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Ver-Nando Pessoas – Interpretação, Verdade e Sinthome na Poética Pessoana

Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, Dr.


Psicanalista – Psicólogo [CRP 12/04085]
Doutor em Psicanálise e Psicopatologia – Université Paris VII – Denis Diderot
Doutor em Teoria Literária – Universidade Federal de Santa Catarina

Tel. (48) 9991 14 30

pedrohmbt@hotmail.com

Publicado originalmente em Acheronta, Revista de Psicoanalisis y Cultura, Buenos


Aires, v. 21, 2005.

“A palavra é, em uma só unidade, três cousas distintas:


o sentido que tem, os que evoca, e o ritmo
que envolve este sentido e esses sentidos.”

Fernando Pessoa, Da palavra

“Desconheço-me, Embrenha-me, futuro,

Nas veredas sombrias do que sonho

E no ócio em que diverso me suponho,

Vejo-me errante, demorado e obscuro.”

Fernando Pessoa, Eu

Em seu vigésimo terceiro seminário, Jacques Lacan propõe uma inovação em


sua teoria sobre o fim de análise, uma nova versão para este fim. Paralelamente, ao
longo de suas exposições, de suas mostrações (como as chamou), o estatuto da
palavra e da interpretação é também revolucionado pelo recurso às palavras-valise,
recurso que deve sua inspiração a James Joyce. “No seu artificiar Joyce rompe a
máscara do sentido para, então, suturar e costurar, fiar e tecer, talhar e esculpir,
diríamos, com fios borromeos, pedaços do real feitos de alingua que a ele se lhe
impôs.”(GARCIA, 2001, p.108) As palavras-valises, são aquelas palavras que se
formam da fusão de significantes que se rompem, dando margem a diversas leituras.
No próprio título do Seminário Le Sinthome, por exemplo, podemos ler além de
sintoma (symptôme), também santo-homem (saint-homme) e quase, como será
sugerido, São Tomás de Aquino (Saint Thomas d’Aquin).

Um santo é evocado para tratar da heresia (RSI / hérerie) joyciana com a qual
o psicanalista se identifica (LACAN, 1975). É evocado aqui, neste trabalho pois, ao
tratar do fim de análise, estaremos enfer / en faire comme Lacan (1) em sua
escritura. Trata-se de um trabalho En “ver-“ (2).

A heresia analítica é aquela que busca um savoir-faire ali, com seu sintoma,
uma via diversa para a “verdade revelada” como é o caso da claritas de São Tomás.
Isto implica em “ser herege de uma boa maneira, aquela que por haver reconhecido
bem a natureza do sintoma, não se priva de usá-lo logicamente, quer dizer, até
alcançar seu real ao cabo do qual não há mais avidez” (LACAN, 1975). Como,
parafraseando o Freud da Traumdeutung, geralmente a cultura, com seus ditos
populares expressam muito maior sabedoria que a mais exata das ciências, trata-se,
de certa forma, de tomar os limões e fazer, saber fazer com eles, uma limonada.
Tomar o sintoma paralisante e angustiante e transforma-lo num fazer singular e
mobilizador.

O sintoma, este avanço do simbólico sobre o real (LACAN, 1974), não se


pode afastá-lo com hermenêutica, impondo-lhe mais sentidos do que aqueles que
ele em si já traz em excesso. Não, a operação parte do real, ao qual o simbólico
poderá de rearranjar pela quebra ou torção de sentidos que as palaras-valise tão
bem mostram. Mas o real, como articulá-lo pela fala, sendo esta essencialmente
simbólica? Heretisando-a, indo contra a doutrina do simbólico, rompendo com suas
leis, remontando à alingua, à fala primeira, despida das significações inertes e
pretensamente inequívocas.
Como Lacan estará continuamente remetendo a seu mestre vienense, faz-se
mister ir procurar os germes desta operação em sua obra.

O saber psicanalítico tem como pedra angular a Deutung freudiana. Como


falar desta edificação, sem o conhecimento de suas fundações. Afinal, trata-se de
uma interpretação (de sonho), de sua explicação, sua significação? Pois, o verbo
deuten, tem raiz comum com o adjetivo deutsch na língua que assim também se
denomina: o alemão (Deutsch), a língua dos teutos, sendo teuto o povo ou
representante deste povo. Ocorrera ao psicanalista tal incursão etimológica?
Provavelmente não, mas talvez o que muito vem a colaborar para o entendimento da
Psicanálise é sua leitura a partir de outra língua.

Para falar do sentido ou significação, Lacan recorre às palavras-valise que,


aglutinando termos numa palavra, ou recorrendo a línguas estrangeiras,
estabelecem tal qual no chiste ou no ato-falho, o pas-de-sens.(3) Ai retornamos ao
deuten, que poderíamos traduzir por fazer entendível, trazer ao povo (deutsch),
antes de “interpretar”, evitando a contaminação que este termo sofre, de uma idéia
de hermenêutica, busca do “real significado” (Bedeutung). Realmente o anseio de se
fazer entender em Freud não parece ser o mesmo que em Lacan. Este segundo é,
sobretudo no meio acadêmico, acusado de uma ininteligibilidade, principalmente no
que toca os seus neologismos e a recorrência às línguas estrangeiras. E por que
Freud não faz o mesmo? Como afirma Paulo César Souza (1999, p. 68), um ginasial
alemão, não teria grandes dificuldades em ler a Fenomenologia do Espírito, no
entanto, torna-se difícil traduzi-la para qualquer língua neolatina preservando a sua
deutlichkeit (inteligibilidade/clareza) e coerência.

Mais do que ao gênio hegeliano, poderíamos atribuir tal faculdade a recursos


da língua alemã tais como a vasta gama de afixações e das Komposita ou
justaposição ilimitada de morfemas. As Komposita são as junções de dois termos
corriqueiros da língua que, unidos, formam um terceiro, sem que isso se torne
estranho à língua. Se parlêtre (falasser) no francês só se forma a custa de uma
subversão da língua, no alemão poderíamos dizer Sprachwesen, sem com isso
causar qualquer estranhamento ao mais conservador dos germanófonos. Entretanto
o efeito transgressivo ou herético causado provavelmente não seria o mesmo.

É a partir deste recurso que observamos a versatilidade da escrita freudiana


em suas formulações tais como Fehlleistung (ato falho), Deckerinnerung (lembrança
emobridora) ou Gegenbesetzung (contra-catexia). Mas, além do recurso da
combinação de termos, sobretudo no caso dos substantivos, há também o da
prefixação tão corrente nos verbos. Tal como no português com o verbo pôr, que
deriva para propor, antepor, contrapor, supor etc., ocorre no alemão com a quase
totalidade dos verbos, esta matização com uma quantidade muito maior de prefixos.
A título de exemplo poderíamos tomar o verbo stellen, muito próximo de “pôr”. Deste
verbo teríamos abstellen, anstellen, aufstellen, ausstellen, bestellen, darstellen,
durchstellen, einstellen, entstellen e erstellen, sem chegar a sexta letra do alfabeto
nas prefixações.

Porém o verbo deuten, que é passível destas matizações não as teve na


Traumdeutung. Do enunciado que define o sonho, objeto da Deutung, porém, dois
verbos no particípio são portadores do mesmo prefixo, a saber: Ver-: Der Traum ist
die (verkleidete) Erfüllung eines (unterdrückten, verdrängten) Wunsches (O sonho é
a realização [disfarçada] de um desejo [surpimido, recalcado]) (FREUD, 1900, p.166,
grifos meus).

As desinências provocadas pela incorporação do prefixo ver- não foram


assinaladas por Freud, na Traumdeutung, mais cabe lembrar seu livro subseqüente,
Zur Psychopathologie des Alltagslebens [A psicopatologia da vida cotidiana] (1901)
cujas denominações dos capítulos são sobretudo feitas por verbos, ações, que tem
em comum este prefixo:

Vergessen [esquecer]

Versprechen [errar ao falar]

Verlesen [errar ao ler]

Verschreiben [errar ao escrever]

Vergreifen [errar ao agir]

Todos estes verbos marcam os Fehlleistungen, os atos falhos, que preferiria


chamar de equívocos. Equi-vocos, enunciação ambígua, pois ao mesmo tempo que
o prefixo ver- marca um erro, um engano, ele também serve para designar,

Completude, exaustão:

Brauchen – usar, necessitar / Verbrauchen – gastar, consumir

Dursten – ter sede / Verdursten – morrer de sede

Transformação:

Finster – escuro, obscuro / Verfinstern – escurecer

Flüssig – líquido / Verflüssigen – liqüefazer


Amontoamento, conciliação:

Verknüpfen - ligar

Vermischen – misturar

Verflechten – entrelaçar

Daí, podemos entender como os dois primeiros e melhor pormenorizados


mecanismos da formação onírica levam o mesmo prefixo. (FREUD, 1900) A
Verdichtung [condensação] e a Verschiebung [deslocamento] que receberam no
português prefixos de significação diametralmente oposta: co(m)- e des-.

Lacan, em seu retorno a Freud, lançando mão da teoria lingüística de


Ferdinand de Saussure, ao afirmar que o “inconsciente é estruturado como uma
linguagem”, compara os mecanismos da condensação e do deslocamento com as
figuras de linguagem: respectivamente, a metáfora e a metonímia. Isso se torna
interessante uma vez que é aqui também a língua na sua textualidade o nosso
material de análise.

”A Verdichtung, condensação, é a estrutura de superposição dos significantes


em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por condensar em si mesmo a
Dichtung, indica a conaturalidade desse mecanismo com a poesia” (LACAN,
1957, p.515).

Cabe aqui lembrar que o termo Dichtung denota também versificar, algo
próprio dos Dichter, poetas ou escritores imaginativos. Estes especialistas no uso da
metáfora, do significante que se sobrepõe, ou que abre seu sentido para outros. Já a
Verschiebung ou deslocamento é

mais próxima do termo alemão, o transporte da significação que a metonímia


demonstra e que, desde seu aparecimento em Freud, é apresentado como o
meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura (LACAN, 1957,
p.515).

É interessante observar novamente a prefixação. Pois o prefixo de origem


grega met(a)- de metáfora e metonímia terá a função do ver- no sentido da
transformação, transposição, mudança por substituição (metáfora) ou contigüidade
(metonímia). Os termos postos no enunciado, verkleidet e verdrängt, denotam
também a mudança sofrida no desejo e sua realização.
O desejo, é recalcado ou suprimido, verdrängt ou unterdrückt? Neste
momento Freud parece não se preocupar com uma diferenciação. Mas o termo
Verdrängt teria como melhor tradução talvez desalojar ou deslocar. Como uma
pessoa que com um empurrão tira, desaloja [verdrängt] uma outra de sua posição.
Ou como um grande navio que desloca [verdrängt] a água a sua frente. O desejo de
que Freud fala é o desejo desalojado. Desalojado da esfera consciente do Eu.

Sua realização é portanto verkleidet, disfarçada, ou melhor trans-vestida (4),


muda sua roupagem, sua apresentação. Isso pode explicar porque uma realização
de um desejo inconsciente pode se dar num pesadelo provocador de tanta angústia
consciente. Como o prazer (Lust) inconsciente pode acarretar em desprazer
consciente (FREUD, 1920); num sujeito dividido.

A Deutung freudiana ganha, sobretudo a partir do estatuto interpretativo


desenvolvido por Lacan, um caráter de Verdeutung. O sentido é torcido, desalojado,
partido. Aí poderíamos encontrar uma espécie de “-dade” hedeggeriana (5) do
prefixo ver-. O sinthome seria o alcance desta ver-dade no fazer, no como fazer.
Como fazer? Lacan (1975) dit comment (Que se mente) / qu’on ment (que nós
mentimos). Não há diferença entre o eu falo e o eu minto.

A questão paradoxal da contigüidade entre a verdade e a mentira no discurso


encontrou em nossa língua um intérprete privilegiado. Alguém que soube fazer com
seu sofrimento, sua divisão interna, Fernando Pessoa. Basta para isso lembrarmos
seus versos mais célebres.

O poeta é um fingidor. /Finge tão completamente / Que chega a fingir que é


dor / A dor que deveras sente.

Ao passo que, ao fazer sua Autopsicografia não utiliza a primeira pessoa, no


poema contemporâneo intitulado Isto, se justifica agora como “eu”:

Dizem que minto / Tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto com a
imaginação. / Não uso o coração

Torna-se impressionante a um leitor lacaniano a apreensão da ex-istência


feita nestes versos complementares. Mas o mais complexo grau de manejo desta
ex-istência se encontra certamente no recurso de seus heterônimos, as pessoas que
se lhe impõem na escrita. Questionado acerca deles, confidenciou em
correspondência pessoal:
“Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo
traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico,
se sou, mais propriamente, um histérico neurastênico. Tendo para esta
segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a histeria,
propriamente dita, não enquadra no registro de seus sintomas. Seja como for,
a origem mental de meus heterônimos está na minha tendência orgânica e
constante para a despersonalização e para a simulação.”(p.16)

“Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de


Campos que ser considerados. Não há que buscar em quaisquer deles idéias
ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem idéias que não aceito,
sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é
aliás como se deve ler.”(p.14)

Não nos interessa saber sobre a acuidade de seu “auto-diagnóstico”, no


entanto é digno de nota que ele atribui ao seu sofrimento psíquico à origem de seu
fazer sublime. Soube romper com a divisão entre a poesia e a dramaturgia para dar
voz e assinatura às personas. Faz da ficção desde a fonte, o lugar de enunciação de
verdades que no “seu eu” não teriam voz. Transformando o sintoma em sinthome,
faz de si uma persona-valise, donde as contrariedades terão diferentes evocações e
exorcismos possíveis. Assimila a si diferentes ver-dades, faire-nando pessoas.

Notas:

(1) Inferno/A fazer como Lacan.

(2) “Sobre ‘Ver-‘”, prefixo alemão homófono a faire no francês.

(3) Termo ambíguo que pode se traduzir por passo de sentido ou não-
sentido/sem sentido.

(4) Usando o prefixo latino trans- como correlato ao grego met(a)- e ao alemão
ver-, em junção com (ge)kleidet, vestido em alemão.

(5) Trata-se do sufixo –heit que Martin Heidegger usa em Sein und Zeit (1927) ao
tratar da noção de essência. Como exemplo ele utiliza a Tischkeit des Tischs,
ou “a mesidade da mesa”, aquilo que a faz ser o que é.
Referências

FREUD, Sigmund (1900/1999) – Die Traumdeutung in Gesammelte Werke –


Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main; Fischer Verlag

FREUD, Sigmund (1901/1999) – Zur Psychopathologie des Alltagslebens, in


Gesammelte Werke – Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main; Fischer Verlag

FREUD, Sigmund (1920a/1999) – Jenseits des Lustprinzips in Gesammelte Werke –


Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main; Fischer Verlag

GARCIA ROZA, Luiz Alfredo (1990) – Palavra e Verdade na filosofia antiga e na


psicanálise, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro

GARCIA, Ivanir B. (2001) – Inconsciente Linguagem Palavras-Valise in Clinamen,


Revista Psicanalítica No. 1, Florianópolis: Maiêutica Florianópolis Isntituição
Psicanalítica

LACAN, Jacques (1957/1995) – A Instância da Letra no Inconsciente ou a Razão


desde Freud in Escritos, Jorge Zaher Editor, Rio de Janeiro

LACAN, Jacques (1974) – Seminário 22 “R.S.I.”, (inédito)

LACAN, Jacques (1975) – Seminário 23 “Le Sinthome”, (inédito)

PESSOA, Fernando (1975) – Ficções do Interlúdio 1 – Poemas completos de Alberto


Caeiro, Rio de Janeiro, Nova Aguilar

PESSOA, Fernando (1980) – O Eu Profundo e Outros Eus, São Paulo, Nova


Fronteira

SOUZA, Paulo César de (1999) – As Palavras de Freud, São Paulo Ática