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Soluções para EAD online numa perspectiva construtivista 
Por Iara Sanches Rosa 

Minha experiência como professora tem sido maior em educação presencial, tanto no Ensino Fundamental, como no 
Ensino Superior. Entusiasta de uma abordagem que considera o aluno como o construtor de seu conhecimento, pergunto­ 
me, no entanto, se é possível ser construtivista numa experiência de educação a distância mediada por computador, ou 
seja, em EAD online. Em busca de respostas relacionadas a essa questão, no contexto do desenvolvimento de minha tese 
de doutorado (Rosa, 2003), entrevistei cinco especialistas em educação a distância, perguntando­lhes, principalmente, 
que soluções encontravam para criar situações de aprendizagem online numa perspectiva de construção do conhecimento. 
Os professores entrevistados, aos quais chamo de especialistas, têm experiência em educação a distância online com uma 
metodologia que atende aos princípios de uma visão construtivista de ensino e de aprendizagem (Mizukami, 1986; 
Palacios, 1978). 

A escolha teórica de uma abordagem construtivista implicou em uma pesquisa de soluções específicas para EAD online 
que, a partir dos especialistas, parece ser um caminho viável na educação a distância, ainda que, conhecendo diferentes 
cursos, observo que, muitas vezes, há contradições entre teoria e prática: ao descrever­se a concepção dos cursos, a 
visão construtivista de educação tem aparecido como opção teórica; entretanto, a metodologia praticada nem sempre 
obedece aos pressupostos dessa abordagem. 

Atualmente, pode­se caracterizar a tendência da educação brasileira como construtivista, com ênfase na idéia 
interacionista de Vygotsky (1989) ou Paulo Freire (1983). Esta abordagem vê o aluno como construtor de seu 
conhecimento, mas inserido numa dada sociedade, numa dada cultura que determina esse conhecimento. Não é a 
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência, segundo Marx e Engels (1984), inspiradores 
da obra vigotskiniana e freiriana. Assim, o ser que aprende ­ ou que constrói o conhecimento ­ transforma a realidade, e o 
faz pela ação e reflexão; não há apropriação rigorosa e definitiva entre o ser vivo e o seu meio, mas as relações são de 
transformação mútua. Diz Paulo Freire (1983, p.39): 

"Entendemos que, para o homem, o mundo é uma realidade objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É 
fundamental, contudo, partirmos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas 
com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações que é." 

Se o ser humano pode conhecer e transformar o mundo em que vive, a escola pode instrumentá­lo para isto. A escola é 
um espaço cultural de conhecimento, local de crescimento de alunos e professores, uma instituição que existe num 
contexto histórico de uma determinada sociedade. O professor, agente social, tem o papel de problematizador dessa 
realidade, ajudando o aluno a passar das formas mais primitivas da consciência para uma consciência crítica. O professor 
cria situações para desmistificar a cultura dominante, valorizando a linguagem e a cultura do aluno; o aluno, por sua vez, 
analisa o conteúdo criticamente e produz cultura. A avaliação, faz­se da prática e dos participantes do processo (alunos e 
professores). 

Uma abordagem construtivista de educação 

A escolha do construtivismo para analisar as soluções encontradas pelos professores em suas experiências na educação a 
distância online deveu­se à minha própria experiência como educadora, à pesquisa anteriormente desenvolvida no 
Programa de Mestrado (Rosa, 1991) e ao fato de que essa parece ser a perspectiva adotada pela maioria daqueles que 
atuam em EAD online. 
Numa abordagem construtivista, em que se concebe a função do professor como a de criar situações favorecedoras de 
aprendizagem, a construção do conhecimento pelos alunos é fruto de sua ação, o que faz com que eles se tornem cada 
vez mais autônomos intelectualmente. 

Segundo Piaget (1976), o conhecimento se constrói na interação entre sujeito e objeto, resultante das sucessivas 
transformações de esquemas (formas de pensar ou resolver problemas). Essas elaborações resultam de um processo de 
equilibrações majorantes que corrigem e completam as formas anteriores de desequilíbrio. 

É na interação sujeito­objeto e pelo processo de equilibração majorante ­ auto­regulação ­ que o sujeito constrói 
conhecimento. Essa interação implica, do ponto de vista do sujeito, em poder assimilar o objeto aos seus esquemas, 
entendendo­se por esquema uma forma de agir, que se conserva ou se enriquece pelo próprio processo de equilibração 
majorante. 
Da mesma forma que o sujeito incorpora o objeto aos seus esquemas, estes se ajustam às características do objeto, isto 
é, modificam­se, transformam­se. Esse processo só é desencadeado quando há a presença de um desequilíbrio, de uma 
perturbação ­ de um conflito cognitivo. É na busca da reequilibração que se avança no processo de construção do 
conhecimento. Essa reequilibração não significa, naturalmente, uma volta ao estado anterior de equilíbrio, mas de uma 
transformação deste estado anterior em outro, melhorado (por isso, majorante). 

Ora, se o progresso se dá a partir de um conflito cognitivo, de um desequilíbrio na forma de pensar, então o papel da 
escola, do professor, é criar situações desequilibradoras, desafiadoras, que impulsionem o sujeito na busca de novas
alternativas de ação, desafios diante dos quais o aprendiz terá oportunidade de construir conhecimentos. 

Ao tratar­se de educação a distância online, na qual o professor não está presente, realmente, mas a intervenção tem de 
ser feita via material didático, por exemplo, entendo que é justamente esse material que deverá criar a situação 
desafiadora, à qual o aluno responderá autonomamente, construindo sua auto­aprendizagem. E, considerando­se que o 
intercâmbio, a coordenação de pontos de vista pode constituir­se em oportunidade de avanço, por gerarem conflitos 
cognitivos, então se pode pensar em propostas organizadas de modo a provocar no aluno a necessidade dessa troca. 
Assim, se à distância o aluno auto­aprende, pode ele próprio, concomitantemente, socializar esse conhecimento 
construído. "Nesse contexto, o professor é incentivado a tornar­se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de 
alunos em vez de um fornecedor direto de conhecimentos." (Levy 1999, p. 158) 

Ao professor caberia criar situações de aprendizagem (Rosa, 1991). As situações de aprendizagem são atividades que 
podem ser propostas tanto numa educação presencial, quanto à distância: 

l  atividades planejadas e organizadas a partir de nossa observação do processo de aprendizagem dos alunos; 
l  atividades planejadas e organizadas em função de algum material/texto específico; 
l  atividades organizadas a partir de propostas dos alunos; 
l  atividades organizadas em função de alguma situação ocorrida na interação estabelecida na aula; 
l  atividades (re)planejadas a partir de nossa reflexão sobre a prática. 

Numa perspectiva construtivista, o ensino não determina a aprendizagem. Enquanto esta é uma atividade do sujeito que 
aprende, aquela é uma intervenção externa, que pode ser facilitadora (ou não). O sujeito aprende em situações funcionais 
(Weisz, 1999), que podem ser criadas na escola, quando: 

l  os alunos precisam usar todo conhecimento já construído para resolver determinada atividade; 
l  há, realmente, um problema a ser resolvido e decisões a serem tomadas pelos alunos, em função do que se 
pretende produzir; 
l  o conteúdo da atividade caracteriza­se por ser um objeto sócio­cultural real, sem transformar­se em objeto 
escolar vazio de significado social; 
l  a organização da tarefa pelo professor garante o intercâmbio de informações. 

Na educação a distância online esses mesmos princípios são válidos, quando se considera o paradigma emergente 
apontado por Behrens (2000), como um paradigma inovador que atende aos pressupostos necessários às exigências da 
sociedade do conhecimento. Além disso, na educação a distância online, há que se enfatizar o aspecto afetivo com 
respeito às relações pessoais, que pode ser impulsionado pelos materiais e pelas atividades que permitam a comunicação 
e o intercâmbio entre os participantes. 

O papel do professor na educação a distância online 

A escola, seja ela presencial ou a distância, tem o objetivo de possibilitar ao aluno a aprendizagem. O papel do professor 
sempre será o de mediador nesse processo e sua formação, inicial ou continuada, pode ajudá­lo a encontrar formas de 
exercer esse papel. A depender de sua concepção de aprendizagem, sua atuação se modifica, mas o objetivo será sempre 
o mesmo: que os alunos aprendam. 

Com a utilização do computador e da Internet, novas formas de ensinar (e de aprender) são experimentadas e aumentam 
as propostas que combinam a educação presencial com a educação a distância online. "Com a Internet o professor pode 
estar mais atento ao ritmo de cada aluno, às suas formas pessoais de navegação. O professor não impõe; ele acompanha, 
sugere, incentiva, questiona, aprende junto com o aluno." (Moran 1998, p. 85) 

Os especialistas entrevistados parecem concordar com este papel que lhes cabe, de sugerir, provocar, incentivar, 
questionar e aprender junto com os alunos. Nas entrevistas sugeriram atividades que demonstravam como fazer esta 
mediação. 

Os entrevistados 

1 ­ Prof. Dr. Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto 

Professor da Pós­Graduação da Escola Politécnica da USP ­ Universidade de São Paulo, é membro da coordenadoria de 
educação a distância da Poli, desde 1998. Foi professor na UNICAMP, na Escola de Engenharia Mauá, da UNIP ­ 
Universidade Paulista e das Faculdades Tancredo Neves, entre outras. Foi o Coordenador do 2o. Ciclo de Teleconferências 
sobre Segurança e Saúde no Trabalho ­ Projeto FUNDACENTRO/FUSP ­ de maio a novembro de 2002 e é coordenador dos 
cursos a distância via teleconferência interativa do citado projeto. 

2 ­ Prof ª Dr ª Corina Ramos 

É professora aposentada da UFPR ­ Universidade Federal do Paraná. Atualmente faz consultoria junto à Fundação Getúlio 
Vargas ­ Instituto Superior de Economia e Administração, em Curitiba, como Coordenadora Educacional, tendo atuado na 
área de Educação Corporativa e Tecnologia a Distância. Seu trabalho com educação a distância online data da década de 
80. 

3 ­ Prof. Wilson Azevedo 

Diretor da ABED ­ Associação Brasileira de Educação a Distância, coordenou o Programa de Educação Continuada via 
Internet do Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro, entre 1997 e 2000. Atualmente é diretor Técnico­ 
Pedagógico da Aquifolium Educacional e coordena o Programa de Capacitação em Educação online, bem como os grupos 
de estudos e seminários virtuais internacionais que oferece.
4 ­ Prof ª Dr ª Maria Elisabeth Almeida 

Professora e pesquisadora da PUC­SP, atualmente no Programa de Pós­Graduação em Educação: Currículo e, na 
graduação, no curso de Tecnologia e Mídias Digitais, habilitação Educação a Distância. Atua também na formação de 
educadores com suporte em meio digital. Na área da Educação a Distância tem 5 anos de experiência. 

5 ­ Prof ª Dr ª Lenise Garcia 

Professora da Universidade de Brasília, doutora em Microbiologia. Atua também na capacitação continuada de professores 
e em outras atividades voltadas para o Ensino Básico, envolvendo educação ambiental, novas tecnologias na educação, e 
educação a distância. Tem ministrado, no Mestrado em Educação da UnB, a disciplina "Aprendizagem Colaborativa em 
Rede". É orientadora no Programa Sua Escola a 2000 por Hora do Instituto Ayrton Senna e da Microsoft ( 
www.escola2000.org.br  ). 

Os aspectos destacados pelos especialistas entrevistados 

1 ­ A prática de ensino online: a interação 

Diz Piaget (1976) que a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais. A 
reciprocidade de pensamento entre os interlocutores é condição para a construção do conhecimento. Na escola, o aluno é 
ativo e constrói seu conhecimento na interação com os conteúdos, com o professor e com os outros alunos. Na educação a 
distância online não é diferente. 

Os cinco especialistas entrevistados apontam a interação entre participantes de um curso online como uma das principais 
condições para que haja construção de conhecimento. A forma de criarem situações em que haja essa interação é que 
pode ser diferente ­ e, até, contraditória. 

O Prof. Wilson Azevedo afirmou sua preferência por atividades assíncronas ao ser perguntado se era possível criar 
situações de aprendizagem num ambiente online. Azevedo parece concordar com Sigalés (2001), que apontou a atividade 
assíncrona 1  como mais utilizada, por facilitar a reflexão e preparação dos participantes de um curso online, pois estariam 
livres da premência de tempo imposta pela sincronicidade. 

Em contrapartida, o Prof. Pedro Luís Costa Neto, que considera a interatividade uma das palavras­chave da educação a 
distância, acredita na criação de situações síncronas que possibilitem a interação e, para isso, utiliza um equipamento 
especialmente desenvolvido para esta função, solução de hardware e software apontada como forma de possibilitar a 
interatividade dos alunos nos cursos a distância. A solução encontrada pelo Prof. Costa Neto permite que, em cursos 
realizados por teleconferência, os alunos interajam com o professor e com os outros alunos operando um equipamento 
para fazer perguntas, ou para respondê­las. 

Quando o Prof. Costa Neto diz que essa solução é também de cunho psicológico, pode­se relacionar esta idéia com uma 
abordagem unificadora das dimensões afetivas e cognitivas do funcionamento psicológico. A interação pressupõe a 
afetividade, pois a afetividade pode ser interpretada como uma energia, ou seja, como algo que impulsiona as ações: a 
afetividade é a mola propulsora das ações, e a Razão está a seu serviço (La Taille 1992, p. 65). 

De forma síncrona ou assíncrona, a possibilidade de interação aparece como condição importante para a educação a 
distância online cumprir sua função de favorecer a aprendizagem. A Profª Corina Ramos aponta a interatividade como um 
dos aspectos a serem atendidos num curso online, como forma de desenvolvimento da autonomia do estudante. 

O que se observa é que situações de interação entre os participantes fazem parte do planejamento de um curso online que 
visa à construção do conhecimento, pois é a interação que gera a comunicação e o intercâmbio de informações. 

Uma das formas encontradas pelos especialistas em educação a distância online para garantir a interação é o trabalho em 
grupo. Utilizando­se atividades assíncronas como fóruns, listas, ou correio eletrônico (e­mails), há exemplos de situações 
de trabalho em grupo citados pela Profª Lenise Garcia e pela Profª Maria Elizabeth Almeida, quase todas caracterizadas por 
uma proposta de desenvolvimento de projetos. 

No caso da educação a distância online, a interatividade caracteriza­se pela presença da comunicação recíproca ­ aluno­ 
professor, aluno­aluno ­ pelo uso de diferentes mídias e pelas possibilidades de trabalho em grupo colaborativo por meio 
da Internet. Diz La Taille (1992, p. 18): 

"As relações de cooperação representam justamente aquelas que vão pedir e possibilitar esse desenvolvimento (de 
operações mentais). Como seu nome indica, a cooperação pressupõe a coordenação das operações de dois ou mais 
sujeitos. Agora não há mais assimetria, imposição, repetição, crença etc. Há discussão, troca de pontos de vista, controle 
mútuo dos argumentos e das provas. Vê­se que a cooperação é o tipo de relação interindividual que representa o mais alto 
nível de socialização. E é também o tipo de relação interindividual que promove o desenvolvimento." 

Portanto, a atividade que possibilite a interação deve pressupor cooperação entre os participantes, para haver 
aprendizagem e desenvolvimento. 

O Prof. Wilson Azevedo exemplificou como, à distância, se pode promover o intercâmbio entre os alunos e o conteúdo do 
curso: 

"As estratégias específicas para promover a discussão podem ser diversas: o docente pode simplesmente colocar uma ou 
mais perguntas, ou pode propor a leitura de um texto provocativo a ser comentado por todos, ou pode ainda colocar a 
descrição de um caso ou de uma situação­problema a ser coletivamente enfrentada ou analisada, enfim, várias estratégias 
específicas." (dado de entrevista)
Neste caso, Azevedo prioriza a interação assíncrona, por não estar limitada ao tempo e aos problemas de conexão, como 
anteriormente comentado. 

2 ­ A prática de ensino online: sincronia e assincronia 

Atividades síncronas ou assíncronas? Esta foi uma das divergências entre os entrevistados e uma das dificuldades de 
professores que atuam no ensino online. 

Uma das questões a ser analisada é com respeito à semelhança que muitos cursos buscam entre educação a distância 
online e educação presencial. Criam­se ferramentas e estratégias para que haja similaridade entre as duas modalidades de 
educação, o que transforma muitos ambientes virtuais de cursos online em arremedos das salas de aula presenciais. 

Cumpre assinalar que a maioria dos softwares utilizados para ensinar online permite que se faça analogias com o ensino 
presencial: customiza­se a ferramenta e cria­se sala de aula, quadro de avisos, sala dos professores, biblioteca, agenda e, 
até, café virtual. 2 

Essa simulação do presencial é significativa num contexto que se origina na pedagogia tradicional. Parece ser difícil ao 
professor imaginar um processo de ensino e aprendizagem que dispense alguns componentes comuns a toda escola: 
salas, quadros, local para alunos, local para professores e assim por diante. Isso leva a imaginar­se que a educação a 
distância online deva reproduzir características da educação presencial, ou não seria "educação escolar". Assim, a idéia de 
como trabalhar num ambiente em que não se vêem os alunos, assusta. 

As dúvidas sobre a legitimidade da EAD online acabam fazendo com que se procure assemelhá­la o mais possível com o 
ensino presencial. Mas trata­se de outra cultura, embora existam professor, alunos e conteúdos, como em qualquer 
escola, desde que essa entidade, escola, surgiu no mundo. E a possibilidade da comunicação a distância trouxe outros 
elementos e outras questões que ora assustam, ora encantam os professores. 
Diz Azevedo que a sincronicidade permitida pela Internet não favorece as situações de aprendizagem, pois possui uma 
dificuldade que existe igualmente na educação presencial: 

"Presencialmente você interage premido pelo relógio. Existe um horário que não pode ser ultrapassado, senão algum 
prejuízo acontece para alguém. Esta pressão do relógio é um elemento limitador típico da sincronia. Seja em salas de 
chat, em videoconferência ou em salas de aulas presenciais, a sincronia limita as possibilidades de interação a um 
determinado horário." (dado de entrevista) 

Eu creio que grande parte da resistência dos professores à educação a distância online seja devida a essa idéia de que 
tudo deverá acontecer de modo síncrono, ou seja, durante a conexão via Internet! 

A tecnologia utilizada em educação a distância online só é boa se puder ser realmente utilizada pelos alunos. Se um curso 
online é planejado com muitas atividades síncronas, tem­se que levar em conta que entre os alunos poderá haver aqueles 
que têm dificuldades técnicas, tais como equipamento antigo, conexão lenta, ou mesmo dificuldade em conectar­se num 
dado momento, determinado pelo professor. "O importante é que o curso não seja direcionado pela tecnologia, mas sim 
pelos resultados desejados pelos participantes e por suas necessidades." (Palloff e Pratt 2002, p. 91). 

3 ­ A prática de ensino online: o trabalho de grupo 

Uma das características de uma prática pedagógica fundamentada no construtivismo é o trabalho em grupo. Parte­se do 
pressuposto de que o intercâmbio de idéias é um elemento favorecedor de avanços na construção do conhecimento (Rosa, 
1991). Além disso, no trabalho do grupo, pode­se possibilitar a aprendizagem na Zona de Desenvolvimento Proximal 
(Vygotsky, 1989). 

Em grupos, há intercâmbio de idéias e socialização de conhecimentos. Essa natureza social da aprendizagem foi enfatizada 
por Vygotsky (op.cit.) no âmbito de uma posição teórica socialista, que defende a importância da relação e da interação 
entre as pessoas como origem dos processos de aprendizagem e desenvolvimento. 

Segundo o autor, a Zona de Desenvolvimento Proximal é definida como a distância entre o desempenho real (o que uma 
pessoa pode fazer sozinha, sem ajuda) e um desempenho acima deste nível ­ o que a pessoa pode fazer com ajuda de 
outra, ou outras, cujos níveis de conhecimento ou desempenho são mais avançados. Assim, o que a pessoa fizer com 
ajuda numa ocasião, poderá ser capaz de fazer independentemente em outro momento, pois é na zona de 
desenvolvimento proximal que a aprendizagem ocorre. Quando se participa de uma lista de discussão, por exemplo, pode­ 
se observar como a comunicação entre as pessoas, via Internet, pode gerar uma aprendizagem colaborativa. Mais do que 
isso, na educação, a comunicação via Internet é importante, quebrando velhos paradigmas e criando novos, desde que 
seu uso esteja aliado a um projeto pedagógico bem­feito. A Internet, como meio de comunicação de massas, tem uma 
linguagem própria que faz parte de uma nova cultura. 

A educação a distância online é parte de uma forma cultural nova, em educação. O termo cultura usado aqui deve ser 
interpretado com o significado dado por Pérez Gómez (1998, p. 16­17): 

"Considero uma cultura como o conjunto de significados, expectativas e comportamentos compartilhados por um 
determinado grupo social, que facilitam e ordenam, limitam ou priorizam os intercâmbios sociais, as produções simbólicas 
e materiais e as realizações individuais e coletivas dentro de um marco espacial e temporal determinado. A cultura, 
portanto, é o resultado da construção social, contingente às condições materiais, sociais e espirituais que dominam um 
espaço e um tempo." 3
Nos diálogos com professores que experimentam a educação a distância online observa­se que novos olhares são dados, 
novas práticas são criadas, novas relações são descobertas. Constroem­se, assim, novas formas de aprender e de ensinar, 
ainda que seja preocupante o fato de existirem práticas "velhas" disfarçadas de "novas", apenas porque se utiliza 
tecnologia avançada. 

Outro ponto importante diz respeito ao intercâmbio entre as pessoas, uma interação, por meio da qual se efetive a 
comunicação entre os envolvidos (todos os papéis: estudantes, tutores e animadores) com troca de significados a partir 
das informações e experiências, como destaca a Profª Corina (dado de entrevista). 

"Por que os professores dão tanta importância à interação entre as pessoas? Possivelmente porque a aprendizagem esteja 
muito relacionada com a afetividade." 

A importância da afetividade 

Moran (1998), referindo­se aos meios de comunicação, diz que eles operam com o sensível, o concreto, principalmente a 
imagem em movimento, ao tempo que utilizam a linguagem conceitual, falada e escrita. "Imagem, palavra e música se 
integram dentro de um contexto comunicacional afetivo, de forte impacto emocional, que facilita e predispõe a aceitar 
mais facilmente as mensagens." (Moran 1998, p. 159) No caso da Internet e, nesse contexto, da educação a distância 
online, esses recursos também são utilizados para contribuir com a interação entre as pessoas e com a construção de 
significados. Concordo com Moran (op. cit.) sobre o fato de que um dos eixos principais da educação seja o 
desenvolvimento da autonomia, de forma que professores e alunos melhorem sua auto­estima, respeitando­se 
mutuamente e a si próprios. Se aceito a idéia de que a afetividade é a mola propulsora das ações, então tenho de saber 
criar situações de aprendizagem em que a afetividade seja estimulada, vivida, provocada. Nesse sentido, muitos 
professores apontam a ausência física do professor como desvantagem na educação a distância. 

Como, então, criar formas de comunicação a distância, que possam garantir relações afetivas entre as pessoas que 
participam de uma experiência educativa, considerando­se a afetividade como fator importante nesse processo? 

Na educação a distância online a comunicação é feita, principalmente, via texto escrito: escrevem­se / lêem­se e­mails, 
mensagens em listas de discussão, em fóruns, em chats. Conhecemos as pessoas via Internet, afeiçoamo­nos a elas, 
relacionamo­nos com elas como se as conhecêssemos há muito tempo. Na maior parte das vezes, não chegamos a 
encontrá­las presencialmente, mas a afetividade se constrói nas relações interpessoais que se estabelecem. 

A importância do texto, do material para a mediação 

A importância do texto como meio de se garantir a afetividade e possibilitar interação é um dos pontos importantes a ser 
considerado quando se discute a questão da preferência de alguns professores pelas atividades assíncronas em detrimento 
de situações síncronas de aprendizagem, ainda que utilizemos escrita também nesse tipo de comunicação. A Prof ª Maria 
Elizabeth Almeida vê como uma das vantagens da educação a distância online, por exemplo, o registro das interações. 

Quanto mais elaboramos um texto ­ e numa atividade assíncrona temos mais tempo de fazê­lo ­ mais chance teremos de 
refletir sobre o texto, senti­lo, contextuá­lo. E o professor que usa textos como forma de comunicar­se, tem maior 
possibilidade de garantir que a afetividade esteja presente na situação. 

Quando entrevistada, a Profª Corina Ramos fez menção à elaboração de material didático condizente com a educação a 
distância online. Ela usa a expressão rigor pedagógico ao referir­se à confecção do material, destacando a necessidade de 
se ter uma concepção clara do que se entende por educação, tanto por parte de quem elabora o material, como por parte 
de quem usa. 

A importância do professor 

São muitas as questões a respeito de como o professor deve se comportar na educação a distância mediada pelo 
computador. 

Sobre isso, não há divergências significativas entre os entrevistados. Todos concordam com o fato de que o professor 
online deve ser mais dedicado, mais envolvido com o processo educativo, pois essa é uma condição para que o aluno se 
sinta apoiado, para que participe, para que não abandone o curso. 

Os comentários sobre a atuação do professor vão desde a importância que ele dá à utilização de tecnologia na educação 
ou à resistência que tem ao uso, a sugestões sobre como fazer educação a distância online ou motivar o aluno a distância. 

Entretanto, pode­se ter certeza de que qualidades exigidas a qualquer professor ­ como comunicabilidade, domínio do 
assunto, atualização, planejamento, disponibilidade, acolhimento entre outras ­ são, também, imprescindíveis quando sua 
atuação não é presencial. 

A importância da atividade 

Minha questão inicial foi conhecer as soluções e as opiniões a respeito da possibilidade de se criarem situações de 
aprendizagem na educação a distância online, sob uma perspectiva construtivista. Analisando os dados colhidos, chego à 
conclusão de que a atividade proposta deve, principalmente, possibilitar interação e pressupor cooperação entre os 
participantes, para haver aprendizagem e desenvolvimento.
No contexto da educação a distância online, as relações interpessoais (alunos e professores) e com o conhecimento 
acontecem nesse outro ambiente, ainda que ninguém se conheça presencialmente, ou tenha o professor diante de si para 
compreender o conteúdo ensinado. Há, por exemplo, a possibilidade da superação da timidez, e da oportunidade da 
reflexão antes da intervenção, principalmente em se tratando da interação assíncrona. 

Uma consideração final 

Na educação a distância online, tal como na educação presencial, o professor atua conforme sua concepção do processo 
de ensino e de aprendizagem. Não há como generalizar sua ação, seu perfil, ainda que se possa generalizar seu papel, 
como o de ser mediador da ação educativa que ocorre no contexto aluno­conhecimento­tecnologia. 

Pode­se dizer que já existem mitos e crenças sobre educação a distância online. Para a maioria dos professores que nunca 
participou de uma experiência desse tipo, é grande a desconfiança de que ela seja uma educação de menor qualidade, ou 
para a qual é necessário um tipo diferente de professor; para outros, que de alguma forma já participaram desta 
experiência, a educação a distância online é uma real possibilidade. Quanto a mim, é uma boa solução para a necessária 
formação continuada. 

Ainda que a cada dia surjam novas e sofisticadas ferramentas para a educação a distância online, acredito que, mesmo 
com o recurso simples de um correio eletrônico (e­mail), se possa fazer essa educação acontecer, mesmo porque não são 
as máquinas e os programas que garantem a educação, mas ainda, e sempre, serão as pessoas o mais importante para 
que se ajude alguém a construir ou reelaborar conhecimento, seja presencialmente ou a distância. 

Notas 

1 ­ Assíncrona é uma comunicação via Internet, como, por exemplo, o e­mail, que não se dá em tempo real; síncronas 
são as comunicações em tempo real, como num chat (sala de bate­papo). 

2 ­ Por exemplo, o FirstClass, WebCT, TopClass, UniverSite, AulaNet: são softwares que permitem a customização, ou 
seja, mudanças que atendam às necessidades do curso que os utilizam. 

3 ­ "Considero una cultura como el conjunto de significados, expectativas y comportamientos compartidos por um 
determinado grupo social, que facilitan y ordenan, limitan y potencian, los intercambios sociales, las producciones 
simbólicas y materiales y las realizaciones individuales y colectivas dentro de um marco espacial y temporal determinado. 
La cultura, por tanto, es el resultado de la construcción social, contingente a las condiciones materiales, sociales y 
espirituales que dominan un espacio y un tiempo." 

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Iara Sanches Rosa é doutora em Educação, autora da tese "A Construção do 
Conhecimento na Educação On­line", orientada pelo professor doutor José 
Manuel Moran Costas e defendida na PUC­SP em 2003. Rosa é ainda mestre 
em Psicologia Escolar e autora da dissertação "Alfabetização: a prática da 
leitura e escrita numa perspectiva psicogenética", orientada pela professora 
doutora Maria Regina Maluf e defendida na USP em 1991.