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28/3/2010 Folha de S.

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São Paulo, segunda-feira, 20 de julho de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

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Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos
problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

O labirinto da internet
JOÃO SANTANA

Os deputados erraram onde não


poderiam. Mas era um erro
previsível. A internet é o meio mais
perturbador que já surgiu na
comunicação

UM PARADOXO da cultura contemporânea é a incapacidade


da maioria dos políticos de entender a comunicação política.
Essa disfunção provoca, muitas vezes, resultados trágicos.
É o caso da lei votada pela Câmara dos Deputados para regular
o uso da internet nas eleições. Se aprovada sem mudanças pelo
Senado, vai provocar um forte retrocesso numa área em que o
Brasil, quase milagrosamente, se destaca no mundo -sua
legislação de comunicação eleitoral. Sim, a despeito da má
vontade de alguns e, a partir daí, de certos equívocos
interpretativos, o Brasil tem uma das mais modernas legislações
de comunicação eleitoral do mundo.
O nosso modelo de propaganda gratuita, via renúncia fiscal, é tão
conceitualmente poderoso que se sobressai a alguns
anacronismos da lei, como o excesso de propaganda partidária
em anos não eleitorais ou a ridícula proibição de imagens
externas em comerciais de TV.
Os deputados decidiram errar onde não poderiam. Mas era um
erro previsível. A internet é o meio mais perturbador que já
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surgiu na comunicação.
Para nós da área, ela abre fronteiras tão imprevisíveis e
desconcertantes como foram a Teoria da Relatividade para a
física, a descoberta do código genético para a biologia, o
inconsciente para a psicologia ou a atonalidade para a música.
Na comunicação política, a internet é rota ainda difícil de
navegar. Somos neogrumetes de Sagres em mares bravios. Não
por acaso, o mundo está infestado de curandeiros internáuticos a
apregoar milagres. E a mídia potencializa resultados reais ou
imaginários ("Ah, a campanha do Obama!", "Ah, as eleições no
Irã", "Ah, o twitter do Serra", "Ah, vem aí o blog do Lula") sem
que se consiga aferir a real dimensão do fenômeno.
Se é perturbadora para nós do meio, por que não o seria para
legisladores e juízes? Principalmente para os políticos, que, como
se sabe, sofrem desconforto com a comunicação política desde o
surgimento dos meios modernos.
Desde sua origem nas cavernas, o modo de expressão política
tem dado pulos evolutivos sempre que surge um novo meio.
De Aristóteles, patrono dos marqueteiros, passando pelos áureos
tempos da santa madre igreja, que já deteve a mais poderosa
máquina de propaganda política -é a criadora do termo com sua
"Congregatio de Propaganda Fide"-, até os dias de hoje, a
comunicação politica é feita por meio de uma simbiose entre o
que se diz -o conteúdo retórico-persuasivo- e seu suporte de
expressão, as ferramentas comunicacionais. Um influenciando o
outro e os dois influenciando, sem parar, as sociedades e
instituições.
Foram enormes os pulos causados pela imprensa, pelo rádio,
pelo cinema e pela TV na forma e no modo de fazer política.
Mas nada perto dos efeitos que trará a internet.
Não só por ser uma multimídia de altíssima concentração, mas
também porque sua capilaridade e interatividade planetária farão
dela não apenas uma transformadora das técnicas de indução do
voto mas o primeiro meio na história a mudar a maneira de votar.
Ou seja, vai transformar o formato e a cara da democracia.
No futuro, o eleitor não vai ser apenas persuadido, por meio da
internet, a votar naquele ou naquela candidata.
Ele simplesmente vai votar pela internet de forma contínua e
constante.
Com as vantagens e desvantagens que isso pode trazer.
As cibervias não estão criando só "novas ágoras". Criam também
novas urnas. Do tamanho do mundo. Vão ajudar a produzir uma
nova democracia tão radicalmente diferente que não poderá ser
adjetivada ou definida com termos do nosso presente-passado,
tipo "representativa" ou "direta".
Sendo assim, creio que nossos legisladores não vão querer
passar para a história como os que imprimiram um sinete
medieval em ondas cibernéticas. Não é só o erro, como já se
disse, de encarar um meio novo com modelos de regulação
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tradicional. É porque a internet, no caso da comunicação política,
nasceu indomável. E sua força libertadora tem de ser estimulada,
e não equivocadamente reprimida.
Já há um consenso do que deve ser modificado na proposta da
Câmara. O Senado, que vive profunda crise de imagem, tem um
bom tema de agenda positiva. Mas não é por oportunismo que
urge corrigir os equívocos da Câmara. É simplesmente pelo
prazer de estar conectado com o futuro.

JOÃO SANTANA, 56, é jornalista, publicitário e consultor político. Já


coordenou o marketing de dezenas de campanhas estaduais e municipais
(como a de Marta Suplicy em 2008), além de três campanhas presidenciais,
no Brasil (Lula em 2006), na Argentina e em El Salvador.

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