RACISMO, VIOLÊNCIA E DIREITOS HUMANOS

Considerações sobre a Discriminação de Raça e Gênero na
sociedade Brasileira
Dora Lucia de Lima Bertulio*

SUMÁRIO
1. Introdução. 2. Antecedentes Históricos 3.
Racismo Brasileiro – Estado e Sociedade na
formação
da
idéia
de
negro.
4.
Miscigenação: a Violência Sexual contra as
Mulheres Negras. 5. Raça, Classe e Gênero.
6. Desigualdade Racial – o impacto nas
Mulheres Negras. 7. Direitos Humanos e
Racismo – As Convenções Internacionais
para Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial e contra a Mulher. 8.
Considerações
sobre
o
Estudo.
9.
Bibliografia.

1. Introdução
As vissicitudes do Racismo brasileiro, que se utilizam dos paradigmas
genéricos e universais das teorias e ideologia racistas, estruturadas nas
*

 Mestre em Direito Público pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil. Visiting Scholar em Harvard 
Univeristy – Law School. 1994­95. Procuradora Federal da Universidade Federal do Paraná. Professora de 
Direito da Universidade Tuiuti do Paraná. Conselheira do Consórcio Universitário de Direitos Humanos – 
PUC/USP/COLÚMBIA   UNIVERSITY.   Consultora   para   S.O.S.   Racismo   e   Direito   e   Relações   Raciais. 
Militante do Movimento Negro e de Mulheres Negras.
1

últimas

décadas

do

Século

XIX,

apresentam

particularidades

da

formação social da sociedade colonial e imperial, que se conformam na
República e trazem para a atualidade, um referencial para a população
negra e para os indivíduos negros em particular, que perfaz o que se
poderia dizer "a idéia de negro na sociedade brasileira". Aqui o racismo
se transveste em diversas apreensões sócio-políticas-culturais de forma
a amalgamar o fenômeno, fazendo surgir outros valores meritórios que
irão inibir a auto estima daqueles indivíduos e desconstituir a
capacidade

de

desenvolvimento

de

toda

a

comunidade

negra,

desagregando sua humanidade e via de conseqüência, sua condição de
sujeito de direito. Democracia Racial, Racismo Cordial, Conflitos de
Classe ou

Discriminação

Social

são algumas

das

nomenclaturas

utilizadas pela sociedade em geral e reforçada pelas instituições estatais
que, negando o racismo estrutural e institucional em nossa sociedade,
contribui para: a) não observar os parâmetros de igualdade (formal) e de
igualdade de oportunidade (igualdade material) para a população negra,
em qualquer dos momentos de planificação do Estado, em especial nas
políticas públicas, que se encontra visível e significativamente em
desvantagem social frente aos brancos e b) não considerar o racismo
como

interferente

determinante

da

desvantagem

social

e,

em

conseqüência, da má qualidade de vida do grupo afetado o que permite
operar com uma justificativa recalcitrante do próprio racismo, ao
reverter a responsabilidade social da desigualdade no acesso e gozo dos
benefícios sociais da população negra no país , para ela mesma, a
população negra.
Apresentando, pois a natureza e performance da violência racial
engendrada por essas relações conflituosas, pretende esse trabalho,
demonstrar os efeitos nefastos dessa desigualdade racial e das relações
internas de discriminação racial, no desenvolvimento da sociedade
brasileira. Em seguida, mostrar que o impacto desses efeitos é
2

significativamente mais perverso sobre as mulheres negras., ao
potencializar as referências de raça/racismo com o valor do feminino,
formado em uma sociedade tradicionalmente machista.
Para essa determinação, os censos demográfico e sócio econômico do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão oficial do Estado
para o Censo nacional, serão utilizados e comentados. Embora aquele
Instituto apresente os dados estatísticos populacionais de forma tímida
quanto à diversidade e desigualdade racial, ainda assim, é significativa a
disparidade de todos os referenciais utilizados no Censo Oficial entre
negros

e

brancos,

que, por si

só,

respondem

positivamente

a

intensidade dos efeitos do racismo no todo social.
A violência racial contra a população negra perpetrada pela sociedade
brasileira e por indivíduos em suas relações entre si e com o Estado,
com o mais intenso impacto negativo sobre as mulheres negras, tem,
formas diferentes de lutas minimizadoras e, uma das formas mais
resolutivas é o sistema jurídico, nele compreendido não somente as
instituições jurídicas como também o conhecimento jurídico/legal em si.
Daí que não somente enfatizarei o complexo jurídico-político brasileiro
na produção e reprodução do racismo e discriminação racial, como
também os diversos remédios jurídicos internos fortalecidos pelas
Convenções e Tratados Internacionais que diretamente apresentam
garantia

e

muitas

vezes

resoluções,

para

a

minimização

da

discriminação e impulso para as relações raciais e de gênero,
democráticas.
Para esse mister, entendi fundamental para o desenvolvimento do tema,
apresentar um tópico mais longo mas também funcionando como
norteador da discussão, que é a formação da ideologia racista no Brasil,
a partir do primeiro quarto do século XIX que, ao seu final se completa
3

com as Teorias Racistas do chamado Racismo Científico estabelecido na
Europa na última metade do mesmo século. Por entender que o sistema
jurídico-político teve o papel estruturador da apreensão e lugar do negro
em nossa sociedade, estabeleci a prioridade de remeter as discussões
para esse segmento regulador do Estado e da Sociedade na formulação
da “idéia de negro” para Brasil. Os trabalhos de juristas norte
americanos, na discussão desse tema, complementaram a pertinência
de se estabelecer o sistema jurídico como formador de valores raciais
nas sociedades pós-escravistas Americanas1 e a necessidade de se
refletir sobre o papel dessa instituição na produção e reprodução do
racismo e do machismo.
Por fim, os referenciais Preto e Pardo são utilizados no texto somente
quando os dados oficiais do Instituto de Geografia e Estatística – IBGE
são apresentados. Este instituto e, aliás, historicamente o Estado
brasileiro, desde o período da escravidão, criou uma divisão no grupo
negro que remetia para uma proximidade (desejável) com o grupo
padrão, branco. Assim, os mestiços já podiam se apresentar, não mais
como negro, mas ao serem incluídos no grupo “pardo” estavam, ao
mesmo tempo, saindo da pior condição para uma nova que, de qualquer
forma, não era a original do “mal”, a negra.

Note-se que essa

padronização, e até hoje, não é auto-aplicável – as pessoas não dizem
“sou pardo”, apenas se incluem nesse grupo como alternativa para não
se incluírem no grupo “preto” que ironicamente identifica cor e não
grupo racial. Via de regra “mulato”, “moreno” ou “brasileirinho” são
nomes mais utilizados na auto identificação livre. O Movimento Negro
Nacional, de há muito, tem então, diante desse arranjo institucional e
favorável ao movimento da ideologia racista no inconsciente coletivo
nacional, tem juntado os grupos “preto” e “pardo” da nomenclatura
1

 Nesse sentido, as obras de Kimberle Crenshaw,  A Leon Higginbotham, Derrrick Bell, Patricia Williams, Katharine T. Bartlett e Cornel 
West, entre outros foram utilizadas como subsídio para este trabalho.

4

oficial para “negro”. Assim, branco e negros em uma linguagem
racialmente consciente significa os indivíduos cujos traços europeus são
preponderantes e socialmente reconhecidos como branco para branco
e, os indivíduos cujos traços negróides (africanos) sejam preponderantes
e socialmente reconhecidos como tais, ditos pardos, mulatos, morenos,
pretos, para o negro.
2. Antecedentes Históricos.
A História do Racismo nas Américas, que está intrinsecamente ligada
com o regime da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de escravos, não
pode deixar de ser trazida quando se pretende uma análise sobre o
Racismo e seus nefastos desdobramentos. E, ao contrário do que
primeiramente se apresenta, essa reflexão não se propõe a descrever ou
lamentar o período de escravidão americana e da pilhagem européia
contra as nações e povos das mais diversas etnias do Continente
Africano, em especial o Sub-Saariano.
As

referências

históricas

são

criadoras

de

culturas,

percepções,

comportamentos e ideologias, mais ainda quando as relações envolvidas
perpassam as estruturas materiais para as interiores da natureza
humana, como identidade, rejeição e ódio. É dessa formulação, então,
que estamos tratando, o que impõe a referência ao período histórico
nomeado, especialmente ao século XIX, cujo final trouxe para o Brasil e
igualmente

para

as

sociedades

Européias

e

Norte

Americana2,

revoluções3 e guerra, que alteraram – não necessariamente modificaram
– as relações entre brancos e negros nas dadas sociedades.

2

 Minhas referências de estudo deixam de lado os outros países Latino Americanos em razão da especificidade da exposição, que se limita 
ao Brasil e traz, por outro lado, a Europa e os Estados Unidos da América porque são fontes imprescindíveis das relações internas 
brasileiras.
3
 No caso brasileiro,  refiro­me a uma revolução nos paradigmas político/ideológicos, já que não tivemos comoção social que tenha sido 
significativa nacionalmente.

5

 226 a 229. 40% dos quase 10 milhões de africanos importados pelas Américas desembarcaram em portos brasileiros”.  p. Rio de Janeiro. Maio 1888.11. em 1872 a população negra havia se reduzido em 60%. dos quais milhares foram contrabandeados após a determinação oficial do fim do tráfico negreiro: “Entre esses (1. já computado o extermínio de negros durante a Guerra do Paraguai. São Paulo :  Companhia das Letras. em 1850. Ao tempo da abolição. a população negra não escrava. estavam pois. 1986. 1 º declara livres os  africanos importados após a sua edição. 5  Chamada Lei Euzébio de Queiroz e que determina a proibição do tráfico negreiro em território brasileiro – Seu art. se não falham os cálculos estatísticos que existem. 6  NEQUETE. política e civil. segundo CHIAVENATO. em grande número. a sociedade brasileira.000) se devem contar muitos. 1997. Manolo. conforme FLORENTINO4. Em 1883 estimava-se que havia em território nacional 1.000 ( um milhão e trezentos) escravos. Nesses dezenove anos.. 1866.  Em Costas Negras. de forma que. Lenine.O Brasil foi o maior importador de escravos africanos nas Américas. São Paulo : Brasiliense. introduzidos no período decorrido desde a Lei de 7 de novembro de 18315 até a época em que cessou o contrabando. 7  CHIAVENATTO. caminhando para seu final e ter.” 6 As relações entre Estado e Sociedade na segunda metade dos anos de 1800.1% da população brasileira contra 9% de escravos7. significativamente determinadas pela realidade de estar tal regime. Júlio. à época e antes da Guerra do Paraguai. avalia-se terem entrado de 180 a 190 mil africanos.300. P. a propósito da vigência da  Lei de 7. “Entre os séculos XVI e XIX.300. que apresentar planos e propostas relativamente ao contingente negro que. durante os 350 anos de comércio de homens e mulheres das costas da África para a costa brasileira.  Uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro. 6 . ob. ao mesmo tempo. perfazia quase dois terços da população nacional contados escravos e livres. O negro no Brasil. e as ações de liberdade.1831 que proibia a descarda de mercadoria humana vinda da África. o escravista. perfazia 50. cit. 4   FLORENTINO.. 177 – transcrição de artigo de Juiz de Direito de Cabo Frio.

abastecida até 1831 pelo tráfico negreiro.. assunto de real importância no segundo quarto do século XIX. As mulheres. Assim. A reprodutividade/fertilidade das mulheres escravas tornou-se.A formação da população negra escrava. Trad. Assim. Somente as mulheres geram “crias”. quando e até 1850. havia uma desproporção de até 40% entre homens e mulheres escravas noticiado no Rio de Janeiro no início do século XIX. mais e mais a reprodução tornou-se o caminho do lucro e da manutenção do patrimônio . a partir de 1831. comercialmente tinham menor valia para o trabalho rural na Colônia e Império brasileiros. Thomas. citado. Entretanto. Rio de Janeiro : Paz e Terra. mais caras na compra no continente africano. agora que a compra tornava-se mais e mais difícil. então e freqüentemente encaminhados para os reservatórios 8  FLORENTINO. 1976 7 . o que definitivamente limitou o contrabando da “mercadoria” humana e sua entrada em nossos portos. p 55­58. para preservação do sistema e produção de lucro. Ao contrário. Ainda. Raul de Sá Barbosa. SKIDMORE. FLORENTINO traz em seu trabalho descrições e fatos históricos que revelam serem os homens. segundo a lógica econômica do período8. Em Costas . o papel de ama de leite que as mulheres escravas domésticas exerciam no campo da maternidade. a reprodução nas fazendas escravocratas não era um produto de ganho significativo. no dia a dia das relações escravocratas. entre 10 e 34 anos. em razão de sua utilidade social naquelas sociedades de base rural.. via de regra com a conseqüente perda de seu próprio filho – órfãos. o grosso do contingente de importados naquele período. Raça e Nacionalidade  no Pensamento Brasileiro. Manolo. Preto no Branco. com o fechamento completo dos portos por navios ingleses. não estava necessariamente relacionada com o equilíbrio regular de indivíduos: homens e mulheres. além de sua natureza de manutenção da espécie – a reprodução. Ver igualmente.reprodução do material escravo.

mas já concebidos no ventre materno. Se nascem escravos os filhos de escravas com ventre escravo. que nome deve ter? Libertação do ventre é o nome desse ato novo.] O Direito Brasileiro realizou a divisibilidade (da liberdade) local por suas leis de libertação do ventre. torna-se duplo com o fim do tráfico. é alforria. estes fenômenos apresentam resultados negativos. Invariavelmente superpostos. “Libertar escravos nascidos é manumissão (manumissio). pois que vemos de futuro um ventre livre de mulher escrava! [..] Esse germe nos ensinou unicamente a ver uma mulher livre no seu ventre livre. a ver uma mulher escrava no seu ventre escravo. de gênero e raça. Libertar. Essa linha de pensamento deve ser referencial como ambiente social no exame do Racismo brasileiro. dessa delicada criação jurídica. como melhor se diz em Direito Brasileiro. uma vez que... nem ainda concebidos no ventre materno. [. porém. se o parto é escravo seguindo o 8 . [. agora os ventres escravos estavam requeridos para produzir escravos e também criá-los à idade produtiva. significativamente mais severos na qualidade de vida da mulheres negras.. que não sabemos por quem foi pela primeira vez escrito ou pronunciado. nada mais que a mulher livre no ventre. nós elevamos ainda mais a onipotência das Leis.. que ato será.. Essa regra também está salva porque. escravos nem nascidos. bem como a violência contra a mulher negra resultante de ambos os conflitos. porém. nascem livres os filhos de escravas com ventre livre. máxime em se tratando da interferência das relações raciais racistas na sociedade brasileira frente às relações e conflitos de gênero.]. como se diz em Direito Romano. escrava no resto de seu corpo. Também é manumissão e alforria libertar escravos ainda não nascidos.(Casas de Correção) do Governo.

para sua própria manutenção. na segunda metade do século XIX. 9   NEQUETE. o movimento positivista nas ciências. Brasília :  Fundação Petrônio Portela. são alguns dos momentos de crise e revolução. Lenine. o parto é livre seguindo o ventre livre. MARX e F. a determinar uma reorganização do pungente capitalismo. os Estados periféricos haviam de se adaptar aos novos ventos econômicos e o escravismo nas Américas formava o traço mais forte e ao mesmo tempo mais ameaçador para o novo sistema que se montava. O socialismo.” 9 O texto é marco na formação das relações raciais brasileiras que se estabelecem ao longo do período colonial e imperial escravista. Ainda. a partir de 1850 novos interferentes se estabeleceram no cenário deixando mais fragilizadas as economias centrais que deveriam. bem assim a empreitada colonialista na África devem ser referenciados. com os trabalhos de K. 1988.  Escravos e Magistrados no Segundo Reinado :  Aplicação da Lei 2040 de 28 de setembro de 1871. muito especialmente nas ciências sociais. 128 9 .ventre materno. a Revolução Industrial e o crescente empobrecimento dos trabalhadores europeus que abre um dos maiores processos migratórios modernos. e próprio do mesmo processo. Face aos processos revolucionários e de reorganização econômica da Europa e Estados Unidos no primeiro cinqüentenário dos anos 1800. ENGELS. no plano do conhecimento. com os procedimentos de montagem da nova estrutura político-econômica para vencer a mudança para o trabalho livre. p . fortalecer a exploração e o domínio sobre os países periféricos – e até hoje – fornecedores de matéria prima. mas que apresenta seu ponto forte de interrelações e apreensões.

na Europa. como foi o tráfico e comércio negreiro quanto aos povos da África. ao equalizar negro – escravo – liberto. já se formulava. que o racismo. no Brasil. após a proibição do comércio de africanos.. e agora servindo para a sociedade brasileira. igualmente. Vale dizer.Talvez seja possível argumentar sem excessos. a única forma de escravidão era a herança genética. na impossibilidade de transformar-se homens livres em escravos. cit. Manolo. competentemente apresentada pelas Instituições do Estado. que é o baluarte do Estado Moderno e das estruturas jurídico-políticas democráticas. necessita de uma justificativa que preencha os sentimentos internos cristãos sem mágoas para o Céu. Estado e Sociedade na Formação da Idéia de Negro A Lei do Ventre Livre. A lógica moral do comércio de almas10 bem assim do escravismo moderno sobre povos africanos – negros. Em Costas . como pretendo desenvolver no próximo tópico. por proibição constitucional para brasileiros. ob. é a primeira lei abolicionista brasileira e somente é editada em 1871. A humanidade dos indivíduos escravizados não pode se assemelhar à dos homens livres.. sob pena da desconstituição dessa mesma humanidade. 3.Racismo Brasileiro. na escravidão negra americana. e no Brasil. do Sul e do Norte. também pode trazer resquícios da confusão escravista de apreensão do indivíduo negro. a outra e única alternativa era a 10  FLORENTINO. nas relações econômicas dos Estados escravistas e pós-escravistas com caracteres distintos que vai se somar às teorias científicas. mesmo tendo se utilizado dos parâmetros científicos (ou pseudo-científicos) do final dos anos 1800. por conseguinte. Como já referenciado. engendrado nas Colônias Americanas Central. É de se refletir. que o “natural” encaminhamento das questões de raça/racismo para a justificativa das relações econômicas que Estado e Sociedade se preservam. 10 .

as ações de liberdade.   demonstrando   o   desejo   do   Estado   Imperial   em   libertar   os   escravos. embora os estupros e relações interraciais onde os homens brancos. com esta Lei. ensinado nas escolas como curricular desde o nível elementar. ob. serão considerados de condição livre. libertador12 . reportado pela história).270 de 28 de Setembro de 1885 que  determinava aos senhores de escravos a proceder a uma nova matrícula de seus bens humanos. “A respeito dos primeiros (africanos) a filiação era indiferente. engravidavam mulheres negras eram comuns e de número significativo. o que cumpre o propósito que proponho nestes estudos. acima transcrito. a produção de escravos no Brasil. senhores ou não.. transmutavam o artigo o seu artigo primeiro.  à propósito da interpretação da Lei 3.  Escravos e Magistrados .09. uma vez que a origem do cativeiro estava na importação.procriação. que nascerem no Império desde a data desta lei. na medida em sua referência faz parte do  conhecimento histórico nacional sobre a escravidão. Assim. 11 . 1º Os filhos da mulher escrava. os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. as mulheres a partir dos anos 1830 e exclusivamente a partir de 1850. onde os escravos poderiam requerer a libertação sob determinados requisitos e critérios. Quanto aos segundos. eram considerados livres (veja-se que a paternidade era irrelevante para o filho mestiço que seguia a origem da mãe. 11   NEQUETE. era essencial a filiação. Lenine.1871. do papel da Lei do Ventre  Livre na estruturação ideológica do racismo brasileiro.   todos   nós   somente  conhecemos o artigo primeiro da lei. Relativamente às crianças nascidas livres em razão da Lei. eram reprodutoras de escravos.. de mãe escrava. porque só a descendência escrava autoriza o cativeiro dos indivíduos nascidos no Brasil”11 A determinação de que a partir da Lei 2040 de 28. todos os nascidos no Império brasileiro. no qual funciona  como   legislação   libertadora. também. § 1º Os filhos da mulher escrava ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães. Estes dispositivos. Ocorre que essa Lei trazia. uma regulamentação sobre a “liberdade” ou seja. Encerrava-se neste momento. na verdade.   No   entanto. 12  A história oficial brasileira traz a Lei do Ventre Livre ao conehcimento de toda a população. cit. o texto era expresso para determinar que: “Art.

se resumia a ter que. A liberdade. Rio de Janeiro. Aliás.   fonte das atuais casas de correção para crianças e adolescentes  delinqüentes – FEBEM. sim eram apresentadas a todos. obviamente não era dada à mãe.]”.  127­129. O princípio humanitário de igualdade e o de liberdade formal. a legitimidade de direitos se distancia.. como os  ‘ingênuos” ou crianças libertadas pela Lei do Ventre Livre. o senhor da mãe terá a opção... No primeiro caso o Governo receberá o menor. para os grupos branco e negro em nossa sociedade. mas ao senhor da escrava mãe. agora passa a ser não somente14 para os grupos/classe sociais. como aliás era o destino de escravos que fossem irregularmente transacionados por seus senhores ou os chamados escravos  perdidos  em   que   após   divulgação   de  terem  sido   encontrados  não  eram   reclamados   pelos  seus   respectivos   donos. portanto. O Governo encaminhava aquelas crianças para um regime de prisão e trabalho   forçado. em conformidade da presente lei [. onde o tratamento não se equipara.   O  destino   destes  indivíduos . Por técnica jurídica. a criança nascida livre ser entregue para uma instituição do Governo – espécie de Orfanato e Reformatório13 ou continuar escravo até os 21 anos. extensamente defendido pela elite e introjetado no cotidiano das relações sociais. mas que tinham legitimidade e efetividade diferentes e hierarquizadas.   pois estes são bem tratados. o que   significou um avanço histórico decorrente das modernas Declarações de Direitos do final do século XVIII. quer se tratasse de indivíduos brancos.   no Brasil. que comprovam terem  sido essas Instituições.09. quer se tratasse de indivíduos negros. os cidadãos que a Constituição do Império nomeava e garantia plenos e totais direitos fundamentais. em significativo instrumento de orientação ideológica para a apreensão de direitos e garantias constitucionais que. UERJ. então. verdadeiros depósitos de crianças. Somente mediante essa   nova perspectiva é possível transitar­se da igualdade formal para a igualdade material ou substantiva” Temas de Direitos Humanos. ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. São  Paulo : Max Limonad. já naquele período – brancos e negros. 13   Há forte presunção e trabalhos como a tese de Mestrado de Ana Maria RODRIGUES. divididos em relação ao seu “status” econômico. os “brasileiros livres”. (Grifei). Lei 2040/28. era a Instituição correcional do Estado. [. e lhe dará destino. aos 8 anos.1871.Chegando o filho da escrava a esta idade. livres. 12 . ou de receber do Estado indenização de 600$000. opção que. como também. p.. Esta lei transforma-se. a fim de que as especificidades e as diferenças sejam observadas e respeitadas. sequer com o de porcos em  fazendas de suinocultura. os frutos dos partos “livres” eram então e também. que recebiam os filhos de escravas “livres”.] Torna­se assim necessário  repensar o valor da igualdade. 14  Os estudos e reflexões sobre Direitos Humanos apresentados por Flávia PIOVESAN  estão   aqui   reconhecidos   como   da   compreensão  da Igualdade Formal versus à Igualdade Material: “A igualdade formal se reduz à fórmula de que ‘todos são iguais perante a lei’. em relação à raça do indivíduo.

a idéia jurídica de liberdade para os negros. não só alimentava a segregação sobre o indivíduo com base na raça e não na sua condição de ser escravo. negros e escravos como representando uma só imagem. pois que. mesmo a igualdade formal. O negociante sofrerá multa . enquanto estrutura das relações jurídicas de sujeito de direito. do reduzido valor que é aferido conforme o pertencimento às classes sociais desprovidadas de riqueza. Aquelas normas exemplificam como o sistema legal brasileiro. Veja-se as ordenações Municipais (Posturas). como também retirava do imaginário social de negros e brancos. Esse modelo autorizava toda a sociedade. são outro dos significativos momentos de elaboração institucional da desigualdade racial em nosso Estado.liberto . sutil e sub repticiamente. ao tratar sobre o trabalho e os espaços de locomoção e permanência permitidos aos escravos.escravo.. ver e sentir de igual forma. direitos e garantias fundamentais. à época admitidos por lei.cativo . As Posturas Municipais. Esta referência dada pela lei ao designar ou caracterizar o segmento negro da população. Vários foram os momentos legislativos em que o Estado brasileiro propiciou a apreensão do indivíduo negro na sociedade brasileira a partir de sua inferioridade e desumanidade frente ao segmento branco. a igualar. através dos nomes preto . regras de comportamento do município que organizam as cidades. Tal relação sugeria absoluta conexão entre ambos: escravos e negros. diante do grupo negro no período 1870-1888: “É proibido ao negociante de molhados consentir em seus negócios pretos e cativos sem que estejam comprando. aqui – para a população negra. não se faz presente. não os distinguia dos negros que se tornavam livres através dos diversos processos de libertação..inclusive.”(grifei) 13 . utilizados indistintamente.

o que ocorreu em 1891 com a primeira Constituição da República. típicos para a população escrava . 115. Isto impõe a regulação e determinação de um novo sistema jurídico. 109 – As posturas citadas são  da cidade de São João da Boa Vista. Ademir. O Mercado de . Do mesmo modo as restrições e controle. 1986 p. se em tais reuniões consentir a polícia. O processo abolicionista que teve seu término com a edição da Lei 3. se não pagarem aos chefes de tais divertimentos o imposto de $10.” 16 (meu grifo) Devido a essas idéias e valores produzidos e reproduzidos no interior da sociedade. reafirma Ademir Gebara17. 1883.  respectivamente. o fato de ter sido libertado não concedia aos ex-escravos a cidadania. São Paulo. a abolição encerra o regime jurídico escravista e. de efetivamente se “fundar” um novo país. O Mercado de  ob. p. para raça ao invés da condição de ser escravo e a discriminação ou qualquer tratamento segregador.. que devido ao modelo escravista.São proibidas as cantorias de pretos. A razão do tratamento deslocava-se. libertos ou não. 16  GEBARA. o processo de proclamação da República que deveria por fim ao período de Estado Imperial com a chamada nacionalista. São Paulo : Brasiliense. e o princípio mestre do liberalismo político: “ todos são iguais perante a lei”. ob. fosse permitido social e juridicamente ao escravo. ainda que livre. Carta de Direitos Fundamentais. 115­118 17 GEBARA. passava a ser dado a todo negro. liberto algum sem que dê parte à polícia para obrigá-lo a tomar uma ocupação. São Paulo. Mercado de Trabalho Livre no Brasil( 1871­1888).353 de 13 de Maio de 1888.. São Paulo. então. encontrava todos os negros. 1888. modifica e reestrutura a apreensão do Estado sobre a população negra e reorganiza a idéia de negro para a população em geral. .. No campo jurídico.. p. 14 . cit. cit.. Ademir. 1885 e Itapeteninga. 15   GEBARA. Ademir.” (grifei)15 Ninguém poderá conservar em sua casa por mais de três dias. E Limeira.

  Negro no . no restante das Américas19 deixaram a elite e mesmo a sociedade brasileira alerta para o perigo do confronto racial. Preto  no Branco.. de forma a se acoplarem como verdade. relativamente à sua composição étnico/racial. o Brasil era vulnerável às doutrinas racistas vindas do exterior. Rio de Janeiro : Paz e Terra. mas sua composição demográfica estava em desencontro com os recentes movimentos político-filosóficos europeus do período de racismo científico ou teorias racistas. a nova nação se impunha. Havia uma questão renitente neste ambiente :quem seria o povo brasileiro? Os postulados positivistas. porque correm no campo da materialidade. os estudos e determinações revolucionárias no campo do conhecimento. cuja lógica e pressupostos. No mesmo sentido. ou seja. para o trabalho livre e para o desenvolvimento.Diante desta formulação jurídico-política. “Como o resto da América Latina.. no campo jurídico com o biologismo Lombrosiano. Júlio. Ver SKIDMORE. tem justificações e soluções mais amenas.”18 A população negra de origem africana perfazia mais de metade da população e alguns exemplos de guerras raciais. Os esforços para formar uma nação branca e promissora necessitavam do argumento contrário. p. além de não necessitar do desagradável exame de consciência e identidade do interlocutor.. Thomas. Thomas. 1976. ob. ob. os trabalhos de Charles DARWIN e de Augusto COMTE. 69  As autoridades e administradores brasileiros tinham em mãos os exemplos Norte­Americanos da Guerra Civil e as revoluções das Ilhas  do Caribe. Esse processo de construção da imagem negra em nossa sociedade impacta a vida dos indivíduos negros em 18 SKIDMORE. estruturando novos paradigmas na Biologia e Sociologia. os negros como incapazes para o progresso. muito especial o Haiti que havia expulsado os colonizadores e seus descendentes de seu país. cit. traziam importantes referenciais para o novo Estado.. Preto no . tanto nos indivíduos brancos como nos negros. cit. Estas formulações trabalham sobre maneira no inconsciente coletivo de toda a sociedade. CHIAVENATO.  19 15 . Raça e Nacionalidade no pensamento brasileiro. Melhor o social.

negros e brancos. A violência se instaura como modo de vida para esses indivíduos. 2001 16 . diante da nova realidade jurídico política. Desde sua primeira Constituição. a referência racial seja feita. Trabalho  apresentado na Reunião Regional preparatória da III Conferência Mundial contra o Racismo. genérica e totalmente: “As sociedades que tem nas propriedades físicas. com a aparência de que todos. num movimento introspectivo. o fundamento das suas desigualdades sociais se colocam de modo favorável para que a criança. então. agora reorganizado. Xenofobia e todas as  formas de intolerância. Maria Palmira da. RS. Discriminação Racial. Porto Alegre. Um exemplo pode ser tirado da primeira Constituição Republicana. Novamente. e essa compreensão começa a se desenvolver desde as suas primeiras experiências no mundo social. de forma subreptícia e de maneira que a informação é recebida sem que. estariam disponíveis e prontos para a ação estatal de repressão ou de garantia de direitos. é apresentada nos textos legais. explicitamente.”20 As instituições do Estado formam o aparato que hegemoniza o projeto e tomam a dianteira para a sua execução: o Brasil promissor deve ser formado por um povo também promissor: uma nação branca. de 1891: 20   SILVA. na medida de sua potencialidade na produção e organização de valores sociais. Fundação Palmares. a condição social se transveste sobre a condição racial. Jan. O Direito é a instituição privilegiada. A apreensão da inexistência do Racismo pelo Poder Judiciário age em consonância com os demais poderes do Estado. que a advertência e a concordância decorrem das suas características visíveis. a República e reafirma a verdade valorativa da incompetência no lugar da discriminação. essa formulação de desvalor aos negros somente por sua condição racial. atribua significado social à cor da pele através de sinais de aprovação ou de desaprovação enviados pelos adultos. Descobre-se.todas as suas interrelações na sociedade. O anti­racismo no Brasil: considerações sobre o estatuto social baseado na consciência racial.

 p. constitucionalmente. Minas Gerais. os negros. de quem são os mendigos. Os mendigos. como a oferecida por Carlos MAXIMILIANO: “A expressão mendigos. 163 e segs. que veio encontrar a Constituição de 1891: “ Trabalhadores livres: 1.170 Trabalhadores escravos: 656. sabendo-se que quando ocorreu a extinção do trabalho escravo os indivíduos que passaram para a condição livre foram preteridos para o trabalho livre e substituídos por imigrantes.  Ainda. Florestan. na quase totalidade. 1979. § 2º. Rio de Janeiro : Graal. São Paulo : Ática 1978.540 21  ­ BRASIL.” 23 MOURA nos diz quem são. efetivamente. do texto.. 1891. 70. Integração do Negro na Sociedade de Classes.”  23  ­ MAXIMILIANO. § 1º Não podem alistar-se eleitores para as eleições federais ou para as do Estados: 1º .  p. Constituição de República Federativa do Brazil . Pernambuco. incorporando­se à massa  de desocupados e de semi­ocupados da economia de subsistência do lugar ou de outra região. como os  antigos libertos..433. Os analfabetos. 678.  ­ HASENBALG. Carlos. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. que se alistarem na forma da lei. 17 “.“Art. e a degradação de sua situação econômica. 2º . Bahia. mais precisa. maiores de 21 anos. é de se inferir que a maioria da população ex-escrava encontrava-se na situação de mendicância de que a Constituição fala e proibidos. entre a reabsorção no sistema de produção.  22 17 . p. interpretação vem especialmente complementada com a definição. abrange a totalidade dos indivíduos que não têm tecto nem renda. São inelegíveis os cidadãos não alistáveis” 21 Dada a proximidade da abolição e. Art. Comentários à Constituição Brasileira de 1891.1918.70. nas cinco principais províncias do país em 1882 (São Paulo. FERNENDES. política. São eleitores os cidadãos . Carlos. estes indivíduos sem teto nem renda. de participação Essa na vida 22 . Ceará e Rio de Janeiro). em  condições substancialmente análogas às anteriores. os ex­escravos tinham de optar.

583 “Os desocupados eram ex-escravos marginalizados que depois iriam ingressar na faixa dos servos que aumentariam progressivamente no Brasil. concomitantemente. quando repressivas. P. se por um lado o Direito cria no cidadão a expectativa de respeito. via de regra. Os indivíduos convivem. justiça e igualdade. sugere e muitas assegura a impunidade como se esta fosse parte do próprio sistema jurídico. e é a Instituição do Estado acima de qualquer suspeita. Neste contexto. pobres. A elite dominante e/ou os seus mantenedores.822. Tal realidade determina que as leis. 50. por outro lado este mesmo Direito apresenta para a sociedade a “possibilidade” de respeitálo ou não. pretos e prostitutas. Nesse ambiente. 1981. então. Rebelião da Senzala. seguindo-se algumas regras implícitas e instituídas a partir dessa relação dúbia.Desocupados: 2. seguir ou respeitar as leis no Brasil pode ser mais uma questão de poder dentro da estrutura 24  ­ MOURA. o sistema jurídico nacional com seu papel privilegiado na Sociedade Política. Este paradoxo na atitude do brasileiro e do Estado brasileiro frente ao sistema legal. não são “perturbados” com o Direito ou. de que o Direito no Brasil se aplica preferencialmente a três “P” . 24 (m/grifo) Assim que. tenham efetividade privilegiada nas populações marginais. têm resguardados os princípios universais de garantias dos direitos constitucionais. Clóvis. freqüentemente praticada pelos próprios agentes do Estado. trabalha como modelador de conceitos e preconceitos à respeito da população negra. o espaço da garantia e segurança jurídica para todos. sempre estabelecendo. Isto alimenta uma regra implícita e muito utilizada pela Polícia e Polícia Judiciária. A ambigüidade se dá em razão de que. a aplicação da lei se apresenta em uma relação direta de dependência ao status pessoal do peticionário ou violador. 18 social/racial do que de . simultaneamente com o Direito como um sistema de garantia de direitos e deveres ao lado da violação de seus comandos e conceitos.

Quer em seu sistema repressivo institucionalizado – as polícias. Veja-se a decisão do Juiz frente a uma vítima negra sobre o crime de racismo: 25  MARIANO.manutenção de um sistema jurídico estabelecido que. 3­1. Maria Inês BARBOSA oferece em seu trabalho de doutoramento na Universidade de Campinas – SP. pela razão única de pertencimento racial ao grupo negro. Os Juizes. se são as vítimas. Benedito MARIANO. matam mais os negros contra o enfarto que é a primeira causa “mortis” para homens brancos. quando exercem seus poderes de controle e repressão e investigação. assim. Benedito. Quer no sistema judiciário propriamente dito. Tribunais e operadores jurídicos ao serem instados a aplicar a legislação anti-racista apresentam sua percepção de sociedade racista e argumentam e julgam exclusivamente baseados nos estereótipos apresentados pela perpetuação do racismo onde. quando retrata as mortes à bala que. o PNAD 1996 registra o percentual de população negra de 33. onde está o Estado de São Paulo. o conjunto de normas protetivas da violação dos direitos fundamentais e raciais são desconsiderados para que o caso seja arquivado sem comprovação da violação. São Paulo SP  20 de outubro de 1999 p. é o próprio mantenedor do sistema. In Folha de São Paulo. uma das violências mais explícitas no cotidiano das vidas no negras Brasil. quando Ouvidor da Polícia Militar do Estado de São Paulo noticia que. O racismo institucional exercido na estrutura jurídica apresentada. “Negros são 62% das vítimas de morte violenta por policiais no estado de São Paulo25. Negros são 62% da vítimas. a real situação dos indivíduos negros no sistema repressivo nacional.5%. por um lado os autores negros têm julgamentos e penas mais rígidas que os brancos para mesmos delitos e por outro lado.  19 . compõe. o exercem preponderantemente sobre a população negra. Na Região Sudeste. paradoxalmente. Ouvidoria da Polícia Militar de São Paulo.

“R.] Não obstante. de cor negra. independentemente desigualdades sociais. item XLII. 27 Ainda como projeto do Estado brasileiro. Renato da  Silva. Lilia M. 27  ADORNO. e QUEIROZ. art. em 1995 apresenta o resultado de sua pesquisa no sistema judiciário onde conclui que não somente o pertencimento às classes sociais despossuídas mas também o grupo racial do acusado é fator interferente no tratamento da justiça penal quanto aos infratores negros. busca reaparelhar a população brasileira para sua 26  Proc. 14 da Lei 7716/89 porque. incluído na carta de Direitos. O princípio de eqüidade de todos perante diferenças e as leis.] foi denunciado como incurso no art. p. por volta de 1887 o processo imigratório com comprometimento político e econômico do Estado. 20 . Discriminação no acesso à justiça penal. 141/92­ Décima Oitava Vara Criminal ­ Capital –São Paulo/SP. C. Sérgio. O século XX..274. sempre legitimado pela sociedade em geral. In SCHWARCZ. C. Violência e Racismo. Mais ainda. após a Constituição de 1988 ter declarado que racismo é crime. São Paulo : EDUSP. [. se a vítima for branca. a imigração européia contribui para apresentar a dicotomia raça branca. 1996 p. “A cor é poderoso instrumento de discriminação na distribuição da justiça. raça negra com papéis superiores e inferiores na organização social. .. Desde fins do período da escravidão. aquelas expressões configuram injúria. Raça e Diversidade. produzindo e reproduzindo preconceito em razão do pertencimento dos indivíduos a cada grupo racial. reiteradamente. jamais se prestando a caracterizar quaisquer das condutas descritas na Lei 7717/89”26 (grifei) ADORNO.255­274 cit. A . encontra o país envolvido com as questões raciais e que procura mediar com o projeto de imigração européia. das parece comprometido em face dos resultados alcançados. afirma o autor. URUBU E MACACA. [. A Lei 7716 (repeti o texto com 7717/89 mas o correto é 7716/89) é  a lei que criminaliza o racismo e a discriminação racial. impedia a convivência social de K. chamando-a de NEGRA NOJENTA. Constituição Federal. S.. e constitui  violação de direitos fundamentais. 5º .

que embranquecessem o jovem país. ob. Thomas. com o intuito de fornecer parâmetros. a tergiversar sobre o tema raça e nação. escreve. Fernando de Azevedo. no Brasil. 29 21 . cit. a introdução ao Censo Oficial de 1940. antes que passe a outras mãos o facho da civilização ocidental a que os brasileiros emprestarão uma luz nova e intensa – a da atmosfera de sua própria civilização. a convite do Governo. Direito. AZEVEDO.  Preto no .40­41Citado por SKIDMORE. Sociologia. permaneceram. mas poderá recolher à velha Europa – cidadela da raça branca -. Fernando. promove para sua consolidação.. p. conforme SKIDMORE28 e diz: “A admitir-se que continuem negros e índios a desaparecer. o homem branco não só terá.. sobretudo de origem mediterrânea. Esse assunto passa a ser o primeiro em importância. o que resulta na Cultura Brasileira. já tendo dirigido o sistema de escolas públicas do Estado.. 227. Assim a literatura. 228. seguida pelas ciências e cientistas de diversas ordens e áreas de conhecimento como. ob. o maior país da América do Sul. como “merece” uma nação do porte brasileiro. programas e projetos ao Governo e Sociedade.. p. Preto no .  P. Antropologia e Saúde mais atentamente. respeitado reformador educacional que ocupava a cátedra de sociologia educacional da Universidade de São Paulo. conforme os discursos de Rui Barbosa.  A Cultura Brasileira: Introdução  ao Estudo da Cultura no Brasil. tanto nas diluições sucessivas de sangue branco como pelo processo constante de seleção biológica e social e desde que não seja estancada a imigração.”29 28  SKIDMORE. o seu maior campo de experiência e de cultura nos trópicos. cobrindo todas as estruturas de controle de pensamento e conhecimento que o regime político de inspiração liberal e democrática. por décadas. cit.imagem branca e progressista. Thomas. primeiro como a mais sofisticada formulação de idéias no período.

que sutil mas profundamente. Gilberto. não apresentar sequer 1% (um por cento) desse contingente nas esferas de poder político e/ou econômico do país. É o projeto nacional de branqueamento. Casa Grande e Senzala. Imergida nas idéias e apreensões. Primeira edição em 1933. É também. como pode mostrar que cada uma de suas maiores Universidades não apresenta cifra maior do que 2% (dois por cento) de seu contingente pertencentes à categoria racial negra. Uma sociedade que apresenta a maior população negra fora da África. a Democracia Racial é o orgulho da sociedade e Estado brasileiros. 1980. 32  Fonte: IBGE. sua obra que fortalece o projeto de branqueamento e a instalação da Democracia Racial.  31  Social em sentido amplo. 30  FREIRE. como ideologia racial dominante. É a carta de apresentação à comunidade internacional da fábula da coexistência pacífica entre negros e brancos. perfazendo todas as áreas de conhecimento e pertencimento social. vão estabelecendo os valores raciais na sociedade brasileira. na sociedade brasileira do pós escravidão e que se operou em sentido simbólico. Censo 2000. espaço de cidadania e pleno gozo dos   direitos e garantias fundamentais. com aproximadamente 79 milhões de indivíduos auto identificados como do grupo racial negro (pretos e pardos conforme a nomenclatura do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. formuladas através de políticas governamentais e legitimadas pela sociedade como um todo na história de sua formação sócio-políticajurídica. São Paulo : Círculo do Livro. e tornou­se o discurso do Estado brasileiro para apresentar uma escravidão cordial no Brasil e conseqüente harmonia  racial no pós abolição. que determinou a estratégia política de destruição da população negra brasileira como sujeito político e empreendedor. foi traduzido para mais de 20  diferentes idiomas. ano 200032) pode. em contra ponto com o valor e o mérito social31 para o branco. com o elogio da mestiçagem e impõe a ideologia da Democracia Racial. e ainda assim não ter abalada a crença na Democracia e Igualdade racial. apresentando o desvalor para o negro. responsável pelo Censo Oficial do Brasil. entretanto. mas que tem profunda representação na formação da idéia de negro no Brasil e das relações raciais brasileira.Esse foi o marco. 22 . que se serve do discurso de Gilberto FREYRE30.

35 23 . São Paulo. 27 34  COSTA. o sujeito vai controlar. o negro toma o branco como marco referencial”. Neusa Santos. “Assim é que para afirmar-se ou para negar-se.  There  ain’t no Black in the Union Jack”The cultural politics of Race and Nation. 33 e Jurandir Freire COSTA. Edgard Bluher/EDUSP. seu psiquismo é marcado com o selo da perseguição pelo corpo-próprio. vigiar este corpo que se opõe à construção da identidade branca que ele foi coagido a desejar. exercitam um olhar “naturalmente” não racializado para a realidade não somente racializada mas também desigualmente racializada. brasileiros de todos os sexos. que neste contexto. conforme Neusa SOUZA.”34 4. James. a civil e a não organicamente representada. 1973.Vale dizer. Miscigenação – A Violência Sexual contra as Mulheres Negras Os teóricos de relações raciais e racismo apresentam o poder como estrutural na conformação de suas práticas35.  Racismo e Preconceito. Tornar­se Negro. Paul. O racismo brasileiro oferece a violência racial que se apropria dos corpos e cérebros negro. Dante Moreira Leite.Estas relações de poder que o racismo oferece. P. 2ª ed. 1983. Rio de Janeiro : Graal. 1986 . observar. Rio de Janeiro : Graal . GILROY. Chicago : The University of Chicago Press. ambos identificando a violência psíquica no indivíduo vítima do racismo: “A partir do momento em que o negro toma consciência do racismo. Violência e Psicanálise. Daí por diante. idade e condição social. Jurandir Freire.1991. Trad.   JONES. as idéias e apreensões da sociedade quer a política. via de regra se cruzam com outros interferentes de opressão para melhor atender os objetivos ideológicos de dominação e para o racismo de desconstituição da humanidade frente ao grupo 33  SOUZA.

igualmente dado pronto. que o processo de “naturalização” da cultura provoca a autonomização desses fenômenos que  passam a agir com independência. ainda. mesmo a oficial. com a oportunista implementação da ideologia racista que descarta da concorrência econômica e política. Feitas as reflexões sobre o racismo brasileiro e o ambiente histórico em que ele é criado e mantido. bem como a história. 24 . o ser feminino negro – a mulheres negra exerce papel fundamental em toda a estruturação daquelas relações de opressão e subordinação. Primeiro. possui a mesma lógica desconstitutiva do ser do indivíduo. Assim que. no campo da sexualidade. como experimento sexual para infantes e prazer para os senhores de "família" segundo. quer "iniciando" os adolescentes na "arte do amor"(?) quer servindo de uso e fonte de renda aos senhores e capatazes das fazendas. jamais puderam negar a utilização da mulher escrava pelos senhores. nas relações e são objeto de estudo – ou deveriam ser o objeto do estudo. pois. amor e paixão (por que não?). ao longo dos 350 anos de escravidão utilizadas como trabalhadoras do dia e da noite – o corpo utilizado em todas as suas possibilidades. assim se estabeleceu o tratamento padrão para a mulher negra em nossa 36  Embora reconhecendo a interferência das relações econômicas na formulação da ideologia racista e na discriminação racial. Assim como negros homens e mulheres não são dados da escolha dos indivíduos. já referenciado. Acopla-se o papel feminino que as sociedades impõe como “natural” ou da natureza das mulheres. Enfim. prazeres. podendo ou não necessitar um do outro para sua manutenção e reprodução. A criação sócio-histórica-cultural do racismo e do machismo é que estão. a literatura brasileira. no campo da fertilidade. como animal reprodutor. o nascer mulher é. igualmente. as escravas foram. então. conforme as discussões jurídicas de propriedade. assim como o foram. Vitimas de estupros.opressor36. no caso brasileiro mais de 45% do universo dos indivíduos. mesmo porque os fenômenos sociais não se restringem ao processo de  expolração e relações econômicas e. tenho que  há para além dessa explicação para o fenômeno do racismo. A discriminação de gênero. o objeto de mira preferencial. no século XIX. A mulher negra será.

dos benefícios sociais (direito confirmam a de cidadania) incapacidade contém intelectual elementos desse povo do lúdico para que grandes conquistas. Uma vez portadores de cérebros tomados pela lascívia e prazer. como tentativa de melhores  condições de vida. 38   há que se fazer a ressalva de que.atributo que faz dos homens (brancos) o senhor do desenvolvimento e progresso . ao par do comum atributo de seres desqualificados para assumir a direção da sociedade e desfrutar com uso e gozo. Se para o homem (branco) a qualidade primeira é o "labor".sociedade. desde a tenra infância até as possibilidades finais de suas vidas durante todo o período escravista. especialmente na escravaria doméstica. onde a idéia de negro e negra. A lúdica apreensão da vida como o prazer do momento. sem a ética do trabalho e da acumulação. Propriedade Privada e Estado. ou pela incompetência que o faz desmerecer a mobilidade social pronta para todos (os direitistas). comum no Brasil. muito embora a violência sexual seja o lugar comum. para o homem negro a qualidade primeira é o seu contrário: o prazer masculino negro se conforma com o estado de preguiça e conseqüente desinteresse pela criação . com o respectivo sucesso financeiro. Origem da Família. não se extingue com a Lei Áurea38. Rio de Janeiro: Bertrand.   colonização. não pode ser deixado de lado a aceitação da relação sexual por algumas mulheres escravas. a racionalidade do indivíduo negro. forma a estereótipo intrínseco da mulher negra na cadeia de valores da formação social de nossa sociedade. mesmo considerada as relações de poder  escrava/senhor. perfaz a generalidade dos homens negros no período de transição da 37   Embora   este   trabalho   não   se   proponha   às   reflexões   da   escravidão. O primeiro passo é a apreensão dos estereótipos racistas para o grupo como um todo. Ao contrário. Justificativas racistas se integram à apreensão da inferioridade feminina. que permeia a vida da mulher negra e índia37. 39  Assumindo a discussão e apresentação de ENGELS. Esta realidade. cremos imperdoável não colocar que ambos ­ índios e negros ­ possuem uma história de violência. se espraia conforme o sentido negativo de cada qualidade fundadora da natureza humana. somente atravancado pelo nefasto resultado da exploração capitalista (os esquerdistas). 25 . F.   exploração   e   genocídio   da   população   indígena  brasileira. fundamental para a perpetuação do patrimônio familiar39.

 1986. as negras também se apresentam mais "fáceis" e menos conseqüentes. é somente o descompromissado. são os objetos do prazer . se organizam com maior dificuldade e não atingiam o "modelo" do mercado .  A Integração  do Negro na Sociedade de Classes. No mesmo sentido. V. esse objeto prazeiroso se completa nele mesmo . É. se inclui a amenização da carga sexuada de objeto de prazer para as mulheres brancas já que. em palestra proferida na  USF por ocasião de Seminário comemorativo do Centenário da Abolição.sexual e da dominação (e melhor quando um vira o outro). São Paulo : Brasiliense. 41  Ao longo do trabalho tentarei demonstrar que esse descompromisso é significativamente alto quando se trata de relações inter raciais. vão estabelecer padrões raciais de comportamento e inserção na sociedade com base nessa "característica". Entre todas as conseqüências desse estereótipo. Não tinham a ótica do mundo do trabalho e melhor se organizavam com biscates e serviços. o estereótipo feminino negro de do espaço do prazer sexual.abolição para o trabalho livre como se refere Florestan Fernandes e Ademir Gebara40. Esta apreensão do homem negro está incrustada em nosso inconsciente coletivo e se estabelece como premissa. Daí. desde que se lhes fosse propiciado o dia seguinte de viver e um momento seguinte de prazer. para a mulher negra. exigem menor grau de responsabilidade e oferecem maior segurança quanto à impunidade.41 Não será 40   FERNANDES. Ademir GEBARA a  propósito de seu trabalho.   sem   eliminar   as   relações   de   domínio   negro/negra. farta a literatura que confirma que o sexo é a mola propulsora da vida. que se consolida com a naturalidade da verdade.razão primeira de sua condição social pobre. não inseridos no mercado de trabalho formal. O Mercado de Trabalho Livre no Brasil. a partir da qual se pensa a integração da população negra em nossa sociedade. as mulheres negras.I ­ Cap I . 1988. sem compromisso de horário ou constância. a par de pertencentes ao grupo "mulher". em situação de inferioridade frente aquelas. (1871­1888).   procurarei   demonstrar   o   duplo   descaso   quando   raça   interage   nos  domínios da desigualdade sexual. Daí que. estas. por estarem.ou seja. por suposto.  Dessa   forma. Já as mulheres negras.  26 . que sob o olhar machista na relação de poder entre os sexos. Florestan. vale dizer.

 onde todos os atores são brancos e as “mocinhas” loiras. um   dos personagens. O extraordinário é que essa imagem.  “saída de praia” (a primeira idéia é de que o cenário é Honolulu. significativamente mais representadas como chefes de famílias. luxuriosa. tal realidade não exclui nem 42  Um exemplo atual pode ser visto na atual novela das 8 da Rede Globo­ emissora de TV mais poderosa no país. no sentido em que a sociedade as representa: mulheres brancas. novamente. seguramente a ocorrência de mobilidade social para diversos membros da população negra tenha sido promovido por famílias e pais brancos (em razão de não ser a bondade e princípios de solidariedade atributos exclusivos para este ou aquele grupo racial). se apresentado o referencial –cor/raça. ao tempo em que há uma primeira idéia de que seja positivo – mulheres atraentes e desejáveis – essa atração e desejo corre precisamente na linha de desconstituição de seu papel social. O cenário é em um   lugarejo do estado da Bahia. Mulheres negras estão. Todo o contingente de indivíduos mulatos no período da escravidão ocorre nos ventres femininos sem que o esperma masculino faça qualquer diferença. às vezes econômica. podemos inferir que apresenta. em termos de valor. ou mais freqüentemente nas artes. A representação daquele valor. um figurino de praia. a ambigüidade do falso/verdadeiro. A moça dorme e acorda com saronges ou o que costuma­se dizer. é a única mulher que não se utiliza de roupas tradicionais. A imagem que  oferece. A fim de justificar a perfeita ïntegração racial”. representado pela atriz Camila Pitanga. Ainda que. Hawai. A brancura representando a humanidade e o pertencimento ao grupo humano. mas não necessariamente violentas (estupro). via de regra eram filhos de relações espúrias. de baixa renda ou miseráveis. negra. Os censos demográficos apresentam um significativo desnível para a ocorrência de chefia de família com mulheres. para dar o ar de desejável. pobre.então surpresa a utilização sexual da mulher negra de forma diversa das mulheres42. mordaz e oferecida!  27 . às vezes mesmo política. Dentro desse parâmetro valorativo de humanidade e sexualidade para as mulheres negras. para turistas). que a ocorrência para mulheres brancas. embora  cumpra o papel subreptício de introjeção de desvalor feminino e negro – ao mesmo tempo tem uma simplicidade “natural” para aquele  tipo de pessoa – negra. desses seus “apadrinhados” que. ao dar a oportunidade de inserção.

.. sobretudo o negro. [.. 44  Depoimento de uma das entrevistas de SOUZA. novamente os contrários se sobrepõe. 5. Neusa S. e aí eu era a negrinha de alma branca – quando eu me comportava muito bem – ou então. de forma perversa. que somente se conforma em razão da histórica formação populacional brasileira. não prestava: ‘se você vir confusão. E aí. Depoimento em entrevista à autora. ob.]”. p. cit. p. ob. As análises de discursos feita por Maria Palmira da SILVA e Neusa Santos SOUZA. necessita de metodologia diferenciada para a manutenção da supremacia branca. Esta é uma das prováveis justificativas do porque. uma compulsão extraordinária oprime a identidade feminina negra para a produção de indivíduos “melhorados”... ao contrário da sociedade norte americana. saiba que é o negro que está fazendo. Você tem que casar comum branco para limpar o útero’. analisado no texto. O Anti­Racismo no Brasil . a linha de cor/raça não se estabelece como corte estrutural do pertencimento e inserção na sociedade dominante com o gozo dos benefícios e 43 direitos  O Instituto da Mulher Negra – Geledés (Sueli Carneiro) e “Fala Preta” (Edna Roland) são algumas das Organizações Negras brasileiras  que tem apresentado diversos trabalhos e publicações enfocando a violência sexual que sofre a mulher negra para além dos conflitos e  violência nas relações de gênero. menor probabilidade de alcance dos mecanismos de defesa à agressão sofrida.minimiza o regular dos filhos mestiços. Em uma sociedade racista.. são ilustrativos dessa violência: “Minha vó não gostava de negros. cit. com a superposição da violência racial – do racismo. eu era a tiziu e a macaca quando eu reagia a qualquer tipo de coisa. é ladrão. de maioria escrava e negra em todo o período de domínio colonial e Imperial escravista. 28 . quando eu brincava com as outras crianças. 45  SILVA.45 A ideologia da Democracia Racial e Miscigenação como solução brasileira para o “problema negro” .. Maria Palmira. permitindo menor grau de identificação do problema e consequentemente. oriundos de relações de estupro sobre as mulheres negras – escravas ou não43.30. se vir um negro correr. Dizia que crioulo. padronizada pela supremacia dos valores brancos de qualidade e mérito. Importante ressaltar que.” 44 “ .. Tornar­se.

ao contrário.  Especialmente o Capítulo IV. O discurso da miscigenação continua exercendo grande poder na maioria da população branca. Dissertação de Mestrado. Continua. mas sim a proximidade com o padrão branco: “o sangue negro não suja o sangue branco. o sangue branco limpa o sangue negro”. 1989. por 46   BERTULIO. contra os muito menos freqüentes relacionamentos envolvendo mulheres negras com homens brancos. Um significativo percentual delas são filhos de homens brancos. permitindo a percepção minimizada do resultado. o grande percentual de crianças negras mestiças que estão em situação de risco tem em seus registros pai desconhecido. mas também na negra. À parte as relações chamadas do coração.   Dora   Lucia   de   Lima.   Porto   Alegre   :   Livraria  do  Advogado – no prelo. Também   mimeografado em Florianópolis : UFSC/Pós Graduação em Direito.  Uma   introdução   crítica   ao   Racismo. quer para descomporem suas vidas em serviços degradantes e insalubres. completamente fora de qualquer análise política. engravidam e deixam suas crias abandonadas. caso em que a probabilidade de casamento e família constituída e quase 100%.constitucionais plenos. especialmente em uniões estáveis. É o discurso.46 A metodologia é a dubiedade que o fenômeno se apresenta. 29 . no início do século para aprovar os gastos públicos com a Imigração Européia. também ser significativamente maior as relações inter raciais onde o homem é negro e rompeu as barreiras econômicas típicas para negros – é um negro “de bem” e a mulher é branca. é a palavra de ordem do Congresso Nacional brasileiro.  Direito   e   Relações   Raciais. sem qualquer proteção do Direito Trabalhista. violentadas porque são mulheres e não gozam do respeito social como indivíduo em igualdade de direitos com os homens (pais) já que têm. Em ambas as funções. transam com qualquer homem. para criarem sua prole – são as chefes de família. quer para receberem a condenação da sociedade por que as têm e não “cuidam”. As mães estão sempre presentes.

49  Agenda Latino Americana 95. perpetrado contra a população negra somente muda a aparência para melhor servir aos interesses do racista. 48  SANTANA. E. Hoje os estudos e os dados de desigualdade racial permitem dizer ao contrário.. Marcelo. não determinante da discriminação? Essa é a questão que se põe. com lógicas semelhantes ou não. Como nas demais sociedades Americanas. o racismo.95. 30 . o proletário das Américas. humanos e para melhor performance. Raça. violentadas pelo corpo negro depreciado socialmente.)”49 47  Novamente o Direito. O ser negro é fato circunstancial.. que é o pertencimento racial que determina a pobreza e a má qualidade de vida para toda a população brasileira.“natureza feminina” que “amamentar seus filhos” 47 . apresentam estudos e referências demonstrando que ser negro no Brasil é determinante de má  qualidade de vida e gozo restrito dos benefícios sociais.48 Objeto de tráfico.  as “mães que deixam de alimentar seus filhos”. 2% ganham até 760 dólares mensais e somente 1% ganha acima de 760 dólares mensais. ou de abandono ou de dever de garantia não cumprido. Dom Pedro Casaldaglia. em especial o institucional. Classe e Gênero. Tudo o mais. 23% ganham até 380 dólares mensais. 5.  Em 1995 a taxa de câmbio do dolar americano era de 1 x 1. É o argumento utilizado pelos penalistas nos Manuais de Direito Penal. através do sistema legal. Wania e PAIXÃO. insinua com exemplos de crime. “ Do total da população negra ativa. colonizado. 48% não tem rendimentos fixos (. A grande maioria. escravo. determina a segregação de todo o grupo negro para fora das fronteiras de direitos de cidadania. implica igualmente em violência simbólica que se completa pela baixa ou nenhuma auto estima para esse mesmo grupo de indivíduos.  p. ao lado do último adjetivo. hoje. que carregam. 26% ganham até 76 dólares mensais. Org.

mesmo os acadêmicos anti-racistas já davam a explicação: “Mesmo quando conseguia inserir-se no sistema citadino de ocupações.  51 31 . não “engrenava”. Vol. foram 50  ­ FERNANDES. o autor discute nas pp. Ademir. Sidney. não se concretizou na prática. ele ( o negro ) não se popularizava na direção do futuro e. os tipos de  trabalhos que eram permitidos aos negros escravos: “De fato. vendiam peixes e jornais. como os italianos que engraxavam sapatos. não é o que os estudos evidenciam. carregadores e uma pequena elite de trabalhadores artesanais como sapateiros alfaiates. muito embora a pobreza não é exclusividade negra. o que se permitia ao escravo comercializar eram os produtos  que se limitavam as necessidades locais de consumo das populações livres” p. A repressão e controle comportamentais eram aparatos do Estado para o sucesso do plano (isto perdura aos nossos dias.. Florestan..Assim. marceneiros. assim. Nesta obra o autor sugere o interesse  do Estado em inserir o liberto no trabalho. 104 e CHALOUB. Mercado de Trabalho . Faltava-lhe coragem para enfrentar ocupações degradantes. Trabalho Lar e  Botequim. Paradoxalmente. coube os imigrantes e brasileiros brancos pobres já existentes no período escravista. O trabalho assalariado. I.) não sentia o ferrete da ânsia de poder voltado para a acumulação da riqueza. 1986. Cap.  ­ GEBARA. mal grado alguns autores 51 afirmem do interesse do Estado de inserir o liberto no mercado de trabalho livre. etc. O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. P. Logo após a abolição. cit. 20 Ver. 103. E..não inseridos no contexto do capital.” 50 A igualdade jurídica formal. restaram os serviços ditos de periferia . quer no campo. não era suficientemente “industrioso” para fomentar a poupança (. Aos libertos. quer na cidade. e segs. I.. biscates. 1978.. embora necessários: domésticos. ob. a justificativa para que todo o grupo negro esteja na base da pirâmide social. negros são mais legítimos para caçarem negros) e. devido aos baixos salários. pois.. A integração do Negro na Sociedade de Classes. já que há um extenso contingente de brancos pobres – a expressão utilizada é pobres e negros (pretos) representando dois grupos de marginalizados em nossa sociedade.. A outra oportunidade que se apresentava aos libertos era a polícia.

 cit. Escravidão e Racismo. Funções e idênticas exigências de formação não são suficientes para que os negros concorram igualmente com os brancos.dentre os 10% da força de trabalho que representam a população mais pobre. especialmente. Dentre os 20% da força de trabalho com menor rendimento estas proporções praticamente não variam. ob. 32 . Agora. a população negra inicia a incursão no trabalho formal. melhores funções. p.9% são pretas. Florestan. que há quase quatro séculos trabalhavam na agricultura.1% e os negros 56. A Integração . Hucitec. 52 No campo.. observamos que neste grupo. não ultrapassavam os escalões de serviço...preenchidos os batalhões com negros que sintomaticamente. 51­80. aos poucos. contínua e crescentemente. o novo sistema das culturas nacionais inseridas na nova ordem econômica.  Octávio. “. 83. quando estudamos os 10% da força de trabalho com maior rendimento. Por outro lado. os brancos totalizam 40. 52  ­ FERNANDES. Os imigrantes.  53  IANNI. foi entregue aos colonos. necessita de mão-de-obra barata e. O sistema. mesmo que. em grande número vão se afirmando dentro da ordem econômica e ressurgem como burgueses e pequenos burgueses. Ler  especialmente. p 75­80. 1978. O oficialato sempre foi reservado aos brancos.9% das pessoas são brancas e12. Estes continuam tendo melhores salários. Cap.6%. brancos pobres e negros vão formar a grande massa proletária brasileira 53 Somente em 1980 os censos oficiais brasileiros deixam à mostra a grande diferença entre os salários e funções de negros e brancos em nossa sociedade. porém. São Paulo.. II. por serem brancos. ainda que despossuídos. quem conhecia o trabalho na produção agrícola eram os negros.

que a história das civilizações ocidentais tem reportado e cujos efeitos tem ensejado lutas e conquistas em todas as sociedades...9% são pretos. Tereza Cristina N. 33 . conflito de gênero. PORCARO. Como? De mulher e mulher negra? O que poderia ser isso? 54  ­ OLIVEIRA. Assim. os 5% considerados mais ricos. 10.. 85. criamos um grupo de mulheres junto à Universidade Federal e. Lúcia Elena G. Nos início do anos 90. de mulheres. em Cuiabá. (. O Lugar do Negro na Força de Trabalho. 1985. Rio  de Janeiro. p. também há um conflito entre o mesmo grupo.1% daquele valor.. apresentamos o nome da entidade: Escritório de Estudos e Pesquisas da Mulher e da Mulher Negra. Rosa Maria e ARAUJO.. no entanto. Os 10% de brancos mais ricos apresentam um rendimento médio de Cr$ 14. que se aliam se incluímos outro interferente.Da camada da força de trabalho de maior rendimento. o de gênero: quando o assunto é mulher negra..55 que gera subordinação em razão da raça. MT. se negras se brancas. com grande debate que nos fez crescer quanto aos propósitos e programas do grupo. que para essas camadas mais ricas da população o rendimento médio é muito diferenciado entre os grupos raciais.5% são brancos. (. mas vou discorrer sob o ponto de vista da mulher negra frente aos diversos conflitos que sua   condição de dupla subordinação exercerão extremo poder em sua qualidade de vida. O rendimento médio dos 10% de negros mais ricos é apenas 24.393. mas. IBGE. para dois fenômenos raça e classe.) Chama nossa atenção.) O rendimento médio para os brancos é quase seis vezes maior que dos pretos e quase três vezes maior que dos pardos. parece válido dizer que não somente em razão da opressão e idéia de subordinação do feminimo ao masculino.” 54 (n/grifo) Toda essa discussão nos remete. para mais. 58­59 55  Negros e Brancas igualmente merecem a reflexão e discussão sobre as questões que envolvem esses relacionamentos inter ­ raciais ­  poder e opressão em um mesmo momento.

7 salários mínimos. – Homens brancos ganham mais que mulheres brancas que ganham mais que homens negros que ganham mais que mulheres negras. mulher negra 1. então muito abaixo do patamar para homens. especificamente. devo apresentar a realidade da disparidade e desigualdade entre negros e brancos enfocando o diferente impacto sobre as mulheres negras. O impacto nas Mulheres Negras. mulheres (brancas) e homens negros. homem negro 2. fica. se pensarmos em relações de gênero teremos os homens sempre em posição privilegiada frente as mulheres. se curva para. Neste tópico. A condição da mulher negra. Desigualdade Racial.9 salários mínimos. Assim. O interferente raça atua diretamente nos dizendo que entre mulheres brancas e homens negros a ideologia da inferioridade de indivíduos baseados. porém pensarmos em raça. se preferir. já que branca. vítimas significativamente mais prejudicadas nos 56  Fonte. IBGE – 1990 – Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar ­ PNAD 34 . em uma apreensão não menos perversa. Os dados do PNAD-IBGE. o corte por gênero já não mais se comporta com a mesma lógica: homens negros estão em desvantagem no mercado de trabalho em relação à mulheres brancas o que. repito. Se. for negro. mulher branca 3. em gênero. 1990 revelam que a média de salários mensais para: o a o a homem branco 6.6 salários mínimos.As estatísticas de desenvolvimento de populações. quando trazido o dado gênero e raça não apresentam os mesmos índices para homens / mulheres pertencentes a grupos raciais diferentes. nos dizer que melhor mulher.3 salários mínimos. veremos que o dado do sexo ou. ao mercado de trabalho.56 6. se o concorrente ainda que homem. significa que não mais a discriminação por sexo dá conta do processo de exclusão de populações e da desigualdade de oportunidades para nos atermos.

branca e negra onde a colocação do país vai para o 63º lugar no ranking de 143 países e. Isto não implica em minimizar a discriminação sofrida pelas mulheres mas sim em comparar nesses efeitos. ou pior.PNUD57 para raça no Brasil. Wânia SANTANA apresenta o desmembramento do IDG – Índice de Desenvolvimento por Gênero. ou mais simples. Assim. tomados os referentes do IDH.efeitos da discriminação de gênero e de raça.  Desigualdades Étnico/Raciais e de Gênero no Brasil: as revelações possíveis do IDH e do IDG. vemos que o IDG da população negra obtém índices denotativos de pior qualidade de vida. In Jornal da   Rede Saúde. quais interferentes possuem maior valor de desagregação. do 57  SANT’ANNA. Wânia. a Autora apresenta os índices para a população brasileira tomado o seu geral. 23­março de 2001. a sociedade brasileira exerce o diferencial em maior grau de desagregação de direitos e gozo de benefícios sociais para raça do que para gênero. o Brasil ocupou as seguintes posições: • IDG afrodescentente 91ª posição • IDG branco 48a posição Para uma melhor apreensão da disparidade racial. quais sejam educação. 35 . Como enfatizei nos argumentos aqui trazidos. a elaboração do IDG para esta população e para a população branca. Os resultados a que chegamos foram os seguintes para o ano de 1999: • IDG afrodescentente: 0. da aritmética. expectativa de vida e renda per capit é de 24 pontos acima. IDG­ Indice de Desenvolvimento Humano desenvolvido pelo PNUD –Programa das Nações Unidas para  o Desenvolvimento. retirado dos índices de IDH .663 • IDG branco 0. somente utilizando-se da matemática. O resultado apresentado em sua pesquisa indica: “Em nosso estudo sobre o Índice de Desenvolvimento Humano dos afrodescendentes realizamos.784 Em relação a essas populações. em especial em se tratando de mulheres cuja categorização racial não está no padrão meritório da sociedade. também.

enquanto há uma diferença que aparece nos grupos branco e negro entre mulheres e homens. Wânia. Veja-se que. 19 pontos abaixo. mas é negra! Os estudos da autora sobre mortalidade na cidade de São Paulo. somente se confirma a esperada diferença em taxa de longevidade por sexo. demonstrando cada um dos referenciais utilizados para a determinação do Índice de Desenvolvimento Humano. negros e negras.  BARBOSA. junto com os países considerados desenvolvidos. p. relativamente ao índice geral. cit. 34 59 36 . o racismo institucional promove a quebra de paradigma. a discriminação racial e o seu autorizador. ou melhor desce para a 48a posição. ou seja. intra grupos. brancos e brancas. vemos que a expectativa de vida de homens e mulheres brancos.. In Jornal da Redesaúde 23­  março de 2001. P. por outro lado. o IDG para a população branca apresenta. BR revelaram que as mulheres negras quebram o enunciado científico de maior longevidade para mulheres e.. Homens brancos e mulheres negras não confirmam a experiência já consolidada da ciência médica. É Mulher. para o mesmo país e espaço geográfico.que índice nacional.. 18. está em índice acima dos verificados para homem e mulheres negros e. Na continuidade de seu trabalho. igualmente. mas é negra. O TODOS não se impõe em sociedades discriminadoras e no Brasil. daí que ela acrescenta . ainda SANT’ANNA.. 58  SANT’ANNA. Desigualdade . Maria Inês da Silva. ob. mas É Negra: perfil da mortalidade do “quarto de despejo”. para os negros em sua totalidade: Homens brancos Mulheres brancas Homens afrodescententes Mulheres afrodescententes 69 anos 71 anos 62 anos 66 anos58 É como conclui BARBOSA59: É mulher. bem como os brancos pensados homens e mulheres.

o Coeficiente de Mortalidade Materna (CMM) espelha a qualidade de assistência prestada à vida reprodutiva dos cidadãos.Diz BARBOSA: “Além da semelhança da mortalidade proporcional por faixa etária da mulher negra com o homem branco – 40. 23­ março 2001 p. de um modo geral as mulheres negras perdem mais anos do que os homens brancos. 62  MARTINS. a autora.] A articulação raça. 61  Idem.000. novamente contrariando a esperada diferença por sexo. apresenta com resultado de seu trabalho que. gesta-as de forma a resultar num perfil mais crítico de saúde [.]61 Alaerte MARTINS. Maria Inês da Silva. especialmente no que diz respeito à assistência à saúde da mulher [. a taxa oficial de mortalidade materna foi de 70 por 100. “classe .  p. apresenta seus estudos com igual constatação. a concepção de seus dirigentes. É Mulher . gênero e raça compõe o perfil de mortalidade da mulher negra [. por conseguinte. In Jornal da Redesaúde. gênero e classe determina as relações sociais e gesta as condições de vida e saúde. idem. esse trabalho revela também que. em se tratando da população feminina negra..7% e 39%.. 36. conclui a autora que as mulheres negras estão significativamente em maior risco de morte materna e. dos óbitos ocorridos antes dos 50 anos. Alaerte Leandro.] no Brasil. ao se compararem os Anos Potenciais de Vida Perdidos por óbitos...”62 60  BARBOSA. apresentam maior índice dessas mortes que a epidemiologia já caracterizou como “mortes evitáveis” “Em sua abrangência. indiretamente.. e. 37­40 37 .. Maior Risco para Mulheres Negras no Brasil. respectivamente. Em sua pesquisa sobre Mortalidade Materna no Paraná..”60 Ainda.

  ob. como tem seus filhos. por óbvio. É o mesmo Instituto Brasileiro de Estatística.  63  Seguindo a linha de que racismo é um “problema negro”. do IBGE apresenta estudos. para 1993. crianças negras e pardas têm 67%  mais chances de morrer do que uma branca”.64 Relacionado com a saúde materna.  O estudo demonstra que. observou-se que o risco relativo de morte destas mulheres por causas ligadas à gestação. no Brasil. no Brasil. entretanto. Celso fez estudos sobre desigualdade racial a partir do resultado do PNAD 1996 ­ IBGE 38 .63 a Autora identificou que “[.4 vezes maior nas pretas que nas brancas e 5 vezes maior entre as amarelas(asiáticas) quando comparadas com as brancas. sobre mortalidade infantil onde “até os 5 anos.. o setor saúde e seus operadores. outro fator igualmente interferente na taxa de  mortalidade de crianças brasileiras que é a raça/cor. 64  MARTINS. homens e mulheres negras têm índices diferencidados  para todos os referências abarcados em Censos Demográficos.] a distribuição da população feminina e o número de mortes maternas por raça. onde a saúde forma o quadro de longevidade e interfere na educação e  mercado de trabalho. resistem a considerar raça/racismo  como interferente significativo na qualidade da saúde e da oferta de serviços de saúde para a população brasileira... cit. ao parto e ao puerpério foi de 7. malgrado a taxa de  mortalidade infantil seja muito alta. Maio Risco . Significativamente. Já se vê dos dados  trazidos como exemplo neste trabalho que a realidade é outra. seus bebês e crianças mortas precocemente em razão de políticas de saúde discriminatórias e racistas. dada à desigualdade econômica brasileira. há. a população negra não só tem morte precoce e desarticulação familiar com a morte de mães. a partir dos dados do PNAD  1996. órgão governamental.  onde a taxa média de mortalidade infantil é de 37 mortes antes de completar 1 ano de idade  em cada mil nascidos vivos. Alaerte Leando.. p. 39 65  SIMÕES. que nos apresenta a disparidade em mortalidade infantil e mortalidade até os 5 anos de idade para crianças negras e brancas: O demógrafo Celso Simões65.Muito embora haja uma renitência do setor saúde de admitir a necessidade de inclusão da categorização racial nas informações de saúde.

 atingindo.7%   de   incidência   de   anemia  ferropativa nas crianças no Nordeste. respectivamente. p. outro dos componentes de qualidade de vida utilizado pelo PNUD/IDH. a taxa de analfabetismo para 7 anos ou mais.0% 31.1 67  Folha de São Paulo. 20 de julho de 1999. Esta é também a região que tem a maior concentração  de população negra no país. para a população brasileira total é de 19.5% 31.6% para 1990 sendo que é de 12.1 ano 18.   Entre   os   diversos   dados   de  desigualdade racial nas taxas de mortalidade infantil.  diz   a   pesquisadora   Estela   Garcia   da   CUNHA   –IBGE.   a   taxa   de   82. 66  Folha de São Paulo.9% 36.1% Fonte: IBGE – Censo 1980. encontrou­se que para as crianças na  faixa   etária   de   até   5   anos.7% 14. o quadro abaixo demonstra: Brasil Brancos Pretos Pardos . nos Estados do Maranhão e Bahia o percentual de  82% e 76%.0% 4 a 7 anos 33. Benilda BRITO completa o quadro acima ao reportar-se para a PNAD de 1987 informando que 62.3.1 para pretos e 29.3 para pardos.7% das negras não terminaram o antigo curso primário (4 anos de estudo).67  Relativamente à escolaridade. 30.    a  taxa   de  mortalidade   para   crianças   brancas   é   de  46/1000  enquanto que para o mesmo segmento sendo as crianças negras.2% 30.   em   1999.5% 27. esse percentual sobe para  76/100066.9% 20. 16 de novembro de 1998  p.0% 16.0% 26.5% + de 8 aos 25.“Todos   os   estudos   informam   que   as   desigualdades   raciais   entre  crianças está aumentando desde 1980”.8S% 28.  O   Ministério   da   Saúde   apresenta. 4.1 para brancos.3% 26. “Brasil descumpre dez metas da UNICEF” 39 . Quanto aos anos de estudo.1% 11.3% 1 a 3 anos 22. 3.

Artistas e Assemelhados: brancos compõe com 9. para Administrador.7% e os pardos com 9. 05 de abril de 2001 – p C­4 40 . Científico. trabalhados por OLIVEIRA et al demonstravam.2%.3% se declaram negros) Nestes resultados a desagregada por raça: escolaridade da população brasileira vem “O estudo compara 1992 e 1999 onde as taxas de analfabetismo tiveram redução em todos os grupos de cor. a população branca e negra está assim representada: Técnico.7%. Tem carteira de trabalho assinada 58% 68  Síntese de Indicadores Sociais da Década – IBGE – 2001 – in Folha de São Paulo. os pretos com 6.9%.2% dos pardos 28.Para 2000.3% e os pardos 38. os pretos 45.7% .6% de seu contingente. à época que em ocupações Técnico Científico e para a categoria de “administrador” que se inclui a gerência de negócios.6% dos pardos 21.6% e pardos com 4. ainda são quase três vezes maiores do que entre brancos: Taxa de analfabetismo: 1992 – 10.3% dos branco 19. São contribuintes para a Previdência Social 50.7% dos pretos 1999 . mas entre negros e pardos.0% dos pretos” 68 Quanto ao mercado de trabalho. dos quais os brancos contribuintes representam 57.9% da população se declara parda (45.9%. já em 1980 os dados.1% do trabalhadores brasileiros. a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios.4% da população de declara preta 39. PNAD apresenta os mais recentes dados populacionais no Brasil que autorizam ao articulista do Jornal a Folha de São Paulo a dizer que “Discriminação a negros continua igual” conforme se vê: “54% da população se declara branca 5.6% dos brancos 25. os brancos estão representados com 19. pretos com 4.08. onde o PNUD/IDH busca seu terceiro referencial – renda per capita.

negros e brancos juntos. divididos por cor. 1991.. Lugar do Negro . PNAD – 1990. os negros e seus descendentes isoladamente ocupariam a 120ª posição.70 Tais disparidades ensejam alguns artigos e denúncias públicas sobre a desigualdade racial no Brasil. aproximadamente R$ 510. Pg. em São Paulo. Em essência.25 s/m .5% e. Em 1997. 3.” 71 Em 1999 não há avanços significativos e permanece os salários desiguais para brancos e negros. na categoria de mais de 10 salários mínimos. cit.dos empregados brasileiros sendo que os trabalhadores brancos têm percentual de 65% de seu contingente com o registro de trabalho – instrumento hábil para aposentadoria – contra 53 e 50% para pretos e pardos.4%. o salário médio de um negro é. p 10  Fonte. os pretos 2.69 Quanto ao salário mensal. para o 69  OLIVEIRA.1% e os pardos 3. recebendo até 1 salário mínimo temos 24.8% e os pardos com 33.2% do total da população brasileira e. ob. fica em 63o em qualidade de vida no mundo. 70 71  Folha de São Paulo. Os brancos ganham nada menos que o dobro. IBGE – PNAD. os brancos estão com 12.1 41 . os brancos estão com 17. respectivamente. De acordo com o DIEESE. o IDH desagregado por cor/raça demonstrou que “Enquanto a média da população brasileira. O rendimento médio em salários mínimos apresenta os seguintes índices: Brancos: 5.43 s/m .1%.54 s/m Estes dados autorizam Gilberto DIMENSTEIN a dizer que: “A mulher trabalhadora é negro de saia.Pardos: 2.2% de seu contingente. os pretos com 35.. Lucia Helena et al.Pretos: 2. 2 de junho de 1997.

independentemente de quanto se modifica para melhor ou pior índice para Brasil. 29 de abril de 2000.3% Parda 03.96 SM. Brasília.5% do bolo”73.mercado de trabalho. duas e meia mulheres negras eqüivalem a um homem branco.88SM e masculino branco: 4. SANT’ANNA74 tem o percentual desagregado dos dados gerais: “’PIB’ feminino afro descendente: 0. que. P.. ainda é significativa a diferença para pior ou desigualdade racial na apresentação da situação sócio-econônica do brasileiro.76 SM. Para as mulheres negra.] A mulher negra sofre.5% Parda 30. Ainda. DF out/nov 2000. masculino afro descente: 1. portanto. em 1999. Desigualdades de étnico/raciais e de gênero no Brasil. sempre temos diferenças siginficativas a pior para a população negra. Wania. onde o “1% (um por cento) mais rico da população detém 13. dois negros valem um branco.  Idem. feminino branco: 1. 42 .. por ser mulher e por ser negra. Vimos com o trabalho de SANT’ANNA. 3­1. Na fria tradução comercial.4% Mais de 5 salários mínimos: Branca 14. Trab mimeo apresentado no  Encontro Nacional de Representantes de  Organizações de Mulheres Negras. 73 74  SANT’ANNA. se o dado for apresentado por grupo racial distinto.3%72 Malgrado a concentração de renda.8% da renda total e os 50% mais pobres. in Folha de São Paulo.74 SM 72  IBGE – Síntes de indicadores regionais 1999. 13. a renda per capita das famílias de acordo com a cor ou raça do chefe de família: Até ½ salário mínimo: Branca 12% Preta 24.8% Preta 03. [. Os dados são de setembro de 1997. extrema da sociedade brasileira. As revelações possíveis dos Índices de Desenvolvimento  Humano e Índice de Desenvolvimento ajustado por Gênero. Uma mulher negra ganha por mês R$ 400. ibidem.

mas neste caso. em níveis que chegam a atingir 60%.75 É necessário que se apresente. 2001.. Direitos Humanos e Racismo. In Folha de São Paulo 05 de abril de 2001.  nem  a  consideração   desses   dados   como   interferentes   no   desenvolvimento   do   país. apresenta maior percentual de negros em empregos domésticos: 17% para pretos e 11% para pardos. 7. na  sociedade brasileira e em especial como vontade política institucional.1%. mostrando a realidade estrutural das  desigualdades  raciais. até o final da década. incluindo-os no corpo normativo nacional. Os Tratados Internacionais estão incluídos no Corpo de nossa Constituição editada em 1988. garantindo não somente a sua aplicabilidade sob as regras do Direito Internacional. IBGE.p. Entre as brancas.Para 1999. gozo de direitos e benefícios sociais. quanto à qualidade de vida. que não se  modifica nos anos 2000. a permanência da desigualdade racial.  nem  como  interferentes na má qualidade de vida dos indivíduos pertencentes ao grupo negro em nossa  sociedade – o racismo institucional promove a desigualdade social que tem sua base na  desigualdade racial. esse percentual é 6. demonstrando que não há. com a garantia constitucional. As Convenções Internacionais para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e contra a Mulher. ao falar dos efeitos do racismo sobre a população brasileira  negra. demonstra o estudo. Vale dizer. A região Sudeste. Foram apresentados dados sócio­econômicos decomposto por raça e gênero desde o  Censo de 1980 e. a permanência de  índices   significativamente desiguais. do Estado.6% da população negra economicamente ativa são trabalhadores domésticos – mulheres empregadas domésticas em sua maioria. C­4 43 . o mesmo PNAD apresenta que 14. transforma-os em poderosa arma de combate para a erradicação do 75S ' Síntese de Indicadores Sociais da Década.

racismo e todas as formas de discriminação. no sentido do reforço dos dispositivos legais nacionais. no corpo jurídico internacional. cobrindo cada vez mais intensamente uma área significativa de questões internas naquelas sociedades. medidas repressivas a comportamentos violadores dos Direitos Fundamentais e Humanos. especialmente para os países em desenvolvimento. Os estudos de Direito Internacional. com ênfase na ligadas aos Direitos Humanos. tal inclusão reforça a introdução de propostas legislativas que se destinem a minimizar os efeitos da discriminação e oferecer novos parâmetros para a busca da igualdade real nas relações internas.é uma violação aos direitos universais do ser humano. bem como qualquer tipo de discriminação. cujo resultado básico tem sido a possibilidade de inserir. tem sido um grande reforço no cumprimento da legislação interna. O Brasil é signatário de todas as Convenções. mormente as não governamentais. Isto transforma conflitos alegadamente internos com violação de direitos humanos em preocupação da comunidade internacional reforçando a idéia de que . em alguns casos.a violação dos direitos fundamentais do homem é delito que deve abalar o homem como ser . Acordos e Tratados internacionais que objetivam erradicar o racismo e a discriminação à mulher. o pós II Guerra Mundial e o fenômeno do nazi-facismo. têm recebido grande influência de organizações. implementar medidas de combate aquelas violações. As relações internacionais. igualmente. Embora o racismo não esteja na agenda dos Direitos Humanos com a importância devida. através especialmente da internacionalização da informação. Simultaneamente esta discussão pode pressionar governos e modificar ou. 44 . Ao mesmo tempo. neste sentido. trouxeram grandes ganhos para o seu combate e diversos tratados internacionais têm compelido governos e Estados a prestar contas dos seus racismos. homem e mulher de todas as raças.

pois. não possuem como matéria ou ensino curricular a disciplina de Direitos Humanos e. não estavam na sua Agenda. Há.Ainda que. quando Juizes ou membros do Ministério Público ou Advogados. os bacharéis em Direito não têm contato com tais conhecimentos em sua vida acadêmica. não somente por sua força destrutiva que sempre esteve presente. e. estão estabelecendo novos parâmetros para o seu combate na Agenda Nacional e Internacional da luta contra a violação dos Direitos Humanos. 45 . Este é um grande entrave na aplicabilidade das Convenções Internacionais. necessidade de se estabelecer maior nível de informação e conhecimento acerca desses Direitos e possibilidades de garantia desses direitos. no caso a Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e a Convenção Internacional para Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. portanto. a discriminação contra a mulher com maior vigor. culturalmente e em razão de todo o ambiente que está descrito neste trabalho. mas especialmente pela disponibilidade de discussão dos interferentes na má qualidade de vida das pessoas para além do conflito riqueza/pobreza. As Universidades Federais no Brasil. muito raramente apresentam alguma oportunidade de fazer essa discussão. No Brasil. genérica. tímida a aplicação interna dos Tratados Internacionais. há que se reconhecer o potencial desses tratados para pressão das estruturas governamentais a cumprir a Declaração de Direitos Humanos. ainda assim. este é um conhecimento que poder-seia chamar de periférico e até sofisticado para o seu cotidiano de trabalho. os fins dos anos 90 e esse início do século têm sido promissor no debate interno de Direitos Humanos com a inclusão de questões que. O racismo ultimamente.

maridos. 1998. aqui apresentado. companheiros e pais) destruídos nas mortes e prisões do Estado 76. como complemento de toda a tensão provocada pelo racismo em seus níveis individual. igualmente. não porque ele seja diferente do racismo ou dos racismos. 5º da Constituição Federal. além dos efeitos específicos dos conflitos gerados pela ideologia do machismo. está muito aquém de estabelecer qualquer política que inclua o Racismo como interferente da má qualidade de vida e baixo índice de participação econômica e política da população negra. amantes. o Governo. Bem assim. sobre a causa mortis na população masculina no Estado de São Paulo. tem desconsiderado as particularidades da discriminação dupla sofrida pelas mulheres negras. mas porque a 76  “Negro Morre a Bala. institucional e cultural. Legislativo e Judiciário. todo o quadro discriminatório com base em raça. Executivo. onde os Tratados e Convenções sobre Direitos Humanos e Fundamentais são auto aplicáveis integrando a Carta Constitucional de Direitos. De forma que. a Convenção para Eliminação de Todas as formas de Discriminação contra a Mulher não tem servido como parâmetro de atuação governamental. 46 . Maria Inês. Considerações sobre o Estudo Este trabalho privilegiou traçar os parâmetros do racismo brasileiro. que têm seus homens negros (filhos. apresentada na  Universidade Estadual de Campinas.Daí que. Isto implica que. No caso do sistema constitucional nacional. novamente em todas as instituições do Estado. 8. é possível dizer-se que o uso interno destes instrumentos é precário e de pouca utilidade para as populações beneficiárias. gera uma carga de pressão e violência mais acentuada sobre as mulheres. art. Branco morre do Coração” é a conclusão da tese de doutoramento de BARBOSA. As Mulheres negras são a maioria das chefes de família na população pobre e miserável do país. as mães dos jovens e adolescentes negros alvos preferenciais dos assassinatos e mortes por causas externas ou “guerras” onde a polícia é o perpetrador mais comum. considerado em seus três níveis.

cumpre um papel. na comunidade internacional. 47 . A sociedade brasileira permite a perpetuação da opressão com base em raça sem desestruturar seus valores humanitários. Daí o sentido de estar o Capítulo 3 deste texto. extenso e tenso. para apresentar com detalhes a formação ideológica da discriminação racial e do racismo. nosso país a par de ser o falso exemplo de relações raciais harmoniosas. muito especialmente com o tráfico negreiro transatlântico e o genocídio contra as populações nativas das Américas. que deve ser melhor apreendido por todos. a ser cumprido não somente pelo Estado brasileiro e seus Governos. seja uma imposição para a Terceira Conferência Mundial contra o Racismo. Mais que isso. mas como um acordo interno entre a Sociedade e o Estado para negar ou minimizar nefastos efeitos do racismo. de qualquer origem racial.sociedade brasileira exerce fundamental papel na comunidade internacional relativamente à sua formação racial e conseqüente relações raciais internas. os meandros materiais e psicológicos que promovem os resultados que esse fenômeno impõe aos indivíduos. que possa instar os leitores à conhecer mais profundamente. indígenas de todo o mundo e. Essa denúncia. O discurso humanitárias dos e Direitos de Humanos proteção do está homem sedimentado em branco sociedades nas bases internacionais e é mister que reflexões remontem aos diversos crimes contra a humanidade. Há um discurso e uma imagem do país. pelo seu porte populacional negro. para que esse paradigma dos Direitos Humanos se amplie. a Discriminação Racial. praticados contra os povos africanos. Este especial lugar que o Brasil ocupa não é promissor nem promete avanços nas lutas anti-racistas. talvez. Xenofobia e Todas as Formas de Intolerância.

As mulheres e homens negros. assim como as mulheres brancas e os homens e mulheres de outros grupos raciais no mundo. estão nessa guerra de preservar a Humanidade. Curitiba. formulando essa nova reflexão. outono/inverno de 2001 48 .

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