamp/Brasil); os problemas e como agentes de mudança”, a ser
museus e centros de ciência de seu questões decorrentes das atuais for- realizado em Ontário/Canadá, em
país e do mundo, para se deter nos mas de representação de modelos 2008, pode ser visto pelos egressos
planetários — onde desenvolve sociais presentes nos processos de do 4º Congresso — em particular, os
renomado trabalho de popularização criação das exposições museológicas oriundos de países onde museus e
da ciência e formação de núcleos de (Myanna Lahsen-Universidade do centros de ciência ainda são raros e,
astronomia e astrofísica por toda a Colorado/EUA); e, por fim, a cons- em muitos casos, vistos com certo
Índia. Para Narlikar, a disseminação do trução de museus e representações estranhamento e indiferença.
pensamento racional introduzido pela museológicas atuais, em que as ciên- Mudar essa realidade, tornando
ciência deve servir de contraponto a cias sociais e humanas são colocadas a experiência cotidiana para todos,
superstições e crenças tradicionais de lado ou à margem desses proces- é o desejo dos profissionais que nun-
de várias sociedades, objetivando for- sos criando, no mínimo, instituições ca deixaram de acreditar no poder
mas de ordenação social adequadas “afetadas” (Jorge Rivera-Universida- transformador da educação.
ao estágio científico atual. de de Évora/Portugal). Um dos frutos vem aí: o Ministé-
Já os participantes de um dos A troca de experiências entre os rio da Ciência e Tecnologia, com co-
painéis sobre inclusão social, Inclu- participantes, constante em todo o laboração de instituições de todo o
são total: Museus de Ciência para to- evento, foi enfatizada também nas ofi- país, promoverá em outubro a Sema-
dos, relataram suas experiências na cinas — em alguns casos, resultado de na Nacional de Ciência e Tecnologia,
elaboração de programas que possi- projetos consagrados de instituições para sistematizar e integrar ações vol-
tadas para a difusão e a popularização
da ciência. Na primeira edição, em
2004, a Semana apresentou 1.842 ati-
vidades em 252 cidades, por mais de
500 instituições.
Pela primeira vez na agenda da
Semana um evento especial: “Brasil,
Olhe Para a Água!”, para mobilizar o
maior número possível de pessoas em
torno da questão, tão essencial à vida
do país e do planeta.

Material de divulgação
semanact2005@mct.gov.br

* Historiador, Setor de Documentação


do Programa Radis
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[ 18 ]

SE R
RVVIÇO

EVENTOS pais suíços que emigraram para o Bra-


4º C ONGRESSO B RASILEIRO DE sil em 1850, no auge da epidemia de
6º C ONGRESSO B RASILEIRO DE B IOÉTICA BIOSSEGURANÇA febre amarela que devastou a então
capital do Império brasileiro, Adolpho

F oz do Iguaçu sediará a sexta edição


do Congresso Brasileiro de Bioéti-
ca, que traz como tema geral Bio-
P orto Alegre sediará o 4º Congresso
Brasileiro de Biossegurança, que
ocorre paralelamente ao 4º Simpósio
Lutz (1855-1940) foi o precursor das
modernas campanhas sanitárias e dos
estudos epidemiológicos envolvendo,
ética, Meio Ambiente e Vida Huma- Brasileiro de Produtos Transgênicos sobretudo, a cólera, a febre tifóide,
na. Organizado pela Sociedade e ao 1º Encontro Nacional dos Presi- a peste bubônica e a febre amarela.
Brasileira de Bioética, o evento tem dentes de Comissões Internas de A Editora Fiocruz oferece agora toda
como principal objetivo discutir a Biossegurança. Bioterrorismo, bioética, a obra, composta por quatro livros:
preservação ambiental como condi- questões jurídicas da biotecnologia e Primeiros trabalhos: Alemanha, Suí-
ção primordial para sobrevivência da liberação de organismos geneticamen- ça e Brasil; Hanseníase; Dermatologia
vida humana no planeta. Os temas te modificados são alguns dos temas e micologia; e ainda um suplemento
em debate são: Bioética no contex- do evento. Estarão presentes ao con- com glossário, índices e resumos.
to do Hemisfério Sul; Aspectos éti- gresso, organizado pela Associação Mais informações
cos e legais do uso terapêutico das Nacional de Biossegurança, represen- Editora Fiocruz, Av. Brasil, 4.036, sala
células-tronco; Bioética e cidadania; tantes dos comitês de biossegurança 112, Manguinhos, Rio de Janeiro, RJ
Direitos reprodutivos da mulher na da América Latina, da Europa, dos Es- CEP 21040-361
América Latina; “Água, bioética e tados Unidos e do Canadá. Tel. (21) 3882-9039
vida; Bioética, sustentabilidade e Data 26 a 29 de setembro E-mail editora@fiocruz.br
meio ambiente; Bioética e os desafi- Local Hotel São Rafael, Porto Alegre, RS Site www.fiocruz.br/editora
os do envelhecimento humano; e Mais informações
Bioética e direito. Tel. (21) 2220-8327 / 2220-8678 E DITORA V IEIRA
Data 30 de agosto a 3 de setembro Fax (21) 2215-8580 & L ENT /M USEU
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tel Mabu, Foz do Iguaçu, Paraná DA C IÊNCIA
Mais informações NA INTERNET
Secretaria Executiva do Congresso Terra Incógnita —
Fax (61) 328-6912 N OVO SISTEMA DE DADOS SOBRE A IDS Dois novos volumes
Site da série Terra Incóg-
www.sbbcongressobioetica2005.com.br
O Programa Nacional de DST/Aids
do Ministério da Saúde lançou,
em dezembro de 2004, o Monitoraids,
nita estão sendo
lançados pelas editoras Museu da Vida
/Fiocruz, Casa da Ciência/UFRJ e
9º CONGRESSO PAULISTA DE SAÚDE PÚBLICA sistema que reúne dados nacionais, Vieira & Lent, com análises e refle-
estaduais e regionais sobre HIV/Aids. xões sobre a divulgação científica. O

A s relações entre saúde e desen-


volvimento são o tema central do
9º Congresso Paulista de Saúde Pú-
O serviço oferece indicadores da evo-
lução da doença segundo idade, raça
e escolaridade. Apresenta também tra-
primeiro livro é O pequeno cientista
amador — a divulgação científica e o
público infantil, organizado por Luisa
blica, organizado pela Associação balhos de prevenção, evolução de Massarani, jornalista especializada em
paulista de Saúde Pública. O even- compras de preservativos e outros ciência. Traz oito artigos de autores
to, que tem como público alvo dados em forma de tabelas e gráficos. de Brasil, México e Chile, que discu-
gestores, pesquisadores, profissio- O Monitoraids, que recebeu apoio da tem os desafios e as estratégias para
nais de saúde, docentes, alunos de Opas/OMS, é baseado em outros 10 inserir a ciência no mundo infantil,
pós-graduação e de graduação, está sistemas nacionais e internacionais. explorando a curiosidade das crian-
dividido em três eixos temáticos: Site www.aids.gov.br/monitoraids/ ças sobre o mundo a sua volta. O se-
“Saúde e desenvolvimento político”; start.html gundo livro é Terra Incógnita — a
“Saúde e desenvolvimento social”; e interface entre ciência e público, da
“Saúde e desenvolvimento econômi- PUBLICAÇÕES mesma organizadora, o jornalista de
co”. O objetivo do congresso é co- ciência britânico Jon Turney e o
locar o foco nas relações entre saú- L ANÇAMENTOS — E DITORA F IOCRUZ divulgador brasileiro Ildeu de Castro
de e desenvolvimento e reafirmar a Moreira. Reúne 13 artigos de alguns
saúde como qualidade de vida, como Obra Completa de dos principais autores no campo da
bem estar no mundo. Envio de tra- Adolpho Lutz, edi- comunicação científica no cenário in-
balhos: até 30 de junho. tada e organizada ternacional, e procura explorar me-
Data 22 a 26 de outubro por Jaime Larry lhor o território pouco conhecido da
Local Universidade Católica de San- Benchimol e Maga- interface entre ciência e público.
tos, Santos, SP li Romero Sá, ambos Mais informações
Mais informações da Fiocruz, é uma E-mail cestudos@coc.fiocruz.br
Tel. (11) 3032-6209 homenagem a um Editora Vieira & Lent
E-mail apsp@apsp.org.br dos mais importantes Tel. (21) 2262-8314
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RADIS 34 ! JUN/2005
[ 19 ]

PÓS-TUDO

Medicina social e gestão


pública — da teoria à prática
Trecho da palestra proferida no Con- para, no mínimo, 5% é fundamental para
gresso Latino-Americano de Medicina a consolidação da Reforma Sanitária.
Social (Lima, 2004), que resume a pro- Outro fato importante: o pacto
blemática geral do SUS. Íntegra no site federativo brasileiro. Com a descen-
do Conasems (www.conasems.org.br). tralização, os municípios destinam
porcentagem mais significativa de re-
ceitas à saúde. Mas sua capacidade
Sílvio Fernandes da Silva * de gasto é pequena, já que a fatia
tributária da receita nacional que

V ou dividir minha fala em três tó-


picos: avanços, dificuldades e de-
safios do SUS.
cabe aos 5.560 municípios é de ape-
nas 13%. Ou seja, mesmo elevando
seus gastos em saúde, os municípios
ficaram responsáveis por cerca de 25%
Avanços — 1. Um dos avanços mais im-
do total do financiamento do SUS.
portantes foi o surgimento e a consoli-
A responsabilidade pela contra-
dação de Sistemas Municipais de Saú-
tação de pessoal está sendo atribuída
de. Nos últimos dez anos esses sistemas
3. A magnitude do sistema público de principalmente aos municípios e, mes-
conquistaram maior autonomia de ges-
saúde: 90% dos brasileiros são, de algum mo recebendo recursos da União, eles
tão, em especial ao administrar os re-
modo, usuários do SUS. A rede pública têm sido insuficientes. Essa situação
cursos federais que passaram a ser
tem mais de 63 mil unidades ambulatoriais ocasiona muitas vezes contratações
transferidos do Fundo Nacional de Saú-
e mais de 440 mil leitos hospitalares. precárias de trabalhadores.
de diretamente aos Fundos Municipais
Realiza mais de 1 bilhão de procedi-
de Saúde. Cerca de 70% dos recursos Desafios — Financiamento: foi apro-
mentos de atenção básica e 11,7 mi-
financeiros federais destinados à aten- vada emenda à Constituição (EC 29)
lhões de internações por ano; são 83
ção ambulatorial e hospitalar estão sen- que vincula parte da receita obriga-
mil cirurgias cardíacas, 60 mil cirurgias
do transferidos à gestão municipal. toriamente a gastos em saúde. O cum-
oncológicas e 23.400 transplantes de
Os sistemas municipais ampliaram primento dessa emenda, em fase de
órgãos por ano pelo SUS. Possivelmen-
o acesso da população aos serviços regulamentação, ampliará as fontes
te, o maior volume de procedimentos
básicos de saúde, e contribuíram para de financiamento para 4% do PIB (US$
públicos em saúde no mundo.
um impacto positivo nos indicadores 4 bilhões/ano para o SUS).
epidemiológicos, na qualidade da aten- 4. Há avanços em duas políticas es- Regionalização da Atenção à Saú-
ção materno-infantil, em especial na pecíficas: a de atenção a doentes de de: aperfeiçoará o acesso e o fluxo
melhoria do Pré-Natal e do desenvol- Aids, modelo mundial pela cessão de dos pacientes de um município para
vimento das crianças, na redução de anti-retrovirais, e a reforma psiquiá- outro. Estamos em fase de constru-
doenças imunopreveníveis e na saúde trica que, mesmo lentamente, adota ção de novos pactos de gestão e de
bucal da população mais jovem. formas terapêuticas inovadoras. atenção à saúde.
Mudança do modelo hegemônico:
2. Esse processo permitiu também a Dificuldades — As dificuldades rela-
com a efetiva incorporação de novas
construção de novos modelos de aten- cionam-se à pouca governabilidade
práticas sanitárias, buscando efetivar os
ção à saúde. A estratégia estruturante e governança das administrações lo-
princípios da integralidade e eqüidade
do Programa Saúde da Família é a mais cais, no contexto em que se deu a
das ações de saúde, para reorganizar a
marcante: o país se aproxima das 20 descentralização da saúde. Há cons-
oferta de serviços, visando atender a de-
mil equipes, com médicos, enfermei- trangimentos financeiros e legais em
manda não de forma médico-centrada,
ros, auxiliares e agentes comunitários dois aspectos: no financiamento in-
mas com novos protocolos que valorizem
de saúde, atendendo mais de 70 mi- suficiente para que governos locais
o trabalho em equipe e a solução dos
lhões de brasileiros. Novos princípios expandam serviços e na questão dos
problemas dos pacientes em atuação
organizativos, como a adscrição de uma recursos humanos, já que a transfe-
multiprofissional; lançando um novo olhar
comunidade à sua equipe de saúde, rência da responsabilidade de boa
sobre o território de saúde — ou seja,
ampliando o vínculo entre profissionais parte da assistência à saúde aos mu-
sobre a área adscrita da equipe de saú-
e usuários, e o uso da epidemiologia nicípios exige reposição de trabalha-
de —, procurando compreender o pro-
para identificar riscos e acolher os usu- dores, nem sempre possível por falta
cesso saúde-doença da comunidade,
ários de forma mais humana nas unida- de recursos e instrumentos legais.
agindo tanto setorial como interseto-
des estão na agenda de mudança das O gasto total em saúde hoje equi-
rialmente, para intervir em causas e ris-
práticas sanitárias. Surgem modelos de vale a cerca de 8% do PIB. O gasto pú-
cos sempre que possível.
saúde com características inovadoras blico tem variado de 3% a 3,5% do PIB.
em diversos municípios. Entendo que elevar esse percentual * Presidente do Conasems