Você está na página 1de 100
ESTUDOS, fastens Richard Johnson| INTMero erty BACs re Mares iat tel Ore Oc eres Tomaz Tadeu da Silva Estudos Culturais Os Estudos Culturais sa0, agora, um movimento ‘ou uma rede: eles tém seus proprios cursos em di- versis universidades bem como seus proprios peri- édicos ¢ encontros académicos. Eles exercem uma grande influéncia sobre as disciplinas académicas, especialmente sobre os Estudos Literdrios, a Socio- logia, os Estudos de Midia © Comunicagio, a Lin- Suistica c a Histéria. Na primeira parte desse ensaio! discutire’ alguns dos argumentos a favor ¢ contra a codificagio académica dos Estudos Culturais, Para colocar a questio de uma forma mais direta: deve- riam os Estudos Culturais aspirar a ser uma disci plina académica? Na segunda parte, examinarei algumas das cstratégias de definiedo dos Estudos Culturais, porque grande parte da discussio de pende, penso, do tipo de unidade ou coeréni 10 que buscamos. Finalmente, apresentarei algumas das minhas definigdes © argumentos preferidos, A IMPORTANCIA DA CRITICA A codificagao de métodos ou de conhecimentos (instituindo-os, por exemplo, nos curriculos formais 1 nos cursos de “metodologia”) vai contra algu- mas das principais caracteristicas dos Estudos Cul- turais: sua abertura ¢ versatilidade tedrica, scu espirito retlexivo ¢, especialmente, a importincia da eritica. Utilizo “critica”, aqui, no seu sentido mais amplo: nio a eritica no sentido negativo, mas a criti- a como © conjunto dos procedimentos pelos quais outras tradi¢Ses sio abordadas tanto pelo que clas podem contribuir quanto pelo que clas podem ini bir. A critica apropriase dos elementos mais titeis, Iejeitando © resto, Deste ponto de vista, os Estudos Culturais si0 um processo, uma espécie de alquimia para produzir conhecimento util; qualquer tentati- va de codifici-los pode paralisar suas reagd Na historia dos Estudos Culturais, os primeitos encontros foram com a critica literiria. Raymond Williams ¢ Richard Hoggart, de modos diferentes, desenvolveram a énfise leavisiana na avaliacao litera 8. social, mas deslocaram-na da literatura para a vida cotidiana.’ Ocorreu um processo similar de apro- priagio relativamente & disciplina de Historia. O mo- mento mais importante, aqui, foi o desenvolvimento das tradicdes de Histéria Social, no pés-guerra, com seu foco na cultura popular ou na cultura do povo, especialmente sob suas formas politicas, Koi funda- mental, neste caso, o grupo de historiadores do Par- tido Comunista, com seu projeto — dos anos 40 ¢ inicio dos anos 50 — de historicizar o velho marxis mo, adaptando-0, a0 mesmo tempo, a situagio brit’- nica, Essa influéncia foi, de certa forma, paradoxal, pois os historiadores estavam menos preocupados com a cultura contemporinea ou mesmo com o s¢- culo XX, colocando suas energias,em vez disso, numa compreensio da longa transigo britinica do feda lismo para o capitalismo, bem como nas lutas popu lares © nas tradig6es de dissidéncia associadas com essa transiclo, Foi este trabalho que se tornou a se gunda matriz dos Estudos Culturais, A critica ao velho marxismo cra central tanto as vertentes literirias quanto nas vertentes his térieas. A recuperagao dos “valores” — feita con tra 0 cst ismo — foi um impulso importante ma primeira “Nova Esquerda”, mas a critica do eco nomicismo foi o tema continuo que acompanhou toda a “crise do mansismo” que se sepia. Os Estudos Culturais foram, certamente, formados no lado de ci chquilo que podemos chamar, pamdoxalmente, de “revi val marxista modemo”, © nos empréstimos internacio- ais que foram, de forma notivel, uma marca dos anos 70. F importante observar que, em diferentes paises, as mesmas figuras ocuparam lugares diferentes simplesmente PORE as rotas naciomas eram diferentes. A adoxio do alhusserianismo, por exemplo, € incompreensivel fora do pano de fimde do empiricsmo dominante das tradi es inteloctuais britinieas. Esta carncteristica ajuda a ex Plicar a atragio pela Filosofia nfo como uma busca teénica, mas como um racionalisme generaizado © uma atragio Por ideias absratas.? De forma similar, é importante ob- servar'o modo como Gramsci, cultivado como ura orto- oxi na Ila, f01 apropriado por nés como tama figura eritiea, heterodona, He representou um importante re- forgo para um projeto de Esudos Culturais que, nos anos 70, jd estava parciaimente formado.! Ma longas discussoes sobre quem — no Ambito dos Estudos Culturais — continua ov nao marxis- * mais interessante, entretanto, analisar quais SG0, especificamente, as influéncias de Mary sobre 0s Estudos Culturais. Cada um de nds tem sua pro pria lista de influéncias. A minha, que nao preten de estabelecer uma ortodoxia, inclui trés premissas Principais. A primeira é que os processos culturais esto intimamente vinculados com as relagdes soci- ais, especialmente com as relagdes ¢ as formagdcs de classe, com as divisdes sexuais, com a estrutura- sao racial das relagdes sociais ¢ com as opressdes de idade. A segunda é que cultura envolve poder, con- tribuindo para produzir assimetrias nas capacida des dos individuos dos grupos sociais para definir € satisfiver suas necessidades. E a terceira, que se deduz das outras duas, é que a cultura ndo € um campo auténomo nem extemamente determinado, mas um Tocal de diferengas ¢ de lutas sociais. Isto, de forma alguma, esgota os clementos do marxis- mo que, nas circunstincias existentes, continuam ativos, vives ¢ valiosos, sob a condicao, apenas, de que também eles sejam criticados ¢ trabalhados em estudos detalhados. Outras criticas tém sido distintamente filoséfi- «as, Os Estudos Culturais tém se destacado, no con- texto britinico, por sua preocupagio coma “teoria”, mas o grau de conexio com a Filosofia nio tem sido Sbvio. Existe, contudo, tim parentesco bastante pro Ximo entre problemas e posigdes epistemoldgicas (por exemplo, empirismo, realismo ¢ idealismo) ¢ as questées-chav da “teoria cultural” (por exem plo, economicismo, materialismo ou o problema dos efeitos especificos da cultura), De novo, para mim, muitos dos caminhos levam de volta a Marx, mas as apropriacdes precisam ser mais amplas. Tem ha- vido, ultimamente, tentativas de se ir além da opo- sigdo bastante estéril entre racionalismo ¢ empirismo, em busca de uma formulacio mais pro. dutiva da relagdo entre teoria (ou “abstragio”, como cu prefiro, agora dizer) ¢ “estudos concretos” Mais importantes, em nossa histéria recente, tém sido as criticas advindas do movimento das mulhe- Tes ¢ das Iutas contra o racismo.® Esses movimen- tos ¢ Iutas tém aprofindado © ampliado os compromissos democriticos ¢ socialistas que foram 08 principios importantes da primeira “Nova Es- querda”! Se © pessoal era ja politico na primeira se da Campanha para 0 Desarmamento Nuclear, cle era estranhamente desligado da questio do gé- nero. As findacoes democraticas desses movimen- tos iniciais estavam, portanto, baseadas, de forma insegura, cm uma nova forma de politica, De modo similar, havia (e ha) problemas importantes relaci- onados a0 etnocentrismo ou ao anglocentrismo dos textos ¢ dos temas-chave de nossa tradigio.” A pre dominancia, na Gra-Bretanha atual, de uma poli tica conservadora, nacionalista ¢ racis toma ess eteitos ainda mais sérios. & incorreto, portanto, ver © feminismo ou o antirracismo como alguma espécie de interrupgao ou desvio relativamente a uma politi- «a original de classe ou ao programa de pesquisa asso- ciado a essa politica, Pelo contrario, foram esses movimento que fizeram com que a “Nova Esquet da” fosse “Nova”! Os resultados especificos disso tudo para os Es tudos Culturais ndo tém sido menos importantes. HA muito mais coisas envolvidas do que a questao original: “c as mulheres”, © feminismo tem influ- enciado formas cotidianas de se trabalhar e tem con- tribuido para um maior reconhecimento da compreensio de que resultados produtivos depen- dem de relagses baseadas em um apoio miituo. tem tornado visfveis algumas das premissas no re- conhecidas do trabalho intelectual de esquerda, bem como os interesses masculinos que o tém sustenta do. Ble tem produzido novos objetos de estudo, obri- gando-nos, além disso, a reformular velhos objetos. Nos estudos de midia, por exemplo, ele tem destoca do aatengio do género “masculino” de noticias para a importincia do “entretenimento leve”. Ele tem contribufdo para um deslocamento mais geral: da critica anterior, baseada na nogio de ideologia, para abordagens que se centram nas identidades sociais, has subjetividades, na popularidade ¢ no prazer. As feministas parecem ter também contibuido, de for ma particular, para diminuir a divisto entre as cha- madas Humanidades e as Ciéncias Sociais, ao fiver com que categorias literirias ¢ preocupagées estéti- cas scjam relacionadas com questoes sociais, Espero que esses exemplos tenham servido para mos ‘rar o papel central que a aritica tem exercido, bem como Sia conexio com causas politicas — em seut sentido mais amplo, Segue-se uma sbrie de questies, Se nossos avangos se deram através da critica, ndo existe 0 riseo de que as tentativas de codifieagao acaretem um fechamento ste: iiéitico? Se 0 impulso € © de hitar por um conbecimento realmeme (ti, ser que a coditicagao acacémica conti buins para, isso? A prioridade nao seria se tomar mais “popular” em vez de mais académico? Essas questées ga- nham uma forga adicional a panir de contextos imedia tos. Os Estudos Culturais sto agora uma matéria amplmente ensinach ¢, portanto, a menos que scjamos muito cuidadosos, os estucdantes irio encontri-los como uma ortodoxia, Nessas circunstancias, pode-se pergun. {att como esses estudantes ocupardo, culturalmente, una adics 10 critica como esta? Isto € cforgado por aquilo que nés sabemos — amos aprendendo — sobre as disposigdes aca- démicas ¢ outras disposicdes disciplinares de co uhecimento. © reconhecimento das formas de poder assc on conhecimento pode se mostrar tuma das compreensées mais importantes dos anos 70, ‘Trata-se de uma temitica muito geral: ela apa- rece nos trabalhos de Pierre Bourdieu ¢ de Micha- cl Foucault, nas eriticas da ciéncia ou do cientificismo feitas pelos fildsofos ¢ pelos cientistas radicais, na Kilosofia, na Sociologia e nas eriticas, feministas das formas académicas dominantes. Tem havido uma mudanga sensivel: da afirmagio sin- gular da ciéncia, no inicio dos anos 70 (com Al- thusser como a figura principal), para a dissolucao, — no momento presente — dessas certezas (com Foucault como um ponto de referencia), As for mas académicas de conhecimento (ou alguns as- pectos delas) parecem ser, agora, parte do problema € mio da solugao. Na verdade, o problema con uta oO mesmo de sempre: 0 que se pode aproveitar dos interesses ¢ dos saberes académicos para se ob ter elementos de conhecimento itil? PRESSOES POR UMA DEFINICAO. Existem, entretanto, importantes presses para que se defina o que & Estudos Culturais. Existe a politica mitida e cotidiana da Universidade — ni lo mitida, uma vez que estio envolvidos ai empre 80s, Teeursos € Oportunidades de trabalho tril. Os Estudos Culturais tén conquistado, aqui, espagos reais, os quais tém que ser mantidos e ampliados. O contexto da politica mais ampla torna isso ainda mais importante. Temos também, na Inglaterra € nos Esta- des Unidos, uma ampla reforma conservadora, Uma maniféstagio disso é dada pelo violento assalto contra as instituigées educacionais pablicas, tanto através do corte de financiamentos, quanto através da redefini 20 — em termos estritamente capitalistas — do sig- nificado de “utilidade”, Precisamos de definigies dos Estudos Culturais a fim de poder lutar de forma efi- caz nesses contextos, de argumentar em favor de re- cursos, clarificar nossas mentes aa correria © na confiusio do trabalho cotidiano ¢ de estabelecer prio ridades para o ensino e para a pesquisa, De forma talver, mais decisiva, precisamos de pers: peetivas que nos permitam ver um campo vigorosa mas fragmentado — como os Estudos Culturais — se no como uma “unidatle” ao menos como um “todo” Se nao discutinmos as dliregdes centmais por nossa pro ptia iniciativa, seremos puxados para i ¢ para ca pelas demandas da produgio universitiria ¢ pelas discipli nas académicas a partir das quais nosso campo, em, parte, se desenvolveu. As perspectivas académicas ten- dem, pois, a ser reproduzidas sobre um novo teme- no: existem verses distintivamente litenirias € verses distintivamente sociolégicas ou histéricas dos Esti dos Culturais, exatamente da mesma forma que exis tem abordagens que se distinguem por sua parciali dade tedrica, Isto nao teria importincia se uma disciplina ou problematica dnica pudesse aprender os objetos dla cultura como um todo, mas este no é na minha opiniao, o caso, Cada abordagem revela un pequeno aspecto da cultura, Se este argumento esti Yer correto, nids precisamos, entio, de um tipo. parti- cular de estratégia de definigia: uma estratégia que revise as abordagens existentes, identificando seus ob jetos caructeristicos ¢ a abranggncia de sua competén mas também os seus limites. Na verdade, nao é de umm definigio ou de uma coditicagio que nés preci samos, mas de “sinalizadores” de novas transtonma- Goes, Nao se tata Ue uma questao de agregar novos clementos as abordagens existentes (um pouco de So. lologia aqui, um tanto de Linguistica acola), mas de retomar os elementos das diferentes abordagens cm suas relagBes rndtuas. FSTRATEGIAS DE DERTNIGAO Ha diversos e diterentes pontos de partida, Os Estudos Culturaiy podem ser definides como uma tradigio intelectual © politica; ou enn suas relagoes com as disciplinas académicas; ou em termes de paradigmas toricos; ou, ainda, por seus objetos ca- racteristicos de estudo. O iiltime ponto de partida & © que mais me interessa, Mas devo dizer, primeira- mente, uma palvra sobre os outros. Precisamos de hist6rias dos Estudos Culturais que analisemy os dilemmas recorrenues € deem perspectiva a ossos projetos atuais, Mas a ideia che “cradle bém fancions de um modo mais “mitico tune para pro= duzir uma identidade coletiva © um sentimento Partithado de propésito. Par mim, boa parte das for tes continuidades da tradigio dos Estudos Culrurais ta cContida no termo singular Scultura”, que conti ita dtil Mo COMO UMA categoria Figorosa, mas como luna espéde de sintese de uma historia. Kle tem como, reféréncia, em particular, o esforgo para retirar © estu do da cultura do dominio pouco igualitirio e demo eritico das formas de julgamento © avaliagao que plantadas no terreno da “alta” cultura, langam am olhar de condescendéncia para a nio cultura das mas sas. Hi por. detris dessa redetinigao intelectual um Pacirio “politico” algo menos consistente, uma conti huidade que vai desde a primeira “Nova Esquerda” 8 primeira Campanha part o Desanmanmento Nuch AME aos eventos do pas-1968. ‘Tem havido, natural mente, evidentes antagonismes politicos no interior da “Nova: Esquerda” bem como nire a pwotitien da “Nova Esquerda” ¢ as tendéncias intelectuais que ela procuziu. Os desvias intelectuais de rota tem, com frequéncia, parecido politicamente autoindulgentes. O que une esta sequéneia, entretanto, € a hita para refor- mar a politica da “Velha Esquerda”. Isto inclui a eriti- ca ao yelho marsismo, mas também a yelha social-democracia, cnvolvendo um conflite consmuti Yo com os estilos dominantes no interior do Movi mento Trabalhista, especialmente a negligéncia relativamente 4s condigdes culturais da politica bem como uni estreitamento mecinico da propria politica. Este sentimento de uma conexao entre © traba- tho intelectual ¢ o trabalho politico tem sido im- portante para os Estudos Culturai ap ignitica que esquisa ¢ a eserita tém sido politicas, mas ndo em qualquer sentido pragmitico imediato, Os Estu- dos Culturais n3o constituem um programa de pes quisa vinculado a uny partide ou a uma tendé particular. Eles tampouco subordinam as energias intelectuais a qualquer doutrina estabelecida. Este Posicionamento politico-intelectual & possivel por que a politica que buscamos eriar nao esta ainda plenamente tormada. Pois, exatamente da mesma forma que a politica envolve uma longa jornada, assim também a pesquisa deve ser tio abmangente & 180 profinda — m. cia também 10 politicamente orientada — quanto nés a pudermos tomar. Temos que lutar, sobretudo, talvez, contra a falta de co- nexao que ocorre quando os dominados por propésitos meramente académicos out quando 0 entusiasmo pelas formas culturais po. pulares € divorciado da anilise do poder e das pos ‘bilidades sociais. studos Culturais sio Ja disse bastante coisas sobre a segunda estraté- gia de definigao, aquela que consiste em mapear nossa rclagdo negativa ou positiva para com as dis- ciplinas académicas, Os processos culturais nao correspondem aos contomos do conhecimento aca démico na forma como ele existe. Nenhuma di plina académica & capaz de aprender a plena complexidade (ou seriedade) da analise. Os Estu- dos Culturais devem ser interdisciplinares (¢ algu- mas ve7es antidisciplinares) em sua tendéncia. Acho dificil, por exemplo, pensar em mim mesmo como sendo um historiador, embora descrever-me, tal vez, como “historiador do contemporineo” cons titua, em alguns contextos, uma boa aproximago. Algumas virtudes do historiador parecem iateis, en- tretanto, para os ‘studos Culturais — as preocu: pagdes com o movimento, com a particularidade, com a complexi fade © © context, por exempto, Ainda gosto daguela combinagio de descrigio densa, explicagao complexa € evocacio subjetiva (ou até mesmo romantica) que € 0 que de melhor existe na escrita historica, Ainda considero a maior parte das descricdes sociolégicas pouco densas ¢ muito by vias € grande parte do discurso literario inteli- gente mas superficial! Por outro lado, o enraizado empiricismo da pritica histérica € uma desvanta gem real — ele bloqueia uma leitura propriamen te cultural stou certo de que o mesmo vale para outras disciplinas Nossa terceira estranégia de definigao — a anil € comparagdo de problemsticas teéricas — foi, até re- centemrente, a cstratégia favorita.” Ainda yejo isso como um componente essencial de coda analise cul- tural, mas sua dificuldade principal é que as formas abstratas de discurso desvinculam as ideias das com plexidades sociais que as produziram ou as guais clas, originalmente, se referiam. A me matics nos que as proble i$ teéricas sejam continuamente reconstruidas © mantidas na mente como um ponto de referencia, Clarificagao teérica independent acaba por adquirit um impulso . Em situagées de ensino ow em trocas similares, © discurso tedrico parece ser, para quem ectual, A ideia pa er a de aprender uma nova linguagem: € preciso tempo € muito esforgo 6 para se sentir a vontade ‘uve, una forma de gindstien intel rece com ela, Existe, neste meio tempo, algo bastante si lenciador e, talvez, opressivo, nas novas formas de discurso. Penso que esta tem sido uma experiéneia bastante comum para os estudantes, mesmo onde, eventualmente, a “teoria” tem proporcionado novos poderes de compreensio ¢ articulagao, Estas so alex mas das rades pelas quais muitos de nés achamos melhor, agora, partir de casos coneretos, seja para — historicamente — ensinar a teoria como uma discus- Slo continua © contentualizada sobre questdes cultu- rais, seja para fazer conexdes entre argumentos teéricos ¢ experitncias contemporincas. Isso me leva & mi ha estratégia preferida de de- finigio, As questies-chave racteristico dos io: qual € o objeto ca- tudos Culturais? Os Estudos Culturais dizem respeito a qué? ABSTRACOES SIMPLES CONSCIENCIA, SUBJETIVIDADE Ja suger! que o termo “cultura” tem valor como um lembrete may nio como uma categoria precisa; Raymond Williams tem explorado seu imenso reper- trio histérico."” Nao existe nenhuma solugio para essa polissemia: trata-se de uma ilusdo racionalista pensar que nds possames dizer “de agora em diante esse termo significara...” © esperar que toda uma his- tora de conotagdes (para nao dizer todo um futuro) se cologue obedientemente em fila. Assim, embora cu levante, de qualquer forma, a bandeira da cultura continue « usar a palavrt onde a imprecisto tem im portincia, quando se trata de definigto busco outros termos, chave Ciencia” € “subjetividade”. Os problemas centrais es to, agora, situados em algum ponto entre os dois termos. Para mim, os Estudos Culturais dizem res: peito as formas histéricas da consciéncia ou da subje tividade, ou as formas subjetivas pelas quais nds vivemos ou, ainda, em uma sintewe bastante perigosa, Meus termos io, em vex disso, “cons: talvez uma redugio, os Estudos Culeurais dizem res: Peito ao lado subjetivo das relacoes sociais. Estas defi nigGesadotam algumas das abstragoes simples de Mar, mas cambém as wuilizam de acordo com sua ressonan cia contemporinea, Penso na consceéncia, em primes to lugar, no sentido no qual ela aparece em A idcolog alema, Como uma (quinta) premissa para compreen det a historia humana, Mary ¢ Engels aerescentam que 08 seres humanos “também possuem conscién cia”, Este uso ec a também ent trabalhos postetiores. Marx refere-se, implicitament a consciéneia quan do, em O Capital, volume 1, ele distingue o pior at quiteto da melhor abelha pelo fato de que © produto. do arquiteto “existiu idealmente” antes de ter sido produzido. Ble existiu na consciéncia, na imagina- 20. Em outras palavras, os seres humanos Sto carac- terizados por uma vida ideal ou imaginéria, na qual a vontade € cultivada, os sonhos sio sonhadas © as cate- gorias claboradas, Em seus Manuscritos de 1844, Marx viu a consciéncia como uma caracteristica do ser da espécie”. Mais tarde, ele a chamaria de uma categoria “genérico-histérica, verdadeira para toda a histéria, uma abstracdo simples ou universal”, Em- bora © uso seja, aqui, menos claro, Marx habitual mente também se refere ao “lado subjetivo” ou ao “aypecto subjetivS” dos processos sociais."! No discurso marxista (estou menos seguro se tam- bém em Mary), a consciéncia tem conotaydes avas- saladoramente cognitivas: cla tem a ver com conhecimento (correto?) dos niveis soci is € natu iéncia” de Marx era mais ampla que isto! Ela abrangia a nogio de uma con éncia do en, bem como uma “autoprodugio moral” © mental ativa, Nao existe qualquer divida, enu tanto, de que ele estava especialmente interessado no conhecimento conceitualmente organizado, es- pecialmente cm suas discusses de formas ideolégi- cas particulares (por exemple, a economia politica, © ais. Pengo que a “con idealismo hegeliano, ete). Em seu mais interessante texto sobre o caréter do pensamento (a introdugio de 1857 aos Grundrisse), ele destacou outros mo- dos de consciéncia: 0 estético, 0 religioso, etc. ubjetividade” é, aqui. espe cialmente importante, desafiando as auséncias na consciéncia. Fle inclui a possibilidade, por exem- plo, de que alguns elementos estejam subjerivamente ativos — eles nos “mobilizam” — sem serem cons cientemente conhecidos. Ele focaliza elementos atri- buidos (na distingao conyencional ¢ enganadora) a vida estética ou emocional ¢ aos c6digos conyenci O conceito de onalmente “femininos”, Ele destaca o “quem eu sou” ou, de forma igualmente importante, o “quem nds somos” da cultura, destacando também as iden- tidades individuais e coletivas. Ble faz. uma cone xo com um dos insights estruturalistas mais importantes: que a subjetividade nao € dada, mas produzida, constituindo, portanto, 0 objeto da ani ise € no sua premissa ou seu ponto de partid: Em minhas préprias andlises sobre os Estudos Culturais, a nogio de “formas” € recorrente. Subja- zem a esse uso duas influéncias principais, Marx usa continuamente os termes “formas” ou “formas sociais” ow * formas histéricas” quando esti examinando em O Capital (mais especialmente nos Grundrisse) os varios momentos da circulagio econdmica: ele analisa a forma dinheiro, a forma mercadoria, a forma do trabalho abstrato, etc. De modo menos frequente, cle uisou a. miesma linguagem ao escrever sobre a consci- éncia ow a subjetividade. O exemplo mais fameso é 0 Prefiicio de 1859; uma distingao deve sempre ser feita entre a transformagao material das condigdes econd- micas de produgio — que podem ser determi: nadas com a precisio das Ci ¢ as “formas” lewais, politicas, religiosas, esté ticas ow filoséficas, em suma, ideologicas, pe las qtiais o8 homens sc tomam conscientes dese incias Naturais — conflito € lutam contra el © que me interessa nessa passagem é a implica ho de um projeto paralelo a0 projeto do proprio ‘Marx, mas diferente dele. Sua preocupagao era com aquelas formas sociais através das quais os seres hu- manos produzem ¢ reproduzem sua vida material. Ble abstraiu, analisou e, algumas vere: reconsti- tui em deserigées mais concretas, as formas € tendéncias écondmieas da vida social. Parece-me que 65 Estudos Culturais também esto preocupados com socicdadles inteiras (ou formagdes sociais mais amplas) © conto clas se movimentam, Mas cles evaminam os 28 = processos sociais a partir de um outro ponto de Vista. “Nosso” projeto é 0 de abstrair, descrever ¢ reconstituir, em estudos concretos, as formas atra- vés das quais os seres humanos “vive, tornam se conscientes ¢ se sustentam subjetivamente A énfise nas formas € reforada por alguns insights estruturalistas amplos, Eles tém ressalta- do © cariter estruturado das formas que subjeti vamente ocupamos: a linguagem, os signos idcologias, os discursos, os mitos, Eles tém apon tado para as regulatidades © para os principios de organizagio — ou, se quisermos, para aquelas coi- sas que fazem com que haja wma “forma”. Embo- ra com frequéncia enunciados em nivel demasiadamente alto de abstrago (por exemplo, a linguagem em geral, em vez da linguagem em particular), eles tém fortalecido nossa sensibilida de sobre a dureza, 0 cariter determinado ¢, na verdade, sobre a existé qu cm suas pressdes atraés do lado subjeti vo da vida social. Isto icia real de formas sociais ex Ao significa dizer que a descrigao da forma, neste sentido, & suficiente também importante ver a natureza historica das formas subjetivas, “Historica”, neste contexto, sig. nifica duas coisas bastante ficrentes. Em primei lugar, precisamos examinar as formas de 30 subjetividade do ponto de vista de suas pressiies ow tendéncias, especialmente seus lados contradi- trios. Em outras palavras, mesmo na anilise abs- trata, devemos examinar os principios do movimento tanto quanto sua combinagio, Em se- gundo lugar, precisamos de histérias das formas de subjetividade nas quais nds possamos ver como as tendéncias sio modificadas pelas outras deter- minagées sociais, incluindo aquelas que esto em 10 através das necessidades materiais. “T3o logo colocamos isto como um projeto, vemos como as abstracoes simples que usamos até agora nto nos levam. muito Longe. Onde estio todas as cateporias intermedirias que nos permititiam comegar a especifi car as formas sociais subjetivas ¢ os diferentes momen. tos de sun existéncia? Dada nossa definigio de cultura, rio podemos limitar 6 campo a priticas especializadas, a generos particulares ou a atividades populares de lazer. “Todas as priticas” sociais podem ser examinacas de um ponto de vista cultural, podem ser examinadlas pelo tre batho que clas fizem — subjetivamente, Isto vale, por exemplo, para o trabalho fabril, para organizagdes sindieais, para a vida nos — © em temo dos — super mercados, assim como pam alvos ébvios, como “4 mi- dia” (unidade enganadora?) e seus modes (principalmente domésticos) de consumo, CIRCUITOS DE CAPITAL — CIRCUITOS DE CULTURA? Precisamos, assim, em primeiro lugar, de um modelo muito mais complexo, com rivas categor s intermedidrias, mais estratificadas dos que as teo- rias gerais existentes. B aqui que considero titil for ic de hipétese realista sobre o estado existente das teorias, Que tal se as teorias existen- tes — e os modos de pesquisa com elas associados miular uma espéc — realmente expressassem diferentes lados do mes- mo ¢ complexo proceso? Que tal se elas fossem todas verdadeiras, mas apenas até certo ponto, ver- dadeiras para aquelas partes do processo que ch rém mais claramente em vista? Que tal se elas fos sem todas falsas ow incompletas, sujeitas a enganar, na medida em que elas sio apenas parciais ¢ nio podem, portanto, apreender © processo como um todo? Que tal se esforgos para ampliar esta compe téncia (sem modificar a teoria) levassem a conchi- realmente grosseiras € perigosas? Nao espero uma concordancia imediata com as premissas epistemologicas deste argumento, mas es pero que ele seja julgado a luz de seus resultados. Seu mérito imediato, entretanto, esti no fato de que ajuda a explicar uma das caracteristicas-chave dos Estudos Culturais: as fragmentagdes tedricas € disciplinares j4 observadas. Estas poderiam, natu ralmente, ser explicadas pelas diferensas politicas também jf discutidas, especialmente as divisdes in- iclectuais © académicas de trabalho ¢ a reprodugio social de formas especializadas de capital cultural. Penso, entrctanto, que pode scr mais satisfatério re- lacionar essas diferengas manifestas aos proprios pro cessos que clas buscam descrever: Talver: as divisdes académicas também correspondam a posisdes sociais © pontos de vista bastante diferentes a partir dos quais diferentes agpectes dos circuitos culturais ad- quirem ama maior salléncia, Isto explicaria no sim- plesmente o'fito da cxisténcia de diferentes teorias, mas a recorréncia € a persisiéncia das diferencas, especialmente entre “blocos” amplos de abordagens com certas afinidades. A melhor maneira de fiver avangar este argu- mento seria aniscando alguma descrigio proyisoria de diferentes aspectos ou momentos dos processos culturais, 208 quais poderiamos, entio, relacionar as, diferentes problemiticas teéricas. Um tal modelo nao poderia ser uma abstragio ou uma teoria acabada, se € que tal coisa existe. Seu valor teria que ser heuris tico on ilustrative. Ele poderia ajudar a explicar por que as teorias diferem, mas nio constituiria, em si mesmo, a abordagem ideal. Ele poderia, na melhor da hipoteses, servir como um guia que apontasse quais seriam as orientacaes desejaveis de abordagens fit- turas ou de que forma clas poderiam ser modifica- das ou combinadas. F importante ter essas adverténcias em mente naquilo que se segue. Acho que € mais ficil (na tradig3o dos Estudos Culturais do Centre for Contemporary Cultural Studies — CCS) apresentar um modelo de forma diagramé- tica. O diagrama tem o objetivo de representar 0 Gireuito da producio, circulagio e consumo dos pro dutos culturais, Cada quadro representa um mo- mento nesse circuito. Cada momento depende dos outros ¢ ¢ indispensavel para » todo, Cada um deles, entretanto, é distinto © envolye mudangas caracte risticas de forma, Segue-se que se estamos colocados em um ponto do circuit, ni vemos, necessaria- mente, © que esta acontecendo nos outros. As for: mas que rém mais importancia para nos, em um determinado ponto, podem parecer bastante dif rentes para outras pessoas, localizaclas em outro pon- to. Além disso, os pro produtos.'® “Todos os produtos culturais, por exem plo, exigem ser produzidos, mas as condigdes de sua produgio ndo podem ser inferidas simplesmente z essos desaparecem nos aminando-os como “textos”. De forma similar, 34 08 produtos culturais nao sao “lidos” apenas por ana- listas profissionais, mas pelo pitblico em geral (se fossem lidos apenas pelos analistas, haveria pouco lucro em sua produgao). Por isso, nds nao podemos. predizer essas leituras a partir de nossa propria ani- lise ou, na verdade, a partir das condigdes de pro- dugio. Como qualquer pessoa sabe, todas as nossas comunicagdes esto sujeitas a retomnarem para nds em termos irreconheciveis ou, ao menos, transfor- madas, Frequentemente chamamos preensio, ou, se quisermos ser bastante académicos, de Ieituras “equivocadas”, Mas esses “equivocos” sio Ho comuns (ao longo de toda a sociedade) que po derfamos cdnsideri-los normais, Para compreender isto de m4 com- as transformagdes, pois, nds temos que compreen- der s condigdes especificas do consumo € da leita ra, Estas incluem as simetrias de recursos ¢ de poder materiais ¢ culturais. Também inchiem 05 ensem bles existentes de elementos culturais jf ativos no interior de milicux sociais particulares (“culturas vividas”, no diagrama) € as relagbes sociais das quais, essas combinagdes dependem. Esses reservatérios de discursos ¢ signiticados constituem, por sua ver, ma terial brato para uma nova produgio cultural, Eles esto, na verdade, entre as condicdes especificamen te culturais de produgao, Em nossas sociedades, muitas formas de produ $0 cultural assumem também a forma de mercado- ria capitalistas. Neste caso, temos que prever condigdes especificamente capitalistas de producao (veja a seta apontando para o momento 1) ¢ condi- Ges especificamente capitalistas de consumo (veja a seta apontando para 0 momento 3). Naturalmen- te, isto nao nos diz tude que temos que saber sobre esses momentos, que podem estar estruturados tam bém de acordo com outros principios, mas nesses casos 6 circuito é, a um $6 tempo, um circuito de capital (¢ sua teproducao ampliada) © um cireuito da produgao e circulagdo de formas subjetivas 36 Algumas implicagdes do cireuito podem se tor- nar mais claras se consideramos uum caso particular, Podemos, por exemplo, tomar 6 caso do langamento do carro chamado Mini-Metro. Escolhi 0 Mini-Me tro porque se tra bastante padronizada do final do séeulo XX — uma mercadoria que carrega uma acumulagio particu- larmente rica de significados, O Metro era o carro que iria salvar a indistria automobilistica britanica, 20 tirar of rivais do mereado € ao resolver os agudos problemas de disciplina trabalhista da British Leyland. Ele era a solugdo para ameagas nacionais internas. As campanhas de publicidade em torno de seu langamento ‘foram notiveis, Em um amtincio de televisio, um grupo de Mini-Metros perseguia uma ganguc de carros estrangeiros importados até Whi- te Cliffs, em Dover, onde eles escapayam naquilo que parecia, de. forma notivel, uma plataforma ter- restre, Isto era Dunguergue em forma inversa, ten do o Metro como herdi nacionalista. certamente, algumas das formas — © género épico- nacionalista, a meméria popular da Segunda Guer ta, a ameaca interna /externa — que gostaria de abstrair para um exame formal mais detalhado. Mas isto também levanta q que constitu’ o “texto” (ou o material brute part de uma mereadoria capitalista tes interessantes sobre oO este tipo de abstracdo) nesses casos. Seria suticiente analisar © design do préprio Metro como uma yez Barthes analison as linhas de um Citroén? Poderia: mos deixar de fora os antincios ow as exposigoes em showrooms? Nio deveriamos incluir, na verdade, o lugar do Metro nos discursos sobre a recuperacao econdmica nacional ¢ sobre o ret ascimento moral? Supondo que tenhamos respondido a essas ques- toes afirmativamente (atribuindo-nos uma carga mai- of de trabalho), haveria ainda algumas questées a serem respondidas. O que oi feito do fendmeno Metro, de forma mais privada, por grapos parti- culares de consumidores ¢ leitores? Poderiamos esperar uma grande diversidade de respostas. Os operarios da Leyland, por exemplo, provavelmen- te veriam o carro de uma forma diferente daquelas pessoas que apenas © compraram. Além disso, © Metro (c seus significados transformados) tornou- se uma forma de chegar a0 trabalho ou de apa nnhar as erlangas na escola, Ele também pode ter ajudado a produzir, por exemplo, orientagoes re lativas a vida laboral, vinculando a “paz” nas rela ses trabalhistas & prosperidade nacional. Depois, haturalmente, os produtos de todo esse citeuito retornam, uma vex mais, para o momento da pro dugio (como lucros para novos investimentos), mas 38. também como o resultado das pesquisas de merca- do sobre a “popularidade” do produto (os estudos culturais do proprio capital). O uso subsequente, pela administracao da British Leyland, de estraté sias similares para vender carros e enfraquecer os operitios sugere acumulagdes consideraveis (de ambos os tipos) deste episédio. Na verdade, 0 Me- tro tornou-se um pequeno paradigma, embora nao © primeiro, para uma forma ideolégica muito mais generalizade, a qual nds poderiamos chamar, com alguma sintese, de “comércio na PUBLICACAO E ABSTRAGAO. Falei, até aqui, de’forma bastante geral, sobre as transformagdes que ocorrem em tomo do circuito, sem especificar qualquer uma delas. Em uma dis. Cassio tio breve quanto esta, especificarei duas mu- dangas — relacionadas — de forma, indicadas nos lados esquerdo ¢ direito do circuito. O circuite envolye movimentos entre © piiblico © 0 privado, mas também movimentos entre formas mais abs_ tratas © mais concretas, Esses dois polos estio rela cionados de forma bastante estreita: as formas privadas sto mais concretas ¢ mais particulares em seu escopo de referencia; as formas pitblicas S30 mais abstratas, mas também tém uma abrangéncia mai- or. Isso pode se tornar mais claro se retomarmos a0 Metro, ¢, dai, as diferentes tradigdes de Estu dos Culturais, Visto apenas como uma ideia de prancheta, como um conceito discutido no ambito gerencial, 9 Me- {To era uma coisa privada.!* Ele poderia, inclusive, ter sido concebido em segredo. Ele era conhecido apenas por tins poucos escolhidos. Nesse estigio, na verdade, teria sido dificil separi-lo das ocasides s0- Nas quais ele foi discutid es ma sala de Plancjamento, conversas de bar, jogos de golfe no mado. Mas i medida em que as ideias eram coloca. das no papel, ele comegou a adquirir uma forma mais objetiva ¢ mais paiblica. A virada ocorreu quando se tomou a decisio para ir adiante com “o conceito”, “tormando-o pablico”, Finalmente a ideia “Metro”, logo seguida pelo carro “Metro”, chegou a “luz ple na da publicidade”, Ela adquirin uma importincia mais geral, reunindo em tomo dela, na verdade, algumas nogdes bem portentosis. Hla se tomou, na verdad, uma grande questao piiblica ou um simbo 40 para isso. Ela também tomou forma como um pro: dato real © como um conjunto de textos, Em um sentido Obvio, cla tomou-se “conereta”: voed podia nko apenas chur } Mas tambén ditigi-la, Mas, em 39 40 outro sentido, este Metro cra bastante abstrato, Ali estava ele, no showroom, rodeado por seus textos de britanicidade: uma coisa brilhante, vibrante. Entretanto, como se poderia saber — a partir dessa exposigio — quem 0 teria concebido, como ele foi feito, quem soffeu por cle ou, na verdade, que uso possivel ele iria ter para a mulher apressada, com duas criangas a tiracolo, que apenas tinha acabado de entrar no showroom? Para desenvolver pontos mais gerais, trés coisas ocorreram no processo de publicagio, Em primeiro lugar, 0 carro — junta- mente com seus textos — tornou-se puiblico em um sentido dbvio; ele adquiriu, se ndo uma imporincia universal, 20 menos uma importancia mais geral, Suas mensagens também foram generalizadas, percorren- do, de forma bastante livre, toda a superficie social Em segundo lugar, ao nivel do significado, a publi- cagio envolveu um proceso de abstragdo. O carro ¢ sitas mensagens poderiam, agora, ser vistos de for- ma relativamente isolada das condigdes sociais que o formaram, Em terceiro lugar, ele foi submetido a um processo de avaliagao publica (uma grande ques tio pablica) em muitas e diferentes escalas: como instrumento téenico-social, como tum simbolo na ional, como tum inte se em jogo, como uma guer ra de classe, em relagao a modelos concorrentes, etc Ele se tomou um local de lutas intensas em torno do significado. Nesse processo, cle foi forgado a “fa lar”, de forma avaliativa, por “todos nés” (britani cos). Observemes, entretanto, que, no momento de consumo ou leita, aqui representado pelas mathe res ¢ suas criangas (que tm opinides decididas sobre cartes), nds somos forgados a regressar, ouitra W a0 privado, ao particular ¢ ao concreto, nao importa quo publicamente tenham sido expostos, para se rem lidos, os materials brutos. Quero sugerir que, nas condigoes sociais mo- demas, esses processos S40 intrinsecos aos circuitos culturais © que eles sio procuzidos por rel ges de poder, a0 mesmo tempo que as produzem, Mas a evidéncia mais clara para petidas difer » est em algumas re- s nas formay de estudo cultural. FORMAS DE CULTURA — FORMAS DE ESTUDO. Uma grande divisio, teérica © metodoldgica, percorre todo 0 ampo dos Estudos Culturais. Exis te, por um lado, aqueles gue insisiem que as “cul turas” devem ser estudadas como um todo e, in sit, localiz 1. Des orl”, sti teoria yadas, EM seu contexto nrateri confiados das abstragdes © da * pritica é, na verdade, “culturalista”. Bles sao, fie- quentemente, atraidos por esas formulagoes em Raymond Williams ou em E. P. Thompson, os quais falam das culturas como formas globais de vida ou como formas globais de luta, Mctodologicamente, eles enfatizam a importincia de descrigdes compl Xas, concretas, que sejam capazes de aprender, par- ticularmente, a unidade ou a homologia das formas culturais € da vida material. Suas preferéncias sto, Portanto, por recriagdes sécio-historicas de cultu- ras ou de movimentos culturais, ou por descrigdes culturais etnogrificas, ou por aqueles tipos de es crita (por exemplo, autobiografia, histéria oral ou formas realistas de ficg30) que sejam capazes de re criar “experiéncias” socialmente localizadas. Por outro lado, ha aqueles que enfatizam uma independéncia relativa ou uma autonomia efetiva das formas © dos meios subjetivos de significacio. A teoria pritica ¢, aqui, usualmente estruturalista, mas de uma forma que privilegia a construcao dis cursiva de situagdes ¢ de sujeitos. O método prete- rido consiste em tratar as formas de um modo abstrato e, algumas vezes, bastante formalista, des- Yelandd os mecanismos pelos quais o significado & produzido na inguagem, na narrativa ou em outros tipos de sistemas de significagio. Se 0 primeiro conjunto de métodos € usualmemte derivado de raizes sociolégicas, antropolégicas ou sécio-hist- ricas, 0 segundo conjunto filia-se, em grande par- te, A critica liteniria, especialmente as tradigdes do modemismo literitio edo formalismo linguistico."* A longo prazo, esta divisio é, em minha opi nigo, um obsticulo certo para o desenvolvimento dos Estudos Culturais, Mas é importante, primei ramente, obscrvar a légica dessa divisio em relacio a0 nosso esbogo dos processes culturais como um todo. Se compararmos, com mais detalhes, aquilo que eu chamei de formas piiblicas e privadas de cultura, a relagio poder ficar mais clara,\* Formas privadas nao sio necessariamente pri vadas no sentido usual de individual ow pessoal, embora clas possam ser ambas. Elas podem também ser partilhadas, comunais ¢ sociais de um modo que as formas piiblicas nao o sto, E sua particularidade © sua concretude que as assinalam como privadas. Blas se relacionam as experigncias caracteristicas de vida © 3s necessidades historicamente construidas de categorias sociais particulates, Elas no preten dem de nir 0 mundo px aquclas pessoas que es to situadas cm outros grupos sociais. Elas s30 limitadas, locais, modestas. Elas nao aspiram a uni versalidade, Blas esto também profundany ate 43 cry imersas na interagao social cotidis snas vidas cotidianas, as mulheres: yao as compras € se encontram ¢ discutem suas virias atividades, bem como as atividades de suas familias ¢ de seus vizinhos. A fofoca € uma forma social privada, profundamente vinculada com as ocasides ¢ as re. lagdes identificadas com a experiéneia de ser mu- Iher em nossa sociedade, Naturalmente, € possivel descrever abstratamente as formas discursivas da fofoca, enfatizando, por exemplo, as formas de reciprocidade presentes na fala, mas isto. parece causar uma violéncia particular ao material, removendo-o do contexto imediato ¢ visivel no qual esses textos de fala surgiram. na. No curso de Um caso ainda mais notavel é 0 da cultura operaria do chao de fabrica, Como mostrou Paul Willis, exis- te, aqui, uma relagio particularmente estreita entre, de um lado, © ato fisico do trabalho ¢, de outro, 3 brincadeiras ¢ © senso comum do local de trabalho." A globalidade do modo discursive dessa cultura con siste em recusar a separagio entre a pritica manual ¢ 4 teorig mental que caracteriza as formas piblicas «, especialmente, as formas académicas de eonhecimen to, Em nenhum dos casos — na fotoea ¢ na cultura iste uma divisto marcada de trabalho no proceso de prociugao cultural, Tampouco do chao de fabri existem instrumentos técnicos de produgao de gran- de comple simbé idade, embora 3 formas ca fala € oS usos os do corpo humano sejam. bastante com: plexox. Tampouco sio os consumidores de formas culturais formalmente ou regularmente diferencia dos de seus produtores, ou, demasisdamente distan ciados deles:no tempo ou no espaco. Fu argumentaria que se tém desenvolvido mo: dos particnlares de investigagio e de representagao para lidar com essay caracteristicas das formas pri- vadas. Os pesquisadores ¢ os analistas tém ajustado 1s métodoy aquelas caracteristicas da cultura que parecem ser as mais evidentes neste momento, Eles ém procurado reunir os momentos subjetives ¢ os mais objetivos, frequentemente nao os dis do teoricamente inguin: recusando completamente, na Pratica, a distingao. E essa énfase na “experiéncia” (0 termo que apreende, perfeitamente, essa falta de distingao ou essa identidade) que tem unido os procedimentoy priti¢os dos historiadores sociais, dos emégnifos © daquelas pessoas interessadas, di gamos, na “escrita operaria”, Comparados com o tccido dense ¢ estr ramen te tramado dos encontios face a face, os programas de televisio parecem um produto bastante abstrato ou até mesmo etéreo, Por um lado, cles sao muito: 45 46 mais claramente uma repre acgio da “vida real” (na melhor das hipéteses) do que as narrativas (usual- mente construidas) da vida cotidiana, Eles assumem —sob a aparéncia do programa ou do texto — uma forma separada, abstraida ou objetiva. Eles chegam até nds de um lugar especial, fixo — uma eaixa de forma ¢ tamanho padronizado, no canto de nossa sala de estar. Naturalmente, n6s os apreendemos so- cialmente, culturalmente, comunalmente, mas ain da assim cles tém este momento separado, de forma muito mais Obvia que © texto privado da fala. Essa existéncia separada esti certamente associada com uma divisio complexa de trabalho na producao € distribuigio © com a distincia fisica e temporal en tre 0 momento da produgio ¢ 0 do consumo, carac teristicos das formas de conhecimento piblico em geral. Meios pablicos de comunicagio desse tipo, na yerdade, permitem manipulasdes bastante extraor- dinirias de espago e tempo como, por exemplo, no revival de filmes antigos feito pela televisio. Eu argumentaria que essa aparente abstragio has forthas reais da comunicacao pablica subjaz a toda a gama de métodos que focalizam a constru- sao da realidade através d: proprias formas sim. bolicas, tendo a Tinguagem como primeiro modelo, mas o momento-chaye é a objetivagao da tinguagem no texto, Seria fascinante pe eguir uma investiga~ sA0 historica vinculada com essa hipétese, a qual ten- taria deslindar a relagio entre as abstragdes reais das formas comunicativas ¢ as abscragdes mentais dos tedricos culturais. Nao suponho que os dois proces sos caminhem facilmente lado a lado ou que as mu- dangas ocorram de forma sinerénica, Mas estou certo de que a nogio de texto —como algo que nds pode mos isolar, tixar ¢ examinar — depende da circula- 640 extensiva de produtos culturais que foram divorciados das condigdes imediatas de sux produ Jo © que tém um momento de suspensio, por assim dizer, antes de serem consumidos. PUBLICAGAO E PODER As formas pablicas © as formas privadas de cul tura nao esto isoladas entre si, Existe uma circula real de formas. A produgao cultural frequentemente envolve publicagao — 0 rornar piblico formas privadas. Por outro lado, os tex tos pitblicos sto consumidos ou lidos privadamen te. Uma revista para adolescenres do sexo feminino como Jackie, por exemplo, recolhe representa alguns clementos das culturas.priva- das da feminilidade através das quais as jovens 48 vivem suas vidas. clementos abertos la tora, instantancamente, esses avaliagio pibliea — como sendo por exemplo, “coin de garotas”, “tolas” ou “tiviais” Eh também generaliza esses elementos no Ambit de um conjunto particular de | jonas, criando um pe queno publica proprio. A revista é, pois, uny material bruto para milhares de leitoras-garotas que produzem suas proprias re-apropriagdes dos elementos que fo Tam, anteriormente, tomados de empréstimo de sua cultura vivida © de suas formas de subjetividade importante nao pre tipor que a publicagso irabalha, somente ¢ sempre, de forma dominante ¢ aviltante. Precisamos de andlives cuiidadosas que nos revelem onde © MO as Fepresentagdes piiblicas agem para ence ‘ar OS grupos sociais nas relagde: de dependéncia existentes ¢ onde © como elas té 1 alguma tendéncia emanciparéria. Kora isso, pode- mos, entretanto, insistir na importineia de. poder como um el mento da anilise, a0 sugerir as princi- pais formas pelas quais cle esta ative na relagdo en tre © piiblico co privado. éxistem, naturalmente, profindas diferengas em termos de acesso a estera pitblica. Muitas das preocupage '$ sociais ndO ganham absolutamente qualquer publicidade, Nao se trata simplesmente do fato de que elas continuem privadas, mas de que elas sao ativamente privatizadas, mantidas no nivel do privado. Aqui, no que tange a politica formal € as agdes do Estado, clas sao invisiveis, sem correti vo publico. Isso signitica mio apenas que elas tem que ser suportadas, mas que a consciéncia que se tem delas como sendo um mal é manticla no nivel dos significados implicitos ou comunais. No inte. rior do grupo, o conhecimento desses softimentos pode ser profindo, mas nio de um tipo tal que espere alivio ou que a he o§ softimentos estranhos. Como frequentemente ocome, talver, sas preo cupagdes privadas realmente aparecem publicamen te, Mas apenas sob certos termos e, portanto, transformadas ¢ enguidradas sob formas particula- res, AS preocupagdes da fofoea, por exempio, apare- cem, de fiato, publicamente, sob uma ampla varieclade de formas, mas comumente sob 0 distirce do “entre tenimento”. Elas aparecem, por exempio, nis teleno- velas, ou sio “digniticadas” apenas por sua conexdo com as vidas privadas da realeza, das estrelas ow dos politicos. De forma similar, elementos da cultura do chao de fabrica podem ser levados ao paleo como co- nédia ow como atos de variedadie, Esses enguiadra mentos em termos de e6digo on genero (literitio, teatral ete.) podem 1 invalidar esses elementos 49 como a base de uma alternativa social, como acredi tam alguns te6ricos, mas eles certamente atuam para conté-los no intcrior das definigoes publicas ¢ do- Minantes daquilo que é considerado importante, As representagdes piiblicas podem também agit sob formas mais abertamente punitivas ow estig matizantes. Nessas formas, os clementos da cultura privada sto vistos como pouco auténticos ou ra io nais © construidos como perigosos, desviantes ou excéntri¢os.!” De forma similar, as experiéncias dos S1Upos sociais subordinados sdo apresentadas como patoldgicas, como problemas que exigem uma in- rervenci na onganizagio da sociedade como tum toclo, mas nas atitudes ou nos compontamentos do prdprio grupo que as sofre. Seo espaco permiitisse, seria importante compa as diferentes formas pelas quais esses. processos podem ocorrer na intersecgio das relagdes de classe, género, raga ¢ idadle. Um mecanismo geral adicional E constituido pela construgio, na esiera piiblica, de detinigoes da propria divisio entre o priblico & o pri vado. Naturlmente, essas detinigoes soam como de- finigdes bastante neutras: “todo mundo” concorda UE aS questoes pablicas mais importantes sio a eco nomia, a defesa, a lei e a ortem e, talvez, as questiies de assisténeia social, © que outras questies — a vida fan iliar, a sexualidade, por exemplo — sio essenei almente privadas, O. problema € que as detinigées dominantes do que é considerado importante sio, em boa parte, socialmente especificas e, em particu- Jar, tendem a comesponder as estruturas masculinas —e de classe média — de “interesse” (em ambos os sentidos deste termo). £, em parte, porque come sam fandamentalmente a questionar essas disposi- $0es que alguns feminismes, os movimentos pela paz: € os partidos verdes estao entre as formas mais sub- versivas de fénémenos moderos. Enfitize esses elementos de poder, correndo 0 Fisco de alguns desvios do argumento principal, por que as priticas dos Estudos Culturais devem ser vis tas no interior deste contexto. Quer tomem como Seu principal objeto os conhecimentos publicos mais abstratos ¢ suas ligicas ¢ detinicdes subjacentes, quer investiguem o dominio privado da cultura, os i ulturais esto necessariamente © profiin damente implicados eny relagdes de poder. Fles so ¢ dos proprios circuitos que buscam descrever Bles podem, tal como os conhecimentos acadéni £08 ¢ profissionais, policiar a relacio entre 6 pili co. €0 privado out cles podem criticé-la, Eles podem estar envolvides na v Kincia da subjetividade dos Srupos subordinados ou nas lutas para representi-los mais adequadamente do que antes. Eles podem se tor- nar parte do problema ou parte da solugio. B por isso que, 8 medida que nos voltamos para as formas parti- culares de Estudos Culturais, nés precisamos fazer Perguntay nao apenas sobre objetos, tworias © meto- dios, mas também sobre os limites ¢ os potenciais poli- ticos das diferentes pesigdes em tomo do cireuito. A PARTIR DA PERSPECTIVA DA PRODUGAO Este € um Conjunto partictilarmente amplo ¢ he~ terogéneo de abordagens. Pois incluo, sob este tit Jo, abordagens com tendéncias politicas bastante diferentes, desde os conhecimentos te6ricos dos pu- blicitarios, das pessoas envolvidas em atividades de relagdes pablicas para as grandes organizagées ¢ dos muitos tedricos pluralistas ¢ liberais da comunica si0 ptiblica até a maior parte das analises culturais na tradigao maraista c em outras tradigocs critieas. Tal como ocorre com as disciplinas, s OS sOCIOIO- tas politicos ‘1 aquelas pessoas preocupadas com a organiza politica da cultura que tém, mais comumente, ado: tado este ponto de vista. p08, os historiadores se is, 08 croni Uma abordagem mais sister tica da procucao cultural tem sido uma preocupagao relativamente recente da sociologia, da literatura, da arte ow das formas culturais populares. Esa preocupagio caminha em paralelo com as discusses sobre os meios de comunicagio de massa, tendo sido, originalmente, muitissimo influenciada pelas primeiras experiéncias da propaganda estatal sob as condigées da midia moderna, especialmente na Alemanha Nazista, No cruzamento das discusses mais steticas € politi cas, tem hayido uma preocupacso generalizada com a influéncia das condigées capitalistas de produgio edo mereado de massa das mereadorias culrurais sobre a “autenticidade” da cultura, incluindo as artes populares. Os esturtos sobre produgan no in= tenor dessas traclig6es tem sido ignalmente diver= ados: desde as grandiosas eriticas da economia politica ¢ da patologia cultural das comunicagaes de massa (por exemplo, as ansilises iniciais da Esco la de Frankfurre) até aos detathados estudos empiri cos sobre a produ 40 de noticias, os documentirios ‘on as telenovelas! De ima forma ainda bastante diferente, os estudos histéricos modernos tém es- tado preocupados, em boa parte, com a “produgao cultural”, embora, desta vez, com a producto culty tal dos avo iments Soviais eur mesmo dee glasses so ciais inteivay, E importante aceitar o convite de K.P Thompson para ler A formacs > da classe oper 5S 54 inglesa deste ponto de vista; 0 trabalho de Paul Willis, especialmente Aprendendo a ser trabalhador, representa, sob muitos aspectos, 0 equivalente soci- ologico dessa tradigio historiogrifica © que une esses diversos uabalhos, entretanto, é que todos cles tomam, se no © ponto de vista dos produtores culturais, a0 menos a posigio tedrica da produgio, Eles estdo interessades, em primeiro lugar, © acima de tudo, na produgio © na organizagio social las formas culturais, F aqui, naturalmente, que os pa- radigmas marxistas tém ocupado um lugar bastante central, mesmo quando s¢ continua a argumentar con- Os primeiros trabalhos marxistas afirmaram a primazia das condigdes de producto, frequentemente reduzindo-as a alguma versio estreitamente concebi da “das forgas © das relagoes de produgao”. Mesmo essas andlises reducionistas tinham um certo valor: a cultura cra compreendida como um produto social ¢ ‘nao como simplesmente uma questi de criatividade individual. Ela estava, portanto, sujeita 4 organizacio politica, seja pelo estado capitalista seja. pelos partidos dle oposigio social.” Em trabalhos marxistas posteriores, analisavam-se as formas histéricas da produgdo € a or > da cultura — “as superestruturas “, ganizs Nos escritos de Gramsci, 0 estudo da cultura a partir do ponto de vista da produgio transforma-se cm um interesse mais geral com as dimensdes cultw: rais day lutas ¢ das estratégias como um todo. A cluradoura € perniciosa influéncia das detinigdes de “cultura” como “alta cultura” out como “cultura dos especialistas” no interior do marxismo foi também definitivamente questionada.” Gramsci foi talvex 0 primeiro importante te6rico marxista e lider comu nista a considerar as culturas das classes populares como objeto de estudo sério e de pritica polities. “Todas as caracteristicas mais modernas da organiza 10 da cultura também comegam a aparecer nesse trabalho: cle fala dos organizadores /produtores cul turais nio apenas como pequenos grupos de “intelectuais”, de acordo com 0 velho modelo revo Iucionario ou bolchevique, mas como estratos sociais , concentrados em tomo de instituigdes par ticulares — escolas, faculdades, a lei, a imprensa, as burocracias estatais ¢ os partidos politicos. O taba Iho de Gramsci constitu o mais sofisticado e feértil desenvolvimento de uma abordagem marxista via Produgio cultural. Creio, entretanto, que Gramsci continua muito mais “leninista” do que, em geral, se Pensa! A julgar pelo trabalho disponivel em inglés, parece que ele estava menos interessado em como as formas culeurais fiincionam subjetivamente do que €m como “organizi-las” extemamente LIMITES DO PONTO DE VISTA DA PRODUGAO Vejo dois limites recorrentes na anilise da cultu ra desse ponto de vista, O primeito € a conhecida dificuldade do economicismo, a qual eu gostaria de formular aqui de uma forma diferente. Existe, ne se modelo, uma tendéncia a negligenciar aqui € specifica da produgio cultural, A produ tural é, muito comumente, assimilada a0 modelo da produsio capitalista em geral, sem que se dé uma atengao sufici te A natureza dual do circuit das mereadorias culturais. As condigdes de produgto in dlucm nao apenas os meios materiais de produgao e @ organizayao capitalista do trabalho, mas tim esto- que de elementos culturais jf existentes, extraidos do reservatério da cultura vivida ou dos eamypos ja piiblicos de discurso, Este material bruto € estrutu- rado nao apenas pelos imperatives da produgio ca pitalista (isto €, mercantilizados), mas também pelos efeitos indiretos das relaydes sociais capitalistas & de ountras relagées sociais sobre as regras da linguagem do diseurso existentes, cial, para as luta sto Vale, de maneira espe 6 de classe € de yénero, consideradas do ponto de vista de seus efeitos sobre os diferentes simbolos © signos socials. Em contraste com isto, a conomia politica manvsta insiste nas “dererminagdes” mais brutalmente Obvias — especialmente em meca- hismas tais como competigio, controle monopolista € expansio imperial” E por isso que a reivindicagio de algunas semiologias, em sua pretensio de ofrecer uma analise materialista alternativa, tem, realmente, algu- ma forga.”* Em outras palavras, muitas das anilises do lado da produgio podem ser criticadas plas bases es- colhidas: como analises da produgao cultural, da pro- dugao de formas “subjetivas”, elas nos revelam, no maximo, algumia coisa sobre algumasdas condiges “ob ietivas” © sobre © fincionamento de alguns espaces sociais — tipicamente, 0 fiancionamento ideoléwico ca emprest capitalista (por exemplo, a publicidad, o fay cionamento da midia comercial), mas, nada sobre o fiuncionamento dos partido politicos, das dos aparatos da “alta cultura’, sscolas ou A segunda dificuldade nao & 0 economicismo, mas aquilo que poderiamos chamar de “produti Ss duas frequente nadlas; elas so, entretanto, O marxismo de G lente aparecem combi naliticamente distintas Jranisei, por exemplo, certamente nao € economicista, mas ele é, provavelmente, pro. a tendéncia a inferir © cariter de um produto cultural e seu use social clas condiges de sua produgio, comu se dutivista, © problema, aqui, é eM questOes culturais, a produgio determinasse tudo. As formas corriqueiras dessa inferéncia sie conhecidas: tudo de que necessitamos é rastrear uma idcia & sua origem para declari-la “burguesa” ou “ideolégica” — vem dat a “novela burguesa”, a “ciéncia burguesa", a “ideolo- gia burguesa” ¢, naturalmente, todos os equivalentes “proletitios”. A maioria dos criticos desta redugio ata cam-na negando a conexio entre as condigdes de ori: gem ca tendéncia politica. Nao quero negar que as condigdes de origem (incluindo a classe ¢ o género dos produtores) exercem uma profiinda influéncia sobre a natureza do produto. Considero mais iil questionar esais identificagdes no como ermdas mas como pre maturas, Blas podem ser verdadeiras na medida em que dlas estdo de acordo com a logica daguicle momen to, mas clas negligenciam toda a gama de possibilida des cas formas culturais, especialmente na medida em que essas sio realizadas no consumo ou na “leitura” Nio vejo como qualquer forma cultural passa scr mada de “ideoldgiea” (no sentido critico marxista ust al) até que tenhamos examinado nao apenas sua origem NO processo de produgio primario, mas também cui dadosamente analisido sua formas pessoais bem como os modos de sua recepgio. “Ideolégico”, a menos que concebide como um termo neutro, € 0 timo temo a ser usido nesses anzilises € nio 0 primeiro 25 Ainda considero o debate entre Walter Benja- min ¢ Theodor Adomo, sobre as tendéncias da cul tura de massa, um exemplo bastante instrutive,2* Adomo passou como um firracdo, em sua grandiosa anilise, identificando as condigdes capitalistas de produgio, deserevendo os eftitos da forma “tetichi zada” da mercadoria cultural e encontrando seu per feito complemento na “escuta regressiva” dos fis de popular. Ha um elemento altamente deduti vo ou inferencial neste raciocinio, o qual, com fre emer quéneia, esta baseado em alguns saltos tedticos gigantescos, os quais tinham sido dados, antes dele, Por Lukacs. As confuses ¢ redugdes resultantes es Go bem ilustradas em um dos seus poucos € conere- tos cxemplos: sua anilise do slogan da cerveja britanica Watneys — “o que nés queremos é W: neys”. A marca da cerveja & apresentada como um slogan politico. Este outdoor nos faz compre ender a natureza anializada da propaganda, que vende seus slogans da mesma forma que vende seus produtos (...) 9 tipo de relagao que € sugetido pelo outdoor, pelo qual as massas fazem de uma mereadoria que thes € recomen dada o objeto sua propria ago & na verdade, encontrado, ourra vez, no padrio de recepeao 59 60 da miisica ligeira. Blas tém nece idade Gaqui Jo que thes foi apresentado como necessiri — na verdade, chs 0 exigem.” Nio vejo problema com as primeiras linhas. Gosto do insight sobre 08 caminhos Pparalelos — a partir da situagio alema — da propaganda politica e da publi- cid tante interessante, mostrando como a publicidade ge para produzir uma identiticagio ativa, Mas a anilise se penle tio logo chegamos as “massas”, A anillise supée que os bebedores reais ¢ diferenciados de Watneys ¢ 08 leitores do slogan agem como ven triloquos do fabricanw de cerveja, sem quaisquer ‘ooutras determinagdes imtervenientes, Abstrai-se qital quer coisa que esteja especiticamente relacionada 4 fiuigdo de slogans on ao ato de heber cerveja, Ador 2 se interessa, por exemplo, pelo significado da Watneys (ou de qualquer outra bebida alcodlica) no contexto das relagdes sociais — indexacas pelo pro. home “nds” — de um bar, A possibilidade de que os bebedores possam ter suas proprias razdes para con de comercial I. A Teitura do slogan é também bas- sumir um dado produto ¢ de que o beber tenha um valor de uso social € deixada de lade.2* Este € um caso bastante extremo de produtivis mo, mas a pressio para inferir efeitos ou leituras a partir de uma anilise da produgao € constante, Ela caracteriza, por exemplo, uma tiea vertente do tra balho em Estudos Culturais, a qual tem se preocu: pado, prineipalmente, em analisar campos particulare do discurso publico. Entre as publicagdes do CCCS, Policing the Crisis © Unpopular Education™ eram, ambas, anilises dos nossos primeiros dois momen tos: de textos (neste caso, os campos do discurso 4o- bre a Ici ¢ a ordem e sobre a educagio pitblica) ¢ de suas condigdes ¢ historias de produgio (eampanhas sobre lei ¢ ordem, o trabalho de “definidores” pri- mario como os juizes ¢ a policia, © papel do “thaicherisino” ete.). Ambos os estudos provaram ter considerivel valor preditive, mostrandy os pon: tos fortes ¢ a popularidade da. politica da “Nova Di- reita” quando — no easo do Policing — da primeira vitoria cleitoral de Margareth Tatcher em 1979.30 De forma similar, acredito que Unpopular Education continha © que se mostrou ser uma anise perspicaz das contradigoes fimdamentais da politica social de- mocritica na Gri-Bretanha ¢, portanto, algumas das agonias do Partido ‘Trabalhista. Como guias polit cos, amboy os estudloy sio, entretanto, incompletos: ta-Thes uma descricao dos efeitos da erise de 1945 sobre a cultura vivida dos grupos de classe operiria ou um andlise real nente Conereta da accitagio: 02 Popular das ideologias da “Nova Direita”, Em ow tras palavras, eles sio limitadas por dependerem, en sua maior parte, de conhecimentos “piiblicos” da midia © da politica formal. £ preciso algo mais do que isso, especialmente se quisermos ir além da ert. ©. contribuir para a produgio de novos programas © movimentos politicos, Podemos coneluir este argumento voltando-nos para Walter Benjamin, Benjamin tinha, certamen- te, uma visio mais aberta das potencialidades das formas culturais de massa do que Adomo. Ele esta. va entusiasmado com as suas possibilidades técnicas © eduicacionais. Ele apelou para que os produtores culturais transformassem nao apenas seus trabalhos, mas tambény stias manciras de trabalhar. Ele desere yeu a téenica de uma nova forma de produgio cul: tural: 0 “teatro épico” de Brecht. Podemos ver, entretanto, que todos esses insights on sto — pri mariamente — os comentarios de um critico sobre as teork adotam a posigio. da Produgao. f aqui, ainda do lado do criador, que as jogadas realmente revolucionarias devem s FE tambem verdade que Benjamin tinha ideias inte idade das formas mexter nas para produzit uma relagao nova ¢ mais distanciada entre © leitor € © texto, mas este insight continuo 8 dos produtores ou ressantes sobre a potenc! Moabstrato ¢ tio aprioristico em seu otimismo quanto © pessimismo de Adomo, Fle nao estava enraizado em qualquer anslise ampliada da experiéncia mais ampla de grupos particulares de leitores, Nosso primeito caso (a produgio) acaba por ser um exemplo interessante de um argumento do qual a forma geral se repetirs. Devemoy examinar, na- turalmente, as formas culturais do ponto de vista de sua produgio, Isto deve ineluir as condigoes € os meios de produgao, especialmente cm seus as pectos subjetivos © culturais n minha opiniao, deve incluir descrigdes ¢ anilises também do mo. mento real da propria producto — trabalho de produgao e seus aspectos subjetivos ¢ objetivos, Nao Podemos estar perpetuamente discutindo as “con. digdes”, sem nunca discutir ox atos! Devemos, 26 MO tempo, evitar a tentagio, assinalada nas di cusses marsi det woes, de subsu nir todos os outros aspectos da cultura 4s categorias dos estudos de producdo. Isso. sugere dois estigios de uma abordagem mais sensivel. O primeira con: siste cm conceder uma independéncia ¢ uma parti cularidade a0 momento distinto da produ fazendo 6 mesmo para outros momentos. Esta é fas. sob) crmi S30, uma sustentagio necessiria, negativa, do argumento Contra 0 reducionismo de todas as especies, Mas, 63 on uma yer tendo estabelecido este principio em nossas analises, um outro estigio toma-se bastante eviden te. Os diferentes momentos ou aspectos ndo sio, na verdade, distintos. Existe, por exemplo, um sentido 120 qual (bastante cuidadosamente) poctemos falar dos textos como “produtivos” ¢ um argumento muito mais forte para ver a leitura ou consume cultural como um proceso de produgio, no qual o primeira produto toma-se um material para um novo traba- ho. © texto-tal-como-produzido & um objeto dife- rente do texto-tal-como-tido, O problema com a anslise de Adomo e talvez com as abordagens produtivistas em geral est nao apenas em que elas inferem o texto: tal-come ido do texto tal-como:produzido, mas que, também, a0 fier isso, clas ignoram os elementos da Produgao em outros momentos, concentrando a “cri atividde” no produtor ou no critico. Esse & talven, © preconceito mais profinndo de todos, entre 0s eseri tores, os artistas, as professores, os educadores, os comunicadores € os agitadores no interior das divi sox intelectuais de trabalho! ESTUDOS BASEADOS NO 'TEXTO Todo um segundo bloco de abordagens esta, pri- Mariamente, preocupado com os produtos culturais Mais comument . e88es produtos sio tratados como “textos”; o importante & fornecer “leituras” mais ou menos definitivas deles. Duas earacteristicas parecem especialmente importantes: (1) a separagio entre eri- ticos especializados © leitores comuns ¢ (2) a divisio entre praticantes culturais © aqueles que, primaria. mente, comentam as obras de outros, Ambas as ea acteristicas tém muito a ver como ctescimento ¢ 0 desenvolvimento das instituigdes educacionais, espe cialmente ay académicas, mas € interessante observar que os “modemismos”, que tém tio profiandamente influcnciade os Estudos Culturais, surgiram como teorias do produtor, m: agora discutidas mais intensivamente nos Comextos académicos ¢ educaci- onais. Estou pensando, particularmente, nas teorias associachs com © cubismo ¢ o construtivismo, com o formalismo € 0 cinema russo ¢, naturalmente, nas teorias de Brecht sobre o teatro,"! Grande parte daquilo que se conhece sobre a or ganizagio textual das formas culturais € agora ens: nado nas disciplinas académicas convencionalmente sgrupades como “Humanidades” ou “Artes”. As prin ipais disciplinas das *Humanidades”, mais especial mente a Linguistica os dos Literirios, rém desenvolvido meios de descrigio formal quie sio in dispensiveis para a anilise cultural. Estou pensando, 66 Por exemplo, na andlise lieriria das formas de narra tiva, mas também na andlise de formas sintSticas, 1a das possibilidades ¢ transformagdes em Lin- guistica, na anilise formal de atos ¢ trocas na fala, na andlise de algumas formas elementares de teoria cul- tural feita pelos fildsolos ¢ nos conceitos tomados de empréstimo, pela critica ¢ pelos Estudos Culurais, da semiologia © de outros estruturalismos. Vista de fora, a situagio nas Humanidades e, especialmente, na Literatura parcce-me bastante pa- radoxal: por um lado, o desenvolvimento de ins tumentos imensamente poderosos de analise ¢ deserigio; por outro, ambicdes bas em termos de apli nte Modestas ACHES € Objetos de anilise. Existe uma tendéncia que faz com que os instrumentos continuem obstinadamente técnicos ou formais, O cxemplo que considero mais impressionante no mo- mento é o da Linguistica, que parece uma verdhdeira caixa do tesouro para a andlise cultural, mas que esta soterrada sob uma misti Lum profissionalismo académiico exageradlos dos quais, fi Outras pos sibilidades parecem perpetuamente presas i necessi dade de dizer algo novo sobre algum texto ou autor ean6nico. Isto, algumas vezes, permite um amadoris- mo de franco-atirador, cujas eredenciais culturais izmente, esti comegando a emergir. gerais aparentemente sancionam a aplicagio liberal de alguns julgamentos de Sbvio senso cou a pratica- mente quase tudo. Entretanto, o paradox esta em. que as disciplinas das Humanidades, que estio tio da Famente preccupadas em identficar as formas subjeti- vas de vida, Sto, jf, Estudos Culturais em embrizo! As formas, as regularidades © as tensoes primei- ramente identificadas na literatura (ou em certos tipos de musica ou de arte visual) trequentemente acabam tendo uma circulagao social muito mais an. pla. As feministas que trabatham com o romance, Por exemplo, tém analisado as correspondéncias en Fre as Formas narrativas da fey romanoea popw lar, 08 rituais publicay de casumento (o casamento real, por exemplo) ¢, mesmo gue apenas através de 80a propria experiéncia, o trabalho subjetivo das re- solugoes simbili a8 do amor romintico,* Estimula do por este modelo ainda em desenvolvimento, nm Conjunto de pesquisadoras esta investigando as fai- tasias Conflitantes da cultura juvenil + formas narrativas do épico, Como xe provocado pela deixa de um ponto teatral, conflito das Malvinas ctistalizou ambas essas form, lina © ag juntando-as em um Wo public particularmemte dramético © real Nio existe methor exemplo, talver, dos limites de ge espetai tratar formas como o romance ou a épica como 68 construgdes meramente fitenirivs.** Pelo contririo, las esto entre as mais poderosas ¢ onipresentes das ategorias sociais ou formas subjetivas, especialmer te em suas construgdes da feminilidade © da mascu- linidade convencionais. Os seres humanos vivem, amam, softem perdas e vo 4 lita € morrem por elas, Como sempre, pois, o problema consiste em se apropriar de métodos que estio frequentemente en- rrados em canais disciplinares estrcitos c usar seus reais insights mais amplamente, mais livremente. Que tipos de métodos baseados na anzlise de textos >, pois, mais titeis? E quais seriam os problemas a serem identificados © superados? A IMPORTANCIA DE SER FORMAL Especialmente importantes sio todas as influd clas moderni 8 € pos: modemistas, particularmen- te aquelas associadas com o estruturalismo © com a Lingufstiea pés-saussureana, Incluo aqui os desen yolvimentos na semiologia, mas gostaria de incluir também, comosendo algum tipo de parentesco, tal- ver distante, algumas vertentes da Linguistica a glo-americana.* Os Estudos Cultunais tem, muitas vezes, se aproximado dessay vertentes de unta for: ma um tanto acalorada, tendo hutas scirradas, em Particular, com aqueles tipos de anilises de texto inspiradas pela Psicanalise,'* mas as renovadas infusdes modemistas continuam a ser uma fonte de desenvolvimentos. Como alguém que vem do on- tro lado, o histérico /sociol6gico, sou, frequentemen te, sumpreendido © — de forma pouco critica — amraido pelas possibilidades aqui existentes, A analise formal moderna promete uma descri- fio realmente cuidadosa ¢ sistemstiea das formas subjetivas & de suas tendéncias ¢ pressdes. Ela nos tem permitido identificar, por exemplo, a narrati- vidade como uma forma bisica de organizacio da subjetividad bre o repert6rio das formas narrativas contempo: * Ela também nos da indivagdes so. Taneamente existentes — as estérias reais caracteristicas de diferentes modos de vida. Se nds. as tratarmos n3o como arquétipos mas como cons trugdes historicamente produzidas, as possibilida des de um estude conereto, produtivo, em uma gama ampla de materiais, sto imensas. Pois as esté Fias, obviamente, no se apresentam apenas na tor ma de ficgdcs literirias ou filmicas; clas se apresentam também na conversagio didria, nos fir turos imaginados ¢ nas projecoes cotidianas de to- dos nds, bem como na constru memorias ¢ histérias — de identidades 6 70 © coletivas. Quais sio os paddes recomentes aqui? Que formas nés podemos, mais comumente, abstra- ir desses textos? Parece-me que, no estudo das for- mas subjetivas, estamos naquele estigio da economia politica que Marx, nos Grundrisse, vin como neces. rio mas primitivo: “quando as formas tinham ain da que ser laboriosamente escalpeladas do material” Ha, aqui, uma série de inibigdes. Uma delas & 4 oposi¢ao as categorias abstratas c o medo do for- malismo, Penso que isso é, muitas vex 's, bastante mal colocado, Precisamos abstrair as formas a fim de descrevé-las euidadosamente, claramente, ob- servando as variagées © a combinagdes. Estott se guro de que Roland Barthes e argumentou contra a rejeig: tificio da anilise”: Ava correto quando > quiixoresea do“ ‘Menos aterrotizada pelo espectro do “forma lismo”, a critiea histérica poderia ter sido me- nos esteril; ela ceria. compreendide que 0 estudo especitica das formas nao cont al diz, de modo IM, O8 prinéipios necessitins da totalidade © da Historia, Pelo conteitio: quanto mais um sistema & especificamente detinido por suas formas, mais cle esti sujeito i critica histética Para parodiar o dito bem conhecido, diret que Pouce formalisme nos afasta da Historia, mas que muito formalismo nos leva de volta a cla Sem diivida, a “Historia” de Barthes € suspeito samente graftda em maitisculas © esvaziada de con- tetido: diferentemente do marxismo, a semiologia NdO Nos ofere uma pritica (a menos que sejam os Pequenos ensaios de Barthes) para reconstituir um todo complexo a partir das diferentes formas. Mas estou certo de que nés acabaremos com hist6rias me- thores, mais explicativas, se tivermos compreendido mais abstratamente algumas das formas e relacdes que as constituem. De algum modo, na verdade, pense que o trabalho de Barthes nao ¢ suticiente. mente formal. O nivel de elaboragio, em seu traba tho da tiltima fase, parece, algumas vezes, gratuito demasiado complexe para ser claro, insuficientenen- te concreto para construir uma descrigaio substantiva Nesse € cm outros empreendimentos semioligivos © que estamos ouvindo perfeitamente € 0 nuido agi tad de autogerados sistemas intclectuais rapidamer te fiigindo a0 controle? Se assim for, trara-se de um ido diferente do barutho satisteito de uma abstra $80 realmente historical Os estruturalismos radicais estimulam-me por uma outra azo." Eles sio 0 que Niste de mais distante da critica do empiricismo que, como suge- ri anteriormente, fundamenta filosoficamente os Estudos Culturais. Este construcionismo radical — nada na cultura € tomado como dado, tudo é produzido — & um importante insight que no po: demos abandonar, Naturalmente, esses dois esti mulos estio estreitamente relicionados: o segundo como uma premissa do primeiro. E porque sabe- mos que néo estamos no controle de nossas propri- as subjetividades que precisamos tao desesperadamente identificar suas formas e descre. ver suas historias © possibilidades futuras, © QUE E, AFINAL, UM ‘TEXTO? Mas se a anzlise de texto ¢ indispensivel, o que entio, um texto? Relembremos 0 Mini-Metro como um exemplo da tendéncia dos “textos” a um crescimento polimorfo; 0 exemplo da anilise dos géneros de James Bond, féita por Tony Bennett, é um exemplo ainda melhor A proliferagio de re- presentagdes aliads no campo dos discuirsos piblicos coloca grandes problemas para qualquer praticante dos Estudos Culturais contemporineos. m, entretanto, melhores e piores formas de lidar com equientemente, penso, chega-se a uma solugio literisia tradicional: clegemos um “autor” (na me- dida em que isto & possivel), uma inica obra ou série, talvez um género distintivo. Nossas escolhas podem, agora, ser textos populares: talvez um meio eletrénico ou filmico, embora ainda haja limites nesses critérios “quase literirios” Se, por exemplo, estamos realmente interesados em saber como as convengdes © os meios téenict disponiveis no interior de um meio parti traturam as representag alar es: , precisamos trabalhar ao longo dos géneros ¢ dos meios, comparativamente Precisamos descrever as diferengas, bem como as si milaridades, entre 0 romance litersrio, « mor ro mintico como espetéculo piblico ¢ o amor como una forma privada ou natrativa. E apenas dessa forma que podemos resolver algumas das mais importantes quest6es avaliativas plo, o rem, iui: em que medida, por exent nee atu apenas para aprisionar as mu- Iheres em condigoes sociais opressivas, © em que medida a ideologia do amor pode, nio obstante, ex Pressar concepydes ut6picas de relagdes p femos, certamente, que limitar nossa pe té soais. quisa a er ‘os literérios; outras escolhas estio disponiveis, possivel, por exemplo, adotar “problemas” ou “periods” como eri rio principal. Embora restr tos por sua escolha de géneros e meios bastante “mas 74 culinos”, Policing the Crisis € Unpopular Education so estudos deste tipo. Eles giram em tomo de uma definigio histérica bisica, examinando aspectos da ascensio da “Nova Dircita”, prineipalmente a par tir do inicio dos anos 70. A légica desta aborlagem fol amplada nos recentes estudos do CCCS sabre Awidia: um estado de uma gama ampla de represen tagbes, feitas pela midia, da Campanha pelo Desar- mamento Nuclear (outubro de 1981) & um estude da midia no periodo de feriados pés-Malvinas (Na- tal de 1982 a0 Ano Novo de 1983): Essa tiltima abordagem ¢ especialmente produtiva, uma ver que ela nos permite examinar a construgao de ui feria- do (espe almiente, 0 jogo em tome da divisio pabli- ¢o/privado) de acordo com as possibilidades dos diferentes mcios € géneros, como por exemplo, a te- lenovelt © a imprensa diitia popular. Ao apreender algo da contemporani dade © dos “e tos” combi- nados dos diferentes sistemas de representacio, es- Peramos também chegar mais perto da experiéneia mais cotidiana de ouvir, ler € ver. Desta forma, o stuclo, baseado em uma conjuntura que, neste caso, € um tanto hist6rica (6 momento pos-Malvinas de dezembro de 1982) ¢ sazonal (as festas natalinas), tem como premissa a crenga de que 0 contexto ¢ enuial na prociugio de signiticado, De forma mais geral, 0 objetivo ¢ descentrar © “texto” como um objeto de estudo, O “texto” nio & mais estudado por ele proprio, nem pelos efeitos so- ciais que se pensa que ele produz, mas, em vez disso, pelas formas subjetivas ou culturais que cle efetiva ¢ toma disponiveis. © texto & apenas tim meio no Es tudo Cultural, estritamente, talvez, trata-se de um material bruto a partir do qual certas formas (por exemplo, da narrativa, da problemitica ideolégica, do modo de enderegamento, da posicao de sujeite ete.) podem ser abstraidas. Fle também pode fazer parte de um campo discursive mais amplo ou ser uma combinagio de formas que ocoren em outros espagos socials com alguna regularidade, Mas © ob cto tiltimo dos Estudos Culurais nao ¢, em minha opinido, 0 texto, mas a vide subjetiva das formas sodais em cada momento de sia circulagdo, inclu indo suas corporificagdes teytuais. Isto esti muito distante da valoracio literdria dos textos por si mes- mos, embora, naturalmente, as modos pelos qu algumas corporiti ces textuais ce formas subje- tivas sto valoradas relativamente a outras, especialmente por etiticos ou edicadores (0 proble ro” na cuhtu- ra), Sejam uma questan central, especialmente em ma, especialmente, do “baixo” ¢ do“, tworias de cultunt ¢ classe, Mas este € um problema Gue subsume preocupagdes “literirias” ao invés de reproduzi-las, Uma questio-chave é a de saber como Os critérios do que € “titerério” acabam por ser, eles Proprios, formulacos ¢ instalados nas préticas acadé- micas, educacionais © em outras priticas regulativas, MIOPIAS ESTRUTURALISTAS MO constituir o texto € um problema; um Outro problema é a tendéncia de outros momen. tos, especialmente da produgio cultural © da leit "A, mas mais geralmente dos aspectos mais concretos € privados da cultura, a desaparecerem diante da ‘eitura de um texto. Em tomo dessa tendéncia, po- deriamos escrever toda uma complicada histéria dos formalismos, usando termo, agora, em seu senti- do eritico mais familiar, € ‘ompreendo © formalis- mo Negativamente, nio como uma abstragio de formas a partir dos textos, mas como a abstrigo dos Textos a partir de outros momentos, Para mim, ess abstrasao € critica, assinalando preocupagées legiti- mas © excessivas com a forma. Eu explicaria © for malismo, no sentido negativo, em termos de dois Conjuntoy principais de determinagées: aquelas que detivam da localizagao social do “critico” € dos limi te dle uma pratica particular, © aguelas que derivam de problemat mentos de escolas criticas diferent "ls tedricas particulares — os instru: Embora haja ltuma associagio historica clara, especialmente no século XX, cntre “critica” e formalismo, nao existe nenhuma conexao necessaria re cles, Os formalismos particulares que mais me inte- Fessam — porque existem mais coisas a resgatar S80 aqueles associados com as varias discussoes es- truturalistas © pés-estruturalistas sobre 0 texto, a harativa, as posiges de sujeito, os discursos ¢ assim por diante. Inchio aqui, de gia forma necessaria- met we sintética, toda a Sequéncia qu vai da linguis tica de Saussure © da sociologin de [Lévi-Strauss pa vezes, chamado de ssando por Barthes © por aquilo que é, alzumas " até aos desenvolvimentos coloeados em movimento pelo narca semiologica 1”s maio de 1968 ma critica de inema, na semiologia ¢ na teoria narrativa, incluindo a complicada interse- io entre O marxismo althusseriano, as semiologias mais recentes « partilham certos limites paradigmaticns que eu cha a Psicanilise. Apesar de suas varia és, esas abordagens das “priticas de significagio” mo de “miopias estruturalistas” Elas sio limitadas, de uma forma muito finda- inental, por permanecerem no interior dos termos da analise textual. Mesmo quando vao além dela, 78 elas subordinam outros Momentos 2 andlise textual. Em particular, elas tendem a negligenciar questdes sobre a producgao de formas culturais ou de sua or- Banizagio social mais ampla, ou a redurir questées de produsao & “produtividade” (ew diria, “capaci- dade de produzir”) dos sistemas de significacso ia existentes, isto é, das linguagens formais ou dos c6- digos. Elss também tendem a negligenciar questoes relativas As leituras feitas pelo publico ou subori- ‘ni-las as competéncias de uma forma textual de and- lise. Elas tendem, na verdade, a deduzir a leitura do Piiblico das leituras textmais do proprio eritico, Gos- taria de sugerir que 0 elemento comum em ambos esses lim es € uma filha tedrica central — a auser cia_de uma “teoria” pds-estruturalista (ou deveria dizer, pés-pos-esinaturalista?) adequada da subjeti- vidade. Esta auséncia é uma auséncia que é enfatiza- abordagens; constinaia, Acusasio importante contra os an- da no interior dessas propria na verdade, un tigos mai istas 0 fato de que thes faltava uma “teo- ria do sujeito”. Esta auséncia € compensada, de uma forma bastante insatistitéria, pela combinagio de un anilise textual com a Psicanilise, em uma descrigio a subjetividade que continua muito abstrata, “fra ca” € no histériea © também, em minha opinio, excesivamente “objet Para sumariar as limitigdes, nao existe, aqui, nenhuma analise da génese das for: mas subjetivas © das diferentes formas pelas quais ox seres humanos as inibem. A NEGLIGENC ‘A DA PRODUGAO. Este € 0 ponto mais ficil de ilustrar. E a diferen 4, por exemplo, entre os Estudos Culturais na tra digo do CCCS, especialmente a apropriagdo pelo CCCS das anilises de Gramsci sobre a hegemonia e, digamos, a tendéncia tedrica principal da revista de critica cinematogrifica associada com o British Kilm Institute, Screen. No contexto italiano, a compara Sa0 poderia ser entre as tradigdes semiologicas “pu ras” ¢ os Esnudos Culturais. Enquanto os Estudos Cc histéricos, mais preocupades com conjunturas ¢ lo turais de Birmingham tenderam a se tornar mais calizagies institucionais particulates, a tendéncia da critica cinematografica, na Inglaterra, tem sido, em vew disso, na outra direcdo, Inicialmente, uma anti 22 preocupagio marxista com a produgIo cultural & em particular com o cinema, com a indiistria e com 38 conjunturas da produgio cinematogritica, era co: mum tanto na Inglaterra quante na Eranga. Mas, tal COMO as re nificas francesas, Screen tomou-se, nos vistas cinemato anos 70, cresee ntemente preocupada 80 Renos com a producio como um processo social ¢ historico © mais com a “produtividade” dos propri Os sistemas cle significagdo; em particular, com os mncios de representagio do veiculo cinematogrifico, Argumentou-se mais explicitamente em for dessa mudanga nao apenas nas eriticas das torias realistas de cinema ¢ das estrunuras realistas do. proprio filme convencional, mas também na critica do “super-re alismo” de (cclebrados) marxistas como Eisenstein ¢ Brecht. Ela fez parte de um movimento mais am Plo que colocava uma énfise crescente nos meios de Fepresentagio em geral © argumentava que tinha. mos que escolher entre a autonomia virtual ¢ a de terminagzo absoluta da “signiticagto” ou retomar a consisténcia do marxismo ortodovo, Como diz uma clegante mas exagerada ¢ unilateral expressio, sio 08 mitos que narram © eriador do mito, a lingua que fala o falador, os textos que lecm 0 leitor, a proble- matica tcoriea que produz a “eigncia” a ideologia e © discurso que produzem 0 “suijeito Havia, sim, uma andlise da produgio neste tra batho, mas tranava-se de uma nitive bastante fraca Se pensamoss na produdo como envolvendo materi ais: brute » instrumentos ou meios de produ formas socialmente organizadas de trabalho huma nO. a8 aniss fimicas fetes por Screen, por exemplo, estavam fcalizacas de forma estreita em alguns dos instrumentos ¢ meios de produgio/representagao, Digo “alguns” porque as teanas semiologi influcnciadas tém tido uma tendéncia a inverter as Prioridades de abordageny marvistas mais antigas da produgio, focalizando-se somente em alguns nente meios culturais, aqueles, na verdade, que a econo mia politica negligencia. A teoria do filme dos anos 70 reconhecia 4 natureza “dual” do circuito cine mitico, mas estava_ preocupada, principalmente, em analisar 0 cinema como uma “maquinaria mental?" Esta era uma escolha compreensivel de prioridacles, mas que foi, com fiequéncia, perseguiida de wma for ma hipereritica © ndo cumulativa. Mais séria foi a negligéncia relativamente ao trabalho, . 8 atividade humana real de produgio, Outra ver, isso pode ter sido, em si, uma reagio exagerada contra idelas mais antigas, especialmente neste caso, contra a teoria do aueur, ela propria uma concepyio enfaqueeida do trabalho! A negligéncia relativamente & atividade humana (estruturada), especialmente a negligéncia relativamente aos conilitos em tors de todos os pos de producdo parece, em retrospecto, a ausén ccia mais impressionante. Assim, embe pa concepedo de “pritica” fosse muito invocada (por exemplo Pritica de significagio"), tratava-se de uma pritica bastante sem “prixis”, no velho sentido marxista, Os efeitos disso foram especialmente importantes nas dis- CussOes, As quai chegaremos, sobre fextos € sujeitos. A aritica pode, entretanto, ir um passo adiante: trata'se cle uma concepio muito limitada de “meios”, Havia, na tcoria da Screen, uma tendéncia a olhar apenas para os “meios” especificamente cinematogri ficos — os cédigos do cinema, As relagdes entre esses Meios € outros recursos ou condigdes cullturais nao ram examinadas: por cxemplo, a relagio entre os cé dligos do realismo e 0 protissionalismo dos cineastas oa relagio entre os meios, de forma mais geral, ¢ 0 Estado € 0 sistema politico formal, Se esses elementos Podium ser considerados como meios (eles podiam amber ser pensados como relacées socias de prot S40), os materiais brutos da produgio estavam tany- bém, em grande parte, ausentes, especialmente em suas formas culturais, Poi © cinema, como outros Imeios priblicos, pega seus matetais brutos do campo Preexistente dos discursos politicos — isto & de toclo, 2 campo € nio apenas daquele segmento chamacio “cinema” — e, sob 0 tipo de condigdes que nds exa minamos, também dos conhecimentos privados, Uma critica da propria nogao de representagao (vista como indispensivel & critica do realismo) fez com que se tornasse dificil para esses te6ricos trazer para suas anilises filmicas qualquer reconheciment muito ela borado daquilo que uma teoria mais antiga, mais ple ha, poderia ter chamado de “conteido”. O cinema ¢, depois, a televisio cram analisados como se tratasse, Por assim dizer, apenas “de” cinema ou televisio, sim. plesmente reproduzindo ou transformando as for ‘mas cinematogriticas ou televisuais, nao incorporando © tanstormando discursos primeiramente produyi- dos em outro local. Desta forma, o texto cinemato- Brifico era abstrafdo do conjunto global de discursos € relagdes sociais que 0 rodeavamn © 0 formavam Uma importante limitagio adicional em grande parte deste trabalho era sua tendéncia a recusar qual quer gesto explicative que fosse alm dos meios tentes de representayio, fosse ele a lingua, uma “pritica de significagio” particular, ou, na verdade, um siste- ma politico, A andlise ficava limitada aos meios text ais € aos “efeitos” (apenas) textuais. Os meios nao cram concebiddos, historicamente, como tendo seu pro- prio momento de produyao. Esta ndo era uma difi- suldade localizada de anilises particulares, mas uma auséncia tedrica geral, eneontrada nos primeiros mo- delos influentes da teoria, A mesma dificuldade as sombra a linguistica saussureana. Embora as regras do sistema de linguagem determinem os atos de fala, © desenvolvimento cotidiano de formas linguisticas 83 Parece nio tocar o sistema de linguagem om si, Isto come, etn parte, porque seus principios sio concebi dlos de forma tio abstrata que a mudanga historiea ou 4 variasio social deixam de ser detectadas, mas isto cxorre também porque nio existe nenhum momento cle proclugao verdadeiro do sistema de linguugem em Si Insights cruciais sobre a tinguagem e sobre outs sistemas de signifcagio s30, pois, excluides: a saber, Ue a linguagtens Sio procuzidas (ou diferencias), reproduzidas © modificadas pela pricy humana sor cialmente organizada © que nio pode haver nenhuns linguagem (exceto una linguuagem morta) sem fale fess € que a linguagem & continuamente disputada em suas palavras, em sua nKAKE ¢ eM stat Fealizagao dis aA tim de recuperar esses insights, os estudi {sos ca cultura qu esijam interesados ma lingtagem tem qu curs Sair das tradigdes semioligicas predontinan- temente francesas, © voltar a Ba marist da linguagem flu htin — © fildsotes OU tecorter 4 pesquisa in da pelo trabalho de Remstein ou Holliday LESTORES NOS TEXTOS; NEITORES NA SOCTEDADL © elementa mais caracteristies das semiole, las Mais recentes € a assersio de que el 8 proporcionan uma teoria da produgio de sujeitos. Inicialmente, a ausersio estava baseacla numa oposisao filosdfica ge ral as concepedes humanistas de um “cu” ou sujeito simples © unificado, colocado, de forma nio proble- matica, no centro do pensamento, da moral ou da waliagao estética. Este elemento do estruturalismo nha afinidades com argumentos similares em Mare sobre os sujeitos das ideologias burgutesas (especial: ‘mente sobre as premissas ca economia politica) ¢ com 4 anilise, fit por Freud, da contradicao da perso nalidade humana, A “semiologia avangada” apresenta di madas de teorizacio da subjetividade. as quais «i diffccis de desenredar” Esse conjunto eomplicado de fisdes ¢ enredamentos combinava importantes insights com desastres tedricos, O insivht crucial, Para mim, € que ay narrativas ou as imagens sempre implicam ou constroem uma posigto ow posigdes & partir das quais clas devem ser lids ou vistas. Em. bora o conceit de “posigao” continue problematic (trata-s ou, como © termo implica, alguma ~ Sa Ca ¢ de uum conjunto de competéncias culty ujeigaey ecessitia ao texto?), temas ai um insighe fAscinante, especialmente quando aplicado as imagens visuais ¢ a0 filme. Nos temos, agora, uma nova perspectiva a partir da qual poclemos analisar 6 trabalho feito pela 86 camera: cla nio se limita a apresemtar um objeto; ela, na verdade, nos posiciona relativamente a ele. Se acres. Centamos a isso © argumento de que certos tipas de textos (os textos “realistas”) naturalizam os mieios pelos quais este posicionamento ¢ atingido, temos um insight duplo de grande forga. A promessa particular consiste em tornar processos até ali inconscientemen te soffidos (¢ fruidos) abertos 3 andlise explicita, No contexto de meu proprio argumento, a im- Portincia desscs insights esté em que eles propiciam tuma forma de fizer wins conexao entre, de um lado, 4 anilise das formas textuais ¢, de outro, a explora. S80 das intersedes com as subjctividades dos leito res. Una anilise cuidadosa, elaborada, hierarquizada das posicdes de Ieitura oferecidas em um texto (na estrutura narrativa on nos modos de enderegamen- to, por exemplo) parece-me © método mais desen volvido que nés temos, até agora, dentro dos limites da analise textual. Naturalmente, essas Jeituras nao deve: iam ser tomadas como negando outros méto: dos: a reconstragao dos temas manifestos de un texto, cus momentos denotativos © conotativos, sta pro blematica ideoldgica om seus pressupostos limitado- res, suas estratégias metaforicas ow linguisticas, O objeto legitimo de uma identificagio de “posigoes” & constituicle pelas presses ou tendéncias das formas subjetivas, pelas “diregdes” nas quais elas nos mo vem, sua “forga” — uma vez ocupadas as posigde: As dificuldades surgem — ¢ clas sto muito numero- sas — quando se da como certo que elas foram efeti- vadas na subjetividades dos leitores, sem formas adicionaiy ¢ diferentes de anilise. As fascinagdes da teoria tornam um tal movi- mento muito tentador, Mas passar do “leitor no texto” para “‘o leitor na sociedade” € passar do momento mais abstrato (a anilise de formas) para ‘© objeto mais concreto (os leitores reais, tais como cles sio constituidos socialmente, historicamente, culturalmente), Isto significa, convenientemen- te, ignorar — mas nao explicitamente como uma abstracio racional — uma série enorme de novas determinagdes ou presses das quais nés devemos agora dar conta, Em termos discipli mos de um terreno usualmente coberto por abor ares, NOs va dagens literarias para o terreno mais conheeido das competéncias historicas ou sociolégicas, mas © novo € comum elemento, aqui, é a capacidade para lidar com uma massa de determinagdes coexisten: tes, as quais agem em niveis muito diferentes. Isso nos leyaria a uma longa ¢ complicada explo. ragio do momento da “leitura”, para testar ¢ avaliar toda a enormidade desse salto.* Existe espago, aqui, a7 apenas para enfatizar umas poucas dificuldades em tritar a leitura néo como recepgio ou assimilacio, mas como sendo, ela propria, um ato de producto. Se 0 texto € o material bruto dessa pritica, nds en. contramos, outra vez, todos os problemas dos limi: tes textuais. O isolamento de um texto, com vistas a tama andlse académica, € uma forma muito especifi a de leitura, De forma mais cotidiana, os textos sio Promiscuamente encontrados, eles exem sobre nis tle todas as ditegdes, através de meios diversificados © cocxistentes € em fluxos que tém diferentes rit mos. Na vida cotidiana, os materiais textuais sio com- plexos, miltiplos, sobrepostos, coexistentes, Nstapostos; em uma palavra, “intertextuais”, Se usar mos uma categoria mais jgil como “discurso”, para indicar clementos que atravessam difer entes textos, Poxlemos dizer que todas as leiuaras io tambény inter, discursivas. Nenhuma forma subjetiva anu, jamais, Por conta propria, Tampouco podem as combina. $628 ser preditas por meios formais ou légicos, nem mestno a partir da andlise empitica do campo do dis- curso,piiblico, embora, naturalmente, isto possa sir Berir hipdteses. As combinagdes advém, em ver di de légicas mais particulares — a atividade estrutn Tada cla vida, em seus lados objetivos ¢ subjetivos, de Icitores ou grupos de leitores suas localizagées socia is, suas historias, seus interesses subjetivos, seus mundos privados © mesmo problema surge se nés considerarmos 9s instrumentos dessa pritica ou os cédigos, as com peténcias e as orientagdes jd presentes no interior de um miliew social particular, De novo, eles nao sio previsiveis a partir de textos puiblicos. Eles per tencem a “culturas” privadas, no sentido em que o termo tem sido comumente utilizado nos Estudos Culturais. Eles s30 agrupados de acordo com “tor- mas de vida", Eles existem nos ensembles eadticos € historica mente sedimentados que Ciramsci carae- terizou através do conceito de “senso comum”. En tretanto, estes devem determinar os resultados de tos interpelativos par. ticulares ou, como prefiro, as formas das transtor: magdes culturais que sempre ocorrem nas leit longo ¢ curto prazo de mome: Tudo isso aponta para a centralidade daquilo que é comumente chamado de “context”. O con- texto determina 0 significado, as transformacoes ow a saliéne ia de uma forma subjetiva particular, tanto quanto a propria forma. © contexto inelui os Jementos culturais descritos acima, mas também O8 contextos das situagde: imediatas (por exemplo, o.contexto doméstico do lar} ¢ © contexto ou a con juntura histériea mais ampla x0 90 Entretanto, qualquer anélise ficaria incompleta sem alguma atengao ao préprio ato de leitura e sem uma tentativa de teorizar seus produtos. A ausén- cia de agao por parte do leitor é caracteristica das analises formalistas. Mesmo aqueles teéricos (por exemplo, Brecht, Tel Quel, Barthes em $/Z) gue Esto preocupados com a leitura produtiva, des. construtiva ou critica atribuem essa capacidade a tipos de texto (por cxemplo, “escrevivel” em ver de “legivel”, na terminologia de Barthes) ¢ nio, de modo algum, a uma histéria de leitores reais. Essa aniséncia da produgio no momento da Ieitara tem um paralelo na atribuicdo de produtividade a siste mas de significagao, Na melhor das hipsteses, atos Particulares de leitura si0 compreendidos como uma repetigao de experiéncias humanas primitias, Xatamente da mesma forma que uma eritica lite aria mais antiga buscava valores © emocdes huma: nas nj formalist ersais no texto, também os novos ‘es Compreendem a leitura como o revi- ver de mecanismos psicanaliticamente definidos, As andlises do olhar do. espectadr, baseadas na teoria lacaniana da fase do espelho, identificam alguns dos mados pelos quais os homens usam imagens de mulheres © se relacionam com herds” Essas anili- Ses realmente fizem uma ponte entre 6 texto v0 leitor. Existe uma enorme potencialidade para os Estudos Culturais no uso critico de categorias freu- dianas, isto ¢, to eritico quanto se tornou (au est se tomando) 0 uso de categorias marxistas, Entre tanto, Os usos atuais frequentemente fazem uma ponte entre o texto € o leitor a um custo: a simpli ficagio radical do sujeito social, reduzindo-0 a ne- cessidades originais, owas, infantis. E. dificil, desse modo, especiticar todos os dominios de diferenga que se deseja aprender, incluindo, surpreenden- 1 da hipoteses, as impli is restumem-se a uns poucos universais, exatamente da mesma forma que, ago rememte, 0 género. Na p a, sio apenas uns poucos elementos biisicos do tex to que nos interessam. Existem limites claros em um procedimento que descobre — em fenémenos de resto variados — os mesmos velhos mecanismos produzindo os mesmos velhos efeitos Uma auséncia nessas andlises € uma tentativa de descrever mais elaboradamente as formas superficiais tiva — que sio aspecto mais empi da subjetividade. Sera possivel que se pense que € hum os fluxos da fala interior © da narra: camente Obvio sta prestar atenedo A consciéneia dessa forma? Mas somos todos nds (nao somos?) usuarios continu: os, cheios de recursos ¢ absolutamente fienéticos de narrativas e imagens? E esses usos ocorrem, em par- te, dentro da cabega, no mundo imaginativo ou ideal que nos acompanha em rodas as ages. As nar Tativas ndo tém como dnico efeito o de nos posici onar, Usamos estorias realistas sobre o furaro para preparar ou plangjar, representando, por antecipa- io, eventos perigosos ow prazerosos, Usamos for- mas ficcionais ow fantisticas como forma de fuga ou escapismo, Contamos estorias sobre 0 passado, na forma de meméria, que constrocm versoes de quem nés atualmente somos. Talvez tudo isso este ja simplesmente pressuposto nas anslises formalis tas; trazé-tas para o plano frontal parece, entretanto, ter importantes implicagdes,” tornando possivel re- euperar os elementos de autoprodugio nas teorias da subjetividade. Isto sugere que, antes que possa- mos avaliar a produtividade de novas interpelagoes ou antecipar sua popularidade, precisamos reconhe cer quais estérias ji estio em agio. ‘Tuco isso envolve um movimento para além da- quilo que parece ser um pressuposto formalista stab- Jacente:.0 pressuposto de que os leitores reais sto apagados (como se apaga um quadro-negro) a cada encontro textual, para serem posicionadas ow libe- rads (como se foxsem um quadro:negro “limpo”) pela proxima interpelagio. As revisoes pos-estruturalistas que enfatizam a produtividade continua da lingua: gem ou do discurso como processo nio ajudam, ne cessariamente, em nada, aqui, porque nao esta absolutamente claro © que toda essa produtividade realmente produz. Nao e ria real da subjetividade, em parte porque 0 exphi- nandur, 0 “objeto” dessa woria, ainda precisa ser especificado. anilise do sequenciamento ott da continuidade das autoidentidades de um momento discursive para 0 ste, aqui, nenhuma Teo. m particular, ndo existe nenhuma seguinte, de modo que uma re-teorizagio da memé ria em termos discursivos permitiria, Uma yer que nao existe nenhuma andlise das continuidades ou daquilo que permanece constante ou acummulative. no existe nenhuma anilise das mudangas estrune rais ou dos rearranjos maiores de um sentido do cu. especialmente na vida adulta, Estas transformagoes esto sempre, implicitamente, referidas a formas tex iais “externas”, como por exemplo, textos revohu cionstios ou poéticos — em geral, formas de literatura. predispde © leitor a usar esses textos » existe nenhuma anilise daquilo que rodutivamen. te on de guais condigdes, além daquelas das proprias formas textuais, contribuem para conjuncuras re volucionatias em suas dimensdes subjetivas, De for ma similar, com uma tal carga colocada sobre o texto, 93 4 io existe nenhuma anilise de como alguns leitores (incluindo presumidamente os analistas) podem usar © textos convencionais ou realistas dle forma criti «a. Acima de tudo, nao existe nenhuma anilise da. quilo que eu chamaria de “aspectos subjetivos da lua”, nenhuma anélise de como existe um momen- f0 no fluxo subjetivo no qual os sujeitos sociais (in- dividuais ou colctivos) produzem narrativas sobre quem eles sio como agentes politicos conscientes, 'sto € como cles se constiruem a si mesmos politica, mente, Perguntar por uma tal teoria no significa Aegar os principais insights estruturalistas ou pc cstrutuirlistas: 0s sujeitos so contraditérios, frag mentados, produzidos, estio “em proceso”. Mas os seres humanos € 05 movimentos sociais também se esforgam para produzir alguma coeréncia ¢ conti- nuidade ¢, através disso, exercer algum controle s0- bre os sentimentos, as condigoes © os destinos F isto que quero dizer com uma anélise “pts pOs-estruturalista” da subjetividade. Isto envolve retormar a algumas questoes mais antigas, mas re- Tormuladas — sobre luta, “unidade” ¢ a produgio de uma vontade politica. Envolve aceitar os ini. shits estruturalistas como uma formulagio do. pro blema, quer estejamos filando dos nossos préprios Cus fragmemtados, quer da fragmentag2o objetiv ¢ subjetiva dos possiveis argumentos politicos; mas também envolve levar a sério aquilo que me parece ser a indicagao tedrica mais interessant dle uma autoprodugio discursiva dos sujeitos, cs Pecialmente na forma de historias ¢ memorias.*t a nogio ANALISES SOCIAIS — LOGICA E HISTORIA Espero que a légica de nosso terceiro conjunto de abordagens, as quais se focalizam na “cultura la", ja esteja clara. Para recapitular, o proble ma consiste em saber como apreender os momen: tos mais concretos ¢ mais privados da circulagio cultural, 18s0 coloca dois tipos de pressio. O pri meiro vai na direcio de métodos que possam de tos talhar, recompor e representar con; complexos de clementos discursivos ¢ nao discur: sivos tais como cles aparecem na vida de grapos sociais particulares. O segundo vai na direcio de ¢ social” ou de uma busca ativa de ele mentos culturais que nao aparecem na esfera pi blica ou que aparecem apenas de forma abstrata € transformada. Naturalmente, os estudiosos da cul tura tém acesso as formas privadas através de suas Proprias exp. sociais. Este € um recurso continuo, tanto mais se uma “and iéncias ¢ de seus proprios mundos 96 cle for conscientemente especificado € se sua rela tividade for reconhecida, Na yerdade, uma auto- critica cultural deste tipo € a condigao indispensivel para se evitar as formas ideolégicas mais grosseiras de estudo cultural? Mas a pri- Meira ligio, aqui, € a do reconhecimento de dife rengas culturais importantes, especialmente as que atravessam aquelas rela der, a dependéncia ¢ a des em jogo. Existem perigos, pois, no uso de um au toconhecimento individual ou (limitado) coleti Vo, no qual os limites e sua representatividade ndo Tejam mapeados, € no qual seus outros lados — comumente os lados da falta de poder — sejam simplesmente desconhecidos. Isto continua uma Ses sociais na quais 0 po: ualdade estejam mais Justificagso para formas de estudo cultural que tomem os niveis culturais de outros (frequente mente os lados inversos de nosso proprio) come o objeto principal. Temos que manter um olhar inquieto sobre as linhagens historicas © as atuais orodoxias daquilo que €, algumas vezes, chamado de “emografia” a pritica de representago das culturas dos outros, A pritica, tal como a palavra, jd amplia a distincia ‘onhecimento-como. poder”, “Estudar” formas culturais € ja diferir de Social © constedi relagdes de luma ocupagio mais implicita da cultura, que € a Principal forma de “senso comum” em todas os grupos social Giais — os “intelectuais” pociem ser étimos em des- (B quero dizer todos os grupos so- crever 08 pressupostos implicitos de outras pessoas, mas sio to “implicitos” quanto quaisquer outros quando se trata de seus préprios pressupostos). Em particular, os anos iniciais da pesquisa da “Nova Esquerda” — oy anos 40 ¢ 50 c inicio dos anos 60 — envolviam um nove conjunto de relagies entre 08 sujcitos € os objetos da pesquisa, especial- mente ao longo de relagdes de classe.** Os movimen- tos inteleetuais associados com o femninismo ¢ 0 trabalho de alguns intelectuais negros tém transfor- mado (mas nio abolitic) também essas divisdes soci- ais. Experimentos em autoria baseada na comunidade tém também, dentro de limites, estabelecido novas relagdes sociais de produgio cultural e de publica- 30. Mesmo assim, parece prudente suspeitar nao necessariamente dessas priticas em si, mas de todas as analises delas que tentem minimizar 0s riscos ¢ as res- ponsabilidades politicas envolvidas ou resolver, de forma magica, as divisoes sociais remanescentes, Uma vex que as relagdes sociais fundamentais nao foram transtormadas, a analise social tende, constantemen te, a retomar as suas velhas ancoragens, patologizando 7 98, as culturas subordinadas, normalizando os modos dominantes, ajudando, na melhor das hipdteses, a construir reputagdes académicas sem retomos pro: Porcionais aquelas pessoas © Aqueles grupos que sio representadas. Além da posigio politica isica (cle que lado estdo os pesquisadores?), muito depende das for- mas teoricas especificas de trabalho, muito depende do tipo de emogratia LIMITES DA “EXPERTENCIA” Parece haver uma estreita associagdo entre, de um ado, etografias (ow histérias) baseadas numa atita- de de simpatia para com a cultura estudada ¢, de ou. tro, modelos empiristas ou “expressivos” de cultura, A pressio vai no sentido de representar as culturas vividas como formas amténticas de vida e de defende- las contra o ridiculo ou a condescendéncia. As pes- uisas desse tipo tém sido frequentemente usadas para criticar as representagdies dominantes, especialmente aquelas que tém influéncia sobre as politicas piblicas, As pesquisicloras tém frequentemente feito um trae balho de mediagio entre © mundo operitio privado (muitas vezes 0 mundo de sua propria infincia) ¢ as definigoes — com seu vies de classe média — de es "1 piblica, Uma forma muito comum de defender as culturas subordinadas € a pritica de enfitizar os lagos centre 05 lados subjetivos ¢ objetivos das priticas po- pulares. A cultura operitia tem sido vista como a ex presto auténtica de condigoes proletitias, talvez a linica expressio possivel, Essa relagio ow identidade tem, as vezes, sido fundamentada em antigos press Postos marxistas sobre a consciéneia da classe ope tia. Um conjunto similar de pressupostos baseia.se em alguns escritos feministas sobre a cultura, os quais tetratam ¢ celebram um mundo cultural feminino © distinto que seria 0 reflexo da condigio feminina, O termo que mais comumente marca este quadro de referéncia teorico & “experiéncia”, com sua caracte- Tistica fusio de axpectos objetivos © subjetivos. Eyses quadros de referéncias produzem gran des dificuldades, inclusive para as proprias pesqui sadoras. A anise secundaria e a re-presentacio serio sempre problemticas ow invasivas se as formas cul- turais “espontineas” forem vistas como a forma ne- cessiria ou completa de conhecimento social. A ‘inica pritica legitima, neste quadro de referencia, consiste em representar, de alguma forma em seus proprios termos, um segmento nao mediado da pré- pria experigncia auténtica. Existe também una pressto siematica para que as cculturas vividas sejam apresentadas, primariamente, 99 Gm termos de homogencidade « distingao, Essa pres So tedrica, em concepgtes 1s como “modo global de vida", toma-se surpreendentemente clare quan do se consideram quesites de nacionalismo ¢ racis- mo. Existe uma incémoda convergéncia entre dleserigtes “eriticas™ mas rominticas da “cultues da classe operitia” © noses que supiem a exsténcis de time “identidade inglesa” comm ou de uma etnia branca. Tambm aqui encontramos o terme “onacis de vida”, utlizado como se as “culturas” fosicm blo. cos de significado carregacos sempre pelo mesmo con, junto de pessoas. Na ctnograta de esquerda, 0 termo tem sido frequentemente associado com uma sub-re Presentaedo de relacies que nio sejam de clase e com agmentardes no interior das casses sociais* A principal auséncia no intetior das teorias ex Dressivas é @ atendo acs meios de significacio como lima determinagdo cultural especifica. Nao existe melhor exemplo de divércio cntre a andlise formal « ps “estudlos concretos” do que a raridade da andlise lingufstica no trabalho histérico ou emogritien ‘Tr Como boa pare da anilise estnituralsta, pois, ae et nografés frequentemente ttabalham com uma ver gnmeada de nosso circuito; mas 0 que est ausente, aati € todo o arco das formas “pablicas”. Enfatizam Se, assim, a eriatividade das formas pr vadas © a con- 100— = : tinua produtividade cultural da vida cotidiana, mas no sua dependéncia dos materiais ¢ modos de pro- dugio pablica. Metodologicamente, as virtudes da abstragio s20 evitadas, de modo que os clementos se- Paradas (ou sepaniveis) das culturas vividas nao sto deslindados ¢ sua complexidade real (em contraste com sua “unidade essencial”) no é reconhecida A MELHOR ETNOGRAFIA Nao quero dar a entender que esta forma de estudo cultural esteja intrinsecamente compro metida, Pelo contririo, tento vé-la como a forma privilegiada de anilise, tanto intelectualmente quanto politicamente. Talvez isto fique claro ao revisarmos, de forma breve, alguns aspectos dos melhores estudos etmogrificos feitos no centro de Birmingham. Estes estudos tém utilizade a abstragio e a descr ‘0 formal para identificar clementos eruciais em um ensemble cultural vivido. As culturas sio lidas “tex- tualmente”. Mas clas também tém sido vistas através de uma reconstigao da posigio social dos ususrios Existe uma grande diferenga, aqui, entre uma “etno grafia estrumural” © uma abordagem mais ctnometo. dolégica, preocupada exclusiva nente com © nivel do. 101 significado, © em geral, no interior de um quado de referéncia individualist. Essa é uma das navies, por exemplo, pelas quais o trabalho feminista do Centro tem estado tio preocupado com a teorizacio da posi S40 das mulheres quanto com “falar com as garotas”. Temos tentado combinar a anilise cultural com uma Sociologia estrutural (as vezes demasiadamente gene- ralizach) centrada no géneto, na classe ¢ na raga, A caracteristica mais distintiva € constituida pelas conexdes feitas entre ensembles culturaig vividos ¢ formas ptiblicas. Tipicamente, os esti dos tém se preocupado com a apropriacio de ¢ mentos da cultura de massa € sua transformacio de acordo com as necessidades € a légica cultural dos grupos sociais. Os estudos sobre a contribui- so das formas culturais de mas. 8a (misica popu lar, moda, drogas, ou motocicletas) para 0s estilos subculturais, sobre a utilizagio das formas cul- turais populares pelas garotas ¢ sobre a resistén cia dos garotos a0 conhecimento ¢ a autoridade da escola si0 exemplos disso. Em outras palavras, os melhores estudos da cultura vivida, sto tam. bém, necessariamente, estudos de “leitura”, & desse ponto de vista — o da intersegdo entre fo mas public ope i s € privadas — que temos a melhor tunidade de responder aos dois conjuntos cen 102—— trais de quest6es As quais os Estudos Culturais, de forma correta, continuamente retornam, O primeiro conjunto diz respeito ao prazer da “popularidade” © ao valor de uso das formas cul- turais. Por que algumas formas subjetivas adqui- fem uma forga popular, tornando-se principios de Vida? Quais so os diferentes modos através dos quais as formas subjetivas sio ocupadas — ludica mente ou numa profuunda seriedade, através da fan trata da coisa tasia ou em acordo racional, porque a fazer ou da coisa a mio fazer? © segundo conjunto de questdes diz respeito aos resultados das formas culturais. Tendem essa formas culturais a reproduzir as formas existentes de subordinagao ou opressio? Els satistizem on ambigdes sociais, definindo os desejos de forma muito modesta? Ou sdo clas formas que per mitem um questionamento das relagdes existentes € sua superagio em termos de desejo? Elas apon- um tos como esses niio podem ser feitos com base na ara arranjos sociais alternativos? Julgamen: anilise apenas das condigdes de produgio ou dos textos; eles terio melhores respostas depois que ti vermos descrito uma forma social diretamente atra vés do circuito de suas transtormagdes ¢ tivermos feito algum esforgo para coloci-la no interior de 103 104 todo 0 contexto de rela Ne 'sSes de hegemonia no inte- rior da sociedade. FUTURAS FORMAS DOS ESTUDOS CULTURAIS: DIRECOES Cada abordage: lativamente aquele momento tamente em vista, mas ela €, muito evidentemente. inadequada ou até mesmo 1 “ideologica”, como uma deserigio do todo, Entretanto, cada abordagem tam. bem impli i Gs Poderiam ser buscadas. Esscs discursos sio, em Beral, dirigidos a retormadores insti oa 8 Partidos politicos de esquerda. Os estudos baseados ho texto, a0 se focalizarem nas formas dos produtos culturais, tém, em geral, se preocupado com as possi bilidades de uma prética cultural ranstormativa. Eles tém se dirigido, mais frequentemente, aos pratican- tes de vanguarda, aos crticos ¢ aos professores. Ess abordagens tém atraido, especialmente, educadores profissionais em faculdades ou escolas, porque os co- nhecimentos apropriados pritica critica tém sido adaptados (ndo sem problemas) a um conhecimento apropriado a leitores criticos, Finalmente, a pesqui sa das culturas vividas tem estado estreitamente as- sociads com uma politica da “representagao”, apoiando as formas vividas dos grupos sociais su- bordinados ¢ criticando as formas publicas domi nantes luz de sabedorias ocultas, Este trabalho pode, inclusive, aspirar a contribuir para tornar hegemd- nicas culturas que sio comumente privatizadas, es- tigmatizadas ou silenciadas. E importante enfatizar que o circuit nao foi apresentado como uma descrigio adequada de pro cessos culturais ou mesmo de formas culturais ele mentares. Nao se trata de um conjunto completo de abstragdes em relagto as quais toda abordagem parcial possa ser julgada. Nao constitui, portanto, uma estratégia adequada para 0 futuro’ a operacio de simplesmente adicionar os trés conjuntos de 105 106 abordagens, usando cada uma em seu respective Momento. Isso ndo funcionaria sem que houvesse transformagdes em cada abordagem ¢ talvez em ‘Rosso pensamento sobre os “momentos”. Por um ‘ado, existem algumas incompatibilidades te6ricas reais entre as abordagens; de outro, as ambigoes de muitos projetos jd sto bastante grandes! E impor- fante reconhecer que cada aspecto tem uma vida propria, a fim de evitar redugdes, mas, depois di 80, pode ser mais transformativo repensar cada mo- mento A luz dos outros, importando — para outro momento — objetos © métodos de estudo comu- mente desenvolvidos em relagao a um determina. do momento, Embora separados, os momentos nao S20, na verdade, autocontidos; precisamos, portan- to, analisar aquilo que Marx teria chamado de “co. nexdes internas” ¢ identidades reais” entre eles Aquelas pessoas preocupachs com estudos de pro- ducao precisam examinar mais de perto, por exem- plo, as condig6es especificamente cul Produgao, Isto incluiria as questdes semiol formais sobre os codigos ¢ Iturais de lOgicas mais 3S convengdes nos quais se baseia, digamos, um programa de tele formas pelas quais cle os retrabalha cluir também uma gama mais discursivos — problennsticas ¢ io ¢ as ‘eria que in ampla de materiais remas ideolégicos que pertencem a uma conjuntura social © politica mais ampla, Mas ji no momento da produg30, nés esperarfamos encontrar relagdes mais ou menos in timas com a cultura vivida de grupos sociais part culares, nem que seja apenas a dos produtores, Os clememtos discursivos ideoldgicos seriam usados ¢ transformados também a partir daj. Digo “ji”, uma vez. que no estudo do momento da produgio pode- ‘mos antecipar os outros aspectos do proceso mais amplo ¢ preparar o terreno para uma anilise mais adequada. De forma similar, precisamos desenvol- ver, além disso, modos de estudos textuais que se articulem com as perspectivas da produgio € da lei tura, Pode muito bem ocorrer, no contexto italiano, onde tradigdes semiolégicas ¢ literirias sio tio for tes, que essas sejam as transformagdes mais impor- tantes. Ei possivel procurar por sinais do processo de produsao em um texto: esta € apenas uma das ma neiras fitels de transformar a preocupagio bastante ainda dominava a improdutiva com o *viés” que discussio sobre os meios “factuais”, E também pos- csentugdo desde sive ler os textos como formas de reps que se compreenda que estamos sempre analisando a representagdo de uma representagao. O primero objeto, aquele que € represcntado no texto, no é um evento ou um fato objetivo: cle vem com signi- 108. ficados que Ihe toram stribuidos a partir de alguma outta pritica social. Desta forma, € possivel consi derar a relagio, se € que existe alguma, entre os o6. digos ¢ as convengdes caracteristicas de um grupo Social € as formas pelas quais cles so representados em uma telenovela ou em uma comedia. [sto nio constitul um exercicio apenas académico, ue ¢ cssencial se ter uma andlise desse tipo para ahidar a estabelecer a importincia do texto para este BrUPO Ou para outros grupos. Nao hé por que aban- donar formas existentes de anilise textual, mas fem que scr adaptadas 20 estuido das pritiea de leitura dos diferentes priblicos, em vez de tui-los, Parece haver, aqui, uma vez, estas as reais substi- u duas principais exigénci- 3s. Em primeiro lugar, a leitura formal de um texto tem que ser t20 aberta ou tio multiestratificada quan ‘0 Possivel, identticando, ceramente, posigdes pre Feridas ou quadros de referéncia prefereinciais, mas também leituras alcerativas © quadros de referén cia sttbordinados, mesmo que esses possam cernidos apenas como fragmentos ou ontratlicdes nas formas dominantes, Em segundo Inga, os analistas precisam abandonar, de uma ves Por toxlas, 0s dois modelos prine ser dis como is de. ss itor criti + leitura primariamente avaliativa (tr ata-se de a aspiragio um bom texto ou de um mau texto’) ¢ da anilise textual a ser uma “ciéncia objetiva”. O problema com ambos os modelos € que, ao des-rela- tivizar nossos atos de Ieitura, cles afastam de nossa te (mas ndo como uma consideracao autoconsci ppresenga ativa) nosso conhecimento de senso comum de contextos culturais ¢ de possiveis leituras mais amplhas, J4 observei as dificuldades aqui existentes, mas quero enfatizar a indispensabilidade desse re curso. As dificuldades sio mais bem enfrentadas, mas ndo totalmente superadas, quando *o analista” € um grupo. Muitos de meus momentos mais edia- cativos nos Estudios Culturais tém vindo desses di logos intemos em grupo, sobre as leituras de textos a0 longo, por exemplo, de experiéncias de género. Isso nao significa negar a disciplina real de uma lei tura detalhada, no sentido de cuidadosa, ma no sentido de confinada, ki descrigao cultural conereta ndo podem se permitir ignorar a presenga de estruturas textuais ¢ de for mas particulares de organizagio discursiva. ticular, precisamos saber © que distingue as form das — em seus modos bisicos de or- nio almente, aquelas pessoas preocupadas com a m par- s culturais pri ganizagao — das formas ptiblicas. Nés poderfamos, desta Forma, ser capazes de especificar linguistica mente, por exemplo, a relagio diférencial de grupos 109 Sosiais com os diferentes meios e os processos reais de leitura que estio envolvidos, Naturalmente, a transformacao de determina das abordagens tera efeitos sobre outtas, § lise linguistica levar em conta as determinagoes hist6ricas, por exemplo, ow nos fomecer formes de analisar as operagdes de poder, a divisio entre os sstudos da linguagem © os relatos conetetos seté Tompida. Isso vale também para a politica que the sts associada, Existem, no momento, pouicas ircas 0 bloqueadas pelo desacordo € pela icompreen S#0 quanto a relagio entre, de um lado, os tedricos & 0s Praticantes de vanguarda das artes c, de outro, aauelas pessoas interessadas em uma inidagio maie de base através das art ‘ea and- comunitirias, da escrita Cperiria, da escrita feminina e assim por diane De forma similar, & dificil dar uma ideia de amo mecinica, quo ineonscicnte das dimensdes cults Tals continua a sera politica da maior parte das fea Ses de esquerda. Se estou correto no men argumento de que as teorias esta 10 relacionadas a Pontos de vista, estamos filando nao apenas de de senvolvimentos te6ricos, mas também de algumas das condigdes para aliangas politicas eficares, 110- — NOTAS * Este ensaio é uma versio revista ¢ ampliada de palestras dadas no Departamento de Lingua Inglest do Instituto Universitario Orientale de Napoles © na Universidade de Palermo, em abril de 1983. Sou grato avs colegas em Napoles, Pescara ¢ Bari pelas produtivas discusses em tomo dos temas aqui levantados. Ao revise 0 en- sso, tants responder a alguns dos coment, espe almente aqueles sobre consciéncia e inconsciéncia Sou gtato 2 Lidia Curti, Laura : Michele ¢ ate ve a produgto deste ensaio € pelas suges pelo estimulo 4 produgac aol ete. ‘Bes; ao Conselho Briténice. pot © a08 amigos € estudantes (Categorias no mutuamente ' erem suportade as cexchisivas) de Birmingham por terem suportad muitas € diferentes versdes do “circuito’ > Os textos importantes sio HOGGART, 1958; WILLIA. MS, 1958; WILLIAMS, 1961 * Para um sumério ainda itil das respostas do Centre porary Cultural Studies (CCCS) a Althus- TERS, 1978. for Conten a set, vcja MeLENNAN, MOLINA and P * Veiay por exemplo, HALL, LUMLEY ¢ MeLEN- NAN, 1978. Mas as teorizagoes de Gramsci sio uma Presenga importante em grande parte do trabalho empirico do Ceatro a partir da metade dos anos 70, * Veja McLENNAN, 1982; JOHNSON, 1982 ———1 "E dificil de represemtar isto bibliograticamente, mas 08 Pontos principais estio assinalados em CCCS Women's Study Group, 1978; CCCs, 1982 Veja fambém as séries sobre mutheres ¢ raga nos ensaior mimeografados do CCCS. Esta nao é uma critica neva, mas cla ganhou forga renovada por causa da importincia da raca nos anos 70. Veja Gilroy, 1982. * Aleuns dcles, em um estigio inicial, sto discutides em CCCS Women’s Study Group, 1978, mas ha a necessidade de uma dis ‘cussHo realmente plena © consolidada das transformagses nos Fstuce rais advindas do trabalho e da eritica femninistas, Veja fambém McRobbie, 1980 ¢ os artigos de Hazel Car by © Pratibha Parmar em CCCS, 1982, os Cult, "Vela, por exemplo, HALL, 1978; HALL, 1980; HALL, HOBSON, LOWE WILLIS, 1980. Estes ensaios sto verses bastante abreviadas do curso s0- bre Teoria dado por Stuart Hall no CCCS, centrado nun mapeamento tedrico abrangemte do campo, Veja também minhas Proprias tentativa teorica, bastante influencia 6 de clatificagao das pelas de Stuart, espe cialmente em, Clark, Critcher ¢ Johnson, 1979, "“ WILLIAMS, 1958; 1976, " Para uma discussio da abstragio “histérico-geral” em Marx, veja JOHNSON, 1982, "0 diagrama baseia-se, em sua forma geral, em uma leitura da deseriglo que Marx faz do circuito do capi tal € suas metamorfoses. Para uma importante ¢ ori ginal discussio desta ¢ de questées relacionadas, veja MOLINA, 1982, Também importante @ HALL, 1980, " Temo que este e160 ilustrative seja, em geral, hiporético, uma vez que mio tenho quaisquer contatos dentro da administracio da British Leyland, Qualquer semelhan- ‘62 com pessoas vivay ou moras. simplesmente uma coincidéncis © um exemplo puro do poder da teorial 'Trata ta” c “culturalista” que Stuart Hall ¢ eu, entre ou- ¢ da divisio entre as abordagens “estruturals, tos, temos discutido, mas agora na forma de “objetos” © métodos © mao de “paradigmas”. Veja as fontes listadas na nota 9, além de JOHNSON, 1979. '© Mew pensamento sobre “o pablico ¢ 0 privado” & bastante influenciado por certas tradigoes germa nicas, especialmente as discusses em tamo de tra balho de Jiirgen Habermas sobre a “esfera pati Este tema estd agora, de forma interessante, sendir urilizado em alguns dos trabalhados feitas nos Estados Unidos. Veia HABERMAS, 1962; NEGT ¢ Ha 4 KLUGE, 1972. Para um extrato do trabalho de Newt © Kluge, veja MATTERLART e SIEGELAUB, ‘* WILLIS, 1979. Existe uma literatura soviolégica bastante ampla so bre estas formas de estigmatizagdo, especialmente dos desviantes jovens. Para uma extensio cultural deste trabalho, veja HALL et al., 1978, Para formas mais sts de marginalizagio, veja CCCS Media Group, Enstio Mimeografido n° 72, Para uma anilise atual do tatamento da esquerda © dos sindicatos ia midia britnica, veja a sequéncia de estudos feitos pelo Glas: Bow Media Group, 1976, © tivo de Cohen ¢ Young, 1973, 6 uma cok ines pioneira "Entre os melhores ¢ detalhados estudos deste tipo estlo ELLIOTT, 1972; SCHLESINGER,1978; TUNSTALL, 1971; HOBSON, 1982. As formas de “organizasio politica” nao estavam, com frequéncia, expecificadas em Marx ow nos te6. Tics que seguiram, até Lénin, este incluido, Pa- Fece-me que, para Lénin, a politica cultural continuava uma questto de organizagto e “propa ganda”, num sentido bastante estreito, "Os exemplos ce “arte” que, segundo Althusser, estaram fires dh ideolog, soo uma demonsirgio da penisiéncia desta visio no marxismo. £ interessante também aqui comparar as visdes de Althusser © de Gramsci telativa mente 3 “Filosofia”: Althusser tende a uma definigio que a coloca do lado da “alta cultura” ou a vé como uma atividade académica especializada; Gramsci, a uma definigio que a coloca do lado do “popular” “| Penso que a recepgaio predominante de Gramsci na Gri-Bretanha € “antileninista”, sspecialmente entre aquelas pessoas intetessadas na teoria do discurso. 4 apropriagio feita pelo CCCS © leninismo de Gramsci. Sou grato Mas pode ser qui subestime tambei 4 Victor Molina pelas discussdes sobre essa questio ham Murdo: politica dos * Veja, por exemplo, os trabalhos de Gi ck © Peter Golding sobre a economi incias de comunicagio de massas por exemplo MUR. DOCK ¢ GOLDING, 1977; MURDOCK, 1982, Para uma discussio mais explicitamente polémica do tra balho do CCCS, etal, Para uma réplica, veja Conne! ja Golding © Murdock, in Barratt 1978, ® Estes argumentos tém sua origem painima na ali de Althusser de que as ideologias materal, Para um argumemto chissico sobre este tipo de “materialismo”, veja COWARD ¢ ELLIS, 1977, Isto é bastante diferente do argumento de Marx de que, sob condisées particulares, as ideologias adqitirem uma “forca us Material”, ow ds claboragto que Gramsci faz termos das condigées de popiilaridade, isso em * Isto se aplica a uma gata ampla de teorias estrunura- listas ¢ pés-estruturalistas, desde os argumentos de Poulantzais contra nogdes reducionistas de ideologia re- fativamente & classe ané as posigdes mais radicais de Bar. TY Hindess © Paul Hirst © outros wéricos do “discuro” *°A ete respeito, encontro-me em desacorto com muitas Comentes dos Estudos Cuturas, incuinde algumas bas tanre influentes, que optam por um uso ampliado do Conecito de ideologis, mais no sentido bokehevique ou iy Rettido mais leninista dos (varios) usos fetos por Althusser. Por exemplo, a ideologia éaplicada no. importante curso sobre cultura popular da. Universi. dle de Osford — a formasio das subjetividades comp Ss. Quando assim amplindo, argumento que 0 terme Pete sua utlidade — *discurso”, “forma cultural” ere também serviriam. Globalmente, quero reter as eons. tases “negativas” ou “eriicas” do termo Maloy" no discurso marxisa clissico, embora nde, como ¢ acompanhamento usual — uma coneepgao do marxismo como cigne Pode muito bem SF © e380 de que toro nosse conhecimento do mundo © Todas as nossas concepgdes do eu. sejam ideologi 2s", 04 mais ou menos idcoligicas, na medida eng UE s¢ romam parcials pela agio dos intcresses € do poder, Mas isto parece-me ser uma proposigio que tem que ser plausivelmente argumentada em casos particu: lares em vez de ser simplesmente pressuposta no inicio de toda anilise. O sentido ampliado, “neutro”, do ter- mo ndo pode deixar totalmente de lado as conotagoes sio discuticlas egativas mais antigas. Estas questée ! de forma interessante no trabalho de Jorge Larrain, Veja LARRAIN, 1983; 1979. * Veja, especialmente, ADORNO, 1978; ADORNO. ¢ HORKHEIMER, 1973; BENJATM, 1973, Adomo, 1978, Mais tarde, cle fomece quadros leve- mente mais suayes de tipos de consumo de miisica popular, mas mesmo sua danga de fis assemelha-se aus “reflexes de animais mutilados” (p. 292), * Para eriticas mais claboradas, veja BRADLEY, CCCS Stencilled Paper 61; MIDDLETON, 1981 * CCCS Education Group,1 981, * A anilise do tharcherismo continuow a ser uma das prin: vocupagies de Stuart Hall. Veja os importantes cipais preocupagies de Stuart # enssios republicados em HALL © JACQUES, 1983. O eat Moning Right Show”, escrito antes da ckeigao de 1979, mostrou-se especialmente perspicaz. ensiio “The C “Ines pancariente ites em ina exes som binadks impacts Sto HARVEY, 1980; BENNETT, 1979. 17 © Veja, por exemplo, 0 trabatho de um grupo de “lin 2 Veja eopodialmerne; a Einga — ¢:qquase totamenns guistas criticos” inicialmente baseados na Universida- fica A revista Saen feita pelo Grupo de Midia do CCCS, de de East Anglia, especialmente FOWLER, 1979, 1977-78. Pars desta ertica estio em Hall et al, 1980. Sou especialmente grato.a Gunther Kress, que passou alguns meses no Centro, ¢ a Utz Maas, da Universi Picasa ects tices Fen ee side Geoabeuck, por Hactaes miles po nscear es. pla gama de wabalhos, alguns clos quais bastante eriticos be as relagdes entre Estudos da Linguagem ¢ Estudos do Formalism estrus, sobre 0 tema da narativa (Carli, Veja tumblan MAAS. 1982, a literatura, no filme, na televisio, na namrativa folk, no mito, na historia € na tcoria politica. Estow no meio de rande parte deste trabalho continua inédito, Tenho gran minha propria lista de Seitura, mengulhando neste: materi dks eperangas de que um dos pines lines do COCS apa deve teeta tent pao aL Nes seja uma coletinea sobre romance, Neste meio tempo, Pome paride ae sagt da nacre egal \cia English Studies Group, 1980; HARRISON, 1978; compare BARTHES, 1977 ¢ JAMESON, 1981, mas ¢s McROBBIE, 1978; CONNELL, 1981; Grifin, COCS tou mais interessido nos trabalhos qu, ena my nivel menor Stencilled Paper 69; Winship, CCCS Stencilled Paper 65; MICHEI de generalidade, especifica os géncros de narativa, Fui ee cestimulado, aqui, pelo trabalho sobre as narrativas filmi cas € televisivas. Ve, especialmente, os textos reunidos ‘em Bennett et al1981, mas também nas formas “aque: tipicas” de gine — a épica, o romance, a tragédit etc. — ialmente grato a Laura di Michele por tal como em FRYI levantar estas questdes relativamente ao “épico” © a * Grande parte deste trabalho esti conectado com 0 trabalho do Grupo de Meméria Popular, do CCCS, sobre a popularidade do nacionalismo conservador. Sou esp 1957. Minha preocupario particular € com as extérias que mutuamente os contamos, indivi dualmente ¢ coletivamente, A este respeito, a literatura é até agora, desapontadora, Graham Dawson por discusses sobre masculini dade, "guerra © cultura masculina adolescente. * Especialmente aqueles que derivam do trabalho de * BARTHES, 1973, p. 112. M.A. K. Halliday, que inelui o grupo de “linguis- tica critica”. Para Hallyday, veja KRESS, 1976 ™ Com isto q ro significar “pés-estrucuralismo” em sua designagao usual. Esse parece ser um rotulo 18 9 bastante enganader, uma vez que é dificil pensar na Ultima fase da semiologia sem a primeira ou mes- mo Foucault sem Althusser. * Bennett, “James Bond as popular Hero”, Oxford Popular Culture Course Unit, Unit 21, Block 5; “Text and social process: the ease of James Bond”, Screen Education, 1982 ighting over peace; representations of CND in the media”. CCCS Stencilled Paper, 72. Este projeto ainda nio foi completado; titulo provi sorio: “Jingo Bells: the public and the private in Christmas media 1982" “ “Modo de endergamento” & a tradugio de “mode of address”, expresso utilizada sobrerudo na analise 9 tmuturalists © pés-estruturalista do cinema para se refe- Fir as formas pelas quais 6 “texto interpela © “leitor”, posicionando-o ideolégica ou subjctivamente. Esti re. ticionado com © conceito, de “interpelagao” (qualquer + interpelagio € feita a partir de um determinady modo de enderegamenta) e com o conecite, de *posigio de suicito” (aos diferentes mados de enderegamento cor: Fespondem posigdes especificas de sujeito). (N. do T.) € termo tem sido usado para distinguir entre semiologias “estruturalis “pds-estruturalis tas”, com a incorporagio de énfases da psicandlise lacaniana como um importante divisor de aguas. A relagao da teoria da revista Screen com Brecht ¢ Eisenstein € bastante estranha, Caracteristicamente, as citagdes de Brecht cram tomadas como pontos de partida pars ayenturas que levavam a destinos bas- tante diferentes do pensamento do proprio Brecht. Veja, por exemplo, Colin MacCabe, “Realism and the cinema: notes on some Brechtian theses” in Ber nett et al, (orgs.). In: Popular television and film, “A instituigao do cinema nao ¢ apenas a industria do ‘inema (que fanciona para encher os cinemas, no para esvazid-los); € também a maquinaria mental — uma contra indistria — que 0 espectatores “scoxtumados a0 cinema’ imternalizaram hisricamente € que adapta- rZ, 1978, p. 18) ram para o consiamo de filmes” (MEE ” Q que segue deve muito a critica da revista Screen a0 CCS feita acima (nota 36). + Parece baver duas abordagens bem distintas relativa mente 8 leitura ou recep ima delas € uma entensto de preocupasdes literirias, 4 outra &€ mais sociologica ¢ com frequéncia advinda dos estudos da midia. Pens que o trabalho de Morey nesta irea € consistentemente imteressante como uma tentativa de combinar alguns elementos de ambos os conjuntos de preocupagies, —— —— —121 mora cu concorde com! sta avalasio de que ox pants mais explicita ¢ mais sistermitica, Neste sentido, os Es- Ae Pari inca do Centro, especialmente as nosis rudos Calturais conatittem uma forma clevada ¢ die de leinuras: “hegeméinicas”, “negociadas” ¢ “alte mativas” renciada das atividades e da vida cotidiana, As atividades Snir Gceshamente ers. Vein MORLEY, 1980; 1981 coletvas deste tipo, a0 tentar compreender nao spenas ® Veja a famosa anilise em termos de “escopofilia”, as experiéncias “comuns” (partilhadas) mas as diversi- em MULVEY, 1975. dades ¢ antagonismos reais, sio especialmente impor wf gi . tantes, se elas puderem ser administradas ¢ se estiverem E significati, por exemplo, que Barthes nao men: ‘i 2 sujeitas as adverténcias que se seguem. cione a narrativa “interna” em sua anslise da oni- i presenga da forma narrativa (BARTHES, 1977), Esta ESSE ER SS Pete etre a auséncia sugeriri ; uma dificuldade estruturalista Veja MORLEY © WORPOLE, 1982. Para uma visio ‘mais ampla com a fala interior? critica © mais exer, voit “Popular memory” em Making * As ideias dos Ghtimes parigratos estio ainda em vias de Hiner. Taisém into &o debs ne Ken Wor set trabalhadas no Grupo de Meméria Popular do Rey Stephen Vere Ghiey Whiae Sainael, 198), CCS. Para algumas consideracdes preiminares sobre © sariter dos textos oral-histéricos, veja Popular Me mory Group, “Popular memory: theory, politics, me- thea”. In: CCCS, Making histories, Considero alguns dos enssios em BERTAUX, 198], titeis para serem . discutidos, especialmente HANKISS, 1981 * © que segue se bascia, de uma forma talvez demasia : damente sintética, nos trabalhos de Paul Willis, An gela McRobbie, Dick Hebdige, Christine Griffin & Dorothy Hobson © em discussocs com outros pesqui ® Alguns dos trabalhos do CCCS nao estio isentos desta dificuldade, Algumas destas criticas aplicam- se, por exemplo, a Resistance through rituals, es. pecialmente a partes das sinteses tedricas, * Alguns dos methores e mais influentes trabalhos em Estudos Culturais tém sido baseados Pessoal © na meméria privada. O livro literacy, de Hoggart, experiéncia The uses of € 0 cxemplo mais celebyrado, mas, em geral, os estudiosos da cultura deveriam ter a cora gem de usar mais sua experigncia pessinll — de forma sadores ectnogrificos do Centro. Veja, especialmente, Willis, 1977; 1978; McRobbie, 1979; Griffin, CCCS Stencilled Papers 69 © 70. Para uma diseussio bastan te rar sobre método nesta area, veja Willis, 1980, 122 = 124 REFERENCIAS ADORNO, T. ¢ HORKHEIMER, M. Dialects of enii- ghinement. Allen Lane, 1973. ADORNO, T. On the fetish character of music and the regression of listening. In: ARATO, A.¢ GEBHARDT, E. (orgs.), Frankfiurt selioo! reader. Maxwell, 1978, BARTHES, R. Introduction to: the structural analysisofnar- ratives In: HEATH, Stephen (ong). Karthes on image, music, text, Fontana, 1977, BARTHES, R. Mythologies, Paladin, 1973 BENJAMIN, B. The work ofart in an age of mechanical feproduction. In: iluminations. Fontana, 1973 BENNETT, T. ct al. (orgs.). Popular television and film. BH/Open University, 1981 BENNETT, T. Formalism and marxise. Methuen, 1979, RE NEVT, T. James Bond as popular hero, Oxford po- ular cukure course unit, unit 21, block 5 BENNETT, Bond. So ~ Textand social process: the ease of Janies cen education, 41, 1982. BERTAUX, B. Biography and Society: The lite history approach in the social sciences. Sage, 1981 BRADLEY, D. Introduction to the cultural study of music CCCS Srencilled Paper, 61, CCCS Fikuation Group. Unpopulr ecacition: schooking and sodial democracy in enghnd since 1944, Hunchinson, 1981. Group. representations of the Campaign for Nuclear Disar mament in the media, CCCS Stencilled Paper, 72 Fighting over peace: CECS Women’s Study Group. Women take Issue Hutchinson, 1978 representations of CND rencilled Paper, 72 CCCS. Fighting over pe in the media. ECCS CCCS. The empire strikes back, Hutchinson, 1982. CLARK, J., CRITCHER, C. ¢ JOHNSON, RB. (orgs.). Working class culture. Hutchinson, 1979. COHEN, S. ¢ YOUNG, |. (orgs,). The manufacture of news. Constable, 1973 CONNELL, 1. Monopoly capitalism and the media: defi nitions and struggles. In; HIBBIN, , (org.). Politics, ideology and the State. Lawrence & Wishart, 1978, CONNELL, M. Reading and romance. Dissenagao de Mestrado inédita. University of Birmingham, 1981 COWARD, R. ¢ ELLIS, J. Language and materia lism: de opments in semiology and the theory of the subject, Routledge and Kegan Paul, 197. BLLIOTT, P. The making of a tclevision se ries! a ease study in the soxiology of culture. Constable/Sage, 1972, ENGLISH STUDIES GROUP.Recent develop- ments. In: CLARK, J. et al. Culeure, media, lan- Buage. Hutchinson, 1980. FOWLER, R. et al, Language and control, Row Hedge and Kegan Paul, 1979. FRYE, N. Anitomy of criacis. Princeton University Press, 1957. GILROY, P. Police and thieves. In: CCCS. The em Pire strikes back. Hutchinson, 1982. GLASGOW UNIVERSITY MEDIA GROUP. Dad news, Routledge & Kegan Paul, 1976. GOLDING, G. ¢ MURDOCK, P. Ideology and the mase media: the question of determination. In: BARRETT etal. (ongs.). ldeology and cultural production GRIFFIN, GC, CCC: Stencilled Papers, 69 © 70. GRIFFIN, ted C. Cultures of feminit S Stencilled Paper, 69, HABERMAS, J. Struktusw Neuweid, Berlin, 1962 romance revisi vandel der oxentlichkeit HALL, L. © McLENNAN, G. Politics and ideology Gramsci. In: ( °C8. On ideology. Hutchinson, 1978, 126 HALL, S. Cultural studies: nwo paradigms. Media, culture and society, 2, 1980, HALL, S. € JACQUES, M, (orgs.), The polities of thatcherism. Lawrence and Wishart/Marxism To- day, 1983. HALL, $8. Encoding/decoding. In: S. Hall et al Culture, media, language Hutchinson, 1980 HALL, S. et al, Policing the erisis: ‘mugging’, the 1978. state and nw and order. Macmil HALL, S. Some paradigms in cultural studies. Am glistica, 1978. A. ¢ WILLIS, we. Hutchin HALL, S., HOBSON, D., LOWE, P. (orgs.). Culture, media and lan son, 1980 HANKISS, A. Ontologies of the selfi on the mytholo gical rearranging of one’s life history, In; BER. TAUX, B. Biography and soetety: the life history approach in the social sciences: Sage, 1981 HARRISON, R. Shirley: romance and relations of dependence. In: CGCS Women’s Studies Group. Women take issue. Hutchinson, 1978 HARVEY, S. May 1968 and film culture. BFI, 1980. HEBDIGE, D. Subculture. Routledge, 1979 HOBSON, D. Housewives: isolation as oppressi- on. Tn: CCS Women’s Study Group. Women take issue, Hutchinson, 1978, HOBSON, R. Crossroads. Methuen, 1982 HOGGART, R. The wes of fiery, Pengatin Books, 1958. JAMESON, F. The political unconscious: narrative as a socially-symbolic act, Methuen, 1981 JOHNSON, R. Reading for the best Marx: history- writing and historical abstraction, In: CCCS, Making histories: studies in history writing and politics. Hutchinson, 1982 JOHNSON, R. Histories of culture/theories of ide ology: motes on an impasse. In: Barrett et al (orgs.). Ideology and cultural production, Croom Helm, 1979, JONES, P. Oryanie torellectuals and the English Cultural Studies. Thesis clever KRESS, G. (org.). Halliday: system and function in language, Oxford University Press, 1976, LARRAIN, J. Marxism and ideology. Macmillan, 1983 LARRAIN, J. The concept of ideology. Hutchinson, 1979 MAAS, U. Language studies and cultural analysis. Trabalho apresentado na Conferéncia sobre Lin- guagem e Estudos Culturais, CCCS, 1982. MacCABE, C, Realism and the cinema: notes on some Brechtian theses. In; Bennett et al, (orgs,). Popular television and silm. BEI/Open University Press, 1981, MATTERLART, A. ¢ SIEGELAUB, S. (orgs.). Com munication and class struggle, v. 2. McLENNAN, G., MOLINA, V. ¢ PE Althusser's theory of ideology. In: CCC ology. Hutchinson, 1978 MeLENNAN, Methodologies. In; COCS, Making his. tories: studies in history-writing and politics. Hu tchinson, 1982. McROBBIE, A. Working gitls and femininity, In: CCCS Women's Study Group, Women take issue. Hutchinson, 1978. McROBBLE, A. Settling accounts with sub-cultures. Screen Education, 34, 1980, McROBBIE, R. Working-class. girls and feminity In: CCCS Women’s Studies Group.Women take issue, Hutchinson, 1978, MET 2, C. The imaginary signitier. Sereva, 16, 2, 1975. 129 MICHELE, L. The Royal Wedding, CCCS Stencil- led paper, no prelo, MIDDLETON, R. Reading popular music. Oxford popular culture course unit, unit 16, block 4. Open University Press, 1981 MOLINA, V. Marx’s arguments about ideology, Tese de Mestrado. University of Birmingham, 1982. MORLEY, D. ¢ WORPOLE, K, (orgs.). The repu- blic of letters: working class writing and local publishing. Comedia, 1982, MORLEY, D. The nationwide audience. BEI, 1980. MORLEY, D. The nationwide audience: a posteript Screen Education, 39, 1981, MULVEY, L. Visual pleasure and narrative cinema. Screen, 16 (3), 1975, MURDOCK, G. ¢ GOLDING, P. Capitalism, commu- nication and class relations. In: J. Curran et al. (orgs. Mass communication and society. Arnold, 1977. . MURDOCK, G. Large corporations and the control of the communications industries. In: Gureviteh et al (omps.). Culture, sociery and the media. Methuen, 1982. NEGT, O. ¢ KLUGE, A. Offentlichkeit und cr- fhrung: zur organisationsanalyse von burgerli 139-———____ _ cher und proletarischer offentlichkeit, Frankfurst am Main, 1972 POPULAR MEMORY GROUP. Popular me mory: theory, politics, method. In: CCC Making histories SAMUEL, R. (org.). People’s history and socialist theory, Routledge and Kegan Paul, 1981 SCHLESINGER, P Putting ‘reality’ together: BBC News. Constable /Sage, 1978 las THOMPSON, E. P. A formagao da classe operiria inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. TUNSTALL, J. Journalists ar work. Constable, 1971. WILLIAMS, R. Chlture and society. Penguin Books, 1958, WILLIAMS, R. Keywords, Fontana, 1976, WILLIAMS, R. The long revolution. Penguin Books, 1961. WILLIS, P. Learning to labour, Saxon House, 1977. e: Ar (Aprendendo a ser trabalhador, Porto Al tes Médicas, 1991). WILLIS, P. Notes on method. In: Hall et al. Cultu re, media Janguage. Hurchinson, 1980 WILLIS, P. Profane culture, Routledge and Ke gan Paul, 1978 1a WILLIS, P. Shop-floor culture, masculinity and the wae form, In: J. Clarke, C. Critcher ¢ R. Johnson, (orgs.), Working class culture. Hutchinson, 1979, WINSHIP, J. Woman becomes an individual: femi nity and consumption in women's magazin CCES Stencilled Paper, 65, Estudos Culturais: uma introducgao Ana Carolina Escosteguy Este trabalho tem por objetivo apresentar a tradi io dos Estudos Culurais! especialmente para aque las pessoas que se iniciam no estudo das teorias da comunicagio. Assim, é preciso percorrer a trajetéria desta tradigio, dos seus antecedentes até 0s contomos que este campo de estudos assume na atualidade, Res salta-se que, neste momento, esta incursdo ¢ apenas brevemente delineada devido a0 propésite inical des te texto, embora estejam indicadas imimeras referén «cas bibliogrificas que servem de pistas para preencher as lacunas deste percurso. necessirio estabelecer, também, um recorre den to deste vasto empreendimento diversificado € con troverso dos Estudos Culturais. Nossa discussio limita-se a recuperar posigdes ¢ trabalhos que lidam ‘agao cultura/comunicag3o massiva e, den. tro desta, aqueles que enfocam produtos da cultu ra popular (considerados através da categoria “texto™) € suas audiéncias, Se originalmente os Estudos Culturais foram uma invengao briténica, hoje, na sua forma contem. Porinea, transformaram-se num fenémeno intema. cional. Os Estudos Culturais nao estao mais confinados 4 Inglaterra nem aos Estados Unidos, espraiando-se para a Austrilia, Canada, Africa, América Latina, entre outros territérios. Isto mio significa, no entanto, que exista um corpo fixo de conceitos que possa ser transportado de um lugar Para 0 outro © que opere de forma similar em con- textos nacionais ou regionais diversos,5 Entretanto, as peculiaridades do contexto histd- rico bricinico, abrangendo da rea politica a0 meio académico, marcaram indelevelmente © surgimento deste movimento te6rico-politico, Originalmetite, na Inglaterra, os Estudos Culturais ressaltaram os ne- XOS existentes cntre a Investigagao € as formagdes so- ciais onde aquela se desenvolve, isto &, 0 contexto cultural onde nos encontramos.! Neste momento, nosso objetiva é esboyar ape nas alguns tracos de sua trajetoria histérica.? Em Primciro lugar, deve-se acentuar o fato de que os 136 - Estudos Culturais devem ser vistos tanto sob ponto de vista politico, na tentativa de constintiglo de um pro- jeto politico, quanto sob ponto de vista tesrico, isto é, com a intengio de construir um novo campo de est dos. Sob 0 ponto vista politico, os Estudos Culturais podem ser vistos como sindnimo de “comegio politi ca”? pocendo ser identifieados como a politica culta ral dos virios movimentos sociais da época de sew surgimento, Sob a perspectiva teérica, refletem a insa- tisfagdo com 05 limites de algumas disciplinas, propon- do, entio, a interdisciplinaridade. “Os Estudos Culturais nao configuram uma ‘dis. iplina’, mas uma area onde diferentes disciplinas interagem, visando o estudo de aspectos culturais da sociedade” (Hau. et al, 1980, p. 7). A rea, en- Ho, segundo um dos seus promotores, nao se cons titui_ numa nova disciplina, mas resulta da insatisfago com algumas disciplinas ¢ seus proprios limites, E um campo de estudos onde diversas disc plinas se intersecionam no estudo de aspectos culty rais da sociedade contemporinea, Em anélises que tentam mapear © centro de aten: $30 deste campo, encontramios a seguinte avaliagao: Os Estudos Culturais constituem um campo interdisciplinar onde cers preocupagdes € méto dos convergem; 2 uitilidade dessa convergéncia & que cla nos propicia entender fendmenos e re- lagdes que nio sto acessiveis através das disci plinas existentes. Nio é, contudo, um campo tunificado. (Torwer, 1990, p, 11) Entretanto, € preciso ressaltar que, na sua fase inicial, os fisncladores desta drea de pesquisa tenta- ram nio propagar uma definigio absoluta ¢ rigida de sua proposta. Nas palavras de Stuart Hall, o Srgio de divulgacao do Centro — Working Papers in Cultural Studies’ — nao deveria preocupar-se em *... set um veiculo que defina o aleance € ex- tensao dos Estudos Culturais de uma forma defi- Hitiva ou absoluta, Nos rejeitamos, em resumo, tima detinigao descritiva ow prescrit (Hau, 1980, p. 15) a do campo”. “ste campo de estudos surge, entio, de forma or- Sanizada, através do Centre for Contemporary Cul- tural Studies (CCCS), diante dia alteragio dos valores tradicionais da classe operiria da Inglaterra do pés Bucrra, Inspirado na sua pesquisa, “As utilizagdes da cultura” (1987), Richard Hoggart finda, em 1964, 0 Centro. Este surge ligado ao Departamento de Lin sua Inglesa da Universidade de Birmingham, cons ‘inuindo-se nam centro de pesquisa de pos-graduacio dlessa mesma instituigio. As relagdes entre a cultu "1 contemporinea e a sociedade, isto é, suas formas 138—— — culturais, instituigdes € priticas cultarais, assim como suas relagdes com a sociedade © as mudaneas sociais compoem seu eixo principal de pesquisa, Na realidade, sio trés os textos, surgidos no fi- nal dos anos 50, que estabeleceram as bases dos Estudos Culturais: Richard Hoggart com The uses of literacy (1957), Raymond Williams com Cul- ture and society (1958) © E. P, Thompson com The making of the english working-class (1963), © primeiro ¢, em parte, autobiognifico ¢, em parte, historia cultural do meio do século XX, O segundo constroi um histérico do conceito de cul- tura, culminando com a ideia de que a “cultura comum ou ordiniria” pode ser vista como um modo de vida cm condigdes de igualdade de existéncia com qualquer outro. Eo terceiro reconstréi uma parte da histéria da sociedade inglesa, Interessa, especialmente, para este estilo, a pes quisa realizada por Hoggart’, através da metodolo: sia qualitativa, na medida em que seu foco de atencao recai sobre materiais culturais, antes desprezados, da cultura popular e dos mass media, Esse trabalho inau gum a perypectiva que argumenta que no ambito po pular nao existe apenas submissio mas, também, Tesisténcia, © que, mais tarde, seri recuperado pelos es- tudos de andigncia dos meios massivos? No entanto, © —— ———139 tom nostilgico aflora em relacdo. a uma cultura or- ginica da classe trabalhadora. A contribuigio tedrica de Williams, a partir de Culture and Society, é fundamental para os Es- tudos Culturais, Através de um olhar diferencia- do sobre a histéria literaria, ele mostra que a cultura uma categoria-chave que conecta tanto a anilise literdria quanto a investigagdo social, Seu livro The long revolution (1962) avanga na demonsteacio da intensidade do debate contemporineo sobre impacto cultural dos meios massivos, mostrando um certo pessimismo em relasio a cultura popular € 208 préprios meios de comunicagao de massa, E 0 proprio Stuart Hall quem avalia a impor- tancia deste texto: Ble muddou toch a base da dcussio: de uma defi ‘0 ltero-moral para uma defnigio antropeigiea da cultures, Mas definia a iakima Agora COMO O “pmnxesso. imei” por meio do qual os significado ¢ definigoes Sio socialmemte construidas ¢ historicamente ‘tans- formuides, com a fteratura € a ane como endo ape pas um tipo de comunicagio social — especialmente povilegiado. (Haus ¢ ‘Tons, 1999, p, $5) Ess mndanga no entendimento de cultura tomou possivel o desenvolvimento dos Estudos Culurais, 140 = Em relagao & contribuigio de Thompson,"! pode-se dizer que este influencia o desenvolvimen to da historia social briténica, de dentro da tradi io marvista, Para ambos, Williams ¢ Thompson, a cultura era uma rede de priticas e relagdes que cons: tituiam a vida cotidiana dentro da qual o papel do individuo estava em primeiro plano, Mas, de certa forma, Thompson resistia a0 cntendimento de cul tura enguanto uma forma de vida global. No seu lugar, preferia cntendé-la enquanto uma luta en tre modos de vida diferentes. » de Stuart Hall is, avalia-se que este, a0 substituir Hoggart na diresio do Centro, de 1969 a 1979, incentivou o desenvolvimento de Sobre a importante participag na formacio dos Estudos Culnu estudos etnogrificos, as anilises dos meios massi Vos © a investigagio de praticas de resisténcia den: tro de subculturas. Tem uma abundante produggo de artigos, sendo que sua reflexao faz parte da maioria dos readers sobre Estudos Culturais, se jam cles publicados pelo préprio Centro ou nao. A proposta original dos Estados Cultus siderada por alguns como mais politica do que anali tica, Embors sustentasse um marco tedrico especifico nparacio principalmente no marxismo — a hist6- tia deste campo de estudos esti entrelagada com a trajetoria da New Left, de alguns movimentos sociais (Worker's Educational Association, Campaign for Nuclear Disarmament) e de publicagdes (entre clas, a New Left Review) que surgiram em torno de espostas politicas & esquerda Mais tarde, no petiodo pés-68, os Estados Cultu- vais transformaram-se numa forea mot da cultura imelectual, de esquerda, Assim, cnquanto movimento intelectual tiveram um impacto tedrico © politico que foi além dos muros académicos, pois, na Inglaterra, constituirum-se numa questio de militincia enum cony. Promisso com mudangas sociais radicais OS DESLOCAMENTOS NECESSARIOS De forma sintética, € preciso apontar as rupturas € incorporagdes mais importantes que contribuiram ha construsdo da perspectiva teérica © das principais Problematicas desta tradig3o. Aproximando-se do vas- to campo das praticas sociais ¢ dos processos histéri Cos, os Estudos Culturais preocuparam-se, em priincira mao, com os produtos da cultura popular e dos mass media que expressavam os rumos da cultura contemporinea. ‘Tentaram redescobrir outras tradigdes teéri- cas socioldgicas, deixando de lado 0 funcionalismo estrutural norte-americano, pois este nio dava con- ta de compreender as tematicas propostas. Acompa~ nhando um movimento de resgate, iniciado dentro mesmo da sociologia (na Inglaterra do periodo em foco), foram sendo recuperadas, entre outras apro- ximagdes, as perspectivas da fenomenologia, da et- nometodologia ¢ do interacionismo simbélico. Do ponto de vista metorlolégico, a énfise recaiu, mais tarde, no trabalho qualitativo. Este exerceu uma forte influéncia na formagio dos Estudos Culturais, A escolha por trabalhar ctnograficamente deve-se a0 fato de que © interesse incide nos valores € sentidos vividos. Q estudo emogrifico acentua a importincia dos modlos pelos quais os atores sociais definem, por si mesmos, as condigdes em que vivem."? Com a extensio do significado de cultura — de textos © representagdes para praticas vividas —, considera-se em foco toda produsio de senti- do. © ponto de partida ¢ a atengio sobre as es truturas sociais (de poder) © 0 contexto historico enquanto fatores essenciais para @ compreensio da agio dos meios massivos, assim como o deslo camento do sentido de cultura da sua tradigao clitista para as priticas covidianas Entao, 6 primeira deslocamento vai no sentido de uma nova formulacio do sentido de cultur 143 lad Falando de forma ampla, dois pasos estavam aqui cnvolvidos. Em primeiro lugar, 0 mov mento (para dar-the uma especificacao bem sin. tética) em direyao uma definigao tropolégica” de cultura — como pritica cul- tural; cm segundo lugar, o movimento em di Fegdo a uma definigio mais historica de pritica cultural —, questionando 0 significado antro- Polégico e sua universalidade por meio dos con. ceitos de formagao social, poder cultural, dominagio regulagio, resisténcia ¢ luta, Esses movimentos io excluiam a anélise de textos, mas trataya-os come arquivos, descentrando sett Status supostamente privilegiado — apenas um tipo de dado, entre outres. (Hat, 1980, 9.27) Os Estudos Culturais atribuem a cultura um Papel que nfo € totalmente explicado pelas deter- inagdes da esfera econdmica. A relagio entre o marxismo € os Estudos Culturais inicin-se © desen volve-se através da critica de um certo reducionis- mo € economicismo daquela perspectiva, resuiltando na‘contestagio do modelo baxe-superestrutura, A Perspectiva marxista contribuiu para os Estudos Gulturais no sentido de compreender 4 cultura na sua “autonomia relativa”, isto é, ela nao € depen- dente das relagdes ccondmicas, nem seu retlexo, mas tem influéncia c softe consequéncias das rela- $6es politico-econdmicas, Como argumentava Al thusser, existem varias forcas determinantes — a econémica, a politica € a culeural — competindo m conilito entre si, compondo aquela complexa unidade que € a sociedade. A questio da relagio, em formagdes sociais defi nidas, entre praticas culturais © outras priticas, isto & a relagao cnure 0 cultural e © econdmico, 0 politi co € as instancias ideoldgicas, pode ser considerada enquanto um segundo deslocamento importante na Al construgao desta tradigio, A contribuigio de thusser neste sentido foi importante: Grossciramente, a inovagae importante foi a tentativa de pensar a “unidade” de uma for magao social em termos de uma articulagie, Isto colocou as questdes da “autonomia 1 i va" do nivel culturat-ideoldgico © num nove conceito de totalidade social: totalidades como estruturas complexas. (Hats, 1980, p. 32 Outea incorporagio, extremamente cara a este campo, diz, respeito ao conceito de ideologia, pro Posto por Althusser. Essa (a idcologia) € vista en quanto “provedora de estruturas de entendimento através das quais os homens interpretam, dio 15, sentido, experienciam ¢ ‘vivern’ as condigGes materi- ais nas qunis eles proprios se encontram” (Hats, 1980, p32). Além disso, a ideologia deve ser examinada “nao s6 na linguagem, nas representagdes mas, tam bém, nas suas formas materiais — nas instituigdes ¢ nas priticas sociais através das quais nds organizamos € vivemos nosus vidas” (Turse, 1990, p. 26). Nesta primeira etapa dos Estudos Culturais, ain- da plenamente concentrada na Escola de Birmin- gham, a pesquisa estava delimitada, principalmente, nas seguintes éreas: as subculturas, as condutas des- viantes, as sociabilidades operirias, a escola, a mi- sica ¢ a linguagem. “E através da conversio mais explicita em problemstica dos desafios vinculados a ideologia ¢ aos vetores de um trabalho hegemdni- €o que os meios de comunicagio social, especial- mente os audiovisuais (aos quais se havia dedicado até © momento um interesse acessério), chegam a ocupar paulatinamente um lugar destacado” (Mar- TeLarr € Nevrau, 1997, p.122) enquanto temitica deste campo de estudos. * Discordando do entendimento dos meios de co: ‘municagio de massa como simples instrumentos de manipulasao ¢ controle da classe dirigente, os Es- tudos Culturais compreendem os produtos cultu- rais como agentes da reprodusao social, acentuando sua natureza complexa, dinamica ¢ ativa na cons- trugdo da hegemonia ta perspectiva, so estudadas as estruturas ¢ 9s processos através dos quais os meios de comuni cago de massa sustentam e reproduzem a estabili- dade social ¢ cultural. Entretanto, isto no se produz de forma mecinica, sendo se adaptando continua- mente ds pressdes © As contradigdes que emergem da sociedade, © englobando-as ¢ integrando-as no proprio sistema cultural A contribuigio de Antonio Gramsci é aqui, fimnda- mental, pois mostra como a mucanga pode ser constri= ‘da dentro do sistema, A teoria da hegemonia gramsciana pressupde a conquista do consentimento, O movimento de consinusio da direc30 politica da sociedade presst poe complexas interagdes ¢ empréstimos entre as cult- ras populares € a cultura hegeménica, Com isto, 0 que se quer dizer é que nio existe um confronto bipolar c rigido entre as diferente culturas. Na pritica, © que acomtece é um sutil jogo de intercimbios cntre elas. Flas nao sio vistas como exteriores entre si, mas comportando cruzamentos, transayes, intersecgoes. Em determinados momen. tos, a cultura popular resiste ¢ impugna a cultura hegemdnica; em outros, reproduz a concepglo de mundo € de vida das classes. hegeménicas. le Quanto 4s linhas de pesquisa implementadas pe- los Estudos Culturais, interessa-nos, sobretudo aquela que se detém sobre o consumo da comuni cagao de massa enquanto lugar de negociagio entre Priticas comunicativas extremamente diferenci das © que sera adiante comentada, ia~ E claro que, aqui, relatamos de forma bastante sti maria © espectro te6rito proposto pelos Estudos Cul- turais, principalmente ma década de 70, isto & no seu periodo de afimagao. Referimo-nos apenas a pontos chave que mostram a influéncia de diferentes te6ricos. De forma intética, pode-se entender 0 Centro de Birmingham, da sua fundagdo ao inicio dos anos 80, como foco irradiador de uma plataforma te6- derivada de importagdes © adaptagoes de di Versas teorias; como promotor dé uma abertura a Problematicas antes desconsideradas, tais como as relacionadas as culturas populares € aos meios de comunicagio de massa e, mais tarde, a abertura a questocs vinculadas As identidades étnicas e sexuais: bem como divulgador de estudos bastante hetero gérleos decorrentes da diversidade de referencias te6ricas, € da pluralidade das temiticas estudadas. No final dos anos 70 ¢ inicio dos anos 80, as coi sas comecam a mudar, Desponta a influéncia de te Srieos franceses como Michel De Certeau, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, entre outros. Dé-se a internacionalizagao dos Estudos Culturais © tor- amr-se escassas as anilises onde as categorias cen- trais slo “luta” © “resistencia” c, para alguns analistas, é 0 inicio da despolitizagio dos Estudos Culturais. A prolitica produgio de balangos criti- cos, publicados a partir de 1990, aponta, em al guns casos, para a fragmentagio e trivializacao deste campo de estudos, embora seja possivel tectar tanto quanto potenciali- dades na sua proposta de analise da dindmica cultural contemporaine pectos estérci CONTORNOS DA ATUALIDADE E interessante notar as diferengas entre os “pri- meiros” Estudos Culturais ¢ os dos anos 90. Iden tifica-se uma primeira fase embrionsria que se inicia com os textos precursores, jd citados, passando para Wao do Centro de Birmingham e sua abun dante produgao até o final dos anos 70 ¢ inicio dos anos 80, 0 que poderia se constituir numa etapa de consolidagio; ¢ uma terceira fase, de internaciona 10, de meados dos anos 80 até os dias de hoje lizay No primeiro momento, havia uma forte relagio com iniciativas politic a8, pois existia uma invencio 49 de compartithar um projeto politico, Pretendia-se, também, uma relagio com diversas disciplinas para 2 observagio sistemitica da cultura popular, a ‘como com diversos movimentos sociais. im Jana década de 90, hi um relaxamento na vin- culagio politica. O sentido de que se esti analisan- do algo “novo” também nio existe mais. Mas, a0 contririo do que se possa pensar, existe, sim, uma continuidade, mesmo que fragmentada, nos Estu- dos Culturais. “E, um projeto de pensar através das implicagdes da extensio do terme ‘euirura’ para que inclua atividades ¢ signifcados da gente comum, pre- cisamente esses coletivos excluidos da participagio na. cultura quando € a definigSo elitista de cultura a que govern” (Barun e Brezer, 1994, p. 12), Retomando nosso foco de interesse mais espe- cifico, a relagio cultura /comunicagaio massiva e, den: tro desta, as problematicas que enfocam as culturas populares ¢ suas estratégias interpretativas, tam- bem se observam alteragoes no decorrer da trajeté ria dos Estudos Culturai No final dos anos 60, a tematica da Tecepgio ¢ a densidade dos consumos mediiticos comecam a chamar a atengio dos pesquisadores de Birmin- gham. Este tipo de reflexao acentua-se a partir da Givulgagio do texto “Encoding and decoding in 150— —— television discourse”, de Stuart Hall, publicado pela primeira vez em 1973.%* Através de categorias da semiologia articuladas @ uma nogio marcista de ideologia, Hall insiste na pluralidade, socialmente determinada, das moda- lidades de recepgao dos programas televisivos. Ar gumenta, também, que podem ser identificadas tres posigdes hipotéticas de interpretagio da mensagem televisiva; uma posicio “dominante” ou “preferen cial”, quando o sentido cla mensagem & decodifica do segundo as referéncias da sua construgio; una posigio “negociada”, quando o sentido da mensa gem entra “em negociag’io” com as condigdes par- ticulares dos receprores; ¢ uma posigio de “oposig2o”, quando 0 receptor entende a proposta dominante da mensagem mas a interpreta segundo uma estrutura de referencia alternativa A preocupagio tom © momento da Tecepgdo con- tinua sendo fundamental em relagio com duas Problemiticas mais amplas. Uma delay abrange © assunto do retorna a0 sujeito, a subjetividade € a intersubjetividade, enquanto a outza se inte ragio das novas modalidades de relagoes de poder na problematica da domina: sio (Marieiar e Neveav, 1997, p, 122} essa pela inte E dessa forma que se produ. 0 encontro, duran- te 0 anos 70, com os Estudos Feministas. Estes pro- piciaram novos questionamentos em torno de questoes referentes & identidade, pois introduziram novas varidveis na sua constituigio, deixando-se de “ler os processos de construgao da identidade uni camente através da cultura de classe sua transmis- sdo geracional” (Marrerarr¢ Neveau, 1997, p. 123). Mais tarde, acrescentam-se as questdes de géncro aquclas que envolvem raga € etnia, Em relagio Pesquisas que envolvem questes de géncro, dentro mesmo do Centro de Birmin gham, a publicagio coletiva Women take issue, de 1978, revela essa disposiclo. Autoras como Char- lotte Brundson, Marion Jordon, Dorothy Hobson, Christine Geraghty ¢ Angela McRobbie reveem st. posigdes do senso comum sobre os meios de comunica: $40, reivindicando que a audiéncia, no caso, femninina, tem autoridade sobre suas priticas de leirura."* Na década de 80, definem-se novas modalidades de analise dos meios de comunicagio. Multiplicam-se 68 estudos de recepgio dos meios massivos, especial- mente no que diz respeito 20s programas tclevisivos.! ‘Também hi um redirecionamento no que diz: respei 16 aos protocolos de investigagio. Fstes passam a dar uma atengio crescente ao trabalho ctnogrifico. Se até este momento © estatuto de classe ainda centralizava a reflexao sobre a diversidade de percep- yOes nas estratégias interpretativas, ponto postulado inicialmente por Stuart Hall, algumas das pesquisas empiticas dessa €poca apontavam para a importinga do ambiente doméstico € das relagoes dentro da fi milia na formagao das leituras diferenciadas.!” Retorando iis diferenciagdes entre a fase de con- solidagio desta tradicio eo momento atual, pode-se afirmar que naquela existia uma agenda findamen- tal que consistia na compreensio das relagdes entre Poder, ideologia e resisténcia, Naquele periodo, de. sejava-se cxplorar o potencial para a resistencia € a significagao de classe. JA nas anos 90, a preocupagio em recuperar as “leituras negociadas” dos recepto- res fiz com que, de certa forma, se valotize a liber dade individual deste receptor © se subvalorize os efeitos da ordem social: © centro de ateng: na “resistencia”, com a int plicagio de uma oposigio momentinea ou estra- tégica, foi substimide por uma énfise 10 exercicio do poder cultural como caraeteristica continua da vida coridiana, Na linguagem do pos-modemis: mo, poderiamos sugerir que uma intengdo de cov Dreender as “narrativas: mestrs” do confito politico 154 {6% substinnida por uma disposigio a explorar aque Ins historias da produsao ordindria de significa dos menos evidentes na superficie, menos heroicas. (BARKER € BrezeR, 1994, p, 16), Assim, a agenda original foi se transformando, No seu lugar, os Estuclos Culturaisassumiram o papel dle “testemunha”, dando voz aos significados que se fizem aqui ¢ agora. Segundo Baker e Beezer (1994, P-25), oy Estudos Culturais mudaram sua base fia, damental, de maneira que o conceito de “classe” deixou de ser 0 conceite critico central. Na melhor das hipdteses, ele passou a ser uma “variivel” entre muitas, mas frequentemente entendidlo, agora, como tim modo de opressio, de pobreza; na pior das hip- teses, cle se dissolveu. Ao mesmo tempo, 0 centro de ateneao principal deslocou-se para questées de sub jetividade © identidade © para esses textos culturais € mediiticos que ocupam os dominios privado © de méstico ¢ aos quais se dirigem, Simultancamente, tem havido um destocamento para uma metodolo- 89 que restringe a interpretagao Aqueles casos nos quais se vé os participantes capacitados que tira a Atengao das estruturs Simon During (1993), na introdugio de uma co. Fetinea sobee os Estudos Culturas, avalia que, quando as identidades “classistas” se dissolvem ou io conside- rads menos pertinentes pelos pesquisadores, buscany- S€ outros principios de construgio da identiclade, tas como as matrizes da raga ¢ do género, buscando-se sua telaso com os meios de comunicacio € com 0 consu- mo. Também Smart Hall reconhece este redireciona- mento no campo dos Estudos Cultura, Embora as questées em torno da subjetividade € das identidades — temiticas em foco hoje nas andlises culturais —tenham muitos aspectos rele vantes, existem outros cixos importantes de se rem avaliados, na etapa presente dos Estudos Culturais. Entre eles estaria a diseussio sobre a P6s-modemidade ou a “Nova Era”(em inglés, New Times —tal como proposto por Hall), a globaliza- 10, a forca das migragdes © o papel do Estado. nagio e da cultura nacional € suas repercus sobre o proceso de construcio das identidades. No entanto, estes fogem do proposito deste traba Iho de introdugio aos Estudos Cilrurais. Not, "Em geral, neste texto, refiro-me aos Estudos Culturais da tradigao britinica *Os Estudos Culturais difuiiditam o conceito de “texto” com uma abra wéncia que vai além das grandes obras para incluirtambém a cultura populares priticas sociais ‘cotidianas * Sobrea “internacionalizagio” ou “globalizagio"dos Es tudos Culturais, ver, por exemplo, DURING, 1993; MORLEY e CHEN, 1996; ANG ¢ MORLEY, 1989, * Ver, por exemplo, DAVIES, 1995; ANG ¢ MORLEY, 1989; BARKER ¢ BEEZER, 1994; HALL, HOBSON, LOWE ¢ WILLIS, 1980. * Aponta-se como precursora dos Bstudos Culturais uma problematica de estudos conhecida como “Cultura ¢ Sociedade” que surge em tomo de 1870, na Inglaterra Reine autores tao distintos como Mathew Amold, John Ruskin ¢ Williams Morris. Entretanto, os trés compat tham uma atitude negativa cm relagao a sociedade mo. dema. Estigmatizam 0 século XIX como auele onde triunfou 6 “mau gosto” da 4s lade de massa” & a “pobreza de sua cultura”. Estes inteleetuais, entre ou ros, ) Se adiantam nas eriticas contra as consequéncias culturais do adv nto da civilizagao modema A sociedade vitoriana esti naquele momento ma vanguar- “da no que diz respeito a0 nascimento das formas cult raisvincutladas ao sistema industrial. kina segunda metacde do século XIX se travam as primeinas discussdes em tor no da regulagio de um tipo de atividade como a da publicidade, sendo que foi na Inglaterra que surgiram 186—— —— as primeiras criticas em relagaoa cultura industeializada (Marrtetatre Neves, 1997) No periodo entre as duas guierras, Frank Raymond Leavis (1895-1978) passa a ser uma figura central na promo- sito de estudos de literatura inglesa, Funda em 1932 a Tevista Scrutiny, que se converte no centro de itnta entzida moral ¢ cultural contra o embnutecimento prati cado pelos meios de comunicagao ¢ pela publicidad. © movimento liderade por Leavis propunha a leiturs da grande tradiglo da ficgto inglesa camo antidoto para ata ear ade; neragao da cultura. No ensino, adverte-se aos alunos contr pobre a forga maniputadors da publicidade a linggustiea da imprensa popular Estes movimentos no ambito da literatura inglesa sao vis tos enquanto um ambiente propicio para 6 surgimento dos Estudos Culturais, Adoto, aqui, a observayao de TAMESON, Predrie , 1004. Seu primeito nimero'apareceu em 1972 “Hoggarr nasceu eri 1918, passando sua infineia em seu cio de origem: o meio opersrio, No final da I] Guerra entra para a docencia, Trabalhia com formacdo de adul tos do mei operitio (Worker's Education Association) Influenciado por Leavis ¢ pela revista Scrutiny, acaba afastando se por dedicat-se as culturas populares de um modo mais condescendente. Fundador do Centre (COCS), hoje se encontra, de certa forma, distante das evolugdes politico-intelectuais dos Estudos Culturais dos anos noventa. "Aqui, ¢ utilizada a edigdo portuguesa, As utilizagdes da cultura — aspectos da vida cultural da classe trabathado- 13, v. Le IL, Lisboa: Editora Presenga, 1973 Williams nasceu no Pais de Gales (1921-1988), filho de um ferravidtio. No final da II Guetra passa a scr tutor na Oxford University Delegacy for Extra-mural Studies, devido & sua formagio em literatura, A partir de 1958, quando publica Culture and society, dé va- 20 Asua producao intelectual, Sua posigao tedrica ser sintetizada em Marxism and literature (1977), quando reivindica a construgio de um “materialismo cultural”, "Thompson (1924-1993) inicia sua vida como docente de um centro de educagdo permanente para adultos (WEA). Foi militante do Partido Comunista, mas em 1956 rompe com 0 partido, convertendo-se num dos fundadores da New Left Review '* De origem jamaicana, Hall (1932) deixou a Jamaica em * 1951 para prosseguir seus estudos na Inglaterra. Inicia a docéncia em 1957, numa escola secundaria onde os alu hos vém das classes populares. Tem uma forte atuagio junto ao meio editorial politico- intelectual britinico, como, por exemplo, na Universities and Lett Review (década 50/60), Marxism Today (anos 80), Sounding (a partir de 1995), entre outras. A partir de 1979, atua na Open University, em Londres, '* O recarte da investigagao das culturas populares ¢ das audiéncias implementou este tipo de estratégia meto- dologica. Ver, por exemplo, capitulo sobre etnografia em Hall et alli, 1980. '* Mais tarde, é a vez de David Morley com “Texts, rea- ders, subjects” (1977-1978), '* Outro livro que recupera textos dos anos 80 sobre a ‘mesma tematica — audiéncia feminina ¢ meios massi vos —¢ 0 organizado por Mary Ellen Brown, Televisi on and women’s culture — the politics of the popular, Sage, 1990. Esse livro apresenta trabathos de Dorothy Hobson, len 4 ng, Virginia Nightingale, John Fiske, Andrea L, Press, entre outros, * Considerados “clissicos” entre os estudos de audiéncia dos Estudos Culturais esto: D. Morley (1980), The narionwide audience; do mesmo autor (1986), Family television: cultural power and domestic leisure; Doro thy Hobson (1982), Crossroad: the drama ofa soap opera; David Buckingham (1987), Public secrets: cast and its audience; Ten Ang (1985), Watching enders Dallas: soap opera and the melodramatic imagination, Bob Hodge ¢ David Tripp, (1986) Children and tele - ——159 160 Vision: 4 semiotic approach; Janice Radway (1987), Re- ading the romance: women, patviarchy and popular lite ature, John Tulloch © Albert Moran (1986), Qualiy soup a countey practice " Eo caso de D. Morley, entre outros. Ele desenvolveu uma pesquisa denominada Nationwide, publicada 1980. Como continuagao deste projeto, desenvolven Family television, trabalho publicado em 1986, Natio wide € um estudo de audiéneia conduzido através de entrev em grupo, fora de suas reside pessoas estavam fin ias, isto &, as do contexto onde normalmente corre a as ncia da televisioe a produgto de signifi cados a partir de seus contetidos. Em Family television, © autor entrevistou familias ema suas proprias casas, pois Enesse contexto que sed entender as particularida des das respostas individuais a diferentes tipos de pro. gramag2o, Nasua opiniio, o ato de ver TV necessita ser entendido dentro da estrutura e da dinimica do pro cesso domeéstico de consumo do qu: cle & parte Comentando a sequéncia destes dois estudos, Mor ley afirma que © ponto central concentra-se em pes “guisar formas de reeepgo ow indife nea: “(... esta é ‘ questo fundamental a ser explorada mais do que a guestdo sobre qual interpretagio as pessoas fario so. bre um tipo dado de programa, se elas forem coloca das numa sala e perguntadas sobre sua interpretaczo (:-) B€ por esta razio que a pertinéncia ou a projesio sobre diferentes tipos de programas em diferentes membros da familia ou membros da familia de dife rentes scalas sociais foram priorizadas, nesta pesqui- sa Family television, sobre a questio das tendéncias de fazer gociadas turas Ou interpretagdes oposicionais, ne- ou domin: tes de tipos particulares de pro- Bramas” (Morley, “Research development: from ‘decoding’ to viewing context”, p. 137) Metodologicamente, Morley defende que, em pri eciro lugar, deve se oferecer uma descrigdo adequa damente densa das complexidades desta atividade de “assistir TV", ye que a perspectiva antropoligica ¢ ctnografica sto de grande contribunigdo para aleangar este objetivo, Sua sugestio é de que os estudos de audigncia neces- sitam “inv stigar as formas pelas quais uma variedade de meios de comunicagio (media) est envolvida na produgio da cultura popular ¢ do conhecimento do terreno da vida cotidiana” (Morley, “Towards an ethnography of the television audience”, p.195) Alem disso, o autor afirma que “(...) 0 desatio-chave reside mma nossa habilidade de construir a audiéncia tanto camo lum fendmeno social como semioidgico (cultural) ¢ na nossa habilidade de reconhecer a relag3o entre os telespectadores © a TV, como eles sto mediados por —— 161 determinagdes cotidianas ¢ pelo envolvimento diario a audigneia com todas as outras tecnologias, exer cendo um papel na conducao ¢ mediagio da comuni cacao cotidiana. B dentro deste extenso campo de cestudo que a pesquisa qualitativa de audiéneia deve agora ser desenvolvida” (Moatay, “Towards an eth nography of the television audience”, p.197) Ver, entre outros textos, MORLEY, D. “Towards an ethnography of the television audience”; “Research development; from ‘decoding’ to viewing context”; MORLEY, 1992; 1994; 1996; 1996b; MARK, 1994. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ANG, Ien ¢ MORLEY, David, “Mayonnaise culture and other european follies”, Cultural Studies, v. 3, n. 2, 1989, p. 133-144, BARKER, Martin © BEEZER, Anne, Qué hay en un texto? In Martin Barker © Anne Beezer (orgs.) Introduccién a tos estudios culturales. Barcelona: Bosch Casa Editorial, 1994 BROWN, Mary Ellen. Television and women’s culture — the politics of the popular, Londres: Sage, 1990. CORNER, John. Studying culture: reflections and as- sessments. An interview with Richard Hoggart ‘Medie, culture and society, 13, 1991, p. 137-151 1e2 - cH EN, Kuan-Hsing. Post-Maraisin: beeween/beyond cx tal postmodernism and cultural studies. Mectio, ture and sociewv, 13, 1991, p. 35-51 CURRAN, James. The new munication research: cu revisionism in mass com. A reappraisal. European jour- nal of communication, 8, 1990, p. 135-164. DAVIES, loan. Cultural studies and beyond — frag ments of empire, Londres: Routledge, 1995. DURING, Simon (org.), Introduction. The cultural studies reader, Londres: Routledge, 1993 GRIMSHAW, R., HOBSON, D., WILLIS, P. tntroxiuc ton to ethnography at the Centre. In: HALL, 8., HO- BSON, D. , LOWE, A. WILLIS, P. Cutie, media, ‘language. Working: papers in Cultural Studies, 1972 1979, Londres: Routledge tre for Jontempor ty Cultural Studies/University of Birmingham, 1980. HALL al studies: 1wo paradigms. Me- dia, culture and society, 2 (1), 1980, p. 57 Stuart. Cultura HALL, Stuart, Culroral Stud) and the Centre: some Problematics and problems, In: HALL, S., HOBSON, D., LOWE, A., © WILLIS, P. Culare, media, laneu Be — working papers in cultural studies, 1972-1979, Londres: Routledge ¢ Centre for Contemporary Cul tural Studies/University of Birmingham, 1980. HALL, Stuart. Introduction to Media at the Centre. In: HALL, S, HOBSON, D., D., LOWE, A, e WILLIS, P. Cuiture, media, language — working papers in Culeural Studies, 1972-1979, Londres: Routledge © Centre for Contempo- rary Cultural Studies/Univenity of Birmingham, 1980. HOBSON, Dorothy, Housewives and the mass media In: HALL, S., HOBSON, D,, D., LOWE, A, ¢ WE LLIS, P. Culture, media, language — working. pa- pers in Culrural Studies, 19721979, Londres Routledge & Centre for Contemporary Cultural Stu- dies/University of Birmingham, 1980. JAMESON, Frederic, Sobre os estudos de cultura, No: vos Estudos CEBRAP, 39, 1994, p. 11-48. JANCOVICH, Mark, David Morley, los estudios de nationwide. In: Martir Barker © Anne Beezer (orgs.). Imtroduccidn a los estudios culturales Barcelona: Bosch Casa Editorial, 1994. KREUTZNER, Gabriek. On doing Cultural Studies in Wese Germany. Cultural Studies, 3 (2), 1989, p. 240-249) “MATTELART, A, e NEVEAU, E. La institucionalizacion de los estudios de la comunicacién. Telos, 49, 1997. MELLOR, Adrian. Discipline and punish? Cultural studies at the crossroads. Media, culture and socie ty, 14, 1992, p, 663-670. 164 - MORLEY, D. Towards an ethnography of the televiy on audience, In: Television, audiences and Cultural Studies. Londres: Routledge: p. 173-197. MORLEY, D. Rescarch development: from ‘decoding’ to viewing context. In: Television, audiences and cultural studies. Londres: Routledge, p. 133-137. MORLEY, D. Changing paradigms in audience studies, In Ellen Seiter et al. (orgs.). Remote control — rekvision, audiences and cultural power. Londres: Routledge MORLEY, Davi, (1980) Texts, nacins, subjects, In: Tn: HALL, S, HOBSON, D., D,, LOWE, A., e WILLIS, P, Culture. ‘meet, angiuyge — wearing popers in cultural suis, 1972. 1979, Londres: Routledge © Centre for Contemporary Cul: tural Studies/ University of Birmingham, 1980, MORLEY, D, Quando il globale incontra i local da vanti alla TV. Problemi dell'Iaformazione Bolog na, XVII (2), 1992 MORLEY, D. Television, audiencias y estudios cule rales. Buenos Aires: Amorrortu, 1996a. MORLEY, D. EurAm, modernity, reason and alte ity: or, postmodernism and cultural studie MORLEY, David © KUAN-HSING (orgs.), In > Chen re hall critical dilogues in cultural studies, Londres: Routledge, 19966 MORLEY, D, ¢ CHEN, Kuan-Hsing. “Introduction” In. MORLEY, D. ¢ CHEN, Kuan-Hsing. (orgs.). Stu arr hall — critical dialogues in cultural studies, Lor dres: Routledge, 1996. MURDOCK, G, Communications and the eonstirati on of modernity, Media, culture and society, 15, 1998, p. 521-839. MURDOCK, G. Across the great divide: cultural analy sis and the condition of democracy. Critical studies in mass communication, 12, 1995, p. 89-95. TURNER, Graeme introduction. Boston: Unwin Hyman, 1990. ritish Cultural Studies — an WILLIS, Paul. Notes on method. In: HALL, S., HO BSON, D., D., LOWE, A., © WILLIS, P, Culture, media, lang di Contemporary Cultural Studies University of Bic working papers ia cultural stu- 1972-1979. Londres: Routledge & Centre for mingham, 1980 YUDICE, George. O ‘estado das artes’ dos Estudos Culturais. In; MESSEDER, Carlos A. ¢ ALBER TO, Carlos © FAUSTO, Antonio (orgs.). Comuni eagdo © cultura contemporineas. Rio de Janciro: Notrya, 1993 166 O Centre for Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham: uma historia intelectual Norma Schulman ORIG! '§ DO CENTRO! im uma fala inaugural intitulada “Schools of English and Contemporary Society”, Richard Ho- ggart, © primeiro diretor do Centre for Conremipo- vary Cultural Studies (COCS) da Universidade de Birmingham,? aracou a estreiteza com a qual a litera tura inglesa estava sendo ensinada na Gri-Bretanha € tragou 0 esbogo de uma nova abordagem que cle, provisoriamente, chamou de “Literatura ¢ Estudos CCulturais Comemporineos” — uma abordagem que argumentava ele, tinha “algo em comum com virias das abordagens existentes, mas nao era evatamente nenhuma delas” (Hoccaxt, 1970b, p. 254) Os Estudos Culturais foram coneebidos, desde 0 inicio, como um empreendimento interdisciplinar —169 Formado na critica litersria, cujas virtudes como forma de anilise nao hesitava muito em exaltar, Ho- ggatt imaginou o projeto dos Estudos Culturais como. consistindo de tres partes: “uma é aproximadamen- te histori 2 € filoséficas outta & de nove, aproxima- damente sociolégica; a terecira — a mais importante a critico-litersia” (1970b, p. 255) Foi a afirmacio de Hoggart sobre a necessidade de que os Estudos de Lingua Inglesa Sentrassem em uma relagio ativa com scu tempo” que deu a tonica da fala inaugural de um projeto planejado para estudar as praticas culturais em um sentido amplo — um projeto eujas origens Stuart Hall des- creveu como marcadas por “precaugao ¢ incerteza” (Hai, 1984a, p. 22). Hoggart ¢ 0 projeto dos Es- tudos Culturais em geral visavam, de forma impli- ita, um adversitio especifico: a proverbial ¢ elitista escola de pensamento cultural inglesa, que argumen- tava em favor de uma separagdo entre a alta cultura a vida “real”, entre o passado histérico ¢ 6 mundo contemporineo, ou entre a teoria ¢ a pritica Os objetivos deste ensaio siv: definir mais cla- ramente em relagio a qué Hoggart ¢ seus sucesso- Fes pensavam que os Estudos Culturais 1 altermativa; descrever 0 gue eles p m_ uma ebiam como. scus antecedentes histéricos, como eles definiram 170 (c continuam a defini) seus propdsitos © © que Ihes parecia serem os obsticulos teéricos ou priticos no caminho da plena realizagio de seus objetivos: ¢ determinar quais foram as contribuigdes dos Estu- dos Culturais de Birmingham ao estudo da cultu- 1a ¢ da comunicagio no século XX. As premissas deste ensaio sio: (1) projetos ino- vativos autoconscientes como os Estudos Cultu- rais tém como proposta tratar de uma suposta deficigneia na ordem existente; (2) seus proponen- fs, em maior ou menor grau, sentem a necessida- de de — explicita ou implicitamente — justificar sua nova abordagem; ¢ (3) embora possam nao re- veli-lo espontaneamente, as pessoas que fa em par- te de qualquer grupo ou organizagao esto mais, agudamente conscientes da existéncia de fissuras naquilo que pode aparecer a pessoas de fora como tim tecido razoavelmente consensual ¢ homogéneo: Para evitar que se fevantem alegagées de “fale ia biogrifica”, devo ainda afirmar que, 4 seme- thanga dos tedricos do Centro de Birmingham, a autora deste ensaio pressupde uma conexdo org nica entre a “experiéncia vivida ou pessoal” ¢ as posigoes mais gerais ¢ tedricas que as pessoas ado. tam como parte de sua crenga académica ou profi sional. Esta premissa é particularmente relevante 172 Para os Estudos Culturais como um movimento que, Mesmo em seus primeitos estigios, adotou a andlise da cultura opersria na Gr8-Bretanha como uma pri- oridade, uma vez que vérias figuras centrais dos Estudos Culturais tém escrito de forma comovedo- a sobre as privagSes ¢ os desconfortos pessoais que cles ¢ membros de suas funilias experimentaram nos anos em que se ctiaram em localidades operstias.* Hoggart, tal como Raymond Williams, outro professor de Lingua Inglesa e critico literati que assumiu um papel central na fundagio do CCCS, tinha um conhecimento de primeira mio da expe rigncia de tansigio entre a classe operiiria c 0s eft culos universitérios, em um pais no qual um sistema agucamente dividido entre educagio priblica e edu cagio particular — devotadas, respectivamente, a objetivos aca tes — bifurea nicos ¢ a objetivas profissionalizan- 31. populagao de acordo com a classe social. Em uma época em que a maioria das crian- gas, na Inglaterra, deixava a escola em torno dos 15 anos, tanto Hoggart quanto Williams, vindo de meios em de antagem, puderam continuar scus estudos até 4 universidade — Hoggart foi para a Universidade de Leeds e Williams para a Univer sidade de Cambridge. Mais tarde, nos anos 40, am- bbos foram professores de educagio de adultos e deram aulas fora dos esquemas escolares normais — Hoggart ha Universidade de Hull © na Associagio Educacio- nal cle Trabalhadores e Williams em East Sussex, De acordo com Laing (1991, p.145), Williams acredi tava plenamente que as origens reais dos Estudos ‘Calturais britinicos estavam nessas experiéncias do- centes em salas de aula nio tadicionais Na época em que Hoggart ¢ Williams estavam Passando pelo sistema universitétio (os anos 30 ¢ 40), as influéncias de ER, Leavis ¢ TS. Eliot — ctiticos que viam, como afirmou Leavis, a “cultura € a demoeracia como inevitavelmente opostas” (ci- ado em Hall, 1984a, p. 22) —~ estavam comegan do a ser sentidas. Em Cultuern ¢ sociedade (1958), Raymond Williams descreve o clitismo de Eliot constata sua influéncia generalizada ¢ lamenta que haja uma coineidéncia entre a situagio existente ¢ as prescrigées pouco democriticas daquele eritico: Eliot de thor, de uma elite, © argumenta que, para as- nde a necessidade de elites ou, me- gurar a continuidade geral, nds devemos Conservar as Classes sociais ¢, em particular, a classe social governante, com a qual a clite em Parte coincide © constantemente interage. Bsta a conclusio fondamental de Eliot, pois esta claro que, quando as abstra: ges sio traduzidas por casos concretos, @ que ele reeomenda & substancialmente 0 que jf exis te socialmente. Ble é necessariamente levado, € claro, a condenar a pressio por uma socieda- de sem classes © por um sistema educacional nacional [ambos defendidos pelo proprio Wi- thams}, Ele acredita, na verdade, que estas pres- es jd distorceram a vida nacional ¢ os valores gue esta vida sustenta, £ a respeito destas re- comendagGes (...) que ele agora recebe consi- derivel atengio © apoio, (1958, p. 241) Williams também afirma que algumas ideias no- vas ¢ clitistas, apresentadas em um panfleto escrito por ER. Leavis, intiuulado “Mavs civilization and minority culture”, se tornaram “amplamente influentes” na sociedade britinica, Estas ideias, ob- serva Williams, so parte de uma antiga tradigao na Gra-Bretanha, advindas das “propostas de Co- leridge em favor de uma classe. ... cuja atividade “deveria ser o cultivo geral (1958, p. 63); da pro- posta de Carlyle em favor de “uma Classe Literitia orginica”, composta de “Herdis que fossem Pro- fessores ¢ Escritores” (1958, p. 85); ¢ da proposta de Amold de que houvesse um grupo selecionado de “alien, nas”, extraidos das diferentes classe: 174 - - “modernos filistinos” relativamente 4 cultura genui- na, definida como “o melhor do que foi pensado dito. no mando” (1958, p. 115). © argumento de Leavis representa a forma clissica do pensamento nao igualitirio, diametralmente oposto dquilo que se tornaria © projeto dos Estudos Culturais, com suia insisténcia em que todos os homens tém igual direito a serem seriamente considerados como con- sumidores de cultura, De acordo com Williams. Leavis argumentaya gue em qualguer periodo a apreciagao discriminativa da arte e da literatura depende de uma minoria muito pequena: as uns poucos que sio capazes de un j espontineo, de primeir: io ape- igamento mio... a minoria capaz nao apenas de apreciar Dante, Baudelaire, Hardy (pa mas de re constituem a conse hakespeare, Donne, fa tomar os casos principais), nhecer que seus sucessores recentes cia da raga (ou de um ramo dela) em um determinado periodo. Dessa minoria depende nosso poder de tirar vantagem da mais refinada experiéneia humana do pas ado: ela man- tém viva as partes mais sutis © mais pereciveis da tradigio (1958, p. 253). Em geral, Williams ¢ Hoggart e a tradi jo dos Estudos Culurais dirigiram seus estorgos iniciais para a tarefa de destronar a tradicao representada por Eliot © Leavis © as nogbes aristocriticas que ela implicava, bem como para ampliar 0 estudo da Lin- gua Inglesa, para inchuir, além da anslise das gran- des obras primas literdrias, uma Sociologia da Literatura. Como disse um antigo estudante do Centro, “os Estudos Culturais.... definiram sua se- paragio relativamente aos seus vinculos paternos através de seu populismo, consignando-se assim 4 marginalidade institucional” (Searks, 1977, p. 8). De fato, a0 menos de aeordo com Hall? uma fian- ca oposigio ao estabelecimento do Centro veio, inici- almente, da disciplina da Sociologia, Ele relembra que a fala inaugural de Hoggart “provocou um intenso ataque, especificamente da Sociologia”, que “se re- servava direitos de propriedade sobre o territério” destinado para o projet dos Estudos Culeurais, Hall disse que “a abertura do Centro foi saudada com uma carta de dois cientistas sociais que emitiram uma es- pxcic de adverténcia: se os Estudos Culturais ultra- passarem os limites apropriados ¢ assumixem o estudo da socicdade contemporinea (e no apenas seus t 108), scm controles cientificas “apropriados’, provoca- rio represtlias, por cruzar de forma ilegitima a frontcira territorial” (1984a, p. 21) Imersa naquilo que Hall caracterizou como a “metodologia estrutural-funcionalista do modelo 176 = americano”, a Sociologia britinica da época em que © Centro foi fiundado tinha um forte viés empiris- ta, Nem esta ciéncia social to positivista nem os Estudos de Lingua Inglesa tradicionais — com sua énfase na anilise isolada das grandes obras de arte — cram compativeis com os objetives intelectuais do Centro. stes objetivos cnvolviam investigar a cultura (amplamente definida) em scu contexto his t6rico; examinar novos métodos fenomenoldgicos ou cthometodoldgicos de pesquisa, baseados na nogio weberiana de versteben; ¢ empregar uma abordagem interpretativa, hermenéutica, relativa- mente a questies de significado (19842, p, 23 ‘Todos os relatos sio undnimes em reconhecer que a pauta de Hoggart para o Centro surgiu, em parte, como uma resposta a dois textos “formati- vos” publicadas no final dos anos 50 ¢ inicio das anos 60: 0. livro do proprio Hoggart, The uses of literacy (1957) € 0 livro de Williams, Culture ant society (1958). Posteriormente, além des livros, © s dois veo de Williams, The long revolition, 0 livro de Thompson, ‘The making of she english working class (1964) foram, de acordo com todos os relatos, altamente influentes na determinagio da diregio das preocupagdes dos Estudos Cultu- rais. Bstes textos tinham em comum uma preoc _ oan RE NELLIE oe es Pagio com a condigio social ¢ cultural da classe operiria, com a redefinigao de concepgies elitistas € tradicionais de cducagao ¢ com a definigao de uma “cultura comuny’, suficientemente ampla para incluir a cultura popular ou a cultura mediada pe- los meios de comunicagio de massa Gradualmente, nas quase trés décadas desde que os Estudos Culturais foram estabelecidos, seu foco foi mudando. No primeira década, ele tinha se alinhado com o marxismo tal como este ti= nha sido redefinido ¢ reinterpretaco desde 0 inicio dos anos 60. A énfase de Marx nas relagées de classe cra plenamente compativel com 0 foco do Centro na cultura popular, concebida como um reflexo da luta implicita da classe operdria por sua autoexpressio, © contetido dos meios de comunicagio de massa parccia fornecer, j4 no inicio da histéria do Centro, a fonte daquela “cultura comum” que Raymond Williams procurou identificar em rom culture 10 revolution (1968). Mais tarde, nos anos 70, 1 me- dida que, sob a direcio de Stuart Hall, 0 foco do * Centro se transformava, os textos da midia eram vistos como exemplos de como a ideologia continha as ideias dos grupos dominantes da sociedade. Na diécada anterior, contetido, a linguagem € as priti- fim de su ‘cas subculturais dos meios de comunicagio de massa 178 - = tinham propiciado reas nas quais o coneeito de he- gemonia de Gramsci podia ser examinado de forma concreta A releitura de Gramsci, no final dos anos 70, & luz dos estudos de género e de raga, foi extremamen- te importante para colocar em movimento a reav: liagio que o Centro fez da cultura popular — vista até Aquele momento como um mero veiculo ideo- légico para impor os paradigmas dominantes da ex- periéncia, uma certa cultura ¢ os pressupostos de classe que eram vantajosos para o staens quo. A me= dida que, nos anos 80, 6 foco do Centro mudava, Passando a ver a cultura popular como um local de resistencia e conflito potencial, ele se concentrava em desenvolyer uma “histéria da hegemonia” tal como ela se manifestava em expressdes culturais como a misica reggae © as revistas dirigidas As ado- lescentes, as quais forncciam “materiais brutos para milhares de leitoras adolesventes para que elas fi zessem suas proprias re-apropriagdes de seu con- tetido”, JJoHNsoN, 1983, p. 23) E dificil definir os Estudos Culeurais de forma sucinta ¢, de acordo com Stuart Hall, esta dificulda de ¢ intencional — isto ¢, os Estudos Culturais ongu- tham-se de no ter qualquer doutrina ou metodologia “aprovada pela casa”. Eles si0, em ver disso, auto- intelectuais um papel de vanguarda que eles nao merecem) ou a pritica € tudo (levando os intelecta- ais. a negar sua fungio em um esforgo para se passa- rem como “algo que cles nio sio — guerrithas urbanas)” (1984a, p, 287-8), Para o Centro, sob a diregdo de Hall, a nogio de “intelectual orginico” de Gramsci — um intelectual que tenha um envol- Vimento visceral € nao simplesmente profissional ou académico com os problemas — constiula um modelo titil a ser emulado. CONTRIBUIGOES PARA © ESTUDO DA COMUNICAGAO E DA CULTURA Os Estudos Culturais de Birmingham, como vi mos, estavam pensados para preencher um vazio intelectual (¢ politico) numa sociedade altamente estratificada, cujo sistema de ensino superior esta va constrttido de acordo com as linhas diseiplina res tradicionais, Constirai uma medida de quanto os Estudos Culturais tiveram éxito em modificar © ma da educagio superior na Gri-Bretanha 0 fate de que 0 vazio que motivou sua fundaci mais t20 flagrant 1. De fato, desde © inicio dos anos 60, os Estudos Culturais torna- ram-se tum movimento internacional, com revistas, conferéncias, associagoes profissionais, bem com io ni re nente vis 202 cursos académicos em muitas faculdades © univer- sidades. Outros centros interdisciplinares foram findados na Gri-Bretanha para analisar o conteti. do dos meios de comunicagio de masea: ‘The Cen. tre for Television Research, da Universidade de Leicester; © programa da Open University sobre cultura popular; © agora extinto Glasgow Medi Group, da Universidade de Glasgow: © 0 Med Studies Program, da Politécnica da Londres Cen. al, para mencionar apenas alguns dos mais prue- minentes. Os Estudos Culturais tiveram um importante impalso em paises espalhaces por todo © mundo, mais notavelmente na Ftanga, Estados Unidos, Canada, Austrilia e Affica do Sul, fre. uentemente através dos esforgos de estudiosos que alguma ve7.ensinaram ou estudaram no Centro de Birmingham. Qualquer historia estritamente ins. titucional do CCCS teria que deserever 0 desloca- mento intelectual de um grande miimero de antigos membros do Centro por todo o globo, mapeando, tambem, suas publicagoes em algumas das revistas mais importantes, tais como Media, Culture and Society; Screen; New Formations; Social Text, ¢ “ultural Studies, que esti, de forma crescente Propiciando espagos para intercimbios sobre dite rentes perspectivay de Estudos Culturais, 208