Você está na página 1de 198
Este recente e pratico livro sobre adoracdo tanga a luz necessdria sobre questoes relativas ao contetido, musica, estrutura, lberdade, tendéncias recentes da adora¢ao e muito mais. Grupos de estudo, lideres e todos os que buscam enriquecer sua experiéncia de adoracéo irdo beneficiar-se com este estudo riterloso sobre o tipo de adoracho que agrada a Deus, #ramepeneltou.o ceme do assunio com extraordinivia dareza, Flese maniém fielaos conceltes historicos da tradictio Reformada, mas argumenta demode convincente que as igrejas de haje deve construlr sobre o passado. Frame nos. oferece 0 que mais predsamos agota — prindpios biblicos de adoracae que devemos aplicar a nossas creunstandas partiouiares. Richard L, Pratt Jr. mae.) EDITORA CULTURA CRISTA ‘www.Cop.0rg.Dr Liturgia/Eelesiologia Emm Espirito e em Verdade © 2006, Editora Cultura Crista. Titulo original Worship in Spirit and Truth © 1996 por John M. Frame. Traduzido e publicado com permission da P&R Publishing, 1102 Marble Road. Phillipsburg, New Jersey, 08865, USA. Todos os direitos sao reservados. 12 edigao — 2006 3.000 exemplares Tradugito Helofsa Cavallari Ribeiro Martins Reviséio Fernanda Marcelino Wendell Lessa V. Xavier Editoragio Assisnet Capa Idéia Dois Design Conselho Editorial Claudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vicira, André Luiz Ramos, Francisco Baptista de Mello, Mauro Fernando Meister, Otdvio Henrique de Souza, Ricardo Agreste, Sebastio Bueno Olinto, Valdeci da Silva Santos. Dados Internacionais de Catalogacao na Publicagdo (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Frame, John M. 1939 - Em Espirito e em Verdade / John M.Frame; [tradugio Helofsa Cavallari Ribeiro Martins). Sao Paulo: Cultura Crista, 2006. 208p. ; 16x23 cm. Tradugdo de Worship in Spirit and Truth ISBN: 85-7622-131-4 1. Culto Péblico — Igreja Presbiteriana, 2. Culto Péblico — Igreja Reformada. 3. Igreja Reformada— Licurgia. 4. Ipteja Presbiveriana- Liturgia. LFrame, J.M. T,Ticulo. € €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles jr., 394 - CEP 01540-040 - Sio Paulo - SP Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - Séo Paulo - SP Fone: (11) 3207-7099 - Fax: (11) 3209-1255 Ligue grdtis: 0800-0141963 - www.cep.org.br - cep@cep.org.br Superintendenve: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Claudio Anténio Batista Marra Sumario PHOPECIO Lc eeeseceseseeeseeseteeseeneseneeseseeneeesseeneeceeeeteeeneeeneenneeen 11 1. Alguns princfpios DASICOS ........ccccsceesseceseeeeeeeenneeeteee 21 O qite € CULO? ..cceeeccssreeereees Culto centralizado em Deus Culto centralizado no evangelho . Culto trinitério Vertical ¢ horizontal... Amplo e restrito.... A importéncia do culto Perguntas para discussdo . 2. Culto no Antigo Testament0......c.ccccccccccscecceseeeeterereenenes 37 Encontros COM Deus ....ccccccccceseee Culto espontaneo.. Culto do pacio .. Culto sacrificial Sdbados .. Festas.. Taberndculo e templo.. Sacerdotes e levitas .. A sinagoga .... Conclusdo ..... Perguntas para discussdo 3. Culto no Novo Testamento Cristo cumpre o culto do Antigo Testamento 149 Culio em sentido amplo........ 54 Reunides cristas .....++. 5S Perguntas para GisCussG0 ...cccrescsescsercersesssecsssersentesiseennseetseeneerees 62 6 Em esptrito ¢ em verdade 4. Regras do culto.. cc cieeccccessssceecesesseseessessssssecsersnreeesess Precisamos conhecer as regras O princtpio regulador Aplicagées . Poder eclesidstico.. Conclusdd veeccrcereceeee Perguntas para discussdo 5. O que fazer no cuUlto? .o..... occ eeceeeecceeeeeseccceeeensneeeeeeens 81 Os “elementos” do culto.. Elaborando uma lista . Minha lista............. bese Concluindo. cece Perguntas para discussdo 6. Preparativos para 0 CUNO .........ccceseceeseceeseseeessseceneeeeenes 97 Lideranga .. Ocasiées de culto.. A ordem dos eventos . 1 — Abordagem histérica.. 2 — Reencenar a redengdo FS — DiGlogo...ceecccceeee 4 — Conclusées O local do culto.... Perguntas para discussdo 7.0 tom do culto AS CMOGOES ...eeeeeee Como o adorador deveria sentor-se . Estilo e aimosfera.......... .120 Autenticidade no culto 122 Perguntas para discuss@0 .cecccccsssccscsssesssesesssesseseceeseees wi 124 8. Deus fala conosco: a palavra e os sacramentos .............. 127 A Pulavra de Deus A leitura das Escrituras .. Pregacao e¢ ensino . Drama?..... Béngdos .. Adimoestagées . Chamada & adoracéo Sacramentos Sumdrio 7 Batismo infantil .o.cccccecccerseerereces Perguntas para discussao 9. Nés falamos com Deus: nossa resposta 4 sua Palavra Oragao. Confissées de fé.. Responsos da congregagao. Participagdo individual Perguntas pard discussdo ....cccccceccserereee 10. Mitsica no CUItO ...... cece ee ceee ceca ane ceeeeeeeeeeeaaeeeennaeereney Por que misica?...... O que a miisica faz? Por que hd tanta controvérsia hoje? Perguntas para discussdo 11. Musica no culto: algumas controvérsias ........ Exclusivamente salmos... wee Tnstrumentos, COPOS € SOLISEGS ...csceseccseseseteseneeeeeetsseersenseeeneerteesenes Cénticos sem palavras ....... Perguntas para discussdo 12. Musica na igreja: escolha dos hinoS .........:.:seeeeeeeeeeeees 179 As palavras ... As melodias... Perguntas para discussao 13. Reunindo tudo.......ecesescccsssecseseeeseeeeeeeeeeneeneeennnneneeees 191 Perguntas para discuss ...sccccecerrersrrerncecicecceseessiceecne tenets 202 Bibliografia selecionada € ANOLAAA .........s.cceeeeeereeeetetsseeeeees 203 Para Dick e Liz Jack e Rose Marie Doug e Lois 0s quais mostraram-me o caminho. Pre ticio A adoracao é algo incomparavelmente precioso para mim. Quando Deus me conduziu a fé em Cristo, era principalmente no contexto do culto que sua voz falava ao mcu coragéo — cs- pecialmente por meio dos hinos. Eu simplesmente nao conse- guia afasta-los de minha meméria. Ao longo de todos os altos e baixos de minha vida crista, é a experiéncia de culto que conti- nuamente tem conduzido meu coracaéo errante novamente para o Senhor. Todavia, nao poderia suspeitar, ha dez anos, que eu estaria escrevendo um livro sobre culto. Durante os tiltimos 20 anos, tenho sido, e continuo sendo, professor de um semindrio nas areas de Apologética e Teologia Sistematica. N4o sou um espe- cialista na drea de culto e adoracao, e tenho desejado nao lidar com as controvérsias existentes nesse campo. Deus, entretanto, por meio de varias circunstancias, tem- me levado a considerar os principios biblicos do culto. Desde o infcio de minha vida crista, sirvo como organista, pianista e, ocasionalmente, como regente de coro e dirigente do culto. Durante alguns anos, trabalhei como pastor auxiliar da New Life Presbyterian Church em Escondido, Califérnia, na qual dl 12 Em espirito e em verdade fui convidado para produzir um curso sobre culto, para os adul- tos da Escola Dominical. Lecionei esse curso seis ou sete vezes durante os tltimos 15 anos. Assim sendo, meu envolvimento com culto forcou-me a res- ponder as controvérsias. Em minha denominacio, Igreja Pres- biteriana da América, v4rias opinides tém sido expressas no que se refere a culto. Algumas refletem as diferencas que existem no mundo evangélico como um todo, ao passo quc outras sao espe- cificas do presbiterianismo. Por muitas razoes, eu teria prefe- rido permanecer fora de tais discussdes. Sem dtivida, preferiria adorar a Deus a discutir sobre principios do culto. Mas, em visa de minha formagdo e profundo interesse pelo assunto, foi dificil negar-me a participar dos debates. Portanto, envolvi-me nas discuss6es. Parte de minha motivacéo foi a preocupacdo em preservar, para minha congregacio local e outras semelhantes, a liberdade de adorar a Deus dentro de seu estilo costumeiro — que no é tradicional, mas em minha avaliagdo, cabalmente escrituristico. O debate agucou minhas consideragées nessa drea e me levou a desejar compartilhar, com outros irméos e irmas, algumas das reflexes alcangadas por meio da publicacao de um trabalho. O culto presbiteriano — baseado no “principio regulador”, extrafdo das paginas da Biblia e sobre 0 qual discorreremos neste trabalho — foi, em seus primérdios, muito restritivo, austero e “minimalista”.! (Movimento artistico, especialmente relacionado a pintura e a arquitetura que surgiu nos Estados Unidos, a partir de 1960, caracterizado por extrema simplicidade de forma, mo- tivos repetitivos e exclusdéo de qualquer expressdo pessoal. N.T.) Eram excluidos 6rgiaos, coros, textos de hinos, que nao fossem extrafdos diretamente dos Salmos, simbolismos no ambiente de culto e feriados religiosos, com exceg4o dos domingos. Presbiterianos pertencentes & tradicéo “Covenanter” (parti- darios da Reforma Protestante na Escécia — N.T.) como, por Profécio 13 exemplo, os membros da Igreja Presbiteriana Reformada da América do Norte, e alguns poucos filiados a outras denomi- nacdes ainda mantém esse estilo de culto; mas, nesse aspecto, representam, atualmente, uma pequena minoria de Presbite- rianos conservadores. ; Entretanto, a teologia puritana de culto, que produziu esse minimalismo, ainda é ensinada em igrejas presbiteria- nas conscrvadoras como a auténtica visio e posigéio presbi- teriana e reformada, no que diz respeito ao culto. Em par- te, isso se deve ao fato de que tal teologia esta retratada na Confissao de Fé c nos Catecismos de Westminster, adotados por tais igrejas.2 Na realidade, os padrées de Westminster apre- sentam muito pouco sobre a teologia puritana de culto. Os tedlogos puritanos e escoceses (da Igreja Reformada da Escé- cia) que escreveram os documentos de Westminster foram s4- bios quando n4o inclufram nesses documentos todas as suas idéias e concepgées sobre culto. Os principios responsaveis pelo minimalismo litirgico provém de outros textos puri- tanos e reformados que vao além dos documentos confessio- nais. Mesmo assim, tais textos extraconfessionais gozam de uma considerdvel autoridade informal entre as igrejas pres- biterianas conservadoras. O resultado é que, embora algumas igrejas presbiterianas conservadoras ainda adotem o estilo puritano de culto, a teolo- gia puritana permanece sendo o padrao de ortodoxia para elas. Tenho conversado com pastores que n&o desejam voltar ao uso exclusivo dos Salmos no canto congregacional, mas nao se sen- tem 4 vontade com o uso de hinos. Elcs parecem pensar que de- vem cultuar como os puritanos o fizeram, embora nao tenham nenhuma intencao de fazé-lo. Eles se preocupam com a possibilidade de que tal oscilagéo ou indecisao signifique uma inconsisténcia em seu compromis- so com a fé reformada e com a ortodoxia presbiteriana. 14 Em espirito e em verdade Creio que os presbiterianos necessilam fazer uma reavalia- cao nessa area. No meu entender, a Confissdo de Westminster esta absolutamente certa em seu principio regulador, isto 6, de que o verdadeiro culto deve limitar-se Aquilo que Deus ordena. Mas os métodos usados pelos presbiterianos para descobrir e aplicar tais principios necessitam de uma reviséo teol6gica. Grande parte daquilo que é dito n4o pode ser justificado pelas Escrituras. O resultado de nossa reavaliacgdo, assim espero, representaré algo como um paradigma revisado para o culto presbiteriano: abso- lutamente reformado em suas concepcées, afirmando o princi- pio regulador e os padrées da Confisséo de Fé e dos Catecismos de Westminster, mas permitindo uma maior flexibilidade do que a posigdo assumida pelos puritanos em sua aplicacdo das orde- nangas de Deus para o culto. Tal paradigima revisado aliviard os sentimentos de culpa mencionados acima, nado por nos permitir ignorar os mandamentos de Deus, mas nos ajudando a compre- ender mais acuradamente o que o Senhor espera de nés. Este livro expora esse paradigma revisado contrastando-o, de certa forma, com a alternativa tradicional. Mas nao serei ca- paz, neste trabalho, de fazer justica ao debate histérico. Espero, em outra oportunidade, escrever um livro, mais extenso e mais técnico, onde sera possivel explorar com detalhes a controvérsia histérica. O presente volume tem um propésito mais modesto: enunciar os principios bfblicos essenciais que governam o culto publico do povo de Deus. Constitui-se numa versdo revista e ampliada das ligdes preparadas para a classe de adultos da Es- cola Dominical da New Life Presbyterian Church, e espero que outras igrejas as considerem titeis para utilizagéo em situacoes semelhantes. Estarei conscientemente escrevendo para adultos leigos e procurarei definir com clareza qualquer termo técnico que porventura surja. Inclui perguntas para discussdo no final de cada capitulo. Creio que a melhor maneira de utilizar 0 livro em classes de es- Prefacio 15 tudo nao se fara por meio de um resumo produzido pelo profes- sor a cada domingo; mas, sim, que os membros da classe leiam a porcdo pertinente em casa e venham preparados para discutir as perguntas em conjunto. As respostas as quest6es propostas resultaram num sumario do contctido de cada capitulo e suge- riréo campos adicionais de pesquisa. A maioria da literatura existente sobre culto e adoragao pode ser dividida em trés tipos. O primeiro apresenta uma orientagdo hist6rica advogando o fato de que as igrejas hoje fazem um maior uso dos recursos da tradicéo cristaé. O segundo tipo € ideoldégico, meramente reiterando os conceitos e argumentos tradicionais adotados em cada grupo cristdo: catélicos, carismaticos, presbi- terianos, etc. O terceiro é mais pratico que teolégico, sugerin- do meios de tornar o culto mais interessante e satisfatério do ponto de vista emocional, mais inteligivel ou, de alguma forma, mais “auléntico” como um encontro com Deus. Esses trés ti- pos algumas vezes se sobrepdem; entretanto, a maior parte da literatura existente sobre o assunto parece ter em mente um ou dois desses objetivos. Embora eu, pessoalmente, considere esses livros e artigos va- liosos, este volume teré um enfoque diferenciado. Distintamen- te do primeiro tipo de literatura, este trabalho focalizara as Es- crituras. Sustento a posicao histérica crista de que as Escrituras sao a verdadeira Palavra de Deus, inerrante, possuindo autori- dade cabal c definitiva. Embora no negue o valor da tradigéo crista, nao reconheco nela uma autoridade divina. Se desejamos fazer um uso legitimo da tradicéo, devemos primeiro perguntar o que dizcm as Escrituras. A utilizacéo que fazemos da tradicaio deve ser definida, limitada e legitimada pela Biblia. Portanto, neste livro, pretendo discutir principios de importancia maior do que qualquer posigao derivada unicamente da tradigao. Tampouco, este livro repetiraé meramente uma posicao teo- légica tradicional, como no caso do segundo tipo de literatura 16 Em espirito e em verdade sobre adoragéo. Mcu compromisso teolégico pessoal é presbite- riano; concordo entusiasticamente com a Confissdo de Fé e os Catecismos de Westminster e creio que tal compromisso se mos- trara evidente neste trabalho. As principais suposicdes deste volume sao nitidamente reformadas: Deus € soberano, relacio- na-se conosco como o Senhor do pacto e descja que o adoremos somente como sua Palavra ordena. Alguns leitores sentiraéo que o livro se preocupa demais com questées surgidas, principalmente, dentro do presbiterianismo. No entanto, ele apresenta também, um aspecto ecuménico. Es- pero apresentar os principios reformados fundamentais de tal maneira que eles se tornem inteligiveis e persuasivos para os cristéos de todas as tradigées e desejo também justificar, ba- seado nesses mesmos principios, algumas formas de culto que nao sao tipicas da tradig4o reformada. Defenderei v modelo presbiteriano de culto a partir das Escrituras, nao da histéria da igreja ou das tradigoes. Ao contrario de alguns autores pres- biterianos creio que compreendo, e o fago com simpatia, a razdo pela qual alguns cristaos sinceros preferem nao participar de um culto dirigido segundo o modelo presbiteriano. Reconheco que ha problemas reais na tradicional visdo presbiteriana, os quais devem ser discutidos a partir das Escrituras, e pretendo enfrentd-los com seriedade. Creio também que, com respeito ao cullo, hé alguns pontos que os presbiterianos podem aprender com os nao-presbiterianos. Nao é meu objetivo principal, neste trabalho, sugerir téc- nicas para tornar o culto mais “significativo”; embora, algu- mas vezes, essas possam ser sugeridas. Este livro versara sobre principios biblicos. Seu enfoque seré a pergunta: o que Deus ordena com relag4o ao culto e 0 que ele profbe? E importante conhecermos a resposta para essa questdo antes de buscarmos meios humanos para enriquecer a experiéncia de culto. A chave principal para uma experiéncia significativa de culto é fazer Proficio 17 como Deus ordena. Além disso, sem dtivida, existe a indaga- gao de como poderemos cumprir melhor essas exigéncias em nosso proprio tempo e lugar. Isso nos leva 4 questao da “lin- guagem”, por meio da qual deveriamos expressar nosso culto a Deus e buscar a edificacgéo uns dos outros. Porém, é imperioso conhecermos os limites que Deus impés antes de tentarmos de- terminar as 4reas nas quais estamos livres para buscar formas mais significativas de adoracéo. Uma das preocupac6es centrais deste trabalho ser4 definir tanto as areas nas quais estamos restringidos pelas normas de Deus, como aquelas em que so- mos liberados (pelas mesmas normas) para desenvolver formas criativas de aplicagéo das mesmas. Vocé ficara surpreso ao verificar o quanto este livro, com toda a Sua preocupagéo com as normas divinas, enfatiza a liberdade no culto. No meu entender, uma vez compreendidas as ordens estabelecidas pelas Escrituras em relacéo ao culto, seremos ca- pazcs de perecber um bom ntimcro de aspectos que sao deixados a nossa opcao, permitindo, assim, uma considerdavel flexibilida- de. Creio que a maioria dos livros sobre culto, tanto presbiteria- nos quanto de outras denominagées, subestima a proporgdo de liberdade que as Escrituras permitem no culto. Livros escritos dentro de uma orientag&o histérica comumente tentam nos fa- zer sentir culpados, se nfo seguirmos os padrées tradicionais. Teélogos tradicionalistas também, caracteristicamente, desejam minimizar a liberdade e a flexibilidade. Mesmo aqueles que ofe- recem sugest6es para um “culto significativo” sao, com freqiién- cia, muito restritivos, pois tendem a se mostrar muito negativos para com as igrejas que n4o seguem suas sugestées. Este livro, entretanto, salientara o fato de que as Escrituras deixam muitas questées abertas — questées que igrejas diferentes, em situacdes diferentes, poderao, legitimamente, responder de formas diversas. Isso nao deveria nos surpreender tanto, pois se- guir os mandamentos de Deus significa seguir sempre 0 caminho 18 Em espirito e em verdade da liberdade. Quando substituimos a Palavra de Deus por nocées humanas (quer sejam tradigées do passado ou nogées contempo- raneas), o resultado é escraviddo 4 sabedoria humana. O jugo de Deus, embora impositivo, é muito mais leve e mcnos oneroso. Desejo expressar meus agradecimentos a todos aqueles que mc incentivaram neste projeto e estimularam minhas reflexées sobre o assunto. Meu antigo pastor, Dick Kaufmann, quem pri- meiro me chamou para ensinar esta matéria em sua congrega- cao, sugeriu muitas idéias que cumpriram um papel reprodutor de minhas préprias reflexdes e emprestou-me também grande encorajamento. De certa forma, estc volume tenta resumir as reflexdes que fundamentam o culto nas New Life Presbyterian Churches — New Life Presbyterian Church em Escondido, Ca- lifornia, 4 qual pertenco —, nossa “igreja mde” com o mesmo nome em Glenside, Peusilvania, e outras. As pessoas mencio- nadas na dedicatéria estdo relacionadas a essas comunidades e fizeram importantes contribuigdes 4 minha reflexéo, embora nao devam ser responsabilizadas pclas colocag6es apresentadas neste livro. Desejo agradecer, também, 4 Missao para a América do Nor- te, da Igreja Preshiteriana da América, por designar-me como membro da Comissao para o Servico de Culto. Muitos dos pen- samentos deste livro encontraram sua primeira expressio em trabalhos escritos para essa Comissdo e sido produto das esti- mulantes discussdes com outros membros da mesma. Como em quase todos os livros publicados por mim, devo agradecer a Vern Poythress e a Jim Jordan, os quais, nesse assunto, como em muitos outros, influenciaram grandemente meus pensamentos. Agradego também a meus criticos, especialmente Edmund P. Clowney, Joseph Pipa e T. David Gordon, homens por quem te-' nho enorme respeito, embora, nessa matéria, nao possa seguir a direc4o preferida por cles. Suas amaveis e ponderadas refulagdes permaneceram constantemente em meu pensamento enquanto Profétcio 19 escrevia estas pdginas. Sou grato também a editora Presbyterian and Reformed Publishing Company por seu encorajamento neste projeto c a James Scott pelo excelente trabalho editorial. Minha esperanca é que este material e as discussdes subse- qtientes por ele provocadas sejam utilizados por Deus para edi- ficar 0 seu povo e nos motivar a uma fidelidade maior no culto que prestamos a nosso Senhor Trino. Notas ' Palavra usada por James Jordan em seu Liturgical Nestorianism (Niceville, Florida: ‘Transfiguration Press, 1994), 13-19. ? A Assembléia de Westminster, que produziu a Confissdo e os Catecismos, produziu também um Diretério ou Manual para o Culto Piiblico a Deus. Entretanto, esse Manual nao tem sido considcrado como Constituigéo na maioria das Igrejas Presbiterianas atuais. Alguns principios bdsicos O que é culto? Culto é 0 servigo de reconhecimento e honra a grandeza de Nosso Senhor da Alianga. : Nas Escrituras, ha dois grupos de palavras hebraicas e gre- gas que sao traduzidas como “culto”. O primciro grupo se refere a “trabalho ou servico”.! No contexto do culto, esses termos se referem primariamente ao servico de Deus execu- tados pelos sacerdotes no taberndculo e no templo, durante o perfodo do Antigo ‘lestamento. O segundo grupo de pala- vras significa literalmente “curvar-se ou dobrar os joelhos”, isto 6, “prestar homenagem, honrar o valor e a dignidade de alguém”.? O termo inglés “worship”, derivado de “worth” (dig- no), tem a mesma conotacéo (em portugués, cultuar, culto, do latim “cultus”, também tem a mesma conotagao de reverén-' cia, adoragaéo. N.T.). Do primeiro grupo de palavras, podemos concluir que culto é ativo. E algo que fazemos, um verbo (bem como um substantivo), para citar o titulo de um livro recentemente escrito por Robert Webber.* Desde 0 inicio de nosso estudo, portanto, é possivel 21 22 Em espirito e em verdade perceber que culto é algo muito diferente de entretenimento. No culto, nio devemos ser passivos, mas participantes. Do segundo grupo de palavras, aprendemos que culto expri- me a idéia de honrar alguém superior a nds mesmos. Portanto, ndo significa agradar-nos, mas reverenciar outro. A pergun- ta “Como poderfamos tornar melhor o nosso culto?” leva-nos imediatamente a um enfoque especial — tornd-lo melhor nao para nés mesmos, mas para aquele que desejamos reverenciar. Pode ser que um culto melhor para Deus também o seja para nos. Nosso primeiro cuidado, entretanto, deve ser agradar a ele. Qualquer beneficio para nds sera secundario. Portanto, cultuar é executar um servico em honra a alguém diferente de nds mesmos. iL, ao mesmo tempo, “adoragio e ser- vigo”, para citar o titulo de outro livro recente.‘ As Escrituras usam todas essas palavras num nivel huma- no, referindo-se a relagdes entre as pessoas. Servimos uns aos outros e honramos uns aos outros. Mas ha um sentido especial segundo o qual somente Deus é digno de culto. O primeiro dos Dez Mandamentos diz: “Nao terds outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). Deus, chamado Yahweh (SenHor) no Decd- logo, é digno, idéneo para receber uma honra Unica, singular e nao compartilhada por ninguém mais. O quinto mandamen- to: “Honra teu pai e tua mae”, deixa claro que seres humanos também merecem honra. Mas essa nao pode competir com a reveréncia que devemos prestar ao Senhor. Os Dez Mandamentos ¢ a constituicao escrita de uma alian- ga, um pacto entre Deus e Israel. Essa alianca representa um relacionamento entre um grande rei (o SENHOR) e um povo que ele toma como sua propriedade. Como Senhor do pacto, Deus declara Israel como seu povo e a si mesmo como o Deus des- se povo.> Como Deus de Israel, ele fala ao povo com suprema autoridade e, assim, governa todos os aspectos de sua vida. A principal responsabilidade do povo é honrar a Deus sobre todas Alguns principios basicos 23 as coisas. Nao deve haver qualquer competigao na lealdade e afeicdo de Israel: “Ouve, Israel, o SENHoR, nosso Deus, é 0 tini- co Senior. Amards, pois, o SENHoR, teu Deus, de todo o teu coracao, de toda a tua alma e de toda a tua forga” (Dt 6.4,5). Jesus reforca esse ensino: “Ninguém pode servir a dois se- nhores” (Mt 6.24). Nao significa apenas que somos proibidos de adorar Baal ou Jupiter, nao devemos adorar o dinheiro tam- bém! Deus reivindica o senhorio sobre todas as areas de nossa vida. Nas palavras do apéstolo Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou facais outra coisa qualquer, fazei tudo para a gléria de Deus” (1Co 10.31). Um dos fatos mais surpreendentes é que Jesus exige para si préprio o mesmo tipo de lealdade exclusiva que o Senhor Deus exigia de Israel. Jesus sustenta o quinto mandamento contra os escribas e fariseus que dedicavam a Deus aquilo que deveria ser usado para o sustento de seus pais (Mt 15.11-19). Mas ensina também que a lealdade a ele transcende a lealdade aos pais (Mt 10.34-39). Quem é Jesus para reivindicar tal servigo e reveréncia? Apenas a lealdade a Deus transcende a lealdade aos pais na ordem do pacto divino. Portanto, Jesus, em Mateus 10.34-49, faz uma clara reivindicacao de si mesmo como Deus. Assim como Yahweh no Antigo Testamento, Jesus se apresenta como o Senhor da alianga, aqucle a quem devemos nossa abso- luta fidelidade e dedicagio (Mt 7.21-29; Jo 14.16). No culto, praticamos atos familiares que freqtientemente usamos entre nés. Louvor, por exemplo, é ou deveria ser, parte da vida cotidiana. Os pais louvam seus filhos por conquistas significativas e pelo bom cardter. Empregadores louvam seus empregados, e vice-versa, o que contribui para a boa convivén- cia no local de trabalho. E Deus nos chama a louva-lo no culto. Contudo, esse louvor se faz num nivel muito diferente. Louvar a Deus — na verdade louvar a Jesus! — é reconhecé-lo como incondicionalmente superior a nés em todos os aspectos, como 24 Em espirito e em verdade alguém cuja verdadeira grandeza esta além do nosso pobre po- der de expresso. Ele é 0 objeto definitivo de nosso louvor. No culto, também expressamos afeicao, alegria e tristeza. Confessamos nossas faltas; apresentamos nossas peticdes; da- mos gracas; ouvimos ordens, promessas e exortacées; trazemos nossas ofertas; somos purificados (batismo); comemos e be- bemos (Santa Ceia). Tudo isso praticamos sempre em nossos relacionamentos normais com outras pessoas. Mas quando as praticamos no culto, ha algo especial: o fazemos para o Scnhor, o ser supremo, criador e governador dos céus e da terra; e 0 fazemos em Jesus, nosso Salvador do pecado. No culto, essas acées comuns se tornam tnicas, misteriosas e transformadoras de vidas por causa daquele que cultuamos. ‘lornam-se um ser- vigo sacerdotal, por meio do qual reconhecemos a grandeza de nosso Senhor da alianga. Culto centralizado em Deus Como vimos, culto é deferéncia, adoragdo. Nao a nés prima- riamente, mas aquele que almejamos honrar. Adoramos em pri- mciro lugar para agradé-lo e encontramos nosso maior prazcr em contentd-lo. Culto deve ser, portanto, sempre centralizado em Deus e em Cristo. Seu foco deve ser o Senhor do pacto. Num livro anterior,® analisei trés aspectos do senhorio exis- tente no pacto de Deus com seu povo: controle, autoridade e presenca. Fo Senhor quem controla o curso completo da natu- reza e da histéria, quem fala com autoridade tltima e absoluta, e quem chama um povo para ser sua propriedade e para estar presente com ele. Esses trés aspectos do senhorio divino sao proeminentes no culto biblico. No culto, exaltamos o controle pactual de Deus, seu gover- no soberano sobre a criagdo. Os louvores do povo de Deus nas Alguns principios basicos 25 Escrituras sao caracteristicamente louvores aos seus “atos po- derosos” na criagao, providéncia e redengao (veja, por cxemplo, Ex 15.1-18; $1] 104; Sf 3.17; Ap 15.3,4). Adorar a Deus significa, também, curvar-se diante de sua absoluta e tltima autoridade. Adoramos nao apenas o seu poder, mas sua Palavra Santa. O Salmo 19 louva a Deus primeira- mente pela revelagéo de si mesmo em seus atos poderosos da criagdo e providéncia (vs. 1-6) e, entao, pela perfeigéo de suas Icis (vs. 7-11). Quando entramos em sua presenca, dominados e extasiados por sua majestade e poder, como ignorar o que ele nos diz? Portanto, no culto, ouvimos a leitura e a exposicao das Escrituras (At 15.21; 1Tm 4.13; Cl 4.16; 1Ts 5.27; At 20.7; 2Tm 4.2). Deus deseja que sejamos praticantes de sua Palavra, nado apenas ouvintes (Rm 2.13; Tg 1.22-25; 4.11). No culto, experimentamos, também, a presenga de Deus. Como Senhor da alianca, ele vem a nés durante o culto para estar conosco. No Antigo ‘lestamento, o tabernaculo e o tem- plo eram os lugares onde Deus encontrava-se com seu povo (Ex 20.24). Os adoradores proclamavam com alegria que o Senhor estava no meio do seu povo (Sf 3.17). O nome de Jesus, o qual adoramos, é Emanuel, que quer dizer “Deus Conosco” (Is 7.14; Mt 1.23). No culto do Novo Testamento, a presencga de Deus poderia impressionar mesmo um visitan- te incrédulo, que “assim, prostrando-se com a face em terra, adoraré a Deus, testemunhando que Deus esta, de fato, no meio de vés” (1Co 14.25). Portanto, o verdadeiro culto é cheio de lembrangas do se- nhorio do Deus da alianga. Adoramos para honrar seus atos poderosos, para ouvir sua Palavra dotada de autoridade e para termos comunhdo com ele, como aquele que nos fez seu povo. Quando nos distraimos de nosso Senhor da alianga e nos preo- cupamos com nosso proprio conforto e prazer, algo seriamente errado aconteceu com nosso culto. Como diz Dick Kaufmann, 26 Em espirito e em verdade meu antigo pastor, quando saimos do culto nao deveriamos per- guntar: “O que eu aproveitei dele?”, mas “Como eu me portei em meu servico de honrar ao Senhor?” Culto centralizado no evangelho Adao e Eva desfrutaram uma amizade maravilhosa com Deus. Deus os criara A sua imagem e os declarara “bons” (Gn 1.31). O Eden era uma espécie de templo, onde Addo e Eva se regozija- vam regularmente com os atos poderosos de Deus na criagio, ouviam e obedeciam a palavra do Senhor e se deliciavam com sua proximidade. Mas eles desobedeceram a Palavra de Deus (Gn 2.16,17; 3.1-6) e profanaram seu culto. Deus os amaldi- coou e os langou para fora de seu templo (Gn 3.14-24). Todavia, Deus nao os abandonou. Mesmo em meio a maldi- ¢4o, Deus thes deu a promessa de um libertador que destruiria Satands (Gn 3.15). Deus continuou a falar-lhes e a buscar co- munhdo com eles. O Senhor procurou adoradores (Jo 4.23). Em Génesis 4.3,4, tanto Caim quanto Abel trouxeram oferendas a Deus. No tempo de Sete, 0 povo comegou a invocar 0 nome do Senhor (Gn 4.26). O cullo continuou apés a Queda. Deus abengoou esse servico de culto apés a Queda, mas de- sejou que seu povo o adorasse com a consciéncia de seu pecado e culpa, e também com consciéncia da agéo de Deus no sentido de livraé-los tanto da culpa como do poder do pecado. Proe- minente no culto do Antigo Testamento sao os sacrificios de animais que prefiguravam a morte de Cristo, o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Como vimos, o povo de Deus o louvava nao apenas por seus atos poderosos na criagéo, mas também por sua redengéo. Em Exodo 15, os israelitas louvaram a Deus por ele os livrar da escravidaéo no Egito. Esse livramento prefigurava uma libertagao maior que Alguns principios basicos 27 Deus realizaria por seu povo em Cristo, salvando-o daquela morte que é 0 saldrio do pecado: “Digno é o Cordeiro que foi morto” (Ap 5.12). Como no Eden, o povo de Deus ouve sua Palavra no cul- to. Mas agora a situacdo é, de certa forma, diferente, pois agora a Palavra de Deus nos fala sobre nosso pecado e sobre a provisdo de Deus para o nosso perdao. Novamente temos comunhao com Deus, comendo e bebendo em sua presenca, mas esse comer e beber anuncia a morte do Senhor até que ele venha (1Co 11.26). Tudo o que fazemos no culto, portanto, agora nos fala do pecado e do perdao, da expiagao e da ressur- reicdo de Jesus por nds. O culto, apds a Queda de Addo, de- veria ser centralizado nfo apenas em Deus Pai, mas também em Cristo e no evangelho. Sempre, em nossos cultos, as boas novas de que Jesus morreu por nossos pecados e ressuscitou gloriosamente da morte deveriam scr centrais. Culto trinitério As Escrituras apresentam uma histéria da redencéo, uma narrativa daquilo que Deus fez para salvar seu povo de seus pecados. A medida que a histéria prossegue, as Escrituras apresentam o ensino gradualmente mais claro sobre a nature- za trinitdria de Deus: de que ele 6 um Deus em trés pessoas, Pai, Filho e Espirito Santo. Aprendemos sobre a Trindade, nao como algo interessante a respeito de Deus, mas porque esse fato tem um profundo envolvimento em nossa salvagio. No tempo determinado por Deus, a segunda pessoa da Trindade tornou-se homem — Jesus — para viver uma vida humana per- feita e morrer como sacrificio por nossos pecados. Entio, apds a ressurreicao de Jesus e de sua ascensdo ao céu, 0 Pai e o Filho enviaram a terceira pessoa da Trindade, o Espirito Santo, para 28 Em espirito e em verdade fortalecer a igreja em sua missao de levar o evangelho a toda terra. O Espirito aplica a obra de Cristo em nossos coragées, capacitando-nos a entender e aplicar a Palavra de Deus, e nos enche com dons divinos, capacitando-nos para nosso ministério e testemunho de Cristo. Quando Jesus afirmou 4 mulher samaritana: “Mas vem a hora e j4 chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarao o Pai em espirito e em verdade” (Jo 4.23), ele nado estava ape- nas predizendo um culto mais sincero por parte de seu povo, ao contrario, Jesus se referia aos novos atos que Deus esta- va preparando para a nossa salvagao. A “verdade” é a verdade do evangelho, as boas novas da salvacéo em Jesus (compare Jo 1.17 e 14.6). O “espirilo” é o “Espirito da verdade” Jo 14.7; 15.26; 16.13), que vem para testificar poderosamente a respei- to do evangelho.’ Culto “em espirito e em verdade”, portanto, é um culto tri- nitario — consciente do trabalho distinto do Pai, do Filho e do Espirito Santo para nossa salvacio. E cristocéntrico, pois quando “invocamos o nome do Senhor” invocamos a Cristo (Mt 18.20; Jo 14.13; 16.24; Rm 10.9; 1Co 12.3; Fp 2.9; Cl 3.17). Cristo 6 o Senhor e com ele estado o controle, a autorida- de e a presenga. Ele é 0 poder de Deus (1Co 1.24), a autoridade de Deus (Mt 28.18-20) e a presenca de Deus acampando no meio de seu povo Jo 1.14; Mt 18.20; 28.19,20; Rm 15.9). Ele € o sacriffcio que cumpre todos os sacrificios do culto do Antigo Testamento (Mc 10.45; Jo 1.29; 1Co 5.7; Hb 9.26; 10.12). Ele é o sumo sacerdote que intercede, orando por seu povo (Hb 4.15,16). Esse culto é também uma adoracao em e pelo Espirito. Pelo Espirito chegamo-nos e “adoramos a Deus no Espirito, e... nao confiamos na carne” (Fp 3.3). O Espirito é o Espirito de Cristo (Rm 8.9) e nao fala de sua propria iniciativa, mas apenas.o que ouve de Jesus (Jo 16.12-15), Ele nos persuade de que somos Alguns princtpios basicos 29 filhos de Deus (Rm 8.16) e de que o cvangelho é verdade de Deus (1Ts 1.5). Assim como Jesus intercede por nés, o Espfri- to expressa diante de Deus os gemidos inexprimiveis de nossos coragées (Rm 8.26,27). Culto centrado em Deus, em consondncia com as riquezas da revelacéo do Novo ‘lestamento, é sempre o culto em nome de Cristo e pelo poder do Espirito Santo. O tnico nome pelo qual seremos salvos é o nome de Cristo (At 4.12) e apenas podere- mos conhecé-lo por meio da ag&o soberana do Espirito Santo (Jo 3.3; Rm 8.14,15; 1Co 2.12). O culto centrado em Deus é um culto Trinitério. Nossa adoragio deveria dirigir-se a Deus como Pai, Filho e Espfrito Santo. Vertical e horizontal Evidentemente, portanto, o culto cristdo é “vertical”, diri- gido ao Deus Trino, para o seu prazer. O foco de nosso esforgo no culto deveria ser agradar a Deus. Partindo desse principio, alguns poderiam concluir que, ao cultuarmos, nao deveriamos prestar qualquer atencao as necessidades humanas durante o culto. Conclusédes como essa podem soar muito piedosas, mas nado s4o biblicas. O Deus da Biblia nao é semelhante a Molo- que, o deus falso que exigia sacrificios humanos de seus ado- radores, ao contrario, nosso Deus Trino deseja abencgoar seu povo quando este se encontra com ele. Néo ha qualquer oposi- cdo entre adorar a Deus e amar as pessoas. Amar a Deus com- preende amar o préximo como a nés mesmos (Mt 22.37-40; Mc 7.9-13; 1Jo 4.20,21). No culto, néo deveriamos nos preocupar tanto com Dcus a ponto de ignorarmos uns aos outros. Por exemplo, ado- rando a Deus nao deverfamos nos esquecer dos necessita- dos (Is 1.10-17; compare com 1Co 11.17-34; Tg 2.1-7). i 30 Em esptrito e em verdade necessdrio, também, certificar-nos de que nosso culto é edifi- cante para os crentes (1Co 14.26). O capitulo 14 da primeira carta aos Corintios enfatiza a importancia de uma linguagem compreensivel para todos, em vez de “linguas” ininteligiveis. Mesmo o nao-crente, ao entrar num santudrio, deveria ser ca- paz de compreender o que estd acontecendo de forma a poder prostrar-se e adorar, exclamando: “Deus esta de fato no meio de vés” (v.25). Vemos, portanto, que o culto tem uma dimensdo horizontal assim como um foco vertical. Deve ser centrado em Deus, mas também edificante e evangelistico. Um culto que nao seja edificante nem evangelistico nado pode ser propriamen- te considerado como centrado em Deus. Como podemos manter um foco horizontal apropriada- mente biblico, sem instituir um culto centrado na pessoa hu- mana? E necessdrio lembrar que o interesse apropriado pelos crentes n4o significa atender seus desejos ou caprichos. Culto nao é, portanto, um programa para proporcionar entreteni- mento ou para fortalecer a auto-estima ou encorajar o fari- safismo e a hipocrisia. A melhor forma de nos amarmos uns aos outros na experiéncia do culto é compartilhar a alegria da verdadeira adoragao sem concess6es; uma alegria centraliza- da nas boas novas da salvagdo. Reconhecer a centralidade de Deus no culto nao se opée a edificagéo dos crentes; antes, am- bos se reforgam. O culto é ocasiao para cuidarmos uns dos ou- tros, construir a unidade de nossa comunhdo com Cristo (Ib 10.24,25). Nés amamos porque Deus em Cristo nos amou primeiro (1Jo 4.19). Amplo e restrito Qs termos biblicos para culto aplicam-se a varias ocasides estabelecidas de culto pablico, particularmente ao servico de Alguns princtpios bésicos 31 adoragdo no taberndculo e no templo no perfodo do Antigo Testamento. Entretanto apresentam também um sentido mais amplo, caraclerizando a vida do crente em todos os aspectos. Em Romanos 12.1, 0 termo grego latreia (que em outros con- textos designava o servico dos sacerdotes no templo) descreve a entrega que o crente faz de seu proprio corpo para o servigo de Deus: “Rogo-vos, pois, irmaos, pelas misericérdias de Deus, que apresenteis 0 vosso corpo por sacrificio vivo, santo e agra- davel a Deus, que € 0 vosso culto racional”. No Antigo Testamento, Deus condenou o culto formal que ‘nado fosse acompanhado de uma preocupacaéo com a compaixado e a justica (veja Is 1.10-17; Mq 6.6-8). Em Oséias 6.6, Deus afirma: “Pois misericérdia quero, e nao sacrificio, e 0 conhe- cimento de Deus, mais do que holocaustos”. Deus certamente desejava o sacrificio; a frase € um cxagero retérico ou hipérbole. Mas 0 essencial nao deve ser desprezado, isto é, o culto autén- tico inclui uma vida obediente a Deus. Portanto, néo nos deve surpreender o fato de que, no Novo Testamento, 0 vocabuldrio do culto assume um sentido amplo e ético. Isso seria de se esperar também porque o Novo Tes- tamento encara o culto no templo como uma realidade que estA terminando. Quando Jesus morreu, o véu do templo (que separava o povo da presenga de Deus) rasgou-se ao meio de alto a baixo (Mt 27.51). E o sacerdécio do templo, baseado na descendéncia de Arado, deu lugar ao sacerdécio eterno de Cristo “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.6; 6.20—7.28). No ano 70 de nossa era, 0 templo foi destruido. Agora, em Cristo, todos os crentes s4o sacerdotes, oferecendo sacrificios espirituais (1Pe 2.5,9). Estes incluem um “sacrificio de lou- vor” (Hb 13.15) e, ao mesmo tempo, “a benevoléncia e 0 com- partilhar com outros” (Hb 13.16; compare com Fp 4.18). Ga- nancia e avareza s4o idolatria (Ef 5.5, compare com Mt 6.24). O apéstolo Tiago afirma: 32 Em espirito e em verdade Se alguém supoe ser religioso (threskos, “que observa ritos re- ligiosos”) deixando de refrear a lingua, antes, enganando o proprio coracdo, a sua religiao é va. A religiao [threskeia] pura e sem macula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os érfaos e as vitivas nas suas tribulagées e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo (Tg 1.26,27). Mencionarei algumas vezes este conceito amplamente ético de culto como “culto no sentido amplo”. Embora n4o consista de ritos formais, é muito importante para o conceito biblico geral de culto. Jd podemos perceber que o culto no sentido res- trito, sem o acompanhamento do culto no sentido amplo, nao é aceitavel para Deus. De certa forma, podemos dizer que toda a vida € cullo. Isso nao nega a importancia e até mesmo a necessidade de compare- cermos as reuni6es da igreja (Hb 10.25). Mas o Senhor deseja que vivamos dc tal mancira que todos os nossos atos rendam louvores a ele. A importancia do culto Culto, como foi definido por mim, incluindo seu sentido amplo e restrito, é tremendamente importante para Deus. Em Efésios 1.1-14, 0 apéstolo Paulo apresenta a empolgante vi- sdo do propésito soberano de Deus. O apéstolo inicia antes do tempo: Deus “nos escolheu nele antes da fundacgéo do mundo” (v.4). Entéo Deus “nos predestinou para ele, para a adocgdo de filhos” (v.5) e redimiu-nos pelo sangue de Cristo (v.7), reve- lando-nos os mistérios de sua vontade que scréo cumpridos no final da histéria (vs.9,10). A conclusao de tudo, o objetivo para o qual toda a hist6ria caminha, é 0 louvor, o “louvor da sua gloria” (v.14). Alguns principios bdsicos 33 “O fim principal do homem é glorificar a Deus e goza-lo para sempre” é a resposta aprendida por nés A primeira pergun- ta do Breve Catecismo de Westminster. Tal afirmacao do objetivo da vida humana € escriturfstico (veja 1Co 10.31). Glorificar a Deus é louva-lo.? O livro do Apocalipse apresenta-nos 0 céu e a terra cheios de louvor como a suprema realidade da redencado divina (Ap 5.13; 7.12). Fomos escolhidos como povo especial de Deus para poder- mos “proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das tre- vas para sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Deus chamou gentios para pertencerem ao seu corpo ao lado de judeus crentes, para que os gentios pudessem somar suas vozes nos cantos de louvor (Rm 15.8-11). Ao longo de toda a histéria biblica — da eternidade até os no- vos céus e a nova terra — Deus “procura” adoradores (Jo 4.23). E incomum nas Escrituras vermos Deus procurando o ser hu- mano. Na Biblia, procurar é normalmente a atitude dos huma- nos, nao de Deus. Em certo sentido, Deus nunca procura, pois nao ha nada escondido aos seus olhos (Hb 4.13). Mas a metafora da busca é apropriada, pois as Escrituras nos falam do enorme esforgo de Deus, no decorrer de muitos séculos, culminando no sacrificio de seu préprio filho, para redimir um povo a fim de adoré-lo. Redengiio é o meio, culto é 0 objetivo. Nesse sentido, a ado- racho € 0 objetivo ahsoluto de todas as coisas. F. o propésito da Histéria e 0 objetivo de toda a historia cristaé. Adorar nao se reduz a um scgmento da vida cristé cntre outros, mas cnglo- ba sua totalidade, uma vida encarada como oferta sacerdotal a Deus. E quando nos reunimos como igreja, nossa hora de culto nado é uma preliminar para algo diferente; ao contrario, é 0 ob- jetivo total de nossa existéncia como corpo de Cristo. Por conseguinte, é importante que estudemos sobre culto e adoragdo. Nas igrejas evangélicas, reconhece-se amplamente J4 Em espirito e em verdade a necessidade de termos estudos sobre evangelizacdo, livros e personagens da Biblia, teologia sistematica, aconselhamento, pregacao € muitas outras coisas. Raramente consideramos a im- portancia de estudarmos como Deus deseja ser cultuado. Culto € algo que tendemos a tomar por cancedido. Eu creio que este livro nos ajudar4 a crescer em nosso conhecimento do assunto e a assumir uma atitude mais séria sobre culto. Perguntas para discussao 1. Dois conceitos basicos emergem dos termos biblicos tra- duzidos como “culto”. Quais sao estes conceitos? De que forma eles nos ajudam a definir culto?! 2. O que significa afirmarmos que Deus é “Senhor”? Quais as implicagées de seu senhorio para o culto? 3. Quais sdo as principais diferencas entre adorar a Deus e honrar as pessoas humanas? 4. Como a queda de Addo afeta o nosso culto? 5. Deverfamos ser beneficiados com 0 culto? Deverfamos sen- tir prazer nele? Deveriamos ser abencoados por meio do culto? Se a resposta é afirmativa, que tipo de béngaos? 6. De que forma pode o culto ser, ao mesmo tempo, centrado em Deus e atento as necessidades humanas? O culto cele- brado em sua igreja precisa recobrar um cquilibrio biblico nesta area? Que mudangas devem ser efetuadas para que tal equilibrio seja recuperado? 7.Como a doutrina da Trindade afeta nosso culto? Como cada uma das trés pessoas nos ajuda a cultuar a Deus? Poderiamos cultuar junto com judeus ou mugulmanos que rejeitam a ‘lrindade? - 8. O que significa cultuar “em Espfrito e em verdade”? 9.F verdadeira a afirmagaéo de que tudo na vida é culto?