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Cícero

Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C. Formia, 7 de De- zembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano.

Cícero é normalmente visto como sendo uma das mentes mais versáteis da Roma antiga. Foi ele quem apresentou aos Romanos as escolas da filosofia grega e criou um vo- cabulário filosófico em Latim, distinguindo-se como um linguista, tradutor, e filósofo. Um orador impressionante e um advogado de sucesso, Cícero provavelmente pen- sava que a sua carreira política era a sua maior façanha. Hoje em dia, ele é apreciado principalmente pelo seu hu- manismo e trabalhos filosóficos e políticos. A sua corres- pondência, muita da qual é dirigida ao seu amigo Ático, é

especialmente influente, introduzindo a arte de cartas re- finadas à cultura Europeia. Cornélio Nepos, o biógrafo de Ático do século I a.C., comentou que as cartas de Cícero continham tal riqueza de detalhes “sobre as inclinações

de homens importantes, as falhas dos generais, e as re-

voluções no governo” que os seus leitores tinham pouca

necessidade de uma história do período. [1]

Durante a segunda metade caótica do século I a.C., mar- cada pelas guerras civis e pela ditadura de Júlio César, Cí- cero patrocinou um retorno ao governo republicano tra- dicional. Contudo, a sua carreira como estadista foi mar- cada por inconsistências e uma tendência para mudar a sua posição em resposta a mudanças no clima político.

A sua indecisão pode ser atribuída à sua personalidade

sensível e impressionável: era propenso a reagir de modo

exagerado sempre que havia mudanças políticas e priva- das. “Oxalá que ele pudesse aguentar a prosperidade com mais auto-controlo e a adversidade com mais firmeza!" escreveu C. Asínio Pólio, um estadista e historiador Ro- mano seu contemporâneo. [2][3]

1 Vida pessoal

1.1 Primeiros anos

Cícero nasceu em 106 a.C. em Arpino, uma cidade numa colina, 100 quilómetros a sul de Roma. Por isso, ainda que fosse um grande mestre de retórica e composição La- tina, Cícero não era “Romano” no sentido tradicional, e sempre se sentiu envergonhado disto durante toda a sua vida.

Durante este período na história Romana, se, alguém qui- sesse ser considerado uma pessoa com cultura, era ne-

cessário falar Grego e Latim. A classe alta Romana até preferia usar a língua Grega em correspondência privada, sabendo que tinha expressões mais refinadas e precisas, era mais subtil, e em parte por causa da grande variedade de nomes abstractos. Cícero, como a maioria dos seus contemporâneos, foi educado com os ensinamentos dos antigos filósofos, poetas e historiadores gregos. Os pro- fessores mais proeminentes de oratória na altura também eram Gregos. [4] Cícero usou o seu conhecimento da lín- gua Grega para traduzir muitos dos conceitos teóricos da filosofia grega em Latim, apresentando-os desta forma a uma maior audiência. Foi precisamente a sua educação que o ligou à elite Romana tradicional. [5]

O pai de Cícero era um rico equestre com bons contactos

em Roma. Apesar de ter problemas de saúde que o im- pediam de entrar na vida pública, compensou por isto ao estudar extensivamente. Apesar de pouco ser conhecido sobre a mãe de Cícero, Hélvia, era comum as mulheres de importantes cidadãos Romanos serem responsáveis pela casa. O irmão de Cícero, Quinto, escreveu uma carta a dizer que ela era uma dona de casa frugal. [6]

O cognome de Cícero em Latim significa grão-de-bico.

Os Romanos normalmente escolhiam sobrenomes realis-

tas. Plutarco explica que o nome foi originalmente dado

a um dos antepassados de Cícero porque ele tinha uma

covinha na ponta do nariz que parecia um grão-de-bico. Plutarco diz também que foi dito a Cícero para mudar este nome depreciativo quando ele decidiu entrar na po- lítica, mas que este recusou, dizendo que ele ia fazer Cí- cero mais glorioso do que Escauro (“com tornozelos in- chados”) e Catulo (“Cachorrinho”). [7]

in- chados”) e Catulo (“Cachorrinho”). [ 7 ] Jovem Cícero a ler, fresco de 1464, atualmente

Jovem Cícero a ler, fresco de 1464, atualmente na Colecção Wal- lace.

De acordo com Plutarco, Cícero era um estudante extre-

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1 VIDA PESSOAL

mamente talentoso, cuja aprendizagem atraiu a atenção de toda a Roma, [8] dando-lhe a oportunidade de estudar a lei Romana sob Quinto Múcio Cévola. [9] Outros estudan- tes eram Caio Mário, o Jovem, Sérvio Sulpício Rufo (que se tornou advogado, um dos poucos que Cícero conside- rava serem superiores a ele próprio em assuntos legais),

e Tito Pompónio. Os dois últimos tornaram-se amigos

de Cícero por toda a vida, e Pompónio (que mais tarde recebeu o apelido de "Ático” por causa do seu amor pela cultura helénica) iria ser o maior conselheiro e suporto emocional de Cícero.

Cícero queria seguir uma carreira no serviço público civil nos passos do Cursus honorum. Em 90–88 a.C., Cícero serviu Cneu Pompeu Estrabão e Lúcio Cornélio Sula du-

rante a Guerra Social, apesar de não ter interesse nenhum na vida militar. Cícero era, antes de tudo, um intelectual. Cícero começou a sua carreira como advogado a cerca de 83-81 a.C. O seu primeiro caso importante de que se tem registo aconteceu em 80 a.C., e foi a defesa de Sexto Róscio, acusado de parricídio. [10] Aceitar este caso foi um acto corajoso: parricídio era considerado um crime horrível, e as pessoas acusadas por Cícero, o mais famoso sendo Crisógono, eram favoritos do ditador Sula. Nesta altura, teria sido fácil para Sula mandar alguém assassinar

o desconhecido Cícero. A defesa de Cícero foi um desa-

fio indirecto ao ditador, e o seu caso foi forte o suficiente

para absolver Róscio.

Em 79 a.C., Cícero partiu para a Grécia, Ásia Menor e Rodes, talvez devido à ira potencial de Sula. [11] Cícero viajou para Atenas, onde se encontrou de novo com Ático, que se tinha tornado num cidadão honorário de Atenas e apresentou Cícero a alguns Atenienses importantes. Em Atenas, Cícero visitou os lugares sagrados dos filósofos. Mas antes de tudo, ele consultou retóricos diferentes para aprender um estilo de falar menos exaustivo. O seu maior instrutor foi Apolónio Mólon de Rodes. Ele ensinou a Cícero uma forma de oratória mais expansiva e menos intensa que iria caracterizar o estilo individual de Cícero no futuro.

No fim dos anos 90 e inícios dos 80 a.C., Cícero apaixonou-se pela filosofia, o que iria ter grande impor- tância na sua vida. Eventualmente, ele iria introduzir a filosofia grega ao romanos e criaria um vocabulário filo- sófico latino. Em 87 a.C., Filão de Larissa, o chefe da Academia fundada por Platão em Atenas 300 anos antes,

chegou a Roma. Cícero, “inspirado por um extraordi- nário zelo pela filosofia”, [12] sentou-se entusiasticamente aos seus pés e absorveu a filosofia de Platão, chegando a dizer que Platão era o seu deus. Admirava especialmente

a seriedade moral e política de Platão, mas também res-

peitava a sua imaginação. Mesmo assim, Cícero rejeitou

a teoria das Ideias dele.

1.2 Família

Cícero provavelmente casou-se com Terência quando ti- nha 27 anos, em 79 a.C. De acordo com os costumes da classe alta da época, era um casamento de conveniên- cia, mas existiu harmoniosamente durante uns 30 anos.

A família de Terência era rica, mas embora tivesse ori-

gem nobre, tinha ligações familiares com a plebe, eram

os Terêncios Varrões, e preenchendo os requerimentos

das ambições políticas de Cícero em termos ambos eco- nómicos e sociais. Ela tinha uma meia-irmã (ou talvez prima) chamada Fábia, que em criança se tinha tornado numa virgem vestal, o que era uma grande honra. Te- rência era uma mulher independente e (citando Plutarco) “tinha mais interesse na carreira política do marido do que o deixava a ele ter nos assuntos da casa”. [13] Era uma mulher pia e provavelmente com os pés bem realista.

Nos anos 40 a.C., as cartas de Cícero a Terência tornaram-se mais curtas e frias. Ele queixou-se aos ami-

gos que Terência o tinha traído, mas não explicou em que sentido. Talvez o casamento simplesmente não pudesse aguentar a pressão do tumulto político em Roma, o envol- vimento de Cícero nele, e várias outras disputas entre os dois. Parece que o divórcio aconteceu em 45 a.C. No fim

de 46 a.C., Cícero casou-se com um jovem moça patrícia,

Publília, de quem ele tinha sido o guardião. Pensa-se que Cícero precisava do dinheiro dela, especialmente depois

de ter de pagar de volta o dote de Terência. [14] Este casa-

mento não durou muito tempo.

Apesar do seu casamento com Terência ter sido um de conveniência, sabe-se que Cícero tinha grande afeição pela sua filha Túlia. [15] Quando ela ficou doente subita- mente em fevereiro de 45 a.C. e morreu depois de apa- rentemente ter recuperado de dar à luz em Janeiro, Cícero ficou arrasado. “Perdi a única coisa que me ligava à vida” escreveu ele a Ático. [16] Ático disse-lhe para o visitar du- rante as primeiras semanas depois deste evento, para que ele o pudesse consolar. Na grande biblioteca de Ático, Cícero leu tudo o que os filósofos gregos tinham escrito sobre como vencer a tristeza, “mas a minha dor derrota toda a consolação.” [17] Júlio César, Bruto e Sérvio Sulpí- cio Rufo mandaram-lhe cartas de condolência. [18][19]

Cícero esperava que o seu filho Marco se tornasse num fi- lósofo como ele, mas Marco queria uma carreira militar. Ele juntou-se ao exército de Pompeu em 49 a.C. e depois

da derrota de Pompeu na Farsália em 48 a.C., foi perdo-

ado por Júlio César. Cícero enviou-o para Atenas para estudar como um discípulo do filósofo peripatético Cra-

tipo em 48 a.C., mas o jovem usou a ausência “do olho vigilante do seu pai” para “comer, beber e ser feliz.” [20] Depois do assassinato de Cícero, ele juntou-se ao exército dos Liberatores, mas foi mais tarde perdoado por Augusto dos Júlios. Os remorsos de Augusto por ter posto Cícero

na lista de proscrição durante o segundo triunvirato fê-lo

dar considerável ajuda à carreira de Marco, o filho de Cí- cero. Este tornou-se num áugure, e foi nomeado cônsul em 30 a.C. juntamente com Augusto, e mais tarde feito

2.1 Questor

3

1.3 Obras

Cícero foi declarado um pagão justo pela Igreja católica, e por essa razão muitos dos seus trabalhos foram preser- vados. Santo Agostinho e outros citavam os seus traba- lhos "De re publica" (Da República) e "De Legibus" (Das Leis), devido a essas citações é que se podem recriar di- versos de seus trabalhos usando os fragmentos que res- tam. Cícero também articulou um conceito abstrato de direitos, baseado em lei antiga e costume. Dos livros de Cícero, seis sobre retórica sobreviveram, assim como partes de oito livros sobre filosofia. Dos seus discursos, oitenta e oito foram registados, mas apenas cinquenta e oito sobreviveram.

Seu livro De Natura Deorum, que discute teologia, foi considerado, por Voltaire, possivelmente o melhor livro de toda a Antiguidade [22] .

2 Carreira pública

de toda a Antiguidade [ 2 2 ] . 2 Carreira pública Marco Túlio Cícero 2.1

Marco Túlio Cícero

2.1 Questor

O seu primeiro cargo foi como um dos vinte questores

anuais, um trabalho de treino para a administração pú- blica em áreas diferentes, mas com ênfase tradicional na administração e a contabilidade rigorosa de dinheiro pú- blico sob a orientação de um magistrado veterano ou co- mandante provincial.

Cícero serviu como questor na Sicília Ocidental em 75 a.C. e demonstrou grande honestidade e integridade na forma como lidava com os habitantes. Como resultado,

os gratos Sicilianos pediram a Cícero que processasse

Caio Verres, um governador da Sicília, que tinha pilhado

a ilha. A sua acusação de Caio Verres foi um grande su-

cesso forense para Cícero. Depois do fim deste caso, Cí- cero tomou o lugar de Hortênsio, advogado de Verres, como o maior orador de Roma. A oratória era conside- rada uma grande arte na Roma antiga, e uma ferramenta importante para espalhar conhecimento e promover-se

a si próprio em eleições, em parte porque não havia

meios de comunicação regulares na altura. Apesar dos seus grandes sucessos como advogado, Cícero não tinha

uma genealogia com reputação: não era nem nobre nem

patrício. [carece de fontes?]

Cícero cresceu num tempo de confusão civil e guerra. A vitória de Sula na primeira de muitas guerras civis deu

lugar a uma infra-estructura constitucional que sabotava

a liberdade, o valor fundamental da República Romana.

De qualquer modo, as reformas de Sula fortaleceram a

posição dos equestres, contribuindo para o aumento do poder político dessa classe. Cícero era um eques Italiano

e um novus homo, mas acima de tudo, era um constitucio-

nalista romano. A sua classe social e lealdade à República

certificaram-se que ele iria “comandar o suporto e confi- ança do povo assim como as classes médias Italianas.”

O facto dos optimates nunca o terem aceitado realmente,

prejudicou os seus esforços para reformar a República ao

mesmo tempo que preservava a constituição. Mesmo as- sim, ele foi capaz de subir o cursus honorum, ocupando cada posto exactamente na idade mais jovem possível,

ou perto dela: Questor em 75 a.C. (31 anos), Edil em 69

a.C. (37 anos), e Pretor em 66 a.C. (40 anos), onde serviu como presidente do Tribunal de “Reclamação” (ou extor-

são). Foi depois eleito Cônsul quando tinha 43 anos.

2.2 Cícero e Pompeu

2.3 Cônsul

Cícero foi eleito Cônsul em 63 a.C. O seu co-cônsul nesse ano, Caio António Híbrida, teve um papel menor. Nesse cargo, ele destruiu uma conspiração para derrubar a Re- pública, liderada por Lúcio Sérgio Catilina. O Senado deu a Cícero o direito de usar o Senatus Consultum de Re Publica Defendenda (uma declaração de lei marcial), e ele fez Catilina deixar a cidade com quatro discursos (as

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2 CARREIRA PÚBLICA

famosas Catilinárias), que até hoje são exemplos estupen- dos do seu estilo retórico. As Catilinárias enumeraram

os excessos de Catilina e os seus seguidores, e denuncia-

ram os simpatizantes senatoriais dele como sendo patifes

e devedores dissolutos, que viam Catilina como uma es-

perança final e desesperada. Cícero exigiu que Catilina e

os

seus seguidores deixassem a cidade. Quando acabou

o

seu primeiro discurso, Catilina saiu do Templo de Jú-

piter Estator. Nos seus próximos discursos, Cícero não

se dirigiu directamente a Catilina, mas ao Senado. Com

estes discursos, Cícero queria preparar o Senado para o pior caso possível, e também entregou mais provas contra

Catilina. [carece de fontes?]

contra C a t i l i n a . [ carece de fontes ?] Cícero

Cícero denuncia Catilina, fresco por Cesare Maccari, 1882-

1888.

Catilina fugiu e deixou para trás outros conspiradores

para começarem a revolução de dentro, enquanto Catilina iria atacar a cidade com um exército de “falidos morais e fanáticos honestos”. Catilina tinha tentado ter ajuda dos Alóbroges, uma tribo da Gália Transalpina, mas Cícero, trabalhando com os Gauleses, conseguiu recuperar car- tas que incriminavam cinco conspiradores e os forçaram

a

confessar os seus crimes em frente ao Senado. [23]

O

Senado então decidiu qual seria o castigo dos conspi-

radores. Como era o corpo conselheiro dominante das

várias assembleias legislativas e não um corpo judicial,

o seu poder tinha limites. Contudo, o país estava a fun-

cionar em lei marcial, e temia-se que as opções normais (prisão domiciliária ou exílio), não eram o suficiente para remover a ameaça contra o estado. A princípio, a maioria dos Senadores queriam usar a “pena extrema”, mas mui- tos foram desencorajados por Júlio César, que criticou o precedente que iria ser criado, e falou a favor de prisão perpétua em vária cidades italianas. Catão então defen- deu a pena de morte e todo o Senado concordou. Cícero ordenou que os conspiradores fossem levados a Tuliano, onde foram estrangulados. O próprio Cícero acompa- nhou o ex-cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, um dos conspiradores, a Tuliano. Cícero recebeu o honorífico pai da pátria por ter suprimido a conspiração, mas desde então viveu com medo de ser julgado ou exilado por ter condenado cidadãos Romanos à morte sem julgamento.

2.4 Exílio e retorno

Em 60 a.C., Júlio César convidou Cícero para ser o quarto membro do grupo que era formado por ele, Pompeu e Crasso, o que mais tarde seria chamado o Primeiro Triunvirato. Cícero recusou porque suspeitava que isto prejudicasse a República. [24]

Em 58 a.C., Públio Clódio Pulcro, o tribuno dos plebeus, introduziu uma lei (a Leges Clodiae) com a ameaça do exílio a quem quer que tivesse executado um cidadão Ro- mano sem julgamento. Cícero, tendo executado mem- bros da conspiração de Catilina quatro anos antes sem um julgamento formal, e tendo atraído a ira de Clódio

ao arruinar o seu álibi num caso, era o alvo da nova lei.

Cícero disse que o senatus consultum ultimum o protegia

de castigo, e tentou ganhar o suporto de senadores e côn-

sules, especialmente de Pompeu. Quando a ajuda não se materializou, ele foi exilado. Chegou à Tessalónica, na

Grécia, no dia 23 de Maio de 58 a.C. [25][26][27] O exílio fê-lo cair em depressão, como é possível ver numa carta em que diz a Ático que foram os pedidos deste último que o impediram de se suicidar. [28] Depois novo Tribuno Tito Ânio Papiano Milão ter intervindo, o Senado, com

a excepção de Clódio, foi unânime no seu voto a favor

de chamar Cícero de volta. Cícero voltou para a Itália no

dia 5 de Agosto de 57 a.C., em Brundísio. [29] Foi acolhido

por uma multidão e pela sua querida filha Túlia. [30]

Cícero tentou reintegrar-se na política, mas falhou no seu ataque de uma lei de César. A conferência em Luca, em 56 a.C., forçou Cícero a mudar a sua posição e a dar o seu suporto ao Triunvirato. Com isto, Cícero voltou aos seus trabalhos literários e abandonou a política durante os próximos anos. [31]

2.5 A Guerra Civil de Júlio César

A luta entre Pompeu e Júlio César ficou mais intensa

em 50 a.C Cícero escolheu o lado de Pompeu, mas ao mesmo tempo também evitou alienar César abertamente. Quando César invadiu a Itália em 49 a.C., Cícero fugiu de Roma. César, querendo a legitimidade que o patrocínio

de

um senador e veterano lhe daria, tentou atrair o favor

de

Cícero, mas este saiu de Itália e viajou para Dirráquio,

na

Ilíria, onde o pessoal de Pompeu estava. [32] Cícero de-

pois viajou com as forças de Pompeu até Farsália em 48 a.C., [33] apesar de estar a perder a fé na competência e intenções do grupo de Pompeu. Eventualmente, ele pro-

vocou a hostilidade de Catão, que lhe disse que ele teria sido mais útil aos optimates se tivesse ficado em Roma. Depois da vitória de César, Cícero voltou a Roma, mas com cuidado. César perdoou-o e Cícero tentou ajustar-se

à situação e manter o seu trabalho político, esperando que César ressuscitasse a República e as suas instituições.

Numa carta a Varro em c. 20 de Abril de 46 a.C., Cí- cero criou a sua estratégia sob a ditadura de César. Con- tudo, ele foi completamente surpreendido pela acção dos

2.6

Oposição a Marco António, e morte

5

2.6 Oposição a Marco António, e morte 5 Caio Júlio César. Liberatores , que assassinaram César

Caio Júlio César.

Liberatores, que assassinaram César nos Idos de Março

em 44 a.C Cícero não tinha sido incluído na conspi- ração, apesar dos conspiradores terem a certeza de que ele simpatizava com eles. Marco Júnio Bruto chamou

o nome de Cícero e pediu-lhe que restaurasse a Repú-

blica quando levantou o punhal ensaguentado depois do assassinato. [34] Numa carta escrita em Fevereiro de 43 a.C. a Trebónio, um dos conspiradores, Cícero disse que desejava ter sido convidado para “aquele glorioso ban- quete nos Idos de Março"! [35] Cícero tornou-se num lí-

der popular durante o período de instabilidade depois do assassínio. Ele não tinha nenhum respeito por Marco An- tónio, que queria vingar-se dos assassinos de César. Em troca da amnistia dos assassinos, Cícero fez com que o Senado concordasse em não considerar César um tirano,

o que permitiu aos Cesarianos terem suporto legal.

2.6 Oposição a Marco António, e morte

Cícero e Marco António transforaram-se nos dois ho- mens mais importantes de Roma: Cícero era o porta-voz do Senado, e Marco António o cônsul, líder da facção

Cesariana, e executor oficial do testamento de César. Os dois homens nunca tinham estado em termos amigáveis e

a relação deles piorou com a opinião de Cícero que Marco

António estava a tomar liberdades com a sua interpreta- ção dos desejos e intenções de César. Quando Otaviano,

o herdeiro e filho adoptivo de César, chegou a Itália em

Abril, Cícero formou um plano para o usar contra Marco António. Em Setembro, Cícero começou a atacar Marco António numa série de discursos chamadas Filípicas, em honra das denunciações Demóstenes contra Filipe II da Macedónia. Elogiando Otaviano, ele disse que o jovem apenas queria honra e não iria fazer o mesmo erro que o seu pai adoptivo. Durante este tempo, a popularidade de Cícero não tinha par. [36]

Cícero apoiou Décimo Júnio Bruto Albino como gover- nador da Gália Cisalpina e disse ao Senado para declarar Marco António como um inimigo do estado. O discurso de Lúcio Pisão, o sogro de César, atrasou isto, mas Marco António foi considerado um inimigo do estado quando se recusou a acabar o cerco de Mutina, que estava nas mãos de Décimo Bruto. O plano de Cícero, contudo, falhou. Marco António e Otaviano reconciliaram-se e tornaram- se aliados, juntamente com Lépido, formando assim o Segundo Triunvirato depois das batalhas sucessivas de Fórum dos Galos (Forum Gallorum) e Mutina. O Triun- virato começou a usar proscrições para se livrarem dos seus inimigos e rivais potenciais imediatamente depois de legislarem a aliança e a legalizarem por um termo de cinco anos com imperium consular. Cícero e todos os seus contactos e apoiantes estavam entre aqueles considerados inimigos do estado e, segundo Plutarco, Otaviano discu- tiu durante dois dias contra colocar Cícero na lista. [37]

Cícero foi procurado viciosamente. Era visto com sim- patia por grande parte do público e muitas pessoas recusaram-se a reportá-lo. Foi apanhado no dia 7 de De- zembro de 43 a.C. ao deixar a sua villa em Fórmias numa liteira para ir para a costa, onde ele esperava embarcar num barco a caminho da Macedónia. [38] Quando os as- sassinos, Herénio (um centurião) e Popílio (um tribuno), chegaram, os escravos de Cícero disseram que não o ti- nham visto, mas reportado por Filólogo, um liberto do seu irmão Quinto Cícero. [38]

Depois de ser descoberto, diz-se que as últimas palavras de Cícero foram: “Não há nada correcto no que estás a fazer, soldado, mas tenta matar-me correctamente.” Fez

uma vénia aos seus captores, inclinando a cabeça para fora da liteira num gesto gladiador para facilitar a tarefa. Ao mostrar o seu pescoço e garganta aos soldados, estava

a indicar que não iria resistir. Segundo Plutarco, Heré-

nio matou-o primeiro, e depois cortou-lhe a cabeça. Se- guindo ordens de Marco António, as suas mãos, que ti- nham escrito as Filípicas, também foram cortadas e pre- gadas, juntamente com a sua cabeça, na Rostra no Fórum Romano de acordo com a tradição de Mário e Sula, que tinham feito o mesmo às cabeças dos seus inimigos. Cí- cero foi a única vítima das proscrições a ter este trata- mento. Segundo Dião Cássio [39] (numa história por vezes

6

4 REFERÊNCIAS

6 4 REFERÊNCIAS Cícero com cerca de 60 anos, busto de mármore. atribuída a Plutarco por

Cícero com cerca de 60 anos, busto de mármore.

atribuída a Plutarco por engano), a esposa de Marco An- tónio, Fúlvia, pegou na cabeça de Cícero, arrancou-lhe a língua, e trespassou-a com o seu gancho de cabelo numa vingança final contra o seu poder de discursar. [40]

O filho de Cícero, Marco, vingou a morte do seu pai

quando foi cônsul em 30 a.C., ao anunciar a derrota naval

de Marco António em Áccio em 31 a.C. contra Otaviano

e Agripa. Na mesma reunião, o Senado votou para proi-

bir os futuros descendentes de Antônio de usarem o nome

Marco. Otaviano iria mais tarde encontrar um dos seus netos a ler um livro escrito por Cícero. O rapaz tentou es- conder o livro, com medo da reacção do avô. Otaviano, agora Augusto, tirou-lhe o livro, leu parte, e devolveu- lho, dizendo: “Ele era um homem sábio, cara criança,

um homem sábio que amava a sua pátria.” [41]

3 Legado

Cícero era um escritor talentoso e enérgico, com um in- teresse numa grande variedade de tópicos de acordo as tradições filosóficas e helenísticas nas quais ele tinha sido treinado. A qualidade e acessibilidade de textos dele fa- voreceram grande distribuição e inclusão nos currículos escolares. Os seus trabalhos estão entre os mais influ- enciais na cultura Europeia, e ainda hoje constituem um dos corpos mais importantes de material primário para a escrita e revisão da história romana.

Depois da guerra civil, Cícero sabia que o fim da Repú- blica esta perto. A guerra tinha destruído a República e a vitória de César tinha sido absoluta. O assassinato de César não restituiu a República, apesar de mais ata- ques à liberdade pelo “próprio capanga de César, Marco António.” A sua morte apenas sublinhou a estabilidade do governo de um único homem, visto que foi seguida pelo caos e mais guerras civis entre os assassinos de Cé- sar, Bruto e Cássio, e finalmente entre os seus apoiantes, Marco António e Otaviano.

4 Referências

[1] Cornélio Nepo, Atticus 16, trans. John Selby Watson.

[2] Haskell, H.J.:"This was Cicero” (1964) p.296

[3] Castren and Pietilä-Castren: “Antiikin käsikirja” /"Hand- book of antiquity” (2000) p.237

[4] Rawson, E.:"Cicero, a portrait” (1975) p.8

[5] Everitt, A.:"Cicero: The Life and Times of Rome’s Gre- atest Politician” (2001) p.35

[6] Rawson, E.: Cicero, a portrait (1975) p.5-6; Cicero, Ad Familiares 16.26.2 (Quintus to Cicero)

[7] Plutarco, Cicero 1.3–5

[8] Plutarco, Cicero 2.2

[9] Plutarco, Cicero 3.2

[10] Rawson, E.: “Cicero, a portrait” (1975) p.22

[11] Haskell, H.J.: “This was Cicero” (1940) p.83

[12] Rawson:"Cicero, a portrait” (1975) p.18

[13] Rawson, E.: “Cicero, a portrait” (1975) p.25

[14] Rawson, E.: Cicero p.225

[15] Haskell H.J.: This was Cicero, p.95

[16] Haskell, H.J.:"This was Cicero” (1964) p.249

[17] Cicero, Cartas a Ático, 12.14. Rawson, E.: Cicero p. 225

[18] Rawson, E.:Cicero p.226

[19] Cicero, Samtliga brev/Collected letters

[20] Haskell, H.J.: This was Cicero (1964) p.103- 104

[21] Paavo Castren & L. Pietilä-Castren: Antiikin käsi- kirja/Encyclopedia of the Ancient World

[22]

Peter Gay, The Enlightenment - The Rise of Modern Paga- nism, W.W. Norton & Company, 1995, p. 109

[23] Cicero, In Catilinam 3.2; Sallust, Bellum Catilinae 40-45; Plutarco, Cicero 18.4

[24] Rawson, E.: Cicero, 1984 106

[25] Haskell, H.J.: This was Cicero, 1964 200

7

[26] Haskell, H.J.: This was Cicero, 1964 p.201

[27] Plutarco, Cicero 32

[28] Haskell, H.J.: “This was Cicero” (1964) p.201

[29]

Cicero, Samtliga brev/Collected letters (in a Swedish trans- lation)

[30] Haskell. H.J.: This was Cicero, p.204

[31] Grant, M: “Cicero: Selected Works”, p67

[32] Everitt, Anthony: Cicero pp. 215.

[33] Plutarco, Cicero 38.1

[34] Cicero, Second Philippic Against Antony

[35] Cicero, Ad Familiares 10.28

[36] Appian, Civil Wars 4.19

[37] Plutarco, Cicero 46.3–5

[38] Haskell, H.J.: This was Cicero (1964) p.293

[39] Dião Cássio, Roman History 47.8.4

[40] Everitt, A.: Cicero, A turbulent life (2001)

[41] Plutarco, Cicero, 49.5

5 Bibliografia

Saylor, Steven. Sangue romano. Romance histórico sobre o quotidiano e o trabalho de Cícero, enquanto advogado, no princípio de sua carreira.

Caldwell, Taylor. Um pilar de ferro. 5.ed., Rio de Janeiro: Record, 2006. ISBN 85-01-01661-6

6 Ver também

Catilina - peça de Henrik Ibsen

7 Ligações externas

8

8 FONTES, CONTRIBUIDORES E LICENÇAS DE TEXTO E IMAGEM

8 Fontes, contribuidores e licenças de texto e imagem

8.1 Texto

Cícero Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%ADcero?oldid=43478649 Contribuidores: Paul Beppler~ptwiki, Muriel Gottrop, Ms- chlindwein, Rui Malheiro, E2mb0t, Juntas, Chico, LeonardoRob0t, Pedrassani, Alexg, Ziguratt, NTBot, RobotQuistnix, Rei-artur, Sturm, Clara C., Marcoavgdm, Cesarschirmer, Águia, YurikBot, Fernando S. Aldado, Gpvos, Bonás, Roberto Cruz, Gabbhh, Boni, Malafaya- Bot, Chlewbot, Servitiu, Jo Lorib, Andrew Dalby, Nemracc, Thijs!bot, Rei-bot, GRS73, Biologo32, Belanidia, Daimore, Kikadue~ptwiki, JAnDbot, Albmont, Bot-Schafter, EuTuga, TXiKiBoT, VolkovBot, SieBot, Francisco Leandro, YonaBot, Kaktus Kid, Hxhbot, Auréola, Maañón, PixelBot, RafaAzevedo, H. Winkler, BOTarate, Ruy Pugliesi, Perosa, SilvonenBot, Vitor Mazuco, Maurício I, Fadesga, Luckas- bot, LinkFA-Bot, Eurogirl, Lucia Bot, GoeBOThe, Vanthorn, Mppalermo, Salebot, ArthurBot, Swendt, Coltsfan, Xqbot, Fernandoe, Al- mabot, Darwinius, LucienBOT, RibotBOT, Ts42, Leonidas Metello, D'ohBot, RedBot, Omfabio, Joao4669, TobeBot, AstaBOTh15, Alch Bot, Felipemp93, Dinamik-bot, HVL, Capitão Pirata Bruxo, Multihistorian, Defender, EmausBot, Joao.pimentel.ferreira, JackieBot, Zéro- Bot, HRoestBot, Renato de carvalho ferreira, Jbribeiro1, ChuispastonBot, Stuckkey, WikitanvirBot, Antero de Quintal, DARIO SEVERI, M.utt, Bya97, Dexbot, Legobot, Dark-Y, Willamy Fernandes, Mary Eleanor de Normandy e Anónimo: 63

8.2 Imagens

Ficheiro:Cicero.PNG Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/41/Cicero.PNG Licença: Public domain Contribuido- res: Cicero aus Baumeister: Denkmäler des klassischen Altertums. 1885. Band I., Seite 396. Artista original: Visconti - Iconograph rom. pl. 12 N. 1 (Abb. 428) (Publisher K. A. Baumeister)

Ficheiro:CiceroBust.jpg Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/23/CiceroBust.jpg Licença: Public domain Contri- buidores: ? Artista original: ?

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Ficheiro:The_Young_Cicero_Reading.jpg Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4f/The_Young_Cicero_ Reading.jpg Licença: Public domain Contribuidores: Web Gallery of Art: <a href='http://www.wga.hu/art/f/foppa/y_cicero.jpg' data-x- rel='nofollow'><img alt='Inkscape.svg' src='https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6f/Inkscape.svg/20px-Inkscape. svg.png' width='20' height='20' srcset='https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6f/Inkscape.svg/30px-Inkscape.svg. png 1.5x, https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6f/Inkscape.svg/40px-Inkscape.svg.png 2x' data-file-width='60' data-file-height='60' /></a> Image <a href='http://www.wga.hu/html/f/foppa/y_cicero.html' data-x-rel='nofollow'><img alt='Information icon.svg' src='https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/35/Information_icon.svg/20px-Information_icon.svg.png' width='20' height='20' srcset='https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/35/Information_icon.svg/30px-Information_ icon.svg.png 1.5x, https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/35/Information_icon.svg/40px-Information_icon.svg.png 2x' data-file-width='620' data-file-height='620' /></a> Info about artwork Artista original: Vincenzo Foppa

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Ficheiro:Wikisource-logo.svg Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4c/Wikisource-logo.svg Licença: CC BY-SA 3.0 Contribuidores: Rei-artur Artista original: Nicholas Moreau

8.3 Licença