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II-238 - FILTRO PLANTADO COM MACRÓFITAS (WETLANDS) COMO

TRATAMENTO DE ESGOTOS EM UNIDADES RESIDENCIAIS - CRITÉRIOS PARA


DIMENSIONAMENTO

Pablo Heleno Sezerino(1)

Engenheiro Sanitarista e Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de


Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Engenharia Ambiental na UFSC. Bolsista do
CNPq.

Luiz Sérgio Philippi

Engenheiro Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em


Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC/USP). Doutor
em Saneamento Ambiental pela Université de Montpellier I (França). Professor Titular do
Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC).

Endereço(1): Rua Santos Saraiva 739, apto 503. Estreito. Florianópolis / SC - CEP: 88070-
100 - Brasil - Tel: (48) 348-2152 - e-mail: phsezerino@hotmail.com

RESUMO

Desde o início da utilização de sistemas tipo wetlands no tratamento secundário de esgotos,


busca-se determinar e conhecer parâmetros de dimensionamento que possam permitir a
depuração dos esgotos em ambientes com interface solo – planta. Na literatura
internacional, encontram-se diversos modelos ou critérios empíricos para projetar filtros
plantados com macrófitas (wetlands), sendo que grande parte destes modelos estão voltados
à remoção da matéria carbonácea. O objetivo deste trabalho é avaliar a aplicabilidade de
um modelo de dimensionamento de filtros plantados com macrófitas, baseado na remoção
de demanda bioquímica de oxigênio (DBO5), destacando a performance de tratamento
obtida junto a uma unidade de tratamento em escala real proposta para uma residência
unifamiliar. Com o intuito de promover o tratamento dos esgotos gerados em uma unidade
residencial, localizada no bairro de Sambaqui em Florianópolis / SC, foi dimensionado,
construído e operado, a partir de setembro de 2001, um sistema de tratamento
compreendido de tratamento primário - caixa de gordura e tanque séptico (volume útil de
2.65m3), tratamento complementar - filtro plantado com macrófitas – escoamento sub-
superficial de fluxo horizontal (área superficial de 10m2), seguido de disposição final na
rede pluvial. Com o monitoramento realizado no filtro plantado com macrófitas em estudo,
o qual foi dimensionado a partir das equações 3 e 9 sendo limitado a qualidade do efluente
final em termos de DBO5 em 48 mg/L, pode-se destacar: a ausência de problemas
hidráulicos ou de emissão de odor ao longo dos primeiros 20 meses de operação; a
adaptação estética da macrófita utilizada com a realidade local; a qualidade do efluente
final em termos absolutos de DBO5 não superou o limite estipulado em projeto; uma
performance de remoção variando de satisfatório a excelente, representado pelos
parâmetros DQO (76%), DBO5 (87%), ST (54%), SST (94%), Ssed (99%), NH4-N (38%)
e PO4-P (18%). A unidade de tratamento em estudo foi devidamente aprovada pelo órgão
municipal responsável pelo saneamento – a Vigilância Sanitária de Florianópolis / SC.

PALAVRAS-CHAVE: Wetlands, Filtro plantado com macrófitas, Dimensionamento,


Esgoto doméstico

INTRODUÇÃO

Os filtros plantados com macrófitas, também conhecidos como zona de raízes e/ou leitos
cultivados, estão inseridos dentro do grupo dos constructed wetlands. Estes podem ser
construídos empregando-se direções de fluxo hidráulico seguindo na horizontal e/ou na
vertical, sendo que estas duas concepções de fluxo diferem-se quanto aos objetivos
propostos para o tratamento.

Esta alternativa tecnológica, que deve ser precedida de tratamento primário, não é
contemplada em normas técnicas, dificultando assim a uniformização de parâmetros e
critérios de dimensionamento. Percebe-se, portanto, adoção de inúmeros critérios e
modelos para o dimensionamento das unidades filtros plantados com macrófitas.

Na literatura internacional, encontram-se diversos modelos ou critérios empíricos para


projetar filtros plantados com macrófitas (wetlands), sendo que grande parte destes modelos
estão voltados à remoção da matéria carbonácea. Dentre as mais pertinentes, Hammer
(1989), Conley et al. (1991) e Crites (1994) consideram os wetlands construídos como
reatores biológicos de biofilme fixo, prevendo para estes uma remoção da matéria orgânica
segundo a cinética de primeira ordem, aplicável mais especificamente em unidades de fluxo
horizontal. Mais recentemente, nota-se que unidades de fluxo vertical vêm sendo
empregadas com a finalidade de promover nitrificação e, portanto, além da cinética de
primeira ordem, leva-se em conta o balanço de oxigênio necessário à manutenção das
condições aeróbias no interior da massa filtrante.

Por se tratar de um processo de tratamento baseado na interação material filtrante -


macrófitas, deve-se conhecer as propriedades físicas (granulometria, diâmetro efetivo,
coeficiente de uniformidade, condutividade hidráulica...) e químicas (teores de Fe, Ca, Mg,
capacidade de troca catiônica - CTC) deste material de recheio, a fim de se buscar conhecer
a dinâmica da colmatação e a vida útil do sistema, bem como utilizar macrófitas adaptadas
ao clima da região.
O objetivo deste trabalho é avaliar a aplicabilidade de um modelo de dimensionamento de
filtros plantados com macrófitas, baseado na remoção de demanda bioquímica de oxigênio
(DBO5), destacando a performance de tratamento obtida junto a uma unidade de tratamento
em escala real proposta para uma residência unifamiliar.

CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO

Desde o início da utilização de sistemas tipo wetlands no tratamento secundário de esgotos,


a partir da década de setenta – mais precisamente em 1974 em Othfresen na Alemanha
(Kickuth, 1977 apud IWA Specialist Group on Use of Macrophytes, 2000), busca-se
determinar e conhecer parâmetros de dimensionamento que possam permitir a depuração
dos esgotos em ambientes com interface solo – planta.

Modelos oriundos da cinética de primeira ordem aplicável aos reatores tipo pistão (equação
1), são os mais amplamente utilizados para prever a área superficial necessária para a
promoção do tratamento secundário dos esgotos domésticos. Estes modelos, contudo, vêm
sendo utilizados em unidades de constructed wetlands com escoamento sub-superficial de
fluxo horizontal (Conley et al., 1991).

equação (1)

onde:

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L)

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

t = tempo de retenção hidráulico (d)

O tempo de retenção hidráulico na equação 1 é função da porosidade do maciço filtrante,


do volume do filtro e da vazão que se deseja tratar (equação 2).

equação (2)

onde:

t = tempo de retenção hidráulico (d)

n = porosidade do material filtrante (m3 vazios / m3 material)

V = volume do filtro (m3)


Q = vazão a tratar (m3/d)

A constante KT destacada na equação 1, pode ser obtida através de equações empíricas que
relacionam a constante de reação a 20oC (K20) com a equação modificada de van’t Hoff-
Arrhenius (Natural Systems, 1990). Contudo na literatura especializada, diferentes
equações empíricas são sugeridas para a determinação de KT, conforme segue:

- destacada por Natural System (1990):

equação (3)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)

- destacada por Reed et al. (1988):

equação (4)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)

- destacada por Tchobanoglous & Culp (1980)

equação (5)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)


q = constante admensional (variando de 1,05 a 1,08)

Nota-se a partir das equações para a determinação de KT relacionadas acima, que este valor
possui uma amplitude considerável, interferindo portanto na determinação da área
requerida do filtro plantado com macrófitas. Aliado a isto, os valores de K20, determinados
em laboratório, também apresentam variações consideráveis. Grandezas para K20 variando
de 0,21 a 2,92d-1 foram reportadas (Conley et al., 1991). Contudo, Reed et al. (1988)
destacam em seus estudos uma faixa de aplicação para KT variando de 0,8 a 1,1d-1. Conley
et al. (1991) argumentam que mais de dez sistemas tipo filtro plantado com macrófitas (root
zone) empregados na Europa, utilizaram valores para K20 em média de 0,70d-1 ± 0,23, e
calcularam o KT através da equação 3.

Tem-se, então, a possibilidade de estimar a área superficial requerida para o filtro plantado
com macrófitas, trabalhando-se com as equações 1, 2 e 3, conforme segue:

equação (1) modificada

aplicando o logaritmo natural:

equação (6)

substituindo a equação 2 na equação 6:

equação (7)

como o volume (V) é o produto da área (A) pela profundidade (p), tem-se:

equação (8)

multiplicando a equação 8 por (-1) e isolando A, obtêm-se:

equação (9)

onde:

A = área superficial requerida (m2)

Q = vazão afluente (m3/d)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

KT = obtida pela equação 3 (d-1)

n = porosidade do material filtrante (m3 vazios / m3 material)


p = profundidade média do filtro (m)

Outros modelos são empregados no dimensionamento dos filtros plantados com macrófitas
de escoamento sub-superficial de fluxo horizontal. Particularmente, o modelo desenvolvido
por Cooper et al. (1996) vem sendo amplamente utilizado na Europa, mais especificamente
no Reino Unido, para a determinação da área requerida para efetuar o tratamento
secundário dos esgotos domésticos em filtros plantados com macrófitas, denominados pelos
pesquisadores como reed beds. A equação desenvolvida pelos pesquisadores (equação 10),
também, deriva da cinética de primeira ordem, sendo porém relacionável a uma constante
de reação em termos de DBO (KDBO) multiplicado pela profundidade e a porosidade do
material filtrante, que via de regra é o cascalho e/ou pedra britada.

equação (10)

onde:

Ah = área superficial requerida (m2)

Q = vazão média afluente (m3/d)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

KDBO = usualmente empregado valores de 0,10 para tratamento secundário e 0,31 para
terciário (m/d)

A aplicação do modelo representado na equação 10, gera uma demanda de área do filtro
plantado em torno de 5m2/pessoa, sendo a concentração de DBO afluente variando de 150
a 300 mg/L (Cooper et al., 1996). Esta relação m2/pessoa, também, é muito empregada no
dimensionamento expedito e, em muitos casos, como critério de dimensionamento,
notadamente, unidades residenciais unifamiliares. Faixas de aplicação encontram-se
variando de 1 a 5 m2/pessoa quando os filtros plantados com macrófitas são empregados
como tratamento secundário precedidos, na maioria dos casos, de decanto-digestores.
Vymazal (1990) indicam valores na ordem de 1,6 m2/pessoa; Philippi et al. (1999)
trabalharam com valores bem mais elevados, da ordem de 6,8 m2/pessoa, porém
trabalhando com efluente de características agro-industriais; Sezerino & Philippi (2000)
aplicando uma unidade para tratar efluente de uma residência padrão (5 pessoas), reduziram
a área requerida para valores de 0,8 m2/pessoa sem que a performance de tratamento fosse
afetada significativamente.

Geometria dos filtros plantados com macrófitas


A partir da obtenção da área superficial requerida, entendendo que o dimensionamento foi
idealizado para uma geometria de um reator tipo pistão, os filtros plantados com macrófitas
são construídos obedecendo, então, uma relação comprimento:largura de, no mínimo, 2:1.
Contudo, a literatura destaca que a obtenção dos comprimentos e larguras devem dar-se a
partir da lei de Darcy, assumindo um escoamento laminar no filtro plantado, conforme a
equação 11 (Sundaravadivel & Vigneswaran, 2001).

equação (11)

onde:

Q = vazão afluente (m3/d)

AC = área da seção transversal ao fluxo no interior do filtro plantado (m2)

KS = condutividade hidráulica saturada (m/d)

S = declividade de fundo (m/m)

Como a área da seção transversal é o produto da largura pela profundidade, e isolando esta
área a partir da equação 11, obtêm-se a largura do filtro conforme segue:

equação (12)

onde

L = largura do filtro plantado com macrófitas (m)

p = profundidade média do filtro plantado com macrófitas (m)

Q = vazão afluente (m3/d)

AC = área da seção transversal ao fluxo no interior do filtro plantado (m2)

KS = condutividade hidráulica saturada (m/d)

S = gradiente hidráulico (m/m)

Logo, de posse da largura (equação 12) e da área superficial requerida (equação 9), obtêm-
se o comprimento do filtro plantado com macrófitas.

PARÂMETROS DE PROJETO

Os parâmetros físicos e dinâmicos que são relevantes no projeto de sistema wetlands, mais
precisamente nos filtros plantados com macrófitas, são:

vazão de efluente a ser tratado;


regime de fluxo;

tempo de retenção no reator wetland construído - volume do reator;

constante de reação - constante de degradação biológica;

balanço de oxigênio – notadamente quando emprega-se filtros de fluxo vertical;

porosidade do material filtrante;

área superficial - relação comprimento x largura;

profundidade;

material filtrante - diâmetro efetivo, coeficiente de uniformidade, condutividade hidráulica.


Alguns destes parâmetros são relativos ao tipo de material adotado, e outros são calculados.
Dentre os parâmetros adotados, a literatura aponta (Arias et al., 2001; IWA Specialist
Group on Use of Macrophytes, 2000; Platzer, 1999; Kadlec & Knight, 1996; Cooper et al.,
1996; Conley et al., 1991; Bucksteeg, 1990):

porosidade (n) = 0,42 - para solos coesivos


0,35 – 0,40 - para areias

0,25 - para cascalho;

diâmetro efetivo (d10) = 0,20 a 0,5mm - para areias e cascalho;

coeficiente de uniformidade (U) = £ 5 unidades ( recomendado 3,5 unidades);

condutividade hidráulica (KS) = £ 10-4 m.s-1;

constante de reação - constante de degradação biológica (K) = fator dependente da


temperatura. É tomado como base o valor da constante para temperatura de 20o C - K20 =
0,70 d-1 ± 0,23.

profundidade (p) = entre 0,30 a 0,80m para o material filtrante.

II-238 - FILTRO PLANTADO COM MACRÓFITAS (WETLANDS) COMO


TRATAMENTO DE ESGOTOS EM UNIDADES RESIDENCIAIS - CRITÉRIOS PARA
DIMENSIONAMENTO

Pablo Heleno Sezerino(1)


Engenheiro Sanitarista e Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Engenharia Ambiental na UFSC. Bolsista do
CNPq.

Luiz Sérgio Philippi

Engenheiro Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em


Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC/USP). Doutor
em Saneamento Ambiental pela Université de Montpellier I (França). Professor Titular do
Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC).

Endereço(1): Rua Santos Saraiva 739, apto 503. Estreito. Florianópolis / SC - CEP: 88070-
100 - Brasil - Tel: (48) 348-2152 - e-mail: phsezerino@hotmail.com

RESUMO

Desde o início da utilização de sistemas tipo wetlands no tratamento secundário de esgotos,


busca-se determinar e conhecer parâmetros de dimensionamento que possam permitir a
depuração dos esgotos em ambientes com interface solo – planta. Na literatura
internacional, encontram-se diversos modelos ou critérios empíricos para projetar filtros
plantados com macrófitas (wetlands), sendo que grande parte destes modelos estão voltados
à remoção da matéria carbonácea. O objetivo deste trabalho é avaliar a aplicabilidade de
um modelo de dimensionamento de filtros plantados com macrófitas, baseado na remoção
de demanda bioquímica de oxigênio (DBO5), destacando a performance de tratamento
obtida junto a uma unidade de tratamento em escala real proposta para uma residência
unifamiliar. Com o intuito de promover o tratamento dos esgotos gerados em uma unidade
residencial, localizada no bairro de Sambaqui em Florianópolis / SC, foi dimensionado,
construído e operado, a partir de setembro de 2001, um sistema de tratamento
compreendido de tratamento primário - caixa de gordura e tanque séptico (volume útil de
2.65m3), tratamento complementar - filtro plantado com macrófitas – escoamento sub-
superficial de fluxo horizontal (área superficial de 10m2), seguido de disposição final na
rede pluvial. Com o monitoramento realizado no filtro plantado com macrófitas em estudo,
o qual foi dimensionado a partir das equações 3 e 9 sendo limitado a qualidade do efluente
final em termos de DBO5 em 48 mg/L, pode-se destacar: a ausência de problemas
hidráulicos ou de emissão de odor ao longo dos primeiros 20 meses de operação; a
adaptação estética da macrófita utilizada com a realidade local; a qualidade do efluente
final em termos absolutos de DBO5 não superou o limite estipulado em projeto; uma
performance de remoção variando de satisfatório a excelente, representado pelos
parâmetros DQO (76%), DBO5 (87%), ST (54%), SST (94%), Ssed (99%), NH4-N (38%)
e PO4-P (18%). A unidade de tratamento em estudo foi devidamente aprovada pelo órgão
municipal responsável pelo saneamento – a Vigilância Sanitária de Florianópolis / SC.

PALAVRAS-CHAVE: Wetlands, Filtro plantado com macrófitas, Dimensionamento,


Esgoto doméstico

INTRODUÇÃO

Os filtros plantados com macrófitas, também conhecidos como zona de raízes e/ou leitos
cultivados, estão inseridos dentro do grupo dos constructed wetlands. Estes podem ser
construídos empregando-se direções de fluxo hidráulico seguindo na horizontal e/ou na
vertical, sendo que estas duas concepções de fluxo diferem-se quanto aos objetivos
propostos para o tratamento.

Esta alternativa tecnológica, que deve ser precedida de tratamento primário, não é
contemplada em normas técnicas, dificultando assim a uniformização de parâmetros e
critérios de dimensionamento. Percebe-se, portanto, adoção de inúmeros critérios e
modelos para o dimensionamento das unidades filtros plantados com macrófitas.

Na literatura internacional, encontram-se diversos modelos ou critérios empíricos para


projetar filtros plantados com macrófitas (wetlands), sendo que grande parte destes modelos
estão voltados à remoção da matéria carbonácea. Dentre as mais pertinentes, Hammer
(1989), Conley et al. (1991) e Crites (1994) consideram os wetlands construídos como
reatores biológicos de biofilme fixo, prevendo para estes uma remoção da matéria orgânica
segundo a cinética de primeira ordem, aplicável mais especificamente em unidades de fluxo
horizontal. Mais recentemente, nota-se que unidades de fluxo vertical vêm sendo
empregadas com a finalidade de promover nitrificação e, portanto, além da cinética de
primeira ordem, leva-se em conta o balanço de oxigênio necessário à manutenção das
condições aeróbias no interior da massa filtrante.

Por se tratar de um processo de tratamento baseado na interação material filtrante -


macrófitas, deve-se conhecer as propriedades físicas (granulometria, diâmetro efetivo,
coeficiente de uniformidade, condutividade hidráulica...) e químicas (teores de Fe, Ca, Mg,
capacidade de troca catiônica - CTC) deste material de recheio, a fim de se buscar conhecer
a dinâmica da colmatação e a vida útil do sistema, bem como utilizar macrófitas adaptadas
ao clima da região.

O objetivo deste trabalho é avaliar a aplicabilidade de um modelo de dimensionamento de


filtros plantados com macrófitas, baseado na remoção de demanda bioquímica de oxigênio
(DBO5), destacando a performance de tratamento obtida junto a uma unidade de tratamento
em escala real proposta para uma residência unifamiliar.
CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO

Desde o início da utilização de sistemas tipo wetlands no tratamento secundário de esgotos,


a partir da década de setenta – mais precisamente em 1974 em Othfresen na Alemanha
(Kickuth, 1977 apud IWA Specialist Group on Use of Macrophytes, 2000), busca-se
determinar e conhecer parâmetros de dimensionamento que possam permitir a depuração
dos esgotos em ambientes com interface solo – planta.

Modelos oriundos da cinética de primeira ordem aplicável aos reatores tipo pistão (equação
1), são os mais amplamente utilizados para prever a área superficial necessária para a
promoção do tratamento secundário dos esgotos domésticos. Estes modelos, contudo, vêm
sendo utilizados em unidades de constructed wetlands com escoamento sub-superficial de
fluxo horizontal (Conley et al., 1991).

equação (1)

onde:

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L)

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

t = tempo de retenção hidráulico (d)

O tempo de retenção hidráulico na equação 1 é função da porosidade do maciço filtrante,


do volume do filtro e da vazão que se deseja tratar (equação 2).

equação (2)

onde:

t = tempo de retenção hidráulico (d)

n = porosidade do material filtrante (m3 vazios / m3 material)

V = volume do filtro (m3)

Q = vazão a tratar (m3/d)

A constante KT destacada na equação 1, pode ser obtida através de equações empíricas que
relacionam a constante de reação a 20oC (K20) com a equação modificada de van’t Hoff-
Arrhenius (Natural Systems, 1990). Contudo na literatura especializada, diferentes
equações empíricas são sugeridas para a determinação de KT, conforme segue:
- destacada por Natural System (1990):

equação (3)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)

- destacada por Reed et al. (1988):

equação (4)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)

- destacada por Tchobanoglous & Culp (1980)

equação (5)

onde:

KT = constante de reação da cinética de primeira ordem – dependente da temperatura T (d-


1)

K20 = constante de reação a 20oC (d-1)

T = temperatura crítica (ºC)

q = constante admensional (variando de 1,05 a 1,08)

Nota-se a partir das equações para a determinação de KT relacionadas acima, que este valor
possui uma amplitude considerável, interferindo portanto na determinação da área
requerida do filtro plantado com macrófitas. Aliado a isto, os valores de K20, determinados
em laboratório, também apresentam variações consideráveis. Grandezas para K20 variando
de 0,21 a 2,92d-1 foram reportadas (Conley et al., 1991). Contudo, Reed et al. (1988)
destacam em seus estudos uma faixa de aplicação para KT variando de 0,8 a 1,1d-1. Conley
et al. (1991) argumentam que mais de dez sistemas tipo filtro plantado com macrófitas (root
zone) empregados na Europa, utilizaram valores para K20 em média de 0,70d-1 ± 0,23, e
calcularam o KT através da equação 3.

Tem-se, então, a possibilidade de estimar a área superficial requerida para o filtro plantado
com macrófitas, trabalhando-se com as equações 1, 2 e 3, conforme segue:

equação (1) modificada

aplicando o logaritmo natural:

equação (6)

substituindo a equação 2 na equação 6:

equação (7)

como o volume (V) é o produto da área (A) pela profundidade (p), tem-se:

equação (8)

multiplicando a equação 8 por (-1) e isolando A, obtêm-se:

equação (9)

onde:

A = área superficial requerida (m2)

Q = vazão afluente (m3/d)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

KT = obtida pela equação 3 (d-1)

n = porosidade do material filtrante (m3 vazios / m3 material)

p = profundidade média do filtro (m)

Outros modelos são empregados no dimensionamento dos filtros plantados com macrófitas
de escoamento sub-superficial de fluxo horizontal. Particularmente, o modelo desenvolvido
por Cooper et al. (1996) vem sendo amplamente utilizado na Europa, mais especificamente
no Reino Unido, para a determinação da área requerida para efetuar o tratamento
secundário dos esgotos domésticos em filtros plantados com macrófitas, denominados pelos
pesquisadores como reed beds. A equação desenvolvida pelos pesquisadores (equação 10),
também, deriva da cinética de primeira ordem, sendo porém relacionável a uma constante
de reação em termos de DBO (KDBO) multiplicado pela profundidade e a porosidade do
material filtrante, que via de regra é o cascalho e/ou pedra britada.

equação (10)

onde:

Ah = área superficial requerida (m2)

Q = vazão média afluente (m3/d)

Co = concentração afluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

Ce = concentração efluente em termos de DBO5 (mg/L = g/m3)

KDBO = usualmente empregado valores de 0,10 para tratamento secundário e 0,31 para
terciário (m/d)

A aplicação do modelo representado na equação 10, gera uma demanda de área do filtro
plantado em torno de 5m2/pessoa, sendo a concentração de DBO afluente variando de 150
a 300 mg/L (Cooper et al., 1996). Esta relação m2/pessoa, também, é muito empregada no
dimensionamento expedito e, em muitos casos, como critério de dimensionamento,
notadamente, unidades residenciais unifamiliares. Faixas de aplicação encontram-se
variando de 1 a 5 m2/pessoa quando os filtros plantados com macrófitas são empregados
como tratamento secundário precedidos, na maioria dos casos, de decanto-digestores.
Vymazal (1990) indicam valores na ordem de 1,6 m2/pessoa; Philippi et al. (1999)
trabalharam com valores bem mais elevados, da ordem de 6,8 m2/pessoa, porém
trabalhando com efluente de características agro-industriais; Sezerino & Philippi (2000)
aplicando uma unidade para tratar efluente de uma residência padrão (5 pessoas), reduziram
a área requerida para valores de 0,8 m2/pessoa sem que a performance de tratamento fosse
afetada significativamente.

Geometria dos filtros plantados com macrófitas


A partir da obtenção da área superficial requerida, entendendo que o dimensionamento foi
idealizado para uma geometria de um reator tipo pistão, os filtros plantados com macrófitas
são construídos obedecendo, então, uma relação comprimento:largura de, no mínimo, 2:1.
Contudo, a literatura destaca que a obtenção dos comprimentos e larguras devem dar-se a
partir da lei de Darcy, assumindo um escoamento laminar no filtro plantado, conforme a
equação 11 (Sundaravadivel & Vigneswaran, 2001).

equação (11)

onde:
Q = vazão afluente (m3/d)

AC = área da seção transversal ao fluxo no interior do filtro plantado (m2)

KS = condutividade hidráulica saturada (m/d)

S = declividade de fundo (m/m)

Como a área da seção transversal é o produto da largura pela profundidade, e isolando esta
área a partir da equação 11, obtêm-se a largura do filtro conforme segue:

equação (12)

onde

L = largura do filtro plantado com macrófitas (m)

p = profundidade média do filtro plantado com macrófitas (m)

Q = vazão afluente (m3/d)

AC = área da seção transversal ao fluxo no interior do filtro plantado (m2)

KS = condutividade hidráulica saturada (m/d)

S = gradiente hidráulico (m/m)

Logo, de posse da largura (equação 12) e da área superficial requerida (equação 9), obtêm-
se o comprimento do filtro plantado com macrófitas.

PARÂMETROS DE PROJETO

Os parâmetros físicos e dinâmicos que são relevantes no projeto de sistema wetlands, mais
precisamente nos filtros plantados com macrófitas, são:

vazão de efluente a ser tratado;

regime de fluxo;

tempo de retenção no reator wetland construído - volume do reator;

constante de reação - constante de degradação biológica;

balanço de oxigênio – notadamente quando emprega-se filtros de fluxo vertical;


porosidade do material filtrante;

área superficial - relação comprimento x largura;

profundidade;

material filtrante - diâmetro efetivo, coeficiente de uniformidade, condutividade hidráulica.


Alguns destes parâmetros são relativos ao tipo de material adotado, e outros são calculados.
Dentre os parâmetros adotados, a literatura aponta (Arias et al., 2001; IWA Specialist
Group on Use of Macrophytes, 2000; Platzer, 1999; Kadlec & Knight, 1996; Cooper et al.,
1996; Conley et al., 1991; Bucksteeg, 1990):

porosidade (n) = 0,42 - para solos coesivos


0,35 – 0,40 - para areias

0,25 - para cascalho;

diâmetro efetivo (d10) = 0,20 a 0,5mm - para areias e cascalho;

coeficiente de uniformidade (U) = £ 5 unidades ( recomendado 3,5 unidades);

condutividade hidráulica (KS) = £ 10-4 m.s-1;

constante de reação - constante de degradação biológica (K) = fator dependente da


temperatura. É tomado como base o valor da constante para temperatura de 20o C - K20 =
0,70 d-1 ± 0,23.

profundidade (p) = entre 0,30 a 0,80m para o material filtrante.

Material filtrante
O material filtrante empregado em sistemas de tratamento tipo wetlands possui papel
fundamental no processo de depuração da matéria orgânica, na transformação das frações
nitrogenadas, na adsorção de fósforo e, principalmente, na manutenção das condições
hidráulicas.

As questões hidráulicas (permeabilidade e fluxo) são expressas através das propriedades


das partículas sólidas do material filtrante. Partículas com formas poliédricas
(arredondadas), tais quais aquelas que predominam nas areias e pedregulhos em geral, são
universalmente aceitas como ideiais para a composição de sistemas de filtração.

Dentre as propriedades das partículas do material filtrante, a composição granulométrica e


os índices que desta podem sem obtidos – diâmetro efetivo, coeficiente de uniformidade e
condutividade hidráulica teórica, definem parâmetros relevantes de projeto.
As tecnologias empregadas no tratamento de efluentes líquidos, domésticos ou industriais,
baseadas no princípio de filtração e crescimento de biofilme aderido a um meio suporte
inerte, tais quais as valas de filtração, filtros de areia, biofiltros e sistemas tipo wetlands,
entre outros, definem como propriedades ideais para as partículas as seguintes dimensões:

d10 superior ou igual a 0,20mm; coeficiente de uniformidade menor ou igual a 5 unidades;


coeficiente de permeabilidade menor ou igual a 10-4m.s-1 (Arias et al., 2001; Platzer,
1999; Cooper et al., 1996; Conley et al., 1991; Bucksteeg, 1990). Particularmente, para
sistemas de vala de filtração e filtros de areias, que são prescritos na norma NBR 13969/97
(ABNT, 1997), o d10 deve estar entre 0,25mm e 1,20mm, e o coeficiente de uniformidade
ser menor que 4 unidades.
A maioria dos wetlands construídos de escoamento subsuperficial projetados na Europa,
notadamente no Reino Unido, conforme mencionado, têm empregado o cascalho e/ou areia
grossa. Recomendam a utilização de cascalho com tamanho médio dos grãos variando de 8
a 16mm em sistemas de fluxo horizontal. Recomenda-se, também, que este material seja
lavado antes de ser utilizado como substrado de filtração, a fim de remover as partículas
finas que podem com o tempo, reduzir a porosidade do material. Em sistemas de fluxo
vertical sugere-se a utilização de uma camada superior de cascalho, seguido de uma camada
de areia lavada com diâmetro efetivo (d10) variando de 0,25 a 0,5mm e com um coeficiente
de uniformidade de aproximadamente 3,5 (IWA Specialist Group on Use of Macrophytes,
2000).

MATERIAIS E MÉTODOS

Com o intuito de promover o tratamento dos esgotos gerados em uma unidade residencial,
localizada no bairro de Sambaqui em Florianópolis / SC, foi dimensionado, construído e
operado, a partir de setembro de 2001, um sistema de tratamento compreendido de
tratamento primário - caixa de gordura e tanque séptico, tratamento complementar - filtro
plantado com macrófitas (escoamento sub-superficial de fluxo horizontal), seguido de
desinfecção por pastilhas de cloro e disposição final na rede pluvial (figura 1).

O dimensionamento do tanque séptico seguiu recomendações da norma técnica NBR


7229/93 (ABNT, 1993), gerando um volume útil de 2,65 m3 (com altura útil de 1,20m)
para uma vazão de 960 L/dia. No cálculo deste volume útil, adotou-se os seguintes
parâmetros de projeto:

tanque séptico prismático retangular de única câmara;

ocupação residencial = 06 pessoas;

contribuição de despejos = 160 l/pessoa.dia;


taxa de acumulação de lodo = 105 dias (intervalo de limpeza de 2 anos e temperatura entre
10 e 20o C);

contribuição de lodo fresco = 1 l/pessoa.dia;


Para o dimensionamento do filtro plantado com macrófitas, optou-se por aplicar as
equações 3 e 9, sendo utilizado os seguintes parâmetros de entrada:

vazão afluente de 960 L/d (6 pessoas produzindo 160 L/pessoa dia de esgoto)

concentração da DBO afluente = 240 mg/l (prevendo remoção de 20% obtida no tratamento
primário);

eficiência estimada de remoção de DBO = 80% (produzindo um efluente final de 48 mg/l);

K20 de 1,06 d-1 (recomendado em literatura valores variando de 0,8 a 1,1 d-1 para
temperaturas de 20o C – Reed et al., 1988);

porosidade do material filtrante = 0,40 (areia média);

profundidade média do filtro = 0,50m;

declividade de fundo = 1%.


Baseado, portanto, nas equações 3 e 9 e utilizando os parâmetros de projeto acima
descritos, obteve-se uma área superficial para o filtro em estudo equivalente a 9,6m2. Para
facilitar a construção, a área adotada foi de 10m2, cujas dimensões são: largura 2,5m;
comprimento: 4,0m.

Figura 1: Esquema representativo da unidade de tratamento em estudo

O material filtrante empregado, areia média, foi obtido junto de casas de material de
construção, sendo contudo submetida a ensaio granulométrico. A tabela 1 destaca as
características físicas do material filtrante empregado.

Tabela 1: Caracterização física do material filtrante empregado no filtro com macrófitas em


estudo

AREIA MÉDIA

OBTIDA EM CASA DE CONSTRUÇÃO

d10

(mm)

d60
(mm)

Uniformidade

(d60/d10)

Condutividade

Hidráulica

(m/h)

% finos

% areia média

0,17

1,06

6,23

1,04

21,95

54,73

O monitoramento da unidade de tratamento, compreendido entre novembro/2002 a


maio/2003, deu-se através de coletas e análises físico-químicas na saída do tanque séptico
(afluente ao filtro plantado com macrófitas) e na saída do filtro plantado (efluente final). Os
parâmetros avaliados foram: demanda química de oxigênio (DQO), demanda bioquímica de
oxigênio (DBO5), nitrogênio amoniacal (NH4-N), fósforo-ortofosfato (PO4-P), sólidos
totais (ST), sólidos suspensos totais (SST) e sólidos sedimentáveis (Ssed). Todos os
parâmetros avaliados seguiram orientações prescritas no Standard Methods for
Examination of Water and Wastewater (APHA, AWWA, WEF, 1995). As coletas foram
pontuais, sendo o material coletado levado imediatamente ao laboratório para a realização
das análises.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Inicialmente, pode-se considerar um resultado relevante a adaptação de toda a unidade de
tratamento e seus elementos atuantes (material filtrante, macrófitas...) perante o saneamento
descentralizado/unifamiliar. Ao longo destes primeiros 20 meses de operação, nenhum
problema hidráulico ou de emissão de odor foi relatado pelos proprietários da residência,
bem como, pôde-se perceber uma satisfatória integração do filtro plantado com macrófitas
à estética local (figura 2).

Em termos técnicos, o filtro plantado com macrófitas mostrou uma eficiência acima
daquela prevista no dimensionamento, cujo parâmetro crítico era a DBO5 e sua remoção.
Como destacado anteriormente, com a aplicação das equações 3 e 9 e utilizando dados
cinéticos e físicos oriundos da literatura especializada, limitou-se o efluente final a uma
concentração de 48 mg/L em termos de DBO5, empregando-se para tanto uma área
superficial de 10m2. Com o monitoramento efetuado, verificou-se que em média o efluente
final do filtro plantado com macrófitas não superou valores absolutos acima de 42 mg/L de
DBO5 (figura 3).

Figura 2: Unidade filtro plantado com macrófitas. No detalhe a macrófita empregada,


conhecida popularmente como Papiros (Papirus sp) – (Foto: Sezerino, P.H.)

Figura 3: Comportamento da DBO no filtro plantado com macrófitas ao longo do período


monitorado.

A figura 3 permite, num primeiro momento, considerar que os dados de entrada utilizados
para empregar o modelo descrito na equação 9 poderiam ser otimizados e com isto, reduzir
a área superficial requerida, logo, reduzir custos de implantação. Contudo, há de se levar
em conta que um maior período de monitoramento faz-se necessário para tal afirmação.

Em relação aos demais parâmetros avaliados, o filtro plantado com macrófitas mostrou um
comportamento variando do satisfatório a excelente (figura 4). Parâmetros como SST e
Ssed apresentaram remoções médias de 94% e 99%, respectivamente. A DQO, DBO e ST,
apresentaram uma remoção média de 76%, 87% e 54%, respectivamente. Quanto aos
macro-nutrientes NH4-N e PO4-P, as remoções médias foram de 38% e 18%,
respectivamente.
Figura 4: Performance de remoção obtida no filtro plantado com macrófitas ao longo do
período de monitoramento.

Quando analisado os resultados descritos na literatura, para sistemas aplicáveis a esgoto


doméstico, percebe-se um comportamento variado na eficácia do tratamento, devido
principalmente, as variantes de projeto/dimensionamento empregada nos wetlands. A tabela
2 descreve as performances de remoção obtidas sob diferentes unidades wetlands de
escoamento sub-superficial de fluxo horizontal (filtro plantado com macrófitas) aplicáveis
ao tratamento complementar de unidades de tratamento anaeróbio de esgotos domésticos.

A partir dos dados destacados na tabela 2 é possível inferir sobre a inexistência de critério
único de dimensionamento, que de uma certa forma torna-se vantajoso quando se trabalha
sob a perspectiva do saneamento descentralizado, pois nestes casos, inúmeras são as
variantes que particularizam cada situação em estudo, ou seja, é diretamente dependente
das condições locais como o tipo de solo, o espaço físico disponível, a disponibilidade de
materiais passíveis de serem utilizados como recheio de filtração, bem como da
disponibilidade de macrófitas adaptadas ao clima da região.

Por outro lado, mesmo com as diferenças no dimensionamento, a performance de remoção


dos parâmetros físico-químicos utilizados como indicadores do tratamento, notadamente
DQO e DBO5, mostram-se dentro de uma faixa moderada de amplitude, variando de 74 a
92% para a DQO e de 74 a 98% para DBO5 (tabela 2). Pode-se inferir, também, com os
dados da tabela 2, que as remoções médias tanto para DQO quanto para DBO5 equiparam-
se, mesmo para períodos de estudo de 6 meses como àqueles de 10 anos. Isto de uma certa
forma vem reforçar a validade dos resultados obtidos com o presente estudo, cujo
monitoramento deu-se sob um período de 6 meses, porém após um tempo de
funcionamento de 14 meses (média de remoção ao longo do período de monitoramento de
76% para DQO e 87% para DBO5).

Os demais parâmetros de controle da eficácia de tratamento, são diretamente ligados ou ao


tipo de material filtrante – caso da remoção das frações de sólidos (ST, SST e Ssed) e PO4-
P, ou ao tipo de fluxo empregado – vertical ou horizontal que propicia a nitrificação e/ou
desnitrificação da amônia/nitrato presente.

Pelo fato do material filtrante utilizado na unidade de tratamento em questão não ter sofrido
nenhuma alteração na sua composição química e nas suas propriedades físicas, ação esta
idealizada para minimizar custos, pode-se inferir que as remoções de fósforo ocorreram
devido a diferentes mecanismos como a precipitação e sedimentação, a incorporação nos
microrganismos presentes, bem como na incorporação a biomassa das macrófitas (Arias et
al., 2001). Contudo, a literatura especializada aponta como um dos maiores mecanismos de
retenção de fósforo nos sistemas wetlands a adsorção deste composto ao material filtrante,
porém estes materiais filtrantes devem ser enriquecidos com minerais a base de Ca3+, Fe3+
ou Al3+ (Rustige & Platzer, 2000).
Tabela 2: Quadro comparativo entre diferentes sistemas wetlands aplicados ao tratamento
de esgotos domésticos.

AUTOR (ES)

PERÍODO

DE

ESTUDO

VARIANTES

DE

DIMENSIONAMENTO

REMOÇÕES (%)

DQO

DBO5

SÓLIDOS

Souza et al., 2001

12 meses

Área = 10m2

2 sistemas em paralelo

com fluxo contínuo e com períodos de descanço

74
81

como

NH4-N

35

62

como

PT

38

81

como

STV

48

56

Sezerino & Philippi, 2000

6 meses

Área = 4m2

(0,8 m2/pessoa)

87

87

74

como

NH4-N
71 – ST

99 - Ssd

Kern & Ilder, 1999

12 meses

Área = 64m2

(6,5 m2/pessoa)

taxa aplic = 15mm/d

92

91

como

NT

88

como

PT

Cooper et al., 1996

4 anos

Área = 195m2

(5,4 m2/pessoa)

emprego da

equação 10

94
74

41

como

NH4-N

87

como

SST

Harbel & Perfel, 1990 apud Cooper et al., 1996

7 anos

3 m2/pessoa

5 m2/pessoa

80

90

85

98

30

70

como

NT

30

70

como
PT

Schierup & Brix, 1990 apud Cooper et al., 1996

10 anos

10 m2/pessoa

86

37

como

NT

27

como

PT

86

como

SST

Já para a efetivação das transformações das frações nitrogenadas, uma seqüência de


tratamento proposta é a aplicação de wetlands de escoamento sub-superficial com fluxo
vertical seguido de uma unidade de fluxo horizontal (filtro plantado com macrófitas). Neste
estudo, pelo fato de ter sido empregado somente a unidade de fluxo horizontal, infere-se
que a remoção da amônia deu-se por mecanismos como a incorporação aos microrganismos
presentes, bem como na incorporação a biomassa das macrófitas.

A elevada performance na remoção de sólidos, notadamente nas frações de SST e Ssed


cujos valores médios absolutos não superaram 306 mg/L de ST e <0,1 mL/L de Ssed,
reforçam idéia da ação do mecanismo de filtração, sendo que até o presente momento a
unidade de tratamento não apresentou indícios de colmatação, mesmo utilizando-se um
material filtrante com características físicas fora das faixas recomendadas na literatura
(tabela 1).
CONCLUSÕES

A aplicação dos modelos de dimensionamento para filtros plantados com macrófitas requer
do projetista e/ou pesquisador uma sensibilidade quanto aos fenômenos e mecanismos
físicos e bioquímicos que estão por trás dos valores recomendados, tais como Ks, KT,
KDBO, entre outros. As equações de dimensionamento apresentados neste trabalho dão
subsídios iniciais para a determinação da área superficial requerida aos filtros plantados
com macrófitas (wetlands construídos de escoamento sub-superficial de fluxo horizontal)
na efetivação do tratamento secundário nos esgotos domésticos. Ressalta-se, contudo, que
unidades de tratamento primário, tais como os tanques sépticos, são peças chave na
manutenção da qualidade do tratamento.

Com o monitoramento realizado no filtro plantado com macrófitas em estudo, o qual foi
dimensionado a partir das equações 3 e 9 sendo limitado a qualidade do efluente final em
termos de DBO5 em 48 mg/L, pode-se destacar:

ausência de problemas hidráulicos ou de emissão de odor ao longo dos primeiros 20 meses


de operação;

adaptação estética da macrófita utilizada com o paisagismo local;

a qualidade do efluente final em termos absolutos de DBO5 não superou o limite estipulado
em projeto;

performance de remoção variando de satisfatório a excelente, representado pelos


parâmetros DQO (76%), DBO5 (87%), ST (54%), SST (94%), Ssed (99%), NH4-N (38%)
e PO4-P (18%).
As ações que continuam a serem empregadas na unidade de tratamento em estudo, visam
identificar e acompanhar a dinâmica dos mecanismos de tratamento que ocorrem, bem
como buscam identificar e antever problemas operacionais tais como a possibilidade de
colmatação do leito filtrante.

Ressalta-se, também, que mesmo os filtros plantados com macrófitas não estarem
destacados nas normas técnicas aplicáveis ao tratamento descentralizado e/ou unifamiliar
de esgotos domésticos (como por exemplo a NBR 13969 – ABNT, 1997), estes mostram-se
como alternativa viável para a realização do tratamento secundário.

A unidade de tratamento em estudo foi devidamente aprovada pelo órgão municipal


responsável pelo saneamento – a Vigilância Sanitária de Florianópolis / SC..

AGRADECIMENTOS
Os autores gostariam de agradecer o apoio obtido junto ao projeto Suínos/SC (parceria
entre UFSC-EMBRAPA-EPAGRI, financiado pela FINEP-FUNCITEC-CNPq) sob a
coordenação por parte da UFSC do Prof. Dr. Paulo Belli Filho; agradecer, também, o Dr.
Christoph Platzer pelas informações pertinentes; ao aluno de graduação em Engenharia
Sanitária-Ambiental da UFSC Bruno Kossatz pelo suporte técnico ao longo das análises de
laboratório, bem como os proprietários da residência utilizada no estudo, o Sr. Odair e a
Sra. Ingrácia.

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