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O ESTADO DE S. PAULO DOMINGO, 28 DE MARÇO DE 2010

Imagem da semana

SEXTA-FEIRA, 26 DE MARÇO. Manifes-


Rivalidade cordial tante carrega uma policial durante ato do Sindi-
cato dos Professores do Ensino Oficial do Esta-
do de São Paulo que reuniu 7 mil pessoas. A
Tropa de Choque da Polícia Militar usou balas
de borracha e gás de efeito moral contra grevis-
tas, que revidavam com pedras. Em meio ao
caos cinco pessoas ficaram feridas. A imagem
é de Clayton de Souza, da Agência Estado.

Fuzilados Rafael Alves da Silva, Tiago de Jesus Silva Pessoa e


na calçada Luciano de Jesus Machado são mortos a tiros por dois
desconhecidos em frente de um bar no Jardim Três
Marias, zona sul de São Paulo. Tinham 22 anos. Os
criminosos ordenaram aos outros clientes do bar que
SEGUNDA, 22 DE MARÇO entrassem e baixassem a porta. E começaram a atirar.

J. B. NETO/AE

A face brutal de
um Brasil bifronte
Chacinas são uma modalidade peculiar de violência de grupo
contra grupo caracterizada pela imposição de castigo definitivo
não apenas a uma pessoa, mas a seus parentes, vizinhos e amigos

rações localmente típicas.Chacina no Rio de


JOSÉ DE SOUZA MARTINS Janeiro quase sempre vem acompanhada de
indícios de ter sido praticada por membros
da Polícia Militar, com frequência em reação
m novembro ocorre- previamente organizada contra alguma vio-

E
ram duas chacinas, lência, real ou simbólica, sofrida por mem-
uma no Jardim Gua- bros da corporação. Em São Paulo, as chaci-
pira, em que morre- nas são geralmente praticadas por grupos
ram duas pessoas, e delinquentesligados à droga.No Rio Grande
outra numa favela à do Norte, ao apurar uma chacina no bairro
margem da Rodovia de Mãe Luiza, em Natal, em 1995, que viti-
Fernão Dias, em que mou seis pessoas, a polícia descobriu que
morreram cinco ho- havia conexões entre cerca de 50 ocorrên-
mens, na zona norte. cias semelhantes, mortes de pessoas pobres
Dizia a notícia que, desde o começo de sujeitas à prática de extorsão por parte de Cena de crime. Rua Iacupema, no Itaim Paulista: três pessoas chacinadas
2009, haviam sido registradas 19 chacinas elementos da polícia civil.
na Grande São Paulo. Em 16 de março três Há as chacinas de vingança pessoal ou fa- Na maioria dos casos as vítimas estão no esse pertencimento grupal e lembrete, tam-
pessoas foram chacinadas no Itaim Paulis- miliar. A chacina do Rangel, em João Pessoa, lugar errado na hora errada, até mesmo em bém, de que é grupal o sujeito que as pratica,
ta, na zona leste, por alguém que contra elas na Paraíba, em novembro de 2009, foi prati- companhia das pessoas erradas. As chaci- comosujeitodedominação,queinvocadirei-
disparou de dentro deum carro em alta velo- cada por um casal contra vizinhos em decor- nas, como os linchamentos, extensamente toscorporativosecobra lealdadescorporati-
cidade. No final da noite da última segunda- rência de uma briga na partilha de um fran- praticados entre nós, constituem modalida- vasatravés daimposiçãodomedo.Adissemi-
feira, em chacina na região do Socorro, na go. Um pai de família e três filhos de 4, 6 e 10 de peculiar de violência contra a vida porque nação entre nós das instituições republica-
zona sul, quatro pessoas que estavam con- anos foram imediatamente mortos. A espo- tentamimpor um castigodefinitivo não ape- nas se fez no pressuposto de que os setores
versando na calçada de uma rua foram mor- sa, grávida de gêmeos, nas a determinada pes- retrógrados da sociedade brasileira, ainda
tas por dois homens que chegaram atiran- morreu no dia seguin- soa, mas também a seus presos nessas tramas sociais do poder pes-
do. A notícia diz que foi a segunda chacina te.Duascrianças sobre- Por estranhas razões, circunstantes, paren- soal,seriamnaturalmentearrastados àcivili-
do ano em São Paulo. Por alguma estranha viveram,umadelas feri- matanças são tes, vizinhos e amigos. dade pelo natural vencimento de seu rústico
razão, as chacinas são noticiadas como se a da. Os mortos todos es- Esses casos todos nos modo de vida e sua rústica visão do mundo e
cada ano se iniciasse a safra da barbárie, tripados a facão: de um noticiadas como uma falam de sujeitos me- da vida social. Não foi isso o que aconteceu.
como se estivéssemos em face de cíclica a mão foi decepada e jo- nova safra da barbárie nos referidos ao prota- Essas formas violentas e atrasadas de domi-
reinauguração dessa modalidade peculiar gada sobre um guarda- gonismo próprio de nação e de controle social infiltraram-se na
de violência. roupa; do pai, a cabeça uma sociedade de indi- modernidadee nos impuseram aditadura de
O que se repete nas chacinas no Brasil in- degolada. Praticada a chacina, o casal de as- víduos, que seria a dos ligados entre si pela umdualismo social e sem saídaque seagrava
teiro é a prática de violência de grupo, algu- sassinos foi para casa dormir. Em Curitiba, trama racional dos direitos individuais e das cada vez mais.
masvezesdemascarados,contra pessoasde- emoutubro, no bairro Uberaba, oito pessoas responsabilidades individuais. Falam-nos
savisadas, atingidas também em grupo. No foram mortas, incluído um bebê, e duas fica- muito mais de pessoas socialmente vincula- ✽
geral, é evidente que os que atiram sabem ram feridas, numa mesma rua, em chacina das como sujeitos coletivos, a família, a vizi- JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO
emquemestãoatirandoe, porestaremgeral- de vendeta pela morte do sobrinho de um nhança, a comunidade, mesmo a comunida- DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊN-
mente em grupo, têm motivação corporati- suposto traficante. A chacina foi praticada de delinquente de ladrões e traficantes. CIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.
vaparaocrime. Avariaçãoquepodesernota- por seis homens armados que passaram pela As chacinas constituem frequentemente ENTRE OUTROS LIVROS, AUTOR DE A APARIÇÃO DO
daéadequeemdiferenteslugaressãocorpo- rua em três carros, atirando. lembrete às vítimas e testemunhas de que há DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34)

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