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§ 596.

STIRNER: O ANARQUISMO

Uma oposição extrema ao universalismo de Hegel, que tinha pretendido


negar e dissolver o indivíduo, é representada pelo individualismo anárquico de
Stimer. Max Stirner, pseudônimo de Johann Kaspar Schmidt, nasceu em
Bayreuth a 25 de Outubro de 1906 e morreu a 25 de Junho de 1856. Foi aluno
de Hegel em Berlim. A sua obra O único e a sua propriedade foi publicada em
1845 e é o único trabalho representativo. É ainda autor de uma História da
reacção (1852) e de outros escritos polêmicos ocasionais publicados e
recolhidos depois da sua morte.

A tese fundamental de Stirner é a de que o indivíduo é a única realidade


e o único valor; a conseqüência que Stirner tira desta tese é o egoísmo absoluto.
O indivíduo, na sua singularidade, pela qual é único e irrepetível, é
precisamente a medida de tudo. Subordiná-lo a Deus, à humanidade, ao
espírito, a um ideal qualquer, seja mesmo ao do próprio homem, é impossível,
já que tudo o que é diferente do eu singular, toda a realidade que se lhe
contraponha e dele se distinga, não passa de um espectro, de que ele acaba por
ser escravo. Stirner partilha a tese de Feuerbach de que Deus não existe fora do
homem e que é a própria essência do homem. Mas esta tese é insuficiente, e
simplesmente preparatória, em relação à tese radical que dela deriva. A essência
do homem é já algo de diferente do homem individual, é já um ideal que
pretende subordiná-lo a si. Dessa forma o homem passa a ser ele próprio um
fantasma, porque deixa de valer na sua singularidade para passar a valer como
idéia, como espírito, como espécie, como qualquer coisa de superior a que deve
subordinar-se. E Stirner recusa-se a reconhecer algo que seja superior ao
próprio homem.

Stirner não faz qualquer distinção entre os ideais da moral, da religião e


da política e as idéias fixas da loucura. O sacrifício de si, o desinteresse, são
formas de "obsessão, que se encontram tanto nas situações morais como nas
imorais". "O desinteresse pulula orgulhoso como a obsessão, tanto nas
possessões do demônio como naquelas que possuem espírito benigno; tanto nos
vícios e nas loucuras, como na humildade e no sacrifício, etc". (O único, trad.
ital. p. 46). Que o homem deva viver e actuar subordinado a uma idéia é,
segundo Stirner, o mais Pernicioso preconceito que o homem pode cultivar,
uma vez que é o preconceito que o torna escravo de uma hierarquia. A igreja, o
estado, a sociedade, os partidos, são hierarquias deste gênero que pretendem
submeter o individual acrescentando-lhe qualquer coisa que está acima dele. O
próprio socialismo, ainda que pretendendo subtrair o homem à escravidão da
propriedade privada, pretende submetê-lo à sociedade. A liberdade que predica
é portanto ilusória. A verdadeira liberdade não pode ter outro centro e outro fim
que não seja o eu singular. "Mas, uma vez que aspira à liberdade por amor do
eu, porque não fazer do eu o princípio, o centro, o fim de todas as coisas? Não
valho eu mais que a liberdade? Não sou eu certamente que me faço livre a mim
próprio, não sou eu certamente o primeiro?", (lb.,p. 121-122).

A liberdade, por outro lado, é uma condição puramente negativa para o


eu; a condição positiva é a propriedade: "Mas o que é a minha propriedade?
Aquilo que é o meu poder. O direito é-me conferido por mim ao tomar-me
como minha propriedade e ao declarar-me, sem necessidade de outrem,
proprietário" (1b., p. 189). O fundamento da propriedade não é mais que o
poder do eu singular. Por isso a verdadeira propriedade é a vontade. "Não é
aquela árvore, mas a força de dispor dela como me parecer, o que constitui a
minha propriedade". Neste sentido, também os sentimentos constituem a
propriedade do eu singular; constituem a propriedade não enquanto orientados
ou idealizados, mas na medida em que são espontâneos e intimamente conexos
com o egoísmo do eu. "Também, eu amo os homens, afirma Stirner (Ib., p.
215), mas amo-os com a consciência do egoísta, amo-os porque o seu amor me
torna feliz, porque o amor se encarna na minha natureza, porque -isso me
agrada. Não reconheço nenhuma lei que me imponha o amar". Mas, segundo
este ponto de vista, outro homem pelo qual eu tenha interesse ou amor, não é
uma pessoa, é um objecto. "Ninguém é para mim uma pessoa que tenha direito
ao meu respeito, cada um é, como qualquer outro ser, um objecto pelo qual
sinto simpatia, um objecto interessante ou não interessante, um objecto de que
me posso ou não servir (Ib., p. 231). Por conseguinte, não é possível uma
sociedade hierarquicamente ordenada e organizada, mas uma associação em
que o indivíduo se integra para multiplicar a sua força e não vendo nela senão
um meio. A associação só pode nascer com a dissolução da sociedade, que
representa para o homem o estado de natureza; e pode ser apenas o produto de
uma insurreição que seja a revolta do indivíduo e tenha em vista a abolição de
todas as coacções políticas; isto não acontece com as revoluções porque estas
têm em vista substituir uma constituição por outra.

As idéias de Stirner, ainda que na forma paradoxal e freqüentemente


chocante com que são formuladas, exprimem uma exigência que se afirma
sempre que a mesma é negada ou iludida; a da unicidade, da insubstituibilidade,
da singularidade do homem. E esta exigência deu glória ao livro de Stirner (que
está traduzido em todas as línguas) dentro da cultura contemporânea. Mas o
próprio Stirner, esclarecendo o pressuposto último das suas afirmações,
sublinhou o carácter abstracto e imperfeito que deu à reivindicação dessa
exigência. Para ele o homem, o singular, é um dado, uma realidade
inexprimível, uma pura força natural. Não pode ser o mais ou menos homem,
não pode transformar-se num verdadeiro homem, tal como a ovelha não se pode
transformar numa verdadeira ovelha. "Julgais certamente que eu quero
aconselhar-vos a imitar os animais. Mas não, - isso seria ainda um novo
objectivo, um novo ideal> (1b., p. 245). Não é possível qualquer distinção,
qualquer conflito entre o homem ideal e o homem real. "Eu, o único, sou o
homem. A pergunta "o que é o homem?" transforma-se na pergunta "quem é o
homem?". Na primeira pergunta procurava-se o conceito, na segunda encontra-
se a própria resposta que é dada pelo próprio que interroga" (1b., p. 270). O
homem é uma força, uma força natural que se expande: eis tudo. O problema
não consiste em saber como é que !deve conquistar a vida, mas como deve ele
gastá-la e gozá-la; não consiste em saber como deve formar o seu, mas como
deve esgotá-lo e dissolvê-lo (Ib., p. 237). Por isso Stirner fecha o seu livro com
esta frase: "Repus a minha causa no nada". O único faz de si próprio a sua
propriedade e consome-se a si próprio: esta é a última palavra de Stirner.
NOTA BIBLIOGRÁFICA:

§ 596. Stirner, LIunico, trad. ital. E. Zoecoli, Milão, 4.1 ed.

Sobre Stirner: Marx, IdeoZogia tedesca (1845-46), trad. !tal., p. 190 @e segs.;
J. 11. Mackay, M. S. s Leben und seinen Werk, Berlim, 1898; V. Basch,
Llindividuali.anarchiste de M. S., Paris, 1904; A. Ruest, M. H., Berlime
Leipzig, 1906; Schultheiss M. S., 2., ed., Leipzig, 1922.