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FACULADADE DA ALDEIA DE CARAPCIUÍBA

GISELE RODRIGRES

SEMIÓTICA, SEMI-SIMBOLISMO E O POETA LINGUISTA Uma aplicação de um modelo semi-simbólico

Trabalho de conclusão de curso Faculdade da Aldeia de Carapicuíba

CARAPICUÍBA

2015

FACULDADE ALDEIA DE CARAPICUÍBA

SEMIÓTICA, SEMI-SIMBOLISMO E O POETA LINGUISTA Uma aplicação de um modelo semi-simbólico

Trabalho de conclusão de curso Faculdade da Aldeia de Carapicuíba Área:

CARAPICUÍBA

2015

FACULDADE ALDEIA DE CARAPICUÍBA

SEMIÓTICA, SEMI-SIMBOLISMO E O POETA LINGUISTA Uma aplicação de um modelo semi-simbólico

Banca Examinadora:

Trabalho de conclusão de curso Faculdade da Aldeia de Carapicuíba Área:

Departamento:

CARAPICUÍBA

2015

AGRADECIMENTOS

RESUMO

Tendo em mente que o sentido se faz em um percurso linguístico, este trabalho se vale da semiótica estrutural (ou greimasina). Greimas recorre às definições de plano do conteúdo e plano da expressão, de Hjelmslev, para definir seus estudos semióticos. Nos domínios do plano do conteúdo a significação é descrita pela semiótica no modelo do percurso gerativo do sentido. Assim, temos num primeiro momento uma semiótica do conteúdo. Contudo, alguns textos, devido à sua natureza, tem seu plano da expressão relacionado ao conteúdo, então num segundo momento, a semiótica passa a estudar essas relações, que chamamos de semi-simbólicas. Tomando a ideia de semi-simbolismo, desenvolvida principalmente por Floch, analisaremos dois poemas de Arnaldo Antunes, verificando a possibilidade de relações entre os dois planos na significação de um texto.

Palavras-chave: semi-simbolismo, semiótica, plano da expressão.

ABSTRACT

Having in mind that the meaning is produced in a linguistic process, this paper refers to the French semiotics. Greimas resorts to Hjelmslev’s definitions of content plane and expression plane to define his semiotic studies. In the domains of content plane the signification is described by Semiotics in a meaning generative process. Thus, we have in a fisrt moment the studies of the content plane. However, some texts, due to its type, relate the content plane to the expression plane, so in a further moment, Semiotics starts studying these relations, which got to be called semi-symbolism. Referring to the idea of semi- symbolism, developed mainly by Floch, we will analyze two poems by Arnaldo Antunes, confirming the possibility to relate these two planes in the meaning of a text.

Key-words: semi-symbolism, Semiotics, expression plane.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

7

1. SENTIDO E SEMIÓTICA

9

 

1.1 Bases da semiótica estrutural

9

1.2 Sentido e Semiótica

10

2. O percurso Gerativo do Sentido

13

 

2.1 O nível Fundamental

13

2.2 O Nível Narrativo

14

2.3 Nível Discursivo

17

3. PLANO DA MANIFESTAÇÃO E O SEMI-SIMBOLISMO

19

4. OS TIPOS DE POETAS: REGIMES E MODOS DE COESÃO

21

5. ANTUNES, O LINGUISTA

23

6. O LINGUISTA E O PLANO DA EXPRESSÃO

24

 

6.1

Cromossomos

24

6.1.1 Expressão e a plasticidade

26

6.1.2 Elementos cromáticos e o plano da expressão

27

6.1.3 Expressão e sonoridade

29

6.1.4 Articulação entre semióticas

30

6.2

O ir do rio

31

6.2.1 O percurso (do olhar) do rio(ir)

32

6.2.2 Fluxo fonológico do rio(ir)

33

7.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

36

REFERÊNCIAS

37

7

INTRODUÇÃO Devemos ter em mente que quando falamos de Semiótica, não falamos de apenas um, mas diferentes domínios do saber. Aqui, trataremos da Semiótica elaborada por Greimas (e seus colaboradores). Essa Semiótica tem sua origem a partir da Semântica estrutural, de A. J. Greimas 1 e, atualmente, continua sendo desenvolvida em algumas frentes de pesquisa. Do mesmo modo que as primeiras formulações conceituais de F. Saussure consideráveis modificações, as de A. J. Greimas também. De maneira geral, a semiótica estuda o sentido que se produz no plano do conteúdo. Porém, há textos em que, devido a uma organização do plano da expressão, “a expressão produz sentido” (Barros,1990, p. 81). Para explicar esses fenômenos, a Semiótica elabora a teoria dos sistemas semi-simbólicos, alcançando assim o plano da expressão, além do percurso gerativo do sentido. Nessa teoria, a expressão “produz” sentido, quando uma organização em seu plano entra em relação com uma organização do plano do conteúdo (Barros, 1990, p. 80-82). A poesia é um tipo textual que tende levar as possibilidades de articulações da linguagem a seus extremos. A poesia concreta, especialmente, busca a exploração da figura, uso do espaço gráfico e recursos tipográficos 2 . Para ilustrar essas explorações foi escolhido o poeta Arnaldo Antunes, executor de diversos trabalhos concretistas 3 . Dois poemas foram escolhidos para análise semiótica semi- simbolista: Cromossomos e Rioir.

Neste trabalho, mostraremos, através do modelo semiótico e das relações semi-simbólicas, a produção do sentido que se constrói, dentro da obra, a partir das relações que o poeta, engenhosamente, cria entre o plano do conteúdo e o plano da expressão.

O modelo semiótico foi escolhido para análise para verificar o estatuto dos estudos de linguagem no que concerne à engenhosidade poética. Com frequência as questões literárias são preteridas em função de outras. Pietroforte (2011, p.12),

1 Cf. Greimas, s.d.Semântica Estrutural

3 Apesar de a crítica classificá-lo como tal, Antunes acha esse rótulo reducionista, contudo, reconhece as influências concretistas.

8

toma o texto “Conferência sobre lírica e sociedade” alegando que uma teoria literária baseada nas propostas de Adorno tende a privilegiar a análise ideológica à engenhosidade literária. A semiótica, então, parece ser um método de análise de discurso razoável, considerando a autonomia das formas de articulação dos discursos literários.

9

1. SENTIDO E SEMIÓTICA

1.1 Bases da semiótica estrutural Os estudos semióticos têm como base os estudos linguísticos de Ferdinand de Saussure 4 e Louis Hjelmslev 5 . Saussure ficou conhecido por perceber relações dicotômicas na linguagem e pela definição de signo. O linguista francês define signo como a união de um conceito a uma imagem acústica (SAUSSURE, s.d., p.81). Para Saussure a língua é uma forma e não substancia. No capítulo quatro do Curso de Linguística Geral, encontramos como ele explica a articulação entre forma e substância:

Tomado em si, o pensamento é como uma nebulosa onde nada

está necessariamente delimitado. Não existem idéias preestabelecidas, e

A substância fônica

não é mais fixa, nem mais rígida; não é um molde a cujas formas o

pensamento deve necessariamente acomodar-se, mas uma matéria plástica

que se divide, por sua vez, em partes distintas, para fornecer os

significantes dos quais o pensamento tem necessidade. Podemos, então,

representar o fato lingüístico em seu conjunto, isto é, a língua, como uma

série de subdivisões contíguas marcadas simultaneamente sobre o plano

indefinido das idéias confusas e sobre o plano não menos indeterminado

dos sons. (

criar um meio fônico material para a expressão das idéias, mas servir de

intermediário entre o pensamento e o som, em condições tais que uma

união conduza necessariamente a delimitação recíproca de unidades. ( )

Não há, pois, nem materialização do pensamento, nem espiritualização de

sons; trata-se, antes, do fato, de certo modo misterioso, de o “pensamento-

som” implicar divisões e de a língua elaborar suas unidades constituindo-se

entre duas massas amorfas. (Saussure, s. d.: 130-131).

O papel característico da língua frente ao pensamento não é

nada é distinto antes do aparecimento da língua. (

)

)

Para ilustrar esse pensamento, Saussure usa a imagem de uma folha de papel para explicar o funcionamento da articulação de uma língua:

A língua é também comparável a uma folha de papel: o pensamento

é o anverso e o som é o verso; não se pode cortar um sem cortar, ao

mesmo tempo, o outro; assim tampouco, na língua, se poderia isolar o som

do pensamento, ou o pensamento do som; só se chegaria a isso por uma

4 Linguista francês, dito o “pai da linguística (moderna)” 5 Linguista dinamarquês.

10

abstração cujo resultado seria fazer Psicologia pura ou Fonologia pura. A Lingüística trabalha, pois, no terreno limítrofe onde os elementos das duas ordens se combinam; esta combinação produz uma forma, não uma substância. (Saussure, s. d.: 131).

Na proposta de Saussure a substância, tanto fônica quanto conceitual, antecede à língua. Para ele, a forma da língua faz a intermediação de duas substâncias que são anteriores a ela, ou seja, existem a priori para que a língua possa realizar-se a posteriori (PIETROFORTE, 2008, p.21). Já Hjelmslev, apesar de usar dos elementos que Saussure, propõe uma ordem diferente:

nada autoriza que se faça preceder a língua pela “substância do

conteúdo” (pensamento) ou pela “substância da expressão” (cadeia fônica) ou o contrário, quer seja numa ordem temporal ou numa ordem hierárquica. Se conservarmos a terminologia de Saussure, temos então de nos dar conta - e justamente a partir de seus dados - de que a substância depende exclusivamente da forma e que não se pode, em sentido algum, atribuir-lhe uma existência independente. (Hjelmslev, 1975: 55).

) (

Hjelmslev inverte o sentido de uma articulação em que substância precede a forma para uma articulação em que a forma é que determina a substância. Se a língua não é “um simples reflexo” e sim “a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas” (Hjelmslev, 1975, p. 1), ela não pode ser o reflexo de quaisquer substâncias. Ela deve ser uma forma a partir da qual uma substância conceitual e uma substância fônica podem ser determinadas.

1.2 Sentido e Semiótica

Hjelmslev apresenta a sua definição de sentido no tópico reservado às questões da expressão e do conteúdo (Hjelmslev, 1975, p. 51-64). Primeiro, ele define o sentido como um fator comum:

“que é uma grandeza que só se define pela função que a une ao princípio de estrutura da língua e a todos os fatores que fazem com que as línguas se distingam umas das outras” (Hjelmslev, 1975, p.55- 56).

11

Esse princípio de estrutura da língua é aquele que “comporta a função semiótica e todas as funções que dela se pode deduzir - princípio que, enquanto tal,

é naturalmente comum a todas as línguas, mas cuja execução é diferente em cada

uma delas” (Hjelmslev, 1975, p. 55). A função semiótica é aquela que está “situada

entre duas grandezas: expressão e conteúdo” (Hjelmslev, 1975, p. 53). Usando o princípio da isomorfia entre os planos de expressão e conteúdo, Hjelmslev postula que o conceito de sentido pode ser aplicado também aos domínios do plano da expressão (Hjelmslev, 1975, p. 60):

Sendo manifestamente a mesma a situação para a expressão e seu conteúdo, convém ressaltar este paralelismo pelo uso de uma mesma terminologia para a expressão e para o conteúdo. Seria possível assim falar de um sentido da expressão, e nada impede de fazê-lo, embora isso seja algo contrário ao habitual.

No Dicionário de lingüística, organizado por J. Dubois (e outros), encontramos

a seguinte definição de isomorfia:

Diz-se que há isomorfia entre duas estruturas de duas ordens diferentes de fatos quando ambas apresentam o mesmo tipo de relações combinatórias. (Dubois e outros, s.d.: 354 apud PIETROFORTE, 2008 p.24)

A estrutura da forma do conteúdo pode ser descrita com o mesmo tipo de relações combinatórias que a estrutura do plano da expressão. Assim, os resultados das pesquisas em Semiótica, válidos para o sentido do plano do conteúdo, podem ser aplicados ao sentido do plano da expressão. Já que para Hjelmslev a língua deve ser descrita nesses dois planos da linguagem, e não por meio de níveis de análise, como são os procedimentos da fonologia, da morfologia, da lexicologia, da sintaxe e da semântica (Hjelmslev, 1975, p. 63). No Dicionário de semiótica, sentido tem a seguinte definição (Greimas e Courtés, s.d.: 416-417 apud PIETROFORTE, 2008, P. 29-30):

1. Propriedade comum a todas as semióticas, o conceito de sentido é indefinível. Intuitivamente ou ingenuamente, duas abordagens do sentido são possíveis: pode ser considerado quer como aquilo que permite as

12

operações de paráfrase ou de transcodificação, quer como aquilo que fundamenta a atividade humana enquanto intencionalidade. Anteriormente à sua manifestação sob forma de significação articulada, nada poderia ser dito do sentido, a não ser que se façam intervir pressupostos metafísicos carregados de conseqüências. 2. L. Hjelmslev propõe urna definição operatória de sentido, identificando-o com o “material” primeiro, ou com o “suporte” graças ao qual qualquer semiótica, enquanto forma, se acha manifestada. Sentido torna-se, assim, sinônimo de “matéria” (o inglês “purport” subsume as duas palavras): uma e outra são empregadas indiferentemente, falando-se de dois “manifestantes”:

o do plano da expressão e o do plano do conteúdo. O termo substância é em seguida utilizado para designar o sentido enquanto algo que é assumido por uma semiótica, o que permite distinguir então a substancia do conteúdo

da substância da expressão.

Como, conclui Pietroforte (2008, p. 30-32), a Semiótica faz uma abordagem diferente da de Hjelmslev. Ela investiga os domínios do plano do conteúdo. Greimas define esse domínio quando trata da correlação entre significantes e significados na sua Semântica estrutural (Greimas, s.d., p.17-20). Para ele, o mesmo significado pode manifestar-se em ordens diferentes de significantes. A Semiótica define o plano de expressão em um nível de manifestação e estuda o conteúdo isolado do plano da expressão. Portanto, a Semiótica não é uma teoria linguística ou uma teoria sobre outras ordens de expressão quaisquer, seu objeto de estudo é a significação. Para Greimas, a Semiótica encarrega-se da construção de um modelo teórico que traduz a sua proposta de semântica como linguagem. Na teoria padrão da Semiótica, o conteúdo pode ser formalizado em um percurso gerativo do sentido. Neste percurso, a Semiótica define três níveis homogêneos de análise, de modo que o sentido é gerado a partir de uma semântica fundamental e se realiza em um determinado discurso. O Percurso gerativo do sentido será detalhado mais adiante. Para a Semiótica, portanto, o sentido é investigado nos domínios do plano do conteúdo. Para Hjelmslev, o sentido está definido tanto nos domínios da expressão quanto do conteúdo, de modo que os domínios de sua definição não estão restritos ao plano do conteúdo, como faz a Semiótica. Contudo, em Hjelmslev o sentido está identificado com a substância

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desses planos enquanto suporte de uma forma semiótica, enquanto a Semiótica estuda o sentido como um processo de formação de uma substância conceitual.

2. O percurso Gerativo do Sentido Para entender melhor o desenvolvimento da semiótica greimasiana, devemos olhar para os conceitos e elementos do modelo do percurso gerativo do sentido. O percurso gerativo do sentido é uma sucessão de patamares, cada um dos quais suscetível de receber uma descrição adequada, que mostra como se produz e se interpreta o sentido, num processo que vai do mais simples ao mais complexo. (FIORIN, 2013, p. 20)

O modelo de produção de sentido é constituído de três níveis: o Profundo (ou

Fundamental), Narrativo e o Discursivo. Cada nível é composto por um componente sintático e outro semântico, que se contrapõem na teoria discurso. O esquema que segue é retirado de Fiorin (2013 p.20):

 

Componente

Componente

Sintático

Semântico

Estruturas

Nível profundo

Sintaxe

Semântica

semionarrativas

fundamental

Fundamental

Nível de superfície

Sintaxe narrativa

Semântica

Narrativa

Estruturas

Sintaxe discursiva Discursivização (actorialização, temporalização, espacialização)

Semântica

Narrativas

discursiva

Tematização

Figurativização

2.1 O nível Fundamental

O nível fundamental é o mais simples e abstratos de todos, nele há uma rede

fundamental de relações que estabelecem o sentido. Essas relações se dão por

oposição e negação de categorias fundamentais e podem ser demonstradas no quadrado semiótico:

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S1 S2 Não-S2 Não-S1
S1
S2
Não-S2
Não-S1

Essa oposição semântica mínima é a primeira condição para a narratividade,

e para fazer essa oposição é necessário que haja um elemento comum aos dois

termos e é sobre esse traço comum que é estabelecida essa diferença, por exemplo,

“Contrapomos /masculinidade/ e /feminilidade/, pois ambos se situam no âmbito da /sexualidade/” (FIORIN, 2013, p.22).

Ao identificar essas categorias fundamentais, elas recebem qualificações (semânticas) de foria: /euforia/ versus /desforia/. Ao termo aplicado a qualidade /euforia/ é considerado o termo positivo; aquele marcado com /disforia/ tem valor negativo. O valor fórico é inscrito no texto e não pelo leitor, assim, o mesmo termo pode ser classificado tanto como eufórico quanto como disfórico, isso dependerá do texto.

Com relação à sintaxe do nível fundamental, são abrangidas duas operações:

a negação e a asserção. Essas relações aparecem ao decorrer do texto posta a oposição das categorias a versus b:

a) Afirmação de a, negação de a, afirmação de b.

b) Afirmação de b, negação de b, afirmação de a.

2.2 O Nível Narrativo O segundo nível do percurso gerativo de sentido é o narrativo. É importante

ressaltar que não deve-se confundir narratividade com narração, pois, esta “concerne a uma determinada classe de textos. Aquela é uma transformação situada

entre dois estados sucessivos e diferentes [

uma transformação e um estado final.” (FIORIN, 2013, p. 27). Uma narratividade mínima ocorre quando há um estado inicial, uma transformação e um estado final. A narratividade pode subjazer um enunciado, Fiorin exemplifica:

],

quando se tem um estado inicial,

15

Quando o presidente da República, em discurso dirigido à nação, diz que 1graças aos esforços continuados do governo, a inflação foi contida’, subjaz a esse enunciado uma narrativa mínima: estado inicial de inflação descontrolada, estado final ”. (2003, p.28)

Assim, a narratividade é um componente da teoria do discurso, enquanto a narração é um gênero/classe do discurso, o qual tem uma (ou várias) narratividade(s) desencadeada(s) por personagens (transformações de estado).

Na sintaxe narrativa, há dois tipos de enunciados elementares:

a) Enunciados de estado: os que estabelecem relação de junção, podendo ser conjunção ou disjunção entre um sujeito (S) e um objeto de valor (O˅). As relações de conjunção podem ser representadas da seguinte maneira: (S ˄ O˅) - conjunção; (S ˅ O˅) - disjunção, sendo S: sujeito; O˅: objeto de valor; ˄:

conjunção; ˅: disjunção.

b) Enunciados de fazer: aqueles que apresentam as transformações, mudanças de estado.

Há a partir desses elementos temos uma narrativa simples descrita na sequência serÞ fazerÞ ser, que define um programa narrativo.

Considerando que há dois tipos de estado, há dois tipos de narrativa mínima:

a de privação (estado inicial conjunto e um final desconjunto) e a de liquidação de uma privação (estado inicial disjunto e um final conjunto), esquematizados:

(S˄O)→(S˅O) e (S˅O)→(S˄O).

Fiorin (2013, p.29) lembra que não devemos confundir sujeito com pessoa e objeto com coisa: “Sujeito e objeto são papeis temáticos que podem ser representados num nível superficial por coisas, pessoas ou animais.” (FIORIN, 2013,

p.29).

Nas narrativas, formadas por mais de um programa narrativo, o programa narrativo pode funcionar como um programa de base ou de uso. Nas palavras de Pietroforte:

O programa de base descreve a ação principal do sujeito e os programas de uso as ações subordinadas a esta ação principal. Os

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programas de uso descrevem a aquisição da competência necessária para

a realização da performance descrita no programa de base. A competência

é sistematizada por meio da aquisição de modalidades narrativas querer,

dever, saber e poder. Estas quatro modalidades formalizam os quadros da competência que deve ser adquirida para a realização da performance, de modo que elas traduzem, em seu poder de generalização, os diferentes programas de uso que um sujeito deve realizar essa performance.

(PIETROFORTE, 2008, pp.31-32)

Os textos, então não são narrativas mínimas, mas, uma serie de enunciados. Numa narrativa complexa a organização sintática canônica compreende quatro fases: manipulação (sujeito adquire o querer e/ou o dever ); competência (aquisição do saber e o poder para realizar a performance); performance (ação); e sanção (julgamento).

Na manipulação o sujeito- destinador manipula um sujeito-destinatário, que na ação é o sujeito que se relaciona com o objeto. De acordo com Fiorin há “inúmeros tipos de manipulação: o pedido, a ordem, etc.” (2013, p.30), os principais são:

tentação (proposta de recompensa ao manipulado);

intimidação (ameaças);

sedução (quando o manipulador apresenta com um valor positivo à competência do manipulado);

provocação (o manipulador impele valor negativo à competência do manipulado).

É na fase da competência que o sujeito adquire o saber e o poder fazer. Esses elementos aparecem de diversas formas no plano superficial do discurso. A performance é a fase que se dá a transformação central da narrativa. O sujeito entra em conjunção ou disjunção com o objeto de valor. Na sanção, última fase, ocorre a constatação de que a performance ocorreu (reconhecimento do sujeito que operou a ação). É na fase da sanção que os segredos são revelados e as descobertas são feitas.

Fiorin (2013, pp.32-33) ressalta que a ordem canônica apresentada anterior pode aparecer de forma não comportada. Muitas fases ficam ocultas e precisam ser recuperadas por pressuposição. O percurso narrativo pode aparecer numa ordem

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alternativa à apresentada. Uma das fases pode ter mais ênfase (no relato). E, às vezes, as narrativas não realizam completamente.

Pietroforte (2008, p.32) ressalva que esse modelo é formalizado, basicamente, “em torno do objeto” e que a “Semiótica das paixões (Greimas e Fontanille, 1993) mostrou a possibilidade de uma formalização maior no sujeito” e para além dos “estados das coisas” adiciona “estados da alma” do sujeito narrativo 6 .

2.3 Nível Discursivo Se os níveis fundamental e narrativo, identificamos conceitos e formas abstratas, no nível discursivo há revestimento dessas abstrações por termos que lhe dão concretude. Assim, se no nível da narratividade tínhamos um sujeito que entra em conjunção com a riqueza, no plano discursivo podemos ter diferentes formas de concretizar esse percurso narrativo: o recebimento de uma herança, um roubo, trabalho árduo, descoberta de uma mina, investimento bem sucedido, bilhete premiado (da loteria), etc.

Um discurso realiza-se na forma de um enunciado, que, por sua vez, é produzido por uma enunciação. Esta última é uma instância pressuposta, visto que é o seu produto o que vemos, o enunciado. O enunciado é a instância do ego hic nunc. Para que haja um enunciado, defini-se um enunciador (eu) e um enunciatário (tu), e nessa relação cria-se o enunciado. Quando há marcação do enunciador e do enunciatário através de dêiticos chamamos de enunciado enunciativo, e através da desinência verbal esse eu e esse tu são localizados num tempo (agora) e por adjuntos adverbiais num um lugar (aqui). Já quando o eu e o tu não estão implícitos no enunciado, há o uso da terceira pessoa (ele), chamamos esse enunciado de enuncivo. O ele é o outro, que, também, é coloca num lugar (lá) e num tempo (alhures). Esquematicamente podemos representar assim:

6 Cf. GREIMAS & FONTANILLE, J. (1993). Semiótica das paixões. São Paulo, Ática.

18

18 (in: Pietroforte, 2008, p.37) Cada tipo de enunciação tem, portanto, sistemas pessoas, temporais e espaciais,

(in: Pietroforte, 2008, p.37)

Cada tipo de enunciação tem, portanto, sistemas pessoas, temporais e espaciais, cuja colocação no discurso é chamada de debreagem. Até aqui tratamos da sintaxe discursiva. Esses elementos (ego hic nunc) recebem investimentos semânticos, que podem ser temáticos ou figurativos. Todos os textos tematizam o nível narrativo que poderá ou não ser figurativizado. Quando um texto apresenta ideias abstratas temos um texto temático (por exemplo, um texto filosófico), quando essas ideias aparecem revestidas por figuras textuais, temos um texto figurativo (ex.:

parábola).

19

3. PLANO DA MANIFESTAÇÃO E O SEMI-SIMBOLISMO Até aqui esse percurso cobria o plano do conteúdo. A Semiótica trata, a rigor, do conteúdo, e deixa o plano da expressão de lado, num primeiro momento. Todavia, um texto pode manifestar-se de diversas formas, ou seja, o mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas. Em muitos textos o plano do conteúdo serve apenas para veiculação do conteúdo, porém, em alguns casos a forma ganha “sentido”. Lembramos que Hjelmslev nos diz que “é em razão da forma do conteúdo e da forma da expressão, e apenas em razão delas, que existem a substância do conteúdo e a substância da expressão, que surgem quando se projeta a forma sobre o sentido, tal como um fio esticado projeta a sua sombra sobre uma superfície contínua” (Hjelmslev, 1975: 61). Assim, ele mantém a fidelidade ao princípio da imanência da forma e define o sentido como o fator comum, tanto no plano da expressão quanto no plano do conteúdo. Essa expansão dos domínios conceituais da definição de sentido permite que os dois planos da linguagem passem a ter em um comum a propriedade de ter sentido, o que permite, com os avanços da Semiótica no estudo do sentido do conteúdo, a possibilidade de um estudo do sentido da expressão. É preciso desenvolver essa proposta. Chama-se relação semi-simbólica quando articulamos uma forma do conteúdo e uma forma da expressão. Tomando o exemplo dado por Pietroforte (2004, p.21):

Uma pintura em que o plano do conteúdo é articulado com as categorias semânticas vida vs. morte, pode ter sua expressão articulada com as categorias plásticas luz vs. sombra, de modo que a sombra refira-se à morte e a luz, à vida.

A princípio a teoria semi-simbólica pode ser aplicada em quaisquer sistemas semióticos, contudo, Pietroforte aponta para um recorte frequente:

embora a teoria do semi-simbolismo possa ser aplicada em

quaisquer sistemas semióticos, ela tem sido aplicada, com mais regularidade, nos sistemas semióticos visuais, como a pintura e a fotografia. Basicamente, nas análises semi-simbólicas de textos, o que é homologado são categorias semânticas do nível fundamental do conteúdo com

] [

20

categorias fundamentais do plano da expressão, que no caso dos sistemas visuais são categorias plásticas, como luz vs. sombra, esquerda vs. direita, englobante vs. englobado, e outras. No sistema semiótico verbal, essa aplicação raramente é feita. Ela, porém, aparece em poemas como A onda (Bandeira, 1980: 255), de Manuel Bandeira, em que a categoria de conteúdo continuidade vs. descontinuidade pode ser homologada com a categoria de expressão som vs. ruído, com as vogais realizando o termo som e as consoantes realizando o termo ruído. (PIETROFORTE, 2008,

pp.155-156).

21

4. OS TIPOS DE POETAS: REGIMES E MODOS DE COESÃO Pietroforte em O discurso da Poesia concreta: uma abordagem semiótica propõe uma sistematização dos regimes de realização poética (com base numa análise feita por Floch 7 ), e ele propõe quatro categorias de poetas a partir da categoria formal continuidade vs. descontinuidade, aplicados ao sistema verbal e o discurso.

As categorias de poetas são: o linguista, pregador, arquiteto e conversador. O regime esquematizado no quadrado semiótico:

Linguista

Descontinuidade

Não-continuidade

Assim:

Linguista Descontinuidade Não-continuidade Assim: Pregador Continuidade Não-descontinuidade Cada regime é

Pregador

Continuidade

Não-descontinuidade

Cada regime é definido por uma forma de expressão: o linguista

afirma a descontinuidade desmontando o sistema verbal; o conversador

nega a descontinuidade ao respeitar o comportamento lexical sem

desmontá-lo; o pregador afirma a continuidade em suas frases livres; e o

arquiteto nega a continuidade do discurso ao impor sistemas de escansão

para organizar o fluxo entoativo. [

desmontagem do sistema verbal, tende a trabalhar conteúdos

metalinguísticos, utilizando a linguagem para falar da própria linguagem,

como faz Arnaldo Antunes e os concretistas; O poeta arquiteto também faz

esse trabalho, mas antes de inventar novas formas, reutiliza e inova formas

já consagradas, como Glauco Mattoso faz em o soneto e a literatura de

cordel, e Alice Ruiz, com o Haikai; O poeta pregador os (sic.) insistir no fluxo

discursivo, deriva para conteúdos delirantes, como fazem Roberto Piva e

Jorge Mautner; [

com figuratividade menos abundante, geralmente trata de temas engajados,

como a maioria dos poetas de esquerda por exemplo, Ferreira Gular e

]

O poeta linguista, ao insistir na

]

O poeta conversador, com muitos versos livres, mas

7 Floch analisou o percurso dos passageiros do metrô de Paris e sistematizou o comportamento dos passageiros de acordo com o modo que se comportavam durante a viagem.Floch identificou quatro /regimes de interação que ele dispôs no quadrado semiótico. Cf. FLOCH, J.M. (1995) Sémiotique, marketing et communication. 2. ed., Paris, PUE.

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boa parte dos poetas da chamada literatura negra por exemplo, Cuti. (PIETROFORTE, 2011, p.30).

Cabe ainda lembrar que esses regimes não são fixos e que muitos poetas transitam nesses regimes determinados, alguns poetas tendem a serem mais fies, outros tendem a articular predominantemente mais de um regime. Gostar de um poeta é se identificar mais com um regime ou outro, para a semiótica é saber relacionar engenhosamente categorias do plano da expressão e do conteúdo.

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5. ANTUNES, O LINGUISTA Antunes é um artista contemporâneo conhecido principalmente por seus trabalhos musicais e sua participação na banda Titãs, ou no trio Tribalistas, ou mesmo sua carreira solo. Também poeta,

Nome completo: Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho, ele nasceu na capital de São Paulo em 02 de Setembro de 1960. O período de sua infância foi marcado pela ditadura militar, pelas movimentações contraculturais do final dos 60 e a fermentação cultural do Tropicalismo no início dos 70.

Ainda bastante novo, durante este período de faculdade, foi um dos poetas que participou de forma atuante na manifestação literária da época: a Poesia Marginal. Em 80, larga a universidade para participar ativamente dos Titãs.

Foi aluno de letras na USP, alcançando destaque entre seus professores ao ser considerado aluno promissor na área; porém, não chegou a concluir o curso. Sua habilitação era linguística, o que não pode ser ignorado. Antunes é conhecedor dos estudos de linguagem, o que influencia em sua obra.

Atualmente não tem estado muito presente na mídia. Suas obras poéticas encontram-se em seu site oficial <http://www.arnaldoantunes.com.br/new/>.

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6. O LINGUISTA E O PLANO DA EXPRESSÃO

Neste trabalho articularemos o semissimbolismo presente no poeta linguista

nos regimes propostos por Pietroforte. Partindo do pressuposto que a significação se

dá gerativamente, mostraremos as associações entre conteúdo e expressão que se

criam dentro dos poemas (concretistas) de Arnaldo Antunes, um poeta “linguista”.

6.1 Cromossomos Tomemos o poema Cromossomos (2003) de Arnaldo Antunes:

Tomemos o poema Cromossomos (2003) de Arnaldo Antunes: (Cromossomos, Antunes, 2003). sequência

(Cromossomos, Antunes, 2003).

sequência

“CROMOSSOMOSCOMOCOSMOSSOMOS” 8 disposto em circulo, não espaçado e

O

círculo

formado

pela

8 Não há como saber onde “começa” de fato o poema devido à sua forma. Aqui, optamos por começar por “cromossomos” visto que é a única palavra que contem uma letra de cor diferenciada; e esta letra se encontra na primeira sílaba de cromossomos.

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com letras semelhantes a formas geométricas (/r/ é a única exceção), fundo preto, as letras são brancas aparte do /r/ que é vermelho.

No plano do conteúdo discursivo temos as figuras dos cromossomos, do e do cosmos. Há também um eu (poeta) que se instaura pelo presente simples do indicativo, expressando uma situação permanente 9 , isso, partindo da leitura “cromossomos, como cosmos somos” 10 . O poeta afirma que somos estruturas fundamentais e que somos como a unidade maior, o cosmos. No nível fundamental estas figuras representam as categorias /individualidade/ versus /coletividade/. Porém, esta oposição não é dual, ela se dá num percurso: afirmação de a, negação de a, afirmação de b. Temos, então: afirmação da /individualidade/, negação da /individualidade/, afirmação da coletividade.

Individualidade S1

Coletividade S2

da coletividade. Individualidade S1 Coletividade S2 Não-coletividade Não- individualidade Não-S2 Não-S1

Não-coletividade

Não- individualidade

Não-S2

Não-S1

Essas categorias fundamentais se figuram no discurso: cromossomos, que somos pluralidade/parcialidade; cosmos, comparação a um objeto uno, unicidade/totalidade:

Individualidade S1

Cromossomos

Humanidade

Não-coletividade

Não-S2

S1 Cromossomos Humanidade Não-coletividade Não-S2 Coletividade S2 Cosmos Humanidade Não- individualidade

Coletividade S2

Cosmos

Humanidade

Não- individualidade

Não-S1

A humanidade aparece aqui como uma figura complexa das negações.

9 Cf. AZEREDO, J.C. de. Gramática Houaiss da língua Portuguesa. Pubifolha. 10 Outras interpretações são possíveis, como: “somos cromos, somos como cosmos”.

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No nível narrativo, temos um enunciado elementar de estado (sintaxe narrativa): o poeta (eu) tem um saber: apesar de sermos seres individuais, fazemos parte de um todo. Ele se dirige ao leitor (tu), integrando o leitor neste saber ao enunciar implicitamente o “nós”. Temos uma embreagem enunciativa (actancial) estabelecida pelo uso de “somos”: primeira pessoa do plural do presente do indicativo: o poeta (eu) está em conjunção com esse saber, quer que seu leitor compartilhe desse saber, para isso ele manipula esse autor a acreditar e fazer parte do coletivo. A manipulação é por meio de sedução. O poema é uma forma de sedução. A sanção não está explícita, porém, podemos aferi-la: se o leitor se compraz com o poema, e acredita na ideia proferida pelo poeta.

6.1.1 Expressão e a plasticidade As formas de escrita podem variar, mas, de maneira geral, podem: ou dá ênfase nas formas do conteúdo, a fim de reproduzir formas semânticas; ou dá ênfase nas formas da expressão, a fim de reproduzir formas fonológicas. Assim:

“os sinais gráficos são ideogramas quando representam conceitos semânticos, ou alfabéticos quando representam sílabas ou fonemas. Não se deve esquecer, porém, que mesmo que os códigos predominantemente ideogramáticos, há traços alfabéticos, pois alguns sinais são tomados como representações fonológicas.(PIETROFORTE, 2011, p. 51).

Seja como for, tratam-se de imagens plásticas associadas à imagens conceituais ou acústicas de forma arbitrária. Em algumas combinações, as letras do alfabeto podem formar caligramas (onde, formam-se imagens a partir de letras). No caso de Cromossomos as letras formam um círculo. Podemos correlacionar formas semânticas a formas plásticas, “fazendo com que os limites entre as artes verbais e as artes plásticas sejam dimensionados no texto do poema” (PIETROFORTE, 2011, pp. 51 e 52).

Podemos associar as formas plásticas menores letras com os cromossomos (estes já associados na análise anterior à /parcialidade/) e o fundo preto com a /não-parcialidade/, o grande círculo não é continuo, ele representa a /não-totalidade/ vemos a imagem do céu, que representa o cosmos /totalidade/. Representação desta relação:

27

Plano do conteúdo

Plano do conteúdo fig.

Plano da expressão

/parcialidade/

/totalidade/

– fig. Plano da expressão /parcialidade/ /totalidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /letras/ /o poema/ Assim, uma

/cromossomos/

/cosmos/

/parcialidade/ /totalidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /letras/ /o poema/ Assim, uma categoria semântica é

/letras/

/o poema/

Assim, uma categoria semântica é convertida em plástica, por meio de significação e um traço de conteúdo, revelado no plano da expressão.

Posto no quadrado semiótico:

Parcialidade S1

letras

Fundo-preto

Não-totalidade

Parcialidade S1 letras Fundo-preto Não-totalidade Totalidade S2 poema grande círculo Não-parcialidade Outra

Totalidade S2

poema

grande círculo

Não-parcialidade

Outra leitura: as formas circulares têm como característica a continuidade, e as formas pontiagudas têm como característica a descontinuidade. Assim, podemos correlacionar as categorias plásticas /circular/ e /pontiagudo/ às categorias semânticas fundamentais /continuidade/ e /descontinuidade/, respectivamente:

Plano do conteúdo

Plano do conteúdo fig 11 .

Plano da expressão

Plano da expressão fig.

/continuidade/

/descontinuidade/

da expressão – fig. /continuidade/ /descontinuidade/ /cosmos/ /cromossomos/ /circular/ /pontiagudo/ /letra

/cosmos/

/cromossomos/

fig. /continuidade/ /descontinuidade/ /cosmos/ /cromossomos/ /circular/ /pontiagudo/ /letra “o”/ /letra “m”/ .

/circular/

/pontiagudo/

/cosmos/ /cromossomos/ /circular/ /pontiagudo/ /letra “o”/ /letra “m”/ . 6.1.2 Elementos

/letra “o”/

/letra “m”/

.

6.1.2 Elementos cromáticos e o plano da expressão Também podemos articular características cromáticas ao plano da expressão. No poema encontramos três cores: branco, vermelho e preto.

11 Fig. Abreviação de “figura”.

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A luz, categoria cromática, é usada frequentemente para representar a vida, um elemento animado e vivo que pode morrer, logo é algo perecível; associaremos a luz à categoria semântica fundamental /mortalidade/. Em contrapartida a sombra é frequentemente usada para representar a morte. Esta última vem para todos os seres vivos e, em muitas crenças religiosas, leva para uma vida posterior eterna, logo, podemos associá-la ao imortal. Então, à sombra, associaremos a categoria fundamental /imortalidade/. Opomos então: /mortalidade/ vs. /imortalidade/. No poema, o elemento mortal é o cromossomo, e o elemento imortal é o cosmos. Essa relação pode ser representada:

Plano do conteúdo

Plano do conteúdo fig.

Plano da expressão

Plano da expressão fig.

/mortalidade/

/imortalidade/

Plano da expressão – fig. /mortalidade/ /imortalidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /luz/ /sombra/ /letras brancas/

/cromossomos/

/cosmos/

fig. /mortalidade/ /imortalidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /luz/ /sombra/ /letras brancas/ /fundo preto/ Essa relação

/luz/

/sombra/

/imortalidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /luz/ /sombra/ /letras brancas/ /fundo preto/ Essa relação de

/letras brancas/

/fundo preto/

Essa relação de contrariedade não se dá diretamente, ela passa pelos termos contraditórios. Afirmação de a, negação de a, afirmação de b. Afirmamos a vida, pelo branco, para negá-la, e afirmar seu contrário, passamos pelo vermelho, frequentemente usado para representar o sangue. O sangue é elemento essencial para a vida, contudo, sua presença pode representar a esvaziamento da vida. Pensamos em pinturas ou relatos de guerra, o vermelho representa a vida sendo tirada dos guerreiros. No poema, é figurada pela humanidade que o poeta evoca. O vermelho representa a /não-vida/ (negação de a). Então chegamos ao contrário de /vida/, que é a morte. No quadrado semiótico:

Mortalidade - cromossomos

Luz - branco

Não-morte

Mortalidade - cromossomos Luz - branco Não-morte Imortalidade - Cosmos Sombra - Não-luz - vermelho

Imortalidade - Cosmos

Sombra -

Não-luz - vermelho

Não-mortilidade - humano

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Esse percurso remete ao ciclo da vida e a plástica articula com a sintaxe verbal: primeiro é afirmado os cromossomos, depois a comparação ao cosmos. O cosmos é eterno, o ser humano aspira à imortalidade através da memória (o humano pode permanecer na memória, um tipo de imortalidade), porém, mesmo deixando seu legado, o humano morre fisicamente.

6.1.3 Expressão e sonoridade Além de associações plásticas, podemos fazer associações sonoras. Fiorin (2013, pp.45-49) exemplifica isso com o poema Chuva de Pedra de Augusto Meyer. Para ele, a beleza do texto se dava no nível da manifestação: o ritmo do Poe ma é dado por um esquema acentual periódico de sílabas forte/fraca, que recriam no plano da expressão a queda das gotas duras sobre a terra.

Em Cromossomos, temos duas vogais [o] e [ó] e quatro consoantes: oclusiva [k], fricativa [s], nasal [m] e o tepe [ɾ]. As vogais têm como característica a passagem relativamente mais livre de ar, assim, associaremos a categoria semântica /continuidade/ 12 . As fricativas tem por característica o estreitamento dos articuladores, estreitando o trato vocal, de modo que o ar sai provocando fricção uma espécie de obstrução parcial; associaremos a categoria /não-continuidade/. As oclusivas têm são os sons caracterizados pelo bloqueio total do ar (em dado ponto de articulação) e pela soltura que se assemelha a uma explosão; a esse som associaremos a categoria /descontinuidade/. A /não-descontinuidade/ será associada a nasal [m], pois, as nasais têm por características o fechamento da cavidade oral, entretanto, há abaixamento do véu palatino que permite a saída de ar pelas cavidades nasais. Assim temos no quadrado semiótico:

/descontinuidade/

/continuidade/

oclusivas

nasal

semiótico: /descontinuidade/ /continuidade/ oclusivas nasal vogal fricativas Não-continuidade Não-descontinuidade 1 2

vogal

fricativas

Não-continuidade

Não-descontinuidade

12 Ignoraremos a variação de vogais, pois, realizações distintas do mesmo fonema /o/.

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A vogal sendo o que é contínuo, semanticamente representa o cosmos, por oposição, o descontínuo representa os cromossomos. Aquilo que não é descontínuo, mas não é plenamente contínuo no poema é humanidade invocada pelo poeta.

Plano do conteúdo

Plano do conteúdo fig.

Plano da expressão

Plano da expressão fig.

/descontinuidade/

/continuidade/

da expressão – fig. /descontinuidade/ /continuidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /descontinuidade/ /continuidade/

/cromossomos/

/cosmos/

fig. /descontinuidade/ /continuidade/ /cromossomos/ /cosmos/ /descontinuidade/ /continuidade/ /consoante oclusiva / /

/descontinuidade/

/continuidade/

/cromossomos/ /cosmos/ /descontinuidade/ /continuidade/ /consoante oclusiva / / vogal/ 6.1.4 Articulação entre

/consoante oclusiva /

/ vogal/

6.1.4 Articulação entre semióticas Conforme Pietroforte (2011, p.66), tomando as relações semi-simbólicas, temos a mesma figuratividade expressa (com redundância) nas duas semióticas envolvidas na manifestação textual do poema. E possível verificar que há processos semióticos diferentes na expressão sintética.

O fato de o verbal ancorar o visual só é possível por Havre

o

conteúdo figurativo é tornado o mesmo pela ancoragem, essa autonomia

] [

envolvidas no sincretismo. Com base na categoria formal identidade vs. alteridade, aplicada tanto ao conteúdo figurativo, quanto às articulações

entre o verbal e o visual. [

sugerindo redundância absoluta entre o dito e o visto, há identificação entre os conteúdos, mas há diferenciação entre as expressões das semióticas envolvidas”. (PIETROFORTE, 2011, p.66-67).

quando a semiótica verbaç explica a visual

pode ser buscada no estatuto semiótico conferindo às duas semióticas

autonomia do texto verbal em relação ao visual. [

]

Uma

vez que

]

Assim, com as semióticas diferenciadas, é possível verificar que ambas dizem respeito ao mesmo conteúdo, mas cada uma no seu respectivo plano da expressão, ora visual, ora verbal. Pie Articulando no quadrado semiótico a categoria formal identidade vs. alteridade gera quatro processos de aproximação entre os termos de comparação: a afirmação da alteridade gera a identificação, e sua negação, a singularidade; a afirmação da alteridade gera a diferenciação e a sua negaçãa, a assimilação.

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/fechado/

[h]

/não-aberto/

31 /fechado/ [h] /não-aberto/ /aberto/ [o] [i] /não-fechado/ 6.2 O ir do rio Outro poema de

/aberto/

[o]

[i]

/não-fechado/

6.2 O ir do rio Outro poema de Arnaldo Antunes em que o plano da expressão também ajuda a resignificar o conteúdo é Riorir (1997):

também ajuda a resignificar o conteúdo é Riorir (1997): (Antunes, Rioir, 1997) 1 3 1 3

(Antunes, Rioir, 1997) 13

13 Versão disponível no site oficial de Arnaldo Antunes. Outras versões circulam na internet e outros tipos de mídia. Essas versões têm categorias cromáticas diferentes; preto e branco e não azul e branco, que pode comprometer uma análise nas categorias cromáticas (no plano da expressão).

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Nele temos a inscrição RIOIRdisposta de forma que a letra “O” fique ao

centro, interligando as outras letras. Este “O” (círculo) está cercado por um octógono

formado pelas letras “I”. E temos um terceiro circulo formado por “R”s, alguns deles

se encontram invertidos. Temos ao todo três círculos. Há uma inscrição abaixo da

imagem: “rio: o ir”.

A imagem do rio é muito usada na literatura para simbolizar a fluidez, aquilo

que é contínuo. A fluidez do rio como metáfora da vida está presente em Heráclito:

“tudo flui como um rio”. A inscrição ajuda a interpretar o poema, que sugere que “o

ir” (lido ao contrário = rio) encontra-se no ir, num movimento fluído de ida e volta. A

metáfora da vida que é fluida e em constante curso.

Identificamos, assim, as categorias fundamentais /movimento/ e

/estaticidade/. Não temos uma narrativa completa, neste poema, vemos uma

euforização do /movimento/, as outras etapas podem ser inferidas. Imaginemos, por

exemplo, que a /descontinuidade/ seriam os obstáculos que o rio encontra em seu

curso (ao mar). Temos então no quadrado semiótico:

/estaticidade/

/não-movimento/

no quadrado semiótico: /estaticidade/ /não-movimento/ /movimento/ - rio /não-estaticidade/ 6.2.1 O percurso (do

/movimento/ - rio

/não-estaticidade/

6.2.1 O percurso (do olhar) do rio(ir) O texto não se limita ao conteúdo, pois, quando nos atentamos a disposição

do poema, percebemos a genialidade do poeta que transborda o conteúdo na

expressão através, principalmente, das formas plásticas. A forma que o poema está

ordenado provoca uma leitura que vai da borda para o centro, contudo, a inversão

das letras “R” incita a leitura do centro às bordas. Pela inscrição estar disposta várias

vezes, explora a leitura de “ir o” como contrário de “rio”, fazendo com que o leitor

faça o percurso mais de uma vez; uma explicita euforização do movimento.

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Usando /regularidade/ e /irregularidade/ 14 como categorias plásticas, podemos estabelecer relações com seu conteúdo. Sendo a forma da letra “R” a mais irregular por ser composta por diferentes formas, podemos associá-la a categoria /irregularidade/. Ao círculo, forma mais regular e contínua, associaremos à categoria /regularidade/. Os “I”s, que formam o octógono, compostos por linhas retas, entretanto, as linhas são esparsas, a essas formas associaremos à /não- irregularidade/. Dispondo no quadrado semiótico:

/irregularidade/

R

Não-regularidade

no quadrado semiótico: /irregularidade/ R Não-regularidade /regularidade/ O I (linhas) Não-irregularidade As formas

/regularidade/

O

I (linhas)

Não-irregularidade

As formas plásticas se assemelham ao curso do rio: começa irregular, descontínuo, vai ganhando força e fluidez até chegar à alta fluidez. Assim, a sintaxe e o arranjo do poema conversam. O poema em si, é uma alusão ao rio, que representa o movimento.

Plano do conteúdo

Plano do conteúdo fig.

Plano da expressão

/estaticidade/

/movimento/

– fig. Plano da expressão /estaticidade/ /movimento/ /não explícito/ /rio/ /letras/ /o poema/ 6.2.2 Fluxo

/não explícito/

/rio/

/estaticidade/ /movimento/ /não explícito/ /rio/ /letras/ /o poema/ 6.2.2 Fluxo fonológico do rio(ir)

/letras/

/o poema/

6.2.2 Fluxo fonológico do rio(ir) Podemos também pesar em relações fonológicas. Tomando as categorias fonológicas /aberto/ e /fechado/. Como já mencionado na análise de Cromossomos, as vogais tem por característica a passagem (relativamente) livre do ar. A vogal /o/ que é vogal meio-fechado, posterior, não arredondada, associaremos à categoria

14 Mantendo em mente a ideia de continuidade. Aqui se trata de uma questão de harmonia de traços e de continuidade, não de repetição.

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/aberto/. A vogal /i/ associaremos à categoria /fechado/, visto que é uma vogal fechada, anterior, não arredondada. Apesar de não ser uma categoria comum às consoantes, pensando na articulação de “R” em “rio” se dá por /h/, que é uma fricativa velar surda, temos em mente a aproximação dos articuladores, a constrição do ar, associaremos /h/ à categoria /fechado/. Dispostos no quadrado semiótico:

/fechado/

/aberto/

[h]

/não-aberto/

no quadrado semiótico: /fechado/ /aberto/ [h] /não-aberto/ [o] [i] /não-fechado/ à fundamental, percorrendo a

[o]

[i]

/não-fechado/

à

fundamental, percorrendo a afirmação de a, negação de a e afirmação de b.

Assim

como

a

semiótica

plástica,

a

fonologia

é

análoga

sintaxe

35

36

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Quanto à teoria, vimos que para incluir a forma (plano da expressão), foi necessário voltar aos postulados de Hjelmslev e incluir as relações semi-simbólicas na criação de sentido, extrapolando o plano do conteúdo. Sem essas relações certos textos perdem a apreciação de sua engenhosidade. A partir das análises feitas, podemos concluir que é possível a aplicação de uma modelo semi-simbólico, que busca o fazer do sentido, que é criado a partir de relações entre o plano do conteúdo.

Além disso, também confere que há um método que busca sentido num texto postos seus elementos internos e que um texto, apesar de se produzido num tempo e num espaço, e de sofrer influências desse meio, não é mero pano de fundo para outras análises.

Como conclui Pietroforte (2011, p.211), o aparato formal da semiótica “parece um bom encaminhamento de análise, uma vez que incide na forma poética em que tal aparato se realiza”.

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REFERÊNCIAS

ANTUNES, A. Cromossosmos <http://www.arnaldoantunes.com.br/upload/artes_1/173_g.gif> Acesso: 20/03/15 às

14h30.

ANTUNES, A. Rioir <http://www.arnaldoantunes.com.br/upload/artes_1/204_g.jpeg> Acesso: 30/04/15 às 19h50.

FIORIN,

Contexto/EDUSP.

J.

L.

GREIMAS, A. s.d

(1989).

Elementos

de

análise

do

Semântica estrutural. São Paulo, Ática.

discurso.

São

Paulo,

HJELMSLEV, L. (1975). Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo, Perspectiva.

MODRO, N. R. A obra poética de Arnaldo Antunes. Dissertação de Mestrado, UFPR, Curituba, 1996.

PIETROFORTE, Antônio Vicente. Semiótica visual: os percursos do olhar. São Paulo: Contexto, 2004.

Retórica e Semiótica. São Paulo: produção acadêmica premiada, Serviço de Comunicação Social. FFLCH/USP, 2008.

O discurso da poesia concreta: uma abordagem semiótica. São Paulo: AnnaBlume; FAPESP, 2011.

SAUSSURE, F. de s. d

Curso de lingüística geral. São Paulo, Cultrix.