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Quando tudo parece dar certo1

Ester 2. 15-23

Introdução:

A história de Ester traz surpresas impressionantes. De uma bela jovem judia, anônima e habitando longe
de sua própria terra, muitas transformações ocorrem em sua vida. Nem a própria Ester, muito
provavelmente, pudesse imaginar que sua vida mudaria radicalmente. Se no começo as coisas parecem dar
errado, agora uma nova página começa a ser escrita na vida de Ester. Antes de conhecermos como isso
tudo aconteceu é oportuno e necessário vermos algumas interessantes observações do livro de Ester.

a) O livro “menos” religioso da Bíblia – por incrível que pareça, o livro de Ester é o livro “menos”
religioso da Bíblia. Isto porque, não há referencias a adoração, culto ou mesmo a fé. Os acontecimentos
relatados em Ester em um primeiro momento parecem destoar do restante da literatura bíblica. Apesar de
não evidenciar notoriamente toda a variedade da religiosidade judaica, considerar o livro de Ester como a
parte do contexto bíblico é um erro inconcebível;

b) Não há menção do nome de Deus – o livro de Ester é o único livro em toda a Bíblia que não existe
sequer uma única menção do nome de Deus. Ao longo dos dez capítulos e cento e cinquenta e sete
versículos não há registros do nome de Deus. Contudo, apesar do nome de Deus não estar registro, é
incontestável a ação de Deus em meio aos tantos acontecimentos ocorridos a Ester. Ou seja, é possível
enxergar a invisível mão de Deus a conduzir a história;

c) Não há referencias a profecias messiânicas – ao longo de toda Bíblia vamos encontrar sinais da vinda
de Jesus entrelaçados e emaranhados nos escritos bíblicos. Curiosamente, o livro de Ester não traz
nenhuma menção ou uma mínima referencia a vinda do Messias (Cristo). Não uma linha ou expressão que
possa ser compreendida como uma profecia messiânica. Mais uma vez, isto não deprecia ou mesmo coloca
o livro de Ester em uma categoria abaixo ou de menor valor dos outros livros bíblicos. O livro de Ester tem
seu lugar no contexto de tudo àquilo que Deus se propõe a fazer; é uma “peça” fundamental de todo o
“quebra-cabeça” divino e por isso, digno de ser lido e conhecido;

A parte de tais observações, conhecer a história de Ester é ser convidado ao inesperado. Tudo muda muito
rapidamente no livro de Ester. A rainha é deposta, outra assume seu lugar. Aqueles que tramam e
conspiraram ardilosamente são descobertos e recebem a devida sentença. Aqueles que detinham posição
de autoridade são destituídos e outros assumem tais cargos e funções. Ou seja, o livro de Ester é dinâmico
em seus acontecimentos e abundante em ocorrências. Tudo muda muito rapidamente.

As mudanças e transformações são vistas na própria história da personagem central, Ester. De uma simples
jovem judia “destinada” a vida de fracassos, perdas e aflições, porque a “roda gigante” da vida gira, Ester
que estava embaixo, tão rapidamente foi alçada ao topo. Do ponto de vista cristão, todas as coisas podem
mudar e isso acontece a Ester. Vejamos como isso se deu...
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2ª mensagem da série de mensagens: “A beleza a serviço de Deus” (14.03.2010)
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1. O que foi perda, tornou-se em ganhos (Ester 2.15-18)

Não é redundante e demais lembrar que a vida de Ester até então fora uma sucessão de perdas. Apesar de
sua juventude, Ester já acumulava algumas experiências amargas, dolorosas e de perdas irreparáveis. Por
duas vezes, no mesmo verso (Et. 2.7), o autor declara sobre a morte de seus pais: (a) “Mardoqueu tinha
uma prima chamada Hadassa, que havia sido criada por ele, por não ter pai nem mãe...” (Et. 2.7a) e (b)
“Mardoqueu a havia tomado como filha quando o pai e a mãe dela morreram.” (Et. 2.7c). Não apenas
perdas familiares, mas perdas de identidade e nacionalidade. Porque fora deportada de sua própria terra
(Israel), teve o nome mudado, de Hadassa (“fragrância”) para Ester (“estrela”).

Até o concurso de beleza para escolher a futura rainha da Pérsia, Ester não tinha muito que comemorar.
Seus males não foram piores por conta do acolhimento de seu primo Mardoqueu2 (Mordecai3) (Et. 2.15:
“Ester, filha de Abiail, tio de Mardoqueu, que a tinha adotado como filha...”). Portanto, em meio a
tantas aflições, a decisão de Mardoqueu em cuidar de Ester fora um raio de esperança e consolo. Daí
podemos então, perceber que não há situação que seja tão ruim, que não se possa encontrar algum tipo
de sustento. Em toda a Bíblia somos informados de outros que no meio da mais severa situação, tiveram a
provisão, a mão amiga, o braço estendido. Ester teve Mardoqueu. Moisés teve Arão e Davi teve Jonatas,
para apenas citar alguns exemplos.

Contudo, nem sempre conseguimos perceber os sinais da mão invisível, mas operante de Deus. E por regra
geral, Deus ato continuo utiliza-se de pessoas como instrumentos desses sinais. Por exceção, Deus utiliza-
se de um expediente extraordinário (como aconteceu a Daniel na cova dos leões) para assim sustentar e
prover aqueles que estão a enfrentar situações de aflição ou algo semelhante.

Dito isto, conta-se a história de um homem que em meio a um verdadeiro “dilúvio” refugiou-se em um
pedaço de madeira para tentar sobreviver ao temporal e enchente. Alguém jogou uma corda para socorrê-
lo, contudo, este não quis e disse que Deus enviaria um melhor socorro. Outros que estavam com um
barco, ao ver a situação difícil daquele homem, se aproximou e estendeu a mão para prestar socorro. Mais
uma vez, o homem rejeitou e disse que Deus enviaria um melhor socorro. Por fim, veio um helicóptero e
desceu a cesta de salvamento e o homem a rejeitou, pois disse que Deus enviaria um melhor socorro. O
homem morreu e ao chegar ao seu questionou Deus porque o deixou morrer e não providenciou o socorro.
Deus respondeu que enviara o socorro necessário e isto por três vezes, contudo, o tinha rejeitado. Deus
assim tem feito todos os dias as nossas vidas, ou seja, enviado seu socorro, sua providência, contudo, nem
sempre entendemos como tal, a semelhança daquele homem. Mardoqueu foi à providência de Deus a
Ester.

O rei Assuero acha graça em Ester e a escolhe como rainha da Pérsia (Et. 2.17: “O rei gostou mais de Ester
do que de qualquer outra mulher; ela foi favorecida por ele e ganhou sua aprovação mais do que
qualquer das outras virgens. Então ele lhe colocou uma coroa real e tornou-a rainha em lugar de Vasti.”).
O que era uma história predominantemente de perdas começa a mudar. Ester torna-se rainha da Pérsia.

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NVI – Nova Versão Internacional
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ARA – Versão Revista e Atualizada
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2. Ester não ficou “abobada”, mas manteve a discrição (Et. 2.19-20);

Algumas pessoas não sabem desfrutar um tempo de vitórias. Tempos atrás, um desses programas de
reportagens especiais, passou a história de pessoas que ganharam muito dinheiro em loterias, em jogos de
aposta, contudo, porque não souberam administrar, acabaram falidas, em grandes prejuízos financeiros
até mesmo piores do que anteriormente estavam. Não é necessário ganhar em algum tipo de loteria para
passar por tal experiência. Muitos são aqueles que porque não sabem administrar seus ganhos, suas
conquistas, suas vitórias, terminam amargam experiências dolorosas. Um exemplo bíblico de má
administração em meio as vitórias foi o rei Davi. Após várias vitórias diante de exércitos inimigos, Davi
certo dia, resolveu não ir a guerra e ficou em seu palácio. Em um determinado momento foi até a sacada
e viu uma bela mulher e por ela se apaixonou, chegando a consumar o adultério. Tal experiência fora
profundamente amarga como um fel.

Ao olharmos para a vida de Ester e as rápidas mudanças ocorridas em sua vida, uma pergunta “fica no ar”:
“Será que Ester vai dar conta de tudo isso?” Vale lembrar que a coroação de Ester como rainha da Pérsia
não aconteceu aos 40 ou 50 anos de vida, mas entre 18 e 20 anos de idade. Ester era uma jovem quando
fora escolhida rainha. Tudo o que faltara na infância, agora tinha em abundancia. Tudo que fora escasso
em sua vida até então, agora era muito. Muito provavelmente, esta é a fantasia de muitos. Nos melhores
anos de nossas vidas, desfrutarmos do melhor. Para Ester não era fantasia, era uma realidade concreta,
indiscutível.

A coroação de Ester não fascinou os seus olhos, tão pouco tornou-lhe “abobada”, cheia de si, vaidosa.
Alguém disse de maneira muito apropriada o seguinte: “Para conhecer uma pessoa dê-lhe poder ou
dinheiro.”. Há pessoas que porque foram promovidas esquecem dos outros. Enquanto eram da mesma
área, trabalhavam no mesma sala ou departamento eram solidárias, amigas e etc. Tão logo que
alcançaram uma posição melhor, um emprego melhor tornam-se ingratas, vaidosas, algumas chegam ao
exagero de serem rudes, grossas e etc. Ester nos traz uma lição pertinente e sempre valiosa, seja onde
tivermos ou o que alcançarmos, não esqueçamos das nossas origens, daqueles contribuíram ainda que
minimamente para chegar onde chegamos (Et. 2. 20: “Ester havia mantido segredo sobre seu povo e sobre
a origem de sua família, conforme a ordem de Mardoqueu, pois continuava a seguir as instruções dele,
como fazia quando ainda estava sob sua tutela.”). Ou seja, a coroa não mudou a cabeça de Ester. A coroa
não fez de Ester uma mulher diferente. Antes mesmo de ser coroada, Ester já tinha a mesma postura
(Et. 2.10: “Ester não tinha revelado a que povo pertencia nem a origem da sua família, pois Mardoqueu a
havia proibido de fazê-lo.”). Com ou sem a coroa, Ester era a mesma pessoa. Fantástico!

Diante do exemplo de Ester, somos convidados a nos manter discretos diante das situações. Discrição não
significa frieza, ser um “inceberg ambulante”. Mais do que modéstia, discrição significa sensatez. Aquele
que é sensato saber pesar todas as situações, não é alguém volúvel, “maria vai com as outras”. Salomão
faz a seguinte declaração sobre o valor e eficácia da sensatez: “O caminho da vida conduz para cima
quem é sensato...” (Pv. 15.24). Porque Ester era sensata, soube administrar e usufruir o melhor daquilo
que Deus estava fazendo.

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3. Ester uma mulher de profunda coragem (Et. 2.21-23);

Ester não fora mais uma rainha; alguém a parte das decisões do governo real. Tão cedo, Ester se colocou
como uma mulher diferenciadora ao lado do rei Assuero. Em uma época de tramas, conspirações, intrigas
e planos maquiavélicos, dois homens de plena confiança do rei de maneira sórdida e silenciosa estavam
planejando assassinar o rei Assuero (Et. 2.21: “Um dia, quando Mardoqueu estava sentado junto à porta
do palácio real, Bigtã e Teres, dois dos oficiais do rei que guardavam a entrada, estavam indignados e
conspiravam para assassinar o rei Xerxes.”). Impressionante! A ideia de assassinar o rei não vinha de fora,
dos inimigos, mas daqueles que detinham a mais alta confiança do rei, seus oficiais diretos. Às vezes, a
dor maior não é aquela provoca por aqueles que estão de fora, mas daqueles que fazem parte do nosso
círculo de confiança. A ferida causada por palavras e atitudes daqueles que estão diretamente vinculados
as nossas vidas custa a cicatrizar. Ninguém estava livre de ferir e ser ferido. De machucar e ser
machucado. Ora estamos entre aqueles que trazem a memória lembranças de dor, ora estamos entre
aqueles que causaram as lembranças de dor aos outros. Assuero tinha dois oficiais, na verdade, dois
conspiradores.

De maneira inacreditável, mas providencial, Mardoqueu escuta toda a conversa dos oficiais. Não há
dúvidas que fora Deus que enviou Mardoqueu aquele lugar, àquela hora. É a mão invisível, mas operante
de Deus. Diante do que ouviu, apressou-se em contar a Ester. Ester não se esconde ou mesmo se encolhe.
Não fica omissa a tudo o que escuta (Et. 2.22: “Mardoqueu, porém, descobriu o plano e o contou à rainha
Ester, que, por sua vez, passou a informação ao rei, em nome de Mardoqueu.”). Ester sai por detrás das
cortinais reais e coloca-se no palco da história. Tal atitude de Ester é diferenciadora.

Ester é uma mulher de atitude, de posicionamentos, de resoluções, de coragem. Contudo, não faz de
maneira atabalhoada, apressada, na correria da vida, no calor das situações. Procura a quem é de direito.
Não passa o que ouviu a outros, gerando picuinhas, “briguinhas”, falatórios inúteis e que nada se
aproveitam. Ester, antes, se coloca diante de Assuero e sós, resolve descortinar o maquiavélico plano de
assassinado. Em uma época onde a mulher era vista com pouca apreciação, Ester não teme em lutar por
aquilo que é justo. Sua coragem é frente à conspiração dos oficiais. Ester luta pela integridade.

A história de Ester está apenas começando. Quando tudo parecia dar errado, tudo começa a dar certo.
Este é apenas uma das primeiras lutas de Ester frente às adversidades. Uma nuvem carregada esta se
formando no horizonte da história de Ester, anunciar uma forte e terrível tempestade. Será que Ester
consegue manter a mesma coragem demonstrada pelo episódio dos dois oficiais? Até a próxima... Com
carinho,

Rev. André Esteves


pastor@portela.org.br
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