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A maior invenção humana


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No início do capítulo I de seu elogiado livro The


writing revolution – cuneiform to the internet
(A revolução da escrita – do cuneiforme à internet,
Blackwell, 2009), Amalia Gnanadesikan esboça
o que, para muitos, talvez seja o mais tenebroso
dos cenários imagináveis: um mundo sem livros.
E sem revistas, jornais, enciclopédias, receitas
de bolos, canetas esferográficas, internet...
Assim seria se não houvesse a escrita,
sistema que ela classifica como uma tecnologia
maravilhosa que possibilita, do passado,
foto Anand mehta

falar diretamente ao futuro. Alguma dúvida?


Basta dizer que as palavras escritas
por Gnanadesikan – bem como estas –
são uma máquina do tempo: foram
produzidas bem antes de chegarem aos olhos
Amalia Gnanadesikan

de quem as está lendo neste momento.


Doutora em Iinguística pela Universidade
de Massachusetts (Estados Unidos), Gnanadesikan
é atualmente pesquisadora da Universidade
Sagrada Família, na Filadélfia (Estados Unidos).
Nesta entrevista exclusiva à CH,
ela fala de sua paixão pelos sistemas de escrita,
bem como da longa e diversificada história
do que é classificado como a maior invenção
humana de todos os tempos, cuja origem
é associada a marcas escavadas na argila molhada
pelos Sumérios, há cerca de 3 mil anos a.C.

Konrad Szczesniak
Faculdade de Língua Inglesa,
Universidade da Silésia (Polônia)
Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/RJ

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Por que a senhora resolveu escrever um livro na década de 1950. Chegou-se a pensar que os gli-
totalmente dedicado à história da escrita? fos dos maias não passavam de um calendário com-
Sempre adorei os sistemas de escrita. Aprender um plexo, até que sua decifração começou nas décadas
sistema novo é como aprender um código secreto, de 1950 e 1960.
só que muito mais útil no cotidiano. A maioria dos Quando uma forma básica de decifração é acei-
livros sobre a história da escrita, na verdade, não ta pela comunidade acadêmica, restam ainda mui-
nos diz como as escritas funcionam, e a maioria tos detalhes, mas a solução destes últimos não é
deles não fala sobre a história desses sistemas, a necessariamente uma nova revolução.
não ser que sejam imensos volumes só para estu-
diosos. Quis colocar tudo o que gosto nos sistemas O chinês usa logogramas (ou seja, um símbolo
de escrita – tanto como eles funcionam quanto a representa uma palavra). Em seu livro, a senhora
história deles – em um livro só, inteligível para o diz que os estudiosos europeus pensavam que os
grande público. hieróglifos egípcios eram ideogramas, símbolos
exprimindo ideias complexas (como aquelas
Já descobrimos todos os sistemas presentes em uma frase).
elaborados ao longo da história Alguma língua usa ideogramas?
ou ainda podemos esperar por surpresas? Nós humanos somos criaturas linguísticas. Comu-
Não sabemos. Um dos motivos pelos quais temos nicamo-nos por meio da linguagem e até pensamos
registros tão bem preservados do sistema mais an- tendo-a como base. Então, quando comunicamos
tigo, o cuneiforme mesopotâmico, é que ele foi gra- nossos pensamentos por meio da escrita, primeira-
vado em tabuletas de argila, material que se con- mente nos trajamos de linguagem. De fato, é o que
serva bem se estiver queimado. Então, se se incen- define a escrita. Ela é algo que você lê como ‘lin-
diar a cidade, toda escrita fica preservada. Outras guagem’ e não um mero conjunto de ideias vagas.
escritas se preservaram, porque foram gravadas em Para tornar suas ideias mais específicas, você pre-
pedra e osso ou, como os Manuscritos do Mar Mor- cisa usar palavras.
to, foram mantidos em ambiente
muito seco. Se uma cultura che-
gou a desenvolver uma escrita,
mas a registrou em substratos A escrita é inerentemente conservadora: ela preserva
degradáveis, mantidos em um
clima úmido, talvez nunca che-
palavras que, de outro modo, evaporariam se
guemos a conhecer esse sistema. mantidas apenas na esfera da fala ou do pensamento
Mas, se essa mesma cultura es-
creveu em um substrato mais
resistente, então, nesse caso, nos-
sas esperanças de uma surpresa feliz são maiores. O português recentemente sofreu uma reforma
No entanto, duvido que haja vastos arquivos ainda ortográfica, apesar de sua ortografia já ser bastante
por descobrir – o campo da arqueologia avançou regular. Por que razão esforços semelhantes não são
muito, o que diminui bastante a probabilidade de feitos para arrumar o sistema ortográfico inglês?
esse tipo de descoberta ocorrer. A escrita é inerentemente conservadora: ela preser-
va palavras que, de outro modo, evaporariam se
O campo de estudo dos sistemas de escrita sofre mantidas apenas na esfera da fala ou do pensamen-
revoluções dramáticas, como as que caracterizam to. A força conservadora da escrita se manifesta de
a arqueologia, por exemplo? vários modos, e um deles é em sistemas ortográfi-
Uma revolução nessa área ocorre cada vez que uma cos, como o do inglês. Quanto mais tempo uma
escrita antiga é decifrada. A decifração dos hieró- língua fica sem reforma ortográfica, mais difícil é
glifos egípcios por Champollion [Jean-François, promovê-la sem revolução. O latim ficou tanto tem-
linguista e egiptólogo francês, 1790-1832], na dé- po sem reforma ortográfica (ou gramatical) que,
cada de 1820, por exemplo, reintroduziu para o quando as pessoas finalmente começaram a escre-
mundo um modo de escrita que era completamen- ver como falavam, já não era latim, mas sim portu-
te esquecido e muito mal-entendido na época. Nin- guês, espanhol, francês, italiano etc.
guém acreditava que a escrita linear B [uma forma Assim, o que impede que o inglês tenha uma re-
silábica de escrita do grego antigo] pudesse ser gre- forma ortográfica é o momento. Outra razão é que
go até sua decifração por Ventris [Michael George se trata de uma língua de muitos países, que teriam
Francis, arquiteto e intelectual inglês, 1922-1956] que chegar a um acordo sobre que mudanças fa- 

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zer. [O lexicógrafo norte-americano] Noah Webster ra da página que se segura com a mão. Penso que,
[1758-1843], em trabalho feito por volta de 1800, foi quanto mais sentidos usarmos para ler e escrever,
o último reformador eficaz do inglês, e ele só conse- melhor pensaremos e aprenderemos.
guiu influenciar os Estados Unidos. O interessante
é que nenhuma das diferenças entre os sistemas
Diz-se que a escrita fonética japonesa foi elaborada,
ortográficos norte-americano e britânico reflete as
há muito tempo, por mulheres que escutavam
diferenças na pronúncia das duas nações. Se a gente
furtivamente os homens (o que aparentemente era
tentasse escrever do modo como falamos, cada país
proibido) e precisavam de um sistema para registrar
anglófono teria sua própria grafia – e, talvez, em um
o que ouviam. É verdade? Há outros casos em que
futuro não distante, até sua própria língua.
mulheres desempenhavam papel parecido?
Há outra coisa. A ortografia do inglês é difícil de
As origens do hiragana, um dos dois sistemas fo-
aprender, mas há nela um significado subliminar.
néticos japoneses, estão perdidas na história, em-
Por exemplo, quando escrevemos photograph [fo-
bora a tradição as remeta ao Kobo Daishi [monge,
tografia] com o ‘ph’ e fox [raposa] com ‘f’, é possível
poeta e artista japonês, 774-835], fundador da seita
notar imediatamente que photograph e fox vêm de
shingon do budismo. Aliás, o hiragana passou a ser
duas línguas diferentes (o grego e o inglês).
associado a mulheres, às quais não era ensinado o
kanji, ou seja, os caracteres chi-
neses com os quais os homens
escreviam. Algumas mulheres,
Mas é importante entender que as pessoas hoje usam como [Murasaki Shikibu, c.
a palavra escrita mais do que nunca, o que garante 973-c. 1014 ou 1025] a autora de
os Contos de Genji, escreveram
que o sistema de escrita não esteja sob ameaça obras literárias importantes em
hiragana, embora os homens pu-
dessem lê-las também.
Na China, houve uma escrita fonética chamada
Há uns meses, uma reportagem na TV brasileira nü shu, concebida só para mulheres. Era mantida
falou do problema da caligrafia das crianças. em segredo dos homens, mas caiu em desuso com
Pais se queixavam de seus filhos apresentarem o acesso das mulheres à educação, e hoje pouco se
dificuldade em escrever com caneta e lápis, pois, sabe dela.
nas salas de aula, usam computadores
o tempo todo. As imagens mostravam que, de fato, Em seu livro, há uma parte dedicada
alguns dos alunos não sabiam segurar direito ao papel desempenhado pelo papel.
a caneta com a mão, mas teclavam com rapidez. O chamado papel eletrônico está ameaçando
As novas tecnologias (computadores, correio o papel tradicional? O que a senhora acha
eletrônico, celulares etc.) ameaçam a escrita? dos livros eletrônicos, como o Kindle?
Elas com certeza representam uma mudança em Para mim, não há nada como segurar um livro e
como se escreve. Como foi dito, as crianças de hoje virar suas páginas. Ler uma página impressa é mais
são melhores que seus pais quando o assunto é da- fácil para os olhos que ler uma tela, e segurar um
tilografar textos ou teclar mensagens, mas piores livro conecta mãos e cérebro. Se o papel eletrônico
na escrita à mão. Elas estão, de fato, bem adaptadas puder realmente alcançar a qualidade de impressão
ao ambiente moderno – as habilidades necessárias do papel tradicional, eu diria que ele terá um futu-
neste século são diferentes daquelas no século 19 ro promissor, para algumas aplicações – gostaria
ou passado. Mas é importante entender que as pes- muito que os escritórios gastassem menos papel,
soas hoje usam a palavra escrita mais do que nun- por exemplo.
ca, o que garante que o sistema de escrita não este- Livros eletrônicos, como o Kindle, têm duas van-
ja sob ameaça [de extinção]. tagens sobre os livros tradicionais: o espaço de ar-
Apesar disso, tenho receios do abuso da escrita mazenamento e a possibilidade de busca. Mas os
pelas tecnologias modernas. Ao se datilografar ou amantes de livros não se importam de seus livros
teclar mensagens, não é preciso usar o corpo tanto ocuparem espaço e, portanto, não vão abrir mão de
quanto na escrita à mão, de modo que pessoas que seus livros de papel. Eu queria poder fazer buscas
aprendem por cinestesia [pela percepção desses em meus livros (“Onde é que o autor disse X?”).
movimentos musculares] podem ser prejudicadas Imagino que livros poderiam vir com um tipo de
pelas novas tecnologias. Do mesmo modo, a leitura código de barra que permitisse aos compradores
na tela é uma experiência menos táctil que a leitu- acessar uma versão on-line da obra.

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As línguas do tipo pidgins nascem geralmente der grande parte dos caracteres antes de começar a
da necessidade de comércio entre duas culturas ler qualquer coisa. Um silabário, em que cada sím-
de línguas distintas. Há casos de sistemas bolo representa uma sílaba, é também mais fácil no
de escrita ‘pidgin’ que surgiram começo, porque cada símbolo pode ser pronuncia-
em circunstâncias semelhantes? do. Repare que, em realidade, não pronunciamos
Há casos de protoescrita, ou seja, escrita de ima- as letras de nosso alfabeto, só lhes damos nomes.
gens, na qual uma mensagem é transmitida por Não se pode pronunciar um B sozinho, e, assim, é
meio de imagens ou símbolos muito básicos. Essas difícil para as crianças aprenderem como seu som
escritas podem ser bem difíceis de ‘ler’, pois ima- se junta ao de outras letras para formar uma pala-
gens podem ter vários sentidos, como se vê ao se vra. Mas, nos silabários e sistemas logográficos,
tentar ler um livro de quadrinhos no qual as pa­ como o chinês, pode-se pronunciar cada símbolo,
lavras foram excluídas. Há também casos de siste- o que o torna fácil para as crianças.
mas de escrita completos que foram simplificados
para o uso por povos previamente analfabetos que
precisavam da escrita para o comércio e a adminis-
tração. O cuneiforme, por exemplo, foi usado de Penso que, quanto mais sentidos
forma simplificada nas línguas elamita, hurrita,
urartu e hitita. O nosso alfabeto, muito provavel-
usarmos para ler e escrever,
mente, veio de uma adaptação simplificada dos melhor pensaremos e aprenderemos
hieróglifos egípcios.

Qual é o sistema de escrita mais No geral, acho que o sistema mais fácil para
longo e o mais curto? aprender é o coreano. É um alfabeto em que letras
O mais longo é o chinês. Os dicionários modernos, com pronúncia parecida têm formas parecidas, e,
em suas versões sem cortes, têm por volta de 60 mil assim, é muito fácil aprender as letras. No coreano,
caracteres. No entanto, muitos deles são agora ob- as letras são agrupadas em blocos silábicos, e então
soletos, e para alguns caracteres não se conhecem as crianças podem lê-las como se fossem um si­
nem a pronúncia, nem o sentido. Um dicionário labário, eliminando, portanto, o problema de sole-
mais prático terá uns 8 mil caracteres, sendo que a tração que mencionei antes. Além disso, o corea­-
maioria das pessoas educadas conhece entre 3,5 e no tem regras ortográficas regulares, o que o torna
4 mil caracteres. mais fácil de escrever que o inglês.
O mais curto que conheço é o escandinavo fu-
thark ou alfabeto rúnico. O primeiro alfabeto rú­-
nico tinha 24 letras, mas, a partir do século 8, os
escandinavos elaboraram versões dele com só Quando as pessoas finalmente
16 letras. Tentar escrever o nórdico antigo com
apenas 16 letras era tarefa um tanto quanto árdua,
começaram a escrever como falavam,
pois a língua tinha mais do que 16 sons distintos. já não era latim, mas sim português,
A língua havaiana é escrita com apenas 13 letras,
mas elas são um subconjunto de um alfabeto ro­ espanhol, francês, italiano etc.
mano mais longo.

Alguns sistemas de escrita são mais O que seria a descoberta de seus sonhos
difíceis de aprender que outros? em seu trabalho com escritas antigas?
A dificuldade inerente a vários sistemas de escrita Achar mais exemplos da escrita do disco de Festos
se dá por razões diversas. Por exemplo, é fácil para – o suficiente para a decifração. O disco de Festos
uma criança aprender as letras do alfabeto, mas vem da era do bronze cretense e é coberto por 242
muito mais difícil para ela aprender como as letras caracteres de uma escrita desconhecida. É tudo o
se juntam para formar palavras. Em chinês, a lista que temos desse sistema, e isso é absolutamente
de símbolos é bem mais longa, mas é fácil começar insuficiente para a decifração. Mesmo que se faça
a aprender a ler. Com caracteres chineses, não é uma decifração com base em tentativa e erro, a cor-
preciso soletrar: você simplesmente olha para um reção dela não poderia ser confirmada. Então, por
caractere e diz a palavra. As crianças já são capazes enquanto, o disco fica lá no museu arqueológico
de ler frases curtas quando conhecem um punhado em Creta, como um símbolo perfeito de nosso co-
de caracteres. Em um alfabeto, você tem que apren- nhecimento perdido de um mundo antigo.   

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