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SAO PAULO, METROPOLE INTERNACIONAL DO TERCEIRO MUNDO ‘A relagdo entre a internacionalizagao ¢ as cidades sganha uma nova dimensfo com o processo de globaliza- ‘Gio por que passam, hoje, todos os continentes. Pelos objeios em que se apoia e pelas relagies que cria, a ‘nova divisdo internacional do trabalho leva a uma ver- dadeira mundializacao dos lugares. Destes, alguns so Togares complexos, as metrépoles, dentre as quais se destacam metr6poles globais. Grandes cidades do Ter- ceiro Mundo, cada vez mais numerosas, incluem-se nes- sa familia, ostentando, porém, em cada caso, caracteristicas particulares. Sob certos aspectos, Rio de Janciro e Brasilia po- dem, também, ser consideradas cidades mundiais, s0- bretudo a primeira. Todavia, € So Paulo que merece com mais razdo esse adjetivo, apés haver concorrido vantajosamente com o Rio de Janeiro, neste meio sécu- Jo, para obter uma situagao de primazie hoje incontesta- vel, gragas & sua produgio material ¢ intelectual, Dela pode-se dizer que é uma metrépole onipresente em todo 0 territério nacional, senclo, também o lugar em que so mais fortes ¢ significativas as relagbes interna- 1-0 Terceiro Mundo e os Lugares Mundiais, A nova divisio internacional do trabalho tem, en- tre os necessérios suportes dos seus atores hegeméni- cos, a necessidade de artficializar ainda mais 0 meio de vida ¢ de trabalho, assim como a prépria vida. Uma tec- nocsfera - natureza tecuicizada com base cientifica - ¢ uma psicoesfera — também artificializada - aparecem como condigdes sem as quais o presente momento his- térico nao se afirmaria, Os novos sistemas de objetos respondem, como dados infraestruturais, &s novas ne- cessidades do processo direto da produgao. A confor- magéo das mentcs, para a accitagdo das novas condigdes de existéncia, a comecar pela imersio no consumo, € um dado supra-estrutural essencial. ‘Milton Santos(”) Gutho de 1990) Por isso, o tema das relagdes entre a internaciona- lizagio € as cidades ganha uma nova dimenso com 0 processo de globalizacao por que passam, hoje, todos 0s continentes, Pelos objetos em que se apoia e pelas relagdes que cia, a nova divisdo do trabalho leva a uma verdadeira mundializagao dos lugares. Esses lugares, mais do que antes, tém um ar de familia, pela sua mate- rialidade pelas relacdes que permitem. A unidade das téenicas que presidem & instalacao dos novos objetos se «dé ao nivel mundial, assim como a unidade das relagoes ‘que 0s animam, Unicidade téenica ¢ unidade do motor fo 0 grande dado inovador de nossa época € que asse- gura a passagem de uma situagao de mera internaciona- lizagio a uma situagéo de globalizacao (Santos, 1985) para cuja efetivaggo a operacio das multinacionais con- ‘ribui largamente (2) Professor Titular do Departamento de Geografa da Fe- culdade de Filosofia, Letzese Citncias Humanas/USP (QD A pamieipagto de empresas de capital extrangezo na in ‘tia braieia pode ser mostrada sb diferentes aspect, de acor- do com os pereentucis seguintes: No PLB industrial. [Nee silrio peg. No pesscal ocupada. [Nee impostos indie 2639% ae olla de Sho Panto (Negéios), 22.07.1988, 4H em 197, entre 0s 408 grandes emprésis com mais de S00 perdi aa Grande Sto Paul, 189 ram multinacionas, ito 6, qua- se ‘Batre esas grandes indstrias (vom mais de 50 trabathado 9), em quase todos os ramos ra signiicatvo 0 nimero de estabel- ‘Smentos onde a parcela de eaptalintemacional ou estrangeiro era superior a 20%. Comm wm capital neo brasileto superior @ 60M, esta- vam os estabelecimentas dos seguintes géncros industrsis: Fumo (ore), Mecanicn (168.6%), Materiat Eiri e de Comunieacao 164,75), Quiniea (3,256), Produtos Farmaccuticos ¢ Veterinarice (ABR), Pertumari, Saddes € Vela (75,0%), Produtos de Materias Pldscas (662%), Entre 30% ¢ 60%, encontrava-se: Metalurgia (G2490), Miners nso metlicos (358%), Matersis de Transporte (42%), Borracha (50%), Produtos Alimentare (318%), (Estudo da EMPLASA). ssa mundializacao dos lugares permite a eriagio de lugares especializados e de lugares complexos?, Os lugares especializados para responder a uma demanda ‘mundializada consagram-se a uma tipologia limitada de atividades exigentes de infraestruturas precisas e tam- bbém especializadas. Os lugares complexos sao, via de regra, as metr6poles ¢ grandes cidades, onde 0 meio humano permite a floragdo de uma multiplicidade de afividades localmente complementares e, nos diversos sub-espagos metropolitanos, o meio técnica é diferen- \do © adaptado para recebé-las. Lugar complsito € complexo, cada grande cidade inclui, pois, sub-espacos especializados, fundacios na ciéncia e na técnica, conce- bbidos para permitir, de um ponto de vista geo-econdmi- co, @ maior cficdcia possivel a determinado tipo de funcéo. Entre as grandes cidades, destacam-se pela com- plexidade maior de suas atividades, as metrSpoles glo- bais. Nessa familia, cada vez mais sumcrosas, incluem-se grandes cidades do Terceiro Mundo, 3s quais, entretanto, ostentam caracteristicas particulares, devidas & modernizagao incompleta sua e do respective pais, segundo condigoes proprias a cada Estado-Nagio. ‘Um dado comm as metropoles mundiais do Terceiro ‘Mundo vem, entretanto, do fato de que, inseridas em ‘uma divisdo internacional do trabalho exigente de flui- dez, a divisao territorial do trabalho prOpria a cada pais conhece limitagies. As restrigdes existentes a uma mo- bilidade dos fatores mais completa tende a reforgar a posigio de certas regibes ¢ de certos lugares. No caso brasileiro, a regido privlegiada € 0 Sudeste ¢ os lugares privilegiados sao as metropoles, as quais recentemente, tambem vem se juntar um grande miimero de cidades médias, gracas ao desenvolvimento agricola c industrial 2A Relevancia do Sudeste © caso brasileiro € distinto daquele da Franga, deserito por A.Lipictz, em Region in Crisis, 1980. p.68 (in Philip Gunn, pp. 40-41), para quem (..) o desenvol- vimento territorialmente desigual do proprio modo de producdo capitalista gora regides centrais baseadas na presenga predominante de sctores industriais do tipo Departamento I (bens de capital) e regides periférieas ‘com inddstrias do tipo Departamento II (bens de con- sumo em articulago com o antigo modo de producio rural)". Essa idéia merece confrontagio com a realida- de empirica, O caso brasileiro permite também uma discusso em torno da observagao de Jean Gottmann: "A riqueza econémica e o poder politico nem sempre coincidiram em sua distribuigao espacial; na verdade, muitos paises viveram um delicado equilfbrio, onde os detentores do mando retiraram seu apoio essencial das mais pobres secgoes do territério, dando-Ihes in- ‘uéncia politica para restringir 0 dinamismo frequente- mente turbulento das reas__mais_ricas economicamente mais avangadas. Costuma-se dizer da Franca que ao norte cabia pagar os impostos, enquanto 6 sul fazia politica, Uma formula idéntica poderia ser aplicada aos Estados Unidos, durante certo tempo Jean Gottmann, Tae evolution of concept of territory, pp. 40-41. No Brasil, tanto o desenvolvimento economico, (incluindo os diversos setores industriais ¢ a agricultura moderna) quanto 0 poder politico se localizam, cumula- tivamente, na mesma area, o Sudeste, onde se associam, nas grandes ¢ medias cidades, todos os tipos de ativida- de econdmica, A Regido Sudeste, formada pelos Estados de Mi- ‘nas Gerais, Espirito Santo, Rio de Janeiro e Sao Paulo, ‘ocupa 10,86% da area do Brasil, onde, em 1980, viviam 43,47% da populacio nacional. A densidade demogréfi- ca (56,31) 6 quase quatro vézes maior que a brasileira (14,07) naquela data. A populacao economicamente va da regido, que em 1983, representava 46,50% da PBA brasileira, € responsével por mais de 60% do produto interno bruto do pais, enquanto a sua produ- ‘0 no setor secundario alcanga 72,2% do total bras ro. Um estudo recente (Faissol © outros, 1987, pp. 96-97) mostra que apenas quatro reas, isto é, a Regiao Metropolitana do Rio de Janeiro, a Regio Metropoli- tana de Sio Paulo, a Regio de Campinas e a Regido de Ribeirdo Preto perfazem 61% do valor da transforma- so industrial, enquanto o que chamam de "complexo industrial brasileiro" representa 77% desse valor. Esta rea, que coincide grossciramente com a Regido Sudes- te, foi chamada por nds (M. Santos ¢ A.C-T. Ribeiro, QA propihito de lugares especilizados ver, deatre outros, 0 estudo de Pierre Boisgonter:"Une double personalit: locale etintet= nationale" em Antrement 2° 14, nov. 1988, nimero coasagrado as 1ee- polis. 1979) de "regio concentrada’™, area que é ainda maior do que 0 “campo aglomerativo’ proposto por M. Stor- per (dez.i987), A regido Sudeste retine 62% dos pesquisadores, 165% das insttuigdes de ensino e pesquisa, 66% das va- ‘gas oferecidas © 59% dos candidatos a ingressar em cursos superiorcs, 61% dos respectivos alunos © 65% dos formandos, assim como 74% dos programas de pos- graduacao © 92% dos programas de doutorado, Essa rea absorve 70% das bolsas c auxilios & pesquisa ofere- cidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico ¢ Teenolbgico, 80% das bolsas de doutorado no exterior ¢ enfeixa 75% dos programas de coopera- Gio internacional (Boletim Informativo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciéncia, no.63 de 08.1.8 14.11.1986). A regio concentrada era responsavel, cm 1982, pela geragio de 68,3% da energia elétrica e, cm 1980, por 69,7% do seu consumo. Af eram feitas 53,4% das ‘gagdes telefOnicas interurbanas completadas (Fany Da- vidovich, Abril-Junho 1987) ¢ circulavam quase trés quartos da frota nacional de vefculos licenciados que utiizavam uma rede rodovidria quase quatro vézes mais ‘densa que a nacional, J4 em 1971, para um indice brasi- leiro de-47,9 km de estradas de rodagem por 1000 km, 0 Estado de $éo Paulo mantinha a rclacéo 415,3 km por 1000 km?. Em 1983, apenas no que refere as estradas ‘municipais, a densidade quilométrica do Sudeste era de 42,9 enquanto a brasileira era de 13,8. © Sudeste arrecadava, no primeiro trimestre de 1981, cerca de 63% da receita nacional do Imposto so- bre a Circulagao de Mercadorias. Era, também, nessa fea, onde se encontravam, em maior percentval, os mais altos salérios, que sustentam uma volumosa classe média c um nivel de consumo mais elevado do que no resto do pais. Ai estavam 79,5% dos domicilios possui- dores de geladeiras ¢ 82,9% dos proprictérios de auto- méveis, Também nessa regiio estava a esmagadora ‘maioria das residEncias ligadas as rédes de égua (79,7% ede esgtos (83,7%) (IBGE Censo Demogréfico 1980) Ena regio do Sudeste (Sao Paulo, Rio de Janet ro, Minas Gerais, Espirito Santo) que se concentra a maior parte da atividade econdmica envolvida com as 9 relagses internacionais do Brasil, a comegar pelas em- presas multinacionais, de origem brasileira ou estran- ea Em 1985, essa regio contava com 67,80% das maiores empresas do pais. Ali se encontravam, nessa mesma data, 8 dos 13 centros de comutagdo dos serv- gos RENPAC de telecomunicacao ¢ 5 dos 9 centros de Concentragao (T, Benakouche, 1988, p.104), enquanto le cabiam 64,2% do total dos servicos telefonicos bra- sileiros (Anudrio do MINICOM, 1984, pp.64 65). No Su- deste acham-se, também em’ 1985, 45 das. maiores inddstrias ligadas & eletrOnica. Das 25 maiores empre- sas no mercado brasileiro de equipamentos para comu- ricacées, 20 também ai estavam presentes (S.B. Magaldi, 1986). (3) Bim seu estado analitio (inésite) sobre a chamada “core ‘reat do Brasil, M. Santos ¢ Ana Clara Torres Ribeito recusam as de- ‘ominagiesesicas, como & de polo, que no Bras € um feaéme zo diferente que se smpce, pots nao se trata apenas de lugares, polarzadores, mas de uma drea continua, onde as caracteisticas da ‘rodemidade esiao presents e intertelacionadas. Porisso, chaman za de rego concealada ou area conceatrada. Para Michel SLOmpe? (ez. 1987) falando de sua propa abordagem do Fato, € nessssiro exclarecer de initio que # rego central de um pa (..) mo € apenas uma repdo metropoitena tal como 2 Grande Sto Paulo - mas 2 20. Ieigae tah exitine ns encupo Ctado, 0 campo aglomeratvo de Sto Paulo qu incl sme do priprio Estado, “Nosso enfo- (que €sinds mais comprecnsive™ (@) 0 Teresina Mundo € também o cressentemente, crescente Iygardeorigem de empeésas multinaionais. Fm 1980, a fndiacontava ‘com 207 empresas opersndo 20 estrangeiro. Das grandes firmas ¢0- eanas, mites esscim implantadss nos Estados Unidos. Eram, am bem, nuneroeas at empresas de Taiwan e Hong Kong, co saio de ‘operagie ¢ mulinaional. E 9 mesmo eaeo para © Bra, © México, a ‘Argsntin...(Piere Grow, Liemergence des péants du Tiers Monde, Publis, Paris, 1988p, 126-130), ‘Dentro af mutinaionais brasliras, € grande a presenga na construgioe obras pblicas, mas também na eletrGnica, nas comuni= feaghes, na mctalarge, na comercialzagto de produtosindustriaiza- or © na prospeccio de petro, emprésas mundiis operando em todos os contnentes. Fires como as seguntestinham um investi ‘mento considerivel ao estrangeir,jé nos comegos dos anos 80: Petras... S00 milhdes de USS (350) Mendes Junior. 40 Copersettann 150 Catia 0 Mites outras empetsas, em malaria, operando com fundos pidpricg 2 inciem aesta lists de multinacionae braileirat (Ode. ‘recht, isa, Esuss, Gradient, Calo, cl), eva sede & em grande ‘aiora, no Sudese, mas sobretudo em Sto Paulo. SLall, Les mult ‘uationles originaires du Tiers Monde, Presses Universitaires de France, Pars, 188427 Citado por Pie Grou, Lémergence des (Géanls do Tiers Monde, Published, Pars, 1988, p23 10 Na érea financeira, a supremacia do Sudeste ¢ de facil verificagao. Segundo a publicagao Sistema Finan- cceiro Nacional: dados estatisticos de 30 de junho de 1986, editada pelo Banco Central do Brasil, essa regido dispunha de 85% dos Fundos Miituos de Acoes, 82% dos Fundos Muttios de Renda Fixa, 89% das Socieda- des de Arrendamento Mercantil, 45% das Sociedades de Crédito Tmobilirio. Ali se encontravam, entio 66% das sedes das sociedade cooperativas, 79% dos bancos de investimentos, 88% das sociedades distribuidoras, ‘16% das sociedades de crédito, financiamento e invest- ‘mento, 63% das sociedades corretoras, 100% das socie- dades de investimento de capital estrangeiro. As coope- rativas de exédito eram, ali, 65,874 do total nacional Segundo, ainda, aquele documento do Banco Central do Brasil, a distribuigdo do capital social das instituig6es financeiras revela, igualmente, um perfil concentrado, no qual novamente se destaca o Sudeste ‘com, entre outros, os seguintes indices: AREA DE MERCADO DE CAPITAIS Sociedades de investimento de capital estrangeiro. Sociedades de arrendamento mereantil Sociedades distribuidoras.. Sociedades de eréito financeiro e investment ow. Sociedades corretoras. Sociedades de crédito imobitarios.. Bancos comerciais = Bancos de desenvolvimento... A menor concentragao dos estabelecimentos da direa bancéria deve-se ao fato de que o Banco do Brasil, ‘maior banco brasileiro, tem sua sede em Brasilia, Para atribuir essa relevncia ao Sudeste, fatores politicos ¢ economicos se conjugaram, ao longo deste século, beneficiando primeiro o Rio de Janeiro, antiga Capital Federal, ¢ Sao Paulo. ‘A construgio e 0 funcionamento de Brasiia alte- ram, de algum modo, esse quadro, jé que a nova capital do pas logo se impoe como um polo de decisdes pol cas e, mais tarde, também cconémicas. Pode-se admit que 0 Brasil dispe hoje, de trés importantes centros de comando, Rio de Janeiro, Brasilia ¢ S40 Paulo, ainda ue este fltimo disponka de um maior poder de contro ke, 100,00% 97,88% . 89,59% 85.62% 84.92% 68.76% 414% 53,30% So Paulo é uma grande metrépole industrial do Tereeiro Mundo, mas o é, igualmente, a escala mundial “tout court’, Edward Soja (1990) lembra que somente Sao Paulo, Los Angeles ¢ Tokyo séo comparéveis quan- to importancia ¢ o ritmo de um crescimento industrial sustentado, no corrente apés-guerra. Com seus mais de 2 miles de trabalhadores em fabricas, em 1985, abri- 24, com aquelas duas outras metrépoles, uma das maio- res massas de operérios do planeta. Esses trabalhadores representam quase 32% da populacto ocupada na érea ‘metropolitana, nimero que s6 de longe é alcancado por outras Regides Metropolitanas brasileiras (Porto Ale- ‘gre: 25,6%; Curitiba: 18;0%). Sua produedo industrial ultrapassa 0s 30% do valor da produgo nacional brasi- leira no setor secundario. 3-0 Comando do Setor Finaneeiro A tradigio financeira da praca do Rio de Janeiro de certo modo ainda se mantém, ndo apenas quanto & importéncia do patriménio liquide dos bancos de de- un scuvolvimento, como em outras areas, conforme mos- tram os dados seguintes, que the dao superioridade em relagao a Sao Paulo: PERCENTUAL DO PATRIMOMIO L{QUIDO NACIONAL DO SISTEMA BANCARIO BRASILEIRO. Bancos de desenvolviment Corretoras de titulos e valores imobiliarios. Distribuidoras de titulos e valores imobilidrios. Total de Bancos... H.K. Cordeiro, 1987, tabela 3, p. 160. Deve-se, porém, levar em conta, no exame desses dados, que os bancos de desenvolvimento contavam 50- Zinhos com um patriminio liquido equivalente a 3.704 bilhées, enquanto o do conjunto des bancos era de 5.926 bilhoes de cruzeiros. © Brasil conta com 30 entre as 200 maiores firmas e com 7 entre os 50 maiores bancos do Terceiro Mun- do, Entre as firmas, 16 cram estatais © 14 particulares. Dentre os bancos apenas 2 (dois) cram governamentais. Daquelas 30 firmas, 12 se encontram em Séo Paulo onde tinham séde 9 das 14 empresas privadas. Dos sete bancos brasileiros contidos na lista dos 50 maiores, So Paulo conta com 3 entre os cinco privados, os outros dois estanclo em Belo Horizonte © Curitiba (Pierre Grou, L'émergence des géants du Tiers Monde, Publisud, Paris, 1988, pp 22-30) ¢ com um (Banco do Estado de ‘Sao Paulo) entre dois maiores que s&o estatais, 0 outro sendo 0 Banco do Brasi Em 30.06.1986, estavam no Rio de Janeiro, 4 das 5 sociedades corretoras de cambio no Brasil, a outra es- tando em Sao Paulo, Séo Paulo, porém, mantém sua prioridade em di- versas outras éreas do universo finaneciro, Af se encon- travam 502 das 1207 sedes das instituigdes da érea do mercado de capitais, (347 no Rio de Janeiro) 18 dos 38 So Paulo Rio de Janciro 13 86,0 390 40,4 28 51.6 61 582 bancos de investimento (11 no Rio), 61 dos 122 Fundos Maituos de Ages (37 no Rio). Dos bancos brasileires com atividade no estran- geiro, excegio feita ao Banco do Brasil, instituigao es- tatal, a quase totalidads das agéncias correspondia a instituigdes de Séo Paulo, sobretudo o Banco do Estado de Sao Paulo, o Banco Real ¢ 0 Banco tat, Os bancos brasileiros com 3 ou mais agéncias no exterior eram, em 1984, os seguintes: Banco do Brasil. Banco Mercantil. Fonte: Guia Bancério do Brasil, 1984, citado por H.K. Cordeiro, 1987, tabela 9, p. 178. Desses bancos o segundo, 0 terceiro, 0 quarto € 0 sexto da lista sao sediados em Sao Paulo. Dos 19 bancos comerciais estrangeiros presentes no Brasil em meados de 1986, 14 estavam em Sao Paulo © somente 5 no Rio de Janeiro. Em 1989, a cota desta ‘ltima cidade continuava a mesma, enquanto Séo Paulo 2 é contava com 18, para um total brasileiro de 23 (H.K Cordeiro, 1990 p. 11). Sao Paulo dispunha igualmente da maioria de ou- tas instituigdes financeiras cujo controle acionério era internacional em 1984, para um total de 41 bancos vin- cculados, 28 estavam em So Paulo ¢ 13 no Rio de Janci- ro. Quanto as Sociedades de Crédito, Financiamento ¢ nvestimento, num total nacional de 13, havia 9 em Sao Paulo.e 4 no Rio. Dois tercos das Distribuidoras de Ti- tulos e Valores também estavam em Séo Paulo. Eram 5 10 Rio, para um total brasileiro de 14 (H. K. Cordeiro, marco 1988 C.e C.) J4 06 trés bancos de investimento vinculados ao capital internacional preferiam a thanga do poderoso Banco Nacional de Desenvolvi- ‘mento Economica, no Rio de Janeiro, De um modo geral, é, porém, em Sao Paulo que a atividade financeira ligada 20 financiamento corrente das eimprésas encontra maior expresso, com 2 dos 3 bbancos comerciais de capital superior a1 trilhao de eru- zeiros e 15 dos bancos comerciais (de um total de 90) com capital superior a 100 bilhées de cruzeiros em 1984 (Roberto Lobato Correa, jun.1985, quadro 2, p). Em 1981, Sao Paulo contava com cerca de 23% das sedes bbancérias do pais, porcentagem que passa para 33% em 1985, enquanto o Rio de Janeiro conhece uma diminui- 0 (30% ¢ 9% respectivamente) (Roberto Lobato Cor- ea, "Concentragdo Bancéria e os Centros de gestio do territorio’, Revista Brasileira de Geografia, 54 (2), pp. 17-32, abril jun, 1989, pp. 24 €27).. ‘Uma anise dos dados relativos ao patriménio I guido do sistema bancério brasileiro cm 1968 e em 1984, mostra a expansao de So Paulo. Seus percen- tuais, om relagao ao Brasil como um todo, revelam, em iversas dreas, um crescimento expressivo, 1968 1984 Bancos em geri 260% 2.0% Bancos comerciais. 306% = 36.2% Bancos de investimentOnnuun 541% — 59,7% Sociedades de erédito © financiamento. 461% —— S1,1% HK Cordeiro, margo 1988 (Ce C.) Brasilia, a Capital Federal, também registra avan- ‘gos no que refere aos bancos comerciais ¢ caixas econé- iicas, gragas & expansdo de instituigdes piblicas como © Banco do Brasil ¢ a Caixa Econdmica Federal, trans- feridos do Rio de Janeiro, Capital Federal até 1960. Mas ha, também, o reforgo da_presenga de sociedades de crédito imobilirio c de associagdes de poupanga ¢ cemprestimos, criadas depois. 19681984 Bancos comerciis. 42,8% Caixas econdmicas.. 952% Sociedades de crédito imobilisr 315% Associagies de poupanga ce empréstimo.. 1% Dados retirados de H.K.Cordeiro, margo 1988 (C.e C) O Rio de Janeiro perde, assim, uma parcela con- sideravel de sua importancia como centro financciro, em parte pela transferéncia da Capital Federal para Brasfia, em parte pela irresistivel ascengao de Sao Pau- lo, gragas a sua posicéo primacial numa cconomia de ‘mercado que encontra nessa metr6pole as condigées & ‘os meios para um desenvolvimento espetacular®. ‘Mas 0 Rio de Janeiro consegui guardar a sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Economico, principal instituicdo governamental responsével pelo desenvolvimento industrial, e isso Ihe garante 98,8% do patriménio liquide dos bancos de desenvolvimento em 1968 ¢ ainda 86% em 1984, quando muitos Estados da Federacio contam com esse instrumento de fomento as economias regionais. Sdo Paulo, entretanto, vai ampliando o seu papel de contro financeiro. Somente nos primeiros 6 meses de 1990, quatro instituigdes financeiras decidiram transfe- (6) "A concentragio hipercefiica dos pontos de contble do sistema bancério tomouse ainda msior do que 4 do sistema indie lal, confirmando e zeforcando a sua maior centralidade dente ces tores de economia "Mas, hd "= concentagio hipertrafica, pratcemeate tapolae nas RM SB, RM RJ e Bras, que serpon- ‘Sem pelo comando de quaso todo 0 sistema brasileiro”, mae 8 hi pensofia de RMSP conto ceatro de controle de sistema bancério © ‘empresriondo-financeir prado nacional eestrngeira "he garante ‘© papel de Hepicentro do sistema eaptalista brasileiro". (FL. Come Geir, 1587, p15), rir gua sede principal do Rio de Janeiro para Sio Paulo (Citibank, Banco Francés e Brasileiro, Unibanco ¢ Ban- co Garantia). Entre as grandes empresas industriais, re- gistra-se a mudanca para Sao Paulo da “holding” da multinacional FIAT (Folka de Sao Paulo, 20.09.1990). 4. Indistria Cultural e Produgio Cientifica A cidade do Rio de Janciro tornou-se conhecida como capital da indistria cultural, enquanto caberia a ‘Sao Paulo a condigao de capital da produgdo cientifica, pura c aplicada, gragas ao volume de trabalhos de Gia bisica e de pesquisa-deseavolvimento produzidos em suas universidades, institutos ¢ laborat6rios. Até que onto essa divisio do trabalho intelectual ¢ ainda vAli- da? Brasil Produtores de cinema, 1224 Bxibidoret.. 132 Distribuidores.. 456 Laboratérios.. 45 Importadores e exportadores.. 238 B no Rio de Janeiro que se encontram as sedcs das duas principais cadcias nacionais de televisdo, a po- derosa ¢ multinacional Rede Globo, cujas novelas en- contram mercado na América Latina € nos demais continentes, ¢ a Rede Manchetc, cnquanto as cadcias, paulistas pouco ultrapassam a condicéo de rédes regio- nais, excecdo feita a TVS ja prescate em grande mimcro de Estados. Mas, dos quatro jortais didrios verdadcira- mente nacionais, dois se encontram no Rio de Janeiro, dois em Sao Paulo, um dos quais é o de maior tiragem xo pais. Fora do cixo Rio-Sio Paulo, ha apenas dois dos 10 maiores jornais,sitos em Salvador e Porto Alegre. E também no Rio de Janeiro que se encontra a maior parte da producao cinematogrifica ¢ do respecti- ‘vo comércio nacional ¢ internacional. Rio de Janciro Sao Paulo 851 B a1 10 321 38 30 2 181 2 IBGE, Anudrio Estatistico do Brasil, Rio de Janeiro, 1989. Sio Paulo, por suas trés universidades estaduais, ¢ sobretudo pela Universidade de Sao Paulo, representa ‘muito mais da metade de toda a pesquisa cientifica pro- > mundiais, Henry Bakis (Géopolitique de UInfor- ‘mation, Presses Universitaires de France, Paris, 1987, p. (68) poe em evidéncia a presente correlagao entre a cxis- tncia de rédes de comunicagéo planetérias, a possibili- dade dos fluxos de informagéo © a presenca ¢ (© Bim eelagto com of suportes macionait da propaganda in- temnaconale do marketing correlato, consular, dente outros, A.Oli- vier, ADayjen eR Ourset, Le Marketing Internacional, Preses Unnersitazes de France, Pris, 190, sobretudo 0 Cap. 5. 16 funcionamento das grandes firmas com vocacao inter- nacional. (p. 67) ‘Sao os lugares com alta densidade informacional que esto votados a ser os pontos de realizacao dessa economia mundial renovada, caracteristica da época contemapordnea. ‘A. mundializacéo €, pois, acompanhada por um enorme desenvolvimento das atividades ligadas & comu- nicagao, entre paises ¢ dentro de cada pais. O ntimero de chamadas completadas no tréfego telefSnico interna- ional do Brasil passa de 12519.184 em 1986, para 20.066.438 em 1988, A correspondéncia postada (em geral) em 1985 envolvia 2865 milhdes de. objetos, en- quanto em 1988 esse nimero chega a 3.146 milhoes. O mesmo fendmeno se dé quanto aos telegramas, cujos to- tsis, messes dois anos, foram, —respectivamente 2.264.150 ¢ 27.177.946, 14 0 telex internacional cuja as- censdo vinha sendo grande até recentemente (5,81 mi- Ihdes de minutos tarifados em 1974; 10,98 milhdes em 1978; 16,16 mihOes em 1983) conhece um certo dectinio nos titimos anos, baixando a quantidade de minutos ta- rifados de 20.017.348 para 18.298.044, Esse fato estard ligado ao desenvolvimento, relati- vamente recente, do uso de formas mais eficazes € ex- peditas de comunicacdo, como o uso do fax (fac-simile) caja difusdio no pais vem sendo répida, As atividades tercidrias em coujunto so o grande usuério do sistema de telex, com 65,9% do total, mas a indéstria € individualmente responsivel pela maior quantidade de terminais ativados, com 29,3%, enquanto a agropectiaria cabem apenas 0,65% do total e na rébri- ca "outros" se inscrevem 4,2% do total. Dentro do ter- ciério, assim se distribuem os. sub-totais: servigos, 23,7%; sctor financeiro, 15,6%; comércio, 21,7% gover- 10, 49% (FLK. Cordeiro, 1990, p. 26-27). © Estado de So Paulo &, sozinho, responsével por quase metade dos terminais de telex (49,4%), car bendo 12,4% ao Rio de Janciro ¢ 115% a0 Parané. (Sérgio Gertel, 0 computador no Territ6rio Brasileiro, ‘comunicagao ao coliquio de Geografia Brasil- Argenti- na-Uruguay, Universidade de So Paulo, set. 1988). 5 resultados por regido ou localidade confirmam a expectativa. Os lugares onde a atividade social — € s0- bretudo a atividade economica - tem maior dinamismo intervacional, nacional, regional, sfo tambem os maio- res centros de emissao e recepgao de mensagens. Em 1987, segundo dados do Ministério das Co- municagoes, S40 Paulo era a cidade onde se fazia 0 maior nimero de ligagées telefénicas para o exterior. Eram 6,4 milhdes, enquanto cabiam a0 Rio de Janeiro 4,0 milhdes. Longe vinham cidades como Porto Alegre (500 mil), Brasiia (300 mil), Belo Horizonte (300 mil), (Fotha de Sto Paulo, 28.01.89). Apesar da crise atual de investimentos no sctor de telecomunicagses, 0 niimero de instalagées telefénicas no para de crescer em Sio Paulo, Havia 209 aparethos por mil habitantes em 1984 © séo 224 por mil em 1987 (Folha de Sao Paulo, 02.05.89) Considerando-se o Estado de Sio Paulo, havia 3,2 milhdes de telefones em 1982, 4 milhes em 1985 € 44 mithoes em 1987 (Fonte: Telesp, Fotha de Sao Pau- Jo, 10.08.88). A comparar todos esses mfimeros com a progressio registrada no Rio de Janeiro: 1983, 987 mil 1985. 1080 mil ABT 1142 mil © nGimero de telegramas tarifades no pais passa de 18,2 milles em 1984 para 29,7 milhies ema 1987, au- mentando em cerca de 63,18%. Em Sao Paulo, no mes- mo periodo, a progressio é de 4,7 milhdes para 86 milhées, com um ganho de 82,979, Em outras palavras, So Paulo representava, em 1984, uma fatia igual a 2582% do total das mensagens telegraficas expedidas no pais, ficando em 1987 com um porcentual ainda maior: 28,95%, © niimero médio de chamadas interurbanas dié- ias em Sio Paulo praticamente dobrou em 5 anos. Eram 1,23 milhdes em 1984 ¢ so 2,27 milhes dirias, em 1988, ” DADOS ESCOLHIDOS DO SISTEMA DE COMUNICACOES Correspondencia postada (1988) Mensagens telegréficas (1988) Minutos taxados no tréfego de telex internacional (1988) Chamadas completas no tréfego telefénico internacional (1988) (66 as cidades de So Paulo € do Rio) ‘Tréfego Telegr4fico internacional (1977) Sao Paulo Rio de Janeiro 53,61% 159% 28.74% 721% 31,63% 282% 43.02% 24.23% 26.60% 12,50% S. Gertel, 1988 e Anitario Estatttico do Brasil, IBGE, Rio de Janeiro, 1989. 7-0 Intercimbio de Pessoas As exigtncias de articulagéo ¢ troca de informa Bes que caracterizam a atividade humana no Sudeste criam enormes necessidades de intercambio, incluindo relagdes face-a-face, entre atores de cena social e eco- némica das principais cidades da drea e tambem com Brasilia, Linhas de Onibus sio muito. numerosas em toda essa “regio concentrada' e o tréfego de autom6- veis particulares € 0 maior em todo 0 pais. O tréfego aé- reo intenso permite 2 criagéo das chamadas pontes aéreas, entre Séo Paulo ¢ Rio de Janeiro, Séo Paulo ¢ Brasilia, Belo Horizonte ¢ Brasilia, Dessas a mais antiga ¢ importante é a que liga Rio de Janeiro e Sao Paulo, ‘A ponte aérea Sdo Paulo-Rio de Janeiro transpor- tou, em 1989, 2,14 milhoes de passagciros ¢ o seu indice de aproveitamento , em média, proximo dos 80%. Sua clentela é bem expressiva desse interefmbio necessério centre as duas metropoles. Sao 86% pesséas de sexo ‘masculina e, apenas, 14% do sexo feminino. A maioria cesmagadora (75,5%) pertence & chamada classe A, isto € 0 estrato mais alto da escala socio-economica. Sio 23% da classe B ¢ 1,5% da classe C, enquanto, como ja cra de supor, pessoas das camadas menos favorecidas, as classes D ¢ E, no comparecem nas listagens. Os pas- sageiros sao sobretudo empresérios (30,5%), executivos (28,5%) € profissionais liberais (32,5%), restando 9% para outras atividades. Entre as motivagdes de viagem, (0s negécios (neg6ciosiservigos) preenchem a grande raioria das razies apontadas (75,2%), ficando 14,1% para o turismo individual ou famili rismo em grupos. Os "outros" motives s20 responsiveis por 8,5% das viagens. Dentre os que se utilizam da parte aérea Sao Pau- Jo Rio, 22,7% o fazem pelo menos 4 vezes ao més. Ape- nas 27,2% pagavam suas proprias passagens, a grande maioria tendo sua viagem financiada pelas empresas (55.9%) e por orgaos péiblicos (15,0%) (Beatriz H. G. Lage, 1982) Séo Paulo € responsivel pela emissao de 49,70% (praticamente 2 metade) das passagens de avido vendi- das no Brasil (Folha de Sao Paulo, 17.05.1986). Das 702 agéncias de viagem presentes no pais em 1986, somente 59 contavam com mais de 60 funcionérios e, destas, 28 estavam em Sao Paulo. Af também se encontravam 9 ddas 11 agéncias com mais de 250 funciondrios (Ana Cla- ra Torres Ribeiro, 1988, volt, tabela XIV,pag,214) Fon- te: Anudrio Estatistico de Propaganda, 1986. O nimero de passageiros em vos internacionais quase dobra en- tre 1980 ¢ 1988, passando de 788,133 para 1.299.005 (in- cluindo 0 aeroporto de Viracopos). O volume de carga internacional transportada através do aeroporto de Guarulhos € multiplicado por 3 entre 1985 ¢ 1988, Alguns aspectos da atividade hoteleira presente ‘em So Paulo confirmam a vocagio internacional dessa cidade. Um estudo, conduzido em 1989 por Claudia Maria Braga Ribeiro, mostra, para os hoteis de 5 estre- las, uma série de dados reveladores.(Especificidade da Rede de Hoteis 5 Estrttas em Sao Paulo Departamento dde Geografia Universidade de Sao Paulo, 1989). Quatro hoteis foram investigados. Neles foi constatado que @ maioria dos h6spedes estrangeiros provinha dos Esta- dos Unidos, seguidos da Argentina, Japao, Alemanha & Coreia do Sul. Quanto aos béspedes brasileiras, 0 pri- meiro lugar quanto a origem cra o Rio de Janeiro, exce- 8 to em apenas um dos hoteis, onde esse lugar cabia ao proprio interior do Estado de Séo Paulo, cuja economia conhece um grande dinamismo. O fato, porém, € que a presenga de estrangeiros nesses hoteis de luxo é um fato ‘marcante. Nos trés hoteis que responderam a essa ques- tao, os estrangeiros representavam 75%, 50% & 40% da dlicntela, A atividade de negécios, tanto para estrangeiros ‘como para brasileiros, éa primeira em ordem, vindo em segundo lugar, de forma bem caracteristica, os congres- 50s cientificos somente depois o turismo ¢ as compras. Quanto & profissio dos héspedes, os engenheiros € os exccutivos rivalizam nos primeiros lugares, entre nacio- nais ¢ estrangeiros, seguidos de administradores de em- presas, economistas, médicos, vendedores compradores. As pessoas desacompanbadas represen- tam 0 maior contingente ¢ aos grupos cabia o segundo lugar em trés desses quatro hotéis 5 estrelas, onde era posto a disposiedo da clientela um equipamento eletré- nico ¢ informético, tradutores ¢ um atendimento pelo ‘menos bilingue. 8- Sao Paulo, Metrépole Informacional do trabalho territorial atinge, tam- concentrada, nela privilegiando no 56 a cidade de Sao Paulo, mas a respectiva Regio Metropolitana e seu entérno. A acumulagio de ativids- dés intelectuais ligadas & nova modernidade assegura a essa rea a possibilidade de criagéo de numerosas ativi- dades produtivas de ponta, ambos esses fatos garantin- do-the preeminéncia em relaglo as demais sub-éreas & Ihe atribuindo, porisso mesmo, novas condigdes de po- larizagio, Atividades modernas presentes em diveros pontos do pais necessitam de se apoiar em Sao Paulo para um niimero crescente de tarefas essenciais. Sao Paulo fica presente em todo 0 territ6rio brasileiro, gra «as a esses novos nexos, geradores de fluxos de informa- io indispensaveis ao trabalho produtivo. ‘Se muitas variaveis modernas se difundem ampla- mente sobre o territ6rio, uma parte consideravel de sua operagio depende de outras variéveis geogréficamente concentradas. Dispersio ¢ concentragio dio-se, uma vez mais, de modo dialético, isto € de modo comple- -mentar ¢ contraditério, F dese modo que Séo Paulo se impoe como uma metrpole onipresente € por isso mes- ‘mo, ¢ ao mesmo tempo, como uma metr6pole irrecusé- vel para todo o territério brasileiro, Ainda que o peso da atividade industrial seja mui- to expressivo na aglomeragao paulistana, se a compara- mos como resto do pais, ndo € essa funcio metropolitana que atualmente assegura a Sao Paulo um papel diretor na dinamica espacial brasileira. Esse pa- pel & devido as suas atividades quaterndrias de creagéo ¢ de controle, praticamente sem competidor no pats, pois agora s40 0s fluxos de informacao que hierarqui- zam 0 sistema urbano. O papel de comando & devido a essas formas superiores de produgao nao material, elas proprias scndo uma consequéncia da integracéo eres- cente do pafs as novas condigées da vida internacional. © locus dessas atividades privilegiadas, to diferentes da producdo industrial, tem, todavia, muito a vér com 0 fato de que essa mesma aglomeracio paulistana era, ¢ continda sendo, um centro importante de uma atividade {abril complexa ‘Sem deixar de ser a metr6pole industrial do pats, apesar do movimento de desconcentragdo da produgéo recentemente verificado, Sao Paulo torna-se, tambem, a metrépole dos servigos, metropole terciaria, ou, ainda melhor, quaternéria, 0 grande centro de decisies, a grande fabrica de idéias que se transformam em infor- mages e mensagens, das quais uma parte considerdvel sio ordens. E, aliés, pelo fato de haver conquistado 2 posicéo de capital industrial que So Paulo foi capaz de se tor- nar uma metr6pole informacional, acumulando, em pe- siodos consecutivos, um papel metropolitano crescente, Esse fato teve uma sensivel repercusso sobre 0 emprego. Se comparada a ocupacio total, a parcela do emprego correspondente as atividades técnicas, cientifi- «as, artisticas ¢ afins na Regido Metropolitana de S80 Paulo, aumenta signficativamente. v EMPREGO EM ATIVIDADES TECNICAS, CIENTIFICAS, ARTISTICAS E AFINS TOTAL DO EMPREGO 1971 204.993 1976 408.144 1981 460.467, 1986 580,548 3.332.679 4.380.045 5.362.593, 6.459.124 Fontes: PNAD, Regides Metropolitanas (RJ e SP), 1971; NAD, Area Metropolitana de Sao Paulo, 1976, PNAD, Regides Metropolitanas, 1981 1985. Enquanto o emprego total cresce 93,81% entre 1971 ¢ 1985, o relativo as atividades acima enumeradas aumenta em 183, 34%, mostrando uma adaptacao & mo- deruidade © a0 novo papel de comando metropolitan preenchido pela metropole paulistana. Somente a titulo de excmplo, lembramos que uma metropole como Curi- tiba reune, nessas mesmas atividades, 61.962 empregos em 1981 € 65.001 em 1985, Estamos, agora, diante do fendmeno da "metr6po- le transacional’ (F.K. Cordeiro, 1987). Trata-se de um fato novo, completamente diferente da metrépole in- dustrial, O dado organizacional € 0 espaco de fluxos es- truturadores do territério @ nao mais, coma ma fase anterior, um espago onde os fluxos de materia desenha- vam 0 esqueleto do sistema urbano. No caso brasileiro, vale a pena insistir sobre essa diferenca, pois, conforme ja vimos em ambos os mo- mentos a metrépole € a mesma: S40 Paulo. Nas condi- ges de passagem de uma fase a outra, somente @ metrépole industrial tem as condigSes para instalar as novas condigSes de comando, beneficiando-se dessas pré-condigées para mudar qualitativamente, A metré- pole transacional assenta sobre a metr6pole indéstrial, ‘mas jé nfo € a mesma metrépole. Prova de que sua for- ca nao depende da indéstria € que aumenta seu poder organizador a0 mesmo tempo em que se nota uma des- concentracéo da atividade fabril. © novo fendmeno de metrépole dominante est rolacionado a expansio, dentro das firmas produtivas, ou como estabclecimentos juridicamente independen- tes, de um setor de servigos. Haviamos, j4, (1979) cha- mado a atencdo para essa tendéncia (M. Santos, Expaco « Sociedade, 1979) e, num estudo empirico (1990), mos- ‘ramos a importincia maior do chamado terciério in- dustrial em So Paulo em relacéo a0 Rio de Janeiro. Com a utilizacao de estatisticas correntes, vimos que & média dos sélarios pagos a esse terciério colado ao se- tor industrial era significadamente mais alta na metré- pole panlistana do que na metrépole fluminense, Este fltimo dado parece revelar uma maior especializacao das tarefas e uma maior qualificagao dos respectivos agentes em Sio Paulo. Isto se dé através da transigéo progressiva “de um economia de bens a uma cconomia de fungdes’, fendmeno assinalado por Barcet, Botiamy ¢ “Mayere (1984), onde os ramos que se desenvolvem e se autonomizam sao, dentre outros, a pesquisa, os seguros, 6 financiamento, as diversas formas de "engeencering’, a publicidade, os transportes (A.Bailly, 1987, p. 6). Essas atividades sio frequentemente interdepen- dentes, na medida em que exigem fluxos de informacao cespecializados, Trata-se, pois, de fungses entre as quais sauitas se caracterizam pela imaterialidade dos seus res- pectivos produtos ou das condigdes de sua realizagao. ‘A nogio de economia externa ganha, desse modo, uma nova dimenséo. Os "clusters" isto é, 08 agrupamentos de atividades interdependcntes so, tambem, de uma nova natureza, onde 0 trabalho intelectual ¢ as relagées inter pessoais ganham relévo, Assim, enquanto as atividades de produgéo material tendem a se dispersar, esses no- vos tercidrios tendem a ser geograficamente concentra- dos. ‘Num pais como o Brasil, boa parte da produgdo ‘que se desconcentra tem relagdes de interdependéncia com atividades presentes na Areas centrais, das quais dependem para a obtengao de instumos, servigos, infor- ‘mages. O grau de interrclacionamento local de tai at- vidades desconcentradas & pequeno e em certos casos nenhum. Desse modo, 0 recurso a0 centro se impose. 20 As necessidades de concentragao geogréfica des- ses "novos servigos’, elemento dindimico do processo de cooperagdo neste novo periodo, tende, porém, a sex maior que as exigencias de concentracéo industrial, no periodo anterior, De um lado, a demanda respectiva € ‘maior nas reas centrais. Trata-se de uma demanda su- jeita a importantes oscilagées, maiores ainda na perife- sia do sistema territorial, o que implica na dificuldade de instalagéo das “servigos novos" f6ra das dreas pola- res, Mesmo dentro destas, a tendéncia 6 & concentragio ‘em uma sub-érea, privilegiada pela presenga numerosa de atividades modernas, ou que tendem a se moderni- zar. O fato, jé mencionado, de que a rentabilidade des- sas atividades pressupie a proximidade gcografica dos respectivos atores, acaba por dar prceminéncia, nesse particular, 2 uma s6 metrépole, no caso Sao Paulo. Sio Paulo conhece, na verdade, a sua terceira vaga de mundializagao. A primeira, baseada no comér- cio, 6 aquela com a qual a cidade passa do século XIX para o século XX. A segunda ¢ fundada na produgéo industrial e dura até os anos 60, cnquanto a fase atval, baseada nas anteriores, € a da metr6pole global, cujas atividades hegeménicas se utlizam da informacao como base principal do seu dominio. 9- Sao Paulo ¢ a Nova Divisio Metropolitana 0 Trabalho Em todos os as0s, mas principalmente, no Ter- ceiro Mundo, € praticamente impossive! separar as mensies nacional ¢ internacional do fato ‘metropolitano, © processo de desenvolvimento econd- ico do pais ¢ insepardvel do préprio processo de cres- cimento, diversificagio e afirmacéo da economia urbana. O fenimeno de mundializacdo de Séo Paulo é tambem, o da conquista de um mercado nacional brasi- Ieiro. Giltimo meio século marca um enorme esforgo nacional de equipamento do territ6rio e deseavolvimen- to econ6mico cujas ctapas beneficiam , todas, a metré- pole paulistana, onde, cumulativamente, vém se instalar os fatores de crescimento, Séo Paulo, abs, entre as, grandes metrOpoles do Terceiro Mundo, conta com uma notavel especificidade que acreditamos ser uma das mais fortes motivages de sua fortuna, Entre as grandes cidades do mundo subdesenvolvido 6 a tnica (que €) contigua a uma zona de produedo agricola co- mercial que, durante mais de um século, no parou de se adapter & demanda do mercado (internacional ional), por meio de um processo continuo de mode zagio que Ihe permitiu adaptar-se, em cada momento historico, as inovagées produtivas, que se conheciam no mundo, incluindo os transportes, as comunicagies € 0 consumo. © esforgo de integragao do territério ¢ do mercado, que s¢ realiza em bases nacionais, acaba por Deneficé-la. Como 2 propria cidade também se adapta- va, matcrial ¢ funcionalmente, a0 longo deste século, as novas modernidades, © que podemos chamar de prodiu- tividade espacial atinge, cada vez, um indice elevado, dutor do processo de terciarizagao que acompanha incensante desenvolvimento industrial. (Milton Santos, 1990) ‘As fungées politicas ao nivel regional também aju- dam a explicar 0 sucesso da cidade de Sao Paulo. Sé0 Paulo é, certamente, o tinico Estado brasileiro com os icios ¢ a forga bastante para organizar a totalidade do seu territério (e, mesmo, interferir na organizacao dos cestados vizinhos). Sua capital ¢, assim, a tnica com ver- dadeira forca regional, da qual se vem servindo, ao lon- g0 do século, como instrumento de ampliagéo de sua propria forca urbana. No Rio de Janeiro, ha a heranca da modernidade anterior, quando o sistema urbano era comandado por fluxos de ordens politicas fluxos de matéria. Em Brasi- Jia aparecem os elementos de comando corresponden- tes a atualidade do presente, mas a base politica € relativamente incompleta. Sdo Paulo é a metrépole in- formacional do mercado, cujo doniinio quaternério se baseia na forca industrial adquirida desde 0 period an- terior. Hé, na verdade, uma nova divisao do trabalho ‘metropolitana,que no mais interessa exchusivamente a0 Sudeste, pois Brasflia se junta a Sao Paulo c ao Rio de Janeiro no preenchimento de fungdes diretoras a escala nacional. © Rio de Janeiro € 0 grande perdedor, na medida em que, progressivamente, 0 abandonam as tarefas de centro de decisées polticas, em favor de Brasflia e as de centro de atividades € decisées econé- ‘micas, em favor de Séo Paulo’. Na realidade, So Paulo também se vai revelando como polo de iniciativas poit- cas, gragas ao peso dos seus grandes sindicatos patro- nase operdrios, enquanto Brasiia adquire peso econémicd, com a instalagio de bancos ¢ outras empré- sas, Nesse particular, Brasilia repete, a sua mancira, o fendmeno atualmente vivido por muitas antigas ¢ recen~ tes metr6poles regionais brasileiras que viram associar- se 3s suas antigas fungdes atividades cuja escala de interesse € nacional (Maria A. Brandio, 1979). Instincia econdmica ¢ instancia politica séo, a0 ‘mesmo tempo, fator de regulacéo e de eomando da eco- nomia , da sociedade ¢ do territ6rio € isso explica 0 contetido dessa divisio do trabalho. Onde é a pura pol tica que decide, a proeminéncia de Brasilia € pratica- mente incontestivel. Onde, todavia, o fator de controle € a pura cconomia, a primazia hierérquica cabe, na maioria dos casos, a Sao Paulo, © que resta a0 Rio de Janeiro, em ambos os casos, € residual, No Rio de Ja~ neiro est4 0 maior contingente de funcionérios pablicas presente em uma cidade brasileira, maior que o de Bra- sia, Eram 300 mil funciondrios em 1985 no Grande Rio, enquanto na Grande Séo Paulo havia 232 mil (PNAD 1985). Em outras palavras, hd uma regulacdo do territ6rio extra-mercado, sob 0 comando de Brasfia uma regulagdo do territério via-mercado, conduzida por Sao Paulo, Esses dois comandos so concorrentes € complementares e 0 proprio territ6rio testemunka essa condigao dialética. O caso do Rio de Janeiro € excm- plar: uma cidade que vé diminuida sua performance econémica ¢ reduzido seu dinamismo geogrfico, mérce da perda nao s6 de sua forca nacional, como de sta for- ‘ca regional. Outro exemplo, embora de escala diferente, 60 de Sao José dos Campos, a cerca de 90 quilometros de Sao Paulo, uma cidade onde hé numerosas indistrias € que se vem notabilizando, nos tiltimos decénios, por ‘uma especializacao: a indtistria acrondutica e de misscis © as atividades espaciais (Wanderley M. da Costa, 1982). Nesse particular, Sao José dos Campos mantém com Sao Paulo miltiplas relagées interindustriais ¢ inte- rintelectuais, enquanto é de Brasilia que recebe 0 es- sencial das ordens. (O mercado busca impér a sua lei sobre a totalida- de do territério, seja em cooperagdo seja em contradi- a fo com as outras forcas sociais. De um modo geral, 6 0 mercado que acaba por se impor & escala superior, en- quanto as demais intncias podem se afirmar nos inters- ticios, a escala regional e local. Somente 0 Estado Nacional tem os meios de influenciar comportamentos & escala do pals como um todo, mas 0 fato de que esse Estado consagre a economia de mercado como regra de vida, constitucionalmente garante ao mercado um papel privilegiado ¢ reduz a possivel contradicao entre 0 pi- blico eo mercantil a dimensGes menores. Sao essas a8 condigées e os limites, da presenga metropolitana de So Paulo. O fato, aliés de que S4o Paulo se haja torna- do uma metr6pole internacional, ampliando, desse modo, a escala de suas operagies, fortalece a sua posi Go diante das outras metrépoles brasileiras, Sua forca tenderé a aumcntar na medida em que uma concepcio nco-liberal de Estado amplie sua presenca, na vida na- ional. 10- Mundialidade de Modernidade Perversa A cidade se mundializa, mas 0 resultado desse processo nao € apenas a adocao de inovagoes caracte- risticas de cada perfodo hist6rico. A evolugéo urbana amalgama uma série de dados combinados, cujas causas| séo tanto nacionais quanto internacionais, cm propor Ges diversas segundo os setores ¢ os momentos. © processo de mundializagao, no qite toca aos lu- gares, oedece as leis conjugadas da divisdo internacio- nal do trabalho ¢ da divisdo interna do trabalho. E assim que se estabelece uma diviséo territorial do traba- Iho que € tanto internacional como interna a cada pais. E, nessc sentido, abusivo falar de cidade internacional Em todos os sistemas urbanos hd componentes ¢ aspec- tos internacionais que constituem um seu sub-sistema insepardvel. 0 mesmo pode ser dito dos organismos ur- banos resultantes, pois estes associam, em uma tinica I6- gice, as l6gicas individuais particularcs dos sub-sistemas internacional, nacional c local, se no também regional. (7 Batre ar 100 maiores empresas brasiciras em 1985, 38 es- tavam em Sio Paulo ¢ 29 no Rio de Janeiro, 87 a0 todo, das quais 12 exam poblicas 5S privaas. Fm Sio Paulo, estavam 36 empresas par- ticulares e apenas 2 publica, engvanto a0 Rio de Janeiro bavia 10 emprésas publica 19 prvadas. 2 A propria paisagem urbana ~ 0 espaco construido ~ tes- temunba essa associagio de influéncias. A moderniza- do incompleta 6 a cada momento histérico, um traco das transformagbes do espago que ¢ muito mais sensivel ros paises sub-desenvolvidos. Outro dado caracteristico dos pafses sub-desen- volvidos ¢ o carater corporativo de sua urbanizagio ¢ de suas metrépoles. A participagao 8 modernidade con- tempordnea é exigente, para os paises periféricos, de um esforco de equipamento mais extenso ¢ intenso que as modernizagdes procedentes. Esse esforgo reclama uma enorme massa de recursos, utilizados na constru- ‘ao das infracstruturas econdmicas, de tal maneira que ‘© processo de incorporacio do pals & globalizagdo dé-se em detrimento dos investimentos sociais exigidos por uma demografia e uma urbanizacio galopantes. Como somente poucas firmas podem realmente utilizar, & es- ‘ala nacional, as infraestruturas assim instaladas, a mo- demnizagio consequente ¢ seletiva, deixando fora dos seus beneficios uma parcela importante da atividade ur- bana ¢ da populacéo. Tomemos 0 exemplo de Sao Paulo. Em 1969, 05 maiores estabelecimentos industriais (com mais de 500 cempregados) constituiam 4,5% do mimero total. Eles cempregavam 44,7% do conjunto de trabalhadores fabris ¢ eram responséveis por 52% do valor da produgio 51,5% do valor da transformagao. Em 1975, as maiores indtstrias cram somente 1,5% do total, mas forneciam um porcentual de emprego semelhante ao de 1969:(cer- ca de 44%), mas jd com um valor produzido que se aproximava dos 65%. Isso significa que a produgao se concentrou em um nimero pequeno de estabelecimen- tos que, por sua vez, tornaram-se maiores ¢ cada vez mais multinacionais. A internacionalizagao da econo- mia leva a uma concentraclo financeira ¢ econdmi- ca,traduzida pelas alteragies das fungoes urbanas c por modificagoes brutais da légica interna da cidade. O fato, alids, de que 0 pais haja, entao, conhecido um crescimento rapido, faz.com que a instalagao, em suces- so répida, de grandes firmas, leve a mudangas brutais, © igualmente répidas, dos papéis dos diversos atores da economia urbana. Isso se dé, alids, em todo o Terceiro Mundo, ain- da que em graus diferentes. Por isso, as grandes cidades dos paises subdeseavolvidos séo cidades critias. E 0 caso de So Paulo, (mas, também, do Rio de Janeiro © das outras cidades metropolitanas) onde se concentram as varidveis mais modernas ¢ as firmas mais importantes e onde, também, a crise se manifesta mais claramente, inclusive no proprio espaco urbano, chamado a atender aos reclamos novos e prementes de grandes firmas com peso ainda maior na economia urbana. As necessidades de espago mudaram, tanto em fun¢ao dos requisitos da produgao como dos da circulagao, mais cxigente de ra- pidez. Porisso, a cada dia que passa, mais o espaco tem que ser preparado de maneira particular para cads tipo de produgao. A cidade, tal qual ela era, deixa de ser 0 lugar adequado para a produgao moderna, sendo ne- cessério acrescentar outras drcas, técnica ¢ cientifica- mente construfdas para responder, deliberadamente, a esses reclamos precisos. sso se da 20 mesmo tempo em que novas vias de circulagao tém que ser criadas para que a produgio possa escoar rapidamente, num mundo tem que a economia € cada vez. mais uma economia de fuxos. © que isto significa? Se, a necessidade de modifi- car a cidade, reconstruindo o espago urbano, faz-se soa fir de forma repetida © a fracos intervalos, 0 erério piiblico 6 chamado a ter despesas sempre maiores, toda vex que a cidade sc torna invidvel para 0 grande capital. Por conseguinte, ha ciclos sucessivos de inviabilizacéo reviabilizagao da cidade, aumentando a superficie urba- na, Gtil aos grandes capitais, estendendo a Area urbana de forma espectfica, de maneira a permitir as condigoes exigidas pelas grandes firmas em matéria de espaco geogréfico. O espaco das grandes firmas ¢ um espaco particular, especial, organizado de forma especifica, enquanto a cidade tomada como um todo, vai mudando de fumgo. Desse modo, nao basta atribuir 0 aumento do. tamanho urbano apenas a l6gica dos vazios especu- lativos, pois também temos de considerar a légica espa- ial das grandes firmas. Valeria, aids, a pena, rediscutir um conceito de um modo geral, familiar aos economistas e planejado- res, isto é, a nogao de economias e deseconomias urba- nas, Diz-se que a cidade se torna desecondmica quando as condigSes de realizagao da chamada economia (lér: economia moderna) ali jé ndo sao as melhores. Porisso faz-se um novo plano urbano ou remenda-se 0 jé exis- tente, de modo a criar novas economias urbanas, de aglomeragdo, ou 9 que scja, de modo a viabilizar, de novo, a produgio. Na verdade, esse conceito & uma faca ‘de dois gumes, pois 0 mesmo espaco construido pode sc tornar uma deseconomia para as muito grandes firmas fe, a0 mesmo tempo, uma economia para as pequenas firmas. E por isso que os pobres e a economia pobre se instalam dentro das cidades, ¢, as vezes, no seu centro. No caso de Sao Paulo, atividades consideradas menos rnobres se instalam em areas que foram abandonadas por atividades mais poderosas. O mesmo dado tem sig- nificagdo diferente se nos preocuparmos com a econo- mia moderna ou com a economia dos pobres & das firmas menos poderosas. Mas 0s pobres néo parccem ter sido objeto de preocupacéo dos economistas espa- ciais. Enquanto a pobreza tem sido frequentemente es- tudada por gedgrafos, socidlogos, antropélogos, ete. a economia, salvo excecdes honrosas, parece poder pas- sar sem esse inedmodo, 0 que reduz a possibilidade de compreender a realidade total, da qual os pobres so parte integrante, em maior némero aliés. Retomando 0 exemplo de Sao Paulo, verificamos que a crise urbana também se revela através da necessi- dade de investimentos macigos sempre maiores para "reahilitar’ a cidade, em contraste com a proclamada incapacidade do poder piblico para efetivar esses in- vestimentos. Nao é bastante realcado o fato de que a realizacio desses investimentos significa a impossibili- dade de oferecer & populacao 0s servigos sociais que cla espera e precisa. Como a cidade se torna, cada vez mais, um espago que se organiza para abrigar as gran- des firmas, isso reduz os recursos paiblicos possiveis de ser destinados & populacko, agravando a crise social Além do mais, a modernizacdo contemporénea li bera e repele mao de obra menos qualificad nos espa- {gas que se especializam (com atividade industrial ou agricola) ¢ encaminka grandes levas de pobres para as grandes cidades, onde se defrontam com enormes pro- blemas para subsistir. As grandes cidades do Terceiro ‘Mundo so repositérios, ao mesmo tempo, das elemen- tos da modemidade e de uma grande massa de descr- dados, gerados, cm béa parte, como fungdo dessa mesma modernizacao que, desse modo, vé acentuado seu carater perverso. RESUMO. © atual process de globaizagto condur a uma nova divisfo intemacional do trabalho © cris lugares muncializadcs. Destes ‘estacam-se as denominadas metrdpoles globais, das quais Sto Paulo ‘um bom exemplo no Tereiro Mundo, te tea alinka as rarbespelat quait a metrpole brasileira pode ser considerada uma cidade mundial, mostvando 0 seu Sesempenho nat divemar atvidades caracteristicas da modernidade contempordnee. (0 papel da cléncia, da temnologia e da informagto, como resposta as novasexglneis da producto, édevidameate realgada BIBLIOGRAEIA BAILY, Antoine. "Les series et la preduction: pour un réexamen des secteurs économiques", LEspace Géographique, Tom. XVI, 1,1987, p53, BARIS, Henry. “Géopoitque de "Information", PUF, Pass, 1987. BENAKOUCHE, Tamara. "Nowelles technologies de communication et dynamique spatiale: le cas du Bei Colloque Communkations et Territoire, Dossier n* 1, jan, 1988, pp. 100-10 BOISGONHER, Pierre. 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