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A minha hora dos demônios repete-se ao infinito

1. Um anjo perdeu as asas


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Sentado neste quarto


Me faço
E refaço
Sou homem?
Ilusão
Ou palhaço?
O que sou?
Neste circo em chamas
Consumido
Em breve destruição
Um momento de pausa
Nesta loucura que é não fazer nada
Que vida lixada...
Mas vida é o que fazemos dela
E eu não faço nada
Escrevo
Talvez mude

-um grupo de suicidas mergulha na escuridão-


O filme final
O mais interessante
É pena não o puderes contar
Simplesmente a toda a gente
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Uma criança que brinca


Outra que inveja
Homem que cria
Um universo
Que sangra
Que o cerca
E destrói...
Que envolve os que nele entram.

Uma criança que chora


Outra que aplaude
Homem que delira
Com a inocência
Breve desperdiçada
Que anseia
Por um momento dessa inocência

Desejo subir ás estrelas


Despertar a criança do espírito
Brincar com a inocência
E rir enquanto esqueço
Será esse um mal
Querer esquecer?
Devo cair aos pés da banalidade?
Já não interessa a diferença
Interessa entrar na rotina
Não me contento com isso

Desejo a diferença
A felicidade
Alguém ao meu lado
Despertar o leão do espírito
Lutar com coragem, determinação
Enquanto quebro barreiras
Será outro mal?
O sair da roda viva?
Não, é uma virtude

Desprezo o sono profundo


Que se instalou
Que reina no seu trono em chamas
Um manto que esconde a loucura

O que alegra a vida das gentes?


Quais os seus sonhos?
Pesadelos para uns
Lindos para outros

Um olhar atento no escuro


Desvenda mistérios julgados anedotas
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E assim se vive
38 dias num só
Sempre com o mundo preso numa fivela
A estas generosas costas

E assim se morre
38 vezes num momento
Com toda a vontade a desprender-se
De todo um corpo esgotado

E assim renasço
38 cinzas espalhadas ao vento
Com espírito de leão
E dedos febris de sangue a latejar

E assim sou
Toda a musica dentro de mim
Sou intensidade de paixão
E supremo de luta e decisão
Sou o surrealismo branco marfim
Que de profundo tolda a visão
Sou o objectivo cortante, enfim.
A cada fôlego, a cada respiração.

E assim me construo lentamente

Alguém já pensou
Nos sentimentos de um palhaço?

Por uma vez


Gostava que me levasses a serio
A mim
Peça rara
Num jogo dos deuses
Lembra-te
Meu amor
Que a rotina é um escape.
Havemos de fugir

Sou um fantasma
Nestes dias de gelo
Sou o que perco
Com o que deixo de viver

Num momento, negro de noite


E de morte
Noutro uma espera de cinzas
Para renascer

Sou quem se esconde


E não se contenta
Sou quem na duvida,
A um bem renuncio

Num momento, azul de só


E vento cortante de tormenta
Noutro a voz de ouro
Que tanto silencío
Sou aquele que passa
De mansinho no nevoeiro
Sou raiz que num olhar
Tem o seu pulsar bem vivo

Num momento, branco fugaz


Desejo sem mácula de ser inteiro
Noutro quem num instante
A um pecado fica cativo

Sou um fado
No que tudo tem de saudade
Sou o seu contraste
De leveza e brandura

Num momento, transparente


Do querer e da verdade
Noutro, o rasgo
Nesta postura

As horas passam neste quarto


Onde o silencio espera a sua vez
A chuva lá fora
Convida à redenção
Cai devagar e despercebida
Apenas o suficiente
Para nos lembrar os nossos limites
Rendo-me aos poucos
À luta, à vontade e à realidade
E a todo o choque entre si

O corpo vai cedendo


Espero acordar
E ser novo

Que me nasçam asas de anjo


Em cruéis ombros
De ninguém
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Aqui morro
Aqui começo
Em constante disfarce
Entregue à loucura
Da busca pelo desconhecido
Não há pior que caminhar sozinho
Em pedaço de deserto
Que é vida incompreendida
Pedida na multidão
Consumida pelas chamas
Não passa de um circo
De feras e monstros
E engana-nos
Somos peças vivas
No jogo de fim de século
Decidimos arriscar?
Já que o fim está a chegar
E a noite abate-se na alma
Podes arranjar-me um refugio?
Não aguento muito mais
Profunda comunhão em sangue ardente
Aqui me matei
Aqui renasci
2. Eu amo-te!

Mas... Quem sou eu?

Luar
A noite pertence a um homem

O choro de uma criança ainda te perturba?

Aqui jaz quem eu fui


Sou novo

Luar
Nem sábio nem ancião
Apenas quero uma espada e uma flor na mão
Ainda consigo dormir

Somos tudo
Somos nada
Somos Deusa transfigurada
Somos caçador
Somos presa (traída pela natureza)
Somos poeta
Somos inspiração
Somos luz
Somos trevas
Somos punidos pelo que nos persegue
Somos noite
Somos dia
Somos diferentes
Somos iguais
Somos realidade que se completa
Somos sangue em gigante
Somos seiva em séculos de existência
Somos punho
Somos mão
Somos unha
Somos carne
Somos vida
Somos morte que acaba em liberdade
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Sábia fonte antiga


Desprezada pelo momento
Numa tenda de circo caída
Bestas à solta em movimento

Minha breve alegria


Desfile de ambiguidade humana
Ferida aberta em agonia
Cobaia solta em jaula mundana

Já me olhas diferente
O que falhei já esqueces?
Relógio morto em hora ardente

Enigma, o que mereces


Funeral digno de gente
Por uma vez finge que me conheces

Tomei o gosto
Pelo teu ritual de indiferença
O teu veneno
Corre agressivo em minhas veias

O que esperavas destruiu-se neste cruzar de olhar?


Como tudo o resto se destrói pelo caminho?
Minto
Estou bem para o mundo
Mas tento destruí-lo
Para mostrar que para comigo não o estou
Está alguém desse lado?
Alguém que me acolha?
Foge
Escapa
Antes que o monstro acorde

Agora que a noite chega


Com o seu tom prateado
Adormeço em suave sonho
De ser ao teu lado

Olho a tua alma


Bem funda nos olhos
Vejo um anjo em disfarce
Que esconde os seus segredos
Que grita sem medo na boca do lobo
Já não conheces este teu amigo
Quero mais
Um pedido de perdão
Sobe aos céus por preces profanas
Sou um mistério
Mesmo para mim
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Gentilmente entras no meu mundo


Serei nele um intruso?
Relembro com dor
Os enganos que me confortam
Por um breve instante que seja
Quem tu foste – eu lembro-me
Quem tu és – não te conheço
Um anjo desconhecido
Guia-nos pelas trevas
Fugindo à multidão
Entrámos pelos portais do desconhecido
Eu quero estar pronto

Mais um dia que passou


A vivermos lado a lado
O vento que toca a face traz coragem
Mas é difícil dizer amor
Finalmente sinto
Um abraço fatal
Uma entrega louca ás chamas de paixão

Tu
Uma estrela calma e insegura
À deriva no meio de tantas
Iluminas-me

Algo me diz
“Escolhe, a mudança é necessária”.
Mas estou fechado dentro de um cubo de brincar
E não há uma criança perto para rodar a manivela
Para eu depressa escapar
Ao recalcar de emoções
À prisão que é a minha timidez

No teatro dos sonhos


Representamos a vida
As pessoas são estranhas
Talvez porque o medo ocupa
Suas vidas insignificantes
Não paira como pensamos
Ocupa
E enche também estes dias em que penso em ti
Acorda
Abre os olhos doce criança
Esta é a noite
Em que os lunáticos reinam nas arvores da ilusão

O que corre no teu pensamento?

Vive o momento
Ilustrado de sentimento
São mil cores que nos fascinam e surpreendem
São sons que envolvem.
Relaxa
Que orgulho cego!

O que receias em mim?


Deixa os teus olhos andarem à deriva
Por este mar que te espera

Como a perda é difícil


Como o amor se demonstra
De maneiras tão diferentes neste teatro dos sonhos
Que acaba em manhãs de prata
Com o despertar rotineiro
Quem me dera continuar
Num palco esquecido
A fingir que sou Deus
Para só assim poder ver
Ver o que me rodeia
Que é apenas silencio e medo
Do quê não sei ao certo...
Mas estou seguro
Enquanto sonho que sou feliz

Esta é a noite
Em que hei-de acordar
3. Seus olhos sorriram

Naquele instante amei-a...

O tempo é o remorso dos loucos


Que vivem para lá destas paredes
Num segundo
Um segundo passa
E não existirá um segundo igual
Enquanto se viver

O tempo é fugaz
Entretanto aborreço-me...

Como eu desejo viver o segundo


Em que nos teus olhos vi o fogo
A sorrir-me e queimar-me
O que vi foi uma alma
Ardente, cativante, terna
Que amei com a minha

Impossível explicar
Como um segundo julgado perdido
Pode revelar tanto sobre alguém

O sorriso da tua alma ainda me prende

E se eu começar uma obsessão por ti?


Assim como um desporto estranho
Que surge para matar este e qualquer tempo
Que se nomeia de uma forma,
Também ela estranha,
Não pela sua complexidade,
Mas para lhe atribuir qualquer sentido.

E será obsessão?
Perder-me no profundo dos teus olhos
E no doce e quente prelúdio de um sorriso
(Ou desta forma mato este e qualquer tempo?).

E se for algo mais


Algo que me escapa
E se completa em ti
Algo que ganha forma a cada gesto
A cada passo dado num jogo de luz
A cada pedaço de conforto
Que encontro numa palavra tua

(Mas se o nomeio, ganha sentido?


Ou atribuo-lhe a sua complexidade?).
3

És a minha ilusão
Neste segundo de vida
És a maçã do meu coração
Que de azul está caída

És o meu sonho dúbio e cru


Que insisto em ignorar
És o meu deja vú
De voltar a acordar

És dança que o meu corpo faz arder


Orgulho, mantenho a altivez
Escape a uma rotina de prever?

Um sinal e volta esta embriaguez


Lúcido o desejo volto a conter.
Acordo, abro os olhos outra vez

Como é obvio.
Só sentimos a falta na ausência
Só pensamos no que se sente
Quando se torna mais difícil

Ninguém quer perder o que tem


Mas quer sempre algo mais
Como?
Deixando passar o tempo?
Até que se torne mais difícil

Há que lutar
Por o que nos mantém o sorriso no rosto
Que nos confunde, faz pensar.

Há que esquecer distancias

Estou aqui Meu Amor


Eu
O Homem, a Vida, a Aventura.
O teu Mito do Andrógino
...
O idiota...
Esse mesmo.

Sou eu Meu Amor


Sou eu quem te olha nos olhos
Esperança e Convite
O Silencio.

Sou eu quem espera


Um sinal do teu corpo
Ser cúmplice desse olhar
Que não haja tristeza
Em cada despedida constante

Estou aqui Meu Amor.


Sou eu quem te reinventa a cada instante
Num momento o embalar de conforto
Noutro a luxuria do teu corpo
A serenidade de uma palavra
Todo o desejo contido num só gesto

Que dias estranhos serão estes?


Combates de mil cores no céu
Entre quem vive e quem morreu
A revolta dos elementos confunde-nos
O fogo foi extinto

Esquece o mundo
E as pessoas
Não ha nada a perder
Estamos a avançar
A quebrar
Sem remorsos
O que nos foi imposto

O atear do velho fogo


De paixões insanas
E antigos jogos de prazer
É o que importa neste momento

És especial para mim


Libertas-me
O teu toque
Permite-me viver no abismo
Inconstante equilíbrio de emoções

As palavras tornam-se fortes


Quando é tudo o que nos resta

O tempo para hesitar acabou


Quem nos tira da escuridão?
Serão anjos ou guerreiros
Será a verdade ou ilusão?

Desejo ouvir-me
Nos teus lábios

Desejo olhar-me
Em teus olhos

Desejo sentir
O teu toque profundo

Porque quando me perco


E parto em viagens
Na busca de mim próprio
Só a ti te encontro

Desejo final:
Amar-te
Tiago da Neta
2007

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