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Universidade de São Paulo Prof. Dr. João Grandino Rodas Reitor Prof. Dr. Hélio Nogueira da
Universidade de São Paulo
Prof. Dr. João Grandino Rodas Reitor
Prof. Dr. Hélio Nogueira da Cruz Vice-reitor
Instituto de Estudos Brasileiros
Prof.ª Dr.ª Maria Angela Faggin Pereira Leite Diretora
Prof.ª Dr.ª Marina de Mello e Souza Vice-diretora
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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros issn 0020-3874 número 54, 2012 set./mar. Comissão Editorial Annateresa
Revista do Instituto de Estudos Brasileiros
issn 0020-3874
número 54, 2012 set./mar.
Comissão Editorial
Annateresa Fabris (ECA-USP) São Paulo, BR
Fernando Paixão (IEB-USP) São Paulo, BR
Marta Amoroso (FFLCH-USP) São Paulo, BR
Stelio Marras (IEB-USP) São Paulo, BR
Walter Garcia (IEB-USP) São Paulo, BR
Conselho Consultivo
Adrián Gorelik
Universidade Nacional de Quilmes, Bernal, AR
Barbara Weinstein
Universidade de Nova Iorque, Nova Iorque, EUA
Carlos Augusto Calil
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Editor
Fernando Paixão (IEB-USP)
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Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Equipe de apoio
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Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, BR
João Cezar de Castro Rocha
Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, BR
Editoração eletrônica
Karine Tressler (estagiária)
Jorge Coli
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, BR
Luiz Felipe de Alencastro
Colaboraram neste número
Anthony Doyle (tradução para língua inglesa)
Universidade de Paris-Sorbonne, Paris, FR
Manuel Villaverde Cabral
Ieda Lebensztayn (preparação de texto)
Nair Hitomi Kayo (revisão)
Universidade de Lisboa, Lisboa, PT
Maria Cecilia França Lourenço
Projeto gráfico
Homem de Melo & Troia Design
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Maria Ligia Coelho Prado
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Impressão:
Maria Lucia Bastos Kern
Bartira Gráfica
Distribuição:
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto
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Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, BR
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Pontifícia Universidade Católica do Rio/ Instituto Universi-
tário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, BR
Rodolfo Nogueira Coelho de Souza
Instituto de Estudos Brasileiros
Av. Prof. Mello Moraes, travessa 8, 140
Cidade Universitária
05508-030 São Paulo SP
Brasil
(11) 3091 1149
www.ieb.usp.br
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Sergio Miceli
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
Walnice Nogueira Galvão
Universidade de São Paulo, São Paulo, BR
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Sumário 9 Editorial Artigos 13 Arte naquele tempo (Memórias) Antonio Candido 21 Resgate de arquivos:
Sumário
9
Editorial
Artigos
13
Arte naquele tempo (Memórias)
Antonio Candido
21
Resgate de arquivos: o caso Edgard Leuenroth
Walnice Nogueira Galvão
31
Lendo Graciliano Ramos nos Estados Unidos
Darlene J. Sadlier
53
Uma leitura econômica de O cortiço, de Aluísio Azevedo
Vivaldo Andrade dos Santos
67
Literatura e política cultural pelas páginas de Leitura
Cláudia Rio Doce
87
Revisão historiográfica da arte brasileira do século XIX
Sonia Gomes Pereira
107
A música em cena na Belle Époque paulistana
José Geraldo Vinci de Moraes e Denise Sella Fonseca
139
A realidade tropical
Francisco Alambert
151
Roberto Carlos e a identidade brasileira na canção
Acauam Oliveira
Resenhas
177
Os sentidos da etnografia em Câmara Cascudo e Mário de
Andrade
Marta Amoroso
183
Heloisa Pontes, intérprete e intérpretes
Bernardo Fonseca Machado
Documentação
189
Caio Prado Júnior e Os sertões, de Euclides da Cunha
Giovana Beraldi Faviano, Talita Yosioka Collacio, Viviane
Vitor Longo, Alexandre de Freitas Barbosa, Elisabete
Marin Ribas
Notícias
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Seminário Atualidade de Sérgio Buarque de Holanda
199
Critérios para a apresentação e publicação de artigos
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Table of contents 9 Editorial Articles 13 Art Back Then (Memories) Antonio Candido 21 Recovering
Table of contents
9
Editorial
Articles
13
Art Back Then (Memories)
Antonio Candido
21
Recovering Archives: the Case of Edgard Leuenroth
Walnice Nogueira Galvão
31
Reading Graciliano Ramos in the United States
Darlene J. Sadlier
53
An Economic Reading of Aluísio Azevedo’s O Cortiço
Vivaldo Andrade dos Santos
67
Literature and Cultural Policy in the Pages of Leitura
Cláudia Rio Doce
87
Historiographical Revision of 19 th century Brazilian Art
Sonia Gomes Pereira
107
Stage Music During the São Paulo Belle Époque
José Geraldo Vinci de Moraes e Denise Sella Fonseca
139
Tropical Reality
Francisco Alambert
151
Roberto Carlos and Brazilian Identity in Song
Acauam Oliveira
Book reviews
177
The Meanings of Ethnography in Câmara Cascudo and
Mário de Andrade
Marta Amoroso
183
Heloisa Pontes, Interpreter and Interpreters
Bernardo Fonseca Machado
Documents
189
Caio Prado Júnior and Os sertões, by Euclides da Cunha
Giovana Beraldi Faviano, Talita Yosioka Collacio, Viviane
Vitor Longo, Alexandre de Freitas Barbosa, Elisabete
Marin Ribas
News
197
Seminar on the Present Relevance of Sérgio Buarque de
Holanda
199
Instructions to Authors
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E ste número da Revista do IEB dá continuidade à sua

linha multidisciplinar de interesses, apresentando ensaios sobre impor- tantes temas da nossa cultura. Como texto inicial, temos o privilégio de publicar um escrito inédito do prof. Antonio Candido, figura marcante ligada à história do nosso Instituto e desta revista. Invocando recortes de sua memória, em tom pessoal, o autor da Formação da literatura brasi- leira nos oferece um depoimento saboroso e recheado de informações sobre o ambiente das primeiras exposições de arte moderna, que apor- taram em São Paulo por volta das décadas de 1930, 1940 e 1950. No artigo posterior, Walnice Nogueira Galvão (USP) aborda um aspecto caro ao IEB: a preservação documental. Retoma em detalhes a história de incorporação do acervo de Edgard Leuenroth à Unicamp, enquanto fruto da mobilização de vários intelectuais. Em seguida, passamos à literatura. Em “Lendo Graciliano nos EUA”, Darlene J. Sadlier (Indiana University) oferece uma leitura pormenorizada da recepção crítica da obra do escritor alagoano no ambiente acadêmico da América do Norte. Antes de ser aqui publicado, esse estudo ganhou prêmio do Ministério do Exterior do Brasil. No ensaio seguinte, o assunto é Aluísio Azevedo. Mais espe- cificamente o seu romance O cortiço, que é analisado por Vivaldo Andrade dos Santos (Georgetown University) sob a ótica econômica. O autor ressalta o nascimento das formas capitalistas nas relações

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sociais entre os personagens, em consonância com os propósitos esté- ticos do naturalismo. Ainda no campo literário, Cláudia Rio Doce (Unicentro) detém-se na análise da revista Leitura, criada no Rio de Janeiro no início dos anos 1940 com o objetivo de popularizar obras de literatura. A iniciativa, no entanto, revela uma diversidade de posturas ideológicas e artísticas entre os escritores. Já o ensaio de Sonia Gomes Pereira (UFRJ) volta-se para o campo artístico, na passagem entre os séculos XIX e XX. Nele, a autora reflete sobre a transição das artes brasileiras, durante um período importante da nossa história. Nos três artigos seguintes, os temas se voltam para a música. E começa com um estudo de José Geraldo Vinci de Moraes (USP) e Denise Sella Fonseca (USP) sobre “A música em cena na Belle Époque paulis- tana”, com especial atenção para o componente musical presente no “teatro de revista” e congêneres. No texto “A realidade tropical”, entram em cena o desvario tropica- lista e seus representantes maiores, que passam por análise de Francisco Alambert (USP). Por fim, Acauam Oliveira (USP) dedica um ensaio a Roberto Carlos, com o propósito de questionar o sentido de “identidade brasileira” que aparece em suas canções. Em Resenhas, apresentamos desta vez uma seção dupla. Inicial- mente, Marta Amoroso (USP) comenta o livro Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas 1924-1944, organizado pelo nosso colega professor do IEB, Marcos Antonio de Moraes, agraciado com o prestigioso Prêmio Jabuti (2011), na categoria de Teoria/Crítica literária. Em seguida, Bernardo Fonseca Machado (USP) analisa Intérpretes da Metrópole: História Social e relações de gênero no teatro e no campo intelectual, 1940-1968, de Heloisa Pontes. Dois livros de contribuição importante em suas respectivas áreas. Na seção Documentação, trazemos à luz uma carta inédita de Caio Prado Jr., de 1960, em que manifesta seu juízo pessoal sobre a obra Os sertões, de Euclides da Cunha. A correspondência foi suscitada por uma inquirição feita pela Casa Euclidiana, após declaração à imprensa de que as descrições de Euclides eram “falsas”. Em sua resposta, Caio explicita os seus argumentos e formula apreciação sobre a escrita euclidiana. Como vimos, os assuntos diversos deste sumário, permitem a cada leitor fazer o seu roteiro. Começar pelo ensaio mais próximo ao seu inte- resse e seguir adiante. Boa leitura!

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Artigos RIEB54.indb 11 6/13/2012 3:25:39 PM
Artigos
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Arte naquele tempo (Memórias) Antonio Candido 1 Resumo Despertado por recortes de memória, este depoimento
Arte naquele tempo
(Memórias)
Antonio Candido 1
Resumo
Despertado por recortes de memória, este depoimento de Antonio
Candido traz à tona o ambiente de renovação das artes que sucedeu
na cidade de São Paulo – por ocasião da segunda metade dos anos
1930
e nas décadas seguintes. Ao relembrar importantes exposições
ocorridas na capital, o relato evoca os nomes atuantes no período e
a vida social que animava aquele grupo de artistas e intelectuais. A
evocação pessoal, neste caso, coincide com um momento de virada
no gosto estético da época.
Palavras-chave
Vida cultural na cidade de São Paulo, Exposições de arte, anos 1930,
1940
e 1950, renovação artística, memória.
Recebido em 1 o de novembro de 2011
Aprovado em 8 de dezembro de 2011
1
Professor Emérito da FFLCH-USP e doutor honoris causa pela Unicamp. Escritor e
crítico literário de reconhecida atuação intelectual e política, é autor, dentre outras
obras, de Formação da literatura brasileira (Ouro Sobre Azul, 2006).
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Art Back Then (Memories) Antonio Candido Abstract Triggered by jolts of memory, this account by
Art Back Then
(Memories)
Antonio Candido
Abstract
Triggered by jolts of memory, this account by Antonio Candido revi-
sits the atmosphere of artistic renewal that took hold in São Paulo
city in the second half of the 1930s and which extended throughout
subsequent decades. Recalling important exhibitions held in the
city, Candido evokes the main players of the time and the social life
enjoyed by the city’s artists and intellectuals. In this text, a personal
glance back in time coincides with a watershed in the aesthetic taste
of the day.
Keywords
Cultural life in São Paulo city, Art exhibitions, the 1930’s, 40’s and
50’s, artistic renewal, memory.
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É incrível como um jovem de agora dispõe, na cidade

de São Paulo, de oportunidades culturais com as quais nem sonhávamos em nosso tempo. Basta abrir o jornal para ver a quantidade de espetáculos, exposições, concertos, congressos, cursos, conferências, eventos de toda a sorte que povoam a noite e o dia. Um outro mundo, comparado com o que vou evocar, certo de fazer omissões e confusões, porque a memória é um laboratório oculto onde se dão à nossa revelia combinações inesperadas e arbitrárias. É ilusório pensar que seja um depósito ou arquivo, nos quais ficam guardadas as recordações, que podemos retirar e consultar como se reproduzissem exatamente os acontecimentos idos e vividos. Nada disso. No entanto, ela é o recurso de que dispomos para sentirmos a própria iden- tidade e sabermos se ainda somos mesmo nós, na caudal do tempo que nos modifica sem cessar. Dizia Matias Aires há mais de dois séculos e meio:

A cada passo que damos no discurso da vida, imos nascendo de

novo, porque a cada passo imos deixando o que fomos, e come-

çando a ser outros: cada dia nascemos, porque cada dia mudamos,

e quanto mais nascemos desta sorte, tanto mais nos fica perto o fim que nos espera.

Lembrar talvez seja uma tentativa de manter na mão o fio que nos liga a nós mesmos na “sucessividade dos segundos” (Augusto dos Anjos). ***

na “sucessividade dos segundos” (Augusto dos Anjos). *** RIEB54.indb 15 revista ieb n54 2012 set./mar. p.
na “sucessividade dos segundos” (Augusto dos Anjos). *** RIEB54.indb 15 revista ieb n54 2012 set./mar. p.

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Quando vim para São Paulo a fim de estudar, em janeiro de 1936,

a cidade havia ultrapassado um milhão de habitantes, motivo de orgulho

dos paulistanos. (“Vamos passar à frente do Rio!”) A vida artística era insignificante, comparada ao que é hoje, e só me lembro de um museu de arte, a Pinacoteca do Estado, situada num velho prédio da Rua Onze de Agosto, posto abaixo para a construção do Palácio de Justiça. O acervo era de tipo maciçamente conservador e fui lá pelo menos uma vez. Em seguida ela mudou para o prédio do Liceu de Artes e Ofícios, onde está até hoje, e eu a frequentei bastante, porque, ao contrário da minha geração, muito presa ao espírito da então recente Semana de Arte Moderna, sempre me interessei pela pintura brasileira tradicional. Atavismo? Um de meus bisavós maternos era amador de pintura e exerceu de 1874 a 1888, ano de sua morte, o cargo de diretor da Imperial Academia de Belas Artes e da Pinacoteca do Rio de Janeiro. AsexposiçõesnãoeramfrequentesemSãoPauloe,ajulgarporaquelas das quais me lembro, em geral de pintura acadêmica secundária. Não sei se havia muitos locais para elas. Um deles era o Palacete das Arcadas, na Rua Quintino Bocaiuva, numa sala ao fundo do corredor de entrada, onde mais tarde se instalou um cartório. Ali vi mostras de pintores do tempo, mas lembro de poucas, inclusive uma interessante de Helios Seelinger e

outra, ousada para a época, de Hernani de Irajá, médico sexólogo e escritor meio sensacionalista, além de pintor. Era toda composta por nus femininos muito realistas, os primeiros que vi sem a depilação de praxe desde a Anti- guidade. Devia haver outros locais e outras exposições, que não cheguei

a ver ou das quais me esqueci. Mas não esqueci que nas residências onde

havia bons quadros predominavam os de Marques Campão, Clodomiro Amazonas, Tulio Mugnaini, Campos Aires, mestres paulistas acadêmicos que a classe média apreciava. O mais fino, no entanto, era comprar quadros acadêmicos secundários franceses e italianos, de preferência premiados em exposições europeias (como atestavam as plaquinhas na moldura), o que podia ser feito na Galeria Rembrant, na esquina da Rua Barão de Itape- tininga com a Dom José de Barros. Posso dizer que a emoção inicial que tive com a pintura em São Paulo foi o Primeiro Salão de Maio, de 1937, realizado numa grande sala térrea do Hotel Esplanada, atrás do teatro Municipal, mais tarde sede de uma empresa. Era um mundo novo que vinha quebrar a minha rotina, baseada no gesto ortodoxo de meus pais e na experiência precoce em museus europeus. Estive um ano na Europa com minha família do fim de 1928 ao fim de 1929 e nós os visitávamos frequentemente. Como passamos a maior parte do tempo em Paris, era principalmente o do Louvre, perto do qual

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morávamos. Íamos também ao Luxemburgo, que depois deixou de ser museu e naquele tempo abrigava os impressionistas, depois transferidos

para o Jeu de Paume, embora no Louvre houvesse um ou outro quadro deles, como a Olímpia, de Manet, que vi meio espantado e contrastava de maneira gritante com um dos meus prediletos, A fonte, de Ingres. Este legitimava a contemplação do nu feminino graças ao toque de frialdade casta, enquanto Olímpia era agressivo, e por isso não podia decerto ser olhado por um menino com a mesma aprovação dos pais. Essa experiência europeia foi a base remota da minha iniciação na pintura, continuada aqui nos álbuns e catálogos que trouxemos e eu vivia folheando.

O Salão de Maio foi portanto o choque antitético, a iniciação na

arte contemporânea. Havia quadros e esculturas de muitos artistas, alguns bem convencionais, mas o que me fascinou foram sobretudo as obras de dois pintores diferentes e mesmo opostos. De um lado, certa tela de Flávio de Carvalho, representando se bem me lembro uma mulher deitada, cada parte do corpo de cor diferente, em pinceladas sumárias e violentas que pareciam quebrar a continuidade da composição. De outro lado, dois quadros realistas de Carlos Prado, de tema popular, feitos em tons escuros, com belos castanhos e azuis. Nesse Salão fui testemunha de um fato curioso. Bem na entrada havia a estatueta em argila de uma mulher nua, que, quando saí, não tinha mais a cabeça. Ao lado, falava exaltado com os guardas um homenzinho que só mais tarde identifiquei: era Quirino da Silva, mais conhecido como pintor, indignado porque alguém, durante minha visita, tinha cortado a cabeça da escultura com uma bengalada de protesto moralista e conservador…

O Primeiro Salão de Maio revirou minha sensibilidade, o que foi

logo reforçado pela leitura do livro de um futurista italiano, o pintor Gino Severini: Ragionamenti sulle arti figurative. Eu estava fazendo dezenove anos e só então ia entrar na modernidade das artes, superando, mas não anulando a formação precoce de menino que tinha passado na Europa uma temporada cheia de museus, guiado pelos pais segundo o respeito quase religioso pela arte que havia em alguns setores da classe média instruída daquele tempo. Neste sentido, menciono que em setembro de 1929, indo de Berlim a Karlsbad, na então Checoslováquia, onde meu pai participaria de um congresso médico, paramos um dia em Dresden por vontade dele para ver a Madonna Sistina, de Rafael. O quadro ficava numa pequena sala forrada por cortinas pretas de veludo, contra as quais se destacava como objeto de culto, contemplado em silêncio respeitoso. Muito mais tarde, já homem maduro, bem depois da morte de meu pai, entendi o porquê

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dessa visita: a Madonna Sistina era o quadro querido de seu autor predi- leto, Dostoievski, que tinha no escritório uma reprodução dele. A partir de 1940 a experiência reveladora do Salão de Maio se prolongou de certo modo pelas visitas à casa de Oswald de Andrade, onde havia obras de Picasso, Léger, Braque, De Chirico, além de brasileiros, como Tarsila do Amaral e Flávio de Carvalho. Outro ano importante foi 1941. Nele houve a Exposição de Pintura Francesa na Galeria Itá, Rua Barão de Itapetininga, acontecimento extra- ordinário que nos pôs em contato com a pintura de Ingres aos nossos dias. Ela ficou aberta muito tempo, acho que encalhada por causa da guerra, tornando-se ponto de encontro, lugar de conversa e troca de impres- sões. Para mim foi um verdadeiro curso informal, um fator de progresso, porque eu estava vendo de novo, com olhos amadurecidos, um retalho que vira alguns anos antes em Paris com olhar inocente. E tinha muito mais orientação por parte de entendidos, como os meus profes- sores franceses da Faculdade de Filosofia, Giuseppe Ungaretti e amigos competentes, sobretudo Lourival Gomes Machado. Naquele ano esteve aqui o surrealista português Antonio Pedro,

que ficou nosso amigo e preconizava o Dimensionismo, uma espécie de arte total feita pela convergência de todas elas. Além de escritor, era pintor inventivo e arrojado. Nós tínhamos fundado a revista Clima e patrocinamos

a sua exposição, com catálogo prefaciado por Giuseppe Ungaretti. Clima (1941-1944) dava muita atenção à pintura graças ao encar-

regado da seção de arte, o citado Lourival, crítico de muita acuidade, que depois teve papel importante nas Bienais e dirigiu com espírito renovador

a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Por

isso fiquei conhecendo pintores moços cujas obras eram reproduzidas na revista desde o primeiro número. Depois da exposição de Antonio Pedro patrocinamos outra, de um jovem pintor muito versátil, o suíço Jean-Pierre Chabloz, casado com brasileira, que depois se fixou no Brasil e teve ativi-

dade educacional no setor das artes. A partir de certa altura a revista passou

a publicar xilogravuras, não isoladas, mas em sequência e devidas a um só

artista, como se fosse colaboração dele. Publicamos assim: Lívio Abramo, Manoel Martins, Osvaldo Goeldi, Cláudio Abramo, Walter Levy. Naquela altura a vida cultural e artística de São Paulo já era mais intensa do que o momento da minha chegada, ou pelo menos eu estava melhor informado a seu respeito. Havia eventos, concertos, conferên- cias, mostras da produção local recente. Lembro, por exemplo, a Casa

e Jardim, na Rua Barão de Itapetininga, que vendia objetos, quadros,

móveis, mas também realizava conferências e exposições numa sobre- loja. Durante certo tempo esteve exposto nela, à venda, um quadro muito

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bonito de Vlaminck, paisagem de neve que eu namorava e tinha vontade de comprar. O preço não era muito alto, mas, para mim, inacessível. Certo dia, visitando uma exposição não me lembro de quem, encon- trei lá Mário de Andrade e fiquei surpreso com a observação dele, que me parecia negar o que eu supunha ser um dos seus dogmas: o nacionalismo artístico. Eu disse que certo quadro me parecia bom porque “era bem brasileiro”, e ele replicou que pensar assim podia levar à valorização do pitoresco, como se fosse algo exótico para nós mesmos, quando o impor- tante era a fatura. Por falar em Mário, registro que a dele foi a maior coleção parti- cular de arte que vi em São Paulo. Sem contar as esculturas, gravuras, desenhos, ela compreendia dezenas de quadros, quase todos de artistas daqui, salvo exceções, como certo guache onde se via um arlequim, atri- buído a Picasso, e um painel de Lhote, Football, cujo par, Rugby, estava no Museu de Arte Moderna, de Nova York. Representados frequentemente por diversas obras cada um, enchiam as paredes Portinari, Di Caval- canti, Guignard, Anita, Tarsila, Pancetti, Gomide, Cícero Dias, Ismael Nery, Vittorio Gobbis, Rebolo, Clovis Graciano e outros. Em 1942 Alfredo Mesquita fundou na Rua Marconi a Livraria Jaraguá, que se tornou ponto de encontro de intelectuais e artistas. Clovis fazia lá uma espécie de plantão que atraía os colegas, de modo que eram frequentadores muitos dos que enumerei e outros, como Paulo Rossi Osir, grande leitor de Stendhal e Proust. Estava sempre lá, simpá- tico e rabugento, um moldureiro deles, o italiano Tércio. Sobre Clovis cheguei a escrever um artigo, creio que em 1944, a propósito de uma de suas exposições. E certa vez fui ao ateliê de Manoel Martins, na Praça da Sé, com Jorge Amado e seu irmão James. Nesse tempo viveu aqui Emiliano Di Cavalcanti, com quem tive boas relações. Morava no mesmo prédio que Flávio de Carvalho, na esquina da Praça da República com a Barão de Itapetininga, em cujo andar térreo havia o café Nosso Engenho. Di Cavalcanti fez em 1941 ou 1942, na Casa e Jardim, uma palestra interessante sobre a sua vida em Paris. Em 1947 foi ao II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte, como correspon- dente do jornal O Estado de S.Paulo, para o qual executou, a fim de ilustrar as notícias, desenhos retratando os congressistas. O que fez de mim era muito bom, e ele disse que eu poderia buscá-lo em sua casa depois de utili- zado, mas por timidez nunca fui. Certa vez, sabendo que eu admirava muito os seus quadros, mandou dizer que poderia comprar um deles, pagando quando e como quisesse, mas perdi também essa oportunidade. O gesto de Di Cavalcanti mostra como era difícil a vida dos pintores, que não tinham mercado para sobreviver e só podiam dispensá-lo quando

mercado para sobreviver e só podiam dispensá-lo quando RIEB54.indb 19 revista ieb n54 2012 set./mar. p.
mercado para sobreviver e só podiam dispensá-lo quando RIEB54.indb 19 revista ieb n54 2012 set./mar. p.

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eram ricos, como Flávio de Carvalho e Carlos Prado. Por isso acho que quase todos exerciam atividades paralelas. Rebolo, por exemplo, tinha uma empresa de pintura de paredes, e lembro que certa vez fomos conversando no mesmo ônibus até São José dos Campos, onde ele ia empreitar a de uma casa construída por Oscar Niemeyer. Clovis Graciano, do seu lado, negociava com livros raros, enquanto Bonadei desenhava figurinos e Paulo Rossi Osir tinha uma cerâmica. E assim por diante. Esses pintores deviam sentir-se com tão poucas perspectivas de vida material, que a admiração pela sua obra era um conforto e favorecia a generosidade. De fato, estavam dispostos a ceder por muito pouco os seus quadros a amigos que os apreciavam. Só mais tarde, creio que pelo fim dos anos 1950, surgiam marchands empreen- dedores, que inclusive financiavam o trabalho deles. Nos meados do decênio de 1940 foi surgindo uma nova geração, da qual se destacou o Grupo dos 19, que contava com excelentes artistas, entre os quais Maria Leontina, Aldemir Martins, Mário Gruber Correia, Marcelo Grassman. A exposição inaugural foi num salão da Galeria Prestes Maia, que tinha se tornado espaço importante para mostras tanto de acadêmicos quanto de modernos e eu frequentei muito. Pela altura de 1946 houve nela uma exposição tocante, que marcou a volta dos contatos culturais com a França, depois da interrupção da guerra. Eram livros e obras de arte, inclu- sive uma série de tapeçarias de Lurçat. Quanto ao Grupo dos 19, eu me dei com Aldemir Martins e sobretudo Mário Gruber, que durante certo tempo ia pintar na garage de nossa casa, na Aclimação. Ele me deu algumas das suas gravuras iniciais e fez em 1947 um belo retrato a óleo de minha mulher. Mais tarde quis fazer o meu, mas desistiu depois de algumas sessões. Muito interessante, sobretudo inesperado, foi o caso do jornalista Arnaldo Pedroso d’Horta, que de repente, na altura de 1950, aos trinta e cinco anos, começou a fazer desenhos, recortes, gravuras, tornando-se um artista de grande qualidade. Em 1951 fez um bom retrato meu a óleo. O decênio de 1950 começou por uma experiência artística impor- tante: a Primeira Bienal de Arte de São Paulo. Foi nela que vi quadros de pintores abstratos europeus e Lourival Gomes Machado me explicou diante deles a natureza do abstracionismo, abrindo uma província nova na minha experiência. Devo dizer que me sinto bem menos à vontade nela que do que nas anteriores, mas isso seria outra história. O decênio de 1950 viu São Paulo começar a sua perigosa carreira de megalópole, o ritmo da vida mudou, o Centro entrou a se descentralizar, os encontros pessoais que ele enquadrava foram ficando raros e tudo pareceu definir uma nova era, em cuja entrada ponho o ponto final. O que eu quis foi dar uma ideia do que podia ser a expe- riência artística de um rapaz daquele tempo, que para mim é cada vez mais, obviamente, o verdadeiro bom tempo…

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Resgate de arquivos: o caso Edgard Leuenroth Walnice Nogueira Galvão 1 Resumo O resgate de
Resgate de arquivos:
o caso Edgard Leuenroth
Walnice Nogueira Galvão 1
Resumo
O
resgate de arquivos, sobretudo da memória política ameaçada por
ditaduras ou regimes totalitários, é sempre tarefa das mais urgentes.
O
salvamento do Arquivo Edgar Leuenroth, da Universidade Esta-
dual de Campinas, hoje famoso e considerado o mais valioso conjunto
de documentos do movimento operário na fase de implantação do
sindicalismo no Brasil, envolveu muitos intelectuais e instituições.
Vale a pena acompanhar o raciocínio e o percurso de vida daqueles
que perceberam a importância desse acervo e se empenharam em
preservá-lo.
Palavras-chave
Arquivo Edgar Leuenroth – Unicamp, movimento operário,
sindicalismo, acervos documentais.
Recebido em 11 de novembro de 2011
Aprovado em 8 de dezembro de 2011
1
Professora Emérita da FFLCH-USP. Crítica literária e cultural, é estudiosa das
obras de João Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Recebeu em 2009 o Prêmio
da Biblioteca Nacional pelo livro Mínima mímica: Ensaios sobre Guimarães Rosa
(Companhia das Letras, 2009) e, em 2010, publicou Euclidiana: Ensaios sobre Eu-
clides da Cunha (Companhia das Letras, 2009), ganhador de Prêmio da Academia
Brasileira de Letras. E-mail: wngalvao@uol.com.br
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Recovering Archives: the Case of Edgard Leuenroth Walnice Nogueira Galvão Abstract Archival recovery, especially of
Recovering Archives:
the Case of Edgard Leuenroth
Walnice Nogueira Galvão
Abstract
Archival recovery, especially of memory threatened by dictatorships
or totalitarian regimes, is always a pressing task. The recovery of the
Edgar Leuenroth archive at the Universidade Estadual de Campinas,
considered the most valuable set of documents on the workers’ move-
ment during its unionization phase, involved many intellectuals and
institutions. To accompany the reasoning and life-paths of those
who realized the sheer importance of this archive and endeavored to
preserve it is a worthwhile pursuit.
Keywords
Edgar Leuenroth Archive – Unicamp, workers’ movement,
unionism, intellectuals’ archives.
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A proposta inicial de

aquisição dos papéis pessoais de Edgard Leuenroth, como se sabe, visava a preservar a memória do período de formação do proletariado no Brasil, meticulosamente documentada pelo líder da primeira greve geral em 1917. Um tal alvo já era relevante por si só, colocando nosso país no redu- zido cenáculo dos principais centros de documentação operária, inclusive brasileira, em que se destacam o Instituto Internacional de História Social de Amsterdam e mais o Feltrinelli e o Gramsci, ambos na Itália. Poste- riormente à fundação do arquivo que leva o nome do grande militante na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1974, à medida que novas doações foram chegando, os interesses se estenderiam aos movimentos sociais. Foi assim que veio a abrigar materiais relativos ao movimento estudantil, ao homossexual, ao feminista. Entre outros campos dos mais dignos de nota destaca-se o Fundo Ibope, que engloba meio século de pesquisas de opinião (1940-1990). Tem-se especializado no Brasil republicano e na ditadura militar, no âmbito dos quais recebeu os materiais do projeto Brasil Nunca Mais, que reúne testemunhos sobre a tortura. Ao todo, conta hoje com 101 fundos e coleções. Sem dúvida, uma das mais importantes missões culturais em que se possa pensar é a de resgatar bibliotecas e papéis ameaçados de destruição. E não só por causas aleatórias ou catástrofes naturais; mas, especialmente, durante a vigência de regimes totalitários, marcados tanto pelo obscurantismo quanto pela perseguição ao pensamento e às

obscurantismo quanto pela perseguição ao pensamento e às RIEB54.indb 23 revista ieb n54 2012 set./mar. p.
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coisas do espírito. No pós-64, o salvamento dos arquivos de intelectuais de esquerda visados pela ditadura tornou-se tarefa de primeira urgência.

Alguns acervos foram irremediavelmente perdidos, como por exemplo o de Astrojildo Pereira – respeitado intelectual que foi um dos nove funda- dores do Partido Comunista e seu primeiro secretário-geral –, apreendido

e dispersado pela repressão 2 : livros de sua biblioteca foram encontrados em alfarrabistas. Por volta dessa época, certas coleções sobreviveram graças ao interesse de colegas norte-americanos: salvas, felizmente, mas infelizmente expatriadas. E consta que também estavam tentando comprar o arquivo de Leuenroth, pelo qual ofereceram 100 mil dólares, por pouco não tendo levado a melhor. Vamos aqui rememorar as circunstâncias em que os papéis do ilustre anarquista foram parar na Unicamp. Sabemos o quanto foi deci- siva a iniciativa dos professores da casa Michael M. Hall e Paulo Sérgio Pinheiro, com o apoio de Manoel Tosta Berlinck, a partir de uma ideia de constituição de arquivo pregada por Fausto Castilho. Esses nomes ficariam perpetuamente ligados ao feito, empenhando-se junto ao reitor Zeferino Vaz, que encampou a causa. Mais tarde, Marco Aurélio Garcia, regressando do exterior, dirigiria por muitos anos o Arquivo Edgar Leuenroth, de que foi propriamente o consolidador enquanto responsável pelo maior projeto apresentado à Fapesp, destinado a sua organização 3 . Ficaria célebre sua máxima quando consultado se valia ou não a pena integrar mais uma doação: “O céu é o limite”. Sabemos menos dos de fora da casa. É destes que trataremos aqui. Quando familiares de Leuenroth, na pessoa de seu filho Germinal, entraram em contacto com Azis Simão para consultá-lo sobre o salvamento, este procurou Antonio Candido para associá-lo ao projeto. Leuenroth morrera em 1968, justa- mente o ano do AI-5, que fecharia o regime e instituiria o terror de Estado. Seu espólio, depositado num galpão no Brás e conhecido de Michael M. Hall e Paulo Sérgio Pinheiro, corria portanto perigo, e toda

a operação de resgate seria feita na clandestinidade, durante o mais

negro período sob o poder das fardas, o governo Médici. A preocupação era tanta que se temia a possibilidade de um atentado a bomba contra

o galpão. Assim que chegou à Unicamp o riquíssimo material – o mais

2 Restaria alguma coisa para o Instituto que leva seu nome.

3 Ver lista e conteúdo de todos os projetos no site da Unicamp/AEL. O primeiro e marco fundador (1973-1974) é o Projeto de Aquisição apresentado à Fapesp, tendo por respon- sável Manoel Tosta Berlinck. Os avalistas foram Fernando Novais, Ítalo Tronca, Paulo Sérgio de Moraes Sarmento Pinheiro e José Roberto do Amaral Lapa. O recibo da im- portância de Cr$ 40.000,00 foi assinado por Germinal Leuenroth.

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importante do país – trataram de microfilmar tudo, guardando uma cópia nos cofres do Citibank e depositando outra no mencionado Insti- tuto em Amsterdam. A relevância das coleções já era conhecida em círculos seletos da esquerda, e Caio Prado Jr., que cruzara caminhos com Leuenroth nos mesmos cárceres, embora um fosse comunista e o outro anarquista, lhe propusera providenciar abrigo e manutenção por sua conta, sem que a proposta fosse aceita 4 . Azis Simão e Antonio Candido, patronos da proeza e autores do parecer que acompanhou o Projeto de Aquisição pela Unicamp, manifes- taram-se em texto admirável nos circunlóquios impostos pela necessidade de armar uma cortina de fumaça. Tanto que o dono do arquivo é mencio- nado como “humanista” e não como anarquista, o interesse de seus papéis é atribuído a uma generalidade histórica e jamais é mencionada a classe operária ou a formação do proletariado. Assim reza o ofício dirigido ao diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Manoel Tosta Berlinck, membro da conspiração e disposto a ajudar:

Como conhecedores de longa data do Arquivo de Edgard Leuenroth, sabemos que se trata de um dos acervos mais preciosos que há no Brasil para estudo de nossa vida política e social desde o começo do século. Edgard Leuenroth, uma das mais belas figuras de humanista de nosso panorama cultural, reuniu pacientemente durante toda a vida um acervo realmente monumental de documentos impressos, como jornais, folhetos, boletins, etc., não encontráveis noutra parte, através dos quais é possível levantar de maneira cabal alguns aspectos de nossa história recente, que de outro modo ficarão sem o devido apoio documentário. Há já algum tempo, vários intelectuais têm manifestado apreensão pelo destino deste material, cuja dispersão importaria em perda irreparável para a documentação histórica de nosso país. Seria do maior interesse que uma instituição do porte da Universidade de Campinas pudesse mantê-lo íntegro, como fonte de pesquisas no campo das Ciências Humanas.

Assinam Azis Simão e A. C. de Mello e Souza 5 . Velhos amigos e colegas na militância socialista, foram ambos assistentes de Fernando

4 Antonio Candido, comunicação à autora, 22 jul. 2010.

5 O cotejo do datiloscrito atesta proveniência da máquina de escrever de Antonio Candido à época.

da máquina de escrever de Antonio Candido à época. RIEB54.indb 25 revista ieb n54 2012 set./mar.
da máquina de escrever de Antonio Candido à época. RIEB54.indb 25 revista ieb n54 2012 set./mar.

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Azevedo, na cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Azis Simão foi pioneiro no estudo do voto operário, sendo autor do primeiro trabalho universitário de maior envergadura sobre formação do proletariado, Sindicato e Estado 6 , um clássico, tese de livre-docência em Sociologia defendida naquela Faculdade. Militaria à esquerda a vida inteira, primeiro como anarquista, quando fez amizade com Leuenroth, depois no Partido Socialista, onde se inscreveu em 1933, ano da fundação. Participaria da famosa revista de esquerda Problemas e integraria os vários avatares que seu partido assumiu ao sabor das idas e vindas da repressão, em duas ditaduras. Professor de Sociologia a partir de 1950 na mesma casa, manteve por toda a vida a militância e o convívio na área operária – que soube levar para a área universitária –, inspirando dezenas de teses, tão fértil se revelaria o caminho por ele desbravado. Transferiu, o que é raro, sua genuína adesão à causa proletária para seus trabalhos científicos. Como se sabe, aquela que viria a se chamar “escola paulista de Sociologia” privilegiava a pesquisa de campo e de documentos. Sua duradoura amizade com Leuenroth começou nas circunstân- cias que relato a seguir. Com dezessete anos e membro de uma geração extremamente “literária”, ou seja, que lia muita literatura mundial – tanto ficção quanto poesia – fosse qual fosse sua especialidade, fora trabalhar no suplemento literário do São Paulo Jornal. Intitulado “Página Verde e Amarela”, o suplemento era dirigido por Menotti Del Picchia e Cassiano Ricardo, poetas integrantes da elite do Modernismo e criadores do movimento chamado Verdeamarelismo, derivação do Modernismo que guinaria para a direita. Outros, inclusive Oswald de Andrade, que entraria para o Partido Comunista em 1930, guinariam para a esquerda, no divisor de águas que foi, aqui e no mundo, a crise de 1929. Um colega de jornal levou Azis Simão para a celebração do aniver- sário da União dos Trabalhadores Gráficos (UTG), de que era médico seu irmão Aniz Simão, e foi lá que ele e nosso anarquista, tipógrafo, se conheceram e se tornaram amigos. O anarquista, trinta anos mais velho que Azis, pois nascera em 1881, já era, a essa altura, um renomado militante. Como bom anarquista, era contra qualquer organização, seja propriedade, Estado, sindicato. Ele mesmo, no fundo, era um anarcossin- dicalista e, no velho espírito do ativismo libertário, considerava-se aliado

6 SIMÃO, A. Sindicato e Estado: Suas relações na formação do proletariado de São Paulo. São Paulo: Dominus, 1966 e São Paulo: Ática, 1981.

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dos propriamente sindicalistas, sendo companheiro leal dos socialistas, trotskistas e comunistas dissidentes. Azis Simão, nessa fase de sua vida, nos anos 1930, portanto, prati- cava a boêmia modernista, e se tornara amigo chegado de Oswald e de Pagu, criadores do jornal de militância O Homem do Povo, que Azis frequentou e ao qual deu seu apoio. O jornal teria curta vida porque, hostilizado pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, seria objeto de tentativas de depredação e empastelamento, acabando por ser fechado pela polícia (que, naturalmente, visava a proteger os jornalistas…). Ele próprio rememoraria amiúde que frequentava cafés 7 , sendo ali que a camaradagem se desenvolvia. Lugar de convivência intelectual, parte do estilo de vida urbano ocidental nas grandes cidades do mundo, o “café sentado”, como era chamado, seria substituído pela introdução do “café expresso”, tomado de pé no balcão. É reconfortante saber que isso aconteceu em São Paulo mas não no Rio de Janeiro e nas capitais europeias, onde a primeira modalidade, que dá direito a várias horas de posse de uma mesa e à leitura dos jornais do dia mediante o consumo de um mero cafezinho, continua uma instituição. Votado à convivência com os amigos, é portanto um espaço consagrado de sociabilidade, como se pode verificar nos pubs ingleses e nos bistrôs franceses ainda hoje. Vamos encontrar Azis Simão em 1934 como professor da Escola Proletária Paulista, cujos cursos noturnos gratuitos, mantidos pelos sindicatos, eram destinados à educação de adultos. Mas a repressão que se seguiu ao levante comunista de 1935 atingiu todas as facções da esquerda e a escola foi fechada. Dali, Azis transitaria para a recém-fundada Faculdade de Filo- sofia, Ciências e Letras da USP, primeiro como ouvinte e depois como aluno. Ainda nesse decênio participaria da resistência à ditadura Vargas, entrando, ao fim desta, primeiro para a União Democrática Socialista (UDS) e depois para a Esquerda Democrática, frente ampla que ia do centro à esquerda. Em seguida, os socialistas constituiriam o novo Partido Socialista Brasileiro, enquanto os do centro iriam para a União Democrática Nacional (UDN). Azis tornaria a se inscrever e ali conti- nuaria até o partido ser novamente fechado pelo golpe de 1964. Estudaria

7 Entrevista a José Albertino Rodrigues, Portal IBCT/Canal Ciência; ver <http:// www.canalciencia.ibict.br>; SIMÃO, A. Os anarquistas: duas gerações distancia-

das, Tempo Social, revista do Departamento de Sociologia da USP, 1989. CANDIDO,

Antonio. O companheiro Azis Simão. In:

Letras, 1993. CARVALHO, V. M. de; COSTA, V. R. da (orgs.). São Paulo: Cientistas do Brasil. SBPC, 1998.

Recortes. São Paulo: Companhia das

do Brasil. SBPC, 1998. Recortes. São Paulo: Companhia das RIEB54.indb 27 revista ieb n54 2012 set./mar.
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Ciências Sociais e terminaria por definir-se profissionalmente como sociólogo e professor daquela casa. Logo começaria a investigar o proletariado com pesquisa de campo, inicialmente concentrando-se em voto e consciência de classe, algo inédito até então, e terminaria por fixar-se no tema de seu trabalho maior, Sindicato e Estado, sobre a formação do proletariado paulista. Quanto a Antonio Candido, além de tudo o que realizou em várias áreas, gostaria de lembrar aqui o autor de Teresina etc. 8 Também se ligaria

a Leuenroth, mas por outros caminhos. Antes de mudar-se para São Paulo,

quando ainda vivia com os pais em Poços de Caldas, sua mãe se tornara grande amiga de uma vizinha, D. Teresina Carini Rochi. Esta, uma socia- lista histórica, convivera em São Paulo com os principais pioneiros da militância de esquerda na fase de formação da classe operária. Pode-se aquilatar o quanto D. Teresina impressionou o jovem, que escreveria várias vezes sobre ela, começando já em seu segundo livro, O observador literário (1959). A notar que a mais recente edição deste (Ouro sobre Azul, 2004) não traz o texto, avançando a explicação de que tinha sido absor- vido em Teresina etc. Acabaria por dedicar-lhe todo um livro. Era ela uma socialista revolucionária de fortes convicções, que o fez meditar não só sobre as ideias mas também sobre a existência do “ser socialista”. Nesse livro, o autor carinhosamente estudou Teresina, ampliando

o círculo de suas indagações até englobar a geração de militantes, sobre-

tudo italianos, a que ela pertenceu. Reconstituiu, com base no que dela ouviu e em seus papéis, a aldeia em que nasceu e o castelo à sombra do qual foi criada, em Fontanellato, perto de Parma, na Itália, fazendo uma análise das pinturas murais do castelo no intento de restaurar seu ambiente na juventude. E através dela tomaria conhecimento de toda essa constelação, inclusive Leuenroth. A propósito do círculo de italianos militantes de esquerda amigos de Teresina, pode-se falar no sindicalismo revolucionário ítalo-paulista. 9

Esse círculo destacou-se em São Paulo no período, como se sabe marcado por oriundos da península. O destino de quatro de seus mais queridos camaradas é exemplar. Quase todos eram foragidos da Itália, perseguidos por suas posi- ções políticas. São eles Alcibiade Bertolotti, Antonio Piccarolo, Alceste De Ambris e Edmondo Rossoni. Representantes de várias tendências,

8 CANDIDO, Antonio. Teresina etc. 3. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2007.

9 TOLEDO, Edilene. Anarquismo e sindicalismo revolucionário – Trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abra- mo, 2004.

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vivendo e militando no Brasil mas atraídos em maior ou menor grau pela sereia do fascismo e de Mussolini, têm seu percurso definido por uma

decisão que não era fácil de tomar, sobretudo em vista dos tons populares e obreiristas que o fascismo italiano assumiu no início.

O primeiro, Bertolotti, socialista reformista, fundou e dirigiu por

longo tempo o jornal Avanti!, que mantinha em São Paulo o mesmo título

do órgão oficial do Partido Socialista italiano. Combativo, criou livrarias, partidos efêmeros e uma liga de frenteampla de esquerda. Trabalhava em engenharia, que era a sua profissão. E nunca deixou de ser antifascista.

O segundo, Piccarolo, também socialista reformista mas menos

militante, embora integrasse o grupo do jornal Avanti!, teve vasta circu- lação social e prestígio nos meios liberais de São Paulo, tanto intelectuais quanto mundanos. Frequentava o salão da Vila Kyrial de Freitas Valle e fazia conferências na Sociedade de Cultura Artística. Tradutor de Dom Casmurro para o italiano, capitaneou a criação de uma Faculdade Paulista de Letras e Filosofia, que não durou muito, indo depois para a novel Facul- dade de Filosofia da USP e para a Escola Livre de Sociologia e Política. De Ambris, também do grupo do jornal e de ideais políticos próximos, detinha o privilégio de ter um retrato seu pendurado na parede da casa de D. Teresina. Em reprodução, é como o vemos com seu ar de personagem de ópera do Risorgimento, todo em cores escuras, chapéu preto, tremendos bigodes encerados e retorcidos nas pontas. Também ele, como Bertolotti, era foragido político que fora obrigado a deixar a terra natal. Tendo voltado à Itália no primeiro decênio do século, envol- veu-se em greves e ativismo político que o levaram a novamente se exilar no Brasil. Mas pouco depois estava outra vez na Europa, participando em posição destacada como Capo di Cabinetto na aventura de Gabriele D’Annunzio no Fiume e seu golpe de um governo paralelo, logo desarticu- lado por Mussolini. Foi companheiro de viagem dos fascistas nessa fase, e candidato derrotado a deputado, mas acabou se incompatibilizando com eles, desterrando-se mais uma vez, só que na França. Ali liderou campa- nhas antifascistas até morrer e escreveu um livro contra Mussolini. Entre esses italianos amigos próximos de D. Teresina, o de trajetória mais retumbante é Edmondo Rossoni. Eram eles sindicalistas revolucio- nários, fossem mais ou fossem menos reformistas, mas este se destacava por ser o mais aguerrido de todos. De ardente petroleiro libertário que era, panfletário e orador de porta de fábrica, a tal ponto que seria oficialmente banido do Brasil, passaria a fascista entusiasmado, fazendo uma bela carreira depois de voltar à Itália, onde, aproveitando sua experiência em nosso país, organizaria o trabalhismo fascista e o corporativismo. Seria nada menos que ministro de Mussolini, e mais de uma vez.

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Intrigada com as notícias que lhe chegavam de seu antigo compa- nheiro de lutas, D. Teresina escreveu-lhe uma carta para apurar a quantas andava. Recebeu (e guardou) uma resposta de Rossoni que expli- citava tudo e ainda fazia propaganda fascista. Fora de si, mandou-lhe um bilhete lacônico, cortando relações e dizendo apenas: Sei un cane. Quanto ao velho amigo anarquista Edgard Leuenroth, D. Teresina privilegiou as relações entre ambos até sua morte. Antonio Candido o menciona em vários trabalhos, impressionado com sua intransigência política ligada a enorme cordialidade e cortesia. E, ao escrever um comentário sobre as várias acepções do vocábulo “anarquista” e os dife- rentes tipos de ativista que encobriam (aliás, para um número especial da revista Remate de Males da Unicamp 10 ), aproveita para narrar um episódio de que foi testemunha. Estava um grupo reunido na sede do Partido Socialista, em 1948, para comemorar o Primeiro de Maio, numa fase negra para a esquerda, quando qualquer celebração da data estava proibida. Isso se deu após a decretação da ilegalidade do Partido Comunista e a cassação do mandato dos eleitos no pleito que se seguiu à queda da ditadura Vargas. Leuenroth compareceu, pediu a palavra e explicou sua posição, dizendo que, sendo libertário, postava-se contra qualquer partido e contra eleições, mas que, numa data como aquela, sentia-se impelido a procurar a companhia de camaradas de luta, mesmo com essas discordâncias que lealmente queria expor. Essa era a têmpera dos velhos militantes, e desse modo foi natural que dois deles, já de outra geração, Azis Simão e Antonio Candido, patro- cinassem a ida para a Unicamp dos papéis de alguém que respeitavam e admiravam. Tentei costurar os retalhos dessa passagem, para mostrar por que vias ela se fez. De modo que, desde a pessoa de Leuenroth através de sua amizade com aqueles dois que se tornariam mais conhecidos pela produção intelectual, foi imperativo o encaminhamento dessa suma de experiências da esquerda para o arquivo que leva seu nome e guarda a curadoria do acervo na Unicamp.

10 “Sobre a retidão”, recolhido em seu livro Recortes. op. cit.

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Lendo Graciliano Ramos nos Estados Unidos 1 Darlene J. Sadlier 2 Resumo Os estudos sobre
Lendo Graciliano Ramos nos Estados
Unidos 1
Darlene J. Sadlier 2
Resumo
Os estudos sobre a obra de Graciliano Ramos têm abordado nume-
rosos aspectos, e não há dúvida de que seus livros despertam interesse
permanente entre os críticos norte-americanos. Contudo, apesar do
volume substancial de ensaios acadêmicos sobre a obra do autor
alagoano, não existe um estudo centrado na história de sua recepção
crítica nos Estados Unidos – assunto de que trata o presente ensaio.
Tal discussão revela momentos históricos definidores, bem como
tendências ideológicas e formações culturais que têm influenciado a
maneira pela qual a crítica daquele país seleciona, lê e escreve sobre
a literatura de outras regiões.
Palavras-chave
Graciliano Ramos, crítica norte-americana, Estados Unidos,
tradução, romance brasileiro, literatura comparada.
Recebido em 5 de agosto de 2011
Aprovado em 8 de dezembro de 2011
1 Tradução revista por Dra. Leila Gouvêa.
2 Professora na Indiana University, Bloomington, EUA. E-mail: sadlier@indiana.edu
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Reading Graciliano Ramos in the United States Darlene J. Sadlier Abstract Studies of the work
Reading Graciliano Ramos in the United
States
Darlene J. Sadlier
Abstract
Studies of the work of Graciliano Ramos have approached numerous
aspects of his oeuvre, and there can be no doubt that his books have
stirred a lasting interest among North-American critics. However,
despite the substantial volume of academic essays on this Alagoan
author, no study covers the history of his critical reception in The
United States – a situation the present article hopes to redress. A
discussion of this topic raises defining historical moments, as well
as ideological persuasions and cultural backgrounds that have
influenced the way US critics select, read and write about literature
from other regions.
Keywords
Graciliano Ramos, North-American criticism, The United States,
translation, the Brazilian novel, comparative literature.
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G raciliano Ramos começou a receber atenção da crítica

nos Estados Unidos nos anos que antecederam e sucederam a Segunda Guerra Mundial, quando estudiosos elogiaram a fluidez de seu estilo narrativo, a penetração de sua visão social e a representação comovente, em seus livros, de um povo pouco conhecido do Nordeste brasileiro. Desde então, a avaliação e a estima da obra de Graciliano junto à crítica cresceram nos EUA, e de tal maneira que algumas das imagens literárias mais poderosas e duradouras que alguns norte-americanos guardam do Brasil podem ser atribuídas às paisagens austeras e às extraordinárias personagens do autor. Os estudos críticos sobre a obra de Graciliano têm abordado numerosos aspectos, e não há dúvida de que seus livros terão um interesse permanente entre estudiosos norte-americanos. Contudo, apesar do volume substancial de ensaios acadêmicos sobre a obra do autor alagoano, não existe um estudo centrado na história de sua recepção crítica nos EUA – assunto que será o enfoque deste ensaio. Tal discussão será útil porque pode revelar momentos históricos defini- dores e, também, tendências ideológicas e formações culturais que têm influenciado a maneira pela qual, nós, estudiosos, selecionamos, lemos e escrevemos sobre literatura de outros países.

lemos e escrevemos sobre literatura de outros países. RIEB54.indb 33 revista ieb n54 2012 set./mar. p.
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Graciliano e as relações culturais nos anos da “boa vizinhança”

Embora notícias bibliográficas sobre as obras de Graciliano apare- cessem nas revistas acadêmicas Books Abroad e Handbook of Latin American Studies desde os meados e fins da década de 1930, foi apenas em 1940, quando o ensaio de Samuel Putnam intitulado “The Brazilian social novel (1935-1940)” apareceu em The Inter-American Quarterly 3 , que sua reputação literária nos EUA começou a emergir. Estudioso de literatura e admirador de Machado de Assis e Euclides da Cunha, Putnam escrevia também para The Daily Worker, órgão oficial do Partido Comunista dos EUA – entidade legal no país. De fato, parte expressiva da cultura inte- lectual norte-americana dos anos de 1930 era de tendência radical ou esquerdista, de uma ou outra forma. Em seu ensaio sobre o romance social, Putnam reserva à obra de Graciliano a sua apreciação mais alta:

É do campo considerável da escrita regionalista que emerge um talento impressionante na pessoa de Graciliano Ramos, cuja repu- tação foi estabelecida definitivamente com Angústia de 1936 (seu

livro São Bernardo apareceu dois anos antes). Angústia é notável pelo uso que faz do monólogo interior, à la Joyce, aplicado a um tema social; mas é com seu livro Vidas secas, de 1938, que Ramos começa a revelar plenamente essas potencialidades, que já deram oportunidade a comparações entre ele e Gogol, Gorki e outros

Ele escreve sobre a alma humana submetida à

realistas russos

servidão; suas paisagens, como suas personagens, são secas; e seu

método é como aquele do vivisseccionista social-literário. Como Lins do Rego, o lugar ficcional de seus livros é seu Nordeste nativo, mas as telas de Graciliano são muito menores, mais concentradas, e isso lhes dá maior intensidade e efetividade. Os críticos cariocas dizem que Vidas secas não atinge a qualidade de Angústia, mas,

na minha opinião (

é um marco miliário no progresso de um

escritor de quem há muito a esperar nos anos futuros. 4

),

The Inter-American Quarterly foi uma das primeiras revistas especificamente dedicadas à literatura, história e artes das três Américas, e o ensaio de Putnam apareceu quase no mesmo momento

3 PUTNAM, Samuel. The Brazilian social novel (1935-1940). The Inter-American Quarterly, p. 5-12, 1940.

4 Idem, ibidem, p. 11-12.

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em que o presidente Franklin D. Roosevelt criou o Office of the Coordi- nator of Inter-American Affairs (CIAA), agência cujo objetivo principal era fortalecer as relações culturais entre os EUA e a América Latina antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Os EUA se interessavam pelo Brasil, sobretudo em razão de seu tamanho geográfico, recursos naturais e posição estratégica no Atlântico. Por esse motivo, o CIAA investiu em intercâmbios culturais entre os dois países, financiando publicações como The Inter-American Quarterly e encorajando tradu- ções em inglês de autores brasileiros. É importante observar que o crítico Putnam não era propriamente um defensor desse programa governamental. Note-se, por exemplo, que ele não menciona nenhum escritor norte-americano com relação a Graciliano, passando rapidamente às suas afinidades com o moder- nismo europeu, sobretudo com Joyce e os que cultivaram o monologue intérieur, para enfatizar o quanto o romance Vidas secas pode ser lido em termos do realismo socialista soviético. A comparação que Putnam formula entre Graciliano e Gogol é reveladora da tendência de dar mais valor à obra de um autor russo de meados do século XIX – mesmo tratan- do-se de um russo quase desprovido de verdadeira experiência da vida provinciana, a qual imaginava tão brilhantemente – do que à obra de uma figura vanguardista como Joyce, fruto mais direto da observação e, sem dúvida, mais “real”. As posições políticas de Putnam, que traduziu Os sertões e Casa grande e senzala para o inglês, não preocupavam os funcionários do período denominado New Deal por Roosevelt. Ele se tornou um embaixador de “boa vizinhança” no Brasil e um entusiasta de Graciliano – a tal ponto que, quando o editor nova-iorquino Alfred A. Knopf lhe pediu sugestões de títulos latino-americanos para incluir em sua notável “Série Borzoi”, de traduções, Angústia foi a única reco- mendação de Putnam 5 . Dois anos depois da edição de seu ensaio de 1940, Putnam publicou um longo e provocativo artigo intitulado “Brazi- lian Culture under Vargas”, na revista esquerdista Science and Society 6 . Reiterava, aí, sua admiração pela extraordinária agudeza literária de Graciliano e conjeturava que o emprego do “fluxo de consciência” e do dialeto regional em sua escrita servia principalmente para confundir os censores do DIP, e mascarar uma implícita crítica social. Putnam revelava-se cético quanto à imagem de ditador benévolo que se fazia de

5 Traduzido como Anguish por L. C. Kaplan, o romance recebeu excelentes resenhas depois do lançamento em 1946. (Cf. RAMOS, Graciliano. Anguish. Trad. L. C. Ka- plan. New York: Alfred A. Knopf, 1946).

6 PUTNAM, Samuel. Brazilian culture under Vargas. Science and Society, p. 34-56,

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Vargas nos EUA, e argumentava que o encarceramento de Graciliano pelo DIP, em 1935, o tornara mais cauteloso e indireto, inclinado a evitar problemas, o que levou o escritor a “mascarar” sua ficção com uma técnica modernista difícil – avaliação que, como veremos, seria mais tarde contestada por ao menos um outro crítico. Putnam e Knopf não eram os únicos a promover Graciliano Ramos durante os anos da política de boa vizinhança. Ensinando na Universi- dade da Califórnia, Erico Verissimo publicou um opúsculo em inglês, intitulado Brazilian literature: An outline (1945), no qual minimizava a importância dos autores nordestinos, ao mesmo tempo em que elogiava Graciliano como “um dos mais sólidos e profundos escritores brasi- leiros de hoje” 7 . Verissimo também aludia às injustiças sofridas pelo escritor alagoano nas mãos do DIP, que transformaram o autor na pessoa “sombria” que escreveu livros “amargos”. Ao contrário de Putnam, Verissimo não se refere diretamente à prisão de Graciliano, provavel- mente porque Vargas ainda estava no poder e qualquer crítica explícita ao regime poderia ter repercussões para um brasileiro que então plane- java regressar a seu país. E contrapondo-se à avaliação de Putnam sobre Angústia, Verissimo não viu nada suficientemente psicológico na ficção de Graciliano para justificar uma comparação com “um Joyce, um Proust, ou um Mauriac” 8 . Em vez disso, ele comparou o escritor com Erskine Caldwell e James T. Farrell, romancistas norte-americanos que se encontravam então no mais alto de sua fama como autores esquer- distas de ficção naturalista e autores, respectivamente, de Tobacco road, que retrata a vida dos lavradores no Sul empobrecido, e da trilogia de Studs Lonigan, que descreve a comunidade de imigrantes irlandeses em uma Chicago industrializada. A evocação por Verissimo de tais figuras serviu para enfatizar o realismo áspero e local e, de certa maneira, a visão política de Graciliano Ramos. Hoje, parece significativo que Verissimo tenha deixado de mencionar William Faulkner, na verdade um autor muito mais interes- sante para se comparar com o escritor brasileiro, e que viria depois a se tornar, efetivamente, um nome frequente nos estudos literários compa- rados de Graciliano. O renome de Faulkner ainda não estava plenamente estabelecido nos EUA quando Verissmo publicou seu livro, mas qualquer crítico disposto a valorizar o modernismo literário poderia ter notado que ambos, Faulkner e Graciliano, voltavam-se para uma sociedade

7 VERISSIMO, Erico. Brazilian literature: An outline. New York: Macmillan Com- pany, 1945. p. 152-153.

8 Idem, ibidem, p. 152.

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quase feudal, a qual representavam mediante uma moderna e idiossin- crática técnica narrativa.

A Guerra Fria e os estudos de Literatura Comparada nos EUA

É sempre arriscado generalizar, mas o fim da década de 1940 e os

primeiros anos de 1950 foram marcados por ao menos dois eventos socio- políticos que influenciaram a crítica literária do período. O primeiro foi

a Guerra Fria, que começou oficialmente em 1948, com a declaração

de Winston Churchill sobre uma “cortina de ferro” que descia sobre

a Europa. Logo se seguiram o bloqueio britânico, o começo da guerra

na Coreia, a aprovação da Lei Taft-Hartley pelo Congresso dos EUA (que baniu os sindicatos comunistas e exigiu juramento de lealdade dos funcionários governamentais) e um Red Scare (medo dos comunistas), que afetaram toda a produção cultural no país. Segundo, e quase coin- cidentemente, o ensino universitário se tornou muito mais acessível; durante a década de 1950, houve um apreciável crescimento da crítica acadêmica, grande parte da qual, ao contrário das duas décadas ante- riores, de caráter esteticista e formalista. A “Nova Crítica” ascendia no período, e departamentos de literatura comparada, em sua maioria focados na produção da Europa Ocidental, foram criados nas institui- ções de maior relevo. Nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, referências a Graciliano apareceram no Charts of Brazilian litera- ture (1947), de Joseph Newhall Lincoln, que foi a primeira bibliografia importante da literatura brasileira publicada nos EUA. Discordando da avaliação de Erico Verissimo sobre o restante da literatura nordestina do Brasil, Lincoln comentou brevemente as “afinidades estilísticas” entre

Graciliano, Proust e Joyce 9 . Suas observações repetem a avaliação ante- rior do Putnam, fundamentada em sua familiaridade com traduções de importantes autores europeus. Mas, diversamente de Putnam e também de Verissimo, Lincoln evitou qualquer comparação entre Graciliano e os realistas-sociais russos ou os realistas-esquerdistas norte-ameri- canos. Já em fins dos anos 1940, era possível constatar uma divisão de caráter ideológico na crítica a Graciliano Ramos nos EUA, entre os que consideravam sua obra em termos do realismo social e, de outro lado, os

9 LINCOLN, Joseph Newall. Charts of Brazilian literature. Ann Arbor, Michigan:

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1947. p. 66.

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que preferiam enfatizar suas ligações com o Modernismo – divisão que continua a nortear sua recepção até hoje.

A antiga esquerda não emudeceu completamente durante esse

período. Em 1948, dois anos antes de seu falecimento, Putnam publicou Marvelous journey: A survey of four centuries of Brazilian writing 10 , até

hoje uma das mais informativas histórias da literatura brasileira em inglês. Nesse livro, Putnam articula uma preocupação sobre o futuro das relações culturais interamericanas e da mudança do foco polí- tico norte--americano para a Europa. Uma das perguntas que propõe

aos leitores é se Graciliano e outros autores brasileiros continuariam

a ser lidos e traduzidos nos EUA. Talvez em decorrência da ansiedade

suscitada por essa dúvida, em Marvelous journey Putnam faz várias referências a Graciliano e ao modernismo literário. Também chama a atenção para aquilo que denomina o “novo regionalismo”, expressão que ele usa em referência aos assuntos que então atraíam os escritores nordestinos e formavam a base do livro Brazil: An interpretation (1945),

de Gilberto Freyre 11 , comentado por Putnam. Este ensaísta reservava atenção especial às implicações revolucionárias da obra de Graciliano

e às dificuldades inerentes de escrever sobre o fascismo – ideias que ele apresentou inicialmente em seu artigo “Brazilian culture under Vargas” (ver nota 5). Preocupava-se consideravelmente também com o fato de haver, naquele momento, apenas três ou quatro traduções de autores brasileiros nas livrarias. Ao mesmo tempo, evitou uma perspectiva pessimista, elogiando Angústia como uma obra original e magistral que “não poderia ter sido produzida em qualquer outro país, ou em qualquer outra época no Brasil” 12 .

Se Putnam foi o maior responsável por chamar a atenção da crítica

para Graciliano nos EUA, Ralph Edward Dimmick formulou uma estru- tura mais teórica para a contextualização da obra do escritor. O estudo de Dimmick, “The Brazilian literary generation of 1930”, publicado em 1951 13 , foi lido largamente por especialistas acadêmicos e acatado como um meio de classificar a escola “regionalista” descrita por Putnam. Quando o ensaio de Dimmick apareceu, havia um enfoque crítico em voga nos EUA que se chamava “geracional”. Em sua maior parte, os

10 PUTNAM, Samuel. Marvelous journey: A survey of four centuries of Brazilian wri- ting. New York: Alfred A. Knopf, 1948.

11 FREYRE, Gilberto. Brazil: An interpretation. New York: Alfred A. Knopf, 1945.

12 PUTNAM, Samuel. Marvelous journey: a survey of four centuries of Brazilian wri- ting. op. cit. p. 216.

13 DIMMICK, Ralph Edward. The Brazilian literary generation of 1930. Hispania 43, 2. p. 181-187, maio 1951.

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métodos deste enfoque foram importados da Alemanha, onde se havia adotado uma forma algo seca e enciclopédica. Dimmick se inspirou no ensaio seminal “Die literarischen Generationen”, do teórico alemão

Julius Petersen 14 , e pôs em relevo seis requisitos para a classificação geracional: proximidade de idade, semelhança de educação, contato pessoal entre os indivíduos, exposição mútua a um evento histórico (no caso brasileiro, a Revolução de Outubro de 1930), um impacto tangível na consciência nacional e uma linguagem comum.

A metodologia de Petersen foi questionada mais tarde, entre outros,

por Raymond Williams 15 , cujo conceito de frações culturais remete a uma sociologia com maior nuance e a um modo mais complexo de compre- ender a formação de classe social. Sem embargo, Dimmick nos chama

a atenção para um número significativo de escritores brasileiros talen-

tosos, incluindo Graciliano e Amando Fontes, que começaram a publicar nos anos 1930 e compartilhavam certas características. Embora a ênfase de Dimmick recaísse no aspecto geracional, e não nos indivíduos, ele destacou Graciliano, observando que, apesar de ter recebido menor quan- tidade de educação formal, foi o mais admirado pelos críticos no Brasil 16 .

O ensaio de Dimmick serviu também, e talvez inconscientemente, a um

propósito relevante na maioria dos escritos sobre as gerações ou escolas:

conferiu capital cultural a certos escritores menores, ao mesmo tempo em que elevou a reputação de Graciliano como o escritor mais significa- tivo de um importante movimento.

A ênfase de Dimmick no romance de protesto social brasileiro abriu

caminho para o estudo seminal de Fred P. Ellison, Brazil’s new novel:

Four Northeastern masters (1954) 17 , que contém capítulos sobre Graci- liano, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego. Publicado pela editora da Universidade da Califórnia, o livro suscitou entusiasmo nas academias em relação a este grupo de escritores, a quem foi dado um tipo de rótulo ou marca comercial. Segundo Ellison, os romances desses autores eram regionalmente focados, socialmente comprometidos, formalmente cativantes e singularmente influentes na vida intelectual brasileira. Porém, em sua análise de Graciliano e de outros, ele rejeita claramente o termo “regional”, utilizado com frequência para descrever

14 PETERSEN, Julius. Die litearischen Generationen. Berlin: Junker und Dünnhaupt,

1930.

15 WILLIAMS, Raymond. Culture. Great Britain: Fontana, 1981.

16 DIMMICK, Ralph Edward. op. cit. p. 182.

17 ELLISON, Fred P. Brazil’s new novel: Four Northeastern masters. Los Angeles: Uni- versity of California Press, 1954.

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a nova ficção nordestina, preferindo a classificação mais atraente e

modernista de “novo”. A leitura sensível e cronológica de Graciliano por Ellison, que examina cada um de seus livros, desde Caetés até Infância, abre uma janela para a análise do desenvolvimento do escritor, e constitui um depoimento de sua posição a respeito de assuntos como a luta de classes

sociais, a injustiça social e a pobreza. Ellison se estende sobre os prota- gonistas masculinos nos romances, cujas inseguranças pessoais e obsessões, além das experiências com a pobreza, os conduzem à cólera, ao assassinato e à loucura. Inadvertido da reação da Nova Crítica contra a análise biográfica, ou simplesmente desconsiderando-a, Ellison aprofunda a análise das semelhanças entre as experiências do menino Graciliano e as de seu protagonista ficcional, Luís da Silva, em Angústia. Chega até a descrever Angústia como um roman à clef,

e enfatiza ao longo de todo o seu estudo a natureza autobiográfica da

pobreza, das iniquidades sociais e do desespero pessoal, que aparecem em outros romances. Ao mesmo tempo, tenta dissociar Graciliano de qualquer tendência política em particular. Apesar das óbvias posições esquerdistas do escritor alagoano, Ellison comenta que “nada em [sua] obra serviria diretamente como propaganda política” 18 . Esse foi um argumento típico da época da Guerra Fria, e seria repetido e mesmo rejeitado por outros críticos nos anos posteriores. Brazil’s new novel é o primeiro estudo em inglês a destacar a recepção de Graciliano no Brasil, além de alguns aspectos filosóficos e formais já observados pelos críticos brasileiros, os quais trouxeram o estudo de Graciliano à órbita da história literária nos EUA. O ensaio cita, entre outros, Floriano Gonçalves 19 , que escreveu sobre o naturalismo e determinismo de Graciliano; Osório Borba 20 , que focalizou sua versão estilizada da fala sertaneja; e Guilherme de Figueiredo 21 , que abordou seu enfoque “matemático” da linguagem. Ele diverge fortemente da avaliação de Putnam de que o monólogo interior e outros artifícios formais teriam sido a maneira de Graciliano mascarar suas preocupações sociais e polí- ticas. Para Ellison, o estilo do autor alagoano não era um subterfúgio, senão uma estratégia artística propositada e “um método engenhoso

18 Idem, ibidem, p. 116.

19 GONÇALVES, Floriano. Graciliano Ramos e o romance: Ensaio de interpretação. In: RAMOS, Graciliano. Caetés. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937.

20 BORBA, José Osório de Morais. A comédia literária. Rio de Janeiro: Alba Editora,

1946.

21 FIGUEIREDO, Guilherme de. Alguns romances de ’38. Anuário brasileiro de litera- tura, 1939. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1939.

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de combinar o social com o filosófico” 22 . Em conclusão, o estudioso nos alerta para a tendência de Graciliano Ramos de adaptar técnicas formais associadas com o conto, sobretudo em Vidas secas, em que uma narra- tiva unificada emerge de uma série de retratos psicológicos autônomos – incluindo o retrato da cachorra Baleia, que se tornaria uma das figuras mais conhecidas da literatura brasileira.

O crescimento do interesse pelo português e Graciliano no sistema escolar dos EUA

O conflito dos superpoderes durante a Guerra Fria foi acompa- nhado por um espírito de internacionalismo nos EUA. Por razões de segurança nacional, surgiu a necessidade de se manter o país informado sobre as diferentes regiões e línguas do mundo. Em 1958, após o lança- mento soviético do Sputnik, o governo norte-americano fez aprovar o National Defense Education Act Title VI, a fim de apoiar o estudo de línguas estrangeiras e a formação de centros de pesquisas regionais nas universidades. O estudo do Português recebeu fundos e, pelo país inteiro, foram criados institutos para o estudo do Brasil e da América Latina. Três anos mais tarde, em 1961, o Congresso aprovou a Lei Fulbright- Hays, que subsidiava a pesquisa de alunos de pós-graduação no Brasil e em países do mundo inteiro. Ao final da década de 1970, Graciliano foi tema de quatro teses de doutorado 23 , e surgiram três novas traduções em inglês de seus livros 24 , além de uma bibliografia anotada, numerosos ensaios e o livro de Richard A. Mazzara, Graciliano Ramos 25 .

22 ELLISON, Fred P. Brazil’s new novel: Four Northeastern masters. op. cit. p. 41.

23 Vejam-se as teses: COURTEAU, Joanna. The world view in the novels of Graciliano Ramos. Tese (Doutorado em Português), University of Wisconsin, 1971; GUEDES, Bernadette. A translation of Graciliano Ramos’ Caetés. Tese (Doutorado em Portu- guês) University of South Carolina, 1976; OLIVEIRA, Celso Lemos de. A translation of Graciliano Ramos’ Childhood. Tese (Doutorado em Literaturas Românicas), University of Michigan, 1977; HARMON, Ronald Max. The conveyance of ideology through style in the novels of Graciliano Ramos. Tese (Doutorado em Português), University of California, 1978.

24 RAMOS, Graciliano. Barren Lives. Trad. Ralph Edward Dimmick. Austin: University of Texas Press, 1965; Childhood. Trad. Celso de Oliveira. London: Peter Owen, 1979; São Bernardo. Trad. R. L. Scott-Buccleuch. New York: Taplinger Publishing Co., 1979.

25 Cf. CUNHA, Antonio C. R. Graciliano Ramos: an annotated bibliography. San Diego State College, 1970; HARMON, Ronald M. Symbolism in Graciliano Ramos’ Angústia. Proceedings: Pacific-Northwest Council on Foreign Languages 29, 1, p. 100-103, 1978; MAZARRA, Richard A. Graciliano Ramos. New York: Twayne Publishers, Inc., 1974.

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Nos anos 1960 e 1970, os EUA também viveram um intenso período de turbulência política. Foi o período do movimento pelos direitos civis, dos assassinatos de John F. Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King; dos protestos estudantis contra a guerra do Vietnã; e do escândalo de Watergate e do impeachment de Richard Nixon. A maioria dos acadêmicos nos EUA era de tendência liberal-esquerdista e, em conformidade com o clima político, vários estudos sobre Graciliano se dedicaram aos temas da injustiça social, da inquietação política e da luta pelos valores democrá- ticos. Entre eles, incluem-se os ensaios de Maria Isabel Abreu (“O protesto social na obra de Graciliano Ramos”) 26 e de Russell Hamilton (“Character and idea in Graciliano Ramos”) 27 . Outras publicações, como o ensaio “Pessimism in Graciliano Ramos”, de Marie Sovereign 28 , focalizaram o tom sombrio, o determinismo social e a representação do sofrimento humano. Em decorrência da ascensão dos estudos sobre teoria e crítica marxista na Academia, a comparação feita por Putnam, em 1940, entre Graciliano e os escritores russos ganhou nova importância, embora este ensaísta nem sempre recebesse crédito pela comparação. Por exemplo, no prólogo de sua tradução de Vidas secas (1965), Ralph Dimmick comenta que Graciliano leu não só Zola, Eça e Balzac, mas também traduções em português de Gorki e Dostoievski 29 . Durante a década de 1960, ao menos dois ensaios propuseram que Graciliano fosse lido como um escritor social-realista, e que o romance Vidas secas seria, em última análise (embora talvez só implicitamente), otimista a respeito da resistência e da sobrevivência humanas 30 . Em meados da década de 1970, seus romances constituíram leituras obri- gatórias para os estudantes nos programas de Português, e os artigos sobre os romances focalizaram quase exclusivamente sua contun- dente crítica social. Mas esse tipo compromissado de leituras, que se tornaram comuns, foi refutado por Jon S. Vincent, num artigo intitu-

26 ABREU, Maria Isabel. O protesto social na obra de Graciliano Ramos. Hispania 48, 4. p. 850-855, dez. 1965.

27 HAMILTON, Russell. Character and idea in Ramos’ Vidas secas. Luso-Brazilian Review 5, 1, verão 1968. p. 86-92.

28 SOVEREIGN, Marie L. Pessimism in Graciliano Ramos. Luso-Brazilian Review 7, 1 p. 57-63, verão 1970.

29 Cf. Introduction by Ralph Edward Dimmick. In: RAMOS, Graciliano. Barren Lives. op. cit. p. xi.

30 Vejam-se, por exemplo, MAZZARA, Richard A. New perspectives on Graciliano Ramos. Luso-Brazilian Review 5, 1, p. 93-100, verão 1968; e HAMILTON, Russell Character and idea in Graciliano Ramos’ Vidas secas. Luso-Brazilian Review 5, 1, verão 1968. p. 86-92.

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lado “Dialectics of defeat” (1976) 31 . Ele começa expressando dúvida (à la Raymond Williams) em relação à uniformidade daquilo que Dimmick chamou a “Geração de 1930”, e à noção largamente aceita de que os romances nordestinos consistiam, antes de mais nada, em denúncia de uma classe social hegemônica e em uma chamada para a revolução. Vincent escreve:

Creio que a interpretação dos quatro romances de Ramos

como tratados políticos sobre o colapso da sociedade burguesa é uma injustiça, uma deformação artificial e redutora da verda- deira singularidade estética dos romances em questão, algo como querer provar que a trilogia de Tolkien seja uma alegoria da Segunda Guerra Mundial – tudo muito interessante, mas não muito produtivo, nem especialmente ilustrativo. Se há um certo encanto pitoresco nesse tipo de exercício, há também uma inerente e desafortunada inclinação que relega a experiência do romance a uma posição terciária, nele centrando-se apenas como um depoimento ou persuasão. 32

) (

O título do ensaio de Vincent, “A dialética da derrota”, se refere à inércia entorpecida e ao desespero das personagens que não têm saída, nas quais cada pensamento é seguido por um pensamento nega- tivo contraditório e cada ação esperançosa é logo bloqueada. Embora divirja das interpretações sociopolíticas prevalecentes, Vincent também evoca as observações gerais desse autor sobre a intensidade psicológica das pequenas telas humanas de Graciliano e seu enfoque modernista do mundo interior do sertão, onde as personagens “secas” lutam contra uma servidão humana insuperável, em certa medida, interna. Vincent argumenta que a predominância da psicologia sobre o enredo e o tempo cronológico ou empírico em Vidas secas são prova de um tipo diferente de romance, que mais se assemelha aos experimentos modernistas inspi- rados pela filosofia de Henri Bergson. Para Vincent, o discurso indireto livre de Graciliano resulta em personagens altamente individualizadas, completamente diferentes dos estereótipos heroicos ou tipos coletivos que se encontram no romance radical dos anos 1930. Embora concorde que personagens como Fabiano e Sinha Vitória são vítimas da sociedade, ele

31 VINCENT, Jon S. The dialectics of defeat. In: MARTINS, Heitor (ed.). The Brazilian novel. Luso-Brazilian Literary Series, vol. 1. Bloomington: Department of Spanish and Portuguese, 1976. p. 43-58.

32 Idem, ibidem, p. 44.

and Portuguese, 1976. p. 43-58. 32 Idem, ibidem, p. 44. RIEB54.indb 43 revista ieb n54 2012
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rejeita a noção de que suas lutas têm ativas implicações políticas: “Ao contrário das personagens convencionais, eles não têm sucesso nem planejam um futuro, [ou] a salvação através de um sistema alternativo de valores. Por isso, a organização social ideal é construída não como um imperativo, mas como uma impossibilidade” 33 . Obviamente, essa avaliação vai contra a corrente das leituras utópico-esquerdistas de

Putnam e outros críticos do livro. Vincent conclui que a estrutura circular de Vidas secas faz deste romance o menos otimista de Graciliano. “[A] ideia de ‘se realizar’”, ele escreve, “é negada pela inevitabilidade de se

e Ramos não oferece nenhuma indicação de que haja qualquer

possibilidade de fugir desse ciclo inexorável” 34 . A Nova Crítica, na prática ainda uma escola residual nos EUA, ganhou certo apoio indireto na década de 1970. No ensaio de 1972, “The language of Vidas secas35 , Dorothy M. Atkinson enfatizou a economia linguística do romance, em vez de sua política, e focalizou o emprego repetido em Graciliano de certas frases e palavras-chave. Em conjunção com o discurso indireto livre, ela demonstra que o aspecto textual “seco” da obra cria uma ideia de isolamento das personagens, incluindo suas lutas com palavras e sua pobreza cultural. Atkinson nota que entre as palavras mais repetidas no texto estão os substantivos que se referem ao corpo, como “cabeça” e “olho”, e os verbos “ver” e “olhar”. Se essa frequente repetição de “ver” no romance sugere alguma coisa, ela argu- menta, é talvez uma ênfase no aspecto exterior ou físico das personagens e suas ações, cujas complexidades psicológicas resultam em problemas para os retirantes. Em seu ensaio, Atkinson faz ainda uma leitura semió- tica e teatral, que se concentra na representação ou performance das referências textuais à comunicação não verbal:

repetir

Um sacudir da cabeça, o fechar dos olhos, um movimento da mão podem ter tanto significado como o gesto correspondente de um ator no palco ao propor a definição da personagem, e nos ajudar a entrar em seus pensamentos e sentimentos. O leitor atento notará que a cabeça pode ser sacudida de várias diferentes maneiras. Pode-se visualizar as diferenças minuciosas entre “agitar a cabeça”, “balançar a cabeça”, sacudir a cabeça? 36

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33 Idem, ibidem, p. 48.

34 Idem, ibidem, p. 53.

35 ATKINSON, Dorothy M. The language of Vidas secas. In:

; CLARKE, Anthony

H. (eds.). Hispanic studies in honour of Joseph Manson. Oxford: Dolphin Book Co., 1972. p. 9-20.

36 Idem, ibidem, p. 11.

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Talvez a revelação mais interessante no estudo de Atkinson seja

a de que, das trinta e nove ocorrências da palavra “dizer” no romance,

apenas uma é usada para introduzir a fala direta. Em todos os outros casos usa-se a palavra em frases como “para bem dizer”, que se refere àquilo que uma personagem pensa que diria, mas é incapaz de articular. A volta da crítica literária na direção oposta ao ativismo social pode ser vista no livro Graciliano Ramos (1974), de Richard Mazzara. Aqui, certos atributos ou aspectos hipotéticos da obra de Graciliano são separados em categorias distintas, incluindo títulos de capítulos como “O sociólogo-psicólogo”, “O psicólogo-estilista” e “O artista-filósofo” 37 . A

contribuição mais original do estudo é a discussão de Insônia (1947) e certas semelhanças entre suas narrativas curtas e os romances do autor:

os registros, o recurso ao monólogo interior, as atmosferas inquietantes

e retratos de personagens incapacitadas ou empobrecidas. Mazzara

argumenta que os protagonistas de Graciliano funcionam à ordem de um “Todomundo”. Seu enfoque, que se mostra implicitamente conser- vador, considera Graciliano como um escritor preocupado com valores humanos universais, e não com um conflito social determinado.

Vidas secas

Fredric Jameson observou que um dos sintomas da cultura pós- -moderna é a emergência de “Teoria” na Academia – um fenômeno que se tornou evidente nos departamentos de literatura dos EUA em fins da década de 1970 e nos anos de 1980, paradoxalmente num momento em que toda a política nacional se virava para a direita. Durante esse período, o amplo interesse pela teoria literária europeia, e sobretudo pela teoria da tradução literária, deu mais visibilidade e força aos programas de literatura comparada. 38 Houve também uma multiplicação nos programas dedicados ao estudo das diferentes regiões geográficas, a maioria dos quais preocupada com teorias de nacionalidade e política da identidade. Os estudos da mulher e também os de cinema se tornaram elementos importantes no currículo universitário, e a pesquisa da lite- ratura passou a ser relativamente descentralizada. Teve então início o questionamento sobre os cânones, e o conceito de literatura nacional foi

37 MAZARRA, Richard A. Graciliano Ramos. op. cit.

38 Ver, por exemplo: LEE, Cremilda Toledo. John Steinbeck, Graciliano Ramos and Jorge Amado: A comparative study. Tese (Doutorado em Literatura Comparada). Texas Tech University, 1981.

em Literatura Comparada). Texas Tech University, 1981. RIEB54.indb 45 revista ieb n54 2012 set./mar. p. 31-52
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associado a certo imperialismo cultural. Nos anos 1990, com a emer- gência dos estudos culturais, todos os paradigmas culturais da década anterior e todas as divisões departamentais pareciam a ponto de dar lugar a um interesse geral pela sociologia da cultura, concebida em sentido mais amplo e antropológico. Mas essas explorações constituíam apenas tendências. Os depar- tamentos acadêmicos mais antigos conservaram-se mais ou menos intactos, e as formas tradicionais e a crítica ou história literária não foram abandonadas. Certas tendências surtiram mais efeito do que outras. No último quartel do século XX, programas de estudos começaram a olhar para trás, para os anos da “boa vizinhança”, como inspiração para uma pesquisa renovada, baseada nas relações EUA-América Latina, e o estudo de escritores brasileiros e hispano-americanos passou a enfa- tizar com maior frequência a análise comparativa com importantes escritores norte-americanos. No caso de Graciliano, estes incluíam Steinbeck, Dos Passos 39 e, talvez o mais significativo, Faulkner. Em termos gerais, a ênfase teórica nos sistemas de linguagem e a crítica da representação realista convencional abriram caminho a uma reabili- tação do modernismo literário pela nova esquerda. O livro de Graciliano que recebeu maior atenção nesse período foi Vidas secas. Romance brilhante e relativamente breve, era útil para qualquer professor interessado em apresentar o autor alagoano num curso introdutório ou no contexto da literatura comparada 40 . Na tradução de sua importante tese de doutoramento (1986), Hermenêutica & litera- tura: Um estudo de As I lay dying, de William Faulkner, e Vidas secas, de Graciliano Ramos (2003) 41 , Nelson Cerqueira analisa o problema do destino da família de retirantes e investe contra críticos, como Vincent, que escreveram sobre sua “estrutura fechada” e conclusão pessimista. Ele se mostra de acordo com os críticos Roberto Ballalai e José Alves, que defendem que Vidas secas contém, no final, uma perspectiva que sugere

39 Cf. VIEIRA, David J. Wastelands and Backlands: John Dos Passos’ Manhattan Transfer and Graciliano Ramos’ Angústia. Hispania 67, 3, p. 377-82, set. 1984.

40 Cf. GOLDIN, David A. O homem cortês: The role of Seu Tomás da Bolandeira in

Vidas secas. Luso-Brazilian Review 20, 2, p. 213-222, inverno 1983; OLIVEIRA, Cel- so de. Understanding Graciliano Ramos. Columbia: University of South Carolina Press, 1988; HARMON, Ronald M. Angústia e Zero. Hispania 73, 1, p. 66-71, mar.

1990.

41 CERQUEIRA, Nelson. Hermeneutics and Literature: A study of William Faulkner’s As I lay dying and Graciliano Ramos’ Vidas secas. Tese (Doutorado em Literatura Comparada), Indiana University, 1986; Hermenêutica & literatura: Um estudo de As I lay dying, de William Faulkner, e Vidas secas de Graciliano Ramos. Trad. Yvenio Azevedo. Bahia: Editora Cara, 2003.

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a esperança. Para Cerqueira, o aspecto fundamental é o contraste entre “Mudança” e “Fuga”, o primeiro e o último capítulos do romance. Ele chama a atenção para as diferenças etimológicas dos títulos, conside- rando que “mudança” enfatiza um movimento aleatório de um lugar para outro, enquanto “fuga” denota a evasão de um perigo. Salienta, ainda, que a família não tem nenhum objetivo em “Mudança”, enquanto em “Fuga” a família está se movendo na direção do Sul ou da cidade, embora os retirantes se mostrem incapazes de articular seu exato destino 42 . Cerqueira repara também que, diferentemente do primeiro capítulo, no qual Fabiano e Sinha Vitória quase não falam um com o outro, o último os mostra falando sobre a educação dos filhos e a possibilidade de uma vida melhor. O principal assunto tratado em Hermenêutica & literatura, que consiste no primeiro importante estudo comparativo entre Graciliano e Faulkner, é a semelhança de seus temas e estratégias formais. Cerqueira propõe que ambos os escritores criam uma “dialética de substância e processo” ao contrapor sistematicamente as palavras ou pensamentos das personagens às suas ações. O estudioso também observa correta- mente que a maioria dos ensaios sobre Vidas secas nos EUA tem a ver com sua representação realista da cultura nordestina e sua crítica social, enquanto os estudos de As I lay dying focalizam invariavelmente o uso que Faulkner fez de mito, simbolismo religioso e temas existenciais. Pode-se acrescentar que, com poucas exceções, os críticos nos EUA seguiram uma bem-estabelecida tradição de considerar Graciliano não como um modernista, mas sim como um representante do regionalismo, do “romance social” e da “geração de 1930” 43 . Nesta época alguns estudos de Vidas secas se dedicaram a pesquisar suas conexões temáticas e estilísticas com Os sertões 44 . Num artigo intitulado “Euclides disseminado: Vidas secas de Graciliano Ramos” (1989) 45 , Leopoldo Bernucci argumenta que, em decorrência da penúria metatextual, ou falta de comentário do escritor sobre seus romances, os críticos têm especulado sobre a influência de outros

42 Idem, ibidem, p. 87. Cf. também: CERQUEIRA, Nelson. Vidas secas: A deconstruc- table narrative?. Chiricú 3, 1, p. 57-81, 1982.

43 Outros exemplos dessa tendência crítica são os estudos “Vidas secas, de Graciliano Ramos (1973)”, de Frederick Williams, e “Symbolism in Graciliano Ramos’ Angús- tia” (1978), de Ronald Harmon.

44 CUNHA, Euclides da. Os sertões. 15 . ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, P. de Aze- vedo e Cia., 1940.

45 BERNUCCI, Leopoldo. Euclides disseminado: Vidas secas de Graciliano Ramos. Luso-Brazilian Review 26, 1, p.1-14, verão 1989.

Ramos. Luso-Brazilian Review 26, 1, p.1-14, verão 1989. RIEB54.indb 47 revista ieb n54 2012 set./mar. p.
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autores. Bernucci cita Clara Ramos 46 , que menciona o fato de Graciliano ter apreciado Zola e Eça de Queirós. Com base nisso, o crítico argu- menta que, apesar de sua linguagem e espírito modernista, Graciliano era, a seu modo, um “neonaturalista” e que Vidas secas tem maior afini- dade com Os sertões do que com os romances “regionalistas” dos anos 1930. Bernucci também nos lembra de que o discurso indireto livre foi bastante usado nos romances naturalistas do século XIX. A diferença que deve ser observada, porém, é que Graciliano retrata com sofisti- cação os pensamentos de personagens que quase não dispõem de talento verbal – um detalhe estilístico que Bernucci identifica como uma das características mais atraentes e desafiadoras do livro. Bernucci não é o primeiro crítico a ver ressonâncias de Os sertões em Vidas secas, mas, em seu entusiasmo de mostrar essa ligação, procura dar prova de semelhanças exatas entre os dois livros. Por exemplo, cita os trechos seguintes para ilustrar como “as relações fiéis com o patrão” são representadas:

(Vidas secas) “Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orellha de um cabrito47 .

(Os sertões) “Se é uma vaca e dá cria, ele a ferra com o mesmo sinal desconhecido, que reproduz com perfeição admirável; e assim pratica com toda a descendência daquela. De quatro em quatro bezerros, porém, separa um para si. É a sua paga” 48 .

Embora esses excertos revelem semelhanças, deve-se notar que há também diferenças importantes entre eles. Euclides da Cunha dá ênfase ao talento do vaqueiro em marcar os animais, habilidade que passa de uma geração a outra. A palavra “porém” na última oração introduz algo positivo, no sentido de que o talento do vaqueiro permite-lhe separar um animal de cada quatro como pagamento pelo seu trabalho. No trecho de Vidas secas, a palavra “Mas”, cuja função gramatical é semelhante a “porém”, indica falta de direito de propriedade da terra, fato que impede

46 RAMOS, Clara. Mestre Graciliano: Confirmação humana de uma obra. Rio de Ja- neiro: Civilização Brasileira, 1979.

47 RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1980. p. 92.

48 CUNHA, Euclides. Os sertões. Edição crítica. São Paulo: Ática, 1985. p. 186.

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Fabiano de marcar animais para si mesmo. Esta falta é consistente com outras no romance: falta de dinheiro que Fabiano perde no jogo; falta de honra quando ele é chicoteado e encarcerado; falta de alojamento e cavalo quando a seca volta outra vez.

Graciliano sobre Graciliano

Desde fins da década de 1980, críticos nos EUA têm-se engajado em debates teóricos sobre a natureza do sujeito-falante na literatura de testemunho e na autobiografia, ou life writing em geral. Isso tem impactado também os estudos sobre Graciliano, com um acréscimo no número de publicações acerca de Infância e Memórias do cárcere, livros raramente abordados nas décadas anteriores. O estudo da obra autobio- gráfica do autor alagoano começou com o ensaio “Graciliano Ramos’

memoirs”, de Celso de Oliveira 49 . Embora não considere aspectos teóricos importantes, levantados por críticos como John Paul Eakin ou Eliane Zagury, os quais questionam a relação entre autobiografia e ficção, Oliveira faz várias observações interessantes. Seguindo ideias presentes no volume de Assis Brasil, Graciliano Ramos (1969) 50 , Oliveira chama a atenção para a opção do escritor de estruturar Infância à moda de conto ou formato episódico, como em Vidas secas. Trata também da representação engenhosa de percepções sensoriais em Infância, um texto que combina imagens auditivas, visuais e táteis numa sinestesia prosaica. Talvez o ponto mais importante levantado por Oliveira tenha

a ver com o tema da memória. Reconhecendo a influência de Du côté

de chez Swann , de Proust, Oliveira se pergunta se Infância (e a auto- biografia em geral) é realmente sobre o objeto de uma lembrança (uma pessoa ou experiência), ou, antes, sobre a cópia de um objeto que deriva

do discurso 51 . Destaca o reaparecimento de certas imagens-chave, como

a cama de couro, associada com Seu Tomás em Vidas secas, e mais

tarde com os avós em Infância, e sugere que as fronteiras entre ficção e

memória autobiográfica talvez não sejam tão claras como parecem ser. No final, Oliveira considera que Infância é uma obra híbrida (como toda narrativa, talvez), na qual o “eu” autobiográfico de Graciliano reflete sobre um povo e um mundo prefigurados em seus romances.

49 OLIVEIRA, Celso de. Graciliano Ramos’ memoirs. Arizona Quarterly 42, 1, p. 17-30, primavera 1986.

50 BRASIL, Assis. Graciliano Ramos: Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões,

Ramos : Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões, RIEB54.indb 1969. 51 OLIVEIRA, Celso de. op. cit.
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51 OLIVEIRA, Celso de. op. cit. p. 27.

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O estudo de narrativas autobiográficas que enfocam opressão social ou política tem suscitado bom número de ensaios sobre as diferentes formas da literatura de testemunho, sobretudo as memórias de cárcere. No artigo “The odyssey of a humanist”, publicado no Journal of Evolutio- nary Psychology (1987) 52 , Richard Mazzara mostra-se menos preocupado com a política de Memórias do cárcere do que com os assuntos morais e éticos que decorrem de um confinamento imposto. Tais assuntos emergem parcialmente das interações entre Graciliano e os outros prisioneiros, com diferentes posições políticas, profissionais ou sociais. (Embora não

o diga especificamente, deve-se notar que o ponto de vista de Graciliano

em Memórias é panóptico; isto é, ele vê centenas de prisioneiros-cama-

radas, relata seus nomes e histórias e, no processo, torna essas histórias individuais uma parte de sua própria narrativa). Mazzara observa que Graciliano mantém sua humanidade apesar do sistema inumano da prisão. Mas o sistema em Memórias do cárcere apresenta várias faces ines- peradas: mesmo Alfeu, o guarda brutal na colônia penal, aceita, embora com certo ressentimento, a recusa de Graciliano ao convite para escrever um texto de apresentação para celebrar a chegada do diretor da prisão.

A inabilidade de prever a reação e a psicologia humanas é central nas

memórias de Graciliano. Como ele demonstra em seus romances, mesmo as pessoas mais humildes e inarticuladas têm pensamentos complexos

e, às vezes, contraditórios. Mazzara defende que Graciliano sobrevive na

prisão graças ao vínculo especial que mantém com os outros prisioneiros, apesar das barreiras convencionais de política, raça, religião ou classe social. Esse vínculo talvez explique por que os leitores se identificam, em certo nível, com sua luta e com a luta ficcional de uma família remota de retirantes, e mesmo com os sonhos de uma cachorra. No ensaio “Memórias do cárcere: Between history and imagination” (1999), Joanna Courteau trata do problema do sujeito em autobiografia. “O autor que escreve um roteiro memorialista”, observa, “tem que realizar um duplo ato em que ele é, ao mesmo tempo, um e outro, o sujeito e o objeto da narração, simultaneamente o narrado e o narrador, o ‘eu’ no papel (Barthes) e o ‘eu’ histórico” 53 . Ela baseia seu argumento no conceito de Lacan do “sujeito significador” e suas características psicanalíticas:

aphanisis, ou a tradução de uma experiência histórica em linguagem (no caso de Graciliano, prisão>memórias>narrativa); autonomasis, ou a

52 MAZARRA, Richard A. The odyssey of a humanist: Graciliano Ramos’ Memórias do cárcere. Journal of Evolutionary Psychology 8, 1-2, p. 128-135, 1987.

53 COURTEAU, Joanna. Memórias do cárcere: Between history and imagination. His- pania 83, 1, p. 49-55, mar. 1999. p. 49.

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substituição metonímica/metafórica de um nome (o nome de Graciliano

é substituído por 3535, seu número como prisioneiro); e o reflexo no

espelho, ou o meio pelo qual o imaginário reflete a história (o discurso narrativo expõe o horror da prisão, mas a representação simbólica protege o narrador da experiência direta do evento). Courteau também considera que o sujeito de Graciliano é um ser ético cujo desejo de simbolizar a história é governado por preocupações morais. Embora essa asserção (ou aphanisis) seja apenas vagamente debatida, ela induz a ensaísta a concluir que as memórias de Graciliano representam a “agência efetiva do sujeito humano” 54 .

A relação entre ética e autobiografia é mais desenvolvida em “The ethical self in Graciliano Ramos’ Infância” (2005), de Sabrina

Karpa-Wilson 55 . O argumento desse artigo é uma variação do que foi desenvolvido por Eliane Zagury em A escrita do eu (1982) 56 , segundo

o qual Infância é um texto construído intelectualmente e foi escrito

com o propósito de denunciar o sistema educacional do Nordeste. Em geral, Karpa-Wilson concorda com a ideia de Zagury, mas vê a denúncia apenas como parte de um projeto maior de Graciliano, o de “criar uma história coerente do desenvolvimento individual e ético” 57 . Karpa-Wilson baseia seu argumento no que ela entende como um alto grau de seleção e interpretação das experiências lembradas, que criam um “desenho” moral preconcebido 58 . Esse desenho é mediado pelo “eu” do narrador adulto, que, ao contrário do “eu” do protagonista-menino, questiona as noções tradicionais de identidade, daí resultando certo entendimento das experiências do menino enquanto lições morais. Um de seus exemplos é o capítulo intitulado “Um cinturão”, que descreve uma surra que o pai de Graciliano lhe deu por um ato que não fez. O capí- tulo começa e termina com a afirmação de que esse episódio consistiu em sua primeira experiência com a “justiça”. Karpa-Wilson mostra como uma lembrança construída por meios literários pode tornar-se a fonte não só de uma crítica ao passado, mas também de maior reflexão sobre a lição aprendida em relação a experiências posteriores. Em síntese, o estudo de Karpa-Wilson aborda a diferença entre escritores como José Lins do Rego e Cyro dos Anjos, cuja obra memoria-

54 Idem, ibidem, p. 50-51.

55 KARPA-WILSON, Sabrina. The ethical self in Graciliano Ramos’ Infância. Luso- -Brazilian Review 42, 1, p. 154-178, 2005.

56 ZAGURY, Eliane. A escrita do eu. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

57 KARPA-WILSON, Sabrina. op. cit. p. 155.

58 Idem, ibidem, p. 156.

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lística revela uma nostalgia daquilo que Roberto Reis 59 chama de “cena senhorial” ou passado patriarcal, e a de Graciliano, cujas memórias expõem o chauvinismo e a brutalidade do patriarcado. Segundo Karpa- Wilson, Infância é obra complexa demais em sua recriação da juventude e da viagem rumo à iluminação pessoal para ser lida como nostalgia do passado 60 . A estudiosa demonstra, efetivamente, que o retrato do artista quando jovem em Infância é muito mais sutil e psicologicamente complexo do que a maioria das narrativas autobiográficas; e que sua estrutura episódica, na tradição de muita literatura romântica e moder- nista, oferece epifanias de maravilhas e dificuldades da infância no Brasil rural.

Graciliano e o cinema

A obra de Graciliano continua a ser estudada em cursos de lite- ratura e de cultura, e a adaptação de Vidas secas por Nelson Pereira dos Santos, recentemente restaurada, serve para examinar mais detalhada- mente a obra clássica do alagoano 61 . Não há dúvida de que a incorporação de filmes como Vidas secas, São Bernardo e Memórias do cárcere em cursos de cinema e de literatura e adaptação está chamando a atenção de uma nova geração de estudantes universitários nos EUA para os livros de Graciliano e para uma região que ainda transpassa e continua asso- ciada ao célebre escritor.

59 REIS, Roberto. A permanência do círculo: Hierarquia no romance brasileiro. Nite- rói: EdUFF, 1987.

60 KARPA-WILSON, Sabrina. op. cit. p. 173.

61 Ver, por exemplo, os estudos críticos de Randal Johnson e de Darlene J. Sadlier so- bre as adaptações de Vidas secas e Memórias do cárcere: JOHNSON, Randal. Vidas secas and the politics of filmic adaptation. Ideologies & Literatures 3, 15, p. 3-18, jan.- mar. 1981; SADLIER, Darlene J. Nelson Pereira dos Santos. Chicago: University of Illinois Press, 2003.

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Uma leitura econômica de O cortiço, de Aluísio Azevedo Vivaldo Andrade dos Santos 1 e
Uma leitura econômica de O cortiço,
de Aluísio Azevedo
Vivaldo Andrade dos Santos 1 e 2
Resumo
O ensaio faz uma releitura do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo,
a partir da nova crítica econômica que tem despontado no campo da
literatura nas últimas décadas. Interessa, em particular, trazer à luz o
tema do desenvolvimento capitalista na ficção naturalista, de fins do
século XIX, para pensar o momento atual da crise econômica contem-
porânea, que se deu em 2008, e cujo impacto ainda está presente
entre nós. Destaca-se, neste ensaio, o tema da avareza, da ética, da
confiança e da especulação – itens fundamentais na formação moral
do personagem João Romão, enquanto parte de um projeto capita-
lista, impulsionador em simultâneo do projeto de modernidade.
Palavras-chave
Aluísio Azevedo, O cortiço, crítica econômica, dinheiro, capital,
marxismo, naturalismo, ética, modernidade.
Recebido em 11 de outubro de 2011
Aprovado em 8 de dezembro de 2011
1 Professor associado de Literatura Brasileira, Georgetown University. E-mail:
vas2@georgetown.edu
2 Agradeço à Profa. Doutora Isabel Capeloa Gil e ao CECC – Centro de Estudos de
Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa o convite para par-
ticipar do congresso The Cultural Life of Money (2009), para o qual escrevi uma
versão inicial deste ensaio, e por me permitirem submetê-lo para publicação, na
sua forma traduzida, para a Revista do IEB.
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An Economic Reading of Aluísio Azevedo’s O Cortiço Vivaldo Andrade dos Santos Abstract This essay
An Economic Reading of Aluísio
Azevedo’s O Cortiço
Vivaldo Andrade dos Santos
Abstract
This essay reexamines the novel O cortiço [The Slum], by Aluísio
Azevedo, considering the new economic criticism, which has
emerged in the field of literary studies in the last decades. The
author of the article is interested in shedding light to the theme of
capitalism development in the naturalist fiction, of the end of XIX
century, to reflect on the present economical crisis that took place
in 2008, and from which our society is still suffering its impact. The
essay focuses on fundamental principles to the development of the
novel’s main character, João Romão, such as greed, ethics, trust,
speculation, as part of a capitalist project, tied at the same time, to a
project of modernity.
Keywords
Aluísio Azevedo, O cortiço, economical criticism, money, capital,
Marxism, ethics, naturalism, modernity.
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A O dinheiro é a essência alienada do

trabalho e da existência do homem;

esta essência domina-o e ele pres-

ta-lhe culto e adoração.

Karl Marx

primeira grande crise

econômica do século XXI, que aconteceu no ano de 2008, trouxe de volta à cena a importância da economia na nossa vida cotidiana. A crise tem sido extraordinária, considerando-se o momento na história quando ela acon- teceu e a dimensão dos seus efeitos, numa sociedade pós-industrial e num mundo contemporâneo globalizado. Na dinâmica do capitalismo o caráter extraordinário da crise é natural. A história do capitalismo mostra-nos como as crises econômicas forçam uma mudança e um reajuste nas práticas financeiras em vista do capital 3 . Do mesmo modo, a relação entre literatura e economia também não é novidade, como, talvez, um congresso interdisci- plinar organizado em torno do tema do dinheiro, para o qual este artigo foi

escrito, possa sugerir 4 . Há um pouco mais de dez anos, Mark Osteen e Martha Woodmansee, professores de departamentos de Língua Inglesa, publicaram The new economic criticism: Studies at the intersection of literature and economics (1999) 5 . Os organizadores do livro ressaltam um novo surgimento de uma

3 Ver a discussão sobre o tema em KINDLEBERGER, Charles Poor. Manias, panics and cra- shes: A history of financial crises. Hoboken, N. J.: John Wiley & Sons, 2005.

4 Congresso The Cultural Life of Money, organizado pela Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 12-13 nov. 2009.

5 A semente do projeto nasceu de uma mesa sobre economia e literatura apresentada em 1991 durante o congresso da Midwest Modern Language Association (MMLA), seguido de um congresso sobre o mesmo tema, que deu origem a este livro.

congresso sobre o mesmo tema, que deu origem a este livro. RIEB54.indb 55 revista ieb n54
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crítica econômica no campo intelectual dos anos 1990, uma continuação do que começou ao redor do final dos anos 1970 e começo dos anos 1980.

A assim chamada Nova crítica econômica [The new economic criticism]

estava ligada a um campo de pesquisa da crítica interessado em estudar

a relação entre literatura, cultura e economia. De acordo com Osteen e

Woodmansee, a explicação para o surgimento deste campo de pesquisa dentro dos estudos literários tem várias razões, principalmente: 1) a volta a uma abordagem historicista, distante da desconstrução, semiótica, e as tendências formalistas tradicionais que imperaram nos anos 1970 e começo dos anos 1980; 2) a crise na indústria editorial acadêmica e a procura por novas abordagens teóricas; 3) o influxo dos estudos culturais e sua ênfase em métodos de interdisciplinaridade, incluindo, neste caso, o trabalho dos economistas; 4) o lugar da economia na sociedade, tendo início nos anos 1980, acompanhado das discussões sobre bolsa de valores, juros, títulos, especulação, e assim por diante – os quais não se tinham observado em

nossa sociedade desde a década de 1930 6 .

A dinâmica do capital

Este artigo analisa a visão do dinheiro e a dinâmica do capitalismo

no romance O cortiço, de Aluísio Azevedo 7 . Em resumo, o romance conta

a história de João Romão, imigrante português avarento que herda uma

pequena venda, compra uma pequena propriedade de terra e constrói um cortiço que começa a crescer dia após dia no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. A história de João Romão está ligada à do cortiço e às vidas dos seus habitantes. O romance de Azevedo deve ao naturalismo do século

6 OSTEEN, Mark.; WOODMANSEE, Martha. The new economic criticism: Studies at the in- tersection of literature and economics. London: Routledge, 1999. p. 3-4.

7 AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Martins, 1967. A maioria dos estudos sobre o O cortiço analisam a obra a partir da estética naturalista do período. O brilhante artigo de Antonio Candido, “De cortiço a cortiço”, no qual o crítico faz uma leitura do romance como uma alegoria da sociedade brasileira no século XIX, é um dos primeiros estudos a ressaltar a questão econômica no romance de Azevedo. De acordo com o crítico, “Daí a pertinência com que Aluísio escolheu para objeto a acumulação do capital a partir das suas fases mais modestas e primárias, situando-a em relação estreita com a natureza física, já obliterada no mundo europeu do trabalho urbano. No seu romance o enrique- cimento é feito à custa da exploração brutal do trabalho servil, da renda imobiliária ar- rancada do pobre, da usura e até do roubo puro e simples, constituindo o que se poderia qualificar de primitivismo econômico” (CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. Novos Estudos CEBRAP 30, 1991. p. 113. Também no livro O discurso e a cidade. Rio de Janeiro:

Ouro sobre Azul, 2004). Um segundo artigo, ainda no prelo, trata do tema do capital no romance: “Zola in Rio de Janeiro: The production of space in Aluísio Azevedo’s O corti- ço” (Portuguese Studies 26:2, forthcoming, 2010), de Lúcia Sá – a quem sou imensamente grato por sua generosidade em compartilhá-lo comigo para este ensaio.

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XIX, estética que procurou aplicar os princípios científicos à literatura. O cortiço, altamente influenciado pela obra de Émile Zola, procura provar que todo indivíduo é governado pelos instintos e paixões, bem como seu caráter e moral são definidos pelo instinto hereditário e pelo meio ambiente no qual ele vive 8 . O cortiço conta a história de João Romão e sua ambição de enri- quecer. No romance, João Romão é um personagem para quem nenhuma concepção ética ou moral impede seu desejo de acumulação capitalista. Depois de trabalhar desde os 13 até os 25 anos para um vendeiro no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, que lhe deixou, após se aposentar, para compensar os anos de pagamentos atrasados, a venda e um conto e quinhentos em dinheiro, João Romão:

Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego (…). 9

A cena inicial do romance de Azevedo antecipa ao leitor o que seria

a motivação da vida de João Romão. Mais do que qualquer descrição física,

a primeira apresentação do protagonista do romance é sua pulsão mental:

sua mania por ser rico, seu “delírio de enriquecer”. No universo de João Romão, toda ação visa ao crescimento econômico, no qual o dinheiro é o único objeto de desejo. De fato, acumulação equipara-se a privação: “aper- tando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações”. Privação traduz-se em ascetismo, como observa Marx, “The cult of money has its asceticism, its self-denial, its self-sacrifice – economy and frugality, contempt for mundane, temporal and fleeting pleasures; the

chase after the eternal treasure10 . A procura do “tesouro eterno” que o dinheiro representa no romance traduz-se não somente na privação indi- vidual das coisas materiais ou em trabalhar sete dias por semana (“como uma junta de bois” 11 com sua sócia-esposa, negra e ex-escrava Bertoleza), mas até mesmo em furtos e roubos:

8 Ver CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. op. cit.; e SÁ, Lúcia. Zola in Rio de Janeiro:

The production of space in Aluísio Azevedo’s O cortiço. op. cit.

9 AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. op. cit. p. 19.

10 MARX, Karl. Grundrisse: Foundations of the critique of political economy (Rough draft). Translated by Martin Nicolaus. New York: Penguin Books, 1973. p. 232.

11 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 4.

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Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enga- nando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores (…). 12

O dinheiro como o objeto da avareza, segundo Marx, é diferente do

desejo por “clothes, weapons, jewels, women, wine etc.”, formas particulari- zadas do desejo. Como avareza, “money is there as not only the object but also

the fountainhead of greed13 . Do ponto de vista do dinheiro como avareza, a vontade de João Romão por essas formas individualizadas do desejo é, em essência, motivada pelo dinheiro como forma transcendente do desejo imediato. Neste sentido, João Romão distancia-se daquilo que é satisfação imediata do corpo. Conforto como uma cama ou um travesseiro e comida são recusados com intuito de acumulação de riqueza:

Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuni- ário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. 14

O romance dramatiza o processo de acumulação econômica ligado

não somente ao valor moral ou ético, mas também ao engano e à falsifi-

cação, à fraude:

Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente da Europa: o vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal às pipas, e de cada uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de

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12 Idem, ibidem, p. 25.

13 MARX, Karl. Grundrisse. op. cit. p. 222.

14 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 31.

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manteiga, de caixas de conserva, caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias. 15

João Romão imagina uma economia na qual ele tem controle abso- luto sobre a máquina econômica. Apesar de ser contra o intermediário, João Romão não tem nenhum interesse em fazer ecoar o que poderiam ser as preocupações dos produtores com o sistema capitalista. Ao contrário, ele se vê como a única ponte entre os produtores e o mercado. Como um mestre em finanças, João Romão nada mais é que aquele “who has produced nothing, over production and over the product. Just as he estranges himself from his own activity, so he confers ownership to a stranger over this activity which does not really belong to him”, como afirma Marx no seu livro Economic

and philosophic manuscripts of 1844 16 . Segundo o narrador, a ação de João Romão não tem nenhuma relação com a ambição econômica; é, na realidade, “uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda”. Do ponto de vista do pensamento materialista, o Naturalismo não dispõe das ferra- mentas necessárias para entender as motivações de João Romão e falha na sua limitação científica. Nesse sentido, relembremos Marx, para quem a cobiça não é uma doença ou um comportamento natural, mas sim, antes de tudo, histórica: “The mania for possessions is possible without money; but greed itself is the product of a definite social development, not natural, as opposed to historical” 17 . Marx argumenta que este conceito de cobiça está ligado ao fim da tradição, à “queda das comunidades antigas”. O autor de O capital argumenta que, desde o momento em que o dinheiro se desenvolve além das suas funções no comércio e na circulação,

o dono do dinheiro, o indivíduo, perde sua individualidade em conside-

ração ao aumento das forças de produção, mais conhecido como o processo industrial. Marx vê o dinheiro ligado ao “developed moment of production only where and whe n wage labor exists ”. Paradoxalmente, se o dinheiro

é visto como destruidor das antigas comunidades, ele é ao mesmo tempo

transformador da formação social, tornando-se “a condition for its develo- pment and a driving-wheel for the development of all forces of production, material and mental18 . Para Marx, com a dissolução do indivíduo nesse novo processo econômico, a cobiça como um impulso individual é subs- tituída por uma cobiça geral [“the urge of all”] de se fazer dinheiro sob as

15 Idem, ibidem, p. 32.

16 MARX, Karl. Economic and philosophic manuscripts of 1844. Disponível em: <http://www. wsu.edu:8080/~dee/MODERN/ALIEN.HTM>. Acesso em 5 jul. 2010.

17 MARX, Karl. Grundrisse. op. cit. p. 222.

18 Idem, ibidem, p. 223.

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condições de trabalho assalariado, tornando-se assim um tipo de riqueza autorreprodutiva [“self-reproducing wealth”] 19 .

A crítica muitas vezes não viu esse ponto no romance de Azevedo,

por focar insistentemente na personalidade de João Romão, sem perceber que as ações do personagem são parte do desenvolvimento capitalista, como já adiantou Candido. Na verdade, seu plano de se amasiar com Berto- leza, fingindo que a estava libertando da escravidão, é ilustrativo disso. Para Bertoleza, João Romão representa a promessa de salvação, amor e liberdade; no entanto, o relacionamento para ele nada mais é do que uma forma de importância monetária 20 . Se João Romão liberta Bertoleza, por juntar-se com ela, ele a torna sua empregada na lógica capitalista. O fim da escravidão abre, assim, espaço para o sujeito livre no processo de produção que João Romão representa:

Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conse- lheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até

à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu João”, como ela

dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras

cortadas de jornal: “Ativo e passivo de Bertoleza”. 21

O tom pragmático do trecho acima sugere uma relação tripartida

através da economia, da lei e da amizade, representada por meio do acon- selhamento financeiro. No centro desta equação está a lógica da confiança, estabelecida entre João Romão e Bertoleza:

E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da

mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava

19 Idem, ibidem, p. 224.

20 Georg Simmel, em seu livro The philosophy of money (1900), afirma que os casamentos por dinheiro “are particularly common among primitive groups and conditions where they do not cause any offence at all ”. Para Simmel, atualmente, há um sentido de dignidade que “arises to every marriage that is not based on personal affection – so that a sense of decency requires the concealment of economic motives ”. (SIMMEL, Georg. The philosophy of mo- ney. Trad. Tom Bottomore e David Frisby. London: Routledge, 1990. p. 380).

21 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 20.

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tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procurá-la, ia logo direito a João Romão. 22

Por que ela confia nele? O amor talvez seja a resposta. Contudo, seria o amor a única resposta à confiança cega dela por ele? Na lógica naturalista isso é explicado pelo desejo de Bertoleza por uma raça superior, como o narrador sugere: “Bertoleza não queria sujei- tar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua” 23 . A questão é, dir-se-ia, crucial à lógica da economia, em que a crença, confiança e dependência são fundamentais para o crescimento econômico, como afirmam Paul J. Zak e Stephen Knack em seus estudos sobre o papel da confiança na economia e nas interações sociais 24 . Fica claro para o leitor que a motivação de João é somente o interesse, o lucro financeiro, no qual sua companheira é apenas uma moeda de troca, e Bertoleza permanece presa na sua condição de escrava: do seu antigo dono para o novo marido- advogado-empresário. Desse modo, seu novo dono tem-lhe acesso como “marido/amante”, acesso ao seu corpo social como escrava transformada em empregada, e ao seu corpo econômico, regulado pelos empréstimos. No entanto, a confiança em João Romão se quebra no final do romance, quando ele é forçado pela lei a devolver Bertoleza aos herdeiros do seu antigo dono. Diante dessa situ- ação, a escrava escolhe a morte:

Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e

um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre; adivinhou que tinha sido enganada; que

a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não

tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. (…) Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só

golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. 25

O universo de Bertoleza reduz-se a duas escolhas: tornar-se escrava

livre e ser parte do novo sistema econômico, no qual o capitalismo está

apenas emergindo ou se manifesta na sua forma mais primitiva de acumu-

22 Idem, ibidem, p. 20.

23 Idem.

24 ZAK, Paul J.; KNACK, Stephen. Trust and growth. Royal Economic Society Economic Jour- nal. 111:470 (2001), p. 295-321.

25 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 266.

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lação, representado por João Romão; ou voltar à antiga ordem da escravidão, representada pelo reclamo dos herdeiros do seu antigo senhor 26 . No seu excelente artigo, Lúcia Sá estudou a produção do espaço em O cortiço e salientou como no romance a população do cortiço mostra “a new free working force that was slowly replacing slave labor in the few years that preceded Abolition”. A crítica afirma que “The novel gives a clear view of the relationship between the tenement and the new economic conditions that are producing urban sprawl ”. 27 Em consonância com a análise materialista e histórica de Candido sobre O cortiço, o artigo de Sá chama a atenção para as transformações sociais que estavam acontecendo na cidade do Rio de Janeiro, por volta do último quartel do século XIX. Nesse sentido, o capital é visto como uma força atrás da criação do espaço e da dinâmica social que dele nasce. Dentro dessa perspectiva, vale lembrar Marx, para quem “Circulation is an inescapable condition for capital, a condition posited by its own nature, since circulation is the passing of capital through the various conceptually deter- mined moments of its necessary metamorphosis – its life process28 . Assim, uma vez em circulação, o capital está constantemente se transformando, se metamorfoseando. Esta é uma visão também compartilhada por Braudel, para quem o dinheiro é o agente da economia de mercado. O capital acelera a troca e cria uma rede de comércio entre os habitantes da cidade. Braudel enfatiza que as cidades somente existem por causa do dinheiro, e os dois são responsáveis pela fabricação da modernidade. Para ele, a modernidade é entendida como “the changing mass of men’s lives – promoted the expan- sion of money and led to the growing tyranny of the cities29 . A expansão do dinheiro em O cortiço tem início com uma pequena venda até um grande

26 Candido atesta que “A originalidade do romance de Aluísio está nessa coexistência íntima do explorado e do explorador, tornada logicamente possível pela própria natureza elemen- tar da acumulação num país que economicamente ainda era semicolonial”. (CANDIDO, Antonio. op. cit. p. 113).

27 SÁ, Lucia. op. cit.

28 MARX, Karl. Grundrisse. op. cit. p. 658. Marx também afirma que “The circulation of mo- ney, regarded for itself, necessarily becomes extinguished in money as a static thing. The circulation of capital constantly ignites itself anew, divides into its different moments, and is a perpetuum mobile” (Idem. p. 516).

29 Segundo Fernand Braudel, “The truth is that money and cities have always been a part of daily routine, yet they are present in the modern world as well. Money is a very old inven- tion, if one subsumes under that name every means by which exchange is accelerated. And without exchange, there is no society. Cities, too, have existed since prehistoric times. They are multicenturied structures of the most ordinary way of life. But they are also multipliers, capable of adapting to change and helping to bring it about. One might say that cities and money created modernity; but conversely, according to George Gurvitch’s law of reciproci- ty, modernity – the changing mass of men’s lives – promoted the expansion of money and led to the growing tyranny of the cities. Cities and money are at one and the same time motors and indicators; they provoke and indicate change ”. (BRAUDEL, Fernand. After- thoughts on material civilization and capitalism. Trad. Patricia M. Ranum. Baltimore:

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The Johns Hopkins Press, 1977. p. 15).

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bazar, de um complexo de pequenas casinhas até o grande complexo habi- tacional do cortiço, das pequenas ruas até a grande avenida, e, por fim, a incorporação do subúrbio de Botafogo à cidade do Rio de Janeiro, como Sá sugere no seu artigo. No romance isso é ilustrado na passagem:

E, assim como este, notavam-se por último na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias. A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir estudantes (…) surgiram contínuos de repartições públicas, caixeiros de botequim, artistas de teatro, condutores de bondes, e vendedores de bilhetes de loteria. (…) italianos (…). O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar sobranceiro e triun- fante. João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo (…). Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre ela e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra. Fora-se a pitoresca lanterna de vidros vermelhos; foram-se as iscas de fígado e as sardinhas preparadas ali mesmo à porta da venda sobre as brasas; e na tabuleta nova, muito maior que a primeira, em vez de “Estalagem de São Romão” lia-se em letras caprichosas: “AVENIDA SÃO ROMÃO”. 30

Dinheiro e distinção

No final do romance, por um instante, a morte súbita e trágica de Bertoleza choca João Romão. Porém, seu momento de tristeza é substituído pelo título que lhe é dado pelas autoridades, com o qual Azevedo com um tom sarcástico termina o romance: “Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito” 31 . Esse desfecho ficcional confirma o que Marx escreveu sobre o poder do dinheiro: “I am bad, dishonest, unscrupulous, stupid; but money is honoured, and hence its possessor. Money is the supreme good, therefore its possessor

Money is the supreme good, therefore its possessor RIEB54.indb 30 AZEVEDO, Aluísio. op. cit . p.
Money is the supreme good, therefore its possessor RIEB54.indb 30 AZEVEDO, Aluísio. op. cit . p.

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30 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 238-239.

31 Idem, ibidem, p. 266-267.

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is good32 . O título de distinção que é conferido a João Romão nos leva a outra dimensão na dinâmica do capitalismo. Como o narrador o expressa, a excitação do avarento se perde quando a acumulação do dinheiro se torna um fim em si mesmo: “sua impotência para pretender outra coisa que não fosse ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a sua ambição e despolindo o seu ouro”. A ambição de João Romão pela distinção emerge no momento em que seu vizinho rico, Miranda, recebe o título de barão. O desejo de posse de coisas materiais é agora substituído pelo simbó- lico, o que as coisas representam, traduzido como inveja:

Sim, senhor! aquele taverneiro, na aparência tão humilde e tão mise- rável; aquele sovina que nunca saíra dos seus tamancos e da sua camisa de riscadinho de Angola; aquele animal que se alimentava pior que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia; aquele ente atrofiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus privilégios e sentimentos de homem; aquele desgraçado, que nunca jamais amara senão o dinheiro, invejava agora o Miranda (…). 33

A rápida transformação de João Romão de avarento, de pequeno

comerciante a rentier não é suficiente. Para o “futuro visconde” ou barão, o dinheiro não era tudo. Além disso, ele tinha outros sonhos:

uma vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida de

palácio, entre mobílias preciosas e objetos esplêndidos, onde ele se via cercado de titulares milionários… E ali ele não era, nunca fora, o dono

de um cortiço, de tamancos e em mangas de camisa; ali era o Sr. Barão!

O Barão do ouro! o Barão das grandezas! o Barão dos milhões! 34

Não mais o dono da vendinha, mas o “famoso, o enorme capitalista! o proprietário sem igual! o incomparável banqueiro” 35 . No entanto, a distinção tem um preço, e João Romão tem ciência disso, dado que ele precisaria colocar de volta o dinheiro em circulação: “Teria gasto mais, é verdade!… Não estaria tão bem!… mas, ora adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quisesse!… Seria um homem civilizado!” 36 ; a distinção social é aqui equiparada à civilização. E isto significa uma mudança na visão da existência e no modo de gerir dinheiro de João Romão. Avarento

32 MARX, Karl. Economic and philosophic manuscripts of 1844. op. cit.

33 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 136.

34 Idem, ibidem, p. 138.

35 Idem.

36 Idem, ibidem, p. 140.

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no passado, ele agora se torna um gastador com intuito de obter distinção:

“Mandou fazer boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco

e de meias, assentado defronte da venda, a ler jornais” 37 . De fato, dentro da

perspectiva de João Romão gastar dinheiro é também uma forma de lucro, por meio do capital simbólico que a distinção representa. As ações de João Romão, se transferem para os bens materiais; como Pierre Bourdieu assi- nala, a “economia dos bens culturais” 38 . É interessante destacar nesse sentido como a própria concepção de tempo para João Romão muda. Se o tempo para ele, no começo do romance, era definido somente pelo trabalho, pela produção e pela acumulação do capital, agora o tempo é dedicado a um conceito não produtivo de tempo; por exemplo, o lazer “a ler jornais”. Sua transformação passa a ser também física: “Depois deu para sair a passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabelo à esco- vinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode” 39 . Uma mudança completa no estilo de vida que implica tomar lições de dança, decorar a casa, tomar vinho, aprender regras de etiqueta, frequentar teatro e ler literatura francesa em tradução. Georg Simmel estuda a relação entre o dinheiro e distinção social. No seu livro Philosophy of money, ele discute a relação entre dinheiro e individualidade e afirma: “we value the distinct formation of individuality, the mere fact that a personality possesses a specific and concise form and power 40 . Simmel observa que posses têm um grande poder de influência e distinção, e de algum modo definem a individualidade. Para ele, ao possuir ou ter “a power of disposal over objects enters into the circle of our Ego. The

Ego, our desires and feelings, continues to live in the objects we own41 . O que liga a individualidade ao dinheiro é entendido através da ótica da psicologia.

O autor afirma que a distinção revela resistência “of being interchangeable,

of the reduction to a common denominator and of ‘common activity’ ”. É interessante observar como Simmel liga a definição de distinção social ao discurso econômico e matemático. Assim, a distinção resiste àquilo que é característico de uma mercadoria 42 . Segundo ele, distinction should not be so conspicuous as to entice what is distinguished away from its indepen- dence, its reserve and its inner self-containment and to transpose its essence

37 Idem, ibidem, p. 177.

38 BOURDIEU, Pierre. Distinction: A social critique of the judgement of taste. Trad. Richard Nice. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1984.

39 Idem.

40 SIMMEL, Georg. op. cit. p. 390.

41 Idem, ibidem, p. 389.

42 Marx define a commodity como “an object outside us, a thing that by its properties satisfies human wants of some sort or another ”. (MARX, Karl. Capital. Vol. 1, Part I: Commodities and money (1867). Disponível em: <http://www.marxists.org/archive/marx/works/1867- c1/ch01.htm#S1>. Acesso em 5 jul. 2010.

c1/ch01.htm#S1>. Acesso em 5 jul. 2010. RIEB54.indb 65 revista ieb n54 2012 set./mar. p. 53-66
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into a relationship to others, be it only a relationship of difference ”. Dentro desta perspectiva, a distinção se destaca devido às suas características de exclusividade e de diferenciação, visto que “The distinguished person is the very person who completely reserves his personality. Distinction represents a quite unique combination of senses of differences that are based upon and yet reject any comparison at all43 . Vamos concluir por dizer que para João Romão, no fim, distinção não implica renunciar ao dinheiro. Antes da mudança no seu estilo de vida, ele sonhava em ser reconhecido como “o famoso, o enorme capitalista! o proprietário sem igual! o incomparável banqueiro” 44 . Seu ideal pela distinção também muda a dinâmica do capital: “Admitiu mais três caixeiros; já não se prestava muito a servir pessoalmente à negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao balcão” 45 . Desse modo, o dinheiro encontra uma lógica dife- rente e estabelece uma nova dinâmica no cortiço:

E em breve o seu tipo começou a ser visto com frequência na Rua

Direita, na praça do comércio e nos bancos, o chapéu alto derreado para

a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a meter-se em altas especulações, aceitava ações de companhias de títulos ingleses e

só emprestava dinheiro com garantias de boas hipotecas. 46

O cortiço foi escrito numa época em que a literatura estava ligada ao método naturalista, ao qual o romance mantém sua dívida. Como em toda tradição da ficção naturalista, influenciada pela escola de Zola, Azevedo tenta fazer uma crítica coerente e científica da realidade corrompida. Em vista disso, João Romão torna-se um vilão, interessado somente em explorar o fraco com o intuito de vencer, validando a máxima darwinista da sobrevivência do mais forte em termos da lógica da economia. Não é por acaso que o autor denuncia o protagonista e seu comportamento como uma “moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular”. Dentro dessa perspectiva, o avarento, o empresário seminal transformado em rentier, no fim se torna um financiador e especulador. Em resumo, O cortiço é o Bildungsroman de um capitalista.

43 SIMMEL, Georg. op. cit. p. 390. No entanto, Simmel salienta que a tendência de distinção é desaparecer na dinâmica e no desenvolvimento do capitalismo, uma vez que objetos são produzidos com base no seu valor monetário: “Yet the more money dominates interests and sets people and things into motion, the more objects are produced for the sake of money and are valuated in terms of money, the less can the value of distinction be realized in men and in objects” (p. 390-391).

44 AZEVEDO, Aluísio. op. cit. p. 95.

45 Idem, ibidem, p. 178.

46 Idem.

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Literatura e política cultural pelas páginas de Leitura Cláudia Rio Doce 1 Resumo A revista
Literatura e política cultural pelas
páginas de Leitura
Cláudia Rio Doce 1
Resumo
A revista Leitura era um boletim bibliográfico que começou a ser
publicado no Rio de Janeiro no início dos anos 1940, tendo como obje-
tivo a popularização da literatura (inserindo-se, assim, na política
cultural brasileira do período). Para tanto, promove determinadas
ideias como a aproximação do artista e do povo e a democratização
da arte, o que resulta em uma série de adaptações feitas pelo próprio
periódico ou nele difundidas: traduções, resumos de romances, expli-
cações de obras e autores por eles mesmos ou por seus pares. O artigo
pretende verificar alguns dos conflitos que surgem em suas páginas
nos primeiros anos de sua publicação.
Palavras-chave
Literatura, periódicos, política cultural, Estado Novo.
Recebido em 8 de novembro de 2011
Aprovado em 8 de dezembro de 2011
1
Professora Adjunta de Literatura Brasileira e Teoria Literária na Universidade Es-
tadual de Londrina e membro do corpo docente permanente do Programa de Mes-
trado em Letras na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). E-mail:
claudiariodoce@gmail.com
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Literature and Cultural Policy through the Pages of Leitura Cláudia Rio Doce Abstract The journal
Literature and Cultural Policy through
the Pages of Leitura
Cláudia Rio Doce
Abstract
The journal Leitura was a bibliographic bulletin which was first
published in Rio de Janeiro in the early 1940s, with the objective
of popularizing literature (hence becoming part of the Brazilian
cultural policy of the time). To this purpose, it promotes certain ideas
such as the rapprochement between the artist and the people, and the
democratization of art, thus resulting in a series of adaptations made
by the own journal or diffused in it, including translations, novel
summaries, explanations of works by the authors themselves or by
their peers. This paper intends to verify some of the conflicts that
arise in its pages at the first years of its publication.
Keywords
Literature, journals, cultural policy, Estado Novo.
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A revista carioca Leitura

foi concebida como um boletim bibliográfico que, de forma ambivalente, pretendia popularizar a literatura ou, como podemos ler em suas páginas, “vulgarizá-la”. Para tanto, assumia, muitas vezes, um tom pedagógico e abordava também outros temas da vida cultural, como cinema e música. Fundada em dezembro de 1942, possuiu vida longa, só se extinguindo em 1965. Este artigo se detém em seus primeiros anos, época em que a conjunção de uma série de fatores favorecia a ideia de democratização da arte não apenas em Leitura, mas em diversas publicações que se ocupavam com a produção cultural. As lutas ideológicas se exasperam na década de 1930 e, reagindo aos regimes políticos fechados de direita, a intelectualidade de esquerda sobre- valoriza determinadas questões, como a preocupação em tornar a literatura mais acessível, deixando de lado a forma, considerada, muitas vezes, uma questão fútil e da qual poucos podiam fruir. Sobre o assunto, Lafetá sublinha que qualquer nova posição estética deve ser encarada em suas duas faces:

enquanto projeto estético (diretamente ligada às modificações operadas na linguagem) e enquanto projeto ideológico (diretamente atada ao pensa- mento – visão de mundo – de sua época). Depois de cuidadoso estudo da produção e da crítica dos anos 1930, Lafetá conclui que

O raiar dos anos trinta encontra o Modernismo brasileiro em busca de caminhos diferentes. Por um instante parece haver equilíbrio

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entre a concepção de literatura enquanto jogo renovador e revita- lizador da linguagem, e a concepção de literatura enquanto reflexo consciente da realidade social. No decorrer do decênio, todavia, a situação se altera: as exigências da luta político-ideológica que se travava no país colorem o projeto estético do Modernismo com novos matizes e o empurram em outras direções. O experimento de linguagem cede lugar ao documento, a intenção inventiva curva-se à necessidade de registro, a agressividade formal se perde na dema- gogia verbalista das denúncias. 2

Dessa maneira, o “engajamento” do artista ficava restrito às possi- bilidades de comunicar a sua mensagem. Este posicionamento causou, como é conhecido, várias querelas entre os modernistas de 22 e a geração de 30, como fica explícito nas páginas de revistas e jornais do período. Em 1937, por exemplo, Jorge Amado publica o artigo “Poesia e povo” na revista Vamos Ler!. Nele, o autor (que trabalhava, então, na José Olympio) pretende revelar os motivos pelos quais as editoras, nestes anos, relutam em publicar livros de versos, que não vendem:

Para falar franco, eu acho que os modernistas, aqueles heróis que de 1922 até 1928 fizeram uma gritaria tremenda nas letras brasi- leiras, são os únicos culpados da pouca ou nenhuma venda (vamos

dizer nenhuma, que é a verdade) dos livros de poesia no Brasil. São

Diante do público, edito-

rialmente falando, os modernistas estão muito por baixo. Porque a

verdade é que livro de versos nos bons tempos não era “abacaxi”.

O público lia os versos, comprava os livros e a prova disto é que

a Garnier editava muito verso: Castro Alves, Bilac, Raymundo

Corrêa, Casimiro de Abreu foram sujeitos que esgotavam edições,

vendiam bem seus livros, eram admirados e queridos. Dos moder- nistas tiram-se edições de 500 exemplares e nem 50 são vendidos. Por que?

É simples. O povo gosta de poesia para ler em voz alta e para

O interior é assim lírico e belo. Pois bem,

declamar nas festas. (

eu nunca jamais ouvi recitarem naquelas encantadoras festas de

O povo gosta de

poesia (

cidade pequena um único poeta modernista. (

porque ela é sonora, boa para os ouvidos, boa para os

namorados. Hoje ele não tem mais a sua poesia. Os modernistas

os culpados, afirmo. E passo a provar. (

)

)

)

)

2 LAFETÁ, João Luiz. 1930: A crítica e o modernismo. Pref. Antonio Candido. São Paulo:

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Duas Cidades/Ed. 34, 2000. p. 251-252.

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vieram e com volumes, artigos, conferências, desmoralizaram os poetas passadistas, desmoralizaram a rima e a métrica.

O público ficou envergonhado de acreditar em coisas tão ridículas

como métrica e rima. Abandonou seus poetas e ficou esperando pela poesia dos modernistas. Quando esta veio – oh! desilusão – era uma coisa cheia de intenções, de piadas, de subentendidos, uma poesia para ser lida e meditada e muitas vezes não compreendida, nunca

uma poesia para o povo ler, recitar, gostar. Ora, o povo já não acredi- tava nos passadistas que os modernistas tanto tinham ridicularizado.

E como estes modernistas eram sujeitos muito acima do público ( ),

ele não acreditou neles, não aceitou os modernistas, não comprou seus livros, deixou que os livros de poesia se transformassem no pesadelo dos editores. E passou a procurar a poesia nos romances, mesmo nos livros de ensaios, nos homens que não se colocaram acima do povo e, sim, junto do povo. 3

Em 1945 Oswald de Andrade é preterido por Jorge Amado no posto de “intelectual oficial” do Partido Comunista 4 . À diferença do escritor baiano, que defende uma literatura acessível ao povo, o antropófago reivindicava condições para que o povo tivesse acesso ao hermetismo da alta cultura, formulando a frase tão conhecida: “a massa há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico”. Percebemos, então, nas diferenças entre estes dois autores que seguiam, em princípio, o mesmo direcionamento político, a prefiguração

do conflito entre obra de arte e mercadoria. Porque justamente a referência da qual se utiliza Jorge Amado para julgar a poesia é o seu sucesso – insu- cesso – de vendas. Seguindo sua argumentação, poderíamos dizer que, se

o povo não compra, logo, a poesia não serve para ele. Não serve porque

carece de alguma coisa da qual ele precisa. Lirismo? Beleza? Compreensão sem raciocínio? É precisamente neste hiato que muitas vezes se confunde

o

estésico com o anestésico. Sendo assim, mais do que o conflito entre arte

e

mercadoria, voltamos à dicotomia estetização da política-politização da

arte. Na leitura que Susan Buck-Morss faz do “ensaio da obra de arte”, ela

redimensiona esta dicotomia proposta por Benjamin:

3 AMADO, Jorge. Poesia e povo. Vamos ler!, maio 1937. p. 3.

4 O fato se deu quando Oswald de Andrade ia saudar Pablo Neruda num comício no estádio do Pacaembu e, na última hora, o quadro dirigente do Partido Comunista resolve con- ceder o privilégio a Jorge Amado. Sobre esta questão, bem como todo o envolvimento de Oswald com o PC, ver a biografia do autor escrita por Maria Augusta Fonseca, principal- mente o capítulo 17: FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade – biografia. São Paulo:

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Arte, 1990.

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Benjamin está dizendo que a alienação sensorial se encontra na

origem da estetização da política, a qual o fascismo não cria, mas apenas “manipula”. Parte-se do princípio de que a alienação e a política estetizada, enquanto condições sensuais da modernidade,

A resposta comunista a esta

Desfazer a

sobrevivem para além do fascismo (

crise é a “politização da arte”, implicando em que? (

alienação do aparato sensorial do corpo, restaurar o poder instintual

dos sentidos (

mas pela passagem por elas. 5

e isto não através do rechaço às novas tecnologias,

).

)

),

As divergências entre os escritores das duas gerações não impediu, no entanto, que o polêmico Oswald tenha considerado, apesar de tudo, que a fertilidade da produção destes anos e sua preocupação com os problemas sociais tivessem papel preponderante na queda da ditadura. 6 Por outro lado, a suposta “aproximação” entre o artista e o povo, que é o argumento central de Jorge Amado e sua reivindicação para a literatura, não deixa de ser uma concepção política populista e demagógica. Além de tendência dos militantes de esquerda, torna-se preceito da política cultural do Estado autoritário, pois o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) assim estabelece seus objetivos (nas palavras de Almir de Andrade): “através das instituições políticas, interpretar, defender, amparar, estimular e encarnar, nas formas e sistemas do governo, os quadros de costumes nos quais desponta a alma do povo” 7 . Estamos em uma época em que o Brasil se desenvolve muito indus- trialmente, e como afirma Nelson Werneck Sodré:

Assim como um dos grandes problemas do desenvolvimento mate- rial, no país, está na incorporação progressiva à economia de mercado das vastas áreas em que predomina ainda a economia natural, um dos grandes problemas do desenvolvimento cultural, no Brasil, está

5 BUCK-MORSS, Susan. Estética e anestética: o “ensaio sobre a obra de arte” de Walter Benjamin reconsiderado. Travessia, n. 33, ago-dez 1996, p. 12. “De outro modo”, anota ainda a autora, “as duas condições, crise e resposta, acabariam por ser a mesma coisa. Uma vez a arte inserida na política (política comunista não menos que políti- ca fascista), o que poderia aquela fazer senão pôr-se ao serviço desta, transmitindo assim à política os seus próprios poderes artísticos, i. e., ‘estetizar a política’?” (trad. Rafael Lopes Azize)

6 Ver a retrospectiva que o autor faz do modernismo e da produção literária da década de 1930 em “Informe sobre o modernismo”, disponível no volume Estética e política: AN- DRADE, Oswald de. Estética e política. (Obras completas). Pref. Maria Eugenia Boaven- tura. São Paulo: Globo, 1991.

7 ANTELO, Raul. Literatura em revista. São Paulo: Ática, 1984. p. 59.

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na incorporação progressiva ao público das camadas sociais que a

vida mantém distanciadas e indiferentes às suas manifestações. 8

O autor adverte, ainda, que é com o desenvolvimento das rela-

ções capitalistas e a busca pelo trabalho qualificado que se impõe a necessidade de fornecer conhecimentos a camadas mais numerosas da

população. Sérgio Miceli 9 , por sua vez, constata que o Estado – que abria cargos especializados onde um considerável número de intelectuais pres- tavam diversos tipos de colaboração à política cultural do governo Vargas

– serviu de intermediário nesse processo. Além de toda esta confluência

de interesses que observamos no Estado autoritário e em militantes de esquerda (atingir públicos mais amplos), levemos em conta também que a

questão fazia parte, ainda, da agenda internacional, através da política de boa vizinhança, vivida intensamente pelo Brasil nestes anos. Colocada em prática por Roosevelt, tinha como discurso integrar os países americanos, fazer com que se conhecessem e se ajudassem mutuamente. Na prática, devia difundir o american way of life entre os países latino-americanos – mostrando um mundo atraente de consumo e progresso pelo rádio, cinema

e revistas – e conquistar esta parte do continente como “mercado”. Muitos dos aspectos dessa política cultural do período aparecem nas páginas de Leitura, inclusive seus conflitos. Estudando determi- nadas colunas e artigos da revista, procuramos verificar as relações que se estabelecem, os pontos de contato ou os distanciamentos existentes nas posturas estéticas e opiniões de time, tão diversificado como aquele formado por seus colaboradores. Podemos iniciar essa tarefa buscando o próprio conceito de literatura que se tenta difundir. Alguns indícios nos são dados pela explicação presente na coluna “Auto-retrato” por ocasião de seu lançamento, dizendo que:

Esta coluna de “LEITURA” é dedicada aos grandes nomes que honram a literatura brasileira. Não tem outra finalidade senão a de prestar algumas informações sobre a vida daqueles que, pelo talento e pela honestidade literária, deixaram de pertencer a si mesmos, para se tornarem figuras do povo. Aparecerá mensalmente feita pelo próprio escritor convidado em cada número. 10

8 SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de história da cultura brasileira. Rio de Janeiro/São Paulo: Bertrand Brasil, 1994. p. 70.

9 MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). São Paulo/Rio de Janei- ro: Difel, 1979.

10 Leitura, 1942. p. 11.

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Notemos que o fragmento fala de uma “honestidade” literária, termo que em outras ocasiões é substituído por “sinceridade” ou “verdade” e que

pretende ser o elo entre o escritor e o povo, entre a literatura e o grande público, que se buscava então. Segundo o que podemos encontrar na revista, Seleções é um sucesso editorial pela “honestidade de seus artigos”; muitos romances devem ser lidos porque “não mentem”, porque suas personagens “vivem de verdade”, porque seus autores têm “honestidade intelectual”. No entanto, o que seria esta honestidade ou verdade? Elas nos aparecem para tratar de concepções muito diversas e podemos tomar como exemplo

a própria coluna “Auto-retrato”. Escritores falando de si mesmos e procurando aproximar-se do

público. Duas posturas distintas são observadas e, entre elas, toda uma gradação. A primeira é melhor exemplificada no caso de Graciliano Ramos, que se despoja de toda e qualquer caracterização que possa particularizá-lo para descrever-se como mais um: sua infância pobre no Nordeste, a seca,

a dificuldade do aprendizado que fez dele um aluno medíocre. Depois fala

dos cargos públicos que ocupou, como se nunca tivesse tido competência para ocupá-los, e dos livros que escreveu, como se fossem histórias banais que, por motivo inexplicável, tivessem atingido o sucesso. Finaliza falando de seu momento atual:

Mudei-me para o Rio, ou antes, mudaram-me para o Rio, onde existo, agora. Aqui fiz meu último livro, história mesquinha – um casal vagabundo, uma cachorra e dois meninos. Certamente não ficarei na cidade grande. Preciso sair. Apesar de não gostar de viagens, sempre vivi de arribada, como um cigano. Projetos não tenho. Estou no fim da vida, se é que a isso se pode dar o nome de vida. Instrução quase nenhuma. José Lins do Rego tem razão quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaques. 11

As circunstâncias da vida o arrastam, e ele apenas constata os acon- tecimentos como se fossem inevitáveis, como se não dependessem de sua

vontade. Sua identificação com a massa e sua modéstia são tais que o redator acrescenta uma nota para esclarecer o público de que “o último livro a que Graciliano Ramos se refere, chamando-o de ‘história mesquinha’ ( )

é ‘VIDAS SECAS’ – um grande romance consagrado pela crítica brasileira”. Único artigo da coluna que sofre alguma intervenção da revista.

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11 RAMOS, Graciliano. Auto-retrato. Leitura, dez. 1942. p. 12.

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Na extremidade oposta temos Jorge de Lima, que se limita, em seu autorretrato, aos fatos de sua formação e vida intelectual. Fala de suas concepções artísticas e de sua produção literária. E critica:

Muitos me chamam de diletante: acho que o artista tem a sua reali- dade própria, e não está sujeito a nenhuma exigência superior. Não faço o que poderia agradar aos outros, mas o que nasce em mim e

luta para se libertar de minha sensibilidade, sem ligar a qualquer espécie de chatos. Aliás, parece que o que há, no Brasil, com os escritores, é um inexplicável medo de ser “eles mesmos”, sem premeditações nem compromissos. Muitos são os espécimes de homens de letras que traem a si mesmo, não tendo coragem de enfrentar a crítica, prefe- rindo realizar coisas impessoais e informes.

) (

Há quem me acuse de não compreender a missão social do escritor, nos dias de hoje, em que as forças da opressão pretendem sufocar

a liberdade e os direitos humanos. Há nisto outro engano. Meus

poemas, (

toda a minha obra literária, é social, porque nela eu falo

do homem, de sua presença no mundo, de suas lutas e sofrimentos, de suas inquietações e de seus desejos. Aliás, ninguém pode fazer um romance dizendo de início: “Vou já, já escrever um romance social”. Puro engano. O romance é que emerge do social, revolu- cionário, católico, etc., impressentidamente, como se revelasse ao escritor sua alma grafada em letra de fôrma. 12

)

Jorge de Lima, portanto, aponta para o fato de que se, de uma forma geral, a valorização do escritor e de sua obra passava, naquele momento, pela ideia do intelectual engajado, cuja defesa de determinados valores ou atitudes lhe emprestava autoridade e integridade moral, ou seja, “hones- tidade”, alcançando assim eficácia junto à opinião pública, para ele, ao contrário, o escritor deveria estar comprometido, antes de mais nada, com a própria arte. Neste caso, a “honestidade literária” estaria relacionada a uma coerência com suas próprias convicções artísticas, e não com qual- quer tipo de comprometimento social ou político. Jorge de Lima ressalta, ainda, que não escreve para o mercado e defende que a literatura deveria, ao contrário, manter-se imune a este. Desta maneira, o potencial crítico e de resistência da obra emergiria do próprio ato criador, e não seria artifi- cialmente imposto por condições externas.

seria artifi- cialmente imposto por condições externas. RIEB54.indb 12 LIMA, Jorge de. Auto-retrato. Leitura , mar.
seria artifi- cialmente imposto por condições externas. RIEB54.indb 12 LIMA, Jorge de. Auto-retrato. Leitura , mar.

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12 LIMA, Jorge de. Auto-retrato. Leitura, mar. 1943. p. 15.

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Entre esses polos — uma vida cuja realidade avassaladora torna a

arte insignificante e uma vida que só adquire sentido através da arte — há toda uma gama de textos nos quais uma reflexão sobre a própria arte e valores artísticos se mescla com aspectos da vida pessoal de seus autores. Desta maneira, busca-se explicitar as possíveis conexões entre discurso e vida fora do texto. Seus autores, ao mencionarem os lugares e momentos de suas vidas em que determinados eventos ocorreram, procuram dar mais autenticidade ao relato, atestando a sua “sinceridade”. No entanto, vários deles demonstram claramente que o texto não passa de uma represen- tação, uma construção narrativa. Esse aspecto não entra em choque com

a ideia de “sinceridade”, como poderíamos supor. Antes, pelo contrário,

a reforça, seja porque apontam para a representação a fim de negá-la ou

simplesmente pela confissão de estarem recorrendo a ela. Assim, Oswald de Andrade, ao alegar que seu autorretrato sairia favorecido, apenas fornece “elementos para um retrato” 13 , para que a revista possa fazê-lo (o

que não acontece). Galeão Coutinho menciona que poderia “dizer coisas lindas” 14 de si próprio, mas não o faz. Eloi Pontes diz que o “comum é dissi- mular”, mas, como não quer mentir nem tem coragem de revelar “tudo”, prefere “concluir singelamente” 15 seu texto. Jorge de Lima aponta para a impossibilidade de uma “fidelidade de espelho”, concluindo que mostrou apenas “fragmentos de espelho” aos quais procurou dar “um tom de sinceridade” 16 . Ou seja, explicita que a sinceridade é aparente, também faz parte da autorrepresentação. E Sérgio Milliet avisa que sua tendência para

a caricatura vai deformar o retrato 17 . Marques Rebelo e Dias da Costa inventam personagens de si mesmos, reforçando a ideia de encenação. Falam em primeira pessoa, mas criam diálogos e situações imaginárias. Drummond leva a brincadeira mais longe. Começando seu texto com a frase “Diz o espelho”, escreve seu autorretrato em terceira pessoa, o que lhe reserva uma liberdade bem maior para falar de si mesmo, de sua obra e de seus críticos. Num tom especulativo, e com muita ironia, trata o “sr. Drummond” 18 e os críticos literários da mesma

maneira, utilizando-se de opiniões alheias para avaliar sua própria obra e pessoa. Aliás, este expediente, de recorrer à opinião dos críticos para avaliar

a própria obra ou dos amigos para avaliar a própria pessoa, é utilizado por outros escritores também, talvez para diminuir o desconforto de ser, ao

13 ANDRADE, Oswald de. Auto-retrato. Leitura, maio 1943. p. 13.

14 COUTINHO, Galeão. Auto-retrato. Leitura, jul. 1943. p. 31.

15 PONTES, Eloi. Auto-retrato. Leitura, fev. 1943. p. 15.

16 LIMA, Jorge de. Auto-retrato. Leitura, mar. 1943. p. 15.

17 MILLIET, Sergio. Auto-retrato. Leitura, nov. 1943. p. 21.

18 ANDRADE, Carlos Drummond de. Auto-retrato. Leitura, jun. 1943. p. 15.

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mesmo tempo, sujeito e objeto de observação e análise, ou um artifício para que a narrativa ganhe mais credibilidade. Se a “sinceridade” ou aparência de sinceridade ajuda a aproximar

o escritor de seus leitores, pelo que poderia haver aí de pessoal e, até

mesmo, confessional, outra forma de aproximação é quando se mostra uma possível afinidade, como faz Dias da Costa 19 , que se define como anti-

fascista e torcedor do Flamengo. E enquanto alguns se identificam com

o “povo”, outros se mostram condescendentes para com ele. Assim, José

Lins do Rego, que sintetiza sua vida na frase “de menino rico a funcionário bem pago”, afirma: “sei que amo a humanidade porque odeio as tiranias com todo o peso de um corpo e toda a pureza de minha alma” 20 . Eloi Pontes

nunca desejou “ser mais do que os proletários” 21 , e Marques Rebelo “ama os pequenos e sofre com eles” 22 . Já Oswald de Andrade 23 , procurando mostrar que seu comprometi- mento vai muito além das palavras, que é uma pessoa de “ação”, conta que

já foi preso e esteve foragido diversas vezes, e que tomou parte em conflitos

públicos em 1931, quando dirigia o jornal O homem do povo. Apontando, assim, de maneira surpreendente, que é contrário ao regime vigente. Percebemos que a aproximação entre escritores e povo é uma questão que se desdobra através de outras colunas de Leitura e que a revista pretende mostrar que tal aproximação não deve ocorrer apenas num possível imaginário comum, gosto compartilhado, problemas seme- lhantes vividos, mas principalmente no estabelecimento de um mercado consumidor de livros. Procurando, talvez, informar-se sobre os hábitos e as preferências de um possível público ainda em formação, Leitura cria “Um romancista no meio do povo”, título que comporta a dupla referência do que a coluna nos propõe: a cada número, um escritor designado pela

revista sai às ruas para se informar sobre a popularidade de outro escritor.

E nesta função, os repórteres fazem os mais diversos tipos de observações,

sobre os autores que são objetos de suas investigações e suas obras, sobre

a popularidade ou não da literatura, sobre a existência ou inexistência de um mercado para os livros, sobre a “cultura do povo”, de uma forma geral

e, até mesmo, sobre a tarefa dada pela revista. As opiniões são as mais

variadas e algumas vezes contraditórias. Dalcídio Jurandir inaugura a coluna fazendo reportagem sobre José Lins do Rego. Apesar de afirmar que, ao que lhe parece, José Lins

Rego. Apesar de afirmar que, ao que lhe parece, José Lins RIEB54.indb 19 COSTA, Dias da.
Rego. Apesar de afirmar que, ao que lhe parece, José Lins RIEB54.indb 19 COSTA, Dias da.

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19 COSTA, Dias da. Auto-retrato. Leitura, out. 1943. p. 18.

20 REGO, José Lins do. Auto-retrato. Leitura, jan. 1943. p. 19.

21 PONTES, Eloi. op. cit. p. 15.

22 REBELO, Marques. Auto-retrato. Leitura, ago. 1943. p. 20.

23 ANDRADE, Oswald de. op. cit. p. 13.

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seja o escritor mais popular, com seus romances sobre o ciclo da cana- -de-açúcar, pondera que, para que houvesse, realmente, um mercado de público leitor, muito teria que ser feito em matéria de educação. Além de uma enorme parcela da população ainda ser analfabeta, os livros podiam ser considerados artigos de luxo. Seus preços estavam muito além do poder aquisitivo da maioria das pessoas 24 . Joel Silveira, ao fazer a reportagem sobre a popularidade de Erico Verissimo, opina que ele leva vantagem sobre qualquer outro escritor em termos de público e se questiona se isso pode ser tomado como elogio ou como restrição. O repórter considera a preferência do público por histórias fáceis e bem-acabadas, o fato de suas escolhas não privilegiarem tese ou estilo e conclui que os últimos livros do escritor gaúcho fizeram concessões aos leitores inimigos das situações difíceis e dos problemas abstratos. “Daí esta alegria: quase todo mundo conhece ou já leu Erico Verissimo” 25 . Valdemar Cavalcanti 26 , por sua vez, ao ser designado para verificar

o prestígio de Jorge de Lima junto ao público, se pergunta sobre esta possi- bilidade existir, uma vez que sua arte não é acessível ao gosto comum, à sensibilidade do povo. Galeão Coutinho 27 faz observação semelhante sobre

a obra de Graciliano, dizendo que o público acostumado com romances

que acabam em casamento e filmes que terminam em beijos certamente não é o público para um romance como Angústia. Josué Montello, ao contrário, acredita que Jorge Amado possui um público numeroso e invejável, constituído pelas massas populares, e não pelas elites. “E nisto repousa a sua glória, que é construída no propósito de revolver a consciência humana e iluminá-la com os líricos clarões de uma fé permanente na melhoria social dos homens sobre a terra” 28 . E José Lins do

Rego entrevista um torcedor do Botafogo, cearense, que lhe garante que seu pai sabe “quase todo decorado” 29 o romance A bagaceira, de José Américo. Sobre os hábitos de leitura do “povo”, constatam quase sempre o mesmo. Poucas são as pessoas que leem. A maioria alega não ter tempo

24 JURANDIR, Dalcídio. Um romancista no meio do povo. Reportagem de Dalcídio Jurandir sobre José Lins do Rego. Leitura, dez. 1942. p. 17.

25 SILVEIRA, Joel. Um romancista no meio do povo. Reportagem de Joel Silveira sobre Erico Verissimo. Leitura, jan. 1943. p. 9-26.

26 CAVALCANTI, Valdemar. Um romancista no meio do povo. Reportagem de Valdemar Ca- valcanti sobre Jorge de Lima. Leitura, ago. 1943. p. 31.

27 COUTINHO, Galeão. Um romancista no meio do povo. Reportagem de Galeão Coutinho sobre Graciliano Ramos. Leitura, mar. 1943. p. 9-18.

28 MONTELLO, Josué. Um romancista no meio do povo. Reportagem de Josué Montello so- bre Jorge Amado. Leitura, jun. 1943. p. 11-12.

29 REGO, José Lins do. Um romancista no meio do povo. Reportagem de José Lins sobre José Américo. Leitura, jul. 1943. p. 23.

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