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Roteiro para a leitura de textos informativos na escola:

uma introdução 1

Juvenal Zanchetta Júnior FCL – UNESP – Assis

RESUMO: Neste capítulo, objetiva-se apresentar um roteiro para o desenvolvimento do trabalho com a leitura de textos informativos em âmbito escolar. Para tanto, o autor explora estratégias de abordagem que consideram, em especial, a recepção pelo leitor.

PALAVRAS-CHAVE: Recepção; Leitor; Texto informativo.

Leitura e recepção

Embora sinônimos, leitura e recepção são conceitos com percursos até certo ponto distintos. Leitura é um termo mais utilizado na área de Ciências Humanas. Recepção está mais próximo da Comunicação, dentro da área das Ciências Sociais. Observaremos algo da trajetória do conceito de leitura. Em seguida, esboçamos o percurso feito pelo conceito de recepção. Tomando a descrição de Possenti (2001), numa acepção que remonta ao século 19, a leitura da palavra escrita chegou até meados do século 20 como prática de elites, sacralizada e voltada à apreciação de autores específicos. Compreender um livro significava entender um contexto em que o autor ocupava lugar fundamental. O estruturalismo deixaria de lado o autor, ocupando-se apenas do texto, percebido como uma engrenagem autônoma e passível de ser observada em seus elementos intrínsecos, deixando de lado o contexto que a cercava. Desde meados do século 20, o leitor ganha destaque, cabendo a ele e a sua experiência de vida o centro da leitura. Para Ferrara, a própria arte moderna ajudou a forjar um papel mais decisivo para o leitor:

a Arte Moderna supõe a divisão do receptor em ingênuo e hábil. A antiga

arte fora hábil em produzir um receptor ingênuo, passivo que procurava, no máximo, partilhar dos momentos de inspiração do artista como molécula residual do trabalho criativo em estudo de pura contemplação e embriaguez. A

] [

1 O presente texto é uma adaptação de artigos publicados em Zanchetta (2008) e Zanchetta (2012).

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arte moderna é a produtora de um receptor hábil onde tudo solicita a sua percepção e está aberto à sua penetração, sua interferência é a única possibilidade de produção de sentido; sentido fugaz, relativo, mas válido porque produto de uma inteligência, de uma sensibilidade, de uma atividade relacional.’ (1986, p.20)

Por ‘antiga arte’, a autora observa a arte pictórica, centrada na perspectiva, predominante até parte do século 20, quando autor e obra ainda reinavam soberanos, relegando o leitor ao segundo plano. Um bom leitor escolar, no passado, era o aluno que conseguia reproduzir ou expressar-se à moda dos escritores de prestígio; mais tarde, passou a ser o leitor percuciente da história e das características histórico-literárias que envolveram a produção dos clássicos nacionais; hoje, trata-se do leitor que domina as estratégias do código literário, com alguma fruição estética, e também consegue compreender as características de diferentes gêneros textuais (desde uma carta até um artigo de opinião), extraindo deles informações, aplicando seus conteúdos no cotidiano e relacionando-os com outros textos. O processo de recepção tem um percurso um pouco diferente. Primeiramente, pensava-se que os sujeitos receptores eram facilmente manipuláveis e assimilavam as mensagens provenientes da mídia de forma passiva, como se recebessem ‘uma injeção hipodérmica’. Aos poucos, a ideia de passividade deu lugar à proposta de autonomia do receptor: estudos diversos mostram certo consenso em considerá-lo como dono do seu próprio nariz e capaz de crítica, de seleção e de apropriação desses recursos e de informações da maneira como mais lhe convém. O receptor é percebido como participante até mesmo da produção midiática. O ideário relacionado à autonomia aponta para a noção de emancipação: o sujeito receptor saberia selecionar, criticar, interferir, entre outras ações, ativas, com certo distanciamento em relação ao objeto midiático. Hoje, leitura e recepção contam com estatutos parecidos. Um bom leitor ou receptor é aquele que: a) consegue compreender textos mais longos e complexos; b) relaciona as partes do texto; c) sabe comparar e interpretar informações; d) distingue fato e opinião; e) realiza inferências e síntese (INAF, 2009). Em outras palavras, do leitor ou do receptor contemporâneo espera-se autonomia e plena compreensão acerca das informações com as quais se depara, seja em um livro, seja na televisão ou na internet. Nas linhas seguintes, pretendemos apresentar um roteiro para a leitura realizada no cenário escolar. Tal roteiro volta-se, inicialmente, à compreensão dos textos informativos de maneira geral e menos aos textos literários, embora boa parte dos

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instrumentos utilizados seja baseada na relação entre o leitor e o texto literário, mas o caráter polissêmico destes últimos e da arte de modo geral demanda ferramentas mais específicas para abordagem. Neste momento, nos concentraremos em textos jornalísticos, publicitários e outros, sempre portadores de informações com finalidade pragmática.

Uma caracterização de leitura informativa

Alguns pressupostos norteiam esta sugestão. O primeiro diz respeito ao papel da palavra. Nas correntes pedagógicas contemporâneas, em que pese o fato de a sensibilização do aluno ser um passo importante para a aprendizagem, tal característica é ponto de partida ou recurso para a consolidação de momentos específicos do processo educacional. Na pedagogia construtivista ou na pedagogia histórico-cultural – duas das principais tendências pedagógicas presentes no cenário brasileiro –, a finalidade da educação formal está no domínio de linguagens, com destaque para a linguagem verbal e a matemática. Assim, mesmo no trabalho com a mídia, cujas soluções envolvem múltiplas estratégias, com predomínio da sensação sobre a razão, um dos principais objetivos da atividade pedagógica é a tradução dos fenômenos ligados à vida em linguagem verbal, em atividade análoga à que propõe Christian Metz para a análise da imagem:

A língua faz muito mais do que transcodificar a visão [

permanência, ela é sua glosa contínua, ela a explica, ela a explicita, e no

limite, ela lhe dá autenticidade. Falar da imagem é na realidade falar a imagem, não essencialmente uma transcodificação mas uma compreensão, uma ressocialização da qual essa transcodificação é a ocasião. A nominação define a percepção tanto quanto ela a traduz. (2000)

] ela a acompanha em

A mediação, com o uso da palavra, implica outros pressupostos. A atenção concentra-se em aspectos passíveis de socialização, embora observemos diversas características de ordem subjetiva. Estas últimas fazem parte de nossas preocupações em sua contribuição para o exercício da compreensão da dinâmica da leitura midiática. Essa contribuição objetiva lançar uma luz sobre a subjetividade, inerente ao processo sensorial e emotivo da leitura, mas principalmente para delinear procedimentos que possam ser utilizados como referência para observar a leitura a partir da sala de aula (e não em momentos particulares de leitura, por exemplo). Isso justifica a caracterização de diferentes “reações” de leitura e a notação de tais características em escala progressiva de complexidade.

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Outro pressuposto é a sugestão de que a leitura de meios e mensagens midiáticas significa não a abordagem de objetos isolados, esquadrinhados em termos de técnica, procedência e efeitos, para deixar ao leitor o compromisso de julgamento, mas, sim, de algum modo, a construção ou a reelaboração permanente de uma macro-narrativa que associe os objetos de leitura a uma perspectiva política de entendimento do mundo. Situá-los na sua relação com os indivíduos, nos contextos em que vivem as pessoas e também na História, ainda que não haja uma versão neutra da História, mostra-se como compromisso da escola. A notação sobre possibilidades de leitura de suportes de imprensa será feita à luz de referenciais associados à leitura de suportes impressos. Buscamos, em Maria Helena Martins (1994), uma proposta para o entendimento do processo de leitura inspirado na

relação entre a obra e o leitor. Mesmo com predileção pela leitura da literatura, Martins

como um processo de compreensão de expressões

formais e simbólicas, não importando por meio de que linguagem” (1994, p.30). Para a autora, o contato com o texto torna-se um diálogo com a palavra escrita, com os gestos, as imagens, os acontecimentos ou qualquer outro elemento simbólico. Por meio desse processo, ocorre uma expansão contínua dos limites de compreensão do indivíduo. Martins (1994) propõe três níveis para a leitura (sensorial, emocional e racional), tomados aqui como ponto de partida: quais seriam as características da recepção midiática nesses três níveis, passíveis de serem observadas a partir da escola? Para detalhamento da leitura emocional, testamos as indicações de Jauss (1974), relativas ao processo de identificação havido entre o texto e o leitor. Jauss observou aproximação entre o leitor e o herói dos textos literários. Sua argumentação pode ser aplicável ao cenário a que nos reportamos, pois os jornais materializam uma representação da vida, tomando a figura humana como medida das coisas, tal como o faz a literatura.

considera a leitura na escola “[

]

A abordagem da leitura racional, por seu turno, é ainda mais complexa, por compreender amplo espectro de experiências. De maneira grosseira, adaptamos instrumental oferecido por Eco para análise da propaganda (ECO, 1971) 2 , por sua vez inspirada em Panofsky (1967). O estatuto da imagem fixa (objeto de estudo de Eco) é, em parte, semelhante ao da imagem em movimento. A imagem fixa e as imagens em movimento põem-se como prova verossímil daquilo que está sendo narrado, não fugindo

2 Utilizamos em parte a argumentação realizada em outro texto (ZANCHETTA, 2001). Em alguns momentos, reproduzimos ou adaptamos frases do texto original.

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das aparências do mundo. As diferenças percebidas entre ambas estão menos no “conteúdo” e mais no aparato que as define. A metáfora e a metonímia, segundo La Borderie (1997), as duas grandes figuras constitutivas da retórica da imagem fixa são também os principais fatores figurativos na televisão e na internet 3 . Aliás, em razão da velocidade com que se sucedem num telejornal, surge reforçada a hipótese de um universo tropológico ainda mais restrito na tevê. O caráter fluido do movimento tenderia a fazer com que a imagem se mostrasse sempre representativa de algo maior do que ela efetivamente designa. Prevaleceria, assim, o caráter metonímico, agindo como um filtro redutor da representação. O sentido das imagens não aparece isolado. A palavra atua como “âncora” da mensagem em suportes híbridos, como a televisão e os sítios de informação; já as funções da palavra e da imagem, do ponto de vista de Jakobson (1969), são semelhantes. Assim, no caso da publicidade, há o predomínio de imagens com funções apelativas e emotivas, com maior ou menor incidência da componente persuasiva (na imagem). Vale destacar que algumas peças publicitárias conseguem, inclusive, atingir estatuto estético, fazendo uso da função poética, visando a determinados efeitos de sentido, como comover, surpreender, propor uma nova percepção acerca de um objeto ou situação cotidiana, entre outros. Já a mensagem noticiosa, por sua vez, utiliza-se das imagens, em tese, com função denotativa ou explicativa. Contudo, na prática dos telejornais, nem sempre isto acontece, pois tais informativos veiculam ideologia, ou seja, não são “neutros”. Os mais pessimistas afirmam que as funções predominantes no telejornal seriam a fática (entretenimento) e a persuasiva. Barthes (1984), ao desautorizar a intenção “denotante” da fotografia na imprensa, lista uma série de expedientes técnicos responsáveis por revestir a foto de caráter “conotativo” e, portanto, intencional, dentro de um dado contexto 4 . O instrumental exposto é provisório. Os textos e a leitura tendem a ser politizados, modificando-se continuamente, para atender aos interesses do analista. Alguns fatores, porém, são tomados como referência de fundo para a proposição, de modo a constituir uma espécie de amarra para as sugestões e fazer diminuir a subjetividade. O leitor a quem nos referimos é um aluno da escola básica, portanto passível de ser, até certo ponto, ‘materializado’ historicamente, pois está situado num contexto conhecido em seus traços maiores. É desse lugar que se pensam as

3 Num sítio de notícias, opera-se a somatória de procedimentos do impresso e do jornalismo eletrônico.

4 Tais expedientes são: a trucagem, as poses (que denunciam comportamentos ou reações), a seleção de objetos, a fotogenia, o esteticismo (ou edição própria do meio fotográfico) e o papel da imagem na sintaxe da notícia (BARTHES, 1984).

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considerações a seguir. Não é possível esquadrinhar o processo subjetivo da leitura e nem mesmo a diversidade de relações estabelecidas entre o leitor e os contextos que envolvem a leitura, mas parte desse processo é pública: os suportes midiáticos, os textos, as impressões individuais partilháveis em terreno pedagógico, as opiniões coletivas alcançadas pela ação de um mediador. Tratamos da experiência em parte conhecida ou que pode vir a ser conhecida, de modo especular, e com pretensão didática. Nesse sentido, ainda que marcadas pelo “relativismo”, os traços que situam a análise no tempo e no espaço são visíveis. Para a exemplificação, tomamos os jornais impressos e os telejornais, por serem suportes de prestígio social, e o texto publicitário seguinte, que chamaremos de TP (texto publicitário), para uma análise comparativa:

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Leitura sensorial

Numa época em que os recursos tecnológicos permitem o aprimoramento plástico

e estético cada vez maior dos meios e mensagens, a leitura sensorial é decisiva para

cativar o leitor. Ela implica desde a percepção isolada e pontual de estímulos predominantemente físicos (as cores, as ilustrações, a disposição e o formato dos textos e das letras, o tamanho da tela ou do jornal, por exemplo) até a percepção integrada desses elementos, num tempo mais prolongado e que pode ir além da relação direta com o objeto. Algumas pessoas gostam do cheiro do livro ou da revista nova. Outras, não suportam o cheiro ou a tinta usada nos jornais. Prevalecem a surpresa ou a constância, a estesia, a sinestesia, os sentidos físicos. Esse processo, entretanto, embora se dê no leitor, não é, de todo, circunstancial. Os suportes midiáticos fazem sobressair esse aspecto: a produção e as formas de interação

com o leitor são carregadas de intenção e de significação.

Os elementos sensoriais não fomentam apenas a significação superficial e parcial

do conteúdo dos suportes midiáticos. Eles surgem como elemento lúdico para atrair o

leitor e já marcar determinado posicionamento. O tamanho das letras, nos títulos

jornalísticos, ou as dimensões de uma fotografia, na primeira página no jornal impresso,

a trilha sonora e a postura solene dos apresentadores de telejornais, as fotografias que se sucedem no sítio de notícias: são elementos que apontam para significações; para a importância dos assuntos tratados, para a profundidade do tratamento etc.

A diversidade de estímulos e de contextos que aproximam o leitor de

determinado suporte, sob o aspecto sensorial, torna difícil ao professor o tratamento sistemático desse modo de leitura. Talvez, seja possível a ele apenas observar, em situação escolar, as estratégias comuns aos MCs (meios de comunicação) para atrair ou para não afugentar o leitor, além de ampliar o leque de referências do aluno (com outros suportes), bem como “verbalizar” a experiência sensorial. Eis alguns elementos passíveis de apreciação:

 cores: discretas no telejornal ou nos jornais impressos de maior prestígio e insinuantes nos jornais populares. Entram aqui os elementos ligados à combinação de cores utilizada no suporte e também as preferências de cor do indivíduo que o lê. No TP, as cores dispostas em tons pastéis são: amarelo, laranja, vermelho, azul e verde. O amarelo é a cor da recreação, da jovialidade,

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do otimismo. Laranja remete à recreação e à sociabilidade. Vermelho é a cor da felicidade. Azul, a cor da harmonia e da simpatia. Verde lembra vida, saúde, frescor (HELLER, 2013). Combinadas, essas cores reforçam aquelas qualidades:

amarelo, laranja e vermelho remetem ao caráter lúdico; amarelo, azul, rosa (discreto, mas presente), laranja e verde formam conjunto que remete à amabilidade; amarelo, verde, azul e laranja lembram o otimismo. Tais relações não são fruto do acaso, mas adensadas a partir da experiência histórica relacionada às cores.

 projeto gráfico: inclui a disposição dos elementos na página ou na tela; a proposta de equilíbrio entre texto verbal e texto imagético, o perfil do traço utilizado para as ilustrações; a relação entre a mancha de tinta e os espaços em branco, para arejamento do suporte. Observe-se que o TP ocupa todo o espaço da página, para aumentar a chance de ser lido. A imagem, mais atraente do que o texto verbal, aparece primeiro e ocupa a maior parte do espaço. No espaço inferior, encontra-se um primeiro texto, com letras maiúsculas e coloridas, que destaca o motivo da propaganda: a comemoração de aniversário da editora. Mais abaixo, texto com letras discretas amplia a informação, com dados sobre a Editora. Para sustentar texto verbal e imagem, há uma sequência de fotos, no pé da página. A cor amarela, na faixa inferior dialoga com as cores da imagem e ajuda a chamar a atenção para o texto verbal disposto na cor preta, cujo tamanho é discreto.  sons: diz respeito, por exemplo, à trilha sonora que busca revestir determinada mensagem de seriedade, dinamismo, emoção, glória etc. Telejornais tomam o glamour de instrumentos clássicos somados aos sons produzidos por sintetizadores. Sobressaem-se sons de teclados, violinos e de instrumentos de sopro. O TP não tem som, mas não apresenta uma cena silenciosa. O olhar das crianças, suas bocas entreabertas, a própria lembrança que temos acerca do cotidiano de uma sala de aula são indícios que remetem à ideia de barulho, mesmo contido.

 movimento: trata-se da relação estabelecida entre os elementos na tela do computador ou da televisão. As imagens que se sucedem no sítio de informação na internet ou a dinâmica imposta à sucessão de imagens no telejornal podem ser decisivas para prender a atenção do leitor. Por outro lado, observam-se também os gestos de apresentadores, repórteres e personagens. Nos dias de hoje, os

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telejornais são apresentados tendo ao fundo a ilha de edição, com jornalistas transitando no fundo da tela. Um entrevistado, levado ao ar para explicar-se sobre eventual problema no qual ele está envolvido, tende a ser mostrado de maneira a ressaltar sua insegurança (o olhar fugidio, a voz titubeante, a postura esquiva). No TP, se concordamos que a imagem não é silenciosa, ela também não mostra personagens inertes. As crianças, mesmo sentadas, usam os braços e sorriem, sugerindo movimento. Aliás, são capturadas em ação na imagem, por isso caracterizamos o texto imagético como narrativo, ou seja, representa o próprio movimento.

 códigos culturais: vestimentas e posturas determinadas, por exemplo, conferem sobriedade ao cenário do telejornal, reforçando a impressão de que se está veiculando informação com isenção. Comentaristas sobre economia têm que conciliar segurança, seriedade e certa informalidade para convencer o espectador (distensos em demasia, correm o risco de não serem levados a sério; com expressão de tensão, podem indicar tempestades na área econômica). A garotinha representada no TP veste blusa amarela e, sobre a blusa, usa macacão azul. A jovialidade, lembrada pela cor amarela, parece ser contida pelo azul – a cor da discrição, da simpatia, da harmonia e também do trabalho. O jeans do macacão é azul. Historicamente, esse azul, o chamado índigo, é a cor do trabalho, do operário, daquele que tem horário e funções específicas a cumprir (HELLER, 2013). A vivacidade surge contida pelas obrigações.

Leitura emocional

Como a leitura sensorial, a dimensão emocional sugere uma relação afetiva e particular. As experiências anteriores do indivíduo fazem com que ele encontre no objeto de leitura algo já esperado: trata-se de contato, em boa parte, retrospectivo. Do ponto de vista da produção dos informativos, os efeitos sugeridos levam à surpresa, à comoção, à repulsa, à familiaridade – aspectos que, não raramente, se aproximam do drama. A leitura, nesse plano, implica a identificação do leitor com aspectos determinados (uma fotografia, uma informação ou parte dela) ou a questões mais gerais, como um evento, um conjunto de eventos ou mesmo o próprio suporte como um todo. O traço afetivo é porta de passagem para a memorização que, por seu turno, é condição para a compreensão do que está sendo lido. Os leitores costumam observar o

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evento principal de uma notícia com maior facilidade, em razão dos estímulos da produção que induzem a essa percepção (o título, a ilustração, o lide). Contudo, isso também ocorre graças à narrativa que costura as informações, pois a amarração acaba por humanizar os eventos – tornando-os acessíveis. Na televisão, o apresentador é responsável por isso, pois age como um contador de histórias; no jornal impresso, a fotografia, a infografia, a seleção de eventos por ordem de importância garantem a tensão e o caráter narrativo de um texto sem conclusão 5 . Mesmo conservadora, a leitura emotiva é igualmente um ponto de passagem para a leitura racional e leva, ela própria, o leitor a um lugar prospectivo ou renovador da percepção. Adaptamos a sugestão de Jauss (1974), sobre as características da identificação entre o herói (literário) e o público, transportando-a para a leitura da mídia:

 Associação: prevalece o aspecto lúdico que se associa ao modo sensorial de ler e à narrativa proposta, visto que o leitor aceita participar da história, da mensagem ou da imagem. Neste caso, ele parece mostrar concordância plena com o conteúdo, com a forma de apresentação, com o suporte em si. O leitor adere ao que está sendo posto, de forma incondicional e ingênua. Não se trata de concordar com o que o outro diz apenas por conta do prestígio do meio de comunicação, mas de acreditar que ali está a verdade. No caso do TP, trata-se daqueles leitores que confiam plenamente no trabalho da Editora ou nos chamados ‘sistemas de ensino’. Restringindo-nos apenas à imagem (mais atraente do que o texto verbal), há leitores que valorizam incondicionalmente a própria noção de escola.

 Admiração: o leitor observa o sujeito ou os sujeitos representados como referência edificante ou ideal. O expediente comum na mídia, de reduzir personagens a tipos, é um expediente que tende a seduzir o leitor em determinado momento. O leitor aproxima-se da personagem de maneira acrítica. Se, no plano anterior, a integração se dá com o conjunto, neste caso, a integração se deve à pessoa representada. No TP, valoriza-se a imagem da criança, pela beleza plástica ou pelo seu comportamento altamente respeitador de regras escolares, por exemplo. Cumplicidade: a identificação ocorre por reportar situações e comportamentos próximos aos da vida comum. Neste caso, a mensagem reproduz a vida cotidiana,

5 A estrutura mais comum de texto noticioso não supõe um clímax (exceto o próprio título da matéria), mas sim o alinhavo de eventos cada vez menos importantes, até chegar a detalhes supérfluos.

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próxima daquela experienciada pelo leitor. Em lugar de adesão plena (como se fosse um jogo) ou seletiva (como um ideal a ser cultivado), a identificação se dá pela cumplicidade do leitor em relação a elementos que parecem semelhantes. No TP, o leitor pode reconhecer, pela representação das roupas e do comportamento da pequena estudante, exemplo de estudante que faz parte da vida dele.

 Catarse: o leitor assiste à dor alheia e, em meio à piedade, à indignação ou mesmo a outros sentimentos, tira dessa situação ensinamentos para a própria vida ou, então, alivia suas tensões, ao vê-las materializadas no outro representado. No TP, o leitor observa, naquela sugestão de escola, algo que ele conheceu ou espera da escola.

 Ironia: há envolvimento entre ambos, mas o leitor coloca-se na situação proposta pelo texto para recusá-la, integral ou parcialmente. Em que pese o fato de a identificação supor a confirmação de valores do leitor, o que tende a provocar o efeito catártico, as diferenças entre o leitor e a situação reportada são percebidas e, provavelmente, negadas. Nesse nível de recepção, a razão ombreia com a emoção. No TP, embora se comova com o cenário proposto pela propaganda e pelo desenho de escola ali esboçado, o leitor se mostra desconfortável, pois reconhece que está diante de uma situação até certo ponto artificial: o ‘sistema de ensino’ não vai solucionar as limitações dos materiais didáticos; as crianças ali dispostas não são representativas do cenário da educação brasileira contemporânea.

O contato com os suportes midiáticos se dá de maneira pontual e fragmentada. No entanto, desde que o professor perceba certos traços advindos da experiência emotiva, cabe a ele observar o perfil dessa identificação. Na sala de aula, a experiência emotiva é bem mais visível em situações de comoção geral. No entanto, nessa e em outras experiências, mais individualizadas, o instrumental proposto, embora ainda em esboço, pode auxiliar na diferenciação dos diversos tipos de aproximação com o texto e contribuir para a testagem de outros modos de identificação. Justamente por isto, pode-se conduzir o leitor, mesmo no plano emotivo, a um novo plano de percepção. Por outro lado, mesmo que os traços de identificação entre o leitor e os suportes midiáticos se mostrem pulverizados, a proposta da caracterização das relações emotivas diz respeito, ao exercício de se tentar, quando possível, colocar a própria experiência em perspectiva.

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Nesse processo, busca-se menos as características subjetivas do leitor do que as estratégias midiáticas para levar esse leitor à comoção.

Leitura racional

Este multifacetado plano de leitura trata do domínio de códigos diversos, desde os mecânicos, passando pelos de ordem linguística e semiológica, até os encadeamentos históricos.

1) Plano narrativo: refere-se aos elementos dos planos descritivo e narrativo do conjunto do texto (imagens, texto verbal, outras ilustrações e as combinações entre eles). Trata-se da observação do texto como uma história, atenta às expectativas do leitor. Vejamos alguns expedientes que atuam nesse sentido:

Oposições: as matérias jornalísticas procuram firmar confrontos:

oposição entre bem e mal, entre certo e errado, entre devoção e descrença, entre vencedor e perdedor, entre justo e injusto, e outros. As informações prestadas pelo telejornal são postas como desvios dentro de uma suposta normalidade. Assim, a notícia relativa a um crime reforça, por outro lado, a necessidade de uma ordem social e moral. Um político flagrado por ato de corrupção opõe-se a um suposto quadro em que os indivíduos devam zelar pelos interesses públicos.

 Tensão: o leitor vê-se diante de notícias ora mais ‘suaves’, ora mais ‘graves’, num balanço que o conduz, no final do telejornal, a um estado de satisfação, alívio ou mesmo, em situações extraordinárias, de espanto. Equilibram-se notícias com destaque negativo e positivo, denúncias em diversas áreas e notícias muitas vezes dispensáveis, mas impressionantes. Evita-se o acúmulo de tensão negativa: em qualquer altura, é comum ver lado a lado notícias de economia e informações sobre fatos extraordinários, distantes do cotidiano das pessoas, como o salvamento de um cão em rio gelado do Alasca.

 Onipresença: o MC atua como observador, atestando em cada notícia a veracidade e a ideia de onipresença. Mais do que contar histórias, o meio torna-se testemunha: os relatos verbais e as imagens reforçam a verossimilhança. O conjunto da notícia cria outro ponto de

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partida para o fato narrado, diferente da origem desse fato: a ilha de produção do informativo.

 Teatralização: a linguagem verbal, os recursos técnicos utilizados, a postura dos apresentadores e repórteres, as ideias de simultaneidade e onipresença são alguns dos fatores que contribuem para a teatralização proposta para o telejornal. Os recursos eletrônicos preenchem o palco da apresentação da notícia: logotipos, cores, sons, música de fundo dão a moldura da cena proposta e intensificam o espaço onde se propõem os relatos. Dramatiza-se não apenas colocando diante do leitor situações que possam impressioná-lo, mas também intensificando o presente, trazendo- se relatos quase simultâneos aos respectivos fatos.

 Idealização: em lugar de um mundo caótico, complexo e imprevisível, a hierarquia proposta pela imprensa tende a inscrever o fato noticioso dentro de um todo organizado, em que grupos e instituições funcionam e se relacionam umas com as outras. Por esse ângulo, notícia passa a ser o episódio que desestabiliza a ‘normalidade’: daí o chamamento de diversas instituições, de forma aberta ou implícita, quando ocorre algo fora do comum. Individualização: a imprensa procura tornar concretos os fatos. É mais fácil ‘materializar’ um escândalo, creditando-o a indivíduos, do que tratar das responsabilidades estruturais ou conjunturais que levam ao problema. Assim, desde a preparação da notícia, os dados convergem para unidades mínimas. Apresentador e repórteres, por exemplo, ao escolherem o modo de focalizar um assunto e ao selecionarem os elementos que serão mostrados, põem-se num caminho didático o suficiente para reduzir problemas a aspectos determinados.

 Tipificação: a redução dos temas a personagens determinados também se liga a desenhos de indivíduos relativamente estáveis e superficiais. De maneira geral, os personagens são reduzidos a uma característica específica e, por isso, são mais facilmente reconhecidos pelo leitor. Os personagens das matérias jornalísticas servem para a elucidação de conteúdos específicos e não para o exercício de análise

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física, social, histórica, psicológica etc, algo que tomaria muito tempo e poderia levar o leitor a confundir-se.

Este nível pode ser desmembrado em domínios específicos, tais como:

 formal: pressupõe o domínio sobre estratégias narrativas. Trata-se do entendimento quanto à organização dos conteúdos em um jornal (a relação entre texto e imagem, por exemplo); a identificação do nome do repórter ou do lugar onde determinada reportagem está sendo ambientada (informações muitas vezes colocadas na tela e não mencionadas pelo apresentador); o domínio sobre ícones que permitem a exploração do ciberespaço 6 , bem como a diferenciação entre os elementos de uma determinada matéria, os links e a publicidade que a emoldura. Enfim, nesse plano, o leitor sabe localizar-se e locomover-se pela narrativa ou pelas narrativas que se colocam nos suportes de informação. No TP, a disposição da imagem e do texto na página,

o uso das cores – características essas comentadas na abordagem

de aspectos sensoriais – são percebidos aqui como estratégias: a docilidade, a diversão aliada ao trabalho, sensações sugeridas pelas cores, surgem fazendo parte da história que se pretende contar.

verbal: pressupõe familiaridade com a linguagem utilizada, com

o gênero e com o assunto tratado. No TP, a palavra sugere a

idealização: o ‘desafio’ da editora (‘Mudar o mundo a partir da Educação’) está em curso. Os números apresentados caminham nessa direção: mesmo num país ‘cheio de ‘diferenças’ e com

‘dimensões continentais’, os indicadores da Editora revelam êxito.

6 O domínio na área de informática não se restringe a elementos operatórios, como conhecer comandos específicos para uma ou outra tarefa, mas engloba o domínio de códigos mais complexos. Estes, por sua vez, empregam a linguagem verbal, mas imbricada ou secundarizada por elementos de outras áreas, como a matemática. Há códigos, às vezes, facilmente operáveis, porém inacessíveis para a maioria das pessoas:

uma pessoa não alfabetizada é capaz de fazer operação em terminal eletrônico de banco, mas o domínio dos códigos que permitem a viabilização de tais operações é ainda altamente restrito.

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 imagético: significa o reconhecimento dos elementos presentes numa determinada imagem, para torná-la legível e associá-la aos demais elementos que compõem a narrativa. No TP, a cena representada também sugere êxito: as crianças que estudam no ‘sistema Positivo’ mostram-se receptivas, interessadas, participantes. A oposição básica está posta: a satisfação da garotinha contrasta com o senso comum de que o ensino regular é algo cansativo, arrastado. Há redundância de símbolos: as crianças pintam com cores que sugerem um mundo lúdico e profícuo; as cores do ‘sistema de ensino’ pintam a educação com colorido vivo e fértil. A individualização também é evidente: uma criança representa todo o conjunto de estudantes atendidos pelo ‘sistema’.

2) Plano expositivo: compreende a observação de significações secundárias, convencionadas por questões editoriais, contextuais ou históricas. Uma das formas de organização da informação no plano expositivo é, portanto, a sua codificação a partir de esquemas textuais específicos. A disputa pela atenção do leitor em meio a tantas informações no mundo contemporâneo, a necessidade de concisão, a pluralidade de recursos para a informação, o caráter cada vez menos ritualizado do contato entre a mídia e o leitor, entre outros motivos, ajudaram na consolidação de desenhos textuais específicos para o texto noticioso, desenhos estes menos centrados na organização linear e mais atentos a aspectos potencialmente mais contundentes da própria informação. A necessidade de textos mais ‘topográficos’, mesmo antes das tecnologias digitais, tornou-se premente no Brasil, onde sempre predominou a cultura oral e, durante o século 20, a cultura visual, baseada na televisão. Isso não impediu o desenvolvimento de textos mais longos, com diferentes modos de orientação. No entanto, expedientes similares estão presentes em todos esses desenhos. Esse plano, também, pode ser desmembrado em:

 Plano formal: implica identificar a divisão do jornal em cadernos e as formas de hierarquizar as informações (diferenças entre manchete e títulos, a gradação de valor entre os títulos, pelo tamanho da letra, pela disposição na página, pelo assunto). No telejornal, compreende a

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observação da linha narrativa, isto é, como se dá o encadeamento das matérias, o papel mais descritivo ou mais opinativo do apresentador. Na internet, significa distinguir as matérias jornalísticas das matérias de mero entretenimento ou propaganda (muitas vezes do próprio veículo ou de parceiros). Em relação ao TP, afora as considerações feitas quanto aos códigos culturais, há questões ligadas ao projeto gráfico. A composição da página segue regra conhecida como ‘mapa da zona ótica’ (COLLARO, 1996), conforme o desenho abaixo. Para chamar a atenção do leitor, o rosto da garotinha está colocado na ‘zona primária’, por onde o olhar começa a percorrer o texto. A mensagem principal do texto verbal localiza-se no centro da página, por onde o olhar tem de passar. A ‘zona terminal’ concentra informações ligeiras, pois é um espaço por onde o olhar passa antes de sair do quadro. Não por acaso, emissoras de televisão costumam colocar nesse espaço seus logotipos. A marca da editora do TP poderia estar aí fixada, mas quem produziu a propaganda optou por colocá-lo acima é à direita. Fez assim porque não quis correr risco de a informação passar despercebida: colocou o logotipo ao lado da informação mais atraente da página (o rosto da garota).

 Plano verbal: o leitor consegue compreender, mesmo em meio à linguagem pretensamente objetiva da imprensa, o posicionamento do veículo divulgador, a partir da ênfase, da seleção de argumentos, de citações ou entrevistas, da omissão de informações. O domínio mais apurado de convenções textuais da imprensa permite a ele organizar o sentido do texto jornalístico a partir do título, dos primeiros parágrafos. No caso do TP, o texto verbal procura destacar as seguintes ideias: 1) o aniversário de 35 anos da Editora; 2) o compromisso com a educação; 3) o desafio de construir materiais didáticos que atendam a um país com ‘dimensões continentais’ e com diferenças culturais; 4) a liderança da Editora no segmento de ‘sistemas de ensino’; 5) o número de 1 milhão de alunos atendidos pela empresa. Por trás da ideia de ‘desafio’ está uma possível contradição: como um material didático padronizado pode atender à diversidade cultural do país? Se respeitada a diversidade, a expansão implicaria mudanças contínuas no ‘sistema’, para atender a públicos cada vez mais distintos.

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 Plano imagético: a imagem passa a ter significação que vai além

da complementação do texto verbal. O leitor sabe o peso da informação pela fotografia, por exemplo: se ela informa menos ou mais do que a fala do apresentador ou do texto da notícia impressa. Na internet, a seleção das imagens serve não às respectivas notícias, mas também para prender o leitor, a partir da cena inusitada, comovente, risível ou de entretenimento. No TP, a imagem é usada para valorizar os argumentos sugeridos pela Editora: 1) a aluna mostra alegria pela atividade escolar; 2) supostamente, ela estuda a partir do ‘sistema de ensino’ da Editora; 3) a satisfação da garota estaria ligada aos benefícios propostos pelo ‘sistema’ líder no mercado da educação; 4) essa mesma satisfação estaria ligada à experiência da Editora nessa área; 5) a alegria da garota motiva a Editora

a continuar. Mas o papel atribuído à imagem vai além do que ela de fato

oferece: 1) não há garantia alguma da existência de relação entre o ‘sistema de ensino’ e a satisfação da garota; 2) mesmo se houvesse, atribuir à estudante a condição de avalista do trabalho da Editora é um gesto exagerado, pois a menina não tem condições de avaliar a complexidade do material; 3) a falta de autonomia pode ser observada a

partir do simples fato de que a fotografia foi feita com a anuência dos pais

e não da garota – que serviu tão somente de modelo.

3) Plano discursivo: além de abarcar componentes referenciais e culturais, o leitor entra no âmbito dos discursos históricos. Neste plano, afloram os valores simbólicos do conjunto da informação, fundamentalmente ideológicos que, embora expressos sob diversos formatos, mostram alguma articulação, revelando não apenas a posição do veículo ou da mensagem (como o plano expositivo permite ver), mas de um grupo ou camada social. Ele pode ser desmembrado em:

 Plano formal: trata-se dos hipertextos constituídos pelo jornal, pelo telejornal, pelos sítios de imprensa na internet, acrescidos de textos verbais ou não verbais que fazem parte do contexto da leitura, num dado momento. Individualmente ou somados, esses hipertextos são finitos

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(MARCUSCHI, 2007) e, portanto, podem ser equacionáveis, na leitura 7 . O acesso seletivo a links para se chegar a um tema específico parece, no entanto, não ser tão simples: há que se buscar uma ordem determinada para os links, o que exige disciplina para a leitura linear. O domínio sobre a extensão do hipertexto utilizado pelo leitor, por outro lado, mostra-se como uma opção deliberada, consequência de outras atitudes e de preferências do leitor. O TP em análise foi publicado no jornal de maior circulação do país, a Folha de S. Paulo, cujo público é composto primordialmente por leitores das classes A e B. Ao optar pela publicação nesse jornal, a Editora revela o perfil de público com quem ela quer se comunicar: formadores de opinião (como dirigentes de redes de ensino) e pais com poder aquisitivo mais elevado, que mantêm seus filhos em redes escolares com recursos para optar por um ‘sistema’ como o oferecido pela Editora. A publicidade, enfim, busca diálogo com os mais abastados.

 Plano verbal: implica compreender as características do discurso político representado pelos MC. O leitor é capaz de associar determinada notícia: a) ao suporte que a contém, identificando o assunto, o tratamento, a extensão etc., a partir do perfil daquele meio; b) à agenda midiática e ao cenário de produção de imprensa no país; c) às instituições políticas que interferem nos rumos daquela área; d) à possibilidade de mobilização individual ou coletiva, a fim de interferir nesses rumos. A leitura é marcada por associações e reflexão sobre aspectos que extrapolam o universo do texto, e mostra um leitor capaz de avaliação do suporte e dos cenários diversos aos quais a notícia se vincula. No TP, desvela-se outra limitação: ‘levar em consideração as diferenças que existem em um país de dimensões continentais’ não significa atender à diversidade de públicos aí existentes, mas tão somente àqueles que fazem parte das camadas mais privilegiadas (cenário em que as diferenças culturais são menores).

 Plano imagético: tornam-se visíveis os arquétipos e os estereótipos, os “equivalentes visuais” das figuras de linguagem e ainda as tomadas de posição dos informativos – expedientes constituídos a

7 O jornal impresso tem um limite de páginas. O telejornal, um tempo de duração. A internet tem o tempo que o leitor dedica à pesquisa na rede (os demais suportes também têm a cronologia como um fator que delimita a extensão do hipertexto).

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partir das imagens. No TP, o discurso implícito na imagem não sugere um

‘sistema de ensino’ original e criativo que pretenda ‘mudar o mundo a

partir da educação’, mas sim um ‘sistema’ conservador. O gesto da

garotinha não é espontâneo, instintivo, mas sim medido, dosado. Longe

da vitalidade e da impulsividade que marca a infância, o gesto é

profundamente disciplinado. A imagem, em termos discursivos, não

retrata uma cena próxima da infância, mas sim uma cena que agrada aos

pais também conservadores que querem ver seus filhos, desde cedo,

plenamente domesticados.

Diferentemente dos demais perfis de leitura, a leitura racional pode ser

desenvolvida com maior intensidade na escola, pois ela trata da elaboração da

experiência com o texto. Claro que os planos colocados acima são apenas indicativos e

não há propriamente uma divisão entre os planos de leitura, mas procuramos destacá-los

daquela maneira, a fim de mostrar exercícios de compreensão cada vez mais complexos.

Referências Bibliográficas BARTHES, R. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70, 1984. BRASIL. INEP – Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. Exame Nacional do Ensino Médio. Brasília: INEP, 2002. Disponível em: COMPLETAR

COLLARO, A. C. Projeto Gráfico: teoria e prática da diagramação. São Paulo: Summus,

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ECO, U. A estrutura ausente: uma introdução à pesquisa semiológica. São Paulo:

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Atividades

I – Leia, atentamente, a peça a seguir e a analise. Para tanto, utilize a metodologia abordada no capítulo.

Atividades I – Leia, atentamente, a peça a seguir e a analise. Para tanto, utilize a