Desmatamento, esgoto, lama tóxica e críse hídrica no vale do Rio Doce

“Não destrua em pouco tempo aquilo que
a natureza levou milênios para construir”
(Alves, 2015)

O vale do Rio Doce começou a ser explorado no final do século XVII, quando os
primeiros garimpeiros e extrativistas anti-ambientais chegaram ao atual município
de Ouro Preto e descobriram ouro no leito do rio do Carmo (um dos principais
afluentes formadores do Rio Doce).
Ao longo dos últimos 3 séculos as atividades extrativistas foram aumentando e
Minas Gerais se transformou no principal exportador de minério de ferro e o Espirito
Santo exporta mármore, granito e outros produtos minerais e vegetais da região.
As atividades extrativistas possibilitaram o crescimento de outras atividades
econômicas e o crescimento das cidades. A pecuária por exemplo foi fundamental
para o crescimento de Minas Gerais que é conhecido com um grande estado
produtor de leite e queijo. Mas o crescimento das atividades extrativistas e
pecuárias destruiu a Mata Atlântica e eliminou a cobertura vegetal da maior parte
da região Sudeste.
Sem árvores a chuva que cai no vale do Rio Doce arrasta o solo para o leito dos
rios, provocando erosão e impede a recarga dos aquíferos, pois não há infiltração
suficiente das águas. Assim, os rios vão ficando deterriorados e os aquíferos vazios.
Mas a ganância e a demanda humana por água é cada vez maior. Uma população
de mais de 3 milhões de pessoas vivem no vale do Rio Doce. E o pior é que estas
pessoas que, em geral, nada fazem para recuperar o meio ambiente, poluem os rios
com esgotos e resíduos sólidos.
Diante do desastre provocado pelo rompimento das barragens de rejeitos da
Samarco – que pertence às super companhias Vale do Rio Doce e BHP Billiton –
várias vozes falam em suspender as atividades mineradoras. Mas o prefeito de
Mariana (MG) já disse que a cidade quebra sem os poucos impostos e os negócios

da mineração. O mesmo vale para Minas Gerais, que como o próprio nome diz, vive
das minas gerais de exploração mineral.
O fato é que as atividades antrópicas estão acelerando o fluxo metabólico entrópico
e provocando a extinção de espécies, a degradação dos ecossistemas e a crise
hídrica. O egoismo brasileiro já destruiu mais de 90% da mata atlântica e destruiu
os rios urbanos como o rio Ipiranga em São Paulo, o rio Carioca no Rio de Janeiro e o
rio Arudas em Belo Horizonte. Também está destruindo o Rio São Francisco que está
cada vez com menos água (e o governo federal ainda quer fazer transposição).
Agora é o golpe fatal no Rio Doce, que virou amargo com a lama e os metais
pesados da poluição.
Um fio de esperança acontece com a proposta de fotógrafo Sebastião Salgado – que
nasceu na bacia do rio Doce – e agora tem uma proposta de recuperação das
nascentes. Sebatião Salgado já faz um trabalho incrível de recuperação das matas
na região. Seria ótimo se ele conseguisse apoio para ampliar a escala de atuação.
Quem sabe o egoismo e a ganância humana pode ser revertida e se veja a
recuperação, mesmo que parcial, do rio em um horizonte próximo?
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas ENCE/IBGE;
Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail:
jed_alves@yahoo.com.br
PS: Segue uma série de reportagens sobre o drama do Rio Doce.
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Especial: Seca torna ainda mais grave rejeitos
de mineração no Rio Doce
http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-especial/videos/v/especial-seca-tornaainda-mais-grave-rejeitos-de-mineracao-no-rio-doce/4610681/
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Edição do dia 15/11/2015
15/11/2015 23h02 - Atualizado em 15/11/2015 23h19

'Vida no rio praticamente não existe mais', diz
professor sobre Rio Doce

Reportagem mostra as consequências do desastre ambiental e
humano em Mariana (MG).
http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/11/vida-nesse-rio-praticamente-naoexiste-mais-diz-professor-sobre-rio-doce.html
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15/11/2015 16h47 - Atualizado em 15/11/2015 16h47
http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2015/11/vamos-recupera-lo-diz-sebastiaosalgado-sobre-o-rio-doce.html
'Vamos recuperá-lo', diz Sebastião Salgado sobre o Rio Doce

Fotógrafo se reuniu com Dilma Rousseff para apresentar
ideias.
Ele desenvolve projeto que recupera nascentes do Rio Doce.
Patrik Camporez De A Gazeta

Sebastião Salgado (Foto: Pedro Ângelo/G1)
O fotógrafo Sebastião Salgado presenciou e denunciou para o mundo, ao logo de
sua vida, uma infinidade de tragédias através das lentes de suas câmeras. Desta
vez, o maior fotógrafo brasileiro tem dedicado total atenção a uma tragédia que
aconteceu “no quintal da sua casa”, na bacia Hidrográfica do Rio Doce.
Desde que as Barragens da Samarco se romperam, no dia 5 de novembro, Salgado
não parou quieto. Na manhã de sexta-feira (13), ele se reuniu em Brasília com a
presidente Dilma Rousseff, onde apresentou um grande projeto de recuperação do
Rio Doce.
Como você avalia a situação do Doce hoje?
Esse desastre foi terrível, mas a morte do Vale começou muito antes disso. Eu
venho presenciando, há décadas, essa situação. Mas estamos lutando, com projetos
de recuperação ambientalpara reverter isso. A maioria dos pequenos e médios rios
da Bacia, com a seca deste ano, já não correram. Nós temos o Vale mais degradado
do Brasil, com só 0,5% de cobertura florestal. Está morrendo numa velocidade
incrível.

O desastre em Mariana agravou o problema...
O que está acontecendo agora, com o rio, é o que acontece com um corpo que
levou uma punhalada. A mancha que vem descendo e cobrindo o fundo do rio está
esterilizando toda sua vida biológica. Os ovos dos peixes estão sendo soterrados.
Não vão nascer mais tartarugas, rãs, sapos e todas as plantas aquáticas vão deixar
de existir. Por onde passa, essa lama esteriliza tudo. É o maior acidente ecológico
que já aconteceu nesse rio. Talvez o maior do Brasil.
Que propostas você levou para a presidente?
A nossa proposta é que as empresas donas da Samarco, a BHP e a Vale, constituam
um megafundo com todos os recursos necessários para recuperar todas as
nascentes do Vale Rio Doce. Esse fundo vai fazer com que o rio passe de um
desastre terrível a um Vale que, a médio e longo prazo, seja um modelo para o
Brasil. E que seja um projeto piloto. Então, hoje, o Governo Federal está constituindo
um pequeno comitê que vai negociar com as empresas na direção da constituição
desse fundo. Melhor seria se houvesse um acordo, pois os presidentes dessas
empresas também têm plena consciência do desastre.
E a Dilma?
A presidente achou a ideia fantástica. A gente acomodou a reunião de uma forma
curta, mas profundamente intensa.
Qual será o custo da recuperação do rio?
O custo da recuperação das nascentes fica em torno de R$ 3 bilhões. Outros custos
vão ter que ser calculados. A proposta é de se criar um endowment (patrimônio
perpétuo) para, com o fundo, termos recursos para recuperar o vale.
O Instituto Terra tem um projeto travado no BNDES. O que muda com essa
tragédia?
O que muda é que agora vamos ter os fundos reais para fazer o que deve ser feito.
O projeto entrou no BNDES e nós estávamos dependentes de um investimento a
fundo perdido. Mas, com um contingenciamento de verba, o que era para Cultura e
Meio Ambiente foi reduzido. E, apesar do projeto aprovado, nós não conseguimos
dinheiro para sua constituição. Com a criação desse fundo, vamos ter recursos
suficientes para recuperar todas as nascentes do Rio Doce. Vamos refazer o rio.
Como vai funcionar o fundo?
Nós temos que recuperar todas as nascentes, que é o projeto básico do Instituto
Terra. Tem que estar incluído nesse fundo a recuperação de todas as matas ciliares
do Vale e toda sua reserva legal. Como o rio foi destruído ecologicamente, nós não
podemos permitir que ele receba mais detritos e mais resíduos. Temos que criar um
filtro, e o filtro só se cria com a reconstituição da reserva legal e das matas ciliares.
Nesse fundo também seria apreciada toda uma agricultura sustentável no Vale.
Nossa proposta, levada à presidente, é que seja um fundo público-privado.
O que te move nessa luta para salvar o Rio Doce?
O Rio Doce é minha vida. Nasci e cresci nas suas margens, e acompanhei a
degradação desse ecossistema. Eu estou dedicando uma parte da minha vida, a
minha esposa está dedicando uma parte da vida dela, o conselho diretor do
Instituto Terra está dedicando uma parte da vida deles para salvar o rio. Nós

criamos uma instituição responsável e que está trabalhando na base, com as
prefeituras e com os governos, e nós vamos recuperar o rio. Não tenho dúvida
disso.

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1706898-lama-de-mariana-mgavanca-e-provoca-matanca-de-peixes.shtml

Lama de Mariana (MG) avança e provoca
matança de peixes
Rompimento de barragens em MG
5 de 72
Fabio Braga - 15.nov.15/Folhapress

FÁBIO BRAGA
ENVIADO ESPECIAL AO INTERIOR DE MG
THIAGO AMÂNCIO
DE SÃO PAULO
16/11/2015 02h00
Ao longo dos 450 km que a lama vinda de Mariana (MG) já percorreu, pelo leito do rio Doce, os
moradores se queixam do forte mau cheiro. Além dos compostos químicos e do minério diluídos
na água das duas barragens da mineradora Samarco que se romperam no dia 5, há o odor de
animais mortos.

No centro de Resplendor, onde a lama chegou na quinta (12), é possível ver peixes e pitus
boiando às margens do rio tornado marrom.
Ali, a maior preocupação dos moradores é com o sumiço das capivaras, visto como um indício
da gravidade do desastre ambiental. O abastecimento na cidade foi cortado, e a prefeitura trata e
distribui a água de um córrego próximo com carros-pipa.

Em Tumiritinga, onde a lama chegou dia 10, o cheiro é insuportável, diz a secretária de
administração, Janine Vicente. "O rio era usado para agricultura, pecuária e pesca. Agora
ninguém consegue ficar muito tempo perto."
Neste domingo (15), a lama estava próxima à barragem da hidrelétrica de Aimorés.
Os moradores se reúnem para ver a cor escura que vem tomando o rio, enquanto aguardam a
chegada da lama, o que pode ocorrer a partir desta terça (17), diz o Serviço Geológico do Brasil.

"Por enquanto, não dá para perceber nada, porque a água está lá em cima. Todo mundo está
nervoso", afirma Marcelo Leão, secretário municipal de Administração.
Em Governador Valadares, onde o abastecimento foi interrompido no dia 8 e a lama chegou um
dia depois, a prefeitura retomou o tratamento e a distribuição de água.
A água do rio Doce chegou a alguns imóveis com cor amarelada e cheiro forte. Segundo a
prefeitura, isso se deve a resíduos que estavam na rede e nas caixas-d'água, e disse que a água é
potável. O abastecimento só deve voltar ao normal no fim da semana.
Nos últimos dias, cientistas da Unifesp, Unesp e outras universidades se uniram para uma
avaliação independente dos impactos ambientais da tragédia. Pesquisadores fazem coletas na foz
do rio Doce, onde a lama não chegou, para documentar o antes e o depois e avaliar as condições
do meio ambiente.
Para o grupo, os impactos ambientais devem ser monitorados "com a maior isenção e precisão
possíveis". Eles fazem campanha de arrecadação pela internet para reunir R$ 50 mil para a
pesquisa.
Infográfico: Caminho da lama
PROTESTO
A 16 km de Resplendor, cerca de 150 indígenas da etnia krenak bloqueiam a ferrovia Vitória a
Minas, da Vale, desde sexta (13), em protesto contra os danos causados ao rio. Eles receberam
ordem judicial para desocupar os trilhos, mas dizem que só saem quando conversarem com
representantes da Vale ou da Samarco.
Em nota, a Vale afirmou que 360 mil litros de água que a empresa enviaria para cidades estão
parados nos trilhos.
Em Mariana, mais um corpo foi encontrado -agora quatro aguardam identificação. Sete vítimas
já foram reconhecidas e restam ainda 15 desaparecidos. A prefeitura suspendeu temporariamente
o recebimento de donativos.
Colaboraram ZANA FERREIRA, em Governador Valadares, e ESTELITA HASS
CARAZZAI, em Curitiba
MAIORES DESASTRES AMBIENTAIS NO BRASIL
> Fev.1984 - Cubatão (SP)
Explosão em duto da Petrobras mata 93 e deixou 2.500 desabrigados na Vila Socó. Foram
derramados 1,2 milhão de litros de gasolina

> Set.1987 - Goiânia (GO)
Catadores abrem aparelho hospital achado em ferro velho, liberando material radioativo.
Oficialmente, quatro pessoas morreram, mas associação de vítimas fala em mais de 60
> Out.1998 - São José dos Campos (SP)
Oleoduto rompe, e vazamento atinge charcos, brejos e o córrego Lambari
> Jan.2000 - Rio de Janeiro (RJ)
Duto da refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, se rompe, e 1,3 milhão de litros de óleo
combustível vaza na Baía de Guanabara
> Jul.2000 - Araucária (PR)
Ruptura em junta da tubulação de refinaria da Petrobras causa derramamento de 4 milhões de
litros de óleo
*
ACIDENTES COM BARRAGENS
> Mar.2003 - Cataguases (MG)
- Rompimento de barragem da Indústria Cataguases de Papel
- Resíduos atingiram o rio Paraíba do Sul e córregos a 200 km, deixando 600 mil sem água
- 1,4 bilhão de litros de resíduos da produção de celulose vazaram
> Jan.2007 - Miraí (MG)
- Ruptura de barragem da Mineração Rio Pomba Cataguases
- 4.000 desalojados e cinco municípios atingidos em MG e no RJ
- 2 bilhões de litros de lama de bauxita derramados
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http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2015/11/baixo-guandu-es-suspendecaptacao-da-agua-do-rio-doce.html

16/11/2015 13h57 - Atualizado em 16/11/2015 15h12
Baixo Guandu, ES, suspende captação da água do Rio Doce

Água com elevada turbidez alcançou usina de Aimorés, na
divisa com o ES.
População será abastecida com água do Rio Guandu.
Naiara Arpini Do G1 ES

Usina de Aimores, em Minas, na divisa com o Espírito Santo, na manhã
desta segunda-feira (16) (Foto: Adenaldo Serrano/ VC no ESTV)

A prefeitura de Baixo Guandu, no Noroeste do Espírito Santo, suspendeu a captação da água do
Rio Doce na manhã desta segunda-feira (16). A decisão veio após a informação de que uma
“massa de água com elevada turbidez” passa pela Usina de Aimorés, que fica na divisa com o
município capixaba. Agora, a prefeitura utiliza a água do Rio Guandu para abastecer a
população.
O rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Samarco aconteceu no dia 5 de
novembro e causou uma enxurrada de lama no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na
região Central de Minas Gerais. A lama também chegará ao Espírito Santo e deve afetar os
municípios de Baixo Guandu, Colatina e Linhares.
Às 11h40, o Serviço Geológico do Brasil informou que equipes “observaram
deslocamento de massa de água com elevada turbidez ajusante da Usina de
Aimorés”. De acordo com o prefeito de Baixo Guandu, Neto Barros, assim que essa
informação foi passada ás autoridades municipais, a captação foi suspensa por
precaução.

Como essa paralisação já era prevista, a prefeitura já se preparava para colocar em prática o
plano B, que é captar água do Rio Guandu. “Há cerca de cinco dias nós estávamos limpando um
canal para levar água do Rio Guandu até a estação de bombeamento. Agora a água já está sendo
tratada para o abastecimento”, disse.
De acordo com ele, a medida será suficiente. “A situação está sob controle. A população de
Baixo Guandu vai ter água na torneira”, disse. Na região de Mascarenhas, a prefeitura planeja
usar carros-pipa para manter o abastecimento normalizado. “A gente busca no Rio Guandu e leva
pra tratar na estação de Mascarenhas”, explicou.

O prefeito acrescentou que o município não tem a intenção de voltar a captar água do Rio Doce.
“Nós não temos mais interesse em captar água do Rio Doce. O que hoje é paliativo, vai ser
definitivo”, concluiu.
Exércio chega ao ES
Mais de 100 homens do Exército chegaram a Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, na manhã
deste domingo (15). Eles serão responsáveis pela distribuição de água à população.
“Se os poços que estão sendo perfurados derem certo, cerca de 55% da captação de água vai
permanecer normalizada. Para a parte que não for atendida, que é 45%, nós vamos agir fazendo a
distribuição de água”, explicou o capitão De Albuquerque, do Exército.
Ele disse que como o abastecimento ainda está normalizado, por enquanto, o Exército aproveita
para fazer reconhecimento da área e estudo de mapas da região.
A presença do Exército nas cidades, além do controle na distribuição de água, funcionará como
apaziguador para a população da região preocupada com a aproximação da lama, conforme
destacou o secretário de Meio Ambiente do Estado, Rodrigo Júdice.
Os militares ficarão no município por tempo indeterminado e poderão auxiliar os três municípios
que serão atingidos: Baixo Guandu, Colatina e Linhares, segundo o Governo do Estado.
Samarco começa a perfurar poços em Colatina
A empresa Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, iniciou neste domingo
(15) as perfurações para captação de água subterrânea, que fica entre as rochas. A medida é para
ajudar a manter o abastecimento em Baixo Guandu e Colatina, os municípios capixabas que
serão os mais atingido pela lama das barragens que se romperam em Mariana (MG).
Em Colatina, estão sendo perfurados seis poços, há carros-pipa e foram instalados reservatórios
de 20 mil litros nos pontos mais altos da cidade. Também está em avaliação a instalação de
adutoras de engate rápido para coleta de água bruta nas lagoas do Limão e Batista.
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http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/14/politica/1447510027_501075.html
Marcus Vinícius Polignano | coordenador do Projeto Manuelzão »

“Lama de Mariana pavimentou rios por onde
passou. Dano é irreversível”

Responsável por monitorar impacto de mineração em Minas
descreve prejuízos ambientais
Ele diz que não há como retirar rejeitos e alerta que chuvas
podem piorar situação

Mariana, a dependência da mina que paga pouco à região que
devastou

Heloísa Mendonça São Paulo 16 NOV 2015 - 11:41 BRST

Homem carrega caixão de Emanuele, 5, vítima da tragédia. / RICARDO MORAES (REUTERS)
A avalanche de rejeitos gerada em Minas Gerais pelo rompimento de duas barragens da
mineradora Samarco, controlada pela Vale e a australiana BHP, causou danos ambientais
imensuráveis e irreversíveis. Apesar da lama não ter um teor tóxico, ela pavimentou os mais de
500 km por onde passou devastando, com impacto ainda difícil de calcular completamente para
grande parte do ecossistema da região. “Podemos dizer que 80% do que foi danificado lá é perda,
não há como pensar em um plano de recuperação ambiental”, explica Marcus Vinícius
Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão. O projeto ambiental, da Universidade Federal de
Minas Gerais, monitora a atividade econômica e seus impactos ambientais nas bacias
hidrográficas e trabalha com a revitalização dos principais rios mineiros.
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Barragem se rompe em Minas e deixa mortos e dezenas de desaparecidos

Mariana, a dependência da mina que paga pouco à região que devastou

Em entrevista, ele afirmou que a mineração precisa ser reinventada: "Não podemos continuar
pensando que podemos fazer modelos do século XVIII em situações do século XXI".
Pergunta. Qual a dimensão do estrago ambiental causado pelo rompimento das barragens?
Resposta. É de uma magnitude que eu diria imensurável a princípio. Há várias situações. A
extensão do dano é tal que estamos com a lama chegando na foz do Rio Doce, no Estado do
Espírito Santo, a mais de 500 km do local do rompimento da barragem. A avalanche de lama
rompeu e despejou cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Apesar dessa lama não ter
aparentemente uma composição tóxica do ponto de vista químico, a densidade por si é altamente
impactante, porque ela foi fazendo um tsunami de rejeitos que por todos os lugares em que
passou devastou, matou e impactou. Uma mesma onda produziu três efeitos. Ela devastou, já que
arrebentou tudo que viu pela frente, ela impactou porque se consolidou, não foi passageira, se
espalhou ao longo de todo esse trajeto. Ela praticamente produziu os três efeitos
simultaneamente.
As comunidades que estavam no caminho perderam seu meio de vida, pequenos agricultores
tiveram as fazendas devastadas
P. E como fica o ecossistema?
R. A onda foi pavimentando o trajeto, porque aquilo é uma massa com certa densidade, não é
essa lama de enchente que é mais rala, ela tem densidade e uma liga, dessa forma foi
pavimentando onde passou. Ela ocupou tanto o leito do curso d’água como as margens.
Dependendo da região, chegou a uma faixa de 50 a 100 metros para além da borda do rio. As
comunidades que estavam no caminho perderam todas as suas propriedades, perderam seu meio
de vida, porque tinham pequenos agricultores que tiveram as fazendas devastadas, sem contar
todo o prejuízo do ecossistema que substituído. Imagina que o ecossistema aquático foi
totalmente ocupado por esse material de rejeitos.
P. E qual situação dos rios da região?
R. Essa tsunami toda chegou rapidamente aos rios. A lama saiu de um afluente, que era o
Gualaxu , passou para o Rio do Carmo e atingiu o Doce que é o rio principal, que configura a
bacia. Então foi descendo rio abaixo, trazendo outros efeitos, matando todos os peixes já que a
densidade da lama retirou o oxigênio da água. Há cenas chocantes de peixes pulando para fora da
água. Um quadro absolutamente tétrico, horrível, inimaginável. O rio Doce tinha uma
biodiversidade bem diversificada, cerca de 80 espécies diferentes. Todos os sistemas se
interligam, tem espécie no fundo do rio outro debaixo de pedra, isso foi tudo alterado, são danos

imensuráveis, porque o que perdeu em cada metro que a onda passou é absurdo, você perdeu e
terá um reflexo na qualidade e quantidade da diversidade aquática que sobreviveu.
Ou começamos outro modelo ou vamos continuar enterrando biodiversidades, pessoas e histórias
P. Há uma previsão de recuperação do rio Doce?
R. No caso do rio Doce, como ele é maior, como tem outros afluentes, isso ajuda na recuperação.
Acho que em 10 anos talvez ele consiga ter um padrão melhor, mas mesmo assim, dada a
dimensão, ainda é uma estimativa que não vai ter como medir.
P. E as comunidades ribeirinhas qual a extensão do dano?
R. Todas as comunidades também ao longo do curso da água tiveram seu abastecimento
comprometidos. Quanto mais próximo do rompimento, maior o comprometimento. Essas
comunidades vão ficar sem água potável por um tempo que a gente ainda não dá para calcular.
Como a intensidade foi diminuindo ao longo do percurso, existe uma tendência que o rio Doce
em alguns pontos melhore essa qualidade de uma forma mais rápida. Talvez no prazo de uma
semana a água possa ser tratada e distribuída para a população. Mas, em compensação, esse
material foi todo sedimentando ao longo do rio. E essa situação pode piorar no próximo período
das chuvas, já que grande parte do material que foi despejado pela lama de resíduos vai ser
levado para dentro do rio, contribuindo de uma forma absolutamente incalculável para o
assoreamento do rio Doce, de importância nacional que esse ano já teve dificuldade para
conseguir chegar até a foz nesse época de seca.
São danos imensuráveis na qualidade e quantidade da diversidade aquática que sobreviveu
P. Ou seja a chuva criaria uma nova enxurrada de lama?
R. Sim, pois a chuva vai lavar tudo que está pavimentado. Dessa forma, o monitoramento das
águas do rio Doce terão que ser muito frequentes para garantir a qualidade da água e a saúde das
pessoas que moram no entorno da região.
P. Há alguma possibilidade de retirar essa lama concretada antes do período chuvoso?
R. Sem chance. Imagina tirar 62 milhões de metros cúbicos de resíduos que se espalharam numa
distância de mais de 100 km? Não há como retirar esse material, nem para onde levar. Como isso
foi feito ao longo do rio, há lugares que você nem tem acesso. A realidade é que tivemos danos
ambientais irreparáveis. Quem vê dá televisão não tem dimensão da real situação do que foi essa
situação. Esses danos são irreversíveis. Podemos dizer que 80% do que foi danificado lá é perda,
não há como pensar em um plano de recuperação ambiental. Não existe. Esse acidente vai ficar
para sempre na história de Minas, será sempre uma cicatriz da questão ambiental do Estado e um
alerta para que realmente a gente faça uma gestão ambiental comprometida com a vida e com o
meio ambiente. A economia é importante para gerar riqueza, mas ela não tem juízo. Se nós não
começarmos a ter mais juízo nessas práticas que a gente faz, nós não vamos ter salvação.
Imagina o custo disso além das perdas de vida, de ecossistema, o próprio custo econômica para

todos, inclusive para o próprio Estado, é absolutamente impensável você continuar fazendo uma
gestão temerária como temos feito no meio ambiente ao longo da história.
A situação pode piorar no período das chuvas, contribuindo de uma forma incalculável para o
assoreamento do rio Doce
P. Na sua opinião falta fiscalização no setor?
R. Nos últimos 14 anos, já tivemos cinco rompimentos de barragens de magnitude não tão
grande como essa, mas que foram impactantes. O que mostra que o nosso sistema está
equivocado. Primeiro de tudo temos que entender que isso não foi uma fatalidade, não foi
terremoto, cataclismo, isso diz de um projeto. E projetos são de responsabilidade da empresa,
isso diz da empresa e da falta de monitoramento do Estado. Falta fiscalização, sim. Imagina em
um desastre dessa proporção não havia nenhum plano de contingência, sequer um alarme. Se não
fosse por pessoas heroicas anônimas que saíram correndo e avisando sobre o rompimento das
barragens, o número de vítimas seria absolutamente maior. Se tivesse acontecido às 4h da manhã
então, o efeito dessa tragédia teria quintuplicado. Isso diz muito de uma insustentabilidade
ambiental no Estado. Isso desmascara, fala contra tudo aquilo que aparentemente se tenta
produzir de propaganda e efeito. Mas um acidente desse porte não existe apenas uma causa, o
que tem é uma cadeia de causas. O evento final pode ter sido uma fissura na barragem, mas
começa lá trás, no planejamento, no modelo de mineração, no monitoramento e na fiscalização,
tudo equivocado. Um conjunto de fatos tem que ser esclarecidos para que Mariana não seja
apenas mais um quadro na parede. Ou começamos outro modelo ou vamos continuar enterrando
biodiversidades, pessoas e histórias.
Isso não foi uma fatalidade, não foi terremoto, cataclismo, isso diz de um projeto
P. E como mudar esse modelo do qual várias cidades são tão dependentes?
R. A mineração precisa ser reinventada. Já há tecnologias novas e é preciso entender que não se
pode minerar em qualquer lugar. Mas acima de tudo, não podemos continuar pensando que
podemos fazer modelos do século XVIII em situações do século XXI.
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http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/politica/1447439535_624567.html
desastre em mariana »
Mariana, a dependência da mina que paga pouco à região que devastou

Tragédia evidencia que retorno econômico da mineradora é
pequeno diante dos danos

Samarco terá que pagar 250 milhões de reais por desastre em
Mariana

H. M. São Paulo 14 NOV 2015 - 21:39 BRST

Moradores voltam ao vilarejo de Bento Rodrigues depois da tragédia. / Antonio Cruz (Agência
Brasil)
A tragédia de Mariana trouxe à tona novamente os riscos da mineração para as áreas do entorno
das minas ao mesmo tempo que evidenciou a lógica de dependência econômica dessas cidades
que contam com a atividade como principal fonte de renda dos municípios. O rompimento das
duas barragens da Samarco, que contabiliza ao menos 7 mortos, 18 desaparecidos e causou danos
incalculáveis, também deixou claro que o retorno econômico que a mineradora dá a cidades,
como Mariana, se torna muito pequeno diante dos estragos gerados pela atividade.
mais informações

O medo se instala em Mariana

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FOTOGALERIA O mar de lama que deixa rastros de destruição em Mariana

Mineradora é suspensa em Mariana, onde tragédia matou ao menos três

Ambientalistas querem maior rigor em novo código de mineração

No ano passado, a Samarco, controlada pela Vale e pela australiana BHP, pagou em royalties
pela exploração em Minas Gerais cerca de 54 milhões de reais, sendo que desse total 20 milhões
ficaram em Mariana. O valor que a cidade recebeu não chega a 1% do lucro líquido da
mineradora em 2014, que chegou a 2,8 bilhões de reais. A quantia repassada, no entanto, está
dentro da lei. Segundo a legislação atual, as mineradoras são obrigadas a repassar até 2% do seu
faturamento líquido de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos (CFEM), dos
quais 65% fica com o município da mina, 23% com o Estado e 12% vai para a União. A
proporção é criticada por prefeitos de cidades mineradoras que cobram uma compensação maior.
"Os valores são muito pequenos, irrisórios quando você avalia os vários problemas que chegam
junto com as mineradoras. São cidades bastante castigadas pelo impacto das minas. Por isso
queremos tanto que o novo marco legal, discutido há anos, seja aprovado o mais rápido possível
no Congresso", explica o presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas
(AMIG) e prefeito de Congonhas, José de Freitas Cordeiro (PSDB), o Zelinho. O projeto prevê
que as mineradoras paguem o dobro do percentual atual: os royalties passariam de até 2% para

4%. Em comparação com outros países, os percentuais estão bastante defasados. Na Índia, por
exemplo, a alíquota do setor pode chegar a 10%.
Para Zelinho, os moradores de cidades mineradoras estão cada vez mais preocupados com a
presença de minas já que a cada dia fica mais evidente que "não há barragens de rejeitos 100%
seguras". "Criou-se um pânico generalizado. Foi uma catástrofe muito grande. O prejuízo que
houve não tem preço que pague. O momento também é de repensar essas licenças ambientais, de
rever a distância que essas comunidades precisam estar dessas barragens", explica.

À esquerda, imagem tirada da região de Mariana após o rompimento das barragens. À direita a
imagem feita antes da tragédia no dia 21 de julho.
DigitalGlobe/Divulgação
Para aumentar o temor de um novo capítulo da tragédia, a Samarco informou nesta semana que a
barragem Germano, localizada no mesmo complexo em que as duas outras contenções de rejeitos
se romperam, requer um reforço estrutural. Nesta sexta-feira, o diretor de Projetos e
Ecoeficiência da empresa, Maury Souza Júnior, informou que uma das paredes de sustentação da
barragem está com coeficiente de segurança abaixo do mínimo, ainda que tenha garantida que o
local está estável.

Prefeito contra paralisação

O futuro incerto da Samarco em Mariana, que teve suas atividades embargadas, não preocupa
apenas os acionistas da companhia, mas também os trabalhadores da empresa e o prefeito da
cidade, Duarte Júnior (PPS). No início da semana, ele declarou ser contra a paralisação definitiva
das atividades da mineradora, alegando que 80% das arrecadação de Mariana vem das atividades
mineradora que gera cerca de 1.800 empregos diretos e 2.000 indiretos.
De janeiro a outubro deste ano, Mariana recebeu 24,3 milhões de reais de Cfem. "A Cfem me
rende 3,5 milhões reais por mês, sem ela teremos que rever a folha de pagamento e refazer
cortes", explicou Duarte Júnior.
O assessor técnico da Prefeitura de Mariana, Isreal Quirino, explica que uma interrupção
definitiva da companhia impactaria não apenas a arrecadação do royalties, mas uma cadeia de
atividades dependentes. "Minas Gerais traz no próprio nome a mineração. Dezenas de cidades
giram entorno da atividade e a participação da Samarco na região é muito importante. Não se
pode mudar uma matriz, um viés econômico assim da noite pro dia, a toque de caixa. O que
precisamos agora é discutir uma legislação mais adequada para a exploração mineral", afirma.
Outra discussão em curso é quem deve ser chamado a pagar pelos estragos de Mariana. Nesta
semana, a presidenta Dilma Rousseff, criticada pela demora em ir até às áreas afetadas, anunciou
a primeira multa para a Samarco, determinada pelo Ibama, no valor de 250 milhões de reais,
menos de 10% do lucro líquido da empresa em 2014. É provável que outras multas, vindas de
prefeituras e dos Estados afetados, sejam determinadas nas próximas semanas. A presidenta citou
nominalmente as controladoras Vale e a australiana BHP como responsáveis pela tragédia. Na
sexta-feira, a consultoria de risco Eurasia distribuiu a clientes boletim prevendo mais incerteza
para o setor e pouca mudança legal prática no curto prazo, apesar das pressões. "De maneira mais
ampla, o acidente traz mais incerteza para o setor da mineração no Brasil, que vem enfrentando
baixos preços e a recessão. O grande risco é que a Vale a BHP possam ser consideradas passíveis
de punição no caso de a Samarco não poder pagar pelos danos."