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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

DESPACHO A QUE SE REPORTA O ART. 278, N.3 DO CÓDIGO


DE PROCESSO PENAL

SANEAMENTO DO PROCESSO

I.
Por requerimento constante de fls. 4515 e seg. vieram os arguidos
Angelita Pires, Gilson José António da Silva e outros arguir a nulidade da
acusação, pelas seguintes razões:
1 - O crime de Detenção e Uso de arma para a perturbação da
ordem pública é inexistente no ordenamento jurídico timorense;
2 - O dolo dos crimes imputados aos arguidos na acusação não
pode ser alegado de forma genérica, encontrando-se descrito de forma
incompleta;
3 - O crime de uso de arma para perturbação da ordem pública
exige um dolo específico que não se mostra alegado;
4 - O crime de atentado contra o Presidente da República, p. e p.
pelo art. 104 do Código Penal Indonésio carece de uma interpretação
correctiva quando transposto para a ordem jurídica de Timor Leste;
5 - Dos factos alegados respeitantes à arguida Angelita Pires não
consta o dolo dos crimes de homicídio tentado, nem dos crimes de dano;
6 - Ainda nos factos alegados respeitantes a esta arguida não
constam factos bastantes para lhe serem imputados os crime de tentativa
de homicídio do Presidente da República e do Primeiro Ministro enquanto
instigadora de tais crimes, faltando ainda a alegação dos respectivos
elementos subjectivos.

O Ministério Público não se pronunciou quanto às invocadas


nulidades na vista de fls. 4546 a 4551.
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O despacho de fls. 4554 e seg. (do qual foi interposto recurso, o


qual ainda não subiu), apreciou, entre outros requerimentos, nulidades
que não as alegadas pelos aqui arguidos, pronunciando-se sobre matéria
não abrangida pelo concreto requerimento apresentado pela Defesa.
Entende-se assim que, relativamente às concretas nulidades
suscitadas não foi ainda proferido qualquer despacho que as conheça,
pelo que não está esgotado o poder jurisdicional do juiz.
Assim, passa o Tribunal colectivo a conhecer da matéria constante
do requerimento em causa.

1 - Da inexistência no ordenamento jurídico timorense do


crime de uso e detenção de arma proibida para perturbação da
ordem pública
Invoca a defesa a favor da sua tese o facto do art. 4.7 do
Regulamento da UNTAET n. 5/2001 apenas prever como conduta típica, na
segunda parte daquele preceito, o uso de qualquer arma de fogo, munição
ou explosivo para perturbar a ordem pública. Assim, em obediência ao
princípio da tipicidade, a simples detenção de arma para perturbação da
ordem pública constitui conduta não punível, pelo que deve a acusação
ser julgada manifestamente infundada.
Na acusação é imputada a todos os arguidos, com excepção da
arguida Angelita Pires, a prática, em co-autoria, de um crime p. e p. pelo
art. 4, n.4.7 do Regulamento UNTAET n. 5/2001, sendo tal crime
denominado pela acusação como de “detenção e uso de armas de fogo
para perturbação da ordem pública”.
Conforme se constata da leitura daquele Regulamento, a técnica
legislativa nele utilizada não recorreu ao uso de epígrafes nos preceitos
que especificamente prevêem e punem as condutas por ele tipificadas.
Assim, a denominação dada aos crimes previstos e punidos naquelas
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disposições legais, fica ao critério do intérprete, não sendo tal


interpretação, naturalmente, vinculativa para o Tribunal.
Logo, a denominação mais ou menos rigorosa que venha a ser
utilizada não constitui uma qualquer alteração das condutas tipificadas na
lei, as quais, como é óbvio, não são minimamente alteradas pela
denominação que o intérprete venha a utilizar.
Essencial, para que a acusação possa ser recebida, é que as
condutas alegadas preencham os elementos típicos constantes das
disposições legais indicadas. A denominação dada a tais condutas
constitui um acrescento utilizado por razões de ordem prática, para que
mais facilmente possa ser identificado o crime imputado. Mais daí não
resulta que estejam a ser criados novos tipos legais, nem que estejam a
ser acrescentadas novas condutas típicas aos tipos legais descritos na lei.
Na verdade, ninguém é punido em função do nome que seja dado à sua
conduta, mas sim pelo preenchimento ou não dos elementos típicos
constantes das normas.
Veja-se o seguinte exemplo: se determinada acusação contiver
descritos os factos típicos do crime p. e p. pelo art. 172 do actual Código
Penal de Timor Leste, mencione tal disposição legal, e, no seu final,
contiver a menção que o arguido a quem tais factos são imputados
praticou um crime de estupro, não deverá a acusação ser rejeitada pelo
facto do crime de estupro não existir na ordem jurídica timorense. Existe,
mas sob a denominação de “violação”. Nem se dirá que quem assim
acusou, violou o princípio da tipicidade ou da legalidade, ao pretender a
condenação de determinada pessoa por um crime que não está punido
por lei. Uma tal acusação deverá ser recebida, independentemente da
denominação que o acusador tenha dado à conduta imputada, apenas
relevando que conste da acusação “a indicação das normas substantivas
aplicáveis”, conforme estipula o art. 236, n.3, alínea c) do CPP.
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Com efeito, a acusação só se considera manifestamente infundada


quando não indique as disposições legais aplicáveis (art. 1, alínea c) do
CPP). Ora, o nome que o crime possua, resulte tal nome de uma opção do
legislador, ou resulte de uma tarefa interpretativa, não constitui um
elemento essencial da acusação, estando o acusador obrigado a indicar
apenas o artigo no qual esteja prevista a conduta típica.
Questão diversa é a de saber se a acusação, ao alegar factos que se
traduzam na mera detenção de armas, veio narrar factos que não
constituem crime. Antes de mais nada importa referir que o crime de
detenção de arma está previsto no ordenamento jurídico de Timor Leste,
conforme os arguidos bem referem (art. 4, n. 4.1 do mesmo
Regulamento). Assim, se a acusação alegou factos susceptíveis de serem
enquadrados nesse tipo legal, não veio alegar factos que não constituem
crime. A dar-se o caso, terá sim alegado factos que qualificou de forma
errada. O que, conforme é sabido, não determina a rejeição da acusação,
mas tão somente a alteração da qualificação jurídica desses factos, a
operar quer no despacho de recebimento da acusação, quer em audiência
de julgamento, nos termos do disposto no art. 274 do CPP.
Contudo, da leitura feita da acusação, não consta que aos arguidos
tenha sido imputada apenas a detenção de armas, mas antes o seu uso.
Pelo que, no que diz respeito a esse aspecto, se entende que a
qualificação jurídica feita dos factos descritos (art. 4, n. 4.7 do
Regulamento UNTAET n. 5/2001) não merece reparo. Tal como se entende
também que a acusação não criou de forma ilegal qualquer facto típico
novo, não criou qualquer novo crime, antes cumpriu o dever previsto pelo
art. 236, n.3, alínea c) do CPP, não existindo fundamento para a julgar
manifestamente infundada.
Termos em que se julga improcedente a invocada nulidade.
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2 - O dolo dos crimes imputados na acusação não pode ser


alegado de forma genérica
Alega a defesa dos arguidos que o dolo constante da acusação se
encontra descrito de uma forma genérica, não descrevendo em cada um
dos crimes a intenção dos arguidos, não podendo, por isso, ser apreendida
a exacta conduta dos arguidos.
Da acusação, no que diz respeito ao elemento subjectivo dos
diversos crimes imputados aos arguidos, consta a seguinte alegação:
“Os arguidos sabiam que não pertenciam nem às F-FDTL, nem à
PNTL, e que, nesta condição, não podiam estar armados nem fardados
com armas e fardas das F-FDTL e da PNTL e que, tal era proibido por lei.
Os arguidos sabiam também que não possuíam licença de uso e
porte de armas e munições, nem dela estavam isentos, pelo que não
podiam tê-las na sua posse nem usá-las, fora das condições legais,
concretamente, para perturbar a ordem pública instituída, e que, tais
condutas eram proibidas por lei.
Sendo ex F-FDTLs e ex PNTLs, conheciam os arguidos,
perfeitamente, as características das armas e munições que detinham e
sabiam que, devidamente municiadas e disparadas contra o Presidente da
República, Primeiro-ministro, os seus respectivos seguranças e outras
pessoas que estivessem no local, eram aptas a causar-lhes a morte ou
lesões contra a sua integridade física e que, tais condutas eram proibidas
por lei. A morte só não sobreveio por razões alheias à vontade dos
arguidos.
Sabia o arguido Gastão Salsinha que ao combinar e planear, com
outra ou outras pessoas, matar ou agredir fisicamente o Presidente da
República, tal conduta era apta a conduzir a prática do crime planeado.
Sabia a arguida Angelita Pires que, as conversas que tinha com o
ex-major Alfredo Reinado, pelo menos, as que eram presenciadas por
alguns dos arguidos, eram de molde a provocar nele e,
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consequentemente, nos demais elementos do seu grupo, ódio e raiva


contra o Presidente da República e Primeiro-ministro, e que tal poderia
conduzir a atentados contra as vidas dos mesmos.
Conheciam perfeitamente os arguidos, como timorenses, como ex
F-FDTLs e ex PNTLs, o Presidente da República Dr. Ramos Horta, a sua
residência, e que, como tal, disparar tiros de armas de fogo contra ele,
eram aptas a causar-lhe a morte ou lesões à sua integridade física, por
forma a deixá-lo incapaz de exercer as suas funções.
Sabiam os arguidos que, essas armas, disparadas contra as viaturas
conduzidas pelos lesados, eram aptas a causar-lhes estragos e que, tais
condutas eram proibidas por lei.
Sabiam ainda os arguidos que as armas que levaram da casa do
Presidente da República não lhes pertenciam, e não podiam fazê-lo contra
a vontade de quem as detinham nem fazê-las propriedades suas.
Sabiam, por fim, os arguidos que os disparos sobre os veículos em
que seguiam o Primeiro-ministro, os seus seguranças e o militar Celestino
Filipe Gama, eram aptos a provocar-lhes danos.
Os arguidos, em todas as circunstâncias acima descritas, quiseram
os respectivos resultados, que se verificaram, e agiram de forma livre,
deliberada e consciente, bem sabendo que, tais condutas eram proibidas
por lei”.
Importa pois analisar se uma alegação feita em tais termos permite
ou não o preenchimento dos tipos legais que são imputados aos arguidos.
Conforme é sabido, os elementos típicos do crime dividem-se em
dois grupos distintos: os elementos objectivos (que, simplificadamente,
consistem na acção que o preceito descreve e no resultado, quando
estejam em causa crimes de resultado) e os elementos subjectivos (que
se dividem no elemento intelectual, ou seja, o conhecimento, por parte do
agente, que a sua conduta integra o crime; e o volitivo, que consiste na
vontade do agente em agir de determinada maneira, ou de ver produzido
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determinado resultado). Assim, da acusação deverá constar que o autor


do acto sabe que a sua conduta é apta a causar determinado resultado,
que constitui um crime, e pretende, ainda assim, a verificação desse
resultado.
Analisando os factos acima citados, constata-se que foi alegado o
conhecimento, por parte dos arguidos, que os factos alegadamente
praticados eram aptos a causar o resultado típico dos crimes que no final
lhes são imputados, bem como que o conhecimento de que tais factos
constituíam a prática de um crime.
Assim, quanto ao elemento intelectual, entende-se que a acusação
não possui qualquer lacuna.
Quanto ao elemento volitivo de cada um dos crimes, consta o
mesmo apenas da alegação genérica que os arguidos, em todas as
circunstâncias descritas, quiseram os respectivos resultados. Admite-se
que se trata de uma alegação por demais genérica, e lacunar na
individualização da vontade relativamente a cada crime, merecendo uma
maior concretização.
Coloca-se pois a questão de saber, perante uma tal lacuna, que
vício afecta a acusação, e se existe forma do mesmo ser suprido.
Conforme o Tribunal de Recurso decidiu já em vários acordãos,
utilizando-se para citação, por razões de ordem prática, a decisão citada
no requerimento apresentado pelos arguidos, “A intenção importa a prova
de um elemento do foro íntimo do agente e constitui matéria de facto. (...)
A afirmação genérica de que o agente actuou de forma livre, voluntária e
consciente não circunscreve o dolo quando se trata de crimes de
resultado. (...) (a acusação) não esclarece é qual terá sido o propósito do
arguido quando assim agiu – que resultado visou produzir. (...) Tudo isto
serve para demonstrar que a fórmula usada na mencionada acusação não
encerra o dolo (...). Assim sendo conclui-se que a acusação não contém,
na sua totalidade a narração dos factos típicos que a verificarem-se,
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fundamentam a aplicação de uma pena (art. 236, n.3 do CPP). Acusação


manifestamente infundada é aquela em que (para além do mais) não
constem todos os elementos típicos do crime que se imputa ao arguido.
Aqui chegados importa analisar quais as consequências processuais da
dedução de uma acusação que padeça deste vício. A esta questão se
refere o art. 239, alínea b) do CPP: o juiz deve proferir despacho de
rejeição se considerar a acusação manifestamente infundada.”- Ac.TR,
Proc. 51/CO/07/TR.
Antes de mais, importa referir que a situação analisada no acordão
citado é distinta da presente neste processo. Aqui, ao contrário do que
constava na acusação analisada pelo Tribunal de Recurso, alega-se que
“Os arguidos, em todas as circunstâncias acima descritas, quiseram os
respectivos resultados, que se verificaram, e agiram de forma livre,
deliberada e consciente, bem sabendo que, tais condutas eram proibidas
por lei”. Ou seja, indica-se na acusação que os arguidos quiseram ver
produzidos os resultados típicos dos crimes que lhes são imputados, pelo
que não se pode dizer que a acusação seja completamente omissa a tal
propósito. Como mencionámos já, será meramente lacunar ou incompleta,
mas não totalmente omissa.
Ainda assim, admitindo-se que tal lacuna afecta de forma
irremediável a possibilidade do exercício do direito de defesa (o que não
se considera), importa saber que consequências deverão extrair-se da
omissão em causa.
Conforme se viu já no acordão citado, a acusação que não contenha
a narração dos factos que constituam o crime é nula (art. 236, n.3, alínea
b) do CPP. Não sendo uma nulidade expressamente cominada de
insanável, deve ser considerada como sanável (art. 104 do CPP), pelo que
só deve ser conhecida mediante arguição do interveniente processual que
a não originou, no prazo de cinco dias após o seu conhecimento (art. 104,
n.2 e 105, n.1 do CPP), sendo a mesma declarada pelo Ministério Público
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ou pelo juiz, consoante a fase processual ou a competência para a sua


prática (art. 108, n.1 do CPP). Por fim, a declaração de nulidade determina
a invalidade do acto viciado, dos termos subsequentes do processo que
possam ter sido afectados (art. 108, n.2) e ordena, sempre que necessário
e possível, a sua repetição (art. 108, n.3 do CPP).
Do regime legal exposto resulta que a acusação que não contenha a
totalidade dos factos que preenchem os elementos típicos do crime
imputado só pode ser conhecida quando seja arguida tempestivamente.
Caso contrário, o vício deve ter-se por sanado. A ser conhecida ainda na
fase final do inquérito, determina apenas a formulação de nova acusação
contendo agora os factos em falta.
Quando tal não suceda na fase final do inquérito (ou seja, nos cinco
dias posteriores à notificação da acusação), ainda assim, pode o juiz
rejeitá-la, por a considerar manifestamente infundada (art. 239, alín. b), e
art. 1, alínea c) do CPP). Repare-se que aqui, a lei não utilizou a
expressão nulidade, uma vez que o juiz não a poderia conhecer
oficiosamente. Num tal caso, o processo é remetido novamente ao
Ministério Público, que sempre poderá deduzir nova acusação suprindo os
vícios da primeira. Ao contrário do que a Defesa afirma no ponto 3 do seu
requerimento, quando a acusação é julgada manifestamente infundada,
nunca se determina a absolvição do arguido e o arquivamento do
processo, uma vez que o mérito da causa não chega, sequer, a ser
apreciado.
Quando a acusação não seja rejeitada, mas seja suscitada a sua
nulidade tempestivamente (nomeadamente porque, como sucedeu no
caso presente, a acusação só foi notificada juntamente com o despacho
que a recebeu), o seu conhecimento pode determinar uma de duas
soluções: a declaração da nulidade e remessa dos autos ao Ministério
Público; o suprimento das omissões em sede de audiência, nos termos do
disposto no art. 273, n.1 do CPP. Consoante o momento em que o
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processo se encontre, poderá o Tribunal optar por uma ou outra solução,


sendo certo que, se for tomado conhecimento da questão na fase de
julgamento, não se torna necessária a remessa do processo para o
Ministério Público nem a dedução de nova acusação, porque a lacuna
pode ser suprida pelo Tribunal.
Assim, a peça processual, apesar de inválida, pode ser aproveitada
mediante o aditamento de factos ao abrigo do art. 273 do CPP.
O princípio subjacente a um tal regime, que procura sempre
aproveitar a investigação já feita é, sem dúvida, o da descoberta da
verdade material. É esse o princípio que deve nortear a actuação de todos
os intervenientes processuais, bem como do Tribunal. Assim, as normas
devem ser interpretadas tendo sempre como pano de fundo essa
finalidade, e não apenas como um conjunto de normas que quando não
sejam cumpridas determinam a perda da acção. Não se trata de um jogo
de ganhar ou perder, porque o interesse em causa é muitíssimo superior
e, de acordo com o legislador, só nos casos mais flagrantes e graves deve
ser posto de lado por questões de natureza processual ou ligadas à
concreta actuação das partes.
É aliás por essa razão que o arguido não está sequer obrigado a
apresentar contestação à acusação. Decidindo o arguido não contestar,
ainda assim poderá trazer ao processo novos factos, sugerir meios de
prova, e caso uns e outros sejam relevantes para a descoberta da verdade
material, não poderá o Tribunal deixar de os apreciar e conhecer. Ora, se
o processo penal fosse apenas um acervo normativo destinado a regular a
actuação dos intervenientes sem que se destinasse a prosseguir um fim
que está para além da concreta capacidade das partes em cumprirem
essas normas, nunca uma tal solução poderia ser consagrada, tal é a
manifesta desigualdade de partes que gera.
Logo, o aplicador do Direito deve ter sempre em conta a solução
(que a lei lhe permita) que de forma mais eficaz lhe permita alcançar a
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finalidade do processo: a descoberta da verdade material. Claro está que


na procura dessa solução terá de ter sempre em conta os direitos de
defesa do acusado, o qual não pode ver limitados tais direitos pela
actuação judicial. Mas, em nenhuma das soluções acima assinaladas,
nomeadamente na resultante da aplicação do art. 273 do CPP, tais direitos
são postos em causa, já que o arguido tem a possibilidade de, perante os
novos factos, preparar a sua defesa.
Como tal, quando o juiz conheça da nulidade e a declare no decurso
do julgamento, não sendo necessária a dedução de nova acusação,
determina o aditamento dos factos que considera necessários à boa
decisão da causa. Quando não conheça da nulidade durante a fase de
julgamento, mas só em momento posterior, mas tenha oficiosamente
aditado tais factos ao julgamento (o que lhe é permitido nos termos do
art. 273 do CPP), quando vier a conhecer da nulidade no despacho a que
se reporta o art. 278, n.3 do CPP, deverá, nesse momento, considerá-la
sanada.
Só esta interpretação das normas nos parece conforme aos
princípios gerais norteadores do processo penal, sem que da mesma
resulte a violação do princípio da legalidade, ou a diminuição de direitos
de defesa.
No caso presente, conforme se viu já, a acusação não é totalmente
omissa no que se reporta ao elemento volitivo dos crimes, sendo
meramente incompleta. Do facto de ser incompleta não resulta que os
arguidos, tomando conhecimento do seu conteúdo, tenham deixado de
saber quais os factos que lhes eram imputados, ou por que crime iriam ser
julgados. Por aí se conclui que a acusação não deveria ser declarada nula.
Mas ainda que pudesse ser declarada nula em fase anterior, ou
viesse a ser rejeitada, sempre poderia o Ministério Público acusar
novamente, contendo agora os factos em falta.
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E não se tendo feito nem uma coisa nem outra, e tendo o processo
seguido para julgamento, o conhecimento de uma tal nulidade
determinaria apenas que o tribunal aditasse os factos ao julgamentos; ou,
caso tenha aditado tais factos sem previamente conhecer a nulidade,
deveria, no momento em que a conhecesse, julgá-la sanada.
No caso presente, sucedeu esta última situação.
O Tribunal não conheceu da nulidade durante todo o julgamento
mas, por via oficiosa, acrescentou os factos julgados necessários para a
boa decisão da causa (na sessão de audiência do passado dia 11 de
Fevereiro de 2010). Com esse aditamento, supriu as lacunas que
constariam da acusação.
Como tal, por se entender que a acusação não omite factos
essenciais ao preenchimento dos tipos legais imputados aos arguidos, não
se declara a sua invalidade.
Sendo certo que, caso a invalidade viesse a ser declarada, sempre
seria a mesma julgada suprida por via da intervenção oficiosa do tribunal
ao abrigo do art. 273 do CPP.
Razão pela qual se julga improcedente a nulidade arguida.

3 - O crime de uso de arma para perturbação da ordem


pública exige um dolo específico que não se mostra alegado

Na mesma lógica argumentativa, afirma a Defesa que a acusação é


omissa quanto ao dolo específico de perturbação da ordem pública exigido
pelo art. 4, n. 4.7 do Regulamento UNTAET n. 5/2001.
Analisada a acusação, constata-se que foram alegados, a propósito
do elemento subjectivo deste crime, os seguintes factos:
“Os arguidos sabiam que não pertenciam nem às F-FDTL, nem à
PNTL, e que, nesta condição, não podiam estar armados nem fardados
com armas e fardas das F-FDTL e da PNTL e que, tal era proibido por lei.
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Os arguidos sabiam também que não possuíam licença de uso e


porte de armas e munições, nem dela estavam isentos, pelo que não
podiam tê-las na sua posse nem usá-las, fora das condições legais,
concretamente, para perturbar a ordem pública instituída, e que, tais
condutas eram proibidas por lei.
Sendo ex F-FDTLs e ex PNTLs, conheciam os arguidos,
perfeitamente, as características das armas e munições que detinham e
sabiam que, devidamente municiadas e disparadas contra o Presidente da
República, Primeiro-ministro, os seus respectivos seguranças e outras
pessoas que estivessem no local, eram aptas a causar-lhes a morte ou
lesões contra a sua integridade física e que, tais condutas eram proibidas
por lei. A morte só não sobreveio por razões alheias à vontade dos
arguidos.
Conheciam perfeitamente os arguidos, como timorenses, como ex
F-FDTLs e ex PNTLs, o Presidente da República Dr. Ramos Horta, a sua
residência, e que, como tal, disparar tiros de armas de fogo contra ele,
eram aptas a causar-lhe a morte ou lesões à sua integridade física, por
forma a deixá-lo incapaz de exercer as suas funções.
Os arguidos, em todas as circunstâncias acima descritas, quiseram
os respectivos resultados, que se verificaram, e agiram de forma livre,
deliberada e consciente, bem sabendo que, tais condutas eram proibidas
por lei”.
Da leitura de tais factos conclui-se que os arguidos, alegadamente,
sabiam que lhes era proibido fazer uso das armas que tinham em seu
poder, e que a utilização das mesmas nos termos em que foi feita, era
apta a causar a morte do Presidente da República e do Primeiro-Ministro,
por forma a deixar aquele incapaz de exercer as suas funções, resultado
que quiseram.
A perturbação da ordem pública constitui um conceito carente de
preenchimento factual, pelo que nenhuma utilidade se encontra na sua
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alegação. Importa pois alegar os factos praticados que, em concreto, são


susceptíveis de determinarem uma perturbação da ordem pública.
Ora, o homicídio de um Presidente da República e de um Primeiro-
Ministro, em simultâneo, conforme foi alegado, são factos mais do que
suficientes para determinarem uma tal perturbação. Na verdade, a
ocorrerem, ou bastando apenas a incapacitação de ambos para o
exercício das respectivas funções, obriga ao accionamento de diversos
mecanismos constitucionalmente previstos, que colocam o Estado numa
situação de excepção. Tal situação de excepção, podendo implicar
alterações no plano de segurança interna, poderá inclusivamente
determinar a declaração de um estado de excepção, conforme se alega
também na acusação, e sucedeu de facto, por decisão do Presidente
Interino mediante prévia autorização parlamentar.
De acordo com a alegação, estes foram os resultados decorrentes
da conduta dos arguidos ao utilizarem armas proibidas; os arguidos
sabiam que as suas condutas eram aptas a causar tais resultados, que
quiseram ver verificados.
Saber se tais factos, a provarem-se, integram o conceito de
perturbação da ordem pública, constitui questão de subsunção do Direito
aos factos, a realizar por via interpretativa, não sendo esta a sede própria
para tal operação.
No que para o caso importa, conclui-se apenas que está alegado o
dolo específico dos arguidos querem ver produzido o resultado de tirar a
vida ao Presidente da República e ao Primeiro-Ministro, bem como as
consequências que resultariam da morte de ambos, ou da incapacitação
do primeiro deles para o exercício das suas funções. No entendimento da
acusação, tais resultados constituem, por si, a perturbação da ordem
pública prevista no preceito, pelo que o dolo terá de abarcar aqueles
resultados, e não uma intenção genérica de perturbar a ordem pública,
que mais não é que um conceito abstracto.
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Nessa medida, entende-se que a acusação não é omissa quanto a


factos relevantes para a alegação do dolo específico, pelo que se julga
improcedente a nulidade invocada.

4 - O crime de atentado contra o Presidente da República, p.


e p. pelo art. 104 do Código Penal Indonésio carece de uma
interpretação correctiva quando transposto para a ordem jurídica
de Timor Leste

No entender da Defesa, face à ordem jurídico-constitucional


instituída em Timor Leste, o crime de atentado contra o Presidente da
República previsto pelo art. 104 do Código Penal Indonésio apenas deveria
ser aplicado, mediante interpretação correctiva do artigo, nos casos de
atentado contra o Primeiro-Ministro.
Baseia tal entendimento na circunstância daquele artigo tutelar,
como bem jurídico, a governabilidade do Estado, a qual, nos casos de
morte do Presidente da República, apenas é posta em causa nos Estados
de sistema presidencialista. Nos casos em que o Chefe de Estado não
exerça funções governativas, conforme sucede nos sistemas
parlamentaristas, a sua morte não perturba a governabilidade do Estado.
E não sendo tal bem jurídico posto em causa, então, a morte do
Presidente da República em tais sistemas não integra o crime previsto no
art. 104 do CPI.
Sendo a questão muito pertinente do ponto de vista jurídico,
importa referir contudo não ser esta a sede própria para o seu tratamento.
Trata-se de uma questão que obriga à análise do tipo legal em causa, ao
bem jurídico concretamente tutelado pela norma que tipifica a conduta. É
portanto uma questão de Direito, e não ligada aos factos, a qual,
eventualmente, poderá determinar uma alteração da qualificação jurídica
dos factos que venham a ser dados por provados, mas que, no plano da
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análise da acusação para efeitos de aferição da sua validade, não deve ser
discutida.
Assim, relega-se o conhecimento da questão para o acordão.

5 e 6 - Dos factos alegados respeitantes à arguida Angelita


Pires não consta o dolo dos crimes de homicídio tentado, nem dos
crimes de dano, nem factos bastantes para lhe serem imputados
os crime de tentativa de homicídio do Presidente da República e
do Primeiro Ministro enquanto instigadora de tais crimes,
faltando ainda a alegação dos respectivos elementos subjectivos.

Quanto à falta de factos que preencham os elementos subjectivos


dos crimes imputados à arguida, o Tribunal remete para o que já acima se
expôs e decidiu, entendendo-se que a acusação, nessa parte, não é nula,
julgando-se, por isso, improcedente a sua arguição.
De todo o modo, o Tribunal, conforme se referiu já, por despacho
proferido na sessão de 11 de Fevereiro de 2010, aditou já os factos
julgados pertinentes à boa decisão da causa, alguns deles atinentes ao
elemento subjectivo dos crimes imputados à arguida, pelo que, a ocorrer
uma qualquer nulidade da acusação sempre estaria a mesma sanada.
Termos em que se julgam também improcedentes estas duas
nulidades suscitadas.

II.
Por requerimento apresentado a 20 de Julho de 2009 veio a Defesa
da arguida Angelita Maria Francisca Pires suscitar ainda várias outras
nulidades processuais, entre outros requerimentos então formulados.
Por despacho proferido em acta a 18 de Fevereiro de 2010, o
conhecimento de tais nulidades foi relegado para o presente despacho.
São as seguintes as nulidades arguidas:
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1 – Nulidade das declarações prestadas pela arguida após a sua


detenção, com consequente desentranhamento do interrogatório de fls.
497 a 502 (requerimento n.1);
2 – A detenção ilegal dos arguidos Tito Tilman e Ventura, os quais,
após terem sido entregues às autoridades policiais em 5 de Maio de 2008,
só foram apresentados ao Juiz em 26 de Maio, constitui uma nulidade que
inutiliza todo o processado (requerimento n.2);
3 – Apesar da competência para a investigação criminal ter sido
delegada à UNPOL (fls. 4 a 7 do inquérito), vários actos e diligências foram
praticados pelo NID, ao qual não foi atribuída qual,,quer competência.
Assim, requer o desentranhamento de todas as diligências efectuadas
pelo NID (requerimento n. 11);
4 – Vários actos praticados no inquérito encontram-se em língua
inglesa, pelo que devem ser desentranhados todos os documentos juntos
que não se encontrem traduzidos para uma das línguas oficiais de Timor
Leste (requerimento n. 12).

Notificado para se pronunciar sobre as mesmas veio o Ministério


Público pronunciar-se no sentido do seu indeferimento, conforme consta
de fls. 5011 e seg.

Cumpre decidir, analisando cada uma das nulidades invocadas:

1 – Nulidade das declarações prestadas pela arguida após a


sua detenção
Alega a arguida que, após a sua detenção, foi a arguida ouvida em
declarações antes de ter sido apresentada ao juiz para primeiro
interrogatório, sendo que havia sido detida nesse dia sem que
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previamente existisse mandado de detenção, o qual só foi emitido já


depois da arguida se encontrar detida.
No que diz respeito à detenção da arguida, foi a mesma apreciada
pelo juiz que procedeu ao primeiro interrogatório, o qual a julgou válida
(fls. 524). Nem nesse momento, nem em momento anterior foi suscitada a
questão agora apresentada, nem a arguida recorreu daquele despacho, o
qual se considera transitado. Havendo uma decisão judicial apreciando a
validade da detenção, e tendo tal decisão transitado em julgado, mostra-
se esgotado o poder do Tribunal para apreciar novamente essa questão,
quando é certo que a arguida teve a oportunidade, em primeiro
interrogatório, de colocar tal questão à apreciação do juiz, como teve a
possibilidade de recorrer do despacho que aquele proferiu, não tendo feito
nem uma coisa, nem outra.
Tivesse a detenção sido julgada inválida, seria a mesma ilegal,
porque efectuada fora das condições previstas pelo art. 221 e 220, n.2 do
CPP (conforme estipula o n.4 deste último artigo). Sendo a mesma ilegal,
importaria saber se tal afectava, e em que maneira, o valor probatório dos
actos praticados no decurso dessa detenção.
Não tendo sido alegada nenhuma das circunstâncias previstas pelo
art. 110 do CPP, não se pode concluir que as declarações que a arguida
tenha prestado antes de ter sido apresentada ao juiz sejam proibidas. Não
sendo proibidas, não são nulas sob o ponto de vista processual (art. 112
do CPP). Estaríamos pois em presença de um meio de prova obtido por
meio de acto processual irregular (art. 102, ns. 1 e 2 do CPP). Tal
irregularidade, podendo afectar o valor daquele acto e da prova nele
produzida, era susceptível de determinar a declaração de invalidade desse
interrogatório, desde que a irregularidade fosse suscitada no próprio acto
(art. 107, n.1 e 105, n.1 do CPP). Não o tendo sido, como não foi, deve a
irregularidade ser julgada sanada (art. 106 do CPP).
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De todo o modo, sempre importará referir que as declarações


prestadas pela arguida (ao que tudo indica, antes ainda de ser detida na
sequência dos mandados, como parece resultar de fls. 496 verso e 497)
nunca poderiam ser valoradas pelo Tribunal uma vez que não foram
prestadas perante autoridade judiciária (art. 266, n.2, alínea b) do CPP),
nem a arguida foi confrontada com o seu teor na audiência de julgamento,
na sequência de contradições existentes nas suas declarações (art. 267,
n.2 do CPP). Pelo que o meio de prova em causa, quer a detenção fosse
legal ou ilegal, sempre seria ineficaz para a formação da convicção do
Tribunal.
No entanto, para que a questão suscitada não fique sem decisão,
sempre se dirá que o Tribunal não se pronuncia sobre a validade da
detenção, uma vez que o despacho que a validou já transitou em julgado.
Termos em que se julga improcedente a nulidade arguida.

2 – A detenção ilegal dos arguidos Tito Tilman e José da


Costa (Ventura), os quais, após terem sido entregues às
autoridades policiais em 5 de Maio de 2008, só foram
apresentados ao Juiz em 26 de Maio, constitui uma nulidade que
inutiliza todo o processado
Uma vez mais entende a arguida ser seu dever assegurar a defesa
dos demais arguidos, sem que os seus advogados se encontrem
mandatados para tanto.
De todo o modo, uma vez que a questão suscitada, no entender da
arguida, é susceptível de determinar a nulidade de todo o processado,
importa conhecer da questão, e saber se a consequência deverá ser essa.
Nos termos do disposto no art. 222 do Código de Processo Penal a
detenção, uma vez efectuada, deve ser comunicada ao juiz, quando seja
na sequência de mandados, para que seja efectuado primeiro
interrogatório judicial no prazo máximo de 72 horas (art. 217 do CPP).
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Quando tal não suceda e aquele prazo máximo se encontre excedido,


deve o detido ser colocado de imediato em liberdade (art. 223 do CPP). Se
tal não suceder, deve considerar-se que, a partir desse momento, a
detenção é ilegal (art. 205, n.2, alínea c) do CPP).
Sendo a detenção ilegal, haverá fundamento para habeas corpus,
cabendo ao Tribunal de Recurso ordenar a imediata libertação do detido
(art. 205 a 207 do CPP).
Quanto aos actos praticados no decurso da detenção ilegal, e que
digam respeito apenas aos detidos, vale o que já acima se disse:
Na ausência de qualquer das circunstâncias previstas pelo art. 110
do CPP, a prova não seria proibida, pelo que não seria nula sob o ponto de
vista processual (art. 112 do CPP). Logo, estaria em causa um meio de
prova obtido por meio de acto processual irregular (art. 102, ns. 1 e 2 do
CPP), que poderia afectar o valor daquele acto e da prova nele produzida,
determinando a invalidade dos actos, desde que a irregularidade fosse
suscitada no próprio acto (art. 107, n.1 e 105, n.1 do CPP).
Admite-se, contudo, que estando em causa uma situação de
detenção ilegal, possam não existir condições para o detido invocar essa
irregularidade no acto. Aliás, deverá até considerar-se que a
irregularidade praticada em qualquer acto em que não esteja presente o
seu defensor, poderá ser arguida sempre até ao momento em que o
defensor puder contactar com o detido.
Mas, uma vez mais, nada foi suscitado a tal propósito, tendo a
detenção dos arguidos sido julgada válida, por despacho transitado
(despacho de fls. 3099).
Conforme se vê, a consequência da detenção ilegal nunca gera a
nulidade de todo o processado. Aliás, nenhuma nulidade a gera, conforme
se viu já também.
Nesses termos, a ter ocorrido a situação alegada pela arguida,
nenhuma consequência processual haverá a extrair para o presente
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processo, nomeadamente ao nível da prova. Quanto ao valor da prova


produzida durante tal período, se é que foi praticado algum acto nesse
sentido, vale aqui o que já acima se disse, face ao disposto nos art. 266,
n.2, alínea b) e 267, n.2 do CPP.
Pelo exposto, nenhum relevo tem, nesta sede, o requerimento de
envio do habeas corpus apresentado em nome daqueles arguidos,
julgando-se improcedente a nulidade “absoluta” invocada.

3 – Invalidade dos actos praticados pelo NID, por falta de


delegação de competências para a investigação
Alega a arguida que constam do processo vários actos de
investigação praticados pelo NID, quando o despacho proferido pelo
Ministério Público delegou as competências para a investigação apenas à
UNPOL.
Cumpre referir que o NID (National Investigation Department –
Prosecution Support Unit), constitui uma unidade de investigação criminal,
destinada, precisamente a proceder a investigações sob supervisão da
Procuradoria-Geral da República. É composta por elementos da UNPOL, da
PNTL e, apesar das suas atribuições específicas, integra-se no âmbito do
mandado geral da UNPOL.
Assim sendo, tendo a competência para a investigação sido
delegada na UNPOL, nenhuma irregularidade haverá se alguns dos actos
de investigação foram efectuados pelo mencionado Núcleo de
Investigação.
Ainda que se admita, por hipótese, que o dito núcleo procedeu a
uma investigação autónoma, sem prévia delegação específica de
competências, ainda assim, caberia ao titular das investigações, o
Ministério Público, aceitar ou não as diligências efectuadas, e incluí-las, ou
não, no seu inquérito.
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Pelo que se entende que não ocorreu qualquer nulidade a tal


propósito.
A ter ocorrido, seria a mesma sanável (face ao disposto nos art. 103
e 104, n.1 do CPP), sendo que o momento para a sua arguição há muito se
mostra decorrido, pelo que se consideraria a mesma sanada.
Termos em que se julga improcedente a nulidade arguida.

4 – Actos Praticados em Língua Não Oficial


Dispõe o art. 82 do CPP que, sob pena de nulidade, nos actos
processuais é utilizada língua oficial de Timor-Leste. Por outro lado,
estipula o art. 83, n.2, alínea a) que é obrigatória a nomeação de
interprete se for necessário traduzir documento que não esteja redigido
em língua oficial timorense e não venha acompanhado de tradução
autenticada.
Conclui-se assim que a existência de documentos redigidos em
língua estrangeira no processo, bem como a prática de actos em língua
não oficial é geradora da nulidade do acto, assim como será nulo o valor
probatório do documento – sem que, contudo, seja considerado por
qualquer disposição legal como uma prova proibida.
Contudo, não cominando a lei tal invalidade com a nulidade
insanável, deve a mesma ser julgada sanada se, no prazo previsto pelo
art. 105 do CPP, não vier a ser arguida.
Não sendo a mesma arguida nos cinco dias posteriores à dedução
da acusação (momento em que o inquérito se torna acessível a todas as
partes) ou ao momento em que a defesa em conhecimento da acusação,
deve o vício que afecta o acto ou o documento ser julgado sanado,
tornando-se o mesmo válido.
No caso presente, não foi a nulidade de tais actos ou documentos
suscitada dentro daquele prazo legal, pelo que se tem por sanada tal
nulidade.
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O Tribunal conhece jurisprudência do Tribunal de Recurso em


sentido diverso. Contudo, a aplicação do regime geral das nulidades dos
actos previsto pelos art. 102 e seguintes do CPP, e não tendo a arguida
indicado disposição legal diversa, leva-nos a decidir no sentido acima
exposto.
Termos em que se decide pela improcedência da nulidade
suscitada.

III.
Para além das nulidades acima conhecidas, não se vislumbram
outras nulidades, excepções ou questões prévias, que cumpra conhecer, e
que obstem à apreciação do objecto do processo.

FORMULAÇÃO DE QUESITOS E RESPOSTA AOS QUESITOS

Nos termos do disposto no art. 278, n.3 do Código de Processo


Penal, após o conhecimento das questões prévias ou incidentais a decidir,
devendo o processo prosseguir, o Tribunal organiza quesitos sobre os
factos constantes da acusação, da contestação escrita ou resultantes da
discussão da causa, e que tenham relevância para a decisão sobre a
verificação dos elementos constitutivos do tipo de crime, sobre a
participação dos arguidos nos factos, sobre a culpa na actuação, sobre
eventuais causas de exclusão da ilicitude ou da culpa, sobre a verificação
de quaisquer pressupostos de que dependa a punibilidade do agente,
sobre a escolha e medida da pena, bem como sobre os pressupostos de
que depende o arbitramento de uma indemnização.
No que concerne à acusação, constata-se que a mesma enquadra
os factos imputados aos arguidos num circunstancialismo muito mais
vasto, normalmente designado como “Crise de 2006”. Optou a acusação
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por alegar factos ainda não fixados historicamente, e ainda envoltos em


forte polémica política. Trata-se pois de uma versão dos factos ocorridos,
encarados sob um determinado ponto de vista, e que necessita ainda do
confronto com outras fontes e outros protagonistas da história.
A fixação da verdade histórica de tais acontecimentos não deverá
caber ao Tribunal, a menos que tal assuma relevo para o processo. O que
não é o caso. Independente do enquadramento histórico em que os factos
ocorreram, caberá sim ao Tribunal pronunciar-se sobre a verificação, ou
não, dos factos típicos dos crimes imputados aos arguidos, sem que deva
pronunciar-se sobre factos ainda envoltos em polémica quanto às suas
causas. Caberá à História e aos cientistas sociais, através do confronto e
estudo das várias fontes, definir esse passado e fixar essa verdade.
Por essa razão, e por entender que constituíam factos
desnecessários ao objectivo do processo, optou o Tribunal por não
formular quesitos sobre os factos ocorridos nos dois anos anteriores aos
crimes imputados aos arguidos.
Também na acusação consta que a arguida Angelita Pires, entre
outros factos, terá oferecido cigarros a alguns dos arguidos, sendo que
estes, depois de os fumarem, terão ficado emocionalmente alterados.
Contudo, a mesma acusação não alega que substância continham tais
cigarros, nem que tal substância a era apta a causar as alterações
emocionais sentidas pelas pessoas que os fumaram. Também não alega
que os arguidos, devido ao facto de terem fumado os cigarros oferecidos
pela arguida, determinaram a sua vontade para a prática de qualquer
acto. Ou seja, alega a acusação um conjunto de factos, dos quais não
retira quaisquer consequências para os actos que imputa aos arguidos.
Face a essa inconsequência, conclui-se que tais factos não assumem
qualquer relevo para a decisão da causa, não podendo o Tribunal extrair
dos mesmos (a provarem-se) qualquer conclusão.
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Nessa medida, optou também o Tribunal por não formular quesitos


sobre essa matéria.

Assim, consideram-se relevantes para a decisão da causa os


seguintes quesitos, constando já de cada um deles a respectiva
resposta, de acordo com a convicção formada pelo Tribunal:

1. Na sequência das eleições presidenciais de Abril e Maio de 2007, e


legislativas de Junho do mesmo ano, o Dr. Ramos Horta foi investido no
cargo de PR, e Xanana Gusmão no cargo de PM?
Provado.

2. Em data não apurada, mas antes do dia 11 de Fevereiro de 2008, o


ex-major Alfredo Reinado e os arguidos concentraram-se em Lauala,
ocupando casas próximas umas das outras, sendo certo que, uma era
chefiada por ele e a outra, por Gastão Salsinha?
Provado.

3. Em Lauala, procediam à vigilância da área, por forma a só poder


entrar quem tivesse autorização do ex-major Alfredo Reinado, do arguido
Gastão Salsinha ou, na companhia de pessoas da confiança dos arguidos?
Provado.

4. Os arguidos contactavam-se entre si quer através de telefonemas,


nomeadamente, através dos números 7368917, 7370709, 7335648,
7272269, 7299216, 7339581,7343056, 7348575, 7234041, quer através
de mensagens orais enviadas pelo ex-major Alfredo Reinado ou pelo
arguido Gastão Salsinha, quer ainda por contactos directos?
Provado que os arguidos contactavam-se entre si,
nomeadamente através de telefonemas, utilizando para o efeito,
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entre outros os números 7368917, 7335648, 7272269, 7299216,


7339581,7343056, 7348575, 7234041.
Não provado que utilizassem o n. 7370709 nos contactos
entre eles efectuados.

5. A arguida Angelita Pires, deslocava-se muitas vezes a Lauala, para


onde levava, entre outros, géneros alimentares, bebidas e medicamentos
para o grupo liderado pelo ex-major Alfredo?
Provado que a arguida Angelita Pires deslocava-se muitas
vezes a Lauala, para onde levava, entre outros, géneros
alimentares e bebidas para o grupo liderado pelo ex-major
Alfredo.
Não provado que a arguida nas visitas que fazia a Lauala,
levava consigo medicamentos para o grupo de Alfredo Reinado.

6. No dia 16 Dezembro de 2007 estava agendada uma reunião no


Palácio das Cinzas, em que estariam presentes o Presidente da República,
o Presidente do Parlamento Nacional, o Primeiro-ministro, o General
Brigadeiro das F-FDTL, o arguido Gastão Salsinha e o ex-major Alfredo
Reinado, com o objectivo de solucionar a questão da entrega do
denominado grupo “Peticionários”?
Provado.

7. Apesar de o Alfredo Reinado ter confirmado a sua presença, nem


ele, nem o Gastão Salsinha compareceram, pelo que, tal encontro não se
realizou?
Provado.

8. Estiveram presentes as entidades supra referidas, exceptuando o


ex-major Alfredo Reinado e o Gastão Salsinha?
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Não provado

9. Estes não compareceram por determinação da arguida Angelita


Pires?
Não Provado.

10. A arguida Angelita Pires, que mantinha contactos permanentes com


o ex-major Alfredo Reinado através, nomeadamente, dos números
7234041 e 7372773, convenceu-os a tal, argumentando que a vida deles
estaria em perigo?
Provado apenas que a arguida mantinha contactos
permanentes com o ex-major Alfredo Reinado através,
nomeadamente, dos números 7234041 e 7372773, e que deu a
sua opinião, entendendo que não estavam reunidas as condições
de segurança necessárias para a deslocação do Alfredo Reinado a
Dili.

11. A arguida Angelita Pires convenceu o Ex-major Alfredo Reinado que


o PR e o PM estavam a preparar um plano para matar o denominado
grupo “Peticionários”, no qual aquele se integrava, bem como aqueles que
se juntaram a tal grupo?
Provado.

12. Em finais de Janeiro de 2008, a arguida Angelita Pires deslocou-se à


Austrália em busca de apoios para o grupo liderado pelo ex-major Alfredo
Reinado, mormente, a angariação de meios financeiros para ajudar os
arguidos?
Provado apenas que a arguida Angelita Pires, deslocou-se à
Austrália em finais de Janeiro de 2008.
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Não provado que a deslocação da arguida Angelita Pires à


Austrália em finais de Janeiro de 2008 se destinasse à busca de
apoios para o grupo liderado por Alfredo reinado, mormente a
angariação de meios financeiros.

13. Esta arguida contactou desde a Austrália Alfredo Reinado e o


arguido Gastão Salsinha, através de telefones, designadamente, um com
o número +61431232264?
Provado

14. A arguida regressou da Austrália no dia 6 de Fevereiro de 2008 e,


no dia seguinte dirigiu-se a Lauala, onde o ex-major e os arguidos
estavam acantonados tendo levado coisas diversas?
Provado.

15. No dia 9 de Fevereiro de 2008, de manhã, em Lauala, a arguida


Angelita Pires disse ao ex-major Alfredo Reinado que, se eles se
deslocassem ao PR e ao PM, estes tinham que ser mortos?
Provado.

16. Disse ainda ao arguido Avelino que, se o ex-major Alfredo Reinado


viesse a ser condenado pelo Mundo, este poderia justificar-se como se
tendo tratado de um golpe de Estado?
Provado

17. Ainda na sequência da mesma conversa, disse ao ex-major que, se


ele morresse, colocaria uma garrafa de vodka na sua campa?
Não provado
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18. No dia 10 de Fevereiro de 2008, por volta das 19h, a arguida


Angelita Pires, antes de deixar Lauala, disse ao ex-major: “vão lá matar os
dois cães”, referindo-se ao PR e ao PM?
Não provado.

19. Os arguidos prepararam a saída de Lauala para Balibar e Dili, com


alguns dias de antecedência, sendo certo que, de 7 a 10 de Fevereiro, a
arguida Angelita Pires esteve sempre com eles, tendo, inclusive, no dia 8,
dormido com o ex-major Alfredo Reinado?
Provado apenas que a arguida Angelita Pires esteve em
Lauala no dia 7 de Fevereiro, que dormiu lá do dia 8 para o dia 9,
e que regressou no dia 10, após o que voltou para Dili.
Não provado que os arguidos prepararam a saída de Lauala
para Balibar e Dili com alguns dias de antecedência.

20. A arguida Angelita Pires, no dia 9 de Fevereiro de 2008, no


restaurante Beach Café, após um jantar com pessoa não identificada,
disse que, “o ex-major Alfredo Reinado viria a Díli nos próximos dias, e
que todos deveriam abraçá-lo para ser protegido porque, caso contrário,
poderia morrer”?
Provado

21. No dia 10 de Fevereiro de 2006, por volta das 21 horas, estando


todos os arguidos em Lauala, sob a direcção do Alfredo Reinado e do
arguido Gastão Salsinha, foram chamados e ordenados para se fardarem e
se armarem, porque iriam deslocar-se para Díli?
Provado
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22. No mesmo dia, por volta das 13h, o Alfredo Reinado, através de um
dos números que utilizava, telefonou ao Leopoldino Exposto, que se
encontrava em Díli, pedindo-lhe que fosse a Lauala, com mais um carro?
Provado.

23. O Leopoldino Exposto providenciou por um veículo, no qual, na


companhia do arguido Sansão, rumaram a Lauala, onde chegaram por
volta das 18 horas?
Provado.

24. Nesse telefonema Alfredo Reinado disse-lhe ainda: “é hora de nós


decidirmos o nosso destino”?
Não provado.

25. No dia 10 de Fevereiro, a hora não apurada mas, provavelmente


antes da meia-noite, em momentos distintos, os arguidos saíram de
Lauala em direcção a Dili, fazendo-se transportar em pelo menos quatro
viaturas?
Provado.

26. Os veículos Nissan Safari, com a matrícula nº 02-083 G/18-397 TLS


e Mitsubishi Pajero, com a matrícula nº 16-891 TLS1, foram conduzidos,
respectivamente, pelo ex-major Alfredo Reinado e pelo Leopoldino
Exposto?
Provado.

27. Nesses dois veículos os arguidos transportaram fardas, medicamentos,


armas e caixas de munições?
Provado.
1
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28. Nos dois referidos veículos vinham, pelo menos, os arguidos Amaro da
Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno
Leos, Gilberto Suni Mota, Marcelo Caetano, Joanino Maria Guterres, Ismael
Sansão Moniz Soares, Egídio Lay Carvalho e Caetano dos Santos Ximenes,
fardados e armados?
Provado.

29. Dirigiram-se para a residência do PR, sita em Metiaut, onde chegaram


por volta das 6horas da manhã do dia 11 de Fevereiro de 2008?
Provado.

30. A caminho, passaram por Balibar, local da residência do PM?


Provado.

31. Outros dois veículos partiram de Lauala, conduzidos respectivamente


pelos arguidos Gastão Salsinha e João Amaral, transportando os co-
arguidos Bernardo da Costa, Avelino da Costa, Alexandre de Araújo,
Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar
Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito
Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura, Tito Tilman, Alfredo de
Andrade e Francisco Ximenes Alves, fardados e armados?
Provado que outros dois veículos partiram de Lauala, um
deles conduzido pelo arguido Gastão Salsinha, transportando os
co-arguidos Bernardo da Costa, Avelino da Costa, Alexandre de
Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António
Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa
Ventura, e Francisco Ximenes Alves, fardados e armados.
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Não provado que os arguidos Tito Tilman, Alfredo de


Andrade e João Amaral seguissem nesses veículos com destino a
Balibar.

32. Dirigiram-se para a residência do PM, sita em Balibar, onde chegaram


na madrugada do dia 11 de Fevereiro de 2008?
Provado.

33. Chegados ao local, parte deles posicionou-se à beira da estrada, por


onde ia passar a coluna de veículos em que seguiam o Primeiro-Ministro e
os seus seguranças, e outra parte dos arguidos colocou-se na parte
traseira da residência do PM?
Provado.

34. Com o propósito de fazerem uma emboscada ao Primeiro Ministro?


Provado.

35. Na manhã do dia 11 de Fevereiro de 2008, por volta das 6h, o PR saiu
de sua residência para o seu habitual footing matinal em direcção ao
Cristo Rei, na companhia dos seguranças, os militares da F-FDTL Isaac da
Silva e Pedro Joaquim Soares?
Provado.

36. Chegados à residência do PR, os arguidos Amaro da Costa, Domingos


do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Gilberto Suni
Mota, Marcelo Caetano, Joanino Maria Guterres, Ismael Sansão Moniz
Soares, Egídio Lay Carvalho e Caetano dos Santos Ximenes, pararam em
frente ao portão da entrada principal, onde se encontrava de serviço,
fardado e armado, o segurança Domingos Simões Pereira, militar das F-
FDTL, acompanhado de José Luís da Costa Pereira?
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Provado.

37. Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António


da Silva, Paulo Neno Leos, Gilberto Suni Mota, Marcelo Caetano, Joanino
Maria Guterres, Ismael Sansão Moniz Soares, Egídio Lay Carvalho e
Caetano dos Santos Ximenes, fardados e na posse de armas e munições,
desceram dos veículos e, de imediato, cercaram o Domingos Simões
Pereira?
Provado.

38. Apontaram-lhe as armas, disseram-lhe para não oferecer resistência e


desarmaram-no?
Provado.

39. O arguido Amaro da Costa subtraiu-lhe a arma, uma espingarda M 16,


n. 0152890, coronha n. 298 e entregou-a ao arguido Domingos do Amaral?
Provado apenas que o arguido Domingos Amaral ficou com a
arma M16 que se encontrava na posse do segurança Domingos
Simões Pereira, depois da mesma ter sido subtraída por um dos
elementos do grupo não identificado.
Não Provado que a espingarda M16 do segurança Domingos
Simões Pereira tenha sido subtraída pelo arguido Amaro da Costa.

40. Os arguidos posicionaram-se nos dois portões das entradas do


compound, à excepção do ex-major Alfredo Reinado, Leopoldino Exposto,
Mota e Lay, que entraram para o interior do compound e de seguida para
a residência do PR?
Provado que os arguidos permaneceram no exterior do
compound, enquanto o Alfredo Reinado, Leopoldino Exposto e os
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arguidos Gilberto Suni Mota e Igídio Lay entraram para o


compound.

41. No interior do compound, os quatro elementos permaneceram por


cerca de 15 a 20 minutos e dirigiram-se para o interior da casa, onde, na
cozinha, se encontrava a cozinheira Amélia Paixão da Silva?
Provado que os quatro elementos, uma vez no interior do
compound, dirigiram-se ao interior da casa onde se encontrava a
cozinheira Amélia Paixão da Silva.
Não provado que os quatro elementos permaneceram no
compound cerca de 15 a 20 minutos.

42. O ex-major Alfredo questionou esta sobre a localização do quarto de


dormir do PR e obrigou-a a deitar-se no chão?
Provado.

43. Seguidamente, os quatro supra referidos, vieram para o exterior da


casa, e dirigiram-se para as tendas onde se encontravam guardadas as
armas dos seguranças, começando a apossar-se delas?
Provado.

44. Enquanto se apossavam dessas armas o Alfredo Reinado dirigiu-se ao


segurança João Soares e disse-lhe para não se mexer, caso contrário
morreria?
Provado.

45. O Francisco Lino Marçal, segurança de serviço em casa do PR


encontrava-se abrigado no interior de uma casa de banho?
Provado.
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46. Vendo o Alfredo Reinado e os colegas a apoderarem-se das armas e a


ameaçar o João Soares, disparou sobre os mesmos tendo atingido o
Alfredo Reinado e o Leopoldino Exposto?
Provado que ao ver o Alfredo Reinado e os colegas a
apoderarem-se das armas e a ameaçar o João Soares, disparou
sobre os mesmos.
Não Provado que os tiros disparados por Francisco Marçal
tenham atingido o Alfredo Reinado e o Leopoldino Exposto.

47. Vindo estes a falecer em consequência desses disparos?


Provado que Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto
faleceram na sequência de disparos de arma de fogo.
Não provado que Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto
tenham falecido em consequência dos disparos da arma de fogo
utilizada por Francisco Marçal.

48. Quando ouviram tiros, os arguidos Lay e Mota saíram a correr do


interior do compound, e já no exterior, e na companhia dos restantes
arguidos, abriram fogo em simultâneo na direcção do compound onde se
encontravam alguns dos militares, seguranças da casa do Presidente,
entre os quais, Domingos Simões Pereira, Adelino da Silva, José Pinto
Freitas, João Soares, Francisco Lino Marçal, Albino Assis, José Luís da Costa
Pereira, Agostinho Freitas e Filomeno Ximenes?
Provado que quando ouviram tiros, os arguidos Lay e Mota
saíram a correr do interior do compound, e já no exterior, e na
companhia dos restantes arguidos, abriram fogo em simultâneo
na direcção do compound onde se encontravam alguns dos
militares, seguranças da casa do Presidente, entre os quais,
Domingos Simões Pereira, José Pinto Freitas, Francisco Lino
Marçal e Albino Assis.
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Não provado que, no momento em que os arguidos abriram


fogo, os seguranças Adelino da Silva, João Soares, José Luís da
Costa Pereira, Agostinho Freitas e Filomeno Ximenes se
encontravam no interior do compound.

49. Durante esta troca de tiros, os arguidos, vendo aproximar-se uma


viatura militar, conduzida pelo lesado Celestino Filipe Gama, abriram fogo
contra ela?
Provado que, durante a troca de tiros, aproximou-se do local
uma viatura militar conduzida pelo lesado Celestino Filipe Gama,
a qual foi atingida por tiros.
Não provado que os arguidos, ao verem a viatura, abriram
fogo contra ela.

50. Provocando a sua queda numa vala o que veio a importar diversos
estragos, nomeadamente, no motor, capot, quebra de faróis dianteiros,
quebra do vidro frontal, destruição dos pneus dianteiros, e diversos
orifícios de balas por toda a carroçaria, deixando mesmo de funcionar?
Provado.

51. O lesado Celestino Filipe Gama foi atingido, na cabeça e em outras


partes do corpo, por disparos efectuados pelos arguidos?
Provado que o lesado Celestino Filipe Gama foi atingido, na
cabeça e em outras partes do corpo.
Não provado que os tiros que atingiram o lesado tenham
sido disparados pelos arguidos.

52. Como consequência necessária e directa desta conduta, resultaram as


lesões: ferida no lobulo temporal-parietal esquerdo, com extenso edema e
fragmentos metálicos, causadora de lesão cerebral e danos neurológicos
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(impossibilidade de visão à direita, monoparesis grave do membro


superior direito, fraqueza ligeira dos membros inferiores, confusão); ferida
no cotovelo direito com fragmentos metálicos, múltiplas lacerações no
crâneo, ferida no joelho direito, com fragmentos metálicos, as quais
necessitaram de duas intervenções cirúrgicas para tratamento, a
permanência do lesado na Unidade de Cuidados Intensivos por um período
de uma semana, e cuidados de fisioterapia?
Provado.

53. Esteve internado no Hospital em Díli e, posteriormente foi evacuado


para o Hospital de Darwin, onde foi submetido a várias intervenções
cirúrgicas?
Provado.

54. Na altura em que foi atingido, o lesado Celestino Filipe Gama passava
ocasionalmente na estrada em frente à casa do PR, vindo de Metinaro, a
caminho de Dili, conduzindo um Jeep2 das F-FDTL?
Provado.

55. Do interior do compound, os seguranças responderam aos tiros e


houve tiroteio por tempo não determinado até que os arguidos se
esconderam algures, nas valas e ribeiras próximas e por trás de um
acampamento de refugiados, nas imediações da residência do PR?
Provado.

56. Os vários disparos efectuados pelos arguidos para o interior do


compound da residência do PR atingiram árvores, vedações e tendas?
Não Provado.

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57. Os seguranças Domingos Simões Pereira, Adelino da Silva, José Pinto


Freitas, João Soares, Francisco Lino Marçal, Albino Assis, José Luís da Costa
Pereira, Agostinho Freitas e Filomeno Ximenes só não foram atingidos por
se terem abrigado?
Provado que os seguranças Domingos Simões Pereira, José
Pinto Freitas, Francisco Lino Marçal, Albino Assis só não foram
atingidos por se terem abrigado.

58. Por volta das 06h45m, o PR, de regresso à sua residência, vindo do
footing e na companhia dos militares Isaac da Silva e Pedro Joaquim
Soares, já próximo do restaurante “Kas Bar”, ouviu barulho de tiros que
vinham na direcção da sua residência?
Provado.

59. Altura em que telefonou ao Brigadeiro General Taur Matan Ruak,


informando-lhe do que se estava a passar?
Provado.

60. Quando o PR por volta das 7 horas se encontrava a uma distância de


cerca de 20 metros do portão de entrada do compound da sua residência,
surgiu um dos arguidos, que se encontrava escondido atrás do tronco de
uma árvore, empunhando uma arma HK 33 – ATM, com a qual disparou
três tiros?
Provado.

61. Dois dos tiros atingiram o Presidente da República, atingindo-o no


ombro direito e na zona lombar direita, provocando-lhe três feridas na
região direita do torax, uma com penetração na parte direita posterior
causando fracturação de costelas, contusão do lobulo inferior do pulmão
direito, fractura laminar da vertebra 8?
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Provado.

62. Acto contínuo, o Pedro Joaquim Soares, o outro segurança que


acompanhava o PR no footing, tirou a pistola que trazia e disparou tiros
contra aquele arguido?
Provado.

63. Outros seguranças do PR, também dispararam contra este arguido?


Provado

64. Foi o arguido Marcelo Caetano quem disparou sobre o PR?


Não Provado.

65. Porém, o mesmo fugiu em direcção à montanha e conseguiu escapar-


se?
Provado.

66. À fuga deste juntaram-se-lhe os restantes arguidos, que estavam


escondidos nas imediações e todos dispararam em direcção aos
seguranças do PR, Pedro Joaquim Soares e Isac da Silva?
Não Provado.

67. Enquanto fugiam em direcção a montanha de Fatu-ahi – Camea os


arguidos não pararam de efectuar disparos?
Não provado.

68. Os arguidos conseguiram retirar duas armas que estavam na posse


dos seguranças, pertencentes às F-FDTL, e levaram-nas com eles?
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Provado que dois dos arguidos conseguiram retirar duas


armas que estavam na posse dos seguranças, pertencentes às F-
FDTL, e levaram-nas com eles.

69. O arguido Marcelo Caetano tinha na sua posse uma arma HK 33 – ATM
– n. 019366?
Provado que no dia 29 de Março de 2008 o arguido Marcelo
Caetano tinha na sua posse uma arma HK 33 – ATM – n. 019366.

70. Com a qual disparou contra o PR e que a entregou aquando da sua


entrega às autoridades?
Não Provado.

71. As balas e invólucros disparados contra o PR pertenciam a esta arma?


Não Provado.

72. No mesmo dia, o PR foi evacuado para o Hospital em Darwin, onde


esteve em coma induzido por vários dias e foi sujeito a várias
intervenções cirúrgicas?
Provado.

73. O PR esteve internado durante cerca de dois meses?


Provado.

74. O PR regressou a Díli cerca de três meses depois da data da


ocorrência dos factos?
Provado.
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75. Por volta das 07h30, do dia 11 de Fevereiro de 2008, o PM Xanana


Gusmão, que se encontrava na sua residência em Balibar, foi informado
sobre o que tinha acontecido momentos antes com o PR?
Provado.

76. Acto contínuo saiu da sua residência, escoltado por uma coluna
composta por 4 veículos, com a sua segurança pessoal, elementos da
PNTL e da Unpol em direcção a Dili?
Provado.

77. O primeiro veículo da coluna, identificado nos autos como Sec. 1, era
conduzido por Joni Barbosa, transportando o colega José Maria Barreto
Soares?
Provado.

78. O segundo veículo da coluna, identificado nos autos como PM1, era
conduzido por Adolfo Soares, transportando o colega Boby Agapito
Gonçalves e o Primeiro Ministro Xanana Gusmão, que vinha sentado no
banco de trás?
Provado.

79. O terceiro veículo da coluna, identificado nos autos como UN 0617, era
conduzido por Komsan Tookokgruado, acompanhado pelo colega
Alongkorn Kalayanasoontor?
Provado.

80. O quarto veículo da coluna, identificado nos autos como 01-55G, era
conduzido por Abílio Santos?
Provado.
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81. No momento em que a coluna de veículos saiu da residência do PM, os


arguidos Gastão Salsinha, João Amaral, Bernardo da Costa, Avelino da
Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António
Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura,
Tito Tilman, Alfredo de Andrade e Francisco Ximenes Alves, fardados e
armados, mantinham as posições que haviam tomado nas traseiras da
casa do PM e junto à estrada?
Provado que no momento em que a coluna de veículos saiu
da residência do PM, os arguidos Gastão Salsinha, Bernardo da
Costa, Avelino da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo,
Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José
Agapito Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo,
Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves,
fardados e armados, mantinham as posições que haviam tomado
nas traseiras da casa do PM e junto à estrada.
Não provado que os arguidos João Amaral, Tito Tilman e
Alfredo de Andrade se encontrassem neste local.

82. No momento em que a coluna de veículos passava pelos arguidos


emboscados à beira da estrada, a cerca de 500 metros da casa do PM, por
determinação do arguido Gastão Salsinha, começaram a disparar
intensivamente em direcção às viaturas, tentando atingir os seus
ocupantes?
Provado que, no momento em que a coluna de veículos
passava pelos arguidos emboscados à beira da estrada, a cerca
de 500 metros da casa do Primeiro Ministro, por determinação do
arguido Gastão Salsinha, começaram a disparar intensivamente
em direcção à viatura em que seguia o Primeiro Ministro,
tentando atingir os seus ocupantes.
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Não provado que os arguidos tenham efectuado disparos na


direcção das outras viaturas que seguiam à frente e atrás da
viatura do Primeiro Ministro.

83. Os disparos foram efectuados em maior número na direcção da


viatura em que seguia o Primeiro-ministro, tendo sido a única a ser
atingida pelos projécteis?
Provado.

84. Em consequência, a viatura onde seguia o Primeiro Ministro sofreu


danos no parachoques frontal, farol frontal direito e capot, quebra do vidro
traseiro, diversos orifícios de balas nas portas e no assento dianteiro
direito, bem como destruição do pneu traseiro esquerdo?
Provado.

85. Perante a intensidade dos disparos, os condutores dos veículos Sec1 e


PM1 aceleraram a marcha, indo o primeiro despistar-se numa ravina
sofrendo os seguintes estragos: destruição de toda a parte dianteira do
veículo, com redução da área do motor, destruição dos pneus dianteiros,
danos em ambas as partes laterais da carroçaria, perda do parachoques
traseiro, quebra dos faróis traseiros direitos?
Provado.

86. Os seguranças do terceiro veículo da coluna, o UN 0617, pararam e,


um deles respondeu aos tiros dos arguidos, que fugiram para o interior do
arvoredo existente no local, indo juntarem-se aos demais arguidos, que
estavam emboscados atrás da casa do Primeiro-ministro?
Provado.
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87. Os ocupantes das viaturas só não foram atingidos porque estas se


encontravam em movimento?
Provado que os ocupantes da viatura em que seguia o
Primeiro Ministro só não foram atingidos porque esta se
encontrava em movimento.

88. Em consequência dos disparos o veículo onde circulava o PM, veio a


imobilizar-se mais à frente?
Provado.

89. Os disparos efectuados sobre essa viatura dirigiram-se para os pneus?


Não Provado.

90. Perante o sucedido, os seguranças que seguiam no veículo UN 0617


regressaram de imediato à residência do PM, onde se encontravam a
mulher e os filhos deste, a ama das crianças e António Caldeira Duarte,
segurança da esposa do Primeiro-ministro?
Provado.

91. Nas traseiras da residência do PM, estavam os arguidos,


designadamente, o Gastão Salsinha e Avelino da Costa?
Provado.

92. O arguido Gastão Salsinha dirigiu-se ao segurança Roque Exposto, que


entretanto acabara de chegar à residência do PM, exigindo-lhe a entrega
das armas pesadas?
Provado.

93. Como essas armas não se encontravam na residência do PM, os


arguidos fugiram?
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Provado.

94. Alguns dos arguidos que estiveram na residência do PR e os que


estiveram na residência do PM, após a prática dos crimes reuniram-se em
parte incerta do território nacional?
Provado.

95. Outros arguidos, entre os quais, Egidio Lay de Carvalho, José Agapito
Madeira e Ismael Sansão Muniz Soares, fugiram para a Indonésia?
Provado.

96. Na sequência destes factos o PR ficou impedido do exercício das suas


funções, foi substituído nos termos constitucionalmente definidos, e o
Parlamento Nacional autorizou o Presidente interino a decretar o estado
de sítio, sujeito a sucessivas prorrogações, por um período total de três
meses e dez dias?
Provado.

97. O que os arguidos sabiam poder ser uma das consequências da


utilização das armas nos termos em que foram utilizadas, querendo eles
que tal sucedesse?
Provado.

98. O arguido Amaro da Costa “Susar”, após 3 Maio de 2006, abandonou


as fileiras da PNTL, tendo levado consigo uma arma pertencente à PNTL?
Provado.

99. Alguns dos arguidos procederam à entrega das armas e/ou uniformes
às autoridades, nos seguintes termos:
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- Gastão Salsinha, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 020467, 2


(dois) carregadores, 78 (setenta e oito) munições e 1 (um) uniforme.
- Marcelo Caetano, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 019366, 2
(dois) carregadores, 179 (cento e setenta e nove) munições e 1 (um)
uniforme.
- Gaspar Lopes “Halerik”, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série
011221, 2 (dois) carregadores, 120 (cento e vinte) munições e 1 (um)
uniforme.
- Gilberto Suni Mota, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 017235,
2 (dois) carregadores, 76 (setenta e seis) munições e 1 (um) uniforme.
- Joanino Maria Guterres, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série
018672, 2 (dois) carregadores, 140 (cento e quarenta) munições e 1 (um)
uniforme.
- José Agapito Madeira “José Espelho” , 1 (uma)arma HK 33, com o número
de série 005700, 76 (setenta e seis) munições e 1 (um) uniforme.
- Domingos Amaral, 1 (uma) arma M 16, 1 carregador, 20 (vinte) munições
e 1 (um) uniforme.
- José da Costa Ventura, 1 (uma) arma HK 33, 1 (um) carregador,
munições e 1 (um) uniforme.
- Adolfo da Silva, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, munições e 1
(um) uniforme.
- Julião António Soares, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 65
(sessenta e cinco) munições e 1 (um) uniforme.
- Paulo Neno Leos, 1 (uma) Metralhadora, 1 (um) carregador, 340
(trezentos e quarenta) munições e 1 (um) uniforme com botas.
- Amaro da Costa “Susar”, 2 (duas) armas (1 FNC e 1 HK 33), 7 (sete)
carregadores, 250 (duzentos e cinquenta) munições e 1 (um) uniforme.
- Avelino da Costa, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 80
(oitenta) munições e 1 (um) uniforme.
- Quintino Espírito Santos, munições e 1 (um) uniforme.
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- Bernardo da Costa, 1 (uma) arma HK 33, 1 (um) carregador, 40


(quarenta) munições e 1 (um) uniforme.
- Januário Babo, 1 (uma) arma HK 33, 3 (três) carregadores, 100 (cem)
munições e 1 (um) uniforme.
- Raimundo Maia Barreto, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 65
(sessenta e cinco) munições e 1 (um) uniforme?
Provado.

100. Os arguidos sabiam que não estavam ao serviço das F-FDTL nem da
PNTL, e que, nessa condição, não podiam estar armados com armas
dessas instituições?
Provado.

101. Os arguidos sabiam também que não possuíam licença de uso e


porte de armas e munições, nem dela estavam isentos, pelo que não
podiam tê-las na sua posse nem usá-las, fora das condições legais?
Provado.

102. Fizeram uso de tais armas para, entre outros fins, criarem medo e
receio na comunidade?
Provado.

103. E sabiam que tais condutas eram proibidas e punidas por lei?
Provado.

104. Sendo os arguidos militares e polícias, conheciam as características


das armas e munições que detinham e sabiam que, devidamente
municiadas e disparadas contra o Presidente da República, Primeiro-
ministro, os seus respectivos seguranças e outras pessoas que estivessem
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no local, eram aptas a causar-lhes a morte ou lesões contra a sua


integridade física?
Provado.

105. E que por via disso o PR poderia deixar de exercer as suas funções?
Provado.

106. Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José da


Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria
Guterres, Egídio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares, Caetano dos
Santos Ximenes e Angelita Maria Pires quiseram matar o Presidente da
República?
Provado que os arguidos Amaro da Costa, Domingos do
Amaral, Gilson José da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egídio Lay Carvalho,
Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes
quiseram matar o Presidente da República.
Não provado que a arguida Angelita Pires quis matar o
Presidente da República.

107. Para esse fim, consideraram necessária a morte das pessoas que
efectuavam a segurança à casa e à pessoa do PR?
Provado.

108. Bem como consideraram necessária a morte de qualquer outra


pessoa que surgisse no local, e que pudesse colocar em perigo as suas
intenções de matar o Presidente da República?
Não Provado.
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109. Consideraram também necessário causar estragos em viaturas que


surgissem no local por forma a evitar que as pessoas que nelas seguiam
pudessem colocar em perigo as suas intenções de matar o Presidente da
República?
Não Provado.

110. Resultados estes que os arguidos consideraram necessários para a


prossecução do objectivo principal de matarem o Presidente da República?
Provado.

111. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e de forma


previamente concertada, aceitando participar de forma conjunta na
execução de um plano destinado a matar o Presidente da República?
Provado.

112. Sabiam ainda os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral,


Gilson José da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto
Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egídio Lay Carvalho, Ismael Sansão
Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes que as armas que levaram
da casa do Presidente da República com a intenção de fazê-las suas, não
lhes pertenciam, e não podiam fazê-las suas, contra a vontade de quem
as detinha?
Não Provado.

113. Os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maria Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Juliano António Soares,
Quintino Espírito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura, Tito
Tilman, João Amaral, Francisco Ximenes Alves, Alfredo de Andrade e
Angelita Maria Pires quiseram matar o Primeiro Ministro?
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Provados que os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da


Costa, Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo,
Raimundo Maria Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes,
José Agapito Madeira, Juliano António Soares, Quintino Espírito
Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco Ximenes
Alves quiseram matar o Primeiro Ministro.
Não provado que os arguidos Tito Tilman, João Amaral
Alfredo de Andrade e Angelita Maria Pires quisessem matar o
Primeiro Ministro.

114. Para esse fim, consideraram necessária a morte das pessoas que
efectuavam a segurança à pessoa do Primeiro Ministro?
Provado que, para esse fim, consideraram necessária a
morte das pessoas que viajavam no carro onde seguia o Primeiro
Ministro.

115. Consideraram também necessário causar estragos em viaturas que


surgissem no local por forma a evitar que as pessoas que nelas seguiam
pudessem colocar em perigo as suas intenções de matar o Primeiro
Ministro?
Provado apenas que os arguidos consideraram também
necessário causar estragos na viatura em que seguia o Primeiro
Ministro.

116. Resultados estes que os arguidos admitiram como sendo necessários


para a prossecução do objectivo principal de matarem o Primeiro-Ministro?
Provado.
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117. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e de forma


previamente concertada, aceitando participarem de forma conjunta na
execução de um plano destinado a matar o Primeiro Ministro?
Provado.

118. Os arguidos sabiam que tais condutas eram proibidas e punidas por
lei?
Provado.

119. A morte do Presidente da República, do Primeiro Ministro, dos


seguranças daquele e da sua residência, dos seguranças deste último,
bem como de Celestino Filipe Gama, só não sobreveio por razões alheias à
vontade dos arguidos?
Provado que a morte do Presidente da República, do
Primeiro Ministro, de quatro dos seguranças da residência
daquele, do segurança e condutor deste último, só não sobreveio
por razões alheias à vontade dos arguidos.

120. O arguido Gastão Salsinha sabia que ao combinar e planear com


outra ou outras pessoas, matar ou agredir fisicamente o Presidente da
República podia efectivamente levar a que estes crimes fossem
cometidos?
Provado.

121. Sabia a arguida Angelita Pires que, as conversas que tinha com o ex-
major Alfredo Reinado, pelo menos as que eram presenciadas por alguns
dos arguidos, eram de molde a provocar nele e, consequentemente, nos
demais elementos do seu grupo, ódio e raiva contra o Presidente da
República e Primeiro-ministro?
Não Provado.
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122. Pretendia a arguida, com tais conversas, motivá-lo e determiná-lo a


planear e praticar atentados contra a vida quer do Presidente da
República, quer do Primeiro-Ministro?
Não Provado.

123. Resultado este que a arguida pretendia ver concretizado?


Não Provado.

124. Bem como a causar a morte de quaisquer pessoas que, pelo


exercício das suas funções ou por motivos imponderáveis se
encontrassem nos locais escolhidos para atentar contra a vida daqueles, e
cuja morte se mostrasse necessária como forma de afastar o perigo de
frustrarem aquela intenção?
Não Provado.

125. Bem como a causar os danos nas viaturas onde aquelas


individualidades seguissem ou que, por motivos imponderáveis se
encontrassem nos locais escolhidos para atentar contra a vida daqueles, e
cuja danificação se mostrasse necessária como forma de afastar o perigo
de frustração daquela intenção?
Não Provado.

126. Resultados estes que a arguida admitiu como sendo necessários para
a prossecução do objectivo pretendido de matar o Presidente da República
e o Primeiro-Ministro?
Não Provado.
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127. Conheciam perfeitamente os arguidos, como timorenses e membros


de instituições militares e policiais, o Presidente da República, Dr. Ramos
Horta, e a sua residência?
Provado.

128. Sabiam ainda os arguidos que os disparos contra as viaturas


conduzidas pelos lesados, eram aptos a causar-lhes estragos?
Provado.

129. E que tais condutas eram proibidas e punidas por lei?


Provado.

130. Os arguidos sabiam que os disparos sobre os veículos em que


seguiam o Primeiro-ministro, os seus seguranças e o militar Celestino
Filipe Gama, eram aptos a provocar-lhes estragos?
Provado que os arguidos sabiam que os disparos sobre o
veículo em que seguia o Primeiro-ministro, eram aptos a
provocar-lhe estragos.

131. Os arguidos, em todas as circunstâncias acima descritas, quiseram


os respectivos resultados?
Provado que os arguidos em todas as circunstâncias dadas
como provadas, quiseram os respectivos resultados.

132. E agiram de forma livre, deliberada e consciente?


Provado.

133. Bem sabendo que, tais condutas eram proibidas e punidas por lei?
Provado.
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134. Na sequência da denominada “Crise de 2006”, todos os arguidos,


com excepção da arguida Angelita Maria Francisca Pires, abandonaram os
respectivos quartéis e esquadras, e passaram a integrar ou a colaborar
com movimentos de reivindicação compostos por militares e elementos da
PNTL, entre os quais o denominado movimento “Peticionários”, liderados
por Alfredo Reinado e Gastão Salsinha?
Provado.

135. Na sequência dessas actuações dos arguidos, os seus vencimentos


nas respectivas instituições militares ou de segurança deixaram de lhes
ser pagos?
Provado.

136. O arguido Amaro da Costa é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 5 anos de idade?
Provado.

137. É agente da PNTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares, os


quais não recebe?
Provado.

138. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

139. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

140. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

141. O arguido Domingos Amaral é solteiro, e vive com os pais?


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Provado.

142. É alferes das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 130,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

143. Tem como habilitações literárias o SIM?


Provado.

144. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

145. O arguido Gilson José António da Silva é casado, vive com a mulher e
um filho com 2 anos de idade?
Provado.

146. É soldado da Unidade de Polícia Militar das F-FDTL, tendo o


vencimento mensal de 85,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

147. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

148. Tem como habilitações literárias o ensino secundário?


Provado.

149. Já foi condenado em Tribunal pela prática de um crime de ofensas


corporais, tendo estado preso durante 1 mês, no ano de 2002?
Provado.
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150. O arguido Paulo Neno Leos é casado, vive com a mulher e dois filhos,
tendo o mais velho 5 anos de idade?
Provado.

151. É segundo sargento da Polícia Militar das F-FDTL, tendo o vencimento


mensal de 115,00 dólares?
Provado.

152. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

153. Tem como habilitações literárias o SLTA?


Provado.

154. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

155. O arguido Gilberto Suni Mota é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

156. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares?


Provado.

157. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

158. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.
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159. O arguido Marcelo Caetano é casado, vive com a mulher e um filho


com 3 anos de idade?
Provado.

160. É soldado da F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

161. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

162. Tem como habilitações literárias o pré-secundário?


Provado.

163. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

164. O arguido Joanino Maria Guterres é casado, vive com a mulher e um


filho com 2 anos de idade?
Provado.

165. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

166. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

167. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.
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168. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

169. O arguido Ismael Sansão Moniz Soares é casado, vive com a mulher e
dois filhos, tendo o mais velho 6 anos de idade, e o mais novo 3 anos de
idade?
Provado.

170. É primeiro sargento das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de


120,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

171. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

172. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

173. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

174. O arguido Igídio Lay Carvalho é solteiro, e vive com a avó?


Provado.

175. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

176. Tem como habilitações literárias o SMA?


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Provado.

177. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais, embora tenha


estado preso preventivamente à ordem do Proc. n. 233/07?
Provado.

178. O arguido Caetano dos Santos Ximenes é solteiro, e vive com os


pais?
Provado.

179. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

180. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

181. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

182. O arguido Gastão Salsinha é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 11 anos de idade, e o mais novo 3 anos de
idade?
Provado.

183. É tenente das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 136,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

184. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


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Provado.

185. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

186. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

187. O arguido João Amaral é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

188. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

189. Tem como habilitações literárias o STM?


Provado.

190. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

191. O arguido Bernardo da Costa é casado, vive com a mulher e três


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 2 anos de idade?
Provado.

192. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

193. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


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Provado.

194. Não frequentou qualquer grau de ensino, sendo analfabeto?


Provado.

195. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

196. O arguido Avelino da Costa é casado, vive com a mulher e três filhos,
tendo o mais velho 8 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade?
Provado.

197. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

198. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

199. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

200. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

201. O arguido Alexandre de Araújo é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade?
Provado.
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202. É agente da PNTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares, os


quais não recebe?
Provado.

203. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

204. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

205. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

206. O arguido Januário Babo Soares é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

207. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

208. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

209. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

210. O arguido Raimundo Maia Barreto é casado, vive com a mulher e


quatro filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 2 anos de
idade?
Provado.
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211. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

212. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

213. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

214. Já esteve preso entre 2002 e 2006 pela prática de um crime de


homicídio?
Provado.

215. O arguido Julio Soares Guterres é casado, vive com a mulher e dois
filhos, tendo o mais velho 4 anos de idade, e o mais novo 2 anos de idade?
Provado.

216. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

217. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

218. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.
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219. À data da prática dos factos não possuía antecedentes criminais,


tendo sido posteriormente condenado no proc. n. 131/TDD/06 (por
acórdão transitado a 6 de Abril de 2009) pela prática de um crime de dano
e outro de ofensas corporais, na pena única de dois anos de prisão?
Provado.

220. O arguido Gaspar Lopes é casado, vive com a mulher e seis filhos,
tendo o mais velho 15 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade?
Provado.

221. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

222. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

223. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

224. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

225. O arguido José Agapito Madeira é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

226. É furriel das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 110,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.
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227. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

228. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

229. O arguido Julião António Soares é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

230. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

231. Tem como habilitações literárias o ensino secundário?


Provado.

232. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

233. O arguido Quintinho Espírito Santo é solteiro, e vive com a mãe?


Provado.

234. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

235. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

236. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


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Provado.

237. O arguido Adolfo da Silva é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

238. É furriel das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

239. Tem como habilitações literárias a primeira classe?


Provado.

240. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

241. O arguido José da Costa Ventura é casado, vive com a mulher e


quatro filhos, tendo o mais velho 15 anos de idade, e o mais novo 1 ano
de idade?
Provado.

242. É primeiro sargento das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de


105,00 dólares, os quais não recebe?
Provado.

243. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

244. Tem como habilitações literárias o SD?


Provado.
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245. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

246. O arguido Tito Tilman é casado, vive com a mulher e um filho, com
um ano de idade?
Provado.

247. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

248. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.

249. Tem como habilitações literárias o SMA?


Provado.

250. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

251. O arguido Alfredo de Andrade é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 7 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade?
Provado.

252. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

253. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento?


Provado.
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254. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

255. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

256. O arguido Francisco Ximenes Alves é solteiro, e vive com os pais?


Provado.

257. É soldado dos F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe?
Provado.

258. Tem como habilitações literárias o SMP?


Provado.

259. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

260. A arguida Angelita Maria Francisca Pires é solteira, e vive com


colegas?
Provado.

261. É consultora técnica, tendo rendimentos mensais de cerca de


3.000,00 dólares?
Provado.

262. Tem como habilitações literárias o segundo ano do curso de Direito?


Provado.
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263. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais?


Provado.

MOTIVAÇÃO DA DECISÃO DE FACTO

I.
Valor Probatório das Declarações dos Arguidos

Nos termos do disposto no art. 116 do Código de Processo Penal,


são admissíveis quaisquer meios de prova que não sejam proibidos por lei,
adiantando o n.2, alínea a) desse artigo, expressamente, que as
declarações do arguido constituem meio de prova.
No caso presente, a generalidade dos arguidos, em audiência de
julgamento, optou por não prestar declarações.
Contudo, em sede de primeiro interrogatório, vários deles
prestaram declarações.
Face ao silêncio dos arguidos em audiência, importa ao Tribunal
decidir se as declarações prestadas em primeiro interrogatório e em
interrogatórios presididos pelo Ministério Público na fase de inquérito,
podem ou não ser valoradas.
O direito do arguido ao silêncio encontra-se consagrado no art. 60,
alínea c) do Código de Processo Penal, no qual se dispõe que o arguido
goza do direito de “Decidir livremente prestar ou não declarações e fazê-
lo, mesmo a seu pedido, em qualquer altura do inquérito ou da audiência
de julgamento, (...)”. Durante o primeiro interrogatório, estatui o n.4 do
art. 62 do mesmo Código que, após ser informado de forma clara e precisa
dos factos que lhe são imputados e das provas que existam contra ele,
procede-se ao interrogatório do arguido “(...) se quiser prestar
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declarações, esclarecendo-o de que o silêncio o não desfavorecerá”. Esta


mesma regra é aplicável em audiência de julgamento, atento o disposto
no art. 268, n. 2 do CPP, acrescentando o n.7 deste artigo que “O arguido
pode, espontaneamente ou a recomendação do defensor, recusar a
resposta a algumas ou a todas as perguntas, sem que tal o possa
desfavorecer”.
A par das disposições mencionadas, estatui o art. 117, n.1 do CPP
que “As declarações do arguido só constituem meio de prova válido
quando, após advertência de que tem o direito de as não prestar, aquele
decidir prestá-las, o que pode fazer a todo o tempo, até ao encerramento
da audiência de julgamento”, acrescentando o n.4 do mesmo artigo que
tais declarações são livremente apreciadas.
Por seu turno, o art. 266, n.1 do mesmo Código estabelece, como
princípio geral, que “A convicção do tribunal só pode fundamentar-se em
provas que tenham sido produzidas ou examinadas em audiência”.
Contudo, adianta o n.2 deste mesmo artigo:
“Ressalvam-se do disposto no número anterior as seguintes provas
que poderão ser utilizadas mesmo que não tenham sido examinadas em
audiência por falta de quem o requeresse:
(...)
b) Os autos de inquérito na parte em que contenham declarações
do arguido, do lesado ou de testemunhas ouvidas perante autoridade
judiciária”.
Considera-se autoridade judiciária, segundo o art. 1, alínea b) do
CPP “(...) o juiz e o Ministério Público, cada um relativamente aos actos
processuais que cabem na sua competência”.
Das citadas disposições legais conclui-se:
O arguido pode livremente prestar declarações em qualquer altura
do processo, como pode, também em qualquer altura do processo, optar
por exercer o direito ao silêncio; sempre que seja chamado a prestar
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declarações, deve o arguido ser advertido de que, optando por não falar,
não pode o seu silêncio prejudicá-lo; sempre que opte por falar, perante a
autoridade judiciária competente, podem as suas declarações ser
livremente valoradas como meio de prova. Logo, quando o arguido opte,
em audiência de julgamento, pelo direito ao silêncio, as declarações por si
prestadas em inquérito perante a autoridade judiciária competente (como
é o caso do juiz em sede de primeiro interrogatório de arguido detido –
art. 63, n.2 do CPP - ; ou do Ministério Público nos demais interrogatórios
realizados na fase de inquérito – art. 64, n.1 conjugado com o art. 48, n.2,
alínea b), ambos do CPP), podem servir para fundamentar a convicção do
tribunal, estando sujeitas à sua livre apreciação, não sendo necessário,
sequer, que as mesmas sejam examinadas em audiência. Ou seja, o
exercício do direito ao silêncio em audiência não impede o tribunal de
fundamentar a sua convicção a partir da valoração de declarações do
arguido anteriormente prestadas, desde que, aquando da prestação
dessas declarações tenha sido advertido de que poderia exercer o seu
direito ao silêncio sem que tal o desfavorecesse.
Assim, entendeu o Tribunal que as declarações prestadas pelos
arguidos em sede de primeiro interrogatório, bem como nos demais
interrogatórios realizados pelo Ministério Público na fase de inquérito,
podem ser objecto de valoração enquanto meio de prova – art. 266, n.2 e
117, n.1, ambos do Código de Processo Penal.
Ultrapassada essa primeira questão, importa agora resolver outra, e
que se reporta ao valor probatório das declarações do arguido na parte
em que aquele incrime outros arguidos.
Noutros ordenamentos jurídicos semelhantes ao timorense, quer
por via legislativa, quer por via jurisprudencial, tem-se limitado o valor das
declarações incriminatórias de um arguido face aos demais co-arguidos,
exigindo-se que tais declarações, para que possam servir de base à
convicção do Tribunal, sejam corroboradas por outros elementos
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probatórios que as sustentem. Ou seja, em tais ordenamentos, as meras


declarações de um arguido, só por si, não são suficientes para provar a
participação de outros arguidos nos factos.
No ordenamento jurídico de Timor Leste esse limite, ou essa
exigência acrescida, não está prevista na lei, limitando-se o art. 117, n.4
do CPP a estatuir que “As declarações do arguido são livremente
apreciadas”. Também não se conhece jurisprudência timorense que
restrinja por via interpretativa o âmbito de aplicação daquele preceito.
Antes de mais, convém referir que o Código de Processo Penal de
Timor Leste, embora muito semelhante a outros Códigos de outros países,
nomeadamente o português, não é literalmente igual. E um dos campos
onde as diferenças são mais significativas é, precisamente, no valor
probatório das declarações do arguido. Enquanto o código processual
penal português é extremamente limitativo quanto ao valor probatório de
tais declarações, o código timorense optou por conferir a tais declarações
um valor probatório bastante mais vasto. Nessa parte, tratou-se de uma
clara opção do legislador timorense em afastar-se da experiência
portuguesa que lhe serviu de matriz. As razões de ser dessa opção não
cabem aqui ser discutidas. Cabe apenas ao tribunal decidir se, perante
uma clara intenção do legislador em adoptar soluções jurídicas distintas,
deverá o tribunal, por via interpretativa, e por recurso a jurisprudência
estrangeira, esbater essas diferenças, e aproximar os ordenamentos
jurídicos optando por soluções identicas, quando o legislador não
pretendeu essa identificação.
Estamos em crer que uma tal via não será legítima, sob pena de,
por via jurisprudencial, se alterar o sentido da norma pretendido pelo
legislador. O legislador timorense conhece bem as causas e as razões que
levaram o legislador português a optar por tais soluções restritivas. Por
isso, se não as seguiu de perto, foi por ter entendido que a realidade
timorense justificaria um outro tipo de solução, a qual transformou em lei.
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E se foi assim, deve afastar-se a aplicação de jurisprudência estrangeira


com a intenção de se limitar o alcance das normas, quando a intenção do
legislador foi a de conferir a tais normas um âmbito mais vasto.
Por essa razão, entendeu o Tribunal que, não havendo qualquer
impedimento no Código de Processo Penal à valoração das declarações do
arguido na parte em que este incrimine outros arguidos, serão tais
declarações, nessa parte como em todas as restantes, livremente
valoradas, conforme estatui e permite o art. 116, n.4 do CPP. Sem prejuízo
de, sempre que haja outros meios de prova a corroborar ou a contrariar
tais declarações, esses meios serem igualmente sujeitos à valoração do
Tribunal.
Assim, na fundamentação da matéria de facto foram também
consideradas as declarações prestadas pelos arguidos Amaro da Costa,
em primeiro interrogatório judicial ( fls. 1147 e seg.); Angelita Maria
Francisca Pires, em primeiro interrogatório judicial (fls. 519 e seg.) e em
interrogatório judicial posterior (fls. 2153 e seg.); Raimundo Maia Barreto,
em primeiro interrogatório judicial (fls. 1828 e seg.); Januário Babo, em
primeiro interrogatório judicial (fls. 1828 e seg.); Bernardo da Costa, em
primeiro interrogatório judicial (fls. 1756 e seg.); Domingos Amaral, em
primeiro interrogatório judicial (fls. 1207 e seg.); Gilson José Maria da
Silva, em primeiro interrogatório judicial (fls. 1264 e seg.); Júlio Soares
Guterres, em primeiro interrogatório judicial (fls. 2200 e seg.).
Os arguidos Alexandre Araújo, Avelino da Costa e Paulo Neno, nos
respectivos primeiros interrogatórios judiciais – fls. 1756 e seg., e 1502 e
seg. – nada adiantaram de relevante para os autos. Contudo,
posteriormente, estes três arguidos optaram por prestar declarações em
interrogatório presidido pelo Procurador da República, sendo que nesses
interrogatórios, conforme consta dos autos, foi-lhes comunicado o teor dos
artigos 60 e 61 do CPP, tendo os arguidos dito que optaram por exercer o
seu direito ao silêncio perante o juiz, mas declararam pretender prestar
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declarações perante o Ministério Público. Face ao teor de tais declarações,


deve entender-se que os arguidos, no momento em que prestaram estas
declarações, estavam cientes de que podiam exercer também neste acto,
o seu direito ao silêncio, conforme aliás resulta da leitura dos direitos
processuais que lhes foi feita.
Pelo que foram também consideradas as declarações prestadas
perante o Ministério Público pelos arguidos Alexandre de Araújo (fls. 1588
e seg.), Paulo Neno Leos (fls. 1708 e seg.) e Avelino da Costa (fls. 1701 e
seg.).
Para alguns factos, seguiu então o Tribunal as declarações
prestadas pelos arguidos, sendo que, na motivação de outros, afastou tais
declarações não as considerando credíveis (em alguns dos casos na parte
em que os arguidos negam ter conhecimento de factos relevantes para a
sua incriminação).
Nada impede na lei que o Tribunal valore livremente as declarações
e depoimentos (pelo contrário, o art. 117, n.4 do CPP permite
precisamente essa livre valoração), podendo não conferir credibilidade a
determinadas partes das declarações, depois de considerar credíveis
outras. Importante é que, para umas e outras opções, fundamente o
Tribunal a sua decisão.
No caso presente, uma grande parte das declarações de cada um
dos arguidos intervenientes nos factos foi corroborada quer pelas
declarações de outros arguidos, quer pelos depoimentos de testemunhas
ou outros meios de prova. Tal corroboração permite conferir credibilidade
à quase totalidade das declarações, mesmo relativamente a factos que
não possuem outros meios de prova.
Mas tal não significa que a declaração, no seu todo, se torna
credível e fiável, ficando o Tribunal vinculado a segui-la para todos os
factos e em todas as circunstâncias. Se parte ou partes das declarações
não se mostrarem coerentes com a prova no seu todo, ou se se
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demonstrar que determinado facto afirmado pelo arguido não se enquadra


num quadro lógico, sem que seja oferecida justificação bastante para tal,
nada obsta a que o Tribunal afaste, nessa parte, o conteúdo das
declarações, não lhes conferindo relevo.

II.
Metodologia empregue na motivação da decisão de facto

Na fundamentação da resposta a cada quesito consta o meio de


prova considerado para a respectiva motivação, bem como dos demais
meios de prova produzidos e analisados, seja para a corroboração do meio
inicial, seja para afastar um ou vários meios de prova quando se verifique
contradição.
Quando apenas conste da motivação a referência ao depoimento de
testemunha, declaração de arguido, ou qualquer outro meio de prova,
significa isso que o Tribunal considerou, nessa parte, credível o meio de
prova em causa, e não sujeito a qualquer outra prova que o contradiga.

III.
Motivação das respostas

1. Facto notório, do conhecimento público.

2. Depoimentos da testemunha Anabela Saldanha, a qual declarou ter


cedido a casa para o Alfredo Reinado morar, tendo a testemunha ficado a
viver na parte da cozinha, entre os dias 6 e 10 de Fevereiro, não se
recordando do ano, mas adiantando que não o voltou a ver a partir desse
dia. A testemunha Fernando Soares afirmou que cedeu uma sua casa ao
Alfredo Reinado, depois de terem sido apresentados pelo arguido Gastão
Salsinha, tendo-o feito por sentir medo. Na casa pertencente a esta
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testemunha o grupo viveu até ao início de Janeiro de 2008. A testemunha


Câncio Pereira, que integrava a Task Force e era um dos membros do
MUNJ, afirmou também ter ido a Lauala, em 9 de Janeiro de 2008, bem
como a 10 de Fevereiro do mesmo ano, para reuniões com o Alfredo
Reinado e Gastão Salsinha, tendo as reuniões tido lugar nas casas por eles
ocupadas em Lauala.
As testemunhas Vitor de Sousa, Teresa Marcos de Sousa e Elisa
Morato, afirmaram também ter-se encontrado com o Alfredo Reinado em
Lauala, numa visita que lhe fizeram, acompanhados da arguida Angelita
Pires, no dia 10 de Fevereiro de 2008.
Também das declarações dos arguidos acima transcritas decorre
que Alfredo Reinado, Gastão Salsinha e os demais arguidos, com excepção
da arguida Angelita Pires, se encontravam concentrados em Lauala, onde
viviam em casas próximas. Alguns dos arguidos mencionaram que, apesar
de não residirem nessas casas, eram aí chamados ocasionalmente para
discutirem assuntos relacionados com a sua situação profissional, tendo
sido também chamados para aí comparecerem nos dias que antecederam
o dia 11 de Fevereiro de 2008.

3. A testemunha José Mendonça afirmou que ocasionalmente visitava o


Alfredo Reinado em Ermera, por terem sido colegas na prisão, sendo que,
de todas as vezes que o fazia, necessitava de passar por um controlo para
ter a autorização dos elementos do grupo do Alfredo Reinado, só podendo
aproximar-se deste depois de ser autorizado a passar o controlo.

4. Quanto à atribuição da titularidade dos telefones 7368917 e


7261799 ao Alfredo Reinado retira-se das declarações da arguida Angelita
Pires de fls. 2154 no primeiro interrogatório, onde referiu que o Alfredo
tinha dois cartões, sendo um terminado em 17 e outro terminado em 99.
Do depoimento da testemunha Vitor Alves, tio do Alfredo Reinado, na
República Democrática de Timor Leste

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audiência de julgamento que afirmou que contactava com o este através


de um número que terminava em 17.
No que concerne aos cartões 7335648 e 7354917, cuja titularidade
se atribui ao arguido Gastão Salsinha, resulta das declarações da arguida
Angelita Pires no primeiro interrogatório de fls. 2154, e do depoimento da
testemunha Shienny Angelita Soetekijo a fls 1656 e de fls.3140
(declarações para memória futura) onde afirmou que contactou com
Gastão Salsinha através do número em causa. Ao arguido Salsinha
conhecem-se também os números 7272269, 7299216, conforme venda a
dinheiro junta pela Timor Telecom a fls. 2647, e informação de fls. 1170.
No entanto, com este número não foram observados contactos.

No que concerne à titularidade dos telefone 7346591 atribuída ao


arguido Avelino da Costa alias Apai, 7339581 ao arguido Adolfo da Silva,
7264580 ao arguido Egídio Lay de Carvalho e 7375060 ao arguido Ismael
Sansão Moniz Soares, alias Asanku, constam tais números e tais titulares
na memória do telefone utilizado pelo falecido Leopoldino Exposto (fls.
385 e 386). O último dos números mencionados retira-se ainda dos SMS
enviados pelo falecido Leopoldino Exposto (fls 2115).

Relativamente ao telefone 7315245, considerou-se que o mesmo


pertencia ao arguido Gaspar Lopes, aliás Halerik, o número 7315865 ao
arguido Julião A. Soares, o número 7376487 ao arguido Domingos Amaral,
aliás Ameu, conforme resulta das próprias declarações de Termo de
Identidade e Residência, por eles prestadas a fls. 2517, 2963, 1197. O
último dos números mencionados e respectiva titularidade retira-se ainda
da análise à memória do telefone utilizado pelo falecido Leopoldino
Exposto (fls. 385).

No que concerne aos telefones 7343056, pertencente ao arguido


Marcelo Caetano, aliás Akai, e 7348575 pertencente ao arguido Joanino
Maria, conclui-se a partir do relatório enviado pela Timor Telecom (fls.
2990 e 2991), sendo que o último número mencionado consta também da
República Democrática de Timor Leste

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memória do telefone utilizado pelo falecido Leopoldino Exposto (fls. 386)


como pertencendo ao arguido Joanino.

A titularidades do telefone 7344420 é atribuída ao arguido Bernardo


da Costa, aliás Kris, a do número 7248526 ao arguido Januario Babo, a do
número 7341246 ao arguido Raimundo Maia Barreto, aliás Mane Forte,
conforme resulta das suas próprias declarações no primeiro
interrogatórios de fls. 1758 e 1830 e nos TIR por eles prestados a fls. 1729
e 1819.

Quanto à titularidade de número telefone 7379187, atribuída ao


arguido Paulo Neno Leos, retira se na sua proprio declarações no
Ministério Público de fls. 1713, constando tal número como pertencente ao
arguido na memória do telefone utilizado pelo falecido Leopoldino Exposto
(fls. 386).

Quanto à titularidades do telefone 7234041, pertencente à arguida


Angelita Pires, retira-se tal conclusão das declarações por si prestadas no
TIR fls. 512, bem como nos primeiros interrogatórios de fls. 522 e 1254, e
ainda das declarações para memória futura prestadas pela testemunha
Shieeny Angelika (fls. 3140)
Do histórico das chamadas recebidas e efectuadas através do
cartão 7348756, utilizado pelo falecido Leopoldino Exposto, verifica-se
que, no dia 10 de Fevereiro de 2008 existiram contactos com o arguido
Ismael Sansão M. Soares (7375060) através de SMS ( fls. 2115), e no dia
11 de Fevereiro de 2008, conforme consta do CD remetido pela Timor
Telcom, verifica-se também que existiram contactos entre esses dois
números nos momentos que antecederam os acontecimentos envolvendo
o Presidente da República e o Primeiro Ministro (fls. 2135).

Do histórico das chamadas efectuadas e recebidas no cartão


7368917 verifica-se que no dia 9 e 10 de Fevereiro de 2008 houve quatro
contactos entre o Alfredo Reinado e o cartão 7375060 utilizado pelo
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arguido Ismaiel Sanssão Monis alias Asanko.

Do registo das chamadas realizadas a partir do cartão encontrado


na posse do arguido Adolfo da Silva (7339581), no dia 7 de Fevereiro de
2008 existem contactos com o arguido Paulo Neno Leos (7379187), no dia
10 de Fevereiro de 2008 existem contactos com o arguido Gaspar Lopes, e
no dia 14 de Fevereiro de 2008 existem contactos com os arguidos
Avelino da Costa (7346591), Joanino Maria e Paulo Neno Leos.

Do histórico das chamadas recebidas e efectuadas através do


cartão 7335648, utilizado por Gastão Salsinha, verifica-se que, nos dia 7
de Fevereiro de 2008 exitiram contactos com arguido Joanino Maria
(7348575) e Adolfo da Silva (7339581), no dia 10 de Fevereiro de 2008
existiram contactos com os arguidos Marcelo Caetano (7343056),
Raimundo Barreto ( 7341246), Gaspar Lopes (7315245), e Adolfo da Silva
(7339581), e no dia 11 de Fevereiro de 2008 existem contactos com o
arguido Adolfo da Silva nos momentos anteriores aos factos (pelas 6h35).
Existem também contactos com arguido Gilberto Suni Mota (7343056),
Marcelo Caetano, Egidio Lay de Carvalho e Gilberto Suni Mota nos
momentos posterior dos factos.

Da análise às chamadas entre o Alfredo Reinado e o arguido


Salsinha (fls. 1992 a 1994 e CD da Timor-Telecom 1, 2 e 3), verifica-se que
existiram contactos permanentes entre ambos nos dias anterior dos factos
e incluindo nos momentos que antecederam os acontecimentos
envolvendo o Presidente da República e o Primeiro Ministro (um sms e
uma chamada pelas 3h00 e duas chamadas chamada pelas 6h00).

Com base nos contactos telefónicos entre os arguidos supra


referidos conclui-se que existiram contactos permanentes entre eles nos
dias anteriores aos factos, no dia dos factos, nos momentos que
antecederam os acontecimentos envolvendo o Presidente da República e
o Primeiro Ministro, e nos dias posteriores, nomeadamente, antes de se
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renderem às forças da operação conjunta FDTL e PNTL.

5. A arguida Angelita Pires nas declarações acima transcritas, afirma que


várias vezes se deslocou a Lauala para visitar Alfredo Reinado.
A testemunha José Barreto de Jesus afirmou que deslocou-se várias
vezes a Lauala acompanhando a arguida, para a proteger, recebendo de
cada uma dessas vezes 10 a 15 dólares. Segundo afirmou esta
testemunha, acompanhava a arguida a Lauala praticamente todos os fins
de semana.
O arguido Paulo Neno Leos, nas declarações prestadas em primeiro
interrogatório afirmou também que a arguida, sempre que ía a Lauala
levava bolos e bebidas.
As testemunhas Vitor de Sousa, Teresa de Sousa e Elisa Morato
afirmaram que, quando se deslocaram a Lauala para visitar Alfredo
Reinado na companhia da arguida, levaram comida e bebidas compradas
previamente no supermercado Lider, de Dili, que ofereceram ao grupo.
Não foi produzida qualquer prova sobre o facto da arguida Angelita
Pires levar consigo medicamentos para o grupo de Alfredo Reinado, nas
suas deslocações a Lauala.

6. As testemunhas José Eduardo, Lucas Soares, Augusto Júnior e Câncio


Pereira, todos membros do MUNJ, afirmaram que foi efectivamente
agendada uma reunião no Palácio das Cinzas para o dia 16 de Dezembro
de 2007. Na sequência desse agendamento, deslocaram-se os quatro ao
local onde se encontrava o Alfredo Reinado, no dia 15 de Dezembro, para
lhe comunicar a reunião e entregar-lhe uma carta do CHD contendo
instruções do Gabinete do Primeiro Ministro, sobre os procedimentos a
tomar para a dita reunião (tal carta e instruções foram juntas aos autos a
fls. 5242 e 5243, na sequência do depoimento prestado pela testemunha
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Lucas Soares na sessão de 30 de Setembro – esses documentos


encontram-se traduzidos).

7. Conforme afirmaram as testemunhas José Eduardo, Lucas Soares,


Augusto Júnior e Câncio Pereira,no decorrer dos preparativos da vinda a
Dili para a reunião, o Alfredo Reinado sempre afirmou que viria caso
estivesse acautelada a sua segurança. Na sequência dessa posição por ele
tomada, foi programado o seu transporte de helicóptero para Dili, a
ocorrer no dia 15 de Dezembro.
Porém, conforme afirma a testemunha José Barreto de Jesus, o
helicóptero que viria buscar o Alfredo Reinado não apareceu, pelo que ele,
irritado, disse que já não iria à reunião do dia seguinte. Mais afirmou esta
testemunha que, na noite do dia 15 para o dia 16 de Dezembro, surgiram
em Lauala as testemunhas José Eduardo, Lucas Soares e Câncio Pereira,
tentando convencê-lo a vir a Dili, para a reunião no dia seguinte. Nessa
altura, o Alfredo Reinado disse-lhes que não viria a Dili no dia seguinte.

8. Não foi produzida prova de que os demais intervenientes na reunião


tenham comparecido no local determinado.

9. A arguida Angelita Pires afirmou que, na sequência da reunião


agendada para essa data em Caicoli, deu a sua opinião, considerando que
seria perigoso transportar um grupo armado para a cidade sem qualquer
coordenação com a ISF. No entanto, não lhe disse para não vir a Dili,
sendo a que a decisão de não comparecerem foi do próprio Alfredo.
As testemunhas José Eduardo, Lucas Soares e Câncio Pereira, tendo
estado com o Alfredo Reinado na véspera da reunião, afirmaram que a
arguida também se encontrava presente, e disse que na sua opinião, não
estavam reunidas as condições de segurança necessárias à deslocação
deles a Dili.
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A testemunha Augusto Júnior referiu que a arguida Angelita, nesse


encontro, terá dito que caso o major viesse a Dili poderia ser morto, e que
o Alfredo Reinado disse que não iria a Dili, porque a sua advogada lhe
teria dito que se fosse, seria feita uma emboscada e ele seria preso. No
entanto, esta testemunha não esteve presente em tal reunião, tendo
tomado conhecimento dos factos ocorridos nesse encontro através do
Lucas Soares, José Eduardo e Câncio Pereira. Trata-se pois de um
depoimento indirecto, não susceptível de valoração nos termos do
disposto no art. 120, n.2 do CPP, uma vez que, tais pessoas, tendo sido
inquiridas pelo Tribunal, não confirmaram esses factos.
De acordo com o que foi dito pelas três testemunhas presentes no
encontro, a arguida emitiu a sua opinião, tendo a decisão sido tomada
pelo Alfredo Reinado.

10. Vide Fundamentação constante da resposta ao quesito anterior.


No que diz respeito aos números de telefone dados por provados
como pertencentes à arguida, foi tido em conta o seguinte:
Da análisa dos históricos chamadas efectuadas e recebidas através
do cartão do número 7234041 partence à arguida Angelita Pires, conforme
costa na CD remetido pela Timor Telecom, constata-se que no período dos
acontecimentos não existem ou não foi registada qualquer chamada dos
números 7261799 e 7368917, pertencentes ao Alfredo Reinado. Porém,
conforme a arguida confirmou no seu primeiro interrogatório, esta por
várias vezes contactou e foi contactada pelo Alfredo Reinado, admitindo
que utilizava um outro número, não se lembrando qual.

Na verdade, na primeira vez que foi interrogada, a arguida Angelita


admitiu que só tinha o numero 7234041, negando ter outros (o que,
porém, veio a desdizer na segunda inquirição feita).

O Tribunal entendeu, por isso, que o número 7372773 era o


segundo número da arguida, com base nas seguintes provas e
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considerações:

A arguida admitiu que nos meses anteriores aos atentados teve


vários contactos telefónicos com o Alfredo Reinado.

Da análise das chamadas efectuadas e recebidas por esse número


nos dias 28 de Dezembro de 2007 e 10 de Dezembro de 2008 - conforme
consta na CD remetido pela Timor Telecom e auto de leitura de fls. 1843
- , verifica-se que apenas foram registados contactos, com excepção de 5
números, para os cartões 7261799 e 7368917, o que indica que tal
telefone era utilizado por pessoa muito próxima de Alfredo Reinado, e que
tal telefone serviria quase exclusivamente para aqueles contactos, atento
o fluxo das chmadas.

Por outro lado, tal telefone (7372773) não regista qualquer fluxo de
chamadas entre os dias 27 de Janeiro de 2008 e 5 de Fevereiro de 2008 –
período durante o qual, segundo a arguida afirmou e provou, estaria na
Austrália. Também não há registo de qualquer chamada efectuada por
Alfredo Reinado para esse número no dia 8 de Fevereiro de 2008, sendo
que nesse dia, segundo afirmou a arguida, estaria em Lauala, juntamente
com o Alfredo Reinado. No dia 10 de Fevereiro de 2008, só foram
registadas duas chamadas de Alfredo Reinado para esse número: uma às
7h50 da manhã, e outra às 21:00 horas da noite. O que coincide com as
declarações da arguida ao afirmar que falou com o Alfredo Reinado antes
de sair de Dili a caminho de Lauala; e que já depois do regresso a Dili,
nesse mesmo dia, ele lhe voltou a ligar para saber se tinha regressado
bem.

Conclui-se assim que o número 7372773 pertencia à arguida


Angelita Pires, sendo através desse número que ela manteve contactos
permanentes e regulares com o Alfredo Reinado.
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11. Segundo afirmou a testemunha José Eduardo, em data anterior à


programada para a deslocação do Presidente da República a Maubisse (13
de Janeiro de 2008), encontrando-se a testemunha junto ao Alfredo
Reinado, este recebeu um telefonema da arguida Angelita Pires dizendo-
lhe que os australianos iriam fazer um exercício militar em Maubisse. Este
facto irritou o Alfredo Reinado, que mandou perguntar ao Presidente da
República porque é que iria ter lugar um exercício ao mesmo tempo do
encontro programado. Contudo, o encontro não chegou a ser cancelado.
O arguido Paulo Neno Soares referiu que, no dia 8 de Fevereiro a
arguida Angelita Pires esteve em Lauala, e nessa altura disse que o
Presidente da República, quando se encontrava com o grupo do Alfredo
Reinado dizia muito bem deles, mas quando voltava e ía ao estrangeiro,
falava mal deles; e que o Presidente dizia que o grupo do Major andava a
ameaçar as populações para receber comida e alojamento, e que tanto o
Primeiro Ministro como o Presidente da República estavam a preparar-se
para pagarem a pessoas para matarem o Alfredo Reinado e o Gastão
Salsinha, antes de Maio de 2008.
A testemunha Rui Lopes, membro da taskforce e negociador da
questão dos peticionários, afirmou que esteve num encontro com o
Alfredo Reinado e João Gonçalves, que teve lugar num cafezal. Segundo
afirmou, a arguida Angelita, dias antes desse encontro, telefonou à mulher
do João Gonçalves, e disse-lhe que tinha informado o Alfredo Reinado que
tinha havido encontros entre o Presidente da República, o Presidente do
Parlamento Nacional e Mari Alkatiri, com a intenção de fazerem uma
cilada ao Alfredo Reinado. O conhecimento deste facto pela testemunha,
resulta do que lhe foi comunicado pela mulher do João Gonçalves, sendo,
portanto, um depoimento indirecto. Na medida em que a pessoa que lhe
transmitiu o facto não foi inquirida pelo Tribunal, não pode tal
depoimento, nessa parte, ser valorado – art. 120, n.2 do CPP.
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Esta testemunha referiu também ter ouvido o deputado Adriano


Nascimento a mencionar esse encontro entre o Presidente da República, o
Presidente do Parlamento Nacional e Mari Alkatiri, com a intenção de
fazerem uma cilada ao Alfredo Reinado, o que terá sabido através de uma
conversa tida com a arguida Angelita Pires. Contudo, também nesta parte
não pode tal depoimento ser valorado, uma vez que o deputado Adriano
Nascimento não foi inquirido em Tribunal – art. 120, n.2 do CPP.
Constata-se assim que apenas as declarações do arguido Paulo
Neno referem que a arguida Angelita Pires mencionou a existência de um
plano do Presidente da República e do Primeiro Ministro destinado a matar
o Alfredo Reinado. Apesar de não corroborado por outros meios de prova,
nenhuma razão há para que o Tribunal não considere as suas declarações
como meio de prova credível, já que não se mostram contraditadas por
outros meios de prova.

12. Segundo o depoimento da testemunha Augusto Júnior, num encontro


tido em 3 de Fevereiro de 2008, o Alfredo Reinado afirmou que a questão
do orçamento do grupo estava a ser tratada pela arguida Angelita, que se
encontrava na Austrália.
O arguido Paulo Neno, nas declarações prestadas perante o
Ministério Público disse que, não sabendo precisar quando mas antes do
dia 1 de Fevereiro, ouviu também a arguida Angelita Pires dizer que iria à
Austrália resolver o problema do dinheiro, cerca de 2 milhões de dólares.
Por seu turno, a arguida Angelita Pires, nas suas declarações,
confirma ter-se deslocado à Austrália em finais de Janeiro para receber
uma formação destinada ao projecto em que iria trabalhar. A comprovar a
sua versão, junta a documentação de fls. 4810 a 4861, dos quais resultam
que a mesma se deslocou à Austrália (passagens aéreas), e que a mesma,
nessa deslocação, frequentou uma acção de formação no âmbito de um
projecto da Kofi Development International, companhia para a qual iria
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trabalhar (conforme cópia de esboço de contrato que também juntou). A


testemunha David Christoffer Black, director-geral daquela companhia
confirmou que a arguida esteve para ser contratada para um projecto a
desenvolver em Timor Leste, e que, para esse efeito, se deslocou à
Austrália para receber formação.
Face a tais meios de prova, entende o Tribunal que, apesar de ser
possível que a arguida aproveitasse tal viagem para a obtenção de apoios
para o grupo do Alfredo Reinado, não é possível afastar-se a hipótese da
mesma ter feito tal viagem apenas com a finalidade de receber a
formação em causa.
Assim, perante a dúvida sobre as várias finalidades de uma tal
viagem, dúvida essa que o Tribunal não soluccionou face à falta de outros
meios probatórios, entendeu-se dar o facto como não provado nessa
parte, em obediência ao princípio do in dubio pro reu.

13. Do histório das chamadas dos cartões números 7261799 e 7368917


remetido pela Timor Telecom, verifica-se que a arguida Angelita Pires
manteve o contacto com o Alfredo Reinado nos dias 28 de Janeiro de 2008
a 1 de Fevereiro de 2008, período durante o qual se encontrava na
Austrália, existindo 37 contactos telefónicas com o número
+61431232264 (e do auto de leitura de mensagem de fls. 732, verifica-se
no dia 29 de Janeiro de 2008 a arguida enviou um mensagen ao Alfredo
Reinado através do número +614311232264 com o seguinte conteúdo
“sou Angie estou a tenter falar contigo”).

14. Segundo declarações da arguida, esta regressou no dia 6 de


Fevereiro. Enquanto esteve fora, contactou com o Alfredo Reinado que lhe
pediu para comprar um telemóvel.
No dia 7 de Fevereiro foi a Gleno encontrar-se com Alfredo Reinado,
tendo regressado a Dili no dia 8.
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No dia 9 recebeu um telefonema do Alfredo Reinado, dizendo-lhe


que o telemóvel que ela tinha comprado estava bloqueado.

15. e 16. O arguido Avelino da Costa, nas declarações prestadas


perante o Ministério Público, disse que, no dia 9 de Fevereiro, pela manhã,
ouviu a arguida Angelita Pires a falar com o Alfredo reinado, dizendo-lhe
que se ele, Alfredo, fosse, o Primeiro Ministro e o Presidente da República
teriam de ser mortos, e caso fosse condenado pelo mundo, o Alfredo
sempre poderia dizer que era um golpe militar. Mais disse que não os
deveria fazer reféns (ao Presidente da República e ao Primeiro Ministro)
porque isso seria pior para o Alfredo Reinado.
A arguida Angelita, nas suas declarações, nega que tenha tido esse
ou outro tipo de conversas na presença dos demais arguidos, afirmando
que, quando ela estava presente, os demais arguidos não se
aproximavam por ordem do Alfredo Reinado, sendo que nem sequer os
conhecia. O que não corresponde integralmente à verdade, na medida em
que, conforme resulta dos registos de chamadas do telefone da arguida n.
7234041, esta falou ao telefone, pelo menos com os arguidos Adolfo da
Silva e Gilberto Suni Mota (fls. 3697 a 3700).
No entanto, vários outros arguidos, nomeadamente Gilson da Silva
e Alexandre Araújo, afirmaram ter presenciado conversas entre a arguida
e o Alfredo Reinado, sem que, contudo, tenham percebido o conteúdo das
mesmas, já que, conforme referiu o arguido Gilson, nas conversas em que
ele esteve presente, a arguida falava com o Alfredo em inglês ou
português, línguas que o arguido não entende.
Assim sendo, não se considerou credível a versão da arguida,
porquanto vários outros arguidos para além do Avelino, assistiram a
conversas entre ela e o Alfredo Reinado.
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17. Não foi produzida qualquer prova em audiência de julgamento sobre


este facto, nem consta dos autos qualquer meio probatório, susceptível de
ser avaliado pelo Tribunal, que comprove que a arguida proferiu tal
afirmação. Apenas as testemunhas Vitor de Sousa e Teresa de Sousa
referem que, no almoço que tiveram com Alfredo Reinado no dia 10 de
Fevereiro, este perguntou aos presentes na mesa sobre o que poriam eles
sobre a campa dele, caso viesse a morrer no dia seguinte. No entanto, dos
depoimentos destas testemunhas não consta que a arguida tenha dado
qualquer resposta a essa pergunta.

18. A testemunha Rui Lopes, em audiência afirmou que, depois dos


acontecimentos de 11 de Fevereiro, se encontrou com os arguidos Asanko
(Ismael Sansão) e Marcelo Caetano em Atambua, sendo que, nesse
encontro, ambos os arguidos lhe disseram que a arguida Angelita Pires,
antes de eles descerem a Dili no dia 11 de Fevereiro, lhes disse: “vão lá
matar os dois cães”.
Esta afirmação dos dois arguidos não foi confirmada, uma vez que
estes, em audiência, optaram por exercer o seu direito ao silêncio, pelo
que se deve considerar que o conhecimento do facto relatado pela
testemunha é indirecto, e não susceptível de confirmação por quem lho
deu a conhecer, razão pela qual, não pode o seu depoimento ser valorado,
face ao disposto no art. 120, n.2 do CPP.

19. A arguida Angelita, nas suas declarações, confirma ter estado em


Lauala nos dias 7, 8, 9 e 10 de Fevereiro, tendo aí dormido do dia 8 para o
dia 9. Este facto é igualmente confirmado pelas declarações dos arguidos
Avelino da Costa e Paulo Neno.
Nenhum dos arguidos que prestaram declarações afirmaram ter
tido conhecimento das deslocações a Dili e a Balibar antes da noite do dia
10 de Fevereiro de 2008. A arguida Angelita declarou mesmo nada saber
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a propósito de planos do Alfredo Reinado no sentido de vir a Dili ou a


Balibar.
Nenhuma testemunha inquirida confirmou ter visto ou sabido de
qualquer preparação levada a cabo pelos arguidos nos dias anteriores.
Apenas as testemunhas Elisa Morato e Teresa de Sousa afirmaram que na
véspera do dia 10 de Fevereiro, andaram com a arguida Angelita Pires
pelas imediações da casa do Presidente da República, na zona de Metiaut,
com o pretexto dado pela arguida de irem ver a casa de uma prima.
Contudo, ambas as testemunhas afirmaram que não chegaram a ver
qualquer casa, sendo que passaram à frente da casa do Presidente da
República.
No entanto, este facto relatado pelas duas testemunhas,
desacompanhado de outros, só por si não revela a existência de qualquer
planeamento no qual a arguida participasse, fazendo nomeadamente, o
reconhecimento dos locais.

20. As testemunhas Josefina Chan e João António Araújo Gago


encontraram-se com a arguida Angelita Pires no restaurante Beach Café,
sendo que nessa altura a arguida lhes disse que “dentro de dias o Alfredo
Reinado virá a Dili, e se os jovens não o abraçarem, poderá morrer”.
A testemunha José Fernando Araújo Real, ex-UNPOL, afirmou que
nesse dia jantou com a arguida no Beach Café, tendo dito que ninguém se
aproximou da mesa onde ambos estavam para falar com a arguida. No
entanto, afirmou não se recordar se em algum momento a arguida saiu da
mesa para falar com outras pessoas.
Ora, segundo aquelas primeiras testemunhas, a conversa teve lugar
assim que a arguida entrou no restaurante, antes de se dirigir para a
mesa onde iria jantar, estando ainda de pé. A ser assim, entende-se que
os depoimentos daquelas testemunhas não são contraditados pelo da
República Democrática de Timor Leste

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testemunha José Fernando Real, pelo que não se mostra abalada a sua
credibilidade.
A arguida Angelita Pires referiu nas suas declarações que no
dia 9 de Fevereiro de 2008, esteve a jantar no Beach Café com um amigo,
não tendo falado com outras pessoas sobre o Reinado. Nesta parte, as
suas declarações não se mostram credíveis face ao valor do depoimento
prestado por aquelas testemunhas.

21. A testemunha José Mendonça, que foi visitar o Alfredo Reinado no dia
4 a Lauala, tendo ali ficado até ao dia 11 de Fevereiro, afirmou que, a
seguir ao jantar do dia 10, todos os que estavam na casa do Alfredo
Reinado, alguns fardados e armados, dirigiram-se de carro para casa onde
se encontrava o arguido Gastão Salsinha. Segundo afirmou, o Alfredo
Reinado saiu na mesma altura para o mesmo local, acompanhado dos
arguidos Mota (Gilberto Suni Mota), Paulo Neno, Adolfo da Silva e de
Leopoldino Exposto. A testemunha permaneceu sozinho na casa onde se
alojava o Alfredo Reinado.
O arguido Gilson José da Silva afirmou que no dia 10 de Fevereiro
de 2008 chegou a Lauala pelas 14h00. Por volta das 18h00 foi chamado
pelo arguido Mota (Gilberto Suni Mota) para ir encontrar-se com o Alfredo
Reinado. Tendo ido à casa onde este se encontrava, viu lá vários
individuos, entre os quais os arguidos Mota, Paulo Neno, Apai (Avelino da
Costa), Adolfo da Silva, Susar (Amaro da Costa). Também se encontrava
presente a arguida Angelita Pires, que conversava com o Alfredo Reinado,
ora em português, ora em inglês, pelo que o arguido não percebeu o que
ambos diziam. Também estava presente o Leopoldino. Ao anoitecer a
arguida Angelita deixou a casa.
Já depois da saída da arguida Angelita Pires, o Alfredo Reinado disse
para se prepararem uma vez que iriam sair para Dili, mas não disse para
quê. O arguido Adolfo entregou uma farda ao arguido para ele vestir.
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Cerca das 2h00 do dia 11 de Fevereiro foi acordado.


O arguido Júlio Soares Guterres disse que no dia 9 de Fevereiro de
2008 encontrava-se em Gleno, na sua casa, quando recebeu um
telefonema do arguido José Agapito Madeira (Espelho) dizendo-lhe para ir
a Lauala. Ao chegar à localidade, viu lá muitos peticionários, encontrando-
se entre eles o Alfredo Reinado e o arguido Gastão Salsinha. Dormiu na
casa do arguido Gastão Salsinha. No dia seguinte, por volta das 19h00, o
Alfredo Reinado deu ordens para se fardarem e pegarem nas armas.
Depois de jantarem o Alfredo reinado mandou o grupo fazer a
formatura, após o que lhes disse para se dirigirem aos carros.
O arguido Domingos Amaral afirmou que no dia 10, por volta das
20h00, o Leopoldino veio ter consigo ao acampamento, dizendo que o
Alfredo Reinado tinha dado ordens para virem a Dili para se encontrarem
com o Presidente. Quando perguntou ao Leopoldino o motivo dessa
deslocação, ele respondeu apenas que era para vir a Dili a casa do
Presidente da República.
O arguido Alexandre Araújo disse que no dia 10, depois de ter
recebido um telefonema do arguido Adolfo da Silva, foi para Lauala, onde
chegou por volta do meio dia, onde se encontrou com o arguido Adolfo da
Silva. Estava também no local uma senhora chamada Angela (que
reconheceu como sendo a arguida Angelita), a qual saiu de Lauala depois
das 17h00.
Cerca de duas horas mais tarde, o Alfredo Reinado ordenou-lhes
que se fardassem, estando os carros já preparados. Tendo perguntado ao
Alfredo Reinado para onde iriam, este respondeu-lhe que os elementos
presentes só cumprem ordens e sem fazerem muitas perguntas.
O arguido Paulo Neno declarou que, no dia 10 de Fevereiro, depois
de as visitas e a arguida Angelita terem saído, o Alfredo Reinado chamou
o grupo e disse-lhes para se fardarem. Estando o grupo fardado, o Alfredo
reinado dividiu-os e mandou o Apai (Avelino da Costa), Tito Tilman, Mane
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Forte (Raimundo Maia Barreto), Adolfo da Silva e Alex (Alexandre de


Araújo) irem ter com o arguido Gastão Salsinha. Por sua vez, mandou
chamar da casa do salsinha os arguidos Marcelo Caetano e Susar (Amaro
da Costa) para seguirem com o Alfredo. O arguido Paulo Neno continuou
no grupo do Alfredo Reinado. Todos estavam armados, com excepção dos
arguidos Domingos do Amaral, Gilson José, Caetano e Egídio Lay.
Pelas 23 horas do dia 10 saíram de Lauala, tendo passado pela casa
onde se encontrava o arguido Gastão Salsinha e os restantes do seu
grupo.
O arguido Avelino da Costa disse que no dia 10 de Fevereiro, por
volta das 21h00, o Alfredo Reinado deu ordem ao grupo para se fardar.
O arguido saiu de Lauala pelas 22h00, num carro conduzido pelo
arguido Gastão Salsinha.
Apesar de não haver total coincidencia nos depoimentos dos
arguidos quanto às horas em que foram chamados para se deslocarem,
todos coincidem no sentido de que tal chamamento e ordem de
fardamento ocorreu durante a noite (depois do jantar), o que vai
corroborado pelo depoimento da testemunha José Mendonça.

22. e 23. O arguido Paulo Neno afirmou que, por volta do meio dia do
dia 10 de Fevereiro, o arguido viu e ouviu o Alfredo Reinado a telefonar ao
Leopoldino dizendo-lhe para ir a Lauala com o carro. Esta chamada
encontra-se registada nas conversações tidas através do telefone n.
7368917 (de Alfredo Reinado) para o n. 7348756 (de Leopoldino Exposto),
conforme CD junto pela Timor Telecom. O Leopoldino chegou, conduzindo
o veículo fotografado a fls. 312, na companhia do Caetano e do Asanko
(Ismael Sansão).
A testemunha Natália Lidia Guterres, mulher de Leopoldino Exposto,
afirmou que o seu marido, nesse dia, chegou a casa dizendo que
precisava de ir a Ermera, para onde saiu por volta das 16h00, conduzindo
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um carro Pajero azul. Tendo-lhe sido exibidas as fotografias de fls. 305 e


312 do Apenso II, reconheceu ser esse o veículo conduzido pelo
Leopoldino quando partiu para Ermera.

24. Não foi produzida qualquer prova sobre este facto.

25. e 26. O arguido Amaro da Costa (também conhecido como Susar),


em declarações prestadas em primeiro interrogatório judicial – fls. 1147 e
seg. – afirmou que:
No dia 10 de Fevereiro de 2008, o arguido estava em Lauala quando
foi chamado pelo Alfredo Reinado, cerca das 3h30 horas. Com o Alfredo
estavam o Paulo Neno, o Mota (Gilberto Suni Mota) e o Amaral (Domingos
do Amaral). Encontravam-se num jipe Prado, conduzido pelo Alfredo
Reinado, para o qual o arguido entrou. Atrás estava um jipe Pajero,
conduzido pelo Leopoldino, onde seguiam o Asanco (Ismael Sansão), Lay
(Egídio Lay) e outros que não se recorda o nome. No total, o grupo era
constituído por dez pessoas. Vieram armados, uma vez que eram
militares.
Reconheceu os carros fotografados a fls. 292 e 309 como sendo os
veículos conduzidos, respectivamente, pelo Alfredo Reinado e pelo
Leopoldino na deslocação a Dili.
Para além dos acima identificados estavam ainda no grupo que se
deslocou a casa do Presidente da República os arguidos Akay (Marcelo
Caetano).
O arguido Gilson José da Silva, em declarações prestadas em
primeiro interrogatório judicial – fls. 1264 e seg. – afirmou que:
Reconhece os carros fotografados a fls. 292 e 293, e 309 a 312
como sendo os carros conduzidos pelo Alfredo Reinado e pelo Leopoldino,
respectivamente, na viagem de Lauala a Dili. Desconhece quem forneceu
tais veículos ao grupo.
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O arguido Júlio Soares Guterres, em declarações prestadas em


primeiro interrogatório judicial – fls. 2200 e seg. – afirmou que:
Depois de jantarem o Alfredo Reinado mandou o grupo fazer a
formatura, após o que lhes disse para se dirigirem aos carros. No local
encontravam-se quatro carros, sendo que para Balibar se dirigiram dois
carros.
O arguido entrou num Pajero branco, conduzido pelo arguido Gastão
Salsinha. Nesse carro vieram oito pessoas: o arguido, e os arguidos
Gastão Salsinha, Ventura (José da Costa), Joni (Julião António Soares), José
Agapito (Espelho), Quintino, Apai (Avelino da Costa), Ajano (Januário
Babo). Todos vinham armados com HK33, excepto o Ventura (José da
Costa), que trazia uma mauzer. Noutro carro branco, cuja marca
desconhece, vieram os arguidos Adolfo da Silva, Alex (Alexandre de
Araújo), Quito (Francisco Ximenes), Cris (Bernardo da Costa), Mane Forte
(Raimundo Maia Barreto), Halerik (Gaspar Lopes) e outros cujo nome não
se lembra.
Não sabe para onde seguiu o Alfredo Reinado e os outros quando
deixaram Lauala. Com o Alfredo Reinado estavam o Leopoldino Exposto e
os arguidos Paulo Neno, Susar (Amaro da Costa), Lay (Egídio Lay), Gilberto
Suni Mota, Marcelo Caetano, Domingos Amaral, e outros, todos armados e
fardados.
O arguido Domingos Amaral, em declarações prestadas em primeiro
interrogatório judicial – fls. 1207 e seg. - , afirmou que:
Pelas 22h00 do dia 10 de Fevereiro, o Leopoldino passou pelo
acampamento conduzindo um mini Pajero (que reconhece como sendo o
fotografado a fls. 309 a 312) no qual seguiam o Valente (Caetano
Ximenes), Asanko (Ismael Sansão), Joanino Guterres e Paulo Neno. O
arguido entrou para o carro, sendo que num carro mais adiante, um jipe
preto (que reconhece como sendo o constante das fotografias de fls. 292 e
293), seguiam o Alfredo Reinado e mais quatro pessoas. Nos dois carros,
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apenas o arguido Domingos e o Valente (Caetano Ximenes) seguiam


desarmados.
O arguido Alexandre de Araújo, a fls. 1588 e seg., disse:
O arguido entrou para um carro na companhia dos arguidos Halerik
(Gaspar Lopes), Adolfo da Silva, Mane Forte (Raimundo Maia Barreto), e
mais dois peticionários de que não sabe o nome. Esse veículo foi
conduzido pelo Leopoldino até Balibar, onde desceram todos, excepto o
Leopoldino, que seguiu no carro para Dili. Noutro carro, conduzido pelo
arguido Gastão Salsinha, seguiam os arguidos Apai (Avelino da Costa),
José Espelho (José Agapito Madeira), Júlio Soares Guterres, Januário Babo,
e mais outros cujo nome não se lembra.
Saíram de Ermera pelas 22h00, em três carros, um conduzido pelo
Alfredo Reinado, outro conduzido pelo arguido Gastão Salsinha, e um
terceiro conduzido pelo Leopoldino. Chegaram a Balibar por volta da meia-
noite.
Sabe que os restantes arguidos seguiram nos outros carros para
Dili, mas não sabia para onde se dirigiam.
O arguido Paulo Neno Leos, a fls. 1708 e seg., disse que:
O Alfredo reinado chamou o grupo e disse-lhes para se fardarem.
Estando o grupo fardado, o Alfredo Reinado dividiu-os e mandou o Apai
(Avelino da Costa), Tito Tilman, Mane Forte (Raimundo Maia Barreto),
Adolfo da Silva e Alex (Alexandre de Araújo) irem ter com o arguido
Gastão Salsinha. Por sua vez, mandou chamar da casa do Salsinha os
arguidos Marcelo Caetano e Susar (Amaro da Costa) para seguirem com o
Alfredo. O arguido Paulo Neno continuou no grupo do Alfredo Reinado.
Todos estavam armados, com excepção dos arguidos Domingos do
Amaral, Gilson José, Caetano e Egídio Lay.
Pelas 23 horas do dia 10 saíram de Lauala, tendo passado pela casa
onde se encontrava o arguido Gastão Salsinha e os restantes do seu
grupo.
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Daí seguiram em dois carros, não sabendo o arguido se o Gastão


Salsinha saiu também num outro carro. No primeiro carro, de cor preta
(que o arguido identificou como sendo o de fls. 292) seguiam o Alfredo
Reinado, que o conduzia, e os arguidos Paulo Neno, Gilberto Suni Mota,
Susar (Amaro da Costa), Joanino Guterres, Gilson e Egídio Lay, estando
estes dois desarmados. No outro carro, conduzido pelo Leopoldino,
seguiam os arguidos Asanko (Ismael Sansão), Marcelo Caetano, Caetano
Ximenes e Domingos Amaral.
O arguido Avelino da Costa, a fls. 1701 e seg., disse:
No dia 10 de Fevereiro, por volta das 21h00, o Alfredo reinado deu
ordem ao grupo para se fardar.
O arguido saiu de Lauala pelas 22h00, num carro conduzido pelo
arguido Gastão Salsinha, onde seguiam, para além do arguido Avelino da
Costa, os arguidos Gastão Salsinha, Januário Babo, Júlio Soares Guterres,
José da Costa, Quintino, José Espelho (José Agapito Madeira) e Joni (Julião
António Soares). O arguido vinha armado com uma arma HK 33 e com
dois carregadores de 40 balas.
De Lauala saíram três carros.
As declarações expostas mostram-se coerentes entre si na sua
essencia, havendo apenas divergências sobre as horas dos
acontecimentos, e sobre o número de veículos utilizados pelo grupo. Esta
discrepância quanto ao número de veículos parece resultar do facto de
cada um dos grupos ter saído de Lauala a horas distintas, não tendo todos
eles seguido em caravana. Assim, é provável que cada um dos arguidos
apenas se tivesse apercebido do número de carros englobado no grupo
em que seguia, desconhecendo o número de carros existente no outro
grupo.
A maior discrepância registada verifica-se no depoimento do
arguido Alexandre de Araújo, que afirma que um dos carros que seguiu
para Balibar era conduzido pelo Leopoldino Exposto, quanto os demais
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arguidos afirmam que o carro conduzido pelo Leopoldino seguiu no


primeiro grupo para Dili. Pelo que tais declarações, nesta parte, não foram
consideradas para a fundamentação da prova do quesito.

27. Os objectos encontrados no interior de ambas as viaturas foram


descritos nos autos de fls. 138 a 143, encontrando-se fotografados a fls.
294, 296 a 307, e 313 do Apenso II

28. O arguido Amaro da Costa afirmou que com o Alfredo estavam o Paulo
Neno, o Mota (Gilberto Suni Mota) e o Amaral (Domingos do Amaral),
tendo o arguido seguido nesse carro conduzido pelo Alfredo Reinado.Atrás
estava um jipe Pajero, conduzido pelo Leopoldino, onde seguiam o Asanco
(Ismael Sansão), Lay (Egídio Lay) e outros que não se recorda o nome,
num total de dez pessoas. Vieram armados.
Para além dos acima identificados estavam ainda no grupo que se
deslocou a casa do Presidente da República o arguido Akay (Marcelo
Caetano).
O arguido Júlio Soares Guterres, apesar de ter seguido para Balibar,
afirmou ter visto que, com o Alfredo Reinado estavam o Leopoldino
Exposto e os arguidos Paulo Neno, Susar (Amaro da Costa), Lay (Egídio
Lay), Gilberto Suni Mota, Marcelo Caetano, Domingos Amaral, e outros,
todos armados e fardados.
O arguido Domingos Amaral afirmou que no carro do Leopoldino
seguiam o Valente (Caetano Ximenes), Asanko (Ismael Sansão), Joanino
Guterres e Paulo Neno. O arguido entrou para este carro, sendo que num
carro mais adiante, seguiam o Alfredo Reinado e mais quatro pessoas. Nos
dois carros, apenas o arguido Domingos e o Valente (Caetano Ximenes)
seguiam desarmados.
O arguido Paulo Neno Leos afirmou que seguiram para Dili, no
primeiro carro, o Alfredo Reinado, e os arguidos Paulo Neno, Gilberto Suni
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Mota, Susar (Amaro da Costa), Joanino Guterres, Gilson e Egídio Lay,


estando estes dois desarmados. No outro carro, conduzido pelo
Leopoldino, seguiam os arguidos Asanko (Ismael Sansão), Marcelo
Caetano, Caetano Ximenes e Domingos Amaral.
De tais declarações resulta que todos os arguidos mencionados no
quesito se deslocaram a Dili nos dois veículos em causa, e que a
generalidade dos arguidos seguia armada, havendo apenas discrepância
quanto à identidade dos dois elementos que não possuíam arma no
momento em que saíram de Lauala.

29. O arguido Amaro da Costa afirmou que chegaram a casa do


Presidente da República pelas 6h00. Pararam os carros na estrada em
frente ao portão e todos saíram.
O arguido Domingos Amaral afirmou que chegaram a Dare pelas
3h30m, esperaram até cerca das 5h00 para descerem para Dili. Em Dili,
dirigiram-se para a casa do Presidente da República para o Alfredo
Reinado ter um encontro com aquele. Chegaram a casa do Presidente da
República cerca das 6h00 e já estava de dia. Pararam os carros na
estrada, junto ao portão da casa, e todos saíram dos carros, com as
armas.
O arguido Paulo Neno Leos disse que os carros pararam em Dare e,
cerca das 6h00 desceram para Dili, onde seguiram para a casa do
Presidente da República.
Ao chegarem junto do portão, viram dois seguranças, um armado e
outro sem arma. Todos os ocupantes do carro do Alfredo Reinado saíram
do carro e dirigiram-se ao portão.
Todas as declarações mencionadas coincidem quanto ao trajecto
tomado pelos veículos, bem como quanto ao destino do grupo e às horas
da chegada, com uma compreensível discrepância quanto às horas a que
os veículos deixaram Dare para seguirem para Dili.
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30. Tendo os arguidos Domingos Amaral e Paulo Neno afirmado que os


veículos estiveram parados em Dare antes de seguirem para Dili, conclui-
se que, no trajecto, terão antes passado por Balibar.

31. O arguido Júlio Soares Guterres afirmou que no local encontravam-se


quatro carros, sendo que para Balibar se dirigiram dois carros.
O arguido entrou num Pajero branco, conduzido pelo arguido Gastão
Salsinha. Nesse carro vieram oito pessoas: o arguido, e os arguidos
Gastão Salsinha, Ventura (José da Costa), Joni (Julião António Soares), José
Agapito (Espelho), Quintino, Apai (Avelino da Costa), Ajano (Januário
Babo). Todos vinham armados com HK33, excepto o Ventura (José da
Costa), que trazia uma mauzer. Noutro carro branco, cuja marca
desconhece, vieram os arguidos Adolfo da Silva, Alex (Alexandre de
Araújo), Quito (Francisco Ximenes), Cris (Bernardo da Costa), Mane Forte
(Raimundo Maia Barreto), Halerik (Gaspar Lopes) e outros cujo nome não
se lembra. Ambos os carros seguiram para Balibar, para junto da casa do
Primeiro Ministro.
O arguido Alexandre de Araújo disse o arguido entrou para um carro
na companhia dos arguidos Halerik (Gaspar Lopes), Adolfo da Silva, Mane
Forte (Raimundo Maia Barreto), e mais dois peticionários de que não sabe
o nome. Esse veículo foi conduzido pelo Leopoldino até Balibar, onde
desceram todos, excepto o Leopoldino, que seguiu no carro para Dili.
Noutro carro, conduzido pelo arguido Gastão Salsinha, seguiam os
arguidos Apai (Avelino da Costa), José Espelho (José Agapito Madeira), Júlio
Soares Guterres, Januário Babo, e mais outros cujo nome não se lembra.
Saíram de Ermera pelas 22h00, em três carros, um conduzido pelo
Alfredo Reinado, outro conduzido pelo arguido Gastão Salsinha, e um
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terceiro conduzido pelo Leopoldino. Chegaram a Balibar por volta da meia-


noite.
Em Balibar ficou o carro do arguido Gastão Salsinha e os seguintes
arguidos: Gastão Salsinha, Adolfo da Silva, Mane Forte (Raimundo Maia
Barreto), Apai (Avelino da Costa), Júlio Soares Guterres, José Espelho (José
Agapito Madeira), Januário Babo, Halerik (Gaspar Lopes), Cris (Bernardo da
Costa), o arguido Alexandre de Araújo, e um outro que é do Suai, cujo
nome não se recorda. Todos vieram armados, excepto o elemento do
Suai. Todas as armas eram HK33, com carregadores de 40 ou 38 balas.
O arguido Avelino da Costa disse que saiu de Lauala pelas 22h00,
num carro conduzido pelo arguido Gastão Salsinha, onde seguiam, para
além do arguido, os arguidos Gastão Salsinha, Januário Babo, Júlio Soares
Guterres, José da Costa, Quintino, José Espelho (José Agapito Madeira) e
Joni (Julião António Soares). O arguido vinha armado com uma arma HK 33
e com dois carregadores de 40 balas.
Das declarações dos arguidos não resulta qualquer menção aos
nomes dos arguidos João Amaral, Tito Tilman e Alfredo de Andrade, pelo
que, à falta de qualquer outra prova, impõe-se dar como não provada a
presença destes arguidos nos factos ocorridos em Balibar.

32. Os arguidos Júlio Soares Guterres, Alexandre de Araújo e Avelino da


Costa, afirmaram todos ter chegado a Balibar cerca da meia-noite (ou
perto da uma da manhã, conforme afirmou Júlio Soares), tendo ficado o
grupo nas imediações da casa do Primeiro Ministro, embora em dois locais
distintos

33. O arguido Júlio Soares Guterres disse que os arguidos que seguiam no
carro conduzido pelo arguido Gastão Salsinha colocaram-se na mata
situada por trás dessa casa, e os que seguiam no outro carro ficaram junto
à estrada, de acordo com ordens dadas pelo arguido Gastão Salsinha.
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Ouviu este arguido a falar ao telefone com o Alfredo Reinado sobre a


distribuição dos homens no terreno. Esta chamada encontra-se registada
nas conversações telefónicas tidas entre Alfredo Reinado e Gastão
Salsinha (fls. 1992 dos autos).
O arguido Alexandre de Araújo, afirmou que, a dada altura, o
arguido Adolfo da Silva explicou ao grupo que o Alfredo Reinado mandou-
os a Balibar para atacar o Primeiro Ministro (tendo o arguido utilizado a
expressão assaltar, querendo com ela dizer atacar, fazer mal, matar com
tiros, conforme explicou depois). Os arguidos Alexandre Araújo e Cris
(Bernardo da Costa) afastaram-se do grupo, que continuou junto à
estrada.
Já o arguido Avelino da Costa referiu não saber se o arguido Adolfo
da Silva ficou também em Balibar, e que, quando estavam espalhados
num ponto superior à casa do Primeiro Ministro, ouviu tiros.
Estas declarações não se contradizem entre si, uma vez que os dois
últimos arguidos (Alexandre de Araújo e Avelino da Costa) encontravam-
se em grupos distintos, o que decorreu já das posições ocupadas nos
veículos, conforme afirmou Júlio Soares, e consta da fundamentação dada
ao quesito 31. Daí que o Alexandre refira que quem lhes explicou o plano
terá sido o arguido Adolfo da Silva, estando o seu grupo junto à estrada, e
o arguido Avelino da Costa referido não saber se o arguido Adolfo ficou em
Balibar, já que estaria no grupo que permaneceu junto à casa do Primeiro
Ministro. Assim, da conjugação destas declarações conclui-se que
efectivamente ocorreu uma divisão do grupo inicial em dois, conforme
afirma o arguido Julio Soares, tendo parte dos arguidos ficado junto à
residência, e a outra seguido para junto da estrada.

34. Júlio Soares Guterres disse que, após os carros saírem a caminho de
Dili, o arguido Gastão Salsinha disse que íam a uma festa, para depois
dizer que vinham sequestrar o Primeiro Ministro.
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O arguido Alexandre Araújo afirmou que, estando reunidos já em


Balibar, o arguido Adolfo da Silva explicou ao grupo que o Alfredo Reinado
mandou-os a Balibar para assaltar o Primeiro Ministro (tendo o arguido
utilizado a expressão assaltar, querendo com ela dizer atacar, fazer mal,
matar com tiros, conforme explicou depois).
O arguido Avelino da Costa afirmou que, depois de chegarem a
Balibar, posicionaram-se acima da casa do Primeiro Ministro. Não
mencionou a existência de qualquer intenção de emboscar o Primeiro
Ministro, antes tendo afirmado que pensava vir fazer segurança ao Alfredo
Reinado, sem que, contudo, tenha referido que o Major se encontrava no
grupo ou estivesse em Balibar. Para além do mais, foi este o único arguido
que afirmou ter ouvido a arguida Angelita a dizer a Alfredo Reinado que,
se viesse a Dili, teria de matar os dois (Presidente da República e Primeiro
Ministro).
Assim, não é credível que este arguido desconhecesse o motivo da
sua presença no local, tanto mais que, conforme o próprio afirma e o
arguido Júlio Soares Guterres confirma, veio de Balibar no carro do arguido
Gastão Salsinha, o qual, segundo afirmou o arguido Júlio Guterres, lhes
explicou que viriam sequestrar o Primeiro Ministro, tendo combinado o
posicionamento dos homens no terreno ao telefone com Alfredo Reinado.
Tem-se assim como provado que o propósito do grupo era o de
fazer uma emboscada ao Primeiro Ministro, e não apenas o de efectuar a
segurança a uma reunião de Alfredo Reinado, que nem sequer se
encontrava naquele local.

35. Declarações do PR, datadas de 11 de Fevereiro de 2010: “Às 6:00 da


manhã saí para fazer a minha caminhada matinal”; “Como de costume,
saí de casa um pouco antes das 6 horas da manhã, acompanhado por dois
elementos das F-FDTL e tomei o percurso habitual, da minha residência
até ao Cristo Rei, (...)”.
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Os lesados Isaac da Silva e Pedro Joaquim Soares, nas declarações


prestadas em julgamento, afirmaram ambos ter saído de casa pouco
antes das 6h00, para acompanhar o Presidente da República na sua
caminhada Matinal, tendo os três seguido pela Praia da Areia Branca, até
ao sopé do Cristo Rei.
A testemunha Christoffer Charles Durman afirmou que, pouco
depois das seis da manhã, encontrou o Presidente da República na Praia
da Areia Branca, que aí estava a fazer uma caminhada acompanhado por
dois seguranças.

36. O arguido Amaro da Costa disse que pararam os carros na estrada em


frente ao portão e todos saíram. O Alfredo Reinado perguntou ao
segurança do portão pelo Presidente, tendo este respondido que tinha ido
fazer jogging. No portão estavam dois seguranças, um deles era o
Domingos Pereira, sendo que só um estava armado.
O arguido Domingos Amaral afirmou que pararam os carros na
estrada, junto ao portão da casa, e todos saíram dos carros, com as
armas. Um dos seguranças que estava ao portão apontou a sua arma e,
em face disso, todos apontaram as armas aos seguranças, que eram dois,
sendo que um estava fardado e outro não.
O arguido Paulo Neno Leos disse que ao chegarem junto do portão,
viram dois seguranças, um armado e outro sem arma. Todos os ocupantes
do carro do Alfredo Reinado saíram do carro e dirigiram-se ao portão.
O arguido Ismael Sanção Moniz Soares, na audiência de julgamento
afirmou também que, pela manhã, chegaram a casa do Presidente da
República, em dois carros, um deles conduzido pelo Alfredo Reinado, e
outro conduzido pelo Leopoldino, onde o arguido seguia. Uma vez
chegados ao portão, pararam os carros e desceram, tendo o arguido visto
junto ao portão o Domingos Simões Pereira e outra pessoa que identificou
como sendo Adelino da Silva (Lorosae), sendo que o Major falou com eles.
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O lesado Domingos Simões Pereira viu chegarem junto ao portão


dois carros, o Alfredo Reinado conduzindo o da frente. Saíram todos dos
carros, tendo identificado um dos que saiu do segundo carro como sendo
o arguido Marcelo Caetano, e dirigiram-se ao portão onde o lesado se
encontrava.
O lesado José Luis da Costa Pereira afirmou que, enquanto falava ao
portão da casa do Presidente da República com o lesado Domingos
Simões Pereira, viu surgirem dois carros, abrandando a marcha e pararam
em frente do portão. Desceram todos e disseram para os dois não se
mexerem e largarem as armas.
Conjugadas tais declarações e testemunhos, não se encontra neles
qualquer contradição, razão pela qual se dá o facto por provado.

37. e 38. O lesado Domingos Simões Pereira afirmou em audiência que,


depois de todos os presentes nos carros terem descido dos veículos,
apontaram-lhe as armas, tendo o Alfredo Reinado passado o portão,
acompanhado do Leopoldino. Os outros, cercaram-no e tiraram-lhe a
arma.
O lesado José Luis da Costa Pereira, afirmou que viu o grupo a
aproximar-se do portão, não os conhecendo, nem sabendo o número
exacto de pessoas que o compunham, apenas lhes conhecendo as fardas,
e disseram aos dois lesados para não se mexerem e largarem as armas.
Nessa altura o lesado fugiu, nada mais tendo visto.
O arguido Paulo Neno Leos afirmou que, quando se dirigiam ao
portão, como o segurança se mexia muito, o Alfredo Reinado, depois de
lhe ter dito que queriam falar, tirou-lhe a arma e deu-a ao arguido Amaral.
O arguido Domingos Amaral disse que um dos seguranças que
estava ao portão apontou a sua arma e, em face disso, todos apontaram
as armas aos seguranças, que eram dois, sendo que um estava fardado e
outro não.
República Democrática de Timor Leste

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39. Segundo afirmou o lesado Domingos Simões Pereira, quem lhe retirou
a arma foi o arguido Ismael Sansão (Asanko).
Já o arguido Amaro da Costa afirma que quem desarmou o
segurança foi o arguido Domingos do Amaral.
Por seu turno, o arguido Domingos Amaral afirmou que o arguido
Susar (Amaro da Costa) retirou a arma M16 ao segurança do portão,
tendo-lha entregue.
Por fim, o arguido Paulo Neno Leos afirma que a arma foi retirada
pelo Alfredo Reinado, o qual a entregou ao arguido Amaral.
Face às patentes contradições quanto à identidade da pessoa que
retirou a arma ao segurança Domingos Pereira, entendeu o Tribunal dar
como não provado que a subtracção da arma foi realizada pelo arguido
Amaro da Costa.
Contudo, quanto à subtracção própriamente dita, todos os
depoimentos e declarações concorrem no sentido de dizer que a mesma
ocorreu, admitindo o arguido Domingos Amaral ter ficado na posse dessa
arma, a qual veio posteriormente a entregar, conforme afirmou e é
confirmado pelo auto de apreensão constante de fls. 3419.

40. O arguido Amaro da Costa afirmou que o Alfredo Reinado, depois de


explicar aos seguranças que tinha um encontro com o Presidente, entrou
para o compound. Os seguranças ficaram admirados mas deixaram-no
entrar. Juntamente com o Alfredo Reinado entraram o Leopoldino, o Mota
(Gilberto Suni) e o Lay (Egídio Lay), todos armados e com as armas
empunhadas. Os outros elementos ficaram na estrada em frente do
portão, por ordem do Reinado.
O arguido Domingos Amaral afirmou que o Alfredo Reinado, o
Leopoldino, e os arguidos Mota (Gilberto Suni Mota) e Lay ( Egídio Lay
República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Carvalho) entraram para o compound, estando os quatro armados. O resto


do grupo ficou na estrada, junto ao portão.
O arguido Paulo Neno refere apenas que o Alfredo Reinado e o
Leopoldino Exposto entraram no compound, nada dizendo sobre a entrada
de outros elementos do grupo, e não referindo onde permaneceram os
demais arguidos.
O lesado Domingos Simões Pereira mencionou também que apenas
o Alfredo Reinado e o Leopoldino entraram para a residência, tendo os
restantes elementos do grupo cercado o lesado. Contudo, admite que
outros arguidos tenham entrado também no compound, na medida em
que refere que o arguido Paulo Neno retirou uma metralhadora que se
encontrava no interior do compound.
A testemunha Agostinho Freitas refere apenas ter visto Alfredo
Reinado e Leopoldino Exposto, mas, uma vez que se encontrava a dormir
na tenda, não possuía uma visão da totalidade do recinto que lhe
permitisse aperceber-se do número de pessoas que se encontravam no
interior do compound.
A testemunha José Pinto Freitas, que se encontrava na garagem do
compound, afirmou ter visto três pessoas, entre as quais o Alfredo
Reinado.
A testemunha Lino Marçal, que se encontrava numa casa de banho
sita ao fundo do compound, afirmou ter visto apenas duas pessoas, as
quais, mais tarde, atingiu a tiro.
A testemunha Albino Assis, encontrando-se numa casa junto da
garagem, afirmou ter visto o arguido Gilberto Mota, com a arma apontada
para o recinto do Presidente, ouvindo-o chamar pelo arguido Paulo Neno
(que não viu), dizendo-lhe que o Presidente já não estava no compound.
Da análise de todas as declarações e depoimentos mencionados,
pode o Tribunal concluir que pelos menos as quatro pessoas mencionadas
no facto provado entraram no compound, conforme referiram os arguidos
República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Amaro da Costa e Domingos Amaral, não sendo contraditório o facto de


alguns dos arguidos ou das testemunhas terem mencionado ver apenas
duas ou três pessoas, dadas as características do espaço, composto por
vários edifícios e com várias árvores, que impedem uma visão completa
do recinto (conforme o Tribunal constatou na inspecção ao local, e resulta
também da planta de fls. 372, a qual, conforme se observou no local, não
está efectuada em escala).
A credibilidade destas testemunhas não deve ser afectada pelo
facto delas referirem os nomes de alguns dos arguidos, uma vez que, quer
as testemunhas, quer os arguidos foram membros das F-FDTL e PNTL,
pelo que já se conheciam anteriormente como colegas de armas.

41. e 42. A testemunha Amélia Paixão da Silva, cozinheira da casa do


Presidente da República, afirmou que, quando se encontrava na sala da
casa, viu surgir o Alfredo Reinado, tendo este perguntado onde ficava o
quarto do Presidente. Na mesma altura, o Alfredo mandou-a deitar-se no
chão.
A testemunha afirmou que viu mais cerca de 8 indivíduos, mas que, de tal
forma ficou assustada, que desmaiou de imediato.
A afirmação relativa ao número de elementos vistos pela testemunha não
é corroborada por qualquer outro elemento de prova, sendo
compreensível que, face ao estado de pânico em que a testemunha ficou,
e que a levou a desmaiar, esta não tenha tido a verdadeira percepção do
número de pessoas que estariam presentes.
Uma vez que a testemunha não se apercebeu da entrada dos elementos
no compound, não soube dizer há quanto tempo eles teriam entrado antes
de a encontrarem na sala.
Quanto ao lapso temporal que os quatro elementos terão passado no
interior do compound, conforme afirmaram os arguidos Amaro da Costa e
Ismael Sanção Moniz (em audiência de julgamento), não decorreram mais
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de cinco minutos desde a entrada daqueles, até começarem a ouvir tiros.


O arguido Paulo Neno refere apenas que, passados uns minutos depois de
terem entrado, ouviu tiros. Apenas o arguido Domingos Amaral refere
terem decorrido cerca de 15 a 20 minutos, embora indique esses números
para a duração total da permanência do grupo em Metiaut.

43. e 44. A testemunha Agostinho Freitas mencionou que se


encontrava a dormir na primeira tenda, quando entrou o Alfredo Reinado,
que lhe apontou uma arma e disse-lhe em voz alta para não se mexer. Viu
o Leopoldino sentado debaixo de uma mangueira no exterior da tenda, em
posição de tiro (conforme indicou na diligência de inspecção ao local
efectuada em julgamento, tendo aí o Tribunal constatado que a distância
da cama onde se encontrava deitada a testemunha no interior da tenda
até à dita mangueira não ultrapassa os cinco metros). Mais afirmou que,
antes de sair da tenda, o Alfredo levou consigo as armas da testemunha e
do seu colega Filomeno Ximenes, duas M16.
A testemunha Filomeno Ximenes mencionou que se encontrava a
dormir na mesma tenda do Agostinho Freitas, e que acordou com o
Alfredo Reinado a dizer para não se mexerem ou morriam. Viu o Alfredo a
pegar nas armas das duas testemunhas, levando-as consigo para o
exterior. A testemunha da cama onde estava conseguiu ver que, no
exterior se encontrava o Leopoldino. Segundo afirmou, só se levantou da
cama quando ouviu tiros, após o que pegou numa outra arma de um outro
colega, e saiu da tenda, saltou a vedação existente atrás da tenda, e fugiu
para o exterior do compound.
A testemunha João Soares, que se encontrava a dormir na segunda
tenda, afirmou que, estando a dormir, foi acordado pelo Alfredo Reinado,
que reconheceu pela voz, e que lhe disse para não se mexer se não
morria. Nesse momento, o Alfredo Reinado saiu da tenda, levando consigo
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uma arma do colega da testemunha, uma metralhadora. A testemunha


permaneceu deitada e só se levantou quando ouviu tiros.
Ambas as testemunhas afirmaram peremptoriamente, a instâncias
da defesa, não ter dúvidas sobre a identidade da pessoa que falou com
elas, como sendo o Alfredo Reinado.
A testemunha Francisco Lino Marçal, que neste momento já se
encontrava armado atrás da casa de banho sita ao fundo do compound,
afirmou ter visto o Alfredo e o Leopoldino junto das tendas, após o que
ambos correram na sua direcção, com armas tiradas das tendas colocadas
às costas.
A testemunha José Pinto Freitas, no seu depoimento afirmou que,
encontrando-se junto à garagem, viu o Alfredo Reinado e os seus
elementos a entrarem nas tendas e a retirarem daí as armas. Contudo, na
inspecção efectuada ao local, esta testemunha mencionou que, depois de
se aperceber que havia pessoas estranhas quer no portão, quer no interior
do compound, decidiu dirigir-se para os muros do fundo, nas traseiras da
casa de banho aí existente. Conforme o Tribunal constatou então, deste
último local não era possível à testemunha observar o que se passava
junto às tendas.
Face a esta contradição, entendeu o Tribunal não conferir
credibilidade a esta parte do depoimento da testemunha, o qual mais
parece resultar daquilo que terá ouvido outros dizerem, do que aquilo que
terá efectivamente visto.

45. A testemunha Francisco Lino Marçal mencionou que quando o grupo


entrou no compound encontrava-se a dormir numa casa junto da
garagem, onde também estavam as testemunhas Albino Assis e José
Pinto. Foram os três acordados por uma criança chamada Tadeu,
conhecido por Tery. A testemunha Tadeu afirmou que, nesse dia, quando
se preparava para sair para a escola, ouviu pessoas a falarem, não
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sabendo quem eram, a dizerem “não se mexem”. Tendo ido ver quem era,
reconheceu o Alfredo reinado. Como lhe pareceu estranho, foi chamar o
Albino Assis e o Chico (Francisco Lino Marçal), que ainda se encontravam
a dormir, dizendo-lhes que o Major entrou (“major tama”). Viu então o
Francisco Lino a levantar-se e a pegar na sua arma. A testemunha
Francisco Lino, afirmou então que, depois de ter sido acordado pelo
Tadeu, pegou na arma e saiu da casa, dirigindo-se para a casa de banho
situada ao fundo do compound, com a intenção de se abrigar nesse local.

46. e 47. Conforme a testemunha Francisco Lino mencionou, da casa de


banho onde se encontrava, viu o Alfredo Reinado e o Leopoldino Exposto a
saírem da área das tendas, transportando as armas dos seus colegas às
costas, e a encaminharem-se em passo rápido e em posição de tiro para a
zona da casa de banho onde a testemunha se encontrava. Segundo
afirmou, o Leopoldino vinha cerca de 10 a 15 metros à frente do Alfredo.
Quando o Leopoldino estava já a uma distância de cerca de 10 metros,
segundo afirmou, disparou na direcção do Leopoldino uma só vez saindo
desse tiro três balas, que acertaram no Leopoldino. De seguida, apontou a
arma ao Alfredo, e disparou um tiro também de três balas, que lhe
acertaram.
Na inspecção efectuada ao local, de acordo com as indicações
fornecidas por esta testemunha, o Leopoldino não estaria a uma distância
de 10 metros do atirador, mas a uma distância de 20 metros, estando o
Alfredo Reinado a uma distância de 30 metros, conforme medição
efectuada no local.
A testemunha Filomeno Ximenes, que se encontrava na primeira
tenda juntamente com a testemunha Agostinho Freitas, não viu o Alfredo
Reinado e o Leopoldino atingidos pelos tiros, visto que, depois de ouvir
tais tiros, levantou-se da cama, e saiu da tenda pela parte de trás, junto
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da vedação. Por essa razão, não viu o local onde aqueles dois caíram
atingidos pelos tiros.
O depoimento da testemunha Francisco Lino não se conforma com
outras provas que cumpre analisar:
Por um lado, no local onde este afirma ter disparado, foram
encontradas 22 cápsulas de munições 5.56mm (conforme mapa de fls.
372, o qual, como se referiu já, não foi elaborado em escala);
Entre esse local e aquele onde o Leopoldino e o Alfredo Reinado se
encontravam existem várias árvores e arbustos que impediam a precisão
de tiro;
Em algumas dessas árvores, bem como nas tendas situadas atrás
do local onde se encontravam o Leopoldino e o Alfredo foram encontradas
várias marcas de tiros, compatíveis com disparos disparados do local onde
se encontrava a testemunha, conforme se constata de fls. 272 a 279;
A autópsia efectuada ao Leopoldino Exposto e ao Alfredo Reinado
anotam a presença de queimaduras (ou tatuagens) na pele junto às
feridas das balas, sugerindo a utilização de uma arma de alta velocidade,
e que os disparos foram efectuados a curta distância.
Comecemos pela análise dos relatórios das autópsias (3885 a
3900):
No cadáver de Alfredo Reinado foram observadas quatro feridas,
uma no pescoço, outra no peito, outra na parte esquerda da face junto ao
olho, e por fim, uma na mão esquerda. Nas três primeiras foram
encontrados os mencionados sinais de queimaduras que sugerem que os
disparos foram efectuados a curta distância.
A ferida do pescoço apresenta um diametro de 05X05 mm, e
determinou uma hemorragia local, após causar lesões nos tecidos
subcutâneos, músculos, vasos, nervos, e laceração do esófago e da
traqueia. No interior do corpo ocorreu a fragmentação do projéctil. A
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trajectória do projectil foi da frente para trás, da esquerda para a direita e


de baixo para cima. O projéctil não causou qualquer ferida de saída;
A ferida no peito apresentava o tamanho de 10X07 mm, com
pequenas feridas laterais, provavelmente causadas por fragmentos de
bala. Esta ferida, causadora de extensa hemorragia, lesionou a pele,
tecidos subcutâneos, musculos, vasos, nervos, fractura da primeira e
quarta costelas anterior e posteriores esquerdas, pleura, laceração do
lóbulo superior do pulmão esquerdo. A trajectória do projéctil foi da frente
para trás, de cima para baixo, e da direita para a esquerda. Foi também
observada uma ferida de saída do projéctil medindo 22X15 mm;
A ferida na face esquerda é constituída por multiplas feridas de
fragmentos de bala, rodeando o olho esquerdo, a base do nariz a parte
superior da bochecha, e região sub-ocular, medindo 100X90 mm. O
projéctil atravessou o olho causando extensa laceração e hemorragia
local, lesionando a pele, tecidos subcutâneos, musculos, vasos, o olho,
fractura da orbita, do osso zigomático, e base do crâneo. O projéctil
fragmentou-se no interior do corpo.
A quarta ferida, na mão, não assume relevo para a análise a fazer.
Conforme se mencionou já, todas as três feridas descritas
apresentam marcas de queimadura na pele envolvente, sugerindo que os
projécteis foram disparados de uma arma de alta velocidade e os disparos
efectuados a curta distância.
No cadáver do Leopoldino Exposto foram observadas apenas duas
feridas na parte de trás da cabeça, causadas pelo mesmo projéctil. Assim,
a ferida de entrada mede 35X25 mm, medindo a de saída 160X140 mm,
provocando esta a saída de massa cerebral e fragmentos ósseos. A
direcção do projectil foi da frente para trás, da direita para a esquerda e
de baixo para cima.Não foram observados sinais de queimaduras. No
entanto, é sugerido que o projectil foi disparado de uma arma de alta
velocidade, e a curta distância.
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Da análise efectuada a este relatório pelo Professor de Medicina


Legal Stephen Cordner, da Universidade Monash, conclui-se apenas que,
tendo o médico patologista que efectuou as autópsias afirmado que os
tiros foram disparados a curta distância, tal seria incompatível com uma
distância de 20 a 30 metros (fls. 6104 a 6106, constituindo um parecer
junto pela defesa).
No que diz respeito à ferida apresentada pelo Leopoldino Exposto,
constata-se que a conclusão de que o projéctil foi disparado a curta
distância não está suportada pela observação de qualquer indício que o
sugira.
Quanto às feridas apresentadas pelo Alfredo Reinado, importa ter
presente que duas delas (pescoço e olho) não apresentam feridas de
saída, tendo os projécteis ficado fragmentados no interior do corpo.
Nenhum desses projécteis perfurou zonas ósseas no momento da
penetração no corpo. O que é incompatível com um disparo por uma arma
de alta velocidade, a curta distância. A tratar-se de um disparo efectuado
por arma de alta velocidade, sendo a curta distância (contacto com o
corpo, ou a cerca de 10 cm, conforme explica o Professor Stephen Cordner
a fls. 6105), teriam necessariamente de ocorrer outro tipo de lesões, e a
ocorrência de uma ferida de saída, ainda para mais tendo em conta que
os projécteis não perfuraram zonas ósseas quer na sua entrada, quer no
seu percurso no interior do corpo.
Repare-se que os projécteis que causaram a terceira ferida no corpo
de Alfredo Reinado (no peito), bem como a ferida de Leopoldino Exposto,
apesar de terem perfurado zonas ósseas (costelas no primeiro, e óssos
craneanos no segundo), ainda assim, possuíram impulso suficiente para
sair dos corpos, causando feridas de saída consideravelmente extensas.
Logo, pode desde logo concluir-se que a velocidade de entrada
daqueles dois primeiros projécteis no corpo de Alfredo Reinado, tendo sido
disparados de uma arma de alta velocidade, não poderiam ter sido
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disparados a curta distância, pois desse modo, teriam provocado lesões


muito superiores. Desse modo, a presença de queimaduras analisada, da
qual não se pode duvidar porque observada, terá de ter outra causa que
não a curta distância do disparo.
No que diz respeito à ferida de Leopoldino Exposto, também não se
pode concluir que o disparo tenha sido efectuado a curta distância, uma
vez que, relativamente a ele, nem sequer foram observadas tais
queimaduras.
No que concerne à terceira ferida de Alfredo Reinado (no peito),
teremos de considerar também que a presença de queimaduras não é
indiciadora de um disparo a curta distância, uma vez que, nas outras
feridas analisadas se considerou que a presença de queimaduras não
permitia essa conclusão. Ou seja, a presença de queimaduras em
qualquer uma das feridas analisadas no corpo de Alfredo Reinado terá de
ficar a dever-se a qualquer outro fenómeno químico que não o resultante
dos gazes expelidos por uma arma disparada a dez centímetros ou a
distância ainda menor.
Nessa medida, as conclusões da autópsia, apenas no que se refere
ao disparo efectuado a curta distância, não podem ser aqui seguidas – art.
162, n.2 do CPP. Por um lado, porque não se mostram fundamentadas
numa observação efectuada que as permita (conforme sucedeu no caso
do Leopoldino Exposto), e por outro, porque são incompatíveis com a
extensão das feridas e características destas observadas.
No que diz respeito ao exame efectuado aos fragmentos de bala
encontrados nos corpos do Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto (cujo
relatório se encontra a fls. 4143 a 4161), importa também analisá-lo, uma
vez que nele surgem considerações que parecem contrariar a versão
apresentada pela testemunha Francisco Lino Marçal.
Com efeito, a fls. 6 desse relatório (fls. 4148 dos autos) afirma-se
que “as características visíveis na bala e fragmentos de bala recuperados
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do corpo de Alfredo Reinado são diferentes das características visíveis nos


fragmentos de bala recuperados tanto do Presidente da Pública como do
Leopoldino”. E idêntica afirmação é feita, pouco mais abaixo, reportando-
se agora à bala e fragmentos de bala recuperados do corpo de Leopoldino.
Contudo, estas afirmações não são levadas para as conclusões do
relatório, onde o perito se limita a afirmar que as características visíveis
da bala e fragmentos encontrados no Presidente Ramos Horta são
diferentes das encontradas nos corpos do Alfredo Reinado e do
Leopoldino, não fazendo, quanto a estes, qualquer menção à existência de
diferenças nos fragmentos encontrados em ambos. Não constando tal
observação das conclusões, é porque a peritagem entendeu que a
observação não se encontrava suficientemente fundamentada para
permitir a formulação de um juízo conclusivo. Pelo que aquela observação
não foi considerada como elemento probatório revelador que os disparos
não foram disparados da arma identificada por Francisco Lino Marçal
como sendo a utilizada nos disparos que atingiram Alfredo Reinado e
Leopoldino.
Por outro lado, afirma-se nas conclusões que, entre os fragmentos
de bala encontrados no corpo de Alfredo Reinado, e um dos fragmentos de
bala encontrados no corpo de Leopoldino Exposto foram considerados
como não tendo sido disparados por nenhuma das armas sujeitas a
observação (fls. 4150).
Sendo certo que a arma que Francisco Marçal afirma como tendo
sido a utilizada nos disparos, foi sujeita a testes. Com efeito, em audiência
de julgamento, Francisco Marçal identificou tal arma como sendo a
fotografada a fls. 241 e 242 do apenso I (conforme resulta das fotografias,
tal arma é uma FN Herstal Minimi com o número FN068407). Essa arma foi
entregue para teste e testada (fls. 4161 dos autos, tendo sido atribuído o
n.30). Por outro lado, as 22 cápsulas encontradas no local onde Francisco
Marçal afirma ter efectuado os disparos (local esse assinalado com o
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número 1 no mapa de fls. 372), foram analisadas, e confirmou-se terem


sido utilizadas nos disparos efectuados pela arma com o número de série
FN068407 (Anexo A do relatório, a fls. 4153 e 4154 dos autos).
Assim, teremos de concluir que o tiro que atingiu Leopoldino
Exposto e algum ou alguns dos tiros que atingiram Alfredo Reinado não
foram disparados pela arma utilizada por Francisco Marçal.
Donde se conclui que:
A testemunha Francisco Marçal não falou verdade quando afirma
ter disparado apenas dois tiros com três balas cada um. A testemunha
terá sim disparado uma rajada de tiros (com pelo menos 22 balas, por
tantas serem as cápsulas encontradas no local onde estava, cápsulas
estas que, conforme o exame feito, foram todas disparadas da arma
utilizada pela testemunha). O que resulta não só do número de cápsulas
encontradas no local, mas também dos diversos orifícios de bala
encontrados nas árvores e tendas que se encontravam na trajectória dos
projécteis disparados daquele local. Esta não verdade do seu depoimento
não o coloca totalmente em causa, podendo ser atribuída à circunstância
de militarmente, o uso de metralhadora com disparos em rajada ser
fortemente proibido em situações que não sejam de guerra, como sucedia
neste caso.
Ou seja, a testemunha terá efectuado disparos com aquela arma,
daquele local, e contra aquelas pessoas, mas não na quantidade e modo
como explicou.
Resultando do relatório do exame balístico que uma outra arma
disparou o tiro que atingiu Leopoldino e um ou todos os tiros que
atingiram o Alfredo Reinado, terá de se concluir que na produção da morte
destes esteve envolvida uma outra arma, de cujos disparos resultou a
morte, pelo menos, do primeiro. Quanto a Alfredo Reinado, o relatório não
é conclusivo no sentido de dizer que todos os tiros foram disparados de
uma arma que não a examinada. Não adiantando o relatório que todos os
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fragmentos encontrados pertencem a arma que não a examinada, não


está excluída a hipótese de alguns deles terem resultado dos disparos
efectuados por Francisco Marçal.
No entanto, não se pode concluir que a causa da morte de ambos
sejam os disparos de Francisco Marçal.
Razão pela qual se considerou que Francisco Marçal efectuou
disparos contra ambos, e que ambos faleceram na sequência de disparos
de armas de fogo, sem que se tenha provado que tais disparos atingiram
os dois, e que estes tenham falecido por causa dos disparos efectuados
pelo Francisco Marçal.
Terá pois existido mais de uma arma a ser disparada, sendo que
uma delas atingiu aqueles dois – o que aliás, é compatível com as
declarações do arguido Amaro da Costa, que, encontrando-se no exterior,
declarou ter ouvido primeiro dois tiros, seguidos de várias rajadas.
Saber qual a arma que disparou os tiros fatais e quem foi o autor de
tais disparos, constitui matéria que não cabe aprofundar neste processo,
no qual não se procura apurar da responsabilidade penal pela morte de
Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto.

48. Amaro da Costa disse que, estando os quatro (Alfredo Reinado,


Leopoldino, Mota e Lay) no interior, ouviram-se tiros, tendo o Mota e o Lay
voltado para trás, saindo do compound, dizendo aos que estavam no
exterior que o Reinado e o Leopoldino tinham sido mortos. Ouviu primeiro
dois tiros, e depois várias rajadas.
Nesse momento, todos os que se encontravam no exterior
efectuaram tiros de rajada da estrada em direcção ao compound.
Domingos Amaral afirmou que cerca de 3 a 5 minutos depois de
terem entrado no compound, ouviram-se tiros, os primeiros, tiro a tiro,
seguidos de uma rajada. Após os tiros, os arguidos Mota e Lay saíram a
correr, e nessa altura, todos os arguidos, com excepção do Domingos
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Amaral e do Egídio Lay dispararam na direcção do quintal do Presidente,


ora tiro a tiro, ora em rajada. Do interior do compound também foram
feitos disparos para o exterior.
O arguido Paulo Neno Leos disse que o Alfredo Reinado e o
Leopoldino entraram no compound, e uns minutos depois, ouviram-se
tiros, e depois uma rajada. Os restantes elementos do grupo assustaram-
se e recuaram. Começaram então a surgir tiros de dentro do compound, e
os arguidos recuaram, atirando também. O arguido fugiu para a ribeira
que se encontra em frente do compound, onde já estava o arguido
Asanko, que lhe entregou a metralhadora que tinha retirado do
compound.
A testemunha Albino Assis confirmou que, no interior do compound
deu alguns tiros por ter visto pessoas no portão, com armas.
O lesado Domingos Simões Pereira afirmou que, na sequência do
tiroteio conseguiu fugir do portão da entrada para o interior de uma tenda;
O lesado Adelino da Silva disse que, estando na casa de banho,
ouviu tiros, pelo que decidiu fugir saltando a vedação do compound,
seguindo para a Areia Branca;
O lesado José Pinto afirmou que se abrigou nas traseiras da casa de
banho enquanto durou o tiroteio;
O lesado João Soares disse que se levantou da tenda depois de
ouvir os tiros, e saiu pelas traseiras da tenda, saltando a vedacão do
compound;
O lesado Francisco Lino Marçal afirmou que, depois de ter disparado
contra o Alfredo Reinado e Leopoldino, refugiou-se na casa de banho;
O lesado Albino Assis, depois de ter disparado alguns tiros, refugiou-
se na casa junto à garagem do compound;
Os lesados Filomeno Ximenes e Agostinho Freitas, saltaram a
vedação e fugiram do compound;
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O lesado José Luis da Costa disse que saltou o muro e correu na


direcção do mar.

49., 50. e 51. A testemunha Domingos Simões afirmou que, durante


a troca de tiros entre os seguranças do compound e os arguidos, surgiu
um veículo das F-FDTL vindo da direcção de Metinaro, e que os tiros
atingiram esse carro, que veio a cair mais à frente. Segundo afirmou, os
tiros foram disparados pelo grupo do Alfredo Reinado. Porém, referiu
também que, durante o tiroteio, tinha arguidos à sua volta, pelo que não
conseguiu ver bem quem disparou.
Das demais testemunhas inquiridas, apenas o Albino de Assis refere
ter disparado tiros para o ar.
Contudo, junto ao muro da frente do compound, no seu lado de
dentro, foram encontradas, num local, 4 cápsulas de bala (assinaladas
com o n.3 no mapa de fls. 372), e noutros dois lugares, junto ao portão
principal mas no lado de dentro, 14 cápsulas (assinaladas com o n.2 no
mesmo mapa). Por seu turno, no exterior do compound, tanto dum lado
da estrada como do outro, foram encontradas também cápsulas, num
total de 42 (conforme pontos assinalados com os ns. 6, 5, 4 e 7 do mapa
de fls. 372). Todas as cápsulas encontradas se reportam a balas de calibre
5.56 mm. As balas que atingiram Celestino Gama não foram objecto de
exame balístico para que se pudesse aferir de que arma ou armas foram
desferidas.
O arguido Domingos Amaral referiu que enquanto estavam aos
tiros, surgiu um jipe das F-FDTL (que reconhece como sendo o fotografado
a fls. 322) vindo da direcção de Metinaro. Como havia elementos do grupo
em ambos os lados da estrada, o jipe passou pelo meio dos tiros, tendo o
seu condutor sido atingido nessa altura, não sabendo o depoente se esse
condutor foi atingido pelos tiros saídos do compound, se pelos tiros feitos
da estrada.
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Verifica-se pois que a viatura atravessou o local quando aí se


desenvolvia fogo cruzado, não podendo determinar-se se as balas foram
provenientes das armas dos arguidos, ou das armas disparadas pelos
seguranças do compound.
Quanto aos danos da viatura, apesar de não ter sido efectuado um
exame à viatura, foi a mesma fotografada no próprio local dos
acontecimentos, constando os danos das imagens de fls. 322 a 332 do
Apenso II.

52. e 53. As lesões sofridas por Celestino Gama, bem como os


tratamentos médicos a que foi sujeito encontram-se descritos em
pormenor no relatório médico junto a fls. 2833 a 2850, com tradução
efectuada em momento posterior.

54. Das declarações do lesado Celestino Gama resulta que este fazia
aquele caminho diariamente a caminho de casa, uma vez que, por causa
da crise, não podia utilizar outro trajecto por a estrada estar bloqueada
em Fatu Ahi. Tinha regressado a Dili por se ter lembrado que tinha
deixado em casa a chave do armário onde guardava a farda.

55. Conforme se mencionou já na resposta aos quesitos 49, 50 e 51,a


testemunha Domingos Simões afirmou que ocorreu uma troca de tiros
entre os seguranças do compound e os arguidos.
Das demais testemunhas inquiridas, apenas o Albino de Assis refere
ter disparado tiros para o ar.
Contudo, junto ao muro da frente do compound, no seu lado de
dentro, foram encontradas, num local, 4 cápsulas de bala (assinaladas
com o n.3 no mapa de fls. 372), e noutros dois lugares, junto ao portão
principal mas no lado de dentro, 14 cápsulas (assinaladas com o n.2 no
mesmo mapa). Por seu turno, no exterior do compound, tanto dum lado
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da estrada como do outro, foram encontradas também cápsulas, num


total de 42 (conforme pontos assinalados com os ns. 6, 5, 4 e 7 do mapa
de fls. 372). Todas as cápsulas encontradas se reportam a balas de calibre
5.56 mm.
O arguido Domingos Amaral referiu que depois do veículo ter sido
atingido, os arguidos fugiram do local para os terrenos em frente da casa
do Presidente da República.

56. Não foi produzida qualquer prova sobre a existência de tais danos,
sendo que as únicas árvores e tendas atingidas por tiros, conforme resulta
das fotografias de fls. 272 a 279 situam-se nas traseiras do compound, e
reportam-se aos disparos efectuados pela arma de Francisco Marçal.

57. O lesado Domingos Simões Pereira afirmou que, na sequência do


tiroteio conseguiu fugir do portão da entrada para o interior de uma tenda;
O lesado Adelino da Silva disse que, estando na casa de banho,
ouviu tiros, pelo que decidiu fugir saltando a vedação do compound,
seguindo para a Areia Branca;
O lesado José Pinto afirmou que se abrigou nas traseiras da casa de
banho enquanto durou o tiroteio;
O lesado João Soares disse que se levantou da tenda depois de
ouvir os tiros, e saiu pelas traseiras da tenda, saltando a vedacão do
compound;
O lesado Francisco Lino Marçal afirmou que, depois de ter disparado
contra o Alfredo Reinado e Leopoldino, refugiou-se na casa de banho;
O lesado Albino Assis, depois de ter disparado alguns tiros, refugiou-
se na casa junto à garagem do compound;
Os lesados Filomeno Ximenes e Agostinho Freitas, saltaram a
vedação e fugiram do compound;
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O lesado José Luis da Costa disse que saltou o muro e correu na


direcção do mar.

58. Declarações do PR de 11 de Fevereiro de 2010: “Cerca das 6h50, já de


regresso, passava junto ao Cazbar quando ouvi os primeiros disparos de
rajada. Um minuto ou dois a seguir ouvi uma segunda rajada. Nessa
altura, percebi que os tiros vinham da minha residência e dirigi-me para
lá”; “Este foi o meu erro, caminhar de regresso a minha casa. Mas pensei
que os tiros resultassem de uma disputa de elementos das F-FDTL que
tinha em minha casa (...)”.
O lesado Pedro Soares afirmou que, perto do restaurante Kas Bar
ouviu tiros, e pouco depois, junto à curva, ouviu mais tiros, que lhe
pareceram vindos da residência.
A testemunha Isac da Silva confirma ter ouvido tiros quando
estavam perto do Kas Bar, que lhe pareceram vindos da residência.

59. Declarações do PR de 11 de Fevereiro de 2010: “O primeiro


telefonema ocorreu pelas 7:00 horas, depois de ter ouvido os tiros, para o
General Matan Ruak, falando em português, para o alertar que havia tiros
em minha casa”.
A testemunha Pedro Soares afirmou ter visto o Presidente a fazer
um telefonema mas não sabe a quem.
A testemunha Isac da Silva referiu também ter visto o Presidente a
fazer um telefonema.

60. Declarações do PR de 11 de Fevereiro de 2010: “(...) ele viu quem eu


era, que eu estava desarmado, por alguns segundos ficámos frente a
frente, a 20 metros de distância, e ele disparou”
A testemunha Pedro Soares referiu que tendo vindo à frente do
Presidente para ver o que tinha sucedido, viu um carro caído na valeta e
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uma motorizada também caída para o lado contrário da estrada. O


Presidente e o Isac ficaram nessa parte do percurso a ver. A testemunha
seguiu em frente até ver junto ao portão do compound um sujeito em pé e
armado. Ao ver tal pessoa, dirigiu-se para o Presidente e gritou-lhe
dizendo “há inimigos”. Enquanto dizia isto voltado para o Presidente,
ouviu tiros atrás de si e viu o Presidente a ser atingido com o segundo e o
terceiro tiros, tendo gritado “hau mate ona”. A testemunha, nessa altura,
tirou a pistola e disparou sete tiros, mas que não atingiram o atirador.
A testemunha Agostinho Freitas, que durante o tiroteio tinha
saltado a vedação do compound para o exterior tendo ficado refugiado
nas imediações, ao ver passar um dos seguranças do Presidente da
República, começou a gritar “katuas la bele mai”, tendo gritado três
vezes. Ao chegar à estrada, viu já o Presidente caído no chão.
A testemunha Isac da Silva referiu que, a caminho da residência, ao
chegar junto a um jardim, viu o Agostinho Freitas, aos gritos, a dizer que o
pessoal do Reinado estava lá dentro, e que tomassem cuidado.
Continuaram a andar e, ao chegar ao portão, surgiu o arguido Marcelo
Caetano, com uma HK33, que disparou três tiros, o primeiro dos quais não
acertou ninguém, atingindo o segundo e o terceiro o Presidente. O
primeiro tiro foi disparado com o atirador de joelho no chão, e os outros
com o atirador já de pé.
O arguido Paulo Neno referiu que, do local fugiram para a
montanha, tendo sabido mais tarde, pelo telemóvel do arguido Marcelo
Caetano, que o Presidente da República tinha sido gravemente ferido, e
que o Alfredo e um escolta tinham morrido. O arguido desconhece quem
disparou contra o Presidente da República.
O arguido Domingos Amaral refere que ao sair do local o arguido
não viu o Presidente da República. Enquanto subiam a montanha pela
ribeira, continuaram a ouvir tiros. Não sabe quem atingiu o Presidente da
República.
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O arguido Domingos Amaral afirma que todos os elementos do


grupo fugiram para a montanha. Quando saíram do local, ainda o
Presidente da República não tinha chegado. Desconhece quem atirou
sobre o Presidente da República, mas pode garantir não ter sido nenhum
dos elementos do grupo, porque todos fugiram para a montanha antes do
Presidente chegar. Quando estavam a subir a montanha ainda ouviram
disparos.
O facto de todos os arguidos terem fugido para a montanha não é
confirmado pelo arguido Paulo Neno, que afirma que para a montanha
subiram consigo os arguidos Susar (Amaro da Costa), Gilson, Marcelo
Caetano, Joanino e Gilberto Suni Mota. Não se encontraram mais tarde
com o Asanko (Ismael Sansão, Caetano Ximenes ou Egídio Lay, não tendo
voltado a ver estes últimos.
Ou seja, segundo as suas próprias declarações, os arguidos, na
fuga, não terão fugido todos juntos, pelo que desconhecem se algum dos
outros ficou junto ao local, sendo que, conforme todos referem, enquanto
subiam, ouviram mais tiros (que terão sido, precisamente, os do atirador
do Presidente e os dos seguranças).
Assim, de tais declarações não resulta a exclusão de todos os
arguidos do local dos factos.
Porém, tais declarações, conforme abaixo melhor se explicará, não
se mostram credíveis, tendo o Tribunal excluído a possibilidade de um só
arguido, por sua única iniciativa, ter permanecido no local para matar o
Presidente da República à revelia dos demais arguidos.

61. As lesões físicas sofridas pelo Presidente da República na sequência


dos acontecimentos encontram-se descritas e fotografadas nos exames
médicos constantes de fls. 3171 a 3196 e 3781 a 3785, os quais foram
posteriormente traduzidos.
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62. Conforme foi já mencionado na resposta ao quesito 60, o Pedro


Joaquim Soares afirmou que, nessa altura, tirou a pistola e disparou sete
tiros, mas que não atingiram o atirador.

63. A testemunha Pedro Soares refere que, por trás de si surgiu o


Agostinho Freitas, que disparou na direcção do atirador.
Este depoimento é confirmado pela testemunha Agostinho Freitas,
que afirmou que antes de ter fugido da tenda onde se encontrava levou
uma arma de um colega, que tinha consigo no momento em que viu e
gritou ao Presidente. Ao aproximar-se da estrada, estando o Presidente já
caído no chão, disparou vários tiros na direcção da ribeira para onde o
atirador fugiu.

64. O Presidente da República, no auto de reconhecimento de fls. 4167 e


seg. identificou como o atirador o arguido Paulo Neno Leos.
A testemunha Pedro Soares afirmou não conhecer o atirador, apesar
de o ter visto de frente.
A testemunha Isac da Silva, no seu depoimento em audiência
confirmou que o atirador era o arguido Marcelo Caetano. Porém, feito o
reconhecimento de arguidos no EPBecóra, já em julgamento (acta de fls.
6540), a testemunha afirmou não conseguir reconhecer os atiradores de
entre os arguidos que foram exibidos, entre os quais se encontrava o
arguido Marcelo Caetano.
Do exame balístico feito à arma entregue pelo arguido Marcelo
Caetano no momento da sua detenção consta que as balas que foram
extraídas do Presidente da República não foram disparadas daquela arma,
nem de nenhuma outra examinada.
Assim, uma vez que a única testemunha que afirmava
peremptoriamente a identidade do atirador, não o conseguiu reconhecer,
deu-se como não provado o facto.
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65. A testemunha Agostinho Freitas afirmou que o arguido fugiu para a


ribeira existente do outro lado da estrada, e que daí seguiu para a
montanha.

66. e 67. A testemunha Pedro Soares afirmou que tendo corrido ao


compound para ir buscar outra arma, seguiu na direcção dessa ribeira e já
não encontrou ninguém.
Nenhuma testemunha mencionou que os arguidos, durante a fuga,
continuaram a disparar tiros para a estrada.

68. A testemunha Domingos Simões Pereira referiu no seu depoimento,


que a arma que estava na sua posse foi retirada pelos arguidos.
Os arguidos referiram também ter ficado na posse dessa arma do
Domingos Pereira, apesar de, conforme se explicou já, não se ter dado por
provada a identidade do arguido que retirou tal arma, posteriormente
entregue pelo arguido Domingos Amaral (fls. 3419).
A segunda arma, uma metralhadora, foi retirada da tenda onde se
encontrava a dormir a testemunha João Soares, conforme este referiu. Tal
metralhadora foi mais tarde encontrada na posse de Paulo Neno Leos (fls.
3423). Segundo este afirmou, o arguido Asanko (Ismael Sansão) tirou uma
metralhadora que estava em frente à tenda. Começaram então a surgir
tiros de dentro do compound, e os arguidos recuaram, atirando também.
O arguido fugiu para a ribeira que se encontra em frente do compound,
onde já estava o arguido Asanko, que lhe entregou a metralhadora que
tinha retirado do compound.
Nesta parte não se acolhem as declarações deste arguido, uma vez
que nem ele, nem nenhum dos demais arguidos refere que o arguido
Ismael Sansão, em algum momento, entrou no compound. Assim, admite-
se que a arma lhe tenha sido entregue pelo arguido Ismael Sansão.
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Contudo, não se pode dar por provado que tenha sido este arguido a
subtraí-la do interior do compound.

69. e 70. Conforme resulta de fls. 3413, no dia 29 de Março de 2008 o


arguido Marcelo Caetano procedeu à entrega de tal arma no Memorial Hall
de Dili.
Segundo o relatório da perícia balística, esta arma disparou pelo
menos duas balas junto aos portões e coqueiro situados à frente do
compound (anexo A, número do item 6 e 7, a fls. 4727 dos autos –
tradução).
No entanto, nenhuma prova existe de que o arguido tivesse tal
arma na sua posse no momento dos acontecimentos, e que aqueles
disparos tenham sido direccionados contra o Presidente da República,
tanto mais que, segundo todos os testemunhos, o atirador disparou três
tiros e não apenas dois.

71. Conforme resulta do exame balístico efectuado aos fragmentos de


bala extraídos do Presidente da República, tais fragmentos não foram
disparados por nenhuma das armas examinadas, sendo que a arma
apreendida ao arguido (ATM 019336) foi examinada, conforme fls. 4736,
arma n. 11, e conclusão de fls. 4725.

72. a 74. Dos relatórios médicos constantes de fls. 3171 a 3196 e 3781 a
3785, resulta que o Presidente da República, na sequência das lesões
sofridas foi evacuado nesse mesmo dia para Darwin, tendo aí sido sujeito
a diversas intervenções cirúrgicas.
A acompanhá-lo seguiu Rosa Maria Carrascalão, irmã do Presidente,
que afirmou ter seguido com ele para a Austrália, tendo aí ficado duas
semanas. Na primeira semana o Presidente esteve de coma. A
testemunha veio a Dili por uma semana, após o que regressou à Austrália.
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O regresso do Presidente da República a Timor Leste três meses


depois dos acontecimentos, constitui um facto público, amplamente
divulgado pela comunicação social.

75. Declarações do Primeiro Ministro a fls. 5921 e seg, tendo afirmado


que a primeira informação recebida foi através de telefonemas do
Secretário de Estado da Segurança, o quel o informou que teria havido um
ataque à casa do Presidente da República, e que este tinha sido atingido.
Em face dessa informação, disse o Primeiro Ministro, saiu de casa entre as
7h30 e as 7h45.
A testemunha Alongkorn Kalayanasoontorn, UNPOL, que nesse dia
fazia a escolta ao Primeiro Ministro, confirmou que, depois de ter sido
comunicado ao Primeiro Ministro o ataque ao Presidente da República,
saíram de casa pelas 7h30.

76. a 80. A testemunha Alongkorn Kalayanasoontorn (em declarações


prestadas para memória futura, constantes de fls. 3959 a 3963), disse que
saíram da residencia do Primeiro Ministro três carros: um da PNTL que
seguia à frente; outro do Primeiro Ministro, e a terceira, conduzida pela
testemunha. No entanto, no seu depoimento, menciona também que uma
quarta viatura, conduzida pelo PNTL Abílio, seguia atrás da viatura
conduzida pela testemunha, pelo que, refere um total de quatro carros.
A testemunha Komsang Tookokgruad (em declarações prestadas
para memória futura, constantes de fls. 4041 a 4044), também UNPOL a
efectuar escolta ao Primeiro Ministro, menciona também a saída de três
veículos: o primeiro conduzido por um PNTL chamado Atoy e
acompanhado por outro PNTL chamado Azé; o segundo, com a matrícula
PM1 era onde seguia o Primeiro Ministro, sentado atrás, e conduzido por
Adolfo, acompanhado por Bobby; a terceira, com a matrícula UN617 era
conduzido pelo chefe da testemunha Alangkorn, onde seguia também a
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testemunha. Esta testemunha não menciona a existência de um quarto


veículo.
A testemunha Abílio Santos afirma que saíram quatro carros da
casa do Primeiro Ministro: o primeiro levava escoltas; o segundo levava o
Primeiro Ministro, um escolta e o motorista; o terceiro levava dois polícias
da UNPOL; e por último seguia a testemunha num quarto carro, um Pajero
com a matrícula 01-55G, o qual não estava em boas condições.
A testemunha Bobby Gonçalves disse que seguiram quatro carros, o
primeiro levava o Johnny e o José; o segundo levava o depoente Bobby
Agapito Gonçalves, o motorista Adolfo Soares e o Primeiro Ministro; o
terceiro era um carro da UNPOL onde seguiam o Alongkorn
Kalayanasoontorn e o Komsang Tookokgruad; e o quarto carro conduzido
pelo Abílio dos Santos, que vinha mais atrásm, a cerca de 30 metros.
A testemunha Adolfo Soares dos Santos, motorista do Primeiro
Ministro, disse que a coluna do Primeiro Ministro era composta por quatro
viaturas, não tendo explicado quem as conduzia e quem nelas seguia.
A testemunha Johnny Barbosa disse que conduzia o primeiro carro
da coluna, a cerca de 20 km/hora.
A testemunha José Maria Barreto Soares disse que seguiam em três
carros, o primeiro de escolta, o segundo com o Primeiro Ministro e o
terceiro, um carro da UNPOL. Não sabia que atrás deste, vinha um outro
carro saído da casa.

81. O arguido Júlio Soares Guterres disse que os que seguiam no carro
conduzido pelo arguido Gastão Salsinha colocaram-se na mata situada por
trás dessa casa, e os que seguiam no outro carro ficaram junto à estrada,
de acordo com ordens dadas pelo arguido Gastão Salsinha. Ouviu este
arguido a falar ao telefone com o Alfredo Reinado sobre a distribuição dos
homens no terreno.
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Conforme se mencionou já na resposta ao quesito 31, das


declarações dos arguidos não resulta qualquer menção aos nomes dos
arguidos João Amaral, Tito Tilman e Alfredo de Andrade, pelo que, à falta
de qualquer outra prova, impõe-se dar como não provada a presença
destes arguidos nos factos ocorridos em Balibar.

82. O arguido Júlio Soares Guterres disse que pelas 7h00 ouviram tiros de
rajada, provenientes do local onde os outros colegas se encontravam, na
parte de baixo da estrada.
O arguido Alexandre Araújo afirmou que por volta das 7h00, não
sabendo precisar a hora, viu os carros do Primeiro Ministro a passarem em
direcção a Dili, dois carros brancos, não sabendo dizer se eram seguidos
por outros carros. Do local onde o arguido se encontrava, viu o arguido
Adolfo a disparar três tiros para o ar. Depois ouviu muitos tiros, dados
pelos elementos do grupo, mas não viu quem foi, para além do Adolfo.
Depois subiu para um sítio por trás da casa do Primeiro Ministro, onde se
encontrou com os arguidos Cris (Bernardo da Costa) e Mane Forte
(Raimundo Maia Barreto), que lhe disseram que dispararam contra o carro
do Primeiro Ministro..
O Primeiro Ministro, no seu depoimento, afirmou que “Após uma
curva fechada e à saída de uma pequena ponte, sentiu-se a intensidade
de um fogo cerrado a alvejar o carro da frente e o nosso.(...) O vidro
lateral da porta do condutor foi atingido e ele disse-me “já partiram o meu
vidro” ao que respondi “continua a andar”. (...) No fim do último troço
mais comprido e recto da estrada, ainda conseguiram furar mais pneus.
(...) Pelos tiros apenas pude localizar que alguns estavam postados na
contracosta superior da estrada e outros na berma oposta. O início do
ataque foi a fogo cerrado”.
O arguido Avelino da Costa disse que, quando estavam espalhados
num ponto superior à casa do Primeiro Ministro, ouviu tiros. Nem ele, nem
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os colegas que estavam com ele dispararam tiros contra o carro do


Primeiro Ministro, sendo que nem viu os carros a saírem da casa.
A testemunha Bobby Gonçalves, escolta do Primeiro Ministro e que
seguia no carro deste, disse que a cerca de 400 metros da casa ouviu
tiros, tendo a primeira bala acertado no pneu esquerdo traseiro do carro
em que seguia. Julgou que era o pneu a arrebentar, mas depois ouviu
mais tiros de rajadas, e avisou o Primeiro Ministro que era um tiroteio.
Então viu que o vidro de trás tinha sido partido e que os vidros atingiram a
mão do Primeiro Ministro. Este ordenou-lhes para continuarem a marcha.
Apenas ouviu tiros vindos da parte da montanha.
A testemunha Adolfo Soares dos Santos, motorista do Primeiro
Ministro, disse que, a cerca de 500 metros da partida ouviu um barulho
julgando que eram as rodas. Mas o barulho continuou e pareciam-lhe
rajadas de arma. Acelerou e bateu no carro da frente. O primeiro tiro de
que se apercebeu como tal veio da parte da frente do carro, e depois
vários nas traseiras, que perfuraram o vidro traseiro, furando a cadeira do
condutor e o banco traseiro. Não viu de onde os atacantes dispararam.
A testemunha Johnny Barbosa disse que não longe da residência
ouviu tiros. Pelo espelho viu o carro onde vinha o Primeiro Ministro.
Desviou o seu carro para dar passagem ao do Primeiro Ministro, tendo
sido embatido por esse carro.
A testemunha José Maria Barreto Soares disse que ouviu tiros, não
sabendo de onde vinham. O carro onde seguia o Primeiro Ministro, que
vinha atrás de si, bateu no carro onde a testemunha seguia.
A testemunha Komsang Tookokgruad disse que após passarem 500
metros, na curva, ouviu dois tiros e viu uma pessoa com uma arma
comprida atrás de um muro, a disparar tiros contra a viatura do Primeiro
Ministro. O condutor do seu veículo parou a marcha, a testemunha saiu do
carro e atirou com 30 tiros até os mesmos acabarem. O homem fugiu do
local, que se situava a cerca de 50 metros da testemunha. Os tiros dados
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pela testemunha bem como pelo homem não atingiram ninguém. O


homem é magro, de tez escura e usava uma máscara no rosto. Ainda fora
do carro, ouviu tiros a serem disparados de três ou quatro lugares
diferentes.
Segundo afirma a testemunha, surgiu no local o segurança da
mulher do Primeiro Ministro, vindo de Dili, e ao chegar junto do carro da
testemunha parou o seu carro, saiu, e foi para junto da testemunha
Komsang, com uma pistola na mão.
A testemunha Alongkorn Kalayanasoontorn disse que após 500
metros sobre a casa do Primeiro Ministro ouviu dois tiros na estrada. Viu
uma pessoa levantar uma arma comprida atrás de um muro, a disparar
tiros contra a viatura do Primeiro Ministro. A testemunha parou a viatura e
mandou o seu colega do lado responder e atirar. O homem fugiu do local e
a situação acalmou. Ouviu disparos de tiros, vindos da montanha, de três
ou quatro lugares diferentes.
A testemunha Abílio Santos afirma que a cerca de 500 metros da
residência ouviu tiros. De imediato foi atrás, para se aproximar do local,
mas foi impedido pelo carro da UNPOL. Viu um UNPOL a responder aos
tiros na direcção de onde vinha o tiroteio.
A testemunha António Delgado, que vinha de Dili a caminho de
Balibar para começar o seu turno de segurança à mulher do Primeiro
Ministro, disse que cruzou-se com dois carros do convoy do Primeiro
Ministro, no local onde houve tiros. Ouviu os tiros depois do carro do
Primeiro Ministro ter passado por si. De imediato arrancou com o carro
que conduzia, sem parar, mas disse ao colega Abílio dos Santos, que
também encontrou, que estava a haver tiros, e seguiu para a residência.
No momento em que se cruzou com o Abílio, estava a cerca de 50 metros
do local onde estava o tiroteio.
Da conjugação de todos os depoimentos e declarações, conclui-se
que os tiros foram disparados pelos arguidos que se encontravam na
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estrada, de acordo com as instruções previamente recebidas do arguido


Gastão Salsinha, e que foram disparados por vários arguidos, colocados
em vários locais, não só da montanha situada à esquerda da estrada, mas
também do lado direito da estrada.
Analisado o mapa do local junto a fls. 559, e conforme se constatou
na inspecção efectuada ao local, verifica-se que, na curva onde as
testemunhas Komsang Tookokgruad e Alongkorn Kalayanasoontorn
afirmam ter visto um atirador, apresenta de facto um pequeno muro na
berma esquerda, sendo a berma direita uma ravina, que se prolonga até
uns metros mais à frente. Contudo, poucos metros mais à frente, é visível
na berma direita uma pequena plataforma, junto a várias árvores, onde é
possível a colocação oculta de um ou mais atiradores. Desse local obtém-
se visibilidade plena sobre a mencionada curva, sem que exista qualquer
obstáculo que impedisse um ou vários atiradores de atingirem o veículo
do Primeiro Ministro na parte direita do mesmo. Tanto assim é que, nesse
local, foram encontradas cápsulas de balas.
Por outro lado, após a mencionada curva, desenvolve-se uma
pequena recta (na qual se situa a mencionada plataforma na berma
direita), pelo que, nenhum obstáculo existia para que um ou vários
atiradores colocados na enconsta da montanha sita na berma esquerda,
pudessem atirar à traseira do veículo (o qual, após a curva, já não era
seguido pelo veículo da UNPOL que permaneceu parado, antes da curva).
Assim, a versão dos factos apresentada pela Defesa nas alegações
finais (em que se defendeu que um só atirador, colocado na curva, jamais
poderia efectuar os disparos analisados no veículo), não pode ter
acolhimento, na medida em que não tem em consideração que: apesar
das testemunhas só terem visto um atirador, várias delas referiram que os
tiros provinham de 3 ou 4 lugares distintos (tendo o Primeiro Ministro
referido expressamente que também vinham da berma direita da
estrada), tendo sido encontrados envólucros na berma direita da estrada;
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os tiros dirigidos à traseira do veículo não possuíam qualquer obstáculo a


interpor-se entre a encosta sita à esquerda e o veículo, na medida em
que, depois deste ter efectuado a curva, já não vinha a ser seguido pelo
veículo da UNPOL. Ou seja, os tiros da direita foram disparados antes do
carro efectuar a curva e no momento em que o carro passou pela recta, e
os tiros da traseira foram efectuados depois do carro descrever a curva.

83. Nenhuma das testemunhas inquiridas mencionou que os restantes


veículos tivessem sido atingidos por tiros. Os tiros que atingiram o veículo
do Primeiro Ministro são visíveis nas fotografias constantes de fls. 1919 a
1951.

84. Os danos verificados na viatura em que seguia o Primeiro Ministro


encontram-se fotografados a fls. 335 a 338 e 633 a 639 do Apenso III.

85. A testemunha Adolfo Soares dos Santos, motorista do Primeiro


Ministro, disse que, quando os disparos começaram a atingir o seu carro,
acelerou e bateu no carro da frente.
A testemunha Johnny Barbosa disse que desviou o seu carro para
dar passagem ao do Primeiro Ministro, tendo sido embatido por esse
carro. Após o que se despistou e caiu numa ravina.
Os danos verificados na viatura com a matrícula Sec1 encontram-se
fotografados a fls. 338 a 342 do Apenso III.

86. O fundamento da resposta ao quesito consta já na resposta ao quesito


82, tendo por base o que aí foi exposto a partir dos depoimentos das
testemunhas Komsang Tookokgruad,Alongkorn Kalayanasoontorn e Abílio
Santos, e que aqui se dá por reproduzido.
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87. Para a motivação deste facto, teve-se em conta os elementos


probatórios analisados na resposta ao quesito n. 89, para a qual se
remete.

88. Declarações do Primeiro Ministro constantes de fls. 5921 e seg., tendo


afirmado que depois de passarem Fatunaba, decidiram parar o veículo e
seguir a pé, tendo então pedido boleia a uma anguna.
Este depoimento é confirmado pelo da testemunha Adolfo Soares
que disse que em Fatunaba tiveram de parar o carro por causa do pneu, e
o Primeiro Ministro ordenou que descessem, seguindo todos a pé, após o
que pediram boleia a uma anguna.
Também a testemunha Bobby Agapito afirmou que pararam o carro
em Fatunaba porque já não estava mais em condições de prosseguir.

89. Conforme resultou provado, na sequência dos disparos efectuados, o


veículo em que seguia o Primeiro Ministro ficou com o vidro traseiro
partido, bem como com diversos orifícios de balas nas portas e no assento
dianteiro direito (resposta ao quesito 84), danos estes que se mostram
fotografados a fls. 335 a 338 e 633 a 639 do Apenso III. Tais danos são
incompatíveis com disparos meramente dirigidos aos pneus. Assim, pela
análise daqueles danos, depressa que conclui que os disparos não foram
apenas dirigidos aos pneus da viatura, mas também à sua parte superior,
nomeadamente, portas e vidro traseiro. O que é também amplamente
confirmado pela trajectória das balas efectuada na análise de fls. 1919
1943, sendo particularmente esclarecedoras as fotografias de fls. 1919,
1920, 1921, 1923, 1924, 1929, 1934, 1931, 1937, 1941, que demonstram
que várias balas cruzaram o habitáculo do veículo, à altura da cabeça e
corpo dos seus ocupantes.
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90. As testemunhas Komsang Tookokgruad e Alongkorn Kalayanasoontorn


afirmaram que, uma vez findo o tiroteio, regressaram à residência do
Primeiro Ministro, uma vez que aí se encontravam a sua mulher e filhos.
A testemunha António Delgado afirmou ter sido ele a comunicar aos
agentes da UNPOL que seria necessária segurança na residência, uma vez
que estava lá a mulher e filhos do Primeiro Ministro sem protecção.

91. a 93. O arguido Júlio Soares Guterres disse que, já depois de terem
ouvido os tiros, os arguidos Apai (Avelino da Costa) e Joni (Julião António
Soares) dirigiram-se ao portão da casa do Primeiro Ministro, onde
estiveram a falar com os colegas da PNTL que faziam a segurança da
casa.
O arguido Avelino da Costa disse que quando estavam espalhados
num ponto superior à casa do Primeiro Ministro, ouviu tiros, após o que
desceram para junto da casa do Primeiro Ministro. Uma vez aí, o arguido
Avelino foi falar com os seguranças António e Aroke, mas não lhes pediu
armas.
A testemunha António Caldeira Delgado Duarte disse que ouviu
gritos exigindo que saíssem da casa com as mãos no ar. Perguntou ao
Roque Exposto se os conhecia, tendo este dito que sim. Então, o Roque
chamou pelo arguido Avelino da Costa, e foi encontrar-se com os arguidos
Avelino e Gastão Salsinha na parte traseira da residência. Após a
conversa, o Roque voltou dizendo que eles queriam as armas que
existissem na casa, mas o Roque disse-lhes que não as entregava.
Passado cinco minutos, o arguido Avelino da Costa desceu do lugar onde
se encontrava, e chamou pelos quatro (a testemunha António Delgado,
Roque Exposto, Antero da Costa e João Barreto). Foram ter com o arguido
ao campo de basquete, e ele voltou a exigir as armas. As testemunhas
disseram que estariam já a chegar as forças australianas, pelo que o
arguido saiu do local, foi falar com o arguido Salsinha, e dali saíram para a
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montanha. Os atacantes estavam armados e cercavam a residência. Viu


cinco armas de longe, incluindo a do arguido Avelino.
A testemunha Roque Exposto disse que viu o grupo do Salsinha
entrar na residência fardados e armados, e gritaram para levantarem as
mãos e baixarem as armas. Conseguiu então falar com o arguido Avelino,
indo ter ao local onde este estava, tendo sido apresentado ao arguido
Salsinha. Passou por entre duas pessoas do grupo, que estavam armadas.
O arguido Salsinha disse-lhe para entregarem as armas, e a testemunha
disse que não lhe podia entregar as armas, após o que regressou para
junto dos seus colegas. Mais tarde, o arguido Avelino voltou a chamá-los
aos quatro, exigindo a entrega das armas, tendo a testemunha recusado
novamente.
A testemunha Antero da Costa viu pessoas armadas e com
máscaras na montanha junto da residência. Gritaram para não levarem a
mulher do Primeiro Ministro para Dili mas sim para a montanha, e os
escoltas disseram que não podiam. Estava com o António Delgado, o
Roque Exposto e dois elementos da guarda residencial. Roque Exposto foi
até ao campo de basquete e falou com eles, mas não identificou a pessoa
com quem ele falou. A residência estava cercada, mas não sabe o número
certo, tendo visto cerca de sete pessoas.
A testemunha João Barreto disse que viu pessoas fardadas e
armadas a cerca de 50 metros, escondidos atrás de arbustos. Ouviu gritos
a dizerem para baixarem as armas. Chamaram o Roque para ir falar com
eles, mas não sabe sobre o que falaram, nem disse quem estava lá em
cima.
Dos depoimentos das testemunhas António Delgado e Roque
Exposto resulta que os arguidos Avelino da Costa e Gastão Salsinha
pediram efectivamente as armas dos seguranças da casa, pelo que, nessa
parte, não se considera credível a declaração do arguido Avelino da Costa,
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o qual não adiantou qualquer razão para o facto de ter falado com os
seguranças.

94. O arguido Amaro da Costa afirmou que, depois de terem saído do


local, foram juntos a pé até Maubisse, e uma vez aí, cada um foi para seu
lado, havendo alguns elementos do grupo que foram para Atsabe, em
Ermera, à procura do Gastão Salsinha.
O que é confirmado pelo arguido Paulo Neno Leos, que afirma que,
depois de terem subido até Fatu Ahi, o grupo separou-se, tendo o arguido
seguido com o Susar (Amaro da Costa), Gilson, Marcelo Caetano, Joanino e
Mota.
O arguido Júlio Soares Guterres afirmou que, após os
acontecimentos foi para Lauala com o grupo do arguido Salsinha, e depois
foram todos para Letefoho, tendo-se separado aí, sendo que o arguido se
escondeu no mato por duas semanas.
O arguido Alexandre de Araújo, afirmou que estava escondido em
Ainaro juntamente com o arguido Mane Forte (Raimundo Maia Barreto).
Saiu do local com o arguido Bernardo da Costa e Raimundo, separando-se
os arguidos Alexandre e Raimundo do arguido Bernardo no cruzamento de
Remexio.

95. Estes arguidos vieram a ser capturados na Indonésia e extraditados


para Timor Leste onde foram entregues à justiça pelas autoridades
indonésias, conforme está referido nos autos.

96. Facto do conhecimento público, tendo sido autorizado o decretamento


do estado de sítio pelas leis n. 1, 2, 4, 5 e 7 de 2008, e determinado pelos
decretos presidenciais n. 43, 44, 45, 48 e 49, todos de 2008.
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97. A fundamentação a este quesito encontra-se fundamentação da


resposta dada ao quesito 106.

98. Conforme declarações prestadas pelo arguido Amaro da Costa em


primeiro interrogatório (fls. 1148).

99. Conforme autos constantes de fls. 3407 a 3430. Os arguidos


Raimundo Maia Barreto (em declarações prestadas em primeiro
interrogatório judicial – fls. 1828 e seg); Januário Babo (em declarações
prestadas em primeiro interrogatório judicial – fls. 1828 e seg); e Bernardo
da Costa (em declarações prestadas em primeiro interrogatório judicial –
fls. 1756 e seg.), confirmaram ter na sua posse as armas que lhes foram
encontradas no momento das respectivas entregas às autoridades.

100., 101. e 103. Os arguidos, ao abandonarem voluntariamente a


estrutura militar e policial, com a intenção de por essa via, isoladamente
ou integrados em movimentos, procederem a reivindicações de variada
ordem, sabiam que, a partir desse momento, deixavam de estar ao
serviço das instituições, porque voluntariamente se desligaram das
estruturas de comando. O facto de, simultaneamente ou em momento
posterior terem aderido a um grupo formado por militares e polícias que
também eles voluntariamente abandonaram as instituições em que
estavam, não constituiu uma reintegração nas anteriores estruturas, as
únicas legalmente válidas.
Assim, ainda que conservando o estatuto militar ou policial (por as
instituições não os terem suspenso ou expulso no seguimento da situação
de abandono que protagonizaram), sabiam que não estavam ao serviço de
nenhuma daquelas instituições, nem agiam ao abrigo de ordens
emanadas de tais instituições (mesmo que, alguns dos elementos do
grupo, que assumiram atitudes de liderança, fossem seus superiores
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hierárquicos em termos meramente estatutários). Na situação de facto em


que se encontravam, não estavam os arguidos a agir sob qualquer
estrutura legalmente hierarquizada.
Como tal, não podiam deixar de saber que, em tais circunstâncias,
não estavam a usar as armas no exercício das suas normais funções
militares, as quais, voluntariamente, abandonaram ou suspenderam.
Sabiam, portanto, que o uso de tais armas, fora do exercício das
suas funções, não lhes era permitido, e, face às profissões que todos
exercíam, não podiam deixar de saber também que o uso de armas em
tais circunstâncias era proibido e punido por lei.
Mais sabiam que, não estando a exercer funções militares ou
policiais, e estando, de facto, desvinculados das instituições a que
pertenciam, não podiam fazer uso de armas sem prévia licença de uso, a
qual não possuíam.

102. Tendo os arguidos feito uso das armas para com elas realizarem dois
atentados, um contra o Presidente da República, outro contra o Primeiro
Ministro, não podiam deixar de ter previsto as consequências resultantes
desses seus actos, nomeadamente, a instabilidade política que gerariam
caso os atentados viessem a consumar-se, numa situação de insegurança
já existente desde 2006, a qual justificou o reforço da presença militar
internacional. Aliás, mesmo sem a consumação dos atentados, foi
evidente a instabilidade decorrente dos factos, a qual, como resultou
provado, determinou a declaração do estado de sítio por um período de
três meses, o que, por força da Constituição, só pode ser declarado em
caso de grave perturbação ou ameaça de perturbação séria da ordem
constitucional democrática ou de calamidade pública – art. 25, n.2 da
CRDTL.
Sendo feita essa avaliação política da situação do país, não pode
deixar de se concluir que uma tal situação importa sempre o medo e
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receio na comunidade, o que os arguidos não podiam deixar de prever e


pretender.

104. É do conhecimento comum que uma arma de fogo,


independentemente do seu modelo ou das características que possua,
tem um potencial letal.
Os arguidos, sendo militares e agentes de segurança, melhores
conhecimentos terão, por via da formação profissional recebida, sobre o
potencial lesivo e letal das armas que utilizaram, pelo que sabiam que a
utilização das mesmas era apta a causar a morte quando disparadas.

105. Sendo os arguidos conhecedores da aptidão letal das armas por si


utilizadas, por maioria de razão sabiam também que, quando utilizada
contra determinada pessoa, mesmo que os disparos não determinassem a
morte do atingido, poderiam causar-lhe lesões físicas suficientemente
graves para impedir o atingido de executar os actos normais da vivência
quotidiana.
Assim, sendo o atingido o Presidente da República, sabiam os
arguidos que os disparos contra ele efectuados, caso viessem a atingí-lo,
como atingiram, poderiam causar a morte do Presidente da República, ou,
não se verificando esse resultado, poderiam causar-lhe lesões físicas de
gravidade bastante que o impedissem de exercer as suas funções, como
efectivamente sucedeu.

106. Quanto à intenção dos arguidos pretenderem matar o Presidente da


República, entende o Tribunal que a mesma se encontra expressa nos
factos materiais dados por provados.
Nenhum dos arguidos que pretendeu prestar declarações afirmou
saber que o objectivo da deslocação a Dili era provocar um atentado do
qual resultasse a morte do Presidente da República. Pelo contrário, tais
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arguidos, ou afirmaram não saber o motivo dessa deslocação, ou


afirmaram que o Alfredo Reinado lhes tinha dito que viriam para uma
reunião com o Presidente da República.
A defesa dos arguidos, apesar de não ter apresentado contestação
alegando a tese de uma cilada contra o grupo de Alfredo Reinado,
pretendeu ao longo do julgamento, apresentar provas em como tal cilada
efectivamente ocorreu (na medida em que tais factos não foram alegados
em nenhuma das contestações, e não resultaram também da discussão da
causa, não foram os mesmos sujeitos a quesitação, conforme decorre do
art. 278, n.3 do CPP). Segundo a versão da defesa, Alfredo Reinado e o
seu grupo terá sido atraído para a residência do Presidente da República,
com o pretexto de uma reunião a ter lugar nesse local, e uma vez no
interior da residência, terá sido executado, juntamente com Leopoldino.
Para provar esta tese, no entender da defesa, seria bastante a
circunstância da autópsia efectuada aos dois cadáveres revelar que os
tiros que os atingiram terem sido disparados a curta distância, bem como
a circunstância do resultado da perícia balística revelar que a arma que
disparou os tiros que os atingiram não ter sido a arma utilizada por
Francisco Marçal (que assumiu ter sido o atirador que os matou). Assim,
face a esses dois meios de prova, poderia concluir-se que as testemunhas
inquiridas, e que estariam no interior da residência, teriam mentido nos
seus depoimentos.
Ou seja, porque Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto foram
atingidos por balas desferidas de armas não identificadas e disparadas a
curta distância, poderia concluir-se de tal facto que foram executados; a
terem sido executados, poderia concluir-se que foram surpreendidos; a
terem sido surpreendidos, poderia concluir-se que foram atraídos para o
local sob um pretexto falso; a terem sido atraídos sob um pretexto falso,
poderia concluir-se que foram chamados para uma reunião convocada
pelo Presidente da República.
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O facto da testemunha que assumiu ter sido o autor dos disparos


contra Alfredo e Leopoldino ter mentido, não significa, só por si, que se
possa concluir ter ocorrido uma execução. Conforme se viu já, a
testemunha em causa não falou a verdade quando afirmou que só
disparou dois tiros (de três balas cada um), e que foi ele o autor das
mortes. Tal como se viu, aquela testemunha disparou sim uma rajada de
tiros, e o tiro que atingiu Leopoldino Exposto, e pelo menos um dos tiros
que atingiu Alfredo reinado não foram disparados da arma que a
testemunha afirmou ter usado. Daqui pode pois concluir-se que houve
outra arma e outro atirador envolvido na morte de ambos.
Dessa conclusão pode extrair-se que ambos foram executados?
Não. No recinto onde os dois se encontravam estavam vários outros
militares para além do identificado Francisco Marçal; em vários locais do
recinto havia armas militares; e o local em causa possui vários edifícios e
árvores que permitem a ocultação de um atirador que, à semelhança de
Francisco Marçal, pudesse disparar contra os dois. Poderiam pois existir
dois ou mais atiradores no local (única conclusão que o relatório pericial
de balística permite), sem que daí se possa concluir que ocorreu uma
execução.
Quanto à circunstância da autópsia revelar sinais de tiros
efectuados a curta distância, conforme se explicou já e se fundamentou, o
Tribunal não acompanhou as conclusões da autópsia nessa parte, pelo
que não concluiu no mesmo sentido.
Mas ainda que se admitisse que os tiros foram disparados a uma
curta distância e que estiveram envolvidos vários atiradores (ou seja, que
ocorreu uma execução sumária), poderia, ainda assim, dizer-se que estes
foram atraídos para uma cilada? Não. Poderia apenas concluir-se que eles,
antes de terem sido executados, foram detidos.
Ora, a detenção dos dois naquele local não seria um facto estranho
à luz das regras da experiência comum. Ainda que ambos pudessem ter
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forte preparação e experiência militar, encontravam-se num local que não


era por eles conhecido (pois que o não frequentavam), e onde
permaneciam vários militares, com fácil acesso a armas, e que
diariamente trabalhavam e dormiam no local. Não se vê porque motivo
seria impossível proceder à captura de ambos, ou porque é que tal
captura só seria possível num quadro de cilada. As qualidades militares
reconhecidas a Alfredo Reinado não lhe conferiam um estatuto de
incapturável, muito menos num local seguro por outros militares na posse
de armas, cujo número exacto aquele desconhecia, não estando também
familiarizado com as características do local.
Assim, ainda que se admita a hipótese da execução (a qual não
parece estar apoiada em indícios suficientemente fortes), tal não permite,
contudo, dar um salto lógico no sentido de se considerar que existiu uma
cilada. A hipótese de uma captura prévia a essa eventual execução é
também logicamente admissível.
E falamos de saltos lógicos porque, a tal respeito não se produziu
qualquer prova:
No que diz respeito à prévia detenção seguida de execução, não se
produziu essa prova por se entender que não era este o lugar adequado
para esse efeito, em que não se apura da responsabilidade penal dos
autores dos homicídios de Leopoldino Exposto e Alfredo Reinado;
No que diz respeito à existência de uma cilada, não se produziu tal
prova porque não foram apresentadas provas nesse sentido.
Com efeito, apesar de tentar demonstrar que existiu um engodo
para atrair o grupo àquele local, não fez a defesa qualquer prova da
existência de um qualquer facto donde se pudesse extrair tal conclusão.
Repetidas vezes foi mencionada a existência de uma convocatória para
uma reunião secreta com o Presidente da República, mas nenhuma prova
foi feita a tal propósito (uns meros recortes de jornais mencionando a
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existência de um suposto sms com tal conteúdo não poderão constituir


meio de prova cabal para um tal facto).
A própria arguida Angelita Pires, provavelmente a pessoa
sentimentalmente mais próxima de Alfredo Reinado naqueles momentos,
e que por diversas vezes foi sua conselheira, afirmou expressamente
desconhecer a existência de uma tal reunião, e sequer saber que o Alfredo
Reinado tinha decidido vir a Dili. Não se vê pois como a sua defesa alega a
existência de um facto que a própria arguida desconhece, quando de
todos os arguidos, seria a que estaria em melhores condições de saber.
Mas vamos admitir que a arguida não soubesse da existência dessa
reunião, e ainda assim, ela tivesse sido convocada com objectivos ocultos.
Importa por isso analisar se o comportamento assumido por Alfredo
Reinado se compatibiliza com a existência de uma reunião.
A partir dos factos dados por provados, muitos deles
fundamentados a partir das declarações dos arguidos, ao chegarem ao
local, Alfredo Reinado e o seu grupo agem no sentido de imobilizar o
segurança do portão, retirando-lhe a arma. Contudo, Alfredo Reinado e
mais três elementos do grupo entram armados no recinto. Tendo sabido
que o Presidente da República não se encontra no local (por ter sido
informado disso pelo próprio segurança da entrada), ainda assim procura
saber onde fica situado o quarto de dormir do Presidente. E em seguida,
dá ordens de imobilização aos seguranças que encontra, retirando-lhes as
armas. Tudo comportamentos incompatíveis com quem se apresenta para
uma reunião, supostamente destinada a resolver um longo diferendo.
Mas, na verdade, tais comportamentos já se mostram compatíveis com a
intenção de provocar um atentado.
Segundo as regras da lógica e da experiência comum, quem,
encontrando-se armado e acompanhado de um bando de homens
armados, depois de invadir a residência presidencial, de desarmar os
seguranças, e de procurar pelo quarto onde dorme o Presidente da
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República, não pretende apenas comparecer a uma reunião para a qual foi
convocado para resolver um problema que é seu, mas sim para atentar
contra a vida do Presidente. E para que essa lógica e essas regras sejam
contrariadas, é necessária muita prova que aponte em sentido diverso. E
essa prova não foi feita, nem a argumentação apresentada, construída a
partir de extrapolações sobre extrapolações, é forte o bastante para
suscitar, sequer, uma dúvida razoável, muito menos uma dúvida forte e
insanável que permitisse afastar a convicção do Tribunal baseada nas
provas produzidas.
Em face de quanto fica dito, é o tribunal levado a concluir, a partir
dos factos provados, que a intenção de Alfredo Reinado, quando se
desloca a Dili, é a de atentar contra a vida do Presidente da República.
Importa agora saber se essa intenção era do conhecimento dos
arguidos, e se estes aceitaram participar nos actos destinados a
concretizar essa intenção, partilhando dela.
Como se viu já, os arguidos que prestaram declarações negam ter
conhecimento dessa intenção, referindo que lhes foi dito que viriam a Dili
para uma reunião.
Admitindo essa possibilidade, colocam-se ao portão da residência
presidencial, com a mera intenção de efectuarem segurança a Alfredo
Reinado que, supostamente, entrou para comparecer a uma reunião. A
dada altura, depois de ouvirem tiros no interior do compound, são
surpreendidos pela notícia de que Alfredo Reinado foi morto. Quase em
simultâneo, surgem tiros do interior do compound, e surge um carro das
F-FDTL que é atingido no meio dos tiros. Ou seja, o plano que lhes foi
comunicado é totalmente alterado, e a liderança do grupo desaparece
subitamente.
Perante este quadro factual, diz a lógica, e a boa fé, que a atitude
mais consentânea com factos tão surpreendentes será a de procurar fugir.
Mas não é isso que acontece. Perante algo totalmente inesperado para
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quem iria apenas a uma reunião, um ou vários dos arguidos deixa-se ficar
no local, de tocaia, e espera que o Presidente da República regresse do
seu passeio matinal. E espera ainda durante largos minutos, considerando
a distância a que o Presidente da República se encontrava no moemnto
em que ocorre o tiroteio em sua casa. E ao vê-lo aproximar-se da casa,
surge na estrada e dispara três tiros dirigidos à figura.
Não se trata de uma reacção lógica para quem vem a uma reunião
e é surpreendido por um ataque a quem lidera o movimento a que
pertence.
Mas já é compreensível e lógico se, quem assim agiu, o fez no
quadro de um plano destinado a matar o Presidente. Frustrada a primeira
parte do plano, uma vez que o Presidente não se encontra em casa,
permanece ou permanecem no local para executarem os objectivos do
plano, porque sabe que dentro em breve o Presidente virá do seu passeio
(conforme os arguidos sabiam).
E caso pensassem que tinha sido montada uma cilada, ainda menos
compreensível e lógico seria que permanecessem à espera do regresso do
Presidente. Num quadro de conspiração seria muito pouco provável que o
Presidente da República aguardasse pelo desenrolar dos acontecimentos
planeados na praia mais próxima, e regressasse a casa sem antes ter a
confirmação de que tudo estaria consumado. Numa tal hipótese, dizem
também as regras da lógica, o Presidente da República nunca estaria
naquele local nem em local próximo, e nunca regressaria a casa pelo seu
pé sem se certificar do que havia sucedido. Assim, se um ou mais
arguidos aguardam no local o regresso do Presidente, é porque não estão
a pensar que foram atraídos para uma cilada.
Ao esperarem pelo Presidente, é porque sabem que ele, com toda a
probabilidade virá, seja porque não se apercebeu de nada, seja porque
pretende saber o que se passou na sua ausência.
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Admitamos agora a hipótese dos disparos efectuados contra o


Presidente terem sido motivados por uma intenção de vingança:
apercebendo-se os arguidos terem sido alvo de uma emboscada, um deles
decidiria vingar-se do Presidente, atingindo-o. Num tal caso, teríamos de
considerar excluída a possibilidade da co-autoria, na medida em que a
intenção de matar teria sido singular, e não foi dada a conhecer aos
restantes. Mas também aqui é de afastar tal hipótese pelas razões já
apontadas: num quadro de emboscada planeada, o Presidente da
República não estaria a passear na praia, nem se aproximaria da casa, a
pé, sem previamente se certificar que não havia o mínimo risco para a sua
pessoa. Uma vez mais, num quadro lógico, a intenção de vingança que
surgisse naquele momento, só poderia ser concretizada em momento
posterior, de nada valendo a quem tivesse uma tal intenção, permanecer
de tocaia à espera que surgisse o alvo da vingança.
Assim, por aplicação das regras da experiência aos factos dados por
provados, teremos de ser levados a concluir que os arguidos, ao contrário
do que alguns deles afirmaram, sabiam todos que a deslocação se
destinava a matar o Presidente da República (independentemente se
souberam dessa finalidade com vários dias de antecedência ou enquanto
se deslocavam para o local), resultado este que aceitaram e assumiram
também como pretendido por si, tendo agido em conformidade com o
plano desenvolvido e destinado a concretizar essa vontade por todos
partilhada.
Nesta parte, entendeu o Tribunal não conferir credibilidade às
declarações dos arguidos. Sem que daqui resulte qualquer contradição no
plano dos princípios de análise da prova (conforme se explicou já na parte
introdutória à motivação da decisão de facto).
No caso presente, os arguidos afirmam que participaram na
totalidade dos factos, excepto naqueles que se mostram indispensáveis à
sua responsabilização criminal. Uma tal declaração pode ser verdadeira ou
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não, consoante se mostre coerente com os demais meios de prova, e


assuma alguma lógica do prisma da experiência comum.
Ora, conforme se viu já, o desconhecimento declarado por parte dos
arguidos quanto à verdadeira intenção da deslocação, não se conjuga com
os actos executados e dados por provados, não se enquadra na lógica
desses factos, e, por fim, não está sustentada por qualquer outro meio
probatório.
Por fim, quanto à intenção da arguida Angelita Pires querer matar o
Presidente da República, foi o facto dado por não provado, uma vez que,
dos demais factos dados por provados relativamente a esta arguida não
se pode concluir que ela pretendesse um tal resultado.
Parece evidente que a arguida não confiava nem no Presidente da
República nem no Primeiro Ministro quando estes demonstravam alguma
intenção de resolver os problemas por via consensual. Parece também
evidente que a arguida, pelo menos uma vez, procurou convencer, com
sucesso, Alfredo Reinado a não acreditar quer num, quer noutro. Pelo
menos por uma vez, a arguida, referindo-se a determinado cenário que se
desconhece, afirmou: “se forem, terão de os matar”, e algo do género “se
os fizerem reféns, será pior”. Resultou também provado que a arguida
mencionou a existência de uma conspiração do Primeiro Ministro e do
Presidente da República para matarem Alfredo Reinado.
Ou seja, por diversas vezes, a arguida manifestou a sua opinião
contra o Presidente da República e Primeiro Ministro, não confiando neles,
e considerando-os suspeitos de uma conspiração contra Alfredo Reinado.
Perante cenários que se desconhecem, a arguida afirmou que, a
concretizarem-se, a morte quer dum quer do outro seria a única saída
possível.
Daí a concluir-se que o objectivo da arguida seria o de causar a
morte de ambos, vai um salto lógico que o Tribunal se vê impossibilitado
de fazer.
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A desconfiança e o aconselhamento de cautelas não poderão nunca


ser tidos como reveladores de uma intenção de homicídio.
A difusão de eventuais conspirações, bem como a configuração de
soluções radicais em cenários hipotéticos indicia, sem margem de dúvida,
uma intenção de desestabilizar (a menos que a arguida tivesse algum
fundamento para as crer como verdadeiras, o que também não o revelou).
Mas, inseridos os factos no seu contexto, deve entender-se que tal
desestabilização incidia sobre um processo negocial que se encontrava
em curso, e não tanto numa situação genérica de instabilidade total, para
a qual fosse imprescindível a morte quer do Presidente da República, quer
do Primeiro Ministro.
Ou seja, pode dizer-se que, se Alfredo Reinado tinha a intenção de
matar ambos, a arguida, com a sua actuação, não contribuiu para o
demover de tal intenção. Daí a dizer-se que partilhava com ele essa
intenção e pretendia, também ela, vê-la concretizada, é conclusão que
não se mostra apoiada em factos dos quais, logicamente, se poderá
extrair.

107 e 110. Face ao plano executado, e aos meios empregues nessa


execução, tem que se concluir que os arguidos assumiram como
necessária a morte dos seguranças que realizassem a sua função de
impedir a concretização do plano.
Na verdade, de acordo com as regras da experiência comum,
pretendendo-se obter um determinado resultado ilícito, e executando-se
factos conducentes a um outro resultado também ilícito que não o
primeiramente definido, mas que se destinam a remover um obstáculo à
concretização daquele primeiro resultado, impõe-se considerar que os
factos executados para a concretização da remoção do obstáculo são
assumidos pela vontade de quem os pratica, como resultados necessários
à concretização do objectivo principal.
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108 e 109. Conforme resultou da resposta dada aos quesitos 49 e 51,


não resultou provado que os tiros que atingiram Celestino da Gama e
determinaram o despiste do veículo em que este seguia, tenham sido
disparados pelos arguidos durante o tiroteio ocorrido no exterior do
compound.
Não se tendo feito a prova de tais factos materiais, não é possível
extrair-se dos mesmos um qualquer processo intencional por parte dos
arguidos relativamente aos factos ocorridos, cuja autoria e execução não
lhes foi imputada.

111. A fundamentação deste facto encontra-se já na fundamentação da


resposta ao quesito n.106.

112. Nenhum facto material revela que o plano inicialmente definido


pelos arguidos (ou ao qual estes aderiram, e no qual participaram)
envolvesse, também o roubo das armas que encontrassem. Por outro
lado, a execução do plano ao qual os arguidos aderiram não implicava,
necessariamente, a subtracção de armas.
Deve pois entender-se que a subtracção efectivamente verificada
ficou a dever-se à intenção individual de quem a efectuou,sendo que,
conforme resulta da fundamentação à resposta dada aos quesitos 68 e 39,
não se apurou a identidade dos arguidos que subtraíram as armas.
Entende-se, por isso, que não existem factos materiais dos quais se
possa conluir que existiu uma intenção partilhada por todos os arguidos
no sentido de subtraírem e fazerem suas duas armas que se encontravam
no local.

113. Conforme resultou da resposta dada aos quesitos 31 e 81, não


resultou provado que os arguidos Tito Tilman, Alfredo de Andrade e João
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Amaral tenham estado presentes em Balibar, ou por qualquer outra forma,


tenham tido intervenção na planificação ou execução do plano de
atentado ao Primeiro Ministro ocorrido em Balibar.
Assim, não existem factos materiais relativamente a estes arguidos,
dos quais se possa extrair uma intenção destes arguidos em verem
verificado tal resultado.
Quanto à arguida Angelita Pires, remete-se a fundamentação da
presente resposta para a fundamentação já dada na resposta ao quesito
106, e que aqui se dá por reproduzida, na medida em que as
considerações aí expostas mantêm aqui a sua plena pertinência.
Quanto aos demais arguidos, afirma o arguido Alexandre Araújo que
a verdadeira intenção da deslocação a Balibar foi comunicada ao grupo
em que o arguido se encontrava, localizado junto à estrada, pelo arguido
Adolfo, tendo este arguido dito que estariam naquele local para atacarem
o Primeiro Ministro.
Já o arguido Júlio Soares Guterres afirmou que a intenção da
deslocação foi comunicada ao seu grupo (que se localizou acima da casa
do Primeiro Ministro) pelo arguido Gastão Salsinha, ainda no caminho para
Balibar, tendo dito que iriam raptar o Primeiro Ministro.
Por fim, o arguido Avelino da Costa afirmou que não sabia o porquê
da deslocação a Dili, tendo pensado que vinham fazer segurança ao
Alfredo Reinado. Este arguido, conforme se viu já, vinha no carro do
arguido Gastão Salsinha quando este, na versão do arguido Júlio Soares
Guterres, informou que iriam raptar o Primeiro Ministro. Logo por aí,
exclui-se a credibilidade da sua declaração quanto à inocente intenção de
fazer segurança a uma reunião do Alfredo Reinado, o qual nem sequer se
encontrava naquele grupo.
Quanto à intenção de rapto, é a mesma descridibilizada pela
colocação que este grupo de arguidos assumiu no terreno. Não se vê que,
pretendendo os arguidos raptar o Primeiro Ministro, se tenham colocado
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nas traseiras da casa deste, local por onde este nunca passaria, como não
passou. A menos que pretendessem efectuar o rapto quando este se
encontrava ainda na sua residência. Mas a ser assim, fica por explicar
porque motivo se colocou um grupo de atiradores na estrada, 500 metros
abaixo da residência. E porque motivo foi dito a estes atiradores que a sua
presença naquele local tinha por fim fazer um ataque ao Primeiro Ministro.
Já uma tal colocação sobre a casa do Primeiro Ministro se mostra
adequada a uma intenção de homicídio, na medida em que, conforme se
constatou na inspecção ao local, todo o exterior da residência ficaria
facilmente sob a mira de atiradores colocados na posição em que os
arguidos afirmaram que se colocaram e em que, mais tarde, foram vistos
pelas testemunhas, caso o Primeiro Ministro saísse para o exterior da
residência. Daí a razão de ser da existência de um grupo nesse local, e de
um outro colocado na estrada de descida para Dili, caso o primeiro grupo
não tivesse a oportunidade de efectuar os disparos.
Entende-se pois que, todos os elementos dos dois grupos foram, em
algum momento informados que o motivo da sua deslocação àquele local
seria a de matarem o Primeiro Ministro, motivo esse que aceitaram, com o
qual concordaram, e passaram a pretender também.
Que a intenção dos arguidos estava para além de um rapto resulta
patente da forma como foram desferidos os tiros contra a viatura em que
seguia o Primeiro Ministro. Conforme se viu já, tais tiros não se dirigiram
exclusivamente aos pneus. Pelo contrário, atingiram portas, quebraram
vidros, e penetraram no interior do habitáculo, perfurando os bancos dos
passageiros. Os tiros, conforme resulta da fundamentação dada aos factos
respectivos, foram provenientes de várias armas, situadas em locais
diversos. Foram também desferidos de acordo com as instruções
recebidas.
Pelo que, é por demais evidente a intenção de matar o Primeiro
Ministro, intenção esta partilhada por todos os elementos do grupo que se
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encontrava em Balibar, estivessem eles colocados sobre a residência, ou


junto à estrada, onde o atentado ocorreu.
Quanto a estes acontecimentos mostra-se totalmente deslocada a
hipótese da conspiração contra o grupo de Alfredo Reinado, uma vez que
aqui, o grupo não foi alvo de qualquer agressão.
Mas, não podendo este facto ser desligado dos acontecimentos
ocorridos em Metiaut, dado o facto de terem ocorrido quase em
simultâneo, sai ainda mais descridibilizada a tese da conspiração ou
cilada.

114., 115., 116. e 128. Conforme resulta dos factos dados por provados
a propósito desta ocorrência, apesar do veículo do Primeiro Ministro ser o
segundo de um convoy composto por três ou quatro veículos, só esse
veículo foi atingido pelos tiros disparados da estrada.
Quisessem os arguidos matar os ocupantes dos demais veículos
para evitar que estes agissem em defesa do Primeiro Ministro, poderiam
atingir esses veículos da mesma forma que atingiram o do Primeiro
Ministro, pois esses veículos estavam tão acessíveis aos arguidos como
aquele.
Contudo, os arguidos, mesmo com os veículos em movimento,
atingiram apenas um só veículo, o que revela que não teriam a intenção
de atingir os demais, nem julgavam necessário fazê-lo para que a sua
intenção se concretizasse.
Assim, impõe-se dar como provado que os arguidos apenas
consideraram necessária a morte dos ocupantes que seguiam no veículo
do Primeiro Ministro.
Pela mesma ordem de razões, entendeu o Tribunal que apenas se
pode dar como provado que os arguidos pretenderam danificar aquela
viatura e não qualquer outra onde os demais segurança seguiam. Aliás, os
danos verificados na viatura Sec1, que seguia à frente, não resultaram de
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qualquer acção dos arguidos, nem tinham necessariamente de ser por


eles previstos como consequência necessária ou eventual do seu plano
conforme estes o executaram.

117. A resposta a este quesito consta já da resposta dada ao quesito


113.

118. A resposta a este quesito resulta, quanto mais não seja, da


profissão exercida pelos arguidos, que lhes conferiu formação específica
na área do Direito Penal na parte respeitante aos crimes contra a vida,
bem como em atentados contra titulares de orgãos de soberania, e ainda
de crimes contra o património.

119. Todas as condutas praticadas pelos arguidos eram aptas a causar


os resultados por eles pretendidos, os quais só não se verificaram por
força do acaso (conforme sucedeu no atentado contra o Primeiro Ministro
e seus seguranças), ou pelo facto dos atingidos se terem escondido ou
fugido (conforme sucedeu na residência do Presidente da República), ou
pelo facto de ter recebido a necessária assistência médica destinada a
evitar que as lesões produzidas viessem a causar a morte (conforme
sucedeu com o Presidente da República).
No que diz respeito a Celestino Gama, conforme se viu, não é
possível imputar as consequências das lesões por ele sofridas a qualquer
conduta dos arguidos.

120. A resposta a este quesito resulta da resposta já dada a quesitos


anteriores.

121. a 126. Conforme se viu já, a conduta assumida pela arguida junto de
Alfredo Reinado não contribuiu para a pacificação das relações entre este
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e as instituições políticas do país. No entanto, reveste-se de grande


melindre considerar que, perante processos de natureza política, como era
o das negociações entre Alfredo Reinado e o Presidente da República e o
Primeiro Ministro, a expressão de opiniões contrárias possa ser
considerada um crime.
A manifestação da discordância sobre a forma como tal processo
era conduzido nunca poderia ser considerada ilícita.
Assim, ainda que tais opiniões tenham sido determinantes para a
formação da vontade de Alfredo Reinado decidir matar ambos, não podem
as mesmas dar lugar a uma punição.
Quanto às demais posições assumidas pela arguida perante Alfredo
Reinado, não se vê que as mesmas se destinassem a fomentar o ódio e a
raiva no grupo. Destinavam-se, sem dúvida, a impedir a concretização das
negociações, desconhecendo-se a motivação da arguida para essa
finalidade. Visariam, provavelmente, manter a situação de instabilidade
gerada pela existência de um grupo como o de Alfredo Reinado,
desconhecendo-se também a quem interessaria a manutenção dessa
situação. Daí a considerar-se que, para a arguida, ou para os interesses
que esta representava ou defendia, interessava a morte quer do
Presidente da República, quer do Primeiro Ministro, vai um passo lógico
não sustentado em provas.
Acresce que, sendo conhecida a personalidade de Alfredo Reinado,
expressa em toda a sua actuação posterior a 2006, dificilmente se
compreende que a motivação para qualquer acção por ele empreendida
ou pelo seu grupo, tivesse na sua génese as opiniões ou intrigas da
arguida.
Ao que tudo indica, é verdade que Alfredo Reinado ouvia com
atenção as opiniões da arguida, e algumas vezes seguiu-as antes de agir.
Tal como ouviu as opiniões de muitas outras pessoas, tendo seguido
algumas e outras não. Saber quais dessas opiniões foram determinantes
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para a formação da sua vontade de atentar contra o Presidente da


República e Primeiro Ministro é algo que o julgamento não conseguiu
fazer. É sabido que, por razões várias que não importa aqui explorar,
Alfredo Reinado nunca esteve isolado durante os dois anos que
permaneceu “a monte”. Apesar de procurado pelas autoridades, e de ter
pendentes mandados de detenção, sempre se deslocou pelo território com
relativa facilidade e sempre foi visitado por quem ele pretendeu receber.
O que lhe permitiu ter acesso a muitas opiniões e pontos de vista, bem
como a muitas informações, verdadeiras ou falsas, expondo-se dessa
forma aos mais diversos interesses em jogo. A arguida terá sido apenas
mais uma das pessoas, mas não seguramente a única.
Atribuir à arguida a preponderância na capacidade de influenciar
Alfredo Reinado seria menosprezar a capacidade de decisão deste (que
sempre a possuiu, independentemente da validade ou não das causas e
dos actos), bem como menosprezar a capacidade e poder de influência
dos demais que dele conseguiram aproximar-se.
Não é claro o papel nem as motivações da arguida. Tal como não é
claro o papel e as motivações dos muitos a quem Alfredo Reinado teve
acesso antes de agir.
Mas, limitado como está na sua acção, pelo objecto da causa, não
cabe ao Tribunal apurar a verdade sobre tais questões. Muito menos
adiantar hipóteses ou conjecturas.
Cabe ao Tribunal apurar, face aos factos que considera provados de
acordo com as regras processuais vigentes, se a arguida queria ou não a
morte do Presidente da República e do Primeiro Ministro.
Conforme se decidiu já acima, não resultou provado que a arguida
tivesse essa intenção. Pelo que, como consequência lógica, teremos de
considerar que, quando agiu como agiu, não pretendia determinar a
vontade de terceiros a causar duas mortes quando a arguida não as
queria.
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Pela mesma ordem de razões, não é possível dar-se como provado


que a arguida admitiu como necessária, e por isso quis, a morte de outras
pessoas que impedissem a concretização daquele resultado, bem como
admitiu como necessários, e por isso quis causar, quaisquer danos em
veículos automóveis

129., 133., 130. e 131. A resposta a tais quesitos consta já da resposta


dada a outros quesitos.

132. Alguns dos arguidos, entre os quais, Julião António Soares, único a
ter apresentado contestação, afirmam que agiram no cumprimento de
ordens, uma vez que eram militares.
No entanto, conforme se viu já, no momento em que os factos
ocorreram, nenhum dos arguidos se mostrava integrado em qualquer
estrutura militar ou de segurança hierarquizadas. No momento dos factos,
os arguidos faziam parte de um grupo. Grupo este que não era das F-FDTL
ou da PNTL, mas sim um grupo espontaneamente formado e ao qual os
arguidos voluntariamente aderiram (pelo menos, nenhum deles afirmou
ter sido forçado a acompanhar Alfredo reinado ou o arguido Gastão
Salsinha para Lauala).
Dessa forma, quando os arguidos afirmam que cumpriram ordens,
convém enquadrar tais afirmações no seu contexto, e considerar que as
cumpriram não porque a tanto estivessem obrigados por um qualquer
dever funcional, mas porque entenderam, conscientemente, que deviam
aceitar cumprí-las. Na circunstância em que todos se encontravam,
nenhuma outra pessoa tinha sobre os arguidos qualquer poder hierárquico
que os impedisse de não aceitarem as ordens que lhes eram dadas.
Razão pela qual se entende que, todos os arguidos, agiram de
forma voluntária, livre e consciente.
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134. Conforme afirmaram os arguidos Alexandre Araújo, Avelino da Costa,


Júlio Soares Guterres, Amaro da Costa, Gilson José da Silva, Domingos
Amaral e Paulo Neno Leos, nas suas declarações, todos os arguidos que se
encontravam em Lauala e vieram para Metiaut e Balibar, estavam sob as
ordens de Alfredo Reinado e Gastão Salsinha, por acreditarem que estes
dois poderiam resolver os problemas a que foram expostos na sequência
da crise de 2006, sendo que, deles, só alguns integravam o grupo dos
peticionários.

135. Conforme declarações prestadas por todos os arguidos em audiência


de julgamento.

136. a 140. Declarações prestadas pelo arguido Amaro da Costa na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1148). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

141. a 144. Declarações prestadas pelo arguido Domingos Amaral na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1208). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

145. a 149. Declarações prestadas pelo arguido Gilson José António da


Silva na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como
no primeiro interrogatório (fls. 1265).

150. a 154. Declarações prestadas pelo arguido Paulo Neno Leos na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
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primeiro interrogatório (fls. 1504). Quanto à ausência de antecedentes


criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

155. a 158. Declarações prestadas pelo arguido Gilberto Suni Mota na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2544). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

159. a 163. Declarações prestadas pelo arguido Marcelo Caetano na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2543). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

164. a 168. Declarações prestadas pelo arguido Joanino Maria Guterres


na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2545). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

169. a 173. Declarações prestadas pelo arguido Ismael Sansão Moniz


Soares na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como
no primeiro interrogatório (fls. 2796). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

174. a 177. Declarações prestadas pelo arguido Igídio Lay Carvalho na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
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primeiro interrogatório (fls. 2796). Quanto à ausência de antecedentes


criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

178. a 181. Declarações prestadas pelo arguido Caetano dos Santos


Ximenes na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem
como no primeiro interrogatório (fls. 3448). Quanto à ausência de
antecedentes criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo
que dos autos não consta qualquer outro meio de prova em sentido
contrário.

182. a 186. Declarações prestadas pelo arguido Gastão Salsinha na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2543). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

187. a 190. Declarações prestadas pelo arguido João Amaral na sessão de


audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no primeiro
interrogatório (fls. 3096). Quanto à ausência de antecedentes criminais,
afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos não consta
qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

191. a 195. Declarações prestadas pelo arguido Bernardo da Costa na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1787). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.
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196. a 200. Declarações prestadas pelo arguido Avelino da Costa na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1506). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

201. a 205. Declarações prestadas pelo arguido Alexandre de Araújo na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1756). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

206. a 209. Declarações prestadas pelo arguido Januário Babo Soares na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1829). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

210. a 214. Declarações prestadas pelo arguido Raimundo Maia Barreto


na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 1829).

215. a 219. Declarações prestadas pelo arguido Júlio Soares Guterres na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2201). Quanto aos antecedentes criminais,
afirmou o arguido nunca ter sido julgado, no primeiro interrogatório
realizado a 22 de Abril de 2008. Contudo, é do conhecimento do Tribunal
que este arguido foi posteriormente julgado no Proc. n. 131/TDD/06,
processo este que foi analisado para prova do quesito.
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220. a 224. Declarações prestadas pelo arguido Gaspar Lopes na sessão


de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no primeiro
interrogatório (fls. 2544). Quanto à ausência de antecedentes criminais,
afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos não consta
qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

225. a 228. Declarações prestadas pelo arguido José Agapito Madeira na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 2544). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

229. a 232. Declarações prestadas pelo arguido Julião António Soares na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 3095). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

233. a 236. Declarações prestadas pelo arguido Quintino Espírito Santo


na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 3095). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

237. a 240. Declarações prestadas pelo arguido Adolfo da Silva na sessão


de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no primeiro
interrogatório (fls. 1503). Quanto à ausência de antecedentes criminais,
afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos não consta
qualquer outro meio de prova em sentido contrário.
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241. a 245. Declarações prestadas pelo arguido José da Costa Ventura na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 3094). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

246. a 250. Declarações prestadas pelo arguido Tito Tilman na sessão de


audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no primeiro
interrogatório (fls. 3095). Quanto à ausência de antecedentes criminais,
afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos não consta
qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

251. a 255. Declarações prestadas pelo arguido Alfredo de Andrade na


sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 3513). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

256. a 259. Declarações prestadas pelo arguido Francisco Ximenes Alves


na sessão de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no
primeiro interrogatório (fls. 3513). Quanto à ausência de antecedentes
criminais, afirmou o arguido nunca ter sido julgado, sendo que dos autos
não consta qualquer outro meio de prova em sentido contrário.

260. a 263. Declarações prestadas pela arguida Angelita Pires na sessão


de audiência do passado dia 11 de Fevereiro, bem como no primeiro
interrogatório (fls. 520). Quanto à ausência de antecedentes criminais,
afirmou a arguida nunca ter sido julgada, sendo que dos autos não consta
qualquer outro meio de prova em sentido contrário.
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Dili, 3 de Março de 2010

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(Constâncio Basmery)

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(Antonino Gonçalves)

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(Deolindo dos Santos)