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Público • Sexta-feira 26 Março 2010 • 47

Perplexidades a propósito das fragilidades da campanha para a liderança do PSD e das divisões na Europa do euro

“Podem ajudar-me a explicar ao meu irmão de 17 anos…”

N
PEDRO CUNHA
ão cheguei a perceber quem era o Bru-
no que, na passada terça-feira, me fez
chegar aquela que considerei ser a per-
gunta mais interessante do debate que
moderei entre representantes de três
das candidaturas à liderança do PSD. Pedia ele que
lhe dessem motivos para explicar ao seu irmão de
José 17 anos por que razão haveria de votar no PSD, em
Manuel vez de votar no Bloco de Esquerda. José Luís Ar-
Fernandes naut, que representava Paulo Rangel, e Pedro Pinto,
Extremo que falava por Pedro Passos Coelho, acharam que
era fácil explicar, pois os dois partidos são muito
ocidental diferentes. Já Diogo Vasconcelos, mandatário de
José Pedro Aguiar Branco, levou a pergunta a sério
e sublinhou que o PSD não pode esperar voltar a
ganhar, “se não souber encontrar uma nova narra-
tiva” que ultrapasse o “discurso da dívida” e possa
“atrair a imaginação dos eleitores”.
Ontem, no blogue PsicoLaranja – o blogue que
organizou o debate – encontrei um curioso teste-
munho de um dos presentes. Ei-lo: “Os
O drama do PSD, que jovens dividem voto entre Bloco e PSD...
Pois hoje vinha no autocarro e vinha um
muito provavelmente grupo de cerca de 15 jovens para a manif
no Saldanha que falavam disso mesmo.
não será ultrapassado Votas Bloco ou PSD? Curioso que eu não
com a escolha de uma tinha esta perspectiva e de repente, em
menos de dez horas, vejo a questão co-
nova liderança nas locada dentro e fora do partido...”
Pois é. O drama do PSD, que muito
eleições internas de provavelmente não será ultrapassado
hoje, é ter não só com a escolha de uma nova liderança
nas eleições internas de hoje, é ter não
perdido o contacto só perdido o contacto com a realidade
com a realidade e o sentimento do eleitorado, como não Como, perguntam alguns, quando “o PS de Sócra- consciência de que, quando não se conquistam as
entender a importância do debate de tes ocupou o espaço do PSD”? Talvez começando pessoas para as nossas ideias, não só as eleições
e o sentimento do ideias, antes valorizando o seu mítico por provar que isso é falso, como fez Diogo Vas- passam a ser um concurso de competências, como,
“pragmatismo”. Isto para além de o concelos naquele debate – o que não deixou de ser sobretudo, nunca se será capaz de colocar essas
eleitorado, como seu aparelho se ter tornado tão ou mais curioso e sintomático, pois aquele quadro da Cisco ideias em prática.
não entender a clientelar do que o do PS. vive hoje a maior parte do ano fora de Portugal. Quase nada disto se viu nesta campanha para a
De facto, se algo não aconteceu du- Talvez tendo mais mundo, horizontes mais largos, liderança do PSD. E se é verdade que o partido te-
importância do debate rante a campanha para a liderança do e mostrando que a inovação, em Portugal, tem mui- ve cinco meses para preparar a sucessão, agora ou
de ideias , antes PSD foi aparecer alguém capaz de captar to mais a ver com a devolução de autonomia aos o vencedor das directas é capaz de surpreender,
não só a imaginação, como, ao mesmo cidadãos e às empresas do que com a expansão ou é bem possível que o Bruno continue sem boas
valorizando o seu tempo, as expectativas do eleitorado. de uma rede de fibra óptica. Talvez regressando respostas para as perguntas do seu irmão, quando
Pedro Passos Coelho tem tanto de ao essencial da política, que são as ideias, e ter este for votar pela primeira vez. Jornalista
mítico “pragmatismo” água destilada como Paulo Rangel tem
de vulcânico, mas se o primeiro não
conseguiu desfazer a imagem de alguma artificiali-
dade cosmética, o segundo também não reuniu à
sua volta uma equipa sólida. Já José Pedro Aguiar
Branco, que terá apresentado a moção de estraté-
… e já agora também ao meu filho de 33?
gia mais inovadora e interessante, mostrou muita
energia no contra-ataque, mas pouca capacidade a A pergunta é simples: como é Tratado de Maastricht e permitir dos europeus, o que é necessário
para mostrar que não será apenas mais do mesmo que posso explicar a alguém que um apoio financeiro especial à é serem competitivos à escala
actual PSD. Quanto a Castanheira Barros não conta, faz parte da geração “mil euros” Grécia, mas sobretudo às pressões global, de forma a beneficiarem
nunca contou, nesta disputa. que o esforço compensa, se, ao para que aumente o consumo do aumento de consumo que terá

A
mesmo tempo, premeio a preguiça interno e modere as exportações. inevitavelmente de ocorrer nos
pergunta do Bruno, apesar de parecer e o laxismo? Como é que posso Primeiro, porque é imoral pedir a países emergentes da Ásia.
surpreendente para muitos, era e é per- explicar à geração que não sabe se quem arrumou a casa e conseguiu O que tenho de explicar ao meu
tinente. Sobretudo porque não é possível ainda haverá dinheiro para as suas voltar a tornar competitiva a sua filho de 33 anos é que haverá
responder-lhe com as fórmulas gastas e reformas que os responsáveis por mão-de-obra bem paga (graças esperança para a Europa – e
retóricas do passado. esta década que Portugal perdeu (e a contenção salarial e a ganhos para Portugal – se o exemplo
Por exemplo: o Bloco situa-se numa área ideoló- boa parte da Europa também) ainda de produtividade), que inverta de disciplina e construção de
gica muito distinta da do PSD? Pois situa. Mas quem não estão dispostos a assumir a sua caminho porque muitos dos demais consensos sociais da Alemanha
fala hoje de ideologias? Muito pouca gente, sobre- parte dos sacrifícios? andaram a adiar reformas e a gastar for seguido, se o exemplo de
tudo em sociedades como aquela em que vivemos Coloco estas questões por uma à larga. Depois, porque é ilógico rápida reacção à crise com
onde é crescente a tendência para a atomização razão simples: não consigo pensar que os desequilíbrios de restrições salariais da Irlanda for
social e para os interesses imediatos do “eu” se so- compreender a pressão que foi feita países como a Grécia ou Portugal se acompanhado. Mas que não haverá
breporem à lógica de um qualquer “nós”. E num nos últimos dias sobre a Alemanha resolvem convencendo os alemães futuro, se os da minha geração
país dividido entre os que estão saturados do actu- (e indirectamente sobre a Holanda a consumirem mais, isto é, que os falarem só de direitos adquiridos –
al primeiro-ministro e os que ainda o vêem como e também a Finlândia) por esta desequilíbrios entre os países com até porque esses direitos já estão a
um mal menor, para contrariar o populismo de es- ter feito, nestes dez anos, o seu uma balança comercial positiva e ser roubados à geração dele.
querda e o populismo de direita, o PSD precisava trabalho de casa. Não me estou a uma balança comercial negativa se Quando falamos em solidariedade
de construir um discurso capaz de fazer acreditar referir apenas às pressões para a resolvem dentro da União Europeia. em tempo de crise, é também disto
que Portugal pode ser melhor. Alemanha aceitar a violação do Para os alemães, como para o resto que falamos.