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HISTORIA

DA

UNIVERSIDADE DE COIMBRA

NAS SUAS RELAÇÕES

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INSTRUCÇÃO PUBLICA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BKAGA

Sócio elTeclivo da Academia real das Sciencios

TOIvíCO II

1555 a 1700

LISBOA

POR ORDEM E NA nPOGRAPflIA DA ACADEMIA UEAL DAS SCIENCUS

1895

HISTOEIA

DA

UMYERSIDADE DE COIMBRA

II

HISTORIA

DA

IfflIVERSIDADE DE COIMBRA

NAS SUAS RELAÇÕES

«OM A

INSTRUCÇÂO PUBLICA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BEAGA

Sócio effeclivu da Academia real das Scicnci»

1555 a 1700

LISBOA

POR ORDEI E NA TYPOGRAPflU DA ACADEIIA REAL DAS SCIEKCUS

1895

SEGUNDA ÉPOCA

(séculos XVI E XVIl)

A UNIVEESIDÁDE SOB A INFLUENCIA DA RENASCENÇA E DA REACÇÃO CONTRA O PROTESTANTISMO

SECÇÃO 2.'

Reacção dos Jesuítas contra o Protestantismo

ou emancipação intellectual da Reforma

CAPITULO I

A crise religiosa e politica, e o estabelecimento da Companliia de Jesus

A crise de reacção do século xvi é religiosa e politica, determinada pela confusão

dos dois Poderes : Os Papas procuram coUocar-se acima dos Concílios, e li-

bertar-se das Egrejas nacionaes, tomando subalterno o poder dos Bispos.

Os Reis procuram nas suas luctas realisar o sonho da Monarchia universal,

6 tentam promover a Reforma religiosa, tomada necessária pela situação dos papas como príncipes italianos.Os papas resistem á necessidade da convocação de um Concilio.Impossibilidade das ordens monásticas de de-

fenderem o Papado.Necessidade de uma corporação não ascética para lu-

ctar contra os assaltos á hierarchia ecclesiastica.Na crise religiosa o Je-

suitismo apparece como uma nova phase do Catholicismo.Loyola e os seus

companheiros obedecem a uma corrente que não comprehendem.A funda-

ção de CoUegios como meio de sequestração da mocidade, e o assalto ás

Universidades.Paulo iii, que se submette á convocação de um Concilio»

faz concessões excepcionaes á Companhia de Jesus. Dissidência entre D. João III e Paulo m explorada por Ignacio de Loyola e Simão Rodrigues.

Como 08 Jesuítas se impõem a Paulo m : Laynez e Salmeron, corypheus no

Concílio de Trento, vindicando a infallíbilidade do papa.Como na rivali-

dade da França, Hespanha e AUemanha, o papado líberta-se no Concilio de

Trento do espirito democrático dos Concílios de Constança e Basilêa.Por-

tuguezes no Concilio de Trento : Diogo de Paiva de Andrade, D. Jorge de

HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMDRA

Áthayde, D. Fernando Martins Mascarenhas, Frei Francisco Foreiro, Diogo de Gouvêa e João Paes.O caracter pedagógico da Companhia de Jesus,

conservado sob os Greraes hespanhoes, é substituido pelo caracter politico? sob os Geraes italianos.A alliança dos dois poderes temporal e espiritual

para a defeza mutua determina as perseguições religiosas : Carranza, San- ches Brocense, Damião de Góes, Carnesechia, etc.A mortandade da Saint- Barthélemy ; como foi recebida em Portugal a noticia.-A situação dos Je-

suítas entre a politica da Casa de Áustria e da França.Trabalham por

conta de Carlos v para a incorporação de Portugal na Hespanha; e depois contra Filippe ii, e a favor da independência de Portugal, em beneficio dos

Braganças.A theoria da Rebellião.Apoiam-se na Universidade para a

questão dos direitos ao throno nacional.Filippe ii mostra-se hostil á Uni- versidade de Coimbra.Expoliaçâo do Paço das Escholas.A Universidade

fica jurando annualmente as determinações do Concilio de Trento.

Ao encetarmos o estudo da grande época da Renascença, que se

estende, segundo Lange, dos fins do século xv a meados do século xvii,

vimos como a crise mental europêa se manifestou sob o caracter phi- lologico, seguindo as correntes do humanismo italiano, allemão e fran-

cez, sendo este ultimo o que actuou de um modo directo na pedago- gia portugueza. Do conhecimento mais completo das linguas clássicas

e do exame critico dos textos biblicos resultou essa emancipação de

consciência, que veiu tornar systematica a decomposição do regimen

catholico-feudal no seu duplo aspecto religioso e politico. Esta segunda

pbase da Renascença, que se dispende em questões theologicas sobre

os dogmas da graça e da justificação pelas obras, sobre a communhão

nas duas espécies, sobre a supremacia do papa diante dos concílios,

tornou-se extremamente grave pela agitação politica, quando as dou-

trinas da Reforma foram combatidas, exploradas ou protegidas pelas

três monarchias da Europa, cujos chefes aspiravam á monarchia uni-

versal. Vemos n'esta crise, da parte dos papas, uma ambição desvai-

rada para se tornarem príncipes italianos, decaindo profundamente do

ascendente moral, desde Alexandre vi e Júlio ii a Leão x, e tornan-

do, pelos seus crimes, reconhecida geralmente necessária uma reforma

na Egreja, que elles foram procrastinando até Paulo iii. Da parte das

monarchias temporaes vemos a realeza intervir directamente nas Egre-

jas nacionaes, envolver os papas ora na politica imperial ora na polí- tica franceza, que se debatiam nas suas intrigas nas deliberações do

concilio geral, por onde foram arrastadas aos morticínios do mais exal-

tado fanatismo, desde o extermínio dos Valdenses até á noite sangrenta da Saint-Barthélemy. Tal era a anarchia social provocada pelo simples

phenomeno da confusão dos dois poderes, e que veiu tornar odiosa a

A CRISE REUGIOSA E POLITICA

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dictadura monarchica, activando assim a decomposição temporal. Comte syntlietisa em luminosas phrases o aspecto d'esta crise : «A reacção di-

recta da explosão negativa consistiu por toda a parte a desenvolver

mais a confusão dos dois poderes, resultada espontaneamente da phase

inicial. Esta unanime alteração do principal progresso da Edade média

foi primeiramente systematisada pelo Protestantismo, cujo successo de- pendeu sobretudo da sua tendência necessária a subordinar o sacer- dócio ao governo. Tendo rejeitado toda a auctoridade espiritual, fa-

zendo prevalecer o exame individual, elle não podia evitar uma inteira

anarchia senão submettendo a Egreja ao Estado, cujo poder repre-

sentava a supremacia material emanada do numero, em virtude da

egualdade. Mas, o Catholicismo soffreu também uma submissão quasi equivalente, posto que a separação fundamental dos dois poderes nunca

fosse rejeitada. A differença real entre os dois modos de degradação

reduz-se a que, entre os catholicos, os principaes gráos do sacerdócio

emanaram unicamente do governo, conservando a influencia bierar- chica; emquanto que os protestantes estenderam a usurpação temporal

até aos minimos gráos. Esta diversidade acbou-se determinada pela

tendência natural de cada clero para o systema de dictadura que me-

lhor pudesse consolidar a sua existência material. Assim, o Catholi-

cismo foi levado a secundar o ascendente monarcbico, e o Protestan-

tismo a favorecer a supremacia aristocrática.» * N'esta lucta da confu- são dos dois poderes, o Catholicismo dos papas carecia de reorgani-

sar-se para resistir ao conflicto da existência social: tinha de contra-

por ao absolutismo das monarchias o absolutismo da theocracia, como a sonharam Gregório vii e Innocencio ni; e á corrente do livre-pen- samento uma disciphna que submettesse as intelligencias ás concepções theologicas. Era um plano chimerico de restauração do passado; ra-

soavelmente não podia surgir do seio da própria Egreja. Somente um

hallucinado, um cérebro desvairado por incompletas idéas é que ata-

caria o problema de frente, na sua simplicidade. Concebeu esse plano

chimerico Ignacio de Loyola, estabelecendo a Companhia de Jesus,

isto é, um pontificado activo junto de um pontificado espiritual, cujo perstigio tradicional servia para exercer uma mais vasta influencia po-

litica. Na essência, o desenvolvimento rápido da Companhia de Jesus correspondia á necessidade e ao esforço do espirito theologico, que, lu-

ctando pelo catholicismo, reagia contra a dissolução inevitável do mo-

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HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

notheismo occidental. Comte caracterisa com o maior rigor histórico esta missão retrograda: a Consistiu na tentativa do Jesuitismo para re-

generar o passado, cujo officio espiritual se tornara vacante desde a sua transformação temporal. Centro necessário do systema catholico,

aberta ou tacitamente, tinha suscitado todas as alterações que soffreram

por toda a parte o regimen, o culto, e mesmo o dogma. Profundamente

convencido d'esta connexidade, o eminente fundador do Jesuitismo es-

forçou-se, sob um titulo modesto, de instituir ao lado do príncipe ro-

mano, um verdadeiro papa, livre chefe de um novo clero, capaz de sobrepujar o protestantismo, reorganisando o catholicismo. Um tal des-

tino torna-se irrecusável, estudando a natureza e a marcha d'esta in-

stituição, não somente no seu inicio, mas também durante toda a sua primeira geração, bastante confundida actualmente com o resto da sua

carreira. O nobre enthuziasta que a fundou, annunciando-se simulta-

neamente o defensor do catholicismo e o adorador da Virgem, merece

ser erigido sociologicamente como digno continuador da reforma do sé-

culo XIII, cujo abortamento quiz reparar. Vivamente indignado da de-

gradação que o poder espiritual soíFria por toda a parte, sob diversas

formas, desde o fim da Edade média, elle tentou sustar a dissolução religiosa, reconstruindo o catholicismo segundo a deusa occidental. Attri-

buindo a impotência da reforma franciscana a que os seus esforços ti- nham sido muito dispersos e muito subalternos, elle instituiu a sua or-

dem com o fim de reunir a prédica á confissão, e desprendeu-a do chete

nominal da Egreja para melhor a subordinar ao chefe real. Elle esfor-

çou-se para lhe ser transferido por toda a parte o verdadeiro sacerdó-

cio, apoderando-se da direcção geral de uma educação adaptada aos

desejos da época, e a superintendência das missões exteriores, que a

universal expansão do Occidente parecia então motivar.» * Depois de

ter claramente caracterisado esta missão histórica da Companhia de Je- sus, Comte, explicando a sua impotência diante da corrente da reforma

do século XVI, concluo: «deve-se reconhecer que a instituição jesuítica emanou de uma necessidade sincera e profunda de restabelecer digna-

mente a auctoridade espiritual, tornando-a própria a preencher, me- lhor do que na Edade média, o seu destino social. A energia das dou- trinas iniciaes contra a usurpação temporal bastaria para constatar a

tendência sócio cratica d'esta grande tentativa.»

A necessidade de uma reforma da Egreja ou do Catholicismo era

A CRISE RELIGIOSA E POLITICA

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geralmente reconhecida dentro da própria religião, e aconselhada pe- los reis da Europa; os papas é que empregavam todos os meios de se

subtraírem a esta necessidade, temendo levar á pratica os principios

estabelecidos pelos Concílios de Constança e de Basilêa, que eram ra-

dicalmente democráticos. A voz unanime pedindo um Concilio repe-

tia-se por toda a parte; e a arte de evitar o Concilio tornou-se uma

das habilidades politicas da cúria romana, e uma bandeira de guerra

nas rivalidades entre Carlos V e Francisco i. A demora aggravava a

situação, sobretudo desde que o papa tinha de fluctuar entre a politica

de Carlos V, que auctorisava o saque de Roma pelo Condestavel de

Bourbon, ou a politica de Francisco l, que fazia tratados de alliança

com a Turquia, ou ainda diante das exigências indignas de Henri-

que VIII, que sorria amigavelmente para Francisco l, favorecendo os imperiaes. Tudo se accumulava para as tremendas perturbações que

tornaram o fim do século uma catastrophe. Em uma carta de D. Mi-

guel da Silva, ministro em Roma, a D. Manuel, de 28 de agosto de 1520, communica-lhe : «Contra aquelle frade de alemanha martyra Lu-

ther, que faz tantas revoltas, fez aguora o papa huuma bulia, de

que se elle muyto ry, segundo dizem : he esta huuma cousa que tyra o

somno, porque todo aquelle povo pede concilio e reforma^ão.^ * O minis-

tro portuguez, cuja alta capacidade foi avaliada mais tarde por Paulo lii,

via claro o problema do século, e que lhe absorveu toda a sua elabo-

ração politica. São notáveis as tentativas para realisar pacificamente a

reforma dentro da Egreja; os mais sinceros esforços não faziam mais

do que repetir o que se praticara na crise religiosa do século XIII,

fundando novas associações monachaes, com uma indole ascética como

as ordens franciscanas e dominicanas. E o próprio Loyola, hallucinado pelo culto da Virgem, velando as armas ante o seu altar, ao entrar na loucura systematisada revelava que toda a preoccupação de uma re-

forma religiosa regressava a esse ideal que inspirara S. Bernardo e os

grandes mysticos da primeira renascença.

A sociedade humana, esta que constitue a Civilisação occidental,

tinha mudado as suas condições de existência; as grandes descobertas

maritimas davam á vida uma actividade material, com interesses ter- renos, com relações mais vastas, com uma maior sociabilidade para a

cooperação industrial. Uma religião de isolamento ascético, de clau-

sura sombria e penitente, em que cada individuo se concentrava em

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HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

si; cuidando da própria salvação, e abandonando o mundo como um

cahos de desolação moral, para aspirar á pátria celeste, uma tal reli-

gião não

competia já á Europa do século xvi, em que as novas na-

cionalidades, pelo renascimento da jurisprudência romana, eram ani-

madas por um novo espirito civil. O Catholicismo, que se separara um pouco do ascetismo christão, tinha-se transformado, tornando-se uma

disciplina civil; não fizeram isto os franciscanos, nem os dominicanos,

e por isso foram impotentes contra a dissolução catholico-feudal do sé-

culo XIII. Todos os que no século xvi seguiram o mesmo caminho,

como Theatinos, Somascos, Monte-Corona, Barnabitas, e outras asso-

ciações que pendiam para o destino ascético, ficaram sem acção na

corrente das transformações sociaes. Na instituição da Companhia de

Jesus presidiu o pensamento inicial de libertar inteiramente os seus

membros das praticas ascéticas, dividindo as suas funcções no intuito

de uma acção civil: as missões nas regiões novamente descobertas pe- los estados; o ensino para influir na mocidade; a confissão para actuar

nas cortes e junto dos poderosos. Mesmo uma parte dos seus membros

era espalhada entre a classe civil, exercendo as suas funcções secula- res, mas subordinada a um plano como Coadjutores temporaes. Foi

mais este espirito civil, do que a tão preconisada obediência, que fez

com que a nova ordem da Companhia de Jesus não caísse na impo-

tência de todas as suas outras contemporâneas. O Jesuitismo era logi-

camente uma nova phase com que o Catholicismo entrava na marcha

histórica da Europa; a mesma alteração, embora menos profunda, se

operara no Christianismo quando teve de modificar as suas máximas

sobre a perfeição absoluta, para tornar-se compatível com as condições

da sociedade civil do império. Assim o elemento ascético confinou-se

nas communidades monachaes, e a religião do estado ficou entregue á

disciplina de um clero secular. Renan, no seu bello livro Marco Auré-

lio e o fim do mundo antigo, nota esta modificação fundamental: «Onde

se poderia realisar essa perfeição? O mundo, tal qual é, exclue-a ab- solutamente; aquelle que na sociedade praticasse o Evangelho á letra

faria o papel de lôrpa ou de idiota. Fica o mosteiro; a lógica retomava

os seus direitos. A moral christã, moral de pequena Egreja e de pes-

soas retiradas do mundo, creava para si um meio que lhe era neces-

sário. O Evangelho devia ir parar no convento; uma christandade,

tendo os seus organismos completos, não pode passar sem conventos,

isto é, sitios em que a vida evangélica, impossível fora d'ali, possa ser

praticada. O convento é a Egreja perfeita; o monge o verdadeiro chris-

tão. Assim, as obras mais eíficazes do christianismo não são executa-

A CRISE RELIGIOSA E POLITICA

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das senão pelas ordens monásticas. Estas ordens, longe de serem uma

lepra que viera atacar na sua parte externa a obra de Jesus, eram as

consequências internas, inevitáveis, da obra de Jesus.» * Essa pre-

occupação exclusiva da perfeição evangélica levou os monges á imbe-

cilidade e á patente inferioridade diante da sociedade civil. Foi essa a

causa da sua inefficacia na reforma do século xiii, e o que inutilisou

os esforços das ordens nascentes no segundo quartel do século xvi.

Ignacio de Loyola, começando a sua propaganda religiosa pelas peni-

tencias e pela exaltação do proselytismo mystico, seguido pelos faná-

ticos Ensayalados e pelas mulheres de vida, que formavam em volta

d'elle a confraria das Inigas, por certo que não tinha encontrado o ca-

minho para fortificar o poder espiritual, que se dissolvia na crise in-

tensa da Reforma. No grande drama do século xvi elle obedeceu á

marcha dos acontecimentos, que se synthetisou no seu nome por um

systema de retrocesso, como sob o nome de Luthero se representou a

livre critica religiosa. Diz Philarète Chasles: «Um mendigo e um monge

são os dois actores d'este grande drama. Em volta de Loyola se agru- pam a Liga catholica, a revocação do Edito de Nantes, a preponde-

rância de Hespanha. Em torno de Luthero, a influencia do Protestan-

tismo, o desenvolvimento dos estudos biblicos, o progresso da critica

moderna, o racionalismo de Locke, as doutrinas philosophicas do sé-

culo xvin, a Revolução.»^ Como se tornou Loyola o disciplinador das

forças retrogradas que se dispersavam em tentativas improcedentes?

Aos trinta e três annos lembrou-se de ir estudar para Paris, depois de

ter atravessado uma odyssêa de embaraços económicos e de perigosas aventuras de jornada. A vesânia propagandista entre os condiscipulos

tornava-o odioso aos mestres, e levou-o a receber alguns castigos es-

cholares. Elle pensava na reformação dos costumes; os problemas

politicos do século eram para elle inintelligiveis. O primeiro elemento

do seu futuro successo foi o ser admittido como alumno no Collegio de '

Santa Barbara, onde o velho Doutor Diogo de Gouvêa o tratou com

benignidade. O Doutor velho era extremamente pyrrhonico, e conhecia

a marcha da reforma na Europa, sobretudo a que resultava dos novos conhecimentos da lingua grega; a sua sympathia pelo hallucinado lies-

panhol, que alliava a passividade mystica á disciplina militar do antigo soldado das tropas de Fernando, condizia com a sua fé e com o rigor

1 Marc-Auréle, p. 672.

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HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

com que elle queria argumentar com os hereges a punho secco. Na fér-

rea disciplina interna do Collegio de Santa Barbara adquiriu Loyola

a comprehensão d'essa força para uma associação de propaganda reli-

giosa. Dentro do Collegio de Santa Barbara encontrou Loyola três con-

discipulos no mesmo estado de exaltação religiosa, e com quem convi-

via, communicando-se entre si as suas aspirações, mais piedosas que

racionaes: ahi encontrou Simão Rodrigues, um dos estudantes delrei^

que veiu a assentar em Portugal as bases inabaláveis sobre que se su- stentou a Companhia de Jesus; com Pedro Fabre (Lefèvre) e Fran-

cisco Xavier vivia no mesmo aposento, e este foi o iniciador das mis- sões apostólicas no Oriente, que tanto credito deram á acção da Com-

panhia, como Fabre lhe servira de explicador das doutrinas philoso- phicas na frequência de Santa Barbara. Com estes dois condiscipulos entrou Ignacio no estudo da Theologia, e na exaltação febril dos je-

juns é que lhes revelou o pensamento do seu livro dos Exercidos espi-

rituaes, depois de terem jejuado todos três durante três dias e três noi-

tes. Os Exercida per quae homo dirigitur ut vincere se ipsum possit são

uma appropriação do livro ascético de Garcia de Cisneros, que Loyola cercara com scholios durante o seu retiro da gruta de Manresa, * e em

que regulamentava as formas da contemplação interior, dando-lhe uma

representação concreta, material, e, por assim dizer, palpável, a ponto de, pela imaginação sobreexcitada pelas vigilias e jejuns, as allegorias

moraes tornarem-se ante os olhos como entidades reaes. Vê-se que o

antigo apaixonado das phantasias novellescas do Amadiz de Gaula, o cavalleiro parthenio do passo de armas diante da Virgem, ^ reduzia

1 Hanke, Histoire de la Papauté pendant le xvi et xvii siecle, t. i, p. 231.

2 A novella portugueza do Amadis de Gaula estava então no furor da leitura

nas cortes europêas ; Amadiz era o symbolo do cavalleiro-virgem. AUude a este

typo Jorge Ferreira, na sua comedia Euphrosina (1527) : «Aos homens nam he ne-

cessário serem castos como Amadis, porque lhe assacam logo

(Ed.

Farinha, p, 148.) Na Acta publicada na collecçâo dos Bollandistas, t. vii, falla-se na predilecção que Ignacio de Loyola tinha pelas novellas de Amadis e Galaor:

«Cum mentem rebus iis refertam haberet quae ab Amadaeo de Gaula conscriptoeci,

et ab ejus generis scriptoribus, nonnullae illis símiles ei

» Nas Me-

morias pessoaes da sociedade do século xvi encontram-se traços das impressões

da leitura da novella de Amadis; no manuscripto publicado em parte pelo abbade

ToUemer, intitulado Le Journal manuscript de sire de Gomberville et du Mesnil-au- Var, gentilhomme campagnard au Cotentin, de 1553 à Í562, vem citado o livro de

Amadis, quando o sr. de Groraberville lêu em um dia de chuva aos seus operários um episodio : «il leur lut toute la vesprée en Amadis de Gaule, comme il vainquit

Dardan.» (Revue des Deux Mondes, 1 de maio de 1878.) Os humanistas da Renas-

A CRISE RELIGIOSA E POLITICA

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OS Exercidos a um combate verdadeiro contra os peccados e as poten-

cias do inferno, reproduzindo as peripécias das novellas da cavalleria

andante. Foi pela applicação dos Exercidos que Ignacio captou a adhe-

são dos seus condiscipulos. Três hespanhoes que vieram a Paris ter

com elle, trazidos pelas mesmas preoccupações phantasticas, Salmeron,

Laynez e Bobadilla, foram iniciados nos Exercidos; por fim coube a vez de Simão Rodrigues. Era preciso que os Exercidos tivessem um grande poder nas imaginações, para serem subordinados á vontade de

Loyola esses primeiros companheiros; esse poder ainda hoje é o mesmo,

porque assenta sobre uma excitação artificial do cérebro, que se pro-

longa até se tornar em uma nevrose profunda. Sem os Exercidos não

se criava esse recruta religioso, que ha de ser o instrumento passivo

do geral.* O illustre historiador francez Henri Martin caracterisa magistral-

mente os Exercidos, como essência de toda a disciplina jesuitica : «O protestantismo rejeita todas as cousas exteriores, reduzindo toda a re-

ligião ao espirito, ao invisível. Loyola esforça-se para tornar toda a re-

ligião, todos os objectos da fé, sensiveis e palpáveis. Emprega os olhos do espirito em imitar a funcção dos olhos da carne, e prolonga pelo

pensamento o reino dos sentidos no mundo da alma. Tinha-se censu-

rado aos catholicos o esquecerem Christo e o Evangelho pela lenda dos

santos; Loyola revoca ao Christo e ao Evangelho, mas de um modo par-

ticularíssimo, isto é, ao facto, ao quadro, á anecdota evangélica, ao ma-

terial da narrativa sagrada: o Evangelho torna-se um drama em vez

de uma doutrina. O que Francisco de Assis concebeu por instincto, e

realisou exteriormente, Loyola o systematisou, representando em si

este drama interiormente, no seu cérebro, com as variantes infinitas

cença, como já vimos por Vives, não se conformavam com estes productos da poe- sia da Edade média ; Justo Lipsio, admittindo para a educação de um príncipe a musica e a poesia, condemna toda a espécie de novellas, especialmente o Amadis

«Ingeniosi nugatoris proles, pestilens liber, si unquam fuit, et natus blande infi-

cere aut interficere juventutem.»

1 «Ce qui fait le jesuite, ce sont les Exercices spíriiuels, inventes et prati-

ques par Ignace, revues, completes et fixes par le cinquième Congrés general de

rOrdre en 1593 et 1594. Cette instruction est encore aujourd'hui en vigueur. « Voici <