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SÁBADO, 20 DE MARÇO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

História
DIVULGAÇÃO

Postura. Era de tal


modo estreita a
ligação do Estado
governado por
d. Pedro II (ao
centro na foto, junto
da princesa Isabel)
com o trabalho
compulsório (no
desenho de Debret,
vê-se uma escrava)
que a monarquia
caiu um ano depois
da Lei Áurea

EM BUSCA DO
TEMPO PERDIDO
Estudo publicado em três volumes sinaliza a redescoberta
do período imperial e ajuda a compreender melhor o País

A realeza brasileira também passou por 31 capítulos, escritos por pesquisadores – tro da corte –, por outro lado não faltam
LILIA MORITZ SCHWARCZ certocrivo ideológico,quefiltrou apossibili- grandes especialistas no período –, em sua estudosque investem nahistóriade SãoPau-
dade de pesquisas menos afeitas a uma pau- maior parte provenientes do Rio de Janei- lo, Minas Gerais, Pernambuco, Pará, Bahia,
tapolítica, consideradaprogressista.Até me- ro, São Paulo e Minas Gerais. O resultado é Rio Grande do Sul e até um inesperado capí-

T
udo neste mundo tade dos anos 1980, não era sinal de bom surpreendente, tal o painel que a obra pro- tulo que trata da província de Minas Gerais;
é moda, e pode-se gosto estudar reis, princesas e, ademais, picia. Os três volumes seguem uma divisão em geral esquecida, passados os anos de ou-
dizer, sem medo uma monarquia que se pretendia popular e de alguma forma tradicional e consagrada: ro do século 18. Há também contribuições
de errar, que a his- enraizada. O fato é que, por onde quer que se o primeiro vai da chegada de d. João até a inovadoras que perscrutam o universo das
toriografia não es- olhasse, o cenário não se mostrava promis- renúncia de d. Pedro I, em 1831; o segundo festas populares; da literatura romântica e
capa desses dita- sor. Definido como conservador, o Império adentra os anos 1830, passa pelas regências da realista; investem na análise das exposi-
mes, mais ou me- brasileiro parecia carecer de maior relevân- e chega até a década de 1860, nos avatares ções universais, ou invadem o campo da efi-
nos mundanos. cia na conformação da nacionalidade. da Guerra do Paraguai; e o terceiro fecha as cácia dos discursos intelectuais.
Um bom exemplo, cortinas, com o final do regime em 1889. São tantos os aspectos abordados, que a
que bem define o Experiências. Tal perspectiva tem passa- Entretanto, tal divisão mais linear é antes frustração de analisar uma obra como essa é
modelo nacional, é o caso do Império brasi- do, porém, por séria revisão nas últimas anunciada pelos orga- saber, logo no início do
leiro, que padeceu de mal contrário: perma- duas décadas. Mais recentemente, e como nizadores, a cada volu- jogo, que não há como
neceu longe da predileção dos especialis- mostra José Murilo de Carvalho na apresen- me,doque seguidaà ris- dar conta, com justiça,
tas. Para muitos historiadores, ele represen- tação aos três volumes de O Brasil Imperial ca, uma vez que os dife- Os ensaios, **assinados detodaapartida.Fique-
tou a imitação de modelos que só faziam (Civilização Brasileira, 1.381 págs., R$ 59,90 rentes ensaios dão con- mos, então, com o con-
sentido alhures; para outros, uma cópia des- cada livro), o interesse vem sendo desperta- ta de um cardápiovaria-
por especialistas, dão junto, que é de monta e
botada das monarquias europeias. Mesmo do até por conta das efemérides: 2008, do. É claro que numa conta de um cardápio galhardia. A virtude é,
para aqueles que se aventuravam a romper quando d. João virou (para o bem e para o obra de tal envergadu- variado, com ênfase nos porém, convite à arma-
com essa espécie de interdito, o período mal) uma espécie de super star da história ra sempre se pode co- dilha.Seoscapítulospo-
monárquico não passava de uma ponte, fá- nacional, e 2009, dedicado às relações com brar um pouco mais. aspectos políticos dem ser lidos como so-
cil de cruzar, entre o contexto colonial e a a França, em especial durante o contexto da Afinal, são poucos os ** los virtuosos, a obra se
República; de preferência a de Vargas. Pesa- realeza. No entanto, se na curta duração textos em história eco- ressente, ao fim e ao ca-
va o conservantismo de nossa independên- esses eventos tiveram a vantagem de des- nômica, administrativa ou mesmo diplomá- bo, de certa orquestração comum. Quem sa-
cia – que resultou numa monarquia cercada pertar a curiosidade do público, é possível tica. Também os artigos sobre cultura sai- be o leitor mais impertinente ainda não se dê
de repúblicas –, ou a escandalosa marca de afirmar que revisões historiográficas só se riam ganhando se explorassem mais os gê- por vencido, e se permita perguntar sobre a
sermos o último país, no Ocidente, a termi- realizam se não na longa, ao menos na mé- neros públicos – expressos sobretudo nos especificidade de um império tropical como
nar com o regime escravocrata. Não por dia duração. E já faz algum tempo que uma jornais e periódicos, muito influentes no esse, que praticamente tomou todo o longo
coincidência, o Império soçobraria um ano série dehistoriadores tem se dedicado à aná- período –, ou a produção vigorosa da Acade- 19 brasileiro. DiziaaAlmanak administrativo
depois da abolição, tais as amarras que lise dos dois Reinados brasileiros (o de Pe- mia de Belas Artes, durante o Segundo Rei- de 1849, também citado por Ilmar Mattos
uniam o Estado ao trabalho compulsório. dro I e Pedro II), assim como descobriram nado. Por outro lado, percebe-se um acento nessa coletânea, que “pelo dedo se conhece
Até mesmo na crítica de arte, o 19 brasilei- nas Regências uma espécie de laboratório agudo na história política, ou mesmo no o gigante”. Feitas as unhas, é hora de mos-
ronão despertavamaiores paixões.Foio mo- para experiências republicanas. tema da escravidão; questão sem dúvida trar, igualmente, o que há dentro das mãos.
dernismo paulistano – particularmente a in- Os leitores podem agora encontrar inter- central na compreensão do Império brasi- Está dada a partida e o resultado positivo já
terpretação advogada por Mário de Andrade pretações renovadas, que passaram a enten- leiro – a grande contradição da monarquia. se encontra garantido.
– o responsável pela eleição do barroco como der o Império não como um acidente passa- Insistir, contudo, nessa lista de assuntos,
nossa arte maior, e por relegar o academicis- geiro – um intervalo entre dois momentos mais ou menos contemplados, significa in- ✽
mopalacianoàqualidadedesistemaimporta- mais relevantes –, mas como um contexto correr num exercício de pequenez, já que LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA
do, pois pouco vinculado à realidade local. crucial para a compreensão do próprio uma empreitada desse porte sempre abre TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA
Porextensão, surgiriaminterpretações aves- país. E a coletânea organizada por Keila lacunas, assim como inspira iniciativas. DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO
sas ao “artificialismo” do romantismo literá- Grinberg e Ricardo Salles é um excelente Mais vale destacar o mapa não só multiface- BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS
rio; grande voga em meados dos oitocentos. sinal dos novos ventos, assim como prome- tado como crítico que o livro inaugura. Se há DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA
Tudo conectado à má sina do Império. te converter-se em referência. No total são uma concentração no Rio – o grande epicen- CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)