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Projeto de estágio: musicalização para deficientes visuais

Resumo

Raphael Ota raphael_ota_@hotmail.com Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Este trabalho tem por finalidade relatar o projeto de estágio “Musicalização para deficientes visuais” que está em andamento e a importância de realizar tal atividade para os alunos com deficiência visual, os professores e para a universidade. Aulas de musicalização para pessoas com deficiência visual é uma atividade desenvolvida no decorrer do ano letivo de 2010 como requisito da disciplina estágio supervisionado I, do terceiro ano do Curso de Graduação em Música da Universidade Estadual de Maringá e está sendo ministrada semanalmente na cede do Departamento de Música da UEM (DMU) com alunos entre 11 à 32 anos. Estas aulas que partem de autores como Isabel Bertevelli e Keith Swanwick acontecem desde 2008 e têm obtido um bom resultado. Materiais alternativos para utilização nessas aulas e reflexões sobre a educação musical especial são constantemente levantados, contribuindo para a formação como educador dos envolvidos e dando suporte para textos e pesquisas acadêmicas nesta área.

Palavras-chave: Estágio, Deficientes visuais, Musicografia Braille.

Introdução

Este projeto é requisito da disciplina Estágio Supervisionado I do Curso de Graduação

em Música, habilitação Licenciatura em Educação Musical da UEM. O projeto de estágio

intitulado “Musicalização para deficientes visuais” será desenvolvido no Departamento de

Música da UEM, vinculado ao curso de extensão com mesmo título. Tal curso tem por

proposta atender um número de 7 alunos com idades entre 10 à 32 anos. As aulas serão

realizadas semanalmente, às terças-feiras das 19h às 20h30. As mesmas acontecerão no

período de março a novembro de 2010 com duração de 1h e 30 minutos cada. Tal proposta

tem por objetivo oportunizar a vivência musical por meio de atividades práticas coletivas.

Este projeto refere-se a uma proposta de estágio que será aplicada a portadores de

deficiência visual, que chamamos de DV, e tem como objetivo promover a iniciação musical

por meio de práticas pedagógico-musicais. Estas acontecerão utilizando os três elementos que

compõem um tripé importantíssimo na formação musical: criação, execução e apreciação.

Para cumprir este objetivo, serão oportunizadas atividades em que o aluno vivencie a música,

explorando o canto e a percussão corporal, e utilize de materiais do cotidiano do aluno.

As aulas serão estruturadas de forma que os alunos, gradativamente, desenvolvam o senso rítmico-melódico e a notação musical alternativa encaminhando-os a Musicografia Braille. O objetivo desta proposta é internalizar os elementos básicos da música e está fundamentada em Isabel Bertevelli e Keith Swanwick.

Objetivos

Vários objetivos foram traçados ao desenvolver um projeto de música para deficientes

visuais.

A principal meta é a iniciação musical por meio de atividades práticas e coletivas. Essas práticas têm como direção a execução instrumental, a criação ou criatividade musical e apreciação musical através de músicas gravadas, canto e diferentes instrumentos musicais.

Neste projeto, a criação ou criatividade musical consistirá na habilidade de criar trechos rítmicos e melódicos conectando-se com a execução musical. Tudo o que for criado deverá ser executado pelos alunos em qualquer um dos diversos instrumentos que podem ser utilizados, assim como a voz, percussão corporal, xilofones e instrumentos de percussão. Os alunos serão estimulados gradativamente, no decorrer das explicações dos conceitos musicais contando com a ajuda indispensável da apreciação musical. Todas as aulas terão este momento de apreciação, com o intuito de oferecer aos discentes uma nova escuta. Eles terão a oportunidade de conhecer um estilo de música que nunca tinham escutado e também estarão aptos a analisar nas músicas os conceitos aprendidos em sala de aula.

Com isso, pretendo desenvolver o senso rítmico-melódico, dando fundamentos musicais e assim, também a oportunidade para esses alunos prosseguirem com seus estudos musicais como instrumentistas amadores ou profissionais, usando ou não partituras em Braille.

Devido a carência de profissionais especializados neste campo da educação é importante oferecer aos alunos da graduação em música, a oportunidade de trabalhar com aulas de musicalização para pessoas com deficiência visual, complementando a sua formação como músico acadêmico.

Projetos como este tem a importante função de atuar como laboratório para a formação de profissionais habilitados neste ensino. Esses profissionais são requisitados a medida que

aumentam o número de inscrições de candidatos com deficiência visual no vestibular para graduação em música. Assim, estaremos também criando um espaço para desenvolver pesquisas neste campo de educação, que ainda possui poucos materiais a disposição.

Este projeto culminará no desenvolvimento do meu estágio e TCC. Creio que seja um campo de importante atuação, podendo contribuir com a formação de mais profissionais, pesquisas relacionadas à educação com deficientes visuais e sociabilizando o espaço da universidade com a comunidade de DVs.

Justificativa

Poucos são os profissionais especializados neste tipo de educação. Uma das pioneiras tratando desde assunto, educação especial, é Dolores Tomé. Segundo Tomé em seu livro “Introdução à Musicografia Braille” (2002, p.17) “é dever daqueles ditos ‘normais’ engajarem-se na luta pela integração do deficiente ao nosso meio. Ao contrário do que imaginam os leigos, a técnica de leitura e escrita Braille pode ser aprendida com relativa facilidade e em curto espaço de tempo”.

Com a carência de professores especializados, Dolores Tomé tem realizado cursos de introdução à Musicografia Braille com professores de música de alguns conservatórios que tem interesse em trabalhar com pessoas com deficiência visual, e os resultados têm sido muito bons. No fim do curso, professores conseguem ler, redigir e transcrever partituras musicais em Braille. Dolores acredita que com seus cursos, irá “ampliar o número de profissionais capazes de atuar na integração dos cegos e na sua formação profissional” (TOMÉ, 2002, p.18). Este é seu principal objetivo, promover atividades para formar maior quantidade de especialistas em Musicografia Braille.

Assim como Dolores Tomé, esta proposta tem como objetivo colaborar com a formação de mais especialistas neste campo e também oportunizar aos DVs o ensino da música. Essa ação está tornando-se cada vez mais importante devido aos vários candidatos inscritos nos vestibulares para graduação em música.

Com o projeto de extensão “Musicalização para deficientes visuais” do Departamento de Música (DMU) da Universidade Estadual de Maringá, pode-se oferecer a comunidade de DVs o curso preparatório para o vestibular em música.

É de muita importância proporcionar igualdade para ambos os candidatos aos

vestibulares, tanto os videntes quanto aos DVs. Como a prova é escrita na musicografia Braille é preciso um estudo a parte para melhor preparar o aluno, além da prática musical.

Este projeto de estágio “Musicalização para Deficientes Visuais”, que está sendo desenvolvido com pessoas que nunca tiveram contato com a música, é o primeiro módulo, porém com algumas modificações, de um projeto de extensão do DMU, “Vivências musicais para deficientes visuais: iniciação ao instrumento I-DMU/UEM”, que teve início em maio do ano de 2008 atendendo a demanda de pessoas com deficiência visual (DVs). Com o apoio do órgão interno da UEM, o Programa Interdisciplinar de Pesquisa e Apoio à Excepcionalidade (PROPAE), os acadêmicos em licenciatura em música foram convidados a participar deste projeto.

O objetivo geral do projeto era: “promover o contato dos deficientes visuais com o

conhecimento de música, oportunizando vivências musicais por meio da criação, execução e apreciação a partir do universo musical contemporâneo e iniciação à Musicografia Braille” (SIMÃO et all. 2009, p.826).

Metodologia

As ações deste estágio estão sendo desenvolvidas a partir das abordagens de Keith Swanwick e Isabel Bertevelli. Aqui trago suas respectivas considerações.

Segundo Swanwick (1979), a música pode ser vivenciada por meio de três maneiras: a composição, a execução e a apreciação. O conhecimento musical do aluno se desenvolverá com a prática de atividades que contenha estes três elementos e cada uma irá complementar a outra, ou seja, a apreciação influenciará na execução, na composição e vice-versa.

Isabel Bertevelli preconiza: “o trabalho musical com o deficiente visual, especialmente com o cego, parece simples e óbvio, pois supõe-se que eles possuem uma faculdade auditiva excepcional, mas isto é verdade somente em parte. Ele não nasce com um aparato auditivo perfeito, ou melhor, porém, a deficiência o obriga a desenvolver outros sentidos, principalmente uma capacidade muito grande para escutar. Todos os meios capazes de contribuir para o desenvolvimento dessa capacidade são valiosos, já que a maioria dos contatos com o mundo depende de sua percepção e interpretação do som. É necessário educar essa sensibilidade e percepção auditiva. Nesse sentido, a educação musical é de grande

importância, pois com ela o deficiente visual poderá adquirir maior vivência auditiva, desenvolvendo a sensibilidade e a musicalidade, explorando, discriminando sons, criando a partir destes e posteriormente, participando de grupos vocais e instrumentais” (BERTEVELLI, 2007, p.163)

O grupo de alunos para este projeto de estágio é composto por DVs que apresentam perda de visão total ou parcial. Além das vivências musicais, será proporcionado atividades que irão encaminhar os discentes à Musicografia Braille.

O que difere este estágio com o projeto de extensão realizado em 2008 é o cuidado com a grafia. Mais da metade deste primeiro módulo será estritamente dedicada a vivências musicais, sem nos preocuparmos muito com a leitura e a escrita dos conceitos musicais. O processo de grafia entrará em cena quando os princípios básicos da música já estiverem internalizados. Ao iniciar este processo, optamos por aplicá-lo de modo que já direcionasse os alunos diretamente à Musicografia Braille, ou seja, os materiais utilizados já serão uma iniciação a Musicografia.

Esse material precisa ser repensado para o contexto dessa grafia em Braille, pois questões como altura de nota, espacialização das notas e unidades de compasso são pontos que se usados baseados na grafia em tinta, não são favoráveis ao Braille. No Braille esses itens têm uma formatação diferente e por isso é condizente que seja feita uma reelaboração dos materiais de musicalização normalmente usados por pessoas com visão normal, adequando-os ao sistema Braille de escrita.

Os conteúdos serão expostos progressivamente de forma que os alunos desenvolvam o senso rítmico-melódico explorando o canto, a percussão corporal, criando e executando música. Solfejos e ditados rítmicos e melódicos possuem a importante de função de auxiliar neste processo de aprendizagem, além da apreciação musical e da iniciação à prática da leitura de partituras alternativas confeccionadas pelo professor em Braille, utilizando de colas de auto-relevo, E.V.A e outros materiais alternativos. Serão utilizados também instrumentos de percussão e objetos do cotidiano explorando os sons que podem ser feitos com estes.

Ao fim deste módulo, os alunos estão aptos e serão encaminhados para aulas de instrumentos específicos (como: piano, canto popular, violão erudito e popular) a preferência de cada um, além das aulas teóricas de Musicografia Braille e do pré-vestibular, de acordo com seus interesses nos estudos musicais.

Estas demais modalidades já estão acontecendo dentro do projeto de extensão, da Universidade Estadual de Maringá, de música para deficientes visuais com os alunos que participaram do projeto “Musicalização para Deficientes Visuais” de 2008 e 2009.

Considerações finais

Ao término deste ano poderei perceber os diversos benefícios que este projeto trouxe. Possibilitei com este estágio a participação da universidade pública na vida da comunidade, mais especificamente na das pessoas com necessidades especiais.

Além disso, o estágio terá me oportunizado a aplicação de todos os conceitos teóricos aprendidos no curso de licenciatura em música. Esta experiência acrescentará muito na minha formação de educador musical, pois é um campo de trabalho diferente que aos poucos tem conseguido seu espaço dentro da educação musical. Com base nos estudos e nas pesquisas, estarei apto a formar muitos outros profissionais dentro da musicalização para deficientes visuais, podendo assim, atender a este público interessado em estudar música.

Por último, e não menos importante, terei colaborado com a formação de músicos deficientes visuais, conseqüentemente abrindo um alternativo campo de trabalho para estas pessoas.

É esperado também, que projetos como estes na universidade sensibilize mais estudantes de licenciatura em educação musical a se especializarem neste campo que é a música com deficientes visuais.

Referências

BERTEVELLI, Isabel. O ensino da Musicografia Braille dentro do contexto da inclusão de cegos: desvendando a notação musical em relevo. In: Simpósio Paranaense de Educação

Musical, 13º, 2007, Londrina, anais

SPEN, 2007.

SWANWICK, Keith. A basis for music education. London: Nfer-Nelson, 1979.

SIMÃO, Ana Paula Martos; ARALDI, Juciane; HIROSE, Kiyomi; OTA, Raphael; FUGIMOTO, Tatiane A. da Cunha. Musicografia Braille: instrumento de inserção e formação profissional. In: Simpósio Paranaense de Educação Musical, 15º, 2009, Londrina, anais, 2009.

TOMÉ, Dolores. Introdução à Musicografia Braille. 1ed. São Paulo. Global, 2003.

BONILHA, F.F.G. Leitura musical na ponta dos dedos: caminhos e desafios do ensino de musicografia Braille na perspectiva de alunos e professores. 2006. 226 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, 2006.

SOUZA, Rafael M. V. – Educação musical para deficientes visuais: experiências no ensino da musicografia Braille. IV Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá (EPEM). Maringá - 2009