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BR99H0135

"TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DAS EQUAÇÕES DE NAVIER- STOKES PARA ESCOAMENTO LAMINAR EM CANAIS DE GEOMETRIA BIDIMENSIONAL ARBITRÁRIA"

Jesus Salvador Pérez Guerrero

TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE DOUTOR EM CIÊNCIAS EM ENGENHARIA MECÂNICA.

Aprovada por:

/

'

.

L

••

:

--L

_

Prof. Renato Machado Cotta, Ph.D.

Prof. Átila Pantaleão Silva Freire, Ph.D.

Prof. Mikhail Dimiter Mikhailov, Ph. D

.JProf. Sergio H. Sphaier, Dr.-Ing.

Prof. Francesco Scofano NgloJD.Sc.

Prof. Carlos Antonio Cabral dos Santos, D.Sc.

RIO DE JANEIRO, RJ -

BRASIL

OUTUBRO DE 1995

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ORIGINAL DOCUMENT

Page 57

PEREZ GUERRERO, JESUS SALVADOR

Transformação Integral das Equações de Navier-Stokes para Escoamento Laminar em Canais de Geometria Bidimensional Arbitrária [Rio de Janeiro] 1995. xvi ,121 p. 29,7 cm (COPPE/UFRJ, D.Sc., Engenharia Mecânica, 1995) Tese - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE.

1. Equações de Navier-Stokes.

2.Escoamento em Canais de Geometria Arbitrária.

3. Transformação Integral.

I. COPPE/UFRJ

II. Título (série)

Ill

Resumo da tese apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de Doutor em Ciências (D. Sc).

TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DAS EQUAÇÕES DE NAVIER- STOKES PARA ESCOAMENTO LAMINAR EM CANAIS DE GEOMETRIA BIDIMENSIONAL ARBITRÁRIA

Jesus Salvador Pérez Guerrero OUTUBRO, 1995

Orientador: Renato Machado Cotta Programa: Engenharia Mecânica

O desenvolvimento do escoamento laminar em canais de geometria arbitrária é

estudado, resolvendo-se as equações de Navier-Stokes na formulação de função corrente, pela Técnica da Transformada Integral Generalizada (GITT).

A função corrente é expandida em autofünções obtidas ao considerar-se unicamente os termos difusivos da formulação original. As equações de Navier-Stokes são transformadas num sistema diferencial ordinário infinito, ao fazer-se uso das fórmulas de transformação e inversão. As séries infinitas são truncadas para fins computacionais, de acordo com um procedimento de controle automático de erro, resolvendo-se o sitema diferencial ordinário com subrotinas bem estabelecidas, em bibliotecas matemáticas amplamente disponíveis.

O clássico

caso

do

desenvolvimento

inicialmente

analisado, tanto para a condição

do escoamento

entre placas paralelas

e paralela,

é

como

de entrada uniforme

IV

irrotacional. O efeito do truncamento do comprimento do duto na precisão da solução obtida é abordado. A convergência das soluções via GITT é apresentada e comparada com resultados obtidos por diferenças finitas e elementos finitos para diferentes valores do número de Reynolds.

O caso do escoamento sobre um degrau ("backward-facing step") é estudado a seguir. Comparações com dados experimentais existentes na literatura indicam uma excelente concordância. A covalidação numérica é estabelecida para um caso teste, conseguindo-se perfeita concordância com os resultados considerados benchmark na literatura recente. Os resultados mostram-se mais coerentes fisicamente que outros conseguidos por métodos puramente numéricos, em particular para situações onde já se identificam efeitos tridimensionais.

Por último, um caso teste de duto irregular é estudado e os resultados comparados com os existentes na literatura, mostrando-se uma boa concordância, com excelentes taxas de convergência do campo da função corrente ao longo de todo o canal, para diferentes números de Reynolds.

Abstract of Thesis presented to COPPE/UFRJ as partial fulfilment requirements for the degree of Doctor of Sciences (D. Sc) .

of the

INTEGRAL TRANSFORMATION OF THE NAVIER-STOKES EQUATIONS FOR LAMINAR FLOW IN CHANNELS OF ARBITRARY TWO-DIMENSIONAL GEOMETRY

Jesus Salvador Perez Guerrero OCTOBER, 1995

Thesis Supervisor: Renato Machado Cotta Department: Mechanical Engineering

Laminar developing flow in channels of arbitrary geometry was studied by solving the Navier-Stokes equations in the streamfunction-only formulation through the Generalized Integral Transform Technique (GITT). The stream function is expanded in an infinite system based on eigenfunctions obtained by considering solely the diffusive terms of the original formulation. The Navier- Stokes equations are transformed into an infinite system of ordinary differential equations, by using the transformation and inversion formulae. For computational purposes, the infinite series is truncated, according to an automatic error control procedure. The ordinary differential is solved through well-established scientific subroutines from widely available mathematical libraries. The classical problem of developing flow between parallel-plates is analysed first, as for both uniform and irrotational inlet conditions. The effect of truncating the duct length in the accuracy of the obtained solution is studied. A convergence analysis of the

VI

results obtained by the GITT is performed and compared with results obtained by finite difference and finite element methods, for diferent values of Reynolds number. The problem of flow over a backward-facing step then follows. Comparisons with experimental results in the literature indicate an excellent agreement. The numerical co-validation was established for a test case, and perfect agreement is reached against results considered as benchmarks in the recent literature. The results were shown to be physically more reasonable than others obtained by purely numerical methods, in particular for situations where three-dimensional effects are identified. Finally, a test problem for an irregular by shoped duct was studied and compared against results found in the literature, with good agreement and excellent convergence rates for the streamfunction field along the whole channel, for different values of Reynolds number.

Vil

A mi adorada hijita Estefanita. A mi amada esposa y companera de toda Ia vida Mariluz. A mi adorada madre Alicia y mi inolvidable padre Manuel.

VIII

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Renato M. Cotta pela orientação.

À CAPES, pelo suporte financeiro durante todo o doutorado.

Ao Núcleo de Atendimento de Computação em Alto Desempenho (NACAD/UFRJ)

pela utilização de seus recursos computacionais.

À minha amada esposa Mariluz, pela paciência e apoio durante todo o trabalho.

Aos meus irmãos Manuel e Miguel, pelo incentivo. Aos meus grandes amigos Roseane Barcelos Santos e Ricardo Gondim dos Santos, pela inestimável ajuda prestada neste trabalho. A Alípio Castelo Branco Jr. e Luis Cláudio Gomes Pimentel pela colaboração. A todo pessoal do Laboratório de Transmissão e Tecnologia do Calor (LTTC), pela colaboração sempre atenta em todos os momentos. Aos professores da COPPE/UFRJ pelos conhecimentos fornecidos em suas aulas. Ao Dr. José Ananias e Sra. Ana Lúcia Figueira da Silva pela ajuda num momento

crítico.

- LETRAS LATINAS

IX

GLOSSÁRIO

a

Posição para especificar a altura do degrau.

A

jjk

Coeficiente

de transformação.

A

o,jjç

Coeficiente

de transformação.

b

Metade da separação entre placas paralelas

B

yk

Coeficiente de transformação.

bj,

b 2

Especifica separação das paredes do duto.

B<»jk

Coeficiente de transformação.

c

Parâmetro de compressão da escala.

C

jjk

Coeficiente

de transformação.

Coojk

Coeficiente de transformação.

D

j:

Coeficiente de transformação.

D

h

Diâmetro hidráulico (D h =4b).

F

Filtro para caso de domínio irregular.

FOOjjk

Coeficientes de transformação

do duto irregular

FOljjk

Coeficientes de transformação do duto irregular

F02jj

k

Coeficientes de transformação do duto irregular

F03jj k

Coeficientes de transformação do duto irregular

Flo p

Coeficientes

de transformação do duto irregular

Fl lj jk

Coeficientes de transformação do duto irregular

F12;j k

Coeficientes de transformação do duto irregular

FOy

Coeficiente s

d e

transformaçã o

d o

dut o

irregula r

Fly

Coeficientes de transformação do duto irregular

F2jj

Coeficientes de transformação do duto irregular

F3jj

'

Coeficientes

de transformação do duto irregular

fj

Distribuição de velocidade axial na entrada do duto (caso dutos

regulares).

Distribuição de velocidade axial na saída do duto (caso dutos

irregulares).

Coeficientes de transformação do duto irregular

Coeficientes de transformação do duto irregular

Coeficientes de transformação do duto irregular

Coeficientes de transformação do duto irregular

Ü Coeficientes de transformação do duto irregular

FCDj

Hl

H2

H3

i Subíndice de termo na série.

j Subíndice de termo na série.

k Subíndice de termo na série.

Ü Coeficientes de transformação do duto irregular

Ü Coeficientes de transformação do duto irregular

,k 2

Valor da função-corrente nas paredes do duto.

L Posição de truncamento do duto.

N, Nt

N; ,N

P,

q Coeficiente de balanço de massa.

Número de termos de truncamento da série.

Norma.

*

P Campo de pressões adimensional e dimensional respectivamente.

Q Vazão por unidade de comprimento.

Re

Número de Reynolds

(

Re =

A\Jb\ I(Caso do Duto Regular);

Re = — v

J

(Caso Geral do Duto Irregular),

u,

U Velocidade média axial.

v,

u Velocidade axial adimensional e dimensional respectivamente.

V Velocidade transversal adimensional e dimensional respectivamente.

*o Posição de realocamento da condição de contorno transformada.

X Função do sistema diferencial ordinário.

y-

*

y Coordenada vertical adimensional e dimensional respectivamente.

Autofunção.

Autofunção normalizada

- LETRAS GREGAS

XI

s

Controle automático do erro global.

4

Variável Auxiliar.

r\

Variável

de transformação do domínio.

|ij

Autovalores.

fj.;

Autovalores.

v

Viscosidade.

p

Densidade.

\|/

Função-corrente.

\\i m

Função-corrente do campo de velocidade completamente desenvolvido.

\j7j

Campo Transformado, caso do duto domínio Írrregular.

co

Vorticidade.

-SÍMBOLOS MATEMÁTICOS:

V

Gradiente.

V 2

Laplaciano.

V

4

Operador biharmônico

xn

ÍNDICE DE FIGURAS

FIGURA 2.1 -

Representação geral do problema em duto regular

5

FIGURA 2.2 -

Especificação das condições de contorno

11

FIGURA 3.1-

Tipos de condições de contorno na entrada do duto

25

FIGURA 3.2-

Velocidade u (x, 0) ao longo do duto para condições de contorno uniforme e irrotacional na entrada, comparada com resultados de camada limite

34

FIGURA 3.3 -

Desenvolvimento do perfil de velocidades u (x, y), ao longo do duto

para condições de contorno uniforme e irrotacional na entrada (Re = 300)

34

FIGURA 3.4 -

Desenvolvimento do perfil de velocidades v (x, y), com condição de

contorno uniforme e paralela na entrada do duto

35

FIGURA 4.1 -

Esquema do problema de escoamento sobre um degrau ("Backward

Facing Step")

37

FIGURA 4.2 -

Desenvolvimento da componente transversal da velocidade ao longo

do canal (Re = 438)

46

FIGURA 4.3 -

Desenvolvimento da componente transversal da velocidade ao longo

do canal (Re = 1374)

46

FIGURA 4.4 -

Isolinhas

da Função

Corrente

(Re = 438)

47

FIGURA 4.5 -

Isolinhas

da Função

Corrente (Re = 1374)

47

FIGURA 4.6 -

Comparação dos Perfis da componente transversal da velocidade ao longo do duto (x = 14 e x = 30 ; Re = 1600)

54

FIGURA 4.7 -

Desenvolvimento da velocidade transversal ao longo do duto

(Re = 1600)

54

FIGURA 4.8 -

Isolinhas

da Função

Corrente (Re = 1600)

55

FIGURA 4.9 -

Isolinhas

da Função

Corrente (Re = 1942)

55

FIGURA 5.1-

Esquema do duto irregular

57

FIGURA 5.2 -

Geometria que identifica o filtro F (x, y)

61

FIGURA 6.1-

Geometria do problema-teste: Canal com expansão gradual

83

FIGURA 6.2.a,b

Condições de contorno no duto com espansão gradual

84

FIGURA 6.3 -

Isolinhas da Função Corrente (Re = 10)

93

Xlll

FIGURA 6.4 -

FIGURA

-

6.5

Isolinhas da Função Corrente (Re = 100)

Vorticidade

ao longo

da parede

do duto

(Re =10)

93

98

FIGURA 6.6 -

Vorticidade

ao longo da parede do duto (Re =100)

98

FIGURA

A. 1 -

Geometria do Escoamento Completamente Desenvolvido entre placas paralelas

109

XIV

ÍNDICE DE TABELAS

TABELA 3.1-

Convergência da velocidade no centro do duto, u (x, 0), para

 

Re=0. (u= 1, v = 0)

29

TABELA 3.2-

Convergência e comparação da velocidade no centro do duto,

u (x, 0), para Re = 40. ( condições de contorno na entrada u = 1,

 

v = 0)

30

TABELA 3.3 -

Convergência e comparação da velocidade no centro do duto,

u

(x, 0), para Re = 300. (condições de contorno na entrada u = 1,

TABELA 3.4-

= 0) Convergência e comparação da velocidade no centro do duto,

v

30

u

(x, 0), para Re = 300. (condições de contorno na entrada u = 1,

o = 0)

31

TABELA3.5.a,b-

Velocidade na linha de centro do duto, u (x, 0) , para diversas

posições de truncamento do duto

32

TABELA 4.1-

Convergência da componente longitudinal do campo de

velocidades (Re = 438 )

44

TABELA 4.2 -

Convergência da componente longitudinal do campo de

velocidades (Re= 1374)

45

TABELA 4.3 -

Convergência da componente longitudinal do campo de velocidade

emx=14 (Re=1600)

49

TABELA 4.4 -

Convergência da componente longitudinal do campo de velocidade

em x=30 (Re=1600)

50

TABELA 4.5 -

Convergência da componente longitudinal do campo de velocidade

(Re = 1942)

53

TABELA 6.1-

Convergência da Função Correntei)/ (x/ x out ,0.5) (Re =10 )

91

TABELA 6.2 -

Convergência da Função Corrente \\f (x / x out ,0.5) (Re =100 )

92

TABELA 6.3.a,b -

Convergência da vorticidade na parede do duto (Re =10)

95

TABELA 6.4.a,b -

Convergência da vorticidade na parede do duto (Re = 100)

96

XV

ÍNDICE

 

Página

CAPÍTULO I -

INTRODUÇÃO

1

LI -

MOTIVAÇÃO E OBJETIVOS

1

1.2 - A TÉCNICA DA TRANSFORMADA INTEGRAL GENERALIZAD A

4

CAPÍTULO II - II. 1 - II.2 -

ESCOAMENTO EM DUTOS REGULARES DEFINIÇÃO DO PROBLEMA SOLUÇÃO VIA GITT -

11.2.1

11.2.2 Par Transformada-Inversa

Problema Auxiliar

-

5

5

9

10

13

11.2.3 Transformação Integral do Problema

-

15

11.2.4 Algoritmo Computacional

-

18

CAPÍTULO III -

ESCOAMENTO ENTRE PLACAS PARALELAS

24

111.1

-

DESCRIÇÃO DO PROBLEMA

24

111.2

-

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

27

111.3

-

RESULTADOS

28

CAPÍTULO IV - IV.l - IV.2 - IV.3 -

CAPÍTULO V -

ESCOAMENTO SOBRE UM DEGRAU DESCRIÇÃO DO PROBLEMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA RESULTADOS

ESCOAMENTO EM CANAIS DE GEOMETRIA ARBITRÁRIA.

36

36

40

43

56

V.l -

DEFINIÇÃO DO PROBLEMA

56

V.2 -

SOLUÇÃO VIA GITT

59

V.3 -

O FILTRO F (x, y)

60

V.4 -

PROBLEMA DE AUTOVALOR

63

V.4.1 - Propriedade de Ortogonalidade

65

XVI

V.6 -

TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO PROBLEMA

67

V.7 - ALGORITMO COMPUTACIONAL

77

CAPÍTULO VI -

ESCOAMENTO NO INTERIOR DE UM DUTO COM EXPANSÃO

 

81

VI. 1 -

GRADUAL DEFINIÇÃO DO PROBLEMA

81

VI.2 -

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

85

VI.3 -

SOLUÇÃO DO PROBLEMA

86

 

VI.3.1 -

Duto Truncado

86

VI.3.2 - Duto Infinito

88

VI.4 - RESULTADOS

89

CAPÍTULO VII -

CONCLUSÕES

99

CAPÍTULO VIII - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

101

APÊNDICE A - Escoamento completamente Desenvolvido entre Placas Paralelas

109

APÊNDICE

B -

Derivadas da Fórmula de Inversão

112

APÊNDICE

C - Coeficientes do Sistema Diferencial Ordinário

114

I - INTRODUÇÃO

I.I - MOTIVAÇÃO E OBJETIVOS

O estudo do desenvolvimento hidrodinâmico de escoamentos laminares em dutos é

um tema de interesse permanente na engenharia pelas inúmeras aplicações em equipamentos hidráulicos e térmicos, na busca pela determinação acurada de fatores de atrito e coeficientes de transferência de calor ao longo do canal. A modelagem teórica deve ser realizada a partir das equações de Navier-Stokes, ou através das equações simplificadas de camada limite. A validade da aplicação neste último caso é circunscrita a situações de número de Reynolds altos e em posições não muito próximas da entrada do duto. Este aspecto é analisado no Capítulo III do presente trabalho.

A dificuldade na análise numérica do desenvolvimento de escoamentos em dutos,

está na adequada especificação de condições de contorno na entrada e saída do canal e na necessidade de se resolver, com precisão controlada, um sistema diferencial parcial elíptico e não linear, representado pelas equações de Navier-Stokes.

Soluções para problemas de escoamento dentro de dutos foram obtidas ainda em meados dos anos 60 para o caso de placas paralelas, ampliando-se os estudos com a evolução dos métodos numéricos para resolver equações diferenciais parciais e dos computadores, tanto em velocidade quanto em memória. Ainda assim, a gama de análises para escoamentos em canais não-regulares permanece restrita, ao introduzir regiões de recirculação e adicionar a dificuldade do adequado mapeamento do domínio irregular.

Por outro lado, problemas convectivo-difusivos têm sido resolvidos com grande sucesso pela Técnica da Transformada Integral Generalizada ( GITT ) [ 1 ], em inúmeras aplicações.

Por sua concepção híbrida numérico-analítica, esta técnica tem as vantagens de manter um controle sobre o erro relativo dos resultados, o qual é estabelecido a priori e

controlado

computacional.

automaticamente,

e

de

ser

uma

ferramenta

de

simples

implementação

A ampla gama de aplicações do método, pode ser agrupada nas seguintes classes:

- Problemas com coeficientes variáveis nas condições de contorno [ 2-5 ]:

• Aplicações: problemas condutivos com número de Biot dependente do tempo, convecção forçada em dutos aletados externamente, etc.

- Problemas com coeficientes variáveis na equação [ 6- 8 ]:

• Aplicações: análise transiente de aletas com dissipação dependente do tempo, desenvolvimento simultâneo de velocidade e temperatura dentro de canais, etc,

- Problemas com Contornos Variáveis [ 9-15 ]:

• Aplicações: problemas de contorno móvel, tais como fusão/solidificação, ablação e oxidação; domínio de forma irregular com respeito ao sistema de coordenadas considerado, como no caso da transferência de calor em trocadores com dutos triangulares, trapezoidais, hexagonais, etc.

- Problemas que Envolvem Problema Auxiliar Difícil [ 16-22 ]:

• Aplicações: convecção forçada interna em regimes transiente e periódico, transferência de calor em escoamentos com condução axial, convecção em dutos retangulares, problemas conjugados de transferência de calor, trocadores de calor bitubulares, etc.

- Problemas Não- Lineares [23-41, 76-78 ]:

• Aplicações: condução de calor com condutividade térmica variável, condições de contorno com troca radiante, solução das equações de camada limite para regimes laminar e turbulento, e as equações de Navier-Stokes.

Com relação às equações de Navier-Stokes, a técnica está estendendo-se gradativamente para problemas que envolvem escoamento laminar e turbulento e para as aplicações em coordenadas cilíndricas.

Neste contexto, o objetivo do presente trabalho é estender a aplicabilidade da GITT na solução das equações de Navier-Stokes para casos mais gerais, explorando a formulação em função corrente. Desta forma, pretende-se abordar a solução do problema de escoamento em desenvolvimento no interior de dutos bidimensionais com domínio regular e irregular para o caso do escoamento incompressível e laminar em regime permanente, abrindo-se assim perspectivas para aplicação da presente técnica em casos bem mais gerais com dependência no tempo e em regime turbulento. Os problemas de escoamento resolvidos no presente trabalho têm sido escolhidos, tanto pelo interesse físico que eles apresentam, como também porque servem como excelentes testes de validação de métodos computacionais.

O presente trabalho encontra-se inserido no escopo da cooperação técnica entre a University College of Swansea, Institute for Numerical Methods in Engineering, e o PEM/COPPE/UFRJ, sob fmancimento do British Council. Neste esforço mais amplo, busca-se a co-validação de resultados de simulações via transformação integral e elementos finitos, fazendo-se uso da interessante característica de controle automático de erro da presente técnica, permitindo o estabelecimento de resultados benchmark para problemas - teste de uso corrente na literatura, como aqueles aqui analisados.

1.2 - A TÉCNICA DA TRANSFORMADA INTEGRAL GENERALIZADA

A aplicação da GITT pode ser resumida nos seguintes passos:

a) Definição do problema auxiliar, com base nos termos difusivos da formulação original.

b) Solução do problema auxiliar e obtenção das autofunções, autovalores, normas e propriedade de ortogonalidade.

c) Desenvolvimento do par transformada-inversa.

d) Transformação integral do problema diferencial parcial num sistema diferencial ordinário acoplado.

e) Truncamento do sistema diferencial ordinário infinito e solução numérica do sistema diferencial resultante, para obtenção dos campos transformados.

f) Obtenção do potencial original, fazendo-se uso da fórmula de inversão.

A idéia básica na técnica generalizada, é relaxar a necessidade de encontrar-se uma

transformação integral exata, ou seja, que resulte num sistema diferencial transformado não-acoplado. Assim, pode-se escolher um problema auxiliar (de autovalor) que seja característico do problema original ou não, desenvolver o par transformada-inversa e efetuar a transformação integral, chegando-se a um sistema diferencial ordinário infinito e acoplado. Após truncamento em ordem suficientemente grande para a precisão requerida, automaticamente selecionada durante o próprio processo de solução, o sistema diferencial ordinário é resolvido numericamente por algoritmos bem estabelecidos, com controle automático de erro, disponíveis em bibliotecas de subrotinas científicas. A fórmula explícita de inversão fornece então uma representação analítica nas demais variáveis independentes eliminadas pela transformação integral.

II - ESCOAMENTO EM DUTOS REGULARES

II.1 - DEFINIÇÃO DO PROBLEMA

O problema de escoamento em duto regular é definido geometricamente por duas placas planas infinitas e paralelas, entre as quais escoa um fluido Newtoniano com condições de contorno especificadas na entrada e saída do canal (Figura 2.1).

Deseja-se encontrar as características do desenvolvimento do escoamento ao longo do duto.

f.[y]

-b

f 2 [y*]

FIGURA 2.1 - Representação geral do problema em duto regular.

O problema físico é formulado ao considerar-se:

- Escoamento bidimensional em regime laminar e estacionário.

- Escoamento incompressível.

- Propriedades do fluido constantes.

- Impermeabilidade e não deslizamento nas paredes do duto.

- Fluido newtoniano.

O escoamento dentro do duto é governado pelas equações de continuidade e de

Navier-Stokes, que em termos das variáveis primitivas adimensionais; são dadas por:

õx

õy

u

õu.

õu

Õp

4fõ V

õ 2 n)

õx

õy

õx

Re^õx

õy

õv

õv

õp

4

j õ 2 v

õ 2 v

õx

õy

õy

Rel^õx

õy

J

(2.1.C)

onde os parâmetros adimensionais foram definidas a partir de:

*

*

u = —

,

v = —

,

U

U

'

* P = -^ T pU 2

V

(2.2.a,b)

(2.2.C, d, e)

notando-se que "*" identifica as variáveis dimensionais. O número de Reynolds foi

definido a partir do diâmetro hidráulico e da velocidade média na entrada do duto:

Re =

UD h

4Ub

=

Como é sabido, uma das dificuldades

(2.2.f)

na solução das equações (2.1) está no

desconhecimento do campo de pressões nos contornos.

Uma alternativa que permite evitar esta dificuldade, é fazer uso da função-corrente

\)/ (x,y), representada a partir do campo de velocidades, na forma:

u(x,y ) =

|(,y )

,

v(x,y ) = -

ôv|/(x,y)

(2.3.a,b)

Portanto, derivando a equação (2.1.b) em relação a "y" e a equação (2.1.c) em

relação a "x", com posterior subtração de ambas e tendo-se em conta (2.1.a), obtém-se a

seguinte equação não linear do tipo biharmônico para a função-corrente:

ôy

ôfy

õx 3

ô\\i

+

õy

Õ 3 \\i

Õxdy 2

dy

õx

õ\

=

õx 2 õy

dy di|/

õx

õy 3

4

Re Re

4

V

VI/

Y

(Z.T-)

válida para todo x>0 , -1 < y < 1 e onde V 4 representa o operador biharmônico:

õx

ôx

As oito

õy

condições

de contorno

requeridas

especificadas ao considerar-se:

na

solução

da equação

( 2 - 5 )

(2.4)

são

- Impermeabilidade e não-deslizamento nas paredes do duto:

u(x,-l ) = 0

;

v(x,-l ) = 0

;

x> 0

(2.6.a, b)

u(x,l ) = 0

;

v(x,l ) = 0

;

x> 0

(2.6.c, d)

que ao ser representadas em termos da função-corrente tornam-se:

 

= 0

(2.7.a, b)

^ = 0

 

(2.7.c,d)

onde k[ e k 2 são constantes, que especificam o valor da função-corrente nas paredes.

- Perfil de velocidades conhecido na entrada do duto:

u(0,y) = f,(y)

;

v(0,y) = 0

(2.8.a,b)

Usando a definição da função-corrente (2.3) e integrando-se diretamente:

j(Ç)d^

;

^' y ) = 0

(2.9.a,b)

- Perfil de velocidades paralelo completamente desenvolvido para x —> oo :

;

v(oo, y ) = o

ou em termos da função-corrente:

(2.io.a,b)

onde "q" é uma constante que garante o balanço de conservação da massa.

A constante k 2 pode ser encontrada a partir de (2.9.a) ou (2.11.a). Fazendo-se uso desta última:

k 2 = k t + 2 q

(2.12)

Desta forma, o problema de escoamento em duto regular fica formulado apenas em termos da função-corrente.

II.2 - SOLUÇÃO VIA GITT

performance

computacional, é conveniente fazer uma homogeneização parcial das condições de

contorno. Para este fim, se considera o seguinte filtro:

Para

facilitar

a

aplicação

do

método

(GITT)

e

melhorar

sua

onde

^(y )

representa

a

•t' ( x >y)

^M 7 (°°>y)) e

função-corrente

é o potencial a ser determinado.

na

região

completamente

desenvolvida

Substituindo (2.13) em (2.4), e nas condições de contorno (2.7,9-11) obtém-se:

 

10

ô(j)

cP_§_

dty

õ 3 (j)

3(j)

a 3 <>|

S(()

ô 3 <|)

õy õx 3

dy

5x 3

õy dxôy 2

| K,

|

dy

dy

5(|

õxdy

õxdy 2

2

5y

4

õy

õx

õx 2 õy

~ õx

ôy 3

dit/ M

a>j, =

_4_

dy 3

dy 3

õx

õx

Re

Re

v

o,y)

(2.14.a)

(2.14.b,c)

(2.14.d,e)

(2.14.f,g)

Assim, o problema encontra-se reformulado para a solução da função

<Kx,y).

auxiliar

II.2.1 - PROBLEMA AUXILIAR

Dado às características homogêneas do sistema (2.14) na direção "y", escolheremos o problema de autovalor nessa coordenada.

= fi(y)

jf,

- l

ax

j

— 1

— = 0

©d

J

11

••

y

 

u=0

v=0

 
 

u = -q(i-y 2 )

 

x

v = 0

 

u = 0

v = 0

 
 

y

Y|/

= k,

+ 2q

——= 0

3

y

 

¥

y

x

ox

 

y

= 0

= 0

X

y 3

FIGURA 2.2 - Especificação das condições de contorno.

12

Um problema de autovalor associado à versão linear homogênea de (2.14), detalhadamente discutido em [34] e já empregado na solução das equações de Navier- Stokes via GITT [34-36,41] é definido como:

com condições de contorno:

(2.15.a)

(2.15.b,c)

(2.15.d,e)

onde Y[ (y) e ji; são as autofunções e autovalores, respectivamente, que satisfazem a seguinte propriedade de ortogonalidade:

, i* j

e Nj é a norma ou integral de normalização.

A

equação

(2.15)

pode

ser

analiticamente

resolvida,

encontrando-se

uma

combinação linear de funções trigonométricas e hiperbólicas:

Y,(y) = i sinu^y

sinhfj-jy

, l —2,4,0,

Os

autovalores

transcendentais:

são

encontrados

ao

resolver-se

as

seguintes

(2.18.a-b)

equações

13

 

,

,,

,

 

.

i

,

1 = 2,4,6,

A

norma, definida como:

 

i

Y 2 dy

;

i=l,2,3,

.

(2.19.a-b)

v

'

(2.20)

apresenta o seguinte valor numérico:

Ni

= 2

;

i = 1,2,3,

(2.21)

Para os próximos passos no uso da GITT, é conveniente normalizar a autofunção

partir de:

a

Nf 2

onde Yj(y) representa a autofunção normalizada.

II.2.2 - PAR TRANSFORMADA INVERSA

O uso da GITT baseia-se na idéia de que uma função pode ser representada como

uma expansão em autofunções, provenientes de um problema auxiliar, o qual tem

informação sobre os termos difusivos do problema original. Assim, consideramos que a

função (J) (x, y) pode ser representada como:

14

onde <(» i (x ) é uma função desconhecida, que depende apenas de "x", representando os coeficientes a serem determinados na expansão proposta.

Uma relação que permita definir fo (x), pode ser

propriedades de ortogonalidade da autofunção

Yj.

encontrada ao se fazer uso das

Operando ambos os membros de (2.23) com

í Vy:

J Y j (y)*(x,y)dy= J Yj (y)

dy

e reordenando convenientemente:

J Yj(y)4>(x,y)dy= X

<f>i(*) J % (y) Yj(y) dy

(2.24)

(2.25)

Pelas propriedades de ortogonalidade que gozam as autofunções Yj , pode-se facilmente deduzir que os termos do somatório em (2.25) tem um único valor diferente de zero quando i = j, logo:

fc(x)= JY i (y)(j)(x,y)dy

(2.26)

Esta última expressão define a transformação integral, indicando que o campo original pode ser transformado pelo seu produto interno com a autofunção.

potencial transformado a <t>j(x), sendo a eq. (2.26) conhecida como

fórmula da transformada. A eq. (2.23), que por sua vez recupera o potencial original a

partir do conhecimento dos campos transformados, denomina-se fórmula da inversa.

Denomina-se

15

II.2.3 - TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO PROBLEMA

O processo de transformação integral das equações diferenciais parciais (2.14) num

sistema diferencial ordinário, é iniciado ao se fazer uso do operador

equação (2.14.a):

i

ôy

ax 3

f

dv+

d y

+

J Yi

dy

Re L

õxôy

-I

J

Yj (y) dy

na

(2.27)

Neste ponto, é conveniente fazer uso da definição da inversa (2.23), que facilitará reagrupar convenientemente os termos e aplicar as propriedades de ortogonalidade onde for possível.

A utilização da inversa assegura a transformação

de uma equação

diferencial

parcial, inclusive onde os termos não forem transformáveis exatamente.

JY«

dx

L

L

k=l

k=l

dY,

dy

dx 2

dy

dy

+

d y -

dy +

dx dy 2 dy - h

dy

y y

ft ft

16

1

hi

dy

dx

d 2 ^ dx dx 2 2 dy 2

d

y

Lfcf

dx J -Y:

dy +

d x

dy +

Reordenando

convenientemente e aplicando as propriedades de

d y -

(2.28)

ortogonalidade

(2.16) e (2.17), no primeiro e terceiro termos do lado direito de (2.28):

dx 4

ijk

dx

dx 2

ijk

d ^

d

00

00

ZZ

j=l

A

k=l

dx 3

dx

C i j

^

C

U "'J

dx

dx

(2.29.a)

onde os coeficientes podem ser calculados analiticamente a partir das integrais:

l\

: :u

B-.,

=

'ijk -

Y Y

J i Yi

1

dy

A2

d y

-dy

-d v

-dy

A »ij = i

^i^j-T^dy

dy

ij

J Y i

dy 2

dy -dy

»u = J

-i

Y i Y J~x^ d y

J

dy -

17

(2.29.b)

(2.29.c)

(2.29.d)

(2.29.e)

(2.29.Í)

(2.29.g)

(2.29.h)

Note-se que a equação (2.29.a), apresenta também as mesmas características não- lineares, asquais não são removidas na transformação integral. O mesmo procedimento de transformação é aplicado nas condições de contorno (2.14.f, g, h, i), obtendo-se respectivamente:

^j (0)

dx

 

dy

(2.30.a)

= 0

(2.30.b)

O») = O

dx

= O

18

(2.30.c)

(2.30.d)

Desta forma, o problema diferencial parcial foi transformado num sistema de equações diferenciais ordinárias não lineares, infinito e acoplado, com condições de contorno em dois pontos.

II.2.4 - ALGORITMO COMPUTATIONAL

O sistema diferencial ordinário não-linear (2.29) deve ser resolvido a partir de procedimentos numéricos devido à impossibilidade de se obter soluções analíticas.

Por outro lado, obter soluções exatas do sistema (2.29) implicaria em se resolver o sistema infinito de equações, o que seria impossível de ser realizado sob o ponto de vista computacional.

Uma característica importante do método é a garantia de convergência das soluções para ordens crescentes de truncamento nas séries. Esta característica indica que é possível obter soluções com um número de algarismos significativos "exatos" (convergidos) para um determinado número de termos nas expansões. Por isso, diz-se que o método da transformada integral é um método de precisão controlada, devido a esse controle estabelecido na ordem de truncamento das expansões, que pode ser automaticamente determinado durante o processo de solução, assemelhando bastante o presente procedimento ao de uma solução puramente analítica.

Após truncamento do sistema infinito numa ordem N, a eq.(2.29) torna-se:

dx 4

i

*

dx

dx 2

" Aij k

A i j

"

dx* k

19

N

I

°° ij

dx 3

^

dx

ar d<t>k

°° ij

dx

(2.31)

Por outro lado, as condições de contorno (2.30.C, d) encontram-se especificadas no infinito. Nos métodos numéricos clássicos, essa dificuldade é tradicionalmente resolvida ao considerar-se as condições de contorno no infinito especificadas numa posição suficientemente distante da origem, resolvendo-se assim o problema para essas condições artificiais. Mas, como não é possível saber-se a priori, se tal aproximação pelo truncamento do domínio infinito afeta os resultados finais dentro da precisão desejada, torna-se indispensável resolver-se repetidamente o problema, considerando-se as condições de contorno em outras posições e verificando se a convergência das soluções foi atingida nas regiões de interesse.

Esta

dificuldade

é

facilmente

contornada

pelo

presente

método,

por

uma

transformação da variável independente x, redefinindo o domínio de [ 0, oo ] a [ 0, 1 ].

A transformação do domínio aqui considerada foi:

-ex

onde c é um parâmetro de compressão de escala.

(2.32)

Um aspecto interessante desta transformação é que ela permite comprimir a escala onde os gradientes são menos significativos.

O uso da transformação do domínio é completado ao definir-se:

20

(2.33)

Assim, o problema a ser resolvido seria (2.31), usando-se a equação (2.32) em

conjunto com a (2.33), ficando as condições de contorno (2.30.C, d) especificadas em r) =

1.

A solução numérica deste sistema pode ser obtida através de algoritmos bem estabelecidos e testados, disponíveis em bibliotecas de subrotinas matemáticas, como o sistema IMSL [42]. Esta biblioteca possui a subrotina DBVPFD para a solução de problemas diferenciais ordinários não lineares, com condições de contorno em dois pontos, que apresentam comportamento rígido (stiff) .

Esta rotina resolve problemas do tipo:

x '

=f(x,X )

,

x

e

[a,b ]

g[X(a),X(b)]=0

(2.34.a)

(2.34.b)

Seu algoritmo é baseado na rotina PASVA3 [43], e faz uma discretização sobre uma malha não uniforme, que é escolhida adaptativamente para conseguir um erro local aproximadamente o mesmo em qualquer posição, mantendo-se um controle de erro global automático. O sistema algébrico não-linear resultante é resolvido mediante o método de Newton generalizado.

Para fazer uso da DBVPFD é necessário reescrever o sistema de quarta ordem como um sistema de primeira ordem:

Xj =

fc

(2.35.a)

X 3N+i

"

dX 3N+ i

dx

dx

dx 3

dx dx 1

21

(2.35.b)

(2.35.c)

(2.35.d)

(2.35.e)

e,

auxiliando-se

d a regra d a cadeia, é possível reescrever e m termos d o domínio

transformado r\:

sendo

.fin'

— - uma função que depende apenas de r[ e do parâmetro c.

Vdx;

(2.35.Í)

O sistema diferencial ordinário pode ser reescrito como:

dX 3N +i

dTJ

N

-

X 3N+j

parai= 1, 2,

B;j k X N + j

+B °oij

, N

Re

4

X 2N+ k

-

N

N

v

/

k=l

,

Ajj k

X N + j

(

X k

(2.36.a)

22

As outras 3N equações que completam o sistema diferencial de primeira ordem são dadas por:

dX;

com as condições de contorno:

X i (0)=jY i J

L

=o

dX t (l) = 0

para

i = 1, 2,

f,©dH

, N.

Ty-V

 

(2.36.b)

dy

(2.36-c)

(2.36.d)

(2.36.e)

(2.36.Í)

Obtidos assim os potenciais transformados, o campo de função-corrente pode ser calculado a partir da fórmula de inversão (2.23), considerando também (2.13). O campo de velocidades, conseqüentemente, será obtido a partir de (2.3.a,b).

Como todas as tarefas computacionais intermediárias são realizadas dentro dos limites de precisão prescritos pelo usuário, resta controlar a ordem de truncamento das expansões e, em decorrência, a ordem do sistema diferencial ordinário, para se chegar ao controle automático do erro global. Para tanto, faz-se uso da natureza analítica da presente técnica, realizando-se um teste de convergência interno no algoritmo em cada posição onde se deseja obter a solução, a partir da fórmula:

s = max

(x,y )

N+AN

N+AN

i=N+l

23

(2.37)

incrementando-se em intervalos, o número de termos na expansão, até que o valor de s satisfaça a precisão requerida em todo o domínio. Os valores obtidos com ordens N menores, ainda não completamente convergidas, oferecem excelentes aproximações iniciais no procedimento iterativo da subrotina DBVPFD para as ordens superiores, N + AN.

24

III - ESCOAMENTO ENTRE PLACAS PARALELAS

III.l - DESCRIÇÃO DO PROBLEMA

Este clássico problema consiste no estudo do desenvolvimento do escoamento

laminar entre duas placas paralelas semi-infinitas, sendo que na entrada o escoamento

o escoamento é

completamente desenvolvido.

preenche completamente as placas paralelas e na saída (no infinito)

Segundo o desenvolvido no Capítulo II, o problema estará completamente

formulado ao considerar-se as condições de contorno na entrada. Dois tipos de condições

de contorno são utilizadas com maior frequência na literatura, sendo que a mais usual

(Figura 3.1.a) especifica que a velocidade longitudinal é uniforme e constante, com

escoamento paralelo:

u = l

,

v = 0

(3.1.a,b)

Um outro tipo de condição de contorno especifica que o perfil de velocidades é

uniforme e irrotacional na entrada:

u

= l

,

co = 0

5v

|— =

0 |

(3.2.a,b)

u = l

v=0

u = l

u = l

co=0

u=0

u = 0

u = 0

u=0

u = 0

u=0

v=0

v= 0

25

v= 0

v= 0

v= 0

v= 0

u = 0

=0

v = 0

v= 0

v = 0

v = 0

v = 0

FI GURA 3.1 - Tipos de condições de contorno na entrada do duto.

26

Ambas as condições de contorno (3.1) e (3.2) apresentam uma descontinuidade em

y = ± 1. Para evitar esta descontinuidade, um outro tipo de condição de contorno é também

usado, no qual o perfil de velocidades é idealizado como uniforme e paralelo em

x = -oo

[44].

No presente trabalho se utilizará a condição (3.1) , principalmente por ter sido a

mais comumente usada em trabalhos anteriores, o que permitirá fazer comparações de

soluções via GITT com outros métodos.

Também se considerará a condição de contorno (3.2) , para compará-la com as

soluções a partir de (3.1) e estabelecer sua influência no desenvolvimento do perfil de

velocidades.

No caso das condições (3.1) , o perfil de velocidades na entrada e o coeficiente de

balanço q são dados por:

u=f 1 ( y )

= l

(3.3)

q

= l

(3.4)

enquanto as condições de contorno na entrada, segundo (2.36.c,d), tornam-se:

X,(0) = J

dX;(0)

-

^

= 0

^

— --y|d y

;

i=l,2,3,

.

, N

(3.5.a)

(3.5.b)

No outro caso, com condições de contorno segundo as equações (3.2), o perfil de

velocidade f, (y) e o coeficiente de balanço q são os mesmos, visto que a condição de

contorno (3.5.a) se mantém inalterada. O efeito de irrotacionalidade é imposto através das

condições:

d

Xj

(0) = 0

;

i=l,2,3,

,

N

27

III.2 - REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

(3.6)

O problema do desenvolvimento do escoamento laminar entre placas paralelas tem

sido abordado na literatura com uma frequência razoável.

A primeira solução numérica das equações de Navier-Stokes para o escoamento

entre placas paralelas foi feita por Wang e Longwell [45], publicada no clássico artigo de 1964. Estes autores formularam o problema em termos da vorticidade e função corrente, especificando escoamento irrotacional na entrada (casos b, c da Fig. 3.1). Consideraram uma transformação da coordenada axial para um tratamento mais adequado da condição de contorno no infinito. A implementação computacional foi feita através do método de diferenças finitas, reportando-se resultados convergidos até Re = 300. Mostraram ainda que o desenvolvimento da velocidade longitudinal era caracterizado por uma concavidade com um mínimo local no centro do duto.

Brandt e Gillis [46] formularam o problema com base na função corrente, resultando em um problema do tipo biharmônico-não linear. Truncaram o domínio infinito em distâncias muito afastadas da entrada para especificar condições de escoamento completamente desenvolvido. Na entrada consideraram velocidade uniforme e paralela (u = 1, v = 0) e, usando o método de diferenças finitas, obtiveram resultados até Re = 1000.

McDonald, Denny e Mills [47] empregaram uma formulação de vorticidade e função corrente e consideraram dois tipos de condição de contorno na entrada: velocidade uniforme e paralela, equações (3.1) e irrotacional, equações (3.2). O método empregado foi diferenças finitas, usando uma malha de 21 x 201 para resolver o caso de Re = 300000. O método de solução foi estendido até Re = 300 para o caso de escoamento irrotacional na entrada, mas aparentemente com pouca precisão devido à malha grosseira utilizada (21 x 41). Os resultados para Re = 300 , apresentam uma boa concordância com Brandt e Gillis

28

[46] no caso de entrada uniforme e paralela, sendo que no caso irrotacional os resultados de Wang e Longwell [45] encontram-se ligeiramente diferentes daqueles reportados em [47].

Narang e Krishnamoorthy [48] linearizaram os termos de inércia na equação de Navier-Stokes e assumiram velocidade não uniforme na entrada do duto, truncando o domínio infinito. Obtiveram uma representação analítica da função corrente, e resolveram um sistema de 150 equações para determinar os coeficientes desta solução semianalítica, obtendo resultados aproximados desde Re = 2 até 4000.

Comini e Del Guidice [49] empregaram o método de elementos finitos para uma formulação em variáveis primitivas, considerando velocidade uniforme na entrada do canal, e reportando resultados para Re = 40.

III.3 - RESULTADOS

erro relativo de 10" 4 foi imposto

na solução do sistema diferencial ordinário para todos os casos, bem como no controle do erro global do campo original.

Os cálculos foram realizados no VAX8810, e um

Resultados benchmark são mostrados nas Tabelas (3.1 - 3.4) para Re = 0, 40 e 300, que são os valores mais típicos encontrados na literatura.

Em posições próximas da entrada , a convergência, para a precisão desejada, é algo mais lenta que em regiões mais afastadas da entrada. Este é um comportamento esperado e típico da metodologia empregada. A função \y„ (y) , usada como filtro, é o perfil completamente desenvolvido de \\i (x, y); então, ao avançar o escoamento ao longo do duto, \j/ (x, y) tende para \\i^ (y) , requerendo-se um número cada vez menor de termos na expansão.

As quatro tabelas mostram claramente que o controle de erro é estabelecido numa determinada posição, ao se variar o número de termos da série que representa o campo.

29

Outro comportamento relevante é o fato de que ao se aumentar o número de Reynolds, maior é o número de termos necessários na expansão para convergência numa precisão desejada. Esta tendência é devida da representação da função-corrente numa expansão em autofunções, que provém de um problema de autovalor puramente difusivo, extraído do caso Re —» 0.

sua importância para os termos

convectivos, que têm a característica de termo fonte, ao se incrementar o número de

Reynolds.

Assim,

os operadores

difusivos

vão cedendo

Nas Tabelas (3.2) - (3.4) verifica-se os resultados anteriores, reportados na literatura, encontrados a partir da aplicação dos métodos de diferenças finitas e elementos finitos. Note-se que ordens de truncamento relativamente baixas, já fornecem resultados com desvio pouco significativo, em relação aos resultados obtidos por técnicas puramente numéricas.

TABELA 3.1 - Convergência da velocidade no centro do duto, u (x, 0 ), para Re —» 0. (condições de entrada: u = 1, v = 0)

N

x = 0.2

x = 0.4

x-0.6

x = 0.8

3

1.031

1.193

1.319

1.405

5

1.058

1.198

1.320

1.405

7

1.065

1.198

1.321

1.406

9

1.066

1.198

1.321

1.406

11

1.067

1.198

1.321

1.406

13

1.066

1.198

1.321

1.406

30

TABELA 3.2 - Convergência e comparação da velocidade no centro do duto, u (x, 0), para Re = 40 (condições de contorno na entrada: u = 1, v = 0).

N

x = 0.2

x = 0.4

x=0.6

x=0.8

3

0.977

1.075

1.162

1.246

5

1.012

1.083

1.165

1.250

7

1.020

1.083

1.166

1.251

9

1.022

1.083

1.166

1.251

11

1.022

1.083

1.166

1.251

13

1.022

1.083

1.166

1.251

Ref. [46]

1.0223

1.0849

1.1693

1.2535

Ref. [49]

1.0243

1.0884

1.1737

1.2580

TABELA 3.3 - Convergência e comparação da velocidade no centro do duto,u(x,0), para Re = 300 (condições de contorno na entrada: u = 1, v = 0).

;i

:

: :;X:^0j2pp:: : ::;

ww-mmÊMmm

3

0.918

1.054

1.273

1.423

5

0.974

1.072

1.279

1.425

7

0.998

1.071

1.280

1.425

9

1.006

1.071

1.280

1.425

11

1.008

1.071

1.280

1.425

13

1.007

1.071

1.280

1.425

15

1.007

1.071

1.280

1.425

17

1.007

1.071

1.280

1.425

Ref. [47]

1.008

1.075

1.283

1.425

31

TABELA 3.4 - Convergência e comparação da velocidade no centro do duto, u(x,0), para Re = 300 (condições de contorno na entrada: u = 1, co= 0).

N

x = 0.20833

x = 0.8333

x = 3.3333

x=7.5

5

1.022

1.134

1.316

1.437

7

1.041

1.145

1.324

1.440

9

1.047

1.153

1.328

1.441

11

1.048

1.159

1.331

1.442

13

1.049

1.163

1.333

1.443

15

1.050

1.166

1.335

1.443

17

1.051

1.168

1.336

1.444

19

1.052

1.170

1.337

1.444

Ref. [45]

1.0581

1.1880

1.3572

1.4509

Ref. [47]

1.050

1.170

1.34

1.44

Para o estudo do efeito do truncamento do domínio infinito, construiu-se um código auxiliar, onde impõe-se a condição de contorno da saída em diversas posições truncadas do duto. Os resultados dos testes realizados são mostrados nas Tabelas (3.5.a,b). Nos dois casos, é observado que a posição do truncamento afeta as zonas próximas a saída, tendo menor influência em posições mais próximas da entrada do canal.

Uma inadequada especificação dessa posição não produz problemas de divergência na solução das equações diferenciais, mas deteriora a solução em zonas próximas à saída. Por isso é necessário verificar a posição de truncamento em várias posições intermediárias, a fim de se controlar a convergência dos resultados.

A incerteza da posição adequada do contorno é eliminada ao se considerar a

transformação proposta em (2.32), onde o problema sempre é resolvido num domínio finito

de [0,1].

32

Uma outra vantagem em se usar a transformação do domínio é a redução do número

diferencial

de pontos n a malha computacional, necessários para resolução do sistema ordinário.

TABELA 3.5.a,b - Velocidade na linha de centro do duto, u(x,0), para diversas posições de truncamento do duto.

mWSÊÊÊÊÊÊmí

llÉIIlillil

í:i::i:::SSí;;iiiI|;:Sí6i:y;íí:t : : : :ííÍ

WÊ^&ÈÊSmmM

0.2

1.022

1.022

1.022

1.022

0.6

1.166

1.166

1.166

1.166

1.0

1.323

1.322

1.322

1.322

1.4

1.421

1.417

1.417

1.417

1.8

1.480

1.463

1.463

1.463

2.0

1.5

1.475

1.475

1.475

 

(a) Re = 40

X

L=8

L-Í0

L = 15

L ==00

0.20833

1.007

1.007

1.007

1.007

0.8333

1.071

1.071

1.071

1.071

3.3333

1.280

1.280

1.280

1.280

7.5

1.437

1.425

1.425

1.425

(b) Re = 300

As Tabelas (3.3) e (3.4) mostram o comportamento da convergência para dois diferentes casos d e condições d e contorno n a entrada. O caso d e entrada uniforme e paralela apresenta uma tendência d e convergência mais rápida que o caso d e entrada irrotacional.

33

foram

necessários para a convergência com 3 dígitos significativos ao se considerar entrada

entrada

uniforme

irrotacional.

Nota-se,

e

por

exemplo,

enquanto

na posição

19 termos

x

= 0.8333, que

foram

requeridos

apenas

ao

se

7 termos

assumir

paralela,

Comparações entre resultados obtidos a partir das equações de camada limite [29,50] e Navier-Stokes (para as duas opções de condições de entrada) são mostradas na Figura (3.2). Demonstra-se que soluções das equações de Navier-Stokes, com números de Reynolds crescentes, se aproximam das soluções das equações da camada limite. Ressalta- se, entretanto, as diferenças neste comportamento entre as duas situações de entrada no canal.

A solução das equações de Navier-Stokes, para o caso de entrada com escoamento irrotacional tem notadamente melhor concordância com a solução de camada limite, inclusive para números de Reynolds relativamente baixos. Fica portanto evidente a necessidade de ser bem caracterizada a condição de entrada real do escoamento a ser simulado, em particular para baixos números de Reynolds, e sua grande influência na decisão de adotar-se o modelo simplificado de camada limite, tendo em vista os resultados acima.

Nas Figuras (3.3) e (3.4) são mostrados resultados típicos do desenvolvimento dos perfis das componentes de velocidade, u e v.

Nota-se da Figura (3.3), que o perfil de velocidades, para o caso de entrada irrotacional, se desenvolve mais rapidamente do que no caso de entrada uniforme e paralela. Da Figura (3.4), observa-se a progressiva atenuação axial e transversal da componente transversal da velocidade, no caso de entrada uniforme e paralela, a partir da condição v = 0 na entrada, que volta a assumir essa distribuição no escoamento completamente desenvolvido.

1.50-

34

1.40-

1.30-

 

U = 1 , W =" 0

1.20

1.10

1.00-

\ i rr

\

\

rr i

0.0000

0.0001

;t> III

U *

1 , V * 0

 

=300

Re =600 Ro = 1200

 
 

O

Camada Limite [29],[50]

1111

i

r

i

i

i 1111

i

i

i

TTTTT]

0.0010

0.0100

0.10C

X=x/(Dh - Re)

FIGURA 3.2 - Velocidade u (x,0) ao longo do duto para condições de contorno uniforme e irrotacional na entrada, comparada com resultados de camada limite

1.00

0.50 —

0.00 -

-0.50 —

-1.00

u = 1

U =

1

,v= 0

,(0= 0

012345678

X

Re = 300

9

10

FIGURA 3.3 - Desenvolvimento do perfil de velocidades u (x,y) ao longo do duto para condições de contorno uniforme e irrotacional na entrada (Re = 300).

1.00-

0.80—I

0.60-

0.40—

0.20-

35

Re = 300

a

j

.

= 7.5

= 3.33333

= 0.83333

=

208333

0.00- iniiiiiIiiiiiiiiiiiinininnnir

-0.20

-0.15

-0.10

v(x,y)

-0.05

t

0.00

FIGURA 3.4 - Desenvolvimento do perfil de velocidades v (x,y), com condição de contorno uniforme e paralela na entrada do duto.

36

IV - ESCOAMENTO SOBRE UM DEGRAU

IV.l - DESCRIÇÃO DO PROBLEMA

Neste capítulo estuda-se o desenvolvimento do escoamento laminar entre placas paralelas que abruptamente ampliam sua separação numa determinada posição (Figura 4.1.a). O objetivo deste clássico problema-teste em mecânica de fluidos computacional ("Backward Facing Step"), é avaliar se as soluções, provenientes do uso de um determinado método numérico, representam as zonas de recirculação adequadamente e estudar a influência que as condições de contorno específicas na saída do canal têm sobre tal solução.

O problema do escoamento sobre um degrau como caso-teste tem sido simplificado ao excluir-se do domínio de solução o duto de placas paralelas anterior ao degrau, e assumindo-se que na entrada e na saída do segundo canal o escoamento é completamente desenvolvido (Figura 4.1.b).

Assim, o problema pode ser incluído dentro da classe de dutos regulares até aqui analisados. Esta definição do problema do degrau, permite que se façam comparações de soluções obtidas pela aplicação de diferentes métodos numéricos, bem como com resultados experimentais. As condições de contorno na entrada podem então ser especificadas como:

O ;-l<y< 0

u(O,y)

=

(4.1.a, b)

[6(y-y z )

;

0<y< l

v(0,y ) = 0

;

- 1 < y < 1

 

(4.1.c)

u=6y-6y 2

u =0

v =0

u = f,(y) v =0

u =0

v =0

37

(a)

u=0

u=0

(b)

v=0

v=0

u=0

v=0

u = 0

v=0

(c)

4'

u = -d-y 2 )

v = 0

FIGURA 4.1 - Esquema do problema de escoamento sobre um degrau ("Backward Facing Step").

38

Considerar que na entrada do segundo canal o escoamento é completamente desenvolvido é uma hipótese válida para comparações numéricas entre diferentes métodos. Mas, nas situações reais, o perfil de velocidades no início do degrau não necessariamente encontra-se completamente desenvolvido. Assim, uma alternativa viável para comparações de resultados numéricos com medições experimentais é utilizar os valores medidos na entrada do duto, interpolá-los adequadamente e adotar-se este perfil como condição de contorno na simulação.

O estudo experimental que serve de referência às comparações que se seguem, é devido a Denham e Patrick [51]. Neste caso os pontos medidos na entrada são interpolados via cubic-splines. Considera-se também que o escoamento é paralelo, por não dispor-se de nenhuma informação sobre a componente transversal da velocidade, v (Figura 4.1.c).

Portanto, as condições de contorno na entrada são dadas por:

f,(y)

v(0,y) = 0

;

- 1 < y < 1

(4.2.c)

onde f( (y) entrada.

representa a curva que interpola os valores da componente u medidos na

Sendo assim estabelecidas as condições na entrada do canal e sendo o escoamento completamente desenvolvido na saída, é simples reescrever as condições de contorno transformadas na entrada, segundo (2.14.f,g) e (2.36.c,d).

Para o perfil teórico dado pela eq. (4.1):

39

r

X i (0)= J Y,<KO,y)dy =J

r

Y^CO,y)dy + J ?

onde

4>(0,y) = i

- 1

-

I

O

3

1

- -y- ~

4

;

2

;

0<

y < 1

dX,(0)

dT)

= 0

;

i = l,2,3,

,N

e o coeficiente de balanço torna-se

q =

(4.3.a)

(4.3.b-c)

(4.4)

(4.5)

No caso da comparação com os dados experimentais, o processo de transformação é

similar, expressando-se a integral acima nos dois subdomínios.

Assim :

=

X,(0)=

J Y j>(O,

J Y i( j>(O,y)dy +

i(

1

-1

r

a

- ^ -

- q

;

a<y< l

(4.6.a)

(4.6.b)

j

d

(0)

= 0 0

; ;

i

i = l,2,3,

l,2,3,

,N ,N

40

(4.7)

onde o coeficiente q édeterminado através do balanço global de massa

Ah

IV.2 - REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O problema de escoamento sobre um degrau tem sido tratado com razoável

frequência na literatura tanto para regime laminar como para turbulento, sendo na mecânica

dos fluidos computacional um problema-teste que também motiva o interesse da pesquisa

em termos físicos.

Denham e Patrick [51], estudaram este problema experimentalmente. Mediram a

componente longitudinal, u, em diversas posições ao longo do duto, utilizando

anemometria laser com sensibilidade direcional. Conseguiram medições para Re = 438 até

1374 (de acordo à definição de Re no presente trabalho). Não reportaram vórtices

localizados na parede superior do duto, mas encontraram recirculações transversais na

região do vórtice primário. Compararam seus resultados com avaliações numéricas,

obtendo alguma concordância, mas concluíram que o comprimento da recirculação

estimado numericamente era maior que na situação experimental.

Campion-Renson e Crochet [52] utilizaram o método de elementos finitos com uma

formulação vorticidade-função corrente. Usaram elementos retangulares quadráticos e

41

Leschziner [53], utilizou três esquemas de diferenças finitas para o cálculo de recirculações dentro de escoamentos em estado estacionário, considerando malhas grossas

e finas.

coerência, encontrando-se discrepância similar entre resultados teóricos e experimentais.

Seus resultados, comparados com os de Denham e Patrick [51], mostraram

Armaly, Durst, Pereira e Schõnung [54], fizeram um estudo experimental amplo, para número de Reynolds entre 140 e 16000, efetuaram comparações com resultados teóricos. Usando anemometria laser, encontraram que o escoamento sobre degrau com razão de aspecto 0.5 possuía uma estrutura laminar bidimensional para números de Reynolds inferiores a 800. Acima deste valor o escoamento permanecia laminar, mas com características tridimensionais, até Re = 2400. A partir deste valor de Re, o escoamento se encontrava numa região de transição, tornando-se totalmente turbulento-bidimensional acima de Re = 13200. Na faixa de números de Reynolds estudada, encontraram até três tipos de vórtice. O vórtice primário permanecia para todos os valores de Reynolds, mas variava o comprimento da recirculação, atingindo um máximo no limite do regime laminar para transição, e mantendo-se quase constante no regime turbulento. O vórtice secundário aparecia quando o escoamento era tipicamente tridimensional, desaparecendo quando o escoamento atingia o regime turbulento. Já o vórtice terciário aparecia no início da transição, desaparecendo em Re = 4600. Seus resultados concordaram com cálculos teóricos, obtidos a partir do código TEACH [55], até Re = 800, concluindo-se que efeitos tridimensionais, que foram detectados experimentalmente, aumentaram as discrepâncias entre resultados teóricos e experimentais.

Thamgam e Knight[56], usaram uma formulação das equações de Navier-Stokes em coordenadas generalizadas e em variáveis primitivas e utilizaram o método de volumes

finitos para sua solução. Fizeram um estudo do comprimento da recirculação ao se variar

a altura do degrau, para diferentes valores do número de Reynolds, desenvolvendo uma correlação para predizer o comprimento do vórtice primário.

42

Gartling [57], motivado pelos Minisymposium sobre "Outflow Boundary Conditions" organizado pela University College of Swansea em 1989 e 1991, quando se definiram problemas-teste para se avaliar diferentes condições de contorno de saída, resolveu o problema do degrau para Re = 1600, fornecendo resultados benchmark para futuras comparações numéricas. Utilizou o método de elementos finitos, discretizando o domínio com diferentes números e tamanhos de elementos do tipo biquadrático. A solução numérica foi feita usando o código NACHOS II [58], o qual é baseado numa formulação de Galerkin. A verificação dos resultados foi feita através do programa FIDAP [59], o qual é também baseado no método de elementos finitos. Em todos os casos foi empregada a formulação em variáveis primitivas das equações de Navier-Stokes.

Rogers e Kwak [60], discretizaram as equações de Navier-Stokes num esquema upwind e usaram a formulação de compressibilidade artificial. Seus resultados tiveram boa concordância com os de Armaly et ai. [54], mas distanciaram-se para altos números de Reynolds.

Srinivasan e Rubin [61], recentemente, usaram um procedimento multimalha adaptativo com decomposição do domínio, mostrando seus resultados grande concordância com Gartling [57] na componente "u" e alguma discrepância na componente "v". Truncaram o domínio infinito em diversas posições, mostrando que as soluções tinham concordância concluindo assim que o efeito de truncamento do canal era de pouca relevância.

Onur e Baydar [62], fizeram um estudo teórico-experimental do escoamento sobre um obstáculo quadrado. Para efeitos de validação da análise teórica resolveram o problema apresentado por Armaly et ai. [54]. Usaram para tal um esquema de diferenças finitas similar ao do código TEACH [55], considerando as recomendações de Van Doormaal e Raithby [62] para incrementar a taxa de convergência. Assim obtiveram resultados numéricos com melhor concordância com os experimentais do que aqueles obtidos por Armaly et ai. [54].

IV.3 - RESULTADOS

43

Similarmente ao caso de placas paralelas, o erro relativo foi estabelecido em IO" 4 , tanto na solução do sistema diferencial ordinário como no esquema de controle global do erro no campo original. Os casos testados foram computados no VAX.8810 e no CRAY EL - 94 da COPPE/UFRJ.

Como primeiro caso teste, foi simulado o experimento de Denham e Patrick [51]. Foram escolhidos para o presente estudo,o menor e maior número de Reynolds empregados naquele estudo (Re = 438 e Re = 1374), em que foram estabelecidas as condições de entrada.

O comportamento da convergência para o campo de velocidades foi estudado nas mesmas posições ao longo do duto em que foram feitas as medições experimentais. As tabelas (4.1) e (4.2) mostram detalhadamente os resultados para ordens crescentes de truncamento das séries, até atingir-se a tolerância solicitada. Para Re = 438, foram necessários N = 20 termos na expansão da função-corrente, mas apenas 8 termos são requeridos para uma convergência em escala gráfica. Para o Re = 1374, foram necessários mais termos na expansão (N = 22) a fim de satisfazer a tolerância, ao passo que em escala gráfica 10 termos foram suficientes.

44

TABELA 4.1 - Convergência da componente longitudinal do campo da velocidade (Re - 438).

::!H§!

:. •::x==^333|i|:

;; r |Iiiiii3.3|i:i|: :

4

-2.69E-2

-7.76E-2

-4.64E-2

4.64E-2

0.120

8

-5.13E-2

-8.88E-2

-5.09E-2

5.02E-2

0.125

12

-5.23E-2

-9.30E-2

-5.01E-2

5.30E-2

0.126

16

-5.22E-2

-9.27E-2

-5.00E-2

5.29E-2

0.126

20

-5.23E-2

-9.28E-2

-5.00E-2

5.28E-2

0.127

4

1.188

1.220

1.226

1.250

1.201

8

1.221

1.228

1.248

1.226

1.181

12

1.204

1.221

1.247

1.225

1.180

16

1.202

1.220

1.246

1.225

1.180

20

1.203

1.220

1.246

1.225

1.180

 

u(x,0.S)

4

1.339

1.263

1.043

0.839

0.736

8

1.374

1.291

1.069

0.861

0.756

12

1.362

1.284

1.065

0.858

0.754

16

1.361

1.284

1.066

0.859

0.755

20

1.362

1.284

1.066

0.859

0.755

45

TABELA 4.2 - Convergência da componente longitudinal do campo da velocidade (Re =1374).

f|ÍÍ:;p.|5»l

llillill

iiiiiiiOJQOj:!

6

-0.103

-0.123

-0.144

-0.154

-0.127

10

-6.91 E-2

-0.111

-0.157

-0.178

-0.126

14

-7.57 E-2

-0.113

-0.160

-0.181

-0.121

18

-7.48 E-2

-0.113

-0.161

-0.181

-0.119

22

-7.53 E-2

-0.113

-0.161

-0.181

-0.120

 

lilMíii

6

1.054

1.046

1.051

1.049

1.021

10

1.040

1.030

1.032

1.031

1.003

14

1.018

1.019

1.031

1.032

1.001

18

1.020

1.020

1.031

1.032

1.000

22

1.020

1.019

1.031

1.032

1.000

 

u (x,0.5)

6

1.088

1.076

1.013

0.902

0.732

10

1.067

1.055

0.991

0.860

0.662

14

1.082

1.060

0.989

0.849

0.642

18

1.083

1.060

0.988

0.847

0.639

22

1.081

1.060

0.988

0.847

0.640

Re = 438

(Re = 73 [51])

46

GITT

O Experimental [51]

90

100

110

130

140 15

 

1

I

130

140 15

x(mm)

FIGURA 4.2 - Desenvolvimento da componente longitudinal da velocidade ao longo

do canal (Re = 438).

Re = 1374 (Re = 229 [51])

 

GITT

O

Experimental [51]

x(mm)

FIGURA 4.3 - Desenvolvimento da componente longitudinal da velocidade ao longo do canal (Re = 1374).

i.o

47

Re = 438

(Re = 73 [51])

FIGURA 4.4 - Isolinhas da Função Corrente (Re = 438).

REYNOLDS= 1374 (Re = 229 [51])

FIGURA 4.5 - Isolinhas da Função Corrente (Re = 1374).

48

As figuras (4.2) e (4.3) mostram, comparativamente, o perfil da componente longitudinal da velocidade em desenvolvimento calculado via GITT e os respectivos valores experimentais, evidenciando-se que existe uma excelente concordância entre eles. Para Re = 438, a concordância é mais notória que para Re = 1374, sendo este fato explicável a partir da condição de contorno assumida na entrada do canal. Denham e Patrick [ 51 ], mostraram que em Re = 438, a velocidade longitudinal medida no degrau difere muito pouco do perfil parabólico (escoamento completamente desenvolvido), demonstrando-se portanto que a componente transversal de velocidade é quase nula, fato que não ocorre no caso de Re = 1374, onde existe uma diferença mais perceptível entre o perfil medido e o perfil parabólico, traduzindo-se isto numa componente transversal da velocidade ainda significativa. Devido a não possuir-se informação da componente transversal da velocidade, foi assumido como condição de contorno apenas a componente longitudinal, refletindo-se isto em uma ligeira discrepância entre os resultados teóricos e experimentais nas vizinhanças da entrada do canal.

Nas figuras (4.4) e (4.5), se apresentam isolinhas da função corrente para ambos os valores do número de Reynolds. Claramente são mostradas as zonas de recirculação que se posicionam justamente atrás do degrau. Para o maior número de Reynolds, o comprimento do vórtice localizado é maior, apresentando além disso o início de uma recirculação secundária na parede superior.

O segundo passo no presente estudo foi uma covalidação com os resultados benchmark de Gartling [ 57 ], obtidos via elementos finitos. Para tal efeito, se analisou a convergência da componente longitudinal da velocidade em duas posições ao longo do duto, x=14ex=30 . O processo de convergência até N = 20 termos é mostrado nas tabelas (4.3) e (4.4), obtendo-se uma excelente concordância com