Você está na página 1de 3

Curso de Pós Graduação “Lato Sensu” – Especialização em Educação

Especial para Dotados e Talentosos.


Universidade Camilo Castelo Branco – Unicastelo

“TÓPICOS AVANÇADOS EM ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM


EDUCAÇÃO ESPECIAL”.

Antes de quaisquer considerações devemos especificar o que é Educar, assim


sendo, recorrerei à definição de Maturana (2001), que acho pertinente quando diz que “é
o processo em que o sujeito ao conviver com o outro, se transforma, espontaneamente,
de maneira que seu modo de viver se faz, progressivamente, mais congruente com o
outro, no espaço de convivência”.
Realmente, este convívio, se fortalece no âmbito escolar, onde a criança interage
umas com as outras, trazendo de casa a educação familiar e agregando através da escola
uma educação institucional e de valores aceitos pela sociedade em que vive. Neste
espaço tão diversificado, que per si, proporcionaria a inclusão dos diferentes, tanto
social como cognitivos, mas o que vemos é que isto realmente não acontece.
Por quê? A resposta está no “sistema de educação” como diz Pierre Bourdieu,
este sistema traz em seu conjunto os mecanismos institucionais e habituais pelo quais
se encontram asseguradas, segundo a expressão de Durkheim, “a conservação de uma
cultura herdada do passado”.
Assim a Escola sendo uma Instituição do Estado, deveria ser tratada como
função de Estado e não Política. Então vemos duas vertentes, que colaboram para o caos
educacional que vivemos.
Sabemos que em 1929, o estado do Rio de Janeiro, na reforma que fez no seu
sistema educacional previu o atendimento aos super-normais. Mas só foi em meados do
século XX, quando a Lei 4024/61, focou nos Artigos 8º e 9º à educação dos
excepcionais, palavra usada por Helena Antipoff para denominar as crianças com
deficiência mental, os que tinham problemas de conduta e os superdotados. Em 1967, o
Ministério de Educação e Cultura criou uma comissão para estabelecer critérios de
identificação e atendimentos aos superdotados. Mas, com o deslocamento neste ínterim
dos alunos da classe média para as escolas privadas e os da classe popular para as
escolas públicas e consequente aumento da demanda, em 1971, foi criado o Serviço de
Educação Especial, nas esferas Federal, Estadual e Municipal, que levaram a
promulgação da Lei 5692/71, no seu Artigo 9º, refere-se ao trato especializado e a
aceleração às crianças superdotadas, a critério dos Conselhos de Educação, Federal,
Estaduais e Municipais.Como ato contínuo, foi criado neste ano o Projeto Prioritário nº
35, que estabeleceu a educação de superdotados e focou prioritariamente a Educação
Especial, inserindo-a no Plano Setorial de Educação e Cultura, agendado para o período
de 1972 a 1974, fixando “uma política de ação do MEC com relação ao superdotado”.
(NOVAE,1979). Já em 1971, defendia um atendimento diferenciado às crianças
superdotadas e talentosas, o que é hoje tido como ideal de educação para elas na Europa
e nos Estados Unidos, enquanto que no Brasil pretende-se alcançar por meio da
Educação Inclusiva. A lei de 71 veio reforçar a de 31, que já previa a programação do
enriquecimento curricular, a aceleração no estudo ou ambas, apenas acrescentou a
monitoria.
Foi a partir da Conferência Mundial sobre Educação para Todos, em Jomtien,
Tailândia, em 1990, em continuidade em Salamanca na Espanha, 1994, que passou a ser
conhecida pela história da Educação, como “A Declaração de Salamanca”, antes de uma
declaração de princípios gerais e universais, parte da constatação da particularização dos
sistemas de ensino. Nela estabelece que cada país, estado ou município precisa
desenvolver sistemas educacionais de acordo com suas necessidades específicas, e
constataram que os grupos excluídos na década de 40, ainda continuavam sendo
excluídos até aquele momento.
Como, foi constatado que o sistema de ensino previlegia os chamados alunos
normais, propõem uma Educação Inclusiva, desta forma a Declaração de Salamanca,
parte do pressuposto que: “As escolas regulares com a orientação para a educação
inclusiva, são o meio mais eficaz no combate das atitudes discriminatórias, propiciando
condições para o desenvolvimento de comunidades integradas, base de construção da
sociedade inclusiva e obtenção de uma real educação para todos.”
Esta Declaração também visou comprometer os governos, para que envidassem
esforços na adoção de princípios da educação inclusiva nas leis e políticas públicas.
Frente a este compromisso, e cumprindo a Constituição de 1988, o Brasil vem
estabelecendo estas mudanças com a LDBEN 9394/96. Mas também não foi surpresa
nenhuma pela, história da educação brasileira, que esta lei, que estabelece as novas
diretrizes e bases da educação, tenha um capítulo para tratar das questões da Educação
Especial, Capítulo V, e cite os alunos superdotados em seu texto legislativo, Art.58.
Como conseqüência, da Declaração de Salamanca, visou-se adequar melhor o
conceito de superdotado para altas habilidades e a exclusão do conectivo alternativo ou
que possibilitava aos alunos com fracasso escolar serem identificados por suas altas
potencialidades (Delou,1996).
No Art.5º, inciso III, Altas habilidades/superdotação, foi definido como: “grande
facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos,
procedimentos e atitudes.” Este artigo da Lei, foi regulamentado, na questão dos alunos
com altas habilidades/superdotados, pela Resolução Nº 2 de 2001, do CNE/CEB, mas o
quesito, aceleração dos estudos cabe aos estados e municípios, regulamentá-la.
“A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva, de 2008, traduz em seus objetivos e diretrizes essa orientação, ou seja, a
garantia do acesso à escolarização na sala de aula comum do ensino regular e a oferta do
atendimento educacional especializado complementar, aos alunos com deficiência,
transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. O
atendimento educacional especializado deve ser organizado em salas de recursos
multifuncionais ou centros de atendimento educacional especializado, no contraturno do
ensino regular, disponibilizando recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem
as barreiras para a participação e aprendizagem, considerando as necessidades
específicas dos alunos, conforme Decreto n° 6.571, de 17 de setembro de 2008. O
Decreto Legislativo nº186, de 9 de julho de 2008 que ratifica com status de emenda
constitucional a Convenção da ONU sobre Os Direitos das Pessoas com Deficiência,
traz em seu artigo 24 que os estados- parte devem assegurar sistemas educacionais
inclusivos em todos os níveis. Art. 6o do Decreto no 6.253, de 13 de novembro de 2007,
passa a vigorar acrescido do seguinte artigo:

“Art. 9o-A. Admitir-se-á, a partir de 1o de janeiro de 2010, para efeito da distribuição


dos recursos do FUNDEB, o cômputo das matriculas dos alunos da educação regular da
rede pública que recebem atendimento educacional especializado, sem prejuízo do
cômputo dessas matrículas na educação básica regular.( Os alunos com altas
habilidades/superdotados, os TDHA e os com dificuldades de aprendizagem, serão
amparados, mas não receberão dinheiro).
Parágrafo único. O atendimento educacional especializado poderá ser oferecido pelos
sistemas públicos de ensino ou pelas instituições mencionadas no art. 14.” (NR)

Sendo professora da rede municipal de São José dos Campos, na qual fui
Orientadora Pedagógica, durante cinco anos e meio. Percebi que há um descompasso na
implantação das políticas públicas de Educação Especial e os professores, alunos e
sociedade, não se mudam um habitus por decreto ou por pressão externa. A Educação
tem que fazer sentido, para haver mudanças, “ela é um processo de vida: a escola deve
representar a vida presente, tão real e vital para o aluno como a que ele vive em seu
cotidiano” (Dewey) e também para o professor, elaborando uma nova narrativa pessoal
(Rorty), ao repensar o seu papel numa Escola significativa e de oportunidade para todos.

Para tal se faz necessário, uma formação holística, que integre os conceitos de
Homem, Sociedade, Educação, Conhecimento e Currículo dentro de uma nova
epistemologia, que nasce no berço cibernético com os princípios de auto-organização e
recursividade, implicando uma lógica não-linear, tendo como valor central a
Transformação e o professor uma postura Transdisciplinar, para levar o aluno a ser
Questionador e Cidadão. Então a Escola neste novo contexto, terá um papel
fundamental de Reconstrução Social, baseada na igualdade de oportunidades,
transformando a prática pedagógica e a avaliação, por competência, a qual obriga a se
pensar numa metodologia complexa.