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MULHER COM LEVE DISTÚRBIO EMOCIONAL

PERSONAGENS:

ALTAMIRANDO
SUZAMARA
MÃE
DONA IZILDINHA
MOTO-BOY/ POLICIAL

Casa de Altamirando e mãe. Mãe entra em cena


com um jornal nas mãos. Está nervosa, Altamirando
surge logo atrás.
MÃE (Com um jornal)
Já nem sei mais o que vender, Altamirando. O das
pratarias já se foi. E olhe que vendi caro. Mau deu pras
contas do mês, o que se gasta de luz nessa casa é um
assombro. Precisa arranjar uma namorada urgente.
ALTAMIRANDO
Que tem que ver uma coisa com outra?
MÃE
Assim seus banhos serão menos demorados.
ALTAMIRANDO
Não diga tolices mamãe! A falta de dinheiro tá te
deixando maluca.
MÃE
A situação é grave! É desesperadora! Desse jeito vamos
ter que trabalhar pra sobreviver!
ALTAMIRANDO (Assustado)
Meu Deus! Será?
MÃE
E você ainda pergunta? (Folheia o jornal) A herança de
seu pai se foi. A pensão não dá pra nada. Temos que
achar uma saída. Aliás, o senhor pouco ou nada tem
feito a respeito.
ALTAMIRANDO
Aí é que a senhora se engana, mamãe. Tenho os meus
projetos, se derem certo vão tirar nosso pé da lama.
MÃE ( Com desdém)
Projetos...sei... ( Um anúncio chama sua atenção ) Mas
que coisa estranha...
ALTAMIRANDO
O quê?
MÃE
Um anúncio... mas não é possível...
ALTAMIRANDO
O quê?
MÃE
Aqui diz; “ Viúva ardente e sensual procura homem de
qualquer idade para matrimônio ou relacionamento
aberto e sem preconceito. Tem como única exigência que
ele tenha uma ótima situação financeira.”
ALTAMIRANDO ( Tentando aparentar naturalidade )
E o que tem demais? É comum esse tipo de anúncio.
MÃE
Só que o nome da viúva ardente e sensual é Cornélia. O
mesmo nome que o meu. O endereço...é o nosso!
ALTAMIRANDO ( Simulando indignação)
Mas isto é um absurdo! Um erro afrontoso! Vou ligar pra
esse jornal e exigir que corrijam esse disparate!
MÃE
E ao final diz: “ Tratar com o senhor Altamirando” Que
se não me falha a memória , é o crápula que eu trouxe ao
mundo!!
Ela larga o jornal e pega o chinelo.
ALTAMIRANDO
Calma mamãe! Não é o que a senhora está pensando.
MÃE ( Avançando para cima dele com o chinelo em
punho )
Você teve coragem de me anunciar nos classificados! É
esse seu projeto futuro? Vender a própria mãe?!
Ela lhe dá uma chinelada.
ALTAMIRANDO
Aí, aí....não é nada disso! Eu só queria arranjar uma
companhia. A senhora anda muito sozinha...
MÃE
Uma companhia rica!
ALTAMIRANDO
Claro! Só mesmo alguém de posses pode te garantir uma
velhice tranqüila,
MÃE ( Pensativa )
Sabe que visto por um certo ângulo a idéia não é má?!
ALTAMIRANDO
A idéia é ótima! Já recebi dois telefonemas. Pela voz
eram senhores distintos. Um de setenta e outro de
noventa anos. Se eu fosse a senhora ficaria com o de
noventa.
MÃE
O que vou fazer com um velho de noventa anos? Um
enterro?
ALTAMIRANDO ( Entusiasmado )
Exatamente. Percebeu?
Mãe pega o jornal e senta-se ao lado do telefone.
ALTAMIRANDO
O que a senhora vai fazer?
Mãe não responde, limita-se a folhear o jornal.
MÃE
Achei!!
ALTAMIRANDO
Achou o quê?
MÃE ( lendo )
“ Mulher com leve distúrbio emocional, procura homem
para relacionamento amoroso. Ótima situação financeira,
podendo arcar sozinha com um possível matrimônio.”
Que tal?
ALTAMIRANDO
A senhora não está...não está pensando...
MÃE
Estou! E que cara é essa? Vai dizer que é amargo o
remédio que a mim receitou como doce?
ALTAMIRANDO
A senhora tem coragem de fazer uma coisa dessas com
seu próprio filho? Seu único filho?
MÃE
Eu não sabia que você tinha mais de uma mãe. Meu
deus, quem será essa outra coitada.
Ela pega o telefone.
ALTAMIRANDO
Não faça isso mamãe!
MÃE
Atenderam... Chiii... Secretária eletrônica. ( Pigarreia )
Muito boa tarde, meu nome é Cornélia Bento Ferreira
Pinto. Venho responder ao anúncio que vossa senhoria
colocou no jornal.
ALTAMIRANDO
Desliga isso!!
MÃE
Meu filho ficou interessadíssimo. O nome dele é
Altamirando Pinto Junior. Rapaz de fino trato. Nós
pertencemos a uma família aristocrática paulista.
Dispomos de uma reserva financeira considerável.
ALTAMIRANDO
Eu disponho de seis reais e cinqüenta centavos, que foi o
troco da padaria. ( Conta as moedas ) Pêra aí! Aqui tem
só quatros reais e oitenta. (Caça nos bolsos)
MÃE
...meu filho se auto-define como um romântico
incorrigível...
ALTAMIRANDO
O viado do português me roubou no troco! O ruim de ser
pobre é isso! Todo mundo resolve te roubar!
MÃE
...é moreno, quase um metro e noventa de altura...
ALTAMIRANDO
Mas que mentira!
MÃE ( Tapando o telefone )
Eu disse quase. Tem um porte físico avantajado.
( Altamirando mira-se a procura do porte físico
avantajado ) Não é coisa que se diga , mas já que essa
conversa é entre mulheres, vou cometer a indiscrição de
revelar que os homens da família provém de uma
linhagem árabe e assim sendo, tem os dotes
característicos da raça.
ALTAMIRANDO ( Não entendendo nada )
Mas que conversa é essa??
MÃE
O Altamirando eu não sei porque eu nunca vi, porém o
falecido pai dele tinha um pênis de vinte e nove ponto
cinqüenta centímetros de comprimento.
ALTAMIRANDO ( Indo até ela, tentando tirar-lhe o
telefone das mãos )
Chega!!!
MÃE
O telefone pra contato é dois dois sete, vinte e três
quarenta. ( Desliga )
ALTAMIRANDO
A senhora perdeu o senso de ridículo? Quer me matar de
vergonha? Não tem mais noção de certo e errado?
MÃE
Nossa! Quanto pudor!! Nem parece que está vendendo a
própria mãe. E depois, de tudo que eu disse essa é a
única coisa que corresponde cem por cento a verdade.
ALTAMIRANDO
Pois saiba a senhora que...que...
MÃE
Que o quê? Fala duma vez.
ALTAMIRANDO ( ar de desgosto)
Eu...eu não puxei ao papai.
MÃE ( Com lástima )
Mas não é possível...será que nada,nada que seu pai tinha
de bom passou pra você?
ALTAMIRANDO
De qualquer maneira, depois da barbaridade que a
senhora disse, a mulher não vai nem pensar em ligar.
Toca o telefone.
MÃE ( Atendendo )
Alô. É ela mesma. Sei. É sobre o anúncio... quer marcar
uma entrevista. Mas é claro, meu filho ficou
interessadíssimo.
ALTAMIRANDO
Não vou nem arrastado! Prefiro tomar veneno!
MÃE
Pra quando quer? Pra agora?! Puxa...assim tão rápido.
ALTAMIRANDO
Tá desesperada! Deve ser mais feia que praga de mãe.
Aliás, é bem esse o caso. Tá gastando seu Latim mamãe.
Manda ela ir no cais do porto. Quem sabe descola um
marinheiro turco. Melhor! Manda ir numa penitenciária.
Arranjar um preso musculoso com tatuagem de nossa
senhora aparecida no braço.
MÃE
A senhora pretende pagar os custos da visita... Dois mil
reais!
ALTAMIRANDO
EU VOU!! Diz pra ela que eu vou! Rapidinho. Pega o
endereço. ( confere as moedas ) Será que esse dinheiro
dá? Vê se ela não paga o táxi.
MÃE
(Anota) Anotei... é só aguardar que ele não demora. Pra
você também querida. ( Desliga) Tiramos a sorte grande!
( Entrega o endereço a Altamirando)
ALTAMIRANDO (Lendo)
Mas é longe. O dinheiro só dá pra ida.
MÃE
Melhor! Assim , se alguma coisa der errado, você pode
refletir sobre seu fracasso na caminhada de volta.
ALTAMIRANDO ( Pegando o jornal)
Mas tem uma coisa me encucando. Aqui diz: “ Mulher
com leve distúrbio emocional...” O que será isso?
MÃE
Ora...vai ver ela está deprimida, triste, solitária, sei lá!
Aliás, pouco importa. O importante é que ela é rica.
ALTAMIRANDO
Será que é muito feia?
MÃE
Provavelmente. Vá preparado pro pior. No mínimo deve
ser parecida com bruxa de estória infantil.
ALTAMIRANDO ( assustado)
Será?
MÃE
E você vai tratá-la como se fosse um anjo caído do céu.
Uma princesa , uma criatura de rara beleza.
ALTAMIRANDO
Já imaginou eu acordar todo dia ao lado de uma mulher
dessas?
MÃE
Muito simples. Torne-se devoto de São Jorge e peça que
ele te dê forças pra enfrentar o dragão. ( Vai até ele e lhe
aperta afetuosamente as mãos ) Boa sorte filhinho.
Mamãe vai ficar aqui torcendo por você.
Altamirando encara a platéia com uma expressão aflita.
Blecaute.

Casa de Suzamara e Dona Izildinha. Toca a campainha.


Surge dona Izildinha.
D.IZILDINHA
Pois não?
ALTAMIRANDO
Com licença, meu nome é Altamirando... Eu sou aquele
do anúncio.
D.IZILDINHA
Que bom. Esteja a vontade. Meu nome é Izildinha Balão.
ALTAMIRANDO ( Receoso )
Fo...foi a senhora que pôs o anúncio?
D.IZILDINHA
Não. Foi minha filha.
ALTAMIRANDO ( Aliviado )
Graças a Deus.
D.IZILDINHA
Como?
ALTAMIRANDO
Não, nada. A sua filha está?
D.IZILDINHA
Está sim , já vou chamá-la. ( Mira-se ) Estou tão
desarrumada. O senhor por favor não repare, eu estava
cozinhando.
ALTAMIRANDO
Pois nunca vi alguém cozinhar tão elegantemente.
D.IZILDINHA
Imagine... São seus olhos. A propósito, o senhor gosta de
culinária?
ALTAMIRANDO
Gosto de comer. Acho que tem tudo a ver.
D.IZILDINHA ( Se aproxima, ar de confidência )
Depois, mais tarde, o senhor não gostaria de conhecer a
minha cozinha?
ALTAMIRANDO
Claro. Será um prazer.
D.IZILDINHA
Então tá combinado. Como sou distraída... Nem lhe
apertei a mão.
ALTAMIRANDO
Não seja por isto. ( Estica-lhe a mão. Ela a aperta )
D.IZILDINHA
Mas que mão macia. Tão suave. Posso observá-la
melhor?
ALTAMIRANDO ( Não entendendo)
Ora...pode...
Ela pega sua mão e a traz para próximo do rosto.
Altamirando a observa constrangido. Ela lhe dá uma
lambida. Altamirando recolhe a mão, assustado. A velha
contrai os lábios como quem faz uma degustação. Por
fim faz o sinal de mais ou menos.
D.IZILDINHA
Vou chamar minha filha. ( sai )
ALTAMIRANDO ( Alisando a mão lambida )
Gente, essa mulher é louca. Se na porta ela me lambe,
imagine o que iria fazer comigo na cozinha...
SUZAMARA ( Entrando em cena )
Senhor Altamirando, que prazer tê-lo aqui. Fico feliz que
tenha vindo.
ALTAMIRANDO
O prazer é todo meu. Não imaginava que fosse tão
bonita.
SUZAMARA
Bondade sua. Meu nome é Suzamara Martins Balão. Na
pior das hipóteses, uma futura amiga sua.
ALTAMIRANDO
Sou um otimista. Seremos bem mais que isto.
SUZAMARA
Sente-se por favor. Sabe que adorei o seu sobrenome.
ALTAMIRANDO ( Estranhando )
Pinto?!
SUZAMARA
Não. Júnior.
ALTAMIRANDO ( Sorriso amarelo )
Claro.... Esse nome veio do meu falecido pai. Ele se
chamava Altamirando Pinto.
SUZAMARA
Ah, ele já morreu? Coração?
ALTAMIRANDO
Suicídio.
SUZAMARA
Nossa! Por quê?
ALTAMIRANDO
Ele deixou um bilhete dizendo que entre passar mais um
dia com minha mãe e a eternidade no cemitério, ele
ficava com a segunda hipótese.
SUZAMARA
Eles não se davam bem?
ALTAMIRANDO
Acho que não.
SUZAMARA
Mas vamos deixar de lado essas coisas tristes. Acho que
deve ter achado estranho eu ter colocado aquele anúncio
no jornal?
ALTAMIRANDO
De forma alguma.
SUZAMARA
Sabe, senhor Altamirando, eu sou uma mulher muito
sensível, uma mulher muito romântica. Só que é difícil
encontrar um homem que também seja assim. O senhor,
pelo que sua mãe disse, se auto-define como um
romântico incorrigível.
ALTAMIRANDO
Sim...sem dúvida. Como a senhora, eu também nunca
encontrei par nisso. Quem sabe agora...
SUZAMARA
Eu simpatizei muito com o senhor.
ALTAMIRANDO
E eu com a senhora. Aliás , posso tratá-la por você?
SUZAMARA
Mas é claro. Sabe senhor Altamirando, ou melhor,
Altamirando. Um fator complicador do relacionamento
entre homem e mulher é sem dúvida o sexo.
ALTAMIRANDO
Grande verdade dona, digo, Suzamara. Grande verdade.
O sexo é fundamental no relacionamento. Eu sou da
opinião que entre quatro paredes tudo é permitido. Tudo!
( Se aproxima ) A gente tem que aflorar nossas fantasias.
Sejam elas quais forem. Eu, por exemplo, tenho um
amigo que toda vez que vai fazer sexo com a esposa, leva
um pé de alface para o quarto.
SUZAMARA
Pé de alface?! Deus meu, pra quê?
ALTAMIRANDO
Não sei, isso ele nunca me disse. De qualquer forma, eu
jamais comi salada na casa dele. Sabe , Suzamara, não há
nada como o sexo pra aproximar as pessoas,
principalmente pessoas que estão se conhecendo
agora...como nós... ( Tom cafajeste, segura na mão dela )
de repente... eu lhe ensino um truque ou dois.
SUZAMARA ( Puxando as mãos. Levantando como
quem dá a conversa por encerrada)
Pois eu fico muito decepcionada, “ Senhor
Altamirando” , ao saber que tem o sexo em tão grande
conta. O marido ideal pra mim terá que me ver, no
máximo, como uma irmã. O nosso contato físico não
pode ir além de um abraço fraternal. Beijo no rosto, só
em ocasiões festivas.
ALTAMIRANDO ( Enfático )
Pois o sexo sempre foi uma obsessão pra mim! Não há
bordel nessa terra que eu não tenha freqüentado. Não há
prostituta do centro da cidade que eu não conheça pelo
nome de guerra e de batismo. Não há aberração sexual
que eu não tenha experimentado ao menos uma vez!
SUZAMARA ( Horrorizada )
Santo Deus!!
ALTAMIRANDO
Minha cara Suzamara, quando eu entrei no templo do
grande guru indiano Ali Bem Ali, ele me olhou e do alto
dos seus poderes telepáticos disse: “ Eis um homem
completamente dominado pelo sexo! Mas eu, Ali Bem
Ali, vou curá-lo!”
SUZAMARA ( Surpresa )
Guru indiano?
ALTAMIRANDO
Exatamente! E sabe o que ele fez em seguida?
SUZAMARA
O quê?
ALTAMIRANDO
Mandou entrar a mais linda dançarina de todo o oriente.
Uma mulher de tão grande beleza que as obras completas
do nosso melhor poeta não seriam suficientes pra
descrevê-la. O único pano que tinha no corpo era um véu
alaranjado que usava no coque dos cabelos. Os seios
eram tão esculturais que mesmo um recém-nascido não
conseguiria mamar neles sem ter um orgasmo logo em
seguida. Nem me atrevo a procurar uma imagem pra
traduzir as ancas e o ventre daquela mulher. Vou lhe
contar apenas uma passagem. Contam que lá no oriente
dois exércitos estavam em vias de se destruir, de se
aniquilar completamente, quando essa mulher surgiu
dançando entre eles, vestindo apenas seu véu alaranjado.
Diante de tanta beleza, os combatentes esqueceram das
suas guerras, dos seus ódios milenares, tomados que
foram por aquela visão. E o ardor, o afã de tocar naquela
deusa foi tão grande, tão grande...que eles se aniquilaram
completamente. Pois bem. Esse grande guru, esse ser
iluminado, olhou pra mim e disse: “ Vou lhe ensinar um
exercício de Yoga uma única vez. E se esse exercício não
lhe tirar completamente o apetite sexual, você está
autorizado por mim a fazer com essa mulher tudo que
quiser. Não precisara mais do que uma palavra e ela virá
até você para lhe satisfazer até o mais obsceno dos
desejos.” Dito isto , ele me ensinou aquilo que iria mudar
a minha vida; o Kaa. ( Se emociona. Enxuga lágrimas
fictícias ) Desculpe... mesmo hoje não consigo falar
nisso sem me emocionar.
SUZAMARA ( Interessada na narrativa )
Eu entendo, eu entendo. Continue.
ALTAMIRANDO
Então , enquanto aquela mulher esplendorosa dançava e
se contorcia da forma mais sensual possível, eu apertava
as têmporas com os indicadores e com toda energia
interior, me concentrava no meu dedão do pé.
SUZAMARA ( Surpresa )
Dedão do pé?
ALTAMIRANDO
Exatamente.
SUZAMARA
E a dançarina?
ALTAMIRANDO
De vez em quando ela parava de dançar e recitava longos
poemas, todos de inigualável beleza. Noutras vezes
proferia os piores palavrões,as piores obscenidades.
Algumas que mesmo eu não conhecia. Mas isto para
mim pouco importava. O importante era o dedão do meu
pé. Nele, acredite, todo universo estava contido.
Passaram-se três dias , dona Suzamara. Três dias! A
partir de um certo ponto, uma formiga passando por mim
teria muito mais chance de chamar a minha atenção do
que a dançarina. E desde aquele dia o sexo deixou de
existir completamente. E já se vão sete anos.
SUZAMARA ( Impressionada )
Mas isto é incrível! O senhor praticamente é um homem
santo.
ALTAMIRANDO
Imagine...eu apenas dominei meus instintos básicos,
meus instintos animais.
SUZAMARA
E eu, que quase ia cometendo uma injustiça com o
senhor. Imagine que cheguei a pensar que estivesse
sugerindo fazer sexo comigo.
ALTAMIRANDO ( Simulando indignação )
Por quem me tomas? Por quem me tomas?
SUZAMARA
Desculpe se lhe ofendi. Foi a impressão que me deu.
ALTAMIRANDO
Se tens alguma dúvida a esse respeito, diga e eu me retiro
imediatamente! Eu até aceito que duvide de mim, já que
mal me conhece, agora, pôr em dúvida os ensinamentos e
a sabedoria do supremo guru Ali Bem Ali, é coisa que
não dá pra admitir!
SUZAMARA
De jeito nenhum senhor Altamirando, digo,
Altamirando. Longe de mim insinuar uma coisa dessas.
Por favor, me desculpe. ( Segura as mãos dele ) Não vou
admitir que fique magoado comigo.
ALTAMIRANDO
Bom...sendo assim...vendo que a senhora não fez por
mal, eu vou relevar.
SUZAMARA
Eu fico até sem jeito de dizer isto, mas o senhor me cai
como uma luva.
ALTAMIRANDO
Bondade sua. Quando muito, sou o mais humilde
pretendente.
SUZAMARA
Sério. É o primeiro homem que conheço que abomina o
sexo. O senhor come carne vermelha?
ALTAMIRANDO ( Inseguro )
A senhora come?
SUZAMARA
Não.
ALTAMIRANDO ( Convicto )
Nem eu!
SUZAMARA
Tá vendo? Até nisso combinamos. Hoje em dia as
pessoas colocam o sexo a frente de tudo nas suas vidas,
quando deveriam colocá-lo fora da vida delas.
ALTAMIRANDO
Disse-o bem dona...,digo, Suzamara. Disse-o muito bem.
Vou mais longe: o sexo é o ópio do povo. È usado como
instrumento de manipulação política. Um homem
,enquanto faz sexo, só consegue pensar em sexo.
SUZAMARA
Praticamente se isola do contexto social.
ALTAMIRANDO
Justamente. Abandona o social e mergulha de cabeça
na...na...na....
SUZAMARA
Alienação!
ALTAMIRANDO
Tirou a palavra da minha boca.
SUZAMARA
Chega a ser um contra-senso numa era de revolução
tecnológica , o sexo não ter sido substituído por um tubo
de ensaio.
ALTAMIRANDO ( Confuso )
Tubo de ensaio?! ( Coça a cabeça ) mas tubo de ensaio é
de vidro e ainda por cima, oco por dentro, fácil de
quebrar... Sendo assim, é melhor usar um vibrador, que é
de plástico. Imaginou o vidro se partindo...aquele monte
de caquinho... ( Faz cara de horror )
SUZAMARA ( Professoral )
Quando eu disse substituir o sexo pelo tubo de ensaio,
estava me referindo a fecundação do óvulo pelo
espermatozóide.
ALTAMIRANDO ( Sem graça )
Que cabeça a minha... Claro. Tá vendo? Tanto tempo
desligado do sexo que quando falo dele, me perco.
SUZAMARA
Pois eu posso dizer com orgulho que nunca fui tocada
por ele.
ALTAMIRANDO
Minha cara Suzamara, muitas mulheres me falaram isso,
e de todas, você foi a única que falou a verdade. Por você
eu ponho a mão no fogo sem medo de me queimar.
SUZAMARA
E eu digo o mesmo do senhor.
ALTAMIRANDO
Pois faz muito bem. Apesar de um passado desregrado,
hoje sou um homem casto.
SUZAMARA
Não sabe como é bom ouvir uma frase dessas da boca de
um homem. É quase um milagre. Afinal, existem tantas
coisas no mundo além de sexo. Eu , por exemplo, adoro
música. Ouço Ray Conniff o dia inteiro. Se bem que
acho ele avançadinho demais pro meu gosto. Mas não é
tão radical quanto esse Roberto Carlos, que praticamente
prega o sexo selvagem. Aquela musica “ Café da manhã”
devia ser proibida para execução publica. Aquilo é uma
obscenidade. O que devia-se fazer era... (Mudança de luz
em cima dela. Ela estremece como se tivesse tomado um
choque elétrico )
ALTAMIRANDO ( Amparando-a )
O que foi? Algum problema? Suzamara!
Ela tem um leve desmaio. Altamirando a ampara.
ALTAMIRANDO
Suzamara! Suzamara! Meu Deus... logo agora que estava
indo tudo tão bem. ( Ela ameaça voltar a si) Coitada.
Deve ser falta de sexo, a cachorrinha pequeneza da
minha tia vivia desmaiando por causa disso.
Ela volta a si. Tem uma expressão cínica no rosto,
uma postura sensual oposta a anterior. Altamirando não
percebe a mudança de personalidade.
ALTAMIRANDO ( Vendo que ela voltou a si )
Graças a Deus. Você está se sentindo melhor?
SUZAMARA
Estou ótima.
ALTAMIRANDO
Deve ter sido o calor, ou o frio. Alguma coisa que você
comeu, ou ficou sem comer tempo demais, sei lá! Sê ta
bem mesmo? Seu rosto está diferente.
SUZAMARA
Claro que estou . ( Passa a mão na perna dele )
ALTAMIRANDO ( estranhando)
Não seria melhor chamar um médico?
SUZAMARA
Não se preocupe, você não vai ficar viúvo. Mesmo
porque nós ainda nem casamos. Relaxa. ( Passa de novo
a mão na perna dele )
ALTAMIRANDO
Com saúde não se brinca. ( Ela vai até o armário e tira de
lá um pote de pó de arroz ) Ainda mais nos dias de
hoje,em que o estresse é tão grande. ( Ela senta-se no
sofá , abre o potinho e se mira no espelho) Vê como
ficou pálida? Principalmente nas bochechas.
SUZAMARA
Deixa que dou um jeito nisso.
Puxa um canudinho do bolso, coloca no pó e aspira
por uma narina. Em seguida bate de leve com a ponta do
dedo a narina que aspirou o pó. Repete o processo com a
outra narina.
ALTAMIRANDO ( Horrorizado )
Isso...isso aí é pó de mico?
SUZAMARA ( Apertando as narinas )
Não deixa de ser, comprei no Morro do Macaco.
ALTAMIRANDO ( assustado )
Nesse caso é melhor mesmo chamar um médico antes
que a coisa vire caso de polícia. A sua mãe onde está?
SUZAMARA
Esqueça dela. Vamos nos divertir um pouco.
ALTAMIRANDO
Ouvindo Ray Conniff?
SUZAMARA
Não. Fazendo sexo.
ALTAMIRANDO
Sexo?! E desde quando você faz isso?
SUZAMARA
Você quer o que? Dia, mês e ano? Hoje ainda não fiz
nenhuma vez....acho....
ALTAMIRANDO
Não é possível! Você não é a mulher com quem eu
falava a um minuto atrás.
SUZAMARA
E você levou esse tempo todo pra descobrir?
ALTAMIRANDO
Como assim? O que você está querendo dizer?
SUZAMARA
Ai...chega de tanta conversa. ( Cínica ) Faz mau antes da
comida.
ALTAMIRANDO
Que comida?
SUZAMARA
Ora...eu! Vem...
ALTAMIRANDO
Pra onde?
SUZAMARA
Pra trás do sofá. Quem sabe eu te ensino um truque ou
dois. Vem...melhor do que aqui só no telhado da mansão.
Tem uma obra em frente, a piãozada fica olhando...uma
delícia...eles me chamam de cada coisa ... ( Vão para
trás do sofá. Ficam visíveis apenas da cintura para cima )
ALTAMIRANDO
Não tenho noção do que tá acontecendo aqui, mas esse
tipo de convite eu não costumo recusar.
Ela o agarra e os dois somem atrás do sofá. Após
alguns segundos ela se ergue novamente.
SUZAMARA
Está faltando uma coisa.
ALTAMIRANDO
Que coisa?
SUZAMARA
A maionese.
ALTAMIRANDO ( Assustado )
Como é que é?
SUZAMARA ( sensual )
Uma mulher de verdade nunca transa sem maionese.
Ela pega um pote de um quilo no armário.
Altamirando limita-se a observá-la onde está.
ALTAMIRANDO
Pêra aí. Vamos esclarecer uma coisa. Você vai passar
essa maionese aonde?
SUZAMARA
Aqui!
Mergulha sobre ele e os dois somem novamente.
ALTAMIRANDO ( Atrás do sofá )
Ei...espera aí...vamô devagar...pêra aí....essa....essa
maionese é de limão?
Ela levanta abruptamente. Ar intrigado no rosto.
ALTAMIRANDO ( Levantando também )
O que foi?
SUZAMARA ( Apontando )
Não eram vinte e nove ponto cinqüenta centímetros?
ALTAMIRANDO
Eu não. Papai é que era.
SUZAMARA
Papai? Sei...você é adotado?
ALTAMIRANDO
Não , não sou adotado, porque?
SUZAMARA
Visto por esse ângulo parece.
ALTAMIRANDO ( Leve irritação )
Por quê? Algum problema?
SUZAMARA
Não, nenhum. ( Fecha o pote de maionese) Mas sendo
assim acho que um pote menor deve dar.
Levanta e vai até o armário. Coloca o pote no lugar
e retira de lá um outro de duzentos e cinqüenta gramas.
Altamirando a observa visivelmente contrariado. Ela se
dirige novamente para o sofá, mas para no meio do
caminho parecendo mudar de idéia. Retorna novamente
para o armário e coloca o pote de volta no lugar. Retira
de lá um sache de sete gramas de maionese, do tipo que
se usa para apenas um sanduíche.
SUZAMARA ( Balançando o saquinho)
Isso deve dar.
ALTAMIRANDO ( Saindo de trás do sofá, irado )
O que a senhora está tentando insinuar?
SUZAMARA
Nada, ora essa. Apenas não é o caso de desperdiçar
maionese.
ALTAMIRANDO
O quê? Então era essa a sua intenção ? Me fazer passar
por idiota? Pois fique sabendo que com o pouco que
tenho faço o que outros, com muito, não conseguem. O
que vence a guerra é a valentia do guerreiro e não o
tamanho da espada!
SUZAMARA
Mas convenhamos que o Connan, o bárbaro, leva certa
vantagem com aquela espada enorme, diante de alguém
com um canivete suíço.
ALTAMIRANDO
A senhora está me comparando a um canivete suíço?
SUZAMARA
O que não desmerece ninguém, já que ele serve pra tanta
coisa.
ALTAMIRANDO
Pois eu dou por encerrada essa visita! A senhora, por
favor, me dê os dois mil reais que ficaram combinados,
que eu tenho os meus afazeres!
SUZAMARA
Também não precisa se chatear, eu não falei por mal.
ALTAMIRANDO
Como não? Como não? ( Formal ) Vai ser em dinheiro
ou cheque?
SUZAMARA ( Se insinuando )
Em sexo! ( Abraça-o ) Você não vai querer estragar o
que pode ser o início de uma grande amizade por causa
de uma bobagem a toa? Vem. A gente usa o pote de um
quilo, meu guerreiro destemido.
ALTAMIRANDO ( Ar maroto )
Já nem sei se devo. Nem sei...
SUZAMARA
Deve sim! Vem...
ALTAMIRANDO
Ta bom. Assim eu te mostro o que pode um homem
como eu. Verá que mesmo um pequeno bote pode
transpor um mar bravio.
Ela aplaude entusiasmada.
ALTAMIRANDO
Não sei quantos homens você já teve, mas a partir de
hoje vai agrupá-los antes e depois de mim.
SUZAMARA
Uau!!!
ALTAMIRANDO
É que hoje não estou afim de pegar pesado, senão ia te
mostrar a minha imitação de Elvis Presley fazendo strip-
tease.
SUZAMARA
Aí, eu quero! Agora que falou vai ter que mostrar.
ALTAMIRANDO
Não...melhor não.
SUZAMARA
Vai sim! Por favor...
ALTAMIRANDO
Tá bom. ( Ela dá um gritinho de alegria ) Sente aí no sofá
e observa.
Mudança de luz. Foco maior em cima dele. Entra
play-back de uma música de Elvis Presley. Altamirando
vai cantando e imitando os trejeitos de Elvis e ao mesmo
tempo de striper. Vai dançando, rebola, desabotoa a
camisa. Luz muda sobre Suzamara, ela estremece e tem
um novo desmaio. Altamirando não percebe nada. Ela
volta a si na pele de outra personalidade, assume ar sério.
Vai até o móvel retira de lá dois cinturões carregados de
balas, cruza-os no peito . Retira um outro cinturão com
revólver e dois punhais e coloca-o na cintura. Por fim um
chapéu de cangaceiro e um triangulo de ferro. A música
de Altamirando atinge o auge e corta bruscamente, dando
lugar a uma música nordestina ponteada pelo triangulo
de Suzamara e cantada por ela ( Play-back).
Altamirando, perplexo, fica na mesma posição em que
estava.
ALTAMIRANDO ( Após ela terminar de cantar )
Olha...não que a performance não tenha sido boa. De
jeito nenhum. Só que o clima não era bem esse. Uma
quenga de bordel nordestino até que passava, mas
cangaceira tá meio fora do assunto. Acho que nessa você
tomou ônibus errado.
SUZAMARA ( Puxando um dos punhais. Fala com
sotaque nordestino )
Tá pedindo pra morrer cabra?
ALTAMIRANDO ( Com o punhal no pescoço )
Que isso? Que brincadeira é essa?
SUZAMARA
Do que tu falou eu só entendi a palavra clima, quenga,
nordestina e cangaceira. E não quero lhe sangrar antes de
saber o que tu disse.
ALTAMIRANDO
Para com isso Suzamara! Perdeu a graça!
SUZAMARA
E quem é essa Suzamara ?
ALTAMIRANDO ( Entendendo )
Deus do céu, a mulher é louca!
SUZAMARA
Quem é louca? ( Ameaça espetá-lo )
ALTAMIRANDO
A Suzamara! A Suzamara é louca!
SUZAMARA
E quem diacho é essa mulher? Alguma coiteira?
ALTAMIRANDO
Era ela que eu estava chamando de quenga.
SUZAMARA
Agora tô entendendo. ( Tira o punhal do pescoço dele e o
guarda ) E te aprume! Te aprume que não quero ver tuas
partes. Homem dado a sem-vergonhice eu corto o falo
junto com as bolas e dou pros cachorros comer!
ALTAMIRANDO ( Para si mesmo enquanto ajeita a
roupa )
Para quem se dizia virgem a alguns minutos atrás a
evolução foi grande.
SUZAMARA
O que tu ta fazendo sozinho neste rincão, no meio deste
agreste? Ta fugindo de alguma volante?
ALTAMIRANDO
Não sei de volante nenhum não senhora, eu vim de
ônibus.
SUZAMARA
Lhe avistei de longe. Tava te observando lá perto daquele
pé de pau.
ALTAMIRANDO
Pé de pau?! Que pé de pau?
SUZAMARA ( Apontando para o fundo da platéia )
Aquele lá alto, no meio das macambiras.
ALTAMIRANDO ( Fingindo ver )
Ah sei. Agora to vendo... No meio das Macambiras...
Mas qual é a sua graça?
SUZAMARA ( Puxando o punhal )
Aqui não tem nenhuma palhaça não senhor!
ALTAMIRANDO
Eu quis dizer qual o seu nome!
SUZAMARA
Meu nome é Severina dos Prazeres, ( Cerimoniosa ) a
amante de lampião.
ALTAMIRANDO ( Espantado )
Amante de Lampião?!
SUZAMARA
Algum problema? Que é que ta estranhando?
ALTAMIRANDO
Não, nada. É que sendo o seu Virgulino tão bem casado,
eu estranhei um pouco.
SUZAMARA
Vasta! Quenga!
ALTAMIRANDO
Eu?
SUZAMARA
Não, Maria Bonita. Mulher à-toa, metida! Mas deixa
estar que o lugar dela ainda vai ser meu. Ah, se vai!
ALTAMIRANDO
Pense bem, dona Severina, pense bem. Por causa desse
homem , a senhora pode, literalmente, perder a cabeça.
SUZAMARA
Que barulho foi esse? (Saca o revólver )
ALTAMIRANDO
Barulho?! Não ouvi nada.
SUZAMARA
Mas eu ouvi muito bem. Tem macaco por perto.
ALTAMIRANDO
Deixa pra lá. O Zoológico é aqui perto, vai ver fugiu.
SUZAMARA ( Irritada )
Macaco da polícia, excomungado! To vendo um!
( Aponta o revólver para algum ponto no fundo da platéia
)
ALTAMIRANDO
Onde?
SUZAMARA
Ali! No meio das catanduvas. Olha lá a carinha dele, com
arma em punho querendo me atirar. Vou dar um tiro
bem entre os olhos pra quando chegar no inferno, o diabo
não perguntar do que morreu.
ALTAMIRANDO
Não me faça uma desgraça dessas! Teatro já não tem
público e o pouco que tem a senhora quer matar?
SUZAMARA
Pois eu vou atirar e vai ser agora!
ALTAMIRANDO
Não faça isso, vai ver é Lampião que veio te buscar.
SUZAMARA
Lampião? Será?
ALTAMIRANDO
Só pode ser.
SUZAMARA ( Dengosa )
Tilico? É você Tilico?
ALTAMIRANDO ( Para si mesmo. Achando graça )
Tilico?! O rei do cangaço, na hora da alcova vira Tilico.
É demais.
SUZAMARA ( Apontando a arma pra ele )
Qual é a graça seu moço?
ALTAMIRANDO
Nada, nada! To rindo de nervoso.
SUZAMARA
Pois eu tenho um remédio que é tiro e queda. Sê quer?
ALTAMIRANDO
Não,não,não! To calmo já. Calminho. Deve ser esse ar
puro do agreste (Aspira) Que delícia. Acalma a gente.
SUZAMARA
To sentindo cheiro de bosta de cachorro!
ALTAMIRANDO
Dizem que é um santo remédio pra bronquite.
SUZAMARA
Pois eu to começando a achar que tu é mancomunado
com a polícia. Que veio aqui pra me entregar! Seu filho
dum cão!
ALTAMIRANDO
Eu?! Eu?! Não tenho nada a ver com isso! Eu sou
Paulista. Em São Paulo nunca teve cangaço não!!
SUZAMARA
Pois paulista só tem dois destinos na vida...um é ser
viado , o outro é ser corno!
ALTAMIRANDO
Opa!! Pois não sou nem uma coisa nem outra.
SUZAMARA
Pois se não é uma coisa nem outra é polícia!!
Fidumaegua ,fidumajega, fidumavaca!! ( Ameaça
atirar )
ALTAMIRANDO
Pelo amor de Deus, não atire, eu quero viver!
SUZAMARA
Tu vai viver o tempo que te resta, que é o tempo d’eu
contar até dez! É um...
ALTAMIRANDO
Pois então atire! ( Abre a camisa num gesto de desafio )
Atire nesse coração que já nasceu dividido em dois!
SUZAMARA
É dois...
ALTAMIRANDO ( Trejeito feminino )
Nesse coração que oscila entre ser um macho viril ou
uma fêmea no cio.
SUZAMARA ( Parando a contagem )
Oxente!! Será a gota serena?!
ALTAMIRANDO
Atire dona Severina! Atire! Me liberte dessa maldição
que foi ter nascido no corpo de um homem! Eu quero ser
livre como uma libélula, um colibri, um pirilampo
iluminando a pradaria numa noite sem lua! Atire e depois
me enterre num caixão cor de rosa e em dia de chuva, pra
mim sentir aquele cheirinho de terra fresca.
( Lembrando ) Gente...que dia é hoje? Uma vez leram a
minha mão e me disseram que eu ia morrer numa quarta-
feira.
SUZAMARA
Hoje é quinta.
ALTAMIRANDO
Aí,eu não acredito...eu não acredito...vamô ter que
esperar até a semana que vem. ( Segurando no revólver
dela ) A senhora promete que não esquece?
SUZAMARA
Vasta de mim cachorro bixiguento! ( Guarda o revólver )
Homem perobo não dá gosto nem de matar. ( Pega o
revólver de novo ) Tu tá me enganando cabra? Tu é
perobo mesmo?
ALTAMIRANDO
Eu sou! De pai e mãe! Não tem homem nessa terra pra
dizer que é mais perobo do que eu! Dona
Severina,quando eu entrei no templo do grande guru
indiano Ali Bem Ali...
SUZAMARA ( Interrompendo )
Guru?! Que diacho é isso?
ALTAMIRANDO
É uma mistura de padre com pastor, só que sem cobrar
nada. Quando eu entrei no templo , ele me olhou e disse:
“ Eis aqui um homem completamente dominado pela
pederastia! Mas eu , Ali Bem Ali, vou curá-lo!" Sabe o
que ele fez em seguida?
SUZAMARA
O que?
ALTAMIRANDO
Mandou entrar o mais lindo dançarino de todo o oriente.
Dona Severina, lhe digo, homem mais gostoso do que
aquele por aqui nunca se viu! O bíceps dele era mais bem
definido do que os contornos de Brasília. Me deu febre
na hora. Quarenta e dois graus, eu medi. O único pano
que ele tinha no corpo era uma toalha de mesa que usava
para cobrir o pênis intumescido. Ele andando lembrava a
evolução de uma porta-bandeira , dona Severina, aquilo
era uma coisa de louco! Um homem desses dava conta
sozinho da passeata gay. Tive que tomar um frasco
inteiro de novalgina pra febre baixar. Foi então...então...

Mudança de luz sobre Suzamara. Ela tem um novo


desmaio. Altamirando corre para ampará-la. Coloca-a no
sofá.
ALTAMIRANDO
Deus do céu, de novo! O que será que vai baixar agora?
Espero que seja uma preta-velha, assim ela aproveita pra
me dar um passe. Na dúvida, deixa eu recolher o
armamento.
Ele recolhe as armas e fica sem saber onde colocar.
Olha para parede e vê a portinhola da lixeira.
ALTAMIRANDO
Que coisa estranha...uma lixeira em plena sala?! ( Dá de
ombros) Melhor, assim jogo essas armas aqui.
Joga as armas fora. Suzamara começa a voltar a si.
SUZAMARA
Altamirando...o..o que está acontecendo?
ALTAMIRANDO
Era exatamente o que eu ia lhe perguntar.
D.IZILDINHA ( Entrando em cena)
Filhinha...não vai me dizer que desmaiou de novo?
SUZAMARA
Acho que sim.
D.IZILDINHA
Assim você assusta o seu Altamirando. ( Para ele ) Ela
delirou muito?
ALTAMIRANDO
Não...quase nada. ( Para si mesmo) Nem chegou a
atirar...
SUZAMARA ( Levantando )
Eu vou lavar o rosto . O senhor me dá licença?
ALTAMIRANDO
Claro. Fique a vontade, não se preocupe comigo.
SUZAMARA
Já volto.
As duas saem. Altamirando corre para o telefone.
ALTAMIRANDO
Alô, mamãe!! Sou eu, graças a Deus que te encontrei em
casa... Estou, estou sim. Falei com ela mamãe,
falei...de...deixa eu falar só um instantinho! A mulher é
completamente louca! Maluca mesmo! A senhora não
imagina, assim que eu cheguei ela até que me recebeu
bem...Não , eu ainda não recebi o dinheiro. Mas deixa eu
contar, assim que eu cheguei ela até me recebeu bem,
parecia uma pessoa muito distinta, muito educada...O
quê?...Claro que ela é rica. O problema não é esse, é que
logo após termos conversado um pouco ela... Como é
que é? ... a senhora o quê?... ( Expressão aflita ) A
senhora gastou por conta, dois mil reais!!Ficou doida?
Eu ainda nem recebi e a senhora já gastou? ...Cartão!
Sei... Dois mil e oitocentos?! Eu nem sei se vou
conseguir os dois mil e a senhora quer que eu peça mais
oitocentos?! Mas será que não entende?! Se demorar
muito aqui vou voltar pra casa dentro de um saco
plástico. ...( Ar magoado) Como é que a senhora pode
dizer uma coisas dessas mamãe? Eu sou seu único
filho...Sei...Se dentro do saco plástico tiver os dois
mil e oitocentos , tudo bem...A senhora não tem coração
mamãe...Vem vindo alguém ! ( Desliga )
Entra Dona Izildinha.
D.IZILDINHA
Ouvi vozes. O moto-boy chegou?
ALTAMIRANDO
Moto-boy?
D.IZILDINHA
Eu fiz um pedido , pensei que tivesse vindo entregar. E o
pior que esqueci para onde foi. Não sei se foi o disk-
pizza,disk-galeto, disk-medicamento... Sou tão
esquecida. Mas de qualquer forma, assim que o rapaz
chegar o senhor manda ele dar uma chegadinha na
minha cozinha?
ALTAMIRANDO ( Estranhando )
Claro. Dona Suzamara melhorou?
D.IZILDINHA
Melhorou. De vez em quando ela tem isso, mas não é
nada sério, não precisa se preocupar. A propósito
( Senta-se ao lado dele no sofá) , ela teria , por acaso,
dito ou feito alguma coisa , digamos, estranha?
ALTAMIRANDO ( Disfarçando )
Não , nada. Ela simplesmente apagou por alguns
instantes e logo voltou a si.
D.IZILDINHA
Tem certeza? A Suzamara, ou melhor, não propriamente
a Suzamara , mas um outro lado dela não teria se
manifestado e dito alguma coisa estranha ou estapafúrdia
sobre a minha...cozinha?
ALTAMIRANDO
A sua cozinha? Alguma coisa como o quê?
D.IZILDINHA
Não sei. Sabe-se lá o que passa na cabeça de uma pessoa
que delira.
ALTAMIRANDO
Não...ela não disse nada. Principalmente relacionado
com a sua ...cozinha.
D.IZILDINHA
Se o senhor tiver alguma dúvida posso levá-lo até lá e lhe
mostrar.
ALTAMIRANDO ( Assustado )
Não!!
D.IZILDINHA
O senhor está me parecendo assustado? Está preocupado
com alguma coisa?
ALTAMIRANDO
Claro que não. Fique tranqüila, ela não disse nada.
D.IZILDINHA ( Tom ameaçador )
Ainda assim eu faço questão que me acompanhe até a
...cozinha...
Ela se inclina sobre ele e ele se esquiva. Entra
Suzamara.
SUZAMARA
Demorei?
ALTAMIRANDO ( Aproveitando para se levantar e
escapar da velha )
De jeito nenhum. Como está? Tá melhor?
SUZAMARA
Estou, foi só uma coisa passageira. O senhor me
desculpe.
ALTAMIRANDO
Imagine. Mas venha. Sente-se aqui no sofá. Ficar em pé
pode dar vertigem.
A mãe dela se levanta e ela se senta em seu lugar.
SUZAMARA
Pode ir mamãe. Eu fico com o senhor Altamirando.
D.IZILDINHA
Eu vou filhinha, mas tem de me prometer que o senhor
Altamirando não vai embora sem antes dar uma
passadinha na minha cozinha e provar dos meus quitutes.
SUZAMARA
Claro, mamãe, pode deixar.
D.IZILDINHA
Mesmo porque ele não poderia sair, já que acionei o
sistema de segurança travando as portas , janelas e
ligando a cerca eletrificada. Aproveitei e soltei os
cachorrinhos.
Entra o play-back de cães ferozes.
ALTAMIRANDO ( Para si mesmo )
Minha nossa senhora...
Dona Izildinha sai.
SUZAMARA
Pelo visto, mamãe gostou de você.
ALTAMIRANDO
É... só não sei pra que?
Toca o interfone. Dona Izildinha aparece e vai
atender.
D.IZILDINHA ( No interfone )
Alô...Ah sim, vou abrir...Segue direto pelo corredor, os
cachorros estão no quintal.
ALTAMIRANDO
Desculpe perguntar, mas com uma casa tão grande, vocês
não tem nenhum empregado?
SUZAMARA
Já tivemos. Vários até. Mas estranhamente e sem uma
explicação, de uma hora pra outra eles desapareciam...
ALTAMIRANDO ( Assustadíssimo )
Minha nossa...

Entra o Moto-boy. Veste macacão de chuva , o


capacete ajeitado na cabeça deixando o rosto de fora e
nas mãos um pacote.
D.IZILDINHA ( Simpática e prestativa )
Vamos entrando. Não faça cerimônia.
MOTO-BOY
A senhora acha que precisa? Não dá pra receber aqui
mesmo?
D.IZILDINHA
Ninguém vem trazer encomenda na minha casa e sai sem
tomar um cafezinho. A propósito ...o senhor veio trazer o
que mesmo?
MOTO-BOY
Fraldas. Sou do Disk-fralda senhora.
D.IZILDINHA
Claro! Que cabeça a minha. Por aqui, por favor.
Conduz o moto-boy para cozinha. Altamirando
assiste a tudo aflito.
ALTAMIRANDO
Vo-voces tem algum recém-nascido aqui?
SUZAMARA
Claro que não. Somos só nos duas.
ALTAMIRANDO
Mas então...pra que fralda?
SUZAMARA
Sei lá. A minha mãe tem as suas esquisitices, mesmo eu
não entendo.
ALTAMIRANDO ( Olhando na direção da cozinha )
Será que ta tudo bem lá?
Entra o playback da música do filme Psicose ( Aquela
que antecede as cenas de esfaqueamentos ).
ALTAMIRANDO ( Olhando em todas as direções
procurando de onde vem a música )
Minha nossa...
Ouve-se um grito abafado e a música corta.
ALTAMIRANDO
Se-será que o sistema de segurança da casa ainda está
acionado?
SUZAMARA
Com certeza. Mamãe só deve ter desligado pro rapaz
entrar. Mas deixemos ela de lado. Acho que lhe devo
algumas explicações. Afinal se o senhor cogita ter um
relacionamento serio comigo tem de estar a par de tudo.
Principalmente o que diz respeito a meu problema. É tão
difícil pra mim falar sobre isso...
Entra dona Izildinha trazendo nas mãos as coisas
do moto-boy ( O macacão, o capacete e o pacote). Ela
joga tudo dentro da lixeira. Em seguida volta pra
cozinha.
ALTAMIRANDO ( Fazendo o sinal da cruz )
Que Deus o tenha em bom lugar.
SUZAMARA ( Completamente alheia a tudo isso )
Não sei como o senhor vai receber o que tenho a lhe
dizer, senhor Altamirando,mas...devo lhe confessar.
Tenho múltiplas personalidades.
ALTAMIRANDO ( Irônico )
Puxa...se não me fala eu nem ia perceber.
SUZAMARA
Mas tenho. Quando eu desmaiei nenhuma delas se
manifestou?
ALTAMIRANDO
Se eu não errei na conta, até agora foram três. Aliás...a
senhora é a primeira, não é? A que me recebeu assim
que cheguei?!
SUZAMARA
Claro! Sou a verdadeira Suzamara.
ALTAMIRANDO
Fico feliz em ouvir isto. ( Para si mesmo) Na cerca
eletrificado eu jogo um balde de água e ela entra em
curto. Mas e os cachorros? Como é que vou passar por
eles?
SUZAMARA
Mas e essas personalidades que se manifestaram, elas
fizeram alguma coisa que eu, Suzamara, jamais faria?
Por favor , não me esconda nada.
ALTAMIRANDO
Uma quis me untar com maionese e outra me dar um
tiro. Teve uma também que quis me fazer ouvir Ray
Coniff , mas esta eu acho que é a senhora.
SUZAMARA ( Chocada )
Que vergonha , meu Deus! Senhor Altamirando eu não
tenho palavras pra me desculpar... Não sei o que fazer
pra me retratar com o senhor.
ALTAMIRANDO
Eu sei!!! ( Fica de joelhos diante dela, mãos unidas numa
atitude de súplica ) Me ajude a sair daqui, pelo amor de
Deus! Eu lhe imploro!
SUZAMARA ( Estranhando sua reação )
Que isso senhor Altamirando? Por que está apavorado
desse jeito? Nesta casa estão apenas eu e minha mãe,
duas mulheres indefesas.
D.IZILDINHA ( Entrando em cena com uma bandeja de
bolinhos nas mãos )
Mas que coisa linda, estão trocando juras de amor.
Altamirando volta a posição anterior.
D.IZILDINHA
Eu trouxe bolinhos de carne para o senhor experimentar.
( Coloca a bandeja praticamente na cara dele ) É a minha
especialidade.
Altamirando olha para lixeira, depois para os
bolinhos, repete isso várias vezes deixando claro que são
feitos do Moto-Boy.
ALTAMIRANDO
Como é que a senhora preparou tão rápido?
D.IZILDINHA
Microondas. Não é uma maravilha o que a tecnologia
pode fazer pela gente?
ALTAMIRANDO ( Se esquivando da bandeja )
Sem dúvida. Sem a eletricidade nós jamais teríamos a
cadeira elétrica.
D.IZILDINHA
Repare no aroma senhor Altamirando. Não é qualquer
carne que tem esse perfume. Sabor igual o senhor jamais
provou na vida.
ALTAMIRANDO
Eu tenho certeza disso! Melhor não!
D.IZILDINHA ( Levando um bolinho até a boca dele.
Tom ameaçador )
O senhor não vai me fazer essa desfeita, vai? Abre a
boquinha, abre a boquinha...
ALTAMIRANDO
Não, não quero! Eu sou vegetariano!
D.IZILDINHA
Desde quando?
ALTAMIRANDO
Desde que eu entrei no templo do grande guru Ali Bem
Ali e ele disse: “ Eis um homem completamente
dominado pelo vicio da carne. Mas eu , Ali Bem Ali,
vou curá-lo.”
SUZAMARA ( Tirando o bolinho que sua mãe tentava
fazê-lo comer e colocou de volta na bandeja )
Não insista mamãe. Não vê que se trata de convicção
filosófica? Se o senhor Altamirando quiser, depois ele
prova. Venha comigo, vamos lá dentro ter uma conversa,
preciso também passar mais uma água no rosto. O
Senhor Altamirando me fez revelações muito serias.
D.IZILDINHA ( Aflita )
É tudo mentira filhinha! É tudo mentira!! Eu sigo
rigorosamente os preceitos da cozinha maravilhosa da
Ofélia! Não me afasto um milímetro.
SUZAMARA
Não é nada disso. Ele se referiu aos meus desmaios, as
minhas múltiplas personalidades.
D.IZILDINHA ( Tranqüilizada )
Aaahh...sim...claro....
SUZAMARA
Desculpe deixá-lo sozinho mais uma vez, senhor
Altamirando, mas já voltamos. Se lhe der vontade, coma
um bolinho.
As duas saem. Altamirando olha penalizado para a
bandeja com os bolinhos. Pega um deles.
ALTAMIRANDO ( Com o bolinho na mão )
Eis mais uma vitima de acidente de trabalho no Brasil.
Arriscava a vida diariamente pilotando sua moto, sabe
Deus de quantos ônibus e caminhões ele escapou. Tudo
pra acabar no microondas de dona Izildinha. Que ironia...
( Coloca o bolinho de volta penalizado ) Vai meu irmão.
Tu era um valente! Com o teu passamento, eu tenho
certeza que não ficara um só anjo mijado no céu. ( Olha
o telefone ) O telefone! Já sei, vou ligar pra polícia. Nos
filmes, numa hora como essa, você liga e ninguém
atende. .... Atenderam! Obrigado meu Deus! Eu preciso
de ajuda! Tem uma antropófaga querendo me comer!
Vocês tem de mandar uma viatura aqui urgente!! O
endereço é...Como? ... Não é com você, tem de transferir
a ligação. Desculpe , ta...eu espero. ... ( Olha em direção
a cozinha aflito ) Alô, pelo amor de Deus, eu preciso de
uma viatura urgente! Tem uma antropófaga querendo me
comer! ...Ah, é a mesma moça de antes..,ainda não
transferiu...ok... Eu sei, eu to meio exaltado. É que tem
uma mulher querendo me comer... Que demora, daqui a
pouco elas voltam. Alô! Eu preciso de ajuda meu senhor,
tem uma maluca... Como é? O senhor poderia repetir...
Mas que IPVA , meu senhor... Eu não tenho carro e o
senhor não me conhece, como pode afirmar que meu
IPVA está vencido ? ... O senhor só cuida disso, sei...Não
tenho culpa se transferiram pro senhor, eu liguei pra
pedir socorro. Não, não é pra pagar o IPVA, certamente!
Agora me transfere pra polícia propriamente dita. ... Alô,
é um policial que está falando? Tem certeza? Daqueles
que dão tiro em bandido? ... Graças a Deus!! Preciso de
uma viatura urgente! Tem uma maluca querendo me
comer!! ... Isso. Ta querendo me comer. ... Gay? Que
Gay?Não meu senhor, a maluca é uma mulher louca. Ela
é antropófaga, ela come gente. Não entende, ela ta
querendo me comer! ... não, ela não disse textualmente,
apenas deu a entender que sim... eu tenho que aguardar a
confirmação do ilícito pra depois denunciar?! O senhor
quer que eu ligue da barriga dela ou prefere uma
mensagem num centro espírita ? Pelo amor de Deus meu
senhor! Eu não queria usar esse tipo de argumento, mas é
bom que saiba que sou sobrinho do secretario de
segurança. Eu havia ligado pra seu gabinete mas como
ele não estava, me dirigi a seus subordinados achando
que teria a mesma atenção . o que não está acontecendo,
já que corro perigo e vocês são incapazes de mover um
dedo pra me ajudar. E tem mais! Além de gente, essa
mulher come também Mico-Leão-Dourado. Que eu
contei , são pra mais de vinte que ela tem aqui. Tem até
um mico-leão verde de cara roxa que a ciência ainda nem
descobriu que ela está guardando pra servir como prato
principal... O senhor vai dar um jeito. ... Sei. O endereço
é Rua das Orquídeas, noventa e nove. Não encare como
uma ameaça, mas se dentro de cinco minutos não tiver
uma viatura aqui na porta, vou cuidar para que titio tenha
uma conversa com o senhor. Conversa que lhe garanto,
não vai ser tão amena quanto essa! ... não preciso das
suas desculpas, preciso das suas viaturas! Tenha um bom
dia...
Antes de ter tempo de colocar o fone no gancho,
ouve-se o som de uma sirene da polícia. Altamirando
fica imóvel com o telefone na mão. Som de descarga
elétrica, em seguida de um portão sendo arrombado. Som
de cachorros atacando alguém, depois tiros . Mais
cachorros e mais tiros. Som de uma porta sendo
arrombada. Entra em cena um policial todo rasgado e
chamuscado com o revólver em punho.
POLICIAL ( Apontando a arma para Altamirando)
Mão na cabeça vagabundo!
ALTAMIRANDO ( Pondo o fone no gancho )
Gente...Que rapidez...
POLICIAL
Recebemos uma denúncia de que tem um estuprador gay
querendo comer o mico-leão-dourado do sobrinho do
secretario de segurança!
Entram Suzamara e Dona Izildinha.
D.IZILDINHA
Mas o que está acontecendo aqui?
ALTAMIRANDO ( Indo em direção ao policial e
apontando para ela )
É ela! É ela! Prenda essa mulher! Ela é uma assassina!
POLICIAL
Quem mandou baixar as mãos? Quer levar um tiro? Já
morreu policial demais nessa ocorrência!
ALTAMIRANDO ( Levantando as mãos )
Como é que é?
POLICIAL
Isso que ouviu. Éramos cinco. Dois morreram na cerca
eletrificada e mais dois foram mortos pelos cachorros.
Só sobrou eu. Cadê o estuprador?
ALTAMIRANDO
Não tem estuprador nenhum! É ela. Ela é uma assassina.
Ela matou o entregador de fralda.
POLICIAL
Cala a boca vagabundo! ( Se aproxima dele ) Cadê a
maconha?
ALTAMIRANDO
Maconha?! Que maconha?
POLICIAL
Não sabe é? Pois tu tem cara de quem queima uma.
Cospe no chão.
ALTAMIRANDO
Pra quê?
POLICIAL
Cospe no chão que eu quero ver o catarro.
Altamirando cospe. O policial olha.
POLICIAL
Ta gosmento, sinal que andou fumando um baseado. E o
sobrinho do secretario? Onde está?
SUZAMARA
Deve haver algum engano. Aqui só moramos nós duas.
POLICIAL
E quem telefonou pra polícia?
ALTAMIRANDO
Fui eu.
POLICIAL
E você é o sobrinho do secretario?
ALTAMIRANDO
Bem...não exatamente.
POLICIAL
Agora se sujou! Falsidade ideológica e consumo de
entorpecente. Se pendurar sai mais.
ALTAMIRANDO
Mas o que é isso?? Eu sou a vitima!
POLICIAL
De uma sociedade cruel e injusta?
ALTAMIRANDO
Não! Dessa daí. ( Aponta para dona Izildinha )
POLICIAL
Nunca conheci vagabundo que não fosse mentiroso. Eu
sou um policial treinado. Percebo o delito pelo cheiro.
( Aponta para as duas ) vê-se logo Que são pessoas
distintas, incapazes de fazer mau a uma mosca. Quanto
ao senhor, bati o olho e vi que não prestava.
ALTAMIRANDO
O que??? O bom aqui sou eu. Essas duas são psicopatas!
POLICIAL
Ah é? Então me mostre a carteira de trabalho.
ALTAMIRANDO ( Aflito )
Carteira de trabalho?!
POLICIAL
Exatamente. Passa pra cá!
ALTAMIRANDO
Bom...na verdade eu ainda não tive tempo de tirar. Sabe
como é...a gente vai adiando...adiando....
POLICIAL
Um homem feito e ainda não tirou a carteira de trabalho?
Vive de que então?
ALTAMIRANDO
Eu...eu sou empresário.
POLICIAL
Então me dê o telefone da empresa e eu confirmo essa
estória.
ALTAMIRANDO
Na verdade policial...eu estou sem empresa no momento.
Eu quebrei.
POLICIAL
Mentindo de novo! Pois o senhor está preso!
D.IZILDINHA
Não faça isso, senhor policial. O pobre não sabe o que
diz. Tem mania de perseguição.
SUZAMARA
É um bom homem, senhor policial. Incapaz de fazer mal
a alguém.
D.IZILDINHA
Ele só quer chamar a atenção. Pode deixar que a gente
toma conta dele.
ALTAMIRANDO
NÃO!!! Pelo amor de Deus! Me prenda! Me prenda!
(Estica as mãos para colocar algemas) Fumei mesmo
maconha. Fumei um quilo! O outro quilo eu vendi pras
criançinhas que fazem prezinho aqui do lado.
D.IZILDINHA
Ta vendo policial?! O pobre delira.
ALTAMIRANDO
É mentira! Esta mulher esta mentindo!
POLICIAL
Sem alterações senão eu atiro!
ALTAMIRANDO
Ela matou o entregador de fraldas, eu juro!
POLICIAL
E cadê o corpo?
ALTAMIRANDO
Em cima da mesa na bandeja.
O policial vai até lá e pega um bolinho.
POLICIAL
Seria isso aqui?
ALTAMIRANDO
Exatamente. Assim dessa maneira não se diz, mas se
analisar verá que é carne de motoqueiro. ( Lembrando) A
cozinha! Claro! O resto ela deve ter colocado no freezer.
Basta que olhe a cozinha e verá que não estou mentindo.
O senhor tem que ir lá! É tudo que lhe peço.
D.IZILDINHA (Se antecipando )
Ótima idéia. Assim eu aproveito e lhe sirvo alguma
coisa. Ninguém vem a minha casa e sai sem ao menos
tomar um cafezinho.
POLICIAL
Pois muito bem. (Para Altamirando ) e o senhor não me
saia daqui.
ALTAMIRANDO ( Quando os dois se encaminhavam
para cozinha)
NÃO!!!
POLICIAL
O que foi agora?
ALTAMIRANDO ( aflito)
Não entre nessa cozinha!
POLICIAL
Mas não era você que queria que eu entrasse?
ALTAMIRANDO
Mas não com ela! Assim vai acabar dentro de uma
bandeja.
POLICIAL
Eu sou um policial. Um profissional treinado, faixa preta
e ainda estou armado. Como espera que essa simpática
senhora me faça alguma coisa?Vamos. Estou mesmo
precisando de um cafezinho.
Os dois vão para cozinha.
ALTAMIRANDO
Você tem de me ajudar Suzamara! Aquele policial corre
perigo! ( Ele a segura ) Você tem de acreditar em mim.
Sua mãe é uma assassina! ( Ela parece não ouvi-lo. Ele a
chacoalha ) Suzamara! Suzamara!
Ela desmaia em seus braços e ele a coloca no sofá.
ALTAMIRANDO ( exasperado )
Mas não é possível! Essa mulher é igual carro velho sem
motor de arranque. O que eu vou fazer agora?
Entra a música de psicose. Altamirando olha
assustado para cozinha.
ALTAMIRANDO
Deus pai todo poderoso...
Ouve-se um baque seco e um grito abafado.Corta a
música.
ALTAMIRANDO
Eu vou cair fora daqui!! Não tem mais cachorro e o
portão está aberto. Adeus Suzamara! Até nunca mais!
Corre. Sai de cena e segundos depois retorna
andando de costas, passo a passo, bem lentamente.
ALTAMIRANDO ( Dando um passo para dentro do
palco , falando com alguém fora de cena)
Não é possível...Não pode ser... ( Mais um passo ) Meus
olhos me enganam. Não é real, não pode... Estou vendo
coisas! ( Mais um passo ) Você não pode estar aqui. Não
pode. Deve ser o medo, você não é real! É fruto da minha
imaginação doentia. Um pesadelo! Uma alucinação!
MÃE ( Entrando em cena)
Sabe que eu pensei a mesma coisa na maternidade,
quando a enfermeira te trouxe.
ALTAMIRANDO
O que você está fazendo aqui mamãe???
MÃE
Vim impedir que ponha tudo a perder. ( Olha Suzamara
desmaiada no sofá) Deus do céu, o que você fez com
essa moça?
ALTAMIRANDO
Ela apaga a cada cinco minutos e muda de personalidade.
Não chega muito perto, ela pode voltar como alguma
coisa que morde. E olhe que dos doidos aqui ela é a mais
mansa. A mãe dela é antropófaga. Já comeu um moto-
boy e agora deve estar desossando um policial!
MÃE ( Se aproxima dele, olhando-o fixamente )
Deixa eu ver embaixo das suas pálpebras.
ALTAMIRANDO
E eu lá sou um peixe que a senhora vai conferir se está
fresco?
MÃE ( Pegando a força )
Deixa eu ver!!
ALTAMIRANDO
Para com isso! Vai enfiar o dedo no meu olho!
MÃE ( Após terminar a verificação)
Foi maconha, não foi?
ALTAMIRANDO
Mas não é possível! Até tu mamãe!
MÃE
Só pode ser maconha. Com a cabeça fraca que você tem,
alguma coisa mais forte teria matado.
ALTAMIRANDO
Nós vamos embora daqui agora! (Segura-a pelo braço )
MÃE ( Se soltando )
Não vou arredar o pé daqui! Uma chance como essa eu
não vou permitir que jogue fora!
ALTAMIRANDO
A velha come gente!!
MÃE
Sei! Você viu ela comendo alguém?
ALTAMIRANDO
Bom...ver eu não vi. Mas deduzi! É a mesma coisa.
MÃE
Deduziu? O que você tem de concreto pra dizer um
absurdo desses?
ALTAMIRANDO
A certeza de que as duas são loucas!
MÃE ( Maquiavélica)
Pois se elas forem loucas, melhor! Os loucos precisam de
alguém que os represente. Um parente próximo para
tomar conta de todo esse dinheiro.
ALTAMIRANDO
E daí? Nós não somos parentes.
MÃE ( Tirando o sapato para bater nele. Altamirando
foge )
E tu não vai casar com ela, sua lesma? Molóide! Anda,
vê se ela ainda tem pulso. Parece que nem respira.
ALTAMIRANDO
Pelo amor de Deus mamãe, vamos embora daqui!
Entra dona Izildinha. ( Cara de quem ia cometer
alguma perversidade. Quando vê a mãe de Altamirando
desfaz a cara e em seu lugar surge uma expressão de
extrema simpatia).
D.IZILDINHA
Vejo que temos visita.
ALTAMIRANDO ( Tomando um susto )
Essa aqui é a delegada Pedrosa do DEIC! Veio negociar
a sua rendição. Os atiradores de elite já estão a postos no
outro lado da rua!
MÃE ( Indo cumprimentar dona Izildinha )
Eu sou a mãe de Altamirando. ( Olhando feio para ele )
Esse menino é tão brincalhão.
D.IZILDINHA
Mãe dele? Nova desse jeito? Pensei que fosse irmã.
MÃE
Imagine.... A senhora também é super conservada.
Aquela ali desmaiada é sua filha?
D.IZILDINHA
É . É Suzamara. Seu Altamirando, o senhor não quer
fazer umas massagens nos pulsos dela pra vê se volta a
si? ( Altamirando vai )
MÃE
Mas que menina bonita. Puxou a mãe.
D.IZILDINHA
Imagine... Mas vamos sentar, temos muito a conversar.
Altamirando senta no sofá ao lado de Suzamara e
massageia sua mão. As duas sentam-se no outro. Ar de
velhas amigas. Mãe é toda sorrisos.
MÃE
Espero que não tenha se aborrecido por eu ter vindo sem
avisar?
D.IZILDINHA
De forma alguma. Mesmo porque, minha filha e seu filho
estão se dando maravilhosamente bem.
MÃE
E ela parece ser uma menina de ouro. Apesar d’eu ainda
não tê-la visto consciente, percebi logo que trata-se de
uma excelente pessoa.
ALTAMIRANDO ( Dando tapinhas no rosto de
Suzamara, tentando fazê-la voltar a si )
Ela tá babando. ( Limpa a mão na roupa. As duas fingem
não ouvir o comentário )
D.IZILDINHA
Aceita um chá?
MÃE
Adoraria.
D.IZILDINHA
De camomila?
MÃE
É o meu preferido.
Dona Izildinha sai indo buscar o chá.
MÃE
Mas que monte de bobagens você foi inventar! Vê-se
logo que essa mulher não faz mal a uma mosca. Uma
senhora tão distinta.
ALTAMIRANDO
Isto não quer dizer nada! As pessoas que não a conhecem
dizem o mesmo da senhora.
MÃE ( Incomodada com o comentário, indo até ele ,
Altamirando se encolhe se precavendo )
Você está querendo dizer o que exatamente?
ALTAMIRANDO
Pelo amor de Deus mamãe, vamos embora!
Suzamara ameaça voltar a si.
MÃE
A moça tá acordando.
ALTAMIRANDO ( Pegando a mãe pelo braço )
Ótimo! Vamos fugir!
SUZAMARA
Altamirando...Altamirando...
MÃE
Anda! Tua futura esposa está chamando.
ALTAMIRANDO
Droga! ( Para Suzamara, sentando ao lado dela) O que
você quer?
SUZAMARA
Sexo! ( Agarra-o e o beija na boca)
MÃE
Ta vendo? As pessoas nessa casa te adoram. E Você com
essas idéias estapafúrdias. ( Para Suzamara, esticando-lhe
a mão) Prazer, eu sou a mãe de Altamirando.
Ela permanece agarrada a ele num longo beijo.
Limita-se a esticar-lhe a mão e cumprimentá-la sem lhe
dirigir sequer um olhar.
MÃE ( Sem jeito, vendo que os dois permanecem
grudados )
Nossa...assim vocês perdem o fôlego.
D.IZILDINHA ( Entrando com o chá )
Mas que coisa bonita. Os pombinhos estão namorando...
MÃE
Eu diria que estão em vias de se engolir.
Dona Izildinha coloca o chá sobre a mesa. As duas
se servem. Altamirando tenta se soltar , Suzamara não
deixa.
MÃE ( Servindo-se do chá. Constrangida com os dois )
Quente hoje, não?
D.IZILDINHA
Demais. E essa poluição menina? Está a ponto de matar
a gente!
MÃE ( Olhando de rabo de olho Suzamara e
Altamirando que caem do sofá e rolam no chão )
Chovendo refresca um pouco.
D.IZILDINHA ( Tomando o seu chá, absolutamente
alheia aos dois no chão )
A senhora tem bronquite?
MÃE
E-eu?! Não.
D.IZILDINHA
Pois eu conheço um santo remédio contra a bronquite.
Receita da minha vó. É um xarope a base de folhas de
Sálvia. É bom que só vendo. Cura até enfisema.
Altamirando tenta fugir, Suzamara o agarra e os
dois somem atrás do sofá.
MÃE ( Constrangida )
Desinibida sua filha, não?!
D.IZILDINHA
Muito pelo contrario. É um poço de timidez. Eu sempre
digo a ela: Suzamara você precisa se soltar mais. Não
pode ser encabulada desse jeito. Assim não arranja
namorado.
MÃE ( espiando atrás do sofá )
Encabulada?! Sei.
SUZAMARA ( Se erguendo. Altamirando permanece
agachado. Para mãe de Altamirando )
O dona...
MÃE
Sim querida.
SUZAMARA ( voz sensual )
A senhora podia pegar um pote de maionese ai dentro do
armário?
MÃE
Ma - maionese?! Nesse armário? ( Aponta)
SUZAMARA
Nesse mesmo.
Mãe levanta , pega o pote e entrega a ela .
SUZAMARA
Brigada...pode continuar tomando o seu chá.
Some de novo.
D.IZILDINHA
A senhora passou recentemente pelo centro da cidade?
MÃE
Não...quase não saio. Filhinho você não quer tomar um
chá? A moça também. ( Para dona Izildinha) É bom,
acalma.
D.IZILDINHA
Está tomada de camelô.
MÃE
Quem?
D.IZILDINHA
O centro da cidade. O prefeito nem se mexe. Não se
consegue mais andar.
MÃE
Político é assim mesmo. Pra-pra que ela queria a
maionese?
D.IZILDINHA
Ora pra quê.... a senhora sabe como são esses jovens hoje
em dia. ( Ri )
MÃE ( Chocada )
Altamirando Pinto Junior, venha cá imediatamente!
ALTAMIRANDO ( Se erguendo )
E eu consigo? ( Surgem as mãos de Suzamara puxando-
o para baixo )
MÃE
Tenham modos , vocês dois!
D.IZILDINHA
Não ligue pra eles , dona Cornélia. É esse calor, mexe
com o metabolismo da gente. Lembra no nosso tempo
como era?
MÃE
Lembro perfeitamente! E não era nem um pouco
parecido com isso!
D.IZILDINHA ( Ar maroto )
Eu ouvi o recado que deixou na secretaria eletrônica....
MÃE
Como assim? O que a senhora quer dizer?
D.IZILDINHA
Os vinte e nove ponto cinqüenta centímetros.... ( Ri )
MÃE ( Constrangida)
Ora...são...são coisas que muitas vezes uma esposa tem
de enfrentar.
D.IZILDINHA
E quantas vezes não deve ter sido...anos e anos. Pena não
ter tido a mesma sorte com meu falecido marido.
MÃE
De qualquer forma isso não vem ao caso agora.
D.IZILDINHA
Façamos assim,vamos deixar esses dois aí e ir até a
cozinha, assim a gente pode conversar em paz.
MÃE
Na cozinha?
D.IZILDINHA
Na cozinha?
D.IZILDINHA
É. Eu tenho um pudim de jabuticaba que é uma delícia.
Já experimentou alguma vez?
MÃE
Não. Nunca.
D.IZILDINHA
Pois então? ( Maquiavélica ) Vamos?
MÃE
Não sei se devo. Imagine o que esses aí vão fazer se
ficarem sozinhos?
D.IZILDINHA
Esqueça deles. Estão se divertindo.
MÃE
Será? Altamirando pareceu tão aflito.
D.IZILDINHA
Na certa está intimidado com a nossa presença.
MÃE
Ta bom, eu vou. Antes que eu veja alguma coisa
desagradável.
As duas levantam e vão em direção a cozinha.
MÃE ( Parando de repente )
Aí....
D.IZILDINHA
O que foi?
MÃE
Um arrepio. Me veio um pressentimento estranho. Como
se algo ruim fosse acontecer.
D.IZILDINHA
Eu sei o que é isso.
MÃE
O que?
D.IZILDINHA
Fome. Deixar estar , vou fazer umas panquecas que são
uma delícia. Prefere salgadas ou doces?
MÃE
Hummm...as duas. ( Ri )
D.IZILDINHA
Então vamos.
Se encaminham de novo para cozinha. De novo
Mãe para, coça a cabeça parecendo estar intrigada com
alguma coisa.
D.IZILDINHA
O que foi?
MÃE
A decoração dessa casa segue uma linha tradicional, não
é mesmo?
D.IZILDINHA
Sim. Por que pergunta?
MÃE
É que eu vi umas esculturas estranhas no jardim.
Pareciam corpos de policiais espalhados...tinham
cachorros também... Um leigo chegaria a pensar que são
de verdade. Eu, modestamente, conheço um pouco de
arte.
D.IZILDINHA
Aquilo faz parte de um cenário. Estão filmando um
comercial no meu jardim. Aliás, o pessoal da produção
saiu pra fazer um lanche. Já devem estar voltando.
MÃE
Comercial de quê?
D.IZILDINHA
De...de sabão em pó.
MÃE
Puxa...que interessante.
D.IZILDINHA
As panquecas? ( Aponta para a cozinha )
MÃE
As panquecas. ( Indo para cozinha) só não posso comer
demais. Estou muito gordinha.
D.IZILDINHA ( olhando-a de cima até embaixo. Ar
maligno. )
De jeito nenhum. Está no ponto.
Vão para a cozinha.
ALTAMIRANDO ( saindo de trás do sofá )
Chega!! Basta Suzamara, ou seja lá quem você for!
SUZAMARA
Vai dificulta! Dificulta bastante! Eu adoro homem
difícil! Faz assim, eu te agarro de novo e ai você me bate.
Mas tem que bater com força.
ALTAMIRANDO
Não se aproxime de mim! Venha mamãe. Vamos embora
desse hospício. Mamãe... ( Olha para o lado e vê que ela
não está) aí meu Deus! Vão comer a minha mãe!
SUZAMARA ( Se agarrando nele)
Também vou querer! Eu pedi primeiro.
ALTAMIRANDO
Me larga! Mamãe! Mamãe! Tudo bem com você ?
Entra a trilha do psicose. Após alguns segundos
mãe volta correndo aos gritos. Perseguida por dona
Izildinha empunhando uma enorme faca
( Exageradamente grande ).
MÃE
SOCOOOOOROOO!!! Ela quer me comer
Altamirando!!!
As duas se atracam.
ALTAMIRANDO
Eu vou ajudá-la mamãe! Eu vou ajudá-la!
Altamirando roda de um lado para outro. Toda vez
que tenta se aproximar a faca fica voltada para ele e ele
se afasta.
MÃE ( Agarrada a mão de Dona Izildinha que segura a
faca)
Anda logo!
ALTAMIRANDO ( Aflito )
Faz assim...Tira a faca da mão dela que fica mais fácil!
MÃE
Seu imprestável!!!
As duas caem e passam a rolar pelo chão.
ALTAMIRANDO
Me ajude Suzamara, ela vai matar mamãe!
SUZAMARA ( Sensual )
Adoro órfãos. São tão carentes...
ALTAMIRANDO ( Andando de um lado para o outro
sem saber o que fazer)
Eu vou salvá-la ! Apesar de tudo a senhora é minha mãe.
Apesar de me tratar como se eu fosse um idiota, eu vou
salvá-la dessa assassina! Apesar de não ter me deixado
fazer o curso de veterinária , dizendo que um animal não
podia cuidar de outro. (Para. Dá uma olhada para o
estado em que estão suas unhas) aquilo me doeu tanto... (
Fica de costas para as duas e defronte para o publico. Ar
choroso. Suzamara vem ampara-lo) A senhora sabe como
magoar as pessoas...
SUZAMARA ( Abraçando-o ternamente )
Pobrezinho... Tão largado...
MÃE ( Com a voz esganiçada com uma das mãos de
dona Izildinha lhe apertando o pescoço )
Não é hora de discutir isto!!
ALTAMIRANDO
Ta vendo Suzamara! Ela nunca tem tempo pra mim!
Nunca. Não existe mais diálogo entre nós. Não existe...
( Encosta a cabeça no ombro de Suzamara )
A mãe consegue enfim dar um soco em dona
Izildinha. A faca cai das mãos dela e as duas ficam se
agarrando, cada uma querendo alcançar a faca primeiro.
MÃE ( Tentando alcançar a faca )
Altamirando!!!
ALTAMIRANDO ( De costas, não vê o que está se
passando )
E nem adianta dizer que é cisma minha. Na verdade...a
senhora nunca me amou...nunca.... ( Põe o dedo na boca
como fazem as crianças. Suzamara o acalenta )
MÃE ( Na mesma situação anterior )
Me ajude...eu não consigo.... ( Refere-se a faca )
ALTAMIRANDO ( Para Suzamara )
Como é que um filho pode ajudar a própria mãe a amá-
lo? Como ? Isso a senhora vai ter que conseguir sozinha.
MÃE ( Com a mão quase tocando a faca )
Me ajude Altamirando !
ALTAMIRANDO
Não mamãe, não. A maternidade não está na senhora.
Não está. A senhora não gosta de mim mamãe. E isso eu
não posso mudar.
A Mãe dá um soco em dona Izildinha e ela
desmaia. Mãe enfim pega a faca e levanta. Leva a mão
ao peito como quem esta a beira de um ataque.
Altamirando, de costas, não vê nada disso.
ALTAMIRANDO ( Emocionado )
A senhora com certeza não deve lembrar do meu ursinho
de pelúcia preto. ( A mãe olha para ele furiosa ) Aquele
que a senhora cortou com a tesoura e jogou no lixo,
dizendo que juntava pulga. Saiba a senhora que aquele
ursinho...a... ( A voz embarga, Suzamara o acaricia
terna ) Aquele ursinho era o único amigo que eu tinha. O
único! E para que tenha uma idéia do quanto foi injusta
( Mãe se aproxima com a faca em punho ) eu nunca
encontrei uma pulga nele. Uma que fosse! Mas a senhora
não quis saber, não é mesmo? A senhora nunca quer
saber! ( Ela se aproxima mais ainda. Entra a música do
psicose ).
ALTAMIRANDO ( Assustado com a música )
Ué?! Que isso?
A Mãe põe a faca no pescoço dele. Música para.
ALTAMIRANDO ( Com a faca no pescoço )
Meu Deus mamãe o que é isso? Tinha me esquecido: a
senhora conseguiu escapar da louca?
MÃE
Consegui! A propósito filhinho, você sabe a diferença
entre o que é essencial e o que é acessório?
ALTAMIRANDO ( Inclinando pra trás por causa da
faca )
Não exatamente mamãe.
MÃE ( Tom professoral )
Bem filhinho. Acessória é uma coisa que não tem muita
importância imediata e que pode ser discutida noutra
ocasião. Por exemplo: o seu ursinho de pelúcia preto.
Você está acompanhando?
ALTAMIRANDO ( Assustado, se inclinando ainda mais
para fugir da faca )
To...to....
MÃE
Pois bem . Agora essencial filhinho, é uma coisa que
demanda urgência, que não pode esperar um segundo
sequer. Por exemplo: a vida da mamãe. Como eu ainda
não tinha te explicado isso, eu vou relevar dessa vez.
Mas na próxima filhinho... EU CORTO TEU
PESCOÇO!!
Larga-o . Blecaute. Palco as escuras para avanço
rápido na estória, cenas podem também serem filmadas
em tomadas e exibidas num telão. Os diálogos se seguem
em blecaute ou com luz bruxuleante e ações sendo
sujeridas.
ENFERMEIRO
Onde está a paciente?
ALTAMIRANDO
Ali! É aquela acorrentada.
ENFERMEIRO
Ela morde!
ALTAMIRANDO
Ela morde , esfaqueia, come. Inclusive faz bolinho com a
vítima.
ENFERMEIRO
O Porfírio, vai até a ambulância e trás a fucinheira.
Som de passos. Porta da ambulância batendo.
( Voz do enfermeiro dizendo: pronto, ta na mão.) Som de
sirene . Som se perdendo , ambulância se afasta.
Outro ambiente. Burburinho de pessoas. Tribunal.
JUIZ
Silencio no tribunal! Qual a sua relação de parentesco
com a senhorita Suzamara, senhor Altamirando?
ALTAMIRANDO ( Inseguro )
Eu sou...digamos, namorado dela.
MÃE ( Intervindo )
Noivos! Morando junto, praticamente casados.
JUIZ
A senhorita confirma essa informação, dona Suzamara?
SUZAMARA ( Fala nordestina )
Oxenti! E eu por acaso mudei de nome foi?
ALTAMIRANDO ( Aflito )
Não leve em consideração o que ela diz, senhor Juiz. Ela
ainda está muito abalada com a internação da mãe dela
num manicômio.
JUIZ
De qualquer forma , a sua condição de noivo não tem
valor legal. E não tendo ela nenhum parente próximo
para assumir a gestão dos seus bens, caberá ao estado
fazê-lo.
MÃE
Mas não é justo! Nós praticamente tomamos conta dela
vinte e quatro horas por dia!
JUIZ
Nada pode ser feito a respeito. A menos que dona
Suzamara estivesse em condições de assinar uma
procuração. É possível, dona Suzamara?
Som de um corpo caindo.
JUIZ
O que foi?
MÃE
Nada! Ela tropeçou, não foi querida? Eu te ajudo a
levantar!
JUIZ
A senhorita está bem?
SUZAMARA ( Voz sensual )
Melhor impossível!
JUIZ
Aproxime-se por favor. Noto que tem algo de estranho
no seu comportamento.
SUZAMARA
Claro! Assim eu posso comprovar com as minhas
próprias mãos se a justiça é tão duro quanto dizem...
Som de passos femininos, salto alto.
JUIZ
Não estou entendendo senhorita. A que está se referindo?
SUZAMARA
A isto aqui!
Som de grande agitação no recinto. Pessoas
espantadas. Ao fundo uma voz diz: “Nossa, ela passou a
mão no juiz!”.
JUIZ ( Irado )
Mas o que é isto???
ALTAMIRANDO
Minha nossa senhora!!
MÃE ( Aflita )
Ela não sabe o que está fazendo meritíssimo! É o trauma
por causa da mãe!
JUIZ
Eu devia meter todos vocês na cadeia! Só não faço isso
por essa moça não estar no seu juízo perfeito. E dou por
encerrada a questão!
MÃE
Mas meritíssimo, o senhor tem de reconhecer a nossa
condição de parentes de Suzamara.
JUIZ
Só depois dela casada com o senhor Altamirando. Aos
olhos da lei a ligação que tem com ela não existe. E
tenho dito!
Outro ambiente. Igreja, marcha nupcial.
PADRE
Senhor Altamirando, aceita dona Suzamara como sua
legítima esposa, prometendo amá-la e respeitá-la, na
saúde e na doença até que a morte os separe?
ALTAMIRANDO
Sim.
PADRE
Dona Suzamara, aceita o senhor Altamirando como seu
legítimo esposo, prometendo amá-lo e respeitá-lo, na
saúde e na doença até que a morte os separe?
Pausa. Não se ouve resposta.
PADRE
Dona Suzamara...
MÃE ( Intervindo )
Ela aceita!
PADRE
Desculpe mas ela tem de responder de viva voz.
MÃE
Ora, seu padre, ela não iria gastar fortunas com um
vestido desses, passar horas se maquiando para depois
vir aqui e dizer não. Ela ta emocionada. Não é mesmo
filhinha?
PADRE
Vou repetir. Dona Suzamara, aceita o senhor
Altamirando...
MÃE ( Interrompendo de novo )
Ela já ouviu padre, não precisa repetir. Responde pra ele
querida.
ALTAMIRANDO ( Assustado )
Ela ta virando o olho...acho que vai babar...
MÃE
Cala a boca!
PADRE
O que disse?
MÃE
Nada padre, nada.
SUZAMARA ( Voz normal , de Suzamara )
Eu... eu aceito...
PADRE
Sim?!
SUZAMARA
Sim. Desculpe padre é que me veio uma vertigem. Mas
já passou.
PADRE
Sendo assim eu vos declaro marido e mulher.
Marcha nupcial. Para. Fim do blecaute.
Altamirando entra em cena trazendo Suzamara em seus
braços.
ALTAMIRANDO
Enfim sós!
SUZAMARA
Como sós? E sua mãe?
ALTAMIRANDO
Ela saiu. Na certa foi pôr sua fome de consumo em dia.
SUZAMARA ( Saindo dos braços dele )
Bem...já que estamos sozinhos e para que não se cometa
nenhum equívoco, queria lembrá-lo da conversa que
tivemos no primeiro dia que nos conhecemos.
ALTAMIRANDO ( Cínico )
Ah, lembro. Aquela estória de ser contra o sexo, o Ray
Conniff e tudo mais...
SUZAMARA
Isso mesmo.
ALTAMIRANDO ( Lascivo )
Minha cara Suzamara, no presente momento o sexo é
permitido até pela igreja. Aliás é a única situação em que
eles permitem o sexo sem fins de procriação . Vão mais
longe ! Exigem que ele aconteça para se consumar o
casamento. É a primeira vez que eu e o Papa estamos de
acordo em alguma coisa. E não quero contrariar o santo
padre.
SUZAMARA
Mas...
ALTAMIRANDO ( Interrompendo )
Não tem mais nem meio mais! Hoje não há o que te
salve. Estou mais determinado que oficial de justiça
sádico. Não tem espaço pra argumentação.
SUZAMARA
Mas e seu voto de castidade? E os ensinamentos do Guru
Ali Bem Ali?
ALTAMIRANDO
Deixa isso pra lá vem pra cá! Que eu não to fazendo
nada,mas vou fazer...( Abraça-a Beijam-se )
SUZAMARA ( Pudica )
Ai Altamirando eu estou tão emocionada que chega a me
dar vertigem...
ALTAMIRANDO
Não tem problema. O que vier eu traço!
SUZAMARA
Sou tão inexperiente...e depois você pode se
decepcionar...
ALTAMIRANDO
Primeiro vamos apagar o incêndio, depois a gente cuida
do rescaldo. Vem!
SUZAMARA
Pra onde?
ALTAMIRANDO
Pra trás do sofá.
SUZAMARA ( Espantada )
Aí?
ALTAMIRANDO
É. E não me pergunte de onde eu tirei essa idéia. E tem
mais.
Vai até o armário e pega o pote grande de
maionese.
SUZAMARA
O que é isso?
ALTAMIRANDO
Maionese.
SUZAMARA
Pra que?
ALTAMIRANDO
Vem comigo que eu te mostro.
Pega-a pela mão e vão para trás do sofá. Ficam
visíveis do tronco para cima.
ALTAMIRANDO ( Para o público enquanto abre o
pote )
Como é que eu nunca pensei nisso antes?
Somem atrás do sofá. Luz se apaga, fica apenas
iluminação bruxuleante como numa boate.
ALTAMIRANDO
Vai tira essa roupa!
SUZAMARA
To tirando! To tirando! O que está me encucando é essa
maionese.
ALTAMIRANDO
Isso não é nada. Na sobremesa vou usar pasta de
amendoim. Vai logo. Não tirou ainda?
SUZAMARA
Claro que tirei.
ALTAMIRANDO
E esse cinto me espetando?
SUZAMARA
Mas eu não estou usando cinto nenhum.
ALTAMIRANDO
Não?! E que negócio é esse me espetando?
SUZAMARA
Aí Altamirando...eu bem que ia dizer, você que não me
deu chance.
ALTAMIRANDO
Dizer o quê?
SUZAMARA
Eu sou Hermafrodita.
ALTAMIRANDO ( Assustado )
Hermafrodita?? Quer dizer que além de vagina você tem
também um...pênis?!
SUZAMARA ( Voz dengosa )
Exatamente. Você não vai ficar chateado vai? Pense pelo
lado positivo, um homem que casa com uma mulher
hermafrodita tem duas fontes possíveis de prazer.
Aliás...passa pra cá esse pote de maionese!
ALTAMIRANDO ( Apavorado )
O QUÊ??? SOCOOOOOROOOO!!!!
Voz dele se perde no infinito.

FIM

GATO NA MANTEIGA ( Segunda estória,


nome provisório )

Personagens:

ALTAMIRANDO
SUZAMARA
MÃE
DONA IZILDINHA
CORINGA

Sala. Altamirando sozinho em cena, conta


moedinhas que tem no bolso.
ALTAMIRANDO _____ E eu que pensei que tinha me
dado bem. Que golpe do baú é este? Pobreza é coisa que
gruda na gente, não larga.
MÃE ( Entrando ) _____ Principalmente quando se joga
dinheiro pela janela!
ALTAMIRANDO _____ Fiz e está feito e pronto!
MÃE _____ Gastar uma fortuna com operação plástica!
E olhando pra Suzamara não se vê a menor diferença.
Continua a mesma louca de sempre. Pensei que ela fosse
ficar com carinha de criança ou então com peitos
enormes.
ALTAMIRANDO _____ Foi uma correção estética
numa...numa área intima. Só eu que sou o marido , sei a
diferença.
MÃE _____ Você devia ter cuidado da maluquice dela,
isso sim! Era só internar no manicômio junto com a mãe
dela. Saia muito mais em conta.
ALTAMIRANDO (Irritado) _____ Ela não é louca
mamãe! Quantas vezes vou ter que dizer ? Ela tem
múltiplas personalidades. Só isso!
MÃE (Sarcástica) _____ Só isso?! Pra ser maluco
precisa de mais alguma coisa?
ALAMIRANDO _____ Ela já melhorou muito nestes
últimos meses.
MÃE _____ Grande melhora. Até hoje eu não sei qual a
personalidade é a original. Seria a devassa?
ALTAMIRANDO ( Constrangido ) _____ Não. É a
outra. A casta...
MÃE _____ A sonsa?
ALTAMIRANDO _____ Essa mesma.
MÃE _____ Pois eu ainda prefiro a devassa. Pelo menos
é divertida. Só incomoda aquele cigarrinho fedido que
ela fuma. E o gozado é que ele vem todo esfarelado, ela
tem que enrolar num papelzinho e colar com cuspe.
Porque ela não compra cigarro em maço?
ALTAMIRANDO ( Desconcertado ) _____ Vamos
deixar esse assunto de lado. Por favor.
MÃE _____ Tem razão. Voltemos ao assunto anterior.
Sua mulher operou de que mesmo?
ALTAMIRANDO ______ Mas que droga mamãe! A
senhora não esquece.
MÃE _____ Esquecer como? O pouco dinheiro que
tínhamos você enterrou nessa operação. E não tente me
enganar. Foi um cirurgia de que?? Eu também estou a
três dias comendo macarrão com salsicha. Tenho direito
de saber.
ALTAMIRANDO _____ A Suzamara ... A Suzamara...
Como é que eu vou dizer.... Ela tinha um problema de
nascença. Ela não era uma pessoa normal.
MÃE ______ Ela continua não sendo normal! Ela é
louca!
ALTAMIRANDO _____ Não é disso que estou
falando... A Suzamara...é Hermafrodita.
MÃE ( Que não sabe o que é hermafrodita , pensa que é
uma doença banal) _____ Só isso? Então ficamos na
miséria por causa de uma bobagem dessas? Tenha santa
paciência! Uma pomadinha já bastava!
ALTAMIRANDO _____ A senhora sabe o significado
da palavra “ hermafrodita” ?
MÃE _____ Não é uma feridinha que dá na virilha?
ALTAMIRANDO (Irritado ) _____ Não! Não é não! A
Suzamara tinha um pênis! Entendeu? Um pênis.
MÃE ( Chocada ) _____ Um...um...pênis... Ta certo, é
louca... Doida mesmo... mas um pênis...Meu Deus
Altamirando como é que você pôde casar com um
travesti?
ALTAMIRANDO _____ Mas que travesti? Tenha santa
paciência! Ela é mulher! Só que alem do órgão sexual
feminino, ela tem também o masculino, entendeu? Por
isso que fizemos a operação. Matou sua curiosidade?
MÃE ( Se aproximando dele. Ar severo ) ______ Como
se não bastasse uma sogra antropófaga , uma nora louca ,
agora tenho que aturar um filho pederasta.
ALTAMIRAND ( Horrorizado ) _____ Mamãe!!!
MÃE ______ Você quer que eu pense o quê?
ALTAMIRANDO ______ Eu não sabia de nada! Foi só
depois do casamento. E depois isso é passado. Ela
operou não operou? Vamos por uma pedra sobre esse
assunto.
MÃE _____ E quem te garante que louca como ela é, ao
invés de cortar o “João”, ela resolveu costurar a “ Maria
“?
ALTAMIRANDO _____ Não diga bobagens.
MÃE _____ O senhor conferiu?
ALTAMIRANDO _____ Chega! Já tô perdendo a
paciência.
MÃE _____ Conferiu ou não conferiu?
ALTAMIRANDO ______ Não! Ela ainda esta com o
curativo. Ainda não tive chance.
MÃE ______ Virou João! Tua mulher virou João!
ALTAMIRANDO _____ Como é que a senhora sabe?
MÃE ______ É obvio. Essa é a pior hipótese! É sempre
a primeira opção pros malucos.
ALTAMIRANDO _____ Se a sua intenção é me deixar
na dúvida, perdeu a viajem. Eu tenho plena convicção
que ela fez a operação certa. Já estava tudo acertado com
a equipe médica.
MÃE _____ Pois é...Na hora H ela acabou fazendo a
operação em outra clinica. Só ficamos sabendo depois do
fato consumado.
ALTAMIRANDO _____ Isso não tem nada a ver! Foi
um problema logístico qualquer.
MÃE _____ Mas vai ver é melhor assim. Não corro o
risco de ter um neto doido.
ALTAMIRANDO ( Irritado com a pergunta. Pega o
telefone ) _____ Pois eu vou te provar! Vou ligar pro
médico agora!
MÃE ( irônica ) _____ Pro ginecologista ou urologista?
ALTAMIRANDO _____ Pro cirurgião plástico!
( Atendem ) Alô! Por gentileza, preciso falar urgente
com o doutor Herculano. ( ... ) Cirurgião plástico. ( ...)
Eu aguardo. ( ... ) É Herculano Heleno Gomes.
Herculano com H e Heleno também. ( ... ) Como ? ( ... )
Não tem ninguém com esse nome aí? ( ... ) Mas não é
possível! Minha mulher operou com ele. ( ...) Suzamara!
Suzamara Martins Balão Pinto. ( ...) Também não tem?
( Ar aflito ) A senhorita tem certeza? ( ... ) Não. Só isso...
Altamirando desliga o telefone. Ar de perplexidade.
MÃE _____ Mas que belo golpe do baú você deu... Casa
com uma milionária falida e ainda leva gato por lebre.
ALTAMIRANDO _____ Golpe esse que a senhora me
arrumou! Maldita hora que fui ouvir os seus conselhos!
Não sei o que é pior...conselho de mãe ou praga de mãe...
MÃE ( Olhando para fora de cena ) ______ Fala baixo
que ela vem vindo.
Entra Suzamara.
MÃE _____ Querida, como é que você está? Não devia
ter levantado da cama, você ainda esta convalescendo.
( Dá uma olhada irônica para Altamirando)
SUZAMARA ( Ar sensível ) _____ To melhorzinha
dona Cornélia . E depois o médico recomendou que eu
me exercitasse.
MÃE _____ Sê me desculpe a indiscrição, mas do que
você operou exatamente?
ALTAMIRNDO ______ Mamãe!!
SUZAMARA _____ Tudo bem, Altamirando. Sua mãe
tem todo direito de saber. Eu tinha um defeito de
infância, uma coisa muito intima.
MÃE _____ Não me diga...
SUZAMARA _____ Eu... Eu era infértil. Não podia ter
filhos.
MÃE _____ Infértil a nível passivo ou ativo?
ALTAMIRANDO _______ Mamãe por favor!
SUZAMARA ______ Deixa ela Altamirando. Deve estar
curiosa. Eu tinha um desvio nas trompas. Mas graças a
Deus o problema foi resolvido. ( Abraça Altamirando ) E
logo-logo vamos ter um presente pra senhora. Um
netinho!
MÃE _____ Aí que mimo... e quem vai ser a mãe?
SUZAMARA ( Não entendendo ) ______ Como é que
é?
ALTAMIRANDO _____ Nada! Brincadeira dela.
MÃE _____ Quem foi mesmo o médico que te operou?
SUZAMARA _____ O doutor Herculano Heleno
Gomes. Uma santa pessoa. Trabalha até no hospital das
clinicas.
MÃE _____ É o que eu sempre digo. Nessas horas a
gente tem que ter o melhor. Mas chega de tanta
conversa. Acaba se cansando. Acho melhor voltar pro
quarto.
SUAZAMARA ______
Também acho. Ta me dando vertigem.
MÃE ( Amparando-a ) _____ Então vai querida. Vai
descansar. ( Suzamara sai) E eu que vivo reclamando que
não tem homem nessa casa... fui tão injusta....
ALTAMIRANDO ( magoado ) _____ Espero que tenha
aplacado o seu sadismo.
MÃE ______

CONTINUA
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