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Elias era homem

Há  alguns   dias   uma  de  nossas  leitoras, Taíse  de  Vitória  da  Conquista,  sugeriu  que  eu 
fizesse um texto sobre a passagem de 1 Reis 19, e depois de alguns dias parei para dar uma olhada. 
Eu já havia falado algumas vezes sobre esse texto em pregações e estudos, mas mesmo assim resolvi 
ler com outros olhos para tentar encontrar algo novo que eu não tivesse visto ainda. Enfim percebi 
lições   muito   preciosas   que   foram   como   água   fria   para   matar   a   sede   num   dia   quente.   E   quero 
compartilhar algumas delas com vocês, não todas para não ser muito cansativo.
Lendo a história do profeta Elias, algo me chamou a atenção. Não há detalhes sobre a vida 
pregressa do profeta antes do seu ministério. A primeira vez que o seu nome aparece na bíblia é em 
1 Reis 17:1: “Então Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Vive o Senhor Deus  
de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a  
minha palavra.”
Não há citação dos nomes dos pais ou familiares, nem relatos sobre outros acontecimentos 
quaisquer,   e   é   dessa   forma,   saindo   do   nada,   que   aparece   o   profeta   Elias   com   uma   profecia 
extremamente ousada e poderosa que se cumpriu à risca em Israel.
Para   entendermos   um   pouco   mais   sobre   esse   homem   é   necessário   saber   o   que   estava 
acontecendo em Israel naquele tempo. O rei Acabe governava o país e conforme 1 Reis 16:30, ele 
“fez o que era mau perante o SENHOR, mais do que todos os que foram antes dele”, e como se não 
bastasse   ainda   casou­se   com   Jezabel,   mulher   sidônia,   adoradora   de   Baal,   endossando   assim   a 
adoração ao ídolo. A partir daí edificou um templo a Baal em Samaria e levantou nele um altar para 
adoração imoral e idólatra que fazia parte do ritual do seu culto.
Resumindo, Israel vivia o pior momento de prostituição espiritual de sua história, além do 
caos   social   causado pelos  desmandos  de Jezabel.  A  completa degradação  moral  estava exposta 
publicamente e endossada pelo próprio rei. E é justamente nesse cenário caótico de podridão moral 
e espiritual que aparece o profeta Elias. No pior momento de Israel, Deus levanta o maior profeta de 
sua história! Um homem simples, sem tradição familiar, criado numa aldeia, sem nenhum  status 
social, nem posse de terras, sem herança.
Fazendo um paralelo da história de Elias com as nossas vidas, percebemos que quando 
tudo  parece contrário, fora de ordem e distante de Deus, é justamente nesse momento que Ele 
levanta pessoas que não estejam apegadas às suas conquistas pessoais, títulos ou riquezas, para 
restabelecer a Sua vontade e trazer ao povo novamente esperança. E não importa se elas têm um 
nome de família ou uma reputação, importa apenas se elas querem de fato obedecer ao Senhor.
Se  continuarmos  a ler a história desse profeta, veremos  quão impressionante foi o  seu 
ministério. A manifestação de Deus foi algo surpreendente através de Elias. Sob uma palavra sua a 
chuva deteve­se por 3 anos e meio, e por uma palavra ela voltou a cair; foi sustentado por corvos 
que lhe traziam alimento; enviou uma palavra que proveu sustento para a viúva de Sarepta e seu 
filho no período da seca; ressuscitou o filho dessa mesma viúva após ter morrido de uma doença 
grave; fez cair fogo do céu. Certamente foi o maior profeta da antiga aliança! Ele foi um profeta 
usado por Deus para derrubar reis e reinos e estabelecer outros em seu lugar. A contribuição do seu 
ministério vai além do período de sua vida terrena, ele aparece cerca de 870 anos depois no monte 
da transfiguração juntamente com Moisés, numa espécie de confirmação do ministério de Jesus.
Mas em determinado momento de sua história nos deparamos com uma cena intrigante. 
Em 1 Reis 19:2 a esposa do rei Acabe, Jezabel envia um mensageiro ao profeta com um juramento 
ameaçando o profeta e dizendo­lhe que este estaria morto “amanhã a estas horas”. O verso 3 diz 
que  “temendo, pois Elias, levantou­se, e, para salvar sua vida, se foi...”
Ora, um homem através do qual Deus operou tantos sinais e prodígios, de repente foge com 
medo   de   uma   mulher   que   o   ameaçou?   Este   questionamento   tem   sido   a   base   para   algumas 
afirmações de cunho duvidoso sobre o caráter de Elias, mas citarei apenas uma em particular que 
me  chamou   a atenção durante um longo tempo. Certa vez ouvi um pregador dizer: “Elias   não 
conhecia a Deus! Porque se o conhecesse nunca fugiria de Jezabel!”. Isso mexeu comigo por um 
tempo, confesso que no início até aceitei, talvez por ser uma nova forma de ver o fato. Mas com o 
passar do tempo essa afirmação foi perdendo o crédito, à medida que eu procurava razões que 
pudessem embasá­la, só encontrava argumentos que a refutavam. Assim ela foi cedendo espaço para 
uma nova forma de entender o ocorrido.
É   fácil   ler   a   história   de   alguém   e   tirar   suas   próprias   conclusões   baseado   apenas   na 
necessidade de elaborar uma mensagem conveniente a um tema proposto, ou também ver a vida de 
outrem e especular motivos, razões e julgá­los pela nossa limitada capacidade de discernimento, 
como   se   estivéssemos   acima  do  bem   e  do  mal.  Mas,  como  disse,  com   o  passar   do  tempo   fui 
aprendendo a ver as pessoas sob outro aspecto, outro padrão de julgamento, o de Mateus 7:2 ­ 
“Com o mesmo critério com que julgardes, sereis julgados”.
Certa vez lendo Kenneth Hagin encontrei uma palavra que me ajudou nesse sentido, ele 
falava sobre julgamento e disse algo como “você não sabe a que pressões aquele homem estava 
submetido pra fazer o que fez”. Aquilo caiu pesado dentro de mim e desde então tenho tentado ver 
não somente as pessoas assim, mas também a Escritura pois ela fala de homens e mulheres.
Mas voltando à história de Elias, há algo importante em 1 Reis 19:4 ­ “Ele, porém, foi ao  
deserto, caminho de um dia, e foi sentar­se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse:  
Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.”
Elias estava profundamente abatido e desesperançoso ao fazer essa oração pedindo a morte, 
e deixa isso mais claro quando lembra do seu passado dizendo: “não sou melhor do que meus pais”. 
Talvez seja indício de um quadro depressivo.
Vamos tentar imaginar essa cena. Elias estava assentando debaixo de um arbusto no meio 
do deserto, e lembrando de sua vida. Deve ter lembrado que saíra de um vilarejo chamado Tesbe, ou 
Tisbi,   segundo alguns  autores. Pensou  nos  seus  familiares,  seus   antepassados,  pessoas   que  não 
tiveram nenhuma importância histórica para o povo de Israel, suas origens humildes e em como se 
tornou um profeta reconhecido em Israel. Agora via­se na iminência de sua morte e talvez pensasse: 
“De que me aproveitou tudo isso? Não sou melhor que meus pais.” É como se dissesse também: 
“Nadei, nadei e morri na praia...”, “o que minha família vai pensar de mim?”.
Questões como essas certamente afligem muitos de nós em algum momento de nossas 
vidas. Talvez por motivos diferentes, mas de uma forma ou de outra somos afrontados por nossos 
medos e fraquezas. Mas Deus sempre quer nos mostrar uma saída, sempre concede graça aos que se 
humilham perante ele.
O texto diz que enquanto Elias dormia um anjo o tocou e mostrou­lhe comida e água. Deus 
sempre faz isso quando não temos mais vigor, sempre nos oferece sua provisão. Depois de comer, o 
profeta caminhou até o Horebe, “o monte de Deus”. Ele foi para o lugar onde Deus havia falado 
com Moisés através da sarça ardente, o mesmo monte de onde saíram as tábuas da Lei.
Ali Elias fez o que nós fazemos muitas vezes, entrou numa caverna. Então Deus falou com 
ele: “Que fazes aqui, Elias?” Pergunta interessante essa. Elias poderia ter respondido: “Alô Deus! 
Aqui é Horebe, o monte de Deus, lembra?” Mas ele se contentou com uma resposta bem ensaiada: 
1 Reis 19:10 ­  “E ele disse: Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos,  
porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus  
profetas à espada, e só eu fiquei, e buscam a minha vida para ma tirarem.”
Ao que, o Senhor lhe disse:
vv 11: “E Deus lhe disse: Sai para fora, e põe­te neste monte perante o Senhor.”
Então aconteceram algumas manifestações de Deus como um vento forte que fendia as 
rochas, depois um terremoto, depois um fogo, mas o Senhor não estava em nenhum deles. Deus não 
quis se mostrar para Elias da mesma forma que fez com Moisés, apesar de estar no mesmo lugar. 
Isso significa que Deus trata de forma diferente, pessoas diferentes e em situações diferentes.
Em seguida passou uma voz suave e delicada e Elias “cobriu o rosto com o seu manto”. O 
profeta estava com sua alma profundamente abatida e sem esperança e Deus vem falar­lhe com a 
brandura que ele precisava ouvir. Então o Senhor diz: “O que fazes aqui, Elias?” A mesma pergunta 
que tinha feito no início da conversa. E Elias responde da mesma forma que tinha feito antes. Então 
Deus lhe diz: “Vai, volta ao teu caminho...”
Quero pegar alguns pontos importantes aqui.
Primeiro, Deus mostra que Elias estava fora do caminho. Ele precisava voltar, precisava 
retomar seu ministério, sua vida, mas sua vida nova, não a velha vida. E Ele deixa claro alguns 
princípios que servem para nós hoje. Quando Deus diz nos versos 15 e 16: “unge a Hazael rei sobre  
a Síria. A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel”,  Ele quer dizer  “seu trabalho ainda não 
acabou!”. E diz mais, “a Eliseu, filho de Safate, de Abel­Meolá, ungirás profeta em teu lugar.” Quer 
dizer, enquanto você não preparar a próxima geração o teu ministério não estará acabado, a tua obra 
não estará completa. O ministério nunca tem o fim em si mesmo, ele precisa servir de suporte para a 
geração vindoura. Assim a nossa vida não tem sentido se não servir para levantar outras pessoas 
para cumprirem o seu propósito no seu tempo!
Mas a lição não acaba aqui, Deus ainda tem algo mais pra nos ensinar através de Elias. No 
verso 18 Ele diz: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a  
Baal, e toda boca que o não beijou.”  Quando passamos por momentos de extrema dificuldade 
normalmente nossa visão fica embaçada, nosso entendimento fica comprometido e corremos o risco 
de pensar como Elias, que estamos sozinhos e de querer agir com nossa própria força. Mas Deus 
mostra que é Ele mesmo quem nos guarda e quem guarda aqueles que Lhe são fiéis, mesmo que eles 
estejam no meio do problema.
Então o profeta sai dali e vai cumprir o que Deus havia lhe ordenado. Anuncia a queda de 
Acabe e Jezabel, unge os reis que tomariam o trono no tempo do Senhor e o profeta que ocuparia o 
seu lugar. E como prova que Deus o viu como um homem fiel, apesar desse momento ruim de sua 
vida e ministério, Elias foi o segundo homem na bíblia a não experimentar a morte, foi arrebatado 
ao céu num redemoinho!
Mas vendo tudo isso ainda fica uma pergunta no ar: Por que essas coisas aconteceram com 
o grande profeta Elias?
Sirvo­me da declaração do apóstolo Tiago para respondê­la:

Tiago 5:17 ­ “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos...”

A todos, graça e misericórdia!

Nelício Júnior
15/03/2010