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61022 – Introdução à Economia Apontamentos de: Jorge Loureiro E-mail: jorgel@sapo.pt Data: 19.09.2008 Livro:

61022 – Introdução à Economia

Apontamentos de: Jorge Loureiro E-mail: jorgel@sapo.pt Data: 19.09.2008

Livro:

Introdução à Economia (João César das Neves)

Nota: Matéria referente ao ano lectivo 2007-2008 (Mestre Rafael Branco)

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1. Princípios fundamentais da Economia

1.1. A Economia

1.1.1. Origem da Economia

O que é a Economia? Esta é a pergunta natural no início da abordagem

a esta ciência. A possibilidade de uma definição exacta será discutida

adiante, mas logo de entrada é importante ter consciência da existência e da importância dos problemas económicos.

1.1.1.1. A Economia é essencial

É importante ter presente que a Economia está ligada ao essencial da vida de cada um. Somos incapazes de produzir as coisas mais básicas: um pão, um fósforo, uma lâmpada, um par de calças, um motor de automóvel. Foi a compreensão desta ideia que deu início à teoria económica.

ADAM SMITH (1723-1790) O Ensaio sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações demonstrava, com múltiplos exemplos, como, naturalmente, as relações económicas se ordenavam de forma espontânea, formando um sistema harmónico. O interesse por esta visão foi grande, não só nos salões elegantes mas também nas universidades e meios políticos, nascendo uma ciência para estudar esse sistema e fazendo de Smith o Pai da jovem Economia.

Esta ideia, tão simples mas tão importante, colocou-a Smith logo no início do seu livro, com a história do casaco de lã, hoje célebre, que demonstra bem o fascínio que motivou Smith:

« Por exemplo, o casaco de lã que cobre um jornaleiro, por mais

grosseiro e tosco que possa parecer, é o produto do labor combinado de grande número de trabalhadores. O pastor, o classificador da lã, o cardador, o tintureiro, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro, o curtidor, e muitos outros, têm de reunir as diferentes artes para que seja possível obter-se mesmo este produto

comezinho. E quantos mercadores e carreteiros hão-de, além disso, ter sido empregados no transporte dos materiais de uns desses trabalhadores para os outros, que, muitas vezes, vivem em regiões do país muito distantes! Quanto comércio e quanta navegação especialmente, quantos construtores navais,

marinheiros, fabricantes de velas e de cordas terão sido precisos para reunir as diferentes drogas usadas pelo tintureiro, que muitas vezes provêm dos mais remotos cantos do Mundo! E que variedade de trabalho é ainda necessário para produzir as ferramentas do mais ínfimo desses trabalhadores! Se examinássemos da mesma forma as diferentes partes que compõem o seu vestuário e a mobília da sua casa, a camisa de linho que usa junto à pele, os sapatos que lhe protegem os pés, a cama em que se deita e as várias partes de que se compõe, o fogão de cozinha em que prepara os seus alimentos, o carvão que utiliza para esse fim, arrancado às entranhas da terra e trazido até ele provavelmente depois de uma longa viagem por terra e por mar, todos os outros utensílios da sua cozinha, tudo aquilo que utiliza na sua mesa, as facas e os garfos, os pratos de barro ou de estanho, nos quais serve e divide os seus alimentos, as várias

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mãos necessárias para produzir o seu pão e a sua cerveja, a

vidraça que deixa entrar o calor e a luz e o protege do vento e da chuva, com todo o saber e a arte exigidos pelo fabrico dessa bela e feliz invenção sem a qual dificilmente se poderia proporcionar locais de habitação muito confortáveis nestas zonas frias do mundo, e ainda todas as ferramentas a que os operários empregados na produção de todos esses bens têm de recorrer; se examinarmos todas essas coisas, dizia eu, e considerarmos a variedade de actividades incorporada em cada uma delas, tornar- se-nos-á claro que, sem a ajuda e cooperação de muitos milhares, as necessidades do cidadão mais ínfimo de um país civilizado não poderiam ser satisfeitas, nem mesmo de acordo com aquilo que nós muito falsamente imaginamos ser a forma simples e fácil como elas são habitualmente satisfeitas. Na verdade, comparadas ao mais extravagante luxo dos grandes, as suas necessidades parecem, sem dúvida, extremamente simples e chãs; e, no entanto, talvez seja verdade que a satisfação das necessidades de

camponês

reis

industrioso e frugal, como a deste excede

africanos, senhores absolutos da vida e da liberdade de dez mil selvagens nus.» [Smith (1776), vol. 1, págs. 89-91.]

Foi a compreensão do facto de que esta realidade, tão complexa e

intrincada

e

um

príncipe

europeu

não

excede

tanto

a

de

um

a

de muitos

na

aparência,

funcionava

de

forma

tão

regular

coordenada, sem que ninguém dela cuidasse, que deu origem ao

estudo

da

Economia.

E

Smith

sublinhava

não

que

a

complexidade

do

sistema

não

impedia

uma

eficiência

nos

resultados,

como

também

levava

a

que

as

suas

diferenças

internas,

embora

importantes,

fossem

muito

pequenas

em

comparação com as diferenças que o separavam dos outros

sistemas (a distância de nível de vida entre o príncipe e o jornaleiro

é muito menor do que a que separa o jornaleiro do rei indígena, na

expressão datada de Smith). Esta maravilha fascinou Adam Smith e justificou um estudo que ele iniciou: a Teoria Económica. É importante notar que esta

descoberta fez-se quase na altura em que Lavoisier na Química,

Newton na Física, Mendel na Biologia e tantos outros, encontravam

a mesma harmonia nos vários aspectos da Natureza. Não se

tratava de encontrar leis naturais, onde o instinto ou outras forças profundas prendessem a realidade nessa harmonia. Era o

encontrar dessa ordem na própria acção humana. Na verdade, se cada um de nós tivesse de produzir tudo o que precisa e consome, da comida aos talheres, dos transportes ao mobiliário, não lhe seria possível possuir um décimo do que consome. Mas, no fundo, cada família produz o que consome. Só temos o que consumimos por troca. Este, como veremos, é um dos

princípios essenciais da Economia.

A troca está na base da nossa economia e, se ela falhasse, o nível

de vida das sociedades desceria muito, mesmo que cada um

continuasse a produzir o que produz. O sofrimento e a morte que esse facto provoca são consequências patentes da interrupção do funcionamento do sistema económico.

A Economia estuda factos e fenómenos que são essenciais à vida

concreta das pessoas e sociedades de sempre. Os temas que vamos tratar, por muito abstractos que pareçam, estão ligados

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directamente a questões de que depende a prosperidade e o desenvolvimento do Mundo ou a fome de gerações e o desemprego de milhões.

1.1.1.2. A Economia é uma Ciência

Estes problemas tão importantes e cruciais para a vida real das pessoas podem ser analisados de muitas formas diferentes. Visto que se trata de questões tão centrais para a vida de cada um, é normal que todos se preocupem em ter opiniões sobre elas. Na verdade, vamos apenas aqui tratar do que se chama a Ciência ou a Teoria Económica, que exige conhecimento rigoroso, sistemático dessa realidade. Tais regras têm como principal objectivo garantir que, nessa análise, não somos enganados por aparências, confusões, ideias feitas. Só que essas ideias feitas, do «senso comum», são muitas vezes

puramente falsas. É fácil que toda a gente esteja plenamente convencida de algo que é completamente errado. Por exemplo, no século XV todo o mundo, especialistas e leigos, acreditou durante décadas na existência do Mar Tenebroso, onde viviam monstros que destruíam os navios. Quem afirmasse o contrário seria

apelidado

Portugueses que eliminou esse mito. Muitas vezes o que parece, não é. Esta situação é o dia-a-dia das análises económicas. Os discursos de políticos, as notícias de jornais, as conversas de café estão cheios de ideias simples, atraentes, que parecem certezas indiscutíveis e que apenas denotam ignorância dos verdadeiros

resultados rigorosos e científicos. A única forma que o ser humano (excepto se possui poderes mágicos) tem para evitar isto é, pois, através da análise científica, do estudo sistemático e rigoroso dos problemas. É isto que aqui vamos fazer. Como veremos, a Ciência Económica é composta por alguns princípios, poucos, muito simples, que devem ser sempre aplicados

se

engana. Se não o forem, como por vezes não são, dá erro. Aliás, esta é uma característica muito importante que, ao longo da história da ciência, se tem notado em quase todas as «boas» teorias ou doutrinas:

em primeiro lugar, a teoria baseia-se em poucos princípios, muito simples e de aplicação geral;

por outro lado, a aplicação desses princípios a cada caso particular exige um estudo detalhado da situação concreta. Como disse Milton Friedman, um grande economista ainda vivo:

«[A Economia] é uma disciplina fascinante. O que a faz mais fascinante é que os seus princípios fundamentais são tão simples que podem ser escritos numa página, que qualquer pessoa os pode entender, e que, no entanto, tão poucos o fazem.» Mas, se os princípios essenciais são de aplicação geral, a sua concretização em cada caso gera resultados, prescrições completamente diferentes de situação para situação. Em Economia cada caso é um caso e não existem, como tantas vezes se observa nas propostas políticas reais, receitas de uso geral.

com

dos

de

louco.

Foi

a

experiência

directa,

científica,

inteligência.

Desde

que

aplicados

sempre,

ninguém

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política

económica, é captada de forma muito particular por um dos mais célebres mottos do grande Alfred Marshall:

«A multiplicidade na unidade e a unidade na multiplicidade.» Nela, o mestre queria significar que, em Economia, é necessário encontrar as muitas causas de cada fenómeno, mas também procurar as muitas situações em que a mesma causa aparece. Daqui sai a segunda conclusão da nossa introdução: poucos são os que procuram ter dos problemas económicos uma visão

Esta

ideia,

essencial

para

qualquer

tratamento

da

rigorosa e científica. É importante ter consciência de que a maior parte das ideias comuns sobre Economia não passaram pelo crivo científico e, por isso, podem estar erradas.

ALFRED MARSHALL (1842-1924) Marshall, sem nunca deixar de ser um professor inglês metódico, brilhante e erudito, foi o grande arquitecto da Economia moderna. Tomando as obras dos seus predecessores, integrando-as mas ultrapassando-as, Marshall, no fim do século XIX e princípios do século XX, ordenou e estruturou a ciência económica em moldes que ainda hoje são as traves mestras da disciplina. Os seus profundos conhecimentos matemáticos, os seus raciocínios cristalinos e as suas grandes preocupações morais, sobretudo com os pobres, foram os elementos essenciais para essa construção. Desenvolvendo a sua actividade sobretudo na Universidade de Cambridge, as suas principais obras são Princípios de Economia, de 1890, Indústria e Comércio, de 1919, e Moeda, Crédito e Comércio, de 1923.

1.1.1.3. A Economia é uma Ciência Humana

O facto de o objecto da ciência económica ser o próprio ser humano traz à Economia algumas características especiais, que ela partilha com as outras ciências humanas (a psicologia, a sociologia, a antropologia, etc.). Em primeiro lugar, é de notar que esse facto torna a ciência muito mais difícil. É como jogar xadrez com peças que nunca estão paradas. O ser humano muda, é complexo e imprevisível. Se os resultados da análise da química, física, matemática se podem considerar imutáveis e obtidos de uma vez para sempre, nas ciências humanas a única garantia é que a certeza de hoje será contestada na nova realidade de amanhã. Por outro lado, uma enorme quantidade de problemas científicos nasce do facto de o analista e o objecto de análise serem da

mesma natureza. Os resultados da análise tocam pessoalmente o analista, pelo que é difícil separar o resultado científico da opinião pessoal. Repare-se que, embora este aspecto seja típico das ciências humanas, ele está presente em toda a ciência sempre que esta toca um problema que afecte a vida de todos nós. A principal questão que resulta daqui é a distinção entre ciência e doutrina. A ciência, como vimos, descreve factos, estuda relações

de forma o mais rigorosa e neutra possível,

para evitar ser

enviesada

por

erros

ou

confusões.

Estas

envolvem

ética

e

julgamentos

particulares,

que

são

diferentes

de

pessoa

para

pessoa. A opinião de cada um, formada a partir do seu meio envolvente, da sua história concreta, dos seus interesses na vida, até dos seus estudos científicos particulares, é algo de pessoal e individual, que perdeu todas as características de generalidade e rigor do

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resultado científico. Na prática pode ser difícil separar as duas coisas, pois muitos fazem passar por indiscutivelmente científico algo que não passa da sua opinião pessoal. No que toca às opiniões, o valor de cada uma é igual ao das outras. É por isso que nos sistemas democráticos os votos de

todos e cada um são iguais,

economista, do engenheiro ou do sociólogo nas votações sobre assuntos da sua especialidade. Assim, sobre um certo problema podem existir várias doutrinas, representando as várias opiniões. Essas doutrinas baseiam-se em conhecimentos científicos, mas não são ciência. As duas, ciência e doutrina, são essenciais para enfrentar um problema económico

particular, mas têm papéis diferentes. A

análise

os

objectivos e a linha de conduta. Esta distinção é particularmente

peso à opinião do

e

não

se dá

ciência a doutrina
ciência
a
doutrina

garante o rigor da

define

e

a

exactidão

das

conclusões;

importante

na

Economia,

como

nas

outras

ciências

sociais,

porquanto

é

fácil

e

corrente

alguns

confundirem

as

noções,

apresentando opiniões discutíveis como ideias cientificamente demonstradas. É pois essencial, na análise de qualquer problema económico, buscar cuidadosamente quais das ideias presentes constituem

resultados científicos e quais resultam da opinião doutrinal. Estes

muito

importantes, mas são diferentes e como tal devem ser tratados. É importante ainda notar a presença de um terceiro elemento que também aparece nessas discussões: o disparate. Uma boa análise económica tem de ter em conta o princípio essencial de toda a reflexão: nunca se deve subestimar a estupidez humana; o erro e o disparate aparecem por todo o lado e é sempre possível fazer pior do que se fez ou se previa.

dois

sempre

presentes,

são

ambos

elementos

estão

1.1.2. Os princípios básicos de Economia

Como é que a teoria económica enfrenta os grandes obstáculos que se lhe apresentam e estuda este agente tão variável, multifacetado e

imprevisível? O método utilizado baseia-se na aplicação sistemática de dois postulados de base, muito simples e gerais. Estes dois princípios, que chamamos o postulado da racionalidade e o

abordagem

económica e são os elementos caracterizadores da Economia em relação às outras ciências. Como veremos repetidamente ao longo do

nosso percurso, é a partir destes princípios que todos os resultados

tal que uma enorme

quantidade de ideias, com grande interesse prático e relevância concreta, resultam destas ideias muito simples. Estes postulados são, hoje, justificados pelo facto de as teorias nele fundadas se terem mostrado eficientes. Mas a razão de fundo da sua escolha pode ser encontrada no tema do livro Principles of Economics de Alfred Marshall: «Natura non facit saltum», a Natureza não dá saltos.

O verdadeiro significado destes axiomas, tão frequentemente confundido

económicos são

postulado

do

equilíbrio,

obtidos,

e

constituem

o

essencial

da

a sua riqueza

é

e mal compreendido, pode ser ilustrado brevemente com um exemplo muito simples e real e, à primeira vista, não económico.

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O PROBLEMA DO AUTOCARRO CHEIO

Repare-se que a compreensão do comportamento deste sistema (o autocarro cheio de pessoas) é uma tarefa científica semelhante à tarefa do economista que pretende entender o comportamento do sistema económico. Uma das hipóteses de abordagem possível ao problema consiste em impor que os agentes que se encontram no autocarro são racionais. Trata-se da aplicação do postulado da racionalidade. Neste caso, a racionalidade significa que cada passageiro, no caso geral, vai procurar sair por aquela porta que está mais perto de si ou, em termos económicos, vai tentar minimizar o espaço percorrido, o esforço e o tempo despendido para obter o seu fim: sair do autocarro. «Sair pela porta que está mais perto» é a regra de conduta que cada um vai aplicar. Se está a chover ou se temos um amigo na parte de trás do autocarro, por exemplo, o comportamento racional leva a atitudes diferentes. O

princípio básico da racionalidade é geral, mas a regra particular que dele foi deduzida só se aplica a certos casos, mesmo que seja à maioria, como no exemplo. Claro que pode haver alguém que, sem razão, queira sair pela porta mais distante, empurrando todos ou esperando para ser o último. Mas este caso é claramente uma excepção e a sua existência não vai perturbar significativamente o nosso estudo do esvaziamento do autocarro. Assim, o sistema (o autocarro) encontra um equilíbrio, que é como que uma racionalidade do grupo, onde cada um decide por si. Aplicamos assim o segundo postulado, o postulado do equilíbrio. Não é preciso que todas as pessoas em todos os autocarros obedeçam estritamente a esta regra para que, com esta ideia, se consiga explicar o esvaziamento normal dos autocarros no fim da carreira. Se os agentes são racionais e a sua interacção equilibrada, sabemos imediatamente o que esperar do sistema. Por exemplo, é de notar que a utilização do princípio da racionalidade ou

necessariamente

da

maximização

do

bem-estar

não

implica

comportamentos éticos. Uma pessoa pode ser delicada e, ao mesmo tempo, ao escolher a porta de saída do autocarro, procurar a que lhe está mais perto. Torna-se assim clara a verdadeira natureza dos axiomas e dos mecanismos económicos que deles derivam. Da sua aplicação resulta apenas a tentativa de evitar o desperdício e, por isso, eles são conceitos funcionais na sua essência. Ao supor-se que maximiza o lucro, exige-se apenas que o empresário tente usar da melhor maneira os recursos de que dispõe para prosseguir os seus objectivos, que podem ser os mais altruísticos. A questão de saber se uma pessoa será respeitosa ou não, depende da atitude de cada um, e nada tem a ver com o postulado da racionalidade. Todo o comportamento humano tem um valor ético. Mas, qualquer que ele seja, ele pode ser (ou não) racional. É também importante notar outra ideia que se pode deduzir do exemplo referido. Repare-se que, embora cada um esteja dedicado apenas à resolução do seu problema (o que, como vimos, nada tem a ver com egoísmo), consegue, sem dar por isso, resolver o problema global: o autocarro é esvaziado da maneira mais rápida possível. Este é o

conceito da «

mão invisível

conceito da « mão invisível

» que afirma que, se cada um prosseguir os

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seus objectivos próprios, se consegue no fim o máximo bem-estar para todos. Adam Smith foi o primeiro a notar de forma sistemática este aspecto, e algumas das suas observações tornaram-se célebres:

«Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm

o seu próprio interesse.» Smith (1776), vol. I, pág. 95.

«Cada indivíduo [ não pretende, normalmente, promover o bem

]

público, nem sabe até que ponto o está a fazer. Ao preferir a indústria interna em vez da externa só está a pensar na sua segurança; e, ao dirigir essa indústria de modo que a sua produção adquira o máximo valor, só está a pensar no seu próprio ganho, e neste caso, como em muitos outros, está a ser guiado por uma mão invisível a atingir um fim que não fazia parte das suas intenções.» Ibidem, I, 757-758.

Mais uma vez é patente o fascínio de Adam Smith por um sistema que, de forma surpreendente, aparece ordenado naturalmente sem que

ninguém directamente contribua para isso. Também neste caso, o conceito não apresenta qualquer conotação ética

e pode também ser ilustrado pelo citado exemplo do autocarro.

Se na saída for respeitado o princípio da minimização do espaço

percorrido pelas pessoas, como impõe a hipótese do teorema, então metade dos passageiros, a situada na parte dianteira do autocarro, tenderá a usar a porta da frente e a outra metade a porta de trás. As duas portas estarão completamente ocupadas durante o processo de saída, conseguindo-se assim esvaziar o autocarro no mínimo de tempo. Esta ideia é talvez o aspecto mais importante do estudo económico da sociedade global: a sociedade funciona bem, sem que ninguém se preocupe com isso. Na verdade, uma das motivações essenciais do estudo da Economia residiu no interesse em compreender este sistema em que, de forma inesperada, surgiu uma ordem onde seria de suspeitar que reinaria o maior caos se ninguém impusesse a disciplina. Em todo este raciocínio nunca foram invocados conceitos éticos ou obtidos resultados valorizáveis subjectivamente. A solidariedade, noção eminentemente moral, não teve de ser chamada para a solução do problema global, e por isso, é aqui independente das análises de eficiência. Não é pois neste campo que se encontra o seu lugar na Economia e portanto não se procure aqui a sua aceitação ou recusa pela teoria económica. O carácter funcionalista desta noção é posto em destaque pelo facto de nem sempre ela ser verdadeira. Na verdade, ainda no exemplo do

autocarro, existe uma hipótese adicional que teve de ser introduzida para

a sua verificação: a colocação simétrica das portas.

Considerando o tipo de veículo actualmente mais usado em Lisboa, a colocação das portas à frente e ao meio do veículo perturba a demonstração do teorema. O mesmo princípio de minimização do espaço leva, neste caso, a que pela porta da frente só saiam cerca de um quarto dos passageiros, os colocados mais perto do condutor, pois os outros todos estão mais próximos da porta central. Assim se impede que o autocarro seja despejado no mínimo tempo. Aliás, é interessante notar que, neste caso, a equivalência entre a solução de minimização do espaço percorrido e a de minimização do tempo deixa de existir, sendo para alguns mais rápido sair pela porta mais afastada, o que fere a sensibilidade de qualquer economista que use os transportes públicos lisboetas.

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Se cada um dos agentes se preocupa apenas com a sua situação, não é neles que poderemos encontrar a resposta para um problema que é global. Mas na maioria dos casos (de certeza nos que nos interessam) existe um, mas só um agente que se preocupa com o problema global. A esse agente chamamos o Estado (que neste exemplo é substituído pela empresa de camionagem). No nosso exemplo, poderia ser colocado um funcionário na porta do meio, impedindo que por essa porta saíssem pessoas que se encontram na parte da frente do autocarro. Mas, por vezes, o custo da intervenção é tal que não vale a pena. Este caso é um exemplo evidente: o custo de ter um funcionário à porta do autocarro é de tal maneira elevado que não justifica o ganho de alguns minutos na desocupação do autocarro. E aqui aparece outro dos princípios fundamentais da Economia: como em todas as decisões económicas, só o que der maior benefício líquido é que deve ser feito.

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1.2. A ciência económica

Antes

delimitar o campo da nossa análise. Vamos nesta secção ver com mais cuidado o que é e como se faz o estudo da Economia.

conveniente

de

analisarmos

os

principais

resultados

da

teoria, é

1.2.1. Definição de Economia

Ao longo do tempo, muitas definições têm sido apresentadas para

caracterizar a Economia. O que vamos fazer é reflectir um pouco sobre a essência da Economia, a partir de algumas ideias de definição apresentadas ao longo do tempo.

O grande Alfred Marshall, de que já falámos, um dos maiores

economistas de todos os tempos, que viveu em Inglaterra no fim do século passado e princípio deste século, começou o seu livro essencial, Principles of Economics, de 1890, com a frase:

«

[Marshall (1890), p. 1.]

Esta definição parece tão simples que quase é inútil. Pode dizer-se que o que vamos deduzir desta frase de Marshall é algo de essencial, que a maioria das pessoas, mesmo grandes especialistas da ciência, por vezes não leva em conta. A primeira coisa que esta frase nos indica é que o que vamos estudar ao

problemas

grandiosos, não são questões que se situem longe, ou que só ocupem

as pessoas importantes. O que a Economia estuda é o comum das

realidades, a vida corrente das pessoas, de todas as pessoas e,

sobretudo,

encontramos.

Na verdade, a Economia não estuda os assuntos económicos, e não os

estuda por uma razão também muito simples: porque não há assuntos económicos. O que existe são problemas. Não há fenómenos eminentemente económicos. Os fenómenos não são económicos, ou sociológicos, ou químicos. Os fenómenos são fenómenos! A realidade é única e, na sua riqueza natural, contém múltiplos aspectos particulares. Essa realidade e os seus múltiplos

aspectos podem ser analisados de variados pontos de vista, económico, sociológico, químico, etc. Não é a Natureza que classifica a realidade, mas sim o estudo humano, organizado em ciência. Assim, qualquer problema real pode ser analisado do ponto de vista químico, físico, económico, social, etc. Será que, quando uma pessoa compra um jornal, isso é um fenómeno económico? Por que razão não é possível ao sociólogo analisar o

aspecto de encontro de classes sociais diferentes entre o jornaleiro e o comprador? O que Marshall quer captar com a sua frase é exactamente este facto: a Economia estuda os assuntos correntes da vida. Não é só a Economia que estuda os assuntos correntes da vida, mas a Economia estuda todos os assuntos correntes da vida. Quer isto dizer que é possível fazer uma teoria económica de coisas tão «pouco económicas», mas pertencentes à nossa vida corrente, como as

da poesia, do namoro, da religião ou dos divertimentos? Basta a esses

mais

aprofundar

é o estudo da humanidade nos assuntos correntes da vida.»

Economia

esta

ciência

não

são

casos

especiais,

são

essas

ou

das

pessoas

normais,

porque

as

que

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fenómenos aplicar a metodologia, o prisma de análise da Economia, e obtém-se uma teoria económica desses fenómenos. Uma questão diferente é saber se essa análise económica capta, através do seu prisma particular de enfoque, os aspectos mais relevantes para o estudo desse fenómeno. É provável que, se nos debruçarmos sobre um poema, o amor entre dois jovens ou as relações pessoais com Deus, e o fizermos através de um método económico (ou sociológico, ou químico), apenas captemos aspectos secundários dessa realidade. Mas essa predisposição para certo tipo de fenómenos não impede a ciência de ser aplicada a outros problemas, e não quer dizer que a análise não possa captar aspectos inesperados e interessantes em campos que pareciam ser-lhe estranhos. Todos os assuntos correntes da vida do homem podem (e devem) ser objecto da Economia. Mas qual é a particularidade do estudo da Economia? Para vermos isso vale a pena usarmos umas outras das tentativas de definição da ciência económica. Vamos ver a usada por Paul Samuelson no livro de 1948 Economics, que sucedeu ao livro de Marshall como manual básico que ensinou Economia a gerações e ainda hoje é usado. Aí, Samuelson

afirmou que «

Economia

» é o estudo de como as pessoas e a sociedade de recursos escassos, que podem ter usos

escolhem

o

emprego

alternativos, de forma a produzir vários bens e a distribuí-los para

consumo, agora e no futuro, entre as várias pessoas e grupos na sociedade».

PAUL SAMUELSON (n. 1915) O americano Paul Samuelson é um dos economistas vivos mais famosos e influentes.

Estes aspectos voltam a ser repisados adiante, com mais pormenor, mas vale a pena começar já por enunciá-los.

1.2.1.1. Estudo do comportamento dos agentes e da sociedade

O objectivo da Economia é, como já dissemos, o ser humano, mas nele, a Economia dirige-se à compreensão do seu comportamento. Trata-se, como já vimos, de uma ciência e, por isso mesmo, o seu propósito é o conhecimento e a compreensão da realidade. Se alguém julgava que o propósito da Economia era outro (por exemplo, aprender a ganhar dinheiro) o melhor é desistir já. Uma sociedade é uma amálgama de agentes, que se compõe do comportamento diferente de cada um deles. A Economia estuda agentes, mas agentes em relação, e o comportamento individual tem sempre de ser colocado na perspectiva da relação interpessoal. Claro que é possível analisar economicamente os problemas de um agente isolado, mas a relação (neste caso a falta dela) tem sempre efeito sobre o comportamento individual.

1.2.1.2. Bens e recursos

Na definição de Samuelson, os elementos essenciais são referidos à formulação gramatical da frase. Aparece aqui, pela primeira vez, um conceito essencial em Economia: o bem. O que é um bem? A definição económica de

é algo que satisfaz uma necessidade humana. O pão que

satisfaz a fome, a roupa, a chapa de ferro são bens. Mas também

bem
bem

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uma aula de Economia, um concerto, o ar, uma cama, um cão, uma conversa com um amigo, tudo isto são bens económicos. O erro de considerar que só algumas coisas, as materiais, é que são económicas, é um erro comum, mas que deve ser refutado. Isso quer dizer que o que determina se uma coisa é ou não um bem é o ser humano e as suas necessidades. Por isso é que a Economia é uma ciência humana. As necessidades que aqui são consideradas são as necessidades, todas as necessidades dos seres humanos. Não se entra aqui com discussões ético-morais que, embora sejam muito importantes para a vida da sociedade, não é aqui que têm a ver com a nossa análise científica. Como vimos atrás, estas realidades, além de serem, para o economista, bens económicos, são, simultaneamente, componentes sociais, fenómenos físico-químicos, etc. É importante não ignorar que a realidade permanece una, mesmo quando nós, por motivos de análise, a dissecamos. Mas existem algumas coisas que não satisfazem directamente as necessidades humanas e, por isso, estritamente não são bens, mas servem para produzir bens. A essas entidades económicas

. Um pedaço de terra ou uma máquina não

chamamos

são bens, mas algo que produz bens; são recursos. O trabalho é também um recurso, mas também pode ser um bem, se se tira prazer do que se faz.

1.2.1.3. Escolha e escassez

O outro elemento caracterizador da definição de Samuelson é o verbo, o predicado da frase.

Um dos elementos humanos que mais encaixam na abordagem particular da economia é o da escolha. A escolha é um elemento

o

é

essencial

problema a resolver pelo agente ou pela sociedade, o qual vai motivar o comportamento. Como veremos adiante, a Economia gosta de analisar a realidade em termos de decisões ou escolhas,

pelo que a sua presença é essencial. Para haver escolhas são precisos vários elementos. Um dos principais é a existência de alternativas. Se não há alternativas para escolher, a escolha é forçada, pelo que não existe.

Outro

a

recursos
recursos

da

Economia,

pois

dessa

decisão

que

nasce

elemento

essencial

para

a

existência

de

escolha

é

liberdade. Para existir uma escolha é não só necessário que as alternativas existam, mas também que seja física e humanamente possível optar entre elas e eleger qualquer uma delas. A liberdade de opção é um elemento essencial da escolha. Uma escolha forçada não é escolha. Mas mesmo que existam alternativas, muitas necessidades para satisfazer, e a liberdade de escolher como satisfazê-las, se os bens disponíveis para satisfazer essas necessidades forem mais do que suficientes para todas elas, não há problema económico. Embora a respiração seja uma necessidade vital para todos nós, não há problema económico no consumo de ar, pois a atmosfera chega e sobra para todas as nossas necessidades de ar 1 .

1 A poluição pode tornar a respiração do ar um problema económico, tal como ela já é para um astronauta.

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Por essa razão, a economia está muito ligada ao conceito de escassez, porque é ela que causa a necessidade de escolhas e decisões que, como vimos, são essenciais para um problema económico.

1.2.1.4. Consumo

das

necessidades humanas através de bens. Ao acto de satisfação das

a

utilização de bens para a satisfação das necessidades. Tal como antes, o que determina este conceito é o ser humano e a sua actividade. Repare-se que o consumo não tem de ser material. Um soneto,

uma sinfonia, são bens económicos

contemplando-os ou escutando-os, é consumo. O problema do eremita ou o problema do empresário com duas casas e três carros é, economicamente, do mesmo tipo: um problema de consumo. A nós parece-nos diferente porque ele é social, moral, culturalmente diferente. Mas economicamente, o problema é o mesmo:

utilizar,

A

finalidade

da

Economia

é

o

estudo

da

o

satisfação

consumo

necessidades,

chamamos

consumo

.

Assim,

é

e

o

acto

de

os

necessidades (diferentes) satisfeitas por consumos (diferentes) de bens (diferentes). Por outro lado, o consumo é a única finalidade do comportamento económico: a satisfação das suas necessidades.

1.2.1.5. O tempo

Todas as pessoas, ao decidirem como devem usar os bens para consumo hoje, entram em conta com o que prevêem que possa vir a acontecer. Por outro lado, o facto de o futuro ser incerto complica fortemente essa decisão. Por todas estas razões, o tempo é um dos elementos mais importantes da Economia e mais difíceis de analisar. Assim, e mesmo que, para simplificar, tenhamos que abstrair da sua existência em certas partes da nossa análise, é importante ter consciência da sua presença.

Através destas definições de Economia foi possível determinar os principais elementos de uma análise económica. Seguidamente,

para

estes

elementos

serão

observados

com

mais

cuidado,

determinar a sua verdadeira natureza.

1.2.2. A abordagem científica

Não é aqui o lugar para descrever em pormenor este instrumento nos seus detalhes, mas vale a pena considerar algumas das suas características e dos seus problemas. Métodos expeditos e fáceis de acesso à realidade podem, normalmente, gerar uma visão distorcida e errónea dos fenómenos. Daí que a

actividade científica seja, simultaneamente, uma aventura, cheia de emoções e percalços, e um exercício de rigor e pormenor, exigindo extrema atenção e minúcia. É costume dizer que a experimentação não tem lugar na Economia. Na verdade, poucas são as situações em que é possível realizar algo de semelhante aos testes laboratoriais controlados da Física ou da

15

Química 2 , pois seria imoral usar pessoas ou sociedades como cobaias

da ciência. Mas se o cientista social tem de se privar do recurso a testes

para

experiências, que em tudo são semelhantes às laboratoriais, excepto no controlo das amostras. Talvez a experiência mais simples fosse dividir um país ao meio, aplicar um dos sistemas em cada parte do país, deixar passar umas décadas e avaliar os resultados. Na história recente, o fluir natural dos acontecimentos criou exctamente essa situação, com a Alemanha e a Coreia, por exemplo. É claro que o facto de o país não ter sido escolhido pelos cientistas e a sua divisão não ter sido realizada em condições laboratoriais pode enviesar os resultados. Mas seria possível conceber uma experiência rigorosa que fosse muito diferente? Na verdade, este exemplo corresponde ao segundo instrumento do método científico, a observação. A observação directa dos fenómenos é

a grande fonte de informação para a Economia. Ao longo dos tempos,

muito do esforço que os economistas gastaram nos seus estudos foi na recolha de factos e dados. O rigor e a minúcia na recolha desses dados

é algo de essencial para a Economia, de tal modo que muitos dos avanços na metodologia geral de recolha e tratamento de dados quantitativos se deve a economistas 3 . Na verdade a observação da vida económica concreta, do

comportamento dos consumidores, empresas e governos fornece uma enorme quantidade de informação que está disponível ao cientista para classificar, delimitar e interpretar.

A análise científica constitui a terceira parte do método científico. Na

verdade, é preciso alvitrar uma explicação, um mecanismo para compreensão do fenómeno observado. Essa explicação, a que se chama «teoria», consiste numa invenção abstracta do analista, o seu entendimento profundo do fenómeno. Pode estar cpmpletamente errada, por nada ter a ver com a realidade, ou adaptar-se muito bem aos contornos do problema em análise. Mas, de qualquer forma, trata-se de

uma construção abstracta e metodológica, que é sempre artificial. Devido a essa artificialidade, torna-se necessária uma fase posterior de teste da teoria, ou seja, da verificação se a forma como se comporta o fenómeno tem alguma relação com a teoria particular que foi construída.

A simples descrição destas actividades é suficiente para sublinhar a sua

dificuldade. Apresentar uma ideia sobre um problema, com todas as suas implicações e consequências, e verificar a semelhança entre esta construção abstracta e a realidade é uma das tarefas mais profundas e complexas da ciência. Por essa razão, ao longo do tempo, a ciência foi aperfeiçoando instrumentos para facilitar a sua execução. Muito se tem dito da matemática e da estatística como veículos de exposição e teste de teorias, apoiando ou contestando o seu uso. Não é aqui o lugar para debater este assunto, mas vale a pena notar que o uso destes instrumentos tem como única finalidade facilitar a apresentação e desenvolvimento da teoria científica. Na verdade, a matemática é apenas uma linguagem, mas uma linguagem que tomou o rigor como linha condutora da sua estrutura. Assim, ela foi construída para ser a única linguagem no mundo na qual

verdadeiras

avaliar

as

suas

teorias,

a

História

tem

criado

2 Embora se tenham realizado, em alguns países, actividades que em tudo podem ser classificadas como experiências económicas. Por exemplo, as autoridades fiscais de alguns Estados introduziram variações no sistema de tributação em determinadas zonas de um país, as quais, depois de verificadas as suas consequências, eram estendidas a todo o país ou eliminadas.

3 Isto é de tal modo assim que muitos ainda chamam à técnica de regressão, uma das principais componentes da estatística, «econometria», que significa «medição económica».

16

não pode haver mal-entendidos. Por essa razão, ela é um instrumento precioso para o analista de qualquer ciência, que quer ser claro e rigoroso. Por isso, a matemática é óptima para a «dedução», ou seja, para o desenvolvimento pleno das implicações da ideia teórica. No que toca à estatística, ela é também um instrumento para testar, da forma mais rigorosa, a semelhança ou a diferença entre duas realidades, quantitativas ou não. No fundo, o que se passa é que o cientista tem consciência da facilidade com que se engana e do enorme número de erros, confusões e mal-

entendidos que se fazem em qualquer estudo. Se for possível apresentar em termos matemáticos e estatísticos as suas ideias, é muito mais difícil cair em erros e muito mais fácil detectá-los e corrigi-los se eles acontecerem. Estes dois aspectos que vamos focar resultam, em particular, do facto de

a Economia ser uma ciência humana. Assim, o objecto desta ciência é a

realidade complexa e variável das relações humanas, que constitui uma intrincada rede, influenciada por múltiplos factores incontroláveis. Os dois elementos que vamos tratar, a hipótese coeteris paribus e a do estatuto estatístico das leis económicas, são os métodos mais poderosos

que a ciência pode utilizar para o domínio da complexidade da realidade. Mas o poder destes métodos faz com que, se mal utilizados, se gere o risco de cometer erros graves de análise. Estes mau uso é de tal modo frequente que, para muitos, os pontos que vão ser referidos são considerados as principais fontes de erro em Economia. Para resolver esta questão, o economista vê-se obrigado a isolar uma parte do problema, anulando, por meio do que pode ser considerado um truque laboratorial, o resto dos elementos relevantes. Assim, quando um economista afirma que uma subida de preços, por exemplo, causa uma descida da quantidade procurada supõe sempre que tudo o resto para além dos preços (as condições do produto, o meio ambiente, a vontade do consumidor, etc.) se mantém constante, e que apenas este pequeno aspecto da realidade foi alterado. Deste modo é-lhe possível, reduzindo

o problema a uma dimensão tratável, obter conclusões claras.

Na realidade, a variação de preços seria acompanhada por uma enorme variedade de outros fenómenos, alguns acidentais, outros paralelos e outros até resultantes da própria variação dos preços. É dessa enorme quantidade de factos que resulta a situação concreta que a Economia vive, e elas poderiam perturbar os resultados do estudo. No nosso exemplo, se a subida de preços fosse acompanhada de uma descida de impostos, a quantidade procurada do bem poderia até subir. Ou se, depois da subida do preço, o bem (uma camisola) tivesse uma etiqueta Cristian Dior, um símbolo do Benfica ou a fotografia do Marco Paulo, ou ainda se agora estivesse mais calor, tudo isto faria, possivelmente, alterar a conclusão. Este truque ficou conhecido em ciência como «hipótese coeteris paribus», expressão latina que significa que «oresto fica igual». Na verdade, cada economista, ao estudar um problema, necessita de,

logo de início, escolher o que é relevante, para introduzir na sua análise,

enquanto o resto é eliminado,

constante (coeteris

paribus). Se forem esquecidos aspectos importantes, o estudo erra nas suas conclusões, se incluídos aspectos irrelevantes como variáveis a investigação torna-se demasiado complexa. Cada teorema ou conclusão foi deduzido em condições claras e bem definidas, e só é válido nessas condições. Se isto for esquecido e se tentar aplicar a outras condições, eles deixam de ser válidos, resultando

porque mantido

17

graves erros, que não são culpa dos teoremas, mas de quem os não sabe aplicar. O outro problema, também ligado às características humanas do objecto da Economia, é o da incerteza. A realidade, além de complexa, é extremamente volúvel e variável e, consequentemente, as leis e os teoremas económicos nunca conseguem captar a enorme variedade das realizações concretas dos fenómenos. Por essa razão, as leis e os teoremas económicos são leis estatísticas. Assim, elas não são leis universais e imutáveis, não se aplicam a todos os casos, mas apenas, «em média», à generalidade das situações «normais». Marshall resumia este facto ao afirmar que «As leis da Economia devem antes ser comparadas com as leis das marés em vez de com a lei, simples e exacta, da gravitação« [Marshall (1890), p. 26]. Assim sendo, ao observar um tipo de problema económico, é de esperar que a maior parte das situações obedeça ao teorema apropriado, mas não é de excluir o aparecimento de um caso estranho e abstruso, que não se enquadra nesse teorema. O mal não está no teorema nem na situação; apenas é a manifestação da enorme variedade da Natureza. Exigir que toda a realidade humana caiba numa fórmula geral é um erro de incompreensão dessa realidade. Por exemplo, uma subida de preços reduz, normalmente, a quantidade procurada. Se é de esperar que, na generalidade dos casos, exista mesmo uma queda da quantidade procurada, pode acontecer que, em certo bem, para certo consumidor, tal não aconteça. Ou então, se um economista chega à conclusão de que, para cada subida de 10 €, a quantidade procurada cai de 4 unidades, ninguém espera que essa queda seja exactamente de 4 unidades, mas apenas de cerca de 4 unidades. Existem outras fontes de erro na Economia. Em primeiro lugar o facto de, sendo uma ciência humana, o grau de subjectividade incluído nos julgamentos ser muito maior que numa ciência chamada exacta 4 . Não ter consciência desta subjectividade pode ser extremamente perigoso. Outra

fonte de erro é a chamada «

»: o que se passa

numa parte não é necessariamente válida no todo. Finalmente, deve ser referida uma das fontes de erro mais frequentes da

falácia da composição

Economia, como o é de toda a ciência, e até da vida corrente: a

. Esta falácia – que está ligada à frase latina post hoc, ergo

propter hoc, ou seja, «depois de, por isso por causa de» – corresponde à atribuição de um nexo de causalidade entre dois factos apenas contemporâneos. É um erro comum, de conclusão precipitada. Porque eu velo as acções na bolsa descerem depois de subir um imposto deduzo que a bolsa caiu por causa do imposto. Pode ser que haja razão para isso, mas pode também ser que não. Se existe uma teoria que supõe que a subida dos impostos tem efeitos negativos na bolsa, é claro que esta verificação pode ser utilizada como observação abonatória para a teoria. Por vezes, a simultaneidade dos acontecimentos é mera coincidência. Outras vezes é apenas uma má interpretação. Noutros casos, o que se passa é que existe uma terceira causa, que provoca os dois factos verificados, sem haver causalidade directa entre os dois. Esta falácia do post hoc é das mais perigosas, porque se baseia numa observação directa. É muito difícil convencer alguém que viu algo de que

falácia
falácia

do post hoc

4 Quando a física trata de energia atómica ou a biologia discute quando é que um feto é uma pessoa, para saber se o aborto é ou não um crime, a mesma subjectividade está presente.

18

a conclusão que tirou dessa observação é um produto do seu raciocínio

ou da sua imaginação, não partindo necessariamente da informação que obteve.

É este o esforço, mas também o encanto da Economia.

19

1.3. O problema económico

Vimos que a Economia era o estudo da realidade, da realidade toda, de um ponto de vista particular. Mas vimos também que, se toda a realidade pode ser encarada de um ponto de vista económico, nem toda a realidade tem um problema económico. Só existe um problema económico quando existe a necessidade de tomar uma decisão, e esta só aparece quando existe escassez e escolha. Estes casos são aqueles onde a aplicação da análise económica traz algum resultado interessante. Quando não há necessidade de tomar decisões, não há problema.

1.3.1. Escassez e escolha

A escassez é um elemento fundamental para o aparecimento de um

problema económico. A

disponíveis satisfazerem as necessidades presentes. Assim, o conceito de escassez, como todos os outros conceitos económicos, depende centralmente das necessidades humanas. São estas que definem se um bem é ou não escasso. Assim, a situação de escassez de um bem pode ser alterada radicalmente devido apenas à alteração de gostos das pessoas.

O petróleo ou o urânio não eram escassos antes de se ter descoberto a

consiste na impossibilidade de os bens

escassez
escassez

tecnologia que permitiu aproveitá-los como fonte de energia. Um programa de televisão pode tornar escasso um produto que até então nem sequer era um bem económico (se um cantor da moda convencer

os seus fãs a usarem ossos de frango ou cascas de melão na lapela, por

exemplo). Não há escassez de ar para respirar (embora ar puro seja muito escasso nas nossas cidades), ou de lugares num cinema vazio. Mas cuidado, a

escassez nem sempre é o que parece e varia com as circunstâncias. Por exemplo, existem muitas pedras pelo mundo, e por isso elas parecem não ser excassas, mas algumas delas são escassas, porque é preciso apanhá-las, cortá-las, para fazer calçadas. O que é escasso é a pedra tratada e colocada no sítio em que é necessária.

Mas

de

necessidades humanas ilimitadas. Por isso, não é fácil imaginar uma sociedade sem escassez.

É importante notar que a escassez e a escolha estão ligadas. É a

escassez que gera alternativas. Se não houvesse escassez era possível

ter todas as alternativas e, se se pudesse ter todas as alternativas, não teria de haver uma escolha. Daí a razão de haver escolha reside na escassez 5 , ou seja, o facto de não ser possível produzir tudo o que se deseja. Se é preciso escolher, isso significa que para satisfazer uma necessidade é preciso sacrificar uma outra, ou seja, existe um custo.

Chamamos

conceito

económico de custo) custo de oportunidade. O

a

principal

razão

que

causa

a

escassez

é

a

existência

ao

conceito

económico

de

custo

(o

único

custo
custo

de algo é o valor

do que de melhor deixámos de fazer para fazer o que fizemos.

O custo de um livro não são os 25 € que uma pessoa pagou por ele, mas

o valor do que ela deixou de fazer com esses 25 €, para poder comprar

5 É importante referir um outro caso em que, mesmo existindo escassez, não existe problema económico. Esse é o caso de inexistência de alternativas. Se há apenas uma hipótese, nesse caso não existe escolha, e mesmo que as necessidades não possam todas ser satisfeitas, havendo escassez, não há problema económico.

20

com o que poderia ter

comprado em vez de comprar o que comprou. Claro que poderia escolher fazer muitas outras coisas, mas o que nos interessa para definir

o custo é o que de melhor deixou de fazer. Na verdade, como é racional, se não tivesse comprado o livro, teria gasto o dinheiro noutra coisa, a que lhe daria mais satisfação a seguir ao livro. Por exemplo, se uma cassete fosse o que, na ausência do livro, mais gostaria de ter comprado, então o valor da cassete seria o custo de oportunidade do livro. O custo do livro é pois a satisfação que a cassete (que não se comprou) daria 6 . Repare-se que em Economia, na verdade, não há custos. O que existe são benefícios das alternativas. Se o que interessa são as necessidades humanas, o custo de uma satisfação é a satisfação que se deixou de ter, por ter a que se teve.

A forma mais simples de expressar o fenómeno da escassez é através

de uma velha frase da Economia: «não há almoços grátis». Esta frase

é a expressão simples da ideia de que não é possível ter uma coisa

escassa de borla. Se alguma coisa, sendo escassa, é, em certo caso, grátis, então ou

alguma outra pessoa pagou ou pagou-se sem dar por isso. Uma coisa escassa nunca é de graça, embora possa parecer. Muitos querem fazer-

nos

autocolantes das campanhas eleitorais, etc.). Mas, na realidade, o que aconteceu é que o custo foi disfarçado, foi já pago por nós anteriormente, ou virá depois. Uma coisa grátis só o é porque não há escassez dela: água do rio, luz do Sol, areia da praia. Mas a maior parte das coisas da vida não são grátis. Mas então que pensar da frase popular: «As melhores coisas da vida são grátis?» O sentido económico dessa frase seria que a amizade, um sorriso, uma paisagem, não são bens escassos. Se é esse o sentido, então devemos deduzir que a Economia tem pouco interesse para as melhores coisas na vida. Mas o facto de apenas interessar a coisas menos importantes (como os almoços) não quer dizer que a Economia deixe de ser importante. Mas será esse o sentido? Será que a amizade é grátis? Uma coisa é grátis quando não tem custo. Mas o custo não está apenas definido em dinheiro. Como vimos atrás, o custo de algo é aquilo que tivemos de sacrificar para satisfazer essa necessidade. E todos sabemos como a amizade, um sorriso, uma paisagem exigem sacrifícios para serem mantidos. Talvez que a frase «as melhores coisas na vida são grátis» queira apenas dizer que não custam dinheiro, e não que não têm custo. Em termos económicos seria mais correcto dizer «as melhores coisas da vida não passam pelo mercado», mas bem sabemos que têm custo. Deste modo, sabemos que nem tudo o que desejamos pode ser satisfeito. As necessidades são de mais para os bens disponíveis ou produzíveis. É preciso escolher, decidir. A questão que se levanta é a da escolha. A selecção das necessidades que vão ser satisfeitas em relação às que vão ser preteridas. Na visão popular, os problemas económicos são apenas problemas materiais, de produtos comprados e vendidos no mercado, pagando im-

esse livro. É a satisfação que deixou de ter

crer

que

alguma

coisa

nos

é

oferecida

(remédios

da

Caixa,

6 Note-se que o valor dessa cassete deve ser inferior ao do livro, pois se fosse maior, a pessoa seria irracional, pois não devia ter comprado o livro, mas sim a cassete. Como se disse atrás, só é racional tomar decisões que têm um benefício líquido positivo, ou seja, em que o seu valor é maior do que o custo.

21

postos e recebendo subsídios. Mas sabemos já que o que é determinante para a existência de um problema económico não é a presença do mercado, de fábricas ou do

dinheiro. O que é determinante é a presença de necessidades humanas

e a escassez de bens. Assim, o problema de ir hoje ao cinema ou ficar

em casa a ver televisão, a questão de escolher entre Shakespeare ou Gil Vicente para representar são problemas económicos igualmente, pois

neles está presente a escassez e a escolha. Várias formas foram utilizadas, por vários autores, para exprimirem as características essenciais desta escolha, do problema económico. Qualquer problema económico se resume a uma destas perguntas:

O que produzir? O que é que as pessoas querem consumir?

Como produzir?

Para quem produzir?

Outros preferem resumir o problema económico em várias actividades:

produção, consumo e distribuição. Segundo esses, o problema

económico pode ser de aplicação dos recursos escassos na produção de bens, de distribuição dos bens produzidos pelos vários agentes da economia ou de satisfação das necessidades dos agentes, através do consumo.

1.3.2. Racionalidade e interdependência

Daqui saem as duas

nos vão acompanhar ao longo de todo o estudo da Economia:

hipóteses fundamentais

, que já atrás vimos e que

os agentes são racionais

os sistemas equilibram

Estas são as hipóteses-base de toda a teoria económica, e delas saem praticamente todos os teoremas da economia. Nesta secção veremos com mais cuidado o que são e o que significam estas hipóteses.

maneiras

As

escolhas

económicas

podem

ser

feitas

de

muitas

diferentes, tantas quantas as pessoas que existem. Elas respeitam a hipótese essencial, pois a resolução económica exige a racionalidade.

À primeira vista, a hipótese da racionalidade parece algo estranha, mas,

como já vimos, ela representa algo que é eminentemente humano, e por

isso foi escolhida como base da ciência humana que é a Economia.

1.3.2.1. Optimização

O primeiro elemento da racionalidade é tirar partido de uma melhoria, em relação aos objectivos do agente, sempre que essa alternativa não represente custo adicional. Como disse o grande economista irlandês Francis Y. Edgeworth, «o primeiro princípio da Economia é que cada agente é motivado apenas pelo interesse próprio» - Edgeworth (1881), p.6.

Equivale a supor que não se escolhe uma má solução, quando estão disponíveis outras melhores. Mas para saber se uma

situação é ou não racional, preciso de ter a certeza de duas coisas:

a)

Disponibilidade:

disponíveis e todas igualmente disponíveis. E é fundamental notar que disponibilidade não é só disponibilidade física, mas moral, social, etc. Como já vimos atrás, a racionalidade e a busca da optimização não implica que se roube ou atropele as

mesmo

as

oportunidades

têm

de

estar

22

b)

regras (repare-se que nesse caso existe um custo, pela perda de respeito próprio, de bem-estar do próximo, que pode ser muito importante). Na verdade, duas situações que parecem iguais nos seus resultados podem ser muito diferentes na avaliação de pessoas diferentes. Pode ser racional uma pessoa recusar-se a pagar um suborno a um burocrata, mesmo que estivesse disponível para pagar-lhe o mesmo montante em taxas. É claro que se uma pessoa não tem escrúpulos, o crime pode ser racional. Assim, para avaliar da racionalidade da atitude de uma pessoa é pois necessário ter em conta a subjectividade particular

dessa pessoa, que define a posição moral do agente e é essencial para determinar da disponibilidade de certas acções. O outro aspecto é a definição de o que é melhor. O que é melhor para uns pode não ser para outros. Mas porque ele não

é

escolhe o que eu escolheria

necessariamente irracional, apenas tem gostos diferentes.

na situação dele,

ele

não

1.3.2.2. Coerência

O segundo elemento da racionalidade é a coerência: se, entre duas alternativas, uma pessoa escolhe uma, todas as vezes que

estiver nas mesmas circunstâncias, deve manter a escolha. Aqui, o elemento fundamental é a questão de saber o que significa as mesmas circunstâncias. É claro que pode preferir chá no Verão e café no Inverno, ou chá se não tiver açúcar e café com açúcar. Isso são situações diferentes, avaliadas de maneira diferente pelas mesmas preferências. Uma pessoa pode mudar de gostos, ao longo do tempo, e isso não implica falta de coerência, desde que, quando tem certas preferências, elas sejam coerentes.

a

da hipótese da

racionalidade traz à Economia uma ordem e lógica de raciocínio que são a sua característica essencial. Será que é realista a racionalidade? Na verdade, nem sempre é realista supor a racionalidade. Há exemplos estudados de irracionalidade, e todos nós conhecemos, em nós, decisões que não foram feitas ou coerentes. No fundo, a hipótese da racionalidade é uma simplificação teórica que é feita pela Economia para facilitar a obtenção de resultados. O economista supõe que não existem decisões irracionais, ou que estas são pouco importantes. Mas, a racionalidade não é tão irrealista como pode parecer. A exigência que se coloca a uma escolha para ela ser racional é tão fraca que se pode dizer que a grande maioria das decisões humanas, se bem analisadas, são mesmo racionais. É certamente impossível encontrar alguém que, sistematicamente, decide escolher o que sabe ser contra os seus próprios desejos. Na verdade, definida com a generalidade com que o fizemos, é mesmo difícil encontrar uma decisão totalmente irracional. Só é irracional se violar as condições muito gerais que foram apresentadas. É preciso confirmar se as alternativas são mesmo acessíveis, e quais os gostos, circunstâncias e subjectividade dos agentes envolvidos.

Estes

optimização e a coerência. A utilização

são

os

elementos

fundamentais

da

racionalidade:

23

Por exemplo, se num supermercado, entre produtos iguais, com preços diferentes, se vende mais o mais caro, a situação parece irracional. Mas será que são mesmo iguais? A embalagem, o

nome, o brinde, a atitude da empresa não levará um a ser mais atractivo? Ou será que é um truque do supermercado, pondo mais acessível o mais caro, levando o cliente a creditar, automaticamente, que todas as embalagens iguais têm igual preço,

e por isso nem confirmam os preços?

Outra situação muito frequente é tomar a posteriori como irracional

uma decisão já tomada. A racionalidade da decisão deve ser avaliada no momento da decisão, a priori, e não quando vemos os seus resultados, a posteriori; deve ser avaliada nas condições iniciais, e não pelos resultados.

A

racionalidade leva cada um a produzir o que sabe fazer melhor,

e

a consumir o que gosta mais.

Mas como é que isto é possível? Aqui temos um paradoxo central

da

Economia, mas cuja solução é bem simples, como aliás todos

os

princípios económicos. Para a sua solução teremos de chamar

a

segunda hipótese, do equilíbrio dos mercados.

O

sistema económico, que é forma de resolver o problema

económico, centra-se na troca. E quanto mais trocas existirem

melhor, porque quanto mais trocas forem possíveis mais racional é

a afectação, menos se é obrigado a consumir o que se produz e

menos obrigado a produzir o que se consome. Voltamos a encontrar a descoberta de Adam Smith que deu origem

à teoria económica. O essencial desta descoberta é que, na troca,

as duas partes ganham. E agora somos capazes de perceber porquê. A razão reside no facto de, pela troca, cada um poder aproximar-se mais da situação em que produz o que melhor sabe fazer e consome o que mais gosta, ou seja, melhorar a sua situação. E como a troca tem de ser voluntária, os dois lados da troca estão a conseguir essa melhoria. Foi este facto que o maravilhou e que motivou o estudo da Economia.

Devemos, no entanto, dizer que se esta descoberta esteve na base

da Economia ela não é consensual. Alguns economistas discutiram

este aspecto, defendendo que, na maioria das situações, quando duas pessoas trocam, um ganha e o outro perde, um explora e outro é explorado. Será que no nosso mundo há harmonia e benefício mútuo, como dizia Smith, ou «anda meio mundo a enganar outro meio», na opinião de Marx? Será que devemos evitar trocar, com medo de sermos explorados, ou podemos trocar normalmente, embora devamos ter cuidado para não sermos enganados? Repare-se que

a questão não é moral mas económica. Nem Smith achava que

todos eram santos, nem Marx que todos eram facínoras. O que se passa é que o sistema, no caso smithiano, funcionava bem e, no caso marxista, mal.

KARL MARX (1818-1883) Marx foi um grande economista alemão, discípulo de Smith que juntou a um profundo conhecimento de teoria económica uma forte formação filosófica e política. As suas principais obras são o Manifesto Comunista de 1848, que escreveu com o seu amigo Friedrich Engels, e uma análise de fundo do sistema económico da época, a que Marx chamava «capitalismo», no livro O Capital, de que publicou apenas o primeiro volume em 1867, encarregando-se os seus amigos de editar, depois da sua morte, os outros volumes.

24

Por exemplo, por que razão há países ricos e países pobres? Trataremos esta questão na parte final do livro, mas podemos desde já ver que Smith dizia que a razão estava nas trocas não serem suficientes entre os pobres, por vários motivos (isolamento, dificuldades de contacto, falta de vontade, etc.). Tudo isto é consequência de que, ao recusar o benefício mútuo da troca, Marx recusa um aspecto central da Economia, porque tem a ver com a troca. Daí nasce o grande cisma da economia. Mas voltemos à troca. A constatação da sua importância tem como consequência um dos factos mais importantes do sistema económico: em economia, tudo tem a ver com tudo. A interdependência é uma realidade essencial do problema económico.

1.3.3. As possibilidades de produção

O problema económico constitui o tema central da Economia e, por isso, será o tema mais analisado adiante. Mas, nesta primeira abordagem, será conveniente exemplificar com uma ilustração desse problema. Vimos que o objectivo da actividade económica era o de satisfazer as necessidades humanas, as múltiplas e variadas necessidades humanas. Para isso, os agentes faziam consumo de bens. Normalmente precisam de ser produzidos, ou seja, de sofrerem alterações que os tornem aptos para satisfazerem as necessidades humanas. A produção faz-se a partir de recursos e factores produtivos.

apenas a três tipos de

No entanto, chamamos coisas:

a terra ou recursos naturais, que inclui a terra arável, os minérios, a água, a energia, os peixes do mar, etc.;

o trabalho, que é toda a actividade humana para produção;

o capital, que é constituído pelos instrumentos duráveis, como

máquinas, fábricas, estradas, pontes, prédios, etc. 7 Estes são os recursos ou, como alguns preferem chamar-lhes, os «recursos primários». As outras coisas que servem para a produção de um bem podem sempre resumir-se a estes três, a que chamamos

«bens» ou «recursos intermédios», por estarem entre os recursos e os bens. Para produzir pão, é preciso trabalho, forno (capital) e farinha. Para produzir farinha é preciso trigo, trabalho e o moínho (capital). Para produzir trigo é preciso terra, trabalho, máquinas agrícolas e sementes, e assim por diante.

Assim, temos três

os bens (o pão) que têm utilidade em si,

os recursos ou factores produtivos (terra, trabalho e capital) e

recursos intermédios, que são produzidos mas não têm utilidade em si. Por vezes, em certas situações particulares, há dificuldades de distinção entre os três:

um lápis pode ser considerado capital ou, como se gasta rapidamente na produção, ser um recurso intermédio;

o pão pode ser bem final, ou recurso intermédio para fazer açorda;

factores ou recursos

tipos de entidades económicas

:

7 O conceito de «capital» é claramente o mais complicado dos três. Temos de ter cuidado com o facto de alguns chamarem «capital» a um montante de dinheiro, acções, etc. (o capital financeiro). Como adiante veremos, isso só é capital na medida em que representa o verdadeiro capital, que são os instrumentos de produção. Todas estas dificuldades, resultantes da própria natureza do capital, serão, na medida do possível, abordadas adiante.

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o trabalho, que é um recurso, pode ser bem final, se der prazer, satisfazendo a necessidade de se realizar profissionalmente. De qualquer forma, a distinção tem interesse e será útil. Apliquemos a hipótese coeteris paribus, e simplifiquemos a situação dizendo que só há dois bens, pão e livros (livros de Economia, claro) e um montante fixo de recursos (terra, trabalho e capital) que podem ser usados nessas produções. Assim, se todos os recursos forem aplicados na produção de pão, temos um certo montante máximo de pão (A). Se, em vez disso, se quiser produzir apenas certo montante de pão, o resto dos recursos fica disponível para a produção de livros, e conseguimos certo montante destes (B). Finalmente, se os factores forem todos aplicados apenas na produção de livros, temos também um certo montante de livros e nenhum pão (C).

Os valores máximos de produção de cada bem são pontos nos eixos, visto que a quantidade do outro bem é nula.

Pão

eixos, visto que a quantidade do outro bem é nula. Pão A B C Livros Mas

A

eixos, visto que a quantidade do outro bem é nula. Pão A B C Livros Mas

B

C

Livrosvisto que a quantidade do outro bem é nula. Pão A B C Mas não é

Mas não é normal que a sociedade gaste todos os seus recursos num só bem, sem produzir nada do outro. A situação intermédia em que os dois são produzidos é a mais normal. No nosso gráfico, para cada montante produzido de um bem, marcamos o máximo de produção que é possível produzir do outro bem, com os recursos disponíveis. Obtemos assim um

gráfico muito importante em Economia: a

: o lugar geométrico dos pontos de produção máxima de pão e

livros, dado um certo montante de recursos disponíveis.

fronteira de possibilidade de

produção

Pão

disponíveis. fronteira de possibilidade de produção Pão Livros Esta curva representa a disponibilidade, nesta

Livros

Esta curva representa a disponibilidade, nesta economia, dos dois bens. Nela podemos encontrar, de forma resumida, todos os elementos e conceitos de que até agora falámos. O mais importante destes é a racionalidade, e para traçar a curva precisámos da racionalidade. Em primeiro lugar, cada ponto da curva representa um ponto de produção de pão e livros que exige que todos os recursos da sociedade estejam aplicados. Todos eles são pontos de pleno emprego dos recursos. Não era racional desperdiçar recursos, e por isso foi a racionalidade que nos disse que devíamos usar todos os recursos. Mas não é nesse aspecto que devemos usar a racionalidade. Além de todos os recursos estarem a ser usados, eles estão a ser usados da

26

melhor maneira. Cada ponto de produção exige que os recursos que estão afectados a cada uma das produções são os mais adequados a essa produção. Se agora olharmos para a curva que desenhámos, vemos que ela tem algumas características particulares. Em primeiro lugar, ela é negativamente inclinada (a curva está sempre a descer). Como há emprego pleno e óptimo dos recursos, não é possível ter mais de um bem sem ter menos do outro. Repare-se que esta é uma manifestação do princípio que vimos, segundo o qual «não há almoços grátis». Não é possível ter mais de um bem sem ter menos do outro, e por isso nunca existe um bem grátis. E o custo é o que deixei de ter do outro bem, que é a melhor alternativa. Por isso, aqui o custo é o custo de oportunidade, medido no outro bem.

Pão

B D A
B
D
A

C

Livros

Claro que uma situação no interior da curva, num ponto como A, é possível ter mais pão sem sacrificar livros (passando para o ponto B) ou ter mais livros sem sacrificar pão (passando para C), ou até mais dos dois bens (em D). Mas estar no interior da curva não é racional, pois desperdiçam-se recursos. Exactamente porque poderíamos, sem custo, estar melhor, encontrarmo-nos nessa situação é estúpido e um desperdício. E não devemos esquecer que o desperdício é o grande inimigo da Economia (de tal modo que a palavra é quase obscena num livro como este). E acima da curva? Aí, gostaríamos de estar, pois teríamos mais dos dois bens do que na curva. O problema é que não temos recursos para lá chegar. A escassez de recursos faz com que os pontos acima da curva sejam impossíveis de atingir. É, pois, entre os pontos da fronteira de possibilidade de produção, resultante da escassez de recursos, que se realiza a escolha económica. A eficiência produtiva, uma das manifestações da racionalidade, leva à colocação sobre a fronteira. É a este fenómeno que se chma «mão invisível». Se esta eficiência não existir, por razões que adiante veremos (azelhice, desemprego, monopólio, etc.), então estaremos no interior da fronteira. Voltando à forma da curva, vemos que ela é não só decrescente, mas abaulada para fora (ou côncava, na designação económica). Isso significa que, à medida que vamos sacrificando pão, para obter livros (descendo ao longo da curva), cada livro custa sucessivamente mais

pão. Chamamos a este facto a

, e é

fácil perceber por que razão é assim. Vamos supor que a Economia se encontra na situação em que apenas produz pão e nenhum livro (estamos, portanto, no ponto mais acima da curva, junto ao eixo vertical). Isso quer dizer que todos os recursos, mesmo todos, estão dedicados à produção de pão. Os tractores, os camponeses, estão todos a tratar a terra e plantar trigo, mas também as tipografias e os escritores.

lei dos custos relativos crescentes

27

Se nessa situação a sociedade decidir produzir um livro (o primeiro), como ela é racional vai deslocar para a produção de livros os recursos que são mais adequados à produção de livros e menos adequados à produção de trigo. Assim, uma tipografia, que de pouco servia no campo, e um escritor, que era fraco nos trabalhos campestres, mas bom a escrever livros, são deslocados do campo para produzir o livro.

Pão

1 1
1
1

Livros

Vamos supor agora que estamos no outro lado da curva, produzindo, também aí, da melhor forma possível, certo montante de pão e livros. Só que agora, como se decidiu produzir muitos livros, a produzir pão já só estão aqueles recursos que são mesmo os melhores a produzi-lo, para deixar livres todos os outros para os livros. Se aí se decidir aumentar a produção de livros, o sacrifício em pão será enorme. Além de ilustrar os aspectos económicos que já conhecíamos, a curva serve também para nos introduzir a outros elementos novos. Por exemplo, ela pode ilustrar o fenómeno do desenvolvimento económico. Este processo que, após se ter desenrolado durante os últimos séculos, gerou o aparecimento de disparidades entre países ricos e países pobres, pode ser representado por um deslocamento da curva de possibilidade de produção, para fora.

Pão

da curva de possibilidade de produção, para fora. Pão Livros Este deslocamento para fora da curva

Livros

Este deslocamento para fora da curva pode ser devido a um aumento dos recursos disponíveis ou a uma melhoria da tecnologia de produção,

que permite produzir mais com os mesmos recursos. No essencial, portanto, o desenvolvimento é apenas um alargamento das possibilidades de escolha. Mas é claro que a sociedade, embora tenha mais hipóteses de escolha, pode escolher um ponto pior do que antes. O desenvolvimento não é garantia de melhoria, mas apenas de mais alternativas. Antes de passarmos adiante devemos ver um tipo particular de desenvolvimento económico que teve muito impacte na história da Economia. Trata-se do desenvolvimento que se verifica quando apenas um ou alguns dos recursos são aumentados. Este caso tem interesse

ser

porque

aumentado. Por essa razão, alguns economistas defendem que este tipo de desenvolvimento, em que um dos recursos fica fixo, é aquele que é mais frequente.

um

dos

factores

produtivos,

a

terra,

dificilmente

pode

28

A questão levantada por este tipo especial de desenvolvimento é que se

tem verificado que o aumento de certos recursos quando os outros se mantêm dá sucessivamente menos produção. Os primeiros

trabalhadores são extremamente produtivos, ocupando-se de tarefas essenciais para a produção, mas, à medida que se vão aumentando os trabalhadores, como a terra não cresce, eles vão ser cada vez menos úteis, até podem mesmo vir a ser prejudiciais, por se atrapalharem uns aos outros.

Esta

constatação

chama-se

lei

dos

rendimentos

decrescentes

,

segundo a qual aumentos de um ou mais recursos variáveis, quando outro se mantém fixo, geram aumentos de produção sucessivamente menores.

Pão

geram aumentos de produção sucessivamente menores. Pão Livros O interesse histórico desta lei reside no facto

Livros

O interesse histórico desta lei reside no facto de ela ter sido apresentada

de forma dramática pelo economista inglês Thomas Malthus que em 1798 apresentou o seu livro Um Ensaio sobre o Princípio da População. Aí, Malthus defendia que o facto de a terra ser fixa, o que gerava a verificação da lei dos rendimentos decrescentes na produção agrícola, iria ter como consequência que a produção de alimentos não iria acompanhar o aumento da população, prevendo fome e miséria planetárias. Assim, o crescimento da produção agrícola, muito inferior ao das necessidades alimentares, seria o grande travão ao progresso, criando um mundo com multidões crescentes de famintos.

THOMAS MALTHUS (1766-1834) Foi nomeado primeiro professor de Economia Política da Inglaterra.

O optimismo de Smith e a confiança na troca e no sistema económico

levaram as pessoas a imaginar que tudo seria possível, embarcando em utopias e sonhos de opulência. Malthus vem, de forma dramática, lembrar que os benefícios smithianos estão limitados pela escassez de recursos e que o realismo (que Smith aliás possuía) tem de temperar o entusiasmo com as potencialidades do sistema económico. As ideias de Malthus foram estudadas e desenvolvidas por um amigo de Malthus, o grande David Ricardo que, em 1817, apresentou o seu livro Princípios de Economia Política e Tributação.

DAVID RICARDO (1772-1823) A enorme fortuna que acumulou, que fez dele o economista mais rico de todos os tempos, permitiu-lhe ser proprietário rural e membro da Câmara dos Comuns a partir de 1819. A sua influência foi imensa, estabelecendo a primeira ortodoxia da história da Economia.

As primeiras décadas do século XIX foram de grande melhoria das condições de vida e não de miséria crescente. Por que razão falharam as previsões dos clássicos? Porque, além do fenómeno descrito pela Lei dos Rendimentos Decrescentes, apareceu paralelamente um outro facto, que inverteu os resultados: o progresso tecnológico.

29

O aparecimento e desenvolvimento de muitas máquinas e novos métodos de produção, que se verificou nesta altura, e a que foi dado o nome de «revolução industrial», e os benefícios que isso gerou em toda a economia anularam os efeitos da Lei dos Rendimentos Decrescentes. O problema teórico – a teoria previa miséria e verificava-se melhoria do nível de vida –, que Ricardo já entrevira, foi resolvido pelo grande discípulo de Ricardo, a maior figura da escola clássica, John Stuart Mill.

JOHN STUART MILL (1806-1873) Filho do economista James Mill, que fora grande amigo de Ricardo, John Stuart Mill é uma das grandes figuras intelectuais do século XIX. Muito mais do que economista, Stuart Mill – que, apesar de ter sido deputado por breve período, se manteve funcionário da Companhia das Índias Orientais a maior parte da sua vida – escreveu e interveio sobre todos os problemas sociais do seu tempo, sendo um dos pensadores liberais mais influentes. Na teoria económica, como o maior expoente da escola clássica, o seu livro mais importante foi Princípios de Economia Política, de 1848, que constitui o primeiro grande manual de Economia, que ensinou gerações [com paralelo apenas nos livros de Marshall (1890) e de Samuelson (1948), já referidos].

Mas será sempre assim? As preocupações ecológicas dos dias de hoje parecem sublinhar que nada está garantido.

30

31

1.4. Soluções do problema

1.4.1. Tradição, autoridade e mercado

Podemos resumir os

uma sociedade em três princípios gerais:

métodos de solução do problema económico

1. a tradição,

2. a autoridade e

3. o mercado.

de

Estas palavras têm um sentido técnico diferente do habitual, pelo que é

importante definir cuidadosamente o seu significado.

1.4.1.1. A tradição

Nas sociedades tradicionais, desde a escolha da profissão, estabelecida por hábitos, castas, corporações ou pela família, até ao preço e acesso a boa parte dos bens e aos métodos de comércio, pesos, medidas e moedas, quase tudo estava definido por tradições religiosas, culturais e regionais. A tecnologia do queijo da Serra, o sistema da herança, a existência de baldios, são claras influências culturais e tradicionais na nossa sociedade. A hora a que comemos, a maneira como fazemos negócios, a organização de uma família ou de uma empresa são tudo influências da tradição na sociedade.

1.4.1.2. A autoridade

Outro método usado para resolver as questões económicas é o da autoridade. Os agentes do Estado, sejam os emissãrios do duque local ou os funcionários do Gosplan, podem chegar a definir o que cada pessoa produz, o que pode vender e o preço dessa venda.

1.4.1.3. O mercado

O terceiro sistema, que sempre existiu, mas que só se tornou dominante recentemente, é o mercado. O mercado não é apenas a compra e a venda, mas sim todos os casos onde a decisão é deixada à livre escolha dos interessados. A democracia é um caso de escolha de mercado e até o casamento, hoje, é decidido pelos interessados e, nesse sentido, pode ser considerado um mercado.

Estas são as três principais formas de organização do sistema

económico.

Como

vimos,

todas

as

sociedades

usam

simultaneamente

os

três

métodos,

constituindo,

por isso,

sociedades mistas

. O segredo das sociedades modernas, na

linha de Smith, é o uso extensivo do mercado, como meio de afectação de recursos e bens e um equilíbrio saudável com a autoridade e a tradição. Mas a tradição tem, em contrapartida, o defeito de ser extremamente difícil de mudar. Perante uma alteração social ou económica, os hábitos são as últimas coisas a se modificarem. Por isso, as sociedades têm tendência a usar a tradição naquelas decisões onde é importante que toda a gente saiba como os outros vão decidir, e são pequenos os ganhos de mudar a decisão. Um exemplo claro de uso da tradição é para definir as horas das

32

refeições. Por outro lado, é muito importante que toda a gente

saiba quais são os momentos em que vamos comer, seja para organizar as cantinas e os restaurantes, seja para evitar que se incomode os outros quando estão a comer.

A autoridade tem, tal como a tradição, a característica de ser

conhecida de todos. Mas tem a vantagem de poder ser mudada e adaptada quando for necessário, sem a rigidez da tradição. Assim, ela é usada nos casos onde é importante que o resultado da decisão seja conhecido de todos, mas onde a decisão tem de variar conforme os casos. Um exemplo típico é o Código da Estrada. É essencial para cada condutor saber como os outros condutores se vão comportar. Mas esse comportamento tem de ser diferente num cruzamento, numa recta ou numa rotunda. Quando se andava de carroça, as regras do trânsito podiam ser deixadas à tradição, mas a velocidade dos automóveis impôs a necessidade de uma decisão da autoridade.

O mercado tem a característica de ser a mais flexível das três

formas de tomar a decisão. Sendo o resultado da combinação de

ajustar-se

rapidamente às mudanças que se verificam. Mas a sua flexibilidade está ligada à sua grande fragilidade. Podemos dizer que existem semelhanças entre o sistema económico e o corpo humano. O seu funcionamento corrente é deixado à liberdade natural.

muitas

escolhas

particulares,

o

mercado

pode

A utilização simultânea dos três instrumentos – mercado, Estado e

regras sociais – é não só uma conveniência, mas uma exigência.

O

PROBLEMA DE PAGAR UM TÁXI

 

A

questão que se levanta nessa transacção é a seguinte: dado que

o

cliente do táxi é racional, por que razão, uma vez chegado ao

seu destino, deve pagar a corrida? Se ele já foi servido, porquê

pagar?

Se ocliente procurar apenas o seu bem-estar e não levar em conta

os escrúpulos morais, a conduta mais racional será, uma vez no destino, sair sem pagar a corrida. É claro que se o cliente é uma pessoa bem formada, por razões morais paga o que deve. Mas haverá razões estritamente económicas? O mercado tem autodefesas para se proteger deste tipo de pessoas. Mas é claro que estas defesas são frágeis. Se o caso se passasse numa grande cidade, numa zona onde o cliente seja desconhecido

e onde não espera voltar tão cedo, a situação seria bem diferente. Por que razão nesse caso um agente racional deve pagar a

corrida?

A resposta, neste caso, seria certamente que o taxista poderia

chamar a polícia e forçar o cliente a pagar. Esta é uma realização do papel do Estado no mercado. As autodefesas do mercado são fracas, e o Estado é chamado a intervir.

E se for à noite, num sítio ermo, onde não há polícia? Se o cliente

procurar apenas o seu bem-estar, a conduta mais racional será, uma vez no destino, sair sem pagar a corrida. Sendo desconhecido do motorista e não havendo presença de testemunhas, sem a possibilidade portanto de vir a sofrer consequências futuras, e uma vez obtido o serviço contratado, pagá-lo será racional?

33

Neste caso, o condutor pode exercer sevícias, de forma aliás plenamente justificada, sobre o passageiro pouco cumpridor, de forma a obrigá-lo a pagar. Este seria um custo directo do mau

funcionamento do mercado. Mas nesse caso, invertendo o problema, que impede o referido motorista de, depois do pagamento, exercer ainda as referidas sevícias, para ser pago de novo? Este último ponto põe finalmente em destaque a questão central: trata-se de uma falha de mercado. Seria de esperar que, neste como em muitos outros tipos de transacções comuns (barbeiros, restaurantes, bancos, etc.) fosse lógico que se multiplicassem os casos de rompimento do contrato.

No entanto, nas sociedades civilizadas estes casos são raros, o

que faz com que taxistas, barbeiros, restaurantes exerçam a sua actividade sem perigo de serem constantemente confrontados com caloteiros racionais. Se a sociedade não tem, no seu funcionamento normal, regras de conduta que imponham que cada pessoa pague o que deve, vão pulular os cheques sem cobertura, e isso terá como efeito que o

meio normal de pagamento. As

sociedades mais avançadas são exactamente aquelas onde o

respeito de cada um pelos outros, o grau de civilização, é maior.

Aí, o mercado pode avançar para formas mais sofisticadas e

podem ser fornecidos bens e serviços mais delicados (por exemplo, os novos produtos financeiros) que noutra estrutura falhariam completamente. A lição fundamental destes exemplos é de que não existe um mercado selvagem. O mercado, para a generalidade das transacções, exige confiança, e esta só existe no meio de uma sociedade em que as regras da civilidade são respeitadas por todos. Uma sociedade de selvagens sem escrúpulos ou de ladrões absolutos, sem qualquer respeito pelas regras de convivência, supondo que tal comunidade pudesse existir, teria as suas relações económicas totalmente paralisadas por falta de uma

plataforma cultural mínima para funcionar, plataforma que só a

cheque deixa de ser aceite como

civilização traz consigo, e que é indispensável à operação das leis económicas.

A nossa sociedade resolve o seu problema económico

simultaneamente pela tradição (regras básicas de convivência em

sociedade), pelo Estado e pelo mercado. E esta simultaneidade

não aparece por acaso. É o resultado de necessidade imperiosa.

1.4.2. O mercado na sociedade moderna

Sem intervenção de qualquer autoridade, uma enorme quantidade de bens e serviços são produzidos, trocados e consumidos todos os dias em qualquer cidade. Quando qualquer calamidade elimina o funcionamento do mercado (Alemanha depois da II Guerra Mundial, Camboja, e Moçambique hoje, etc.) é a catástrofe económica. Não há nenhum cérebro humano por detrás disto. À primeira vista não seria de admirar, pois as maiores maravilhas do Mundo não têm nenhum cérebro humano por detrás delas.

qual

compradores e vendedores de um bem interagem para determinar o preço e a quantidade transaccionada. O centro do mercado é o preço. O

Mercado
Mercado

é

o

arranjo

(praça,

telefone,

leilão,

bolsa)

pelo

34

preço é o coração do sistema. O preço é o elemento mais delicado e sensível do sistema económico, visto com admiração e respeito por todos os economistas. Mexer nos preços é perturbar o essencial do mercado. Mas afinal como é que funciona o mercado? O truque, centrado nos preços, reside nos incentivos. Os vendedores, perante a subida do benefício retirado da venda do

produto, são incentivados a aumentar a produção (ou a pagar mais por ela, incentivando-a) e, a preço mais alto, menos consumidores o querem. Assim se consegue uma solução para a economia que garante que, dadas as circunstâncias (e essas circunstâncias incluem a distribuição da riqueza que cada um tem, os dotes pessoais, a estrutura de mercado), se consegue a situação mais racional e de melhor bem-estar.

A este resultado do mercado chamamos eficiência.

Deste modo, o sistema económico é estruturado pelo mercado, de forma

eficiente. As famílias e os consumidores vão ao mercado comprar os bens de que necessitam, fazendo para isso a sua despesa, que é recebida pelas empresas e os produtores. O dinheiro gasto pelas

famílias no mercado dos bens será usado pelas empresas para comprar os serviços dos factores produtivos (terra, trabalho e capital) no mercado de recursos ou factores. Quem possui esses recursos são as famílias, que assim recebem rendimentos (salários, rendas e juros) pela venda dos serviços dos seus factores produtivos. É claro que esses rendimentos constituem o dinheiro que as famílias vão usar para comprar os bens. Por um lado, bens e factores são transaccionados e, em sentido contrário, movimenta-se o dinheiro. Os motores desses fluxos são os mercados, de bens e de factores. O gráfico seguinte ilustra, deforma estilizada, este processo, a que se chama de circuito económico na sua estruturação em mercados.

MERCADO DE BENSde circuito económico na sua estruturação em mercados. B e n s EMPRESAS Rendimento MERCADO DE

na sua estruturação em mercados. MERCADO DE BENS B e n s EMPRESAS Rendimento MERCADO DE

Bens

EMPRESAS

Rendimento

MERCADO DE RECURSOSem mercados. MERCADO DE BENS B e n s EMPRESAS Rendimento Despesa FAMÍLIAS Recursos Assim, a

Despesa

FAMÍLIAS Recursos
FAMÍLIAS
Recursos

Assim, a questão de o quê produzir é resolvida pelos escudos oferecidos pelos consumidores, que revelam as suas preferências; na expressão de Samuelson, os «votos em euros» aplicados diariamente no mercado resolvem o problema. É claro que pode haver dificuldades de funcionamento. Comprar o produto que não se queria, pagar demasiado por ignorar uma descida de preços ao lado, tudo isto são erros na manifestação da vontade do consumidor, devido ao deficiente sistema de «votação». Aliás, dado que esta votação se verifica todos os dias, continuamente em todo o lado, seriam de esperar frequentes deficiências. Assim, perante várias formas de produzir o mesmo queijo, aquela que o produza melhor e mais barato é que tem a preferência do consumidor e, por isso, ou é copiada pelas outras, ou leva-as à falência. Se uma empresa tem monopólio de produção, usa gangsters para impor

a venda do seu produto, ou é amiga do cunhado do ministro, podem

35

gerar-se falhas na concorrência. Também aqui a economia não é caso único. Também o problema de quem beneficia com os resultados da actividade económica, «para quem» se produz, é resolvida pelo mercado de recursos ou factores produtivos, dada certa propriedade desses factores. Esse mercado – onde, tal como nos outros, se compra e vende, só que aqui os produtos são terra, trabalho e capital – determina o preço dos factores (salários, rendas, juros) e, deste modo, o rendimento que cada pessoa, proprietária de certo montante de factores, receberá.

A definição prévia da propriedade dos factores, as interferências políticas sobre essa distribuição, são muito mais influentes sobre a justiça da distribuição final dos resultados do que o mecanismo de mercado, que

se limita a gerir uma dada situação.

Estas são as formas como o mercado dá resposta ao problema

económico, bem como algumas das suas falhas. Como vimos, o segredo

do mercado é a concorrência.

Mas não é apenas essa a concorrência que se verifica no mercado. O

aparecimento de novos produtos, novas formas de produzir, novas técnicas, novos mercados, desafia continuamente a situação estabelecida. Este tipo de concorrência é essencial ao funcionamento do mercado. O mercado só pode ser concebido em dinamismo, e esse dinamismo vem das novas ideias, que nascem a cada momento e ameaçam a situação actual.

A este

do

adiante

mercado

chamamos

fenómeno

dinâmico,

resultante da concorrência,

É

pois

a

própria

Esta

desenvolvimento

económico

.

que

gera

o

concorrência

que

desenvolvimento.

ideia,

estudaremos mais em detalhe, foi apresentada por um autor austríaco, Joseph Schumpeter, no seu texto Teoria do Desenvolvimento Económico, de 1911, e, sobretudo, na sua grande obra Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1943.

JOSEPH SCHUMPETER (1883-1950) Os seus múltiplos textos são ultrapassados pelo genial livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1943, onde expande as ideias de 1911.

Nesta obra, Schumpeter afirma que o desenvolvimento é o tumulto das novas ideias que desafiam e vencem ou são vencidas pelas antigas,

perturbando continuamente o sistema económico. Para esta concorrência entre projectos é essencial a liberdade de tentar, construir e

falhar

desenvolvimento económico a que temos assistido nos últimos séculos

é, pois, um resultado do domínio das soluções de mercado sobre as

outras formas de organização económica. Podemos dizer que o método do mercado se resume ao provérbio «A falar é que a gente se entende». Assim, a solução que é dada ao

O

e,

por

isso,

tal

fenómeno

é

possível

no

mercado.

problema económico consiste em pôr os interessados a comunicar sobre

os seus problemas. Todos falam e se fazem ouvir, e quando todos são

ouvidos resulta a melhor maneira de resolver qualquer problema. Os problemas do mercado resultam das muitas situações em que nem todos têm voz, ou a sua expressão é distorcida.

Daqui

muito

delicado. Estas transacções, baseadas nas relações entre as pessoas e

na confiança, facilmente são destruídas. O mercado afecta as coisas da

melhor maneira, mas é fortemente perturbável.

resulta

uma

outra

característica

do

mercado:

ele

é

36

1.4.3. O papel do Estado

É costume dizer que o papel do Estado numa economia moderna centra-

se essencialmente em très

funções :
funções
:

1. promoção da eficiência,

2. promoção da equidade e

3. promoção da estabilidade.

1.4.3.1. Promoção da eficiência

O mercado nem sempre é o modo ideal de afectação económica, devido sobretudo a dois tipos de razões. Em primeiro lugar, existem algumas relações económicas que, devido aos seus efeitos culturais, sociais e humanos, a sociedade não quer confiar ao livre jogo dos incentivos. A herança de uma família, a prestação de serviços de defesa nacional, o comércio de droga, a escravatura, são casos de relações económicas que a sociedade não deixa que seja o mercado livremente a definir os seus termos. Por outro lado, como vimos, existem falhas no funcionamento do mercado. Em primeiro lugar, existem situações de imperfeição na concorrência. Se os produtores (ou consumidores) de um produto não têm todos peso semelhante, ou não se fazem todos ouvir, como no caso do monopólio, o funcionamento do mercado é ineficiente. Em segundo lugar, existem fenómenos, a que a Economia chama de «externalidades», que constituem influências que o mercado não consegue captar. Por exemplo, uma fábrica usa a água do rio, mas não a paga, o que a leva a desperdiçá-la; ou uma fábrica traz a electricidade à aldeia e não é paga por isso. Um caso especial de externalidade tem particular interesse. Trata- se do fenómeno chamado de «bens públicos». Estes produtos ou serviços especiais são bens que, embora não sejam grátis, num sistema de mercado todos podem gozar sem pagar, pois não existe modo de o mercado cobrar o seu custo. A defesa nacional, os jardins públicos, estradas, a televisão são bens que todos gozamos sem pagar. Num sistema de mercado, esses bens nunca seriam produzidos, pois a empresa que o fizesse iria à falência. Por todas estas diferentes razões, o Estado tem motivos para intervir no sistema económico, exactamente no domínio em que o mercado é mais forte: a eficiência. Mas, além do objectivo da eficiência, existem outros desejos da sociedade para os quais o mercado não está tão vocacionado, mas que são igualmente importantes. É pois preciso garantir que os ganhos compensem os custos.

1.4.3.2. Promoção da equidade

Um dos principais objectivos da maior parte das sociedades é garantir que a distribuição dos bens produzidos seja mais ou

menos igualitária

Grandes disparidades

corresponda à maior eficiência, são normalmente repudiadas pelas sociedades modernas.

entre ricos e pobres, mesmo que isso

entre todos os elementos dessa sociedade.

37

A solução que o mercado dá à distribuição dos resultados da

actividade económica é, como vimos, extremamente influenciada por factores estranhos ao próprio mercado, tais como a estrutura de propriedade, os dotes naturais (mérito, dedicação, inteligência, força, simpatia, etc.), a influência política, a situação social, geográfica, moral de cada um. Por estas razões, a distribuição automática dos «votos em euros» feita pelo mercado pode não ser justa, segundo o critério de qualquer pessoa. Os impostos progressivos, os subsídios e

transferências, a segurança social, ou métodos mais drásticos, como a expropriação, a reforma agrária, a revolução social, são instrumentos de que a sociedade se serve para conseguir a equidade.

Mas não devemos esquecer a existência de um conflito de eficiência-equidade. Se o Estado retira a uns para dar a outros (por exemplo, se tira aos que produzem e possuem para dar aos que não têm, ou qualquer outra distribuição considerada justa), é natural que uns e outros reduzam a sua produção. Na verdade, aqueles a quem se tira podem achar que não vale a pena produzir, se depois o Estado vai tirar o seu resultado, e os que recebem podem pensar que, como o Estado dá de qualquer modo, o esforço

é demasiado.

Este conflito eficiência-equidade é, no fundo, uma manifestação do

princípio de que «não há almoços grátis».

1.4.3.3. Promoção da estabilidade

Vimos que a concorrência do mercado se fazia no meio do tumulto

do aparecimento de novas ideias, que lutavam e venciam ou eram vencidas pelas já estabelecidas. Este resultado é bom, mas traz consigo a instabilidade, a insegurança.

A contínua ameaça dos concorrentes garante que cada produtor

ou consumidor seja forçado a comportar-se da maneira mais eficiente, mas cria uma tensão contínua sobre o tecido social, que

a comunidade pode não gostar 8 .

Os mecanismos de apoio aos desempregados, a correcção de

desequilíbrios

com as

sectoriais ou regionais,

a preocupação

contas

externas

ou

a

inflação

e

a

utilização

de

impostos

e

despesas estatais no sentido de compensar as perturbações ou flutuações que o processo de desenvolvimento criou são formas de

o Estado promover a redução da insegurança económica, de forma

a encontrar um comportamento estável para a economia como um todo.

É claro que aqui pode aparecer mais um conflito, o conflito

desenvolvimento-estabilidade. Se a instabilidade é resultado do processo de desenvolvimento, o Estado ao intervir pode afogar o surto dinâmico que a provocou. Ao ajudar os desempregados, corrigir a inflação, o desequilíbrio regional ou as contas externas, o

Estado está a fazê-lo à custa da flexibilidade económica e dos be-

8 É importante notar que quando se diz aqui que o desenvolvimento está ligado à instabilidade, se quer dizer «instabilidade económica», ou seja, a alteração de produtos, modos de produção e canais de mercado. Outros tipos de instabilidade, como a instabilidade política, cultural, social, militar (guerras, greves, tumultos), não só não são produto do desenvolvimento económico como, pelo contrário, são- lhe extremamente prejudiciais. Esta distinção é essencial para compreender o verdadeiro sentido desta discussão.

38

nefícios dos mais dinâmicos. Um subsídio de desemprego pode impedir que os trabalhadores se desloquem rapidamente para os sectores mais activos; e impostos sobre uma região rica ou menos prioritária para ajudar outra mais pobre ou que se deseja promover, dificultam o desenvolvimento da primeira, que pode ser mais dinâmica. Mais uma vez, o «almoço» da estabilidade não foi grátis, o que não quer dizer que não valha a pena. A maior parte das sociedades está disposta a sacrificar algum desenvolvimento para conseguir certa estabilidade. Claro que deve ser dito que nem sempre os conflitos eficiência- equidade e estabilidade-desenvolvimento são verificados. Em todos estes esforços, o Estado trabalha com o Mercado, não contra ele. A harmonia entre a acção do Estado e o funcionamento da sociedade, no mercado, é um dos elementos mais importantes de um sistema equilibrado. Mas quer a acção da autoridade, quer a actuação do mercado estão mergulhados na tradição.

39

1.5. A cruz marshalliana

Este gráfico, que ficou conhecido como «cruz marshalliana», será muito útil na análise que adiante faremos, mas servirá desde já para clarificarmos o estudo do mecanismo de mercado e do funcionamento dos incentivos. A ideia básica deste diagrama é a de que um mercado, qualquer mercado, funciona pela interacção de dois lados: os compradores e os vendedores, os consumidores e os produtores.

1.5.1. A curva da procura

No diagrama marshalliano, a representação dos compradores é feita por um elemento conhecido como curva da procura. O traçado da curva da procura faz-se do seguinte modo: em relação a certo bem, pergunta-se a um consumidor quanto está disposto a comprar desse bem se o preço for um dado. Depois, vai-se variando o preço, e refaz-se a pergunta:

quanto compraria o consumidor a cada novo preço. Marcando os vários pontos num gráfico como o abaixo, obtemos a curva da procura:

Preço

do bem

como o abaixo, obtemos a curva da procura: Preço do bem CURVA DA PROCURA Quantidade desejada
CURVA DA PROCURA Quantidade desejada
CURVA DA
PROCURA
Quantidade desejada

Quanto maior utilidade o consumidor retira do bem, mais ele estará disposto a pagar por esse bem. É claro que a racionalidade está presente na curva da procura. A resposta do consumidor traduz a quantidade melhor para ele, a cada nível de preço; a quantidade que deseja consumir do bem, de forma a maximizar o seu bem-estar. Se se considerar as várias curvas de procura de um certo bem numa economia, uma para cada comprador do bem, é possível determinar, para cada preço, qual a quantidade total desejada desse bem por todos os consumidores do bem.

Consumidor 1 p D1
Consumidor 1
p
D1

q

Consumidor 2 p D2
Consumidor 2
p
D2

q

.

.

.

p

Mercado Dm
Mercado
Dm
1 p D1 q Consumidor 2 p D2 q . . . p Mercado Dm q

q

Olhando para as curvas que traçámos podemos verificar imediatamente uma sua característica óbvia: a curva está sempre a descer. Trata-se

daquilo que em Economia se chama

: se o preço de um bem sobre (coeteris paribus), a quantidade

procurada desce, e vice-versa. Logo, a quantidade procurada do bem desce quando o preço sobe, porque o consumidor substitui esse bem por outros. A este resultado de

uma variação de preços chamamos

lei da procura negativamente

inclinada
inclinada

efeito substituição

.

40

Mas não é apenas isto que acontece quando um preço sobe. Assim, ao subir o preço, a quantidade procurada de um bem desce porque o consumidor tem menos possibilidades de o comprar. Chamamos a este

o

Assim, a lei da procura negativamente inclinada é justificada por duas

efeito rendimento

.

razões
razões

diferentes:

1. porque, ao subir o preço, o consumidor passa a comprar outras coisas (efeito substituição) e

2. porque o consumidor fica mais pobre (efeito rendimento).

A curva da procura é, como vimos, uma relação entre a quantidade desejada de um bem e o preço. Com esta relação, a Economia pretende sublinhar que a determinante essencial da quantidade procurada é o

que ele é a única determinante

preço, mas a Economia procurada.

Entre estes

não diz

factores
factores

, os principais são:

os gostos ou preferências dos consumidores,

o nível de rendimento de cada um (se uma pessoa fica mais rica ou mais pobre, é normal que, ao mesmo preço, compre agora uma quantidade diferente),

a dimensão do mercado (uma alteração ao número de consumidores altera a curva de procura do mercado) e

o preço e disponibilidade de outros bens. Em relação a este último aspecto, ele está relacionado com os efeitos rendimento e substituição, atrás referidos, pois, como vimos, uma alteração no mercado de um bem altera o comportamento dos consumidores nos outros mercados («em Economia tudo tem a ver com tudo»). Em particular, são mais afectados os mercados dos bens

relacionados. Estes são sobretudo de dois

– são os que contribuem para a satisfação da (manteiga e margarina, ou autocarro e

tipos

:

os

bens substitutos

bens substitutos

mesma

necessidade

metropolitano) e

– são os que necessitam uns dos outros

para satisfazer a necessidade (automóvel e pneus, ou mostarda e bife). É claro que, para traçar uma curva da procura, é preciso que todos estes factores, para além do preço, se mantenham constantes. Ou seja, só é possível traçar uma curva da procura variando o preço, mas verificando- se a hipótese de coeteris paribus. Se algum desses factores supostos constantes é perturbado (por exemplo, o consumidor muda de gostos, ou perde o emprego e fica mais pobre), a curva de procura traçada deixa de ter interesse. Este facto gera um efeito muito simples (como tudo em Economia), mas que é por vezes confundido por alguns mais distraídos. Trata-se da distinção entre deslocamentos ao longo da curva ou deslocamentos da curva. Vamos supor que um consumidor tem a curva abaixo desenhada, e que o preço do bem é p1. Nesse caso, é claro que, como ele nos disse, o consumidor deseje consumir a quantidade q1. Então ele situa-se no ponto A.

os

bens complementares

bens complementares

p

p1

A q1 q
A
q1
q

41

Suponhamos agora que se deu uma descida do preço, passando de p1 para p2. Nesse caso, o consumidor vai passar a consumir q2, ou seja, passa para o ponto B. Deu-se um deslocamento, ao longo da curva, do ponto A para o ponto B.

p

p1

p2

A q1 q2 q
A
q1 q2
q

Mas se, voltando ao ponto A, em vez de se ter dado uma variação do preço, se tivesse dado uma alteração de qualquer um dos outros factores que influenciam a quantidade procurada (gostos, rendimento, calor, etc.)? Nesse caso seria necessário, como vimos, traçar uma outra curva da procura, encontrando-se o consumidor sobre a nova curva. Agora, por exemplo, se o consumidor está a ganhar mais, a cada nível de preço ele está disposto a comprar mais quantidade do bem. Ter-se-ia dado um deslocamento da curva. Na verdade, o consumidor passou da curva D1 para a curva D2 e, nelas, do ponto A para o ponto C.

p

p1

D2 D1 A C q1 q q2
D2
D1
A C
q1
q
q2

1.5.2. A curva da oferta

Temos

agora

de

passar

para

o

outro

lado

do

mercado,

para

a

representação

dos

vendedores

(ou

produtores).

Esta,

na

cruz

marshalliana, é feita pelo elemento conhecido como curva da oferta. Também aqui a curva é traçada perguntando a um vendedor do bem quanto está disposto a vender do seu bem a cada nível de preços. O resultado é representado por uma curva como a desenhada abaixo.

Preço

do bem

por uma curva como a desenhada abaixo. Preço do bem CURVA DA OFERTA Quantidade oferecida Assim,
CURVA DA OFERTA Quantidade oferecida
CURVA DA
OFERTA
Quantidade oferecida

Assim, quanto maior for o custo de produzir um bem, menos é oferecido desse bem a cert preço. Também aqui está presente a racionalidade do vendedor. Da mesma forma que se verifica na curva da procura, também aqui a

observação da forma da curva leva-nos a formular a

. Na verdade, verificamos que, se o preço de

lei da oferta

positivamente inclinada

42

um bem sobe (coeteris paribus), a quantidade oferecida aumenta, e vice- versa. Por que razão se verifica esta lei?

A razão reside na lei dos rendimentos decrescentes, de que já

falámos atrás. Para produzir mais de um bem temos de aumentar os factores produtivos, mas como há alguns que se mantêm, é normal que,

à medida que se aumente a quantidade produzida, cada vez seja mais caro produzir uma unidade.

Também aqui existem outros factores, para além do preço, que influenciam a decisão de oferta, por parte do produtor. Em primeiro lugar,

o custo de produção. Se o custo de produção subir, é de esperar que a

mesma quantidade seja oferecida a um preço mais alto.

Na verdade, se o produtor for o único vendedor do produto (monopolista)

é normal que ofereça, a certo preço, uma quantidade diferente do que se tiver dois ou três concorrentes, ou se tiver mil. Também aqui uma alteração do preço provoca um deslocamento ao longo da curva, enquanto os outros factores exigem a determinação de uma nova curva da oferta, existindo um deslocamento da curva.

1.5.3. O equilíbrio

Este gráfico é de tal modo importante que podemos dizer que, com ele,

sabemos «ler e escrever» em Economia.

A

constatação mais importante que se pode retirar do diagrama é, como

se

disse, que em Economia temos sempre de ter em conta dois lados.

Os soberanos da decisão económica são o benefício e o custo, a

procura e a oferta, os gostos e a tecnologia. Esta ideia, muito simples,

é de uma importância vital.

Dela resulta uma regra muito importante, que nunca devemos esquecer,

se não queremos ser enganados em Economia. Se alguém nos tentar

convencer que algo é muito bom (um certo bem que nos quer vender, um projecto político concreto) e nos louva os benefícios dele, não nos devemos esquecer de perguntar: que custos traz consigo? Quanto custa? Quem paga? Inversamente, se nos descrevem os enormes defeitos, os custos de certa entidade ou actividade, que alguém nos pretende convencer a abandonar ou a destruir, devemos sempre perguntar: Para que serve? Quem beneficia dela? Nunca nos devemos esquecer de que, em Economia, as coisas são sempre duplas, tal como as moedas, têm sempre duas faces.

p

D S q
D
S
q

A introdução da hipótese do equilíbrio dos mercados faz-se, neste caso,

através da adopção de um mecanismo de mercado, ou seja, da definição dos contornos entre a interacção das curvas da procura e oferta.

O mecanismo centra-se à volta do ponto de intersecção entre as curvas

da procura e da oferta (o ponto E). Neste ponto encontramos um preço

(Pe) que faz com que a quantidade procurada e oferecida sejam iguais

43

(Qe). Chamaremos a este ponto o preço e quantidade de equilíbrio.

ponto de equilíbrio

p

Pe

E Qe
E
Qe

q

, e a Pe e Qe, o

MARIE ÉSPRIT LÉON WALRAS (1834-1910) Walras, filho do economista francês Auguste Walras, procurou toda a vida desenvolver o que considerava serem as ideias de seu pai. Depois de uma vida atribulada, onde teve dificuldades nos estudos e foi romancista, jornalista e director de um banco, conseguiu aos trinta e seis anos ser colocado como professor na Universidade de Lausanne. Foi aí que compôs a sua grande obra Elementos de Economia Política Pura, cujo primeiro volume saiu em 1874 e o segundo em 1877, mas que foi aperfeiçoando em sucessivas edições, até à quinta publicada já depois da sua morte, em 1926. Esse trabalho, que ficou conhecido como «modelo de equilíbrio geral», continua ainda hoje a ser a única base para a análise da complexa interdependência económica e fez com que Schumpeter o considerasse «o maior de todos os economistas».

A característica essencial do ponto de equilíbrio é que se a economia se situar nele, toda a gente (consumidores e produtores) está satisfeita:

dadas as circunstâncias, àquele preço eles compram e vendem exactamente o que querem. Nos pontos A e B, por exemplo, os

compradores estão descontentes, porque àquele preço (p1) queriam comprar menos do que são obrigados a comprar (só queriam comprar a quantidade definida pela curva da procura ao preço p1). No ponto B, aliás, também os vendedores estão descontentes por serem obrigados a vender mais do que queriam ao preço p1 (no ponto A, ao menos, os vendedores vendem o que querem).

P

P1

A B
A
B

q

estão

insatisfeitos, pois são obrigados a vender menos do que queriam a esse preço (queriam vender o que está definido na curva da oferta), e se no ponto C os compradores estão a comprar o que queriam (estão sobre a sua curva da procura), no ponto D também eles estão infelizes por serem obrigados a comprar mais do que queriam.

Inversamente,

nos

pontos

C

e

D,

são

os

produtores

que

P

p2

C D
C
D

q

44

Deste modo vemos facilmente que o ponto de intercepção das duas curvas é o único que, dadas as circunstâncias e as restrições, consegue satisfazer, simultaneamente, produtores e consumidores. Ao preço Pe, temos equilíbrio na Economia. Repare-se que esse não é o único ponto em que a quantidade comprada é igual à quantidade vendida. Em todos os pontos a quantidade vendida é igual à quantidade comprada. Mas no ponto de equilíbrio (intercepção das curvas) a quantidade oferecida é igual à