Um Interlúdio Progressista: a Repartição das Obras Públicas da

Província de Pernambuco Organizada Segundo o Sistema do Corps des
Ponts et Chaussées (1842 – 1846)

Desde a sua criação, em 1810, até a instalação da Repartição das Obras Públicas da Província de
Pernambuco, em 1833, o órgão provincial encarregado da organização do território passou por
várias reformulações, todas elas, porém, calcadas numa organização militar centralizada no
dirigente máximo da província, o qual detinha todo o poder e a responsabilidade pelas obras, o
que causava como consequência, uma organização pouco ágil, muito onerosa e muito pouco
profissionalizada. Durante esse período, as obras de caráter público eram realizadas, em sua
grande maioria, por empreiteiros particulares (geralmente fazendeiros com mão de obra escrava
ociosa) que deixavam a desejar quanto à qualidade dos serviços, a aderência aos prazos e à
“economia” das obras. Durante a gestão do Barão da Boa Vista, Francisco do Rego Barros (18371844), uma nova maneira de administrar as obras públicas foi implantada, começando pela
reorganização da Repartição das Obras Públicas segundo o plano do engenheiro francês LouisLéger Vauthier. Formado pela Ecole des Ponts et Chaussées, Vauthier era oficial do Corps des
Ponts et Chaussées e foi com base nessa instituição que ele organizou a Repartição das Obras.
Enquanto permaneceu no cargo de presidente da província o Barão da Boa Vista, foi essa a
organização que imperou na Repartição, a qual passou a ter uma organização hierarquizada e um
controle rígido no tocante ao seu planejamento, aos desenhos das obras, à fiscalização, execução
e pagamentos das mesmas. Esse trabalho procura analisar as diferenças (e semelhanças) da
organização da Repartição das Obras Públicas nos dois momentos, antes e durante a gestão do
engenheiro Vauthier.

barreiras e edificações para guarda de material e pessoal. o caráter representativo dos engenheiros do Estado se atenuou. ao terminar o curso. aquela voltada para as obras de caráter público. Antes de se formar. No início do século XIX.O Sistema de Ponts et Chaussées A organização de um corpo de engenheiros do Estado. ingressavam no Corps des Ponts et Chaussées. a partir de 1775. os engenheiros. mas também das necessidades da comunidade e do Estado. aos poucos ela tornou-se um viveiro de talentos. a arte de redigir os orçamentos e os detalhes estimativos das obras a executar. porém com interesse e capital privado: a engenharia civil. bem como todas as obras auxiliares que advinham desses trabalhos: cais. construção e controle das obras públicas em todo o território da França. Nessa época consolidou-se a idéia da importância das comunicações. tornou-se uma escola oficial e de caráter público. a Ecole Royal des Ponts et Chaussées. Muitos deles. Tendo sido criada para formar engenheiros do Estado. as técnicas e a prática da execução. e o seu sistema serviu de modelo para a formação de outras escolas de engenharia. canais. e. o projeto de novas vias de comunicação. pontes. rios ou portos. aterros. Com base nisso ficou patente a necessidade das redes: as rotas de navegação. fazendo a ligação entre esses dois agentes. através de estágios. mas por muito tempo ainda esses profissionais continuaram a ser figuras de referência entre os . a condução dos trabalhos de execução e os desenhos e projetos. A Ecole des Ponts et Chaussées foi a única instituição de ensino da França que permaneceu inalterada durante e após a Revolução Francesa. num mundo às vésperas da industrialização. de pessoas. a rede de estradas e de caminhos de ferro. Como comunicações entendia-se tudo o que fizesse a ligação entre dois elementos como o transporte de mercadorias. Com o aparecimento dos engenheiros civis. que contribuíam com o conhecimento. não só das técnicas. delineava-se uma nova especialidade dentro da engenharia. Os profissionais que trabalhavam naquela instituição eram os responsáveis pela administração. sem vínculo militar. data de 1716-1720. os alunos participavam efetivamente. muitas vezes. trabalhar em outros países. Emergiu uma associação entre o poder público e os empreendedores. Para suprir as necessidades de profissionais gabaritados que se encarregassem desses trabalhos foi criada uma escola que. Dentro das suas responsabilidades estavam englobados diversos serviços como o levantamento topográfico do território. Muitas vezes. fossem elas estradas. Os alunos que não eram contratados tinham sempre colocação garantida no mercado de trabalho do setor privado indo. de informações. Esse sistema era claro: aplicação dos princípios da física e da matemática à arte de construir e conservar as obras. a falta de arquitetos fazia com que esses engenheiros também se encarregassem das obras civis nas regiões onde estavam alocados. dos diferentes trabalhos que futuramente deveriam administrar: o levantamento de planos e mapas. quando foi criado o Corps des Ponts et Chaussées. por volta dos anos 1820-1830. de idéias.

e era um digno representante dessa classe de homens de saber que se interessavam por tudo e tudo conheciam profundamente. formando não só oficiais de engenharia e de artilharia como também "engenheiros geógrafos e topógrafos que também possam ter o útil emprego de dirigir os objetos administrativos de minas. [. mineralogia. ao ensino das ciências exatas e da Engenharia em Geral no sentido mais amplo que esse termo definia na época. conhecimentos dos materiais que entram nas suas composição. Louis-Léger Vauthier. metalurgia e história natural. Eram aceitos também alunos civis (TELLES.. a Academia Real Militar destinava-se.] O Plano previa ainda um oitavo ano.. 1984. como a arquitetura de pontes. os oficias de infantaria e cavalaria faziam apenas os três primeiros anos... Segundo Telles (1984) no início do século XIX no Brasil não existia o ensino da Engenharia Civil. um curso de Ciências Militares e . bem como todo o trabalho referente à construção do espaço urbano. pela Lei de 4 de dezembro. como está declarado no preâmbulo da lei que a criou. diques e comportas. aquela advinda da engenharia militar. o professor desse 8° ano seria também o bibliotecário. Como observa Mário Barata. O curso tinha duração de 7 anos.] O 6° ano era consagrado a engenharia civil (embora esse nome ainda não fosse empregado). [. assim que fosse possível organizar uma biblioteca científica e militar. era responsabilidade dos engenheiros militares. a Ecole des Ponts et Chaussées.] Embora fosse um estabelecimento militar. Físicas e Naturais. de onde descende diretamente a Escola Polytechnica do Rio de Janeiro. porém. canais. um curso de Engenharia. graças ao prestígio que conservava a Ecole Polytechnique e as Escolas de Aplicação. o ensino dessa escola abrangia três cursos distintos: um curso teórico de Ciências Matemáticas. além das ciências militares em "toda a sua extensão". quais a física. incluindo-se o estudo do corte de pedras. calçadas. os progressos que na mesma fez cada nação”[. Em 1810. a organização do território e a formação das cidades.. os de artilharia os cinco. e ''explicaria a história militar de todos os povos. no Departamento de Morbihan. caminhos. somente o da Engenharia Militar através das Aulas de Fortificação. portos. pontes. O Corpo Profissional da Engenharia no Brasil No Brasil..profissionais da área. e os de engenharia o curso completo [. Ao vir para o Brasil. fontes e calçadas". entre elas. Entretanto. se Vauthier era um representante desta cultura profissional. e das madeiras. hidráulica e as demais partes que lhe são análogas. trabalhava no Corps des Ponts et Chaussées. química.. França. Teria para isso um curso completo de ciências matemáticas e de observação. orçamento de edifícios. 68). a Aula de Fortificação foi substituída pela Academia Real Militar.] destinava-se aos oficiais de todas as armas. canais. o engenheiro francês que chefiou a Repartição das Obras Públicas da Província de Pernambuco na década de 1840.. os engenheiros aqui atuantes na época de sua vinda representavam uma outra tradição. os melhores métodos para a construção de caminhos.

no campo da organização dos recursos estavam se consolidando os resultados de mais de um século de pesquisas e experiências. A França possuía o ensino considerado o melhor do mundo. 69). 1984. as estradas normais era um dos meios de circulação dessas riquezas e a água não era somente o veículo de higiene e saneamento. Em 1839 foi extinto o Curso de Pontes e Calçadas e o nome da escola foi mudado para Escola Militar da Corte. Pontes e Calçadas e Construção Naval. O Brasil lutava para manter o Império unido. Para o administrador e para o engenheiro. Enquanto isso. através da descoberta de novos materiais e do desenvolvimento de novas técnicas. Firmino Herculano de Moraes Âncora. em 1840. Cel.um curso de Engenharia Civil. embora esse nome não fosse ainda empregado nem mencionado na Carta Régia (TELLES. na Europa a ciência da engenharia mudara muito. O Curso de Pontes e Calçadas teria sido a primeira tentativa de ensino da Engenharia Civil independente da Engenharia Militar. e o Curso de Construtores Navais teria sido o primeiro curso de engenharia especializada no Brasil. um engenheiro militar na direção da Repartição das Obras Públicas de Pernambuco. nenhum dos dois foi implantado. e a atualização da engenharia não era o principal problema a resolver. A Diferença Entre as Culturas Profissionais da França e do Brasil Tendo em vista a formação dos engenheiros no Brasil não é de surpreender encontrar-se. eram essas as idéias que circulavam na França. de norte à sul sobravam preocupações. com instituições de pesquisa científica que agregavam os sábios detentores de todo o saber. principalmente na mecânica aplicada. os rios e as estradas. além do curso militar. Tomava corpo a teoria das grandes redes de comunicação. a solução para a estabilidade de um país era o seu desenvolvimento econômico através do escoamento das riquezas. com o intuito de ligar as cidades principais e transformá-las em pólos geradores do progresso. Entretanto. era. os Institutos de França. Em 1831 a Academia da Marinha foi anexada à escola. antes de tudo. imediatamente colocadas em prática. que uniam os canais navegáveis. . corrigindo deformações e sedimentando o conhecimento recém adquirido. que adotou então o nome Academia Militar e de Marinha tendo. Com a proclamação da Independência o nome da escola foi mudado para Academia Imperial Militar. pesquisas cujo berço eram as próprias escolas. O ensino cristalizou-se. Se no campo da teoria pura. No ano de 1842 mais uma reformulação e o curso passou a conter disciplinas da Engenharia Civil. repetiam-se as soluções. p. ombreava com a Inglaterra no desenvolvimento das pesquisas industriais. um dos meios das tão almejadas redes de comunicação. os cursos de Matemática. o Ten.

encanamentos de rios e outras obras semelhantes. tendo ficado patente a incapacidade da Câmara Municipal do Recife de assumir a administração das obras públicas da Província. o Sargento-mor Antônio Bernardino Pereira do Lago foi nomeado Diretor Geral de todas as obras reais civis e militares. quando foi extinta. 9 de 10 de junho de 1835. normatiza a forma de pagamento dos arrematantes. reportando-se diretamente à Câmara Municipal do Recife. ao Engenheiro Militar Sargento-mor João Bloem. define que se marcará as distâncias das estradas. conservação e reparos de todas as estradas e de todas as mais obras relativas a arte de edificar. Através do artigo 30° define a criação de sociedades que se encarregassem da abertura de canais. O artigo 31° permitia a criação . É nela que está definida a largura mínima das estradas. o que permitiu a criação da Companhia do Beberibe e a Companhia do Teatro Provincial. Por ocasião da instalação da Assembléia Provincial. recortado por vários rios e por inúmeros canais naturais. passando a responsabilidade das obras públicas. A Repartição das Obras Públicas da Província de Pernambuco A criação do órgão de controle e execução das obras públicas de Pernambuco remonta ao ano de 1810. prestava-se admiravelmente à concretização dessas teorias e as soluções dadas por Vauthier para a organização da Província de Pernambuco. com o cargo de Encarregado da Arquitetura da Cidade [do Recife]. Em 1821 o governador Luiz do Rego Barreto nomeou para o cargo de Diretor de Obras de Pernambuco. aquedutos. das pontes e dos canais. aos 30 de maio. e define que o rendimento líquido dessas barreiras seja utilizado exclusivamente para o melhoramento das estradas. permanecendo ativa até 1830. define as funções e os salários de cada um dos funcionários da Repartição. A Lei n° 9 continha as diretrizes básicas de todas as obras que se fariam na província. quando. Reorganizada em 1822. com o emprego de "marcos miliares". o Engenheiro Militar Firmino Herculano de Moraes Âncora. encarregada da construção. se pautaram pelas linhas gerais defendidas pelos seus pares na França: aliava o abastecimento de água da cidade ao saneamento da região. em março de 1835. A Lei Provincial n. recebeu o nome de Repartição Particular de Inspeção das Obras Públicas. dá a ordenação necessária para que se proceda às desapropriações e aos pagamentos dos proprietários desapropriados.A região do Recife. à circulação e ao transporte de mercadorias através dos canais e do sistema de estradas. o Presidente Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque estabeleceu uma Administração Provincial que tratava especificamente deses serviços. deu amparo legal à criação da Repartição das Obras Públicas. através dos artigos 28° e 29°. postes com a indicação da sua direção. além de se colocar nos cruzamentos das estradas. A idéia está perfeitamente delineada segundo a cartilha na qual Vauthier havia estudado e segundo a fonte de idéias na qual Vauthier havia se nutrido. é também no corpo da lei que está definido como seriam feitos os trabalhos executados por arrematação e quais as seguranças que os arrematadores deveriam apresentar. obriga a colocação das barreiras para a cobrança dos impostos.

Não sendo as pessoas oficiais de linha. que contava com mais cinco engenheiros franceses. Para o cargo de Inspetor Geral da Repartição (responsável pela parte técnica) foi nomeado o Ten. No entanto. tentando fazer cumprir o que estava definido no Regulamento. sempre. recorrendo aos mecanismos que a lei colocava a sua disposição. O seu escritório ocupava um espaço distinto daquele ocupado pela Repartição de Obras Públicas (o "meu Gabinete". no dizer de Vauthier) e que respondia diretamente ao Presidente da Província. a qual tinha anexada às suas atividades. mesmo que o quisesse. Aos 10 de agosto de 1835 foi aprovado o primeiro regulamento da Repartição das Obras Públicas. Com a chegada de Vauthier foi criado mais um corpo de profissionais. desenhista e escriturário. e em todas as decisões. . Reformado Amaro Francisco de Moura. nacionais ou estrangeiros. terão aquele vencimento que corresponderem as suas patentes na forma das leis existentes. Nessa época. além dos ajudantes de engenheiros. Cel. a intermediação do Presidente. A Administração da Repartição das Obras Públicas antes de Vauthier Francisco do Rego Barros governava a Província desde 1837. O artigo 6° trata do pessoal técnico que se encarregaria das obras: Na falta de oficiais engenheiros a quem se encarregue a comissão indicada no artigo precedente. com poucos resultados positivos.de companhias de artífices e trabalhadores. O Presidente da Província detinha toda a autoridade. vencimentos correspondentes a segundo tenente de engenheiros em diligência ativa. terão as mesmas. e até a direção de uma estrada a ser construída. para trabalhar nas obras públicas e que resultou na contratação da Companhia dos Operários. e para o cargo de Administrador Fiscal (responsável pelos pagamentos). tendo ele como chefe. fica autorizado o mesmo presidente a empregar quaisquer pessoas nacionais ou estrangeiras que tenham a precisa idoneidade. apesar de fazerem parte da mesma Administração. A Lei n° 9 condicionava qualquer trabalho executado na Província à aprovação do Presidente. Essa descrição mostra como a execução das obras públicas estava atrelada aos conhecimentos e à organização da Engenharia Militar. dependia do presidente o controle de qualquer fato referente às obras públicas: o pagamento de uma parcela de uma obra já executada. os oficiais de linha. porém. Cel. o Inspetor Geral e o Administrador Fiscal não tinham contato direto. situação que se alterou somente com a chegada do engenheiro Vauthier em setembro daquele ano. e a Escola Elementar de Topografia. Firmino Herculano de Moraes Âncora. a definição dos locais onde as barreiras seriam colocadas. era necessária. sem poder delegar poderes. e não só à aprovação. a direção da Repartição das Obras Públicas estava dividida entre três autoridades: o Presidente da Província. o Gabinete Topográfico e de Desenho. o Inspetor Geral e o Administrador Fiscal. o Ten.

p. Qualquer decisão fosse ela insignificante ou importantíssima (a troca do assoalho de uma ponte ou a direção de uma nova estrada) precisava do aval do Presidente. Esse estado de coisas permaneceu até a aprovação do novo regulamento da Repartição de Obras Públicas em 25 de março de 1842. quando então o Ten. o Presidente passou a solicitar o parecer do Inspetor Geral sobre o trabalho de Vauthier. 1940. aos 11 de setembro. Ele pediu-me que me ocupasse de um trabalho nesse sentido. o Presidente já incumbira Vauthier desenvolver o projeto. Redigi imediatamente uma pequena nota destinada a lhe dar uma idéia do mecanismo da organização em França (VAUTHIER. Nos primeiros meses. Essa reformulação já estava decidida na cabeça do Presidente Francisco do Rego Barros.] Conversei sobre a questão de organização com o Presidente. A Repartição das Obras Públicas sob a Administração de Vauthier O relatório que Vauthier enviou ao Presidente em fevereiro de 1843 explica a transferência de responsabilidade da direção das obras públicas: . apenas três dias depois. [. Falei da de França. Tendo chegado aos 8 de setembro de 1840. 32). Cel.A comunicação entre os diversos órgãos responsáveis pelas obras públicas passava. dispensando os serviços do Inspetor Geral.. quando “mandou engajar” o engenheiro na França.. Paulatinamente o Presidente passou a incumbir cada vez mais obras ao gabinete de Vauthier. toda ela. pelas mãos da Presidência. ao mesmo tempo solicitava a Vauthier a sua opinião sobre projetos e obras que não estavam sob a sua responsabilidade. Firmino Herculano de Morais Âncora foi definitivamente afastado de suas funções e o Engenheiro Vauthier assumiu totalmente a direção das Obras Públicas.

aterros. o porto. construída pelo eng. para a clareza do que me fica a expender. desde que começou a trabalhar nas obras públicas em 1840. Nos seus ofícios e relatórios é assim que ele assinava. que tinha sob os seus cuidados toda a divisão técnica. a direção estava centralizada no Diretor da Repartição de Obras Públicas. No princípio de 1842 a direção das obras dependentes desta Repartição achava-se dividida entre três pessoas independentes umas das outras: o Inspetor Geral das Obras Públicas tinha em suas mãos a mor parte das obras.Durante o espaço de tempo que tenho de considerar. pois era esse o seu cargo quando trabalhava na França: Ingénieurs en chef des Ponts et Chaussées (PRADE. pontes. 1987. nas cabeças de comarcas. Augusto Koersting. cadeia. arruamentos sobre os novos aterros. Permaneceram assim as cousas até o dia 26 de março em que. que ficaram nas minhas mãos. Segundo os novos regulamentos. apesar da nomeação de um Inspetor Geral Interino. Apesar da grande autoridade que detinha o Inspetor Geral. o engenheiro-em-chefe1. 10). era que esse propiciava a homogeneidade nos trabalhos executados. cais. As coisas ficaram neste estado até a data de 3 de fevereiro em que serviu-se V. 144). na Capital. Esse título permaneceu sendo utilizado pelos engenheiros que o sucederam depois que ele voltou para a França em 1846. a Repartição das Obras Públicas em conformidade do novo regulamento de 25 de maio antecedente (VAUTHIER. e algumas mais nos seus arredores.a encarregar-me da direção de todas as estradas da Província. o engenheiro Koersting dirigia as da estrada de Santo Antão e eu mesmo tinha a meu cargo algumas obras. p. de 1835. e até na organização da Repartição das Obras Públicas. A grande diferença entre esse regulamento e o antigo. 1948a. no dia 1° de julho sobre novas bases. passando assim o Engenheiro Koersting a ficar debaixo das minhas ordens e conservando somente o Inspetor Geral sob sua administração. mudanças que convém. por se achar dispensado o Inspetor Geral da direção dos trabalhos das Obras Públicas. novas e velhas estradas. o Liceu. Todas as obras públicas da Província eram responsabilidade da Repartição de Obras Públicas. as obras que se executavam dentro desta Capital. Ex. até se organizar enfim. a do Teatro. igrejas. hospital. resumir em poucas palavras. com uma Inspetoria Fiscal que se responsabilizava pelo controle de custos. o prédio da alfândega. cadeias. o farol. 1 O título "engenheiro-em-chefe" sempre foi adotado por Vauthier. tem havido no pessoal. a principal das quais. ajudantes de engenheiros e desenhistas. cemitério. durante a vigência do antigo regulamento outros profissionais podiam executar obras públicas fora do seu controle. Havia acontecido assim com a estrada de Santo Antão. e com as obras sob a responsabilidade do gabinete de Vauthier. p. tinha também sob as suas ordens a divisão administrativa. Juntamente com o novo regulamento foi aprovado o Regulamento da Contabilidade e o Regulamento das Arrematações. composta de engenheiros. excetuando-se somente as obras da Capital e dos seus arredores que não envolvessem assuntos de responsabilidade do Governo Geral (como o porto e os cais): na província. passei a tomar conta de todas elas. .

os orçamentos cuidadosos detalhavam as obras da mesma maneira. Em segundo lugar porque não havia a possibilidade de se fazer obra alguma. eram essas as obras executadas no período. Desta forma. O engenheiro-em-chefe apresentava. conferidas e aprovadas pelo engenheiro-em-chefe. que não tivesse sido planejada e aprovada pelo engenheiro-em-chefe. Primeiro. os documentos necessários para que elas fossem pagas. As obras passaram a ser totalmente documentadas. era feito a longo prazo. a lista das obras necessárias segundo o grau de necessidade. existia um controle total das obras. excetuando-se as emergenciais. e prevendo-se para o ano seguinte as obras que já haviam terminado e aquelas que ainda estavam por terminar. um planejamento plurianual. porque toda e qualquer obra pública estava sob as ordens do engenheiro-em-chefe. O planejamento apesar de ser votado ano a ano. sem a necessidade de se pedir a autorização do Presidente ou da Assembléia Provincial pois essa autorização já era dada quando da aprovação do orçamento no início do ano fiscal. Dir-se-ia. no começo de cada ano fiscal. os desenhos seguiam as mesmas regras. e cujo orçamento e dotação já tivessem sido aprovados pela Assembléia Provincial e previstos nos gastos do ano em curso. desenvolvida pelos engenheiros. além do conhecimento do grau de necessidade de cada obra. hoje. e colocar nas mãos do Inspetor Fiscal. Com essa documentação em mãos. Outra característica do novo regulamento era a delegação de responsabilidades aos engenheiros. que era o agente pagador. Os levantamentos eram feitos com identidade de princípios. ficava fácil controlar cada passo da sua execução. calculando-se o tempo total de execução das obras.Com o novo regulamento não acontecia tal fato. pelo Presidente da Província e pela Assembléia Provincial. corrigir os eventuais erros e distorções. e tendo sido aprovadas pela Assembléia. Depois disso o controle das obras e o pagamento das concluídas ficava por conta da Repartição das Obras Públicas. .

e segundo a direção racional determinada pelo novo regulamento. que vinham recebendo um tratamento especial desde 1840. São deste período a criação do Corpo de Conservadores. então. mas não tinha tempo hábil para fazer tudo. Millet. desde a sua partida da Europa. sofreram uma interrupção no ritmo das obras. Passaram. pelo menos. Vauthier enviou um ofício ao Presidente Joaquim Marcelino de Britto no qual fez um histórico da situação. a regulamentação da atividade de ajudante de engenheiro e o regulamento para a sua admissão. As Dificuldades da Repartição sem o Barão da Boa Vista na Presidência Enquanto o Barão da Boa Vista era o Presidente da Província. e não fica claro se houvera de início a intenção por parte do Presidente Rego Barros de chamar toda uma equipe de técnicos franceses ou se essa decisão foi tomada por Vauthier. através do Diário (VAUTHIER. O Relatório do engenheiro-em-chefe de setembro 1846 (VAUTHIER. pessoal equipado para manter limpa as beiras dos rios e as ruas do Recife a fim de evitar as enchentes e a Brigada de Incêndio. enquanto na Repartição somente trabalhavam três engenheiros e três ajudantes. Após a sua exoneração a Repartição começou a sofrer sanções pois os seus funcionários eram tratados como reduto ligado à facção política do antigo presidente. Ele afirma que não poupava esforços. e conclui pedindo mais uma vez a nomeação de engenheiros e a abertura de concurso para ajudantes. e foi o período no qual mais se construiu na Província. não se pode mais utilizar as sobras de uma obra para a execução de outra. estritamente segundo as diretrizes do novo Regulamento. além de ser alterada a lei do orçamento. No entanto. A falta de pessoal nesse período tornou-se tão grave que. A Equipe dos Engenheiros Franceses Vauthier formou uma equipe de técnicos franceses que o auxiliavam na Repartição das Obras Públicas da Província e supõe-se que essa equipe o acompanhou. informando que o mínimo necessário seria seis engenheiros e seis ajudantes. pois no ano de 1845. informa que por conta disso. equipe que mantinha em bom estado as estradas já concluídas. Morel e Portier. a Repartição das Obras Públicas continuou a ser administrada dessa forma.Ao mesmo tempo em que as obras eram tocadas em ritmo constante. Vauthier ia inaugurando outros serviços que auxiliavam e facilitavam a organização das obras públicas. . a Companhia dos Ribeirinhos. seis técnicos franceses: Vauthier. já estava montada. ou que. Boulitreau. 1948b) demonstra que as obras públicas. Vauthier não renovou o seu contrato e desligou-se da Repartição em outubro de 1846. algumas obras sofriam atraso e afirma que "pelos incômodos da minha saúde sinto que não me será por muito tempo possível continuar com a atividade que por ora desempenho". A dotação orçamentária para as obras públicas diminuiu. Buessard. a trabalhar na Repartição. 1940) percebe-se que a sua instalação foi feita lentamente. aos 4 de julho de 1844.

como não havia mais o serviço de conservação os estragos. mesmo que na soma geral da dotação houvesse sobra. 1843-1844. A dotação de recursos foi diminuída para 167 contos de réis. O exercício de 1845-1846 teve a sua organização alterada. Analisando os prós e os contras de cada um. O cargo de engenheiro-emchefe desapareceu. a dotação orçamentária para a execução das obras públicas havia sido 200 contos de réis. "Meios de execução e conservação das obras". Tal fato gerou a seguinte situação: se algum arrematante não entregava a obra. bem como o de Diretor e o de Inspetor Geral. reiterando o que já havia afirmado em 1844. o que restasse da dotação de uma obra não poderia ser utilizado no pagamento de outra. de modo a permitir certa independência ao dirigente da Repartição. e a lei do orçamento voltou a ter uma dotação genérica. O Administrador Fiscal seria. Vauthier salientou que o método por administração poderia parecer o melhor. os quais deveriam ser gastos especificamente em cada um dos serviços. sendo que o engenheiro-em-chefe gozava de bastante liberdade de decisão. com tanta obra por fazer. retornou-se a antiga forma: os conservadores foram nomeados novamente.O Barão da Boa Vista permaneceu na Presidência até abril de 1844. pois o custo da maquinaria pesada e dos motores necessários nas obras . a lei dos orçamentos também foi alterada. dali para frente. Em 1845. não era possível utilizá-lo por uma questão de legislação mal definida! No exercício 1846-1847. os quais. não podiam ser utilizados. Nos anos fiscais 1840-1841. Somou-se a isso a decisão de se suprimir o serviço de conservação das estradas. não se pagava o serviço. por não estarem previstos. 1841-1842. o que ocasionava uma sobra no orçamento. com o novo regulamento aprovado aos 26 de setembro de 1846. do orçamento de 167 contos. reformulou mais uma vez a Repartição das Obras Públicas. por outro lado. Além disso. As Últimas Recomendações do Engenheiro-em-chefe Louis-Léger Vauthier No Relatório de 1846. podendo alterar a distribuição dos recursos conforme a necessidade. de modo a restringir a execução das obras. Eram dois os processos de execução das obras: por administração e por arrematação. a descrição da melhor forma de tocar as obras públicas da Província (VAUTHIER. que desligou-se da Repartição ao expirar o seu segundo contrato. sobrando tanto dinheiro em caixa. houve uma sobra de aproximadamente 80 contos de réis. atingiam níveis tais que necessitavam recursos imensos. 1948b). Nessa nova organização não havia lugar para Vauthier. Esse fato causou um transtorno razoável no desenvolvimento das obras. Além disso. 1842-1843. apesar da diminuição do orçamento. a Província foi governada por nada menos do que seis presidentes. o que fez com que elas se deteriorassem mais rapidamente. Vauthier dedicou o quarto parágrafo. A partir dessa data até o final de 1846. A Repartição das Obras Públicas após Vauthier A Lei n° 158 de 1° de abril de 1846. em outubro de 1846. o chefe da Repartição. e impediu que muitas delas fossem feitas.

onde se imitarião infalivelmente os processos aqui empregados. por isso mesmo. procuraria os melhoramentos e as reformas no sentiodo progressivo. tinham a tendência de executá-las mal "nas partes escondidas em cujo feitio não se pode verificar". a modificação que acabo de esboçar. por me constar que V.direcionava para que fosse feita com recursos do Governo. para se contornar semelhantes fatos.a se occupa com a reforma desta rapartição. Vauthier estava convencido de que. Não hesito em declarar que na minha intima convicção. A partir de 17 de maio de 1851. e. appresenta de mais a vantagem de fazer que sejão executadas as obras por trabalhadores amestrados e practicos. agora batizada de Diretoria de Obras Públicas. a antiga organização proposta por Vauthier em 1842. quando a practica tivesse provado os seos bons resultados. Os contratos com os arrematantes continuavam a ser lesivos. traria immensos benefícios não só a esta província como a todas as mais partes do Império. e particularmente em França. que excita o espirito de corporação e emulação. em parte. Reflectindo sobre este ponto há já tempos que cheguei a conhecer que o único método que conduza a uma solução regular e scientífíca da difficuldade reside no meio que lembrei no meu relatório de 1844. alem de offerecer os motivos de superioridade que apontei a favor das obras feitas por administração. ligados entre si por uma organisação regular. Vauthier salientava que a administração das Obras Públicas já de há muito estava organizada de forma que as obras fossem feitas preferivelmente por arrematação. Mesmo assim. estado de coisas difícil de ser revertido. a única solução era adotar outra organização. 1948b). "necessário descrições e orçamentos exatíssimos para que não se verificassem tais erros". Ex. Este processo applicado em vários paízes da Europa. a saber: na execução das obras publicas por um corpo de trabalhadores alistados e organisados militarmente. Sua sugestão não foi adotada e a Repartição continuou a ser dirigida ao sabor das mudanças políticas e dos interesses dos grupos que detinham o poder no momento. sendo. ocasionou a aprovação de novo regulamento. a todas as obras que dependem de engenheiros militares. os arrematantes. além de ser permanente a falta de profissionais que tocassem com desvelo as obras públicas. Similhante organização. e d'esta arte imprime aos trabalhos huma regularidade e rapidez que fora desta organização não podem existir. Entretanto. o que oneraria e até inviabilizaria certos projetos. além do que a mão-de-obra livre empregada nas obras por administração faria voltar o braço escravo para a agricultura propiciando aumento da produção. a Diretoria de Obras Públicas continuou a ser dirigida com dificuldade. desta vez recuperando. . As obras feitas por arrematação tinham o perigo de serem executadas sem o devido cuidado pois. posto que tivesse eu julgado em 1844 a lembrança prematura. e accarretaría não pequena gloria ao administrador corajoso que despresando as estradas sediças. que hum modo rápido indiquei [sic] (VAUTHIER. não sendo responsáveis por elas senão por pouco tempo. he preferível a todos os respeitos. tanto para os arrematantes como para a Província. nova alteração da Repartição. todavia reproduzo-a hoje. a semelhança do que se fazia na Europa. e que he mui facilmente realisavel.

Marcel.. ______. Revista do Arquivo Público. segundo o sistema do Corps des Ponts et Chaussées. .] A Repartição das Obras Públicas está mal montada. Jordão. 4 v. PICON. VAUTHIER. que é inteligente e mostra-se ativo (D. 1948b.. o período em que mais a província de Pernambuco se desenvolveu foi de 1842 a 1846. Louis-Léger. Pedro da Silva. Códice OP 12. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora. ______. 1992. dez. n. Um Engenheiro Francês no Brasil. In: Emerenciano. 1948a. n. Ponts et Viaducts au XIXe Siècle: techniques nouvelles et grandes realisations françaises. Vauthier no Arquivo Público. V. 1975. DUBY. Revista do Arquivo Público. caracterizando um interlúdio progressista decorrente das atividades da Repartição das Obras Públicas. Ano III. Manuscrito do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Georges. e pouco fará o diretor interino Melo Rego. PEDRO II. p. L'lnvention de L’lngenieur Moderne: L’Ecole des Ponts et Chausses. n. Relatório do Engenheiro-em-chefe da Província de Pernambuco de 15 de dezembro de 1841. FREYRE. 1940. Gilberto. 1975. Ano III.D Pedro II. Recife: Arquivo Público do Estado de Pernambuco. 1980. Conclusão Sob o governo do Barão da Boa Vista (1837 a 1844). Paris: Editions Seuil. enquanto chefiada por Vauthier. ou antes para a Província [. PEDRO II. Jordão. não podendo haver fiscalização em tantos pontos com tão pouca gente. 31. História da Engenharia no Brasil. 1987. Relatório do Engenheiro-em-chefe da Província de Pernambuco de setembro de 1846. Revista do Arquivo Público.] fora feito de um modo ilusório para ambas as partes. TELLES. Vauthier no Arquivo Público. 29. Diário da Viagem à Pernambuco. 17471851. ao visitar em 1859 a estrada que ligava Tamandaré a Uma. 1984. Relatório do Engenheiro-em-chefe da Província de Pernambuco de 20 de fevereiro de 1843. Referências Bibliográficas D. Recife: Secretaria do Interior e da Justiça. Poitiers: Brissaud. V. Paris: Presses de L'Ecole Nationale des Ponts et Chaussées. 1841. Rio de Janeiro: LTC Livros Técnicos e Científicos. numa época marcada pela estagnação dos métodos de administração pública e conturbada pelos interesses políticos. Recife: Secretaria do Interior e da Justiça. vol. alertava para o fato de que o contrato [.. Histoire de la France Urbaine. 110). PRADE.. In: Emerenciano. Antoine.

Rio de Janeiro: Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico nacional. 1940.______. Diário Íntimo do Engenheiro Vauthier: 1840-1846. .

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