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Vidas quebradas: reflexos do crack

Reginaldo Osnildo

Vidas quebradas: reflexos do crack

1ª edição

Florianópolis

Diretoria da Imprensa Oficial e
Editora de Santa Catarina

2014

 - ).Florianópolis .Edição da Diretoria da Imprensa Oficial e Editora de Santa Catarina Projeto gráfico e diagramação Heloisa de Oliveira Ganzo Revisão Jaqueline Sinderski Bigaton FICHA CATALOGRÁFICA Catalogação na publicação – CIP – Brasil Arquivo Público do Estado de Santa Catarina Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Giovania Nunes (CRB-14/993) $%$ &   '( ) *   +   $  .A%2%B4#" Diretoria da Imprensa Oficial e Editora de Santa Catarina Rua Duque de Caxias. 261 ./$01&234 !"4  /1)!5%%6%""336 $   7 898-8 : <4643!&22 2 233!#4 4<     247 88 -8 /4= //4>? 4 .Saco dos Limões CEP 88045-250 .SC .

que me aguçaram as ideias e me incentivaram. E ao governo do Estado de Santa Catarina por este projeto. Em especial ao Paulo de Bem. sem o qual nada estaria concreto realmente.Agradecimentos Agradeço. primeiramente. . a Deus. Aos reclusos na época. Paulo Roberto da Rosa (Paulinho) e Rogério Fernandes Gonçalves (Buchecha). Aos agentes penitenciários que me forneciam folhas e canetas. Carlos José Santos (Pé de Cabra).

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Minha esposa. Adrielly Moraes. Rosicléia Duarte de Moraes. em especial. aos meus falecidos pais: Tereza Maria Lopes e Osnildo Orlando Barbosa. responsável pelo batismo da personagem central. Meu padrasto. . Para a tia Albertina e o tio Laudeli.Dedicatória Dedico este projeto. Íon Cézar Cardoso. Meu irmão. e minha enteada. Maria Pascoalina. Jamais esqueceria Eloisa Kniss e minha avó. Márcio Cézar.

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..................................................................... do Playboy..................................................................................... 49 Soldado usuário......................................................................... 85 Reflexões de uma cidadã................................................................................................ 43 Reintegração................................ ia .......................................... ban...... 81 Jesus dos Santos Emanuel....................... 11 Maria Pascoalina........................................................................................ 57 Soldado do morro....................................................... bandido ................................. ban............................................................................. 23 Pós-Inocêncio........ 35 O Surdo e o Mudo............... 63 Mais um José.................................................................................................................... 91 ............ 69 Vitór.................................................. 15 Inocêncio dos Anjos.................................................. 31 A vida e m..................................... 75 O ban....Sumário Apresentação........................

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realizado no interior da Penitenciária de Segurança Máxima de São Pedro de Alcântara. Outros. Capitão é uma caricatura da sociedade. como a Vitória e o José. criei a partir de relatos fornecidos por meus colegas de cela. como a própria Maria Pascoalina. este livro foi escrito. Muitas das personagens foram criadas com base em pessoas verdadeiras. baseado em um cotidiano transtornado por um mal cada vez mais comum: as drogas. Lenilson é a mescla de muitos que conheci durante os anos em que permaneci preso. A convivência nesse ambiente hostil e triste fez com que eu idealizasse este livro. Com muita dedicação. com o intuito de transmitir um pouco do que presenciei e percebi. Algumas. com personalidades similares ou distintas. que surgiu em homenagem à minha falecida avó paterna. e o Surdo. . Trata-se de uma ficção com apelo social. homenageando um falecido amigo chamado Rafael. corruptível.Apresentação Vidas quebradas é um projeto pessoal. que era mudo de nascença e consumia crack.

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Não calar! Que isso possa custar em comunidades várias a perda de emprego ou más interpretações já o sabemos. porque é impossível. Primeiro.em sociedade. porque somos uns animais gregários . porque se a consciência nos diz que o caminho é este então sigamo-lo e quanto às consequências logo veremos.que é simplesmente não calar. José Saramago . e segundo. mas também não estamos aqui para agradar a toda a gente.Não Calar Há uma regra fundamental quando se vive como nós estamos a viver .

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vítimas dessa catástrofe social. como nós. seja como participante ativo ou passivo. Eis que. lutar por um ideal de libertação. agarrando e devorando dezenas e centenas de milhares de vítimas. Surgiu-me a ânsia de reformar o mundo. As entrevistas. de alguma forma está envolvido. enquanto nada disso nos atinge. Nos meus primeiros dias como funcionária em um estabelecimento penal de cidade grande. por diversas formas diferentes. na época. ao sermos assaltados no semáforo ou perdermos alguém para as balas perdidas. talvez carregue. o passado e os pensamentos de alguns deles. a postura. Senti impotência. Ao entrevistar alguns reclusos do complexo penitenciário ao qual. Dependia. em meio a tantas coisas que anteriormente me eram alheias. o que não vende. fui designada. Apenas isso. sou psicóloga efetiva do sistema penitenciário. de minha análise para que tal fosse concedido. ou. É. as futuras metas e a mente de alguns presos que haviam alcançado o período regulamentar para benefícios de progressão de regime. em parte. mas ele está ali. ignoramos a existência desse briaréu moderno. ensinar sobre. analisando a dicção. deparei-me com a face deformada da sociedade. O que é o crime? Sentimos o crime quando somos atingidos diretamente por ele.Vidas quebradas: reflexos do crack Maria Pascoalina Meu nome é Maria Pascoalina. em um estado rico e bem estruturado deste belo país chamado Brasil. e mostrar para muitos o que diariamente passa despercebido: o crime. ao chegar ao lar e perceber que algo foi furtado. 15 . ainda. em questão. cheguei a uma conclusão: o mal do século é uma pedra. talvez venda. Aquele que não usa. uma pequena pedra de crack. o que não carrega. tinham como objetivo analisar o comportamento. compreendi. E uma dessas formas é o crack. infelizmente.

e esta obra foi a maneira que encontrei para chamá-lo(a) para a batalha. Não está em mim guiá-lo(a) ou dizer como deve agir em relação a tudo que será aqui mencionado. corrigi apenas os erros mais grotescos. tudo que julgasse importante. trago hoje a você. assim dispostos. Naquele momento não me passava pela mente transformar o meu trabalho em um livro aberto ao público. Nesse meu primeiro dia de serviço. Porém. você possa entender que existe um mal bem próximo a nós que precisa ser combatido. Não ignore. substituí as gírias complexas que foram ditas pelos presos por palavras de compreensão popular. podem ser melhores compreendidos. que você compreenda que o mal está próximo. para facilitar o seu entendimento.Reginaldo Osnildo *** Antes de passar no concurso público para o cargo que agora exerço. minha análise sobre a situação e alguns depoimentos recolhidos naquela sala. habituei-me a registrar. consegui registrar. no entanto. Sou uma simples psicóloga. com muita convicção e fé. Tenciono que. use sua sabedoria e tenho certeza que encontrará algo com 16 . alguns erros modestos de pronúncia em suas falas permaneceram propositalmente – nada que pudesse dificultar a compreensão –. um dos maiores interessados nessa questão demasiado polêmica. Reforço que. naquela pequena sala que me foi fornecida para o exercício da função. Quase tudo que foi conversado. não cabe a mim julgá-los pelo que já haviam ou estavam cumprindo. Espero. procure uma maneira de lutar. prezado(a) leitor(a). você tenha uma posição convicta de como deve agir em relação à essa droga mortal. simplesmente espero. mas algo neles era comum e é esse algo que tenciono mostrar-lhe. com um pequeno gravador portátil que possuo. como eu. ao final da leitura deste livro. A sequência em que os depoimentos foram colhidos não condiz exatamente à ordem com a qual foram enumerados nesta narrativa. através dessas vivências alheias que. Transcrevi as entrevistas com o intuito de transmitir o cotidiano de alguns desses supostos perturbadores da ordem. no entanto. estava com ele funcionando a todo vapor. até porque não imaginava o que me esperava. nos poucos minutos que tive de conversa com cada um. tendo em vista que os mesmos possuem toda uma linguagem para se comunicar nesse mundo paralelo.

tão cedo não exponho o que realmente é importante no momento: a realidade dos excluídos e suas vidas quebradas. excluídos. sobre essas análises políticas e sociais. Vamos lá. não feche seus olhos para o que está acontecendo.. *** “Hoje é o meu primeiro dia como efetiva naquela penitenciária. por enquanto. de sua cor ou idade.” Lembro que era bem cedo quando gravei essas palavras. E. não podemos ignorar a doença. 17 . Não coloquei data. confesso que estou com um pouco de medo. investimentos na informação para alertar o povo seriam bem-vindos e programas sociais para melhor tratar os necessitados seriam também de bom grado. abrangendo melhor a questão. tenho visto muitas campanhas alertando para o não uso dessa droga da morte.Vidas quebradas: reflexos do crack que lutar nesta guerra. Bem. com a graça de Deus. direta ou indiretamente. o que aconteceu na vida dessas pessoas aqui citadas pode acontecer com você. mas. tamanha era minha ansiedade. não acontece o mesmo com os que já são usuários – compreendo que a prevenção é o melhor remédio. mas vamos lá. caso contrário. o sol ainda não havia nascido e eu já estava de pé. passei no concurso e fui submetida a alguns testes extras depois. quem sabe uma reformulação na justiça. trabalhei por um tempo em um colégio infantil por contrato. de sua religião. no entanto.. Não está em mim criticar. Independente de sua classe social. Venceremos se nos unirmos pelo bem maior. porém. você não está escape do crack. tudo deu certo. Apoio integralmente essa nobre iniciativa. Com o decorrer da leitura você entenderá melhor o porquê deste termo. Talvez nossos governantes pudessem ampliar os programas de reabilitação para os viciados. seja o que Deus quiser. completei a faculdade. mas estávamos na primeira década do século XXI. Para chegar até esse cargo estudei muito. melhor que eu pare um pouco. se assim fizermos. ela se propaga.

a dificuldade para o meu caminhar era imensa. muito medo. O sol. Melhor não sei explicar. o som que ouvi naquele momento era de gigantescas abelhas operárias. surgindo lentamente por trás do imenso paredão repleto de janelinhas. como se eu fosse a criminosa. Catatônica. Os zumbidos das falas dos presos. Senti medo daquele lugar. que já estavam acordados naquele momento. no entanto. não me permitia compreender. não em sua doçura. o portão se abriu. não muito. Uma voz em meu subconsciente deu o grito e paralisei. mas. onde 18 . a não ser um enorme portão de aço e um muro maior ainda – imenso. foi assim que fiquei. pouco percebi. juntavam-se entre si e a distância. ou habitat. quando brincava com minhas coleguinhas de estátua. assimilando-o ainda mais à cor do mel. se um dos agentes prisionais não tivesse surgido e perguntado se eu estava perdida. nada podia ver. como se uma barreira em minha mente tivesse sido criada. que foram desocupados e adocicados pelo pólen. cobria a brancura da muralha com o dourado de seus raios. A primeira impressão que tive naquele princípio de caminhar foi de estar em uma gigantesca colmeia. Antes de adentrar ao monumental empreendimento ressocializador. como se tivesse voltado para minha infância. Haviam guaritas postas em cada extremidade do muro que avistei. Segui o agente prisional que se dirigiu a mim. que poderiam ser comparados aos cubículos que aparentavam os lares das larvas de abelhas. no primeiro momento. apenas o suficiente para minha passagem. O primeiro passo que dei para o interior daquele estabelecimento me abalou a estrutura. não sei como descrever melhor essa sensação. senti como se um cobertor peludo e molhado tivesse sido colocado sobre meus ombros. só depois que pude tomar conhecimento que nas laterais e nos fundos do complexo também existiam guaritas. a sensação foi surpreendente. A parede que avistei no momento inicial de reconhecimento me passava a impressão de um enorme favo de mel. Liberada minha entrada. colossal. Enquanto estava do lado de fora. mas. por seus pequeninos compartimentos. na qual eu me encontrava das conversas paralelas. paramos no refeitório. teria eu ali permanecido por dias. gigantesco. minha vontade era fugir. o porteiro do complexo pediu minha identificação. sem me movimentar.Reginaldo Osnildo Cheguei bem cedo.

jamais substituirão uma janela. Estou apavorada!” Gravei isso. Está abafado!” No momento que gravei isso. Aqueles quatro buracos. impregnada em meu subconsciente pelas lendas urbanas que circulam na sociedade. cada um em seu posto. havia um arquivo de metal com quatro gavetas desocupadas e algumas prateleiras fixas nas paredes que rodeavam o recinto. apresentei-me aos demais que substituíram os agentes da noite anterior. Esta sala está parecendo uma tumba. e. Tratava-se de uma pequena sala com duas cadeiras e uma mesa entre essas. Fiquei imaginando mil e um possíveis acontecimentos trágicos. creio eu. além de quatro pequeninas entradas de ar na extremidade superior oposta à porta. Em relação à minha antecessora. Trocaram-se os plantões. só depois de estabilizados. me decepcionei. Hoje compreendo que um pouco foi mitologia. sei que ela afastou-se por problemas 19 . Quando perguntei aos funcionários o que havia acontecido com a psicóloga anterior. novamente meu subconsciente criando situações baseado em fofocas. enquanto lavava meu rosto para tentar acordar daquele pesadelo momentâneo. me mostraram o local que trabalharia nos dias seguintes. de dez centímetros de raio. essa saleta citada seria apenas provisória. no alto da parede. poderia me ser útil.Vidas quebradas: reflexos do crack nos foi servido um café matinal reforçado. não tinha conhecimento que minha sala estava sendo reformada. Todos me cumprimentaram e parabenizaram pelo meu primeiro dia. no banheiro. *** “Sinceramente. *** “Não posso me esquecer de jamais ficar sozinha com um preso e não confiar neles. emudeceram. alguns me deram conselhos diversos sobre não confiar nos presos e jamais ficar sozinha com um deles. Ouvi e guardei.

meu colega de serviço. hoje mesmo preciso fazer um relatório especificado sobre cada um deles. e saiu. dona. Sem saber o que esperava. Sentada. Imediatamente levantei-me e o segui. me entregou algumas folhas e saiu. não sabia que psicóloga tinha que ser contratada com segurança particular anexado ao pacote. nada mais descobri desde então. Perguntei-lhe por que havia me deixado sozinha com o preso e ele respondeu: – Pois é. fiquei desenhando um psicopata em minha mente. Desliguei. Em seguida. Arregacei as mangas e limpei todo aquele ambiente tenebroso. Meu serviço estava apenas começando. O agente prisional colocou o preso na cadeira. Terminei a limpeza e. Eis que surgiu.Reginaldo Osnildo particulares referentes à saúde. não conseguia pensar positivo. dei a atenção devida ao conteúdo. que era o assistente social do referido complexo. Em meus primeiros minutos no complexo fui aconselhada a jamais 20 . certo? Dito isso. talvez até triplicado. Enquanto limpava. desapareceu por entre os corredores gradeados. só então. hoje você se vira. chamei um agente prisional e solicitei que me trouxesse os presos que especifiquei em uma folha de papel. Até aquele momento meu psicológico estava travando. Liguei o gravador. Devo lembrar-me de trazer um vaso de flores para melhorar o ambiente. em frente à mesa. Retornei à sala com meu pânico redobrado. Meus primeiros momentos naquela penitenciária foram torturantes. *** “Tenho em minhas mãos a ficha carcerária de diversos detentos.” Analisei minuciosamente cada folha. permaneci aguardando. amanhã o próximo plantão te arruma um guarda-costas. somente calamidades e tragédias. Façamos assim. me explicou rapidamente como deveria proceder dali em diante. que viessem um após o outro.

deixou a desejar. Analisando a ocasião. completamente desamparada.Vidas quebradas: reflexos do crack ficar só com um deles e. meus colegas poderiam ter sido mais compreensivos. aliás. de repente. Em sua ficha constava a idade. 21 . Porém. atualmente compreendo que um pouco foi fantasia minha. confesso. era um homem simples e bem educado. ele consentiu. Sentei em minha cadeira e observei o preso que ali foi colocado para que conversássemos. isso desmistificou meus anseios. mas. especialmente aquele brutamontes ignorante que. ali estava. seu delito – tráfico de drogas –. naquele momento. Perguntei se poderia gravar a entrevista. hoje é muito amigo meu. Tratava-se de um homem de aproximados cinquenta anos. baixa estatura e porte físico atlético. Foi ótimo ter conversado com ele primeiro. não possuía advogado e não recebia visitas de familiares. bom comportamento registrado até então.

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precisava deixá-lo à vontade e isso era um começo. evitando assim erros na análise. sim. senhora. já possuía resposta. porém. nada mais. em tom enérgico. de um estado a outro. – respondeu ele. – respondeu. Prossegui: – Você sabe por que está aqui. Fui preso dirigindo um carro. forrado com crack. É para saber se estou apto a voltar para a sociedade. apenas para confirmação. creio que não poderei ajudá-lo muito. sua cabeça permanecia abaixada. – respondeu ele. Imediatamente ele ergueu seus olhos. A droga não era minha propriedade. – Inocêncio dos Anjos. não seria obrigado. Ele sorriu e seu sorriso me acalmou.Vidas quebradas: reflexos do crack Inocêncio dos Anjos – Qual o seu nome? – perguntei. senhora. compreendeu que a liberdade dele em parte dependia daquela entrevista. mesmo sabendo a resposta. o que não quisesse falar ou responder. apenas receberia um dinheiro para transportá-la.. – Não. 23 . no entanto. Disse a ele que não era preciso desculpar-se. – Tem advogado? – perguntei. Esclareci-lhe que. – Tráfico de drogas. – . ainda com a cabeça baixa. – Pelo que foi preso. – disse ele. – Quer me contar o que aconteceu? – indaguei-o. não sei dizer se por vergonha ou respeito. senhora. – disse isso com muita dificuldade. – Pois bem. que estava ali para ajudá-lo e bastava que conversássemos. Enquanto falava. desculpou-se. Inocêncio? – Sei. Inocêncio? – para algumas das perguntas que fiz.. se você não conversar comigo olhando diretamente nos meus olhos.

dormi empregado e acordei. minha esposa resolveu. sustentei minhas filhas e eduquei-as. um cidadão de bem. Triste hora para esses bancos mundiais entrarem em falência. Ele pensou um pouco e iniciou seu relato. Todos os nossos planejamentos foram por água abaixo. Aconteceu que. Sempre recusei. posso ajudá-lo muito. queria que eu guardasse armas e drogas. O que me diz? – insisti. consegui comprar os bens necessários para o dia a dia. honesto e trabalhador.Reginaldo Osnildo – Inocêncio. fazer um check-up geral em sua saúde e foi constatado um tumor maligno no abdômen. Encaixamos as parcelas salgadas do tratamento. Passei muitas dificuldades em minha vida. Vi minhas filhas crescerem e casarem. conquistei minha esposa e fui abençoado por Deus com duas filhas lindas. A indústria no qual eu trabalhava era uma multinacional. tão pouco fácil demais. sempre que esse indivíduo me via. assim que eu mudasse de ideia.. senhora. fiz esse sacrifício de todo meu coração. no nosso orçamento. mas resolvemos de imediato começá-lo. Antes de ser preso por tráfico de drogas e estar sozinho nesta penitenciária. Com muito suor e sacrifício. com muito amor. Depois desse dia. recusei com muita prudência. no meio da rua. Pouco tempo antes de minha decadência. fui procurado por um rapaz da comunidade onde moro. Nem sempre as coisas ajudam. O tratamento era caríssimo. 24 . não era uma vida complicada. porém. dia seguinte. tinha medo de sofrer represálias por parte dele. Infelizmente surgiu a crise. inclusive a questão da saúde de minha esposa. pedia que.. eu era alguém. Mas sabe como é. Eu era funcionário em uma metalúrgica automotiva e recebia um salário suficiente para me equilibrar. Vendi um veículo que possuía para dar de entrada e parcelei o restante. eu o procurasse. certo dia. cumprimentava-me e me aliciava. Nunca deixei faltar nada dentro de casa. adquiri um lar. Passei a ir para o serviço a pé ou de bicicleta.

amigão? – ele me cumprimentou. companheiro? – me perguntou. com o dinheiro da saída poderia quitar as parcelas restantes e manter o bem-estar de meu amor. mas. 25 . Quando dei alguns passos rumo ao meu lar. tudo até aquele momento me levou a tal conversa. senhora. não me impressionou muito. – Estou procurando serviço. – Em que posso ajudar. senhora. Essa crise foi uma “marolinha” que alcançou muita gente. Com algumas economias que ainda restavam passamos um mês. veio outro e as contas começaram a surgir. Por bom senso. meus passos eram automáticos. terrível! – desabafei. quando caminhava completamente desgostoso da vida. Sem perceber de que forma. Como vai. mas sabe como é. Só que os executivos dessa empresa evaporaram. Tive a impressão de ter visto um brilho em seus olhos. essa frase foi a melhor maneira de me persuadir. encontrei-o. não só eu. rodeado por vários malandros armados e recebendo instruções. Inocêncio. – Meu caro. – Terrível. eu tinha muito com o que me preocupar.Vidas quebradas: reflexos do crack Entrei com um processo na justiça requerendo os valores rescisórios de meu contrato trabalhista. Um dia. Foi quando ele jogou a frase chave: – Sei como você pode salvá-la! Minha primeira vontade foi agredi-lo. meu caro. no momento. ele me chamou. ela precisava de paz. sem esperança e entristecido. Fiquei transtornado. sentado no sofá. somente isso! – falei e tentei me desvencilhar da armadilha que ele estava montando. quando dei por mim estava em uma residência.. acredito que o mais certo é dizer que ele me encontrou.. o aliciador. Quando me dei conta. eu não podia perturbar minha esposa. porém. Por um bom tempo procurei por serviços informais. estava pronunciando uma palavra que dizia tudo: – Como? Ele me abraçou e começou a caminhar comigo. resolvi não ignorá-lo.

quitei contas e as parcelas que estavam atrasadas do tratamento. O aliciador me entregou um envelope com a quantia combinada. me acompanhou na refeição e. antes de completar meu pensamento. Pensei que não teria próxima. recebi o dinheiro para a passagem de ônibus e o pacote. pegou a mochila e pediu para que eu esperasse ali mesmo. ela pediu que eu esperasse em uma pizzaria próxima. A pizza surgiu acompanhada de um refrigerante. Sem demora alguma chegou a mulher. Não conseguia pensar. desapareceu. acreditava que seria melhor se não soubesse. estava tranquilo e resolvi me alimentar. entrei e aguardei. Minha esposa foi internada para completar a quimioterapia e eu 26 . mas disse-lhe: – Até! Com o dinheiro que consegui naquele serviço. Feito isso. fui até um telefone público e efetuei a ligação a cobrar. O tempo passou e novas contas começaram a surgir. solicitou uma pizza ao garçom. pelo menos por desencargo de consciência.Reginaldo Osnildo Fui contratado! Naquele dia. o lugar era tranquilo e sempre foi utilizado para essas ocasiões. Embaixo do endereço existia anotado um número de celular. Alguns tapinhas nas costas foram o incentivo final. ainda sobrou para comprar mantimentos para nos manter por um tempo. em seguida. sentou-se à minha frente. Inocêncio. recebi como instrução o simples fato de levar uma mochila de onde estávamos até a cidade vizinha. Fui atendido por uma mulher do outro lado da linha. Novamente saí para procurar oportunidades. ele surgiu. Cheguei ao destino sem ao menos ver o que a mochila continha. Encontrei o estabelecimento com facilidade. nada encontrando. Instantaneamente me vi dentro do coletivo com o endereço nas mãos. algo para beber e quitou. despediu-se: – Até a próxima. após o primeiro pedaço de massa mastigado comecei a me indagar o que a mochila continha e.

Cheguei a imaginar que ele me seguia. Ele me entregou uma passagem de ônibus. Por diversas vezes. desses de fácil acesso a quase todas as classes sociais. Sem demora. Estacionei o automóvel na lateral do estacionamento. Um dia. efetuei um telefonema e apareceu um mecânico em um guincho. Aceitei. Na metade do percurso. uma viagem. aleguei apenas esperar por alguém e pedi-lhe um refrigerante. saber como. senhora. para aquele criminoso da comunidade não conseguia dizer não. adentrei e sentei na mesma mesa do encontro anterior. Hoje me arrependo. iria me abalar ainda mais. Veja como é as coisas. Novamente não quis saber o que estava levando. após constatar que o tanque estava cheio. lembrar que o ajudava já me transtornava. conseguiria o valor que me perturbava e me sobraria um pouco ainda para manter-me. Quando ele notou a minha presença. Embarquei. eu o via. Era um popular. sua chave e um endereço com nome e telefone. minhas filhas ofereceram-me ajuda. não me preocupei. Desta vez foi um carro o que transportei. a documentação de um veículo. desabafei sobre minha situação e disse a ele o valor que me faltava. recusei. Em apenas poucas horas. 27 . tranquilo. O local estava movimentado e o garçom demorou um pouco para atender-me. e eu. e peguei o caminho de volta. perguntou o que eu queria. Em poucas horas cheguei ao destino. levoume até ali perto e me mostrou o veículo. orgulhoso que só. fui servido. passei a ter a impressão de estar sendo seguido. Por todo lugar que eu caminhava. não sabia o que estava transportando e isso me manteve calmo. fui procurá-lo. mas não. no entanto. ele sorriu e falou que tinha o serviço ideal para mim. Eu havia sido aliciado uma vez pelo destino e esse mesmo destino o colocava novamente em meu caminho. em meio a tantas tribulações.Vidas quebradas: reflexos do crack me vi em apuros financeiros. Levoume na rodoviária e me disse que aguardaria na mesma pizzaria da cidade vizinha.

diante da minha negativa. naquele ambiente. perguntou se eu havia pedido algo para comer. ele também. disseram ser policiais e nos mandaram deitar no chão. os entregadores de pizza que iam e vinham constantemente e as pessoas que não pus reparo. Eu era um criminoso naquele momento. dois. uma grande operação havia sido montada. não sei ao certo. só depois. tinha idosos. senhora. O senhor e a moça que estavam do meu lado direito se levantaram. ainda pude ouvir algo sobre princípio de enfarte. dois homens vestidos de preto conversavam em tom de voz reduzido. senhora. Em algumas mesas mais afastadas de onde me encontrava. Eu. bem inocente. o garçom fez um sinal para que o aliciador aguardasse. escutei ele me dizer para que eu assumisse. o companheiro dele chorava. Não abalei-me. Antes que eu terminasse minha bebida não alcoólica. eram policiais civis e estavam investigando há tempo o aliciador. do contrário. sentou na minha frente e sorriu. havia uma ou duas famílias. Do meu lado esquerdo. Inocente entre aspas. relaxei. o casal sacou de armas e gritaram enfurecidos. sua voz era de um tom melífluo e seus gestos gritantes e afeminados. mas entendi. Uma ambulância levou o homem desmaiado. Pois é. refletindo. o outro gritava desesperado por ajuda. Deitei-me e fui algemado. quando ele olhou novamente para mim e sorriu. ele chegou. em torno dos trinta. que fui me dar conta das minhas atitudes. Enquanto degustava o líquido que me foi entregue. comemoravam algo.Reginaldo Osnildo Ali. crianças e alguns jovens. um casal. o homem devia ter seus quase sessenta anos e a moça que o acompanhava. Fomos levados para fora. No meu lado direito. não desconfiei de nada. Deitado no chão. eram mais de quinze pessoas. Sem contar os garçons que eram no total de três. dos que estavam nesse local. observei rapidamente os demais que estavam no espaço. minhas filhas não seriam poupadas. Todos que estavam ali presentes nos olharam. 28 . chamou o garçom. um dos dois homens que estavam no meu lado esquerdo desmaiou. me senti à vontade. Nesse exato momento.

A mulher que havia me dado a voz de prisão e me algemado levantou a porta traseira da viatura ao qual eu estava retido e perguntou se tudo que foi encontrado era meu. senhora. Assumi tudo senhora. Naquele momento eu engolia meu orgulho. Como missão secundária. o barulho da batida ecoou por alguns minutos em minha mente. temendo pela vida delas. Não conhecia as regras deles. adentraram no recinto tendo esse totalmente desocupado. O carro que eu transportei foi arrombado por policiais. eu estava no compartimento traseiro de uma viatura próxima ao carro. chorou 29 . Três policiais da equipe de narcóticos. dentro do carro tinha quarenta e sete placas de crack. o aliciador foi levado por outra para o distrito policial. a rua transformou-se em um campo de guerra. averiguar todo o local próximo. totalizava quase cinquenta quilos. a pizzaria foi revirada e as famílias que comemoravam algo foram importunadas. confirmei com um aceno de cabeça. Em suas mãos tinham placas de drogas. aprendi a dançar conforme a música. Imediatamente surgiu a imagem de minha esposa e filhas em minha mente. Quando o policial deu o grito de alerta. Depois de uns dias. De lá até agora passei por muita coisa. O aliciador foi liberado e eu fiquei autuado em flagrante. minha esposa veio me ver. A policial fechou a porta traseira da viatura com toda força que possuía. apanhei da policia e apanhei de bandidos. gritou aos demais: – Encontrei! Havíamos sido separados. e todos os presentes tiveram que ser minuciosamente revistados. Os funcionários do estabelecimento não escaparam do fatídico. Tumultos causados por curiosos precisaram ser contidos pelas viaturas que foram chamadas para o reforço de pessoal. o carro foi cercado. Um dos investigadores que estava grudado ao veículo que eu trouxe.Vidas quebradas: reflexos do crack A operação tinha como principal objetivo impedir nossa fuga. isso me atingiu muito no começo. acompanhados de cães farejadores. Eu não sou criminoso.

.. senhora? Se arrependimento matasse. 30 . o câncer. minhas filhas me escreveram uma carta na qual disseram que jamais me perdoariam..... alastrou-se depois que o tratamento foi interrompido. mas estava muito triste com minha atitude.. Sabe de uma coisa. pediu que eu refletisse e que tivesse paciência. Perdoe-me senhora. foi a primeira vez que desabafei após a morte de minha amada. Agradeço por ter me ouvido. disse que não me abandonaria. Eu faria parte da estatística.. minha esposa parou de fazer o tratamento e acabou falecendo dias após o meu aniversário... Disse também que minhas filhas dificilmente me perdoariam. Lágrimas.. Fui condenado alguns meses depois. o tempo cuidaria de tudo. que estava sendo tratado à base de quimioterapia.. Nestes três anos que estou preso.Reginaldo Osnildo muito. Sei que esses problemas particulares são meus.

bastava não dizer. ele apenas me observou. fiz anotações favoráveis em sua ficha carcerária. Falei a ele que o que não quisesse que fosse gravado. abri a porta e lhe falei: 31 . foi liberto. oro para que esteja bem. Comuniquei que estava ali para ajudá-lo e a liberdade estava nas mãos dele. ou uma mulher. depois dessa entrevista. Aliviei-me ao perceber que ele entendeu o recado. Tudo bem. mesmo não aprovando. Lembro-me que. sentou-se na cadeira e espreguiçou-se. A ele não pedi. reconfortei-o. não? O que um homem. Simpatizei com seu Inocêncio. que Deus o abençoe. nesta penitenciária não era obrigatório o uniforme. Prometi que iria chamá-lo novamente. fiquei. se dependesse apenas de mim. que seria anexada ao seu exame criminológico. não é capaz de fazer por quem ama? Não quero justificar o erro dele. É. compreendi a atitude dele. Após ter me despedido de seu Inocêncio. sorte minha que o agente prisional ainda estava presente. para uma conversa sobre seus problemas. erro é erro. As aparências realmente enganam.. seu sorriso maroto foi desmanchado para me dizer gracinhas. Não simpatizei com ele naquele momento.. Dei a ele a minha palavra. nem sei como ele está hoje. O preso foi repreendido sem que eu precisa-se me manifestar. Não era certo ele querer ajudar sua esposa com a vida ou a desgraça de outros cidadãos. simplesmente comuniquei que iria gravar a conversa. o agente levou-o e veio com o seguinte. ele estava carregando sua cruz. mas que fiquei abalada com sua história. Era um jovem bem vestido e perfumado. Que coisa. tinha um sorriso bonito e emanava simpatia. ele seria solto. não demorou muito e ele saiu.Vidas quebradas: reflexos do crack Pós-Inocêncio Depois desse desabafo. Indaguei seu nome. ele permaneceu em silêncio. Respirei fundo e me levantei.

Vou trocar seu nome por um apelido. só que melhor. outros brandos. mas minhas palavras soaram firme. gesticulou. percorreu a metade dele debaixo do sol quente a cinquenta graus e. minuciosamente relatando. depois que eu conheci essa droga maldita. mais tarde quando escutei isso. Esqueci-me de desligar o gravador. firme. essa foi a condição dele para autorizar-me a revelar sua história. surge um oásis. Aí você bebe um pouco de água e. de repente. nesses casos somente o poder de Deus para modificá-los. Contou-me seus anseios e seus erros. sofredor que cometeu erros e se arrependeu. sinto-me diferente. me impressionei com a atitude que tive. Peço que me desculpe por ter omitido algumas partes da gravação. imagine que você está no meio do Saara.Reginaldo Osnildo – Se você não gosta da liberdade. Cometi tudo isso aí por causa da pedra. – Qual é a sensação? O que leva você a fumar ou a querer muito fumar? – A sensação é inexplicável. revelou-me sentir-se superior ao cometer seus delitos. A sensação é quase isso. quando falei que não simpatizei com ele. Agora volte dez minutos antes de achar o oásis e 32 . O Playboy sempre soube da minha opinião. Tocar na palavra liberdade mexeu com ele. Fiz as perguntas de praxe e conduzi a conversa a uma situação que ele se sentiu à vontade para abrir-se.. mas simpatia foi o que senti por seu Inocêncio. não posso ser hipócrita ao ponto de dizer a mim mesma que ele poderia mudar por vontade própria. Mesmo tendo a autorização dele. não detalhou. compreendi que nem todos tinham mentes criminosas e cada qual precisava ser tratado a sua maneira.. dê o espaço desta cadeira em que está sentado para quem quer sair deste lugar! Não fui ignorante. Talvez você tenha me entendido. chamá-lo-ei de Playboy. ele é filho de uma pessoa importante da sociedade. mais graves. a conversa com seu Inocêncio me fortaleceu de alguma forma. Sinceramente. além de não ter se arrependido. me compadeci de sua situação. Com esse tinha que ser assim. senhora. Vejamos. conversei diversas vezes com ele depois desse dia. pois não sou assim. Desculpou-se e prometeu colaborar. alguns. Esse jovem. identificá-lo me traria complicações. Observe algumas palavras dele: – Pois é. erroneamente.

Se for preciso atravessar o deserto inteiro para fumar outra. 33 . Preciso explicar mais? – Esse assalto. senhora. como faz em tempo recorde. foi por causa do crack? – O assalto? É uma longa história senhora. Só tem uma coisa..Vidas quebradas: reflexos do crack terá uma grande vontade de beber água. mas vamos lá. É uma verdadeira maldição! – Como assim uma maldição? – Senhora. sabe esses filmes dramáticos que o homem ou a mulher fazem de tudo para agradar o outro. O crack se assemelha.. Acredite.. pelo qual você foi condenado. mas temos a pedra.. Pôxa! Como posso explicar? Eu troquei minha família pelo crack. Depois que fumou a primeira. não só a pessoa consegue o feito..... já viu filme de zumbi? Ou melhor. aqui no Brasil não temos Saara.

.

Eu não ia mais à periferia divertir-me em uma “pelada” com os companheiros. na realidade. desvendávamos o princípio da adolescência e. Fui criado por empregados. Se eu quiser fumar e não tiver dinheiro. hein! Não é meu mundo. hein. todos ao meu redor me bajulavam por eu ser filho de magnata. conheci a maconha e a bebida. diferentíssima da minha. vou à luta. Em pouco tempo troquei meus novos amigos. Com treze anos comecei a fumar cigarros no colégio. senhora... Nesse bairro. Em tempo recorde. Essas pessoas da classe alta são muito cheias de hein.. Meus pais são proprietários de uma rede de hipermercados. do Playboy Já disse. Então. Nasci em um mundo egoísta. desse mesmo jeito. porém. não me arrependo do que fiz e se precisar faço de novo. desculpe.Vidas quebradas: reflexos do crack A vida e m. íamos ao bairro vizinho para jogar futebol. já havia me enturmado com uns rapazes do colégio vizinho ao meu. Fumávamos cigarros. Em três meses de vício. A senhora quer saber? Vou contar desde que me lembro. já sabia manusear a 35 . espalhados pelo Brasil. Nunca fui muito a favor dessas frescuradas. na periferia. às vezes. exceto afeto. me envolvi com essa molecada e comecei a faltar às aulas para divertir-me com eles. Meu pai é um “corno manso” e minha mãe uma “vagabunda”! Desculpe. uma escola pública com boa estrutura.. Fui criado à revelia e sem carinho.. que tinha muita pompa. e sim para me enturmar cada vez mais com aquelas novas amizades. era. Nunca faltou nada para mim. sempre desprezei a todos que andavam comigo por esse motivo..

Anos depois. já tendo alcançado a maioridade. as meninas me olhavam diferente. A cocaína me dava muita disposição.. senhora. ela me disse que não tinha mais e o “papelote” (ou peteca) era caríssimo. por ter conhecimento com contas. fingia-me bonzinho para que os empregados nada dissessem aos meus pais. só isso já era o suficiente. senhora. Fumar maconha e beber. Induzi muitos a usar. mas vinha acompanhado de outras sensações e tudo o mais. aos poucos. frequentando boates e noitadas. para mim. Ainda menor. Vivia dois mundos. só o que mudara foi o fato de eu ter me tornado maconheiro. Quando eu digo que sosseguei. Lembra que eu disse que meu pai tem muito dinheiro? Então. me mandou um advogado. mostrava-me maléfico para adquirir respeito entre meus novos companheiros. Estava com um grupo de amigos. não é. Quando eu não levava maconha para o colégio. Fiquei curioso e pedi a ela para experimentar. já fazia parte do meu sangue. na rua. Eu bebia muito e o pó cortava o efeito da bebida. Além da contabilidade. e eu não era mais o mesmo. eu era o mesmo. senhora? Acordei na tarde do outro dia em um motel com essa moça. fui convidado para auxiliar na contabilidade em um ponto de drogas. Tornei-me a mancha negra do local. 36 . não parei. mas me envolvi novamente com outro grupo de pessoas. Na realidade. queriam de qualquer maneira “fumar um”. cheio de pompa. foi só de vender. Em casa. me viam como o maioral. Eu não trabalhava. os novos adeptos vinham “intimar”. ficava elétrico e eufórico. Não preciso dizer o que aconteceu.. comecei a levar drogas para o colégio. conheci a cocaína. Meu pai nem apareceu na delegacia. Mostrei a ela muito dinheiro e perguntei onde comprar. e uma das meninas que nos acompanhava serviu-se daquele pó. depois dessa prisão sosseguei um pouco. Passei a andar armado. fui preso na sala de aula com um revólver.Reginaldo Osnildo droga e. Foi então que ela me puxou pelo braço. não vendi cocaína. O tempo me levou a traficar no interior do estabelecimento educacional.

A noite tornou-se uma festa constante e eu. Descontrolei-me depois de um tempo e voltei a usar cocaína todos os dias. Ele me tirou o carro. como auxiliar administrativo.Vidas quebradas: reflexos do crack meus companheiros de baladas foram sendo. penhorei o carro por alguns papelotes com o traficante. Sabe aquela atenção a distância? Tipo. por um tempo. saí pela madrugada com muita “instiga”. aos poucos. Naquela noite. senhora. ninguém mais usava. Minha mãe se tornou atenciosa ao perceber minha melhora. Reduzi o consumo de álcool e só cheirava cocaína nos finais de semana. na madrugada.. se tivesse mais para vender. perdia a mínima responsabilidade que me restava. Ela é ruim nas suas consequências. endireitei-me. com uma calça de moletom. me vi no fundo do poço. Passei a viver sozinho. e um dia. desviei e fui parar em outra comunidade. Senhora. Vendi tudo para fumar e. o faria. de manhã. Meu carro foi usado para cometer uma chacina. Não fui roubado. até minhas meias levaram... sem dinheiro para usar.Ensinaram-me como fumar e boom. facilmente me enturmei. com vontade de usar cocaína. 37 . Conheci o crack. até que. em pouco tempo. explodiu em mim a catástrofe. se fosse ruim. Mostrando dinheiro. Infelizmente. meu pai me cortou as finanças e ela me abandonou. substituídos. e. fumei todo meu dinheiro e tudo que vestia. Certa vez. o ponto onde eu comprava drogas estava cercado pela polícia. Serviço de atendimento ao consumidor? Ela me ligava só para fazer sugestões e reclamações. Não horrível de usar. deram para que eu não andasse pelado. não. essa droga é horrível. observei um grupo que estava alvoroçado e percebi que eles usavam algo. A polícia chegou até o veículo e acabou mordendo um dinheirinho de meu pai para abafar o caso. Meu pai me deu um carro bom. Nessa época estava amasiado. saí dali. fazendo um quê de bermuda. Nesses tempos de vacas magras controlei-me. consegui um emprego em um escritório.. cortada na altura do joelho. entre aspas.

senhora! Subi até seu apartamento. fizemos a “limpeza” na casa. Senão. no aguarde.. Quando as vacas realmente emagreceram mesmo. É mais cadeia para mim. essa é minha viagem. não fui trabalhar na tarde desse dia. acredite. acabo pagando para me sentir assim. senhora. fico revoltado. só que. fico assustado. percebi que era um colega dos meus tempos de escola. domina nossa mente. simplesmente passava uma propaganda enganosa de bandido mal. vendi. quando uso. só no desejá-la. Cada passo que dava. eu queria 38 . Quando eu falo que essa droga é maldita. Aos poucos perdi tudo que tinha. boom. Na realidade. por favor. Me tratou excepcionalmente bem e me convidou para entrar em seu apartamento. Não demorou muito e perdi o emprego. e eu imaginava o que ele teria de bom para que eu pudesse vender. filhinho de papai. saía para roubar. Agora. estava novamente diferente. Sabe esse assalto que estou preso? Fui assaltar um homem certa vez. em nenhum momento tinha outro pensamento que não fosse o crack. Perdi não. No horário do almoço voltei para o beco onde havia passado a noite e fumei mais. essa droga é maldita por causa disso. pensei em roubar. Estava ansioso. isso em questão de meses. a vontade de fumar aumentava. convidei alguns de meus novos amigos e. Nunca fui corajoso. consenti.Reginaldo Osnildo Nesse mesmo dia. Já te contei algumas coisas que fiz. munido de uma faca.. penso que meu pai vai aparecer a qualquer momento e passo um tempão espreitando. Eu estava bem vestido e ele não notou a faca. fui trabalhar. Ele nunca vem! Na real.. planejado tudo. meu intestino remexia-se em meu interior. Toda vez que eu queria usar crack e não tinha dinheiro. na adolescência. ao me aproximar.. a coragem só me surge quando eu não tenho crack para fumar. Boom. transformei-me novamente. O primeiro lugar que roubei foi uma das casas de praia de meu pai. Desse dia em diante. Pela manhã inteira fiquei pensando no crack. não vá contar para ninguém senhora. Desempregado não tinha como conseguir dinheiro.

Continuando.Vidas quebradas: reflexos do crack sair o quanto antes dali e fumar. peguei. foi que avistei o cofre. a casa era minha. alguns relógios. decidi levá-lo. do aparelho. Tinha tanta coisa de valor. Foi só. Ele pensou em gritar. decidi que. correntes e pulseiras de prata e uma corrente de ouro. Irado.. silenciou. senhora. coloquei também alguns litros de destilados importados. Bastou que ele fechasse a porta e eu avancei sobre ele. exceto um quadro pendurado na parede e o tapete. fiquei abismado. Permaneci por dez minutos fazendo pressão psicológica em sua mente. reforcei as amarras e abafei sua boca. sentei no chão ao seu lado. puxei a faca. se não encontrasse dinheiro. onde achei uma mochila e uma bolsa. arrastei-o até o banheiro e o larguei lá. senhora. trouxe todos. mostrei a ele os prós e os contras de se apegar ao dinheiro. retirei o fio da parede. com a faca na mão. Dei uns tapas e joguei-o ao chão. a alguns passos de nós. ele balançou a cabeça negativamente. eu que mandava ali. Não foi nada agressivo. ele arregalou os olhos. Caminhei por toda casa e nada mais me interessou. coloquei o aparelho de DVD na bolsa. escoceses e muito mais. quando o retirei. O celular que ele jogou sobre o sofá. perguntei a senha. Percorri o recinto para averiguá-lo. era muito lindo. avistei o telefone. fumar.. corri até o banheiro e o enchi de cascudos. Fui até o banheiro e perguntei sobre dinheiro. Sorri maleficamente e debochei dele. 39 . fumar. Havia perfumes em uma prateleira fixa na parede sobre a pia. em uma gaveta. retornei com um pano e um lençol. foi mais para assustá-lo. Depois de colocá-los na bolsa. Na sala de estar. Feito isso. um notebook e uma câmera digital. Tranquei a porta e retirei a chave. fixei-me no quadro. enrolei o tapete. ele cedeu. Vesti algumas peças de roupa e coloquei outras na mochila. os levaria. e o apavorei. Achei. e amarrei-o. Eu queria fumar o crack! Quando entrei no seu lar. a senhora ia gostar. Depois do susto que dei nele. Me senti dono de tudo! Fui ao seu quarto.

anotei no celular que era dele e corri para a sala. Momentos depois. Ele pegou o celular que eu havia subtraído e fez uma ligação. Desci as escadas com a bolsa nas mãos e a mochila nas costas. pareceu estar discutindo. Ignorei o quadro jogado no chão. Não queria perder tempo. ele estava a uma distância razoável. Infelizmente fui preso. trouxe junto. ele conseguiu pedir ajuda e chamar a polícia. Veio em minha direção. Na hipervontade de fumar. Assim que peguei o conteúdo do cofre. Deduzi que ele estava conseguindo a internação para mim. tinha até uns documentos. Joguei tudo na mochila. Me iludi! 40 .. Parou na minha frente. se eu me internasse em uma clínica. mas eu não podia ouvi-lo. ficou de costas para mim. Estando aberto o cofre. me olhava e apontava para o teto. Algo em mim queria lutar naquele momento. Não desfrutei de nada. a vontade de fumar.Reginaldo Osnildo Tirei a mordaça e ele me ditou a senha desejada. Fui pego a três quarteirões da casa dele. Em meu semblante havia um sorriso. também deixei o tapete. deixei-o sem a mordaça e com a porta do banheiro aberta. me falou que. Arrastando-se. Eu estava algemado.. gesticulou e falou de maneira que passou a impressão de tentar convencer alguém. Pela primeira vez. fiquei olhando-o com cara de bobo. Em meu pensamento. Ele disse: – Me desculpe. Ele veio com uma ideologia de bom moço. ele quis me ajudar. mesmo eu tendo feito tudo que fiz. ele retirava a queixa. caminhando rumo ao ponto de drogas. A vítima apareceu e me reconheceu. encontrei em seu interior muito dinheiro. mesmo que maligno. alguém se importou comigo realmente. Fiquei observando-o. Desligou o celular e permaneceu por segundos parado. Eu iria fumar muito. pareceu-me que estava refletindo. surgiu-me uma esperança. senhora. saí. senhora. Eu aceitei. Me espancaram e me levaram ao distrito policial. Nos primeiros momentos dessa ligação. falei com seu pai e ele disse que você precisa aprender a lição.

Mesmo que algum leitor me aponte o dedo. leitor(a). O playboy que contou essa história realmente chegou ao fundo do poço. 41 . quem sabe não teria revertido esse papel que ele desempenhou. assaltando-a. e que não anexei nesta transcrição. sai da frente. Se eu tivesse me esforçado mais para ajudá-lo. Reconheci-o.Vidas quebradas: reflexos do crack – Não vou retirar a queixa. assemelham-se a esse. mas creio que seja suficiente para você. pelo qual ele foi condenado. o jovem. no momento em que esse projeto estava sendo passado para o papel. foi assassinado por policiais em uma residência de pessoas de bem. e não investigar delitos alheios. Não havia detalhes de nomes. compreender um pouquinho de sua história trágica. apossou-se de uma faca e fez a família que ali residia como refém. quem sabe até criticando-me pelo fato de não expor esses crimes. Havia fantasiado oportunidades. não coloquei tudo o que ele falou. Como disse. talvez a pedido de seus pais. com qual eu não havia simpatizado no primeiro encontro. Tendo invadido essa residência meses após sair da cadeia. ressalto que. sinto muito.. a minha intenção era apenas revelar o que o crack fez na vida desse jovem promissor. Já falei. Ainda enquanto este projeto estava sendo passado para o papel. Sabe quando eu me sinto bem? Só quando estou drogado de crack! Estralado! Nunca irei largá-lo! O crack é minha família. segurando uma mulher pelo pescoço. No fundo ele era uma pessoa boa. A polícia invadiu o local e não pensou duas vezes. Alguns delitos que ele me contou. Ele não foi identificado. se precisar roubar de novo para fumar. me julgando. ninguém jamais realmente me amou. tão pouco de locais específicos. infelizmente deixou se influenciar por ideologias negativas. Eu o vi no monitor da minha casa com a faca na mão. – ele concluiu e retirou-se. Assisti todo o drama pela televisão.. senhora. Eu amo o crack e ele me ama. faltou alguém disposto a estender-lhe a mão. Foi a última vez que o vi.

Reginaldo Osnildo

Mesmo sabendo que ele não está mais entre nós, fisicamente, acredito que
esta frase é impactante e, como eu escreveria para que ele lesse, escrevo agora para
que sirva para outro playboy que esteja se iludindo com essa droga devastadora.
Caro Playboy, se você estivesse lendo, veria que cumpri minha palavra,
na esperança que tivesse largado esse vício.
Muitas vezes, procurar entender resolve mais que acusar.

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Vidas quebradas: reflexos do crack

O Surdo e o Mudo
O seu Inocêncio e o Playboy foram os únicos que transcrevi, um após
o outro. Todos os demais, que agora citarei, foram ouvidos alternadamente e
organizados na sequência seguinte para melhor compreensão.
O Surdo e o Mudo eram dois jovens franzinos que foram presos no
mesmo artigo: furto. Um realmente era surdo-mudo e o outro participou da
entrevista como porta-voz.
Essa conversa eu não pude gravar. Foi minha última oitiva e todas as
minhas fitas estavam preenchidas, porém, por lembrar cada momento dessa
tão delirante ocasião, posso narrar detalhadamente.
Já cansada de um dia inteiro, estressante, de serviço e tendo ouvido
antes dessa, um bambambã, não acreditei ao ver dois rapazes entrarem
algemados, juntos, pelo tornozelo. Restava-me apenas um nome para ser
entrevistado. Desengonçadamente, passei a palma das mãos sobre os olhos,
pensando se tratar do cansaço. Enganei-me. Realmente eram dois.
A dupla permaneceu em pé, fiquei, por segundos, com minha
consciência em órbita, sem compreender a situação, chamei o agente
prisional, o Brutamontes; lembra? Então, ele veio, olhou-me e, sem nada
responder, saiu e retornou com uma cadeira, deixou-a e desapareceu pelo
mesmo corredor anteriormente citado.
Ao perguntar qual dos dois era o meu entrevistado, Surdo apontou
para seu parceiro e disse:
– É ele, dona!
Surdo, era o vulgo que esse jovem possuía. Por estar sempre junto
com seu companheiro, que é surdo-mudo de nascença, recebeu essa
nomenclatura diferenciada. Cabe ressaltar que, em todo o complexo,

43

Reginaldo Osnildo

só o Surdo entendia o Mudo e vice-versa. Só para constatar, o complexo
penitenciário em que fui efetivada possuía, nada mais, nada menos, que
dois mil reclusos, sem contar os funcionários. Senti-me frustrada por não
conhecer a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Sorte que o Surdo estava
ali, e de surdo nada tinha.
Prossigamos. Mesmo algemados com “marca-passos”, sentaram um
em frente ao outro, de maneira que o Surdo me ouvia e, com as mãos livres,
gesticulava para o Mudo, esse, após compreender, respondia em gestos, e, em
seguida, Surdo dirigia-se a mim.
Por ter os dois presentes em minha saleta, além da vida do Mudo,
conheci também a trajetória do Surdo. Ambos nasceram na mesma
comunidade e se tornaram órfãos. Quando muito jovens, ainda crianças, os
pais de ambos foram assassinados em uma mesma chacina. Cada um, a seu
tempo, foi levado para a mesma instituição governamental. Lá se conheceram
e formaram uma bela amizade que se perpetuou através dos anos.
Ainda quando crianças, em torno de seus nove para dez anos, de acordo
com o que se recordam, fugiram do ambiente no qual residiam e foram viver
nas ruas. Inicialmente, como pedintes, sobreviviam de esmolas. Na realidade,
nessa atividade, Surdo é que desempenhava melhor papel. Mudo sempre o
acompanhava com seu olhar de necessitado, olhar esse que não precisava ser
interpretado; podiam observar em sua face, eu pude observar.
Por muito tempo morando nas ruas, conheceram todos os tipos de
pessoas. Um protegia o outro dos demais moradores de rua. Conheceram
a cola de sapateiro; na realidade, Surdo conheceu primeiro e Mudo o
acompanhou. Surdo era o irmão mais velho de Mudo nessas situações.
Mudo se espelhava em tudo no Surdo. O que Surdo dissesse, com as mãos
ou com o olhar, Mudo obedecia. Mesmo tendo essa autoridade total sobre as
atitudes do amigo, Surdo não se prevalecia dele, pelo contrário, o pouco que
tinham era dividido em iguais partes. Depois da cola, se perderam no crack.
Como sempre, o primeiro a experimentar foi Surdo, Mudo o acompanhou na
viagem. Amigos unidos, irmãos pelo destino, dominados pelo vício.
Depois que passaram a consumir o crack, seus laços se reforçaram.
Percorriam bairros inteiros, de cidade em cidade, atravessaram estados,

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jovens que têm lar e pais para impedi-los de cometer loucuras. A esposa desse homem impediu que as agressões prosseguissem e pediu que fossem embora. pararam em frente a um portão colossal em uma casa magnífica. Certo dia. nada fizeram. ao contrário de Surdo. contou-me Surdo. ele realmente era surdo e não entendeu a reação do cidadão. vez ou outra recebiam um não. tudo mudou. com uma mão em cada barra de ferro vertical. ainda nesse tempo que pediam. Segundo nosso amigo Surdo. Sobreviviam com a ajuda da população. enlouquecem. que observou a propriedade por relances. Foram acusados de larápios e ambos apanharam sem nada ter feito. moravam na rua. Essa agressão foi o divisor de águas. o ambiente familiar era agradável e demonstrava carinho e afeição. as crianças brincavam pelo quintal. Mudo. quem pede precisa se acostumar com a negativa alheia também. agarrado nas grades do portão da residência. O que podemos dizer sobre essas duas vítimas da catástrofe social? O que você acha que fizeram? 45 .Vidas quebradas: reflexos do crack sempre pedindo. no entanto foram agredidos de igual forma. não ouvindo os brados desse pai de família enfurecido. Quando percebeu. mas eram dignos e pacíficos. o homem excomungou-o. observava para dentro de tão caloroso lar. mas não muito longe. poucos meses. normal. a face entre as mesmas. Ainda não tinham alcançado a adolescência. Correndo para interceder. pais esses que dão afeto e instrução e nada deixam faltar em casa. O proprietário do monumental e espetacular imóvel paralisou ao observá-los q distância. Pela primeira vez. gritou que seu irmão era deficiente. em seus corações nasceu-lhes o sentimento de revolta. a ambos. usavam o crack. Foram sim. O proprietário estava a aparar o gramado e sua esposa a regar flores. até então. Mudo estava recebendo uns “tabefes”. faltando. Desligou sua máquina de cortar grama e caminhou até eles. continuou a caminhar a passos lentos. Fico imaginando. mas depois do primeiro furto. nada adiantou. não estavam totalmente possuídos pela droga. Tendo visto Mudo a analisar sua propriedade. enquanto caminhavam por uma dessas cidades que tanto percorreram. E o Surdo.

a festa foi feita. Fez gestos de glutão e. lembrando-se da cena. Mudo gesticulou dizendo que foi ele quem encontrou a janela aberta. não controlei meus risos. percorrendo de um lado ao outro a casa. Mudo se empolgou. apenas se maravilharam 46 . com as mãos. segundo nosso amigo. desvendando cada aposento. a janela estava aberta e a lua cheia refletia seus brilhos noturnos para o interior. percebendo o caminho livre. os sinais que permitiam ao Mudo participar da compreensão do assunto. A cada parte que Surdo me contava. já no interior da residência. Disseram-me que nada viram que pudesse agradar e. Surdo gargalhou. puderam ver que não era o agressor dormindo. Deus me perdoe. No abrir de portas. por ele fariam isso todas as noites. pelo que entendi. Segundo contou-me Surdo. quase que simultaneamente. Após isso. por todo lugar que passassem. Quando me contou isso. No movimento desse vandalismo. mas. Passaram por um quarto desocupado. Mudo achou tudo muito divertido. Estando no interior da casa. provavelmente esse era dos empregados. onde se alimentaram muito – nessa parte da história. deduzi se tratar de uma adega de vinhos. Surdo me disse que era chocolate. comeram muito chocolate naquele dia. imaginando a cena. entravam. E o pior. mesmo com o ambiente à meia luz. Lavaram as mãos e resolveram entrar. ele me transmitia. encontraram uma abertura.Reginaldo Osnildo Voltaram ao escurecer. mas ele não soube me responder. defecaram no gramado e. naquela noite. No quarto das crianças não quiseram entrar. O primeiro perímetro averiguado por eles. Pois bem. Foram à cozinha. entraram em outros corredores. procuraram por qualquer coisa que os agradasse. que de surdo nada tem. Ainda com muito cuidado. muita coisa foi parar em seu bolso para depois. perceberam que estavam em uma espécie de depósito com centenas de garrafas deitadas. sem muito luxo e por um quarto com pessoas dormindo. achei muito engraçado. espalharam nas paredes da residência. agiam com extrema cautela e. o seguinte foi um enorme salão com mesas e depois havia um bar. assemelhava-se a uma sala de cinema. após a adega. mesmo dizendo que ele fez errado. ou melhor. os dois juntos caminharam pelos corredores da enorme propriedade.

47 . já em idade adulta. Mudo. Surdo continuou fumando crack. Foram filmados pelas câmeras de um condomínio. mas não mexeram em nada ali. vez ou outra. a facilidade que encontraram para fazê-lo transformou-os completamente naquela noite. que compreendi quando Surdo me disse que o amigo havia dado um tempo. onde venderam os furtos para usar. Ficaram encantados com tanta coisa. Depois de um tempo. e o consumo excessivo da droga. todo o dinheiro foi para o consumo do crack. Ao sair dali. Na carteira do cidadão havia uma quantia equivalente a três salários mínimos. Até então. seu desespero era tão visível em seus olhos. Surdo me disse que havia sido condenado por tráfico dentro do sistema penitenciário. possível lucro e rota de fuga eram os mais influentes na decisão. pela investigação da Polícia Civil. O casal dormia. ficou com tanto medo da morte que não usou mais desde então. Tornaram-se adultos. por isso. a toda hora. Nova transformação ocorreu-lhes. apenas decidiam os alvos. tornaram-se homens franzinos. apenas Mudo estava ganhando o benefício da progressão de regime. No princípio da mudança. saíam a pedir. por isso. a carteira e um celular. Especializaram-se. e isso lhes rendeu alguns anos de reclusão. Surdo entrou e foi pegando o que entendia por objetos de valor. não permitiu o desenvolvimento corporal dos mesmos. Depois desse evento. e as casas que não os ajudassem tornavam-se alvos do desejo compulsivo. fumavam desbaratinadamente. Não levaram muitos objetos. no momento da entrevista. trouxe um par de sapatos masculinos. Na malandragem é comum dizer que o malandro não para com um vício. porém. mas. ele dá um tempo. as escolhas eram feitas por diversos fatores – grau de dificuldade. Escolhiam outro local e idem. aliado à má alimentação. Estagnavam em um local por um tempo e furtavam diversas residências. novamente. percorreram muitas cidades.Vidas quebradas: reflexos do crack da porta com tantos ursos de pelúcia e brinquedos. pelo que vi. Quando já estava terminando a conversa. Sua interpretação foi tão real e dramática. foram à procura de um ponto de drogas. Assim. Os dois foram presos. falou-me em gestos que quase morrera de overdose. juntos. Já no aposento do casal. Suas estaturas e habilidades não permitiam a prisão em flagrante. passaram a fumar compulsivamente. Mudo parou.

Sei que fizeram errado. quando o sabem. isso fez com que fossem condenados à revelia. não querem escutar. Para minha tristeza. com as pernas inertes. mas não sabem se expressar. Se nos esforçarmos um pouco. Encaminhei-o a uma instituição especializada onde ele poderia aprender a sobreviver honestamente na sociedade. suicídio. procurando entender como a justiça condenava alguém deficiente. 48 .Reginaldo Osnildo Mais tarde. Infelizmente. Às vezes. não me ouviu. Uma vez encontrei Mudo na rua. e mesmo assim. meses após essa entrevista. observei-o de longe e sorri também. ainda me lembro do que espalharam naquela parede. são apenas especulações. conseguiu uma profissão e encontrou pessoas com os mesmos problemas. E isso ocorre com frequência. Lá. sem me ouvir. já havia aprendido. ressocializou-se. os dois sorriam e conversavam sem nada dizer. O pouco que consegui fazer por ele. mas quando recordo começo a rir sozinha. ou. o que se faz de surdo não morrerá e o que não consegue falar. não os compreendemos. foi muito. ele estava acompanhado de uma oriental muito linda. No Brasil e no mundo existem muitos Mudos que querem parar com o vício. no cubículo onde morava. Movimentei alguns palitos e consegui a liberdade para o Mudo. Vez ou outra. que Deus o tenha em bom lugar! No Brasil e no mundo existem muitos Surdos que ouvem bem. descobri que os dois foragiram-se da delegacia depois de presos. se tornará alguém. A princípio. um ligado ao outro. Mudo. Sei que Surdo não seria capaz de se enforcar. suspenso pelo pescoço. acredito que ficou devendo drogas. Surdo foi encontrado. nada posso confirmar. Aconselhei-o a parar com o crack. Ainda me dói o coração lembrar que não consegui ajudar Surdo.

se nos importássemos mais com os problemas que nos cercam e nos empenhássemos em modificá-los. até mesmo sem medo das drogas aliciando nossos filhos. O homem é um ser de natureza frágil e falha. 49 . Nenhum de nós está livre de se tornar vítima dessa catástrofe social. já ouviu falar sobre centro de recuperação de drogados? Se ainda não. Corruptível. dos assaltos. o que fez para ajudar? Já passou pela sua mente que um ex-usuário de drogas pode ser um criminoso a menos nas ruas? Talvez. Mas o que você tem feito para colaborar na luta por essa “paz mundial”? Talvez você pense que nada pode fazer. amigos e irmãos. mas. pergunto-lhe: e se a rua em que você mora for interditada? Você e os demais moradores encontrarão um tempo para se mobilizar? Chamarão as autoridades? Imprensa? E se o seu time de futebol local classificar-se para a final do mundial? Reunirá amigos para torcer pelo mesmo objetivo? Pois é! O crime e o crack incomodam mais que uma rua interditada e dão mais alegria quando vencidos do que um título mundial de futebol. poderíamos caminhar mais tranquilos. Você já pensou quão bom seria se.Vidas quebradas: reflexos do crack Reintegração Você amigo (a). sem medo das balas perdidas. não estou fantasiando. Extinguir a criminalidade por completo é quase que impossível. Eu sei e você sabe disso. É compreensível o fato de quase sempre estarmos de mãos atadas quando se trata da luta pela liberdade social. tivesse a pura convicção que não existe crime ao seu redor? Não amigo(a). e talvez esse pensamento derrotista esteja tão impregnado em sua mente que já faça parte do seu dia a dia. neste exato momento em que você está lendo este livro. por que o desinteresse? Se já tem conhecimento.

Indaguei-lhe qual o apoio que ele esperava encontrar e disse-lhe que ficasse à vontade em falar. Eu 50 .Reginaldo Osnildo Estou chamando sua atenção para esse assunto porque no decorrer das oitivas. Foi quando ele contou-me: Senhora. proveniente do meu suor. Antes desse delito. – Por quê? – tornei a insistir. ele me respondeu com lágrimas tentando escapar de seus olhos: – Faltou-me apoio. na medida do possível. era um rapaz forte. Nem ladrão ele é. que. após refletir sobre minha vida resolvi abandonar o vício. mas sua aparência nos passava uma noção de idade acima dos quarenta. antes de ser preso. eis que um dia conscientizei-me de meus erros. eu estava internado em um centro de recuperação. Força de expressão. Na época da entrevista.. Um belo dia. usuário compulsivo de crack. Achei interessante expô-lo. conversei com um rapaz e o caso dele me foi curioso. né? Para o usuário não tem dia belo! Pois é. A droga acabou com ele. senhora. ia para o consumo dessa. Caio? – Furto. senhora! – respondeu-me ele. – O que furtou? – insisti.. Entristecido. Perguntei-lhe: – Pelo que você foi preso. Desde os dezessete anos que fumava essa droga maldita. Em compensação. Caio nunca tinha efetuado semelhante ato. a senhora sabe. todo dinheiro que conseguia. Caio estava com trinta anos. mas foi preso no desespero da abstinência. Jamais havia roubado uma agulha sequer de alguém. senhora... foi preso furtando a bolsa de mulher dentro de um hipermercado. iria ajudá-lo. – concluiu ele. Caio Silveira é seu nome. Belo entre aspas. – Uma bolsa feminina.

trazidos por seus pais ou amigos. meu psicológico estava totalmente abalado e já havia perdido todas as pessoas que me amavam. aos poucos. não havia muros. percorri estados. mais precisamente um sítio. olaria. como está difícil conseguir isso nos dias atuais. Tratase de um ambiente administrado por uma organização não governamental empenhada na ressocialização. pelo contrário. sentia-me enfraquecido e desnorteado. senhora. serralheria. tenho medo do crack. havia alimentação. me forneceram roupas. Penei muito. quitam os custos da manutenção. que ainda acreditam em um mundo melhor. até os de menos aptidões me seriam de grande auxílio. o difícil é você deparar-se com ela e vencê-la. Tornei-me monitor. não estava sendo tratado como ex-usuário. O local era um campo aberto. eu acelerava meu processo de envelhecimento. não me sentia preso. jardinagem etc. era um exemplo vivo de recuperação. Sabia que não estava preparado. Mesmo recebendo muitos elogios dos paraninfos e filantropos que ali iam para tomar conhecimento dos resultados. e vamos e viemos.Vidas quebradas: reflexos do crack estava me acabando. Saí à procura de centros de recuperação especializados. é fácil você ficar afastado por um tempo da droga e se recuperar fisicamente. criei forças e optei pela mudança. e sim como um novo ressocializador. tornei-me o mais antigo dos que ali estavam para se reabilitar. e não permanecerem dias. jamais me senti tão bem em minha vida. estudos. Aqui perto encontrei uma casa de apoio aos dependentes químicos. Mas consegui. Sinceramente. troqueios pelo vício. O trabalho dos internos e as doações feitas por pessoas de boa vontade. Sentiame orgulhoso. Após seis meses internado. de uma palavra amiga. ensinam profissões das mais variadas: marcenaria. eu não me sentia totalmente livre do vício. Nessa crise de identidade que enfrentei. Vi muitos chegarem. 51 . Perdi não senhora. senhora. Precisava de um apoio.

e. fecharam a clínica e nos colocaram para fora com tudo. Caio chorou.. Aos poucos fui acreditando em minha reabilitação. sei lá. ali nenhum interno estava sendo sustentado pelo governo ou prefeitura. é considerado perda de tempo. Tornei-me novamente alguém... Até acredito que fosse possível que o terreno fosse público. nasci de novo. O porquê. Uma coisa eu sei. Encontrei. acompanhados da polícia. Veja bem. inconformada. A senhora consegue me compreender? O governo municipal não investia nesse tipo de iniciativa e impediu quem estava se empenhando. talvez um erro no cartório. aos poucos. meus dias foram preenchidos com muita paz e sabedoria. senhora. analise minha situação: saí de meu estado e cidade natal em busca de melhores condições de vida. senhora.. Com muita luta. senhora. um ambiente onde podia me regenerar. – Mas por que fizeram isso? – indaguei. depois de muito sacrifício e procura. Nesse momento. O que não dá lucro. estava conseguindo me dominar. 52 . Acontece que surgiu um grupo de engravatados. não sei dizer. – respondeu-me. [narrador] . A questão é que não estava rendendo lucros para o “leão”. ao certo. Não é minha especialidade. Fiquei abismada e perguntei: [narrador] – Quem fechou? – A prefeitura. estavam com uma ordem de despejo e falaram para o encarregado da clínica algo sobre reintegração de posse. até que. hoje em dia.Reginaldo Osnildo O que me abalava no internamento era ter a certeza de que não poderia vencê-lo. fosse o caso. adquiri confiança. fiz novos amigos e planejei expectativas para meu futuro.

. meus pensamentos estavam fora do corpo. fui largado ao relento. Por essa razão. mas. uma vontade incontrolável de consumir novamente. entrei no hipermercado. Enquanto minhas pernas prosseguiam e meu coração pulsava. Boom! Usei. Desses. não foram para seus lares. Consegui um lugar para passar algumas noites. precisava. o pouco que possuía. que fomos recolhidos nas ruas por almas bondosas. minha mente gritava por mais uma “bola”. estava mecanizando meus gestos. saí novamente a caminhar sem rumo. Pelos corredores. quase todos tinham para onde retornar. minha mente trabalhava em função do crack. mas o fato de ter consumido novamente me retransformou. Das pessoas que estavam ali para tratarem seu vício. trabalhando meu psicológico e acabei sendo derrotado. 53 . onde fui preso. já havia passado por ali várias vezes e nunca conseguiu se controlar. melhor. Acabei cedendo. veio a fissura. Muitos.Vidas quebradas: reflexos do crack Quando fecharam o centro de recuperação. Esse companheiro que me apoiou nesse momento difícil era interno também. assim como eu. aceitei só por aquela em questão. juntamente com os outros internos. fiquei muito tempo sem usar. sim. Esse era meu maior medo naquele momento. comprar cigarros e algo que pudesse mastigar. meu corpo pedia. o alimento procurei pelos imensos corredores. apareceu com a droga mortal e. O cigarro eu solicitaria para a atendente na hora de sair. exceto eu e mais dois. Vendi tudo ou. os demais eram de outros municípios ou estados. pus-me a caminhar. Minha intenção não era furtar. Eu queria fumar. Depois de ter caminhado um pouco. Com trocados insuficientes para comprar outra pedra. A propriedade foi destruída depois de todos os móveis e eletrodomésticos terem sido jogados para fora. No dia seguinte. Fiquei tanto tempo me purificando espiritualmente.. Ele chegou. nesse dia. Estava desesperado em um curto espaço de tempo. um pouco mais da metade morava por perto.

Sabe quando ocorre nos desenhos infantis de algum personagem cobiçar algo e ver na situação uma oportunidade de ganhar dinheiro. talvez não saiba. O valor supremo torna-se o crack. Assim como os veículos só funcionam com combustíveis. Agora estou aqui. a pessoa passa a depender do crack para prosseguir vivendo. Não medi as consequências. senhora. Se pudesse. Espero sinceramente que não. acredite. a qualquer custo. me bateram muito. tive a impressão que ela me chamava. na sua frente. tornei-me uma marionete dessa epidemia. Sabia que estava fazendo errado. na realidade. dei apenas alguns passos para fora do hipermercado. Quando me pegaram. Deus sabe que tentei. Ele domina suas ações. não consegui disfarçar que estava roubando. Na verdade.Reginaldo Osnildo Avistei aquela bolsa! Nunca havia roubado antes. fui impulsivo. você passa a querer o crack de qualquer forma. sentia que todos me olhavam. acho que nos meus brilhavam montanhas de pedras de crack. só imaginava a quantidade de drogas que conseguiria fumar. A senhora consegue me internar? 54 . Não consegui me controlar. aparecendo cifrões em seus olhos? É. A vida se movimenta em torno daquele intenso desejo e nada tem mais valor. Estar viciado nessa droga maldita é não controlar os próprios instintos. senhora. Caio chorou novamente. a droga me controlava a distância. e rápido. em fuga. Pois bem. mas a droga me dominou por completo. quando eu avistei aquela bolsa sobre o carrinho de compras parado no meio do corredor. Preciso de ajuda. senhora. Fui preso no estacionamento. Saí correndo do estabelecimento comercial com a bolsa debaixo do braço. parava de fumar. toda hora. mas sabe como é o vício. Eu tentei. senhora? É.

estava escrito assim: Muito obrigado por ter me auxiliado. depois de quarenta e cinco dias. que nem pensem em fazê-lo.Vidas quebradas: reflexos do crack Consegui. senhora. Caio. por ordem judicial. 55 . Conte comigo! Novamente agradeço. Fique na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo! Caio Silveira. que abandonem. faço questão que meu depoimento sirva para alertar muitas das tantas pessoas que estão se perdendo nesse vício. Caio Silveira foi transferido. fez questão de mandar-me um recado. Para aqueles que nunca usaram. Espero que consiga alertá-los. para uma clínica particular. Quando estava saindo de transferência. Não se esqueça daquele projeto. após atenderem minha solicitação. Para aqueles que estão usando. Que a paz esteja com você.

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refletia sobre a última conversa que tive pela manhã. 57 . Sua cara era carrancuda e seu olhar desconfiado. Ele. Fiquei pasmada com a crueldade relatada por um soldado do tráfico. Capitão. e essa foi minha surpresa. até porque de nada nos seria útil. que relatarei no próximo capítulo. tratava-se de um ex-policial e estava preso por tráfico de drogas. Isso estava na minha mente. Trazia consigo um homem troncudo e de bigode volumoso. era assim que era chamado pelos presos e pelos agentes prisionais. Um ótimo atirador enquanto profissional a serviço da sociedade. o agente prisional Brutamontes bateu continência ao preso e esse lhe disse: – Dispensado. sem saber qual sua condição. Irei denominá-lo por sua antiga patente. Fazia anotações e raciocinava. ardia em brasas. Enquanto aguardava por ele. Essa figura estava sem algemas e falava com o funcionário em um tom de muita liberdade. Em meio a tantos pensamentos conflituosos sobre assunto tão complicado. No refeitório solicitei ao Brutamontes que me trouxesse o próximo detento da lista assim que estivesse disponível para fazê-lo. combatia o narcotráfico.Vidas quebradas: reflexos do crack Soldado usuário Surpreendi-me com o primeiro que entrevistei após o almoço. Por ter um bom diálogo e facilidade de se infiltrar. soldado! O homem era um ex-capitão da polícia. Aguardei. Aliás. Capitão contou-me que se especializou em manusear armas e investigar quadrilhas do tráfico. Antes de retirar-se. Alguns minutos após ter me sentado e recomeçado minha análise. quando em serviço. Não é necessário dizer qual era seu batalhão. o agente prisional surgiu. esse era o motivo da continência e o da minha surpresa. enquanto a porta de meu escritório temporário estava aberta. vi uma cena que confundiu ainda mais meus pensamentos.

fazia-se passar por varejista nesse ilícito comércio. juntos para baladas noturnas e boates adultas. O crack nessa época. Na primeira semana. Trabalhei para pedreiros do bairro e.Reginaldo Osnildo constantemente negociava com os traficantes antes de prendê-los. não se deve tocar. assumiu um caso especial por sua dificuldade em elucidação. Colhi algumas amostras e levei para a análise. aos poucos. o Capitão precisou se passar por usuário de crack. Desses. eu aluguei um quarto em uma pensão da comunidade onde estava investigando e consegui um serviço de servente de pedreiro. eu estava no meio dos noias. no início. realizava-as com sucesso. disse-me ele. Foi o que fiz! Segundo ele. dois meses. tudo que não se conhece. conheci usuários de cocaína e me envolvi. Conforme avançava um passo em direção aos meus alvos. ali permanecia. esse foi seu erro fatal. por ladrão. mas no meu batalhão surgiu como novidade. Decidi me ocupar desse caso por. no mínimo. Nesse caso. consumidores. Passei a frequentar os bares que eles frequentavam e a jogar futebol com esses novos companheiros. informalmente. por negociante de armas e. Sempre à frente dessas operações. Através dos pedreiros. a tão falada boca de fumo. conheci uns metidos a malandros. O esquema era complexo e precisava ser 58 . me obriguei a comprar droga no ponto de venda. Criei uma vida paralela à minha realidade. Passado mais de três meses dessa tal investigação. – Provavelmente. fui me enturmando. dona. em outro local já existisse. Certa vez. nunca precisou efetuar um tiro. estava surgindo das profundezas. Tornou-se um mito. certas vezes. Geralmente. Sabe aqueles palermas que andam armados na comunidade para impressionar as meninas ou oprimir os humildes? Esses eram assim! Eles que me apresentaram o crack. Um bom policial investiga antes de agir. Sabe como é. Era nesse que eu queria ter chegado. Saíamos. Fingi-me usuário e me envolvi em outro grupo. se é que me compreende. Dona Maria. dona Maria.

Não cheguei nem mesmo a entrar em meu lar. Era um humilde trabalhador sofrendo pelo vício. Nesse dia. abordei um usuário. Uma adrenalina fora do comum me apoderou. me senti muito amedrontado pela situação que vivenciei. Minha esposa me aguardava com o alimento sobre a mesa. Nos dias seguintes. Chegando a minha casa. Depois dessa firma ilegal. passei a fumar incessantemente. Meu pensamento dizia não. Tentei me enganar. ninguém foi ferido e muita coisa foi apreendida. Confisquei sua droga e coloquei no portaluvas da viatura. e mais ainda. naquele momento. fui direto ao porta-luvas. Peguei-as. parei a viatura no lado de fora. E por um tempo consegui. levei meu parceiro para casa e fui embora com o veículo. surgiram outras com o mesmo propósito. Dei-lhe uns puxões de orelha. dona Maria. o preço foi caro. Meu corpo pediu por elas. tremi. fumei uma na frente dele e ele me liberou. um soldado do tráfico. minha razão tentava me dizer que era puro ofício. Inconscientemente eu estava sendo comandado por algo. e outras. Efetuamos aquela enorme prisão com sucesso. desconfiou de mim. Fui muito aplaudido por meus companheiros pelo brilhante desempenho que obtive. armado. efetuei prisões e mais prisões. porém. em frente ao portão. Quando eu as vi. uns gritos no ouvido e dispensei-o. que o esforço valeu a pena. minha liberdade. mexi no painel para ver se não havia esquecido nada.Vidas quebradas: reflexos do crack analisado minuciosamente. ele carregava algumas pedras de crack nas mãos. Não consegui resistir. Certa vez. peguei gosto pela tal. Fumei todas e saí muito louco a procurar por mais. para não morrer. ali ela permaneceu. com um desejo ardente. O 59 . Passei a me vestir mal e a fumar uma todas as noites. Certa vez. Erro fatal. dei uma boa desculpa para minha esposa e tudo ficou bem. Pensei. Naquela primeira pedra de crack que fumei. No outro dia. Sempre em nome da lei. Tornei-me dependente sem saber. Hoje ela não está mais comigo. no fim de meu turno.

Sabe quem comandou a operação que me prendeu. Eu sabia que não devia. Montaram uma operação tão bem estruturada que eu não seria capaz de imaginála até aquele momento. É uma realidade imensamente triste e é extremamente difícil resistir. eu não prendia mais os pequenos traficantes. Outras drogas.Reginaldo Osnildo desejo foi mais forte. Agiram errado. 60 . cheguei ao ponto de me tornar o que tanto lutei para vencer. Tornei-me o inimigo da sociedade quando fumei o crack pela primeira vez. dona. A droga se une aos seus pensamentos e passa a controlá-los. Meu telefone foi grampeado. não podemos experimentar a primeira. não terá mais onde se esconder. Tornei-me um deles. passei a ter mais tempo para fumar. acompanhava tudo de longe. relaxei nas investigações e fui afastado temporariamente por distúrbios de personalidade. o seu corpo torna-se escravo dela. Ela torna-se parte de seu ser. Rastreando meus telefonemas. Os grandes traficantes me pagavam propina e eu consumia mais. Quando percebi que estava sendo investigado. meu braço direito no esquema criminoso. Sempre fui uma pessoa de bem. dona Maria. Sabendo de minhas habilidades e capacidades pensaram que eu fosse reagir. ela te segue por todos os lugares. com apenas uma. Sempre sabemos. Montei um negócio paralelo. Depois de usar pela primeira vez não adianta correr. dona? Meu antigo parceiro. chegaram ao local onde eu receberia o dinheiro de meu gerente. deixei de me envolver pessoalmente e deixei meus recrutas administrando. confiscava suas drogas para usar. O crack me transformou. Veja bem. Ela nos faz acreditar que é a própria essência de nossa existência. as ligações que recebia e efetuava foram responsáveis por minha prisão. Dominei pontos de droga e treinei recrutas para que roubassem os concorrentes. eu apreendia e levava para amigos que fiz no submundo. e que precisamos consumi-la para melhor viver. rivais.

Fui exonerado. Somente no momento que me deram voz de prisão é que percebi aonde havia chegado e no que tinha me tornado. assim o farei. você recomeçará sua vida em breve. Inverti valores por completo. Concorda? Pois bem. junto dela veio o pacote completo da desgraça. Como não posso. com o perdão da palavra. Conforme eu fumava. – Diria o seguinte: amigo. dona? Reformulei minha pergunta: – Você se arrepende de ter cometido crimes? Eis que: – Me arrependo de ter fumado a primeira pedra de crack. Se eu pudesse voltar atrás. dona? Conclui: – Tranquilize-se. Perguntei: – Você se arrepende disso tudo? Respondeu-me com outra pergunta: – Como assim. Eles. sem nada me dizer. dona. diante do soldado do tráfico. me tornava mais e mais espiritualmente cego. não me agrediram e não reagi. Se você fosse dizer algo para alguém que nunca usou o crack. Sou homem. foi uma sementinha de maldade plantada em meu coração. a menor pedrinha de crack. Tornei-me. essa pergunta que fiz me faz pensar que eu premeditava esse projeto. Pior que isso. quando consumida uma 61 . mas não sonhava com este livro até então. senti em seus olhares o sentimento de pena para comigo. você sabe que se amarrar uma enorme pedra grandiosa no corpo e mergulhar no oceano irá morrer. resta-me recomeçar. um lixo de pessoa. me disseram o quanto eu havia me tornado um fracasso. Dependendo de mim. Você vai me ajudar nisso. precisei arcar com meus erros. naquela noite.. Minha colaboração foi plena. entreguei tudo o que tinha e assumi minha participação.Vidas quebradas: reflexos do crack Aquela pedra de crack que fumei. o que diria? Inconscientemente. o projeto deste livro estava se formando na minha mente.. Incrível. No que eu puder auxiliar. ou amiga.

Reginaldo Osnildo única vez. Se não quer chegar ao fundo desse poço. te leva a um lugar mais profundo que o ponto mais obscuro desse oceano. não use crack! 62 . que seja.

– Pelo que você está preso? – Homicídio. ele não possuía metade da perna esquerda e caminhava com dificuldades.Vidas quebradas: reflexos do crack Soldado do morro Depois da conversa que tive com o Playboy. apenas acenou sua cabeça afirmativamente. tudo bem? Ele nada disse. entrou em minha pequena caixa de fósforos. Sentou-se. que Deus o tenha. algo em mim ordenou para que gravasse todas as seguintes conversas. acompanhe esse ping-pong de perguntas e respostas e tire suas próprias conclusões: – O que aconteceu com sua perna? – Tiroteio. Na última entrevista. iniciou-se a mais terrível conversa que já tive com um ser humano. – Está muito tempo preso? – Anos. ainda bem que isso eu fiz. Comecei: – A conversa será gravada. um homem de muletas. usada como ambiente temporário. antes do horário de almoço. – Se arrepende? – Não! – Usa drogas? – Crack! – Muito tempo? 63 . Depois desse seu silêncio. – Tem família? – Não! – Pelo que matou? – Guerra.

– Com que dinheiro vai comprar? – Trabalhando. – Foi lá que recebeu os tiros? – Sim. – Boca? Que boca? – Tráfico. – Quem foram? Pode dizer? – Polícia. – Tem para onde ir? – Não! – Para onde vai? – Mundão. – O que fazia? – Proteção. – Tem profissão? – Segurança. – Por quê? – Gosto. – Por que não larga? – Impossível. – Você quer fumar ainda? – Sim! – Está pensando nela agora? – Acertou. – Por quê? 64 . Marcas de tiros em seus braços eram visíveis. – Teve alguma morte? – Duas.Reginaldo Osnildo – Bastante. – Já trabalhou onde? – Boca. – E depois? – Fumar.

– Foi acidental? – Não. ele se levantou e ergueu sua blusa. – Dívida? – Cobrança. – Quantas? – Uma. Dito isso.Vidas quebradas: reflexos do crack – Mistério. – Vingou o quê? – Honra. então? – Vício. todas as lesões foram ocasionadas por projéteis 65 . – E por que não me explica melhor? – Dor. – O que te roubaram? – Crack. – Você não fala mais do que uma palavra? – Falo. Seu corpo tinha dezenas de perfurações cicatrizadas. – E aí? – Matei! – Por dinheiro? – Vingança. – Essa sua guerra começou por quê? – Dívida. – Por que matou. – Matou com arma de fogo? – Facada. – Foi desonrado? – Muito. – Como? – Roubado. – Vieram cobrar dinheiro seu? – Cobrei. senhora.

– Não desista do mundo. – Por que não? – Fumo. Lenilson? – Sim. – É só? – Só! – Quer ajuda. prossegui: – Não perguntei seu nome.Reginaldo Osnildo de armas de fogo. me senti constrangida com a cena que presenciei. A sociedade pode ajudá-lo. Desconversei. – Lenilson. – Você fuma? O que isso te faz? – Descontrole. – O que quer? – Liberdade. mesmo sabendo seu nome. – Do quê? – Santos. – São muitas guerras? – Muitas! – O que espera do futuro? – Nada. Sentou-se e bateu com a muleta no maxilar inferior e disse: – Platina. – Algo mais? – Castro. – Você me dá sua palavra de que não vai mais cometer crimes? – Não. você não crê nisso? – Não. 66 . – Como assim. nada? Não pensa em ser melhor? – Não. – Por quê? – Sobrevivência.

Contaram que Leni. – Só pensa em drogas? – Só no crack. senhora. junto dos meus companheiros de profissão.Vidas quebradas: reflexos do crack – Por quê? – Realismo. Desde então. e foi assassinado por ele. – Para quê? – Distúrbios. dizem que é muito mais do que isso. Fui almoçar. – Você tem isso? – Não! – Então. – Toma remédios? – Sim. Ainda menor de idade. Lenilson ficou assim. Era muito eficiente nisso. Ele estava com o traficante e outro soldado quando a polícia invadiu a casa. Matava a pedido do traficante local. executou entre vinte e trinta pessoas. os 67 . como era conhecido em sua comunidade. – Você não acredita em mim? – Não. espalhados pelo vento. Não consegui mais falar. Soube que os tiros que Leni recebeu foram em um duplo homicídio. Contaram que ele abriu o abdômen de seu amigo. – No que acredita? – Nada. que queria fumar a qualquer custo. por que toma? – Substitui. Anotei algumas palavras em sua ficha e dispensei-o. Boatos. – Que tipo de distúrbios? – Bipolar. Quando ele me disse essas últimas palavras. Esse havia engolido pedras de crack para não dividir com Lenilson. era soldado do morro. perguntei o porquê de aquele homem estar preso. A maioria foi para cemitérios clandestinos ou cremados clandestinamente. emudeci. o número é incerto. meu raciocínio paralisou. No refeitório.

mas os policiais dessa operação desapareceram. No dia dessa conversa Leni completava doze anos preso.Reginaldo Osnildo dois foram mortos. mas Leni sobreviveu. Não se sabe como. Ainda hoje essa conversa mexe com minha mente. é impossível prever até que ponto o crack pode levar alguém. solicitei uma transferência para ele terminar sua pena em um hospital psiquiátrico. 68 . para não mandá-lo diretamente para a sociedade.

Repassava aquela cota diária no beco e ia para casa. Um dia eu cansei de ver minha mãe sofrendo para me sustentar. perguntei: – Seu nome? Respondeu: – José Raimundo Correia. Respirei fundo e insisti nas perguntas: – Por que está preso. ele me disse: – Tráfico e porte de arma. o bicho pega! Já vi muitos morrerem ao meu lado. – me disse confuso. Moro com minha mãe. Sem contar os que não morreram do meu lado. Tendo o dinheiro do patrão na mão. – E quando não paga o patrão? – perguntei. meu pai me abandonou quando eu ainda era pequeno. José? Com a maior calma do mundo. – Aí. Comecei a pegar pequenas quantidades. pagar contas de água.Vidas quebradas: reflexos do crack Mais um José Olhando em seus olhos. luz e aluguel. Continuei: – Idade? Continuou: – Vinte anos. 69 . mas sempre me acompanharam na correria. tranquilidade total. Tentei pescá-lo: – O que você possui? – Como? Não entendi. tá tudo certo. Reformulei a pergunta: – O que você conquistou com o tráfico? Sua resposta me trouxe muita reflexão: – Eu vendia para sobreviver.

No submundo. Ainda analisando-o. É frequente. depois de perderem seus empregos e familiares. ele pareceu não gostar de detalhar. não conseguem mais dinheiro para fumar. Ele foi sincero: – Proteção! Tentei me aprofundar: – Se protegia de quem? Sua resposta foi vazia: – De tudo e de todos! Estava perdendo a conversa. depois de perder tudo. Já vi usuário fazer coisa feia por causa do crack. perguntei: – Você não pensa em trabalhar? Ele se indignou: 70 . Aí. por incrível que pareça. – Cada um escolhe o seu caminho. o mais ligado ainda corre o risco. Se eu não vender. O traficante do outro beco te mata se vender menos que você. por isso tinha arma! – Você tem pena dos usuários? – tentei ver seu interior. não quero viver para ele. Imagina se eu ia dormir no ponto. fiz uma pergunta simples e comum: – Você tinha paz? – Nunca se tem paz nessa vidinha! Ou você se cuida muito bem. é sem chance! Morre pelo crack! Tem aqueles usuários que. não são todos. Vi muitas meninas inocentes se perderem nas esquinas da vida por essa droga maldita. caem na ladroagem! – Você já roubou? – insisti. Sem falar na prostituição. ou morre. tem até policial matando. tem quem venda. Mas tem aqueles que. Hoje em dia. – Eu não uso crack. já era! Perdeu! – Por que estava armado? – perguntei. Usou uma. Esses geralmente não roubam. sobrevivo dele. mas tem sempre um ou outro mau caráter fardado. Aí eles vendem para manter o vício. Queria viver. Eu preciso me alimentar e o que não falta é comprador. O usuário pode te matar para usar a droga.Reginaldo Osnildo e morreram. pequenos traficantes usam a droga e ficam devendo por isso. O que eu posso dizer é: não use.

agora ela está lá. Não fui aliciado. O que aconteceu? Fui marginalizado! As crianças. Raciocine: desde pequeno eu estava sendo excluído. frequentar as baladas frequentadas por todos e tudo o mais que os outros fazem. estão com quase todos os empregos. precisou de remédios. Expliquei minha situação e pedi ajuda. Eles são iludidos pela falsa sensação de poder. Sinceramente! Se eu não precisasse. Enquanto famílias tinham o que comer e podiam colocar suas crianças nos colégios. entreguei panfletos e capinei quintais pela comunidade. Muitos nem precisam. eu o procurei. eu teria continuado a estudar. Aonde que eu ia arrumar dinheiro? Foi a pergunta que eu me fiz. Sabia que trabalhando 71 . eu brigava por um prato de comida. cresceram e estão com os melhores empregos. saía para vender balas na sinaleira. sabe aquele que domina um território? Fui até ele. ganhar nome ou dinheiro. Sabia que podia trazê-lo para o lado do bem. Sei que um pouco é culpa minha. mas querem estar na moda. Cansei! Minha mãe começou a fraquejar. né? Estava comovida. mostrei preocupação: – É tão difícil assim? – Não terminei meus estudos. surpreso. Desde muito cedo. usar roupas boas. sozinha. Procurei o traficante. Quando minha mãe ficou doente. Me diz: quem vai me ajudar? Você? Ele foi sarcástico. com melhores condições que as minhas. mas eu estava decidida: – Eu posso te ajudar! – Como me ajudaria? – perguntou ele. Sabe como é a idade.Vidas quebradas: reflexos do crack – Trabalhar no quê? Cadê a oportunidade? Para acalmá-lo. Para ser sincero. Muitos jovens de hoje procuram a malandragem para se enturmar. mesmo assim prossegui: – Você tem irmãos? – Graças a Deus que não! Já pensou? Mais um nesse sofrimento. eu ia pra peleja. mas se o governo não me deixasse passando fome. ele não era uma má pessoa. Enquanto eles se especializavam. não estaria nessa vida. Indaguei: – Do que você precisa mais? – Preciso que ajude minha mãe! Entrei nessa para ajudá-la. Está passando mais dificuldade ainda.

Você. Coube a ele a escolha. Para a sociedade. Se você tem dúvidas. eu sou apenas mais um José. José ganhou uma bolsa de estudos. Conquistei seu emprego para quando saísse e larguei tudo em suas mãos. explicando sua situação e pedindo ajuda. respondo-as elogiando seu desempenho e dizendo que continuo acreditando nele. Vou te ajudar! Desacreditando. Vez ou outra ele me escreve cartas. Consegui com que o serviço social da comunidade onde José morava desse auxílio a sua mãe. ele me disse: – Até agradeço.. Dias depois. Escreve as cartas para mostrar o que tem aprendido. com materiais inclusos. José? – Se eu tivesse um emprego decente. adquiriu gosto pela leitura. Para sua liberdade. imagine eu? – ele disse isso com uma tristeza no olhar. Acredite.. – Achar não é ter certeza. não mexeria mais com drogas. passou a frequentar o cursinho e. seria um traficante a menos nas ruas. Providenciei livros didáticos para ele e encaminhei um ofício a um Centro Estudantil de Educação. não tinha sido preso. Aprendeu muito. escreveu-me isso: 72 . José.Reginaldo Osnildo aqui na cadeia eu consigo mandar dinheiro para ela? Loucura! Se eu tivesse conseguido um trabalho assim. Em uma de suas cartas. Você acha que a vida é justa? – Sim. foi direto ao emprego e confirmou sua vaga. se importa com a minha sobrevivência? Respondi: – Eu me importo. bambaleando. Saindo da cadeia. com que pudesse ajudar minha mãe e sobreviver humildemente. aos poucos. mas foi só na cadeia que eu consegui um emprego. que faz parte da sociedade. Não vou é me iludir. E ele escolheu certo. eu acho! – respondi. Fui direta: – Você quer mudar de vida. em um curso profissionalizante. Ele tem meu número de telefone e não mora tão longe. se eu trabalhasse honestamente.

Você imagina? Assim como José. eu não possuo a resposta. Minha mãe melhorou muito. de seu amigo. com sabedoria e amor. dona Maria. Se existisse no mundo mais pessoas como você. para usar o amor ao próximo com tanta simplicidade e eficiência. Infelizmente. Só mesmo uma alma como a sua. Muito obrigado por ter acreditado em meu potencial. E você? Tem noção de quantas vidas deixam de ser prejudicadas quando ajudamos um José qualquer? 73 . Perdoe-me por não ter acreditado antes em sua benevolência. espero que compreendas as infinitésimas vezes que fui ignorado e menosprezado pela sociedade. pacificamente. Agradeço a Deus por ter conhecido você. Carinhosamente. a alegria que ela sente por me ver longe da desgraça a curou. também penso nisso. Minha mãe lhe agradece muito. o mundo se tornará melhor. um novo José.. ajudar um José em situações semelhantes.. manda um abraço muito carinhoso e deseja muita paz e harmonia para você e seus familiares. * Fiquei pensando. o crack não teria mais valor... Se uma Maria.Vidas quebradas: reflexos do crack Querida Maria Pascoalina. todo dia. Quantas vidas deixaram de ser prejudicadas com a minha mudança. interessadas em guerrear contra o crack.

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– Gostou? Me custaram os olhos e não foram os da cara.. combinando com sua calça e detalhes da camiseta. Maria. Já fui Vitor um dia. Pedi-lhe educadamente: – Sente-se. de calças justas e camiseta mostrando o umbigo. – foi minha vez de retrucar. – Me chame por Maria. em pé. – Obrigado. Esse. era o nome fictício de Vitor Rhamia. – Desculpe-me! – sua espontaneidade me deixou sem jeito. veria muitas coisas ainda. – Tudo bem.Vidas quebradas: reflexos do crack Vitór. menina. Iniciei: – Pelo que foi pres. Realmente. sentando graciosamente. Já foi logo me perguntando: – Qual é o babado amiga? Sorri e fiquei a observá-la. Quando Vitória me apareceu aquele dia. sem perceber minha dúvida. Prossegui: – O que roubou? – Faço programas. Seu cabelo era raspado por normas do complexo.. – retrucou ela. na realidade. não acreditei. – disse-me ela. Vitória. – disse-me ela. toda siliconada. se encontrava preso por assalto. menina. ia Vitória. especialista do 75 ... respondeu suspirando: – Assalto. – Sente-se. Fui presa por assalto. Vitor. por favor! – Não. por favor. sou uma profissional do sexo. ou essa.a? Ela. meu nome é Vitória. referindo-se aos seus seios e nádegas. esse era coberto por um lenço rosa. Figura surpreendente essa Vitória. – assentiu.

Desculpe. joguei fora. e tinha uma namoradinha. A droga consumiu-me tudo. sinto falta.. levei o que tinha e saí andando. simples assim. Quando perdi o amor de meus pais. me marginalizei. me abala. Utilizei a lâmina. colocando-a em seu pescoço. Fui presa num posto de combustível. menina. Ao recordar. Incrível como muitos homens se transformam nessas horas. um garotão bem apessoado. Até fiz novos amiguinhos. Gostava de meninas como você. cairia seu queixo! Pois bem. conhece essas giletes de barbeiro? Uma dessas. Maria. Ele foi agressivo e resolvi assustá-lo. Cada bofe que me procura. – suspirou. assaltei o homem que estava me acompanhando. sou bem requisitada. Se eu te contasse alguns dos meus amantes. Aqui estou.. conheci essa droga. não tinha interesse nos seus pertences. a alguns metros depois. Troquei muita coisa por essa droga. Modestamente. Quando eu tinha lá pelos meus dezenove aninhos. levei seus pertences pessoais e. Em um desses programas.. – Não são todos os homens que são realmente homens. – Foi isso.. perdi coisas e pessoas. Mas tá bom. colada à artéria principal. Sempre carrego uma lâmina na boca. Prossegui: – Quando você.Reginaldo Osnildo amor. Risadas sutis. Ela me disse: – Pergunte. Passei a viver em albergues públicos e casas de amigos. modéstia à parte. 76 ... Ainda era Vitor. dominei-o. Sabe? Ela sabia: – Me transformei? Confirmei: – É! E por que essa escolha? A culpa é do crack. Saio com homens para conseguir dinheiro. Maria. – Permite-me uma pergunta indiscreta? – insisti. preciso sobreviver e sustentar meus vícios. Risadinhas. O susto me saiu caro. novamente. logo acaba.

se é que me entende. Fiquei algumas horas importunando o traficante local. Hoje. O incrível é que barganhei só um pouco. Feito isso. Foi automático. Foram elas que me livraram do vício do crack. para fumar crack. – Adoro ser Vitória. quando não tinha dinheiro. Sou mais mulher que muitas mulheres e mais homem que muitos homens. Vitória é p-o-d-e-r-o-s-a! Gargalhadas. de vez em quando pra relaxar. Mãe era cafetina de um bando de meninas. Embarquei na vida de orgias. Não aconselho maconha pra ninguém. fui surpreendida. Esse meu homem foi preso. com convicção. quando o transformamos em vício. Maria. Enturmei-me com elas. é um nome poderoso. Ensinou-me a caminhar. me vendi para muitos outros depois. o crack foi o divisor de águas em minha vida. quando não tinha dinheiro. nos faz mal. passei a viver somente nessa função. Ele queria minha virgindade. Fiz sexo oral nele. Ele desceu suas calças e eu entendi o recado. mas permaneci no crack só até conhecer a Mãe. Estava muito curiosa e não resisti: – Você não tem saudade de ser homem? – Não. Frequentemente. queria a todo custo fumar. quando esperava repetir o ritual amoroso. Maria! – respondeu-me ela. Vício é vício e faz mal sempre! Até mesmo nosso alimento diário.Vidas quebradas: reflexos do crack Certo dia. todas eram travestis. O crack. a me vestir e me maquilar. A Mãe foi um travesti que me mostrou as manobras desse mundo obscuro. naquele dia. cedi por duas pedras de crack. imagine as drogas. 77 . voltava até ele e repetia o ritual. cigarro de maconha. me prostitui. Eu comecei no crack e hoje não o fumo mais. Maria. O crack manda mais nessas horas. Em uma ocasião. Geralmente as pessoas começam fumando maconha e se perdem no crack. É meu calmante natural. fumo só uma taba.

Larguei a massoterapia e me tornei profissional do amor. de quebra consegui. minha agenda vivia cheia. depois de te verem na sarjeta. Eufórica. eu já estaria na Europa agora. respondeu: – Ainda assim. com horários marcados antecipadamente. nas noites. Se não fosse aquele homem ignorante. Sem que ninguém soubesse.Reginaldo Osnildo – E esse silicone? – perguntei. Durante o dia. sem levantar suspeita. todos acusam e poucos procuram entender. Aprendi a economizar e consegui o dinheiro necessário para a operação. eu trabalhava dobrado. 78 . Estaria p-o-d-e-r-o-s-í-s-s-i-m-a! Precisava perguntar: – Se arrepende de ter usado crack? – Sim! – sem pestanejar. Antes da cirurgia. Passei a trabalhar para a Mãe e a estudar. Maria. Multiplicaram-se dezenas de vezes os meus amantes. aqueles mesmos “amigos” que. ela exclamou. não tem controle total sobre suas atitudes. uns dias para me recuperar. Quando o ser humano usa essa droga. ela me disse: – Ah! Você gostou. é? Disse que admirava a coragem dela e ela prosseguiu sua narrativa. te abandonam e debocham da tua situação. Geralmente é induzido a fumar pelos outros. Foi só colocar silicone. Vitória. Ela prosseguiu: O usuário sofre muito. Vitor. “os amigos”. viajei para outro estado e fiz a cirurgia com o melhor no ramo. Maria! Perguntei-lhe o motivo. formei-me em massoterapia. Insisti: – Mesmo acontecendo essa mudança radical em sua vida? Ainda com firmeza e confiança.

a Mãe me ajudou a dar a volta por cima. mas diria umas verdades: se você não tem medo de nada na vida. sem crack. não é preciso! Procure a vitória dentro de você. Sabe. inclusive ela mesma. Devemos lutar por eles. e encontrará! Acredite nisso! Você acha que eles se derreteriam com essa minha voz sensual. pediria para que o ajudasse. quem fuma o crack não vive. Já vi amigas se venderem por uma raspa de cachimbo. por que se perder no crack? Seja um homem vitorioso por não usá-la. não use o crack. ainda. Pensando bem.Vidas quebradas: reflexos do crack Amigo de verdade faz o que a Mãe fez por mim.. para esses é mais difícil de dizer qualquer coisa. te alerta. seja o viciado homem ou mulher. diria primeiramente às meninas que o mundo está cheio de homens lindos no puro suco da juventude. Se minhas palavras pudessem chegar aos ouvidos daqueles que estão pensando em usar. Digam não ao crack! Não queiram ser o que eu vi por essa vida.. Ela estendeu a mão e me levantou. A vida é feita de altos e baixos. Precisamos estender as mãos e ajudá-los a levantar. e eu sei que é. agoniza. te ensina e te apoia. no ouvido daqueles que vão se deparar com essa droga na caminhada da vida. para enlouquecê-los. é o mais bonito e mais inteligente. Se eu pudesse dirigir minhas palavras a todo aquele que conhece um usuário. Se eu pudesse dizer algo aos que usam. Todos a desprezam. mil vezes pior para a saúde. a mulher perde o valor. Depois que eu estava completamente perdida. no fundo do mais profundo dos poços. falaria bem suave. Mulher tem que se valorizar! Sou Vitória porque larguei o crack! No ouvidinho dos gatinhos. Afinal. ou. mostrar que é possível uma vida nova. Se quiser entrar para o nosso time de p-o-d-e-r-o-s-a-s. Uma simples conversa. Maria? 79 . Maria. a vida está sempre por um fio. quando fazemos brigadeiro e fica aquela doçura grudada na panela? Já vi mulheres se venderem por algo parecido. Fumando crack. garotão. agonizando.

80 . como muitos usuários assim são tratados. O que anda fazendo. mas seu pensamento é o certo. Todos merecem uma chance. mas foi o crack que iniciou o molde do seu forte temperamento. E a vitória pode estar em um simples gesto. A vitória é vivida com a vida. Ajudar é a melhor prevenção.Reginaldo Osnildo Vitória aprendeu a lição da maneira mais amarga. Os derrotados. não sei. Depois desse dia. ela não foi presa por culpa do crack. precisam de um incentivo para se igualar a Vitória. não tardou em ganhar sua liberdade. nesse assalto.

eu lá sou homem de carregar prêmios? Fui preso por gravações e filmagens. – É bom mesmo.. Sua primeira função foi alertar os traficantes da chegada de viaturas e gangues rivais. Na época que Alguém era “olheiro”. Alguém domina toda a distribuição de crack na região. o crack não estava tão disseminado na sociedade e a criminalidade não era tão compacta e complexa como nos dias atuais. Não citando seu nome e alguns trechos omitindo.. dos pontos de drogas.. Nessa idade. bandido Mencionei esta conversa no início da história do Surdo e do Mudo. Alguém é o topo da pirâmide. ban. do submundo das drogas. com sinalizadores e foguetórios.Vidas quebradas: reflexos do crack O ban. eis parte da conversa: – Você está preso por quê? – Tráfico. – Com que quantidade? – Não fui preso com nada. sua posição na hierarquia do tráfico 81 .. assim como manterei seu nome incógnito por esses motivos. Não vou citar suas características físicas por questão de segurança. o articulador e o general de todos os criminosos que trabalham com a droga da morte. vigia. ele é o fornecedor. Começou nesse mundo paralelo ainda criança. ele é o verdadeiro bambambã das pedras de crack.. Trata-se da situação de um cidadão que domina o tráfico de drogas da região.. permanecia nos pontos mais altos dos morros ou em becos estratégicos das “baixadas”. Chamarei ele de Alguém.. tá me tirando pra idiota? – De maneira alguma.. tanto minha quanto de meus familiares. ban. Na medida em que Alguém crescia. na sociedade clandestina.

conquistava-os com a ilusão de fama e poder. da noite para o dia. Alguém os executou. São escolhidos por sua tenacidade e coragem. 82 .Reginaldo Osnildo aumentava. morreram junto desses alguns aliados e recrutas. Inclusive crianças. Alguém estava se tornando o líder supremo. a voz mais forte da torre de comando. espalhado na sociedade. essa habilidade de guerrilha. Até alguns de seus antigos inimigos se associaram a ele. os chefões de Alguém foram mortos. Alguém montou uma gigantesca rede de distribuição e seu atual inimigo passou a ser a sociedade. no decorrer das experiências criminosas é que adquirem. Depois que Alguém assumiu o comando da distribuição das drogas. Inconscientemente. é aquele mais disposto. Conforme os gerentes dos pontos de drogas foram sendo presos. Ensinava os novos recrutas com as poucas táticas que dispunha e algo mais que aprendera. Fazia cobranças e efetuava pagamentos. ou não. trouxe o crack com força total. conheceu toda a mecânica do esquema ilícito. Muitos de seus aliados também se viciaram. contraindo dívidas exorbitantes. alerta e inteligente. Alguns soldados tornam-se sanguinários e são comumente designados para execuções e linhas de frente nas guerras do tráfico. O soldado torna-se o defensor da droga e dos pontos de venda. Especializou-se em fazer lavagem cerebral nos novos adeptos. Era o que estava mais alto na pirâmide hierárquica. além de ser o mais preparado para exercer a função. Alguém se tornou. O soldado do tráfico. Adolescente. Muitos de seus rivais na venda de entorpecentes se viciaram. sendo mortos ou presos. Alguém se tornou cruel nos tempos de soldado da localidade onde vivia. Alguém colocava pessoas de sua confiança no poder. Em cada ponto de drogas sob seu comando. recebeu uma arma e tornou-se soldado. Alguém colocava seus recrutas de confiança para administrar. tornou-se vendedor de pequenas quantidades. Na briga pelos pontos de droga da região. Na falta das qualidades necessárias ou de contingente baixo. qualquer associado pode ser recrutado a soldado. geralmente. passou a ser o braço direito dos gerentes das bocas e dos chefões da época. Aos poucos. em seguida. foi distribuída essa droga mortífera. Nem sempre iniciam com conhecimentos de armas e táticas.

Eu que não uso. eles compram porque querem. agiu igual a qualquer doença que se propaga quando estamos debilitados. não percebeu que o crack estava perto de suas casas. A droga tá nas ruas como o veneno tá nos mercados. – Aí! Tu usa? Tu não usa. simples assim. Alguém se ofendeu quando perguntei a quantidade de drogas com a qual fora preso. ou protegida. é a “fissura” dos usuários. ele manuseia somente os lucros. tanto viciados quanto vendedores. dona. Se você parar de fazer maldades. – O que você vendia? – De tudo. Tem aqueles que matam para ficar com a fonte de dinheiro. mas morre igual. mesmo que para isso precisasse sugar a essência de todos os cidadãos de bem. O que o crack faz é estimular o mal. sem saber os planos de Alguém. O crack dominou porque a população não estava imune. é a pressão psicológica que a polícia causa nos traficantes.Vidas quebradas: reflexos do crack A meta de Alguém sempre foi adquirir poder e riqueza. não cairá nas garras do sistema. mato o usuário que me deve ou me entrega para a polícia. Se vicia o boca aberta que quer experimentar. O sistema é que mata os outros. mata pra usar. Alguém já havia disseminado essa droga como uma epidemia. – Dona! O que mata não é o crack! O que mata é a maldade que o crack injeta. Quando acordaram para a realidade. então. funcionários. quem manuseia a droga são os “laranjas”. – Compram porque estão viciados. No seu ponto de vista. Ele aliena as pessoas. o usuário. o sistema? – O sistema é um monstro que se alimenta de maldades. Foi o que aconteceu. Não coloco arma na cabeça de ninguém para comprar droga minha. Por esse motivo. – Aliena de que forma? – Tipo assim. é o sistema. – Como assim. Sem contar a polícia. que mata para 83 . – Você não tem pena dos usuários? – Tá de bobeira? Cada um escolhe seu caminho. talvez até sabendo e ignorando suas capacidades. se preciso for. fizesse a escolha certa. colégios e praças. A sociedade. Vê se todo mundo sai por aí tomando veneno? – Não sai bebendo veneno. mas a fonte do dinheiro é o crack.

mas não resistiu. É tão simples. Não coloquei seu nome por não ter sua autorização para fazê-lo. Dois mais dois é igual a quatro. e os cidadãos. por ataque cardíaco. – O que é a fonte de dinheiro? – A fonte de dinheiro é aonde se concentra a maior parte dos usuários. foi a mensagem que captei de Alguém. Ele teve uma crise e foi encaminhado ao hospital. Alguém morreu nas garras do sistema no mesmo dia em que tivemos essa conversa. se não tiver usuário. mas sempre terá outro alguém em seu lugar. O controle da epidemia está em cuidar dos doentes. que matam em legítima defesa. matemática básica: dois mais dois é igual a quatro. Alguém morreu. Simples assim.Reginaldo Osnildo proteger a sociedade. 84 . Toda a maldade cultivada durante sua vida foi agravante para sua morte. não tem comércio de drogas.

mas a de sua mãe. – Por que você tentou matar alguém? – perguntei surpresa. Brandamente o reprimi: – Da sua mãe. Me arrependi de meus atos. Acompanhe: – Seu nome? – Jesus dos Santos Emanuel. com voz firme desta vez: – Não fumo mais. 85 . senhora. ainda envergonhado.. Emanuel? – Já me arrependi. envergonhado. Sofia de Jesus. – sua voz saiu em tom muito baixo. que se tornou o assunto mestre em nossa conversa. não me recrimine. respirei fundo e controlei meu sentimento. Deus é testemunha. Levantei da cadeira indignada e olhei para o teto. Emanuel. – respondeu-me o jovem franzino que estava sentado à minha frente. como gosta de ser chamado. Quer me contar o que houve? A ponto de chorar. – Foi o crack. – Muito bem. Minha vontade era gritar com ele. Senti seu drama em seu semblante. que é de um vitorioso. Não tanto a sua. e o que ouvi me revoltou. Exclamei: – Você também. Emanuel. ele revelou: – Dei uma facada no braço de minha mãe. Emanuel? Percebendo minha reação. por que está preso? – perguntei.. Falei-lhe: – Desculpe. senhora. – ele me convenceu. – ele me disse. senhora. senhora.Vidas quebradas: reflexos do crack Jesus dos Santos Emanuel Enumerei a situação do jovem Emanuel. senhora. pela lição de vida que nos transmite. sua aparência frágil me deixava forte. para ser o último a ser apresentado. – Pode me chamar de Emanuel. ele respondeu. por favor. – Tentativa de homicídio.

Ele tornou-se impaciente e rebelde e. todo seu dinheiro era para o crack. Depois disso. como a maioria dos usuários. Pelo menos tentou. viu seu pequeno filho chamado Jesus. desconfiou que algo estava errado. já que não tinha mais gosto pelos estudos. Em pouco tempo o pequeno Manú tornou-se desleixado e completamente revoltado. foi desistindo dos estudos. é preciso suportar o sofrimento da insegurança. com meus amigos para empinar pipa. neste turbulento país. vez e outra ia à sua procura pelos becos. depois da aula.Reginaldo Osnildo – Tudo bem. se internou em uma clínica. Sofia não conseguia dormir em paz. quando saía. passaram a fazer arruaça. sempre tentando ajudar seu filho. conheci o crack. mudar de personalidade. Ela criou seu filho com muito carinho. hoje em dia. para ser mãe. Emanuel foi. Manú vivia as noites inteiras na rua. Quer contar-me? – insisti. Sofia continuou trabalhando honestamente. outros foram presos vendendo ou roubando para fumar. *** Sofia de Jesus é uma brasileira que paga seus impostos com compromisso e lealdade a seu país. Sofia conseguiu convencê-lo a trabalhar aos dezessete anos. 86 . ele já havia experimentado o crack. amor e educação. aos poucos. Tarde demais. porém. Como uma mulher virtuosa e sábia que é. e passou a cuidar com mais zelo das atitudes do seu pequeno Manú. seus companheiros no uso da droga foram dispersos. Emanuel tornou-se adolescente. Ele permaneceu trabalhando. – Com doze anos de idade. só desgraça. Alguns deles foram mortos pelos cobradores do tráfico. Sofredora. um período de seis meses. vielas e praças da localidade. como a maioria das mães brasileiras é. – me disse ele. pelo menos isso. Da noite para o dia. envolveu-se com outros elementos de mesma personalidade do bairro e. Com a insistência de sua mãe. Durante o tempo em que ficou internado. digo isso porque. carinhosamente chamado por ela de Manú. Sofia não desistia.

Emanuel não especificou. estava com dezoito anos e desintoxicado das propriedades maléficas da droga. garantiu-lhe resultados. e fez com que visse as vantagens de não se ter usuários nas ruas. refiro-me desde a torneira de metal do banheiro até as telhas da pequena garagem da residência. tinha todo o seu tempo livre. desmaiou. O ataque que sofreu fez com que fosse aposentada em seu serviço. Foi pior dessa vez. frequentando denominações religiosas que desconheço. 87 . em agradecimento ao que Deus havia feito em sua vida. conversando com um influente empresário do ramo de automóveis. Saía a caminhar pela cidade onde morava e pelas cidades vizinhas. Resolveu se preocupar com os outros usuários. pedindo auxílio para sua luta contra o vício do crack. incessante. No decorrer das visitas que fazia na penitenciária. Tempos depois. Emanuel foi preso. Sobreviveu porque foi levada pelos vizinhos ao hospital. Sofia decidiu que assim seria melhor. seu filho retornou ao vício. revoltado por não ter a droga que tanto precisava. disse-lhe que tinha a intenção de recuperar dependentes químicos do vício do crack. Sofia aprofundou-se na espiritualidade. pelo menos seu filho ficaria longe das drogas. agrediu-a com a faca que tinha em mãos e fugiu em seguida. Pediu-lhe uma colaboração financeira. em consequência do ataque. Sofia tentou conversar com seu filho. Seu serviço lhe aguardava. Quando Emanuel saiu da clínica. Ele se arrependeu. Certo dia.Vidas quebradas: reflexos do crack Dona Sofia apegou-se à espiritualidade. Em contato direto com Deus. Converteu-o para sua crença. adquiriu mais força para lutar nesta batalha interna. Quando não havia mais nada para ser vendido. Com seu filho preso e convertido. Perdeu parte do movimento do braço atingido. fez com que seu filho compreendesse sinceramente seus erros. voltou a ser o rapaz simpático e carismático como quando mais jovem e inocente. e vencer a guerra que travava por seu filho Manú. roubou tudo que possuíam dentro de casa para fumar. Quando digo tudo. explicou seu objetivo. esse. Sofia saiu atrás dele com seu braço cortado na altura do bíceps. sem preocupações. sangrando muito. Decidiu retribuir a benção conquistada.

Reginaldo Osnildo

O empresário fez um acordo com dona Sofia. Pôs ela dentro de seu
veículo e saíram de carro pela cidade. Quando pararam em uma esquina, o
empresário lhe disse:
– Dona Sofia, está vendo aquele rapaz?
– Sim, vejo.
– Se você convencê-lo a se internar para fazer o tratamento, não só lhe
ajudo financeiramente, como também entro nesta guerra pacífica.
Sofia de Jesus conseguiu.
O jovem era filho do empresário, há mais de oito anos estava vivendo
nas ruas sem entrar em contato com a família. Seu pai frequentemente o
observava a distância, sem se aproximar. Acompanhou-o todo esse tempo de
longe. Naquele dia viu-o entrar no carro junto com Sofia, e o melhor, disposto
a recomeçar.
O homem forneceu um terreno para dona Sofia. Juntos buscaram
por mais ajuda e, em pouco tempo, construíram um enorme alojamento
com cozinha e uma pequena sala de aula munida de biblioteca. Inicialmente
o filho do empresário ficou em uma clínica particular, porém, terminado o
alojamento, mudou-se para lá e ajudou a construir as demais partes do centro
de reabilitação. Novos internos chegaram. Sofia buscou alguns na rua, outros
eram filhos de seus vizinhos, parentes de amigos e indicados pelos paraninfos
e mantenedores do local.
Dona Sofia tornou-se uma grande amiga, vez ou outra encaminho um
preso daqui para ela. Emanuel também foi para lá quando saiu, os anos que
esteve preso foram os mesmos que Sofia levou para construir sua obra.
***
– O que você fará quando sair?
– Vou ajudar minha mãe. – me disse ele.
– Gostaria de conhecê-la.
O que levou Emanuel à mudança foi o amor incondicional de sua mãe
por ele, assim como o amor incondicional do empresário por seu filho perdido
no mundo. Ambos os pais aguardaram pacientemente pela reviravolta na vida
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Vidas quebradas: reflexos do crack

de seus filhos.
Sofia saiu ao mundo querendo ajudar os outros quando viu seu
filho realmente disposto a mudar. O empresário, ao perceber a vontade de
mudança em seu filho, acreditou que é possível reverter a situação.
Atualmente, os quatro trabalham voluntariamente na luta contra o
crack. Os dois jovens se recuperaram, constituíram família e são cidadãos de
bem. A clínica conta, ainda, com mais oito monitores, ex-usuários, e abriga
mais de oitenta internos. Há projetos para ampliação.
O número de vagas é limitado, porém, as poucas sementes plantadas
são suficientes para dar ótimos frutos no futuro.
Imagine quantas pessoas cada ex-usuário deixa de aliciar, reduzindo
o aumento de dependentes. Quantos homicídios e latrocínios são evitados,
reduzindo a taxa de mortandade causada por eles. Quantos furtos e assaltos
não são realizados, reduzindo a criminalidade. Quantos pontos de tráfico
deixarão de vender, por falta de ter quem comprar e quantas famílias se
reestruturarão, propagando o amor.
Às vezes, o que nos falta é iniciativa!

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Encerrado meu expediente. assimilei. O sol se deitava do outro lado do portão.Vidas quebradas: reflexos do crack Reflexões de uma cidadã Tendo ouvido o Surdo e o Mudo. Além desses que apresentei. mas e os outros? E aqueles usuários que querem largar o vício e não tem a quem recorrer? E os pequenos traficantes que estão nessa vida para sustentar suas famílias? E aqueles pequenos flagelados que vivem nas ruas? E a falta de clínicas? Como conscientizar a população? Como uni-los em um único ideal? 91 . Passei o dia inteiro nessa grande batalha psicológica. arrumei a papelada com todas as anotações feitas e encaminhei todas as possíveis manifestações que podiam ser feitas em prol dos mesmos. em poucas horas. os tormentos e problemas de tantos reclusos. Depois de um dia inteiro de sofrimento. cada um precisava ser ajudado à sua maneira. pelo crack. esperando que o portão se abrisse. vi a muralha com seus quadradinhos acesos. Ou será que não? O portão se abriu e fui para casa com minha mente borbulhando em reflexões. Todos esses problemas foram causados. passei a noite inteira acordada. Essa é a questão! Que atitude tomar quando estamos sozinhos nessa situação? Como ajudar aqueles que foram abandonados pela sociedade? Gostaria de ter a força de Sofia de Jesus. Mas. com certeza estavam refletindo sobre seus erros. me despedi dos agentes prisionais e outros companheiros e fui embora. direta ou indiretamente. refletindo. Conforme soluções iam surgindo. rumo ao lar. Todos estavam carentes de ajuda. o céu estava avermelhado. Como não tenho. conversei com estelionatários e criminosos sexuais que nada tiveram de influência pela droga em questão. como ajudar aqueles a quem não conheço? O pouco que ajudo é muito para eles. Quando olhei para trás. eu fazia anotações. poucas nuvens persistiam em ficar.

para fazer com que a sociedade se mobilize em prol de um único objetivo: vencer o crack. o crime continuaria a existir. mas é um de seus aceleradores. saí bem cedo. mas não adiantou. será que conseguiria fazer com que os leitores tomassem conhecimento do que o crack é capaz de causar? Talvez sim. Só depois de um tempo foi que optei por mudar seu nome e contar de igual forma sua história. 92 . disse-me que tentou salvá-lo. se eliminássemos o crack de vez do mundo. lamentavelmente. me acompanhou. e no que ainda pode causar se empurrarmos com a barriga. Se eu conseguisse a permissão de todos. Para pedir soluções aos políticos. Se eu escrevesse um livro sobre a vida dessas pessoas. O segundo dia não foi tão apavorante quanto o primeiro. Nada pode nos impedir de pensar no crack. mas para lutar pacificamente. que não está tão encoberta quanto pensamos. Não conseguindo dormir naquela noite. nos seus usuários. faleceu durante a madrugada. É óbvio que. Só que surgiu um problema: a autorização dos detentos. perceba suas palavras: – Conte comigo. Como bom cidadão que ele é. porém. senhora. Surgiram várias dúvidas. Informar e transmitir a vivência dessas vidas quebradas pelo crack. propulsor da tão temida criminalidade que nos causa tanta insegurança. Lá chegando. Quero ajudar com o relato da minha vida. desta vida ninguém leva nada. O crack não é a única causa da violência. José morava no mesmo cubículo que Alguém. explicada a situação. acredite. Assim como Alguém. que. procurei por Brutamontes e pedi que me levasse na cela de todos os presos para quem precisava pedir a autorização. e antes do horário já estava na penitenciária. Deus quis levá-lo. O primeiro da lista que fiz era o bambambã. A descoberta da verdadeira realidade. é estatisticamente comprovado que o crack dissemina o mal.Reginaldo Osnildo Toda essa confusão em minha mente foi o resultado do impacto que aquele primeiro dia de serviço me causou. não apenas para acusar. poderia fazer com que os cidadãos de bem se unissem. nas consequências que o crack deixou em nossa sociedade. mas apenas uma resposta. Fique com Deus. senhora.

Como já era de se esperar. Espero que as histórias aqui relatadas tenham cumprido seu objetivo. Tive que fazer tudo isso às pressas. uns comentários extras que postei no livro entre as conversas.Vidas quebradas: reflexos do crack Falei com Vitória e ela ficou deslumbrada com a ideia. mas com uma condição. Nosso amigo Emanuel estava no cubículo ao lado e gritou afirmando apoio total. se eu não dissesse estar com pressa. e me mandou. aquele da platina no maxilar. só depois de três dias pude confirmar a vaga no hospital psiquiátrico. os dois moravam juntos. Restaram-me o Mudo e o Surdo. Mais uma autorização concedida. permitiu que eu usasse o que julgasse necessário. senti um enorme bem estar e retribui o sorriso. Foi o que fiz. Na realidade. Ao me ver. Depois dessas. sorriram muito. o mal-humorado do Brutamontes queria ir para casa. Ele sabia que eu não exporia sua vida abertamente. tive que fazê-lo assinar um documento. me tomaria o dia todo. O incrível nesses dois é que eles haviam se tornado um só. tinha terminado seu plantão. não descansaria. são muitas as vidas quebradas pelo crack. Se não tivesse visto o Mudo bem. O Playboy me autorizou. e sendo seu pai muito influente. Vitória fez muito escândalo. que elas tenham logrado êxito em seu real propósito. derreteram-se. nem foi preciso convencê-los. mas autorizou. para convencer o Mudo bastava convencer o Surdo. Para conseguir a autorização de Lenilson. Procurei seu Inocêncio. trocando seu nome real por um fictício. quando percebeu que ele havia escutado a conversa toda. foi o mais difícil de conseguir. tive que prometer-lhe uma transferência. ele apoiou a ideia. Prefiro assim. Consegui sua permissão. Não confio nele. Caio também. O Capitão ficou meio desconfiado. posteriormente. escutei muitas histórias da vida real. Ainda me corta o coração lembrar a morte do Surdo. me disse apenas que omitisse o nome dele e o batalhão que trabalhou. concordei. Já estava acordada quando cheguei à porta da cela. O restante liberou. 93 . Quando os vi. atualmente.

SC (48) 3665-6200 O. 4982 .Composição e impressão ESTADO DE SANTA CATARINA Secretaria de Estado da Administração Diretoria da Imprensa Oficial e Editora de Santa Catarina Florianópolis .P.

publicação de obras a custo ZERO. A Lei prevê ainda que 30% de cada 100 cópias impressas serão doados às bibliotecas e escolas públicas.019. Lei nº 15. E.019 .Cem Cópias Sem Custo Esta é mais uma obra publicada por meio do projeto Cem Cópias Sem Custo. Este programa vai tornar as obras e os autores conhecidos de um público importante que está despertando para o sabor da leitura. permitindo ao escritor catarinense. despertará nesses leitores o sabor da escrita. que criou o programa de incentivo à produção literária e cultural. 100 CÓPIAS SEM CUSTO LEI Nº 15. certamente. ou aqui radicado há mais de três anos. visando permitir e estimular a leitura e a correta aplicação da ortografia da nossa língua pátria.

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