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Octavio e Branca

Ou A Maldição Materna1
João Cardoso de Menezes e Souza
Minuir, c'est un roi sans couronne,
Un roi. qui la peur environne.
Un spectre hideux et fatal
Descendu de son pedestal.
Minuit. c'est le prince de I'ombre.
Qui jette au vent des glas sans nombre
Avec ses lévres de metal.
Turquety.

Romance
[1849]
I
Meia noite soou! – Nos ares trêmulos
Fúnebre ecoa o som do campanário
De horror gelando o coração dos vivos!
Meia noite soou! – Por toda a parte
Silêncio sepulcral desdobra as asas!
Nem estrondo de andar, que trilhe as ruas
Nem brisa, que murmure brandamente!
Diríeis desmaiada a natureza
Ao pavoroso badalar do bronze.
Só ousa violar mudez tão erma
                                                                                                                       
1

 SOUZA,  João  Carlos  de  Menezes  e.  Octavio  e  Branca.  In:___.  Voivoide:  Estudos  sobre  vampiros.  1ª.  Ed.,  SP:  
Pandemonium,  2002.  (pp.  209-­‐221)  

Do pássaro da noite o guincho agudo,
E uivos de cães, quiçá correndo em cata
De maligno Vampiro redivivo.
Qual lâmpada em dossel de azul safira,
Muda e serena a lua o céu perlustra,
E as nuvens, como bandos d'alvas garças,
De quando em quando a face lhe sombreiam.
Paleja ao longe a torre esbranquiçada,
Como enorme fantasma erguendo a lousa
Envolto no sudário do sepulcro.
Era a hora em que o negro anjo da morte,
Seguido d'um cortejo de finados,
Ergue co'a espada as lápides dos mortos,
E, sobre um solo de escamados ossos,
Planta o seu estandarte funerário.
II
Quem era, d'onde vinha?
Castilho.
Mas quem se atreve a assoberbar ardido
Dos mortos o rancor a tais desoras?
Envolto em longo manto aí jaz um vulto,
a fronteira pilastra repousando,
Tenebroso – qual dia arrepiado,
Em que o gelo nos rouba o fogo às veias,
E o sol, coberto c'um lençol de névoas,
Perde o brilho e calor co'a luz velada.
– Será crime ou amor? – Ninguém se atreve

de seu peito Abafado suspiro se evapora. E com respeito beija a sacra cúpula.Nem pode desvelar nas fibras íntimas Que arcanos guarda o coração humano. Que ao pedreiro sagrado as bases deve: – Essa. encolhe as asas. III Eis que uma nuvem densa. Ela serena os vê. E enquanto um sobre outro impérios rolam. que livre sempre. por voto do povo. E. estende o mando Sobre a antiga república ditosa. Altas muralhas cingem o castelo. que ao roçá-la. já próximo à meta. E o vulto move os passos vagaroso Parecendo arrastar no andar a vida. que velava Por ordem do senhor – forram-lhe o musgo E as curvas trepadeiras parasitas. Plácido entanto o lago espelha as torres Do castelo em que habita o conde Holbachi. adelgaçando-se. Que lhe coroa a catedral vetusta. Descobre a face pálida da lua. . Férreo portão por ponte levadiça Bem no centro negreja: – parecia Imóvel sentinela. Que. firme os divisa. afronta ousada Do tempo tragador a foice ahenea. Para aí ele os passos endereça. Do tempo. Qual no oceano adamantino escolho.

– formosa pérola caída “Da coroa do eterno sobre a terra. sobre esta existência amargurada. . “Delicias de minha alma. “E passando a outro lar. Que mistério! – Será comboio de espectros Ou do baque do estado a trama horrível? Silencio! – eis o desfecho! – Atenta às vozes Que. “Vê que em torno de nós as lindas flores “O hálito de amor no aroma exalam. “Amada Branca. “Vem! – corramos à praia – em nau veleira “Lá nos aguarda o nauta – o mar trilhemos. "E tu. anjo celeste.Rangem então da porta os férreos quícios. “Cede do amante aos votos abrasados. Suaves – como o cântico dos anjos. O pesado portão rangeu de novo Nos jardins do castelo introduzindo-os. envoltas em suspiros amorosos. Súbito tudo some-se dos olhos. “Que. E uma figura cândida se antolha – Como visão etérea. ou como virgem Evocada da campa aos ais do amante. “Vertes saudável ditame de vida. em paz iremos “Gozar de amor delícias inefáveis “Pelo nó do himíneo santificadas. – Vem ameigar o ouvido sequioso. do meu ser metade. entre prazeres deslizando a vida. – “Queres quebrar do amor as leis sagradas? “Oh! Não! – fujamos já d'estes lugares. – – Como o bafejo de sonhar de virgem. “E.

.” IV “Caro Octavio. “Pareço divisar brandões acesos “Em torno de um esquife mortuário . “Ele já recusou cumprir meus votos “Unindo-nos à face dos altares. “Negro quadro de tintas carregadas “Me pinta moribunda a mãe querida “Prostrada nas angústias da agonia. “A ingratidão te cega e te alucina. a paixão te torna injusto. “Vem. .. “Mas. que quer pear-te “Voos do coração. “E eriçar-me os cabelos sobre a fronte. “De um lado me apresenta as cãs manchadas. “E a quem vou despenhar na sepultura. “E o coração de angústias retalhado. antes que eu te veja em braços dele. “Zomba do pai cruel. “Hei de co'a espada o coração rasgar-lhe. “Cuja velhice ameigo e suavizo. “Que de Oranzo a consorte hão de aclamar-te: “Preferes dar-lhe a mão? – Ah! Que esta ideia “Basta para gelar-me os seios d'alma.“Envolverá segredo inviolável “A estância em que habitar Octavio e Branca. “Só me prende dever: um pai que adoro. não resistas mais. em vindo a aurora “Hão de estes sítios ressoar c'os cantos. impulsos d'alma. “Ou terás de passar por meu cadáver “Para marchar ao tálamo infamado.

E fala d'alma a mística harmonia No primeiro sentir do amor. “Vou afrontar a maldição paterna. Em que desbrocha o coração no peito. “Vamos. que tremiam Como rosas do zéfiro agitadas. que acorda. que – à tua discrição me entrego.“Mas embora. sufoca a vida.” V Quem poderá pintar com vivas cores Os transportes de Octavio? – A virgem bela Meiga inclinará a fronte de alabastro Em seu rosto de fogo: em doce beijo Uniram-se os seus lábios abrasados. e opinião do mundo. “Em vez de me alentar. . Resume os sonhos da existência inteira. “Pompas de nome. transbordando em viço Tinha a pureza da centelha eterna. arfando ansioso Qual se quisesse o coração rompeu-o. Esse instante solene de mistérios. “Vamos. Alma anelante. que constrange a amor os laços. Era a primeira fruição de amores Nesses lábios virgíneos. Que não degenerou do mundo ao sopro. que quero respirar teu hálito. “Meu anjo protetor de mim se aparte. Era a emoção primeira de delícias Nesse peito ilibado. Compensa eternidade de martírios. “Que a brisa. pra os céus alçando o voo.

e nos consola. dos gozos desse instante. Chamando aos olhos lágrimas suaves E Octavio? Esse momento o endeusara. Somente quando à tarde o sol desmaia Nessa hora do crepúsculo saudoso. Que nos recorda o Céu. Parece às vezes despertar-se um eco Longínquo sim. Filtraram-lhe no peito suspiroso Um bálsamo suave. lampejar da aurora.Mas o gozo inefável desparece. que arqueja Abalam nossa essência e a divinizam? Cair da tarde. perfumes e harmonias –. Sentimos um perfume do passado. Foram seus lábios cálices mimosos. Só nos deixa saudades e lembranças: É o extremo roçar das asas brancas Do anjo da inocência ao despedir-se. Em que seu peito a palpitar de amores. Unido ao nosso coração. Em que libara o néctar das delícias. Nada equivale ao delirar do amante Ao estrear no livro dos amores . como as águas Para a flor do areal. Seu fervido sonhar realizava. Sombras da noite. Quem pode descrever momentos breves Em que lânguidos olhos de donzela. Vagos sons d'harpa aeria em dulias notas – Anjos e luz. Cores de íris. palejar da lua. que o sunn bafeja. Nunca mais o sentimos sobre a terra. murmurar da fonte.

Virgem. Mas nesse cofre. que o peito te dilatam Desvelar teus arcanos amorosos! Se na boca um sorriso lhe pairava Era um botão de rosa. que desde a infância.. que apenas desflorava a vida. Negras tranças. Mendes Leal Junior. que se abria Descobrindo o matiz de argênteos pontos.Das fruições a página dourada. E quanto almejo lhe adejava em torno! Serafim de beleza. – santuário augusto. Eles.. Nos jardins do castelo passeando. . Olhos meigos – espelho de su'alma – Arroubavam num êxtase divino. que o colo lhe beijavam Tornavam cega a alvura de seu seio.. Onde a cecem e a rosa se mesclavam.. Aprenderam a amar co'a natureza!. – – Só seus róseos dedinhos penetravam. as mãos unidas. VI Nunca a mente mais fervida sonhara Um anjo assim. Entre abraços e beijos inocentes. oh! quem pudera Nos palpites. Sua cintura frágil se envergava Como a hastea da flor. Branca era bela como a luz da aurora. que pende o cálix.

Qual moribunda lâmpada. Que lectavam em fervido torneio. Nunca tão bela. Entre os brancos vapores da alvorada. No elétrico volver dos olhos belos. Nas furnas tenebrosas se açoitavam Aves da noite.Deslizavam seus passos sobre a relva. que fulgente assoma No firmamento envolto em densas trevas. que aparecia Onde alguma desgraça negrejava. VII Vagas cores no Céu se desenhavam. no lago. Quando a procela horrisona ribomba. E dava vida ou morte em mago riso. – E como a estrela. E parece abalar do mundo os eixos – Era um íris de paz. tão aérea virgem Os sonhos de um poeta retrataram. E a negra cor dos montes nevoados Num carregado azul se convertia. Desmaiavam as pálidas estrelas. Era o mais belo serafim mandado A embelecer a solidão do mundo. E a lua descorada se espelhava. Embrandecia a sanha dos guerreiros. E se a visses trajando a cor da neve Como a virgem de Dante. que da luz fugiram. Como se aérea sílfide a roçasse. então julgarás Ver em magos jardins a linda Armida. .

Qual triunfante atleta sobre a arena.Enredadas nas folhas verdejantes Alvos flocos das árvores pendiam. Alternado por lânguido silêncio. mansão de risos. E o castelo do conde parecia O foco do prazer. Onde ledo agitava as mansas brisas O sino festival chamando ao templo. E os primeiros prelúdios da alvorada Inda à receio os pássaros trinavam. E através desse rápido intervalo Soava às vezes o eco de um suspiro. Que atravessando o ar. E ao longe ressoavam sons cadentes De música suave envolta em vivas. IX . De alegre gala os cidadãos trajados.. E. E ao longe um remo. sorrindo quebrava os brandos raios Nos altos coruchéus de São Marinho. Do bronze atroador sulfúreas nuvens Na pura atmosfera se enrolavam. tocava a terra Como nota escapada ao coro angélico. VIII Já cintilava o sol num céu sem nuvens. No semblante a alegria demonstravam. que açoitava as águas. Que será? – É o dia do consórcio Da filha do Senhor – De Branca e Oranzo..

Pela espaçosa casa errava um homem Terrível. que aleitava. Branca desparecera do castelo. Espumando de raiva. venerando velho. beber-lhe o sangue. Trincar-lhe o coração. timbre de glória Com que queria enobrecer seu ouro. Ele – o plebeu audaz. E surdo murmurar. Heráldico brasão. X Um caso tão fatal submerge em luto Os desolados donos do castelo. Era Oranzo feroz. . que ardendo em zelos. respirando a custo. A quem a idade. mancebo ignoto Lhe arrebatara a pérola brilhante. Blasfemas maldições lançava aos ares. Seu sonho o mais fagueiro se esvaia. as faces enrugando. O conde Holbachi. Jurando estrangular de Octavio o peito. Surdos sons murmurando em voz sinistra. No lívido semblante esparsa a coma.Como por um condão misterioso O estrondo dos prazeres emudece. e crebros passos Apressurados súbitos ressoam Pelos salões do gótico edifício. Longe a levava o roubador infame. como o tigre esfomeado Contra o raptor dos filhos. Rangendo os dentes. em brasa os olhos.

Quando eu for à cabana do mendigo Levar-lhe o pão. e vozes de esperança? Deslizavam meus dias derradeiros Embalados por sonhos de futuro. E os convivas. Que eu nutria por ti. .” Presa ao leito da dor. filha.A fronte d'alvas cãs lhe engrinaldara. “Filha. que me guiava Sinistra escuridão me venda os olhos. Leito da campa recebei meus ossos. Pois golpe tão cruel cortara o fio Dessa vida à lutar nos paroxismos. Cândida flor que os anjos orvalhavam Exalando os aromas da inocência. que aumentasse Brilho e esplendor a raça dos Holbachis. Triste! apagou-se a luz. As sedas do festim trocando em crepe. – nos lábios tinha Um sorriso de orgulho ao contemplar-te. e envenenaste Meus últimos momentos de existência. Vagava pelas longas galerias. Sufocado co'as lagrimas da angústia. Ferindo o ar c'os ais do desespero. que ao baile eram chamados. Só pode a morte embrandecer tais dores. Mas tu lançastes a nodoa da desonra o brasão de teu pai. Em ti minha esperança repousava. a mãe de Branca Tinha exalado os últimos suspiros. bradava em voz queixosa Quem há de sustentar-me afronta exausta. Como um florão de gloria. Quem há de dirigir-me os débeis passos.

Já banqueiam do céu torrentes d'água. Assim como esse castelo. que entre risos Como encantada habitação de fadas. salmos de mortos. Aparelha os corcéis a tempestade. Como listão de fogo os céus cingindo. Com tremenda explosão ribomba o raio. E despem da floresta a verde coma. E num momento em mármore converte . XI Eis súbito do sol descora o brilho. Ecoava nas góticas arcadas Carpir de viuvez. Mimo de amor. No frio sopro derramando horrores. E sinistra se estende e envolve os ares Negra nuvem. Com eles varre a vastidão do espaço. Em fúrias a rugir no leito imenso. Corre com rapidez milhões de léguas Pela destra do Eterno arremessado. habitação das graças. A rouquejar nos ecos das montanhas.Formaram seu cortejo funerário. Quando a noite estendeu seu véu de sombras. Eis roça lindo alabastrino colo. Eriça a juba o mar. e ao céu se alteia Em altaneiros turbilhões de espuma Depois tomba de chofre nos abismos. Vira o sol levantar-se no oriente. presságio de procela. Rajadas de Aquilões cerceiam troncos.

. Ó.... ...... no botão dos anos..E a obra prima do cinzel divino. secai o pranto...... Chamou-a um seu sorriso aos céus de glória... míseros mortais. Ela tão linda..... Da noite na mudez nos véus da aurora.. Orna de Deus supremo a frente augusta.... Passar da vida à escuridão da campa...... c'os anjos mora.... No fulgor melancólico da lua.............. Que escutava na aragem suspirosa....... Cerrou-lhe a mão da morte os longos cílios. que adornavam graças... Murchou na terra a flor. Quando apenas o calix dos prazeres Por seus lábios roçara... Que um bafejo do céu vivificava........ No lábios de coral já desbotados Tem estampado o selo do sepulcro. E fez-se ouvir um fúnebre suspiro Como o extremo arquejar de moribundo. XII Secou-se a fonte..... – e começava A compreender a etérea melodia.. quando erguera Do véu misterioso dos amores Apenas uma ponta. XIII Branca – a formosa virgem fugitiva – Vítima foi da maldição materna..

em vão co'as vagas lutas. Nos sonhos em que os anjos a embalavam!. Ela te enruga o sobrecenho irado E te acena co'as ânsias d'agonia. E.. rebenta em branca espuma: Ali. qual vidro frágil. Sobre ela o mar em fúrias se abalroa. Mísero Octavio. Sobre o negro rochedo sobranceiro Junto ao corpo da amada te arremessa. que a mão. do tempo enegrecera. que o pego açoitam. Que expiação cruel! – Mas antes ela Do que ver saciado o amor do amante. gemendo. Reina a morte – rainha dos horrores – Nos tremendos tufões. alcantilada e queda Rocha. se espedaça Veleiro barco soçobrando às ondas. E essa aridez dos gozos embotados. E nos priva do encanto das saudades! XIV – Freio das vagas – majestosa assoma Próxima à praia.. Que importa que inda um sopro de existência Te faça arfar o peito entumescido. Se o demônio terrível da vingança C'um sorriso infernal te adeja em torno!! . Que até recordações esteriliza.. Sentir já frouxo o aperto dos abraços. Já quase extinto e frio como ela.No perfume das roxas violetas.

Quando surge na mente a eternidade. em que falava aos homens Nos ecos dos trovões a voz do Eterno. O desmaiado naufrago arquejava. quase exalando o extremo arranco. Quando nos lábios a oração cicia. Desse quadro de morte pavoroso. Eis que ligeiro se avizinha à rocha. Quem seria esse homem de mistérios? Talvez fosse o demônio da vingança. Quando a tormenta em fúrias redobrava Riso feroz os lábios lhe franzia. Quando de horror o coração se gela. E ao longe se sumiu veloz qual sombra Entre os trovões e raios. Punhal puído lhe enterrou no peito. Treme o punhal na destra do assassino. E.XV E nesse instante. A ideia do homicídio negrejava Numa fonte abrasada. erguendo sobre ele o braço armado. e enchentes d'ódio Num coração zeloso transbordavam. Imóvel – como estátua solitária Esquecida entre combros de ruínas – Sobre a deserta praia estava um homem. Ante esse horror da natureza em lucra. . si o trovão deixava instantes vagos. Quando os joelhos trêmulos se dobrão Ante a Madona Santa do Oratório. Confusos sons á espaços murmurava. Onde. E. que estalavam.

em cujo peito Há pouco ainda o coração batia. Que do arcanjo da morte o sopro gélido Passou por mais um ente. triste e grave o bronze entoa A merencória nênia dos finados. Que é como um ecoar da eternidade. Em que o lençol é fúnebre mortalha. Pregoando que a lousa dos sepulcros Sobre mais um cadáver vai feixar-se. Cinge-lhe a fronte alvíssima grinalda De rosas e cecens – símbolo usado Da inocência.Que se envolveu no manto da tormenta Para ser instrumento do ciúme. E onde o corpo repousa em cinzas frias! Quem são esses. Como uma voz. que à campa se encaminham Deitados nesses negros ataúdes? Vede – um formoso rosto de donzela. que o tumulo levanta Para mostrar o nada dos humanos. E a imensa majestade do Infinito! Quem rasgaria o invólucro de argila? Quem faria o terrível passamento? Quem vai pousar a fronte enregelada o duro travesseiro desse leito. pureza e virgindade – . – Lírio que o vento derrubou na lousa – Resalta dentre o crepe em que se envolve. XVI Solene. – Pavoroso sinal. – pregão terrível.

Ao seu lado um semblante de mancebo. quebrava Essa mudez solene e aterradora. dizem – Octavio e Branca. E nessa muda solidão do templo Soaram uns suspiros sufocados. Apenas bruxuleia a luz mortiça Da lâmpada sagrada sobre a campa. Por todos esquecido. Só o sussurro d'asa dos morcegos Voando em torno à lâmpada. No verdor da existência emurchecido. Garret. Apagar-se-ão as tochas mortuárias. Parecia que o velho adormecera . amantes desgraçados. prostrado em terra. Que encerra os novos hóspedes da morte. Após momentos nada mais se ouvia Pelas longas abobadas antigas. ali ficara. Eram dum velho. Já baqueou a lajem do sepulcro. que. começa a eternidade. XVII Deu a volta final e derradeira A chave do ataúde – cai a lajem Sobre a boca do túmulo – a existência Se esvaeceu. E as letras. que na campa se gravaram Em dois anéis entrelaçados. E findar-se-ão os salmos dos finados.

e que na infância ouvimos muitas vezes da boca de nossas amas. Notas. Esta crença popular tem muita relação com aquela dos Lobisomens. Mas o Vampiro do povo – a entidade sobrenatural é o defunto ambulante. Quando raiou a aurora no oriente. para alimentar sua efêmera existência com o sangue dos vivos. e pinta-o como um morcego colossal. Que ao pedreiro sagrado as bases deve: . que espera o sono de sua vítima para vir rasgar-lhe as veias. Ele torna a ressuscitar aos raios da lua. E então cantou-se o oficio dos defuntos Pela extinta família dos Holbachis. animado d'um espírito infernal. – Mr. tornam-se por sua vez Vampiros. Tropeçou sobre um corpo inanimado. Sobre a antiga república ditosa. sentados junto à lareira nas compridas noites de Inverno. vem peregrinar sobre a terra. celebrada na lenda de Lord Ruthwen. e derrama por toda a parte por onde passa a desonra. que quebra a lousa da sepultura. a desgraça. Eugenio Sue no Judeu Errante fala do Vampiro. que parece ser uma transplantação de Portugal. e. e o crime. a miséria. essa entidade misteriosa e satânica denominada Vampiro. para mitigar-lhe o fogo do clima abrasador. molhando-se no próprio sangue que o Vampiro extraiu. e todos aqueles a quem ele exauriu o suco vital. enquanto a refresca com as asas. e beber-lhe o sangue.Reclinado na lajem funerária. que pesa sobre ela. De maligno Vampiro redivivo Bem conhecida é essa criação fantástica dos modernos povos Gregos. e lhe oprime o coração. E o sacristão abriu do templo as portas Para rezar-se a missa da alvorada. etc. que personifica essa larva da imaginação popular. si não comem um pouco da terra da cova de que se eles levantam. si escapam à morte.

que murcharão minha alma não tinha passado sobre ela – Realizei o meu intento. afronta ousada Do tempo tragador a foice ahenea A República de S. Marinho por um pobre pedreiro do mesmo nome. e disse que queria conservá-la para modelo de um estado livre. Até o leão da guerra. tem resistido aos vaivens. e por isso peço desculpa pelos defeitos. que livre sempre. e ainda o sopro das paixões ardentes. – Napoleão – a respeitou. Marinho. . e quando o quis modificar para manda-lo ao público. Que fazer pois? Conservei-a intacta. talvez pela milagrosa influência de seu fundador. É espantoso como esta República microscópica colocada sob a proteção do Papa se tem conservado até hoje no seu primitivo estado. depois que alguns séculos já sobre ela passaram para se sumirem na voragem do tempo. porque contava pouco mais de 14 anos. sobre a cabeça do filho culpado. e causou-me tanta impressão que resolvi-me a fazer passar a cena de um Romance no seu território. e que nunca a devemos provocar ou assoberbar. e quiçá puerilidades desta produção dos meus primeiros anos. Tinha eu então a imaginação fresca e brilhante. que tem mudado a face de outros Estados Europeus. – Essa. de que a justa maldição dos Pais cai como o anátema de Deus. Marinho. Saiu um Romance amoldado à S. achei-me na impossibilidade de tirar-lhe esse colorido e forma natal com que o tinha produzido a minha fantasia de criança. tal qual tinha saído da lavra. e tomei por objeto essa pia e religiosa crença popular.Li nos primeiros anos de minha adolescência num desses periódicos literários da Europa a tradição maravilhosa da fundação da república de S.

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