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DE POUQUINHO EM POUQUINHO SE CHEGA A UM MONTE.

MAS QUÃO POUCO DE POUQUINHOS É NECESSÁRIO PARA


SE COMECAR A TER UM MONTE?

Márcia Ricci Pinheiro

Introducão

Primeiro era o vazio. Uma mulher veio e jogou um pouquinho de areia no vazio.
Acenderam-se as luzes e o homem viu que o vazio era uma superfície com uma fina
camada de areia sobre ela.
A mulher então perguntou:
-Ô João, é a isto que chamam monte?
-Não, Maria, tenho certeza de que `monte’ é outra coisa.
A mulher, inconformada com a resposta, trouxe novamente um pouquinho de areia e
jogou sobre a fina camada que já lá estava. Olhou então, com olhar indagador, para o
homem.
-Não, Maria, ainda não é um monte.
A mulher, desta vez, vai em disparada pegar outro pouquinho de areia, jogando o mesmo
sobre o resto.
-Não, Maria, ainda não é um monte. Mas está quase lá.
A mulher então pega um bocado mais de areia, armazena tudo num saco, senta de frente
para a superfície e para o homem, mira bem os olhos do homem, e comeca a adicionar
um grão de areia por vez.
-Ó, Maria, que estás fazendo?
-Disseste-me que estava quase virando um monte. Se eu acrescentar um grão de areia por
vez, vai ser mais fácil para eu não passar do ponto.
-Estás louca?
-Preciso saber quanto de areia exatamente forma um monte.
-Como vou poder falar-te isto?
-Se eu for de grão em grão, saberás me dizer.
-Ai, ai, ai, Maria, estás me matando do coracão. Não tenho a menor idéia de quantos
grãos de areia são necessaries para dizermos `monte’ e, ainda se tivesse, tenho certeza de
que outra pessoa, diferente de mim mesmo, poderia te dizer outra coisa.
-Mas não existe definicão do que seja `um monte’?
-Existe, Maria, mas a definicão não é precisa a ponto de nos dizer o mínimo de grãos de
areia necessário para definir monte.
-E isso então pode ser ainda chamado de definicão?
-Sim, em um sentido. `Monte’ é um termo vago, não é um termo preciso. Isto significa
que ele pode variar em significado dependendo de quem o usa.
-Neste caso, João, não consigo entender como é possível que os seres humanos o
apliquem e a comunicacão, ainda assim, seja efetivada.
-Simples. Todo mundo aceita o uso do termo feito por outras pessoas.
-Mas, neste caso, fica muito difícil dizer que `isto é um monte’ é uma sentenca
verdadeira, ou falsa, ainda que saibamos a qual objeto a mesma se refere(referente).
-Exatamente. É isso. Termos vagos foram criados para serem livres de julgamentos
precisos.

O Sorites

O diálogo acima ilustra em detalhes o problema cuja criacão é associada, na literatura, a


Eubulides de Mileto, com data de 400 anos antes de Cristo.
Filósofos de todo o mundo discutem o problema há anos sem chegar a solucão definitiva.
O problema já foi até alvo de prêmio em dinheiro. Foi denominado paradoxo, o paradoxo
sorítico (do grego `soros’, mesmo que `monte’).
Um dos maiores estudiosos do problema encontra-se na Austrália, chama-se Dominic
Hyde, foi meu professor, e possui até participacão na `Standford Encyclopedia of
Philosophy’, que pode ser acessada através da Internet
(http://plato.standford.edu/entries/sorites-paradox/).
O problema foi considerado paradoxo por vários motivos. Um deles é que assim como
podemos comecar o problema dizendo que nós não temos um monte e que adicionar
somente um grão de areia não faz diferenca, acabando então por dizer que ainda não se
tem um monte quando todos vêem um monte perante si, podemos também comecar o
problema da forma oposta, isto é, comecando com um monte e, ao assumir que um só
grão de areia não faz diferenca, acabar tendo um `não-monte’ mas sentir-mo-nos
obrigados a dizer que ainda é um monte por causa da premissa lógica `retirar somente um
grão de areia não pode fazer diferenca’.
Em linguagem matemática:
A(n,p): um conjunto com n grãos de areia e propriedade p.
p: ser um monte.
q: adicionar um grão de areia não pode transformar algo que não seja um
monte em um monte.
Sorites no sentido negativo (¬p)
{A(n, ¬p),q} →A(n+1, ¬p)
{A(n+1, ¬p),q} →A(n+2, ¬p)
{A(n+2, ¬p),q} →A(n+3, ¬p)
.
.
.
{A(m, ¬p),q} →A(m+1, ¬p), para todo m.
(→←)

A(n,p): um conjunto com n grãos de areia e propriedade p.


p: ser um monte.
q: retirar um grão de areia não pode transformar um monte em algo que
não seja um monte.
Sorites no sentido positivo (p)
{A(n, p),q} →A(n-1, p)
{A(n-1, p),q} →A(n-2, p)
{A(n-2, p),q} →A(n-3, p)
.
.
.
{A(1, p),q} →A(0, p).
(→←)

Agora parece que a existência do paradoxo tornou-se evidente. Podemos, fazendo uso da
mesma sequência de etapas, somente em sentido oposto, provar que uma mesma imagem
é monte e não-monte.
O problema torna-se interessante por envolver Modus Ponens tendo uma forma
muitíssimo semelhante à prova por inducão na matemática. Por causa disso, a mente
matemática se aguca para tentar resolvê-lo, mas encontra óbices enormes de natureza
humana representados, principalmente, na comunicacão.
A comunicacão humana é, por assim dizer, HUMANA. Não há nem nunca vai haver,
talvez usando o teorema da não completeza de Godel como prova, ou o concurso de
Turing, máquina que possa se comportar como um ser humano normal (para excluir casos
como o da síndrome de Down, por exemplo, que talvez possam ter comunicacão imitada
por uma máquina).
A linguagem humana é tão rica e diversificada como nós, seres humanos, somos.
Não conseguimos admitir um mundo chato, sendo possível até provarmos que, em tal
mundo, pouco seria criado. É’ como se aplicando o determinismo matemático ao mundo
real que é estatístico, randômico, estivéssemos destruindo `a graca’, levando embora `o
prazer’ de viver.
Assim, ou o Sorites é a prova pura de que os humanos e as máquinas jamais se igualarão,
ou existe uma outra visão do mesmo, incluindo elementos não matemáticos, que o
explica.
Pessoalmente, eu ainda estou na busca da prova para a segunda hipótese e, portanto,
deixo meu e-mail para quem quiser discutir o problema.
Ao mesmo tempo, pretendo discutir alguns pontos de vista sobre o Sorites, teorias que
tentaram explicá-lo e porque elas não deram certo em futuras edicões da RPM.
As fontes bibliográficas citadas neste artigo deveriam servir como uma boa orientacão
para quem deseja aprofundar-se um pouco mais neste problema tão antigo.

Bibliografia:
[1] Hyde, D. “Sorites Paradox” in Standford Encyclopedia of Phylosophy [Online,
acessado em 31 de Outubro de 2000]
URL: http://plato.standford.edu/entries/sorites-paradox/
[2] Smarandache, Florentin, "Invisible Paradox" in "Neutrosophy. / Neutrosophic
Probability, Set, and Logic", American Research Press, Rehoboth, 22-23, 1998.
[3] Smarandache, Florentin, "Sorites Paradoxes", in "Definitions, Solved and Unsolved
Problems, Conjectures, and Theorems in Number Theory and Geometry", Xiquan
Publishing House, Phoenix, 69-70, 2000.