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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

Élida Lima

Cartas ao Max:

Limiar afetivo da obra de Max Martins

MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

SÃO PAULO

2012

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

Élida Lima

Cartas ao Max:

Limiar afetivo da obra de Max Martins

MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica - Núcleo de Estudos da Subjetividade, sob a orientação do Prof. Dr. Peter Pál Pelbart.

SÃO PAULO

2012

Banca Examinadora

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LIMA, Élida. Cartas ao Max: limiar afetivo da obra de Max Martins. São Paulo: Programa de Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica, PUC SP, 2012. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica. Núcleo de Estudos da Subjetividade. Orientador: Peter Pál Pelbart

RESUMO

Por meio de experiências com a escrita, cartas de amor e outros textos a autora se apropria da voz do poeta Max Martins para pensar temas como poesia, saber, memória, linguagem e subjetividade. O trabalho inventa dispositivos poéticos para operar com os poemas, tornando-se, ele próprio, um dispositivo de subjetivação. O texto acaba por problematizar algumas questões da crítica literária, ao propor uma crítica das intensidades. Uma seleção de poemas de Max Martins funciona também como uma introdução poético-amorosa ao autor: é um livro dentro do livro, uma leitura dupla, contaminada. Cartas ao Max atua naquele limiar entre a linguagem e aquele que fala. Este é um trabalho de escrita.

Palavras-chave: Max Martins, poesia, leitura, escrita, subjetividade.

LIMA, Élida. Letters to Max: Affective threshold in the work of Max Martins. São Paulo: Programa de Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica, PUC SP, 2012. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica. Núcleo de Estudos da Subjetividade. Orientador: Peter Pál Pelbart

ABSTRACT

Through experiments with writing, love letters and other writings the author appropriates the voice of the poet Max Martins to think about topics such as poetry, knowledge, memory, language and subjectivity. The work invents poetic devices to operate with the poems, becoming itself a device of subjectivity. The text turns out to discuss some questions of literary criticism by proposing a critical intensity. A selection of poems by Max Martins also serves as an poetic-loving introduction to the author: it is a book within the book, a double reading, a contaminated reading. Letters to Max operates at threshold in between the language and the one who speaks. This is a work of writing.

Keywords: Max Martins, poetry, reading, writing, subjectivity.

A Hakuin, 11

SUMÁRIO

Introdução

13

Carta I

17

Marahu, 27 Minigrama para Murilo Mendes, 28 Terrific threshold, 29 Jaculatório és, 33

Ayesha,34

Carta II

35

Ode de Anaiz Arcanjo de Laarcen ao seu poeta, 53 Isto por aquilo, 57 Où sont, Villon?, 58 Mar-ahu, 59 Copulêtera, 60 Abracadabra, 61

Carta III

63

M/M,68

Para sempre a terra, 70

A asa e a serpente, 72

A cabana, 74

Carta IV

75

Sim, faço, 77

Entrevista I

81

Wien, Westbahnhof, 85

Entrevista II

87

Conversa I

95

Conversa II

97

Conversa III

101

Autorização

103

Bilhete

111

Sou homem sem títulos,113

Convite

115

Do poeta em desespero à sua amada, 118 Minha arte, 119 As serpentes, as palavras, 120

Rosane me lança

121

Amor: a fera, 125 Um Campo de Ser, 126 Rasuras, 128

Carta V

131

Estava o Touro, 138 Saber, 140 Com a boca, 141 Solo duro, 142

Ter que

143

Um corpo, 146 Esta égua que pasta a geografia, 147 Os chamados do tigre, 148

Movimentos em Max Martins

149

Uma tela de Dina de Oliveira, 154 É cedo (ou tarde) para o poema, 156 Escrita, 157 (ascensão), 158

Carta ao Leitor

159

Para preservar certa exterioridade do poeta

161

Leituras de Max Martins: a universidade do poeta, 161

Bibliografia

167

Lista de imagens

165

Agradecimentos

177

Ficha técnica

181

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Sã o P a u l o

M a r ç o 2 0 1 2

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 5   A Ha k u i
 

A Ha k

u i n , 1 1

I n tr o d u ç ã o

13

C a r t a I

17

Ma ra h u , 2 7

Mi n i g ra m a p a ra Mu r i l o Me n d e s, 2 8

Te

r r i f i c t h r e s h o l d , 2 9

Ja

c u l a t ó r i o é s, 3 3

Aye s ha, 3 4

 

C a r t a I I

3 5

Od e d e An a i z Ar ca n j o d e L a a r c e n a o s e u p o e t a, 5 3

Is t o p o r a q u i l o, 5 7

O

ù s o n t, Vi l l o n ? , 5 8

Ma r - a h u , 5 9

 

C o p u l ê t e ra, 6 0

Ab ra ca d a b ra, 6 1

C a r t a I I I

63

M / M , 6 8

Pa ra s e m p r e a t e r ra, 7 0

A a s a e a s e r p e n t e, 7 2

A ca ba n a, 74

5

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C a r t a I V

 

7 5

Si m , fa ç o, 7 7

E n tr e v i st a I

8 1

 

Wi

e n , We s t ba h n h o f, 8 5

E n tr e v i st a I I

8 7

C o n ve rs a I

9 5

C o n ve r s a I I

9 7

C o n ve r s a I I I

1 0 1

A

u t o r i z a

ç ã o

1 0 3

B i l

h

e t e

111

 

S o u h o m e m s e m t í t u l o s, 1 1 3

C

o

n

vi te

115

 

D o p o e t a e m d e s e s p e r o à s u a a m a d a, 1 1 8

Mi

n ha a r t e, 1 1 9

As

s e r p e n t e s, a s p a l a v ra s, 1 2 0

R o s a n e m e l a n ça

1 2 1

 

Am o r : a f e ra, 1 25

Um C a m p o d e S e r, 1 2 6

R a s u ra s, 1 2 8

C a r t a V

 

1 3 1

E s t a v a o To u r o, 1 3 8

Sa b e r, 1 4 0

C o m a b o ca, 1 4 1

S o l o d u r o, 1 4 2

Te r q u e

 

1 4 3

Um c o r p o, 1 4 6

E s t a é g u a q u e p a s t a a g e o g ra f i a, 1 4 7

Os c ha m a d o s d o t i g r e, 1 4 8

6

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M o v i me n t o s e m M a x M a r t i n s Um a t e l a d e D i n a d e Ol i v e i ra, 1 5 4 É c e d o ( o u t a rd e ) p a ra o p o e m a, 1 5 6 E s c r i t a, 1 5 7 ( a s c e n s ã o ) , 1 5 8 C a r t a ao l ei t o r

P a r a p re s e r v ar c e rt a e x t e ri o r i d a d e d o p o et a L e i t u ra s d e Ma x Ma r t i n s : a u n i v e r s i d a d e d o p o e t a, 1 6 1 L i st a d e i ma g e n s

14 9

1 5 9 1 6 1

B i b l i o g

ra

f i a

1 6 5 1 6 7

A g r ad e

c i m e n t o s

1 7 7

F i ch a t éc n i c a

 

1 8 1

7

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Dedico este livro a todos os professores, em especial à minha mãe.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 13 O texto terá início com uma

O texto terá início com uma ênclise: ajude-me, sem você n ã o h á n a d a q u e p o s s a s e r f e i t o , n ã o h á n a d a q u e p o s s a s e r restabelecido, use aquela sua habilidade, prender a respiração debaixo d’água e, lá pelas tantas O poema nasce da solidão do poeta. É ele todo nu.

À s v e z e s , a m i n h a v o z p o d e l e m b r a r a d e u m a g a r o t a d e quatorze anos que conheceu um poeta. O fato é que a garota se apresenta logo nas primeiras páginas deste caderno. Prepararei os olhos do leitor assim como os de Hermeto, “uma vista que d a n ç a , u m a f a z a s s i m e a o u t r a f a z a s s i m , q u e v i s t a r i c a ! ” 1

1 Hermeto Pascoal. Em entrevista no documentário Janela da alma.

1 3

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E teremos então o verbo Ouver. De modo que, ao andar de

ônibus, o leitor enxergue coisas. Recortando, inferindo. Ciranda, labuta. Escrever com palavras suspensas, por suspensas quero dizer, com palavras que não são minhas. Pilão, atabaque, ludo. Sim, existe, existe um homem, por homem quero dizer, um poeta, com quem escreveremos ao lado.

Revelarei minhas pretensões: — Pretendo capturar o poeta pela cauda.

C o n t a r e i d a t o n t u r a q u e m e a c o m p a n h a d e s d e 1 9 9 8 .

“ A g a m a ç ã o é u m a h i p n o s e : e s t o u f a s c i n a d o p o r u m a i m a g e m :

s o u s a c u d i d o , e l e t r i z a d o , m u d a d o , r e v i r a d o , t o r p e d e a d o ” 2 .

D i r e i q u e o c o p u l e i - o / c o p i e i - o à m ã o . A g i n d o s o b r e m i m o s

e s p a ç o s e m b r a n c o , a s m a i ú s c u l a s , a s v í r g u l a s ; e s t r a n h a n d o ,

m u i t o , o s i l ê n c i o i n v u l n e r á v e l d e d o i s i n s e t o s c o p u l a n d o .

A l í n g u a i n t e i r a c o l o c a n d o - s e e m m o v i m e n t o . D i r e i d a

e n t r e v i s t a , c â m e r a e m i c r o f o n e .

E

n ã o d e v o e s q u e c e r d a s i n t r i c a d a s q u e s t õ e s d a e s c r i t u r a .

C

o m o u m t e x t o d i z o q u e d i z ? C o m o u m t e x t o f a z o q u e e l e

f a z ? O t e x t o / t e i a d e a r e i a / é o q u e s e v ê : s e f a z / e s e d i z .

C o m o M a x f a z o q u e e l e d i z ? E s c r e v e r n o p o n t o q u e s e p a r a a

r e d a ç ã o d a e s c r i t a . “ S ó s e i c o m o s e e s c r e v e e s c r e v e n d o . F o r a d a s h o r a s e m q u e e s c r e v o n ã o s e i , a b s o l u t a m e n t e , e s c r e v e r. ” 3

C o m o f a z C l a r i c e ?

2 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso.

3 Clarice Lispector. A descoberta do mundo.

1 4

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Não apenas desaparecer, mas desaparecer no meio das coisas.

Não para admirá-las, mas para infiltrar-se nelas. Falar sobre

a

fabricação do inesperado. Algo que sai do limite da página

e

inclui o mundo.

Max Martins: O poema pode ser um objeto fechado e a alegria do leitor, o prazer, eu acho que é abri-lo.

Fazer do poema objeto de intrusão por todos os lados. Max sempre repetindo: tu, tu, tu.

1 5

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 17 D e s m o r

D

e s m o r o ne - m e , M a x , n e s t e m om e nt o e m q u e s e i de m ai s .

D

e s m o r o ne - m e s e mp r e c o m o d a p r i m e ir a v e z . M i n ha s m ão s

n

a c a n e t a n a q u e l a b i b l i o t ec a f ech a d a e e u n ã o e n t e n d e n do ,

n

ão e n t e n de n d o . C o m o f oi q u e e u e s c o l h i v o c ê , e n t r e t o d o s

o

s o u t r os p oe t a s ? S e u n o m e , q u e M m e c h a m o u ? N e s t a h o ra

s

e i q u e n ã o s o u m i n h a a m e m ó r i a . Po r q u ê ? So u t o d a v o c ê ,

m a s j á n ã o l e m b r o q u a s e n a d a d o n os s o p r i me i r o e n c o n t r o .

D e n t r e e s s a s b r e v e s l e m b r a n ç as , o q u e re a l m e n t e d es e j o t e

d

iz e r ? C o n s i g o d i z e r a pe n a s i s s o ? S e p a ra c h e g a r m a i s p e rt o

d

e t i n ão p o d e h a v e r c o me ç o , me i o e f i m. S e v i v e r p a r a m i m

é

t e p e n s a r, f o r ç o s a m e n t e , f o r ç os a m en t e , ei s a q ue s t ã o . “Q ue

o u t r os f or m u l e m q ue st õ e s , / e u nã o f o r m u l o n enh u m a - eu

1 7

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f or m u l o / q u e st õ e s i rr e s p o n d í v e i s :

4
4

Te t r a i r, t e t rai r, t r air q u e m e u a m o . Ap r es e n t a r o s v e r s o s d e o u t ro p o e t a c o m o s e a p r e s e n t as s e v e r s o s t e u s (m e us ) . Am a r - t e d e u m a f o rm a d i f e r e n t e d a q u e t od o s t e am a m . A m ar - t e c o m o se n i n g u é m t i v e s s e t e a m a do . C o n s i g o d i z e r n a da a l é m d i s s o ? Co n s i g o d i z e r a q u i l o q ue n ã o f a ça n e c e s s a r i am e n t e s en t i d o p a r a al g u é m ? Q ue r o d iz e r : D e s m o r on e -m e . P o r q u e t e m o s e r f ei t a d e s s a m a t é r i a : d e s m o r o na r. O D e s m o r o na da m e n t e q u e e u c o n h ec i q u a n d o li o s t eu s v e rs o s :

e n t e q u e e u c o n h ec i q

4 Walt Whitman. Folhas das folhas da relva.

1 8

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S s s s s s s s s s h h h h h h h h h ! ! Ai n d a nã o , a i n d a n ã o v e m . Pr e c i s o d e u m p ou c o m a i s d e p r e p a r a ç ã o a i n d a . R ev e l a r n o t o c a r - t e u m

j e i t o m e u q u e é d e t oc a r : p e l a s m a r g en s , g en t i lm e n t e , e m

e s p i ra l e p e l a s b o r d a s , a t é c h e g a r i nt e i ra a s e r a q ue l a l í n g u a q ue p e r s c r ut a e s e n t e a t u a b o c a .

E u m e r e c or d o d e s t es p r i m e ir o s v e r s o s c o mo d e t e r n a s c i d o:

i m a g i n o q u e r e c o rd o . R e c o rd o de s t e s v e r s o s c o mo r ec o r d o d a

m i n h a p r i m ei r a v e r t i g e m : c o m o t od a s a s v e z e s . R e c or d o d e t i

c o m o r e c o r d o s a l t ar s o z i n h a d e u m a v i ã o: s e m e s t a r l á.

R e c o r d o de um r is c o a b s u r d o d o i n e v i t á v e l .

Ta l v e z n e m t e n ha s id o e u m e s m a a c o p i a r e s t e s v e rs o s , é r a m o s t rês na b i b l i ot e c a a c op i a r. Q u a l s e r á o l i v r o q u e e u t i v e n a s m ão s a q ue l e d ia ? O p r ó p r io O R i s c o S u b s c r i t o , q u e h o u v e o c a s i õe s d e d iz e r m e u f av o ri t o ? Q u e s ó l i n a s c o l e t â n e a s ? F oi n o or i g i n a l , q u e n e m c o n h e ç o a c a p a ?

E l i m p a r a c u l p a ( d e n o v o , e s t a f o r m i g a ? ) d e n ã o l e mb r a r q u e

p e r g u n t a s eu t e f iz n a e n t re v i s t a e m q ue f u i n a s u a c a s a , a l i no c o n j un t o I A PI , n o b a i r r o d e Sã o Br a z , p e r t o d a c a s a da m i n h a a m ig a Ay c h a . Ay c h a ! Se r á q u e e s c o l h e m o s o s e u n o m e p a r a

a F e i r a d e L i t e r a t u r a p o r q u e a Ay c h a t e c o n h e c i a, j á t i n h a i d o n a t u a c a s a ? Ta l v e z s e j a is s o . F a l a r s ob r e v o c ê , f al a r s o b r e v o c ê . É t u d o o q u e q u e r o . D e s m o r on a - m e , m e f a z es q u e c e r.

E q u a n d o, a d o l e s c e n t e s a t e c op i a r, d e p a p e l p a u t a d o , t e us

v e r s o s s e m p á g i n a , t e u s v e rs o s v oa d o r es , t e u s v e r s o s d e s p e rt o s , de p a r a m o - no s c o m o t í t ul o d o p o e m a d o C am i n h o d e M a r a h u , e r e c o r r o a o Po e m a s R e un i d o s pa r a b u s c a r o

n o m e d o li v r o , m a s o t í t ul o d o po e m a nã o e s qu e ç o : Ay e s h a .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 20 Te r ia s f e

Te r ia s f e it o p a r a a n o s s a c o le g a e s t e po e m

Q ue v el h in h o s a f a d o ! I s s o e u le m b r o : e u , L aí s e L ar i s s a , a s c o p i a d o r a s n a b i b l i o t e c a f ec h a d a , a do l e s c e n t e s , m a l d o s a s , b o q u i a b er t a s . A m i m , o q u e i n c o m o d a v a n ã o e r a a “ p o r n o g r a f ia ” e m s i , m a s “ e s t a ma t ér i a” s er u s a da p a ra c o mp o r um p o e m a t ão b o n i t o , c h e i o d e li r is m o , o q u e e s p a n t a v a e r a v e r a

p o r n og r a f i a a v i z i n h a r p a la v r a s d e má x i m a e l e g â n c i a, e s t a s po r a qu e l a s .

“ po r n o g r á f i c o ” ?

a r p a la v r a s d e má x i m a

2 0

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H o j e eu po s s o , t e n t a n d o e nt e n d e r, d i z e r q u e v oc ê de s ge ni t a l i z a

a s p a l a v r as e as r e n o v a

i m ag e n s m a i s p o t e n t es de u m a f al a. Po s s o d i z e r q u e é , e nt ã o,

u m p oe t a s af a d o ! Em q u e o u t r o l u g a r a f a l a p o d e r á f ic ar e m

r i s t e s e nã o n es t e u n i v e r s o p ró p r i o d o po e m a? E q u a n t o u ma

f al a , e s t a p a l a v r a q u e t en t a r e p r e s e n t a r u m a ma t é ri a

e x t ra l i n g ü í s t ic a , ga n h a de f or ç a , d e p o i s t e t er i d o s e a v i z i n h a r

a f e n ô me n os d e o u t ros c a m p os ? D o e r ó t i c o . Do s i mp l e s p o d e r

d e s e a v i z i n h a r. “ Er o s ” é l i g a ç ã o. N ã o s ã o t o d a s a s p a l a v r a s u m f en ô m e n o er ó t i c o ? Na s u a p o e si a , s ã o .

Q u e a f a l a e m r i s t e é u m a d a s

N a q ue l a é p o c a , e u n ã o c o nh e c i a B ar t he s e m e a s s u s t e i c o m

a n o v i d a d e . Ma s q u e r o t e d i z e r q u e m e a s s u s t o a t é h o j e .

A p a l av r a p o d e s e r e r ó t ic a s e f o r i n e s p e ra d a , s u c u l e n t a p o r

s

u a n o v i d a d e ( e m c e r t os t ex t o s h á p a l a v ra s q u e b r i l h a m ,

s

ã o a p a r iç õ e s i n c on g r u e n t e s ) . Me n s a g e n s p o r n o g rá f i c a s v ê m

m o ld a r -s e e m f ras es t ã o pu r a s q u e p o d e r i a m s er t o ma da s

p o r e x e m p l o s g r a m a t ic a i s . ” 5

O

nd e e u e s t a v a ? Sim , a s p e r g u n t a s qu e l h e f i z n a en t r e v i s t a.

Q

ue n ã o l e m br o . N ã o l em br o . N ã o l e m b r o . L e m b r o a p en a s

d e u m a , t o la , t olí s s im a, p r a t i c a m e n t e d e s i n t e r e s s a nt e :

Ma x , v o c ê e s c r e v e a l áp i s o u a c a n e t a?

N

o d i a d a F e i ra d e L it er a t u r a , v oc ê f o i a t é o c o lé g io . Ve s t i a

a

bl u s a q u e e u m a n d e i f az e r, c o m o s d i z e r es q u e e u es c o l h i ,

u

m a f r as e s u a : O p o e m a na s c e d a s o l i d ã o d o p o e t a . É el e t o d o

n u . E e u n ã o l e m b r o d e s s e d i a .

5 Roland Barthes. O prazer do texto.

2 1

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Ta l v e z a t é v o c ê l e m b r e ma i s d o q ue e u , q u e v e r g on h a ! A f in a l , v o c ê u s a v a a q u e l a c am is e t a p r e t a D O P O ETA TO DO N U , o u p e l o m e n o s a us o u d u a s v e z e s , u m a , n a v i s i t a ao n o s s o c o l ég i o ( p u x a , t a l v e z v o c ê l e m b r e m e s mo ) , e a o u t r a na q u el e v í d eo so b r e v oc ê , o do c u m e n t ár i o O Ta o C a m i n h o .

Ma n d o a q u i e s t a s f o t o s , na v er d a d e , i m ag e n s c a p t u r a d a s d a s t el a s d o d o c u m e n t á ri o , v o c ê , n a r e d e , n o s e u q u ar t o s e m

ri o , v o c ê , n a r e d e , n
ri o , v o c ê , n a r e d e , n
ri o , v o c ê , n a r e d e , n

p a r e d e s ( s ó os l i v r o s ) , u s a n d o a c a mi s e t a q u e e u t e d ei . Q ue o n o s s o g r u p o t e de u . Be m , f ui eu q u e e s c o l h i a f r a s e . Ma s , b o m , t a lv e z e u e s t eja i n v e n t a n d o . C o m o p o s s o m e

l e m b r a r di s s o , s e e u n ã o l e m b ro de t a n t a s o u t r a s c o i s a s ?

P a r a c om p l e t a r, a n o s s a e nt re v is t a f o i g ra v a d a , a c â m er a e r a m i n h a, a f i t a e n t re g u e n o t r a ba l ho do c o l é g i o , e p l u f t ! D e s a p ar e c e u . C o m o e u p o s s o n ã o t e r f e i t o u m a c óp i a p a r a m i m ? C o m o a b i b l i o t e c a d o c ol é g i o n ã o é c a p a z d e l o c a l i z a r e s t a f i t a ?

Q u a n t o s an o s d u r a u m a f i t a a n a l ó g i c a ?

Q u a n t o s an o s d u r a a l e m b r a n ç a d e u m a s e n s a ç ã o ?

2 2

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M

a x , m e u a m a d o , v e m e v a i q u a n d o q u e r.

O

nt e m e u r e s p o n d i a u m a e s p é c i e d e “q u e s t i on á r i o ”

s o b r e v o c ê :

Há q u an t o t e m p o v o c ê e s t á c o n c e b e n do e s t e t r aba l h o c o m o M ax M a rt i n s ?

A pe r g u n t a n ã o er a “ D e s d e q u a n d o ” , m a s “H á q u a n t o t em p o ?” ,

q u a n d o ” , m a s “H á q u a
q u a n d o ” , m a s “H á q u a
q u a n d o ” , m a s “H á q u a

p or i s t o ex i g iu - m e f az e r u m a c o n t i n h a n o c ad er n o , u m a

s u b t ra ç ã o e nt re a m i n h a i da d e e a i da d e q u e e u t e c o nh e c i ,

e q u e a l e g r i a m e s u r g i u a o p od er re s p o nd e r c o m e x at i d ão :

1 3 a n o s .

E o qu e a m o t i v a a q u e r e r e s c r e v e r s o br e e s t e s p o em a s ?

E u t a t e a v a. S ã o , h á 1 3 a n o s , p e r g u nt a s s e m r e s po s t a .

Um c e r t o

e s t ra n h a m e n t o . U m a i n c o m pl et u d e .

Es t e po e t a é v i v o ?

To d a s a s c o i n c i d ê n c i a s qu e m e l e v a r a m a t é v o c ê de v e m s e r e s c r it a s , M ax .

S i m , e s t a m o s t ra m a n do e s t e a m o r h á 1 3 a n o s . M a s de p o i s da

2 3

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F

ei r a d e L i t e ra t u ra , e u n ã o p e n s e i ma i s t a n t o e m v o c ê , e u t i v e

o

u t ro s a m o r e s , a m o r e s m a i s s i m p l e s , v o c ê e nt e n d e ?

S

ó f om os n o s r e e n c o n t ra r, a q u e l e a s s o m b r o de n ó s , q u a n d o

ch e g u e i e m Sã o P a u lo , em 2 0 0 8 . N a m i n h a p r i m e i r a v i s i t a

à

L i v r a r i a C u l t u r a , e n c o n t re i u m l i v r o de p o e m a s

d o M ax

M

a rt i n s ! D a q ue l e p o e t a s o b r e o qu a l e u t i nh a f e i t o u m t r a b a l h o

a o s 1 4 a n o s . D e u m p a r a e n s e , n u m a l i v r a r i a e m S ã o Pa u l o .

Co m p r e i- o i m e d ia t a men t e . D e s t e d i a em d i a nt e, Ma x , v o c ê

a

n d o u c om i g o p o r o n d e eu a n d e i . Q u a nd o e u c a m i nh a v a ,

c

e g a , p a r a a Es c o l a Su p e r i o r d e P r op a g an d a e M ar k e t i n g ,

p

a r a a a u l a de E s t a t í s t ic a , e u l e v a v a v o c ê na m i n h a m o c h i l a .

E assim foi sendo, até que eu tive que abandonar a Propaganda

e o M a r k et i n g p a r a p o d e r f i c a r m a i s j u n t o d e v o c ê . P o r qu e e u só q u e r i a s a b e r d e a n d a r c o m v o c ê . P or q u e e u s ó f a l a v a d e

vo c ê . Po r q u e e u f u i r e l a n ç ad a n a qu el a e x p e ri ê n c i a e x c es s i v a ,

n a e n o r m i d a de d o s s e u s m i s t é ri o s.

Q

u e m o r t e é e s s a q ue n ã o af a s t a, m a s qu e r e a v i v a ?

Q

u e m a t é r i a é e s s a q u e p a s s a a e s t a r e m m i m ? Q ue br a ç o s

c á l id o s s ão e s s e s o n d e m e s in t o e n t r eg ue ? Su a l i n g u a g em .

E u p o s s o e s t ar c o m v o c ê e v o c ê e s t a r e m m i m p or q ue v o c ê

se d e i x o u t o r n ar l i n g u a g e m .

Su a l i n g u a g em q u e r l i g a r - s e a m i m . To c o - m e c o m e s t a s pa l a v r a s . M a x , e u t e a mo p o rq u e a s u a l i n g u a ge m m e e r o t i z a

(m e l i q u e f az ) ( m e e s c re v e - a m a) ( m e l a v r a d i z ) . F e r t i l i z a ç ã o n ã o

é l a v r a r, p a r a s e r no v o d e no v o ? A l i n g u ag e m s e n d o a s p i r a d a .

Ho j e , a n o t o t u a l í n g u a . H o j e q u e ro a pr e e n d e r t u a l í ng u a :

lá b i l , l a b i r í n t i m a , á l i b i , r i o , a i l h a , a p r a i a , a t ar d e , t e d is s o l v e ,

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m a r g e m , p e d r a , t emp lo , c i g a r r a , pa l av r a, n ev e s , Tu , v ês , t o c o ,

a t e i o , a b i s m o , n ã o , c i o , s o m , f ar p a d o s , ru i r, e u ( q u e m e e nt re t en h o in t e r d it a d o ) , n o m e , sê me n , p ê n i s , v e nt o , s o m br a, s e m , s o n ho , e s c r e v e , v u l v a , f olha s , ú m i do , m u s g o , ég u a , s i l ê n c io , l e i t o , c o l h e , f re s t a , o p o e t a , d o p oe t a , f l o r e s , t e m p o , f ac a , me t e , ! , u m p o e t a j a p o n ê s , s o n h o, r e al , s o u , n ã o s o u ,

o s s o , f o me , f al á r i c a , a f a l a em r i s t e , d e s m or o n a da m e n t e ,

m a n &w om a n , c o pu l êt e r a , M a x ! f us t i g ou - m e o f í g a do , g ê m e o ,

r a s u r a s , r as u ra s , p a r ên t es i s , c r i pt a , s e l v a, l â m i n a , l á b i l , ma i s l á b il, es c u r o , m u r o , d u r o , f a l a , p ed r as , s o m b r a s , n u v e n s , c o r p o s , am a n t e s , ga l o s , g o z o , p o ç o, f u l g ur a , rã , Ta r d e , f o go , p ú b is , p ó , p ó , o s o m d a á g u a , ( a s s i m n at u r a) , j a r d i m , e s c ri t a, f l e c h a s , e s p e l h o s , r e f l e x o s , v o a m, v o l t a m , p e l e , n e g an d o - n o s , c h ã o , c a rn e , p á s s a r o , é g u a a v el u d a d a, ju v e n t u d e , e i s - m e , t i g r e , a m a r e l o, a z u l , v e r me l h o , á v i d a, s a l a i v a , v e r s o, t err a , e s p u m a , p o r t a, m a r, m e u n o m e , n e m s i m , n e m nã o , p e ra u s , a m a r f a n h a d o , r i o c o t o c o , ( p o ç o ) , f i s s u r a , f er a , e n s i m e s ma d o , n ã o t e m c u r a , a r e i a , I s t o , f a l a z - f am i n t o, g r i t o , s i l ê n c i o , v í c i o , t úmu l o , ep i t á f i o, v ô o , p a l h a , c r u z , e s c r i t o , f aí s c a, t re v a , di re i t a , d is t â n c ia , ê x t a s e , l á b i o s , f ê me a , r e l v a , el e & e l a a n e l a m , h e r a ,

l á , c á , di s s o lV EN D O - SE , d i s f a r ça , Á f r i c a , p on t e , p o n t a , h í f en,

m i r a g e m, d i s s o lV E N D O - NO S , í m ã s , r u m o s , R i s c o , e t e i lu d i r,

s u r d o , ág r a f a , s o m o s , s e r, e s q u e c e r, c l a r o , e s c ur o , s am s a ra , e s t ri a s , g r a d e s , r is c o s , la v r a m , l a v r a d i z , e s c a l a v ra , v e ne n o s ,

s e r p e n t e , f rá g i l, á g i l , a r a m e, l u a , v e n t re , s o l , f a l a , d e s t i n o , s a l t o ,

( q u e d a n o a r ) , J a c u l a t ó r i o é s , t e u p aí s - p au l , l a n ç as , e s c r ev o -

f a l o , e u du m o s s o , le i t o , d e i t o , d i t o , l í q u i d o , e s c r e v o -a m o, e s c re v o - e s c r av o , v e r s o d e s e rt o , de s o u v id o , d e us - o u v i r, i n v e r t e ,

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d e s e s cr e v e , p a l a v r a s - p á s s ar os , f om e, r u b o r, a r, d e n t e s ,

d e s t ri n c a r, f oz , v o z , G AL A M A L G A , e M - M e , p á, l a v r a , e s c a l a v r a , o v o , v er, r es t o s , f er r o s , m ar é s , G r i t o , m ur a l h as , v e r s o- t r ap é z i o , c i c a t ri z e s , s a ng u e , t ro ç o d e s e r, e s e m - m e , t ou r o, p o e t a t od o n u , p a l a v r a n u a , la b a r e d a, á v i d a , bú f a l o , c a nt o c h o r a d o , l e i t o,

A pá n a s m i n ha s m ã o s v a z i a s , s ô o, s u l c o s , e s p e l h os , v e r ã o ,

ma io , v ê s , s o no , s i do , e m v ã o , E v e i o A m o r, e s t e Am az o n a s , f ib r a s , f e b r e s , m ê n s t r uo , r o c h a s , f eb r e , j u v e n t u d e , s a l t o , a s a s ,

p á s , ( a s p a s ) , c a n t o s , l a ç o s , d ad o s , t r a ç a s , i n f â n c i a , t ro ç o s , L á , ( s i l ê n ci o s ) , I lha s , I l h a s , C h u v a s e R a í z e s , Ad ã o , o D e m o , f edo r, a s t ro s , e m bo s c a d a , c o i c e , Su r d o s , A m o r : a f e r a , s e r p e n t e ,

o f a l o q u e c a r re g a s , e m e r r e s e u s , o p ú b i s , a s l u v a s d o p ol v o ,

o p u l o d o p e i x e , a l in h a s o l t a , t od o o ma r s e s o l t a , pe l a p ra i a , a l g a s j og a da s a o s c a os , a o s c ã e s ma r i n h o s , p e i x e , h o m e m ,

O e s t r a n h o, a r a m e , a f r as e , r o c h a , f er e , i nú t i l , a n o t a s , f e r v e - l he ,

s o m b r a s , s ei o s , j a rd i m , p i a ní s s i m o , o g a t o c i n z a , Aé r e a t a rd e , e m b a r a lh os , j a z em , a t ard e , H á um m a r, o m ê n s t r u o, um m ar

se d e n t o , A L AM A, v e r d e - m ar - z u l , M o rd e r! m o rd e r o h í me m

a d o c ic ad o , - f r ê m i t o de lâ m i n a , a r de r e m m e l , o a m o r, o n o m e,

ra í z es , l í n g ua , f o g o , s u o r, p ó , s i l ê n c i o s , d i a l e t o , l ei t o, C i d a d e

Ve l h a , A r o s a qu e b a t iz a a t oa l h a , A p á t r i a , o c a l o r, E e u m u d o.

P e s a d o e s t e p ar á g r a f o , n ã o? Tu d e s t e le v ez a a e s t a s p al a v r a s q u e , s e o u ç o n a b o c a d e o u t r a p es s o a , e s t r e me ç o . Po i s s e i q u e v ê m d e t i . S e i q u e e s t a p e s s o a t e c o n he c e . Q u e p r o v o u d o d e s f a zi m e n t o . D o d e s f a z i m e nt o n a t u a l í n g ua . E s s a s e t a nt a s

o u t ra s p a l a v r a s q u e h a b it a s t e t ã o m e l h o r q u e o s e n t i do d e l as

m e s ma s , q ue v e s t i s t e m el h o r d o q u e a r o u p a qu e le v a m p o r a í ,

q u e b a t a l h a s t e e s t e t e u u n i v e rs o p ró p r i o d e r e f a z i m en t o .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 27 A en t r e v

A en t r e v is t a do r a :

En t ã o e s c ol h a u m p o em a q ue v o c ê g o s t e pa r a n ós l e rm o s .

P e g u e i n as m ã o s a s i m p r e s s õ e s (f o t o c óp i a s ) do l i v r o .

E u c o nh e ç o a q u e la s e l e ç ã o a t é d e t r ás p a r a f r en t e , a s e l e ç ã o

é m i n h a , m a s n o f ol h e a r, t it u b e i o . G o s t o de t a n t o s , e t e n h o a p e n as um a c h a n c e , a p r i m e i r a, a m el h o r. Ai n d a a s s i m , n e n h um p oe m a s e i lu mi n a t ã o r á p i do qu a n t o a mi nh a a n s i ed ad e. A o f r e i a r s u t i l me n t e s o b r e u m a p á g i n a,

R e g i na pe d e :

A q ue l e , v o l t a n a q u e l e . D o t í t u l

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E s t e .

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O t í t ul o é :

Mi n i g r a ma p a ra M u r i l o M e n d e s

Q ue t an t o M é e s s e ? Q ue
Q
ue t an t o M é e s s e ? Q ue t a n t o s M s q u e re n do f ic a r j u nt o s ? !
O
q u e c a p t u r ou a a t e nç ã o d e R e g i n a f o i a f o r m a, a di s s o n â n c i a

e n t re o t í t u l o e o c o r p o d o p o e ma ( i s s o v o c ê go s t a d e f a z e r, h e i n ) . Vou t e c o n t a r, M a x , q u e a R e g i n a n ã o c on h e c i a a i n d a

n e n h u m p o e m a s e u . Eu f i q u ei c al a d a e d e i x e i o p o e ma f a z er

a

s u a p a r t e .

R

e g i n a ? É, e u p e d i p a r a e la m e aj u d a r a d es m or o na r e m v oc ê .

E

é e n g r aç a do , n a p r im e ir a t e n t a t i v a, b r i ga m o s . E s t a v a t u d o

a s s i m m e i o s u s pe n s o , a q u e l e f i o t en s i o n a do , e a q u el e p o e ma e r a a ú n i c a c h a n c e p a r a a n o s s a re c o n c i l i a ç ã o .

M a s d e c on c i l i a ç ã o v o c ê e n t e n d e , M a x .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 29 Q ue va l o r

Q ue va l o r e s e u e n c o n t ro n a s u a ( m i n h a ) p oe s i a ? Q ue v a l o re s

e u e n c o n t r o n a s u a p o e s i a q u e e u e n c o n t r o e m m i m t am b é m ?

Q ue va l o r e s n es t e e n c o nt r o ? E q u e a l eg r i a q u a nd o e l a ,

s ó a t ra v és d o M i n i g ra m a , c o meç a a a p o n t a r e m t i o s m e s m os v a l o re s q ue eu v e j o . M ai s u m po u c o , R e g i n a j á e s t a v a d i z e n d o :

Él i d a , po r q u e v o c ê n ão e s c r e v e s ó s o b r e es t e p o e m a ?

S i m , e l a f a l a v a d o M in i g r a m a p a r a Mu r i l o Me n d e s . À m e d i d a

q u e e u l i a o p o e m a , e l a i a c o p ia n d o , e s p i a n d o n o l i v r o v e r s o

a v er s o , o q ue o u v i a . El a t a m bé m e s t á l a n ç a d a n a e s t r a nh e z a :

Co m o , e m t a m a n h a b r e v i d a d e , t e m t a n t a c oi s a d e nt r o ?

E l a h a v i a s i d o a t i n g i d a , p o rq u e e s t áv a m o s no s e n t e n d e n d o.

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O

s e u p o e ma f ez a s p a z e s e n t r e n ó s . E t a m bé m t iv e mo s

m

o me n t o s d e g r a nd e e m o ç ã o c o m : M i n h a Ar t e , A u m p o e t a

ja p o n ê s , Do p o e t a em d e s e s p er o à s u a a ma d a , C o p u l ê t e r a

e S a b e r .

O M i n i g r a m a p a ra M u r i lo M e n d e s v e m , c om p l e t o , b a r r a p o r

b a r ra , t ra ç o po r t r a ç o e m a i ú s c u la s p o r m a i ú s c u l a s à m i n h a c a b e ç a . M u i t o m a i s f ác il d o q u e a c es s a r a m e mó r i a r e c e n t e .

Pu d e r a , e s t á p r e g a d o n a pa r e d e a o l a d o d a m i n h a c a m a .

Te m r e in v e nç ã o , el a d is s e . É u m t e r c e i r o ob j e t o e s t é t i c o .

O bj e t o q u e j á v e m d e o u t r o s , p o r q u e a p a l a v r a e m s i j á é u m

o b j e t o e s t é t i c o . É c o m o s e e l e d e n ov o n ã o s o u b e s s e o qu e

a p a l a v r a s i g n i f i c a .

A q u i , M ax , e u j á n ã o s e i m a i s q u e m d i s s e o qu ê . D i s s e mo s

j u n t as . Vo c ê p eg a a p a l a v r a e é c o m o s e v o c ê , s e o p r ó p r i o p o e m a , a f ic a s s e s a b e n d o d e m a n e i r a n ov a . C o m o s e a s p a l a v r a s m es m a s d o c o t i d i a n o f os s e m i n c o m p l e t as . E eu l e m b r e i d a q u e l a e n t r e v i s t a e m q u e d i z es : Eu p us e m f un c i o n a m e n t o a m i n h a p o e s i a s e m s ab e r m u i t o o q u e f az i a , e f u i a b a n d o n a n d o , n o d e c o r r e r d o t em p o , o s ad j e t i v o s , os

t em a s , o s e s t i l os .

P o r i s s o , Ma x , e u n em p e n s o e m v o c ê c om o u m d a q ue l e s q u e

f ic a t e n t a n d o f a z e r a l g o n o v o . P a r a v o c ê f o i i n e v i t á v e l . N ã o u m d a q u e l e s q ue r e f l e t e s o b r e l e v a r a l i n g ua ge m ad i a n t e. N ã o p a r a

m

o s t ra r q u e c o n h ec e a s c o i s a s (m u i t a g e n t e e s c r ev e p a r a

m

o s t ra r q u e c o n h ec e a s c o i s a s ) , m a s p a r a p ô r e m x e q u e o q u e

s e e r a , m ai s p a r a t r o p e ç a r n a li n gu a g em d o q u e p a r a l e v á - l a a d i a n t e . C om o u m h o m e m q ue t ro p e ç a e , a o s e e rg u e r, j á n ã o

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é m a i s o m e s m o . Se u e s t a d o d e e s p í ri t o s e a l t e r o u . E s t a d o d e e s p í ri t o é m u it a c o i s a , a c h o q u e p a r a n ó s é t u d o .

Q ue a l g o p o s s a s e r e v e l ar n o s m e us e s c r i t o s : u m r a m a l he t e

d e v a l o r es . C o m o o q u e a p a r e c e n ã o é a q u i l o q u e s e v e m

v e n d o . O d i a am a n h e c e a os p o u c o s , m a s qu a n do f o i q u e e le a c e n d e u ?

E c o m q u e f o r ç a c h e g a m e s t es ú l t i m o s v e r s o s : R ev e r d e c e

R

o m a .

C o m o a q ui l o q ue v e m v i n d o d e po i s d e u m a c a d ê n c i a d e

n eg o c ia ç ã o p a r - a - p a r ( u m a b a rr a o s u n e ) . R e v e r d e c e r n ã o é u ma i n f o r m a ç ão . N e n h u m a p a l av r a n a s u a p oe s i a p ar e c e s e r

i n f or m a ç ão . D e s i n f o rma r t od a s a s p al a v r a s . R e c o n c i l i á- l a s .

Vo c ê s e d á a o d i r e i t o d e p e n s a r d i f e re n t e d e s i m es m o .

D e s er s in c e r o . Ba r r a s , t r a ç o s , e s p a ç o s , n a d a d i s t o é u m a

a ç ã o p u r a m e n t e t éc n i c a , m as é a n t e s : o i n e v i t á v el , m a s an t e s :

c o n c i li a ç ão . Er a o Po u n d q u e d i z ia : “ A t é c ni c a é o t e s t e d a

s

i n c e ri d ad e” 6 .

É c o m o s e v o c ê s e c o lo c a s s e n o m es m o n í v e l d a s p al a v r a s .

Vo c ê s o f re s s e o m e s mo q u e e l as . E dá t a mb é m a o l e i t or

a c h a n c e d e n ã o s e r m ai s o m e s m o . Q u e m v ê é j á a l g u é m

d if e r e n t e , p o r q u e o o l h o n ã o v ê a s i pr ó p r i o . Q u em , c o m o v o c ê , s e d á e s s e d ir ei t o a s s i m ?

El e n ão ac e it a v a m e s m o c o n h e c i me n t o p r o nt o .

Re g i na , d e i x a e u t e c o n t a r u m a p a s s a ge m d a v i d a d o M a x .

Q u a n d o o M a x M a r t i n s , o B e n e d i t o N u n e s , H a ro l d o Ma r a nh ã o ,

6 Ezra Pound. ABC da literatura.

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t od o s e s t av a m na f ai x a d o s 1 3 , 1 4 , 1 5 a n os , e l e s f un d a r a m

o q u e e r a a Ac a d e m i a d o s N o v o s , p a r a di s c u t ir s o b r e l i t e r a t u r a,

p o e s ia , t e o r i a l it e r á r i a . A c a d e m ia d o s N o v o s e r a j á um a re a ç ã o

à A c a de m i a t rad ic i o n a l .

Q u a n t o s a n o s ?

Pa r e c e q u e o Ma x t in h a 16 , o B e ne d i t o , 1 3 e o H a r o l d o , 1 5.

Q u e v i da r i c a , Él i d a !

A í e l e s s e r e u n i a m l á n a c a s a d o B e n e d i t o N u n e s , q u e

m o r a v a c o m a a v ó n u m d a q u e l e s c a s a r õ e s d e B e l é m ,

d a é p o c a d a B e l l e É p o q u e . A í , i m a g i n a , d i z - q u e e r a a q u e l a s a l a i m e n s a , a q u e l a s c a d e i r a s i m e n s a s , t o d a s n a m a c h e t a r i a , d a n d o a q u e l e a

So l e ne .

Isso. E então, durante uma dessas reuniões, o Max se

levantou, bateu na mesa e bradou: “Morra a Academia!”,

e saiu da sala.

Me n t i r a .

Juro. Saiu e foi sentar-se num banco na frente da casa do Benedito para esperar os amigos saírem para tomar uma cerveja.

M a x , e u n ã o s ei s e v o c ê c h e g o u a b a t e r n a m e s a , m a s f o i

a s s i m q u e e u n ar r e i p a r a e l a , t a m b é m n e m s e i s e e ra c e r v e j a

o u r e f r ig e r a n t e qu e t om a v a m , t a m b é m n ã o e s t ou a q u i p a ra s e r

m o r a l i s t a , ma s e u c o n t e i d o je i t o q u e eu i m a g i n o .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 35 Max, sinto-me inteira de coisas deixadas

Max, sinto-me inteira de coisas deixadas pela metade. De linhas interrompidas por outras linhas, pontes, pontas, arames, álibis de fuga. Inteira de coisas que não desejam publicação, titulação, notícia. Você está por toda parte, como eu poderia falar sobre este ou aquele tema específico, sobre este ou aquele poemas, se todos os poemas estão habitados por todos os poemas, habitações-desvios que são borrões, as manchas dos dedos, tudo o que é extremamente envolvente? Extremamente envolvente é cair em palavras. E cair é algo que não se conclui nunca. Hoje Flaubert falou comigo, acho que pela primeira vez:

“A estupidez consiste em querer concluir” 7 .

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“Cair em palavras para justamente fugir do palavrório” 8 .

Ana Paula quer o Mar, eu quero o Max.

“Secretos para quem a não ser eu mesma?”

R e t or n o s d e o u t u b r o , r o c h a s d o p a s s a d o , t e s u r a s , u m a

t ran s g re s s ão do t em p o . Vi a g e n s s e c r e t as . Tu d o i s s o é An a

Pa u l a . Sa b e d o q u e e l a f al a , M a x ? D e l e m b ra r e e s q u ec e r, e s q u e c e r e l e mb r a r, s e r a n ã o s e r. E l a f al a d o m ar. E v o c ê

m e rg u l ho u t a n t o n e s t e m a r, M a x , p e s a ro s o e b o q ui a b e r t o .

É d e e nc a n t o e s t a j o r n a d a .

Ontem vi Augusto de Campos, ele falava numa palestra 9 , aos 80 anos, coisa raríssima dele fazer. Augusto contou que só foi usar um “você”, vinte anos depois do que chamou da “fase ortodoxa da poesia concreta”, disse ainda, “vejam a radicalidade”. Falou em arquitetura, em modernismo e pós-modernismo, em pós-guerra e no desejo que tinham, Augusto, Haroldo e Décio, de fazer “algo novo e diferente” neste cenário onde estava “tudo meio abandonado”.

Sabe aquele encarte que saiu no Diário do Pará, logo depois que você partiu à marte?

no Diário do Pará, logo depois que você partiu à marte? 7 Gustave Flaubert. Correspondance. 8

7 Gustave Flaubert. Correspondance.

8 Ana Paula de Sant’ana. O mar das intensidades e a potência do pescador.

9 Palestra na 6ª edição da Balada Literária em 16 de novembro de 2011.

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PEDADILANOSRES HACIRÓTSIS o título do encarte, abaixo, a sua foto, rosto e mãos naquele fundo preto. Foi até bom, porque eu descobri algo sobre um jeito que eu não gosto de te ver retratado. Estas cartas, acho, são para olhar para você de um jeito diferente. Só deixar claro: nada contra a foto. Aliás, para mim, as duas fotos, as imagens dos cadernos (BUSCO RESPOSTA, JUVENTUDE, BRINQUEDO, PRADO, PODADOR, ACOLHIMENTO, POESIA, REMONTE) e o Copulêtera (duplicado, a legenda errada) são as coisas às quais o meu amor não se opõe nesse encarte 10 .

às quais o meu amor não se opõe nesse encarte 1 0 . 1 0 Encarte
às quais o meu amor não se opõe nesse encarte 1 0 . 1 0 Encarte

10 Encarte Personalidades Históricas, n. 27: Max Martins. O Diário do Pará em 21 de janeiro de 2010.

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Não foi por um impulso vital que você iniciou seus versos, amor, foi “contra a poesia moderna”. Entre eu e você, posso dizer tudo. Ter sido atingida pelos seus poemas não é da conta de ninguém. Mas conheci Rosane e para mim, para antes de mim, ela disse:

“Um corpo aspirador de intensidades, que não recepciona tudo não, mas o que com ele é capaz de compor simpatias: engulo isso/ não engulo aquilo de jeito nenhum.” 11

Pois eu não engulo de jeito nenhum:

“Um dos maiores autores de todos os tempos no Pará” “O maior nome da poesia paraense no século XX” “Obra sofre do mal do ineditismo”

Posso dizer que me aborrece te ver retratado nestes lugares. Sofrendo de um mal. “Acontece de felicitarem um escritor, mas ele bem sabe que está longe de ter atingido o limite que não pára de furtar-se” 12 , te busco em Deleuze. Eu gostaria de te buscar em outros lugares. Procurar não saber o que és, ou quem és, mas

lugares. Procurar não saber o que és, ou quem és, mas Que alegria encontrar essas ressonâncias.

Que alegria encontrar essas ressonâncias. Max, você não é do século XX, não é dos firmamentos, não vem de um paideuma de grandes nomes (seu nome tão mínimo) e, até dói-me dizer, nem do Pará você é. Porque lugar de poesia é numa calçada.

11 Rosane Preciosa. Escrever/balbuciar, In Cadernos de subjetividade, ano 7, v. 12.

12 Gilles Deleuze. A literatura e a vida, In Crítica e clínica.

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É saindo do livro. É sempre inacabada. O Otávio Paz, se não me

engano fala inclusive de que a arte vai chegar a ser como uma festa. Não foi esta a sua resposta para a pergunta “Qual a forma social da poesia dentro da época conturbada que se vive13 ?

Lugar de poesia é nas ruínas. O que é uma festa senão uma

profusão de ruínas? Pessoas, copos, corpos, caos por todos os lados (se a festa for boa, lógico), é capaz de entrar um cachorro

e ninguém notar. E que festas você promovia nas folhas em

branco para que as palavras chegassem, fossem recepcionadas, pegassem uma bebida, começassem a se soltar e, desse jeito:

sem ninguém nem ver, começam a dançar juntas, mais um pouco beijam-se na boca, algumas até tiram a roupa ou a trocam com

outras palavras. “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde

o vestuário se entreabre?” 14

Palavras no emprego, subordinadas, a serviço de preencher envelopes, insurgem-se lentamente e é necessário que, aos poucos, recusem-se idênticas a si mesmas, puxem um cachimbo

e

um livro da estante. E não é gratuitamente que elas participam,

é

com muito afinco.

E

você tinha sua lista de convidadas, algumas sempre presentes,

outras ocasionais, algumas bem diferentes entre si, de mundos diferentes, tal que entre elas alguma coisa tivesse que acontecer, uma palavra esbarrar e dizer para a outra: Isto por aquilo:

O ronco do motor (numa garrafa) por aquilo que vibrava (dentro do peito). Nem isto sabia do ronco (ou já o havia engarrafado),

13 Entrevista Vale a Pena ser Poeta?, concedida a Lúcio Flávio Pinto, Edilberto, Guilherme Augusto e Ademir Silva. A Província do Pará, em 1972.

14 Roland Barthes. O prazer do texto.

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nem aquilo sabia que era capaz de vibrar (embora o sentisse

dentro do peito). Onde? Todas banhando-se neste ponche festivo

e saindo outras, desconhecidas de si mesmas, ébrias. O ébrio

é provido de desprovimento. E agora, fico em pé?

Eu li que você dizia que o seu ideal poético era fazer amor com as palavras, mas que depois mudou de opinião, talvez lembrou- se errado: quer que as palavras façam amor consigo mesmas. No todo do poema, quero fazer com que as palavras se toquem. As palavras querem se casar.

Max, eu li uma frase no Barthes de onde sempre imaginei que tiraste essa idéia das palavras fazerem amor, diz assim:

“O autor parece dizer-lhes: amo a vocês todos (palavras, giros, frases, adjetivos, rupturas): uma espécie de fransciscanismo obriga todas as palavras a se apresentarem, a tornarem a partir.” 15 O amor aos giros me leva de volta ao texto da Ana Paula, senhora do mar, o qual eu risquei o título “O mar das intensidades e a potência do pescador” e substituí por esta frase que estava no meio do texto:

e substituí por esta frase que estava no meio do texto: Ao fazê-lo meu, deve ser

Ao fazê-lo meu, deve ser este o título. Hipnotizado, você diz na entrevista do O Tao Caminho 16 :

15 Roland Barthes. O prazer do texto.

16 Videoarte de Danielle Fonseca, baseado na obra O caminho de Marahu.

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E u v o u a o l é u .

E u v ô o m o n t a d o n a m i n ha r ed e .

E u j á e s q ue c i o q ue s i g n i f i c a M a r a h u .

E o que você fala é um poema fortíssimo, pura cerimônia, real

perfeito. O ideal para você seria falar a prosa em poesia, prosear?

Em carta para Age, você diz: Palavras a esmo, referindo-se, diz Denyse 17 : a um dizer descomprometido do falar comum.

O movimento do barco fantasma. Ao léu. A esmo.

O b a r ã o é b r i o t a m b é m m e p a r e c e u m c a r a b e m d e s c o m p r o m e t i d o . Que compromisso pode ter um fantasma? Assombrar os mares, as ondas, as palavras. Desassombrá-las delas mesmas. Fazer nova sombra para elas. Esconder-se na sombra delas. No som. Segredar. O barão ébrio é um cara que se embriaga de segredos. Uma festa é cheia de segredos, passagens, sons invisíveis que abrem caminhos entre a ruidosa aparelhagem sonora. O poema é o movimento que acontece nas costas do poeta? Nas costas das próprias palavras?

E n q u a n t o o b a r ã o é b r i o c o c h i l a ( s e i n e b ri a ) , o r i t m o ( u m s o m s e m n om e ) d i l u i s u a f o r m a c o n h e c i da ( h o m e m , p o em a ) e p o d e

l i b e r a r ou t r a s v e l o c i d a d e s , a v e l o c i d ad e d e qu e m p e g a u m a

o nd a , q u e é d a o n d a , n ã o de q u e m a p e g a. M a r ol a é u ma o n d a p e q u en a , e s t a c a r t a e s t á c h e i a d e m a r o l a s , Ma x . Aq u e l a o n d a v e m d e no v o e e u n ã o p o s s o d e i x ar d e p e g á - l a :

17 Denyse Cantuária. A relação do poeta Max Martins com o poeta Age de Carvalho, In Asas da palavra, v.5 n.11.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 42 E a í , Au g

E a í , Au g us t o n e g o u o s c r í t i c o s qu e a p o n t a r a m n e l e

1 ) u m d om í n io d o v e r b a l , 2 ) o c o n s t r u t i v i s m o l í r i c o e 3 ) a p r es e n ç a d a s u b je t i v i da d e . N e g ou d i z e n d o : “ N o s s a p o es i a pode ter começado assim, mas até para nós sermos entendidos, n ó s t í nh a m o s qu e r a d i c a l i z ar. Er a u m a p o e s i a c o n t i d a , q u e s e p r e t en d i a d e p e d r a . ” E n a m e s m a h o ra e u r e s s o a v a : “ v i u , v i u

(c o mo s e t od o s t i v e s s e m v i s t o ) : c o m o o q u e o Max faz não é

concretismo”. Porque não é concretismo, Max.

faz não é concretismo”. Porque não é concretismo, Max. “É p r e c i s

“É p r e c i s o qu e s e a t r a v e s s e ” 1 8

q u e d e s en h a m c o m o c o n c r e t i s m o s o c a s io n a i s . M a s v e j o u m h o m e m q u e s e v ir a p a r a t o d o s o s l ad o s à p r o c ur a d o s o s s e g o

e s p i r it ua l . N ã o f o i e s t a a r e s p o s t a q u e v o c ê d e u a o Lú c i o F l áv i o q u a n d o l h e p e r g u n t o u s e a i n s e r çã o d o or i e n t a l i s m o pa r a v o c ê

? . E u n ã o v e j o e s t es p o e m a s

18 Ângela Maroja. Por que a poesia de Max Martins?, In Asas da palavra.

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e ra u m m o d i s m o , c o m o ac o n t e c e e m a l gu n s c a s o s ? E u m e

r e a l i z o n o p o e ma , p r o c u r o me f a z e r, b o t o o s e n t i d o d a m i nh a

v i d a n o p o e m a .

E s t es p oe m a s q u e d e s en h a m s ão e m f u n ç ã o d e s t e s e u f az e r p ró p r i o, d e s t a s u a b u s c a . De s t e Bu s c o re s p o s t a , d e s t e B u s c o r e s p os t a . Um a a r t e s i n c e r a me n t e x a m â ni c a , de e s t a r à c a t a d e c o i s a s q u e p o s s a m r e v i g o r á - lo . M a i s do q u e b u s c ar r es p o s t a , e u v e j o a l g u é m p a r a q u e m é i m p o r t an t e :

v e j o a l g u é m p a r a q u

Vi v e r o r e v é s . E m e v e jo n i s t o .

C o p ul ê t e r a n ã o é u m p o e m a de p e d r a , é u m d e r r a m a m e n t o t ot a l . É b u s c a r p a ra b u s c a r. U m C a m p o d e Se r. E s s e d e r r a m a m en t o e n x u t o , e s s e d e r r a m a m e n t o e n i g m át i c o , u m d es m o r o n a m e n t o d i á f a n o . E s t a p a l a v r a i n c r í v e l d e B o r g e s 1 9 . C o m Bor g e s d e s c o b r i : d i á f a n o é ma i s d o qu e t ra n s p a r e n t e . Di á f a n o , aq u i l o q ue , p o r s e r c om p a c t o , d á p as s a g e m à l uz . E s t a p a l a v r a i n c r í v e l q u e é o Bo r g e s i n t ei r o .

19 Jorge Luís Borges. O jardim das veredas que se bifurcam, In Ficções.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 44 Q ua n d o e

Q ua n d o e u m o s t r e i C o p ul ê t e ra p a ra a R e g i n a (e u t e f al e i q ue t iv e m o s m o m e n t o s d e g ra n d e e m oç ã o c o m a l g u n s p o e m a s ) , a p r im e i r a c oi s a q ue e l a e x c l a mo u f o i :

— Q ue e le g â n c i a !

P a ra e l a , E i n s t e i n é ( e s t e s i m , t al v e z ) o m a i o r n o m e d a po e s i a n o s é c u l o XX , c o m s e u p o e m a :

E = m c ²

É q u a s e n a d a . Trê s l e t r a s m í n i ma s . Trê s l e t r a s d i á f a n a s .

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E d i s s e ai n d a : b u r r o , q u e b u r r o . Voc ê c i n t i l a d e p o i s q u e l ê e s t e

p oe ma . Q ue b r e v i d a d e , q u e i m pl o s ã o no s c a u s a ! D e v e m e x e r c o m a s s u as c é l u l as . El a s e n t ram e m f e s t a, s e i lá . E q u a n t o

m a is c o n d en s a do , m a i o r a f es t a. S i m , p o r q u e o qu e n ã o é

v i s í v e l é e x t rem a m e n t e v iv o e e x pe c t a n t e . Aí o E i ns t e i n v em e

m e a c ab a c o m e s t a e s p e ra . O lh a, m e d á u m a r a i v a . U m p o em a

l i n d o d e s s e s e e l e v e m q u e r e r d i z e r q u e t em um s en t i do ? E q u e

o s e n t i d o é f az e r a b o m b a a t ôm i c a ?

M a x , e u t e n h o q u e t e c o n t a r d es t e s p o e m as a t r a v é s d o s o l h o s d o s o u t ro s . Po rq u e e u e s t o u d e s c o br i n d o q u e u m d o s t ai s v a l o re s q ue eu v e j o e m v o c ê é e s t e : t e a p r e s e n t a r a o u t ra p e s s o a . Q ue pr a z e r i me n s o é es t e , M a x : Te r u m a p e s s o a n o

m u n d o q u e c o m p r e e n d a o p o e m a ?

Te n h o j á d u a s . An a C a r o l i n a v i u , n os s e u s t ra ç o s e l e g an t es , t r aç o s i n d í g e na s , e a t in o u q u e o s í nd i os t am b ém s ã o o r i e nt a i s . A t é m o s t r o u- m e u m a s t ela s K a y a p ó s q u e c o m p r o u q u a n d o f o i a B e lé m : v e j a c o m o é pa r e c i d o , o s t r aç o s q u e s e e s p e l h am , a c o n t in u i d a d e d a s l in h a s .

j a c o m o é pa r e c i d o , o
j a c o m o é pa r e c i d o , o

4 5

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E l a q u e d i s s e i s s o . E u d i go : u m d e rr a ma m e n t o e u m a

e x p e r i ê n c i a v i v a d e i n d a g a ç ã o n o m a n e j o d e t r ê s p a l a v r a s :

m

a n , w o m a n, c o p u l ê t e r a . Pa l a v r a s s e m p á t r i a . R e p a t ri a d a s .

E

u ma l et r a : o M , q u e s e e s p e lh a e v i r a o o u t r o d e s i m e s m o .

To d o s o s e l e m e n t o s i m p l i c a d o s a l t e ra m - s e u m p ar a o o u t r o ,

n ã o p a ra o t el e j o r n a l .

— Q ua l é a s u a l i g a ç ã o c o m o m o t i v a ç ão e c om o pr e o c up a ç ão c o m o m e i o q u e v o c ê v i v e : c o m o s h om en s , c o m o t e m p o q u e v o c ê v iv e ?

Eu n ã o s o u f o r t e e m s o c i o l og i a , s o u m e i o a l i e n a do ni s s o . Nã o s o u s o c ió l og o , n ã o s o u p o l í t i c o . D e m a ne i r a q ue e u n ã o p r o c u r o um a s s u n t o , o a s s u n t o d o p o e m a s o u e u .

O a s s u nt o d o p oe m a é v o c ê . Su a o b s e s s ão p e l o M , p e l o M a x ,

p e l o n o m e , p el a m a r g e m d e d e s n o m e , p e l o r i o s e m c u r a . M a x , à s v e z es e u t e n h o q u e me o b r i g ar a f az e r u ma s p a us a s a o e s c r e v e r e s t a s c a r t a s , po r q u e s e n ão eu n ã o c o m o , n ã o d ur m o , ma l r e s p i r o . Ago r a m e s mo t i v e q u e p eg a r u m c a f é e f a z e r

a l o n g a m e n t o s p a r a s u p o r t a r “a e m p r e i t a d a d i á ri a d e u m c o r p o . ”

A e m p r ei t a d a é d a m u l h e r d o m a r. S e v o c ê s s e c o n h ec e s s e m ,

c e r t e z a q u e s e a p a i x o n a r ia m . Po r m i m? Voc ê s ó s e a p a i x o n o u d e p o i s d a s u a p a r t i d a ( v i a g e m ) .

O a s s u nt o d o p oe m a é v o c ê . Ag o ra v a i ? É u ma b u s c a e u m a

i n d a g a ç ã o s e m l i m i t e s . Po r q u e é mu i t o c o nf o r t á v e l t e r o p i n i õ es .

P

o r i s t o o a s s u n t o d o s s e u s p o e m a s é t an t a s v e z e s : o m a r.

D

e M ar- a hu :

4 6

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 47 “ D e no s f

“ D e no s f az e r m o s a o ” . Q u a n d o ou ç o e s t e v e r s o , le m br o -o ,

r e c it o - o ( m a i s i nc r í v e l : s e a lg u é m o c i t a ! ) , s i nt o q u e o am o m a i s d o q u e a t o d o s . É u m po e m a m u i t o m á g i c o. Te v e u m a c o i s a q u e o Au gu s t o f a lo u , c i t a nd o F e r n a n d o Pe s s o a , q u e e u ac h o q u e c a b e m u i t o n e s t e n o s s o b ar c o f a n t as m a : q u e c a d a u m d e n ó s t e m m u i t o p o u c o p a r a d i z e r. A e x p r e s s ã o d e c a d a u m

c a b e r i a e m do i s o u t r ê s p o em a s.

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D i z i s t o u m h om e m d e s d o b r a d o e m qu a t r o , c u j a o br a é

v a s t í s s i m a , e a i nd a p e r m an e c e d e s c o n h e c i d a . E n t ã o e u t e n ho

a s e n sa ç ã o d e q u e c a d a p o e m a s e u é c o mo s e v a l e s s e p or

t od o s , s u s p e i t o q u e é p o r q ue e l e s g u a r d a m , re t o m a m , c a p t ur am o p r ó p r i o i m p u l s o , a l g o í n t im o, n ã o d e p e r f e i ç ã o, m a s d e f a z er, d e s e a u t o- f a z e r.

A s s i m é c o m o M i ni g r a m a pa r a M u r i l o M e n d e s , a s s i m é o

C o p u l ê t e r a , a s s im é M a r-a h u , a s s i m é R a s u r a s , a s s i m é Mi n h a a r t e, a s s i m é D o p o e t a e m d e s e s p e r o à s u a a m a d a , a s s i m s ã o t an t o s . É p o r i s t o q u e R e g i n a p e rg u n t a “ p o r q u e v o c ê nã o t rab a l h a s ó c o m e s t e p o e m a ?”

P o r q u e e m t od os o s s e u s po e m as , n a m a i o ri a d e l e s

me s mo e m t o d o s ? Be m , e u n ã o m e r e l a c i o no t ã o i n t i m a me n t e

c o m t od o s os s e u s p o e m a s , q u e m s a b e u m d i a , n é, M a x ?

P o r q u e e m t od os e s s e s p o e m a s q u e e u m e r e l a c i o no

i n t i ma me n t e, q ue m e at in g em , q u e a t i ng e m a R e g i na , q u e a t i n g e m a A na Pa u l a , a t i n g e m - n o s , e d e po i s n o s at i n ge m d e n o v o ! P or q u ê ? Po r q u e e l e s e at i ng e . O p o e ma s e a t i n g e .

O p o e t a s e a t i n ge . Ab r e - s e a v á ri a s v o z e s . O v e r s o s e t o c a.

O u s e r ia

A

p a la v r a s e t oca . O p o e m a c o m o u m a f or ç a q u e a f e t a a s i

m

e s mo ( s e l a v r a d i z e n d o ) . A f a l a e nr i j e c e . E n o s r e a t i n g e :

R e v e r d e c e Ro m a .

R e v e r d e c e m o s . É m u i t o m a i s q u e u m o r n a m e n t o , u m

o

r n a m e n t o n ã o t e m c o n d i ç õ e s d e a t i n g i r. N ã o é u m f a ç o -

d

e s f a ç o , u m p o e m a q u e n ã o s o f r e n a d a , q u e n ã o s e

m

o d i f i c a p a r a s i m e s m o . É e x t r e m a m e n t e p e r m e á v e l .

D

e m o d o a l g u m é u m a g e n e r a l i d a d e , m a s é u m a

4 8

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“ s i n g u l a r i d a d e n o m a i s a l t o g r a u ” 2 0 .

C o l o q u e i s et as e n t r e as p a l a v r a s d a s ua e n t r e v is t a p a r a t e n t ar

c l a r e a r um “ m é t o d o ” s e u d e e s c r i t a , c a s o v o c ê t i v e s s e u m :

Po e m a

s c r i t a , c a s o v o c ê t

U m j o g o e x i s t e n c i a l

i v e s s e u m : Po e m a U m j

Sã o p er g u n t as q u e v ã o à s p a l a v r a s

a l Sã o p er g u n t as q u e v ã

N AT UR A L M E N T E

t as q u e v ã o à s p a l a v r

O p o em a d en tr o d a q u e l a s u a o r d em n at u r a l n ão m e b as t a

a q u e l a s u a o r d em n at u

N E C ES S I DAD E d e s a ir d a s p a ut a s u m n o v o r i t m o

É u m a l i ç ã o d e p o e s i a . L i c o m v o c ê e m B a r t h e s e s s a l i ç ã o :

“ É a l in g u a g e m q u e e n s i n a a d e f i n i ç ã o d o h o m e m, nã o

o c on t r ár i o ” 2 1 . É a s u a r e s p o s t a à p e r g u n t a d e L ú c i o F l á v i o , n a e nt r e v i s t a d e 1 9 7 2 :

20 Suely Rolnik, anotação de aula.

21 Roland Barthes. O rumor da língua.

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L ú c i o F lá v i o — Eu g o s t a r i a q u e v o c ê re l a t a s s e e m al g u m a s

m i n ú c i a s , t od o e s s e p r o c e s s o q ue l e v a o s uj e i t o d o p r i m e i r o

i n s t an t e e m q u e e l e é a t ra í d o p e l a p o e s i a p ar a f in s ut i l i t ár i o s

e o s i ns t a n t e s p o s t e r i o r e s e m q u e e l e é t e n t a d o a a b an d o n a r

a m a r g i n al i da d e e a d e r i r, a b a n d o n a n d o a p o e s i a a u m c a s o

s e c u n d á r i o . E o t e r c e ir o e s t á g i o , u m e s t á g i o de m a t u r id a de .

Q ue r ia qu e v o c ê c o n t a s s e c o m o p r o c ed e e m t er m o s p e s s o a i s

e s s e p r oc e s s o .

— H o j e e u e nc a r o o p o e ma c o m o u m j o g o , um j o go e x i s t e nc i a l , u m m e i o d e a ut o - c o n h e c i m e n t o . N a f as e e m q u e e u es t o u

f az e n d o a g o r a , o m e u p o e m a é c o m o p er g u n t a q u e e u f aç o à s p a l a v r a s . É a t é u m a e s p é c i e d e r e l i g i ã o , e m qu e n o a l t a r

m o r e st á o d i c i o ná r io . En t ã o , a s m in h a s p e r g un t a s nã o v ã o

a o s f iló s of o s e a n e n h u m a ig r e j a , q u e e u n ã o t en h o , v ão à s

p a l a v r a s q u e e u j o g o n o e s p a ç o e m br a n c o d o p ap e l .

E n a t u ra l m e n t e , o p o e m a , d e n t ro d a q u e l a s ua o r d e m n a t u r a l ,

n ã o m e b a s t a . E u s in t o n e c e s s i d a d e d e s a i r d a s p a u t a s u m

n o v o r it mo . E nt ã o v e n h o f az e n d o e x pe r i ê n c i a s c o m a s p a l a v ra s ri t m ad a s , in c l us i v e c o m o e s p a ç o e m b r an c o d o p a p el ,

o

e s p a ç o e m b r a n c o f a z p ar t e d o p o e m a , d á u m r i t m o t a m b é m .

Vi

br o n e s t a p a r t e e m q u e v o c ê di z : N AT U R A LM E N T E , o p o e m a

de n t ro d a q ue l a s u a o r d em n a t ur a l n ã o m e b a s t a. S u a a r t e é

de e s t a r an t es , es t a r d e n o v o c o m a s p al a v r a s . C om o é q u e

al g u é m v ê e o uv e d e m a i s ? É m ai s a l é m . I s t o p o r a q u i l o : o s o m

pe l a s e n s a ç ã o . A f or ja p e l o f og o s o . O r o n c o d o m o t o r ( n um a

ga r ra f a ) pe l a v i d a q u e v ib r a ( o c or a ç ão n a b o c a ). C o n s c i ê n c i a

e substância. O prazer do texto é irredutível a seu funcionamento

gr a m a t ic a l . E s t e s r e c o r t e s p a r a qu e a s v o z e s s e i n t e r f i ra m ,

5 0

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p ar a e u n ão f a l a r n o l u g a r d e la s , ma s c o m e l a s . U m a i n t e i r ez a f or j a d a à f ert il i z a ç ã o c o n s t a n t e . Co m Bl a n c h o t : “E s c re v i o u e s t o u e s c r i t o . Es c r e v e r a m - m e . ” 2 2

M a x , a p re s e n ç a d e c e r t o s e s c r i t o re s pa r a m i m e s t á m e n o s

l i g a d a a o c o n h e c i me n t o d a o b r a d o q u e à i n t e n s i d a de c om q u e c e r t a s f r a s e s g r u d a m . Eu s i mp l e s m e nt e m e a p a i x o n o p or e l a s .

O u e l a s p o r m i m , d ad a a p r o x im i d a d e c o m q u e m e pe r s e g u em .

I nt e n s i d a d e o u p r o x i m i d a d e . U m a d e l a s é es s a : “ A s i n t a x e

é o c o n j u n t o d e d es v i o s n e c e s sá r i o s c r i a do s a c a d a v e z p a r a

r e v e l a r a v id a n a s c o i s a s . ” 2 3 É d o D e l e u z e , m a s é c om o s e e u

me s ma f iz e s s e e s t a d e s c o b e r t a. S o u s u a le i t o r a e s u a p r ó pr i a a ut o r a p o r q u e h á e m m i m u m d e s e j o q u e a c h am a , u ma e s p e r a. P a re c e q u e s ã o e l a s qu e m e f a l a m , e n ão

o

c o n t r ár i o . C o m o v o c ê , v ã o e v ê m q u a n d o q ue r e m .

S

e a s u b j e t i v aç ã o n ã o e r a a r a d i c a l i d a de d o s c o n c r e t o s ,

M

a x , é a s u a . N ã o a s u b m i s s ã o a u m a f o r ma q ue s e re p e t e ,

a

ra d ic a l i s m os ( “ de v o l t a a o h ot e l a t é a m e i a n o i t e , h e i n ! ” ) ,

m

a s a o ri t m o v i t al d a s c o i s a s q u e s e f az e m : o p oe ma ,

o

h o m e m , o v e r s o , a le t r a. É a l g o p a r a o o u t r o d e s i m e s m o :

p a r a f a z - m e s e r . Pe l o e u d u m o s s o . A n u d e z t ot a l s e r á s em p r e

a d e q u e m s e v ê n o q u e v ê .

A d o r o a q u e la r e s p o s t a q u e v oc ê de u , c e r t a v e z , a u m

v e s t i b u l a n d o e n t u s i a s m a d o : “ S e n h o r, o s e u p oe m a t e m u m s i g n i f i c a d o ? ”

— N ã o . To d o p o e m a t e m u m s i g n i f i c a n t e . O s i g n i f i c a do n ã o é

22 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, In A parte do fogo.

23 Gilles Deleuze. A literatura e a vida, In Crítica e clínica.

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i m p o r t a n t e . O s i g n i f i c a n t e é q u e f a z u m p o e m a . O s i gn i f i c a n t e e s t á s e m p r e v i v o . O s i g n if i c a d o v a r ia .

O p o e m a nã o q u e r s e r e n t e n di d o . U m p o e m a q u e n ã o s o f r e , q u e n ã o m u da d e o pi n i ã o . Em v o c ê , no s s e us p o e m a s , h á u m a im pl i c a ç ã o m ú t u a n e c e s s á r i a , i n e v i t á v e l , o p o e ma d i z :

s ó o l e i t o r é r e a l . O s i g n i f i c a n t e e s t á s e m p r e v i v o . A f al a e m r i s t e é is s o : o s i g n i f i c a n t e s e m p re v i v o . Vo c ê di z :

S e e u s ou b es s e e x p l ic a r, e u e s c re v i a p r os a , n ã o e s c r e v i a

p

o e m a s .

Voc ê s e m pr e s e i n s u r g i u c o n t ra t u d o o q u e é s o l e n e . A m o q ua n d o Am a r í l i s t e d i z “ s u r p r e e n d e n t e m en t e i n s ól i t o” 2 4 . S e u m a O d e é u m “P o e m a l í r i c o o u é p i c o de o r i g e m g r e ga , d e t om e l e v a d o , d e s t i n a do a c e l e b r a r o s f e i t o s d e h e r ó i s ” 2 5 , o l h a o q ue v o c ê f a z c o m e s s a c e l e b r a ç ão d o eg o :

24 Amarílis Tupiassu. O estranho Max e as insubmissões da Academia dos Novos, In Asas da palavra. 25 Wikipédia.

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Tud o e m v o c ê é in u s i t a do . C o m B a r t h e s d i g o m a i s , t o d a

a

l i n g ua g em é r e d i s t r i b u í d a 2 6 . N ã o e s t e c o n s t r an g i m en t o d o s

“a

r t i f í c i os , f o r m a s , c o n c e i t o s , e s p é c i e s , f in s , e s s e m u n d o d e

ca s o s id ên t i c o s ” 2 7 , d iz o a m i go F r e de r i c o . P o e s i a é f an o p é i a ,

m e lo p é i a e l o g o p é i a 2 8 . Ta m b é m g o s t o d e p e n s a r c o m o P ou nd ,

ma s n ã o im a g i n o q u e o Po u n d v ai m e d ar t ud o o q u e a p o e s i a p o d e se r. Por i s s o q u e v o c ê q u e r i a i r p ar a o m at o ( e f o i p a r a

o m a r ) : p a ra n u n c a m a is ou v i r t e l e f o n e , n u n c a m a i s v er a n ú n c io s d a t el e v i s ã o .

u n c a m a i s v er a n ú n c io

“D e s c o nf i o d e v o c ê s b a b ac a s s a b i d o s ” . M a x , e s t a s c a r t a s s ã o um a c o n f i s s ã o d e q u e o m e u s a b e r t am b é m n ã o é s a t i s f a t ó r i o . Co n f e s s o q ue n o l u g a r d e s t a s , e u p od e r i a t e r e s c r i t o o u t r as co i s a s. C o nf e s s o q u e i n t er r o g o . É u m a i n e v i t a b i l i d a d e p a ra

26 Roland Barthes. O prazer do texto.

27 Friedrich Nietzsche citado por Roland Barthes. O prazer do texto.

28 Ezra Pound. ABC da literatura.

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q ue m c o n h ec e o e s t a d o p o é t i c o . E u t e nh o p a r t e c o m i s s o .

E n ã o é d e h o j e . A q u i v a i u m p o e m a d e C a t u l o , d e a n t es

d e C r i s t o :

m p o e m a d e C a t u l o , d

Não sei como Monteiro Lobato quer entrar aqui nesta nossa conversa (mentira, sei sim, foi Regina que me enviou), mas ele diz:

(mentira, sei sim, foi Regina que me enviou), mas ele diz: E t em v o

E

t em v o c ê d i z e n d o :

M

a s e u s em p r e t iv e u m a r a i v a e u m ó di o d a me t r if ic a ç ã o .

M

e r e b e l a v a c o n t r a a q u il o , a q u el a s i d é i a s m e i o be s t a s .

E

t e m e u , a q u i , d i z e n d o qu e é c o m es t a m i nh a r e b e l d i a qu e

e s c re v o. C o m m in h a in t e i re z a f or j a d a a c a v o a m o r. A i n da p r e c i s o d o Ba r t he s p a r a d i z e r : “ E s s a t ei mo s i a é o p r o t e s t o d o a m o r : d e b a i x o d o c o n c e r t o d e b o a s r a z õ e s p a r a a m a r d e

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o u t ro m od o , a m a r m e l ho r, a ma r se m e s t a r a p a i x o n a d o , u m a v o z d e t e im o s i a s e f a z o u v i r qu e d u r a u m p ou c o m ai s d e t em p o : é a v o z d o i n t r at á v e l a p ai x o n a d o . ” 2 9 É c o m me u a f l i t o si l ê n c i o . R u í d o s . C o m d i z e r a s c o i s a s d e s e m p r e, s e m pr e c o m o u t ra s c o is a s . C o m m i n h a t ei m o s ia . É c om o b a r c o a r e m o b l o q u e a do n a m a r g e m p e l o g el o . C o m e l e. N ã o c om o e l e.

30
30

29 Roland Barthes. Fragmentos de um Discurso Amoroso.

30 Adrienne Rich. Canção, In Leituras, poemas do inglês.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 63 M a x , a t

M a x , a t ua p r e s e nç a p r o p o r c i o n a d e s c o b e rt a s i n c r í v e i s

p ar a v á r i a s pe s s o a s .

Q ua r t a -f e i r a , n u m a p i z z a r i a , c o m a m i g os e t e us p o e m a s ,

c h e g a mo s a um a i d é i a q u e n o s a j u d a m ui t o :

— P o e m a n ã o é p a r a t ra n s mi t i r o s e u d i l e ma . É p a r a t r ab a l h a r

o

s e u d i l e m a .

O

n d e v o c ê ? Na p i z z a r i a . O n d e a d e s c o b e r t a ? E n t r e eu ,

v o c ê , o s s e u s e o s m e u s . I n d o c o m s u j ei t o s q ue e s t ã o s e p er g u n t a nd o p ar a o n d e v ã o . C o m s uj e it os e m t r â n s i t o .

C

o m s u j e it o s q u e a g o r a v ã o a o m a r – A o G r a n d e B a n h o .

P

e d r a s e h o m em , s u j e i t o s a o r i o . O m a r c o m s u a f o l i a d e

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re f ol h o s , d o i d i v i n o . Po r f im , r e s t a um r as t r o . C ar t a s , c a m i nh o s .

Q ue n a v e g a r, v o g a r.

— Él i d a , q u a n t o m a i s a g e n t e e s c u t a p o e s i a , m a i s a g e n t e e n t en d e o q u a nt o o M a x é e s p e c i a l .

E

l a t in ha a c a ba d o d e c h e g ar d e u m s a r a u d e p oe s i a .

E

e u e s t a v a aq u i , à m e s a c o n t i g o, e n s i m es m a d o s e , à me n o r

c o m p an h ia , u m v e r s o t e u r e c it o u p e l a m i n ha bo c a. N ã o er a m d o G ra n d e Ba n h o , e s s e s c h e g ar a m a g o r a, p o r u m a p á g i na a b e r t a . N ã o e r a m e s s e s , m a s p o d er i a m s e r. Po d er i a s er q u a lq u e r v e r s o t e u e e l a d i r i a i s so , M a x ! F al a m a t u a l í n gu a , t e f al a m i n t ei r o , d a n ç a m n a p á g i n a t ã o n a t u r al m e n t e, c om o se n u nc a t i v e s s e m d a n ç a d o j u n t o s . Q u al q ue r ob r a é o b r a d a s c i r c u n s t â n c i a s . Se j a c o m o f or, é um a f o r m a d e b ri n q u e d o .

S e a p oe s i a v a i s a i r d o li v r o ? E la t e m q u e s a i r s e m p r e p a ra s e r

p o e s ia . Po e s i a é m o v i m e n t o , t oq u e , l aç o . N as p r a t e l e i r a s ,

é

m o r t a, é d o x a . A p o e s ia t e m q u e t er u m a c on t ri bu i ç ã o d o

le

it o r, n ã o é , M ax ? Tu a s im a g e n s s ã o t ã o f an t á s t i c a s : N ã o s e

p o d e f a z e r p oe s i a p a r a s e r l i d a n u m a p o l t r o na .

Poesia não é confortável. Todo poema é revolucionário, todo poema é violento, todo poema tem que transpor as filigranas da página, irromper, em suma, ser lido. Todo poema deserta. Deserta pela boca, deserta pelo som. Tudo deserta pelo som. “O momento em que foi escrito faz parte da obra” 31 – e é isso que se vê nela, quando se a vê –, então, na leitura, ele deve ter início novamente. A impossibilidade deve ser retomada.

31 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, In A parte do fogo.

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Como assim Reverdece Roma? Pois poesia não é beleza, poesia é risco.

To d o p o e m a de s e r t a. Nã o h á s o le n i d a d e n a e x p e r i ê n c i a , p o rt a s

c

o n f or t áv e i s , a e x p e r i ê n c i a t em q u e s e r re a l i z a d a in t e i r a m e n t e

(

u m s a l t o p a r a o v a z io ) . O d e s e r t o n u n c a é um l u g ar p ú b l i c o ,

n

ão h á p a i s a g e m p o s s í v e l , l u ga r e s n e g o c i a do s , p r aç a s d e

a

li m e n t a ç ã o , os e n c o n t r os s ã o m i r a ge n s , d e s e rt a r é s e m p r e

u

ma e x p e r i ê n c i a p a r t i c u l a r.

To d o p o e m a d á c r é di t o p a r a a e x p e ri ê n c i a , as s u m e o r i s c o

d e u m a e s c r i t a d e s a mp a ra d a . A o m e s m o t e m p o , é a l g o

a b s o l u t a me n t e s i n g u l a r, p o r q u e q u e m d e s e rt a , d e s e r t a s o z i n h o . Vai e m v i a g e m a o d e s e r t o . Va i p a r t i r. S e f o s s e u m a e x p e r i ên c i a t urí s t ic a , s er ia d e o l h a r, r e g is t ra r, s e g u i r o r o t e i r o, b a n h ar - s e

a n t e s d o a lm oç o , s e r v i ç o d e q u a r t o , c o s t u m es , nã o s o f r e r n a d a .

P o e s ia n ã o é t u ri s m o . Te m s u a p ró p r i a e c o n o m i a .

É o u v ir u m c ha m a m e nt o u r g e n t e. É t r a v e s s i a . É u m mo d o

d

e c o n h e c e r. É t e n d e r à q ue d a : s a i r d o r e c in t o . E u é a g o r a u m

s

o m p r e m i s s a , o u e x p e r i m e n t a s e r. P od e a c o n t e c e r de t ud o .

S e o po e t a s a b e de a l g o , s a b e d i s s o. É a t r a v e s s ar u m p â n t a n o ,

n ã o é , M a x ?

C l a r o q u e d i z e r “ To do p o e m a d á c r é d i t o p a ra a ex p e r i ê n c ia ” ,

n

ã o a me s m a c o i s a q u e d i z e r “ To d os o s p o e m a s d ã o c r é d i t o

p

a r a a e x p er i ê n c i a ” . P o r q u ê ? “B o m, t o do p o em a d o M a x

é

a s s i m ” , t e n t o p e n s a r. I s s o d e c o me ç a r n u m a p a l a v r a e nã o

s

a b e r a o n de v a i p ar a r. I s s o d e um a c l a r e i r a q u e s e a c e n d e:

à i lu s t r aç ã o, à m e m ó r i a , à c a f é , a p o e m a . M a x : a o n d e me l e v e s , t e n h o c e r t e z a : e s t e é o c am i n h o . I s s o d e m a n t e r v i v a

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a f o rç a d e e x pe ri m en t aç ã o . D e t er d e o n d e s e i r. Voc ê p e s q u i s a

aquilo que você nem sabe bem. Acabou que fui me encami- nhando p a r a es t e p r o c es s o d e a l go c o m o um a e s c r i t a a u t om át ic a ( o u d e s e r t ad a ) , e v e i o d e M a c a b é i a 3 2 , d e Pr om e s s a ,

d e I v an Ân ge lo 3 3 , n ã o d e Pr o u s t . O l h a , a p a r e c e u o C o r t áz a r 3 4 p a r a me a ju d a r n o d i l e m a e n t re “ To d o p oe m a” e “ To d o s os p o e m a s ” :

E l e d i z :

oe m a” e “ To d o s os p o e m a s

P a r a d i s s ol v e r o G ran d e C o s t ume , s ó o G ra n d e B an h o ,

n é , M a x ?

Uma criança não brinca para transmitir algo para os adultos ou para outras crianças. Só os adultos não param de se

preocupar em transmitir algo. Uma criança brinca para brincar

o seu brinquedo. Inédito. Inédito como nunca dito, nunca

publicado. Cartas vazias. Enigmas. A criança brinca para afetar

32 Clarice Lispector. A hora da estrela.

33 Ivan Ângelo. Promessa, In A face horrível.

34 Julio Cortázar. Valise de cronópio.

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a si mesma, o bebê sorri a sós no berço. Que experiência

incrível o bebê está fazendo? É uma experiência invisível. O estupor do p o e m a . “E n t r e o p e n s a m e n t o c o m o n a da

e a p l e n i t u d e d e s u r gi m e n t o q u e n e l e s e o c u l t a ” 3 5 , c h e g a

o B l an c h o t . D e i x o e l e p e r g u n t ar m a i s u m a : É e s t a o b s t in aç ã o s e m p er s e v e r a n ç a ?

Não existe decisão mais infantil do que ser escritor. Sim, porque

é n a d e f o r m a ç ã o d e t od a s a s o ut r a s f o r ma ç õ e s qu e n a s c e

u m p oe t a . M a x , v o c ê n ã o p o d ia pl a n t a r á r v or e , nã o p o d i a f a z er

m ó v e l , v o c ê t in h a q u e d i z e r. D e s di z e r. Ve r d iz e r. O p o e t a é j á

a lg ué m de s f ei t o .

Q ue a s p a l a v r as n o s a j u de m a p e n s a r. P o r ri m a s , po r í m ãs ,

p or r u m o s , a m a t é r i a t em m u i t o m ai s s e n t i d o q u e o s e n t i d o u t i l i t ár i o . U m l ug a r R e g in a , o n d e a s p á l p e b r a s d a R o s a n e s ã o p é t a l a s , e s t a c an e t a é u m a v i ã o . En i g ma s . “ O e n i g m a , d e s de s u a s o r i g en s , é u m a f or m a h í b r i d a , c a p a z d e s e a s s o c i a r a o u t ra s f o rm as . ” 3 6

O p o e m a p od e s e r u m o b j et o f ec h a d o e a al e g r i a d o a u t or, o p r a z e r, e u ac h o q u e é a b ri - l o .

Q u e a l g o s e re v e le n o s me u s e sc r i t o s . “ Há p oe m a s c u j a

e s p e s s u ra f ô ni c a t o r n a - o s i m p e n e t r á v e i s . ” 3 7 Eu p o s s o t e f a l a r c o m a j u d a d e f il ó s o f o s , a m i g o s , p o e t a s , m em ó r i as e s i n t o q u e n ã o c h e g a r e i p e r t o d o q u e h á d e s e d i z e r a r e s p e i t o da f r as e :

A s p a la v r a s t ê m o s s o n s p o r s o m b r a . N em v o c ê , n ã o é?

35 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, In A parte do fogo.

36 C l a u di o D a n i e l. A p o é t i c a d o j o g o , I n A e st é t i c a do l a b i r i nt o .

37 A n t o n i o M a n o e l S i l v a . A n t es d o t r a ç o , o s o m. Te x t o s o br e o li v r o O Ri s c o S u b s c r i t o .

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S i g o a i n v e s t i g a r, n ã o p a r o d e i n v e s t i ga r. Vo u t e r q u e m e

e

x p l i c ar m i l v e z e s . M a s s ó v a le m a s v e z e s e m q u e e n c o n t r o

p

o s s i b il i d a d e s d e t e v e r, d e t e v e r d e a l g u m j e i t o, t r a z e n d o

à

t o n a es t e s e r a d o r m e c id o q u e r e s i d e n o i n t e r i o r do s l a b i r i n t o s .

Te n h o q ue t e r a l g o d e s u bt e r râ n e o , d e f r a g m en t a d o ,

n

ã o c o n t a d o . É n e c es s á r i o t r a z er u m a i n t i m i d a d e , no s e n t i d o

d

e t ra z e r a s en s a ç ã o d o q u e e s t á a l i . M a rc a s d e c i g a r r o , c h ei r o

d

e c a f é , t u d o p o d e v a l e r. É n e c e s s á r i o um a s ed u ç ã o .

Q u e a i m a g e m s e d u z a a a ç ã o . Tem q u e s e r a p a i x o na n t e

( m i s t e r i o s o ). C o m o o s o l h o s d e u m g at o . C o mo u m c o r p o a s a i r

d

o n e vo e ir o (l e n t a me n t e ) . U m a c a n ç ã o s u b m a ri n a . N ão é p a r a

u

m p e r p e t u a me n t o b u ro c r á t i c o d a o b r a . N ão é u m g l a m o u r.

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E s e m pr e há o q u e r e r f a z e r a lg o no v o, c o m o p a s s a r o l á pi s d a m ã o d i r ei t a , q u e e s t á v i c i a d a , p a r a a m ã o e s q ue r d a , c o r r e r o

r i s c o, i r a t é o d e s c o n h e c i d o , m a s p re f i r o i s s o d o q u e m e r e p e t ir ; d es c o n f i a r d a c o i s a q u a n d o e l a f i c a f ác i l .

C

a b e a o l e i t o r, c o m a s u a r e c it aç ã o - d e s e r ç ã o , e x pe r i m en t a r.

R

e c i t a r é m a i s d o q u e re c i t a r. U m p o em a é m a i s d o q u e u m

p oe m a . É u m a c h a n c e . De n ã o t e r n e n h u m c o mp r o m i s s o . É a p í lu l a d o h o m e m i n v i s í v e l , Ma x ! E s t a pí lu l a p o d e t e f a z e r h ab it a r a v o z d e u m a m u l h er q u e a m a e r e c i t a .

a r a v o z d e u m a m u l h er

U m a a v e n t u r a . M a s d e s t a v e z n ã o p o s s o e s q u e c e r :

A n a C a r o l i n a t e m a n d o u u m b e i j o . E d i s s e : C a r t a s a u m

v e l h o p o e t a .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 75 M a x , E u

M a x ,

E u t e d i s s e nu m a c a r t a a n t er i o r q u e e u n ã o c o n h e c i a a c a p a

d o O Ri s c o Su b s c r i t o , n ã o f oi ? E s t a c a r t a é p a r a d i z er q ue a go ra e u c on h e ç o . O Vas c o m e d e u u m p r es e n t e l i n d o h o j e . F i q u e i p a r a m o rr e r. E le f e z um pa pe l d e p a re d e s ó c o m c a p a s d e l i v r o s t e u s !

E dá pra ver que é obra de alguém que te ama muito. Eu disse

que teria que te mostrar os tesouros que ele guarda. Aí ele me diz:

— G u a r d o a g o r a , Él i d a . Eu n ã o t i n h a , t u me de s t e s o s

c a m i n h o s . Q u a n d o p e di s t e e s t e p a p e l d e pa r e de , p ed i p a r a a

M a r ci a c a pa s de l i v ro , e p a r a o Ag e . Ti n h a os m a i s n ov o s ,

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e s s a s ra r i d ad e s e u n ã o t i n h a .

— Q ue c o is a s in c r í v ei s a c o n t e c e m q u a n d o a g e n t e a m a !

— O An t i - R e t r at o e s t á e s c o n d i d o , p o rq u e e l e t e m q u e f i c a r e s c o n d id o , p o r s e r a n t i- r e t ra t o .

Di z s e n ã o é d a r s e mp r e u m j e i t i nh o d e t e r e v er, Ma x ? D e n ã o t e p e r de r a q u a l q u e r c us t o ? D i z s e n ã o t ra z u m a i n t im id a d e , u m a s e n s a ç ã o q u e e s t á a l i ? M e u c or a ç ã o d e u u m a e x pl o d i d i n h a .

— J á re p a r o u q u e t em o s n o s s o s o l h o s ?

— N ã o es t a r aq u i , D e n o s f a z e r m o s ao , O u t r o s s i m , I s t o p o r Aq ui l o .

— S i m , i s s o t u d o . E s t ou c o m c ar a d e b e s t a c o n ge l a d a a q ui . A q u e l e s o r r i s o i n v o lu n t á r i o .

— O br i g a d a p e lo s o l h o s d o M a x .

— S ó n ã o p as s a p a r a n in g u é m a or i g i n a l , p a ra n ã o v a z a r.

E u v o u m a n d a r p ar a a M a r c ia , e l a s ab i a q u e e u e s t a v a f a z e n d o a l g o c o m a s c a p a s . Va i a d o r a r t am b é m .

— E s s a t ei a d e am o r e s .

— S i m , u m e n c a d e a m e n t o , o M a x p u x a nd o t o d o s o s d e m a i s .

Ma s , t e n h o q ue p r e v e n i - la , p o i s é mu i t o i m p u l s i v a e po d e s a ir po s t a n d o po r a í .

— Bo n it o o je i t o d e f a l a r e s .

— “ S i m é m a i s a l é m” f oi f r a s e n o mo s a i c o q u e m a is m e en c a n t o u: N Ã O ES TAR AQ UI — s im é m ai s a l ém .

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B

e m , e u n ã o m a n d e i a i ma g e m d o p o e m a p ar e el e , a p e n a s

d

ig it e i o po e m a , e d i s s e:

— Es s e ma r de M a x n ã o s e e sg o t a , q u a n t o m a i s o t o c o , ma i s

o q u e f i c a n a s m ã o s é a s e n s a çã o d e d e i x a r c o i s a s de f o r a .

Te n h o c a d e r n o s d e a s s u n t o s p a ra c o n v er s a r c o m el e . É a s s i m

o a m o r ?

— M u i t o , i s s o m e s m o, a s p e s s o a s c o n f un d e m am o r e p o s s e,

e c a r n e

a Ma r c i a i nt e n s a m e n t e . E e la t am b é m o a m o u , e a i n d a o a m a .

o a m o r é a l g o m u i t o ma i s a l é m . O Ma x a m o u

A i n d a e le :

— O l h a, v ou s a i r. Es t o u a r d e n d o d e v o nt a d e d e c o m e m o r a r

e s s e e n s e j o . C o m c a r a d e b e s t a m es m o .

— E n t ã o v o u b e b e r e e s c r e v e r. C o m p r a r u m v i n h o p a ra b r i n c ar

c o n t i g o , c o m t od o s .

— I s s o , t o m an d o m i n h a c e r v e j i n h a v o u l e m b ra r de s s e

m o m e n t o q u e a qu i v i v e m o s .

— B r i n d a r - br i nc a r

— S i m , b r i n d a a t i, a n ó s , a o M a x , a o a m o r.

— Vai , a no i t e t e c h a m a , q u e r t e b ei j ar.

7 7

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— Vou b e i j á - l a , a c a r i c i á - l a , c o m nu v e n s , c o m l u a s , e s t r el a s o u c h u v a . H o j e a m a r a v i l h a s o u eu , o q u e s i n t o a go ra .

— Pe g a es t a f l or, e v a i .

— Vou t e l e v a r c o m i g o , s a b e s .

1 4 7
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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 81 — E s e u m

— E s e u m d i a, n a s u a p es q u i sa , v o c ê d e s c o b r i r q u e o M a x n ão é u m b o m p o e t a ?

— Nã o e x i s t e b o m o u r u i m , e x i s t e o m e u

— O s e u am o r p o r e l e .

— I s s o . E u p os s o u m d i a n ão m a i s a m á - l o , n ã o s e n t i r m a i s

v o n t a d e d e e s t a r c o m e l e, ma s o q u e e u f a ç o c o m e s s a p o e s i a não é uma questão de crítica literária. Não há nada a conservar. É m a is t r a z e r à t o n a u m u n i v e r so . O q u e me f a z f i c a r c u ri o s a p o r e n t r a r n u m l iv r o , n u m b a ra t o q u a lq u e r, é a e x p er i ê n c i a q u e a lg u é m f e z c o m o b a ra t o , e m e r e l a t a . E t r op e ç a , na t e n t a t i v a de me relatar. Um crítico (Um leitor) à caça de suas prerrogativas.

8 1

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A c r í t ica ( O t e x t o ) p r e c i s a m o s t r a r q u e h á a l g o e s c o nd i do p a r a

e l e . M o s t r ar c o mo i n c ôm o d o , c o m o s u s t o , c o m o g a r g al ha d a .

Q

ua n t os “ as ” nu m a g a r g a lh a d a! M o s t ra r e m a n t e r o m i s t ér i o.

M

o s t ra r o m i s t é r i o . “ Co n f i r a / t udo o q ue r e s p i r a / c on s p i r a ” 3 8 .

É

u ma ga r g a l h a d a d o L e m in s k i . C r í t ic o s q ue c o n s pi r e m c o m

su

a s l e i t u ra s . C r í t i c o s n ã o v a c i n a d o s . C r í t ic o s m a n c o s , p a r c i a i s ,

c o n s p i r a t ó r i o s , c r í t i c o s q u e t r op e c e m , q u e d e f a t o : l e i a m .

C r í t ic o s q u e d i g a m : o q u e s e v ê é s e m pr e u m a p a r t e . L e r, v er

u m a p ar t e , t r a z e r à l u z . N e s t e s e n t i do , t a m b é m n e n hu m a l e i t u r a

é i n d i s pe n s áv e l . M a s a í j á n ã o s e r i a m c h am a d o s d e c rí t ic o s .

Ma is u m a v e z , o p r o b l e m a c o m a p al a v r a m a i s a d eq u a da S e r i a p r e c i s o e x p a n d i r a s u pe r f í c i e d e s s a p a l a v r a . En g r a v i d á - l a . E , pa r a i s s o , n ã o e x i s t e m t é c n i c a s ma i s a d e q u a d as . E u g o s t ar i a d e f a l a r c o m o M a x as s i m : c o m o q ue m d á u m a e n t re v is t a e v a i d i z e n d o c o is a s q u e a i n d a nã o p e n s a , c om o q u e m v ai d e i x a n d o c o i s a s d e f ora, c o m o q u em v a i s e e s q u iv an d o da s q u e s t ões e , p r e c i s a m e n t e a í , d i z m u i t o a l é m d o q u e d i r i a . D iz a l ém d o q ue d i r i a e m l i v r o , a n á l i s e , o br a , t e x t o . A l g o q u e m e c a p t u ra t a l c o m o e s t o u a g o r a, n ã o um a i ma g e m q u e m e g u a r d a . U m a e s c r i t a q u e c o m p o r t e um a f al a .

A p e rs u as ã o d e u m a f a l ha . Q u e r o u m a v o z qu e s e j a a v o z

d a e x p e r i ê n c i a : é o m a r i m b o n d o , e m a i s na d a . Q u e s e j a um a v o z q u e e s c o n d e u m a h i s t ó r i a . Q u e n ã o s a b e c o m o c o n t á - l a . Ma s e n c o n t r a c o m o . U m f r es c o r. Q u e s e j a a v o z d e a l g u é m q u e l ê e l em b r a d e a l g u m a c o i s a . Q u e s e j a a v o z d e a l g u é m

q u e l ê l e v an t a n d o a c a b eç a .

38 Paulo Leminski. Caprichos e relaxos.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 83 Q ue m p er g

Q ue m p er g u n t a a s s i m é o Ba r t he s 3 9 . Q u e s e j a al g o q u e v a i

c o m o s u s t o , v a i c o m o d e s l u m br e , v ai c o m o s a c i d e n t e s .

A ex p e r iê n c i a d o p o e m a n ã o e st á n a s p a l a v r as d o p oe m a,

s e j a e le f e i t o d e c i n c o, s ej a f ei t o d e t r ez e n t a s p a la v r a s , é n a

l e i t u r a q ue o p o e m a a c o n t e c e . A a p r o x i m a ç ã o d a s pa l a v r as

s e m p r e p ro d u z u m a r e a l i d a de n o v a . N o i n v i s í v e l . N a q u i l o q u e q ue m lê n e m s e d á c o n t a d o q u e p e ns a . E n e s s a l e i t ur a, s e u

l e i t o r p o de pu l ar d u z e n t a s -e - n o ve n t a d a s t r ez e n t a s p a l a v r a s

e f i c a r c o m a s d e z q ue l h e b a s t a m p a r a s u s c i t a r ne l e o p o em a

q u e e s c r e v e qu a n d o l ê a qu e l a s p a l a v r a s . P e ns a m e n t o p ar a

p o d e r l ab o r a r, i n v e n t ar.

— Vo c ê i m ag i n a t i ra r a s o l e n i d ad e d a l i t e r a tu r a ?

— E u i m ag i n o l e r s e m a s o l e n i da d e d e u m p o e m a p r o n t o ,

d e u m t e x t o p r o n t o. N ã o q u e r d i z e r qu e n ão h aj a c e r i m ô n i a .

É

u m a c e r im ô n i a s e m s o l en i d a d e. É u m a t o , a p e n a s .

N

ã o u m f at o . So l en i d a d e s t o r n a m i m p o r t a n t e u m f a t o.

Q

ue m l ê um p o e m a n ã o e s t á a t r á s d e f a t o s , es t á a t r á s d e u m

a t o . E s t á a t r á s d e q u e a l g o l h e ac o nt e ç a , a l g o l h e a c o m et a .

E o n de el e s e p o n ha . As s i m c om o q u e m e s c r e v e . É i m p o r t a n t e

r e s s a lt ar q u e, e m t u d o o qu e e s t o u d i z e n d o , e s t o u p e n s an d o

c o m u n s mo v i m e n t o s d o M a x . Q u a n d o f a lo d e u m p o e m a

q u e n ã o e s t á pr o n t o , p e n s o e m s e u s p o e m a s q u e c o n s e r v a m

o in a c a ba d o . Q ua n do f a l o e m c e ri m ô n ia , p e n s o n u m p o e m a

39 Roland Barthes. O rumor da língua.

8 3

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d e d e z p a l a v r a s . É a p e n a s e n t rar n a r o d a . C o n s i g o , c o m e s t e t ruq u e, a t é l ic e n ç a p a r a m e c o n t r ad i z e r.

— Vo c ê v a i u s a r t w i t t er n a s u a p es q u i s a?

— E u v o u c o m o q u e a p a r e ç a , qu a l q u e r lu g a r. M i n h a p e s q u i s a é i s s o : c i r c u ns t â n c i a s . Eu e n t e n d i q u e a n o t a r p oe m as n a

c a d e r n e t a , l ê - l o s p a r a o s a mi g o s re p e t i d a s v e z e s , d e c o r á - l o s , i m a g i n á - l o s , s e r p e r s e g u id a p o r e l e s , a r ra n c a d a d o i nt e r es s e p e l a r e a l i d a d e , é o m e u t ra b a lh o s e n d o f e i t o . A l g o m i s t ur ad o , a l g o q u e v e m v i n d o . P o d e s e r a t é q u e n ã o v e n h a c o m o M ax .

O i m p o r t a nt e , a l i á s , é i s s o : n ã o p e r g u n t a r d e o n d e v e m.

P e r g u n t a r q u em é , d e o n d e v e m, s ã o , c o m o F ou c a ul t d i s s e n u m a en t r e v is t a , q u e s t õe s d e p o l í c i a . E s c re v e r s e m p o l i c ia m en t o , p o r is s o m e s m o e s c re v o c a rt a s .

— E p o r q u e v o c ê p ar o u d e e s c r e v e r c a r t a s ?

— A l g o e n s u r d ec e u n o M a x M a r t i n s .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 87 — Ac h o m a

— Ac h o m a is i m p o r t an t e o e ns i no d a l e i t u r a . D o le i t or c o mo u m

e s c r it o r. D o l ei t o r c o m o s e u p r ó pr i o p oe t a. E n t ã o o l e i t o r d e v e

r e v e l a r o p o e m a s e m p r e m a i s um a v ez . E n t ã o o p o e m a é c o m o

a lg o i n a c a b a d o , p a r a o l e i t o r d a r o ac a b a me n t o . E n c o n t r ar u m p re t e x t o. P a r a po d e r i n a u g u ra r u m m un d o . I m a g i n o q u e a o s a lu no s s er ã o d a d o s l i v r o s d e p o e s i a p ar a q u e r i s qu e m. A t ar e f a é e s s a : l e v a r o l i v r o p a ra p a s s ea r, e s c o l h e r u m po e m a e r i s c á -

l o . A t a r e f a é r is c a r o p o e m a . Es c r e v e r n a q u e l e p o e m a , o s e u poema. Por subtração basicamente. “E se eu quiser acrescentar algo?”. P o r f a v o r, a c r e s c en t e . F a ç a c o m o p o e m a o q u e t i v e r vontade. Para os que tiverem dificuldade em se sentir à vontade

c o m o p o e m a , p a r a o s q u e s en t i r e m d i f i c u l d a de e m c r i a r a s u a

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própria cerimônia, eu recomendo a subtração. Risque. Risque sem dó. Enxergue algo que poderia ser suprimido (você pensa, que não comprometesse, mas eu digo) que comprometesse, sim, o entendimento do poema. O Max me traz algo assim, como um entendimento comprometido. Um artigo, um pronome, um complemento, um acento. Pode ser. Se você conseguir comprometer um poema tirando um acento! Há chances de você ter aquela doença, há chances de você ser um poeta. Poeta, leitor, escritor. Há escritores que não escrevem. Blanchot diria ainda que todo escritor tem a sensação que não escreve 40 .

todo escritor tem a sensação que não escreve 4 0 . O q u e i

O q u e i m p o r t a é a c h a r u ma b r e ch a p o r o nd e o l ha r, p o r o n d e d i z e r : “ Vej a , v ej a , c o mo e s t e p oe m a f i c a m e l h o r a s s i m ” . Nã o é o c a s o d e m e lh o r ou p i o r, e u c o m e c e i d i z e n d o i s s o . Ma s “ Ve j a c o m o e s t e p o e ma s e d e s l o c a ” , “ Vej a , v e j a um m o v im e n t o ” . Ver m o v i m e nt o s é l e r e e s c re v e r. Ve j o c o m o e s t e p o e m a m e d es l o c a . O o b j et iv o n ão é m u d a r o p oe m a . É v i v e r o m u n d o d e i m a g e n s q u e o p o e m a t e d á. P od e- s e , é c l a r o , f a z e r i ss o s e m- t i r a r - n em - p ô r. Se r i a i m p r ó p r i o t i r a r u m a p a l a v r a d e u m p o e m a d o Wal t W hi t m a n ? S er i a u m i m p ro p é r i o t i r a r u m a p a l a v r a do p o e m a d o M a x M a r t i n s ? N ã o , d e j e i t o n e nh u m .

40 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, In A parte do fogo.

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N e m s e r i a um a s o l e n i d a d e c o p i á - l o s e m e s q u e c e r u m a c en t o ,

p

re o cu pa n do - s e c o m o e s p a ç am e n t o e x a t o d a s p a l a v r a s , c o m

a

m a nu t e n ç ão d o b r a n c o d o p a pe l . B a r t h e s m e a ut o r i z a : “ A i nd a

m

a is : a l ib e r d a d e d e l e it ur a , q u al q u e r q u e s e j a o p re ç o a p a g ar,

é

t a mb ém a l i b e r da d e d e r a s u r a r. ” 4 1 So l e n e s e ri a n ã o s e

p

re o c u pa r n e m e m t i r a r, n e m e m m a n t er. L e r p o de s e r i s s o :

a f i rm a r a e x i s t ê n c i a , ou a f i r m a r a d i f e r e nç a . O i m p o rt a n t e d e s t e

e x e r c í c io n ã o é o r e s u l t a d o f i n a l . O ex e r c í c i o é s e d ar o d i r e i t o

d e f or j a r u m p o em a , d e f o rja r c o m a s pa l a v r a s , a f i r m a r, r e s i s t ir,

i n s i s t i r. Se o a t o s e f e z , o p o e ma f oi f e i t o . E s s e e x e r c í c i o p o d e s e r s o l i t á r i o t a m b é m , p o d e s e r a u t o d i d a t a.

— E v o c ê j á ri s c o u u m p o ema d o M a x ?

— E s t e ex e r c í c i o n ã o é f á c il . Va m o s l e m b r a r q u e v a l e t a m b é m a f i rm a r a ex i s t ê n c ia do p o em a . D e qu a l q u e r f or m a , o q u e v a l e

é re la c i o n a r - s e c o m o p o e ma . N ã o j o g a r c o n v er s a f or a .

I nt e rf e ri r n o m u n d o . To c a r n e l e. E u a f i r m o a ex i s t ê n c i a d e v á r i o s

p

o e ma s d o M a x . M a s n ã o d e t od o s . D e no v o , nã o é d i z e r q u e

n

ã o s ã o b o ns p o e m as , m a s a m i n h a l e i t u r a é a ú n i c a c o i s a q u e

e x i s t e . O M ax n ã o e x is t e . O l iv r o n ã o e x i s t e . E x i s t e u m Ma x .

U m g e s t o M a x . U m ge s t o q u e a pa r e c e , u m a t o q u e s e f a z

q u a n d o e u l e i o e , n e s t a l e i t u r a , e s c r e v o o p o e ma . N a m i n h a

s e l e ç ão , n a m i nh a r e l a ç ã o , e u n ã o p r oc u r o s a b e r s e e s t e o u

a q u e le p o e m a é d o p r i m e i r o o u d o ú l t i m o l i v r o . E u n ã o c o n h eç o

a c ro n o l o g ia d a o b r a. N ã o m e r e l ac i on o d a s e g u i n t e f or m a :

“ e s t e p oe m a é d o O E s t ra n h o , q u a n d o e l e e s t a v a m a i s i n f l u e n c i a do p o r D ru m m o n d , C a b r a l ; e s t e d o H ’e r a , o n d e

41 Roland Barthes. O rumor da língua.

8 9

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é

p o s sí v e l n o t a r o u s o d a t emá t i c a e ró t i c a

N a d a d i s s o.

M

a s t am b é m a p r e n d o p o r c o n t am i n a ç ã o . E x i s t e u ma r ed e d e

i n f or m a ç õ es , u m a c a d e i a d e c o i s a s j á e s c r i t a s s o b r e o M a x ,

o p i n i õ e s , a n á li s e s , u m t r an ç a d o q u e t a m b é m e s t á e m mi m .

M a s h á u m a á r e a p re s e r v a d a d e s t a r e l a ç ã o . E s t a c o n c i l i a ç ã o

d e s i . L e r o M a x a s s i m , de s c o l a d o d e s u a c r o n o l o g i a , d e s u a

h i s t or i og r a f i a é j á a m i nh a m a n e i r a d e r i s c á- l o . Eu o r i s c o d e v á r ia s f o r m a s . I n c l u s i v e e s c r e v e n d o c a r t as . Te m um a c o is a q u e e u f aç o c o m o M a x q u e é e s c a n e a r o s p o e m a s q u e e u g o s t o e m on t ar o m e u l i v r o d e n t r o d o l i v r o . É c o mo s e o s o ut r o s p o e m a s n ã o ex i s t i s s e m . Es c o l h e r o q u e i g n o r a r é e s t u d a r ?

E u p o s s o a p r e s e n t ar u m p o e t a a f i r ma nd o - o , p e l o s i m pl es f at o

d e s i l e nc i ar a s p a r t es q u e e u n ã o g o s t o e t r a z e r a o r i t m o , t r az e r

à

l u z , o s p o e m a s q u e e u g o s t o . L o g o e m s e gu i d a, p o s s o f az e r

o

g e s t o i n v e r s o : n e g a r a s ua e x i st ê n c ia , n u m a s i m p l e s s e l e ç ã o

d e p o e ma s q ue n ã o m e a g r a d a m . Ta l v e z o q u e e u e s t e j a f al a n d o é d e u m a l e it ur a s a l t e a d a, u m a l ei t ur a qu e c o s t u r a u m a li n h a , a le i t u ra d a s s u a s pr e r r o g a t i v a s . Vou a o di c i o n ár i o , e s t o u a p a ix o n a da p e l o d i c i o n á r i o a g o r a . Pr er r o g a t i v a é a c o n c e s s ã o o u v a n t a g e m c om q u e s e d i s t i n g u e a l g o . E u e n x e r g o A g e d e

C

a rv a lh o nu m a f r a s e q u e c o m e ça c o m a t er c e i r a p e s s o a

si

n g u l a r d o v e r bo a g i r. O q u e i rá d e n un c i a r a a f i r m a ç ã o o u

a

n e g a ç ão d a m i n h a le i t u r a é o u t r a c o i s a : o m eu t o m d e v o z .

O

u o t r aç o d o m e u l áp is . Es s e s e r á o m e u a s p e c t o c r í t i c o .

É

o q u e e m m im a g e e o q u e n ã o ag e . F a z e r u m a l ei t u r a a s s i m ,

t od a l e i t u r a é a s s im , c h e i a d e l i b e rd a d e s . Se r f ol g a d o c o m

o p o e m a . Se r f ol g a d o c o m a l e i t ur a . O p o em a c o mo q u a l q u e r co i s a d o c h ão .

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— I n te re s sa n t e o q u e v o c ê e s t a v a d i z e n d o , p o rq u e

n as a r t e s p l á sti ca s e x i st e o p r o ce s s o e s c u l t ó ri co p o r s u b t r a ç ã o . N o a t o d e e s c u l p i r o m á r mo re , o a r t i st a v a i

t i r a n d o a t é c h eg a r à f o rm a q u e e s t á “ d e n tr o ” d o b l o c o .

— E a c ad a l ei t u r a e x i s t e a c h an c e de u m a d e s s as r u í na s s i m pl e s m e n t e a p ar e c e r p a r a m i m c o m o u m po e m a . I s s o d ep e nd e a p e n a s d a s c i r c un s t ân c i a s . D e a b ri r o l i v r o n a pá g in a c e r t a n o m o me n t o c e r t o . C o m o d i z i a o B l a n c ho t 4 2 ,

c e r t o . C o m o d i z i a o

E

e u i m a g i n o q u e p a r a o M a x t am bé m er a as s i m , q u e n u m

m

o m e n t o e l e l i a u m p o e m a e m s e u p o e m a , e n o ou t r o , o l i a

c o m o m a t e r ia l . N a d a é m a i s r a r o d o q u e u m p o e ma ! U m po e m a

é

u m p r e t e x t o , e n a d a é m a i s r a r o q u e u m p re t e x t o. O u p o em a

é

p r e t ex t o ou é e s b o ç o , r u í n a . M a s qu a n do o p o e m a s ur g e,

o

ma i s r a r o é t am b é m o m a i s i n e v i t á v e l e o m a i s u r g e nt e .

A r r u in a r o p o e m a é u m a le i t u r a q u e p r e c i s a s e r d e f en d i da . A o f al ar d o M a x , n ã o q u e r o f a z e r p r op a g an d a do M a x . Q u e r o

c o n t a m in á- l o d e v o l t a , a f i r m a r, f a z er o s r e v e s e s . H á a l g o n o

M a x q ue m e f a z q ue r e r d e f e n d e r i s s o . Eu d e f e n d o q u e s e

p os s a l e r d e s s e j e i t o .

— Vo c ê d e fe n d e q u e vo c ê p o ssa l e r d e s s e j e i t o .

— P o d e s e

42 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, In A parte do fogo.

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43 43 Age de Carvalho. Trans.
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43 Age de Carvalho. Trans.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 93 4 4 Cadernos de Max Martins.

44 Cadernos de Max Martins.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 95 — Por que defender, argumentar que

— Por que defender, argumentar que a escrita do Max é interessante?

— E u n ã o u s a r i a a s p a l a v r a s d e f e n d e r o u a r g u m e n t a r. P a r a q u e f a l a r, e s c r e v e r, p u b l i c a r s o b r e o M a x ? P a r a q u e e l e c o n t i n u e d e s c o n h e c i d o . P a r a a f i r m a r o d e s c o n h e c i d o n e l e . A f i r m á - l o j u n t o a e s c r i t o r e s i n s o n d á v e i s , i d é i a s i n s o n d á v e i s . H á o u t r a s p e s s o a s c o m q u e m c o n v e r s o , d e s d e a s c a r t a s , m a s a g o r a t a l v e z o c e n t r o t e n h a r e a l m e n t e s e d e s l o c a d o . Ta l v e z n ã o s e j a m a i s o M a x . É a l g o e m m i m q u e s e a f i r m a d e s d e q u e e u p e n s o . À s v e z e s e u g a s t o u m t e m p ã o a p e n a s p r o c u r a n d o u m p o e m a e n ã o o e n c o n t r o . A í v e m u m a

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i r r i t a ç ã o d e q u e r e r r a s g a r o l i v r o . S e e u e s t u d a s s e o M a x

M a r t i n s , e u e n c o n t r a r i a o p o e m a . M a s d i g a m o s q u e

a m i n h a i r r i t a ç ã o é j u s t a m e n t e a f o r m a c o m q u e d e f e n d o

e s s a m a n e i r a d e l e r e d e s e r e l a c i o n a r c o m o p o e m a .

Q u e o p o e m a a p a r e ç a n a h o r a e m q u e e l e q u e i r a , n ã o n a

h o r a q u e e u q u e r o .

e l e q u e i r a , n ã o n a h

Adoro este texto do Kaváfis, do Reflexões sobre poesia e ética. Não tem esse negócio de eu saber encontrá-lo. Que graça teria? Que o desejo me leve a procurá-lo sem saber como encontrar. Como? Encontrar por acaso, sempre. Ser surpreendida, alegrada com o encontro. Eu procuro dialogar entre Max e esses pensamentos do acaso para mantê-lo vivo, isso eu já disse. Folheá-lo sem saber o que encontrar é dar a ele uma chance de nascimento. A chance de que ele apareça sob alguma perspectiva, sob algum ponto de vista. Não privar-se desse t r a b a l h o . D a r - s e o t r a b a l h o d e e s t a r p e r d i d o . D a r - s e a o t r a b a l h o d e e s t a r à e s p r e i t a . S e a p r o x i m o o M a x a e s t e s

p e n s a d o r e s n ã o é p a r a l e g i t i m á - l o , n e m p a r a h i s t o r i c i z á - l o ,

m a s p a r a m a n t ê - l o e s t r a n h o . P a r a a b r i r o l i v r o d e l e , q u e

e u j á a b r i t a n t a s v e z e s , c o m o s e f o s s e a p r i m e i r a v e z .

P a r a e x p e r i m e n t a r e s t a d o s i n é d i t o s .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 97 — Por que defender, argumentar que

Por que defender, argumentar que a escrita do Max

é interessante?

— Eu acho que ele pode ser um exemplo.

É disso que eu falo. Então o que você quer fazer

é Crítica Literária.

— Um exemplo que as pessoas podem viver

É bem diferente um exemplo de vida de um exemplo da

vida. Você entende? Porque tem o risco de ficar uma coisa de tiete. De fã-clube. Você não quer o exemplo dele. Ele te mobiliza. É aí que eu digo que você tem que enrabar o Max.

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Vamos pegar aquele texto que o Deleuze fala sobre enrabar.

— Eu conheço esse texto.

Mas a gente pode ler em voz alta, vai ajudar, cadê

o Conversações? Carta a um crítico severo Enfim, ele fala sobre fazer um filho monstruoso. Uma outra obra. Não é a poesia como categoria que te mobiliza. É algo que tem na poesia. Que tem também em outras coisas da vida.

— Claro. Há quantos poetas mortos nesta estante? Para cada

vivo, deve haver uns cem mortos. Só que o Max comporta esse desconhecido, esse vivo há tanto tempo Claro, uma hora vai morrer. Por isso é tão importante eu falar com ele agora, enquanto ele está vivo. Usá-lo para que alguma coisa viva. O Age de Carvalho lançou seu último livro de poemas dizendo:

“Este é o meu livro da morte do Max Martins”. Pois eu direi:

“Este é o meu livro do vivo do Max Martins”.

O que você faz com o Max vai ser entendido por muitos como um desrespeito.

— Eu sou a terrorista do Max Martins!

Como você pode ser terrorista e amante ao mesmo tempo?

— “Eu que amo, sou indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente:

aqueles que falam).” 45

45 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso.

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A última coisa que está em análise é o autor.

— Sim, o Max é um pretexto. Mas é também porque tem no Max

algo de muito provocador. és / o favorito / aquele que de tudo discorda 46 : Algo como uma flecha, uma coisa mínima, simples

e, ao mesmo tempo, sem solução. Alguma coisa condensada.

Que, agora, me solicita. Que faz apertarem os sapatos.

O Max seria menos um exemplo e mais uma oportunidade.

Barthes mostra a oportunidade: “O que aconteceria se eu quisesse te definir como uma força, e não como uma pessoa?” 47 .

O Max, seus poemas, este encontro, têm uma corporalidade.

É realmente como material explosivo. Aí você pega e implode

alguma coisa. É como se o Max me convidasse a tocar o terror nessa porra toda.

O que é essa porra toda?

— É como o Max pintou naqueles cadernos: “Desconfio

de vocês babacas sabidos”. Eu amo estes gestos do Max:

Morra a Academia!, Desconfio de vocês babacas sabidos

Mas todos nós somos babacas sabidos. Eu desconfio dele também como um babaca sabido.

— De quem?

Do Max

dele também como um babaca sabido. — De quem? — Do Max 4 6 Age de

46 Age de Carvalho. Trans. 4 7 R o la n d B a rt h e s . n a o b ra c i t a d a .

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 101 — Eu me sinto um pouco

— Eu me sinto um pouco culpado por esse ensurdecimento.

— Pois não se sinta nem um pouco. Se meu interesse deslocou- se por estas ou aquelas forças, deslocar-se-iam por quaisquer outras. Aliás, o trabalho talvez seja justamente o que dá a ver esse deslocamento Que se revele a fluidez e que se revelem os impasses é já a minha forma de pesquisar. Que se revele também o entristecimento dos encontros. Que eu vá com as marcas, como quer que elas venham. Que eu aceite esta escrita.

— Interessante isso que você falou do deslocamento. Essa

é a diferença entre um trabalho que tem uma periodicidade, um ritmo; e um trabalho como o seu, um trabalho com

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saltos. Há sempre um deslocamento do ponto de onde você se relaciona com a pesquisa. É uma condição. Um trabalho que ganha diferentes pontos de gravidade. Diminuem os passos nessa caminhada. São menos passos e mais espaçados. São saltos.

— Como o salto do Dom Genaro, de quinze quilômetros. 48

— Ótima referência essa.

48 Carlos Castañeda. Uma estranha realidade.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 103 Estás autorizado, a ti é dado

Estás autorizado, a ti é dado um fio, és agora costureiro. Permito que escrevas. Afirmo tua escrita. Permito e afirmo. Não / estar aqui / Sim / é mais além. Sentar-se. Ter um divã. São as articulações que se aprende a fazer. É o envolvimento com o assunto tratado. É como ter um enigma. Um amuleto. Uma possibilidade. Atos. Maneiras de entrar no mundo. As ressonâncias pessoais. As posições assumidas. És tu o pesquisado. És o mestre. A teu toque, coisas acontecem. O poema te usa para se assustar. Teu coração dispara. Coisas se plasmam. O poema precisa de ti. És o aliado do poema. Estás a serviço do poema. Dás ao poema uma escuta. Estás à altura do poema. Dás escuta a um outro corpo. O poema te usa

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para investigar a si próprio. Tu te investigas com ele. Tens a chance de te investigares com ele. De passar por um ato de palavras, de te sentares – saltares – um pouco. O poema te suscita. O poema te olha. Está com a atenção redobrada.

O poema tem amigos do outro lado. Verás, de repente, um outro

lado.O poema te usa para se deslumbrar. Para pôr, ele, o seu

deslumbre. Nessas impressões, pontes, pontas, cartas, há sempre um frescor de mão estendida. Às vezes és tu, que

deixas a tua mão à toa. Ora te pões na obra, ora não te pões.

O

poema te usa e deixa ser usado. O poema te mostra.

O

poema te põe. Há agora uma costura no hábito do costureiro.

É

essa atenção a si. A soma das percepções de si. Tu és o

experimentador do poema. O cozinheiro, e sua prova. Tens um poder especial. No frescor, teu texto vai com os sustos, vai com os deslumbres. O poema é um bezerro de duas cabeças. Algo que é liso, que escapa, algo que se esconde e, de repente, se mostra! Como quem te dá um susto e está escondido por detrás de um muro. Algo que patina e te faz patinar, dançar. Vais fundo! Algo difícil que dá impressão de ser sabível, caçável. Algo que dá-a-impressão impressiona. Estás parado olhando fixamente

para esta flor psicodélica. És a tua atenção. Estás à espera,

te envolves, assumes posições, notas. Anotas. Palavras para te

proteger. Pões teu ritmo em função desta flor, vais em auxílio desta flor, essa flor quer te levar. És o aliado desta flor. Com ela, esperas, caças. A flor não é um exemplo da vida, é uma experiência da vida. É uma respiração. Estás à procura do acaso.

Estás cá com o teu enigma. É uma oportunidade que se mostra. Uma ponte que aparece, suspensa no ar. E já te vês

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atravessando. Uma ponte invisível, tu andando sobre os ares,

pernas de flamingo são os teus fundamentos. Vês um quadro (tua flor) e estás disposto. Esta flor precisa da tua disposição.

O texto te escolheu através de toda uma disposição de telas

invisíveis. És paciente. Estás acamado. Teus celulares nem os trouxeste. Estás disposto a esperar. O poeta é o aliado do poema

porque está disposto a esperar por ele. Ouvi-lo sentado. Temê-lo. Há que se conservar um temor. Atender a um temor. Sentir medo,

e ir. É um convite ao enfrentamento. Tornar o medo mais vivo

ainda. O amor é a forma suprema do temor. Estás sem palavras. Responderás: O pânico é a maior porta que eu já vi. Ou talvez

a um convite para sentar. Ou cairás. Cairias para trás. Ou não te

sustentarias. O poema depende de ti e é para ti e por ti que ele ganha movimento. Leva o poema para passear. É graças a ti que ele se desloca. Há no Max um apelo, uma síntese, um epílogo, ou um prólogo. A construção literária é então a própria construção da subjetividade, é o próprio tornar-se. Processos de morte e de vida. Como sair de um bloqueio? Cartas de amor não sempre liberam algo que está bloqueado? Após longos períodos de bloqueio, após longos períodos de saudades, após longos

períodos de impotência, a potência, então, te vem! Porque atendes ao seu temor. Porque para afirmar algo é preciso negar outras coisas. Porque a potência se engendra no intolerável.

seu temor. Porque para afirmar algo é preciso negar outras coisas. Porque a potência se engendra

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Tu sais da tua impotência. Não te entregas a ela. Aí, algo

é liberado, algo condensado, algo se destila. É o amor. Vês: amor

é o que te dá meios. Amor é amor aos meios de amar. Amor é

criar meios. A pele sua / e me interpela: escrevo-amo? Não existe amanhã, não existe temporal, estás movido, estás submetido. Tens agora um aliado. Sais de casa mesmo assim. Vais ao teatro. Estás a caminho. Amor é ir em auxílio. Não existe forma para tocar no mundo. Tocar no mundo é a forma. Amor como interesse máximo. Amor como uma dança da atenção. Por isso as tuas cartas são muitíssimo espaçadas, saltadas. Algumas vão num mesmo fôlego. É uma questão de fôlego. De fôlego e de asfixia. E há o que não toleras. Atendes ao intolerável. És o homem em estado de caderno, que faz da vida um esboço, tocando nas coisas, moldando as forças que te agem com um martelo, parafuso, bic, ferramentas, enfim, com a linguagem. Usando tudo para tocar tudo. Despertas o poema de seu sono profundo, despertas as palavras da afasia tediosa de já existirem. Tens uma elegância. A elegância de uma decisão. Parirás um monstro gigante. Nem uma objetividade cuja suposta verdade oculta seria revelada, nem uma subjetividade confinada. Mas um lugar de

onde se pensa-cria. O artista, o amante, o poeta, tu. Dás a voz singular àquilo que é comum. Pegas algo que não tem visibilidade e dizes: Veja, leia, ponha-se. Essa experiência que encontra maneira de acontecer tem poder de contaminação. Como é que o cara fez? Abre-se um espaço irreversível. Não “quem”. Não “de onde”. Mas “como”. Um filme sem isso, um livro sem isso, uma exposição sem isso? Melhor saíres para uma caminhada, que te inspira e te renova. Diante do atrito e da

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faísca, te inscreves, tens um estilo, te afirmas. Podes fruir do sabor da faísca. É uma questão de satisfação/insatisfação. Estás à altura da desacomodação. Estás à altura de brincar com isso. Humor. Companhia. Idéias que se encontram no teu pensamento. Permear uma idéia da outra. Do humor da outra. Algo que ainda não vês, quer afirmar-se. Precisa enfrentar o que vige. Tua intolerância e teu desejo é que te guiam. Entra como tu entras e sais como tu queres. Nada mais tem valor excessivo, apenas esta flor. Que é ela? Uma aversão à forma final do mundo. Essa flor ainda vai te levar embora. O sentido é um efeito. Um efeito óptico, sonoro, um efeito efetivo.

é um efeito. Um efeito óptico, sonoro, um efeito efetivo. Uma flor monstruosa. De transparência magnética.

Uma flor monstruosa. De transparência magnética. “O mistério elabora” ou “Para ler poesia”. A intenção de mistério no movimento movimenta o mundo. Como um gato que persegue um barbante. Dura um instante. Eu te reinvoco. O que há no teu diálogo? O poema acontece quando ele pode ser danificado. Ou fingido. Ou flechado. Quando ele é um corpo que pode seguir suas próprias idéias (idéia de Barthes que seguiu suas próprias idéias). Quando é vulnerável ao roubo. À perseguição. Ao suborno. O poema acontece quando ele é danificado. Com idéias que vêem e vão. Idéias que lês e recrias. Recriando- o, te contradizes e trais ao poema. A primeira lição para ler poesia

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é danificá-la. O poema como uma série de acidentes. Nada mais se ouve além daquilo. Nada mais se ouve. Há o poema. O poema existe. O poema te mostra. Tu te amas. O gato e seu dono-mágico. O poema é o mágico que te tem. Vibras e estás tenso. Leitores de poemas, não críticos de poemas. Estás sendo usado. Um assalto, uma chantagem, um acidente, um suborno. Amar o destino. Afirmar o que existe. É preciso ser capaz de amar o insignificante. Te amo. Te amo. Quero cravar a minha lapiseira nos teus olhos. Não te sintas intimidado. Não há boa destruição sem amor. Sim, fazes, podes fazer. Colecionando pensamentos quebrados? Anotas coisas sem préstimo, roupas deslizando dos cabides. Um trabalho que segura a caneta, que ainda não nasceu. Com gosto de estar à sós. Algo que não

compactua. Algo que conspira. Métodos: arrastão, roubo, coreografia das tensões, um elo invisível, grito – que foge pela boca, habitar um campo de forças. Tu és o que inventa sobre ti mesmo. Inventa o inevitável. Que fazes deste dia que te adora?

O amor é mais do que um instinto, é uma criação. Nunca mais

o cara morreu. Isto é “sim” enquanto linguagem. O artista como aquele que pode dar volume ao invisível. Leveza e densidade

próprias. Colocar-se na vida com leveza e densidade próprias. Do que queres engravidar? Coloca-te no momento inevitável e

apenas nele. “E assim resulta para o amante a atitude inevitável”. 49 Se já te desses conta, seria estranho que estivesses

te perguntando. É uma espécie de saudade fundamental. É mais

fazer surgir do que desmanchar. Olha para cima, vem um dilúvio de rimas. Não é uma apreciação, não é uma constatação,

49 José Ortega Y Gasset. Estudos sobre o amor.

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não é uma conclusão. Exposição para apreciação, livro para constatação, poema para conclusão? O que importa não é o conteúdo do poema, mas o sopro que pode estar nele. O desejo de perseverar que pode estar nele. O direito de existir. Entrar é o próximo lugar. Estás diante de algo para o qual não tens repertório. “Mais vale arrumar a mala”. “Jogaram pela minha janela”. A nada imitas. És o único que não segue ninguém. Entras numa exposição. Uma exposição que não conspira. Estás humilhado. Então ela precisa de ti para quê? Para abrir gavetas? Para ser um visitante numa exposição? Trouxeste tua lima e não há material a ser limado. Nada em estado de material. Nada que te espere. Nada a que te alies. Imaginas nunca mais se brincar, nunca mais se desenhar, nunca mais se baixar um santo.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 111 Max, há uma revelação que preciso

Max, há uma revelação que preciso te fazer: há uma conspiração contra ti. Pessoas que querem te ver morto. Te matam até em nome do amor. Os cabeças da conspiração são os teus amigos mais próximos. Se pudessem, te fariam um dos poetas mais reconhecidos do mundo. Ainda bem que continuas lutando contra isso. Nisto, sou tua aliada. Querem te estudar nas universidades, te fazer o poeta da província. Isso mata um poeta, como já matou muitos poetas que conheço aqui no Pará. Quanto a mim, minha luta é te ver vivinho da silva. Eu te reencarno. Sou tua amiga distante. Se parece que busco me aproximar de ti nestas cartas, não me leve a mal. O que busco é te manter afastado, inacessível. Nunca te ver pessoalmente. Que perigo! Eu poderia

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ser mais uma a te elogiar, dar tapinhas nas tuas costas, a chorar

a tua morte. Falam pelos corredores: “É o maior, mas coitado ”.

É deste lugar “maior, mas coitado”, que eu espero, com estas

cartas, te aliviar. Felizmente o máximo que podem querer te fazer

é um poeta da Amazônia, no máximo o maior poeta paraense

e, felizmente, isso já faz de ti um escritor menor. És homem sem títulos. O que te consola é a carta que te busca. Essa névoa em torno de ti, essa rede, esse teu barco bêbado. É a tua glória. Ser como tatu. Viver no teu buraco. Nunca foste negligenciado. Aliás, “se as circunstâncias a negligenciam [a obra], ele se felicita, pois só a escreveu para negar as circunstâncias.” 50 Se ressuscito

meus papéis com o teu nome, não será para te matar. Será apenas para me colocar à tua disposição. Para fazer de ti o meu poema sem versos. O meu poema sem corpo. Gosto tanto quando tu não existes. Quando alguém me pergunta “Mas para quem são estas cartas?” e eu digo “Ah, você não conhece ”. Aliás, é para isso que te faço meu destinatário: para não fazer parte de uma maioria, para negar uma maioria. Uma maioria qualquer, a idéia de maioria. Não é que eu te queira só para mim, já te falei de como fico feliz quando alguém fala o teu nome? Sabe por que eu fico feliz? Porque teu nome desvia. Teu nome escorrega. Teu nome odeia. Teu nome insiste. Teu nome resiste. Teu nome pensa. Teu nome não vem feito. Teu nome vem,

e quando vem. Teu nome vem se fazendo. O mais desconhecido dos pequenos poetas. Assim te quero.

50 Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte, in A parte do fogo.

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Cartas ao Max 14:Layout 3 3/26/12 3:29 AM Page 115 Va s c o M a

Va s c o

M a r a v i l h a , m a s n e m e u v o u . Ta m b é m n ã o t e n h o a m í ni m a i d e i a d o q u e s e j a “ t ra j e p a s s e io c o m p l e t o ” . S ó p o r i s s o. r s r s r s rs

M á rc i a

h ah a ó t i m o né ?

P E N S E I EM C O L O C AR N A P Á G I N A D E L E, m a s p o d e s e r q u e a lg u n s s e s i n t a m o f e n d i d o s .

É

l i d a

P o d e s e r q u e a l g u n s s e s i n t a m o f e n d i do s . É u m a a f i r m a t i v a . A s s i m c o m o s im , f a ç o / p o s s o f a z e r / c o m s es s e nt a p o n t a s de

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o u r o / t u a s r e t i c ê n c i a s d e p r a t a. To d as a s p o r t a s e s t ã o a be r t a s .

Q ua n t a as s e r t iv i d ad e . O u nã o h á p o r t a s . Es s a of e ns i v i d a d e ,

e s s a p r ov o c a ç ã o , é u m a c o n s t a n t e n a p o e s i a d o M a x . Po r q u e s o n e g a r u m ge s t o M a x n o e s p a ço n o s s o qu e é d e l e ? S e al g u n s se s e n t ir em o f e n d i d o s , é a í q u e d e m o s c o n t i n u id a de a o g e s t o . Uma e x c l am aç ã o . H á a lg o d e of e n s i v a a r m a d a e m s u a p o e s i a ,

e

n ã o p o d e m o s o c u lt a r i s s o . D e n ó s m es m o s e m p ri m e i r o l u g a r.

N

ã o a c h o qu e p r e c i s a s e r p u b l i c ad o p ar a q ue t odo s o

co n h e ç a m m e l h or, n ã o . M a s s e t em os d e s e j o d e f az ê - l o (p o rq u e a of e n s i v a d e l e, a p i r o t ec n ia d e l e r e s s o a n a no s s a ) , a c h o q u e n ã o p od e m o s n eg a r e s s e n o s s o d e s e j o . M a x t oc a n o m u n d o t a mb é m c o m a s u a a gr e s s i v i d a de .