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I

I

ANALISE

INSTITUCIONAL:

TEORIA

EPRATICA

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CÉLIO

MARCO AURELIO LUZ CHAIM SAMUEL KATZ GEORGE$ LAPASSADE

GARCIA

,

I

AURELIO LUZ CHAIM SAMUEL KATZ GEORGE$ LAPASSADE GARCIA , I NO PRóXIMO NúMERO DE VOZES ARTIGOS

NO PRóXIMO NúMERO DE

VOZES

ARTIGOS DE

Roman Jakobson

Thomas A. Sebeok Bernard Pottler

Paul L. Garvin

Harri Meier

Dieter Woll

Antonio To'Oar

J. G. Herculano de Carvalho Robert Lado Brian Head

F'. Gomes de Matos

de Carvalho Robert Lado Brian Head F'. Gomes de Matos ESTUDOS LINGülSTICOS em Iwmeiwgem a J.

ESTUDOS LINGülSTICOS

em Iwmeiwgem a J. Malloso Camara Jr.

r'.

de

O. MANNONI

CHAVES PARA O IMAGINARIO

,

Vinte ensaios que tratam de literatura (Mallarmé, Rimbaud, Sallnger, Henry James, Proust}, de teatro (o problema da Ilusão teatral), da lingüística saussureana e de textos ps/canalltlcos f reudianos, colocando como pólo central a problemática da Abundância do Significado. Instaurada na psicanáflse, esta

Abundância do Significado -

ponto de vista de uma teoria geral das linguagens - reformula a maneira de as chamadas ciências do homemse

do

pensarem científicas enquanto do homem.

CHAVES PARA O IMAGINARIO

_mais um volume da co leção

Epist emologia e Pensamento Contem porâneo

lANÇAM ENTO

+vozEs

-ANÁLISE

e Pensamento Contem porâneo lANÇAM ENTO +vozEs -ANÁLISE 3 INSTITUCIONAL './ V R , A V.

3

INSTITUCIONAL

'./ VR

, A V. I ' I
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A V.
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44

EDITO RI 'A~ .··· , .::of\/ rt:

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c:::q· 5esesa :

Não é a primeira vez que nossa revista fa la de Análise Institucional.

vez que nossa revista fa la de Análise Institucional. No número 5/ 1971 {junho/iulho) publicamos o

No número 5/ 1971 {junho/iulho) publicamos o artigo

de Georges Lapassade:

Linguagem Institucional ", escrito, então, especialmente para aquele .número sobre a Teoria

da Linguagem.

·Um ensaio de Análise da

Desde ent ão t emos acompan hado de perto o trabalho

desenvolvido pelo autor fra ncês,

discordávamos de sua atuação em nosso meio universitário. Por outro lado. a nossa revista sempre

efetuadas no campo da

Análise Jnstituçional pelos pr ofessor es que

completam este número:

mesmo quando

esteve

abert a às

pesquisas

Marco

Aurélio Luz, Célio

Garcia e Chaim Samuel Katz. Mais que o último, os

dois primeiros têm colaborado constantemente em nossas páginas.

Procurou-se - através de um número que foge aos padrões habituais, inclusive com artigos não assinados - situar o problema propos to de maneira clara e precisa, dividindo-o em duas partes distintas:

teorizações e práticas & documento s.

Na primeira, diz-se o que é Análise Institucional:

é um método que visa elucidar

as relações reais e não somente }urfdlcas ou puramente subJetivas que mantemos com as normas /nstituldas; a maneira pela qual os Individuas se

p6em ou

dar adesão a estas normas, assim como as formas singulares de organização que surgem e desaparecem · . Mostra·se também o nível de operações desencadeadoras de sua ocorrência e a relação ent re prátíc8 teórica e prática Institucional. Na segunda, o processo da prática Institucio nal aparece sob vérios ângulos: comentério critico de uma " noite de loucuras ", intervenção numa escola de comunicação, uma nota sobre s estada do Prol. LBpassade entre nós etc. Não necessidade de nos

· Análise Institucional

não de acordo a

fim

de participar ou de

r

4

deter mais longamente porque os próprios autores escreveram uma apresentação de seus trabalhos. Cabe ao leitor a leitura critica.

Na secçào de Idéias & Fatos destacamos a análise do hospital psiquiátrico de Minas Gerais, de Francisco Paes Barreto e o artigo de Célio Garcia em que tenta responder a esta pergunta: "Qual seria a orientação, o projeto que animaria psicanalistas,

pedagogos, psicólogos,

dláris'r Se devêssemos ainda realçar outro texto, escolheriamos o discurso não pronunciado de Marlon Brando ao recusar o Oscar. discurso, sem dúvida, histórico e que tem muito a ver também com o Brasil nesse momento de defesa do índio contra os gananciosas grupos plantadores de gado, denunci80os e nunca julgados, porque os juízes são brancos.

terapeutas na sua labuta

CJarinclo Neottf

APRESENTAÇÃO

Este

um acontecimento e suas repercussões. De meados

número

da

revista

VozES

serve

para

marcar

de

julho a dezembro f,le 1972 esteve entre nós,

em

Belo Horizonte e no Rio de Janeiro,

o

professor

francês,

um dos criadorc.~ da Análise Institucional,

Georges LapasS/lde.

Neste periodo. uma pequena parcela da juventude universitária ligada à área dos saberes humanos e soc1ms bem como alguns professores mais velhos tiveram a Análise Institucional como rejer~ncia de seu pensamento

e produção cultural. Três meses depois de sua partida, quando procuramos reunir o material para organizar esta revista, temos unuz certa tristeza ao ver o que foi deixado pela trajetoria lapassadiana. As pessoas que com ele conviveram ·e colaboraram se recusam agora a contribuir com fertos. Procuramos abrir espaço para contos, poesias, músicas, peças de teatro, colagens, divagaçt5es, aforismos etc. Uma parte dos prováveis colaboradores se furtou porque não queria escrever numa revista onde houvesse textos teóricos jeitos por «quadrados>; outra parcela, por descaso ou má vontade, por diversas vezes parou de se comunicar conosco (apesar de uma permanente reinsisUnâa nossa).

O que é algo para ser meditado. Se é sempre positivo

ter uma crônica sobre acontecimentos, ou se uma recusa

de se textuafizar não é igualmente importante. Isto

aprendemos com a Análise Institucional, o significadq

(mas não ainda o significante)

da contracultura.

E

por isto os quatro autores achamos que faz parte

da

produção

teórica

essa

recusa,

e

nosS/1

trisfeuz

se

deve apenas a que valorizamos o texto escrito.

Resolvemos não assinar os textos. A idéia original era

de

texto individual se perderia um dos eixos articulatórios

da potência teorizante, que com isto se tornaria menos repressiva. Imaginem o professor X assinando uma poesia do Y que é muito doidão; ou o Y co-responsável por

textos teoricos sobre antipedagogiaf Quer dizer, irlamos

que sem

um

autor identificado

em

relação

a

um

6 mostrar uma gama de possibilidades

expressivas de uma importante

crJrrenle

analítica

contempordnea e

nos

sacudir

ou reprimir um

tradicional, sizuda,

colaboração dos «desligados ~. Mas que

é assinada coletivamente (talvez devesse ser assinada também peios que não se

pouco; coleti vamente.

que o resultado ~ ainda uma revista

pela

falta

de

presentificaram

deixam

mas

que

nem

por

de

estar presentes,

não?).

isto

Isto

nos

faz

pensar

no

que

significa

o comprometimen.to com

um

editor para

Incorporando

o sofrimento do

outro,

a entrega de textos datilografados,

Noel se

tornou um analista institucional

bonitinhos, numa data determinada, fator

silvestre.

Passou

a

mostrar

que

o

este irrelevante para os que se empenham no estabelecimento de ama contracultura.

<anfropologuês> reduzia o lndio a não

ter corpo, mas só ritos, religiões e costumes

Destruir o tempo

e o espaço cultarais

dist(ntos; corpo este que é uma das

é

uma

das

metas iniciais

do

drop-out,

instituições mais preciosas que a teoria

mesmo inintencionalmente, pois, afinal,

anfropoú)gica deveria -não apenas estudar-

<eu estou na minha~ etc.

preservar.

Mostrou

tamb ém

como

a

Nos faz meditar também sobre o que é uma

produção

social,

mais

racional quanto

no de hoje. Nossa imensa satisfação ao escrevermos textos ou fazermos confedncias para trinta leitores ou oullintes pacientes (<o prazer do texto~ de que tala Barthe$).

certa

intelectual

atividade

Brasil

Ganhamos nossa certeza lógica, exacerbamos nossas idéias até aos cortes epistemológicos mais radicais e falamos qfUlse sozinhos. Ou melhor, para sermos

mais rigorosos, o discurso se fala em n6s, mas o outro emplrico não nos escuta,

cochilante e cheio. O que é isto

o seu

problei7Últica de

eis a que não podemos deixar de nos dedicar.

e

qual ·

numa

significado, especialmente

pais subdeunvolvido,

O ONTEM faleceu Noel Nutels. Seu lugar mítico demarcado socialmente ua, segundo os jornais, de <grande sertanista brasileiro•. Só que ele o foi de um modo lindo. Vendo o morticínio progressivo

dos

a

que

pela sua sobrevivincia. A final, teorizar sobre os mitos, as linguas ou os alimentos

indigcnas é também uma forma de eliminá-los, preservando seu exótico para

que a ferJria contemporânea possa ampllar

o Outro inconsciente do homem lxlrguis branco civilizado.

Noel o

cu1ti~simo, mas falando numa língdag e m

sofnda, onde os corpos dos índios eram também elaborados teoricamente: <Vocés não :r(Jo antropdlogos, são antropófqon.

indíos,

Noel

perguntou,

o

se

escrevendo

fazer

Léví-strauss,

poderia

dizia de

outro

mo(/o.

Culto

mais formas elaboradas de Tecnologia usar, estava fadada a destruir o lndio, mesmo quando pensasse em preservar sua existincia. Além disto, pela luta inglória e gloriosa que levou para demonstrar seus pontos de vista, sua defesa vigorosa em defesa da vida do lndio, pela celeuma que levantou com sua energia e sua grande emocão e carinho, Noel se tornou um analisador do lndio brasileiro. A Noel Nutels -11nalista e analisador institucional, homem maravilhoso- dedicamos esta revista.

Rio,

l

i

de fevereiro de 1973.

ACOES

-

7

Ensaio de Análise Institucional Condições de ocorrência Os três níveis . Conceitos básicos

Instituição,

linguagem, desejo

Prática teórica, prática institucional

8

,

ENSAIO DE ANALISE INSTITUCIONAL

Análise Institucional é um método que visa elucidar as relações reais e não somente jurídicas ou puramente subjetivas que man- temos com as normas instituídas; a ma- neira pela qual os individuas se põem ou

de

não de acordo

a

fim

de participar ou

dar

adesão

a

estas

normas,

assim

como

as

fonnas

singulares

de

organização

que

surgem

e

desaparecem.

Em

outras

pala-

vras,

mente as formas constituídas,. mas também

as modalidades de ação constituintes e os

processos de institucionalização que resul-

tam dos dois momentos precedentes. As relações sociais reais, assim como as nor- mas sociais, fazem parte do conteúdo do

conceito <instituição». Uma outra particu- laridade de Análise Institucional vem a ser

o fato

eretas na prática social. A Análise é, pois,

uma

como organizações, instituições (no sentido tradicional do termo), organismos, coleti- vidades. Ela tenta mostrar que, em toda situação, a ação das Instituições ausen- tes/presentes, isto é, a ação simbólica, é uma variável importante. Por conseguinte, não somente a face objetiva da instituição é levada em conta, mas também a face simbólica, não-objetivável em termos de da- dos de um. inquérito ou resultado de uma observação. Na qualidade de modelo de Análise social, alem de introduzir a dimen- são <instituição» nas análises sociológicas conhecidas, ela chama a atenção para as implicações sociais, econômicas e po- líticas da observação sociológica. Trata-se, para o pesquisador e 'para o analista, de tomac como dados analisáveis, e não como

entendemos

por

instituição

não

so-

dela

operar

em

sobre

grupos

situações

con- ·

intervenção

limitado~ tais

condições exteriores ao seu trabalho, as condições nas quais ele é chamado, por determinadas instituições, a intervir na qua- lidade de especialista reconhecido. Se fala- mos de observação sociológica, devemos

trabalho,

encará-la

numa

tanto

organização, quanto do pesquisador. Donde encontramos, atualmente, duas possibilida- des de aplicação da «Análise lnstitucionab:

uma primeira quanto ao que chamamos

situações concretas (será o trabalho pro- duzido em escolas, hospitais, empresas, or-

como

analista

instrumênto

que

se

de

do

encontra

ganizações

ou

instituições

de

um

modo

geral).

Neste caso, existe Análise Institucional onde estão reunidas as seguintes operações:

Em t• lugar, análise da <Demanda-., com-

formulada

implicita

preendendo

pelos

que se encontra nas entrelinhas desta de- manda oficial. Além disso, existe Análise Institucional quando procedemos à Análise da demanda do grupo-cliente, composto pelos membros da organização. O conjun- to formado pelo Grupo-Cliente e o gru- po-direção compõe o coletivo ou grupo maior sobre o qual vai incidir a interven- ção ou trabalho analitico. Em segundo lugar, existe Análise Institu- cional quando encontramos a <autogestão:. praticada pelo grupo maior em relação a horários, número de reuniões, entrosamento entre as reuniões e as outras atividades cotidianas: ordem do dia, programa, re- partição em eventuais subgrupos, demandas particulares com relação ao grupo de ana- listas, modalidades de pagamento. Os obs- . tãculos à autogestão da experiência de

·a

demanda

a

oficial

demanda

responsáveis

e

Análise Institucional revelam os Ji~itçs,que

a Instituição impõe, as restrições que pro- vêem da instituição. Em terceiro lugar, encontramos a regra

da <livre expressão:

de

sessões de Arálise Institucional o não-dito, os rumores, os segredos da organização, a origem social de seus membros. Os obs- táculos, as impossibilidades a esta mobili- zação logo virão à tona e poderão se tornar evidentes. Esses obstáculos são ana-

Trata-se de restituir,

tra;~;er à tona, de mobilizar durante as

lisados como reveladores da estrutura

ins-

titucional e daquilo que chamamos o

nãQ-

saber dentro das organizações. O não-saber no sentido do desconhecrdo, censurado, negado.

Em

quarto

luga r,

a

elucidação

da

«trans-

versalidade:.,

isto

é,

a

dimensão

onde

en-

contramos o fato de se pertencer a outras categorias sociais; o fato de podermos iden- tificar ideologias e outras particularidades que vêm negar o fato de se pertencer em comum a uma determinada organização.

alusão a estes grupos,

a estas categorias sociais e a estas parti- cularidades pode assumir um aspecto po- sitivo ou negativo: o que se propõe, o que se quer dizer é que essas particulari- dades, essas referências atravessam a or- ganização, eis que o sistema social global,

a estrutura da sociedade dividida em clas-

ses se revelam, se manifestam na unidade micro-social que é a organização. Se a instituição é o que reproduz as relações soCiais dominantes no seio de uma organi- zação ou de uma coletividade, a análise ·da dransversalidade:. terá que enfrentar resistências reveladoras das relações que os interessados mantêm com as instituições. Por conseguinte, podemos falar de <trans- ferência institucionab, isto é, quando nos referimos aos sentimentos, às fantasias, aos desejos e às frustrações de . cada um para com a instituição.

Em quinto lugar: elaboração da <contra- transferência institucional:., ou seja, a aná- lise das respostas que o grupo de analis- tas fornece. O sociólogo, o psicossoci61ogo,

o psicólogo social têm normalmente muitas

dificuldades em reconhecer as implicações de cada um para com o objeto estudado (implicações de ordem afetiva, política etc.). As resistências a esse reconhecimento fa- zem parte do objeto de conhecimento, de estudo. Estas resistências encontram-se no campo de análise.

a construção ou elucida-

ção dos canalisadoresJ>. Por analisador en-

P or conseguinte, a

Em sexto lugar:

tende-se alguém que, através das contra- dições que este elemento introduz na lógica

da organização, enuncia e revela as deter-

minações a que está submetida a situação. Por exemplo: um subgrupo divergente, através de sua presença e através de seu discurso ou através de seus gestos e ações,

provoca nos membros do grupo maior ou coletivo a necessidade de se exprimir, de se expressar ou silenciar certas coisas.

Prosseguindo, o analisador é capaz de exer- cer pressões ou então repressões revela-

doras

en-

contram ao nível institucional::f Finalmente, para concluir este parágrafo : o conceito

de instituição não se limita a designar um

modo de regulação externa aos indivíduos. Seu conteúdo é feito de articulações entre

a a~ão histórica dos indivíduos, grupos,

coletiVIdades, categorias sociais, sem esque,

cer as normas sociais existentes. Reco- nhecemos af um cuidado em estudar as

das

relações

de

poder flue

se

formas

constituintes

e

não-privilegiar

as

formas

constituidas.

Mas

a

dialética

do

constituinte e do constituído não se reduz

a uma oposição entre normas e <condutas

efervescentes»

~as instituídas são produzidas pela histó- ria, constantemente modificadas pelas forças constituintes. Por outro lado, as condutas efervescentes não são puramente espontâ- neas: elas podem se originar e se efe- tiva~ a partir do que já. existe, isto é, a partir das implicações .institucionais dos atores (R. Loureau, 1971b).

A segunda aplicação ou campo de trabalho

(Gurvitch), eis que as nor-

da Análise Institucional pode se identificar em trabalhos publicados recentemente. René Loureau (1971) escreveu· um texto intitu- lado A conw.na: um laboratório histórico.

Também Georges Lapassade (1971) escre- veu um artigo intitulado Um analisador hi$tórico, sobre o mesmo acontecimento (A'

Aná-

lise Institucional abordar acontecimentos históricos, situações vividas atualmente ou registradas em documentos à disposição do analista. Em terceiro lugar, encontramos

a possibilidade de uma reflexão sobre

Ciências Humanas a partir de concei- tos de Análise Institucional. A Análise Institucional neste caso se constituí nu- ma metodologia capaz de criticar a pro- dução proveniente das Ciências Humanas;

t~ata-se de uma contribuição à teoria geral das ideologias. Os mecanismos da ideolo- gia instituem, atribuem aos indivíduos .o lu gar que lhes é destinado, dissimulando

o fato de que se trata de uma instituiçãl>.

Comuna de Paris). Vimos portanto. a

9

A

ideologia

é

assim

vivida

e

tida

como

grupos. Max Pagês representa bem aquele

uma

condição

natural

que

as

garantias

periodo quando 4iz: <os elementos condu-

cmplricas e

especulativas

fundamentam.

A

tores na vida dos grupos, como na vida

proposição geral sobre a

qual se

basearia

dos índivlduos, são os sentimentos em par-

uma

seu

nível atua l de desenvolvimen t o e s~u lu-

que

de

teoria

toda

geral

ciência,

das

qualquer

ideologias

que

é

a

seja

te desconhecidos (inconscientes). Estes sen-

timentos correspondem às angústias univer-

sa is

de

do

homem

(medo

de

humilhação,

gar na estrutura

teórica,

é

produzida

por

castração,

medo

do

abandono,

da

super-

um

trahalho

de

mutação conceitual no

in-

proteção, de manipulação ). Os grupos <!~:­

terior

de

um

campo

conceitual

ideológico

fendem-se frente a estas angústias mobili-

com relação ao qual ela toma distância (T. Hcrbert, 1968). Neste sentido, qualquer ciência e principalmente ciência da ideologia

zando outras angústias, assim como a partir de ·mecanismos gerais de defesa que ten- dem a impedir a expressão dos sentimen- ·

da

q ua l ela se destaca.

Se qualquer ciência

tos, inclusive a expressão individua l ou

é ciência de uma ideologia, a ciencia das

simbólica~.

unta sociedade deveriam ser abordadas a partir de comportamentos concretos, ativi- dades, estr uturas sociais que as exprimem por um método análogo àquele empregado pela Antropologia, mas aqui aplicado dire- tamente ao conjunto de comportamentos

nais

dizagem. T emos falado em grupo, em aprender

em

grupo, em grupo de discussão. Temos fa- lado em relacionamento professor-aluno. Temos falado nas desvantagens da aula

apren-

pr esentes

na

situação

de

11

co ncretos na medida em que se investigas-

expositiva,

notas atribuídas

pelos

próprios

sem não somente os elementos permanentes

alunos,

notas atribuídas pelo grupo.

Neste

mas também as variações instantâneas:r

caso, incluímos nossa atividade até o

pon·

Contudo,

a

alusão

que

faz

o

autor

às

to em que fizemos

a

revisão q ue

nos ser-

instituições

e

suas finalidades

assim como

viu

de

ponto

de

partida

para

a

redação

() propósito de abordar a estrutura social conto portadora e veículo de expressão não

é levada às últimas conseqüências. O aut or

permanece

preso às suas

hipóteses de en-

deste capítulo. Es.-;a ênfase parece ter obscurecido, ter

desconhecído um terceiro t ermo: isto é, o

sa-

.~aber, a

relação

para

com

o saber,

o

 

ideologias

não

pode

escapar

a

esta

lei.

Em outro texto acresce nta P ages : «A coo-

na

peração

inconsciente

na

alienação

e

~:ontrar o

significado

emocional

profundo

ber instituído em suas formas universitárias.

Seu

obíctivo

seria

a

teoria

ideológica

da

t.la vida

dos

grupos:

Essa pedagogia inspirada em Relações Hu-

ideo

logia.

As

Ciências

Sociais

 

no

estado

identificação é o sinal de uma cooperação

Também a

regra

do

e

agora:.

foi

mana!l tem .esquecido o problema da ins-

a

grande <utilidade teórica~ no que diz res-

atual

produzem

esta

teoria

e

está

Ci~ncias Humanas ocupam o

luga r

de

um

e de uma solidariedade inconscientes au- tênticas, profundas, que elas exprimem ao

ultrapassada em se tratando de Análise fn&- titucional. A esse problema já se fez alusão

tituição. Vale citar a influência que tem tido Carl Rogers, nesse momento. Bastaria

peito às Ciências Humanas. Proceder à

mesmo tempo que negam; a cooperação

no texto de Garcia (1071). Restringir

o

cita r

seu

texto On Becoming a Person.

E

Análise Institucional das Ciências Humanas

é uma atividade orientada que modifica a

trabalho

ao

que

se

passa

entre

quatro

em Rogers reconhecemos o inovador, o ho-

significaria examinar a situação onde as

afetividade individual ligada ao encontro na qualidade de significação deste encon-

paredes significa de~conhccer os anteceden- tes úe um grupo ( a sua história), assim

(seu caráter prospectivo, suas fantasias com

mem de intuições, mas em quem a estru- tura social, as instituições não são levadas

proccs.•;o

que elas censuraram c recalcaram. Assim

que

poderia

ter

se

produzido

e

tro~. Finalmente, assinala a função de de- fesa contida na relação de autoridade con-

também as coisas que se situam no futuro

na devida consideração. Se o não-direti- vismo é outra coisa que uma máscara ideo-

constitt!iu-se. um arsenal teórico-prático de

tra

um

sentimento

coletivo

atual,

isto

é,

relação ao futuro) . Por conseguinte, o an-

lógica ou ilusão, então não se define como

meio~ técnicos-políticos que se dão por

contra um

desejo

inconsciente de

coopera-

rcs c o depois do grupo consti tuem objeto

uma transformação da relação particular

objetivo

responder a

uma

demanda

prove-

ção verdadeiramente experimentado pelos

tle análise, assim como o que se encontra

professo r-aluno (como se estes dois seres

que

visa adaptar-readaptar as relações sociais

niente

da

formação

social existente

e

participantes de um grupo ou de uma or - ganização. Escolhemos Max Pages para re-

fora da sak1, nos corredores, no organo- :::rama, ·na organização,' nas inscriç<ies que

fossem duas essências universais) mas co- mo uma transformação da relação que

reais. Proceder à Análise Institucional das Ciências Humanas ~ignifica estabelecer a

. presentar este per fodo anterior à Análise

se encontram muitas vezes em lugares cen-

mantém o transmissor do saber (o profes-

 

Institucional

porque

ele

leva

às

ultimas

surados

(banheiros etc.). Todo esse mate-

sor) frente ao próprio saber, não em ter-

 

distinção, como fez

Lévi-Strauss, entre qlei

conseqüências

seu

modelo,

com

bastante

rial se constitui em objeto de estudo numa

mos de conteúdo em Juta com outros

e

regr~. Não confundir,

portan1o,

o

pré-

seriedade científica, sem querer escamotear

experiencia

em

Análise

Institucional.

Vale

conteúdos, mas na mcdid_a em que ele é

consciente da regra · sintática imanente a

aspectos que

eventualmente o exponham a

dizer q ue a Análise Institucional ass im de-

institucionalmente prod uzido, conservado,

um sistema fraseológico institucional dado

críticas severas. De uma maneira provo-

finida dá ênfase ao discurso enunciado

tran smitido, controlado, aplicado e sancio-

com

o

inconsciente

da

lei

estrutural

que

cante dirá: <as empresas industriais capí·

pelos participantes em s ituação de grupo,

nado (R. ·Lourau).

aciona as

regras.

Resulta dai qu'e

a

atri-

talistas servem ·de ocasião onde os homens

acreditando-se que o referido discurso faz

Em Rogers, o não-diretivismo individual e

buição do lugar a alguém numa formação social qualquer está impregnada dos me-

canismos da lei inconsciente, e não é a

procuram viver a experiência do a.mor, onde os homens fazem a experiência do sentimento amoroso. Digo, continua Max

menção à instituição onde, ele, discurso, toma foros de significação. Leva-se em conta o discurso enunciado por outros de-

social não contesta o diretivisino estrutu- ral. cL'auto-formation non-directive n'est pas fondée sur l'auto-gestion de cette for-

tomada de consciência das regras pré-cons-

Pages,

todos

os

membros

da

empN:sa:

partamentos, outros setores, outros parti-

mation:t, dirá

G. Lapassade.

 

cientes q ue poderá liber á-lo de sua alie-

os

funcionários,

os

operários,

 

os

che-

~cipantes presentes na situação, ou simples-

Quanto às utilizações das técnicas de gru-

nação social. Neste nlvel, a Análise lns-

fes, os diretores. Naturalmente trata-se

mente

lembrados.

po, gosta ríamos de dizer que a pedagogia

:itucional seria um aprofundamento dos

de uma experiência muitas vezes vivida

de g r upo tende a autonomizar o grupo,

Instrumentos de análise macrossocial utili-

no

conflito:

Não me refiro aqui, esclarece

esperando dele remédio para todos os ma-

zando os mesmos instromentos de t raba-

o

autor, alegria do trabalho~ nem à

LJ A Universidade e o Saber çoroo

 

les.

Ora, o

grupo só existe

na medida e.m

lho

com

relação

à

abordagem

analltica

qualquer ideologia do tipo <harmonia-na-

receios. Pois bem, foi com essa abordagem

forma de poder

que

ele

responde

a

exigências

da

socie-

encontrada

conc retas.

em

instituições

e

organizações

cooperação:. que cobre, não a experiência do amor, mas os meios . de que se vale

Uma Instituição a Analisar

 

dade.

o

Por outro

é

um

grupo

lado,

podemos dizer que

nele colocamos

fantasma,

 

a sociedade para se defender dos próprios

 

O Discurso Pedagógi co

todos nossos desejos não satisfeitos, nos- sas frustrações. Em volta da mesa de reu-

 

O Situação da

Análise

Institucional

 

do

encontro e

da cooperação inconsciente,

O ato pedagógico que inspira e dá for-

nião (dita mesa-redonda) acreditamos todos

com Relação à Pri tlca

Ps icológica

autêntica e profunda que rompeu a Análise

ma à situação de aprendizagem só pode

iguais.

A mesa-redonda,

como

sabemos,

é

 

Institucional.

 

ser entendido se relacionado com a insti-

uma

falácia

Ela

nega o

problema do po-

 

'A

Análise

Institucional

su~deu a

uma

MalÇ Pages percebeu a dificuldade em que

tuição na qual está Inserido.

der,

que

mais cedo ou

mais

tarde

reapa-

,.ab ordagem

q ue enfati~ava · o

significado

se

encontrava

e

na

revista

Arguments

Durante os últimos anos, demos ênfase ao

r ece. Anzieu

havia fa l ado

na

 

· eJI1.?Cional das organizações, instituições e

adiantou : cAs atitudes inconscientes de

método (,le e nsi no e aos

aspectos emocio-

doença

que

nos

tem

atacado

nas

últimas

i

.

dé<:adas

Fazemos

reunião

de

grupo

para

stçao do conhecimento. A esse respeito, di-

tudo.

ria que o ensino programado, interessado

Por

outro

lado,

não

queríamos aq ui su-

na

eficácia da aquisição, deixa de analisar

bestimar o grupo. O lugar de convergência

as

ra~ões pelas quais alguém opta por esta

e

de atrontamento das exigências e das solicitações advindas da instituição vem a ser o grupo, mas sem por isso assumir

ou

aquela . aquisição.

poder

Concluindo este parágrafo: o mediador na relação profellsor-aluno, segundo R. Lour au,

mágico.

parece

ser

o

saber.

Mas

também

nes te

caso

a

diferença

de

status,

entre

aquele

que

está

encarregado

de

transmiti-lo

e

aquele

que

é

encarregado

de

adquiri-lo,

cria

rais

Um outro capít ulo d essa Análise Instit u- ci onal do d iscurso pedagógico deve se re- ferir aos exames, às notas. lembramos a

inovação liberal

grupo que consiste em se

que

estabeleça uma

auto-avaliação.

O liberal Carl Rogers já havia senten- ciado: «We wou!d do away with examina-

tions:t

and Learning) , e mais: <T he implication

with

to-

gether if they wished to Jearn:t.

O que este autor não disse é que a Aná- lise Institucional do exame nos leva a crer que ele é uma instituição destinada a se~ lecionar, em função do saber, pessoas que tiveram chance de fazer estudos. Pelo ti- tulo que ele (exame) confere, estabele- ce separações na sociedade em nome da- quilo que justamente pretende estabelecer união: em nome do conhecimento. Diria

que

saber.

do

would

grades and

uma

oposição

que

as

técnicas

libe-

mal conseguem

camuflar.

baseada

nota

aluno

na

pedagogia

pedir ao

a

cada

de

grupo

ou

atribua

uma

cada

colega;

ainda, que

(Personal

be

that we

credits.

Thoughts

would

do

on

.fcaching

away

People would get

o

exame

reflete

a

função

social

"A Análise Institucional deve ser uma inter-

venção na prática do ato pedagógico. Po- der-se-ia objetar que o pedagogo não é um Psicólogo Social - é verdade. Por~ tanto, a formação dos futuros pedagogos

deveria fornecer os instrumentos . susceptl-

veis de serem utilizados na situação pe- dagógica. O professor não seria uma má-

quina de ensinar.

dei-

reai!l

xada de lado sem acarretar um isolamen-

to

ins ti-

A

~ada disciplina

envolve

msistêncla

tucional do trabalho escolar restitui à Pe-

negligenciado

aqui-

pelas

condições

A análise das

não

pode

magia

que

e

de

um

seu

trabalho

de

ser

caráter

ensinada pelo

professor.

sobre

fim

que

o

aspecto social e

educativo,

visam

sobretudo

~gogia seu

técnitas

O A

Aproprla4jio

do

Saber

Em primeiro lugar, não consideramos o

saber como um conjunto de conhecimento acumulado que o professor detém e procu- raria difundir através de técnicas mais ou menos dinâmicas a quem até então estaria

reconhe-

privado

cemos que há um tipo de conhecimento cons tituído cuja transmis.c;ão parece em cont radição com nosso discurso pedagógico.

P or outro lado, sabemos que to do e qual-

deste

saber.

No

entanto,

quer saber é o resultado

Contudo,

alguns que

de uma pesqui sa.

é

o

privilégio

do

saber.

de

A

essa

são

pesquisa

os criadores

pesquisa é

reservada

a

uma

minoria. E

então

segue-se

a

conclusão:

n quantidade

difu-

são é uma tarefa prioritária. E está jus- tificada a rep11rtição entre aqueles que criam o saber e devem transmiti-lo e aque-

de

conhecimento

sendo

eno rme,

s ua

les

A distribuição do saber pode, evidentemen-

te, se resumir a uma questão de embala-

gem e entrega. Esse procedimento satisfaz

algumas vezes o estudante que, desta ma-

exigê ncia neutralizada. Ou-

tras vezes, e com ·freqüência, o eshidioso

neira, vê sua

que

devem

memorizá-lo.

permanece insatisfeito.

Pois

que,

de

fato,

o poder que está

n.ão . era

saber

que

ele

pedia,

o

(pelo me-

mas

relacionado com

nos assim c.rêem os que

ber.

função

de

exigências, mas não o constitui em pesqui- sador-criador. Encontrar simplesmente ca- minhos percorridos significa privar-se de espaço para a criatividade.

faz

aquele

neutraliza

o

pedem)

o

sa·

Essa

que

distribuição

vem

à

do saber

na no seti papel

escola

sua

solicitador,

de quem

O A Reforma · UniversiUirla

A

Brasil

tido como modernizante.

tar

por

Reforma

se

que

parte da

Universitária ora em curso no

sen-

se

resistência

acredi-

apresenta

a

Reforma

em

mais de

E'

de

encontre

um

Universidade

na medida em'

que ela, Reforma, implica até

certo

ponto:

em

declinio

da

Universidade,

pelo

menos

se

temos em

mente

o

modelo

antigo

que

t

em

presidido

à

organiutção

e

à

susten-

tação das estruturas universitárias. Temos visto o Ministério da Educação Nacional desejoso de levar mais longe os objetivos da Reforma, frente à timidez ou hesita- ção do nosso ambiente universitário. Acresce que· a Universidade ainda repre- senta para muitos o exercício do poder a que se fez alusão no texto. Ora, abalar este poder significa pôr em questão um

ma então não poderá perceber o desloca.- mento do poder proveniente da própria Reforma - eis que uma visão sectária impede um dimensionamento da situação. Se alguém idealiza a Reforma, fetichiza seus marcos referenciais, suas proposições- chaves (por exemplo: não duplicidade de ccadeiras:. ou unidades de ensino na Uni- versidade), não poderá perceber a quota

13

certo número de privilégios.

Um

caso

ti·

de irracional idade presente em todo sis-

pico

vem

a

ser

a

licenciatura de curta

tema. Para finalizar, diria que o <produto:~>,

duração que obriga a uma redefinição e re-

«o homem culto•, não é nem adaptativo,

organização

do

campo

das

Ciências

tal

deste modo nem sempre ele cassociates

como

ele

se

apresenta

na

Universidade

or

identifies himself readily with the larger

Brasileira.

 

organizational of which

he forms

a par!:t,

Por

outro

lado

penso

que

a

noção de

como parece pensar j ames Bu chanan (1965)

sist ema não

con-

texto universitário. o <produlo:t (assim chamado) , encontrado no final da cadeia de produção, não é tão bem definido como

Fa-

no caso

basta

na

abordagem do

em série.

de

uma fabricação

<an

alternativa

_que s e ofe rece ao mesmo Buchanan quando ele recorre ao modelo econômico clássico.

- individual utility-maximizer:t -

tampouco

nem

o

<produto:t

é

Nem

adaptativo,

nem

c:utility-maximer:t,

o

la-se que

o produto vem

a

ser em

alguns

«produto:~> só conhece

cpn tradições.

Não c

\:asos

o

cha mem culto:~>. E

nada

menos

dizer que ele oscila misteri osamente de um

s

istêmico

do

que

o

c:homem

culto:t .

Este

pólo

(adaptativo)

a

outro

pólo

(c:utifity-

vem a ser uma mistura de c:desejo:t, aven-

maximizer,.).

O «produto•

fabrica

-

isto

tura intelectual, resposta a uma demanda

sim -

projetos não só no nível do desejo

do mercado, lugar· onde sopitam as mais variadas ambições. Quando se fala em pro-

mas também no nível da produção social. Não distinção especial a estabelecer

duto, em se· tratando de uma empresa, o

entre

a

produção social da

realidade e

a

Departamento de Produção sabe muito bem

produção

desejante

 

em

t ermos

de

fa ntas-

 

trata.

O produto

(objeto, bem

mas, no sentido freudiano do termo. A pro-

de que se de

consumo,

matéria-prima)

pesa

de

seu

dução social vem a ser simplesmente a

peso

obietivo

na

balança

da

instituição.

produção de desejo sob determinadas con-

No caso

do

<homem

culto:t,

o

pr oduto

dições. A libido não tem necessidade de

tem conotações imaginárias,

responde mui-

mediação, nem de sublimação, nem de

tas

vezes

ao

plano

do

simbólico,

ou

tjl)-

transformação especial para investir o cam-

vez da utopia. Mas a reforma é moderni- zante. Ela o é na medida em que aciona dispositivos por vezes para-universitários a fim de suprir ·a falta de flexibilidade em

demanda que se faz eviden-

te

do pais.

Finalmente, como não poderia deixar de ser, a Reforma prepara, estrutura um no- vo arranjo no jogo de forças presentes na atual conjuntura brasileira. Em que sentido vai se inclinar a balança? Creio ~ecessário ·colocar a pergunta, não para

mvalida r a

prospectivo, já que o sistema (se sistema

e_xiste) muda constantemente; que o des-

ltno

por

reformulada

Reforma, mas num sentido

atender

po social (Deleuze e Ouattarl, 1972). Nós deliramos o campo social, assim como o campo social invade nossos projetos mais recônditos. E que não se venha pedir Psicologia aquilo que a Economia não po-

à

uma

no

atual

estágio

de desenvolvimento

de dar,

eis que ela atinge

o

seu

!.imite -

 

parece

ser

a

posição

de Mancur

(1968):

uma

Reforma

é

nova

Reforma.

ser

acontecendo

enquanto

a

ã

pergunta

feita

simplesmente

contra

pouco.

a

Se

irrational behavior

is the basis for a lobby, it w ould perhaps

be better tu tum to Psychology or Social Psychology than to Economics form a re- levan( Theory:

O fracasso da Psicologia (Ciência da adap-

tação) é tão grande quanto a falsa mo- déstia da Economia diante do problema aqui citado e pressentido por Mancur, assim como por Buchanan. Para abordar um campo onde a Psicologia se formou, iniciou sua construção como ciência, vamos abor- dar o problema da doença mental, para verificarmos o limite da Psicologia. Este limite está inscrito na própria constituição da ciência psicológica.

cWhere non-rational or

de

uma

vai

for

Somente um acompanhament o cuidadoso do

que

se implanta poderá nos dar elementos que

respondam

Refor-

alguém

Refofma

0

Um Hospital Psiqul,trlco

Em um trabalho que tivemos ocasião de conduzir, num hospital Psiquiátrico, ado- tamos estratégia que procurava equilibrar

participação dos médicos, pessoal funcio- nário administrativo e demais componentes da equipe psiquiátrica, e burocracia, isto

reda-

é

estabelecimentos de

de

ofícios,

decisões

regulamentos,

de

diretor.

çÍio

ptc que possível, as. atividades de p~r!i­ cipação nos da~·am p1stas para a defim çao da política administrativa. Na época lasti-

mamos que a burocracia seguisse com mui- ta dificuldade a evolução do significado que tem a instituição vivida no nível do grupo. Haveria, pois, sempre esta possibi- lidade do envelhecimento do significante

(nível da instituição) com relação ao signi- ficado (nível da vida do grupo). No refe-

pen-

Sem-

rido

hospital,

por mais de

uma vez,

sou-se

rassem de uma mane.ira permanente o que se procurava atingir com o · trabalho de Análise Institucional; algumas sugestões levantadas diziam respeito a: 1) direção colegiada, 2) grupo de assessores situado

entre a direção e o pessoal técnico, 3) reu- niões de caráter permissivo com ou sem a

presença

luções

mática. De fato,

o problema ou respond eria à pergunta que

inquietava a todos nós, psicólogos, psi- quiatras, direção do hospital, funcionários, analistas. Este problema, esta pergunta diz respeito à angústia que experimentamos quando vemos uma insti tuição, um· grupo,

ou

tido, passarem a ser denominados por ou-

tro nome. Ao q ue parece, isso nos t r az grande insegurança, pois estaria ameaçada nossa própria identidade. Principalmente se

essa mudança ·se faz

pria

tra nÓS).

Com este comentário ficamos a meio do caminho. A angústia de que se fala no comentário anterior parece solta no espaço, sem nenhuma conotação institucional, sem nenhum vínculo sócio-econômico. Vamos pois levar mais adiante nossa reflexão. Nossa deficiência nessa época consistiu em

não relacionar burócracia e

como faces de uma mesma superficie. Essa

separação entre burocracia

participação,

em se tratando de um hospital psiqui á-

tT

gerado expcr iblcias que vamos

em

criar

dispositivos

que

assegu-

foi

do

diretor.

tentada

Nenhuma

de

uma

nenhuma

dessas SO·

siste-

maneira

delas

resolveria

ainda

uma

palavra

perderem

seu

sen·

longe de

esta

se

nossa pró-

realiza

(Con-

experiência,

~

participação

e

ico,

tem

ordenar, fazendo alusão a

três tipos.

Num primeiro tipo teríamos as experiências que consistem em separar no hospital ( no tempo e no espaço) zonas de psico1era- pia onde prevalecem relações a fetivas pes-- · soais, de zonas de organização adminis- trativa onde prevalecem relações puramente formais. Um segundo tipo inclui modifica- ções na organização formal do hospital.

D e

gidas (sempre que possível analisadas) as atitudes individuais, ao mesmo tempo em que se procu rava vencer a r esistência sus-

citada pelas mudanças introduzidas. Provavelmente, nesse segundo tipo estaria

incluído o traball1o que realizamos no Hos- pital, notadamente quando dissemos que

uma

maneira

aind a

isol ada

atin-

~o

nosso

trn·balho

estava

orientado

por

um

movimento

de

balança

entre

partiripaçáu

e burocracia. Hoje, j á passado algum tem- , po, podemos dizer que se tratava de ve~­

ccr

vidades

suscitadas pela nova orientação que partia

da

peito à renovação do quadro do hospital (quando os médicos antigos deixaram o hospital enquanto os novos se instalavam); exigê ncia de maior rigor quanto à forma- ção dos jovens estagiários; introdução de novos especialistas entre o pessoal do hos- pital, tais como psicólogos, profe.ssoras, praxiterapcutas. Mesmo quando pensavamos acompanhar de perto a evolução da insti- tuição hospitalar para atualizar regulamen- tos mesmo neste caso, tinhamos em mente um' esquema de separação dos dois aspec- tos aqui abordados. Vamos defini r o ter-

ceiro tipo, caracterizando as~im o traba lho de Análise Institucional realizado em hos- pitais psiquiátricos. As experiências do terceiro tipo visam modificar simultanea- mente a estrutura do poder e as atitudes. Esse tipo fundamenta-se no postulado de que não existe separação rígida entre fe- nOmenos coletivos e individuais, entre com- portamentos e moda!idades de pensamento

resistências

de

burocracia.

(quando

conduzíamos

tipo

Grupo

dizia

ati-

T .)

res-

participação

Esta

orientação

que inspiram ações e

as

pouco

útil conduzirmos experi~ncla d o t ipo Oru-

pessoas. Assim é

relações

entre

que

consideramos

po

T.

isoladamente,

sem

inseri-la

na

ins-

tituição de onde p rovêm

sem pOr em pauta a própria organização. As experiências definidas como fazendo parte do tipo três, inspiram-se largamente

em conceitos e procediment os elaborados a partir do pen~amento freudiano. Esse pro- cesso de análise visa nfio os sintomas

individuais,

nal

das

institucio-

os

participantes,

mas

a

significação

A

que

eles

t raduzem.

evolução

atitudes e das relações interpessoais acom7

panha

a

modificação

das

estruturas

aqu1

definidas como

sistemas de

repres_entações

simbólicas

e

de

sentimentos

coletivos

de-

te rminantes

na vida da

instituição.

A

no-

social

que designam tanto fenômenos S?ciai~ como fe- nômenos individuais. Adm1te tgualme.nte

defesa

nada

ção

propug-

de

estrutura

admite

por

nós

de

mecanismos

objeto,

ritual

da

circunstância,

 

do

q ue

fala:

e is

três

tipos

de

p r01b1ção

que se cruzam, se reforçam, formando uma

grade complexa

uma

explicação

poderia

aparentemente, parece pouco, .~a~ desde logo percebemos que as prmb1çues que a ele se referem são relacionada~ com o

doente

o mamfestar?) . O dtscurso,

onde se encontra preso o

de

onde

fl!Undo

ele

tenta

(tutelad~ como

menta~ e

com

ele

se

que tais mecanismps obse_rva~lo~ _em dt~e­

rentes níveis - -

dade

relacJOnament~

~ se reforçam mutuamente. A esse

indivíduo, mst1tu1~ao, SOCie-

em

e s t reito

respet-

estão

t t) v a l e lembrar h ipótese de f r ant z . ~ano n,

psiquiatra

rante a guerra de libertação, segundo _a quat· a maior parte das doenças ~enta1s

tratadas

pectos (já aumentados)

dais vigentes no tempo da dom1naçao francesa em outras palavras a relação co-

lonizado~-colonizado. Para André ~evy.(que

tomamos como orientação para ~~~cuttrmos

0 problema das estru tura s. so:_1a 1S . e .de

suas

duais) não poderiamos afirmar que as es- truturas sociais são determinadas pelos ~entimentos coletivos e atitudes _e que es- tes elementos constituem a reahdade fu~­ damental, ma~ que as atitudes ~ os se_nb-

mentos coletivos (muitas vezes mconSCI~n­ temenie) estão ligados às representaçoes das estruturas.

que

no

trabalhou

não

na

eram

Argella

du-

hospital

sc~ao as-

das relaç~ ~­

relações

com

as

mohvaçoes

indiVI-

0 o Paradoxo Transparece

o Discurso da Instituição

O

Minha hipótese é a seguinte:_ suponh~ que em toda sociedade a produc;ao do discur-

so

selecionad a, organizada e red1strtbUJda .atra-

vés de

tos cjue tem por função afastar os pengos c controlar as ameaças. Numa sociedade como a nossa, conhecemos perfeitamente a exduáão - que é um dos exernpl_os dos mais evidentes quanto aos procedtmentos acima aludidos (interna~ento de pacien- tes). Nem mesmo a comunidade tera~u­

t ica foi capaz de encaminhar o _probl ema :

a

temos

Próximo à

(da

fala,

um

da expressão) . é .co~trolada,

certo

número

de

procedm_ren-

ela

liberou

o

doente

mental

e

mternou

doença mental.

um outro procedimento, bastante comum, que é a proibição. Sabemos perfeitamente que não temos direito de dizer tudo, que não podemos falar de tudo, em qualquer lugar. que, enfim, não é qualquer um que

do

exçlusão

pode . falar

a

qualquer

momento. Tabu

po der e o desejo

(tutelado

pojado

do

poder

político;

quer dtzer des- i_ntcrnado

dizer

privado,

longe do

ObJ.eto

do

deseJO

-

pital só para mu lheres).

o

hospital onde trabalhe! era

O

O

Poder

um

hos-

0 movimento de Antipsiquiatr_i~ ati~ge nos--

sas posições ideológicas tradtcto.nal.s. Colo- cando em questão u status atn?ul_do. pe!a sociedade à cloucurn:., a AntípSIQUtatna con testa a concepção ~on~er~a_?ora ~ue tu.n- damenta a criação de mStltw çoes alienantes, abalando assim os fundamentos sobre os quais repousa a prática médica e o poder médico. (Só tive noticia de um caso d.e violência física por parte do _pessoal psi- quiátrico, foi quando uma pa c1~nte . desres- peitou a autoridade de um médico, fechan-

do-o

a chave co n sigo. In vertia-se a Sltuaç~o : o mMico queria sair, a paciente não. deJXa~a. A chave estava com ela. A bnncade1ra acabou mal para a paciente). O Con.g res-

so de P siquiatria r ealizado e~ Araxa en-

numa sala de secretaria, c<?nser~ando

si nou-nos algo extremamente mter~ssan~e:

as escalas de avaliação, os questio~ár1.os nos mostram uma tendência entre ~qu!a­ tras no sentido de uma menor ace1taçao,

no final

do Cong resso,

em

relação

à

Co-

munidade

Terapêutica

(tema

do

Congres-

so).

A

equipe

que

conduziu

os trabal~os

de avaliação aventou hipótese nos segum-

tes

cava os psiquiat ra s, à

discussões progrediam, frente à

de

ca cada vez

efetiva. Ora, Comunidade Te.rapeutica quer dizer para o psiquiatra, assim como para

a

ral

papéiS, redtStnbaJ-

para qualquer

da

liderança exer cida, renunciar ao exercido

P or-

tanto, a iminencia de uma Comunidade

267

termos:

uma

o

Congresso

de

Araxâ

colo-

~s

medida . q_ue

Jttunênct~ prática de Comunidade Terapêut~­

mais extensa, cad~ v.ez matS

~m

m

~o

.

g~­

parte

i nstit u ição psiq uiátr ica de

nova r epar tição de

cã~ de

um

de

poder.

nós

Não

é

desistir

fácil

de . uma

do poder ao qual estamos habituados

15

16 Terapêutica provocou entre os colegas psi-

quiatras um recuo na aceitação desta

dalidade

mental,

tiveram

poderíamos

siasmo crescente, no caso

não

mo-.

de

pe la

da

relacionamento

percepção

situação.

O

utilizar

para

clara

doen te

que

raciocínio

o entu-

(maior no final

com

ou

o

mesmo

entender

cos, cada um dos funcionários, cada um ocupou um papel diferente daquele de que

se

via

incumbido

habitualmente.

Comentá-

rio

à

margem,

no

meu

diário

de

expe-

·

riência:

 

cE' uma pena que os doentes não tivessem sido incluídos, pois então teríamos atin-

do

Congresso

do

que

no inicio),

demons-

gido

o

centro

da

questão,.

Tínhamos

a

trado

por

psicólogos com

relação

à

idéia

impressão, na época, de es tar revirando

de

Comunidade Terapêutica.

 

completamen te

o hospita l, vasculhando in-

O O Doente Mental Ausente/ Presente

Laing e Cooper nos mostraram que a doen- ça mental (a loucura) não existe cem!>

um

individuo;

trata-se

de

um

rót ulo

im-

posto

por

um

outro.

Pa ra

falar

a

ver-

dade,

onde o que

nos

defrontamos

uma para ser ouvido

com

situação

ma-

é

a

neira como a palavra alienada se encon- tra presa nas malhas de uma palavra alie-

nante. Nos dizeres da Antipsiquiatria, a loucura não é jamais a falha contingente,

nem

possibi-

lidade permanente de uma falha sempre presente. ( 0 doente f oi o g r ande ausente

no t rabalho que conduzimos no hospital a que nos referimos). Nada nos autoriza a dizer que a doença mental seja um insulto

à liberdade, como pretendem os psiquiatras liberais e liberalizantes ; ela ~ a fiel com- panheira do homem , ela segue e acom- panha os movimentos do homem. O ser

um or-

ganismo;

a

soma

ela

das

é,

fragilidades

pelo

contrário,

de

a

hu mano

não

pode

ser

compreendido

sem

a

doe nça menial, sem a loucura. (Não é

a

Psicologia q ue detém a ver dade sobre

a

loucura,

e

s im

o

contrário).

O

doente

mental

é,

portanto,

examinado

na

portaria

pelo