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Feijoada à

Minha Moda
Vinicius de Moraes

Amiga Helena Sangirardi Tudo picado desde cedo


Conforme um dia prometi De feição a sempre evitar
Onde, confesso que esqueci Qualquer contato mais... vulgar
E embora — perdoe — tão tarde Às nossas nobres mãos de aedo.

(Melhor do que nunca!) este poeta Enquanto nós, a dar uns toques
Segundo manda a boa ética No que não nos seja a contento
Envia-lhe a receita (poética) Vigiaremos o cozimento
De sua feijoada completa. Tomando o nosso uísque on the rocks

Em atenção ao adiantado Uma vez cozido o feijão


Da hora em que abrimos o olho (Umas quatro horas, fogo médio)
O feijão deve, já catado Nós, bocejando o nosso tédio
Nos esperar, feliz, de molho Nos chegaremos ao fogão

E a cozinheira, por respeito E em elegante curvatura:


À nossa mestria na arte Um pé adiante e o braço às costas
Já deve ter tacado peito Provaremos a rica negrura
E preparado e posto à parte Por onde devem boiar postas

Os elementos componentes De carne-seca suculenta


De um saboroso refogado Gordos paios, nédio toucinho
Tais: cebolas, tomates, dentes (Nunca orelhas de bacorinho
De alho — e o que mais for azado Que a tornam em excesso opulenta!)


Texto extraído do livro “Nova Antologia Poética de Vinicius de Moraes”, seleção e organização, Antonio Cícero e Eucanaã Ferraz, São
Paulo, Cia das Letras, Editora Schwarcs Ltda., p.99, 2003.

40 Textos do Brasil . Nº 13
Vinicius de Moraes © Acervo VM

E — atenção! — segredo modesto Em cuja gordura, de resto


Mas meu, no tocante à feijoada: (Melhor gordura nunca houve!)
Uma língua fresca pelada Deve depois frigir a couve
Posta a cozer com todo o resto. Picada, em fogo alegre e presto.

Feito o quê, retire-se o caroço Uma farofa? — tem seus dias...


Bastante, que bem amassado Porém que seja na manteiga!
Junta-se ao belo refogado A laranja gelada, em fatias
De modo a ter-se um molho grosso (Seleta ou da Bahia) — e chega

Que vai de volta ao caldeirão Só na última cozedura


No qual o poeta, em bom agouro Para levar à mesa, deixa-se
Deve esparzir folhas de louro Cair um pouco da gordura
Com um gesto clássico e pagão. Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.

Inútil dizer que, entrementes Que prazer mais um corpo pede


Em chama à parte desta liça Após comido um tal feijão?
Devem fritar, todas contentes — Evidentemente uma rede
Lindas rodelas de lingüiça E um gato para passar a mão...

Enquanto ao lado, em fogo brando Dever cumprido. Nunca é vã


Dismilingüindo-se de gozo A palavra de um poeta...— jamais!
Deve também se estar fritando Abraça-a, em Brillat-Savarin
O torresminho delicioso O seu Vinicius de Moraes


Os direitos ao uso do poema foram autorizados pela VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS LTDA, além de: © VM
e © CIA. DAS LETRAS (EDITORA SCHAWARCZ).

Sabores do Brasil 41