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FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ANGELA CAMARGO SPINELI

ARTHUR RODRIGUES DE MORAES

Indícios, presunções e máximas de experiência

São Paulo

2015

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo Departamento de Direito Processual (DPC) DPC0317 - Direito Processual Civil III: Provas Prof. Heitor Vitor Sica Mendonça

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo Departamento de Direito Processual (DPC) DPC0317 - Direito Processual Civil III: Provas Prof. Heitor Vitor Sica Mendonça

Angela Camargo Spineli Nº USP: 8592681

Arthur Rodrigues de Moraes Nº USP: 8082125

São Paulo

2015

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo Departamento de Direito Processual (DPC) DPC0317 - Direito Processual Civil III: Provas Prof. Heitor Vitor Sica Mendonça

Sumário

1. Introdução

5

2. Indícios

5

3. Presunções

7

3.1 Presunções

Judiciais

8

3.2 Presunções

legais

9

4. Máximas de Experiência

12

4.1. Regras de Experiência Técnica

15

5. Presunções e ônus da prova

16

6. Fato notório

17

7. Conclusão

19

8. Referências Bibliográficas

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1. Introdução

O processo possui um objetivo muito claro: a busca pela verdade. Para tanto, se vale das provas, que são instrumentos utilizados pelas partes para comprovar a concorrência de fato ou situação jurídica por ela alegados. A pproducaode provas é momento de máxima relavância dentro do âmbito processual, pois todo o resto e principalmente a sentença circundam esse momento. Inclusive é frequente que um juiz julgue extinto o processo extinto sem resolução do mérito quando não existirem provas suficientes para garantir a sua certeza, esse sendo o objetivo da produção de provas.

No entanto, em determinadas situações definidas pela lei ou pela inferência do magistrado, dispensam-se as provas ou modifica-se a distribuição do ônus da prova.São essas as situações em que se aplicam as presunções judiciais e legais, a utilização de fato notório e das máximas de experiência. É necessário estudar e aplicar cada um desses institutos corretamente para evitar danos ao contraditório e à própria justiça.

As suas peculiaridades são o objeto desse estudo, que visa explicar e problematizar essas figuras. Ao fim, seguem a conclusão com uma análise crítica sobre a aplicabilidade desses institutos e as referências bibliográficas.

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2. Indícios

Partindo da ideia de Indícios, começaremos com a definição de CAMBI:

“O indício é o fato conhecido (v.g., sinal, vestígio, rastro, circunstância, comportamento etc.) que indica o fato desconhecido, o qual é a sua causa ou o seu efeito. ” 1 Essa definição já nos mostra que o indício serve como ferramenta de conexão entre dois fatos: um conhecido e um desconhecido, e entre esses dois fatos está um nexo de causalidade ou efeito entre eles.

Assim, o indício serve para relacionar esses dois fatos. No entanto, essa relação entre esses fatos não é cognoscível de imediato, pois como aduz CAMBI, “

o

indício é o elemento probatório indiretamente representativo do fato a ser provado, isto é,

2 . Isso nos revela que o indício pode

tem uma relação indireta com o thema probandum

ser valorado em maior e menor grau a partir do seu potencial para revelar o fato

desconhecido.

Porém, CAMBI, nesse sentido, limita o valor que pode ser dado ao indício.

O autor aponta: “

auxiliares que permitem o conhecimento dos fatos a serem provados”. 3 Ou seja, para CAMBI, os indícios não funcionam como meio de prova, mas apenas como meio de se chegar a fatos que podem intervir como material probatório.

os indícios não têm relevância probatória em si mesma, sendo fatos

Esse limite se encontra também no conceito de indício para BARBOSA

MOREIRA, que o define como “

sua conclusão acerca do outro fato, isto é, com base no qual chega ele a presumir que esse

outro ocorreu (ou não ocorreu). ” 4 E complementa o autor: “mas é fácil, ainda uma vez,

fato provado, de cuja existência tira o órgão judicial a

1 CAMBI, Eduardo. A prova civil admissibilidade e relevância. São Paulo: RT, 2006. p. 361.

2 CAMBI, Eduardo. A prova civil admissibilidade e relevância. São Paulo: RT, 2006. p. 361.

3 CAMBI, Eduardo. A prova civil admissibilidade e relevância. São Paulo: RT, 2006. p. 362.

4 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Temas de direito processual (primeira série), São Paulo: Saraiva, 1977. p.

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perceber que, no mecanismo acima descrito, o lugar e a função do indício não se equiparam perfeitamente ao lugar e à função de um documento ou de uma declaração de testemunha. ” O que isso nos revela? Nos revela que, para BARBOSA MOREIRA, o indício tem capacidade probatória de menor alcance do que as provas propriamente ditas. Para o autor, portanto, não há que se confundir indício com prova, pois aquela é meio para se chegar à essa.

Dessa forma, podemos concluir que indício é um elemento importante para se atingir conhecimento de determinado fato desconhecido, a partir de fatos conhecidos e provados, com auxílio de conexões mentais e critérios de probabilidades utilizados na atividade do juiz, com a finalidade de, ao alcançar o fato desconhecido, pretender que ele possa revelar ou provar algo, sem, contudo, ser o indício considerado meio de prova.

3. Presunções

Cabe antes de iniciar uma análise mais detalhada, deixar claro primeiramente a relação intrínseca entre os conceitos de presunção e prova. As presunções são pressupostos de veracidade, subdivididas em presunções legais e as judiciais.

As presunções legais se subdividem em dois tipos: as absolutas e as relativas, definidas pela admissibilidade ou não de prova em contrário ou ainda pela sua relevância para a resolução do litígio submetido ao juiz. Nas presunções absolutas, a prova que venha a ser produzida não possui qualquer capacidade de influenciar no julgamento, tem-se então que é irrelevante e, portanto, inadmissível para evitar demora desnecessária no processo causada por prova inútil.

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3.1 Presunções Judiciais

As presunções judiciais, também conhecidas como presunções simples, se traduzem na situação em que há referência a determinado fato essencial para a resolução do litígio, mas não existem meios de produzir elementos bastantes para a convicção total do juízo, porém há material probatório suficiente para que o juiz se convença de ter ocorrido fato diverso e relacionado com o fato principal. Presume-se então que, por ter ocorrido o fato secundário, infere-se a existência do fato que constitui o thema probandum. Em resumo, assume-se que y ocorreu porque sabe-se ter ocorrido x, nas situações em que a ocorrência de x implica necessária ou naturalmente na ocorrência de y. Essa presunção não constitui meio de prova, porquanto suas descobertas se dão apenas no plano intelectual, in mente iudicis, das ideias: ocorre uma subsunção dos fatos e análise de premissas, sem que haja produção de novos fatos não se adquire uma prova, mas um novo conhecimento.

Cumpre esclarecer que não há uma valoração da prova por meio dessa premissa. Esta ocorre ao valorar a prova que permitiu inferir a ocorrência de x, para o juízo se convencer que este fato realmente ocorreu. Ao formar esse convencimento, cessa a atividade valorativa. Após isso, a valoração incide sobre o fato provado, para estabelecer a relação entre ele e o fato desconhecido e saber se a relação é suficiente para justificar a inferência que se pretende tirar do fato conhecido sobre o desconhecido.

BARBOSA MOREIRA 5 faz a seguinte análise sobre a relação da presunção simples com a prova:

“Em termos sintéticos, poder-se-ia dizer que a prova (documental, testemunhal etc.) é um ponto de partida, é algo que permite ao juiz adquirir o conhecimento

5 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Temas de direito processual (primeira série), São Paulo: Saraiva, 1977. p.

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de certo fato, ao passo que a presunção judicial é um ponto de chegada, já corresponde ao conhecimento adquirido. ”

O fato provado constitui um indício da verdade e não deve ser confundido com a prova em si ele está num nível intermediário que é o ponto de chegada da prova e o ponto de partida da presunção. A partir da análise das provas forma-se o fato provado e, por ele, forma-se a presunção. Em cada uma dessas duas fases, o raciocínio realizado pelo juiz é de estrutura diversa. Da prova ao indício ocorre um processo de valoração do quid material representado por um certo fato. Do indício à presunção, um raciocínio silogístico no qual o indício serve de premissa lógica para a afirmação do outro fato.

Desta forma, o indício não pode ser considerado um meio de prova, mas uma base de raciocínio. O indício é justamente o resultado da prova. O meio de prova é um procedimento com base no qual o juiz acessa a fonte de prova. A presunção definitivamente não é um meio de prova pois ela dispensa a prova, não sendo necessário atingir a prova de alguma forma.

3.2 Presunções legais

OLIVEIRA pontua que as presunções legais buscam garantir valores ideológicos ou técnicos. Os valores ideológicos seriam os interesses processuais ou materiais garantidos pela norma para dificultar o afastamento da presunção: inexistindo prova em contrário, tem-se verdadeira a presunção. A presunção de inocência tem o propósito de proteger o valor ideológico processual do interesse do acusado e a situação da presunção legal de paternidade dos filhos nascidos após 180 dias da morte do marido, pelo menos, regulada pelo art. 1.597, I, do Código Civil de 2002, busca proteger o valor ideológico material do interesse da criança.

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Presunções absolutas, praesumptiones iuris et de iure, são aquelas em que é inadmissível a prova em contrário. Nessas hipóteses, há uma relação com a presunção judicial na qual, se outro fato ocorrer e for provado, quando estiver configurada uma presunção legal absoluta, é extremamente verossímil que esta tenha ocorrido. Ocorre aqui um juízo de probabilidade formulado pelo legislador: se aconteceu x, deve ter acontecido igualmente y. Outra consideração feita pelo legislador é de que é mais fácil provar a ocorrência do fato y que provar a sua não ocorrência. Essas são todas considerações que dizem respeito a escolhas do legislador, ou seja, são carregadas de importância pré-jurídica.

Apesar dessas hipóteses de escolhas legislativas motivadas por razões políticas, na presunção absoluta, não é necessária a presença deste ou daquele elemento ou requisito, para que se verifique a existência ou validade de um ato jurídico, ou ocasione a produção de algum efeito jurídico. BARBOSA MOREIRA traz uma forma de entender esse expediente técnico nessas hipóteses:

“Suponhamos que, em regra, a existência ou validade de certo ato, ou a produção de certo efeito, fique condicionada à concorrência dos elementos ou requisitos a, b e c, mas que, nalguma hipótese particular, quiçá para facilitar a satisfação de interesse julgado merecedor de mais forte proteção, queira o legislador dispensar um dele, c, por exemplo. Em vez de dizer que bastam a e b para que exista ou valha o ato, ou para que se produza o efeito, diz que, sob aquelas circunstâncias peculiares, se presume (de modo absoluto) a presença de c.”

É dessa forma descrita que principalmente se manifesta a presunção absoluta, aplicável inclusive às situações em que a ratio legis resida na maior dificuldade ou probabilidade de que as considerações se passaram daquela determinada forma. O propósito normativo da presunção absoluta é dispensar o próprio fato, enquanto o da presunção relativa é de dispensar apenas a prova, esta repercutindo no ônus probatório. Ao mesmo tempo, um fato com tamanha relevância para a resolução da causa, é um fato sem qualquer relevância jurídica, um belíssimo paradoxo: ao não se admitir prova em contrário

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ou, na realidade, tornar essa prova irrelevante, o legislador atribui efeitos iguais a diferentes esquemas de fato, como se novas incógnitas já entrassem no esquema sem qualquer valor.

Diante desse cenário, é necessário diferenciar a presunção absoluta da ficção jurídica. Por mais que tenham o mesmo valor normativo, diferem as ideias básicas à luz do qual o legislador consagra cada uma. A presunção absoluta tem como um dos seus nortes a grande verossimilhança do fato presumido e a ficção implica justamente no contrário: o legislador ignora completamente o fato como provavelmente ocorrido (inclusive admite o oposto) e atribui os mesmos efeitos que se fosse comprovadamente verdadeiro. BARBOSA MOREIRA também ilustra com perfeição esse instituto: “atribui- se, destarte, ao esquema não-a eficácia igual à normalmente atribuída ao esquema a.”. Os resultados práticos da presunção absoluta e da ficção jurídica são os mesmos, apesar da distinção teórica.

Por não produzirem efeitos no plano processual, não é necessário submeter as presunções absolutas a análise das partes, podendo surgir no processo apenas na fundamentação da sentença. Como não admitem a produção de provas, não há sentido em submeter essa presunção ao contraditório.

As presunções relativas, iuris tantum, por sua vez, são definidas como aquelas que admitem prova em contrário, a ser produzida pela parte que tem interesse em afastar essa produção. Nesse caso o juiz não pode afastar a instrução do feito, visto que pode haver necessidade de produzir as provas. Elas podem ser de duas naturezas distintas: de fato e de direito. Na primeira, presume-se existente uma certa situação jurídica. Na segunda, presume-se provada uma situação de fato, em lugar e tempo determinado.

CAMBI levanta uma questão interessante com relação a conflitos de presunções relativas:

“Se as duas partes alegam presunções contrárias, as quais se anulam mutuamente (v.g., o conflito das duas presunções do art. 1.597 do CC: a viúva que, casando-se antes do decurso dos dez meses da morte do marido, vem a ter um filho 180

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dias após o segundo matrimônio, mas dentro dos 300 dias subsequentes à dissolução do

primeiro casamento), cada uma deve ser tratada de maneira independente [

conflito entre presunções gerais e especiais, o ônus da prova deve recair sobre quem alegou

a presunção geral e, caso a prova produzida seja suficiente para destruir os efeitos da presunção especial, o ônus da prova passa a recair sobre aquele que alegou a presunção especial.”

]; havendo

Por fim, vale ressaltar que, se a presunção relativa não for submetida à análise das partes, gera imenso dano ao contraditório, pois ela produz efeitos no plano processual.

4. Máximas de Experiência

Para falarmos de Máximas ou Regras de Experiência, primeiramente cabe localizá-las no Código de Processo Civil de 1973 (CPC/73) e no Novo Código de Processo Civil de 2015 (CPC/15):

“Art. 335. Em falta de normas jurídicas particulares, o juiz aplicará as regras de experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e ainda as regras da experiência técnica, ressalvado, quanto a esta, o exame pericial” (Código de Processo Civil de

1973)

“Art. 375. O juiz aplicará as regras de experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e, ainda, as regras de experiência técnica, ressalvado, quanto a estas, o exame pericial” (Novo Código de Processo Civil)

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De pronto, notamos que a alteração promovida pelo CPC/15 se dá apenas pela retirada do seguimento “em falta de normas jurídicas particulares” constante do artigo do CPC/73. Ou seja, de início, já notamos que as regras de experiência, a partir da vigência do CPC/15, não mais se aplicarão apenas aos casos em que há ausência normativa específica, mas poderá revestir toda a atividade do juiz.

Mas então, o que seriam as tais regras de experiência? FABRÍCIO denota:

“as “regras de experiência” são aquelas que se podem extrair da quotidiana observação da ”

conhecimentos comuns ou de caráter geral ou generalizante que podem ser extraídos e

6 . A partir dessa definição, notamos que as regras de experiência são, portanto,

vida

aplicados ao caso específico.

Nesse sentido, é importante analisarmos a figura do juiz, não só como indivíduo instituído de um poder-dever entregue pelo Estado à fim de cumprir uma função pública de resolução de conflitos e garantia de direitos, mas também como um ser humano formado por experiências, por conhecimentos prévios que não são apenas jurídicos, enfim, um cidadão.

Dessa forma, a inclusão das regras de experiência em nosso ordenamento processual revela a importância e o reconhecimento dado pelo legislador à influência da vida ao redor do juiz e do processo. FABRÍCIO traz o exemplo da preferência do juiz, entre testemunhos conflitantes, pelo testemunho que seja estranho às partes da relação jurídica em detrimento do testemunho daqueles que sejam próximas as partes, como no exemplo, testemunho proferido por pessoas que possuam laços de amizade ou parentesco.

No exemplo citado, não há regra jurídica indicando qual testemunho deve o juiz dar preferência. No entanto, a partir da experiência do juiz, entendido como membro participante da sociedade, apropria-se da máxima de que relações de afetividade, por

6 FABRÍCIO, Adroaldo Furtado. Fatos notórios e máximas de experiência, Revista Forense, v. 100, n. 376, p. 7,

nov-dez/2004.

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exemplo, tornam um testemunho mais parcial ou menos confiável, por haverem interesses em um determinado resultado envolvidos. Criou-se daí uma regra de experiência.

É relevante, nesse sentido, apontar a relação das máximas de experiência com as presunções judiciais e o indício. Aponta CAMBI que as presunções judiciais partem de uma máxima de experiência que irão servir como premissa maior ao juiz, e se baseiam, para o caso específico, nos indícios que servem como premissa menor. Isso demonstra o caráter generalizante das máximas de experiência, que servem de um conhecimento relativamente firme (relativamente, pois as especificidades do caso podem contrariar a regra), que serve como base de aplicação à presunção judicial, que obterá suporte dos indícios para se concluir sobre um determinado fato.

FABRÍCIO indica, no entanto, que a utilização dessas regras ou máximas deve ser feita com cautela e a partir de duas etapas: a primeira é a identificação da regra geral, do caso geral, e em segundo, a partir dessa identificação, concluir sobre a veracidade de determinado fato. A cautela, infere o autor, portanto, deve se localizar na devida identificação da regra geral, que possa ser aplicada ao caso concreto específico, e na devida conclusão quanto à aplicação dessa regra, quando tratar de hipótese diversa, casos que não se relacionam, etc.

Cabe salientar que as máximas de experiência não se caracterizam como meio de prova. Como são juízos de caráter geral e, portanto, afastados, em um primeiro plano, do caso concreto, não são passíveis de poderem acessar o fato desconhecido. O que elas fazem é criar critérios e condições para a instalação de outros mecanismos, como os indícios, que poderão servir de base para acessar outros meios de prova e chegar aos fatos desconhecidos.

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4.1. Regras de Experiência Técnica

As regras de experiência técnica são aquelas também adquiridas pelo juiz,

mas que não se encontram como um conhecimento adquirido ordinariamente, devido as condições normais de vivência, mas a partir de um domínio especial de técnicas, como um

curso de Medicina ou de Perito feito pelo magistrado.

Esse conhecimento técnico, no entanto, não deve poder ser utilizado pelo magistrado, sob pena de se causarem sérios danos à princípios fundamentais do processo.

A primeira questão é relativa à imparcialidade do juiz. Há uma profunda crítica hoje ao ativismo judicial e ao juiz que se propõe a perseguir à verdade dos fatos. Nesse sentido, o conhecimento técnico advindo das regras de experiência técnica estaria no sentido de serem trazidos ao processo pelo próprio juiz que irá julgar o caso. É o caso do juiz com conhecimento e capacidade de praticar uma perícia técnica. Ao se propor a fazer

a perícia, o juiz absorve a função de um dos auxiliares da justiça, o perito, encontrado no art. 149 do CPC/15 7 , atuando como parte, ao buscar a prova, em vez de analisar a prova trazida aos autos do processo.

A segunda questão resvala no contraditório e na ampla defesa. Se o

conhecimento advém do próprio magistrado que, ao possuir o determinado conhecimento técnico, já se encontra posicionado, o contraditório fica prejudicado, pois interfere no poder

de instrução das partes e na própria possibilidade de alteração do livre convencimento do

juiz. Ora, se ele possui o conhecimento técnico e o aplica, claramente haverá uma resistência

à oposição da conclusão a partir desses conhecimentos e, portanto, seu convencimento já se encontra vinculado.

7 “Art. 149. São auxiliares da Justiça, além de outros cujas atribuições sejam determinadas pelas normas de organização judiciária, o escrivão, o chefe de secretaria, o oficial de justiça, o perito, o depositário, o administrador, o intérprete, o tradutor, o mediador, o conciliador judicial, o partidor, o distribuidor, o contabilista e o regulador de avarias. ”

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É nesse sentido que FABRÍCIO também se coloca contra a utilização de

regras de experiência técnica pelo magistrado, exigindo que esse conhecimento técnico seja produzido por outro indivíduo, seja pelas partes, seja pelos auxiliares da justiça.

5. Presunções e ônus da prova

Após fixar bem o conhecimento em torno de todas essas espécies, é possível verificar a relação entre o conceito de ônus da prova e as presunções judicial, legal absoluta e legal relativa.

O ônus da prova é o encargo que uma das partes possui de provar o alegado, geralmente o autor. É uma escolha, inclusive, pois ninguém é obrigado a produzir provas e, por tática ou qualquer outro motivo, pode deixar de escolher, mas arcará com as consequências que o ônus traz consigo.

As presunções geram indícios de verdade e assim, dinamizam o ônus da prova de forma a invertê-lo ou simplesmente eliminá-lo.

A presunção relativa gera uma situação de inversão do ônus da prova, no

qual a prova do fato presumido é supérflua, dispensável, mas não impede que a parte contrária produza prova sobre o assunto, visando demonstrar a falsidade ou inexistência do fato presumido. Se o ônus de provar geralmente é de quem alega um fato, se este alegar um fato sob o qual rexai a presunção legal relativa, inverte-se o ônus probatório e quem arca com este é a parte contrária ela pode produzir a prova para evitar a incidência quase certa do direito da outra parte ou evitá-lo, como prevê a escolha que é o ônus da prova.

Quanto a quem invoca a presunção legal, deve demonstrar que está no poder para tanto e comprovar os fatos secundários nos quais a lei funda a presunção, os

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fatos-base, sendo apenas uma dispensa parcial do ônus da prova, a menos que o fato seja relevável ex officio (Art. 131, CPC/73).

Da mesma forma, a presunção judicial (simples) gera uma inversão do ônus da prova: é possível que a outra parte prove não ser verídico o fato secundário ou a ausência de vínculo entre ele o fato principal e deve fazê-lo ou arcará com as consequências de admitir a presunção.

Diferentemente da presunção absoluta, que não repercute na dinâmica de distribuição do ônus da prova, pois afeta apenas o plano do direito material, que dispensa a prova, sem alterar a natureza jurídica dos fatos que compõem a fattispecie.

6. Fato notório

Preceitua a doutrina e o próprio Código de Processo Civil de 1973, no art. 131, que o juiz pondera como razões de decidir os fatos e circunstâncias constantes dos autos, não sendo lícito ao juiz servir-se de informações estranhas ao universo daquele processo, para que as partes não sejam surpreendidas por informações que não tiveram a oportunidade de examinar, discutir e criticar. Uma conduta dessa pelo juiz seria, inclusive, um dano ao contraditório e à garantia da isonomia processual.

No entanto, o convencimento do juiz se dá por outras formas, além dos extremos delineados pelo conteúdo dos autos, aproveitando-se dos fatos notórios e aplicando as regras de experiência, estando fora dos autos os elementos da sua razão de decidir e penetram no processo apenas no momento da fundamentação da sentença, sem qualquer intervenção das partes.

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CAMBI pontua que haveria dano ao contraditório se assim fosse e que o

juiz deveria introduzir o fato notório em momento anterior no processo, para tornar possível

a discussão das partes a respeito.

Segundo FABRICIO, adentramos numa categoria mais vasta quando falamos de “fatos notórios” e “máximas de experiência”, denominada “saberes privados do juiz”, aqueles que não foram inferidos mediante análise dos fatos alegados e provas constantes nos autos. Esses, excepcionalmente, podem ser utilizados pelo juiz para o deslinde de uma causa jurídica.

No entanto, CAMBI contraria esse entendimento e diz que os “saberes privados do juiz” são justamente aqueles que causam impedimento e interferem na sua habilidade de julgar.

O fato notório trata-se de fato pertencente ao mundo natural e suficientemente difundido entre os círculos sociais dos quais o juiz faz parte, conhecendo-

o ou simplesmente acessíveis a um dos membros desses círculos, sem que seja necessária

qualquer formação especializada. Ele pode ser utilizado na fundamentação do julgamento do magistrado por conta da sua direta pertinência ao objeto do litígio. Vale ressaltar que

não é qualquer fato que constitui o fato notório: noções genéricas que façam parte do conhecimento geral, mas se caracterizem enquanto fatos concretos, não passando das meras generalizações que são. FABRÍCIO exemplifica bem essa diferença por meio do trecho abaixo citado:

“O consenso social relativamente a determinação da convicção – v.g., o de que o grande consumo de fogos de artifício em períodos juninos faz aumentar consideravelmente o perigo de queimaduras e outras lesões por eles provocados não pode ser visto como fato notório, nem pode levar à dispensa da prova de que certa lesão sofrida por determinada pessoa durante esses festejos tenha sido por esse modo produzida. ”

Em seguida, o autor destaca o fundamento principal por trás dessa figura jurídica: o fato em si deve ser notório e não uma simples interferência ou ideia geral. Essa

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não está dispensada da produção de provas, mesmo que a generalização possua caráter científico.

Outro aspecto importante sobre os fatos notórios é que se a notoriedade for restrita apenas a uma localidade, em juízo de primeiro grau são admissíveis, mas não sua aplicação não se estende às sedes recursais. Quando for este o caso, pode ser necessária a conversão do julgamento em diligência para provar a própria notoriedade ou o fato em si, caso a parte contrária tenha impugnado a notoriedade do fato. Se o objeto do recurso for outro, tem-se a caracterização de um ponto incontroverso e não mais passível de questionamento, dispensando a prova (art. 334, III, do CPC/73).

Além do que foi exposto, lembra CAMBI que o fato notório gera um dever de conhecimento: o juiz não pode alegar que o desconhece e se não se valer dele na decisão, esta perderia a sua eficácia. Isso tem sua razão de ser no princípio da economia processual:

reconhecer um fato notório evita a produção desnecessária de uma série de provas. Essa exigibilidade garante que a justiça seja feita, de forma que o juiz não ignore propositadamente ou não - o que todo mundo sabe.

7. Conclusão

Como pudemos observar, há diversas ferramentas e objetos ao dispor do magistrado para que ele possa, a partir de técnicas cognitivas, atingir o conhecimento de determinados fatos.

Se concluirmos, portanto, que indícios, presunções e máximas de experiência não são considerados meios de provas, não obstante, são eles ferramentas necessárias ao exercício do poder jurisdicional para a compreensão de fatos relevantes ao processo e para a consagração da resolução de conflitos.

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No entanto, esse exercício de poder-dever do magistrado no sentido de revelar as circunstâncias trazidas aos autos deve sempre respeitar os princípios processuais, o que leva à uma ponderação entre essas ferramentas cedidas ao juiz, que o considera ainda como membro integrado em uma sociedade e por isso, afetado por ela, e sua limitação de exercício a partir desses princípios.

8. Referências Bibliográficas

BARBOSA MOREIRA, José Carlos. As presunções e a prova, Temas de direito processual (primeira série), São Paulo: Saraiva, 1977, p. 55-71.

CAMBI, Eduardo. A prova civil admissibilidade e relevância. São Paulo:

RT, 2006.

Código

de

Processo

Civil

de

1973.

Encontrado

em

<

 

Código

de

Processo

Civil

de

2015.

Encontrado

em

<

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13105.htm>

FABRÍCIO, Adroaldo Furtado. Fatos notórios e máximas de experiência, Revista Forense, v. 100, n. 376, p. 3-10, nov-dez/2004.

OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Presunções e ficções no direito probatório. Revista de Processo. São Paulo. v. 36. n. 196. p. 13-20. jun. 2011.