Você está na página 1de 303

Piers Paul Read

OS
templários

Tradução
Marcos José da Cunha

Imago
Título Original
The Templars

Copyright © 1999 by Piers Paul Read

Tradução:
'Marcos José da Cunha

Capa:
Luciana Mello e Monika Mayer

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de


Livros, RJ.

R221tRead Piers Paul, 1941-

Os templários / Piers Paul Read; tradução Marcos José da Cunha.

- Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001


368 pp.

Tradução de: The Templars


Apêndices
Inclui bibliografia
ISBN 85-312-0735-5

1. Templários - História. I. Título. II. Série.

00-1475.

CDD - 271.7913 CDU - 271.024

Reservados todos os direitos. Nenhuma parte desta obra poderá ser


reproduzida por fotocópia, microfilme, processo fotomecãnico ou
eletrônico sem permissão expressa
da Editora.

2001

(MAGO EDITORA Rua Santos Rodrigues, 201-A-Estácio 20250-430 - Rio de


Janeiro - RJ Tel.:(21)502-9092 - Fax: (21)502-5435 E-mail:
imago@imagoeditora.com.br vdww.imagoeditora.com.br

Impresso no Brasil
Printed'in Brazil

Agradecimentos
Mapas
Prefácio
Primeira Parte: O Templo
1 O Templo de Salomão
2 ONovoTemplo
3 O Templo Rival
4 O Templo Reconquistado

Sumário

Segunda Parte: Os Templários


5 Os Pobres Soldados de Jesus Cristo
6 Os Templários na Palestina
7 O Ultramar
8 Saladino
9 Ricardo Coração de Leão
10 Os Inimigos no Lado de Dentro
11 Frederico de Hohenstaufen
12 O Reino de Acre
13 Luís da França
14 A Queda de Acre

Parte Três: A Queda dos Templários


15 O Templo no Exílio
16 O Ataque ao Templo
17 A Destruição do Templo

17 29 56 67

97 116 136 165 180 193 211 231 241 255

267 279 302


OS TEMPLÁRIOS

Epílogo: O heredicto da História 320


Apêndices Agradecimentos
As Cruzadas Posteriores 335
Grão-Mestres do Templo 342
Bibliografia 343
Notas 347
Índice 359

Sou grato pela autorização para reproduzir trechos de The Je=h Irar (A
Guerra dos Judeus), de Josefo, com tradução e introdução de G. A.
Williamson, Penguin Books,
1959 (Copyright © G. A. Williamson, Penguin Books, 1959); The Rude of
the Templars (A Regra dos Templários), de J. M. Upton Ward, The Boydell
Press, 1992 (Copyright
© J. M. Upton Ward, 1992); e TheMurderedMagicians (O Assassinato dos
Magos), de Peter Partner (Copyright © Peter Partner, 1981), com
permissão de A. M. Heath & Co.
Ltd em nome do professor Peter Partner.
Mapas

1 O apogeu do Islã 63
Z A cristandade ao tempo da Primeira Cruzada 84
3 A França ao tempo da Primeira Cruzada 85
4 Ultramar 99
5 Jerusalém e o monte do Templo no século XII 140
6 Principais fortalezas dos templários na Síria e na Palestina
160
7 Comunidades e castelos dos templários no Ocidente
em meados do século XII 198
Prefácio

Quem eram os templários? Uma das concepções sobre essa ordem militar
origina-se dos romances de Sir Walter Scott. Brian de Bois-Guilbert, o
cavaleiro do Templo em
Ivanhoé, é um anti-herói demoníaco, "valente como os mais intrépidos de
sua Ordem, mas com a mácula de seus costumeiros vícios, orgulho,
arrogância, crueldade e
luxúria: um homem insensível, que não teme nem a terra nem o céu". Os
dois grão-mestres da ordem não são muito melhores. Giles Amaury, de O
Talismã, é traiçoeiro
e malévolo, ao passo que Lucas de Beaumanoir, de Ivanhoé, é um fanático
hipócrita.

Em compensação, na ópera Parsifal, de Wagner, cavaleiros


semelhantes aos templários aparecem como os castos guardiães do Santo
Graal.' O libreto, do século
XIX, baseou-se no poema épico do século XIII de Wolfram von Eschenbach,
no qual os Templeisen têm apenas semelhança superficial com os
templários, mas o germe de
realidade foi suficiente para persuadir as gerações futuras de que há
verdade na ficção. Assim, no imaginário do século XIX, os personagens
brutos e depravados de
Ivanhoé e O Talisvaã coexistiam com a valorosa confraria de Parsifal.

No século XX surgiu uma imagem mais sinistra dos templários como


os protótipos dos Cavaleiros Teutônicos, os quais, no 6m da década de
30, serviram de modelo
histórico para as SS de Himmler. Em associação com uma percepção comum
dos cruzados como um antigo exemplo de agressão e imperialismo da Europa
Ocidental, os templários
passaram a ser vistos como fanáticos brutais que impunham uma ideologia
pela espada. Ou, antes pelo contrário, diz-se que eles se
desencaminharam de seu compromisso
com a causa cristã em virtude de seu contato com o judaísmo e o
islamismo no Oriente, fundando uma sociedade secreta de iniciados por
meio da qual os arcanos mistérios
do antigo Egito, transmitidos aos maçons do Templo de Salomão, foram
passados às lojas maçônicas dos tempos modernos. Também

* Esses cavaleiros são os TPJ71pIPlsPI1. (N. do 'E)


OS TEMPLÁRIOS

se afirmou que os templários foram infiltrados pelos heréticos cátaros


após a Cruzada Albigense; que através dos séculos protegeram os
descendentes reais de uma
união entre Jesus e Maria Madalena; que seu estupendo tesouro foi
descoberto por um padre no Sudoeste da França no século XIX; e que eram
os guardiães de relíquias
fabulosas, entre as quais a cabeça embalsamada de Cristo e o Sudário de
Turim.
Meu objetivo neste livro foi revelar a verdade sobre a Ordem,
evitando a especulação fantasiosa e registrando apenas o que a pesquisa
de historiadores bem-conceituados
estabeleceu. Estruturei a narrativa numa perspectiva ampla: as histórias
dos templários que começam com a fundação da ordem por Hugo de Payns em
1119, ou mesmo com
a proclamação da Primeira Cruzada no Concílio de Clermont em 1095,
muitas vezes pressupõem um conhecimento que o leitor comum talvez não
possua. A meu ver, é difícil
entender a mentalidade dos templários sem examinar a importância
atribuída ao Templo em Jerusalém pelas três religiões monoteístas - o
judaísmo, o cristianismo e
o islamismo - e sem recordar por que ele tem sido objeto de conflito
desde o começo do registro da história até os nossos dias.
Há outras questões pertinentes, às quais só se pode responder
fazendo-se um exame retrospectivo desde os primórdios do período
medieval até o turbilhonaste
caos da Idade das Trevas. Num tempo em que se sugeriu que o papa se
desculpasse pelas cruzadas, é conveniente examinar os motivos que
levaram seus predecessores
a iniciar essas guerras santas. Aqueles que já conhecem a história das
cruzadas terão a impressão de que parte do que escrevi é repetitiva; mas
ao recontá-la tirei
proveito das pesquisas de uma nova geração de historiadores das
cruzadas. Minha dívida para com esses e outros estudiosos ficará patente
a qualquer leitor deste
livro.
Também senti que valia a pena narrar de novo o que um cronista
da época denominou "Feitos de Deus por intermédio dos francos", não
apenas por seu interesse
intrínseco, mas também por sua relevância para os dilemas com que somos
confrontados hoje em dia. Os templários eram uma força multinacional
empenhada na defesa
do conceito cristão de uma ordem mundial, e sua extinção assinala o
momento em que a busca do bem comum dentro da cristandade passou a
subordinar-se aos interesses
do Estado nacional - processo que a comunidade internacional está agora
procurando inverter.
Existem extraordinários paralelos entre o passado e o presente
na história dos templários. No imperador Frederico 11 de Hohenstaufen
encontramos um governante
cuja amoralidade idiossincrásica remete a Nero no passado remoto e a
Hitler em tempos mais recentes. O conceito medieval de

PREFÁCIO

um Sacro Império Romano era notavelmente semelhante às aspirações, para


a União Européia, daqueles que a criaram. Os assassinos na Síria são
descendentes dos sicários
judeus e ancestrais dos homens-bombas do Hezbollah. A atitude de muitos
muçulmanos do Oriente Médio para com o moderno Estado de Israel é muito
parecida com a de
seus ancestrais para com o reino cruzado de Jerusalém. Poder-se-ia
perguntar quantos líderes árabes, de Abdul Nasser a Sadam Hussein,
ansiaram por tornar-se um Saladino
dos nossos dias, derrotando os invasores infiéis em outra Hattin, ou, a
exemplo do sultão mameluco al-Ashraf, fazendo-os recuar para o mar.

Expresso aqui minha gratidão a todos os historiadores cujas obras me


ensinaram o que sei acerca dos templários. Gostaria de agradecer em
particular ao professor
Jonathan Riley-Smith o incentivo inicial e os conselhos, e ao professor
Richard Fletcher a leitura dos originais e o fato de ter-me chamado a
atenção para vários
erros. A nenhum desses historiadores devem ser imputadas as deficiências
de minha obra.
Gostaria de agradecer, ainda, a Anthony Cheetam, quem primeiro
sugeriu que eu deveria fazer alguma coisa na área de história e propõs
um livro sobre os templários;
ao meu agente, Gillon Aitken, por me instar a levar a cabo o projeto; à
minha editora, Jane Wood, o seu estímulo constante e inestimável
trabalho na primeira versão
do texto; e a Selina Walker a ajuda nos mapas e nas ilustrações. Também
sou grato a Andrew Sinclair, que me emprestou sua coleção de livros
sobre os templários;
a Charles Glass por meter feito conhecer as memórias de Usamah Ibn-
Munqidh; e à Biblioteca de Londres e aos seus funcionários pela
prestimosa ajuda na minha pesquisa.

13
przírneírza parzrte

0 TEMPLO
O Templo de Salomão

Nos mapas desenhados em pergaminho na Idade Média, Jerusalém figura como


o centro do mundo. Era então - e ainda é - a cidade sagrada de três
religiões: o judaísmo,
o cristianismo e o islamismo. Para cada uma delas, Jerusalém era palco
de importantes acontecimentos que estabeleciam o vínculo entre Deus e o
homem-o primeiro dos
quais foram os preparativos de Abraão para o sacrifício de seu filho,
Isaac num afloramento de rocha agora oculto por uma cúpula dourada.'
Abraão era um nômade rico originário de Ur, na Mesopotâmia, que
cerca de 1.800 anos antes do nascimento de Cristo, por ordem de Deus,
mudou-se do vale do
Eufrates para o território habitado pelos cananeus situado entre o rio
Jordão e o mar Mediterrâneo. Ali, como recompensa por sua fé no Deus
único e verdadeiro, foi
contemplado com aquela terra "em que jorram leite e mel" e prometeu uma
prole incontável para povoá-la. Abraão estava destinado a ser o pai de
uma multidão de nações,
e, para selar seu pacto, ele e todos os homens de sua tribo tiveram de
ser circuncisados, prática que deveria continuar "geração após geração".
Essa promessa de posteridade era problemática, porque Sara, a
mulher de Abraão, era estéril. Quando se deu conta de que passara da
idade de engravidar, Sara
convenceu Abraão a gerar um filho em Hagar, sua serva egípcia, que no
devido tempo deu à luz Ismael. Alguns anos mais tarde, enquanto Abraão
estava sentado à entrada
de sua tenda, no maior calor do dia, surgiram três homens, os quais lhe
disseram que Sara, então com mais de 90 anos, teria um filho.
Abraão riu, e Sara também julgou tratar-se de um gracejo. "Agora
que estou velha e velho também está o meu senhor, terei ainda prazer?`
Mas verificou-se
que a profecia estava correta: Sara concebeu e deu à luz Isaac. Ela
então se voltou contra Ismael, a quem via como um concorrente à herança

` Referência à Cúpula da Rocha, mesquita de grande beleza


construída em Jerusalém durante o período omíada. (N. do T)

17
OS TEMPLÁRIOS

de Isaac, e pediu a Abraão que mandasse o menino e a mãe embora. Deus


tomou o partido de Sara, e Abraão, sempre submisso às ordens de Deus,
mandou Hagar e Ismael
para o deserto de Bersabéia com um pouco de pão e um odre de água.
Quando a água acabou, Hagar, que não suportaria ver o filho morrer de
sede, pensou em abandoná-lo
sob um arbusto. Mas Deus guiou os passos dela até um poço e prometeu que
seu filho fundaria uma grande nação no deserto da Arábia. Depois desses
acontecimentos,
Deus pôs Abraão a uma derradeira prova, ordenando-lhe que oferecesse
"teu filho, teu único, que amas, Isaac (...) em holocausto sobre uma
montanha que eu te indicarei".
Abraão obedeceu sem hesitar. Levou Isaac ao lugar indicado por Deus, um
afloramento de rocha no monte Moriá, empilhou a lenha nesse altar
improvisado e colocou Isaac
deitado sobre ela. Mas no momento em que tomou da faca para matar o
filho, recebeu ordem para não fazê-lo. "Não estendas a mão contra o
menino! Não lhe faças nenhum
mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu
único. (... ) porque me fizeste isso (...), eu te cumularei de bênçãos,
eu te darei uma posteridade
tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na
praia do mar (...). Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações
da terra, porque tu
me obedeceste."Z

Terá Abraão de fato existido? Em tempos modernos, os pontos de vista


acadêmicos acerca de sua historicidade têm oscilado entre o ceticismo de
exegetas alemães, que
o descartaram por considerarem-no uma figura mítica, e opiniões mais
positivas, resultantes de descobertas arqueológicas na Mesopotâmia.; Na
Idade Média, contudo,
ninguém duvidava de que Abraão tivesse existido, e quase todas as
pessoas que viviam entre o subcontinente indiano e o oceano Atlântico
afirmavam que descendiam
desse patriarca de Ur-os cristãos, de forma figurada; os muçulmanos e os
judeus, literalmente. Os judeus tinham um registro genealógico para
provar isso: a compilação
de textos judaicos reunidos na Torá que contam a história dos
descendentes de Abraão.

Por volta de 1300 a.C., de acordo com esses registros, a fome


fez com que os judeus deixassem a Palestina e fossem para o Egito, onde
foram acolhidos como
hóspedes pelo ministro-chefe do faraó, o judeu José, que na juventude
fora abandonado no deserto por seus invejosos irmãos para ali morrer.
Mas após a morte de José
e a ascensão ao trono de um novo faraó, os judeus foram escravizados e
usados como mão-de-obra forçada na construção da residência do faraó
Ramsés em Pi-Ramsés.

Moisés, o primeiro dos grandes profetas de Israel, tirou os


judeus do Egito e levou-os para o deserto. Aí, no monte Sinai, Deus
transmitiu-lhe

O TEMPLO DE SALOMÃO

seus mandamentos, gravados em tábuas de pedra. Para guardá-las, os


judeus fizeram uma uma portátil à qual chamaram Arca da Aliança. Após
muitos anos vagueando pelo
deserto do Sinai, finalmente chegaram à terra prometida de Canaã. Em
punição por uma transgressão passada, Moisés teve permissão de vê-la
apenas a distância. Coube
a seu sucessor, Josué, a reivindicação do direito de primogenitura dos
judeus. Entre 1220 e 1200 a.C. eles conquistaram a Palestina, mas a luta
com os habitantes
autóctones não foi justa, pois Deus tomou o partido dos judeus. Sua
vitória nunca foi absoluta: eram constantes as guerras com as tribos
vizinhas dos filisteus,
dos moabitas, dos amonitas, dos amalecitas, dos idumeus e dos arameus.
Mas os judeus sobreviveram devido ao seu destino único, embora ainda
indefinido.

O casamento entre Deus e seu povo eleito não foi nada fácil. Ele
era um Deus ciumento, que se irava quando os judeus se voltavam para
outros deuses ou infringiam
o rígido código de comportamento que lhes fora imposto - rituais
exigentes e complexas leis resultantes dos Dez Mandamentos que Moisés
recebera de Deus no cume do
monte Sinai. Os judeus, por seu turno, eram volúveis: afastavam-se de
Deus para cultuar ídolos como o Bezerro de Ouro' ou deuses pagãos como
Astarte e Baal,s e tratavam
mal os profetas enviados por Deus para puni-los. Até mesmo os reis, os
ungidos de Deus, eram pecadores: Saul desobedeceu à ordem de Deus para
exterminar os amalecitas,1
e Davi seduziu Betsabéia, mulher de Urias, o hitita, e mais tarde deu as
seguintes instruções a Joab, o comandante de seu exército: "Coloca Urias
no ponto mais perigoso
da batalha e retirai-vos, deixando-o só, para que seja ferido e venha a
morrer".

Na virada do primeiro milênio antes de Cristo, Davi conquistou Jerusalém


a seus habitantes originários, os jebuseus. Abaixo da cidadela, no monte
Moab, nas imediações
do local escolhido por Deus para o sacrifício de Isaac por Abraão,
existia uma eira de propriedade do jebuseu Onã. Por ordem de Deus, Davi
comprou-a para que ali
se erguesse um templo para abrigar a Arca da Aliança. Davi reuniu o
material para o Templo, cuja construção foi afinal empreendida por seu
filho Salomão por volta
de 950 a. C.

O reinado de Salomão marcou o apogeu de um Estado judeu


independente. Após sua morte, Israel foi conquistado por poderosas
nações situadas a leste: os assírios,
os caldeus e os persas. O Templo de Salomão foi destruído em 586 a.C.
pelos caldeus, sob Nabucodonosor, e os judeus foram levados como
escravos para a Babilônia.
Por sua vez, os caldeus foram conquistados pelos persas, cujo rei, Ciro,
permitiu que os judeus voltassem para Jerusalém e reconstruíssem o
Templo em 515 a.C.
OS TEMPLÁRIOS

No século IV a.C., a onda de conquistas diminuiu no Oriente, passando


a fluir do Ocidente: Gs persas foram derrotados pelos macedônios durante
o reinado rio jovem monarca Alexandre, o Grande. Após a morte prematura
de Alexandre, seu
império foi dividido entre seus generais, e por algum tempo a Palestina
foi disputada pelos rivais ptolomeus, baseados no Egito, e selêucidas,
baseados na Nesopotâmia.
Na ausência de um rei, o sumo sacerdote em Jerusalém assumia muitas
funções deste entre os judeus.
Em 167 a.C. uma sublevação contra os gregos por questões
religiosas transformou-se numa bem-sucedida luta pela independência
política. Seus líderes, três
irmãos rnacabeus, fundaram a dinastia asmonéia de reis judeus, os quais
recuperaram a maior parte do território que fora governado por Davi e
Salomão. No deco?rei
de seus constantes conflitos com os países vizinhos, fizeram um apelo ao
novo e ascendente poder de Roma. O rei judeu Hircano e seu ministro
Antípater colocaram-se
sob a proteção de Cneio Pompeu, ou Pompeu, o Grande, general romano que
havia conquistado a Síria.
Jerusalém foi defendida por Aristóbulo, o pretendente rival ao
trono. Depois de três meses de cerco, as legiões de Pompeu capturaram a
cidade. Foram poucas
as baixas entre os romanos, mas doze mil judeus morreram no conflito. No
entanti, de acordo com o historiador judeu Josefo, a perda dessas
vi*d2.s foi uma calamidade
menos importante do que a profanação do Templo por Pompeu.

Entre os infortúnios daquele tempo, nada causou maior


estremecimento à na-
ção do que a exibição por estranhos do Lugar Sagrado, até então
resguardado de todos os olhares. Pompeu e seu estado-maior entraram no
Santuário, o que a ninguém
era permitido pelo sumo sacerdote, e viram o que ele continha: o
pedestal do candelabro, as lâmpadas, a mesa, as taças para as libações e
os incensórios, tudo de
ou-o maciço, e uma grande quantidade de especiarias e dinheiro sagrado
(...).

Os romanos eram agora os árbitros do poder na nação judaica. Pompeu


restabeleceu Hirc2.no como sumo sacerdote, mas, ao perceber que se
tratava de um governante incompetente, atribuiu poder político a
Antípater, o primeiro-ministro.
Quando Júlio César veio da Síria em 47 a.C., concedeu a cidadania romana
a Antípater e o nomeou comissário para toda a Judéia. Fasael, o filho
mais velho de Antípater,
tornou-se governador da Judéia, e Herodes, seu segundo filho, então com
vinte e seis anos, foi nomeado governador da Galiléia. O cônsul Marco
Antônio, confrade de
César, tornou-se amigo de Herodes por toda a vida.
Ern 40 a.C., w, partos invadiram a Palestina e Herodes fugiu
para Roma,
passando pela Arábia e pelo Egito. O Senado romano proveu-o com um exér-

O TEMPLO DE SALOMÃO

cito e nomeou-o rei da Judéia. Herodes derrotou os partos e, não


obstante se tivesse alinhado com seu amigo Marco Antônio contra
Otaviano, foi por este confirmado
como rei da Judéia após sua vitória sobre Marco Antônio na batalha de
Áccio.

Então no auge da glória, Herodes embelezou seu reino com magníficas

c'dades e imponentes fortificações, muitas das quais receberam o nome de


seus patronos e de membros de sua família. No trecho do litoral entre
Jafa e Haifa, construiu
uma cidade a que deu o nome de Cesaréia, e em Jerusalém, a fortaleza que
chamou de Amônia. Ampliou a fortaleza de Massada, onde sua família se
refugiara dos partos,
e nas colinas voltadas para a Arábia construiu uma fortaleza denominada
Heródio em homenagem a si mesmo.

Homem de coragem e habilidades excepcionais, Herodes percebeu


que a sua manutenção no poder na Palestina dependia de satisfazer as
expectativas dos romanos
sem ferir as suscetibilidades religiosas dos judeus. Para os romanos, o
controle da Síria e da Palestina era considerado essencial à segurança e
bem-estar de seu
império, que estendera as rotas por terra entre o Egito e a Mesopotâmia
e dominava o Mediterrâneo oriental. A própria cidade de Roma dependia do
suprimento de grãos
do Egito, suprimento esse que estaria ameaçado, caso os portos na costa
oriental do Mediterrâneo caíssem nas mãos dos partos.

A situação dos judeus era mais problemática. Sob domínio


cultural dos gregos desde a época de Alexandre, o Grande, e agora
politicamente subordinados aos
romanos, eles conservavam sua percepção do destino como O povo eleito de
Deus. Sua extraordinária fidelidade a suas crenças e práticas ao mesmo
tempo impressionava
e exasperava os pagãos de seu tempo. Ao sitiar o remanescente da
resistência judaica no Templo, Pompeu

iscou pasmado com a inabalável persistência dos judeus, em especial sua


manutenção de todas as cerimônias religiosas em meio a um ataque de
projéteis. Como se profunda
paz envolvesse a cidade, os sacrifícios diários, as oferendas aos mortos
e todos os outros atos de adoração eram meticulosamente executados para
a glória de Deus.
Nem mesmo durante a captura do Templo, quando eram brutalmente mortos em
torno do altar, eles renunciaram às cerimônias preceituadas para o dia.R

Todavia, seu exclusivismo - a crença de que se contaminavam pelo


contato com os gentios - provocava a hostilidade de seus vizinhos. Nessa
época, os judeus
já não estavam confinados à Palestina: havia importantes comunidades em
muitas das principais cidades do mundo greto-romano e

do império persa além do Eufrates. Em Alexandria, já no século III a.C.,


fizeram-se críticas ao exclusivismo judeu. Em Roma, onde obtiveram
isenções
OS TEMPLÁRIOS

fora do comum de participar de cultos pagãos e permissão para observar o


Slaabat, Cícero, em seu Pro Flanco, queixou-se de seu apego às tradições
de seu clã e excessiva
influência; e Tácito, em suas Histórias, do que considerava misantropia
dos judeus: "A qualquer outro povo eles sentem apenas aversão e
hostilidade. Sentam-se isolados
para fazer as refeições e dormem à parte, e, apesar de, como raça,
estarem inclinados à concupiscência, abstêm-se de manter relações
sexuais com mulheres estrangeiras;
todavia, entre eles próprios nada é ilícito". 9

Contudo, foi na sua própria pátria que o senso de superioridade


dos judeus sobre todas as nações pagãs teve sérias implicações
políticas. Muitas vezes, após
terem sido conquistados por nações vizinhas maiores e mais poderosas -
os egípcios, os persas, os gregos e agora os romanos -,eles se insurgiam
contra seus opressores
por acreditarem que Deus estava do seu lado. E a um triunfo inicial
seguia-se sempre uma feroz repressão.
Embora cidadão romano e de origem árabe, Herodes era escrupuloso
em sua observância da Lei judaica; e, para granjear ainda mais a
simpatia dos adeptos da
religião que adotara, anunciou que reconstruiria o Templo, provocando
uma reação de suspeita por parte dos judeus. Para reassegurá-los de que
levaria a cabo esse
ambicioso projeto, Herodes prometeu que não demoliria o antigo Templo
até que tivesse reunido todo o material para a construção do novo. Uma
vez que apenas sacerdotes
poderiam entrar no recinto do Templo, ele treinou mil levitas como
pedreiros e carpinteiros. Os alicerces do Segundo Templo foram
grandemente aumentados pela construção
de gigantescos muros de retenção a oeste, ao sul e a leste. Galerias
cobertas estendiam-se ao longo das extremidades da grande plataforma,
sustentada por aterros
ou por suportes em forma de arco. Uma cerca estendia-se ao redor da área
sagrada, e em cada um dos seus treze portões havia uma inscrição em
latim e em grego advertindo
que qualquer gentio que a ultrapassasse seria punido com a morte.
No centro, emoldurado pelas colunatas, ficava o Templo
propriamente dito. De um lado localizava-se o Pátio das Mulheres, e no
outro lado da Porta Formosa,
o Pátio dos Sacerdotes. O acesso ao Santuário era através de duas portas
cobertas de ouro, diante das quais pendia uma cortina de tapeçaria
babilônica bordada com
desenhos azuis, escarlates e purpúreos simbolizando toda a criação. O
Lugar Santo interno, protegido por um enorme véu, era o Santo dos
Santos, no qual apenas o
sumo sacerdote poderia atrever-se a entrar em certos dias do ano. A
rocha sobre a qual Abraão preparara Isaac para o sacrifício era o altar
onde cabritos e pombos
eram mortos. A cavidade que ainda pode ser vista na extremidade norte da
rocha era usada para a colheita do sangue do sacrifício.

O TEMPLO DE SALOMÃO

A escala do Templo era estupenda e, como ele estava sobranceiro


ao vale do Cédron, atingia uma altura estonteante. Seu esplendor não
poderia deixar de causar
nos súditos de Herodes a impressão de que seu rei, a despeito da origem
árabe, era um judeu virtuoso. Mas Herodes nada deixou ao acaso. A
fortaleza de Antôma fazia
parte da muralha norte do complexo do Templo e era permanentemente
guarnecida por um contingente da infantaria romana. Durante os festejos
mais importantes, esse
contingente, fortemente armado, desdobrava-se ao longo das colunatas.

O Templo foi a realização máxima de uma das mais extraordinárias figuras


do mundo antigo. No vigor da mocidade, Herodes alçou Israel a um nível
de esplendor que
este jamais vira antes e que não tem visto desde então. Sua munificência
estendeu-se a cidades estrangeiras como Beirute, Damasco, Antioquia e
Rodes. Experiente
em combate, hábil caçador, atleta entusiástico, Herodes patrocinou e
presidiu os jogos Olímpicos. Usava sua influência para proteger as
comunidades judaicas na Diáspora
e foi generoso com os necessitados em todo o Mediterrâneo oriental. No
entanto, não conseguiu estabelecer uma dinastia estável, porque, à
medida que envelhecia,
foi sendo dominado por uma paranóia que transformou o déspota benévolo
num tirano.
Quase não resta dúvida de que Herodes estava cercado por
conspiração e intriga. Seu pai e seu irmão tinham tido morte violenta, e
ele próprio possuía inimigos
poderosos não só entre os fariseus, facção que se ressentia do governo
de um estrangeiro submisso a um imperador pagão em Roma, mas também
entre os partidários de
membros da dinastia asmonéia que reivindicavam a coroa da Judéia. Para
aplacar estes últimos, Herodes divorciou-se de Dóris, com quem se casara
na juventude, e desposou
Mariamna, neta do sumo sacerdote Hircano.

Hircano tinha sido aprisionado pelos partos quando eles


invadiram a Palestina, mas fora libertado devido à intercessão dos
judeus que viviam além do Eufrates.
Encorajado pelo casamento de sua neta com Herodes, regressou a
Jerusalém, onde este imediatamente o executou, não, conforme afirma
Josefo, por ter reivindicado o
trono, "mas porque o trono realmente era seu".'° Outro adversário
potencial era Jônatas, irmão de sua mulher, o qual, aos 17 anos, foi
feito sumo sacerdote por Herodes;
mas quando o rapaz vestiu os trajes sagrados e se aproximou do altar
durante uma festa, todos os presentes choraram de emoção, e portanto
Herodes mandou sua guarda
pessoal gaulesa matá-lo afogado.

O que no âmbito político talvez tenha sido oportuno, no âmbito


familiar foi um desastre. Herodes apaixonara-se intensamente por
Mariamna, que,
OS TEMPLÁRIOS

após o que acontecera com seu irmão e seu avô, odiava-o com a mesma
intensidade. Além do seu ressentimento, havia o desdém de uma princesa
real judia por um novo-rico
árabe, o que não só atormentava Herodes, mas também deixava sua família
furiosa, sobretudo sua irmã Salomé. Desempenhando o papel de lago diante
do Otelo de Herodes,
Salomé persuadiu o irmão de que Mariamna havia cometido adultério com
José, seu marido. Herodes ordenou a imediata execução de ambos. Em
seguida, sua paranóia voltou-se
contra seus dois filhos com Mariamna: convencido de que estavam
conspirando contra ele, mandou estrangulá-los em Sebaste no ano 7 a.C.
Pouco antes de sua morte,
enquanto ele agonizava no leito com "uma comichão insuportável por todo
o corpo, dores constantes na porção inferior do intestino, edemas nos
pés como na hidropisia,
inflamação do abdome e gangrena dos órgãos genitais, dos quais brotavam
vermes", disseram-lhe que Antípater, seu filho mais velho e herdeiro,
tinha planejado envenená-lo.
Antípater foi executado pela guarda pessoal do pai. Cinco dias mais
tarde, o próprio Herodes estava morto.

Não foram apenas essas tragédias familiares que transformaram um


potencialmente grande rei num tirano, mas sobretudo a impossível tarefa
de reconciliar o povo eleito
de Deus com um governo pagão. Por ocasião do censo de 7 a.C., seis mil
fariseus haviam se recusado a prestar juramento de lealdade a Otaviano,
agora imperador Augusto;
e, pouco antes da morte de Herodes, cerca de quarenta seguidores de dois
rabinos de Jerusalém, bastante conhecidos como expoentes da tradição
judaica, haviam descido
em cordas do teto do Templo para remover um ídolo pagão, a águia dourada
que Herodes colocara acima do Grande Portão. Por causa disso, os dois
rabinos foram presos
e, por ordem de Herodes, queimados vivos.
Os sucessores de Herodes tiveram menos êxito do que ele em
manter essa incipiente insubordinação sob controle. De acordo com o
testamento de Herodes, que
ele alterara várias vezes, seu reino deveria ser dividido entre seus
três filhos: Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. O imperador Augusto
confirmou esse arranjo,
mas negou a Arquelau o título de rei, fazendo-o tão-somente etnarca, ou
governador, da Judéia e da Samaria, até que, depois de nove anos de
administração incompetente,
ele o exonerou de ambas as funções e o exilou na cidade de Vienne, na
Gália. A Judéia foi colocada sob o governo direto de um procurador
romano - primeiro Copônio,
em seguida Valério Grato e, em 26 d.C., Pôncio Pilatos.
Essa solução não garantiu a estabilidade da Palestina. Enquanto
a aristocracia judaica e o establishment saduceu fizeram o possível para
conter o ressentimento
de seu povo, os pesados impostos cobrados pelos romanos e sua

24

O TEMPLO DE SALOMÃO

insensibilidade às crenças religiosas dos judeus levaram a revoltas


esporádicas e, por fim, à guerra total. Rebeldes judeus tomaram Massada
e assassinaram a guarnição
romana. No Templo, Eleazar, Filho do sumo sacerdote Ananias, convenceu
os sacerdotes a abolir os sacrifícios oferecidos a Roma e a César. Essa
atitude de desafio
progrediu para uma insurreição geral: a fortaleza de Antônia foi
capturada, Anamas assassinado e os romanos rechaçados para as torres
fortificadas do palácio de
Herodes. Em Cesaréia, a capital administrativa dos romanos no litoral, a
população gentia atacou a colônia judaica, massacrando todos os seus
membros. Essa atrocidade
exaltou o ânimo dos judeus por toda a Palestina, os quais saquearam
cidades gregas e sírias, como Filadélfia e Pela, matando seus habitantes
em represália.

Em setembro de 66, o legado romano na Síria, Céstio Galo, partiu


de Antioquia com a Décima Segunda Legião, a fim de restaurar a ordem na
Palestina. Em Jerusalém,
os rebeldes judeus prepararam-se para resistir. Após algumas escaramuças
fora da cidade, Céstio bateu em retirada, que acabou transformando-se em
fuga desordenada.
Os judeus eram agora senhores em sua própria terra e começaram a
organizar suas defesas contra o retorno dos romanos.

Levando em consideração a catástrofe que estava para se abater sobre


eles, não deixa de ser surpreendente o fato de os judeus terem imaginado
que poderiam desafiar
o poder de Roma. Decerto havia alguns "que viram com toda a clareza a
desgraça iminente e deram vazão a seu pesar";" mas a grande maioria
estava absolutamente convencida
de que era chegado seu momento de sorte. Afinal, eles eram o povo eleito
de Deus, e desde o começo dos tempos seus profetas haviam prometido não
apenas a libertação,
mas também um libertador, ao qual se referiam como "o ungido", ou, em
hebraico, Messias. Deus prometera a Abraão e Isaac que um tipo não
especificado de salvação
deveria ocorrer através de seus descendentes, mas em seguida esse
conceito de salvação foi combinado com a idéia de um rei da linhagem de
Davi cujo reino seria eterno.
Ele teria de ser um herói caracteristicamente judeu ("Eis que dias virão
(...) em que suscitarei a Davi um germe justo; um rei reinará e agirá
com inteligência e
exercerá na terra o direito e a justiça. Em seus dias, Judá será salvo e
Israel habitará em segurança")," mas sua soberania seria universal ("que
ele domine de mar
a mar, desde o rio até aos confins da terra. (...) todos os reis se
prostrarão diante dele, todas as nações o servirão").'30 que deu coragem
aos judeus para desafiar
o poder de Roma foi a intensa sensação de expectativa messiânica entre
eles na Palestina do século I.
OS TEMPLÁRIOS

A principal divisão entre os judeus era entre os saduceus e os


fariseus: os saduceus eram o partido do establisliment, que controlava o
Templo, e eram mais
condescendentes em sua interpretação da Lei; os fariseus eram mais
rígidos, mais radicais e mais austeros, e usavam a tradição oral para
impor minúcias legalistas
a todos os aspectos da vida judaica. Uma das principais diferenças nas
crenças das duas facções dizia respeito à vida após a morte: os saduceus
eram agnósticos e
os fariseus insistiam na imortalidade da alma, na ressurreição dos
mortos e nas recompensas divinas para a virtude e na punição para o
pecado no mundo vindouro.

Os fariseus foram os mais vociferantes na sua oposição ao


domínio romano, e entre eles havia seitas austeras e fanáticas, como os
essênios, que viviam em
comunidades semimonásticas, e os zelotes, uma facção terrorista que
desprezava não só os romanos, mas todos os judeus colaboracionistas.
Eles enviavam assassinos
conhecidos como sicários (do grego sikaroi, através do latim sicarii,
literalmente "homens do punhal")para se mesclarem à multidão e
assassinar seus inimigos. Um
contingente de zelotes da Galiléia que se refugiara em Jerusalém travava
guerra de classes contra seus anfitriões.

Sua paixão pela pilhagem era insaciável: eles saqueavam as casas de


homens ricos, assassinavam homens e violentavam mulheres por prazer, e
brindavam aos seus espólios
regados a sangue. Devido a puro tédio, entregavam-se descaradamente a
práticas efeminadas, adornando o cabelo e vestindo roupas femininas,
encharcando-se de perfume
e pintando a área sob os olhos para tornar-se atraentes. Imitavam não
apenas o vestuário, mas também as predileções femininas, e em sua
extrema torpeza inventavam
prazeres ilícitos; chafurdavam no lodo, convertendo a cidade inteira num
bordel e poluindo-a com as práticas mais sórdidas. Muito embora tivessem
feições femininas,
suas mãos eram de assassinos; aproximavam-se com o seu jeito afetado de
andar, inesperadamente transformavam-se em lutadores e, sacando a espada
de sob seus mantos
coloridos, trespassavam quem por ali estivesse passando.14

Quando recebeu a notícia da derrota de Céstio Galo, o imperador Nero


recorreu ao veterano general Vespasiano e entregou-lhe o comando das
forças romanas na Síria.
Vespasiano enviou seu filho Tiro aAlexandria para buscar a Décima Quinta
Legião e juntar-se a ele em Ptolemaida. Esse exército misto marchou para
a Galiléia e, com
extrema dificuldade, conquistou as fortalezas em poder dos rebeldes
judeus e massacrou ou escravizou seus habitantes. Cada cidade foi
ferozmente defendida, em particular
Jopata, comandada por José ben-Matias, que mais tarde se bandeou para os
romanos, mudou o nome para Josefo e fez um relato do conflito em sua
Guerrados Judeus.

26

O TEMPLO DE SALOMÃO

Durante essa campanha.

Nero foi assassinado, e mais tarde Galba, seu

sucessor. Seguiu-se uma guerra civil entre Oto e Vitélio, os rivais que
reivindicavam o trono, da qual Vitélio saiu vencedor. Em Cesaréia, as
legiões repudiaram
Vitélio e proclamaram Vespasiano imperador. O governador do Egito,
Tibério Alexandre, e as legiões na Síria o apoiaram. Em Roma, os
simpatizantes de Vespasiano destituíram
Vitélio e proclamaram Vespasiano herdeiro do trono imperial. Ele recebeu
a notícia em Alexandria, de onde embarcou para Roma, deixando ao encargo
de Tito a subjugação
dos judeus insurretos.
OS redutos dos judeus haviam se reduzido a algumas fortalezas
longínquas e à cidade de Jerusalém, que já havia sido atacada pelas
legiões romanas. A resistência
foi feroz: quando o renegado Josefo transpôs os muros da cidade, pedindo
a seus compatriotas que se rendessem, a resposta foi escárnio e
insultos. A fome já grassava
na cidade, e Josefo, que em sua narrativa quis demonstrar que a
depravação dos rebeldes invalidava a justeza de sua causa, relata com
certo vigor como a fome induzia
esposas a roubar seus maridos, filhos a seus pais, e "o mais terrível de
tudo, mães a seus bebês, arrebatando o alimento de suas bocas; e quando
seus filhinhos queridos
estavam morrendo em seus braços, não hesitavam em privá-los dos nacos
que poderiam tê-los mantido vivos". O auge desse comportamento
antinatural foi a história de
uma certa Maria, da aldeia de Bethezub, que matou seu bebê, "em seguida
assou-o e comeu a metade, escondendo e reservando a sobra".'S

Não havia a menor dúvida quanto ao desfecho do conflito, mas


cada setor da cidade era violentamente disputado. Primeiro a fortaleza
de Antôma caiu em poder
dos romanos, mas o Templo resistiu. Durante seis dias os aríetes das
legiões romanas golpearam os muros do Templo, sem nem ao menos deixarem
marcas nos enormes blocos,
que os pedreiros de Herodes haviam talhado de forma tão plana e unido
tão firmemente. A tentativa de solapar o portão norte também fracassou.
Como não estava disposto
a correr o risco de sofrer outras baixas num assalto total pelas
muralhas do Templo, Tito deu ordem a seus soldados para atearem fogo às
portas. O revestimento de
prata derreteu com o calor e a madeira foi consumida pelas chamas. O
fogo propagou-se até as colunatas, abrindo caminho para os soldados
romanos através da alvenaria
que ardia lentamente. O ódio deles aos judeus era tão intenso que civis
foram massacrados junto com os combatentes, De acordo com Josefo, que
estava ansioso para
justificar seu protetor aos olhos dos judeus na Diáspora, Tito fez o
possível para poupar o santuário, mas os soldados o incendiaram com seus
archotes. Assim foi
destruído o que Josefo descreve como "o edifício mais magnífico jamais
visto ou de que se ouviu fa-

27
OS TEMPLÁRIOS

lar, não só por suas dimensões e arquitetura, mas também pela excessiva
perfeição nos detalhes e pela glória de seus lugares santos".

A solidez de suas fortificações e a determinação de seus defensores eram


tamanhas, que Tiro e suas legiões levaram seis meses para capturar
Jerusalém: de março a
setembro do ano 70 d.C. A população foi quase dizimada. Os que haviam se
refugiado nos esgotos da cidade morreram de fome, suicidaram-se ou foram
mortos pelos romanos
ao deixarem seu esconderijo. Josefo estimou que mais de um milhão de
pessoas morreram no cerco de Jerusalém, e os sobreviventes foram
escravizados. Tito deixou uma
guarnição na cidadela e ordenou que o resto da cidade, incluindo os
escombros do Templo, fosse arrasado. Retirou-se para Cesaréia e celebrou
seu aniversário em 24
de outubro, vendo os prisioneiros judeus serem mortos na arena por
feras, ou uns pelos outros, ou então vendo-os ser queimados vivos. Ao
regressarem a Roma, Vespasiano
e Tito, vestindo túnicas escarlates, comemoraram seu triunfo. Carroças
carregadas com os esplêndidos tesouros pilhados de Jerusalém foram
puxadas pelas ruas, entre
eles o pedestal de ouro do candelabro do Templo, junto com colunas de
prisioneiros acorrentados. Quando o cortejo chegou ao Fórum, o líder dos
judeus revoltosos,
Simão ben-Gioras, foi cerimonialmente executado, e a seguir os
vencedores retiraram-se para regalar-se com o suntuoso banquete
preparado para eles e seus convidados.

Na Palestina, grupos de rebeldes ainda resistiram nas inexpugnáveis


fortalezas de Herodes: Heródio, Maqueronte e Massada. Heródio caiu sem
dificuldade, Maqueronte
rendeu-se, mas Massada continuou nas mãos dos zelotes sob Eleazar ben-
Jair, um descendente de Judas, o Galileu. Nessa fortaleza
extraordinária, construída num planalto
isolado, a cerca de quatrocentos e quarenta metros acima da margem oeste
do mar Morto, encontravam-se mil homens, mulheres e crianças. O
governador romano, Flávio
Silva, circundou a fortaleza com um muro e construiu uma rampa, a fim de
que um aríete pudesse abrir uma brecha no muro.

A princípio os zelotes resistiram, mas, quando ficou claro que


os romanos abririam uma brecha no muro no dia seguinte, Eleazar
persuadiu seus seguidores
de que seria melhor eles morrerem por suas próprias mãos do que serem
mortos pelo romanos. Após ter queimado seus bens, cada pai matou seus
familiares próximos;
em seguida, foram escolhidos por sorteio dez homens para liquidar seus
companheiros; e afinal um deles, também escolhido por sorteio, matou os
outros nove antes
de tombar pelo fio de sua própria espada.

DOIS

O Novo Templo
A queda de Massada não representou o fim das esperanças de uma nação
independente acalentadas pelos judeus que viviam na Palestina. Cerca de
sessenta anos mais tarde
ocorreu uma segunda rebelião contra o domínio romano, chefiada por
Simeon ben-Koseba (Simeão bar-Kochba), reconhecido pelo rabi Akiba como
o Messias prometido. Como
no passado, a revolta teve êxito no início: as forças de Tinéio Rufo, o
legado romano na Judéia, foram derrotadas. O imperador Adriano enviou
para a Palestina o
legado na Bretanha, Júlio Severo, que no ano 134 d.C, recapturou
Jerusalém. A guerra continuou por mais dezoito meses - até agosto de 135
-, quando Beter, a última
de aproximadamente cinqüenta fortalezas em poder dos rebeldes, se rendeu
a Severo e Simeão bar-Kochba foi morto.
A punição dos romanos por essa segunda rebelião foi severa. Os
judeus cativos ou eram mortos ou escravizados. A Judéia foi abolida,
tornando-se a província
da Síria-Palestina. A cidade de Jerusalém transformou-se numa colônia
romana da qual todos os judeus foram excluídos. No monte do Templo
ergueram-se santuários ao
imperador divino, Adriano, e a Zeus, o pai de todos os deuses.

No entanto, nessa ocasião havia em Jerusalém outros sítios


sagrados para outra religião que Rufo, o legado romano, percebeu que
deveria cauterizar pela sobreposição
de templos pagãos. Num terreno que um século antes fora usado para
execuções públicas e sobre um túmulo contíguo, ele construiu templos a
Júpiter, Juno e Vênus,
a deusa do amor. Tais sítios não tinham a menor importância para os
judeus, mas eram sagrados para os seguidores de Jesus de Nazaré, ou
Jesus Cristo, outro reivindicante
ao título de Messias.

No curso dos vinte séculos decorridos desde sua vida e morte,


Jesus Cristo tem permanecido uma figura controversa, hoje quanto no
passado. A doutrina tradicional
da maioria das Igrejas cristãs é de que sua vinda foi prenunciada pelos
profetas da nação, mais especificamente por seu primo, um pregador
popular chamado João Batista,
e de que ele foi milagrosamente

29
OS TEMPLÁRIOS

concebido no ventre de uma virgem, nasceu num estábulo na cidade de


Belérp, pregou na Galiléia e na Judéia e realizou vários milagres
espetaculares, a começar pela
transformação da água em vinho num casamento em Caná. Epttre esses
milagres houve muitos casos de cura de enfermos, mas Jesus tarrlbém
demonstrou ter poderes sobre
a natureza ao caminhar sobre as ágqas e acalmar tempestades. A exemplo
de seu precursor João Batista, ele chamou o homem ao arrependimento e
advertiu-o do julgamento
e castigo eterno para os que morressem em pecado.
Em contraposição à brutalidade que o rodeava na Palestina sob
ocupação romana, Jesus louvava a brandura e a simplicidade: abençoava os
pobres e oá mansos
e dizia que aspirava à inocência de uma criança. Os valores que
incentivava eram contrários aos que ele chamou de "o mundo" - a cultura
do egoísmo e do comodismo.
Não deveríamos lutar por riqueza, poder e ascedsãO social, mas ocupar à
mesa o lugar menos importante. Não deveríamos toRiar represálias contra
ações da justiça,
mas, esbofeteados, deveríamos "oferecer a outra face". Não se tratava
simplesmente de uma questão de passividade: ao ódio de um inimigo devia-
se responder com amor.
Jesus in-
s1 ti idas vezes que a virtude não residia nas cerimônias
externas do
's lu repet ti[,? praticado pelos judeus, mas dependia de nossa
disposição interna nossos sentimentos e devaneios, bem como nossos atos.

Essa denegrição do ritual e da cerimônia religiosa, junto com a


pretensãp de Jesus de ser o Messias e Filho de Deus, de perdoar pecados
e de personificar
o único meio de alcançar a vida eterna, era considerada blasfema e
sediciosa pelos líderes judeus - os escribas fariseus e os anciãos
saduceus - que conseguiram
convencer o procurador romano Pôncio Pilatos a crucifie,ir Jesus. Após
sua morte, desceram-no da cruz e sepultaram-no num túmI,,lo próximo, mas
três dias mais tarde,
de acordo com seus discípulos, ele ressuscitou dos mortos.

Mesmo deste ponto afastado no tempo, e caso seja considerada


como passagem de obra de ficção, a pessoa de Jesus, conforme retratada
nos Evangelhos, causa
uma forte irrpressão no leitor. Ao contrário dos livros do Velho
Testamento, que demonstram a majestade de Deus por meio da
"complexida~le da vida, das emoções e
desejos além do alcance do intelecto e da linguagem", os Evangelhos são
narrativas frugais virtualmente destituídas de caracterização que, não
obstante, nos persuadem
de que "foi assim e não de outra forma que as coisas se passaram".'6
Para o crítico literário Gabriel Josipo~ici, Jesus se parece "corri uma
força, um furacão que
arrasta o que encontrapela frente e obriga todos aqueles que cruzam seu
caminho a reconsiderar, completamente suas vidas. Ele tem acesso, menos
a um segredo de sabedo¢a
do que a uma fonte de poder". Jesus fala com extraordinária convicção

O NOVO TEMPLO

e autoridade, mas reivindica para si o que seria de esperar de um


lunático. Porém, como G. K. Chesterton assinalou, "ele era exatamente o
que o homem em delírio
nunca é: um bom juiz. O que dizia era sempre inesperado, mas sempre
inesperadamente magnânimo e muitas vezes inesperadamente moderado"."
Até que ponto essas descrições de Jesus são historicamente
acuradas? Os esforços para se chegar a um ponto de vista objetivo são
com freqüência dificultados
por preconceitos contra ou a favor da religião cristã. O estudioso da
Bíblia E. P Sandersjulga que é possível chegar ao cerne do fato
histórico.

Sabemos que ele começou sob João Batista, que teve discípulos, que
esperava o "reino", que foi da Galiléia para Jerusalém, que praticou
algo hostil contra o Templo,
que foi julgado e crucificado. Em última análise, sabemos que após sua
morte seus seguidores vivenciaram o que descreveram como a
"ressurreição": a aparição de uma
pessoa viva mas transmudada que de fato morrera. Eles acreditaram nisso,
vivenciaram isso e morreram por isso.'$

Verificou-se que essa fé em Jesus dos que o conheceram era


contagiosa. "Seja qual for a importância afinal atribuída ao título `o
Cristo"', escreve Geza
Vermes em Jesus theJew (Jesus, o Judeu), "pelo menos um fato é certo:
aidentificação de Jesus, não apenas com um Messias, mas com o esperado
Messias do judaísmo, relacionava-se com o âmago, com a essência da fase
inicial da religião
cristã."'9 Contudo, esse messias não era um rei belicoso que conduziria
os judeus ao triunfo e à supremacia neste mundo, mas algo muito mais
profundo e paradoxal:
um bode expiatório sacrificial que, através do seu sofrimento,
confundiria Satã e venceria a morte.
Os prenúncios mais explícitos sobre esse salvador, tão diferente
do que a maioria dos judeus esperava, encontram-se nas profecias que
Isaías fez no Templo
em 740 a.C. Em sua visão Deus afirma: "Eis o meu servo que eu sustenho,
o meu eleito, em quem tenho prazer". Deus fará dele a "luz das nações, a
fim de que a minha
salvação chegue até às extremidades da terra"; todavia, ele será
"desprezado e abandonado pelos homens, um homem sujeito à dor,
familiarizado com a enfermidade,
como uma pessoa de quem todos escondem o rosto; desprezado, não fazíamos
caso nenhum dele. E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele
levava sobre si, as
nossas dores que ele carregava".'o
Também nos Salmos encontramos o tipo de lamento que se repete
muitos séculos mais tarde no sofrimento de Cristo antes da crucificação:
"tornei-me um ultraje
para eles, os que me vêem meneiam a cabeça."z' E os -
tros autores dos Evangelhos chamam a atenção, de forma bastante
para os episódios na vida de Cristo que satisfazem os vaticír•'
OS TEMPLÁRIOS

João salienta que, quando após Cristo ter sido crucificado os soldados
romanos repartem as vestes dele entre si e lançam dados para ver com
quem ficará a túnica,
que não tinha costura, isso cumpre o versículo 19 do Salmo 22: "repartem
entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica tiram sorte". Alguns
estudiosos céticos
de hoje acreditam que os fatos foram acrescentados após o episódio, a
fim de condizerem com as profecias, e que, por exemplo o nascimento de
Jesus de Nazaré foi
situado em Belém, e não em Nazaré, porque isso fora vaticinado pelo
profeta Miquéias. O historiador Robin Lane Fox, apesar da distância no
tempo, confia o suficiente
em suas próprias pesquisas para decidir que o"relato de Lucas é
historicamente impossível e internamente incoerente (...). Por
conseguinte, é falso"."

Será que podemos descobrir alguma coisa a respeito de Jesus de


outras fontes além dos Evangelhos? As únicas referências a ele feitas
por um quase contemporâneo
seu encontram-se nas Antiguidades Judaicas, de Josefo, e numa versão de
sua História da Guerra dos Judeus, provavelmente escrita em aramaico por
um círculo de leitores
judeus que viviam do outro lado do Eufrates. Essas passagens são
controversas: uma teoria afirma que elas foram extraídas de uma edição
grega publicada em Roma,
a fim de não despertarem o antagonismo do imperador Domiciano, que na
época estava perseguindo os cristãos; de acordo com outra teoria, trata-
se de interpolações
forjadas muitos anos mais tarde por monges bizantinos. Todavia, uma
controversa passagem nas Antiguidades Judaicas é citada na mais antiga
história da Igreja cristã,
escrita por Eusébio no século IV E mesmo que não seja provável que
tenham sido acrescentadas por cristãos, as passagens em A Guerra dos
Judeus discorrem tanto sobre
João Batista quanto sobre Jesus. João é "uma criatura estranha, em nada
se parece com um homem". Seu rosto é "como o de um selvagem". "Ele vivia
como um espírito
desencarnado (...) usava pêlos de animais nas partes de seu corpo não
cobertas por seus próprios pêlos."

Josefo relatou que Jesus era notável por seus milagres: "ele fez
milagres tão maravilhosos e assombrosos que, pelo que me toca, não posso
considerá-lo um
homem; todavia, em virtude de sua semelhança conosco, não posso
considerá-lo um anjo (...)". Josefo descreve como

Muitas das pessoas comuns iam em bandos atrás dele e seguiam seus
ensinamentos. Havia uma onda de ansiosa expectativa de que ele
capacitara as tribos judias a livrar-se
do jugo romano. (...) Quando viram que ele era capaz de fazer o que
quisesse usando a palavra, disseram-lhe que queriam que ele entrasse na

cidade, destruísse as tropas romanas e fizesse de si mesmo rei; mas ele


não lhes
deu atenção .23

O NOVO TEMPLO

De acordo com Josefo, os líderes judeus influenciaram o governador


romano da Judéia, Pôncio Pilatos, a consentir que crucificassem Jesus
por sentirem inveja de sua
popularidade. Ele também descreve como, no exato momento da execução de
Cristo, o véu do Templo "subitamente rasgou-se de cima a baixo"; e; na
sua prolixa descrição
do Templo, menciona uma inscrição afirmando que "Jesus, o rei que nunca
reinou, foi crucificado pelos judeus porque predisse o fim da cidade e a
completa destruição
do Templo",z4

Encontramos a mesma profecia nos Evangelhos. "Como alguns


estavam dizendo a respeito do Templo que era ornado de belas pedras e de
ofertas votivas, ele [Jesus]
disse: `Estais contemplando essas coisas... Dias virão em que não ficará
pedra sobre pedra sem ser demolida!""' No Evangelho de João, Jesus
sugere com mais audácia
que o Templo, após a destruição, subsistirá nele. "Destruí este templo,
e em três dias eu o levantarei", uma afirmação que foi considerada
blasfema e mais tarde
fez parte da acusação contra ele. "Este homem declarou: Posso destruir o
Templo de Deus e edificá-lo depois de três dias."

Mais uma vez, existem teorias conflitantes a respeito das


predições de Cristo de que não apenas o Templo, mas também Jerusalém
seriam destruídos. Os cristãos
pensam que isso explica por que a incipiente comunidade cristã em
Jerusalém mudou-se para Pela antes de os romanos sitiarem a cidade. Os
céticos sugerem que essas
"profecias" eram acrescentadas pelos evangelistas após o evento. O que
está claro, contudo, é que os cristãos primitivos consideravam a
destruição do Templo em Jerusalém
tanto como parte essencial da nova aliança entre Deus e o homem quanto
como punição de Deus pelo repúdio dos judeus a seu Filho unigênito. Após
a passagem que citei
atrás, que descreve uma mãe devorando seu próprio bebê durante o cerco
de Jerusalém, Eusébio, o primeiro cronista cristão, acrescenta:

Essa foi a recompensa pelo tratamento iníquo e cruel dispensado pelos


judeus
ao Cristo de Deus. (...) Depois da paixão do Salvador, e dos gritos com
que a
turba de judeus clamava pela suspensão da pena do bandido e homicida
[Bar
rabás], e rogava que o Autor da Vida fosse morto, sucedeu desgraça a
toda a
nação.zH

Da perspectiva do século XX, que assistiu a uma tentativa de


exterminar o povo judeu mais implacável e sistemática do que a
empreendida no tempo de Vespasiano
e Adriano, é difícil não perceber esse julgamento como uma das fontes do
anti-semitismo no estilo dos próprios Evangelhos. São Mateus, por
exemplo, exprime o protesto
de Pôncio Pilatos: "Estou inocente desse sangue. A responsabilidade é
vossa". A isso todo o povo respondeu:

33
OS TEMPLÁRIOS

"O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos".29 Mas até onde se
pode julgar, isso não significou uma condenação dos judeus, como raça,
do tipo que encontramos
no culto da limpiesa de sangre' na Espanha, no século XVI, ou nas
teorias raciais de um Houston Stewart Chamberlain" no século XIX.
Notavelmente, ao que parece,
o preconceito racial nu e cru inexistia tanto na Antiguidade como na
Idade Média. Afinal de contas, os discípulos de Cristo, os apóstolos e
os evangelistas eram
todos judeus.

A hostilidade que surgiu entre os judeus e os cristãos não era


de ordem racial, mas religiosa, e, em virtude das contradições
intrínsecas, é difícil saber
como poderia ter sido evitada. A destruição do Templo, que Cristo
predisse, foi mais do que um fato concreto: foi uma metáfora para a
morte do judaísmo. Deus havia
escolhido o povo judeu como uma crisálida para o Messias: uma vez que
ele nascera, ela tinha servido a seus propósitos.

A julgar pelos Evangelhos, é bastante evidente que isso foi


entendido pelos líderes judeus no Sinédrio naquela época.
Independentemente de seu temor de que
Cristo provocasse os romanos ter sido sincero ou não (devido à
relutância de Pilatos de se envolver, provavelmente não foi), sua
inquietação com a crescente popularidade
de Cristo parece sensata, em virtude da importância dos ensinamentos
dele.

Talvez eles tenham sido otimistas demais ao acreditarem que tais


ensinamentos morreriam com ele; mas se era isso mesmo o que pensavam,
então não foi desarrazoado
o fato de o sumo sacerdote Caifás ter decidido que "é de vosso interesse
que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda".3°

No entanto, as reivindicações de Cristo não morreram com ele,


vindo a ser aceitas por um crescente número de judeus. Deixando de lado
as questões de se Cristo
ressuscitou dos mortos ou não, ou de se um "espírito santo" desceu sobre
o resto de seus seguidores sob a forma de línguas de fogo, não resta
dúvida de que a crucificação
de Jesus de Nazaré não dissuadiu seus discípulos de pregar abertamente
que ele era "não só Senhor, mas também Cristo".

Na Espanha dos séculos XVI e XVII, a questão da descendência cristã pura


tornou-se de capital importância, e isso significava pertencer a uma
família cuja genealogia
ou representantes vivos não exibissem o menor traço de "cristãos-novos"
de origem judia. Assim, a categoria de limpieza de sangre ("pureza de
sangue") tornou-se
o padrão para se estabelecer um "bom nome" (honra). (N. do T)

Houscon Scewarc Chamberlain (1855-1927), autor de obras anti-semíticas,


proclamava a superioridade do povo alemão, e suas idéias de pureza
racial exerceram grande
influência sobre as teorias racistas de Hitler. (N. do T)

34

O NOVO TEMPLO

Outrossim, está claro que os líderes judeus fizeram o possível


para reprimir esse nascente movimento de judeus sediciosos. Pedro foi
preso e Estêvão, apedrejado
até a morte. Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, decapitou o
apóstolo Tiago, irmão de João. Apenas os poderes reservados pelo
procurador romano inibiram
uma perseguição irrestrita; mas em 62 d.C., durante o breve interregno
entre a morte de Pórcio Festo e a chegada de Lucéio Albino, o sumo
sacerdote Anan condenou
um segundo apóstolo chamado Tiago, conhecido como "o irmão do Senhor", a
ser lançado da muralha do Templo e morto a pauladas.
A verdadeira bête noire dos líderes judeus, contudo, não foi um
dos doze apóstolos originais de Cristo, mas Paulo de Tarso, um homem que
não conhecera Jesus
e era zeloso na perseguição aos cristãos, até que, a caminho de Damasco
com mandados de prisão de cristãos assinados pelo sumo sacerdote, Jesus
apareceu-lhe numa
visão e designou-o como seu "instrumento de escol para levar o meu nome
diante das nações pagãs, dos reis, e dos filhos de Israel".3" Não se
tratava apenas do fato
de Paulo ser um apóstata, mas de ele ter levado o repúdio ao judaísmo um
passo adiante, insistindo num ponto que de modo nenhum estava claro para
os primeiros apóstolos
de Crista - a saber, que se poderia ser cristão sem se tornar primeiro
judeu.

A controvérsia acerca de Paulo continua até hoje. A ele se


atribui a invençâo do cristianismo - elevando "um exorcista galileu" à
condição de fundador de
uma religião universal.3z Todavia, a animosidade dos líderes judeus da
época era causada pelo extraordinário êxito por ele alcançado em suas
viagens de evangelização
pelo Império Romano. As cartas que Paulo escreveu àqueles que ele
convertera em cidades como Éfeso, Corinto e Roma
revelam grande respeito pela tradição judaica, mas uma insistência
inflexível em que a Lei mosaica é agora redundante, em que somente
podemos ser salvos pela fé
em Cristo.

Esse repúdio radical à raison d'êLre dos judeus contrariou


muitos dos judeus entre seus companheiros cristãos e não foi aceito de
imediato pela Igreja primitiva.
Também foi usado contra Paulo pelos líderes judeus, que o

levaram à presença de Galião, procônsul da Acaia, acusando-o de


"persuadir os outros a adorarem a Deus de maneira contrária à Lei". Com
uma exasperação semelhante
à de Pilatos, Galião recusou-se a considerar as acusações:

"Se se tratasse de um delito ou ato perverso, ó judeus, com razão eu vos


atenderia. Mas se são questões de palavras, de nomes, e da própria vossa

Lei, tratai vós mesmos disso! Juiz dessas coisas eu não quero ser 11.33
Ao regressar a Jerusalém, Paulo foi preso outra vez e conduzido diante

do Sinédrio, mas, reivindicando seus direitos como cidadão romano, foi


posto sob a proteção de Lísias, um tribuno romano. Ao perceber que não
pode-

35
OS TEMPLÁRIOS

ria livrar-se dele por meios legais, um grupo de judeus planejou


assassiná-lo; mas o complô chegou ao conhecimento de Lísias, que enviou
Paulo para Cesaréia escoltado
por setenta soldados de cavalaria e duzentos de infantaria. Aí ele
compareceu perante o legado Félix junto com seus acusadores: o sumo
sacerdote Ananias com alguns
dos anciãos e um advogado chamado Tertulo, que o acusou de criar
problemas "entre todos os judeus do mundo inteiro" e de ser "um dos da
linha-de-frente da seita
dos nazareus". Paulo invocou seu direito de, como cidadão romano, apelar
a César, e portanto Félix o mandou para Roma como prisioneiro.

Segundo a tradição cristã, Paulo foi finalmente decapitado em Roma, não


em conseqüência das acusações feitas pelos líderes judeus, mas como
vítima da primeira perseguição
aos cristãos empreendida pelos romanos pagãos sob Nero, no ano 67 d.C.
Para o historiador romano Cornélio Tácito, esse primeiro ataque aos
cristãos não foi o produto
de um plano de ação ponderado do governo imperial, mas um capricho de
Nero. Após o incêndio que em julho de 64 destruíra grande parte da
cidade de Roma, Nero conseguiu
livrar-se da suspeita de que ele próprio fora responsável pelo incêndio,
atribuindo a culpa aos adeptos dessa incômoda seita. À execução inicial
dos suspeitos seguiu-se
a prisão em massa de cristãos, que foram condenados à morte de várias
formas requintadas: homens foram crucificados, ou besuntados dé resina e
queimados, ou envoltos
em peles de animais para serem dilacerados e devorados por cães.
Embora Tácito julgasse que a crueldade de Nero fora longe
demais, e de, fato suscitara a compaixão dos cidadãos, ele não tinha
dúvida de que os cris.tãos
mereciam "punição rigorosa e exemplar" devido ao seu "ódio à
humani.dade". Seu desprezo pelo mundo material, sua recusa em portar
armas otl em participar de quaisquer
rituais pagãos mais ou menos importantes que= faziam parte da vida em
Roma, as reuniões secretas e as cerimônias obscuras nas quais eles
"comiam" seu deus, e sobretudo
sua certeza de que seus semelhantes pagãos estavam destinados a eterno
tormento enquanto eles herdariam bem-aventurança eterna, tudo isso
exerceu nos romanos um
efeitP semelhante ao do distanciamento dos judeus.

O número de judeus, contudo, era conhecido, e eles eram vistos


como uma nação, não como uma seita. Assim que a rebelião na Palestina
foi sufocada, os privilégios
especiais de que antes gozavam os judeus - o direito de praticar o culto
nas sinagogas, de circuncisar seus filhos varões e de descansar no
Shabat- foram restaurados.
A exclusividade dos cristãos, por outro lado, foi considerada não só
ofensiva, mas também sediciosa, e, por esse mcl-
tivo, durante os dois séculos e meio seguintes eles foram periodicamente
re--

O NOVO TEMPLO

primidos. "Seja qual for o princípio de sua conduta", escreveu Plínio, o


Moço, "sua obstinação inflexível parecia merecer punição." 35 Em
conseqüência, na condição
de funcionário do governo imperial, Plínio, cujas obras o mostram como
um homem bondoso, refinado e magnânimo, pediu a execução daqueles que
professavam a religião
cristã.

"Quanto mais nos dizimam, mais crescemos", escreveu Tertuliano, autor


cristão do século II, "a semente é o sangue dos cristãos." Conquanto
houvesse decerto alguns
apóstatas que, diante da escolha entre serem estraçalhados por leões e
tigres na arena e espargirem um punhado de incenso no altar em honra de
Zeus, escolheram a
segunda opção, a sistemática perseguição aos cristãos não impediu o
crescimento da Igreja. Longe de evitarem o martírio, muitos deles o
aceitaram como uma imitação
do sofrimento de Cristo. Ao ser preso, Inácio, o terceiro bispo de
Antioquia, proibiu seus seguidores de fazerem o que quer que fosse para
salvá-lo e implorou aos
romanos que o lançassem aos leões. "Incitai as feras a tornar-se meu
sepulcro, sem deixarem sobras de mim." Policarpo, bispo de Esmirna, foi
mais judicioso mas igualmente
inflexível quando lhe deram o direito de escolher entre cultuar César e
ser queimado vivo. "O fogo queima por uma hora e se extingue
rapidamente", disse ele ao governador
romano Tito Quadrato, "mas vós nada sabeis do fogo do Julgamento
vindouro e do castigo eterno reservado aos iníquos." Ato contínuo
Quadrato pronunciou a sentença,
e "as turbas apressaram-se a buscar troncos de madeira e feixes de lenha
em oficinas e banhos públicos, e como sempre os judeus participaram com
mais entusiasmo
do que qualquer outra pessoa",36
Essas atrocidades repetiram-se em todos os rincões do Império.
Na Frísia (na Ásia Menor), uma cidadezinha foi cercada por legionários
que em seguida a incendiaram, destruindo-a por completo, junto coma
população inteira - homens, mulheres e crianças -, quando esta invocou
Deus Todo-Poderoso. E
por quê? Porque todos os habitantes da cidade sem exceção-o próprio
prefeito e os magistrados, bem como os funcionários públicos e toda a
população-declararam-se
cristãos e recusaram-se terminantemente a obedecer à ordem de praticar
idolatria.;

A perseguição foi particularmente impiedosa em duas cidades romanas às


margens do rio Ródano: Vienne e Lyon. Primeiro servos pagãos foram
induzidos a acusar seus
amos cristãos de orgias incestuosas e canibalescas, a fim de incitarem o
povo contra eles; em seguida, as mortes mais atrozes foram Infligidas
àqueles que não abjuraram
Cristo para cultuar deuses pagãos. Não só os líderes da comunidade, como
o bispo Potino, mas também os indivíduos
OS TEMPLÁRIOS

mais humildes foram torturados. Em Vienne, uma criada, Blandina, talvez


um tanto feia ("através dela Cristo provou que as coisas que os homens
julgam insignificantes,
desgraciosas e desprezíveis são consideradas por Deus dignas de grande
glória"), era tão resistente que "aqueles que se revezaram para submetê-
la a toda a sorte
de torturas, do amanhecer ao anoitecer, ficaram exaustos devido a seus
esforços e confessaram-se derrotados - eles não conseguiam pensarem mais
nada para fazer a
ela". "Depois dos chicotes, das feras, da grelha, ela afinal foi
colocada num cesto e arremessada contra um touro. »3s

No século XIX Friedrich Nietzsche denegriu o cristianismo por


ter recorrido a servos como Blandina e, acima de tudo, ao enorme número
de escravos, para quem
a garantia de igualdade espiritual compensava sua falta de valor como
cidadãos. Contudo, o cristianismo não se limitou às pessoas sem
educação: estendeu-se às famílias
de senadores e até mesmo dos próprios imperadores. Filósofos e eruditos
formidáveis, como Justino, Orígenes, Tertuliano e Clemente de
Alexandria, não apenas adotaram
o cristianismo, mas em seus próprios escritos aprofundaram a compreensão
do credo cristão pela Igreja. Orígenes escoimou as escrituras dos
Evangelhos apócrifos e
firmou a autenticidade do Novo Testamento conforme o conhecemos hoje.
Apolônio, descrito por Eusébio como "um dos mais ilustres cristãos de
seu tempo pela erudição
e conhecimentos de filosofia", teve uma audiência perante o Senado
rornano, que no entanto o condenou a ser decapitado, porque nenhum outro
veredicto era possível
sob o estatuto: "A existência de um cristão é ilegal".

Antes de sua prisão, Apolônio refutara com vigor a heresia de um


certo Montano, que negou que a Igreja tivesse autoridade para absolver
os pecados graves
dos penitentes. Essa heresia foi apenas uma entre muitas que haveriam de
atormentar a Igreja cristã desde seus primórdios e através de sua
história. O próprio apóstolo
Pedro havia advertido que "Houve, contudo, também falsos profetas no
seio do povo, como haverá entre vós falsos mestres, os quais trarão
heresias perniciosas (...
) ";39 e Paulo de Tarso condenou os gnósticos e os docetas em sua
Epístola aos Colossenses. Inácio de Antioquia usou a palavra herege como
um termo de acrimoniosa
censura. Tertuliano, que por ironia mais tarde juntou-se aos
montanistas, definiu um herege como alguém que coloca seu próprio
julgamento acima do da Igreja, quer
fundando uma seita, quer unindo-se a alguém que, em seus ensinamentos,
se desvia das doutrinas que os apóstolos receberam de Cristo.

A fim de refutarem falsos ensinamentos, os sucessores dos


apóstolos realizaram concílios - o primeiro em Jerusalém em 51 d.C.,
outro na Ásia Menor cinqüenta
anos mais tarde. Cada um desses "bispos" também possuía autoridade no
seio de sua própria comunidade, sendo os mais preemi-

O NOVO TEMPLO

nentes os das cidades mais importantes do Império, tais como Jerusalém,


Antioquia, Alexandria e Roma, os quais eram os patriarcas da religião
nascente. O primeiro
entre seus pares no meio desses bispos e patriarcas surgiu na figura do
sucessor de Pedro, o líder dos apóstolos, que havia presidido a
comunidade cristã em Roma.
Clemente, que se supõe tenha sido sagrado bispo por Pedro, escreveu no
ano 96 a fim de resolver uma disputa na Igreja de Corinto. Vítor, bispo
de Roma em fins do
século II, estabeleceu a data para a celebração da Páscoa e excomungou
um mercador de couro chamado Teodato, que pregava que Jesus tinha sido
um mero homem.

Vítor também é o primeiro bispo de quem se tem notícia que


entrou em negociações com a família do imperador: ele forneceu a Márcia,
a amante cristã do imperador
Cômodo, uma relação de cristãos condenados às minas da Sardenha e
conseguiu sua libertação. Cômodo, filho de Marco Aurélio, apesar de ser
um regente insatisfatório,
tolerava os cristãos por causa da influência de Márcia. A perseguição
prosseguiu sob seu sucessor, Sétimo Severo. Era esporádica, dependendo
do ponto de vista do
imperador que estivesse no poder: alguns dos mais sagazes e
esclarecidos, como os imperadores antoninos e Marco Aurélio, foram
inclementes na repressão aos cristãos.
A perseguição tornou-se acerba no tempo dos imperadores Maximiano, Décio
e sobretudo Diocleciano, que em 303 empreendeu o que veio a ser chamado
"A Grande Perseguição",
que só terminou quando Diocleciano abdicou e retirou-se para seu palácio
em Split, na costa da Dalmácia.

Por julgar que o Império Romano era grande demais para ser governado por
um só homem, antes de se retirar Diocleciano nomeou quatro para uma
junta de governadores,
ou tetrarquia, um dos quais Constâncio Cloro, a quem coube o quadrante
norte do Império, que incluía a Bretanha e a Gália. Quando Diocleciano
abdicou em 305, Cloro
tornou-se o principal César no Ocidente, mas morreu um ano depois em
York. Seu filho Constantino foi proclamado imperador pelas legiões da
Bretanha e, após uma série
de vitórias sobre pretendentes rivais, estabeleceu seu governo sobre
todo o Império.
Constantino acreditava que havia chegado ao poder com a ajuda do
Deus dos cristãos. Às vésperas da crucial batalha contra o imperador
rival Maxêncio na Ponte
Mílvio, junto dos muros de Roma, fora-lhe dito num sonho (ou
possivelmente numa visão) que pintasse um monograma cristão nos escudos
de seus soldados com as palavras:
"Inhocsigno vintes" ("Com este sinal vencerás"). A perseguição havia
abrandado nas províncias ocidentais durante o governo de Cloro, seu pai,
e agora cessara por
completo em todo O Império. De acordo com o Edito de Milão, de 313,
todos os decretos penais
OS TEMPLÁRIOS

contra os cristãos foram revogados; os prisioneiros cristãos foram


postos em liberdade e sua propriedade restaurada. Mas a política de
Constantino para com os cristãos
foi além da tolerância. Bispos converteram-se em seus conselheiros e
receberam permissão para usar o serviço postal do Império, um

privilégio inestimável numa época em que as viagens por terra eram


perigosas e caras. Uma lei de 333 determinava que os funcionários do
Império acatassem as decisões
dos bispos e acolhessem seu testemunho acima de outros depoimentos.
Constantino doou a propriedade imperial de Latrão ao bispo de Roma para
a construção da basílica
e promulgou leis concedendo ao clero cristão privilégios fiscais e
imunidades legais, "pois quando eles são livres para prestar serviços
supremos à Divindade, é
evidente que prestam grande benefício aos negócios de Estado". Ele
apreciava a companhia de bispos cristãos, chamava-os de irmãos, recebia-
os na corte e, caso tivessem
sido flagelados e mutilados em perseguições passadas, beijava-lhes as
cicatrizes

com reverência.

Como Herodes, Constantino também passou por tragédias em seu


círculo familiar próximo. Fausta, sua segunda esposa, acusou Crispo,
filho dele com a primeira
esposa, de fazer-lhe propostas indecorosas. Crispo foi executado antes
que Helena pudesse provar ao imperador que as acusações eram falsas.
Fausta foi então asfixiada
num banho quente demais,

Na esteira dessa tragédia, Helena - convertida ao cristianismo


por Constantino - partiu numa viagem penitencial à Palestina. Aí
Constantino havia ordenado
a demolição dos templos e a construção de igrejas no local do nascimento
de Cristo, em Belém, e em outros sítios, como o da sua crucificação, em
Jerusalém, e o túmulo
de onde ele ressuscitara dos mortos. Durante as escavações, descobriu-se
o madeiro de uma cruz com a inscrição "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus".
Se se tratava ou
não do que se acreditava ser, ou de uma mentira que impingiram a uma
velha crédula, o madeiro foi aceito por Helena e cristãos fiéis como a
suprema relíquia de sua
Salvação e, em virtude de seu significado, foi colocado na igreja
construída sobre o Santo Sepulcro em Jerusalém.

A conversão de Constantino foi de momentosa importância para o


cristianismo. De igual importância para o futuro do Império foi sua
decisão de transferir a capital
de Roma para Bizâncio, às margens do Bósforo. Tornara-se claro por algum
tempo que Roma estava muito mal situada como centro estratégico de um
Estado cujas fronteiras
mais vulneráveis e províncias mais prósperas estavam situadas no
Oriente. Os imperadores haviam se tor-

nado antes de tudo comandantes militares, que para seu poder ou


legitimi-

O NOVO TEMPLO

dade já não dependiam nem do Senado nem do povo de Roma. Bizâncio, com
sua estratégica posição entre a Europa e a Ásia, entre o mar Negro e o
Mediterrâneo, e com
seu porto natural, conhecido como Como de Ouro, adequava-se com
perfeição a esse papel. Dentro de três semanas após sua vitória sobre
Licínio, um de seus rivais,
nas proximidades de Crisópolis, em 324, Constantino assentou as
fundações dessa "nova Roma". A cidade, que já fora ampliada por um de
seus predecessores, Sétimo
Severo, triplicou em tamanho e foi dotada de magníficas obras públicas,
tais como o Hipódromo, iniciado no tempo de Severo, um palácio imperial,
casas de banho e
edifícios públicos, e de ruas adornadas com numerosas estátuas
provenientes de outras cidades. Cidadania plena e pão de graça eram
oferecidos como estímulo a quem
se estabelecesse na cidade, e havia uma política de tolerância para com
pagãos e judeus.

Rebatizada com o nome de Constantinopla em homenagem a seu


fundador, a cidade transformou-se num centro da religião que ele
protegia. Várias grandes igrejas
foram construídas pelo imperador, e em 381 a cidade tornou-se a sede de
um patriarca, que se juntou aos de Roma, Antioquia, Alexandria e mais
tarde Jerusalém. Constantino
solicitou que muitos dos primeiros concílios da Igreja se reunissem em
Constantinopla ou em cidades próximas, como Nicéia e Calcedônia.

A supremacia do cristianismo ainda não estava assegurada. Durante o


reinado de Juliano, sobrinho de Constantino que mais tarde veio a ser
conhecido como "o Apóstata",
o paganismo foi restabelecido e a Igreja submetida a uma forma de
perseguição renovada. Digno de nota é o fato de uma das medidas
iniciadas por Juliano para opor-se
aos cristãos, a quem ele cha-

mava de "os galileus", ter sido a reconstrução do Templo em Jerusalém;


calamidades naturais (consideradas como intervenções milagrosas pelos

cristãos) dificultaram o projeto, e ele foi abandonado por causa da


morte do imperador em 363.

Juliano foi o último dos imperadores pagãos. Sob seu sucessor,


Joviano, a igreja recuperou a posição privilegiada de que gozara no
tempo de Constan-

tlno e tornou-se tão intolerante para com o paganismo quanto este tinha
sido para com o cristianismo. Antes, sob Constâncio, filho de
Constantino, os templos pagãos
tinham sido fechados e os sacrifícios aos deuses pagãos

proibidos sob pena de morte. Agora a proibição era absoluta, e as


cerimônias pagãs continuaram apenas secretamente, com freqüência à guisa
de orgias ou de comemorações
sazonais. Os templos antigos foram abandonados e entraram em decadência
ou foram destruídos.
OS TEMPLÁRIOS

A mesma intolerância foi demonstrada com os judeus. Por terem


participado da perseguição aos cristãos pelos pagãos e acolhido com
prazer a contra-reforma
de Juliano, o Apóstata, eles eram agora objeto de opressão pelos
estatutos imperiais e de hostilidade por parte de turbas cristãs. O
imperador Teodósio, um dos últimos
a governar um império indiviso, promulgou um decreto em 380 prescrevendo
o Credo de Nicéia como vínculo de todos os súditos. Isso se dirigia
tanto contra cristãos
heréticos quanto contra os pagãos e os judeus, mas encorajou excessos
entre zelotes cristãos. Em 388, em Calínico, às margens do rio Eufrates,
a sinagoga foi completamente
destruída por um incêndio provocado por uma chusma cristã. Teodósio
ordenou sua reconstrução a expensas dos cristãos, mas foi persuadido por
Ambrósio, arcebispo
de Milão, a revogar a ordem. "O que é mais importante?" perguntou o
prelado ao imperador. "A ostentação de disciplina ou a causa da
religião?"4° Outra demonstração
do tipo de poder agora exercido pelos bispos ocorreu dois anos mais
tarde, quando um massacre punitivo em Tessalonica ordenado por Teodósio
foi condenado por um
concílio da Igreja por instigação de Ambrósio, e o imperador só pôde
voltar a comungar após penitência pública.

Ambrósio mostra como, enquanto Roma se tornou cristã, o


cristianismo se tornou romano, adotando um sistema de administração e um
corpo de leis como os do
Império e empregando o mesmo pessoal. Ambrósio era filho de um prefeito
romano e membro da classe senatorial. Fora educado em Roma e contratado
como funcionário
público do Império, exercendo por volta de 371 o cargo de governador das
províncias da Emília e da Ligúria, cuja sede administrativa era em
Milão. Intervindo em
sua condição oficial numa acirrada eleição episcopal em 373, foi
inesperadamente escolhido por aclamação popular para ser bispo. Embora
sua família fosse cristã,
ele ainda não havia sido batizado. Foi admitido na Igreja em 24 de
novembro e ordenado padre e consagrado bispo em 1° de dezembro.

Foram os sermões de Ambrósio, feitos em Milão, que persuadiram um jovem


professor de retórica da cidade, Agostinho, a tornar-se cristão. Filho
de pai pagão e mãe
cristã, ambos de origem berbere, Agostinho vivera no Norte da África até
mudar-se para Milão. As características marcantes de sua juventude foram
a curiosidade intelectual
e a licença sexual. Antes sectário do maniqueísmo, a crença de que Deus
e o Demônio são poderes iguais, sendo Deus o criador do espírito e o
Demônio da matéria,
e mais tarde neoplatônico, Agostinho foi persuadido por Ambrósio da
verdade da doutrina cristã. Mas ele era ambicioso e tinha uma forte
pulsão sexual. Abandonou
sua amante de longa data, de quem tivera um filho, pela perspectiva de
um casa-

O NOVO TEMPLO
mento vantajoso; e enquanto aguardava que sua futura noiva atingisse a
maioridade, teve romances com várias outras mulheres. Seu amor pelas
mulheres tinha sido sempre
um obstáculo à sua conversão. Na adolescência ele havia rezado a Deus:
"Concede-me castidade e continência, mas não

". Ele receara que Deus talvez atendesse à sua prece depressa demais

"que tu me curasses rápido demais da minha doença da


concupiscência, que eu preferia antes satisfazer do que suprimir"."
Agostinho tinha agora pouco mais
de rinta anos, e seus "antigos amores" impediam-no de se converter. Ele
se encontrava num estado de indecisão imobilizadora, até que uma tarde,
no jardim de sua
hospedaria, ouviu uma voz etérea ("talvez fosse de um menino ou de uma
menina") entoando "toma e lê, toma e lê". Abriu ao acaso um livro das
epístolas de Paulo de
Tarso, e seus olhos pousaram na Epístola aos Romanos: "Como de dia,
andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e
libertinagem, nem em rixas
e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis
satisfazer os desejos da carne".az

Agostinho foi batizado por Ambrósio em 387 e regressou para o


Norte da África, onde se tornou padre. A princípio viveu numa comunidade
retirada, mas depois
de cinco anos foi feito bispo de Hipona. Passou os trinta e cinco anos
restantes de sua vida cumprindo suas obrigações como bispo diocesano e
escrevendo obras de
suma importância para o futuro da Igreja. Como veremos quando
discorrermos sobre a fundação dos Templários, foi a regra estabelecida
por Agostinho para sua comunidade
de cristãos que a ordem inicialmente adotou; e foi a teoria de Agostinho
de uma guerra justa que se usou para defender as cruzadas.

Há dois outros desenvolvimentos notáveis no tempo de Ambrósio e


Agostinho que vieram a moldar a Europa na Idade Média. O primeiro foi a
divisão do Império Romano
em dois. A metade oriental tornou-se o Império Bizan-

tino e com passar do tempo substituiu o uso do latim pelo do grego. A


metade ocidental foi governada nacionalmente de Roma, mas, de vez em
quando, de Milão ou de
Ravena. A linha demarcatória era o mar Adriático e uma linha através da
atual Iugoslávia que permanece problemática até hoje.

Ambos os impérios estavam constantemente em guerra com as tribos


e Povos além de suas fronteiras: na Ásia, os persas; na Europa, no outro
lado do Danúbio
e do Reno, as tribos bárbaras dos sármatas, ostrogodos, visigodos,
francos, burgúndios, alamanos, quados, vândalos, e atrás deles a feroz
tribo d°s hunos, que das
estepes fora empurrada para a frente por razões desconhecidas.

agora
OS TEMPLÁRIOS

A linha não podia ser mantida, mas o que veio a ser descrito
como a "Queda" do Império Romano não foi a única derrota dramática ou
mesmo uma seqüência de
derrotas dos exércitos imperiais seguidas de uma colonização sistemática
pelos vencedores bárbaros. "Essas invasões não foram ataques permanentes
e destrutivos,
e muito menos campanhas de conquista organizadas. Foram antes uma
`corrida do ouro' de imigrantes de países subdesenvolvidos do Norte para
as ricas terras do Mediterrâneo.
1141

Algumas tribos, como os francos e os alamanos, já tinham obtido


permissão para se estabelecer dentro das fronteiras do Império, no
Nordeste da Gália; e os
ostrogodos e os visigodos, impelidos para oeste pelos hunos, foram
autorizados a se mudar para a Trácia. Os chamados "bárbaros" acabaram
sendo recrutados pelo exército
romano e chegaram até a comandá-lo. Estilicão, um meio-vândalo, casou-se
com a sobrinha do imperador Teodósio e assumiu o controle do Império
após a morte deste.
Mas esses eram tempos de violência, confusão e desordem, quando hordas
temíveis e freqüentemente famintas vagueavam pela Europa em busca de
segurança e alimento.
Em 406, os vândalos e os suevos, seguidos pelos burgúndios e pelos
alamanos, fugiram do avanço dos hunos por sobre a superfície congelada
do rio Reno e penetraram
na Gália. Em 407, os romanos retiraram suas legiões da Bretanha,
deixando aos próprios b.retões a defesa contra os pictos e os escotos no
norte, e contra ataques
piratas na costa leste por anglos, saxões e jutos. Em 410, Alarico e
seus visigodos capturaram e saquearam Roma, em seguida voltaram para o
norte, ao longo da costa
do Mediterrâneo, fixando-se no Sudoeste da França e posteriormente na
Espanha. Em 429, oitenta mil vândalos moveram-se impetuosamente pela
Espanha e cruzaram o estreito
de Gibraltar, alcançando as províncias romanas do Norte da África.
Agostinho morreu em 430, durante o cerco deles a sua Hipona.

Foram feitas tentativas, em particular pelo general romano


Aécio, de estabelecer um pouco de ordem na solução da questão
relacionada com as tribos bárbaras.
Houve alguns triunfos transitórios: Aécio venceu uma tropa huna sob o
comando de Átila, a qual então rumou para o sul, em direção à Itália,
saqueando cidades na
planície do Pó, e só não atacou Roma porque o papa havia pago tributo.
Mas, após a morte de Aécio, os imperadores romanos do Ocidente não
passavam de chefes nominais,
estando o verdadeiro poder concentrado nas mãos de chefes de tribos
germânicas. Um desses chefes, Odoacro, depôs o último imperador, Rômulo
Augústulo, e governou
a Itália como rei bárbaro. Conceitualmente, ele o fez como regente do
imperador do Oriente em Constantinopla, mas na verdade o Império Romano
do Ocidente, como entidade
política distinta, havia chegado ao fim.

44

O NOVO TEMPLO

Todavia, isso não significou "o desaparecimento de uma


civilização: foi cão-somente a falência de um aparato de governo que já
não poderia ser sustentado".``''
Os bárbaros, que continuaram a ser minorias nas terras que conquistaram,
não se opunham ao Império, e a idéia de destruí-lo nunca lhes passou
pela cabeça: "a concepção
de que o Império era universal demais, augusto demais, duradouro demais.
Estava em toda a parte ao redor deles, e eles não conseguiam lembrar-se
de nenhuma época
em que não tivesse sido assim".''SA organização social e as tradições
culturais do Império Romano sobreviveram à extinção da administração
centralizada única nos
condados, à medida que ducados e reinos começaram a tomar forma: o
principado ostrogodo na Itália; um Estado visigodo na Espanha e na Gália
até o Loire; e mais ao
norte o reino dos francos sólios. Antes do fim do século V, os francos,
sob seu rei Clóvis, haviam se transformado na potência dominante ao
norte dos Alpes. Após
a derrota dos alamanos e dos visigodos, o domínio franco estabeleceu-se
entre o Reno e os Pireneus. Por volta de 498, Clóvis tornou-se cristão
junto com todos os
seus barões - conta-se que ele teria testemunhado um milagre no túmulo
de Maninho de Tours.

O batismo de Clóvis, a exemplo da conversão de Constantino, foi de


momentosa importância para o futuro da Igreja cristã. Contudo, os dotes
que cada parte agora trouxe
para essa união entre o secular e o espiritual eram muito diferentes do
que tinham sido século e meio antes. Clóvis não era o chefe de governo
de um Estado imenso
e bem administrado, mas o líder de uma horda de lutadores ferozes e sem
educação. Ele não podia conceder aos bispos, como Constantino fizera,
pródigas dotações,
privilégios fiscais e os emolumentos de funcionários civis graduados.
Tudo o que ele podia oferecer eram as almas de seu povo selvagem e o
compromisso de proteger
a Igreja universal ou "Católica".

Por outro lado, a Igreja tinha muito a oferecer ao chefe


bárbaro, pois possuía uma organização intacta, à qual a do Estado romano
servira de modelo. No topo
da hierarquia estava o patriarca do Ocidente, o bispo de Roma, agora
chamado papa (do grego pappas, ou "pai"), com cardeais como chefes de
departamento de sua administração.
Abaixo dele, no que restara das maiores cidades do arruinado Império,
estavam os arcebispos; e na maioria das cidades de alguma importância,
um bispo com um corpo
de diáconos e padres letrados. A Igreja era portanto rica, pois recebera
de imperadores cristãos generosas doações de propriedades rurais; por
conseguinte, após
o colapso do comércio e da legalidade, tinha condições de prover tanto O
bern_estar material quanto moral aos povos sob seus cuidados. Com o
colapso das instituições
políticas e administrativas do mundo romano, o
OS TEMPLÁRIOS

episcopado tornou-se a única força moral e, graças ao seu patrimônio


imobiliário, o único recurso econômico que restara para o povo. O bispo
substituía o Estado
como provedor de serviços públicos, fornecendo alimentos aos pobres,
resgatando prisioneiros e cuidando do bem-estar dos presos. Hospícios',
hospitais, orfanatos
e até estalagens eram anexos de igrejas e mosteiros.
A Igreja assumiu mais do que as funções do extinto Império: era
o Império Romano na mente do povo. Ser romano era ser cristão; ser
cristão era ser romano.
Depois de Justiniano, "o mundo mediterrâneo passou a considerar a si
mesmo não mais como uma sociedade na qual o cristianismo era apenas a
religião dominante, mas
uma sociedade totalmente cristã. Os pagãos desapareceram nas classes
mais elevadas, e mesmo no campo (...) o não-cristão constatava que era
um fora-da-lei num Estado
unificado"."
Num sentido real e consciente, os bispos da Igreja Católica
assumiram as responsabilidades da classe senatorial romana: essa foi "a
hipótese básica por trás
da retórica e do cerimonial do papado medieval 11.41 Desde os primórdios
da Igreja cristã, o bispo de Roma vinha reivindicando ascendência em
questões espirituais
não apenas como patriarca do Ocidente, mas como o sucessor de Pedro, a
quem o próprio Cristo dera as chaves do reino do céu e o poder de "ligar
e desligar", isto
é, de determinar o que era verdadeiro e o que era falso; e na época das
invasões bárbaras, a jurisdição romana era aceita em todas as dioceses
do Império do Ocidente.
Agora, à supremacia espiritual do papa, na ausência de um imperador, foi
acrescida a autoridade de primeiro magistrado da cidade de Roma.

Mesmo que por algum tempo a cidade tivesse estado em declínio,


ela continuava, de longe, a maior e a mais populosa cidade do Ocidente.
Alguns dos majestosos
edifícios e esplêndidos monumentos tinham sido desmantelados por seus
habitantes para serem usados como material de construção, mas ainda
restava muito de seu glorioso
passado. Seu povo era conservador; as antigas famílias senatoriais ainda
eram preeminentes; e as influências pagãs continuavam fortes. Quando
Alarico e seus visigodos
ameaçaram atacar a cidade em 408, o prefeito e o Senado propuseram
sacrifícios aos deuses pagãos.
Suas invocações fracassaram, e o mesmo aconteceu com a
iniciativa diplomática do papa Inocêncio I. Os visigodos, sob o comando
de Alarico, capturaram e pilharam
Roma. Contudo, quase cinqüenta anos mais tarde, o papa Leão I foi a
Mântua, onde Átila, o líder dos hunos, conseguiu convencê-lo a
permanecer longe de Roma. Em 455,
ele encontrou Gaiserico, líder dos vândalos, fora dos muros da cidade; e
embora suas tentativas de evitar

Casas de hospedagem para viajantes, dirigidas por uma ordem religiosa.


(N. do T)

46

O NOVO TEMPLO

que pilhassem a cidade tivessem malogrado, a seu pedido eles desistiram


de fazer mal à população.

Mais de um século depois, outro papa, Gregório, o qual, a


exemplo de Leão, veio a receber o título de "o Grande", enfrentou uma
invasão lombarda e tornou-se
ele próprio responsável pelo bem-estar dos cidadãos de Roma. Oriundo de
uma família abastada e aristocrática, e parente de dois papas
anteriores, Gregório não apenas
fez uso de seus próprios recursos para mitigar o sofrimento dos pobres,
como também nomeou reitores para elevar ao máximo as receitas
provenientes do "patrimônio
de São Pedro" - grandes propriedades espalhadas por toda a Europa que
pertenciam ao papado. Em 593, quando o rei lombardo Agilulf sitiou a
cidade, Gregório assumiu
o comando das tropas e convenceu os lombardos a partir.
Na ausência de qualquer autoridade secular efetiva, Gregório
tornou-se governante de facto da Itália. Recrutou tropas, nomeou
generais e celebrou tratados,
mas isso não foi percebido como um afastamento radical da tradição. "Ao
tempo de Gregório, a distinção mais tarde feita entre questões
espirituais e seculares não
estava clara: os homens nunca haviam pensado num divórcio entre a
autoridade política e uma base religiosa. '141 Ele se empenhou com igual
zelo em obter o bem-estar
da Igreja, impondo o celibato ao clero e um rígido código para a eleição
de bispos. Era tolerante com os judeus: em 599, ordenou reparação após a
profanação de uma
sinagoga em Caraglio, no norte da Itália, e repreendeu os bispos de
Aries e Marselha por permitirem o batismo compulsório de judeus em suas
dioceses. Como seu antecessor
Leão, insistiu na autoridade universal do bispo de Roma, combateu a
heresia, e diz-se que a visão de anglos louros pagãos sendo vendidos
como escravos em Roma induziu-o
a enviar Agostinho e um grupo de quarenta monges beneditinos para
pregarem o Evangelho em sua terra natal.

Gregório, o Grande, foi o primeiro papa que era monge, e o crescimento


do ri onasticismo é o segundo progresso na história da Igreja cristã que
influencia nossa
compreensão dos templários. A palavra "monge" procede do grego monos e
significa "sozinho" ou "solitário". Não foi usada pelos cristãos até o
século IV porque até
meados do século III os monges cristãos eram desconhecidos. A Igreja
primitiva era encontrada sobretudo nas cidades e, a julgar pelos Atos
dos Apóstolos, seus membros
mantinham seus bens em comum. "Nós partilhamos tudo", escreveu
Tertuliano, "menos nossas esposas."
Todavia, nem todos os homens e mulheres entre os cristãos
primitivos se casavam. Desde o começo a virgindade era considerada como
um sinal de dedicação total
a Deus. Paulo de Tarso, a quem se atribui a pecha de não olhar as
mulheres com bons olhos, julgava que era bom se casar, mas melhor

47
OS TEMPLÁRIOS

permanecer celibatário: ele esperava um iminente fim do mundo e,


portanto, via o casamento como uma distração despropositada. Também
salientou que aqueles que eram
casados tinham de considerar o bem-estar de seus cônjuges, ao passo que
os solteiros podiam dedicar-se integralmente a Deus. Uma leitura
imparcial de suas epístolas
sugere que ele não era nem puritano nem misógino, conforme costuma ser
retratado. No que se refere às relações sexuais, ele recomendava a
maridos e mulheres que
dessem um ao Nutro aquilo que por direito lhes cabia esperar. Apesar de
a princípio prescrever que os viúvos não deveriam contrair novas
núpcias, mais tarde mudou
radicalmente de opinião, afirmando que é melhor casar-se do que viver
atormentado pelo desejo sexual ("é melhor casar-se do que ficar
abrasado").
Contudo, parece certo que Paulo e os cristãos primitivos
consideravam o casamento um obstáculo à perfeição. O apreço pelo
celibato, embora possivelmente
encontrado nas seitas essênias, foi um desvio da doutrina judaica de que
homens e mulheres deveriam obedecer à ordem de Deus no Li'ro do Gênesis:
"Sede fecundos,
multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a"; mas veio do conselho do
próprio Cristo quando ele louvou "eunucos que se fizeram eunucos por
causa do Reino dos Céus",
acrescentando: "Quem tiv-,r capacidade para compreender,
compreenda".49ISSO levou a um culto da virgindade na Igreja primitiva
que algumas vezes foi longe demais:
no século, III o jovem Orígenes foi censurado por ter interpretado ao pé
da letra o que Jesus dissera, infligindo-se uma automutilação que mais
tarde ele veio a
lamentar.

Em sua história, Eusébio descreve com aprovação como jovens


cristãs, durante os períodos de perseguição, preferiram a morte à
desonra. Dominina e suas duas
filhas "em plena flor de seu encanto juvenil", aprisionadas por serem
cristãs e enviadas sob escolta para Antioquia, "após terem viajadp
metade do percurso (...)
recatadamente pediram aos guardas que as desculpassem por um momento e
atiraram-se no rio que corria ali perto".So

O cânon dos santos tem muitas dessas "virgens e mártires" desse


período, mas ainda não existiam freiras ou monges. Viver como cristão e
estar pronto para
morrer por suas crenças era considerado o bastante. Somente após a
conversão de Constantino e a transformação da Igreja de uma seita
perseguida numa instituição
rica e privilegiada é que se t)rnou vantajoso ser cristão e possível
praticar essa religião com um mínimo de, zelo. Entre a maioria dos
cristãos, os padrões de piedade
declinaram, mas p--rmaneceu um pequeno número que conservava o espírito
fervoroso da igreja primitiva e tentava fugir das preocupações políticas
e materiais do mundo.
A riqueza crescente da Igreja parecia contradizer a recomendação de
Cristo ao jovem rico: "Vende tudo que tens e distribui aos pobres". E a
seguir: "Como é difícil
aos que têm riquezas entrar no Reino de Deus".5'

48

O NOVO TEMO

Os primeiros exemplos de cristãos que aceitaram as palavras de


Cristo são encontrados no Alto Egito - primeiro Paulo, que aos quinze
anos, para escapar da
perseguição no tempo do imperador Décio, foi viver numa caverna perto de
uma palmeira e de uma fonte. Ele aí permaneceu pelos próximos noventa
anos sem companhia
de nenhum outro ser humano, até ser encontrado por outro eremita,
Antônio, pouco antes de sua morte. Antônio, um rapaz de Hieracômpolis,
também no Alto Egito, após
a morte de seus pais em cerca de 273, tomou providências para a educação
da irmã, em seguida vendeu todos os seus bens restantes e deu o produto
da venda aos pobres.
Ele também foi morar numa caverna no deserto próximo, vivendo a pão e
água, que consumia uma vez ao dia. Vários admiradores juntaram-se a ele,
que afinal fundou
dois mosteiros, para os quais formulou uma regra de vida. Sua fama era
tamanha, que o imperador Constantino pediu-lhe quf orasse por ele, ao
passo que Atanásio,
bispo de Alexandria, escreveu un relato de sua vida.

O exemplo de Antônio foi contagiante. As décadas que se seguiram


à sua morte testemunharam um verdadeiro êxodo para o deserto de homens
que procuravam aproximar-se
de Deus, vivendo sozinhos em lugares remotos, em cavernas, cabanas
improvisadas ou edifícios abandonados, comendo apenas o suficiente para
a mera sobrevivência,
infligindo severas penitências a si mesmos e devotando sua vida de
vigília à oração. A princípio, esses eremitas reuniam-se apenas para
assistir à missa e receber
conselhos de eremitas mais velhos; mas em seguida foram criadas
comunidades que aceitavam a direção de um líder ou "pai" escolhido.
Pacômio, que viveu de 286 a 346
d.C., chefiou um grupo que acrescentou o voto de obediência à pobreza e
à castidade e redigiu um código penal para transgressões. Ele é
considerado o primeiro abade,
palavra oriunda de abba, o equivalente hebraico de "pai°°,

O exemplo dos eremitas egípcios foi seguido na Síria e na


Palestina. Na Síria, alguns acorrentavam a si mesmos às paredes rochosas
de suas cavernas ou viviam
ao ar livre, sem nenhuma proteção contra as forças da natureza. Sua
reputação de santidade atraía multidões de seguidores à procura de
orações e conselhos. A fim
de evitá-los, refugiavam-se ainda mais no deserto; Simeão, o Estiliza,
por exemplo, passou a viver numa plataforma no alto de uma coluna de
dezoito metros de altura,
de onde se podiam ouvir não os desvarios de um fanático, mas palavras
sensatas e de solidariedade. O imperador Marciano visitou-o incógnito, e
sob influência de
Simeão a imperatriz Eudóxia deixou de apoiar os heréticos monofisitas e
retornou ao credo ortodoxo.
OS TEMPLÁRIOS

Jerônimo, um erudito romano que traduziu a Bíblia para o latim e


trabalhou como secretário do papa Dâmaso, viveu entre os eremitas no
deserto a leste de
Antioquia. Basílio, oriundo de uma família rica e ilustre da Capadócia,
na Ásia Menor, viajou pelo Egito, pela Síria e pela Palestina a fim de
visitar as numerosas
comunidades antes de regressar e fundar seu próprio mosteiro na
propriedade de sua família em Annesi, às margens do rio Íris, perto de
uma comunidade de freiras
fundada por sua irmã Macrina. Ele rejeitou as proezas individuais dos
eremitas em favor de uma vida comunal em que a oração era mesclada com
trabalho físico e obras
de caridade: um orfanato e uma oficina para os desempregados eram anexos
a seu mosteiro. Embora não tenha escrito nenhuma regra, Basílio é
considerado o fundador
do monaquismo na Igreja do Oriente.

O movimento monástico propagou-se para o Ocidente. João


Cassiano, monge primeiro em Belém e mais tarde no Egito, foi enviado
pelo patriarca de Constantinopla
numa missão a Roma e depois permaneceu no Ocidente, estabelecendo-se em
Marselha. Ele fundou dois mosteiros, um deles na Ìle des Lérins, e
escreveu duas obras sobre
a vida monástica, Institutos e Conferências, que foram usadas pelo pai
do monaquismo no Ocidente, Bento de Núrsia, na formulação de sua regra.

Como vimos, Agostinho de Hipona pensava que a conversão sincera


ao cristianismo levava inevitavelmente a alguma forma de vida monástica,
mas foi chamado
da reclusão monástica para ajudar a administrar a Igreja. O mesmo se deu
com Martinho de Tours, filho de um oficial do exército romano e ele
próprio um soldado que,
embora tivesse nascido na Hungria, estava estacionado em Amiens, no
norte da França, onde, após dar metade de seu manto a um mendigo, teve
uma visão na qual ele
cobria os ombros de Cristo. Após deixar o exército por volta de 355/6,
Martinho viveu por algum tempo como eremita, primeiro numa ilha da costa
italiana e depois
numa pequena comunidade de eremitas perto de Poitiers.

Sua santidade e os milagres que lhe foram atribuídos fizeram com


que fosse eleito bispo de Tours. Foi consagrado em 4 de julho de 371, a
despeito das objeções
de alguns outros bispos e da nobreza local de que ele não era fidalgo e
parecia "desprezível, com roupas sujas e cabelos em desalinho". Mesmo
como bispo, viveu uma
espécie de vida de eremita num mosteiro que fundara fora de Tours. Era
diligente na repressão do paganismo, destruindo santuários e derrubando
árvores sagradas.
Os poderes milagrosos que lhe eram atribuídos continuaram após sua morte
e, como vimos, supostamente levaram à conversão de Clóvis. Martinho foi
o primeiro cristão
que morrera de morte natural a inspirar o culto a um santo.

O NOVO TEMPLO

Contudo, entre os bispos, Martinho era a exceção, e não a regra,


e o progressivo envolvimento do clero regular em assuntos seculares nos
últimos anos do
Império Romano, associado à selvageria que prevaleceu após o colapso do
Império no Ocidente, levou aquelas pessoas de índole bondosa e pia a
criar numerosas pequenas
comunidades isoladas do mundo

com nenhum interesse fora de seus muros, a não ser o de ajudar o próximo
e os viajantes, material e espiritualmente. Mesmo no interior dos muros
não havia trabalho
específico. Os monges a princípio não eram nem sacerdotes nem eruditos,
e não havia elaboração de cântico ou ritual. Eles viviam juntos para
servir a Deus e salvar
suas almas.5z

Esse pluralismo monástico sofreu uma transformação pela influência de


Bento de Núrsia, a figura mais importante no estabelecimento do
monaquismo na Europa Ocidental.
Ele nasceu por volta do ano 480 numa família da pequena nobreza que
vivia ao sul de Roma e nos montes Sabinos. Enviado a Roma para ser
educado, ficou tão estarrecido'com
a dissipação dos romanos que abandonou a cidade e viveu como eremita
numa caverna na encosta de uma montanha em Subiaco. Pouco depois vieram
juntar-se a ele outros
rapazes que queriam partilhar seu modo de vida. Em algum momento entre
520 e 530, em conseqüência de uma intriga, abandonou a comunidade em
Subiaco com um grupo
de prosélitos e mudou-se para Cassino, onde, depois de demolir um templo
a Apolo que encontrara no cume de uma montanha, fundou o mosteiro de
Monte Cassino.

Foi aí que ele escreveu sua regra, um código de conduta para


seus monges que veio a estabelecer o modelo da fé religiosa na Europa
Ocidental pelos seiscentos
anos seguintes. Ao compô-la, Bento lançou mão das experiências de
Basílio e das obras de João Cassiano; mas o teor da obra reflete a
extraordinária personalidade
de Bento. Em sua sensatez, ela baseia-se na herança romana do autor; em
seu fervor, na intensa fé que ele possuía. A regra demonstra uma
judiciosa apreciação da
realidade da vida numa comunidade e uma verdadeira compreensão das
forças e fraquezas inerentes à natureza humana. O abade, escolhido pela
comunidade, estava investido
de absoluta autoridade, mas ao exercê-la ele tinha a obrigação de
"harmonizar todas as coisas de modo que os fortes ainda possam ter algo
por que ansiar, e os fracos
não tenham de recuar com temor". Os regulamentos para a vida diária
determinavam o que os monges deviam comer e beber e o que deviam usar.
Seu hábito era preto,
e o material poderia variar a critério do abade, de acordo com o clima e
a estação do ano.
OS TEMPLÁRIOS

A dieta dos monges era pobre: Bento insistia numa perpétua


abstinênâa de carne e estabelecia períodos de rigoroso jejum. Os monges
tinham de cntoar o ofício
divino-orações e salmos-em determinados momentos do lia e da noite e,
quando não estavam orando, ou à mesa, ou na cama, tinham le passar o
tempo estudando, pregando
e sobretudo executando algum tipo le trabalho braçal. Laborare est
orares Trabalhar é orar. Os monges trabalha•am nos campos, o que tornava
cada mosteiro auto-suficiente,
e no escritó-

io, copiando textos em velino, não só os livros da Bíblia, mas também as


abras de autores clássicos. Todo mosteiro tinha de possuir uma
biblioteca, e cada monge
devia ter uma pena e tabuinhas para escrever.
Bento viveu em tempos sombrios. Os godos haviam estabelecido um
eivo na Itália e lutavam para defendê-lo das forças de Justiniano,
imperador lo Ocidente, comandadas pelo grande general Belisário. Em 546,
ano anteior à morte de
Bento, os godos capturaram Roma e deixaram-na em ruínas: a cidade foi
completamente abandonada por quarenta dias. Foi retomada por lelisário,
sucumbiu de novo aos
godos, e sua libertação final pelo exército de ustiniano causou uma
devastação tão grande que Gibbon a considerou "a iltima calamidade do
povo romano". Durante a
vida de Bento, a Itália tinha lassado do crepúsculo do mundo antigo para
a escuridão da Idade das Treus; mas naquela obscuridade os mosteiros
beneditinos da Europa
Ocidenal "tornaram-se centros de luz e vida (...) preservando e mais
tarde difun(indo o que permanecera da cukura e espiritualidade
antigas".53 Com o pasar do tempo,
eles tornaram-se parte essencial não só da cultura, mas ambém da
economia européia, porque, enquanto reinos eram guerreados e randes
Estados se dissolviam, os mosteiros
freqüentemente continuavam atactos.

Antes de morrer, diz-se que Bento enviou um de seus monges, chamado


Mauro, para fundar um mosteiro em Glanfeuil, nas proximidades de Angers,
ia França. Mosteiros beneditinos agora cresciam perto dos
estabelecimenos do missionário
celta Columbano existentes em Annegray, Luxeuil e
lontaine, nos Vosgos, que, junto com a Abadia de Bobbio, na Itália,
também Lindada por Columbano, abandonaram por fim o código rigoroso e
inflexível lue Columbano
trouxera de Bangor, na Irlanda, em favor da regra mais Iranda de São
Bento.

Como vimos, em 596 o papa Gregório I, que também era monge benedi-
ino, enviou Agostinho, prior da Abadia de Santo André, em Roma, com qua
enta de seus irmãos beneditinos, numa missão a Ethelbert, o rei pagão de
lent. Em 633, os beneditinos foram para a Espanha. Na Inglaterra, os
missio
ários beneditinos entraram em contato com católicos celtas que haviam
ido afastados de Roma devido às invasões bárbaras. Em 664, no Sínodo de

O NOVO TEMPLO

Whitby, eles retornaram ao redil romano. Seguiu-se uma onda de


entusiasmo religioso no norte da Inglaterra. Benedict Biscop,
companheiro de combate do rei Oswy da
Nortúmbria, abandonou a carreira militar para tornar-se padre e, após
visitar Roma e tornar-se monge na Ìle des Lérins, regressou à Inglaterra
em 669 para fundar
mosteiros em Jarrow e Wearmouth. Em 690, um beneditino inglês,
Willibrord, também da Nortúmbria, embarcou com destino ao que são hoje
os Países Baixos a fim de pregar
aos frísios pagãos. Acompanhou-o Bonifácio, outro beneditino inglês,
desta vez de Devon, o qual pregou o Evangelho às tribos pagãs da
Alemanha. Foi morto por frísios
pagãos e enterrado no mosteiro por ele fundado em Fulda, no Hesse.
As façanhas desses missionários beneditinos foram asseguradas
pelos estabelecimentos monásticos que se seguiram na esteira deles. Nos
dois séculos após a
morte de Bento de Núrsia, estes passaram radicalmente de refúgios
remotos para comunidades de eremitas a grandes complexos que
administravam extensas propriedades.
Em regiões como a Borgonha e a Baviera, os mosteiros tornaram-se
importantes centros cívicos e eram muitas vezes alçados a sés
episcopais, nas quais tanto a autoridade
política quanto a espiritual estavam combinadas no monge-bispo.
Principados tais como Colônia, Mogúncia e Würzburgo viriam a ser
governados por seus bispos até serem
secularizados por Napoleão em 1802.

Os pagãos também tiveram seus mártires, e em certos casos era


difícil distinguir conversão de conquista. Após a conversão de Clóvis,
os francos tornaram-se
os paladinos da Igreja, e esta, o patrono dos francos. Nessa altura
ocorrera uma fusão entre os galo-romanos e seus conquistadores francos.
Casamentos mistos tinham
se tornado freqüentes, e era cada vez maior o número de "romanos" que
haviam trocado seus nomes romanos por outros francos. Por volta do
século VII tinha surgido
uma aristocracia "francesa", descrita pelo historiador Ferdinand Lot
como "uma classe turbulenta, beli-
cosa e ignorante, que desdenhava as coisas do espírito, incapaz de
mostrar-se à altura de qualquer noção política séria, e fundamentalmente
egoísta e indisciplinada
11.54

Em contraposição à sagacidade e à dedicação dos funcionários do


Império da Antiguidade, essa nova classe dominante buscava apenas seu
próprio enaltecimento
e era indiferente ao bem público. Com o colapso do comércio, a terra era
a única fonte de riqueza e, portanto, sua propriedade a única

base de poder. Havia costumes, mas nenhuma lei que pudesse impor limites
aos poderes dos reis. O barbarismo dos francos, descrito com certo vigor
pelo cronista Gregório
de Tours, alcançou seu nadir sob os sucessores merovíngios de Clóvis,
quando, escreve Ferdinand Lot, "o rei enlameava-se na libertinagem e
seus cortesãos o imitavam.
Na segunda metade do século VII e no
OS TEMPLÁRIOS

século VIII era ainda pior: o soberano era literalmente um degenerado


cheio de vícios que morria jovem, vítima de seus próprios excessos".`
Devido à mediocridade desses monarcas merovíngios, o verdadeiro
poder passou para as mãos dos primeiros-ministros dos reis, conhecidos
como "prefeitos do
palácio", mais notavelmente Carlos Martel. Seu filho, Pepino, o Breve,
foi encorajado pelo papa Zacarias a depor o último rei merovíngio,
Childerico III, e foi coroado
rei dos francos em Soissons, em novembro de 751, por Bonifácio, o
missionário de Devon, agora arcebispo e legado pontifício.

Esse pacto entre o papado de um lado e os reis francos de outro


permaneceria em vigor pelos próximos quinhentos anos. Os mosteiros
também foram beneficiados
com a aliança. A classe baronial vivia vidas mergulhadas em violência,
traição e luxúria; todavia, eles implicitamente acreditavam na doutrina
cristã e, receosos
da danação, dotavam comunidades de monges, cujas orações e austeridade
redimiriam seus pecados. O mesmo sentimento levou bispos, comprometidos
por seu envolvimento
no mundo secular, a fundar mosteiros em suas dioceses e assegurar-lhes
privilégios e isenções. "A partir do século VII não havia um único nobre
ou bispo que não
quisesse assegurar a salvação de sua alma por meio de uma fundação desse
tipo."56 Abadias como a de Saint Germain-des-Prés, nos arredores de
Paris, tinham se tornado
enormemente ricas ao fim do período merovíngio.
E assim como os guerreiros francos faziam uso das orações dos
monges, os monges tiravam o máximo proveito da bravura dos guerreiros.
As guerras movidas pelos
francos contra os saxões a leste do Elba no século VIII não visavam
apenas a proteger sua fronteira e exigir tributo, mas "como guerras de
cristãos contra bárbaros
que eram também pagãos, elas tinham desde o início um matiz
religioso".5' A resistência dos saxões não só aos francos mas também ao
cristianismo era mais recalcitrante
do que se pensara a princípio, e duras medidas foram tomadas para
persuadi-los das vantagens da submissão e da conversão. Agora pela
primeira vez entramos numa era
"na qual mosteiros são fortalezas, e o batismo, o símbolo da submissão".
18 Em 782, os francos massacraram quatro mil e quinhentos prisioneiros
saxões e deportaram
ou escravizaram o resto. Três anos mais tarde, o rei saxão Widukind
rendeu-se e foi batizado, acontecimento celebrado pelo papa com três
dias de ação de graças.
-O rei franco que ordenou esse massacre foi Carlos, neto de
Pepino, o Breve, que, como os papas Leão e Gregório, veio a ser
agraciado com o título de "o
Grande". Com ele, o pacto entre os reis dos francos e os papas de Roma
atingiu sua realização mais plena. No ano 800, Carlos, um prodígio de
piedade, coragem e erudição,
e agora senhor da maior parte da Europa, chegou a

O NOVO TEMPLO

Roma à frente de seu exército, onde foi recebido com cerimônia e


reverência por Leão III, que havia ascendido ao trono papal cinco anos
antes.

Durante os trezentos e vinte e quatro anos anteriores, nenhum


imperador havia reinado em Roma; agora julgava-se que em Bizâncio o
trono estivesse vago, porque
a atual beneficiada, a imperatriz Irene, havia deposto e cegado seu
filho, Constantino VI, e, ainda mais importante, era mulher. No dia de
Natal, Carlos foi assistir
à missa na basílica construída sobre o túmulo do apóstolo Pedro, usando
as vestes e as sandálias brancas de um patrício romano. Quando a leitura
do Evangelho chegou
ao fim, o papa Leão levantou-se do trono, aproximou-se do chefe franco,
que estava ajoelhado, e depositou a coroa imperial em sua cabeça. Da
assembléia de fiéis
romanos e francos que se comprimiam na basílica elevou-se um clamoroso
grito: "A Carlos Augusto, coroado por Deus, grande e pacífico imperador,
vida longa e vitória!"
O sumo pontífice curvou-se em obediência ao novo César. "A partir
daquele momento", escreve Sir James Bryce, "teve início a história
moderna."s9
OS TEMPLÁRIOS

No decurso de apenas alguns anos Maomé firmou sua autoridade em


Mediria, e nesse caso em conseqüência dos ataques de surpresa que
organizou e mais tarde
liderou contra as caravanas dos mercadores de Meca. A princípio, tais
ataques eram apenas escaramuças em pequena escala: em abril de 623, um
grupo de sessenta muçulmanos
interceptou uma caravana que se dirigia da Síria a Meca. Um deles
disparou algumas flechas contra a escolta, o primeiro ato de agressão em
nome do Islã. No ano seguinte,
uma força de oitocentos homens de Meca investiu contra Maomé, mas foi
derrotada na batalha de Badr, que deixou um saldo de quarenta e cinco
mortos e setenta prisioneiros.
Essa vitória fez sua autoridade e prestígio aumentarem. Quer sua
vitória, como Maomé acreditava, tenha sido uma prova da graça de Deus,
quer não, ela convenceu alguns
dos que não haviam participado da batalha a aceitar o islamismo. Ao
mesmo tempo, Maomé estabeleceu vínculos com as tribos autóctones de
Mediria, casando-se com várias
mulheres.

Dois dos homens capturados em Badr eram poetas: a suprema


conquista cultural dos árabes nômades desse período eram suas epopéias
orais, relatos das bravas
façanhas de seus heróis recitados sob as estrelas. A desventura desses
dois poetas foi o fato de terem escrito versos criticando Maomé: um
dissera que suas próprias
histórias eram tão boas quanto as do Alcorão. Ambos foram executados por
ordem de Maomé. O clã judeu dos qorayzah sofreu grave punição por ter
conspirado contra
Maomé - os homens foram executados, e as mulheres e as crianças,
vendidas como escravas. Mais tarde, na medida em que os judeus
abandonaram sua oposição ao islamismo,
Maomé permitiu que vivessem em Mediria sem serem molestados.
Em 630, Meca finalmente capitulou. Maomé, com dez mil
seguidores, foi admitido no templo sagrado, a Caaba, e a veneração da
pedra negra foi a única concessão
que ele fez às antigas crenças dos árabes.ó3Todos os demais ídolos
pagãos foram destruídos. Conquanto nem todos os habitantes de Meca
tivessem adotado o islamismo,
dois mil alistaram-se no exército que ele comandou contra uma coalizão
de nômades hostis e, quando ela foi derrotada, repartiram a presa entre
si. As tribos da Arábia
estavam agora unidas sob Maomé e sujeitas à disciplina do islamismo;
mas, uma vez que isso implicava que eles não poderiam mais lucrar com a
pilhagem uns dos outros,
foram forçados a procurar saques e conversos em outros lugares.
Em 630, Maomé seguiu para o norte à frente de trinta mil
guerreiros, a fim de assegurar a submissão dos governantes de Eilat,
Adhruh e Jarba, na fronteira
com a Síria. Ele percebeu que "para seu contínuo bem-estar, o Estado
islâmico tem de encontrar rumo ao norte um meio para dar vazão à energia
dos árabes"6" e que
isso significava desafiar o Império

O TEMPLO RIVAL

Bizantino. Regressou à Arábia, onde morreu em 632, após liderar uma


peregrinação a Meca.

Como podemos explicar o poder de atração de Maomé? Ao contrário de


Jesus, ele não fez milagres. A visão que teve no ano 620, na qual
cavalgava um corcel celestial,
el-Buruq, com o anjo Gabriel, até o monte do Templo, em Jerusalém, para
encontrar Abraão, Moisés e Jesus, e daí ascendia ao trono de Deus
passando pelos sete céus,
essa visão é comparável ao relato da transfiguração de Cristo e foi uma
das razões por que Jerusalém se tornou uma cidade sagrada para o
islamismo; mas ela "parece
ter sido uma experiência pessoal para o próprio Maomé, porque não
continha nenhuma revelação que pudesse ser incluída no Alcorão".6'
Pode-se dizer que o êxito de Maomé não resultou do exercício de
um poder sobrenatural sobre a natureza, mas de seu sagaz apelo ao
egoísmo material e espiritual
dos árabes de seu tempo. Maomé prometeu o paraíso àqueles que morressem
em batalha e pilhagem aos que não o fizessem. Quando suas forças
atingiram uma massa crítica,
passou a ser vantajoso para outras tribos juntar-se a elas; e seu
monoteísmo singelo era fácil de compreender. A autoridade do Profeta não
apenas pôs fim à incessante
rixa entre as tribos, como também conferiu um senso de identidade aos
árabes, como aquele que os abissínios, os persas, os cristãos bizantinos
e os judeus já possuíam.
O islamismo era uma religião árabe, e não, como as outras fés
disponíveis, algo que viera de fora.
A estabilidade política causada pelo islamismo era útil para
todos: mesmo os judeus e os cristãos, "os Povos do Livro", podiam obter
a proteção do Profeta
pelo pagamento de um imposto. Para eles, contudo, o credo do Islã era
menos atraente. Os judeus desdenhavam o uso de sua escritura por Maomé e
achavam a improvisação
do anjo Gabriel um absurdo que dispensava explicação. Inicialmente,
Maomé dissera a seus seguidores que orassem voltados para Jerusalém;
mais tarde, depois da rejeição
de sua mensagem pelos judeus, ele os acusou de falsificar a escritura, a
fim de ocultar que a Caaba havia sido de fato construída por Abraão, e
instruiu os muçulmanos
a orar voltados para Meca. Para Maomé, "o Islã era a religião de Abraão
ressuscitada impoluta e que fora abandonada pelos judeus".66
Os cristãos também julgavam impossível dar crédito a revelações
que reescreviam a história de forma tão arbitrária e ingênua. A mais
ofensiva de todas era
a insistência de Maomé em que Jesus não era o filho de Deus; na verdade,
era uma blasfêmia sugerir que Deus iria dignar-se de aparecer sob forma
humana. Isso não
significava que ele desprezasse Cristo por considerá-lo uma fraude:
antes pelo contrário, ele era um profeta como Abraão e
OS TEMPLÁRIOS

Moisés, e Maria, sua mãe, uma virgem. E porque Deus amava tanto o filho
de Maria, sua crucificação tinha sido uma ilusão: Deus não permitiria um
destino tão cruel
e ignóbil.
Havia outros aspectos do islamismo que o apologista cristão
contrastava desfavoravelmente com sua religião. Enquanto Jesus pregara o
amor e a não-violência,
Maomé convertia pela espada. Enquanto Jesus abençoara os mansos e os
pobres de espírito, Maomé exaltava o guerreiro vitorioso. Enquanto Jesus
insistia em que seu
reino não era deste mundo, Maomé fundou um império teocrático. Enquanto
Jesus pedia a seus seguidores que carregassem sua cruz e aceitassem o
sofrimento, Maomé oferecia
o produto de pilhagens, concubinas e escravos. Jesus prometia o paraíso
numa vida após a morte, e Maomé, prosperidade nesta vida e o paraíso num
mundo vindouro.
Não há contraste mais forte entre as duas religiões do que na
sua doutrina sobre a moral sexual. Jesus insistia na monogamia por toda
a vida; Maomé permitia
que um homem tivesse até quatro esposas e quantas concubinas quisesse.
Enquanto Jesus havia rescindido a Lei de Moisés e proibido o divórcio,
Maomé permitia que
um homem encerrasse um casamento com uma simples declaração. Jesus
apreciava o celibato e era celibatário; Maomé condenava o celibato e
tinha uma concubina cristã
e nove esposas.
Muitos desses casamentos eram, sem dúvida, de conveniência, e
seu objetivo era criar vínculos com clãs até então hostis. Todavia, os
homens do seu tempo
ficaram chocados pelo fato de uma das mulheres de Maomé ter desposado o
filho adotivo dele. Com outra, Aixa, ele se casou quando estava com
cinqüenta e três anos
e ela apenas com nove. Ele havia mandado construir um aposento separado
ou uma pequena suíte para cada uma de suas mulheres em volta do pátio de
sua casa em Mediria,
e supostamente se orgulhava de satisfazê-las todas numa única noite.
Quando uma delas ficou com ciúmes de seus afagos a uma prisioneira
egípcia, o anjo Gabriel mandou
Maomé repreendê-la. "Os interesses de Deus em detalhes, em particular em
detalhes relacionados com a vida privada do Profeta, de vez em quando
desnorteavam os fiéis
(... ), mas Alá apoiava o Profeta e silenciava seus críticos."6'
Evangelizadores cristãos deram grande importância a esses
aspectos da vida de Maomé, bem como a certos casos de traição que
sugerem que, na causa do Islã,
ele acreditava que o fim justificava os meios. Mas está claro que ele
não era considerado imoral pelos homens do seu tempo, e na verdade
elevou os padrões éticos
da sociedade em cujo seio nascera. Ele prescrevia honestidade, humildade
e frugalidade. Proibiu o infanticídio e insistiu no cuidado de membros
vulneráveis da sociedade,
em particular viúvas e órfãos. Criou uma estrutura familiar e uma forma
de seguro social que eram um avanço considerável em relação ao que
existia antes, e das tribos
nôma-

O TEMPLO RIVAL

des da Arábia fez uma nação que conquistou um vasto império e fundou uma
grande civilização.

A escolha de um sucessor de Maomé (califa, do árabe khalifah) foi


disputada entre diferentes membros de sua família e acabou levando à
divisão do islamismo em sunitas,
seguidores de Abu Bakr, pai de Aixa, a jovem esposa de Maomé, e xütas,
seguidores de Ali, marido de Fátima, filha de Maomé. A princípio, Ali e
seus adeptos aceitaram
a eleição de Abu Bakr e, devido à sua morte, ocorrida dois anos depois
da de Maomé, também aceitaram a eleição de Ornar, outro genro do
Profeta. Foi Ornar quem comandou
os muçulmanos numa vitoriosa campanha de conquista. A Síria bizantina e
o Iraque capitularam em 636. O Egito caiu em poder do exército de Ornar
em 641, e no ano
seguinte ele era senhor da Pérsia.
Por que dois antigos impérios, a Pérsia e Bizâncio, foram
incapazes de resistir à investida do Islã? Ambos estavam enfraquecidos
após uma longa guerra de
um contra o outro e, no caso de Bizâncio, contra as tribos bárbaras que
o rodeavam ao norte, em particular os ávaros. Àquela altura, importantes
mudanças tinham
ocorrido nessa parte oriental do Império Romano. O latim fora
substituído pelo grego e, sob o imperador Justiniano no século VI, uma
extensa área do Império do Ocidente,
abrangendo partes da Itália, da Sicília e do norte da África, tinha sido
retomada de seus conquistadores por exércitos bizantinos.

Heráclio, prefeito, ou exarca, da província norte-africana, com


o hediondo derramamento de sangue que invariavelmente acompanhava uma
sucessão bizantina,
subira ao trono imperial em 610. Nos primeiros anos de seu reinado, a
Ásia Menor e a Palestina foram invadidas pelos persas. Em 614, eles
capturaram Jerusalém com
a ajuda dos judeus, que, em retaliação conta os maus-tratos infligidos
pelos bizantinos sob Justiniano, aliaram-se aos persas na destruição de
igrejas e lares cristãos."
A relíquia da Verdadeira Cruz foi transladada para a Pérsia como um
troféu de guerra.
Em 626, Constantinopla foi cercada por um exército misto de
persas e ávaros. Nesse momento desfavorável de sua sorte, a fé cristã
dos bizantinos é que veio
salvá-los, pois, no curso dos séculos VI e VII, a aliança entre a Igreja
e o Estado havia se tornado tão estreita que equivalia a uma fusão
virtual. Em muitas partes
do Império, patriarcas, bispos e o clero haviam assumido as funções do
serviço público imperial; e o imperador, embora distinto do patriarca,
considerava-se chefe
e paladino da Igreja. "A chave para compreender o Império Bizantino é a
noção de que o imperador era o instrumento de Deus designado por
inspiração divina para realização
de Seus desígnios na terra mediante a difusão da fé cristã (...)
ortodoxa. 1169
OS TEMPLÁRIOS

Essa profunda fé foi conservada pelos regentes


liturgia cantada e a composição de hinos, junto cot
Cristo, da Virgem Maria, dos apóstolos e dos santos 'y
estimularam um fervor no meio da populaça que era j
imperador Heráclio, quando ávaros pagãos e persas y
diante dos portões de Constantinopla. O patriarca
muros da cidade segurando alto um ícone de Cristo; ~~
teis do inimigo, pintavam-se nos muros imagens d
Jesus. O cerco aumentou e, numa campanha que p f"~,
descrita como uma cruzada, as tropas bizantinas iw'~
recuar de volta a Nínive, na Mesopotâmia, onde em P~
Em 630, num triunfo digno dos imperadores da rj
devolveu a Verdadeira Cruz a Jerusalém. a

No entanto, apenas oito anos mais tarde Jerusal


eitos do Islã. Após a vitória sobre os persas, o exércl~
desmobilizado, e as forças que se reuniram para resìl~
mana foram derrotadas na batalha do rio Yarmuk. Mal )
que acolheram com alegria o invasor - os judeus,' Ç,

r~

tolerância oferecida pelos muçulmanos à perseguy~ cristãos ortodoxos,


mas também a maioria dos cri ¡, rejeitava a doutrina ortodoxa sobre a
natureza dual q

prio patriarca e hierarquia e também havia sido perso~l crenças


heréticas.

Além do mais, como recompensa pela rendição assegurado a vida e


os bens dos habitantes cristãos,~

santuários intactos. Leais aos preceitos do Profeta, p\ Povos do Livro


foi leve. Se eles pagassem o necessárì ~ freqüência mais baixo do que
aquele então cobradó
b~ zantinos, as comunidades conquistadas poderiam s~

giões e viver de acordo com suas próprias leis. Os d~\~

maneceram a casta dominante e eram mantidos pep~ ditos, mas continuaram


a ocupar fortalezas nas froqp ~4P^i

Esse regime também foi uma das razões para os q~l sita do Egito,
darem as boas-vindas aos invasores m~ t~9J metrópole de língua grega no
Mediterrâneo, que
~ ~'l província e sede de um patriarca ortodoxo, finalme~brp Daí as
tropas árabes marcharam para leste, ao longodtj j~ África. Por volta de
714 elas haviam chegado
à Ásiprrus' Índia, no Oriente, ao passo que no Ocidente tinha~l

de Gibraltar e, saudadas como libertadores pelos

OS TEMPLÁRIO,

~r,póstolos e dos S

',I da populaça q
I~,yaros pagãos e p
Yr,1tinopla. O patr¡
p,,um ícone de Cr¡
~~ ?s muros image

,9~i,1a campanha qp
¡;;topas bizantina
`Ir .potâmia, onde e
pi,'a imperadores

i,~.isalérp.

~ ,mais tarde Jerus


'?s persas, o exér
lo11;eunirarn para r

Di ,'i o rio Yarmuk.

~°'r - os judeus,
V rnos à persegu¡

~~¡ marori.a dos cri


~;~i, natureza dual d
VU havia sido perse

f pela rendição d ,í -]ri tes cristãos, e -pr.s do Profeta, o j • `;''m


o necessário í

i,
s,0',,,,°ntão cobrado
~ s poderiam seg
as leis. Os árab

lanudos Pelos *i
zas nas fronteir
ões para os copt

vasores In uçulrn
ìneo, que era c

~o> finalmente
ao longo dos d
ado à Ásia Cen

rte tinham atra Pelos judeus,

O TEMPLO RIVAL
do Império r= responsável í~ptão ansiosamente repletos de proezas
culturais nas genros anos, de ü0 a 950, alização hurAana.I°
r)7ai5 distilltis árers da real

ca doradourára das origens do islamismo foi a adoção da língua


ú¡Iica mar Ias . Na Síria. e na Palestina, o árabe pouco a pouco
nas terras
1Irb~ìtulu o grego como língrlgua oficial no curso do século VII, e por
volta do
wb era de Isso comum, s`' sendo o gtego ou o aramaico falados
apenas em
a~b0 o em partes do sul.' Embora uma tolerância bási
kt~ ~ do norte; o htbraico e Jivro" continuasse um princípio do governo
islâ-
om osPovas do Liv
pPa a G ,e ursva o memesmo tratamento diante da Lei ou o direito
de
p~o. elg não as, g igualdade da vida pública da comunidade. A ten
ki.4par em eordiçáes de igI
icial a fwordos crist;rstãos e contra os judeus foi mudando
lentamen
lo o califa al-Mutawakkil, que reinou entre 847
;e ~npdo quePortxemplop ' q
~de o aos cristãos fazendo-os "atar faixas de lã em tor
egyexpressou>ua versão ac
roda~abeça (.„ e sealgum hn homem entre eles tivesse um escravo, ele
tinha de lutar duas iras de pano ano de cores diferentes em sua túnica,
na frente e

;, a perseguição era mais rigorosa. Gibbon registra aq~,~z ~m


cert? ocasiões, a 1,

eomow',,Io Sul da iália,"a divertversão dos sarracenos era


profanar e também pi
16~0, mosteiros= as igrejas", as", e como, no cerco de Salerno,
um chefe mu
ç°Imae ,0 estende seudivã junrlunto à mesa de comunhão e, no altar,
sacrificava
ca , uma freira".'3 O proselitismo cristão era proibido,
dar pite a virg¡~adede uma

e aa°c ~ açâo públia a Maomé ené era punida com a morte, mas esse tipo
de martíri°P'~ece ter vi (nado apenasenas aqueles que o procuravam,
como, por exempl°~p,~lro
de Caltólia, um eren eremita da Transjordânia que em 751 foi apedrciad
até a mos por pregar egar abertamente contra o islamismo; e os
cinqueqtriromens elulheres
que' que em Cérdova, em 850, pregaram em público Vhda~ Ne superiodo
cristianis
ianismo e tiveram o mesmo destino.

OS::~)eregr¡no~cristãos tinh tinham permissão para visitar a Terra Santa


e, Rla~ ~eo5 ocasioris de de terneterminados governantes, não eram
molestados.
FropaOciden1 Nr(-,,,rijnos da cidental viaavam à Palestina ou
por terra através
,
IVyo Brzanto, ou nos naus navios darepública mercantil de Amalfi, no sul
~li ~ Os merc~ores de Am,- Amalfi co>tstruíram um hospício em Jerusalém
~0 °llidado de)eregrinos
duos doente;. Conquanto o comércio fosse uma ~to% Se core-,pado com o
inn ° intensoiluxo no apogeu do Império Romano, Vy°. seda do ciente (.
„) e. ~ ~. ) eram vendidos
nos mercados de Pavio na déde~80; e c,mios mais taras tarde, no ruge das
invasões viquingues, o monbe Fle4ryìde descarréscarregar seu desprezo
por aqueles homens
cuja taAZinha sìdorbrandada pada por artgos de luxo do Oriente, ricas
vesti~oúlpura çOro, pedras 'edras preciosas e couro de Antioquia"'.'4

65
OS TEMPLÁRIOS

Em Jerusalém, a Igreja do Santo Sepulcro permaneceu sob o


contra] dos cristãos. Contudo, um santuário foi construído para
rivalizar com o loc da Ressurreição
de Cristo: a Cúpula da Rocha. Anteriormente, ao entrar a ~ em Jesuralém
(era a vez de seu servo montar seu cavalo), o califa Ornar tin ido orar
no monte do Templo,
abandonado desde que Juliano, o Apósta havia tentado reconstruí-lo, e
agora usado pelos habitantes bizantinos eo depósito de lixo. Para os
muçulmanos, todavia, a
rocha era sagrada men por ser "o mais distante Templo" (em árabe
masjidel-aksa) da Viagem Not na do Profeta, como descrito em 17:1 do
Alcorão, do que por ser o Tem
dos Profetas de Israel. Ele portanto construiu a mesquista ai-Aqsa na
ext midade sudoeste do monte do Templo, e Jerusalém tornou-se, junto c
Meca e Mediria, um dos
três lugares de peregrinação muçulmana.

Cinqüenta anos depois, o califa omíada Abd al-Malik decidiu


const uma segunda mesquista sobre a rocha na qual Abraão havia preparado
Is para o sacrifício
e da qual Maomé havia ascendido ao céu. Foi o primeiros

"`~

tuário importante construído pelo Islã e continua a ser uma das


maravil' arquitetônicas do mundo. Com um traçado matemático comparável
ao rn soléu de Diocleciano
na Dalmácia, e seguindo os mesmos princípios usa na construção de
algumas igrejas em Ravena no século VI, foi decorada artesãos sírios
cristãos com um esplendor
que intimidava seus visitante, que dava a judeus e cristãos a impressão
de que suas religiões tinham s suplantadas pelo islamismo. Como o
Profeta havida condenado
como id tria a representação de seres animados, vegetação e motivos
geométti formam o rico fundo do mosaico que reproduz as jóias imperiais
de gov, vantes bizantinos
e os ornamentos usados em imagens de Cristo.

Esses símbolos de outra fé lá estão como troféus de um Islã


triunfam ~ para fazer a mensagem ser compreendida por quem porventura
não a tive, compreendido,
há uma inscrição onde se lê:
t.

Ó vós, povo do Livro, não ultrapasseis as fronteiras de vossa religião,


e de D
dizei somente a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, é apenas um
apó .
lo de Deus, e de sua Palavra, que ele transmitiu a Maria, e de um
Espírito
dele se originou. Acreditai, portanto, em Deus e em seus apóstolos, e
não di
Três. Será melhor para vós. Deus é apenas um Deus. Que esteja longe de
glória ter um filho. ,,

Como Jerome Murphy-O'Connor escreve ao citar essa inscrição em


inestimável guia da Terra Santa, "Um convite para abandonar a crença'
Trindade e na divina Filiação
de Cristo dificilmente poderia ser expresso termos mais claros 11.75

66

O Templo Reconquistado

Na península Ibérica, a conquista muçulmana mal havia terminado quando o


contra-ataque cristão ou Reconquista começou. Nobres visigodos que
haviam se retirado para
as montanhas das Astúrias somaram suas forças às dos habitantes nativos
para resistir aos invasores, e por volta de 722, dez anos antes da
derrota do exército muçulmano
por Carlos Martelem Poitiers, eles venceram em Covadonga uma força
islâmica sob a liderança de Pelágio. Mais tarde ocuparam a Galiza, na
extremidade noroeste da
península, e estabeleceram uma fronteira ao longo do rio Douro entre a
Espanha cristã e a muçulmana.

No Oeste da Espanha, a feroz tribo dos bascos reconquistou a


independência, e pouco antes do fim do século VIII os francos de Carlos
Magno invadiram a Catalunha,
capturando Barcelona em 801. Contudo, os acréscimos mais importantes à
cristandade no Ocidente, nos séculos IX e X, resultaram da derrota e
conversão de tribos pagãs
no Norte e no Leste da Europa: os saxões, os ávaros, os vendes, os
eslavos. A cristandade bizantina também se expandiu por meio de uma
mescla de conquista e conversão.
Embora ainda não houvesse uma clara divisão entre a Igreja Ortodoxa
Bizantina e a Igreja Católica Romana, havia certa competição pela
sujeição de reis convertidos.
O patriarca de Constantinopla ficou com o reina dos rus,' cuja capital
era Kiev, junto com a Bulgária e a Sérvia; ao papa couberam a Hungria e
a Polônia.

Apesar dos esforços missionários de Ansgário e Rembert no século


IX, o cristianismo só criou raízes na Escandinávia no século X. Os
viquingues, cujos ataques
piratas quase haviam destruído o cristianismo celta, converteram-se
tarde; entre os primeiros estava Rolão, que em 918, com um grupo de
seguidores, havia fundado
uma colônia no vale do baixo Sena com a san-

Entre os varegos, tribo escandinava que, durante a segunda metade do


século IX, penetrou na Rússia pelo Volga, destacavam-se os rus, grupo
que deu origem ao nome
Rússia.

G7
OS TEMPLÁRIOS

ção do rei da França. Devido à sua proveniência, eles eram conhecidos


como os homens do Norte - Nordemann em alemão, normand em francês.
A ameaça do islamismo não saía da mente dos líderes cristãos, mas sua
força' bélica era em grande parte dissipada ao combaterem uns aos
outros. Na Gália, sob os
reis merovíngios, onde contendas entre membros da nobreza: "nada mais
pareciam do que a luta de animais selvagens"," o Estado tinha sido
incapaz de assegurar até
mesmo a mais rudimentar ordem pública. Parai sua própria segurança e a
de sua família, um homem não tinha alternativa. senão comprar a proteção
de um vizinho poderoso,
prestando-lhe algum tipo de serviço, em geral como guerreiro em suas
guerras particulares. Era; também a única forma de proteger suas terras,
as quais, com o colapso
do., comércio e a administração paga, eram a única fonte de
subsistência. Ó~ termo usado para a promessa do subordinado era
vassalagem, e aquele par seu "pagamento"
era benefício, por via de regra a concessão de terras, mas às~ vezes a
renda de instituições eclesiásticas. O pacto era selado com votos
solenes, e apesar de se
utilizar a linguagem da servidão, tornava-se "umas posição cobiçada, um
sinal de honra pelo menos quando implicava vassala gem direta ao rei"."
Teoricamente, esse sistema feudal era uma pirâmide que, em sua
base abrangia toda a sociedade ocidental. Na verdade, a posição no topo
era dis putada entre
papas e imperadores; o vínculo era nocional entre imperador e reis, e
problemático entre reis e seus barões. Os laços mais eficazes era
formados entre os grão-duques,
os condes e os príncipes - descendentes dos vassalos dos soberanos
carolíngios -, cujos domínios territoriais era grandes o suficiente para
manter uma força permanente
de vassalos e, po, tanto, permanecer independentes do Estado. Seus
vassalos, por sua vë contavam com a lealdade de cavaleiros menos
importantes, cujas posses m teriais
poderiam ser apenas um cavalo, uma lança, uma espada e um escud mas os
que descendiam da casta de guerreiros carolíngios tornavammembros da
elite social. Em teoria,
se não na prática, essa lealdade era u questão de escolha: por mais que
seus recursos fossem parcos e sua orige

humilde, o cavaleiro permanecia um homem livre de acordo com a lei e tin


o direito de ser julgado num tribunal público.

Alguns vassalos dependiam inteiramente do senhor feudal, até


mesm! no que dizia respeito a cavalos e armaduras. Outros, apesar de
receberel~ propriedades
como benefício, também poderiam possuir terras por direi próprio ou como
arrendatários de uma instituição eclesiástica. Embora

vassalo pudesse ter um profundo sentimento de lealdade para com o senh


de quem era um "homem", e por uma questão de honra se

O TEMPLO RE CONQUISTADO

gaçâo de participar de suas vinganças sua promessa não era por tempo
ilimitado, e sim determinada pelo costume e pela lei: por exemplo, sua
obrigação de prestar
serviço militar limitava-se a quarenta dias. Sua lealdade também poderia
mudar, caso uma das partes não fosse capaz de cumprir com o seu dever;
os cavaleiros prestavam
seus serviços a príncipes diferentes que pudessem fornecer-lhes cavalos
ou remunerá-los. O elo entre o senhor e o vassalo não era
necessariamente hereditário, mas
tendia a tornar-se hereditário: as uniões consangüíneas produziam uma
cousinagé que constituía a base da lealdade ao clã.

A violência também era endêmica no império do Oriente e nos califados do


Islã, onde cada sucessão geralmente dava ensejo a uma guerra civil; mas,
ao passo que um
imperador bizantino ou um califa podiam concentrarem suas mãos todas as
rédeas do poder de um Estado unificado, os diferentes principados que
haviam surgido no
Império do Ocidente nunca mais se uniriam sob um único soberano depois
de Carlos Magno.
Isso teve graves conseqüências para o papado, que, com a
desintegração do império de Carlos Magno sob seus belicosos sucessores,
"foi deixado indefeso no
ninho de serpentes da política Italiana"."0 último papa eficiente desse
período foi Nicolau I (858-67). Durante os cem anos que se seguiram à
sua morte, o posto
de sucessor de São Pedro tornou-se o disputado privilégio de influentes
famílias romanas, tais como os Teofilactos. Em 882, João VIII foi o
primeiro papa assassinado:
sua própria comitiva espancou-o até a morte. Estêvão VI mandou exumar o
cadáver de seu predecessor, o papa Formoso, e entronizá-lo em seus
trajes pontificais, a
fim de que ele pudesse ser condenado por perjúrio e abuso de poder. Os
três dedos de sua mão direita, que ele usara para abençoar seu rebanho
foram decepados e seu
corpo atirado no rio Tibre. Pouco depois Estêvão foi deposto por
partidários de Formoso, encarcerado e em seguida estrangulado.

A depravação íntima de muitos desse s papas não significava


necessaria
mente que eles fossem incompetentes n a administração da Igreja.
João X,
conduzido ao trono de São Pedro pela influente família
Teofilacto, organi
zou uma coalização de Estados italianos contra os muçulmanos,
que haviam
devastado o território romano durante os Sessenta anos
anteriores, e liderou
a força que após um cerco de três meses tomou a fortaleza deles
na foz do
n° Carigliano. Dois dos papas nomeados pelo déspota romano
Alberico II
óao VII e Agam pito II) foram reformadores sinceros e eficientes.
Até mes
João XI, o filho bastardo de Marózia Teofilacto, sancionou uma
reforma

rciginal: parentesco de primos. (N. do T)


OS TEMPLÁRIOS

da Igreja estreitamente relacionada com a hiia dos templários: ele somou


sob a proteção direta do pontífice romancla comunidade de monges
beneditinos de uma abadia
na Borgonha chanl Cluny.

Cluny foi fundada em 910 pelo duque de Aquia, Guilherme, o Pio, para
expiar os pecados de sua juventude e assegur,aa salvação no mundo
vindouro. O homem por ele
escolhido para liderabmunidade foi Berno, eue descendia da nobreza
burgúndia e era na épocibade da remota Abadiade Baume. Com Berno, o
duque escolheu um excnte local
para sua instituição nas colinas a oeste do rio Saône.
Durante o século anterior, o monacato beltino havia entrado em
declínio. As generosas dotações de gerações pasls haviam tornado os
rnosteiros ricos e, portanto,
vulneráveis a demançAos descendentes de seus antigos benfeitores. Sua
receita era usada paarantir o futuro dos filhos mais jovens da nobreza
local, os quais, mesm;m
vocação religiosa, eram impingidos às comunidades religiosas como pis ou
abades. Os bispos locais, com freqüência aparentados com os senis
seculares, também usavam
esses cargos monásticos para recompens,us dependentes.
A fim de assegurar a eleição livre de seu ae, a comunidade de
Gluny foi colocada pelo duque Guilherme sob a prot) direta do papa em
Roma, enquanto Berno
levou a cabo reformas para d o declínio da prática monástica e restaurar
os rigores da regra originalBento de Núrsia. O movimento floresceu, e
fundou-se uma rede
de muros subsidiários que ficou sob a direção da comunidade em Cluny.
Odo sucessor de Berno como abade de Cluny, solicitou ao papa João XI
queendesse a proteção
papal a um novo mosteiro em Deols. Como Berno, Odbrovinha da nobreza
franca e estabeleceu a tradição cluniacense de mongristocráticos mas
genuinamente humildes,
sagazes mas devotados ao vemo, cultos mas também simples, e sempre
espirituosos e joviais.
A origem nobre de Odon lhe possibilitav:riferenciar facilmente
com papas e príncipes, e eles, por sua vez, confiavnele. O papa Leão VII
convidou Odon a Roma,
onde ele negociou um alo entre Alberico II e o rei Hugo da Itália e deu
início a reformas das lunidades monásticas em Roma e nos Estados
Pontifícios, entre elas
aroeira abadia de Bento de Núrsia em Subiaco. Sucedeu-lhe uma série
qbades capazes, virtuosos e longevos -Aymard, Mayeul, Odilo, Hugo, PÇ--
Pedro, o Venerável -,
os quais, juntos, cobriram um período de duzen-- onze anos. A exemplo de
Odon, eles tornaram-se amigos e conselheiro; imperadores, reis, duques e
papas. Em 972,
enquanto cruzava os Alpes, ;verendo abade Mayeul de Cluny caiu presa de
atacantes sarracenos proentes de sua base em Fra-

O TEMPLO RECONQUISTADO

aentum, na Provença. Ele foi mais tarde resgatado, mas esse escandaloso
ato de banditismo desencadeou uma reação que por fim expulsou os
muçulmanos da França.`
A influência de Cluny no século seguinte à sua fundação viria a
ser imensa: dos seis papas que foram monges entre 1073 e 1119, três eram
de Cluny; contudo,
não foi o zelo reformista dos beneditinos cluniacenses que tirou o
papado da mira da corrupção, mas a intervenção de imperadores alemães.
Após a morte de Carlos
Magno, o princípio teutônico de divisão igual entre os herdeiros de um
rei havia triunfado sobre o princípio romano da transmissão de um
império indivisível. Sua
herança havia portanto sido repartida em três: a França no oeste, a
Alemanha no leste, e entre ambas um longo e estreito reino que se
estendia de Flandres a Roma
e que veio a ser chamado de Lotaríngia (em alemão, Lothringen; em
francês, Lorraine) por ter sido dado a seu filho mais velho, Lotário,
que também herdou a coroa
imperial.
O século que se seguiu à morte de Carlos Magno assistiu "ao
nadir da ordem e da civilização"," e só quando os príncipes alemães
escolheram os duques saxôes
como seus líderes é que o conceito do papa Leão III de um novo imperium
romano renasceu de forma modificada, com soberania sobre a Alemanha e
partes da Itália conferida
a um príncipe alemão. Esse "Sacro Império Romano" foi essencialmente um
produto da imaginação criativa do duque da Saxônia, Óton I, ou Óton, o
Grande, que, depois
de vencer os magiares, marchou através dos Alpes em 951 a fim de
reivindicar seus direitos sobre a Itália. Tendo sido reconhecido como
rei da Itália e de Pavia,
ele conduziu seu exército aos portões de Roma, onde, após comprometer-se
a respeitar as liberdades da cidade e a proteger a Santa Sé, ascendeu ao
altar da Igreja
de São João de Latrâo com sua rainha, Adelaide, e foi coroado imperador
pelo corrupto e jovem papa João XII.
Essa revivescência do Império Romano não foi apenas um
expediente político ou uma ficção pitoresca. A Europa Ocidental havia
atingido a compreensão de si
mesma como "uma sociedade singular, num sentido em que não fora antes e
que não tem sidó desde então".8" Embora a lealdade imediata de um homem
fosse devotada a
seu senhor feudal, ele não se autodefinia como inglês, francês ou
alemão, mas como cristão, cujo domínio universal da fé era visível não
só na Igreja, mas também
no Estado. `A primeira lição do cristianismo era o amor, um amor que
devia unir num só corpo aqueles que a suspeita, o preconceito e o
orgulho da raça até então
haviam mantido separados. Assim, por intermédio da nova religião,
formou-se uma comunidade dos fiéis, um Sacro Império (...)", que
transformou "em sinônimos os nomes
romano e cristão".82 Não poderia haver igrejas nacionais, porque ainda
não

71
OS TEMPLÁRIOS

existiam naçôes; se o homem apolítico da Idade Média tivesse sido capaz


de conceituar seu senso de comunidade, ele teria dito que vivia num
Estado universal.

Lamentavelmente, raras vezes se obtinha a cooperação do papa e


do imperador, da qual esse governo universal dependia; e à medida que os
reformadores cluniacenses
iam ganhando terreno dentro da Igreja, sua determinação de emancipar o
clero da interferência de poderes laicos chocava com a autoridade dos
imperadores. Um fator
agravante era a importância atribuída pelos papas em Roma à sua posição
como príncipes seculares. A base legal para sua reivindicação de uma
extensa área da Itália
central era a suposta "Doação de Constantino", o qual, em agradecimento
de uma milagrosa cura de lepra nas mãos do papa Silvestre I, tinha
legado Roma e partes indefinidas
da Itália aos sucessores de São Pedro. O documento que comprovava essa
doaçâc foi forjado em meados do século VIII, após o rei franco Pepino
ter salvado:) papa Estêvão
II dos lombardos e confirmado a Doação de Constantino como a Doação de
Pepino. Fosse qual fosse o caráter legal da falsificação, os francos
aceitaram-na como válida,
e poder-se-ia pensar que o direito de conquista levou os Estados
Pontifícios a constranger Pepino a fazer a doação. Todavia, ela foi
contestada com veemência pelos
imperadores bizantinos - que, como vimos, reclamavam grandes partes da
Itália e governavam de Ravena por meio de seus exarcas-e também acabou
sendo pleiteada por
imperadores do Ocidente, que se consideravam os herdeiros dos Césares e,
por conseguinte, plenos soberanos de todos aqueles territórios que um
dia tinham feito parte
do Império Romano.

Em conseqüência dessas alegações em contrário dos imperadores do


Oriente e do Ocidente, a política dos papas em Roma visava sempre a
manter um equilíbrio
de poder na Itália, o que lhes permitia fazer os pratos da balança
pender a seu favor. Mas a soberania sobre os Estados Pontifícios de modo
algum era a única diferença
entre os papas e os imperadores alemães. Os príncipes seculares tinham
mais poder ainda para fazer nomeações eclesiásticas dentro de seus
domínios. Teoricamente,
um abade era escolhido por sua comunidade e um bispo pelo clero de sua
diocese, mas, como vimos no caso de Maninho de Tours, a eleição deles
era com freqüência contestada.
Não se tratava apenas de uma questão da capacidade espiritual de um
candidato, mas sobretudo de suas lealdades e filiações políticas. Por
todo O antigo Império Romano
os bispos tinham assumido a tarefa da administração secular em suas
dioceses. Graças a doações anteriores, eles também haviam se
transformado em poderosos proprietários
de terras, com vassalos armados às suas ordens. Em particular na
Alemanha, dioceses como as de Colônia, Münster, Mogúncia, Würzburgo e
Salzburgo eram principados

O TEMPLO RECONQUISTADO

soberanos. A lealdade do homem que brandisse a croça era portanto de


importância decisiva para o imperador do Sacro Império Romano e para os
príncipes alemães; mas
o direito à croça vinha com o pálio, a faixa de lã branca usada sobre os
ombros que era o símbolo de seu posto e que cabia ao papa conceder.

As crescentes dissensões entre o papa e o imperador resultaram


numa ruptura ^,shlica durante o pontificado de Hildebrando, homem
descendente de uma Família
modesta da Toscam que tinha sido o indispensável conselheiro dos quatro
papas anteriores, antes de ter sido escolhido papa por aclamação popular
em 1073, adotando
o nome de Gregório em homenagem a Gregório, o Grande. Como seu ilustre
predecessor, Gregório era um homem de inteligência e capacidade
excepcionais, com longa experiência
na administração da Igreja. Dedicou-se com todo o empenho à promoção da
reforma, promulgando decretos contra a simonia (a venda de nomeações
eclesiásticas) e o casamento
de sacerdotes, mas também proibiu a investidura leiga de bispos, medida
que provocou um conflito direto entre ele e o imperador Henrique IV Este
convocou um sínodo
de bispos alemães para depor Gregório, o qual, por sua vez, excomungou
Henrique e desobrigou seus súditos dos votos de vassalagem, pois entre
as exigências que ele
fez para o pontífice romano em seu Dictatus papae estava um supremo
poder legislativo e judiciário sobre todos os príncipes, tanto os
temporais quanto os espirituais.

A desobrigação de seus votos de fidelidade pelo papa foi


aproveitada pelos opositores de Henrique e obrigou o imperador, em 1077,
a procurar Gregório no
castelo de Canossa, no norte da Itália, e professar arrependimento e
pedir perdão, permanecendo descalço na neve diante do portão. Mas a
humilhação de Henrique em
Canossa não pôs fim ao conflito, que, em parte devido à natureza
obstinada de Gregório, continuou durante o seu reinado. Em 1084, ele
perdeu Roma para as forças
de Henrique e só foi libertado por uma nova potência que havia surgido
ao sul dos Estados Pontifícios: o reino normando da Sicília.

"A fundação dos reinos de Nápoles e da Sicília pelos normandos",


escreveu Gibbon, "é um evento mais romântico na sua origem, e nas suas
conseqüências mais importante,
não só para a Itália, mas também para o Império do Oriente."83 Apenas
algumas gerações depois de Rolão e seus viquingues terem se fixado no
norte da França, o ducado
da Normandia, cristão e francófono, tornara-se uma potência européia. Em
1066, o tetraneto de Rolão, Gui-
OS TEMPLÁRIOS

lherme, venceu o rei Haroldo da Inglaterra na batalha de Hastings e


assegurou seu direito ao trono inglês.

Ao contrário da conquista normanda da Inglaterra, a incursão


normanda no sul da Itália foi uma iniciativa privada tomada num
santuário do Arcanjo Miguel
no monte Gargano, que se projeta no mar Adriático, na Apúlia - a espora,
por assim dizer, da bota italiana. Aí, no início do século XI, um grupo
de peregrinos normandos
encontrou um exilado grego da vizinha cidade de Bari, então nas mãos do
Império Bizantino. Ao regressarem à Normandia, os peregrinos recrutaram
um exército de aventureiros
que cruzavam os Alpes disfarçados de peregrinos e, embora seu assalto a
Bari tivesse fracassado, transformaram-se num formidável bando de
mercenários muito solicitado
pelas potências em conflito na parte inferior da península Itálica - sua
bravura, energia, agressão e destreza em combate levaram-nos a esmagar
repetidas vezes as
forças consideravelmente maiores desdobradas contra eles pelas duques
lombardos de Nápoles, Salerno e Benevento, ou pelos agentes dos
imperadores em Constantinopla.
Para os rudes nortistas, era o momento oportuno para tomar esses
ricos territórios governados por "tiranos efeminados" - e no curso de
algumas décadas eles
estabeleceram seu domínio sobre o sul da Itália, e apenas as cidades do
litoral permaneceram nas mãos dos bizantinos. Depois de a princípio
apoiarem os bizantinos
em suas tentativas de reconquistar a Sicília aos muçulmanos, que a
haviam dominado por duzentos anos, os normandos traçaram seus próprios
planos. A numerosa família
dos Hautevilles, da pequena nobreza normanda, obteve ascendência sobre
seus pares barões. Em 1060, Rogério Guiscard capturou Reggio e Messina,
na costa da Sicília,
e, após trinta anos de lutas contra os muçulmanos, conquistou a ilha
inteira, ao passo que no continente italiano as cidades de Bari e
Salerno renderam-se a seu
irmão Roberto.
A princípio, os papas em Roma ficaram alarmados com ascensão
desses Estados normandos, e em 1053 o papa Leão IX comandou um exército
contra eles, o qual
foi derrotado na batalha de Civitate. O papa Leão foi feito prisioneiro,
mas foi bem-tratado pelos normandos, porque a concessão da coroa que
estes cobiçavam era
um direito dele. Ao perceberem uma vantagem num poder que poderia
contrabalançar o dos imperadores alemães, a política dos papas
modificou-se radicalmente. O papa
Nicolau II, aconselhado por Hildebrando, o futuro papa Gregório VII,
investiu os normandos com seus principados na Apúlia e na Sicília em
retribuição pelo reconhecimento
de sua suserania total e pela promessa de assistência militar. O papa
Alexandre II, também seguindo os conselhos de Hildebrando, enviou
estandartes e concedeu indulgências
a cavaleiros normandos e franceses que lutavam con-

O TEMPLO RECONQUISTADO

tra os muçulmanos na Sicília e na Espanha. A política deu bons


resultados quando os normandos, sob Roberto Guiscard, salvou Hildebrando
do exército do imperador
alemão Henrique IV. Todavia, os normandos opuseram-se tanto aos cidadãos
de Roma, que o papa teve de fugir para Monte Cassino e depois para
Salerno, onde morreu,
insistindo em que morria no exílio apenas porque tinha "amado a justiça
e odiado a iniqüidade".

As reivindicações de Hildebrando de uma autoridade total sobre os


poderes secular e espiritual para o cargo de papa trouxeram consigo um
senso de responsabilidade
para com os bens da cristandade; e uma de suas ambições não realizadas
foi o envio de um exército cristão contra o Islã. Até então, a ameaça
sarracena tinha estado
suficientemente perto de Roma, de modo que os papas deixaram os
bizantinos combater na frente oriental. Além disso, havia tanto uma
rivalidade endêmica com os gregos
bizantinos quanto desprezo por eles. Não foi apenas a tendência dos
imperadores bizantinos de arrancarem os olhos de seus rivais que
afrontava os cristãos católicos;
os próprios papas haviam recorrido a barbaridades do mesmo tipo. Mas os
gregos eram vistos como um povo traiçoeiro corrompido pela decadência do
Oriente. Os imperadores
bizantinos empregavam eunucos não apenas como guardiães de suas esposas,
mas também como altos funcionários da Igreja e do Estado. Apenas quatro
cargos lhes eram
vedados, e "como era de esperar, muitos pais ambiciosos mandavam castrar
seus filhos caçulas 11.14 O bispo italiano Liudprand de Cremona, que foi
enviado pelo imperador
do Ocidente, Óton I, numa missão diplomática a Constantinopla,
descreveu-a como "uma cidade repleta de mentiras, ardis, perjúrio e
cobiça, uma cidade rapace, gananciosa
e jactanciosa". Mas em todos esses juízos de valor ocidentais acerca da
capital bizantina havia sem dúvida certa dose de ressentimento contra a
arrogância dos bizantinos
e inveja de uma metrópole que ultrapassara Roma em tamanho e esplendor,
que nunca fora saqueada por um exército bárbaro e que, a despeito de
toda a crueldade ocasional
empregada no exercício do poder, era uma sociedade profundamente
religiosa, na qual as capacidades intelectuais eram tidas em alta estima
e o analfabetismo entre
as classes média e alta era virtualmente desconhecido.

Em outras palavras, o Império do Oriente, apesar de sua


suscetibilidade a influências orientais, havia conservado mais da
pujança do Estado romano unificado
da Antiguidade do que o Império do Ocidente. Ele havia mantido um
serviço público assalariado e um exército permanente disciplinado e
profissional. Ao contrário
dos exércitos adhoc de indivíduos indisciplinados encontrados na Europa
Ocidental, reunidos por períodos limitados de acordo com o costume
feudal, as unidades regulares
do exército bizantino po-
OS TEMPLÁRIO

diam ser treinadas para obedecer às ordens complexas de um estrategista


treinado na ciência militar. O Estado mais bem administrado do mundo
tinha nessa época seu
exército mais etlcaz.

Sérias divergências tinham surgido entre os ramos oriental e


ocidental da Igreja cristã sobre questões, tais como a primazia das duas
sés patriarcais, a
obediência religiosa de povos recentemente convertidos, como os
búlgaros, e sobre a doutrina - não só a notória cláusula filioque` no ~-
c,~o, a qual permanece incompreensível
para quase todos os teólogos mais eruditos, mas sobretudo a veneração de
imagens ou ícones de Cristo e dos santos. No século VIII, os imperadores
do Oriente haviam
se aproximado da posição muçulmana de que a veneração de ícones era
indistinguível da adoração de imagens esculpidas e, portanto, deveria
ser proibida. A controvérsia
subseqüente levou a um século de violência e perseguição: os papas em
Roma haviam condenado o iconoclasmo, o qual, se tivesse triunfado
através da cristandade, teria
matado na origem a arte pictórica, que veio a ser uma das mais sublimes
manifestações da civilização ocidental - não teria havido nem Fra
Angelico, nem Rafael, nem
Leonardo da Vinci. Todavia, o conflito havia afetado de maneira adversa
as relações entre os ramos grego e latino da cristandade, as quais
atingiram seu nadir com
a troca de anátemas e excomunhões em 1054.
Contudo, quando sobreveio o endêmico conflito entre Bizâncio e o
Islã, nunca houve a menor dúvida de que os latinos dariam uma prova de
lealdade a seus pares
cristãos do Oriente. Durante algum tempo, após a primeira onda de
conquista muçulmana, uma fronteira tinha sido estabelecida entre o
Império Bizantino e o califado
abácida de Bagdá na cordilheira de Tauro além de Antioquia, no extremo
sul da Ásia Menor. No início do século X, sob dois generais armênios, as
forças imperiais
empenharam-se numa campanha de reconquista que culminou com a retomada
de Chipre e do norte da Síria, incluindo a cidade de Alepo. Embora
Jerusalém ainda permanecesse
nas mãos dos califas fatímidas que governavam do Cairo, Antioquia,
cidade muito maior e também sede de um patriarca, estava de novo nas
mãos dos cristãos. Por volta
de 1025, o Império Bizantino estendia-se do estreito de Messina e do
norte do Adriático, no oeste, ao rio Danúbio e à Criméia, no norte, e às
cidades de Melitene
e Edessa do outro lado do Eufrates, no leste.
Todavia, essa supremacia militar não se manteve. Internamente,
uma mudança social a favor dos grandes latifundiários do Império tinha
levado ao desaparecimento
da classe de pequenos proprietários na Anatólia, os quais

Filioque, palavra latina que significa "e do filho", pertencente à frase


do credo católico: "Creio no Espírito Santo (...) que procede do Pai e
do Filho". (N. do
T)

O TEMPLO RECONQUISTADO

até então haviam fornecido tropas para o exército bizantino, e, por


conseguinte, a uma crescente confiança em tropas mercenárias; e
externamente havia aparecido
nas fronteiras orientais do Império Bizantino uma nova onda de
conquistadores islâmicos, os turcos seldjúcidas.

Os seldjúcidas eram uma tribo de saqueadores nômades originários das


estepes da Ásia Central que no século X haviam conquistado o território
do califado de Bagdá
e, adotando o islamismo, se autoproclamado os paladinos dos muçulmanos
sunitas. Ondas posteriores de membros de uma tribo turcomana afim
inspirados pela mesma mescla
de zelo religioso e paixão pela pilhagem, como os fundadores árabes do
islamismo, aproximaram-se com intenção predatória das fronteiras
orientais do Império Bizantino.
Em 1071, sob o sultão Alp Arslan, os seldjúcidas avançaram
contra um enorme exército bizantino em Manzikert, perto do lago de Van,
na Armênia, composto em
grande parte de mercenários que tinham sido reunidos pelo imperador
Romano IV Diógenes. Os bizantinos foram derrotados e o próprio imperador
feito prisioneiro por
Alp Arslan. Nada agora detinha o avanço das tropas turcas: as tribos
turcomanas moveram-se impetuosamente pela Ásia Menor, e antes de 1081
haviam tomado Nicéia,
a menos de cento e sessenta quilômetros de Constantinopla, e fundaram
uma província na Ásia Menor que, por ter feito parte do Império Romano,
foi denominada sultanato
de Rum.

A força dos bizantinos havia sido minada por sua necessidade de


combater numa segunda frente. No mesmo ano da batalha de Manzikert,
Bari, seu último baluarte
na Itália, havia se rendido aos normandos da Sicília, sob o comando de
Roberto Guiscard, que havia cruzado o Adriático, tomando o porto de
Dyrrhachium (Durazzo)
e planejado um avanço em direção a Tessalonica. Os bizantinos eram
impotentes para resistir a eles. AÁsia Menor, agora dominada pelos
turcos seldjúcidas, tinha sido
sua principal fonte de cereais e fornecido metade de seu potencial
humano. O outrora poderoso Império do Oriente tinha sido reduzido a um
pequeno Estado grego resistindo
ao aniquilamento. Nessa crise, os bizantinos tiveram o bom senso de
alçarAleixo Comneno, seu general mais competente, ao trono imperial. A
Providência também veio
em seu auxílio com a morte do líder dos normandos, Roberto Guiscard, e
do sultão seldjúcida Alp Arslan. Entretanto, a situação dos bizantinos
continuou crítica,
e portanto o imperador Aleixo apelou para seus confrades cristãos do
Ocidente.
A primeira aproximação de Aleixo da cristandade ocidental foi a
Roberto, conde de Flandres, que por volta de 1085 havia enviado um
pequeno contingente de
cavaleiros a Constantinopla. Talvez tenha sido Roberto

77
OS TEMPLÁRIOS

quem informou Aleixo de que o papa agora possuía muito mais peso na
Europa Ocidental do que o imperador do Oriente, e na primavera de 1095
delegados bizantinos chegaram
para o concílio da Igreja que estava sendo realizado em Piacenza, no
norte da Itália.

O papa que presidiu o Concílio de Piacenza foi um burgúndio


chamado Odon de Lagery, filho de uma família da pequena nobreza que
vivia em Châtillon-sur-Marne.
Sua origem era portanto a mesma dos líderes da reforma ciuniacense, e
sua educação também o tinha imbuído de zelo religioso. Ele teve aulas
nas escolas da catedral
em Reims com o excepcional Bruno, que em 1084 havia fundado uma
comunidade de monges num local remoto dos Alpes, próximo a Grenoble, a
casa-mãe da ordem dos Cartuxos,
Lã Grande Chartreuse (A Grande Cartuxa). Odon de Lagery fora ordenado
padre em Reims, e galgara todos os postos da administração
arquiepiscopal até tornar-se arcediago
da catedral, mas em 1070 abandonara o clero regular para tornar-se monge
em Cluny. Durante algum tempo ele serviu como prior sob o abade Hugo,
mas em seguida foi
chamado a Roma, onde Hildebrando, então papa Gregório VII, o nomeou
cardeal-bispo de Óstia. Em 1088, foi eleito papa e adotou o nome de
Urbano II.
Homem cortês, conciliador e de boa aparência, Urbano tinha em
comum com seu mentor, Gregório VII, a mesma alta apreciação de seu
cargo, mas era muito mais
diplomático no exercício de sua autoridade nas difíceis circunstâncias
da época. Sua política de conciliação estendeu-se a Bizâncio: em 1089,
no Concílio de Melfi,
ele havia suspendido o interdito de excomunhão do imperador Aleixo e
sido recompensado com gestos igualmente conciliatórios em
Constantinopla. A reconciliação encorajou
Aleixo a solicitar auxílio à Igreja latina. Seus embaixadores foram
admitidos no Concílio de Piacenza, e os padres do concílio ouviram sua
eloqüente descrição dos
sofrimentos de seus confrades cristãos no Oriente. No encerramento do
concílio, os bispos se dispersaram com uma clara compreensão da ameaça
representada pelo avanço
dos infiéis; ao passo que Urbano II, ao partir para a França, levou
consigo todo O ônus de sua responsabilidade pessoal, como O Príncipe dos
Apóstolos, paia com
o destino da Igreja universal de Cristo.

Após ter cruzado os Alpes, Urbano II foi primeiro para Valence sobre o
Ródano, e então para Le Puy, onde o bispo era outro prelado
aristocrático, Ademar de Monteil.
Ademar fora em peregrinação a Jerusalém alguns anos antes e poderia
ajudar o papa com sua experiência. De Le Puy, o papa Urbano convocou os
bispos da Igreja Católica
para encontrá-lo em Clermont, em novembro do mesmo ano. Em seguida,
tomou o rumo do sul, viajando para Narbonne, a apenas uns cento e
sessenta quilômetros da frente
ocidental da

O TEMPLO RECONQUISTADO

cristandade, no outro lado dos Pireneus. Ele agora estava na Provença,


na época governada por Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse e
marquês da Provença,
um experiente veterano que lutara contra os sarracenos na Espanha. De
Narbonne, Urbano II seguiu para leste, ao longo da costa do
Mediterrâneo, até Saint-Gilles,
no estuário do Ródano, e depois de novo para o norte, através do vale do
Ródano, até Lyon, aonde chegou em outubro. Daí ele foi para Cluny, na
Borgonha, onde já
tinha sido prior, e consagrou o altar-mor da grande igreja, que por
muitos anos seria a maior da Europa Ocidental. De Cluny ele cominou para
o norte, até Souvigny,
a fim de orar no túmulo do abade Mayeul, que no século anterior fora
seqüestrado pelos sarracenos enquanto cruzava os Alpes, recusara a tiara
pontifícia e era agora
reconhecido como um dos mais santos abades de Cluny.

Quais eram os pensamentos de Urbano enquanto rezava junto ao


túmulo de Mayeul? Sem dúvida, ele sentia que alguma coisa teria de ser
feita para ajudar o Império
Bizantino na sua luta contra os turcos seldjúcidas. Mas também havia um
interesse urgente da Igreja do Ocidente: o livre trânsito de peregrinos
para a Terra Santa.
Por muitos séculos, a peregrinação tinha sido parte essencial da vida
devocional dos cristãos. Todo ano, milhares e milhares de peregrinos
viajavam pela Europa para
orar nos santuários preferidos - o do Arcanjo Miguel, no monte Gargano,
que atraiu os cavaleiros normandos para o sul da Itália; o do apóstolo
Tiago, em Compostela,
na Galiza, no noroeste da Espanha -, às vezes começando na Abadia de
Vézelay, na Borgonha, que abrigava as relíquias de Maria Madalena, ou na
própria Abadia de Cluny.
Ou iam a Roma, a fim de orar diante dos túmulos dos apóstolos Pedro e
Paulo - como vimos, tratava-se de um grupo de peregrinos anglo-saxôes
que foram feitos em pedaços
quando saqueadores sarracenos atacaram Roma no século IX.

Contudo, o destino mais almejado de todos os peregrinos era a


Terra Santa, o solo pisado pelo Deus que se fez Homem: Nazaré, a cidade
de sua infância; Belém,
sua terra natal; e sobretudo o local de sua ressurreição dos mortos, a
Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém. A viagem era um empreendimento
caro e perigoso. A maneira
mais fácil de viajar à Palestina era pelo mar, num navio dos mercadores
de Amalfi, mas nesse caso corria-se o risco de pirataria e naufrágio. A
viagem por terra
tornou-se mais fácil com a conversão da Hungria ao cristianismo nos
primeiros anos do século XI, e até a invasão seldjúcida a rota de dois
mil e quatrocentos quilômetros
através do Império Bizantino, de Belgrado a Antioquia, era relativamente
segura; mas assim que penetravam na Síria islâmica, os cristãos poderiam
estar sujeitos
a ser molestados e a pagar onerosos pedágios.

79
OS TEMPLÁRIOS
Nada disso dissuadia os peregrinos, para quem os próprios riscos
e sofrimentos que a sua viagem implicava eram parte da sua finalidade.
Para muitos, "a peregrinação
era uma forma de martírio"85 que asseguraria a salvação da alma do
peregrino. Às vezes ela era imposta como uma espécie de penitência que
expiaria os pecados mais
graves; "a mais importante expressão da renovada espiritualidade no
século XI - que se originou em Gluny - foi a peregrinação
penitencial";sb e alguns dos mais notórios
vilões do período, tais como Foulques Nerra de Anjou ou Roberto, o
Diabo, conde da Normandia, foram a Jerusalém para escapar da punição
divina de seus crimes Foulques,
como a esposa de Bath, de Chaucer, três vezes.
Essas peregrinações penitenciais eram encorajadas e organizadas
pela Igreja. Os monges de Cluny apresentavam a peregrinação a Jerusalém
como o clímax da
vida espiritual de um homem - uma ruptura dos laços que o prendiam ao
mundo, com Jerusalém, a Cidade Santa, como uma antecâmara do mundo
vindouro. Assim como o bom
muçulmano era obrigado a ir em peregrinação a Meca pelo menos uma vez na
vida, a ambição de muitos cristãos pios era tocar o Santo Sepulcro de
Cristo antes de morrerem.
"Na verdade, a atitude do cristão do século XI para com Jerusalém e a
Terra Santa era obsessiva. 1187

De modo geral, no curso dos quatro séculos durante os quais a


Palestina tinha sido governada pelos sucessores do Profeta, o acesso a
seus santuários sagrados
tinha sido permitido aos Povos do Livro. A única perseguição aberta a
cristãos havia ocorrido no começo do século XI, durante o reinado do
califa egípcio al-Hakim,
um fanático que havia ordenado a destruição de todas as igrejas cristãs
em seu domínio, entre elas a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, cuja
reconstrução foi
autorizada por seu sucessor. Todavia, apenas uns trinta anos antes do
momento em que o papa Urbano se ajoelhou diante do túmulo do abade
Mayeul, o arcebispo de Mogúncia,
junto com os bispos de Utrecht, Bamberg e Ratisbona, havia guiado um
grupo de sete mil peregrinos do Reno ao Jordão. Emboscado por um bando
de muçulmanos nas proximidades
de Ramleh, na Palestina, o grupo foi obrigado a lutar em autodefesa.

Outra consideração que talvez tenha ocupado os pensamentos do


papa Urbano, embora isso jamais tenha sido estabelecido e permaneça
essencialmente objeto de
conjeturas, era a necessidade de encontrar uma forma de dar vazão ao
excesso de energia da classe guerreira franca. Como era essa sua origem,
Urbano II estava bastante
familiarizado com o problema representado por cavaleiros belicosos cujo
único talento era sua habilidade com a lança e a espada. Descendentes
dos companheiros de
batalha dos reis merovíngios e carolíngios, eles eram agora uma classe
distinta na sociedade: uma eli-

O TEMPLO RECONQUISTADO

te militar. Mas o custo do equipamento necessário para um cavaleiro era


considerável - a túnica de cota de malha, o escudo, a espada, a lança, o
capacete de aço
e o cavalo. Embora alguns costumes e precedentes do passado bárbaro
mitigassem o uso da força, a maioria das contendas era resolvida com a
espada. O ataque repentino
às colheitas e aos animais domésticos de um vizinho era tão comum para
os cavaleiros cristãos da Idade Média quanto tinha sido para as tribos
árabes antes do advento
de Maomé. "A violência estava em toda a parte, chocando-se com muitos
aspectos da vida cotidiano."R8 Mesmo quando as dissensões eram
apresentadas perante uma corte,
esta sempre deixava Deus decidir a questão por meio de um duelo ou de um
julgamento por ordálio.

Para restringir o conflito endêmico entre os diferentes grupos


no seio da nobreza rapace da cristandade, e em particular para manter
suas mãos longe dos
bens da Igreja, papas e bispos haviam tentado impor as usuais sanções de
interdição (proibição de assistir à missa e recusa dos sacramentos) e
excomunhão (expulsão
da Igreja); mas também, mais recentemente, o conceito de "Trégua de
Deus" - a designação de certos dias santos ou períodos penitenciais do
ano, tais como a Quaresma,
quando era proibido lutar. Todavia, só em parte esse estratagema fora
bem-sucedido: a cristandade ocidental continuava a ser escandalosamente
afligida por disputas
fratricidas. Como seria mais sensato se se pudesse aprender uma lição do
exemplo de normandos como os Hautevilles, cuja agressão havia sido
canalizada para a conquista
de novos reinos a expensas do Islã!
Com tais pensamentos na mente, o papa Urbano II ergueu-se do
túmulo do abade Mayeul e tomou o caminho para o sul, em direção a
Clermont, a hm de encontrar
os cerca de trezentos bispos que tinham obedecido à sua convocação. De
19 a 26 de novembro, o concílio, reunindo-se na catedral, aprovou vários
decretos contra os
abusos comuns da investidura leiga, da simonia e do casamento dos
sacerdotes. O rei Filipe da França foi excomungado por causa de seu
relacionamento adúltero com
Bertrada de Monfort, e o concílio endossou a idéia de uma Trégua de
Deus.

Na terça-feira, 27 de novembro, os padres do concílio foram


convocados para se reunir num campo além dos limites do portão oriental
de Clermont para uma
sessão aberta ao público. O trono pontifício havia sido colocado numa
plataforma, de modo que o papa Urbano II pudesse dirigir-se à multidão
que havia se reunido
a fim de ouvir o que ele tinha a dizer. Apesar de os relatos de seu
discurso terem sido escritos após o evento e possivelmente coloridos
pelo que o inspirou, parece
que o papa primeiro narrou os reveses dos cristãos bizantinos no Oriente
e o sofrimento que eles tinham suportado nas mãos dos turcos
seldjúcidas; em seguida, continuou
a descrever a opres-
OS TEMPLÁRIOS

são e o molestamento de peregrinos cristãos que se dirigiam à cidade


santa de Jerusalém, conjurando imagens de Siâo que teriam sido
completamente familiares a seus
ouvintes por causa da constante entoação dos Salmos. Com a cativante
eloqüência e o genuíno fervor de um pregador experiente, ele lembrou
seus ouvintes do exemplo
dado por seus ancestrais no tempo de Carlos Magno. Exortou-os a parar de
lutar uns contra os outros por motivos ignóbeis de vingança e cobiça e,
em vez disso, a
voltar suas armas contra os inimigos de Cristo. Por sua vez, como o
sucessor de São Pedro, com seus poderes concedidos por Deus paca "ligar
e desligar" na terra,
ele prometeu que aqueles que se empenhassem nessa causa com um espírito
de penitência teriam seus pecados pregressos perdoados e obteriam total
remissão das penitências
terrenas impostas pela Igreja.

O apelo de Urbano foi recebido com entusiásticos gritos de


"Deuslevolt" ("Deus o quer"), e num gesto dramático, que quase com
certeza havia sido ensaiado
pelos dois líderes da Igreja, Ademar de Monteil, bispo de Le Puy,
ajoelhou-se diante do papa e pediu permissão para participar dessa
Guerra Santa." Um cardeal da
comitiva do papa também se pôs de joelhos e liderou os ouvintes de
Urbano no Confiteor, a confissão dos pecados, após o que o sumo
pontífice concedeu absolvição.
Um escritor do século XX descreveu o apelo do papa Urbano como
uma "combinação de piedade cristã, xenofobia e arrogância
imperialista".9° Outros sugeriram
que, ao proclamar Jerusalém como O objetivo da cruzada quando o apelo do
imperador Aleixo tinha sido de ajuda militar na Anatólia contra os
turcos seldjúcidas, o
papa estava tirando proveito da ignorância e credulidade de seu rebanho.
No entanto, está claro que formadores de opinião não são um produto do
fim do século XX:
já no Concílio de Piacenza, os embaixadores do imperador Aleixo haviam
dado ênfase à situação de Jerusalém precisamente porque "viria a ser um
eficiente slogan de
propaganda na Europa".9' Além disso, o objetivo do papa era "a defesa
dos cristãos onde quer que eles estivessem sendo atacados. `Pois de nada
adianta libertar os
cristãos dos sarracenos num lugar e entregá-los noutro à tirania e
opressão sarracenas"'.9Z

Será que o papa não sentiu nenhum drama de consciência quanto ao


uso de violência? Na Igreja primitiva, a exortação de Jesus a oferecer a
outra face de modo
geral tinha sido tomada a sério, e a violência era portanto julgada
pecaminosa em quaisquer circunstâncias. Foi Agostinho de Hipona quem a
considerou justificada
em legítima defesa, e sua doutrina, dispersa por várias de suas obras,
foi reunida no século X1 por Anselmo de Lucca. Essa doutrina foi
absorvida pelo pensamento
papal durante o pontificado de Gregório VII com respeito à reconquista
da Sicília e da Espanha; e, sem dúvida, por oca-

O TEMPLO RECONQUISTADO

sião da notícia da derrota bizantina em Manzikert, quando em nome do


apóstolo Pedro ele apelou duas vezes aos fiéis que sacrificassem suas
vidas para "libertar"
seus irmãos no Oriente.

Agora a doutrina de Agostinho estava ligada ao conceito de


peregrinação penitenciai, fazendo "atingir o auge uma onda em direção à
Terra Santa de culto do
Santo Sepulcro que havia produzido regularmente peregrinações em massa a
Jerusalém no decorrer do século XI (... ) ".93 Os peregrinos eram
armados, a fim de assegurar,
nas palavras do papa Urbano, que os sarracenos "não continuem a triturar
sob seus tacões os que crêem em Deus". As indulgências que ele prometeu
e os privilégios
que concedeu aos cruzados eram quase indistinguíveis daqueles concedidos
aos peregrinos: "quando a marcha começou, tinha-se a impressão de que
(...) pertencia inteiramente
ao universo tradicional da peregrinação a Jerusalém".9''

Nisso o papa, fiel à sua vocação cluniacense, mostrou que estava


tão interessado no que a cruzada poderia fazer pelo cruzado quanto no
que o cruzado poderia
fazer pela "Igreja asiática". Ele se referia com freqüência à exortação
de Cristo, a qual deveria ser do conhecimento de todos que o ouviram, a
abandonar esposas,
famílias e bens por amor dele, erguer suas cruzes e segui-lo. A fim de
dar substância ao símbolo, cruzes de pano foram distribuídas em Clermont
a todos aqueles que
juraram partirem cruzada. Estas eram costuradas em seus mantos, na
altura do ombro, não apenas para significar seu compromisso sagrado, mas
também para mostrar que
o cruzado gozava de certos privilégios e sanções legais. A família e o
patrimônio do cruzado tinham de ser protegidos pela Igreja. Ele estava
isento do pagamento
de impostos e lhe era assegurada moratória de suas dívidas. Em troca,
esperava-se que ele cumprisse com seu dever: o homem que faltasse à sua
promessa estava sujeito
a excomunhão automática.

Embora, como vimos, tivesse havido precedentes na Sicília e na


Espanha para uma guerra santa movida por cristãos contra muçulmanos,
está claro que o apelo
feito pelo papa Urbano em Clermont foi visto como momentoso, "um choque
para o sistema comunal" e "algo diferente de tudo que fora tentado
antes".95 Para consternação
de Urbano, a reação mais imediata e radical não foi entre a classe dos
cavaleiros, na qual ele pensara, mas entre os pobres. Enquanto Urbano
prosseguia em sua viagem
predicante pela França> passando ao largo dos territórios controlados
pelo rei Filipe, a quem ele condenara no concílio, vários pregadores
populares inflamaram o
populacho excitável e idealista no norte da Europa e formaram um
exército mal armado e sem disciplina que, sem mais nem menos, partiu
para subjugar os sarracenos
e libertar Jerusalém.
oceano Atlântico

REINO DA
FRANÇA. _ l ALEMANHA

A cristandade ao tempo

da Primeira Cruzada

Rarishona

Viena.

HUNGRIA

-_ Veneza s
-i
' - __ -_ Belgrado

LEÃO-CASTELA ARAGÃO .. (aarselha _ _ -':


CATA LJNI-lÁ - - ~,:y y. _y_ IMPÉRIO BIZANTINO

ai-Mona

CALIFADO _ _
DE CÓRDOVA

â é
•.~-o ~ _
W n

p z -o
rr,
ó °'
z . z: õ n
x ~a x
á ~ '~ Ç O
OS TEMPLÁRIOS

Seu líder era um carismático pregador da Picardia conhecido como


Pedro, o Eremita, que afirmava ter recebido uma carta do céu autorizando
a cruzada. Os bispos
fizeram o possível para deter os velhos e os enfermos, e proibiram
especificamente os monges e o clero de partir na cruzada sem a permissão
de seus superiores, mas
o movimento saiu de controle. O fascínio da aventura e a promessa de
recompensa espiritual acabaram sendo irresistíveis. Como ainda podemos
constatar pelas imagens
esculpidas na estatuária de catedrais medievais, as pessoas viviam com
um medo real dos tormentos do inferno. Ali estava uma oportunidade de
pôr um ponto final a
esses temores. Homens casados eram proibidos de partir sem permissão de
suas esposas, mas muitos ignoraram a proibição. Uma mulher manteve o
marido em casa para
que ele não ouvisse a pregação da cruzada, mas quando ele ouviu através
da janela o que estava sendo oferecido, pulou para fora e tomou a Cruz.

O começo da cruzada foi catastrófico. As forças lideradas por


Pedro, o Eremita, e por um cavaleiro chamado Gualtério Sem-Haveres
passaram pela Alemanha e
pela Hungria em razoável ordem; mas, enquanto marchavam ao longo do
Reno, contingentes de alemães sob o comando de um padre chamado
Gottschalk e de um barão da pequena
nobreza, conde Emich von Leinigen, atacaram as comunidades judaicas que
encontraram pela frente em cidades como Trier e Colônia. Essa
provavelmente não era a turba
indisciplinada que outrora se supunha. "Esses exércitos continham
cruzados de, todas as partes da Europa Ocidental, liderados por capitães
experientes."96 Todavia,
eles eram sem dúvida praticamente incapazes de fazer uma distinção
significativa entre muçulmanos e judeus; é quase certo que devem ter
contado com pilhagem en route
para financiar a viagem à Palestina; e apenas conseguiram fazer uma
idéia da cruzada sob o conhecido aspecto de uma vingança que os obrigava
a desforrar-se do sofrimento
de seus confrades cristãos no Oriente. Em conseqüência, seguiu-se uma
série de pogroms - massacres, conversões forçadas e suicídio coletivo de
judeus em santificação
de sua fé (kiddush ha-shem), como o dos zelotes em Massada doze séculos
antes.

No começo do século, a Igreja percebera claramente o perigo a


que comunidades judaicas estariam expostas em circunstâncias desse tipo:
o papa Alexandre VI
havia escrito aos bispos da Espanha ordenando-lhes que protegessem os
judeus em suas dioceses, "a fim de que eles não fossem mortos por
aqueles que estão partindo
para lutar contra os sarracenos na Espanha".9' Assim sendo, em algumas
cidades alemãs, os príncipes-bispos e a nobreza local acolheram os
judeus sob sua proteção,
e o clero ameaçou os here-

O TEMPLO RECONQUISTADO

ges infiéis de excomunhão. Mas foi quase inútil. Em Mogúncia, o cronista


cristão Alberto de Aix descreve como os pretensos cruzados,

depois de terem arrombado as fechaduras e posto as portas abaixo (...)


aprisionaram e mataram setecentas pessoas que inutilmente tentavam
defender-se contra forças
muito superiores às suas; as mulheres também foram massacradas, e as
criancinhas, independentemente do sexo, foram mortas com a espada. Os
judeus, ao verem os cristãos
insurgir-se como inimigos contra eles e seus filhos, sem o menor
respeito pelas fraquezas da velhice, por sua vez pegaram em armas contra
seus correligionários,
contra suas mulliéres, filhos, mães e irmãs, e massacraram a si mesmos.
Uma coisa horrível de descrever: as mães pegavam a espada e cortavam a
garganta das crianças
enquanto estavam ao seio, optando por se destruírem com suas próprias
mãos em vez de sucumbirem aos golpes dos incircuncisos.9H

As atrocidades não se restringiram à Renânia: em Speyer, Worms,


e em lugares tão distantes quanto Rouen, no oeste, e Praga, no leste, os
cruzados investiram
contra os judeus. Sem dúvida, o zelo religioso da turba assassina "era
apenas uma tênue tentativa de encobrir o verdadeiro motivo: cobiça.
Pode-se supor que para
muitos cruzados a pilhagem dos. judeus era a única forma de financiar
uma viagem como aquela".99 Mas os judeus não eram a única vítima da
criminalidade dos cruzados:
na Hungria, a turba predatória começou a saquear os habitantes, que
também foram todos massacrados. Alberto de Aix escreveu mais tarde que
muitos cristãos acreditavam
que isso fosse a punição por Deus daqueles "que pecaram diante dele por
causa de sua grande impureza e de relações sexuais com prostitutas,
e.massacraram os judeus
errantes (...) mais por avidez de dinheiro do que pela justiça de
Deus"."'

Nesse meio tempo, a força liderada por Pedro, o Eremita, e


Gualtério Sem-Haveres havia chegado a Constantinopla escoltada pela
cavalaria dos recém-conquistados
pechenegos, os quais o imperador Aleixo usava como polícia militar.
Apesar de terem sido aconselhados a esperar o resto do exército cruzado,
os seguidores de Pedro
foram ficando cada vez mais inquietos e começaram a saquear os subúrbios
da cidade. Aleixo providenciou para que fossem transferidos para o outro
lado do Bósforo
e os alojou num acampamento militar perto do território controlado pelos
turcos seldjúcidas. Um ataque bem-sucedido de um contingente francês
encorajou alguns alemães
a seguir o exemplo. Quando caíram numa cilada dos turcos, a força
principal saiu para libertá-los e foi aniquilada pelos turcos em 21 de
outubro de 1096. Isso marcou
o ignominioso fim da "Cruzada Popular".

87
OS TEMPLÁRIOS

Dois meses após a derrota dessa vanguarda indisciplinada em Xerigordon,


nas proximidades de Nicéia, os primeiros contingentes do tipo de
exército que o papa Urbano
tinha imaginado começaram a se reunirem Constantinopla. O primeiro a
chegar foi o conde Hugo de Vermandois, primo do rei da França, que tinha
vindo por mar com um
pequeno grupo de cavaleiros e soldados. Em 23 de dezembro, chegou uma
força muito maior, liderada por Godofredo de Bouillon, duque da Baixa
Lorena; por seus irmãos,
Eustáquio, conde de Boulogne, e Balduíno de Boulogne; e pelo primo
deles, Balduíno de Lê Bourg.
Descendentes de Carlos Magno tanto pelo lado paterno quanto
materno (e, segundo uma lenda posterior, de um ganso), esses quatro eram
exemplos clássicos de
guerreiros francos paladinos da Igreja. Seu séquito abrangia a
diversidade do antigo império franco, com cavaleiros de língua alemã e
francesa. Godofredo havia conservado
o ducado da Baixa Lorena durante o governo do imperador Henrique IV, mas
o fato de ele ter vendido todas as suas propriedades e seu castelo em
Bouillon para financiar
sua participação na cruzada sugere que não tencionava voltar para casa,
embora não se saiba se o seu objetivo era um principado no Oriente ou a
coroa do martírio.
Em seguida chegou um contingente de normandos do sul da Itália
comandado por Boemundo de'Iàranto, então com quarenta anos, o filho mais
velho de Roberto
Guiscard. Aqui havia menos ambigüidade: os antecedentes dos normandos
sugeriam que eles tinham intenções predatórias, e com justa razão
fizeram o imperador Aleixo
sentir certa inquietação. Contudo, Boemundo havia tomado a Cruz com
visíveis sinais de sincera convicção enquanto fazia o cerco a Amalfi,
tendo entregado pessoalmente
as cruzes de pano àqueles que queriam juntar-se a ele, entre os quais
seu jovem e impetuoso sobrinho Tancredo. Com seu contingente, eles
haviam cruzado O Adriático
da Itália à Grécia, de onde continuaram em perfeita ordem para
Constantinopla.
A mesma rota fora seguida por um grupo de poderosos nobres do
norte da Europa - Roberto II, conde de Flandres, cujo pai havia
combatido em prol do imperador
Aleixo; Roberto, duque da Normandia, irmão do rei inglês, Guilherme, o
Ruivo; e Estêvão, conde de Blois, genro de Guilherme, o Conquistador -,
ao passo que o maior
contigente de todos - provençais e burgúndios sob o conde Raimundo de
Toulouse - tomou uma rota intermediária ao longo da Dalmácia, depois
através de Dyrrhachium
até Tessalonica, e daí até Constantinopla. Acompanhava-o Ademar de Lê
Puy, designado por Urbano II como seu legado e líder espiritual da
cruzada.
A influência de Ademar era preciosa para conciliar as
divergências entre os príncipes francos e negociar a passagem do
exército cruzado pelo Império

AR

O TEMPLO RECONQUISTADO

Bizantino. O imperador Aleixo não havia previsto uma força desse tamanho
e apenas permitiu que seus líderes entrassem em Constantinopla, mantendo
as tropas fora
dos muros da cidade. Em abril de 1097, o exército cruzado atravessou o
Bósforo sem encontrar resistência. O sultão turco, Kilij Arslan,
induzido por uma falsa sensação
de segurança em virtude de sua vitória anterior sobre o exército de
Pedro, o Eremita, atacou os cruzados fora de Nicéia. Ele aprendeu tarde
demais que estava resistindo
a algo mais difícil de vencer: a cavalaria pesada composta de cavaleiros
ocidentais. Ana Comneno, filha do imperador Aleixo, escreveria na
biografa do pai que "o
primeiro choque irresistível" de uma investida dos cavaleiros francos
"faria um buraco nas muralhas de Babilônia"."'

A derrota do sultão, seguida pelo cerco de Nicéia não só pelo


exército franco, mas também por uma esquadra bizantina trazida por terra
até o lago contíguo
à cidade, fez com que a guarnição de Nicéia se rendesse ao almirante
bizantino Butumites. Embora tivessem desempenhado um importante papel na
batalha, os cruzados
cumpriram as promessas que haviam feito ao imperador Aleixo de devolver
suas antigas posses e permaneceram do lado de, fora enquanto as tropas
dele entravam na cidade.
Apesar de terem recebido presentes de considerável valor, não houve
possibilidade para o tipo de pilhagem que um exército vitorioso poderia
ter esperado como espólios
de guerra.
Não obstante, eles estavam animados. "A menos que Antioquia se
revele um obstáculo", escreveu Estêvão de Blois numa carta à sua esposa,
"esperamos estarem
Jerusalém daqui a cinco semanas." Mas a ida foi mais difícil do que
haviam previsto, pois não estavam acostumados ao calor do verão na
Anatólia. Havia escassez de
água e, uma vez que os turcos haviam devastado a terra à sua frente,
também faltavam alimentos. Quando se aproximavam de Doriléia, a
vanguarda, formada pelos normandos
italianos e franceses, por um contingente bizantino e por alguns
flamengos, foi atacada pelo exército de Kilij Arslan. Os turcos tinham
aprendido de sua experiência
de Nicéia e executavam manobras a fim de evitar um ataque frontal da
cavalaria dos cruzados. Seus arqueiros montados cercaram os cruzados. Os
soldados de infantaria
cristãos foram defendidos pelo exército de Boemundo e seus cavaleiros,
que se mantiveram firmes até que a retaguarda, sob o comando de
Godofredo de Bouillon, Raimundo
de Toulouse e Ademar de Lê Puy, viesse em seu socorro e derrotasse os
turcos. O acampamento turco, abandonado pelo exército em fuga, foi
tomado pelos cruzados, e
dessa vez a presa foi deles.
Depois desse segundo triunfo, o exército prosseguiu em sua
marcha através da Anatólia. A fome e a sede continuavam sendo um
tormento, e as tropas tiveram
de combaterem duas outras batalhas antes de atingirem um
OS TEMPLÁRIOS

refúgio seguro no reino ristão da Arnênia Cilício, um Estado anômalo na


região sudes e da Anatólia Os armênia tinham sito primeiro aí instalados
por imperadores
bizantinos ;orno recompensa pela prestação de serviço militar, e a eles
vieram juntar-seos compatriotas que os ;urcos haviam expulsado do torrão
nato armênio, na;
proximidades do lago de Van.
w Após tm período dedescanso e recreação como hóspedes dos
armênios em sua capital, Marash,o exército cruzado, comandado por Ademar
de Le Puy, desceu as
colinas, avançou lutando através do rio Orontes, e em 21 de outubro dc
1097 clregoL à cidade deAntioquia. Á cidade era um espetáculo assustador
com cerca ds cinco
quilímetros de extensão e um quilômetro e meio de lagura, fora
construída empane na planície do Orontes, em parte nas encostas
escarpadasdo monte Sílpio, e suas
muralhas eram entrecortadas por quttrocentss to>res erguidas pelo
imperador Justiniano e reforçadas pelos bizaitinos cem aros antes; e no
seu ponto mais elevado,
a trezentos metros soma da cidade, situava-se a cidadela. Antioquia
tinha sido uma das principaismetrópeles do Império Romano e permanecia
não apenas a chave estratégia
para todo o norte da Síria, como também um rico e poderoso principado,
com uma população emgrande parte cristã, mas guarnecida pelos turcos que
ahaviarr conquistado
aos bizanrinos doze anos antes.
Os líceres latinos são conseguam chegar a um acordo sobre se
deveriam toma a cidade de assalto ou esperar por reforços. Tirando
proveito da hesitaçãoJos
cruztdos,os turcos fatiam sortidas, atacando os grupos enviados para
Irocurar comida. O cerco arrastava-se. Com frio, molhado e faminto, o
exército cristão viu seu
moral baixar a ponto de os cruzados começarem a s: perguntar se, Deus
não os havia abandonado como punição por suas más sções. Tendo já
perdido un grande número
de cavalos e mulas na marcha aravés da lrtatólia, de moda que três
quartos dos cavaleiros tinham de viajar r pé, eles agora comiam is
animais que ainda estavam vivos.
O preço dos alimentos vindos da Armênia tornava-os acessíveis apenas aos
ricos, e atuns flamengos empobrecidos que haviam seguido Pedro, o
Eremita, cometidos como
rafurs', comiam os turcos que matavam. "Nossas tropas", esceveu
RaRulfode Caen, ";ozinhavam adultos pagãos em panelas, empalavan
crianças emespetos e a; devoravam
depois de grelhadas."'°Z Em janeiro de 1098, Pedro o Eremita, foi pego
por Tancredo quando tentava desertar c forçados regressar. Em fevereiro,
o contingente bizantino
abandonou o arco. Para piorar a situação, os cruzados receberam a
notícia de que um grancL exército, comandado po Kerbogha de Mossul,
estava em marcha para socorer
Antioquia.

* Denomi,ação oriunda do fato de eles usarem grosseiros mancos de pele.


(N. do T)

90

O TEMPLO RECONQUISTADO
Nesse momento de crise, Boemundo de Taranto pôs as cartas na
mesa. Ele tinha um traidor submisso dentro de Antioquia, mas queria a
promessa dos outros cruzados
de que a cidade seria sua se ele a capturasse. Pondo de lado as objeções
de Raimundo de Toulouse, o principal rival de Boemundo, o conselho de
príncipes concordou.
Ao perceber que a rendição da cidade era iminente, Estêvão de Blois foi
embora. No mesmo dia, o resto do exército cruzado simulou uma retirada
para longe dos muros
da cidade, mas voltou sob o manto da noite, foi introduzido na cidade
pelo espião de Boemundo e esta foi tomada. Quando Kerbogha de Mossul
chegou a Antioquia, os
sitiantes transformaram-se em sitiados, mas, inspirados pela milagrosa
descoberta, sob a catedral, da Lança Sagrada que havia trespassado o
flanco de Cristo, eles
fizeram uma sortida que pôs os sarracenos em fuga.

Gomo se julgou desaconselhável continuar rumo a Jerusalém sob o


intenso calor do verão, o exército cruzado permaneceu em Antioquia, e a
data de sua partida
foi marcada para 1° de novembro, Dia de Todos os Santos. Nesse ínterim,
os mais intrépidos puseram-se a caminho, a fim de rivalizar com Balduíno
de Boulogne, que
no início daquele ano havia fundado o primeiro Estado latino na área, em
Edessa. Ao entrar na cidade com uma força de apenas oitenta cavaleiros,
ele fora saudado
pelo governante armênio, Thoros, e por ele adotado como filho. Todavia,
Thoros não era benquisto por seus súditos monofisitas, e apenas um mês
mais tarde, provavelmente
com a conivência de Balduíno, foi deposto e assassinado, deixando
Balduíno como o único governante de Edessa.
Em julho, Antioquia foi afligida pela peste, que em 1° de agosto
vitimou Ademar de Le Puy. Como legado pontifício e líder espiritual da
cruzada, e por natureza
sábio e conciliador, ele havia desempenhado um papel inestimável ao
serenar os ânimos dos briguemos e jactanciosos príncipes. Para escaparem
da peste, muitos deles
haviam partido de Antioquia, e o moral do exército estava de novo baixo.
O rancor existente entre Boemundo e Raimundo refletiu-se num crescente
antagonismo entre
seus seguidores normandos e provençais - a chacota favorita dos
normandos era dizer que a Lança Sagrada era uma fraude.

Em setembro, após regressarem aAntioquia, os príncipes


escreveram ao papa Urbano pedindo-lhe que viesse liderar pessoalmente a
cruzada. A festa de Todos
os Santos chegou e passou. Raimundo afinal concordou que Boemundo
conservasse Antioquia, desde que participasse do assalto a Jerusalém,
com o que este concordou;
mas a apatia parecia paralisar os líderes. Seguiram-se semanas de
procrastinação, e foi apenas a instâncias de soldados cada vez mais
exasperados que os príncipes
finalmente concordaram em nomear Raimundo de Toulouse seu comandante-em-
chefe.
OS TEMPLÁRIOS

O exército cruzado parou ae rxtml~yU~a ~•= 13 de janeiro de


1099, marchando entre as montanhas e a costa do Mediterrâneo. A maioria
dos emires locais, em
vez de impedir seu avanço, preferiu prestar apoio à progressiva horda do
monstruoso Fraiej. As forças mais significativas em Damasco, Alepo e
Mossul observavam e
aguardavam, pois, a seu ver, não lhes interessava vir em auxílio dos
califas fatímidas do Egito, que no ano anterior haviam reocupado
Jerusalém.
Em 7 de junho de 1099, o exército cruzado levantou acampamento
diante dos muros da Cidade Santa. Conquanto fosse menor do que
Antioquia, e bem menos importante
em termos políticos e estratégicos, Jerusalém tinha permanecido bem
fortificada desde que o imperador Adriano a reconstruíra. Os bizantinos,
os omíadas e os fatímidas
haviam todos renovado as defesas da cidade, e Iftikhar, seu governador
fatímida, havia sido amplamente advertido da aproximação dos cruzados.
Os habitantes cristãos
haviam sido expulsos, mas não os judeus. As cisternas da cidade estavam
repletas de água e havia farta provisão de alimentos, enquanto os poços
fora da cidade tinham
sido obstruídos ou envenenados. Os muros eram guarnecidos por tropas
árabes e sudanesas, e se havia solicitado ajuda ao Egito.
Conscientes de sua vulnerabilidade a uma força auxiliar, com
escassez de alimentos e água, e carecendo de equipamento pesado, como
torres e manganelas, os
cruzados compreenderam que não tinham condições para fazer um cerco
prolongado. Apenas um terço dos que haviam partido da Europa Ocidental
dois anos antes ainda
estava vivo - sem levar em conta peregrinos não-combatentes, entre os
quais mulheres e crianças, isso significava uma força de combate de
aproximadamente doze mil
soldados de infantaria e mil e duzentos ou mil e trezentos cavaleiros.
Eles sabiam que não podiam contar com a ajuda dos bizantinos: com
efeito, o imperador Aleixo,
em vez de ajudá-los, estava em negociações com o califa do Cairo.
Providencialmente, navios da Inglaterra e duas galeras de Gênova
haviam chegado ao porto de )afã, que tinha sido abandonado pelos
muçulmanos. Sua carga abasteceu
o exército com alimentos, e também com pregos, porcas e parafusos.
rIáncredo e Roberto de Flandres foram até Samaria à procura de madeira
adequada e regressaram
com troncos de árvores no lombo de camelos. Carpinteiros das galeras
genovesas puseram-se a construir torres móveis, catapultas e escadas
para escalar as muralhas.
Na noite de 13 de julho teve início o assalto. A primeira torre
a alcançar as muralhas foi a de Raimundo de Toulouse, mas a defesa
daquele setor era dirigida
pelo governador muçulmano, Iftikhar, e os provençais não conseguiram um
ponto de apoio nos muros. Na manhã de 14 de julho, a torre de Godofredo
de Bouillon foi levada
para junto do muro norte, e por volta de

O TEMPLO RECONQUISTADO

meio-dia fez-se uma ponte do seu andar superior, de onde o próprio


Godofredo e Eustáquio de Boulogne comandaram o assalto. Os primeiros a
cruzar a ponte foram dois
cavaleiros flamengos, Litold e Gilberto de Tournai. Atrás deles vieram
os cavaleiros que lideravam o contingente lotaringio, seguidos de perto
por Tancredo e seus
cavaleiros normandos. Enquanto Godofredo enviou seus homens para abrirem
os portões da cidade, Tancredo saiu lutando pelas ruas até o monte do
Templo, que alguns
muçulmanos tencionavam transformar em seu reduto, mas Tancredo era
rápido demais para eles. Ele tomou a Cúpula da Rocha, pilhou seu
precioso conteúdo e, em troca
da promessa de um considerável resgate da parte dos muçulmanos que se
renderam, permitiu-lhes refugiar-se na mesquita ai-Aqsa, ostentando seu
estandarte como penhor
de sua proteção.
Iftikhar e sua guarda pessoal recolheram-se à Torre de Davi, que
ele em seguida entregou a Raimundo de Toulouse em troca do tesouro da
cidade e de um salvo-conduto
para que ele e seu séquito pudessem deixar Jerusalém. Raimundo aceitou
as condições, apossou-se da cidadela e escoltou Iftikhar e sua guarda
pessoal para fora da
cidade. Foram os únicos muçulmanos que escaparam com vida. Inebriados
pela vitória, e ainda impregnados do ardor da batalha, os cruzados
começaram a chacinar os
habitantes da cidade com a mesma indiferença para com a idade ou o sexo
das vítimas que fora demonstrada mais de mil anos antes pelos
legionários de Tiro. O estandarte
de Tancredo na mesquita al-Aqsa não bastou para salvar os que nela se
haviam refugiado: foram todos mortos. Os judeus de Jerusalém fugiram
para a sinagoga em busca
de segurança, mas os cruzados incendiaram-na e os judeus foram queimados
vivos.

Raimundo de Aguilers, capelão de Raimundo de Toulouse, não fez


nenhuma tentativa de minimizar o horror do que tinha visto quando mais
tarde descreveu a captura
de Jerusalém em sua crônica. Durante sua visita ao monte do Templo, ele
havia caminhado até os tornozelos em sangue fresco e coagulado. "Em
todas as (...) ruas e
praças da cidade, podiam-se ver montes de cabeças, braços e pés. As
pessoas andavam, em termos bem claros, sobre homens e cavalos mortos."
Mas para ele os defensores
muçulmanos haviam apenas recebido o que mereciam. "Que puni çâo mais
oportuna! O próprio lugar que durante tanto tempo suportou blasfêmias
contra Deus estava agora
encoberto pelo sangue dos blasfemos."
Apologistas muçulmanos não demoraram a chamar atenção para o
contraste entre a selvageria dos francos e a civilidade e humildade do
califa Ornar quando capturou
Jerusalém em 638; os cristãos replicaram que os bizantinos haviam se
entregado sem luta. Mas essa polêmica surgiria mais tarde. Agora havia
apenas júbilo pelo fato
de terem executado a missão que lhes
OS TEMPLÁRIOS

fora incumbida pelo papa Urbano e de as promessas dos cruzados terem


sido cumpridas. Depois de três anos de sofrimento e penúria, e de uma
viagem de três mil e duzentos
quilômetros, em climas inclementes e através de terreno inóspito, os
peregrinos haviam chegado ao fim da viagem. Em 17 de julho, os
príncipes, barões, bispos, padres,
pregadores, visionários, guerreiros e criados do acampamento seguiram em
procissão pelas ruas da cidade deserta até a Igreja do Santo Sepulcro.
Aí deram graças a
Deus pela extraordinária vitória e celebraram o sacrifício da missa no
santuário mais sagrado de sua religião: o túmulo de onde Jesus de
Nazaré, o Templo vivo da
Nova Aliança, ressuscitara dos mortos.

seflanaa parzrte
OS TEMPLÁRIOS
cinco

Os Pobres Soldados
de Jesus Cristo

Nos anos que se seguiram à captura de Jerusalém, foram criados quatro


Estados diferentes nos territórios conquistados, o que veio a ser
conhecido como "Outremer"
(ultramar) na Europa Ocidental. No norte ficava o principado de
Antioquia, governado por Boemundo de Taranto, um normando do sul da
Itália. A leste, na outra margem
do Eufrates, estava o condado de Edessa, governado por Balduíno de
Boulogne. Ao sul de Antioquia situava-se o condado de Trípoli, do qual
se apropriara Raimundo
de Saint-Gilles, conde de Toulouse, que morreu durante o cerco da cidade
em 1105. Ainda mais para o sul, estendendo-se de Beirute, no norte, a
Gaza, no sul, ficava
o reino de Jerusalém, governado por Godofredo de Bouillon, que,
recusando-se a chamar-se rei onde Cristo tinha usado uma coroa de
espinhos, assumiu em vez disso
o título de "Defensor do Santo Sepulcro".

O papa Urbano II falecera em Roma duas semanas após o triunfo


dos cruzados, mas antes que a notícia da tomada da cidade chegasse ao
Ocidente. Antes de morrer,
ele nomeara Daimbert, um arcebispo de Pisa, para suceder a Ademar de Le
Puy como legado pontifício da cruzada. Daimbert tornou-se patriarca de
Jerusalém e logo após
a morte de Godofredo, em 1100, tentou fumar-se como um soberano
teocrático em seu lugar. Os cavaleiros francos não aceitaram isso e, ao
invés, convocaram de Edessa
o irmão de Godofredo, Balduíno de Boulogne. Este teve menos escrúpulos
em adotar o título de rei, e no dia de Natal de 1100, na Igreja da
Natividade, em Belém, o
derrotado Daimbert o coroou rei de Jerusalém.
A ordem social agora vigente na Síria e na Palestina latinas
baseava-se no sistema feudal da Europa Ocidental. Mas ao passo que um
exército conquistador
com um líder forte, como Guilherme, o Conquistador, na Inglaterra ou
Rogério de Hauteville na Sicília, havia permitido que esse líder
mantivesse o controle sobre
seus vassalos, a maneira pela qual Godofredo de Bouillon e depois
Balduíno de Boulogne foram escolhidos como os primeiros entre seus pares
pelos líderes da cruzada
levou-os a enfatizar os direitos dos vassalos e a uma codificação
daqueles direitos desconhecidos no Ocidente. A

97
OS TEMPLÁRIOS

ot ofediênciaos príncipes de Trípoli e Antioquia e dos condes de Edessa


aos
rereis de Jcrualém era tão tênue quanto a dos grandes condes e duques
aos

reis da flana: eles só se colocavam sob a autoridade deles quando perce


biam yuesa própria segurança estava ameaçada por uma coalizão muçul-

m nana. Ojovm sobrinho de Boemundo, Taneredo, que havia


conquistado a
G GalilëiacSlon, continuou vassalo do rei Balduíno, mas agia como
um prín
ci ciae so6arab. Também havia transferências dos príncipes
dirigentes de um
p pjincipado~íra outro, como pedras de um tabuleiro de xadrez:
quando Boe
m mundo t'oi apturado numa expedirão contra os turcos
danishnaend, Antio
q qua foigoprnada em sua ausência por Tancredo. Quando Balduíno
de
B Boulogict'~ convocado para o trono em Jerusalém, seu primo
Balduíno de
L Le Boucgccnou-se conde de Edessa. Depois do resgate de
Boemundo, foi a

voz de Baldíno de Le Bourg ser capturado, após o que Tancredo assumiu o

g governoda?dessa, mas voltou paraAntioquia como regente quando


seu tio
B Boemuadoegressou à Europa para buscar reforços.
A r ca,cez de potencial humano era endêmica no ultramar
desde o
c começo.Nloutono de 1099, após aderrota do exército egípcio
enviado para

socorrelJci)salém, a maioria dos cruzados sobreviventes iniciou a viagem

d de voltaacsa. Em Jerusalém, Godofredo de Bouillon foi deixado


com cerca
d de trezcnrcl cavaleiros e mil soldados de infantaria. Ao
ascender ao trono,
E Balduíao ao tinha mais do que isso. Embora não houvesse ameaça
imi
n nente dona invasão fatímida e se pudesse contar com o apoio de
cristãos
a aUtôcmusa frágil situação do reine de Jerusalém só poderia ser
assegurada
f por expo ulterior, e em particular pela tomada dos portos
mediterrâ
r ricos. Casientes dessa necessidade, e ansiando tanto por glória
quanto por
r recomvOs espirituais com que )s primeiros e bem-sucedidos
cruzados
t tinhali cumulados, outros contingentes de franceses, lombardos
e
k bávarosp'aliram da Europa. Foram todos atacados e vencidos ao
cruzarem a
f Anatóli3,upenas um pequeno número escapou, regressando a
Constanti
r nopla.

ao rei Balduíno eram as esquadras das repúblicas marítimas

i italianas-Pisa, Veneza e Gênova-, que, ao perceberem as


oportunidades
c oferecüas elo domínio latino da costa oriental do Mediterrâneo,
barganha
r rim sevapio no cerco dos portos em troca de privilégios
comerciais quando
eles fusca tomados. Haifa, Jafa, Arsuf, Cesaréia, Acre, Sídon,
um após o
outro esse' portos sucumbiram às forças latinas, até que, por
fim, com a

quedade~iro em 1124, a armada fatímida perdeu todas as bases na Pales-

t tina e aflolteira litorânea do ultramar ficou livre de perigo.


Apaa1cação do interior era mais problemática. As galeras
italianas tam-
1 bém troustam um crescente número de peregrinos que foram
inspirados a

98

~ Mediterrâneo

ARMËNIA CILÍCIA

CONDADO DE EDESSr1

Anrinqma
-:uepn

PRINCIPADO DE ANTIOQUI:1

- ASSASSINOS
limosa
17-d'. • Hum, '
CONDADO DE
I'ríhnli TRIPOLI

urc..

. Dama
Tiro

Acre .

Haifa °x°
Harun
lllnt>
REINO` DE p
usalcm JERUSALÉM

Cat° a.u aydoiu


I_+4>

rNlen.mr:í-

> o0 zoo km

100 milhas
OS TEMPLÁRIOS

fazer peregrinação a Sião devido à notícia da vitória dos cruzados.


Alguns portavam armas, mas outros estavam equipados apenas corri a
sacola e o bastão dos peregrinos:
a distinção entre peregrino e cruzado continuava imprecisa. Estes não
apenas oravam na Igreja do Santo Sepulcro a fim de cumprirem suas
promessas, como também saíam
em peregrinação a muitos santuários da Judéia e da Somaria que uma
familiaridade com as Escrituras e indiferença à historicidade
transformaram num parque temático
da religião cristã. Em Jerusalém, havia a Cúpula da Rocha, agora
transformada de mesquita em igreja, santificando o lugar onde Jesus
havia açoitado os cambistas
e conhecida pelos cruzados como o Templo do Senhor. Na extremidade
sudeste do monte do Templo encontrava-se a casa de São Simeão, que
continha a cama da Virgem e
o berço e a banheira do menino Jesus; e ao norte da Porta de Josafá, uma
igreja construída onde antes fora a casa dos pais da Virgem Maria,
Joaquim e Ana. Nos arredores
da Cidade Santa havia a casa de Zacarias, onde João Batista tinha
nascido; o poço de Maria, de onde eia e José haviam voltado para
encontrar Jesus em Jerusalém;
o sítio onde fora abatida a árvore da qual se fez a cruz usada na
crucificação de Jesus; e o lugar onde ele ensinou o Pai-nosso a seus
discípulos.

Um caminho bastante trilhado por peregrinos cristãos conduzia, a


leste de Jerusalém, a Jericó e ao rio Jordão, aonde muitos iam para um
rebatismo em suas
águas. Aí eles passavam pelo bloco de rocha usado por Jesus para montar
no jumento que cavalgou até Jerusalém no Domingo de Ramos; pela cisterna
na qual José havia
sido jogado por seus irmãos; pelo toco da árvore à qual Zaqueu havia
subido para ver Jesus; pela curva da estrada onde o bom samaritano havia
encontrado a vítima
de uno assalto; pelo local onde a Sagrada Família havia descansado
durante a fuga para o Egito; e finalmente pelos baixios onde João tinha
batizado Jesus com as
águas do Jordão.
Por causa da natureza do terreno e do descontentamento dos
muçulmanos entre os habitantes, o caminho não era mais seguro do que na
época do bom ,,>amaritano.
A partir do momento em que desembarcavam em Jafa ou em Cesa.réia, os
peregrinos eram vulneráveis a ataques de saqueadores sarracenos e de
bandoleiros beduínos que
viviam nas cavernas das colinas da Judéia. Os peregrinos aunados podiam
defender-se, mas não havia proteção alguma para os desarmados. As forças
à disposição do
rei Balduínojá estavam espalhadas ao máximo, protegendo as fortalezas
estratégicas e os portos do Mediterrâneo.

Em 1101, o conde Hugo de Champagne foi à Terra Santa com um séquito de


cavaleiros. De 'Iìoyes, no trecho superior do rio Sena, ele governava um
grande c rico principado
que tinha feito parte do reino franco ocidental dei-

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

lado por Carlos, o Calvo. Hugo era pio e infeliz no casamento, pois não
tinha certeza se era mesmo pai de seu filho mais velho. Entre seus
vassalos estava um cavaleiro
chamado Hugo de Payns. Seu lugar de nascimento era provavelmente Payns,
a alguns quilômetros de Troyes a jusante do Sena. Ele, era parente do
conde de Champagne,
tinha o feudo de Montigny e trabalhava como administrador na casa do
conde.

I?m 1108, o conde Hugo regressou à Europa, mas em 1114 estava de


volta a Jerusalém. Quer Hugo de Payns o tivesse acompanhado ou não em
sua primeira peregrinação,
quer tivesse ido só agora para a 'terra Santa, parece que aí permaneceu
quando Hugo voltou de novo para a Europa. A essa altura, ao rei Balduíno
I, que não tinha
tido filhos, sucedera seu primo, Balduíno de Lê Bourg, e ao patriarca
Daimbert,'Warmund de Picquigny. Foi a eles que Hugo e um cavaleiro
chamado Godofredo de Saint-Omer
propuseram a organização de uma comunidade de cavaleiros que seguiria a
regra de uma ordem religiosa, mas se devotaria à proteção dos
peregrinos. A regra que tinham
em mente era a de Agostinho de Hipona, seguida pelos cônegos da Igreja
do Santo Sepulcro em Jerusalém.
A proposta de Hugo foi aprovada polo rei e pelo patriarca, e no
dia de Natal de 1119, Hugo de Payns e outros oito cavaleiros, entre eles
Godofredo de Saint-Orner,
Archambaud de Saint-Aignan, Payen de Montdidier, Geoffroy Bissot e um
cavaleiro chamado Rossal ou possivelmente Rolando, fizeram votos de
pobreza, castidade e obediência
perante o patriarca na Igreja do Santo Sepulcro. Eles chamaram a si
mesmos "Os Pobres Soldados de Jesus Cristo", e a princípio não usavam um
hábito que os distinguisse,
e sim as roupas de sua profissão secular. A fim de proporcionar-lhes uma
renda suficiente, o patriarca e o rei dotaram-nos com vários benefícios.
O rei Balduíno
II também lhes providenciou um lugar para viver, encontrando espaço no
palácio em que ele transformara a mesquita al-Aqsa, na borda sul do
monte do Templo, conhecido
pelos cruzados como o Tenaplum Salomonzs- o 'Ièmplo de Salomão. Em
conseqüência, eles vieram a ser conhecidos sucessivamente como "Os
Pobres Soldados de Jesus Cristo
e do Templo de Salomão", "Os Cavaleiros do Templo de Salomão", "Os
Cavaleiros do Templo", "Os'lèmplários" ou simplesmente "O Templo".

E possível que a intenção original de Hugo de Payns e seus


companheiros fosse apenas retirar-se para um mosteiro, ou talvez fundar
uma confraria leiga comparável
ao hospício de São João, que havia sido fundado pelos mercadores de
Amalfi antes da Primeira Cruzada para cuidar dos peregrinos. fliguel, o
Sírio, um cronista medieval,
sugeriu-que foi o rei Balduíno, mais do que consciente de sua
incapacidade de administrar o reino, quem persuadiu Hugo de Payns e seus
companheiros a continuarem
a ser cavaleiros em
OS TEMPLÁRIOS

vez de se tornarem monges, "a fim de trabalharem para salvar a alma dele
e de protegerem estes lugares contra ladrões". Outro historiador das
cruzadas medieval,
Jacques de Vitry, descreve a natureza dual de seu juramento: "defender
os peregrinos contra salteadores e estupradores", mas também observar
"pobreza, castidade
e obediência, de acordo com as regras de padres ordinários".
A decisão de permanecerem em armas deve ter sido inspirada pela
crescente insegurança dos latinos no ultramar. Um grupo de setecentos
peregrinos desarmados
que viajavam de Jerusalém ao rio Jordão na Semana Santa de 1119 foi
emboscado pelos sarracenos: trezentos foram mortos e sessenta levados
como escravos. Saqueadores
sarracenos haviam chegado até os muros de Jerusalém, e havia se tornado
perigoso sair da cidade sem uma escolta armada. Mais tarde, ainda nesse
ano, chegou ao reino
a notícia de uma catástrofe no principado de Antioquia: Rogério, atuando
como regente de Boemundo II, filho de seu primo Boemundo, havia sido
assassinado numa emboscada
e suas forças aniquiladas no que veio a ser chamado de "Campo de
Sangue". Isso levou a urgentes pedidos de ajuda ao papa Calisto II, aos
venezianos e até ao arcebispo
de Compostela, no Noroeste da Espanha. Como sempre, os reveses foram
vistos como castigo divino: achava-se que alguns dos latinos que tinham
se estabelecido na Terra
Santa se haviam suavizado e corrompido pelos costumes lassos do Oriente.
Uma reunião de líderes leigos e espirituais em Nablus, em janeiro de
1120, saudou o projeto
de Payns tanto por seu potencial espiritual quanto prático.
Não se sabe se foi feita uma consulta ao papa Calisto II em Roma
sobre a fundação dessa confraria, mas, como filho do conde Guilherme da
Borgonha, ele provavelmente
teria sido favorável às aspirações dos cavaleiros. Tampouco o que deve
ter-se afigurado uma boa idéia na época-a fusão de habilidades militares
com vocação religiosa
- parece ter sido considerado como um desvio radical de qualquer norma.
Já vimos como a aprovação da luta por uma causa justa por teólogos
católicos havia evoluído
para uma santificação da cruzada - parecia quase inevitável que o
"mosteiro nômade" mais cedo ou mais tarde tomasse a forma de uma ordem
militar.

Em 1120, Foulques de Anjou, um poderoso nobre do centro da


França, foi em peregrinação à Terra Santa e associou-se aos Pobres
Soldados de Jesus Cristo. Parece
que ele havia desenvolvido um elevado conceito do mestre deles, Hugo de
Payns, e após seu regresso dotou a Ordem com uma renda regular. Vários
outros nobres franceses
fizeram o mesmo. Em 1125, Hugo, conde de Champagne, voltou a Jerusalém
pela terceira e última vez. Ele havia repudiado sua; nfiel esposa,
deserdado o filho que acreditava
não fosse seu e transmitido o condado de Champagne a seu sobrinho
Teobaldo.loa

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

Hugo renunciou então a todos os seus bens, materiais e fez os votos de


pobreza, castidade e obediência como um pobre soldado de Jesus Cristo.

Esse não foi o mais significativo ato penitenciai do conde Hugo.


Uns dez anos antes, ele havia dado uma extensão de terra inculta e
reflorestada, a mais
ou menos sessenta e cinco quilômetros a leste de 'Iroyes, a um grupo de
monges liderados por Bernardo de Fontaines-les-Dijon, um jovem nobre
burgúndio. Essa fundação
em Clairvaux era um ramo da Abadia de Citeaux, da dual uma nova ordem
monástica, os cistercienses, tomou seu nome. Citeaux fora fundada em
1098 por um abade beneditino,
Roberto de h-lolesme, que percebeu que as comunidades cluniacenses
haviam abandonado os rigores e a simplicidade da regra de Bento de
Núrsia. Com suas dotações maciças
e poderes e responsabilidades conseqüentes, os abades e priores
cluniacenses haviam sido atraídos pelos negócios do mundo secular.
Deixando aos servos o cultivo
de suas terras, os monges haviam abandonado o trabalho braçal para
trabalhar ou como funcionários da administração ou como "monges do
coro" devotados a uma soberba
liturgia, elaborada com uma pletora de novas devoções. A igreja da
abadia em Cluny, a maior da Europa, 'era ricamente decorada e seus
ornatos eram fabulosos. O dinheiro
jorrava nos cofres monásticos, proveniente não apenas das rendas, dos
dízimos e dos direitos feudais, como também do fluxo de peregrinos que
partiam de Cluny e passavam
pelas estações de posta a caminho do santuário de São Tiago em
Compostela, no noroeste da Espanha.
Um breve relato dessa nova fase de renovação monástica revela os
estreitos vínculos daqueles envolvidos nos primeiros dias dos
templários. Roberto de Molesme,
como Hugo de Payns, nasceu nas proximidades de Troves. Tornou-se monge
beneditino aos dezesseis anos e mais tarde foi abade do mosteiro
cluniacense de São Miguel
de Tonnerre, a cerca de cinqüenta quilômetros de Châtillon-sur-Seine,
onde Bernardo freqüentou a escola. A pedido de um grupo de eremitas que
viviam na vizinha floresta
de Colam Roberto abandonou seu cargo para ensiná-los a viver de acordo
com a regra beneditina. Mais tarde ele levou essa comunidade para terras
pertencentes à sua
família, situadas num penhasco de onde se descortinava a vista do
pequeno rio Laignes, entre Zónnerre e Châtillon-sur-Seroe, onde fundaram
o mosteiro de Molesme.

Dois outros monges à procura de um árduo caminho para a


perfeição passaram por Molesme. Um foi Bruno, nascido em Colônia, que
havia estudado e mais tarde
ensinado na escola da catedral em Reims. Entre seus discípulos, estava o
jovem nobre burgúndio Odon de Lagery, que prosseguiu seus estudos até
tornar-se monge de
Cluny e depois o papa que pregou a Primeira Cruzada, Urbano II. Depois
de desavir-se com o arcebispo de Reims,
OS TEMPLÁRIOS

Bruno retirou-se do mundo para viver como eremita perto de Molesme,


;nas, julgando seu refúgio insuficientemente remoto, foi para o sul,
para Savoy, e fundou um
conglomerado de eremitérios nas montanhas de Chartreuse. La Grande
Chartreuse (A Grande Cartuxa) tornou-se a casa-mãe da mais rigorosa de
todas as ordens monásticas,
a dos cartuxos, com suas ramificações, ou cartuxas, por todo o mundo.

Um segundo monge que passou por Molesme foi um inglês, Estêvão


Harding, membro da nobreza anglo-saxã cuja família se tinha arruinado em
conseqüência da Conquista
Normanda em 1066. Indo primeiro para a Escócia, e daí para a França,
Estêvão estudou em Paris e em 1085, aos vinte e cinco anos, fez uma
peregrinação a Roma, onde
recebeu a tonsura de um monge beneditino, e depois retornou pelos Alpes
para juntar-se à comunidade de Molesme.

A essa altura, a reputação de santidade de Roberto tinha atraído


dotações que, por sua vez, haviam provocado em muitos dos monges uma
lassidão que ele julgava
incompatível com seu conceito de vida beneditina. Em 1098, o ano
anterior à rendição de Jerusalém aos cruzados, Roberto deixou Molesme
com quase vinte adeptos, entre
eles Alberico e Estêvão Harding, e, após uma breve estada na diocese de
Langres, foram para o sul a fim de fundarem uma comunidade em Citeaux, a
aproximadamente
vinte e cinco quilômetros ao sul de Dijon. Aí eles puderam viver de
acordo com o seu conceito da regra de Bento de Núrsia. Abandonaram as
longas litanias e orações
que ocupavam o dia inteiro dos monges do coro de Cluny e rejeitaram
todos os vínculos com a nobreza local. A comunidade devia ser auto-
suficiente: o trabalho braçal
pesado tornou-se parte da rotina diária do monge. Como símbolo de sua
dedicação a uma vida de pureza, mudaram a cor do hábito de preta para
branca. Recusavam-se
a aceitar oblatos infantis e não empregavam servos, mas aceitavam irmãos
leigos para trabalharem em suas propriedades, os quais - caso estas se
situassem a certa
distância do mosteiro

viviam numa "herdade".

Na ausência de Roberto, Molesme tinha entrado em declínio. O


papa Urbano II ordenou-o a voltar. Sucederam-lhe como abades em Citeaux
primeiro Alberico de
Aubrey e depois Estêvão Harding. Impressionados com a sua austeridade,
os papas viriam a conceder posteriormente aos cistercienses isenções do
pagamento de dízimos
e tributos senhoriais; mas seu distanciamento afastou a nobreza da
Borgonha, e a austeridade que impressionou papas dissuadiu aqueles com
vocação monástica. Nos
primeiros anos do abadado de Estêvão Harding, tinha-se a impressão de
que o projeto fracassaria. Então, em 1113, o jovem e carismático
Bernardo chegou de Fontainesles-Dijon
com trinta e cinco parentes e amigos seus. A ordem cisterciense

(7S POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

passou por um rejuvenescimento. Antes do fim do século haveria mil e


duzentas comunidades filiadas a Citeaux por toda a Europa.

Três anos após sua admissão em Citeaux, o próprio Bernardo levou doze
outros monges para darem início a um mosteiro no arborizado vale do
Absinto, doado por Hugo,
conde de Champagne, e conhecido como um refúgio de salteadores. Eles
mudaram o nome para vale da Luz (Clairvaux) e começaram a desbravar o
terreno e a construir
uma igreja e uma habitação. Clairvaux logo atraiu um intenso fluxo de
fervorosos rapazes.
No fim do século XX, quando um monge é visto como algo
excêntrico à margem da sociedade, é difícil entender como tantos jovens
que pertenciam à elite do
seu país haviam optado por uma vida de renúncia. Sem necessariamente pôr
em dúvida a sinceridade e convicção de cada um que estava respondendo a
um chamado de Deus,
não se deve esquecer que a escolha de um descendente de uma casa nobre,
ou mesmo da pequena nobreza, era então, e continuaria a ser por algum
tempo, entre lutar
e orar, entre a guerra e o ministério, entre o escarlate e o preto.

Por conseguinte, um rapaz com uma índole sensível ou estudiosa,


ou simplesmente com aversão à violência e ao derramamento de sangue, bem
poderia ser direcionado
para a vocação religiosa por uma mãe pia e amorosa -- este parece ter
sido o caso de Bernardo e sua mãe, Arlete de Montbard. Aqueles que
ingressassem num mosteiro
menos rigoroso como Cluny poderiam contemplar uma carreira como
administrador eclesiástico ou homem de Estado, terminando, a exemplo de
Odon de Lagery, como papa.
Ou eram livres para dedicar-se à erudição e ao saber: Estêvão I-larding
foi um erudito de primeira ordem, que revisou o texto da Bíblia latina e
pediu a rabinos
que o ajudassem a entender o hebraico do Antigo Testamento.
A decisão de Bernardo de escolher o portão mais estreito e o
caminho mais íngreme para o Reino dos Céus em Citeaux demonstra a pureza
de sua vocação. Também
revela certo grau de autoconhecimento: pelo seu próprio relato, sua
natureza irascível e até mesmo violenta só poderia ser domesticada pela
vida austera seguida
pelos cistercienses. Indícios dessa natureza são encontrados em sua
discussão sobre um jovem monge com Pedro, o Venerável, abade de Cluny.
Em sua carta a Pedro,
Bernardo desdenhosamente contrastou a vida aprazível, fácil e luxuosa em
Cluny com a dieta frugal e o severo regime em Clairvaux. Arrebatado por
sua própria retórica,
Bernardo censura severamente a degeneração moral da comunidade de Pedro.
Ele é ardente, provocador, obstinado, revolucionário: até mesmo a beleza
de Cluny é um sintoma
de corrupção. Pedro, em sua réplica, é conservador, moderado,
conciliador, gentil.
OS TEMPLÁRIOS

Outro aspecto da vocação monástica que surpreende e mesmo


afronta as normas aceitas do fim do século XX é o elevado valor
atribuído à castidade. É difícil
não sentir pena das aristocráticas moças da Borgonha e da Champagne
quando seus maridos potenciais retiravam-se para trás dos muros dos
mosteiros cistercienses.
Cristo tinha louvado aqueles que "se fizeram eunucos" por causa do
Reino; e o apóstolo Paulo, nos primeiros dias da Igreja, havia escrito
que, embora fosse bom ser
casado, permanecer solteiro era melhor. Agostinho de Hipona, como vimos,
pensava que uma entrega sincera a Cristo era incompatível com o
casamento; e uma das principais
campanhas do papado nesse período era a insistência no celibato para o
clero.

Vários fatores concorrem para explicar o que no século XX talvez


pareça uma neurose. Em primeiro lugar, a equação fundamental da vida
eremítica era que a
indulgência de instintos atávicos fechava os canais para o espírito de
Cristo. A própria força e intensidade do sexo, e o modo pelo qual ele
compromete a vontade,
tornavam-no um obstáculo no caminho da santidade. Também havia a idéia
proposta por Agostinho de Hipona, nunca desenvolvida e mais tarde
abandonada, de que o Pecado
Original de Adão e Eva tinha algo a ver com o sexo e que foi transmitido
pelo ato sexual. Uma sensação de repulsa pelo nosso aparelho reprodutor
é encontrada, no
judaísmo, na impureza ritual de uma mulher durante o período menstrual,
e nas Confissões, de Agostinho, na aversão por ele expressa às suas
emissões noturnas involuntárias.

Será que isso significava que mesmo dentro do casamento o sexo


era errado? Por volta do século XI, existiam duas correntes de
pensamento contraditórias na
doutrina da Igreja. Por um lado, havia moralistas monásticos que
julgavam que as relações sexuais conjugais só poderiam ser justificadas
se o seu propósito fosse
a procriação-e ainda assim a conjunção carnal continha certo grau de
pecado. O expoente mais radical desse ponto de vista era Pedro Damião,
um dos principais ideólogos
das reformas gregorianas - um monge que fez carreira na administração
pontifícia até tornar-se cardealbispo de Óstia, vivia à base de pão
grosseiro e água choca,
usava uma cinta de ferro ao redor dos quadris e submetia-se a freqüente
e severa flagelação. Ele considerava o casamento "como um disfarce
obscuro para o pecado,
e se regozijava com qualquer expediente que desencorajasse os homens em
quem a imagem divina fora estampada de envolver-se em algo tão
degradante"."'

Ao mesmo tempo, era crescente a insistência do papado na


natureza sacramental do casamento como uma condição sagrada que, para
sua validade, dependia de
livre consentimento. Em meados do século XII, o papa

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

inglês Adriano IV decidiu que esse direito se aplicava até a escravos; e


"embora se passassem muitos longos anos até que a sociedade ocidental
acreditasse em seus
próprios ouvidos, a decisão dele afinal prevaleceu"."'

Inevitavelmente, se o sexo era um pecado fora do casamento e uma


fonte de imperfeição mesmo dentro dele, era melhor evitar a fonte de
tentação. Era axiomático
que monges não deviam misturar-se com mulheres, cujos olhares
convidativos haviam induzido muitos homens bons à perdição. "Nenhuma
comunidade religiosa era mais
radicalmente masculina em sua têmpera e disciplina do que os
cistercienses, nenhuma evitava o contato com o sexo feminino com maior
determinação ou erguia barreiras
mais difíceis contra a intrusão de mulheres." É claro que igualmente
tentadores para as mulheres eram os rapazes bonitos, e foi sem dúvida
pensando na salvação de
suas almas, mas também em assegurar o futuro das mulheres solteiras de
sua própria família e das famílias de seus monges, que Bernardo fundou
em Jully, próximo a
Molesmé, uma comunidade de freiras, entre as quais sua própria irmã
caçula, Humbeline.

Será que essas moças se tornaram freiras voluntariamente?


Segundo a hitaprima de Bernardo de Clairvaux, Humbeline tinha sido
casada e levado uma vida mundana
antes de ser persuadida pelo irmão a se arrepender e, com consentimento
do marido, tornar-se freira." Aconteceu o mesmo com Guido, o irmão mais
velho de Bernardo:
ele era casado e tinha duas filhas, e no entanto foi convencido por
Bernardo a renunciar a elas e ingressar na comunidade em Clairvaux. É
,evidente que aqui estava
um profeta plenamente reconhecido em seu próprio país. Em que consistia
a natureza do carisma de Bernardo? Seu biógrafo na pita prinaa
considerava-o bonito: o corpo
era esguio e frágil; a compleição, mediana; a pele, macia; os cabelos,
louros e a barba, avermelhada; a tez, fresca e rosada. Mas seu poder
sobre os outros procedia
claramente de sua personalidade e convicção. "Sua face irradiava um
intenso esplendor, cuja origem não era terrena, mas celestial (...) até
mesmo sua aparência física
era transbordaste de pureza interior e abundância de graça."'°9 É inútil
especular como ele teria aparecido na televisão; tudo o que precisamos
saber em relação
aos templários é que Bernardo de Clairvaux, conforme sintetizado por Dom
David Knowles, um historiador beneditino contemporâneo nosso, era

um da pequena categoria de grandes homens no mais alto grau, cujos dons


e oportunidades foram exatamente harmonizados. Gomo líder, como
escritor, como pregador e
como santo, seu magnetismo pessoal e sua força espiritual eram
importantes e irresistíveis. Homens vinham de todos os rincões da Europa
para Clairvaux e eram enviados
de novo por todo o continente (... ). Por
Os TE \7PLARIOS

quarenta anos, Citeaux-Clairvaux foi o centro espiritual da Europa, c


outrora São Bernardo teve entre seus ex-mondes o papa, o arcebispo de
York c muitos cardeais
e bispos.] 1,1

Em 1127, Hugo de Payns foi enviado pelo rei Balduíno II com Guilherme de
Burros numa missão diplomática à Europa Ocidental. O objetivo dessa
missão era persuadir
Foulques de Anjou a desposar Welissanda, filha do rei Balduíno, e
tornar-se herdeiro do trono de Jerusalém - e recrutar tropas para um
planejado ataque a Damasco.
Hlugo tinha um terceiro objetivo: conquistar recrutas e obter a sanção
do papa para sua ordem, os Cavaleiros do Templo. Não se sabe qual era o
tamanho da Ordem nessa
ocasião: os cronistas mencionam apenas os nove fundadores, mas o próprio
fato de que o mestre tenha sido escolhido pelo rei Balduíno para essa
importante müssão,
e de que ele se julgava capaz de fazer com duo alguns cavaleiros
entrassem para o seu séquito, sugere que a Ordem havia alcançado certo
prestígio no ultramar.

Sem dúvida, o rei Balduíno julgou que sua oferta a Foulques e à


nobreza européia fosse atraente: cinco anos antes, sua posição tinha
sido desesperadora,
mas agora ele podia fazer esse apelo de uma posição de poder. Corri Tiro
nas mãos dos latinos, ele podia contemplar um ataque ao interior do
território muçulmano.
Em 1124, ele havia sitiado Alepo; em 1125, tinha derroxado um exército
sarraceno em Azaz e feito incursões no território damasceno. No início
de 1126, com a força
militar completa de seu reino, havia penetrado ainda mais no território
damasceno, com considerável êxito. A própria Damasco parece ter estado
ao seu alcance: com
reforços e uma derradeira arremetida, ela poderia ter caído, afastando a
ameaça de muçulmanos do interior, criando um novo principado para os
latinos e fornecendo
quantidades fabulosas de presas de guerra.

Como Balduíno tinha três filhas e nenhum filho, era


evidentemente indispensável para a estabilidade em longo prazo do reino
que Melissanda, sua filha mais
velha, se casasse com um homem de certa posição social.
Independentemente do que os papas pudessem dizer a respeito da validade
de um casamento que dependesse do
livre consentimento do casal, era essencial à segurança do ultramar que
cada feudo tivesse um líder forte. Gomo concessão à maior probabilidade
de um homem morrer
jovem, tinha-se convencionado que um feudo poderia ser herdado por sua
mulher e filhos. No entanto, nem uma mulher nem uma criança poderiam
comandar cavaleiros em
batalhas. Portanto, era imperativo que, logo após a morte de um barão,
sua mulher desposasse alguém que pudesse fazê-lo. Não existem provas de

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

que as próprias esposas questionassem essa necessidade, embora, como


veremos, seus sentimentos às vezes influíssem na escolha.

A viagem de hlugo à Europa foi um enorme sucesso. Em abril de


1128, encontramo-lo em Anjou visitando Fouldues em Le Mans. I?mjunho,
Godofredo, filho de Foulques,
casou-se cota Matilda, a herdeira de Henrique I da Inglaterra, deixando
Fouldues livre para mudar-se para Jerusalém e desposar iylelissanda. O
rei Henrique I reagiu
com generosidade à arrecadação de fundos de Hugo, dando-lhe "grandes
tesouros, que consistiam em ouro e prata ", o que sem, dúvida pavimentou
o caminho para a bem-sucedida
viagem de Hugo pela Inglaterra, pela Escócia, pela França e por
Flandres, recolhendo pequenas doações de armaduras e cavalos e dotações
mais significativas dos condes
de Blois e de Flandres, e de Guilherme II, castelão de Saint-Olner, na
Picardia, pai"' de Godofredo de Saint-Omer, que, junto com Hugo cie
Payns, fora o co-fundador
dos Pobres Soldados de Jesus Cristo.
Não está de todo clara se a arrecadarão de fundos de Hugo foi
especificamente para sua Ordem ou, de modo mais geral, para a planejada
campanha do rei Balduíno
IT contra Damasco. ACrôjr2caflyaglo-Saxã relata, sem dúvida com certo
exagero, duo Hugo conseguiu recrutar mais pessoas do que o papa Urbano
II para a Primeira Cruzada.
Numerosas escrituras públicas mostram nobres francos vendendo seus bens
ou levantando empréstimos para financiar sua participação numa cruzada.
A autoridade que Balduíno deu a Hugo e seu sucesso no
recrutamento de nobres importantes para o assalto a Damasco sugerem que
ele era uma figura investida
de mais autoridade do que antes se supunha. O selo primitivo dos
templários exibia dois cavaleiros montando um único cavalo para
simbolizar sua pobreza, mas não
existe nada que sugira que Hugo viajou pela Europa dessa forma. Não
obstante a turbulência política na Europa possa ter impedido monarcas de
primeira categoria,
tais como os reis da Inglaterra e da França e n conde de Flandres, de
tomar a Cruz, eles haviam reagido de maneira entusiástica ao pedido de
Hugo de ajuda à sua
Ordem militar.

Mais importante ainda, contudo, foi a aprovação da nova Ordem


pela Igreja. Como o historiador Joshua Prawer assinala, "no uso
medieval, oido significava
bem mais do que uma organização ou pessoa jurídica, porque

incluía a idéia de uma função social e pública. Os homens que pertenciam


a
um O1-(Io não seguiam simplesmente seu destino pessoal, mas ocupavam
um lugar numa forma de organização política cristã"."' A fim de
assegurar
essa aprovação, Hugo compareceu perante o concílio da Igreja reunido em
T royes em janeiro de 1129. O conde Teobaldo de Champagne era anfitrião
dos veneráveis sacerdotes, e na presidência do concílio estava o legado
pon
tifício, Mateus de Albano. A maioria dos prelados presentes eram
franceses

109
OS TEMPLÁRIOS

- dois arcebispos, de Reims e de Sens, dez bispos e sete abades, entre


eles

Estêvão Harding, abade de Molesme, e Bernardo, abade de Clairvaux.


A despeito da sanção prévia do patriarca de Jerusalém, a
aprovação do concílio não foi uma conclusão precipitada. Uma carta de
encorajamento, que se julga
ter sido escrita por Hugo aos irmãos em Jerusalém enquanto ele estava na
Europa, sugere uma crise no estado de ânimo deles. Havia - e continuava
a haver - dúvidas
no espírito de alguns eminentes sacerdotes acerca da moralidade da
guerra: alguns eram de opinião que a reprimenda de Cristo a Pedro quando
este decepou a orelha
do servo do sumo sacerdote significava que o uso da violência era
incompatível com a vida de um religioso professo. O culto lombardo
Anselmo, arcebispo de Canterbury,
havia considerado o ato de tomar a Cruz para ir em cruzada imensamente
inferior à vocação monástica: "Para ele, a escolha importante era
simplesmente entre a Jerusalém
celestial (...), que seria encontrada na vida monástica, e a carnificina
da Jerusalém terrena neste mundo, que, sob qualquer que fosse o nome,
não passava de uma
visão de destruição (...)".'"
Todavia, Anselmo estava agora morto e a preeminência por ele
conquistada em virtude de sua santidade e sabedoria tinha passado para
Bernardo de Clairvaux.
Apesar de sua vida encerrada em Clairvaux, Bernardo sabia da fundação da
Ordem dos Templários por intermédio do conde Hugo de Champagne, seu
amigo e benfeitor. Ao
ouvir que Hugo havia entrado para a Ordem em Jerusalém, Bernardo
escreveu-lhe congratulando-o, mas ao mesmo tempo lamentando-se de que
ele não tivesse optado por
tornar-se monge em Clairvaux. Devido ao patrocínio anterior de Hugo,
Bernardo deve ter tido certa dívida de gratidão para com esse grande
nobre que havia renunciado
ao mundo. Um homem ainda mais estreitamente relacionado com os
templários era o tio mais moço de Bernardo, André de Montbard, meioirmão
de sua mãe. Ambos devem tê-lo
mantido informado das necessidades do ultramar: em 1124, quando o abade
cisterciense de Morimond propôs a fundação de um mosteiro na Terra
Santa, Bernardo rejeitou
a idéia alegando que "as necessidades lá são cavaleiros que combatam, e
não monges que cantem e se lamentem". 114

Para atrair o apoio de Bernardo, Hugo de Payns lhe escrevera de


Jerusalém pedindo-lhe ajuda na obtenção de "confirmação apostólica" e na
redação de uma Regra
de Vida. Ele enviou o pedido aos cuidados de dois cavaleiros, Godemar e
André - é possível que este último fosse o tio de Bernardo, a quem ele
dificilmente se recusaria
a atender. Embora prostrado pela febre; Bernardo obedeceu a uma
convocação imperativa para participar do concílio da Igreja em Troyes e
claramente dominou os debates:
Jean Michel, que registrou as atas do concílio, disse que o fez "por
ordem do concílio e do

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

venerável padre Bernardo, abade de Clairvaux","5 cujas palavras eram


"prodigamente elogiadas" pelos prelados ali reunidos. A única oposição -
cujas razões são desconhecidas
- veio de João, bispo de Orléans, descrito pelo cronista Ivo de Chartres
como um "súcubo e sodomita" e conhecido pela alcunha de "Flora"."`

I Iugo de Payns, acompanhado de cinco membros da Ordem -


Godofredo de Saint-Omer, Archambaud de Saint Armand, Geoffroy Bisot,
Payen de NIontdldier e um certo
Rolando -, descreveu a fundação da Ordem e apresentou sua regra.
Examinada atentamente e revisada pelos padres do concílio, foi
transcrita por Jean Michel num documento
de setenta e três artigos. A influência cisterciense logo se faz notar.
O prólogo nada tem de bom a dizer sobre a cavalaria secular: ela
"desprezou o amor à justiça
que constitui seus deveres e não fez o que deveria, que é defender os
pobres, as viúvas, os órfãos e as igrejas, mas empenhou-sé em pilhar,
roubar e matar";"' mas
agora àqueles que se juntavam aos templários oferecia-se a oportunidade
de "abandonar a massa da perdição" e de "revitalizar" a ordem de
cavalaria e ao mesmo tempo
salvar suas próprias almas. Isso significava renúncia total e, quando
não ocupados com obrigações militares, viver a vida de um monge. "Vós
que renunciais a vossos
próprios anseios (... ) para a salvação de vossas almas (... ) esforçai-
vos em toda a parte, com desejo sincero, por ouvir as matinas e todo o
serviço de acordo
com a lei canônica (...)"; e se as circunstâncias tornassem isso
impossível, "em vez de rezar as matinas, ele deveria rezar treze pai-
nossos: sete para cada hora
e nove para as vésperas".

Assim como nas ordens beneditina e cisterciense se fazia uma


distinção entre o monge e o irmão leigo, a diferença entre um cavaleiro
do Templo e um sargento
ou escudeiro deveria tornar-se evidente pela sua vestimenta. "Ordenamos
que os hábitos de todos os irmãos sejam sempre de uma só cor, ou seja,
brancos, pretos ou
marrons." O branco só poderia ser usado por um cavaleiro de profissão
plena, "a fim de que aqueles que renunciaram à vida de trevas reconheçam
uns aos outros como
tendo sido reconciliados com o seu criador pelo símbolo de seus hábitos
brancos, que significam pureza e castidade absoluta". Castidade, isto é,
celibato, era a
condição sinequa non do juramento do cavaleiro. "A castidade é a
convicção do coração e a sanidade d0 corpo. Pois se um irmão não fizer o
voto de castidade ele não
poderá alcançar o descanso eterno nem poderá ver Deus, conforme a
promessa do apóstolo que disse (...) `Esforçai-vos para levar a paz a
todos, conservai-vos castos,
sem o que ninguém pode ver Deus'."
Consentia-se que homens casados ingressassem na Ordem com a
permissão de suas esposas, mas não podiam usar o hábito branco, e as
viúvas, embora fossem sustentadas
pela Ordem por causa do domínio feudal trazido
OS TEMPLÁRIOS

por seus maridos, deviam, como as outras parentas dos cavaleiros, ser
banidas das comunidades dos templários.

A companhia de mulheres é uma coisa perigosa, pois por causa dela o


velho diabo tem desviado muitos do reto caminho do Paraíso (...).
Acreditamos que seja perigoso para qualquer religioso olhar
demais para o rosto de uma mulher. Por esta razão nenhum de vós deve
atrever-se a beijar uma
mulher, seja viúva, moça, mãe, irmã, tia, seja outra qualquer; e
doravante os Cavaleiros de Jesus Cristo devem evitar a qualquer preço os
abraços das mulheres, pelos
quais os homens muitas vezes se arruinaram, a fim de que possam
permanecer eternamente perante a face de Deus com a consciência pura e a
vida firme."

Seguindo a regra de Bento de Núrsia, possivelmente como


precaução contra outras formas de pecado sexual, o dormitório onde os
cavaleiros dormiam deveria
estar "iluminado até de manhã"; e os templários tinham de dormir
"vestidos com camisa e calções e sapatos e cinto". Isso talvez visasse a
capacitá-los a lutar em
pouco tempo: "ordenamos que todos façam o mesmo, de modo que cada um
possa vestir-se e despir-se, e calçar e tirar suas botas com
facilidade". O fanqueiro da Ordem
visava a assegurar que as roupas dos cavaleiros lhes assentassem bem e
que seus cabelos fossem cortados curtos; todavia, não lhes era permitido
barbear-se: todos
os cavaleiros do Templo usavam barba. Não devia haver variações de seus
trajes de acordo com a moda: "nenhum irmão terá uma peça de pele em suas
roupas (...). Nós
proibimos sapatos de bico fino e cadarços e vedamos seu uso a qualquer
irmão (...) pois é manifesto e bastante conhecido que essas coisas
abomináveis pertencem aos
pagãos",

Como os monges, os cavaleiros tinham de comerem silêncio no


refeitório. Porque "se sabe que o hábito de comer carne corrompe o
corpo", o consumo de carne
era permitido apenas três vezes por semana - abster-se por completo,
como os cistercienses, enfraquecê-los-ia como combatentes. Aos domingos,
os cavaleiros e o clero
tinham permissão para fazer duas refeições à base de carne, ao passo que
os escudeiros e os sargentos "devem contentar-se com uma refeição e ser
gratos a Deus por
ela". Às segundas e quartas-feiras e aos sábados, os irmãos podiam fazer
duas ou três refeições à base de vegetais e pão. Eles tinham de jejuar
às sextas-feiras,
e durante os seis meses entre Todos os Santos (1° de novembro) e a
Páscoa deviam consumir uma quantidade mínima de alimentos. Os doentes
estavam isentos do jejum.
Um décimo da comida dos templários e todas as sobras eram destinados aos
pobres.

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

Pode-se perceber nessa primitiva regra dos templários o medo de


Bernardo de Clairvaux e dos padres do concílio de que, sem a salvaguarda
do enclausuramento
monástico, os cavaleiros do Templo resvalassem de volta para os hábitos
do mundo. A Ordem poderia possuir terras e beneficiar-se do trabalho de
arrendatários e vilões,
os quais ela deveria governar de maneira justa. Também lhe era permitido
receber dízimos como parte de uma dotação leiga ou clerical. A falcoaria
e a caça eram proibidas,
exceto ao leão, o qual, como Satã, "vem rodeando e procurando o que
possa devorar". Não só sapatos de bico fino e cadarços eram proibidos a
um cavaleiro do Templo,
mas também ornamentos de ouro ou prata em suas rédeas e uma sacola de
linho ou lã para comida.

Os irmãos tinham de evitar a frivolidade em duas conversas -


"palavras vãs e gargalhadas pecaminosas" - e tampouco deviam passar o
tempo tagarelando, "pois
está escrito (...) que conversa em excesso não é destituída de pecado".
Eles não podiam jactar-se de suas proezas passadas: "nós proibimos e
impedimos com firmeza
qualquer irmão de narrar a outro ou a qualquer pessoa os atos de bravura
por ele praticados na vida secular, os quais deveriam.antes ser chamados
disparates cometidos
na execução dos deveres de um cavaleiro, e os prazeres da carne que ele
teve com mulheres imorais". Eles tinham de evitar "a praga da inveja, do
rumor, do ressentimento
e da maledicência"; e, presumivelmente uma injunção prática contra a
inveja, "nenhum irmão deveria pedir de modo explícito o cavalo ou a
armadura de outro", e, se
o mestre decidisse dá-los a outro, ele "não deveria ficar aborrecido ou
indignado"."9

Reconhecia-se que os cavaleiros deveriam ter algum contato com o


mundo, mas eles não podiam "ir à vila ou à cidade sem a permissão do
mestre (...) exceto
para orar à noite no Sepulcro e nos lugares de oração que se situam
dentro dos muros da cidade de Jerusalém". Mesmo aí os irmãos tinham de
ir aos pares, e, caso
fossem obrigados a hospedar-se numa estalagem, "nem irmão, nem
escudeiro, nem sargento, podem ir aos aposentos de outro para vê-lo ou
falar com ele sem permissão".
A exemplo de um abade numa comunidade monástica, o poder do mestre era
absoluto. "A fim de executarem seus santos deveres e obterem a glória do
regozijo do Senhor
e de escaparem do medo do fogo do inferno, é conveniente que todos os
irmãos professos obedeçam estritamente a seu mestre. Pois nada é mais
caro a Jesus Cristo do
que a obediência. Pois assim que algo é ordenado pelo mestre ou por
aquele a quem o mestre deu autoridade, deve ser feito sem demora, como
se o próprio Cristo o
tivesse ordenado." Se o desejasse, o mestre poderia aconselhar-se com os
irmãos mais sábios e, em se tratando de assuntos sérios, "reunir a
congregação inteira para
ouvir os conselhos de
OS T:MPLÁRIOS

todo o capítulo". O mestre e o capítulo estavam autorizados a punir os


irmãos que transgredissem.

Dos setenta e três artigos dessa rega aprovada no Concílio de Troyes


para os Cavaleiros do Templo, cerca de tri>ta baseiam-se na regra de
Bento de Núrsia. Bernardo
e os padres do concílio pareciam mais ansiosos em transformar cavaleiros
em monges do que monges em cavaleiros. Há algumas referências à vocação
militar dos irmãos-por
e~emplo, especificando o número de cavalos a serem colocados à
disposição de cada cavaleiro - e uma concessão às condições no ultramar:
ser-lhes-ia permitido trocar
suas camisas de lã por outras de linho nos meses de verão. Mas em feral
o foco da regra parece ter sido a salvação das almas dos cavaleiros, e
não a eficácia de
uma força de combate. Os padres do concílio não parecem ter previsto que
a aplicação da disciplina monástica a uma unidade militar resultada,
pela primeira vez desde
o colapso do Império Romano do Ocidente, nutra cavalaria pesada
disciplinada e uniformizada que iniciava uma campanhaque não estava
sujeita a oscilações de lealdades
pessoais ou às incertezas dos tributos feudais."'

Contudo, a Ordem dos Cavaleiros do Templo bem poderia ter mal


grado desde o início, se não tivesse recebido a aprovação da Igreja no
Concí
lio de Troyes, em seguida confirmada pelo papa Honório II. Essa
aprovação
deveu-se em grande parte ao apoio de Bernardo de Clairvaux, o qual ele
reforçou, após seu retorno a Clairvaux, escrevendo o tratado De laude
novas
militae ("Em louvor da nova ordem de cavalaria"). Será que isso foi
suscitado
por críticas à Ordem? Ao regressar a Jerusalém, Hugo de Payns recebeu
uma
carta de Guigo, o quinto prior da Grande Cartuxa. Ele era um monge
respei
tadíssimo e evidentemente sentiu que era seu dever convencer os templá
rios de que deveriam ver sua voca~âo antes de tudo como espiritual, e
não
como marcial. "Na verdade, é inútil para nós atacarmos os inimigos
externos
se não derrotarmos primeiro os internos.""' Ele enviou cópias de sua
carta',
por dois mensageiros e pediu a Hugo que assegurasse que ela fosse lida
para
todos os membros de sua Ordem. .!
i

Foi decerto para mitigar quaisquer dúvidas no espírito dos


templários já existentes e de recrutas potenciais que Hugo insistiu com
Bernardo para escrever
De lande. Bernardo afirma na introdução que bastaram apenas três pedidos
para que ele pegasse na pena. O tratado é dirigido aos irmãos e no
início os adverte de
que o Diabo tentará solapar a resolução deles, impugnando seus motivos
para matar o inimigo e levar os espólios de guerra, tentando desviá-los
do ofício escolhido
com a quimera de um bem maior. Ele reconhecia que eles eram uma inovação
na vida da Igreja, "completamente diferente da maneira habitual da
cavalaria","' cujos motivos
puros transfor-

OS POBRES SOLDADOS DE JESUS CRISTO

oravam homicídio, o que era mau, em malecídio' - o homicídio do mal -, o


que era bom. Não havia dúvida no espírito de Bernardo de que a Terra
Santa era o patrimônio
de Cristo injustamente confiscado pelos sarracenos grande parte do
tratado era preenchida com uma descrição das cenas de sua vida e Paixão.
Era para o bem espiritual
dos templários que eles pisariam o mesmo solo que seu salvador. Acima de
tudo, deparar com a realidade material do Santo Sepulcro faz o cristão
recordar-se de que
aqui ele também vencerá a morte.

Ide em frente em segurança, cavaleiros, e com alma intrépida afugentai


os inimigos da cruz de Cristo, certos de que nem a morte nem a vida
podem separar-vos do amor
de Deus, que está em Cristo Jesús, repetindo para vós mesmos a cada
perigo: Quer vivamos, quer morramos, nós somos do Senhor. Quão gloriosos
são os vencedores que
regressam da batalha! Quão abençoados são os mártires que morrem em
combate! Regozijai-vos, destemidos atletas, se viverdes e conquistardes
no Senhor, mas exultai
e glorificai ainda mais se morrerdes e vos juntardes ao Senhor. A vida
de fato é fecunda e a vitória gloriosa, mas (...) a morte é melhor do
que qualquer dessas
coisas. Pois se aqueles que morrem no Senhor são abençoados, quão mais
abençoados são aqueles que morrem pelo Senhor?

Malecide no original. (N. do T)


OS TEMPLÁRIOS

na, e um grupo de seus vassalos comprometeram-se a servir com os


templários por um ano. Ele também decretou que os templários, junto com
seus dependentes, deveriam
ser dispensados da jurisdição de tribunais leigos.

Uma segunda ordem de monges militares com raízes na Terra Santa - os


Cavaleiros do Hospital de São João - também foi atraída para a
Reconquista ibérica. Essa ordem
tinha sido fundada não como uma ordem militar, mas como uma comunidade
leiga devotada ao cuidado de peregrinos pobres pelos monges de Santa
Maria dos Latinos, um
mosteiro fundado em Jerusalém antes da Primeira Cruzada por mercadores
de Amalfi, os quais naquela época exerciam o monopólio no comércio do
Ocidente com o Levante.
Gomo os Templários primitivos e os cônegos da Igreja do Santo Sepulcro,
os cavaleiros seguiram a regra de Agostinho de Hipona e construíram seu
hospício no local
onde a concepção de São João Batista tinha sido anunciada por um anjo.
Um bula papal de 1113 sancionando o Hospital chama seu fundador
de irmão Gérard. Após a captura de Jerusalém em 1099, sua piedade,
associada a uma excepcional
competência como "o mais eficiente oficial de aquartelamento que os
cruzados haviam encontrado",'26 levou a dotações por Godofredo de
Bouillon e seus sucessores
e por europeus pios impressionados com o que tinham ouvido dos soldados
e peregrinos que retornaram. Por volta de 1113, o Hospital havia fundado
várias casas na
Europa para prestar assistência a peregrinos a caminho da Terra Santa.
O irmão Gérard morreu em 1120 e sucedeu-lhe Raimundo de Le Puy,
um cavaleiro franco que por princípios religiosos permanecera em
Jerusalém depois da Primeira
Cruzada. Evidentemente, a necessidade imperativa de uma força para
proteger os peregrinos era tão óbvia para ele quanto para Hugo de Payns.
Se Raimundo e seus confrades
tinham renunciado à espada e à armadura, eles agora as recobravam.
Embora o Hospital nunca abandonasse sua vocação original de cuidar dos
peregrinos e dos enfermos,
acabou tornando-se uma ordem militar. Em 1128, enquanto Hugo de Payns
estava na Europa, o irmão Raimundo de Le Puy acompanhava o rei Balduíno
II numa campanha contra
Ascalão.
As duas ordens expandiram-se lado a lado: a estrutura
administrativa desenvolvida pelos templários na Europa era baseada na
que já havia sido criada pelos
hospitalários, ao passo que a aprovação da regra dos templários pela
Igreja no Concílio de Troyes e o tratado de Bernardo de Clairvaux em sua
defesa sancionaram
e encorajaram a evolução do Hospital numa ordem militar comparável. Os
hospitalários retiveram a regra mais branda dos cônegos agostinianos,
mas tiraram dos templários
o título de mestre para o

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

seu superior. Seus alojamentos junto da Igreja do Santo Sepulcro logo


absorveram o mosteiro de Santa Ana e possuíam um grande átrio com
capacidade para dois mil
peregrinos e várias centenas de cavaleiros, "um edifício tão grande e
maravilhoso que parecia inacreditável, a menos que alguém o visse". 127

O rei Afonso de Aragão, "o Batalhador", apesar de todas as suas proezas


como martelo dos mouros, revelou-se incapaz de gerar filhos. Seu
casamento com Urraca de
Castela foi dissolvido em 1114. Sem herdeiros, e possivelmente com a
expectativa de prevenir uma disputa pelo seu reino que levasse a
dissensões após a sua morte,
redigiu um testamento, em outubro de 1131, deixando seu reino para os
Cônegos do Santo Sepulcro em Jerusalém e para as duas ordens militares,
os hospitalários e
os templários. "A estes três concedo todo o meu reino (...) também a
autoridade que tenho em todas as terras de meu reino, tanto sobre os
clérigos como sobre os
leigos, os bispos, os abades, os cônegos, os monges, os nobres, os
cavaleiros, os burgueses, os camponeses e os mercadores, os homens e as
mulheres, os pequenos
e os grandes,'os ricos e os pobres, bem como os judeus e os sarracenos,
com leis como as que meu pai e eu temos tido até agora e que devemos
ter."'z8

Não se sabe o motivo dessa decisão, mas, quando Afonso morreu em


1134, ela foi ignorada e, a despeito do apoio do papa Inocêncio II, os
três beneficiários
foram incapazes de fazê-la cumprir. Todavia, quando dez anos mais tarde
se chegou a um acordo em Gerona com Raimundo Berenguer de Barcelona, os
templários foram
compensados com o domínio de meia dúzia de fortalezas, um décimo da
receita real, isenção de vários impostos e um quinto de todas as terras
conquistadas aos mouros."'
Assim, não obstante sua relutância inicial, eles foram atraídos para a
Reconquista e tornaram-se uma das forças mais temíveis em Portugal e na
Espanha.

O próprio fato de a Ordem do Templo ter sido capaz de assumir esse


compromisso militar numa segunda frente em 1114 demonstra seu êxito no
recrutamento de cavaleiros.
Suas razões para alistar-se variavam, mas seria um erro subestimar o
zelo religioso. O consenso entre historiadores de que outrora as
cruzadas eram um frágil pretexto
para pilhagem e rapina havia agora mudado em favor da motivação
penitenciai. "O compromisso de participar de uma cruzada (...) implicava
pesadas despesas e verdadeiros
sacrifícios financeiros, e os ônus sobre as famílias eram ainda mais
pesados se vários membros decidissem partir."'3° O mesmo acontecia com
um cavaleiro que se juntava
aos templários: "esperava-se que os postulantes providenciassem

OS TEMPLÁRIOS

suas próprias roupas e equipamento quando ingressavam na ordem",I" e


suas famílias e amigos muitas vezes arcavam com as despesas.
Com freqüência, doação e compromisso estavam associados. Hugo de
Payns e Geoffroy de Saint-Omer foram elogiados por trazerem seus bens
consigo. No Norte
da Provença, Hugo de Bourbouton ingressou na Ordem do Templo em 1139,
doando-lhe terras suficientes para fundar a comunidade de Richerenches,
que continua a ser
uma das mais bem preservadas até hoje. Ele afirmou que o fez em
obediência à exortação de Cristo no Evangelho de São Mateus: "Se alguém
quer vir após mim, negue-se
a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a
sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim,
vai encontrá-la". 131
Seis anos mais tarde, seu filho Nicholas seguiu-lhe o exemplo e doou
toda a sua propriedade à Ordem, exceto as ovelhas, que deveriam prover à
subsistência de sua
mãe. "Eu me submeto à mesma ordem de cavalaria de Deus e do Templo, a
fim de servir como servo e irmão, embora indigno, e que todos os dias da
minha vida possa eu
merecer a indulgência de meus pecados e por herança [estar] com o eleito
na eternidade."'33
A família Bourbouton procedia de uma classe social um pouco
abaixo da dos grandes nobres da Europa ocidental, com quem tinha
relações de amizade, e o mesmo
se pode dizer de Hugo de Payns, de Geoffroy de SaintOmer e da maioria
dos que proviam a liderança da Ordem. Contudo, esta também apelava a
cavaleiros mais pobres,
e no começo uma origem fidalga não parece ter sido um requisito
necessário à admissão. É claro que um postulante teria de ser treinado
em combate a cavalo, com experiência
ou em batalhas ou pelo menos em justas. As ordens militares eram na
verdade menos exclusivas do que os mosteiros :134 a instrução não era
uma exigência - poucos
dentre os cavaleiros sabiam ler ou escrever, e com certeza não em latim.
Cabia aos capelães recitar o ofício, e tudo o que se requeria dos irmãos
era que eles rezassem
o número de pais-nossos prescritos nas horas determinadas.
Sem dúvida, havia postulantes cujos motivos eram mistos. Grandes
do reino, como Hugo, conde de Champagne, ou Harpin de Bourges, entraram
para a Ordem do
Templo num estádio mais avançado de suas vidas, após perderem suas
esposas-um devido à separação, o outro por morte. Cavaleiros mais jovens
e de recursos limitados
eram atraídos pelas "perspectivas de viagens e promoção no mundo".13=
Também havia a irresistível atração da Terra Santa. Há casos de
cavaleiros que haviam viajado
à Palestina a suas próprias expensas, como, por exemplo, oprimo de
Rogério, bispo de Worcester, que ingressou numa ordem militar quando
seus recursos acabaram.
OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

Como a Ordem cresceu em poder e riqueza, ela oferecia uma


estrutura de carreira comparável à da Igreja. Em pouco tempo, os mestres
das ordens militares tornaram-se
figuras de proa, não só na Síria e na Palestina, mas também na Europa
Ocidental. Os mestres provinciais e outros funcionários graduados, com
recursos enormes à sua
disposição, passaram a pertencer à mesma categoria dos mais eminentes
pares do reino. Sua reputação de honestidade e discernimento os
transformou nos conselheiros
de confiança de papas e reis.

Talvez tenha havido motivos mais românticos: baladas e canções


de gesta gostavam de sugerir que os cavaleiros entravam para a Ordem do
Templo por causa de
amor não retribuído. Como veremos, dizia-se que Gérard de Ridefort, o
décimo mestre, havia se alistado por ter sido repudiado como marido por
uma herdeira, mas nesse
caso um desgosto amoroso pode ter sido menos significativo do que
expectativas frustradas; todavia, não seria fantasioso inferir pelo
menos uma analogia parcial
entre a Ordem do Templo e a Legião Estrangeira francesa. Embora um
período probatório constasse na regra primitiva, ele foi rejeitado sob
pressão causada por atritos;
e mesmo no início da Ordem haviam sido tomadas providências para
recrutar entre cavaleiros excomungados. "Onde sabeis que cavaleiros
excomungados se reúnem, ordenamo-vos
que ides lá."'36 Um cavaleiro acusado de homicídio poderia ingressar na
Ordem para expiar seus pecados. A penitência imposta aos cavaleiros que
assassinaram o arcebispo
de Canterbury Tomás Becket, foi de quatorze anos de serviço na Ordem.

Por fim, havia o permanente apelo de camaradagem masculina em


situações de perigo e necessidade. Isso certamente era uma importante
característica das cruzadas,
e sem dúvida atraía homens para as ordens militares. A tendência
beneditina e cisterciense em se desligar do mundo não se estendia à
amizade entre homens. Muito
pelo contrário, os grandes abades, como Anselmo de Canterbury, Bernardo
de Clairvaux e Aelred de Rievaulx, viam-na como um dos maiores bens que
esta vida tinha a
oferecer. Aelred escreveu um tratado sobre o assunto, De
spiritualiamicitia. Bernardo, "embora não excluísse mulheres de suas
amizades, recusava-se ainda menos a
permitir que o amor de marido e mulher pudesse partilhar a qualidade da
verdadeira amizade humana"; não obstante, pensava que "o amor humano era
infinitamente menor
do que o amor de Deus, [e] o amor conjugal, menor do que o amor entre
amigos do sexo masculino".13' Numa sociedade onde a violência era
endêmica e a coroa era incapaz
de controlar barões rebeldes, os laços de parentesco e amizade eram de
suma importância, e verificamos que a cousinage com freqüência
determinava quem entrava para
um mosteiro ou partia em cruzada. Durante duas gerações, vinte e cinco
descendentes de
OS TEMPLÁRIOS

Guido de Monthéry tomaram a Cruz; ey nós vimoscomo Bernardo apareceu


diante dos portíSes de CiteaUX com trirrlta e cinco )arentes e amigos.
Será que havia um elernento sexual nesses laços masculinos? Com
certeza, entre os monges não havia proibiição do tipc de amitié
particulière que mais tarde
não foi vista com bons olhos na históriada Igreja. Algumas cartas
escritas por Anselmo, o arcebispo benieditino de Canterbury, se parecem
com cartas de amor: "Meu
bem-amado (...) já que não alimento dúvidas de que amamos urh ao outro
com a mesmia intensidaJe, tenho certeza de que cada um de nós deseja
igualmente o olutro,
pois alueles cujos espíritos são fundidos juntos no fogo do amor sofrern
de igual nodo se seus corpos estão separados pelo lugar de suas
atividades diárias (...)";
ou: "Se eu tivesse de descrever a paixão de nosso amor mútuo, receio qLe
àqueles que não conhecem a verdade eu daria a irrlpressão de; exagerar.
Fortanto, tenho
de ocultar um pouco da verdade. Mas tu sabes quão profunda é a afeição
que vivenciamos - olhos nr3s olhos, beijo por beijo), abraço po-
abraço".

Conquanto Anselmo estivesse escrevendo cerca de meio século


antes da fundação da Ordem do fémplo, seu caso é adequado à nossa
consideração do modo de vida
semimorástico dos ttemplários. As inferências deduzidas pelo erudito
arrlericano John Boswel113's de passagens como as acima citadas, de que
Anselmo considerava
os atos homossexuais como "fraquezas comuns, pelas quais quase tidos
poderiam sentir empatia", foram refutadas de maneira convincente pelo
eminente historiacor Sir
Richard Southem. Esse autor assinala que "ninguém sabia coisa algurra a
respeito de tendências homossexuais inatas ou tilha interesse nelas; na
medida em que se
sabia que elas existiatrn, eram vistas simplesmente com) sintomas da má
conduta geral da humanidade". A úuca forma de homossexualidade notada no
século XI era a
sodomia, "e esta era mais ou nnenos equiparada com outra forma de sexo
antinaturatl, a cópula com animais ".`39

A condenação inequíwca da sodomia pela Igreja como um pecado


contra Deus e contra a natureza baseou-se nas doutrinas de Paulo de
Tarso'` e de Agostinho de
Hipona,I" as quais eram bastan:e conhecidas dos instruídos beneditinas.
Elas semdúvida tinham menor importância para os barões e os cavaleiros
analfabetos, e a sodomia
era com certeza praticada, no tempo de Anselmo, n~i corte do r-,i
Guilherme, o Ruivo. "Deve-se reconhecer que esse pecado se tornou tão
~omum", escreveu Anselmo,
"que quase ninguém se envergonha dele, e muitos, por serem ignorantes da
sua enormidade, abandonam-se a ele." Em -onseqüência do que viu,
Anselmo, como arcebispo
de Canterbnlry, "foi no:ável por suar condenação desse pecado e de
qualquer comportalmento que pudesse erlcorajá-lo, como cabelos compridos
e roupas efeminadas".I4z

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

Portanto parecia certo que, embora a oportunidade de amores


homossexuais não fosse um motivo para ingressar na Ordem do Templo, os
padres do Concílio de
Troyes estavam cônscios do perigo: daí o regulamento de que o dormitório
dos irmãos deveria permanecer iluminado a noite inteira. A proibição de
partilharem camas,
dormirem nus ou no escuro era "para que o Inimigo hostil não lhes desse
ensejo para pecarem".'43 Também está claro que havia casos em que
cavaleiros ou sargentos
sucumbiam à tentação. A transgressão foi incluída no detalhado rol de
penitências redigido pela Ordem por volta de 1167, descrita como "o
imundo e fétido pecado
da sodomia, o qual é tão imundo, tão fétido e tão repugnante que não
deveria ser mencionado". 144 Sua gravidade era da mesma ordem que matar
um cristão ou uma cristã
- e era considerado mais grave do que dormir com uma mulher.

Após o retorno a Jerusalém de seus emissários, Hugo de Payns e Guilherme


de Burres, com forças que haviam recrutado na Europa, o rei Balduíno II
iniciou imediatamente
seu planejado ataque a Damasco. No começo de novembro, Balduíno saiu da
fortaleza de Banyas à frente de seu exército, que incluía um contingente
de templários, e
chegou a menos de dez quilômetros de Damasco. Guilherme de Burres partiu
numa expedição de pilhagem com o contingente da Europa, o qual, ansioso
por saquear, saiu
de controle. A trinta quilômetros do acampamento principal, esse
contingente foi atacado pela cavalaria damascena e apenas quarenta e
cinco homens sobreviveram.
Balduíno, esperando pegar o inimigo desprevenido enquanto celebrava essa
vitória, ordenou a seu exército que atacasse. Mas assim que as tropas
iniciaram a marcha
contra Damasco começou a chover torrencialmente e as estradas tornaram-
se intransitáveis, de modo que a ação teve de ser abandonada.

Existem poucas informações a respeito das atividades de Hugo de


Payns e dos templários primitivos durante os anos seguintes. A primeira
fortaleza a ser transferida
para uma ordem militar, Bethgibelin, situada entre Hebron, nas colinas
da Judéia, e Ascalão, no litoral, foi entregue aos hospitalários em
1136. É provável que os
templários tenham concentrado seus recursos na tarefa para a qual tinham
sido originalmente destinados: a proteção das rotas em geral seguidas
pelos peregrinos.
Na Cisterna Rubea, a meio caminho entre Jerusalém e Jericó, os
templários construíram um castelo, uma estalagem e uma capela. Havia uma
torre dos templários mais
perto de Jericó, em Bait Jubr atTahtani; um castelo e priorado no cume
do monte Quarantânia, onde Jesus jejuou por quarenta dias e foi tentado
por Satanás; e um
castelo às margens do rio Jordão, no local onde Jesus foi batizado por
João Batista."
OS TEMPLÁRIOS

A primeira fortaleza importante transferida para os templários


não foi noreirno de Jerusalém, mas na fronteira mais ao norte das
possessões latinas, no;
mentes Amanus. Essa estreita cadeia de montanhas estende-se ao sul da
Ás.a M enor e, com picos que atingem de d o is a três mil metros, cria
uma barreira natural
entre o reino armênio da Cilicia e o principado de Antioquia, e também
entre Alepo e o interior da Síria e a costa mediterrânea.

A estrada por entre essas montanhas a partir de Alepo ou de


Antioquia até os portos de Alexandreta e Port Bonnel (Arsuz) é pelo
desfiladeiro de Belen, também
conhecido como portões da Síria. Na década de 1130 os templários
receberam a responsabilidade de proteger a região montanhosa frentei
riça entre o reino da Cilícia
e o principado de Antioquia - a fronteira deAmanus. Afim de guardarem o
desfiladeiro de Belen através da cordilheira deAmanus, eles ocuparam a
fortaleza de Barghas,
que denominaram Gastou, um Castelo "que domina um cume inacessível,
erguido numa rocha inexpugnável e cujos alicerces tocam o céu".'46
Gaston ficava no lado oriental
da cordilheira, de onde se descortinava a planície de Alepo a Antioquia.
Mais ao norte, para protegerem o desfiladeiro de Hajar Shuglan, eles
ocuparam os castelos
de Darbsaq e de Ia Roche de Roussel.

Eras 1130, o príncipe de Antioquia, Boemundo II, foi morto


quando combatia os turcos danishmend e sua cabeça embalsamada foi
enviada pelo emir dCmishmend
Ghazi como presente ao califa de Bagdá. Sua viúva, Alice de Jerusalém,
foi a segunda das três admiráveis filhas de Balduíno de Le Bourg e
Morphia, uma princesa armênia.
Melissanda, sua irmã mais velha e herdeira de Jerusalém, estava agora
casada com Foulques de Anjou. Constança, filha de Alice, herdou então o
trono do pai em Antioquia,
mas, ao saber da morte do marido, Alice usurpou o trono. Logo se tornou
evidente que esse não era o limite de suas ambições: ela planejou
deserdar a própria filha
e frustrar uras movimento de seu pai, o rei Balduíno de Jerusalém, para
exercer seus direitos como regente. Alice enviou um emissário a Zengi, o
governador sarraceno
de Alepo, pedindo-lhe ajuda.

Esse infeliz mensageiro foi interceptado por Balduíno e


enforcado. Alice fechou os portões de Antioquia ao pai, provavelmente
com o apoio de cristãos autóctones
entre seus cidadãos, mas os barões franceses não a apoiaram e reabriram
os portões. Pai e filha foram reconciliados. Alice foi banida para o
porto de Latáquia, mas
sua deslealdade para com o pai sem dúvida apressou o firas dele.
Regressando enfermo a Jerusalém, Balduíno foi admitido como Cônego da
Igreja do Santo Sepulcro e
morreu em agosto de 1131 usando o hábito de um monge.

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

Cinco anos mais tarde faleceu Hugo de Payns. O capítulo geral dos
cavalei-

ros do Templo reuniu-se em Jerusalém para eleger um novo grão-mestre,


Roberto de Craon, o qual, embora fosse conhecido como "o Burgúndio", era
na verdade de Anjou
e, portanto, foi sem dúvida o candidato preferido de Foulques. Contudo,
ele também havia firmado reputação como um notável administrador, e logo
demonstrou sua compreensão
das necessidades da Ordem do Templo ao obter privilégios adicionais e
excepcionais do papa Inocêncio II na bula Omne datum optimum, publicada
em 1139.

Tratado por "nosso querido filho Roberto", a bula decretava que


a Ordem do Templo deveria ser isenta de toda a jurisdição eclesiástica
intermediária e estar
sujeita apenas ao papa. Até mesmo o patriarca de Jerusalém, em cuja
presença os cavaleiros fundadores haviam feito seus votos, perdeu toda e
qualquer autoridade
sobre a Ordem. A bula consentia que a Ordem tivesse seus próprios
oratórios e permitia que padres nela ingressassem como capelães, o que
tornou os templários completamente
independentes tanto no ultramar quanto no Ocidente. A Ordem foi
autorizada a receber dízimos, mas não precisava pagá-los - uma isenção
que até então se aplicava
apenas à.Ordem Cisterciense; ela poderia ter cemitérios vinculados a
suas casas e enterrar viajantes e seus confrâtres - direitos com um
considerável valor pecuniário.
Os templários também tinham o direito aos despojos tomados ao inimigo e
deviam ser responsáveis apenas perante seu mestre, que tinha de ser um
deles e escolhido
pelo capítulo sem qualquer pressão dos poderes seculares.

O que estava por trás dessa generosidade do papa? Inocêncio II,


nascido Gregório Papareschi, procedia da classe alta romana, mas sua
eleição tinha sido contestada,
e um candidato rival, que adotara o nome de Anacleto II, era apoiado
pelo rei normando da Sicília, Rogério II. Inocêncio fugiu para a França,
onde recebeu o apoio
de Bernardo de Clairvaux, cuja influência era suficiente para trazer
Luís VI da França e Henrique I da Inglaterra para o seu lado. Norberto,
o arcebispo de Magdeburgo,
persuadiu os bispos alemães e o rei Lotário III a apoiá-lo, e por fim
apenas a Igreja na Escócia, na Aquitânia e na Itália normanda reconheceu
Anacleto II.
Anacleto morreu em 1138 e no ano seguinte Inocêncio regressou a
Roma pondo fim ao cisma de oito anos. Será que Omnedatum optimum foi a
recompensa de Bernardo
por seu apoio? A gratidão talvez tenha sido um fator; todavia, as bulas
que reforçavam os privilégios dos templários, publicadas durante os
pontificados subseqüentes
de Celestino II e Eugênio III Milites Templi em 1144 e Militia Dei em
1145 -, sugerem que o apoio à Ordem era agora a política oficial da
Cúria romana. Manter a
Terra Santa continuou a ser uma prioridade para quem quer que estivesse
usando a tiara

125
OS TEMPLÁRIOS

papal, e a Ordem do Templo, que começara em conseqüência do carisma de


alguns cavaleiros pios, já se tornara o principal sustentáculo da guerra
da cristandade contra
o Islã.

Se alguém duvidasse da necessidade de crescente ajuda ao ultramar, a


demonstração veio logo após a publicação de Milites Templi, na véspera
do Natal de 1144, pela
rendição de Edessa ao exército do governador de Mossul, Irnad ad-Din
Zengi. A notícia dessa catástrofe alcançou o recém-eleito papa Eugênio
III em Viterbo, no outono
de 1145. Italiano de origem humilde, Eugênio tinha sido monge em
Clairvaux, tendo sido atraído para a comunidade pelo magnetismo de
Bernardo, e na época de sua eleição
era abade da casa cisterciense de São Vicente e Santo Anastácio, além
dos limites de Ruma. Em reação a esse revés no Oriente, Eugênio
endereçou uma bula, Quantum
praedecessores, a Luís VII, rei da França, pedindo-lhe que tomasse a
Cruz.
Agora, pela primeira vez, um monarca europeu assumia o desafio
de uma cruzada. Luís era descendente direto de Hugo Capeto, eleito rei
dos francos por seus
barões em 987. Tendo herdado o trono de seu pai, Luís, o Gordo, aos
dezessete anos, era casado com Alienor, filha e herdeira de Guilherme,
duque de Aquitânia. Apesar
de ter apenas vinte e cinco anos quando recebeu o apelo do papa, ele
convocou seus barões ajuntar-se a ele em Bourges por ocasião do Natal de
1145. Aí lhes disse
que planejava partir em cruzada e solicitou-lhes que fizessem o mesmo.
Luís não mencionou nem a exortação do papa, nem sua encíclica Quantum
praedecessores, apresentando
a iniciativa como se fosse sua.
A reação foi insatisfatória. Os principais barões tinham pouco
respeito por Luís, que, três anos antes, havia precipitado uma guerra ao
apropriar-se de terras
pertencentes a Teobaldo de Champagne, seu vassalo mais poderoso. Em
Bourges, até mesmo seu conselheiro mais eminente, o abade Suger de
Saint-Denis, argumentou contra
a idéia de uma cruzada. Estadista perspicaz que percebia o valor de uma
monarquia forte, Suger receava que os barões franceses criassem
problemas na ausência do
rei. O máximo que Luís ccnseguiu em Bourges foi um acordo para adiar a
decisão sobre o assunto até a Páscoa seguinte, quando a corte se
reuniria em Vézelay, na Borgonha.
Sem se intimidar por esse contratempo inicial a seu plano, o rei
Luís voltou-se para o único homem na França cuja autoridade e prestígio
excediam os do abade
Suger: Bernardo de Clairvaux. Fazia trinta e dois anos que Bernardo
tinha aparecido diante dos portões de Citeaux e trinta que ele fundara a
comunidade cisterciense
em Clairvaux. Nesses anos, como vimos, ele havia firmado uma posição
ímpar como mentor de papas e reis. Não só

126

OS TEMPLÁRÍOS NA PALESTINA

Eugênio III havia sido um de seus monges, mas naquele mesmo ano o irmão
de Luís VII, Henrique de França, ingressara na comunidade em Clairvaux.

O poder de Bernardo não se originava apenas dessas relações


influentes: num mundo em que tantos pregavam, mas tão poucos praticavam
as virtudes cristãs,
sua piedade e ascetismo o qualificavam a atuar como a consciência da
cristandade, constantemente punindo os ricos e poderosos e protegendo os
pobres e os fracos.
Para alguns historiadores modernos, que vivem numa época em que a
maioria das pessoas são indiferentes ao que as espera após a morte,
Bernardo se parece com um zelote
virtuoso a seus próprios olhos - alguém que "via o mundo com os olhos de
uma fanático"'"' e "tinha uma inquietante tendência a considerar natural
e certo que seus
contemporâneos eram malvados que precisavam arrepender-se". 148
Entretanto, para Bernardo, rodeado pela brutalidade secular e pela
corrupção do clero, e absolutamente
convencido da realidade do inferno, não era possível fazer muita coisa
para salvar uma alma exposta ao perigo.

O fascínio do mal, a seu ver, residia não apenas na óbvia


tentação da riqueza e do poder temporal, como também na mais sutil e de
resto mais perniciosa atração
de falsas idéias. Além de sua piedade, Bernardo era famoso pela
extraordinária inteligência, que demonstrou em seus sermões sobre Graça
e Livre-arbítrio e sobre
o livro Cântico dos Cânticos, do Velho Testamento. Reconhecia
prontamente idéias heréticas e era implacável na perseguição de quem as
pregava. Em 1141, no Concílio
de Sens, acusou o célebre téologo (e amante de Heloísa) Pedro Abelardo
de heresia e persuadiu os bispos convocados a condenar a doutrina
exageradamente nacionalista
de Abelardo.

Em 1145, ao mesmo tempo que Eugênia III estava pensando numa


nova cruzada, Bernardo estava no Languedoc pregando contra as idéias
heréticas de um pregador
popular, Henrique de Lausanne. Após ter cooperado para a reconciliação
do rei Luís VII com o conde Teobaldo de Champagne, Bernardo ouviu de
forma acolhedora o pedido
do jovem rei. Não obstante, ele não gostaria de ver um arriscado
empreendimento espiritual liderado por um senhor secular e, portanto,
encaminhou de novo a questão
ao papa Eugênio, o qual, em 1° de março de 1146, republicou sua bula
Quantum praedecessores e atribuiu a Bernardo a tarefa de promulgá-la na
França.
No dia 31 de março, Luís VII e os nobres franceses reuniram-se
em Vézelay, conforme fora combinado. Como já se sabia que Bernardo iria
pregar, admiradores
seus vieram de toda a França. Do mesmo modo como acontecera com o papa
Urbano II em Clermont, em 1095, a igreja que abrigava as relíquias de
Maria Madalena não era
grande o suficiente para conter a multidão: um palanque teve de ser
construído nas cercanias da cidade. A eloqüên-

127
OS TEMPLÁRIOS

cia de Bernardo surtiu o efeito desejado. Quando terminou seu discurso,


havia tantos homens dispostos a tomar a Cruz que Bernardo teve de cortar
seu hábito em tiras
de pano.
Primeiro veio o rei Luís, e depois dele seu irmão Roberto, conde
de Dreux. Muitos dos que seguiram os príncipes capetíngios "estavam
seguindo, ou tinham
a intenção de seguir, as pegadas de pais e avós",14' como Afonso Jordão,
conde de Toulouse, que havia nascido enquanto seu pai sitiava Trípoli;
Guilherme, conde
de Neves, cujo pai participara da desastrosa expedição de 1101; Thierry,
conde de Flandres, que era casado com a enteada da rainha Melissanda; e
Henrique, herdeiro
do conde de Flandres. A eles juntaram-se Amadeu, conde de Savóia;
Arquibaldo, conde de Bourbon; e os bispos de Langres, Arras e Lisieux.
Alguns dias mais tarde,
Bernardo escreveu ao papa: "Vós ordenastes, e eu obedeci, e a autoridade
de quem deu a ordem tornou fecunda minha obediência (...). Aldeias e
cidades estão agora
desertas. Vós dificilmente encontrareis um homem para cada sete
mulheres. Em toda a parte, vereis viúvas cujos maridos ainda estão
vivos"."'
A pregação de Bernardo não se limitou a Vézelay. Daí ele seguiu
para o norte, para Châlons-sur-Marne, de onde foi para Flandres. Aos
recrutas potenciais
que não pôde encontrar pessoalmente ele remeteu cartas. Ao povo inglês
escreveu:

O Senhor do céu está perdendo sua terra, a terra na qual apareceu aos
homens, na qual viveu entre os homens por mais de trinta anos (...).
Sabe-se que vosso país
é rico em homens jovens e vigorosos. O mundo está repleto de louvores a
eles, e o renome de sua coragem está nos lábios de todos (...). Iç'

Ele enfatizou a boa sorte deles por lhes ter sido dada essa oportunidade
de salvar suas almas.

Vós agora tendes uma causa pela qual podeis lutar sem pordes vossas
almas em perigo; uma causa em que vencer é glorioso e pela qual morrer
não é senão ganhar (...).
Não percais esta oportunidade. Tomai o sinal da cruz. Imediatamente vós
tereis indulgência de todos os pecados que confessardes com o coração
contrito. Não vos custa
muito comprar, e se a usardes com humildade, vereis que ela é o reino
dos céus.

A princípio, nenhuma exortação semelhante foi feita aos alemães,


porque o papa Eugênio queria que o rei Conrado III o ajudasse contra o
rei normando da Sicília,
Rogério II. Contudo, Bernardo foi chamado à Renânia pelo arcebispo de
Mogúncia, a fim de deter a pregação não autorizada de um monge
cisterciense chamado Rodolfo,
pregação essa que estava incitando

128

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

pogroms contra os judeus. Bernardo já havia condenado tais atrocidades


em suas cartas. "Os judeus não devem ser perseguidos, mortos ou mesmo
postos em fuga (...).
Para nós os judeus são as palavras vivas da Escritura, pois sempre nos
fazem lembrar do que o Senhor sofreu.""'
O monge Rodolfo foi posto no seu lugar, mas o entusiasmo pela
cruzada que ele havia despertado já não podia ser aplacado. Por
conseguinte, decidiu-se incluir
os alemães, e Bernardo viajou de cidade em cidade apregoando essa
maravilhosa oportunidade para a remissão dos pecados. Sua ênfase recaía
sempre sobre a vantagem
espiritual para o pecador - a excepcional oportunidade de escapar à
punição de seus pecados -, e Deus parecia validar o que ele oferecia,
operando milagres por onde
ele passava.

A missão mais importante de Bernardo era persuadir o relutante


rei Conrado a liderar os cruzados alemães. Ele fracassou na primeira
tentativa em Frankfurt,
em novembro de 1146, mas deram-lhe uma segunda oportunidade em Speyer no
Natal. Embora um intérprete, ele agora pedia a Conrado que imaginasse
Cristo no Dia do Juízo
comparando o que fizera por Conrado com o que Conrado fizera por ele.
"Homem, o que eu deveria ter feito por ti e não fiz?" A resposta do rei
foi ajoelhar-se e tomar
a Cruz.
Em janeiro de 1147, o papa Eugênio III cruzou os Alpes com
destino à França. Ele encontrou-se com o rei Luís em Dijon e prosseguiu
até Clairvaux, a abadia
onde fora outrora monge. De Clairvaux foi para Paris, onde passou a
Páscoa na Abadia de Saint-Denis. No dia da Páscoa ele presenteou o rei
Luís com o estandarte
real, a oriflamme, e um cajado de peregrino; então, no dia 27 de abril,
a oitava da Páscoa, compareceu à reunião do capítulo dos templários
franceses em seu novo
enclave, construído um pouco ao norte da cidade de Paris.

Foi uma ocasião solene e grandiosa, que firmou a importância da


Ordem. Eugênio designou o irmão Aymar, tesoureiro dos templários em
Paris, para receber a
renda de um imposto de um vinte avos sobre todos os bens da Igreja que o
papa havia instituído para financiar a cruzada.''' Acompanhavam o papa o
rei Luís da França,
o arcebispo de Reims, quatro outros bispos e cento e trinta cavaleiros.
O mestre da Ordem, Everardo de Barres, havia tornado a chamar seus
melhores homens de Portugal
e da Espanha. Com eles estavam pelo menos outros tantos sargentos e
escudeiros. A visão dos cavaleiros barbados em seus hábitos brancos
impressionou todos os cronistas
que registraram o evento; e é quase certo que foi nessa ocasião que o
papa Eugênio lhes deu o direito de usar uma cruz escarlate sobre o
peito, "de modo que o sinal
servisse triunfantemente como um escudo e eles nunca recuassem em face
dos infiéis": o sangue vermelho do mártir foi superposto ao branco do
casto. 154
OS TEMPLÁRIOS

Vários dos nobres alemães haviam seguido o exemplo de Conrado de tomar a


Cruz, mas alguns dos que possuíam terras no Oriente, como Henrique, o
Leão, duque da Saxônia,
e Alberto, o Urso, margrave de Brandemburgo, receberam os mesmos
privilégios do papa Eugênio para uma cruzada contra os vendes pagãos,
nas fronteiras orientais da
Europa cristã. Apesar dessas defecções, um exército de aproximadamente
vinte mil homens partiu de Ratisbona em maio de 1147 para seguir a rota
por terra da Primeira
Cruzada. O exército francês, que se havia reunido em Metz, seguiu poucas
semanas mais tarde, o rei Luís acompanhado por sua corajosa esposa,
Alienor de Aquitânia.
Ao contrário de seu predecessor, Aleixo Comneno, o imperador
bizantino Manuel Comneno não havia solicitado ajuda à Europa Ocidental e
suspeitava de suas
intenções. Ele estava em guerra com Rogério da Sicília e sentira-se
obrigado a firmar um pacto com os turcos seldjúcidas para lhe darem
cobertura na retaguarda.
Para os cruzados ocidentais, esse pacto com o infiel só era
compreensível como um sintoma de traição, e a suspeita que Manuel
alimentava sobre eles foi retribuída
ao décuplo.

Ansioso para seguir viagem, Conrado cruzou o Bósforo com seu


exército de alemães, que se separou em Nicéia. Oto, bispo de Freising,
partiu com todos os não-combatentes
pela rota mais longa junto à costa - rota essa ainda sob o controle dos
bizantinos -, ao passo que Conrado seguiu à frente do exército pela rota
direta através da
Anatólia. Em Doriléia os alemães foram atacados e vencidos pelos turcos
seldjúcidas, e os sobreviventes, Conrado entre eles, regressaram a
Nicéia, onde os franceses
juntaram-se a eles. Os dois reis então conduziram suas tropas para Êeso,
ao sul, lutando constantemente com os bizantinos em busca de alimentos.

Em Éfeso, Conrado adoeceu e voltou por mar para Constantinopla.


Os franceses dirigiram-se para o interior, ao longo do vale do Meandro.
O rei Luís já havia
descoberto o valor do mestre dos templários franceses, Everardo de
Barres, e o enviou como um de seus três embaixadores para tratar como o
imperador bizantino, Manuel
Comneno. Agora ele passava a apreciar o valor de seus cavaleiros.
Enquanto marchavam durante o penetrante tempo invernal - a rainha e suas
damas de honra tiritando
em suas liteiras -, os cruzados eram constantemente fustigados pela
cavalaria ligeira dos turcos, composta de soldados com um talento
extraordinário para disparar
flechas enquanto cavalgavam. A cavalaria pesada dos francos, tão eficaz
numa batalha campal, não podia ser desdobrada nos estreitos
desfiladeiros dos montes Cadmus.
Aí os turcos intensificaram seus ataques, e o exército francês estava em
risco de desintegrar-se. Nessa situação extrema, Luís voltou-se para
Everardo de Barres,
que dividiu o exército em diferentes

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

unidades, cada uma comandada por um cavaleiro do Templo: "uma forma de


organização comunal remediou a situação; os cruzados formaram uma
fraternidade com os templários,
a cujas ordens juraram obedecer°.'S5 Dessa maneira a coluna alcançou o
porto bizantino de Antália, de onde o rei Luís tomou um navio para
Antioquia com a nata do
que sobrara de seu exército, deixando que o resto se encaminhasse para a
Síria da melhor maneira possível.

Uma calorosa recepção aguardava o rei Luís e os cruzados franceses


quando chegaram a Antioquia. O príncipe regente era agora Raimundo de
Poitiers, um dos filhos
mais novos do duque Guilherme de Aquitânia que alguns anos antes fora
casado com Constança, a jovem herdeira do principado. Ele era portanto
tio de Alienor de Aquitânia,
e cavalgou até o porto de São Simeão para saudar sua sobrinha real e os
cruzados franceses. Para Raimundo e os barões latinos, o pequeno
destacamento francês era
consideravelmente realçado pela presença da jovem rainha com suas damas
de honra; e Alienor também estava contente de ver seu destemido tio
Raimundo. Bonita, inteligente,
vivaz, entusiasmada e com cerca de vinte e cinco anos, ela julgava que
seus sentimentos pelo jovem marido petulante e indeciso não haviam
melhorado durante a terrível
viagem através da Anatólia.
A situação de Luís nessa conjuntura piorou devido à falta de
dinheiro: ele havia gastado todo o seu tesouro em alimentos e
transporte, fornecidos a preços
extorsivos por seus aliados bizantinos. Mais uma vez voltou-se para o
mestre francês dos templários. Everardo de Barres tomou um navio até
Acre, onde usou os recursos
da Ordem do Templo para arrecadar a quantia necessária. O rei escreveu
ao abade Suger, instruindo-o a pagar à Ordem dois mil marcos de prata,
quantia equivalente
à metade da renda anual das propriedades reais,'"' o que demonstrava não
apenas os elevados custos de uma cruzada, como também os consideráveis
recursos financeiros
da Ordem do Templo.

O prazer de Alienor em flertar era claramente apreciado por seu


tio, e começaram a circular mexericos em sua corte, em Antioquia, de que
a afeição de um
pelo outro havia ido além dos limites do decoro. Não se sabe quais eram
os sentimentos de Constança, esposa de Raimundo; ela mais tarde
demonstraria que também era
suscetível à paixão, mas nessa fase talvez fosse jovem demais para se
dar conta do que estava acontecendo. Mas não o rei Luís, cujo ciúme era
agravado pelo apoio
direto de Alienor às idéias de Raimundo acerca do que deveria ser feito
com a força expedicionária francesa.
Raimundo queria que Luís atacasse Alepo a fim de aliviar a
pressão sobre suas forças em confronto com os turcos seldjúcidas no
norte. Ele argu-
OS TEMPLÁRIOS

meltava que era também a melhor medida preparatória para a reconquista


de ?dessa, cuja queda tinha levado à cruzada. Luís talvez tivesse
concordado,não fosse pela
suspeita de que Railmundo estava dormindo com sua muIhe~. Ao ser
informado de que Conrada, agora restabelecido, havia chegado a Acr, ele
anunciou que apenas em Jerusalém
seu goto poderia ser cumprido e deu ordens a seu exército para marchar
rumo ao sul. Alienor, com a autocorifiança de uma mulher que sabe que é
mais ripa do que o
marido, disse que ficaria e que solicitaria a anulação do casamento, mas
Luís levou-a consigo à força.

Apesar das perdas sofridas pelos exércütos alemão e francês enquanto


cruzavam a Anatólia, uma força considerável da Europa Ocidental reuniu-
se em Acre em junho de
1148. Tropas lideuadas pelo marquês de Montferrat e pehs condes de
Auvergne e de Savóia haviam se juntado aos dois reis, Conrad) e Luís.
Uma força provençal sob
d comando de Afonso Jordão, conde de Toulose, tinha chegado por mar.
Também por mar veio o que restou de um contingente de cruzados ingleses,
flamengos e fdsiosque
fora desviado en rou,e por Afonso Henriques, rei de Portugal, para
ajudá-lo a tomar Lisboa aos mocos.

No dia 24 de junho, a reunião de latinos da Europa e do ultramar


foi presidida pelo jovem rei de Jerusalém, Ba.lduíno III, que governava
juntamente core
a mãe, Melissanda. Faziam parte da sua comitiva os principais barões e
bispos de seu reino. A equipe local era superada em hierarquia pelos
visitantes entre eles
o rei Comado e dois dos seus meios-irmãos, o duque da Áustria e o bispo
de Freisingen, seu sobrinho Frederico da Suábia, guelfo da Bavie-a, e os
poderosos bispos
de Metz e Toul. Com o rei Luís estavam seu irmão Roberto de Dreux,
Henrique de Champagne (filho de Teobaldo,seu antigo inimigo) e Thierry,
conde de Flandres. Também
estavam presentes os grão-mestres do Templo e do Hospital. Ás ausências
marcantes foram as de Raimundo de Poitiers, príncipe de Antioquia,
agastado depois da rixa
core Luís, e de Afonso Jordão, conde de Toulouse, que morrera
subitamente em Cesaréia.

O que se deveria fazer com esse poderoso exército? Um conselho


de sábio3 teria concordado com Raimundo de Antioquia que a maior ameaça
aos francos vinha
de Alepo, governada por Nur ed-Din, filho de Zengi. Sua derrota também
era a necessária preliminar para a recuperação de Edessa. Ao sul, a
estrada para o Egito estava
bloqueada pela fortaleza de Áscalâo, ainda nas mãos dos califas
fatímidas. O terceiro objetivo possível era Damasco, mas Damasco era o
único domínio muçulmano na
região que se mostrara disposto a aliar-se aos francos contra Nur ed-
Din. Essa consideração foi des-

OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

cartada tanto pelos barões locais, que estavam de olho na extensa faixa
de terra controlada pelos damascenos, quanto pelos monarcas europeus,
que julgavam que Damasco,
uma cidade com ressonância bíblica, não lhes traria apenas presa de
guerra, mas também renome.
A exemplo da força comandada pelo rei Balduíno II vinte anos
antes, o exército cruzado marchou através de Banyas e chegou a Damasco
em 24 de julho, assentando
acampamento nos pomares ao sul da cidade, onde se preparou para o cerco.
Os damascenos fizeram sortidas e atacaram os francos com forças
irregulares escondidas nos
pomares. Chegando à conclusão de que a cobertura do terreno estava
ajudando o inimigo, os dois monarcas europeus mudaram o acampamento para
o terreno aberto a leste
de Damasco. Aí puderam desdobrar sua cavalaria pesada, mas não havia
água, e eles tiveram de enfrentar a seção mais bem fortificada dos muros
da cidade.
Reforços muçulmanos entraram em Damasco pelo norte e juntaram-se
às forças nativas em repetidas incursões. Enquanto os líderes do
invencível exército dos
cruzados discutiam uns com os outros sobre quem governaria a cidade
assim que ela fosse capturada, suas forças foram obrigadas a continuar
na defensiva, e começaram
a circular rumores de que eles tinham sido traídos. Chegou ao
acampamento a informação de que Nur ed-Din estava a caminho para
socorrer Damasco com a condição de
que lhe permitissem entrar na cidade. Os barões locais então se deram
conta da insensatez de sua estratégia e em 28 de julho persuadiram os
monarcas europeus a abandonar
o cerco. Fustigado pela cavalaria ligeira damascena, o outrora
invencível exército moveu-se com dificuldade de volta à Galiléia. A
humilhação dos cruzados era total.

Inevitavelmente, depois de uma derrota desse tipo, seus causadores


procuraram bodes expiatórios e os encontraram em muitas formas
diferentes e contraditórias. Os
cruzados culpavam os barões do ultramar, que antes tinham tido relações
tão amigáveis com os damascenos. Eles já haviam recebido seu dinheiro;
não era provável que
o tivessem recebido de novo? Mesmo os templários ficaram sob suspeita.
Em novembro, o rei Comado partiu desgostoso da Terra Santa. Com seu
séquito, foi de navio
de Acre a Tessalonica, de onde foi atraído de volta a Constantinopla
pelo imperador Manuel Comneno. Se nutria suspeitas de traição dos
gregos, ele as refreou: o
imperador grego e o rei alemão tinham um inimigo comum em Rogério da
Sicília, e uma aliança foi selada com o casamento do irmão de Comado com
a sobrinha de Manuel.
Para o rei Luís VII, os bizantinos tinham sido a causa de todos
os seus infortúnios e agora estavam juntos com os sarracenos como
inimigos da cris-
OS TEMPLÁRIOS

tandade. A despeito dos rogos do abade Suger para que ele retornasse,
Luís demorou-se na Palestina, meditando sobre a catástrofe, seu ódio aos
gregos induzindo-o
a uma aliança com o rei Rogério. Quando afinal decidiu regressar à
Europa Ocidental, escolheu um navio siciliano. À altura do Peloponeso, a
flotilha foi atacada
por uma esquadra bizantina, e quando o estandarte de Luís foi erguido,
permitiram que seu barco prosseguisse, mas alguns de seus companheiros e
a maior parte de
seus bens, que estavam noutro navio siciliano, foram capturados e
levados como presa para Constantinopla.
Essa derradeira humilhação fez com que o fremente ódio de Luís
aos gregos finalmente estourasse. Em Potenza, com o rei Rogério, Luís
planejou uma nova cruzada,
que incluía Constantinopla entre seus objetivos. Ele continuou a
promover a idéia em sua viagem para o norte, ignorando o ceticismo
expressado pelo papa Eugênio
e recrutando vários cardeais da cúria, o abade de Cluny, Pedro, o
Venerável, e até mesmo seu principal mentor, o abade Suger de Saint-
Denis.
Sem dúvida, a disposição de ânimo vingativa de Luís originava-se
em parte da consciência de que perdera muito mais no Oriente do que um
excelente exército
e os lauréis da vitória: também perdera sua esposa, e com ela urr dote
maior do que o reino da França. Quando eles passaram por Roma na volta,
o papa Eugênio tentou
reconciliar o casal real, cujo casamento problemático era então de
conhecimento público, insistindo em que dormissem na mesma cama e
chorando ao abençoá-los quando
partiram."'
Apesar dos conselhos do papa, o casamento nunca se refez da
humilhação de Luís durante a Segunda Cruzada. Entre as lembranças do
ainda jovem rei, a responsabilidade
pelo fiasco diante dos muros de Damasco pelo menos fora partilhada com
outrem. Mas aquela terrível marcha através da Anatólia, seu exército
constantemente fustigado,
salvo da aniquilação não pela sua liderança, mas pela disciplina dos
templários; seu abandono de uma grande parte de seu exército no porto de
Anatólia; e a desgraça
final de se descobrir um marido enganado na corte do tio de sua mulher -
tudo isso era decerto mais doloroso e, na sua própria opinião, provinha
da traição dos gregos.
Visando a submeter-se a uma prova e a procurar vingança, Luís
solicitou mais uma vez a Bernardo de Clairvaux que pregasse essa nova
cruzada. Como antes,
Bernardo sentiu que não poderia recusar. Sempre ansiando pela paz do
claustro, ele não obstante sentiu-se compelido a tentar recuperar algo
do que fora perdido.
Ele havia se correspondido com a rainha Melissanda em Jerusalém e com o
tio dele, André de Montbard, o senescal dos templários no ultramar, e
portanto sabia muito
bem que eles necessitavam de ajuda. Também estava cônscio de que muitos
dos que tinham tomado a
OS TEMPLÁRIOS NA PALESTINA

Cruz instigados por ele consideravam-no responsável pelo desastre. Ele


se defendeu no segundo livro de sua De consideratione. Os bodes
expiatórios aqui não eram
barões traiçoeiros ou gregos ardilosos: para Bernardo, a derrota foi a
punição de Deus por causa dos pecados dos homens. Para seus críticos,
essa hipótese em parte
tornou Deus inescrutável demais: alguns, como Gerhoh de Reichersberg,
preferiam ver a cruzada como a obra do Diabo.

Num concílio da Igreja realizado em Chartres em 1150, pediram a


Bernardo que não apenas pregasse como também liderasse uma nova cruzada.
"Espero que a esta
altura vós já deveis ter sido informado", escreveu ele ao papa Eugênio,

como a assembléia em Chartres, numa decisão das mais surpreendentes, me


escolheu como líder e comandante da expedição. Estejais absolutamente
certo de que isto nunca
foi, nem é agora, por conselho ou desejo meus, e que está completamente
além de meus poderes, conforme eu os avalio, fazer tal coisa. Quem sou
eu para organizar
exércitos em ordem de batalha, para comandar homens armados? Eu não
poderia pensarem nada mais distante da minha vocação, mesmo supondo que
tivesse a força e a habilidade
necessárias. Mas vós sabeis tudo isto, e a mim não me compete ensinar-
vos.

O que aconteceu foi que a Ordem Cisterciense obstou a determinação do


concílio. A nobreza da Europa Ocidental também não reagiu ao apelo do
abade de Clairvaux. Homens
demais haviam morrido bem recentemente, e em vão. O entusiasmo do rei
Luís era contrabalançado pelo ceticismo do rei Contado. A idéia de uma
nova cruzada foi abandonada,
e dentro de três anos cinco dos principais atores haviam saído de cena.
O abade Suger de SaintDenis morreu em janeiro de 1151; o rei Conrado
III, em fevereiro de
1152. Mais tarde, no mesmo ano, o grão-mestre dos templários, Everardo
de Barres, renunciou ao seu cargo para tornar-se monge em Clairvaux. O
papa Eugênio III morreu
em julho de 1153, e o abade Bernardo de Clairvaux, um mês depois.
Sete

O Ultramar

NJa Europa, a decepção que se seguiu ao fiasco dia Segunda Cruzada


obrigou O6 latinos na Terra Santa a chegar a um tipo doe acordo com os
infiéis que teria parecido
sacrílego às gerações de cruzados anteriores. Isto foi também a
conseqüência de um processo de aclimatação cultural que havia ocorrido
durante mais de meio século
de vida no Oriente. Os primeiros cruzados tinham achado que encontrariam
bárbaros incivrilizados e pagãos depravados na Síria e na Palestina. Mas
os que permaneceram
no Oriente Médio foram O1brigados a reconhecer que a cultura da
Palestina árabe - muçulmana, cristã e judaica-era mais desenvolvida
esofistïcada do que a da sua
terra.

Alguns logo adquiriram costumes orientais. Balduíno de Lê Bourg,


que se, casara com uma armênia, passou a usar um cafetã oriental e
jantava de c,Scoras no
tapete, ao passo que as moedas cunhadas por Tancredo mostravgm-no com o
turbante de um árabe. O cronista e diplomata damasceno LJsamah Ibn-
Munqidh descreve um cavaleiro
franco reassegurando a um convidado muçulmano que nunca permitia que
carne de porco entrasse em st.ia cozinha e que seu cozinheiro era
egípcio.'S9

Os francos empregavam médicos, cozinheiros, criados, artesãos e


trabalhadores sírios. Vestiam-se com trajes orientais e incluíam em suas
dietas as frutas e os pratos
do país. Tinham vidros nas janelas, mosaicos no assoalho e chafarizes no
pátio de suas casas, que eram projetadas de acordo com o modelo sírio.
Em suas festas havia
dançarinas e em seus funerais, carpideiras profissionais; eles tomavam
banho, usavam sabão e comiam açúcar.'6°

Procedentes de países de clima frio, onde não se encontravam


produtos fiescos durante o inverno, e onde até mesmo a batata ainda era
desconhecida, o encontro
não só com o açúcar, mas também com figos, romãs, azeitonas, arroz,
pasta de grão-de-bico, pêssegos, laranjas, limões e bananas, com O$
condimentos originários da
região e com iguarias como uma espécie de sorvete de frutas, cujos nomes
desde então entraram no vocabulário gastro-

O ULTRAMAR

nômico do Ocidente, esse encontro deve ter convencido os cruzados de que


não era apenas no sentido espiritual que essa era a terra prometida.
Decerto que o clima
quente era debilitante, e na verdade, em alguns casos,

verificou-se que era fatal; mas, entre os que sobreviveram, muitos


adotaram o estilo de vida fragrante e sensual que haviam julgado
efeminado nos bizantinos.
Os francos não apenas se suavizaram pelo estilo de vida que
encontraram na Síria e na Palestina, como também foram obrigados a
alcançar um modos vivendi
com os muçulmanos, que continuaram a ser a maioria da população.
Contanto que pagassem seus impostos, os suseranos francos estavam
dispostos a permitir que as comunidades
muçulmanas escolhessem sua própria administração.- Como nos territórios
reconquistados na Espanha, havia insuficientes imigrantes cristãos para
substituírem os muçulmanos;
por conseguinte, era importante que os proprietários de feudos os
persuadissem a ficar. Da prosperidade deles dependia a riqueza de um
barão, cuja renda principal
não provinha da terra, como na Europa. 'A Terra Santa era uma área
urbanizada par excellence",'6' e os rendimentos de um barão originavam-
se do arrendamento de propriedades,
de pedágios, de licenças para banhos públicos, fornos e mercados, de
taxas portuárias e de impostos sobre mercadorias. 'bz

Pelos padrões da época-e até pelos de hoje-,esses encargos e


exações não eram pesados: o imposto sobre a produção de um agricultor
(terrage) era fixado em
cerca de um terço. Embora a lealdade fundamental dos muçulmanos fosse
sempre para com o Islã, há indícios de que não estivessem insatisfeitos
com o domínio latino.
A administração dos suseranos francos era de fato mais leve do que no
período anterior de dominação muçulmana." O respeito dos francos pela
lei feudal contrastava
de maneira favorável com as caprichosas exigências dos príncipes
muçulmanos. Não há dúvida de que os muçulmanos eram cidadãos de segunda
classe; eles eram proibidos
de usar trajes francos, mas .tinham suas próprias cortes e funcionários.
A conversão ao cristianismo implicava plenos direitos civis e levava à
assimilação à população
síria cristã. Entre os próprios francos não havia servos, fato que os
distinguia das sociedades feudais da Europa Ocidental. "Embora
hierárquica, tratava-se de uma.
sociedade de homens livres, na qual mesmo os mais pobres e mais
destituídos não só eram livres, mas também gozavam de uma condição legal
mais elevada do que os mais
ricos entre a população nativa conquistada. 1,164

Apesar das atrocidades anti-semíticas que haviam acompanhado a


Primeira Cruzada, existia um elevado grau de tolerância aos judeus nos
Estados cruzados: eles
eram tratados muito melhor do que seus congêneres na

137
OS TEMPLÁRIOS

Europa Ocidental e podiam pratícar sua religião com relativa


liberdade."' Tornaram-se mais freqüentes as peregrinações aos lugares
santos e a Jerusalém de judeus
procedentes de lugares tão distantes quanto Bizâncio, a Espanha, a
França e a Alemanha.'` Os latinos católicos não fizeram nenhuma
tentativa de converter os muçulmanos
ou os judeus: havia uma notável falta de qualquer tipo de atividade
missionária. As disputas religiosas que aconteceram foram antes entre os
católicos e os cristãos
ortodoxos, exacerbadas pela rivalidade dos latinos com Bizâncio, ou
entre a Igreja Católica e a Ortodoxa, de um lado, e as igrejas Jacobita,
Armênia, Nestoriana
e Maronita, do outro.

A população autóctone - tanto a muçulmana quanto a cristã -


também foi beneficiada com a prosperidade resultante do aumento do
comércio. Antes da conquista
pelos cruzados, um pequeno fluxo de comércio de produtos orientais, como
sedas e especiarias, chegava ao Oriente por intermédio dos mercadores de
Amalfi. Com a captura
dos portos da costa do Mediterrâneo e a concessão de privilégios às
crescentes potências marítimas da Itália - Veneza, Gênova e Pisa -,foi
estimulado um considerável
comércio com o interior do território muçulmano, financiado por uma
moeda latina, o besant - "a primeira moeda cristã de ampla circulação,
cunhada cem anos antes
dos florins e dos ducados da Itália". 167

Os templários tiraram proveito dessa prosperidade através de


seus feudos e também acabaram oferecendo aos muçulmanos autóctones uma
tolerância que chocava
os recém-chegados da Europa. Houve um incidente célebre quando Usamah
lbn-Munqidh foi a Jerusalém negociar um pacto contra Zengi, o governador
sarraceno de Alepo.

Quando eu estava visitando Jerusalém, costumava ir à mesquita al-Aqsa,


onde meus amigos templários ficavam. Ao longo de um dos lados do
edifício havia um pequeno
oratório no qual o Franj havia erigido uma igreja. Os templários puseram
esse lugar à minha disposição, a fim de que eu pudesse fazer minhas
orações. Um dia eu entrei,
disse Allahn akbar [Deus é grande] e estava prestes a começar minha
prece, quando um homem, um Fraj, lançou-se sobre mim, agarrou-me e me
virou para o leste, dizendo:
"É assim que nós oramos". Os templários precipitaram-se para a frente e
o tiraram dali. Em seguida preparei-me para orar de novo, mas o mesmo
homem, aproveitando
um momento de descuido, voltou a se lançar sobre mim, virou meu rosto
para o leste e repetiu: "É assim que nós oramos". Mais uma vez os
templários intervieram, levaram-no
e desculparam-se comigo, dizendo: "Ele é um estrangeiro que acabou de
chegar da terra do Franj e nunca viu ninguém orar sem voltar a face para
o leste"."R

138

O ULTRAMAR

Apesar de sua amizade com os templários, a atitude de Usamah


para com os francos foi de desdém. Ele escarnece do julgamento por
combate e do julgamento por
ordálio como uma forma de justiça, bem como de suas práticas médicas. De
fato, os francos desenvolveram uma abordagem pragmática da doença: o
tipo de histeria religiosa
causado pela epidemia em Antioquia durante a Primeira Cruzada não se
repetiu, "talvez porque oração e penitência não funcionaram"; e em
seguida os cruzados "parecem
ter abordado a medicina de uma maneira muito prática, talvez tenham tido
menos para aprender dos médicos nativos do que se supusera".'69 De modo
geral, a única qualidade
dos latinos que se julgava digna de respeito pelos muçulmanos eram suas
proezas militares. Eles menosprezavam a cultura e as crenças dos
cristãos. "De acordo com
o Balaral-Fava`id, os livros de estrangeiros não mereciam ser lidos
(...) [e] qualquer pessoa que acredite que seu Deus saiu dos órgãos
genitais de uma mulher é
absolutamente louca; não se deveria dirigir-lhe a palavra, e ela não tem
nem inteligência nem fé.""°
Esse desdém pelas crenças religiosas do inimigo era, em geral,
mútuo. Os templários podem ter permitido que seu hóspede muçulmano
rezasse na sua capela,
mas usavam a mesquita al-Aqsa como centro administrativo e depósito.
Teodorico, um monge alemão em peregrinação a Jerusalém na década de
1170, chamando-a de palácio
de Salomão, descreve como era usada para "armazenagem de armas, roupas e
alimentos que eles sempre têm prontos para guardar a província e
defendê-la". Abaixo da
mesquita ficavam os estábulos dos templários, "erigidos pelo rei
Salomão" e com espaço, segundo seus cálculos, para dez mil cavalos.
Contíguo à al-Aqsa ficava o
palácio originalmente ocupado pelo rei Balduíno e várias outras

casas, habitações e anexos para todos os fins, e é repleto de lugares


para passear, gramados, salas de audiência do conselho, alpendres,
consistórios e esplêndidas
cisternas para o abastecimento d'água. (...) Do outro lado do palácio,
que fica no oeste, os templários construíram uma nova casa, cuja altura,
extensão e largura,
e todos os seus porões e refeitórios, escadaria e telhado, ultrapassam
em muito o costume deste país. (...) Na verdade, eles aí construíram um
novo Palácio, assim
como do outro lado têm o antigo. Aí também, na extremidade do pátio
externo, construíram uma nova igreja de dimensões e acabamento
magníficos.'71

E difícil saber quantos homens viviam nesse complexo. No máximo, havia


provavelmente cerca de trezentos cavaleiros e mil sargentos no reino de
Jerusalém."z Teria
havido um número irregular e indeterminado de cavaleiros servindo por um
período definido na Ordem, e havia os templários turcópolos - soldados
de cavalaria ligeira
nascidos na Síria e empregados pela
BAIRRO DO

PATRIARCA

A Igreja do

Uavi

O Hospital

Jardim dos Cônegos


A idadela de avdo Umplo do Senhor

Porta das Aflições Convento


dos Cônegos
BAIRRO ®® Cúpula da Bucha
ARMÊNIO ~ terra Formosa ;õpu,a
da Cadeia Porta Dourada

Palácio do rei Salomão ~ Igreja

BAIRRO
SÍRIO

>
~'D d ~ n _W h
° h •~ CD
õ y ?' ó h .o x ~ 'v ~ n. cu
.D o ~ ~? ~ w o õ co• w ~

c~ ~' c ~ ~. Gy vr p,yy w ° ~
orq

ç
.... C w ~ r„ Oro, w ~y
Orá •r" Or Q. w'

p,~ c~ ~ iE

~ w Q, ~ aa co m

ór io O -C ~ ~ ó ~Jh cu

Ç4

'C N. r~n ~ ~ ~ ~ ~ w
C rr ~ (D

'O CD CD 2 O 3 ('°D~ Ó. (~'D. n d


Ó
° c ~ ~ m w a
r) rD
2 . á. ~ h ~: c in
h tL~

w ã~
o . ~ ct o w
to C io °' _~. õ •, ~- r~> w

i •ó >v á>• "• per' ~ ~' ~. á~ c~ ó•

.. , C '_'' c • ~7, C). O b O v>

2 ~.r~'nc~Çncn
Óarwn

n CD C N w h Q. C ~ ~ n
CL ~ ~ .a < C w W .C.,v~, O

O C CD C Õ p-q^ •, fD C a.
p> W ^' •, a. O~a a-r w rD '27

.. , Ó O ., w ' .b

(D ~ Q' (~D n n. C ~ ~. p~
C .C., (D• rt < Ó t~n ~. O ¢ cn

wr ~• ~ O w O O. ~ U)

~ Im- rD
° '~ n. cn ó ~, c° rt• a.° ~ co

a ó rD ° o . o a. w .,

(D
c
(D Gn
~•CD~^p°O CD Oww
w a w' c o o ° o ~ h o
:; C ~ ~. c~e y ã w•
w
n n vi n G Ó CBD ~p ~ ~ (~
Q. w ~y
aW ~OCOü`~•G ~.~,c,

Ç ~ Q. ?' h• b CD
°' c w

w w ,~ (e cu

fD .~.- ~, rLJ.n

o m
~ ó ~ ~ ~ o ci

p-q w~ C

C C (~'D c~ ~ co ° .D Ó

w w

•Ç

w ". ~

CD- (D o

O ~' co w

0. C h w a; ~ ° s,~?.

á~ •n O "O ,^r

'O VfCD rj O• Ó. ~ 7G O
. rwn v> n wv.

° .n o w <

Ç o C ~ w

,., w .D ~ aa

a.
0

i n.n h0 ~.(D p.~qh

c ~ c ~ ~ cu

.,~.C1.~rCnrCD w14 (D
n fD n .b ., vW' .^...prOCCGc :CfO

O. Ç
rwn~

11) < 1` C2D

C~.•rCn1 O CD i

0 ó co ~ o
w

h CD CD C fY

o ~ o w

Ó~ ~. w w C
O
a. ó ,ç~ ó °

f, C w w O

N y' < w . Cs'.

rt
° á ó

•ç (D ~ h

'i7 ~ Ó (~

~ w

°' I ó h

C~ p.

C ~ C1. C
O n
Ór
-~o O

~. O ~ rwn

ó ~

C ~. C

N O
w Õ O

i1 CD

nr (D (D

~v

ó _n. .D~ õ

r C .w., .D:

O
O
SàD

w• p„ Cï ~ _

O w C• O
O. C "O
O
0
Ç á
., G w . ów

cu ~ O á r~ c ó~ h o c

p,q' (CO ~ w C
f•r

•,. O 'C7• C O C¢D

Ó . ,~ C

~: ,^., O CD rOn
CD
c c .

ó
(-9S TEMPLÁRIOS

A regra reflete alguns dos Preconceitos do período - por


exemplo, apesor cio compromisso com a hu :Idade, por volta de meados do
século XII, tornou-se nece;ário
que um cavaleiro do Templo fosse "o filho de um cavaleira ou desceniente
do filho CJeum cavaleiro" (regra 337). O hábito branco, que tinha sido
Iscolhido para ~sImbolizar
a pureza, transformou-se então em .sinal de prestígo: as túnicas d As
escudeiros e dos sargentos eram marrons ou pretas. Os cavaeiros comiam
no primeiro turno, e
os sargentos e os escudeiros, no segunde. Dado o fato ele que quase
nenhum dos cavaleiros ou sargentos sabia ler, f bem provável que a
maioria dos estatutos simplesmente
refletisse os c)stumes que tinham evoluído e fossem assimilados pelos
noilos recrutascomo novos garotos numa escola pública. E como os
castigos impostos nas ;scolas
públicas de antigamente, as punições infligidas aos templários qu,
cometiam faltas pareciam cruéis: eram açoitados, postos a ferros ou
obrigidos a comer d o chão
como um cachorro. Essas punições eram semelhantes iquelas imposC as aos
monges e normais para a época.

Cada aspecto do dia-a-d ía do templário era regulado nos mínimos


deta-

lhes. Quando- quanto deveria comer, como deveria comportar-se durante a


refeição e ate mesmo como deveria cortar o queijo (371), tudo isso está
especificado ia regra.
Ele rlão podia erguer-se da mesa sem permissão, a menos que gesse um
sangramento nasal, houvesse um chamado às armas (c: nesse case ele tinha
de estar seguro de
que o chamado fora feito por um irmão ou por"um homem respeitável"), um
incêndio ou algum problema com os caval)s. Ele não tinha propriedade
privada: "todas as coisas
da casa são comuns,e faz-se saber que nem o mestre nem nenhuma outra
pessoa têm autoridade para permítir que um irmão possua algo de seu
(...)". Se porventura :e
encontrasse dinheiro em poder de um irmão quando de sua morte, ele não
podia ser enterrado em solo abençoado.

O cuidado dos cavalos era de fundamental importância: o número


destinado ao mestre é estabelecido no primeiro estatuto, e os cavalos
são mencionados em cgrca
de cem dos que se seguem. Havia vários tipos diferentes: cavalos de
batalha para os cavaleiros, corcéis mais leves e velozes para os
tur,cópolos, palafréns, mulas,
cavalos de carga e rocins - transporte para os soldados. Cada cavaleiro
recebia seu próprio cavalo, ao passo que os demais eram mantidos num
p0ol comum aos cuidados
do marechal da Ordem. Os cavalos eram criados em coudelarias no reino de
Jerusalém e na Europa Ocidental - por exemplo, na comunidade dos
templários em Richerenches,
no norte da Provença. Havia regulamentos precisos para o cuidado dos
cavalos, e uma das Snicas justificativas para faltar às orações era
levar um cavalo para o ferreiro
ferrar. 176

O ULTRAMAR

Poucos artigos da regra referem-se ao treinamento: esperava-se


que um cavaleiro fosse experiente em combate a cavalo antes de entrar
para a ordem. Devido
ao peso do equipamento de combate, cada qual deve ter sido imensamente
forte. Também se esperava que um cavaleiro trouxesse seu próprio cavalo
e equipamento. Se
estivesse servindo como confrère por tempo limitado, eles seriam
devolvidos ao cabo desse tempo, ou, se seu cavalo morresse a serviço dos
templários, ele receberia
outro do pool. Fiéis ao espírito de Bernardo de Clairvaux, selas e
rédeas não podiam ser adornadas;

era necessário obter permissão para participar de corridas, e a aposta


de dinheiro no resultado delas era proibida.

Embora o modo de viver sugerido pela regra dos templários esteja


imbuído de religiosidade cristã e as práticas monásticas tenham obtido o
mesmo

relevo dos regulamentos militares, há uma mudança na ênfase, em


comparação com a regra primitiva, da procura da salvação individual para
um espritde corps regimental.
"Cada irmão deveria empenhar-se em viver honestamente e dar bom exemplo
em tudo aos cidadãos seculares e às outras ordens (...)" (340). As
"outras ordens" não especificadas
eram principalmente os hospitalários e mais tarde os cavaleiros
teutônicos. O estandarte preto e branco do Templo, terminado em duas
pontas, o confanon baucon, era
seu ponto de reunião em batalha. Era seguro pelo marechal, e dez
cavaleiros eram desig-

nados para guardá-lo, um dos quais mantinha um estandarte sobressalente


enrolado na sua lança. Enquanto esse estandarte fosse conservado no alto
pelo marechal, nenhum
templário poderia deixar o campo de batalha. Se um cavaleiro se
separasse de seu contingente, era-lhe permitido reagru-

par-se em torno do estandarte dos hospitalários ou de outro estandarte


cristão (167).
O voto monástico de obediência era inestimável num contexto
militar: severas punições eram infligidas a um cavaleiro que não
resistisse ao ímpeto,

tão comum entre os cavaleiros francos, de atacar o inimigo por sua


própria iniciativa. As únicas ocasiões em que lhe era permitido sair de
formação eram para fazer
uma breve sortida, a fim de se assegurar de que sua sela e arnês estavam
firmes, ou se tinha visto um cristão sendo atacado por um sarraceno. Em
quaisquer outras
circunstâncias, a punição era ser mandado a pé de volta ao campo (163).

Da mesma forma, não se faziam distinções entre transgressões


religiosas e militares. Das nove "coisas pelas quais um irmão da Casa do
Templo pode ser expulso
da Casa", quatro eram pecados que intrinsecamente nada tinham a ver com
a vida sob armas: simonia, assassinato, roubo e heresia. A

revelação das atas do capítulo do Templo, a conspiração entre dois ou


mais irmãos e a saída de uma casa dos templários a não ser pelos portões
determi-

143
OS TEMPLÁRIOS

nados eram infrações que teriam sido aplicadas a qualquer instituição

monástica. Apenas a punição da covardia e a deserção para o inimigo


estavam relacionadas especificamente com condições de guerra.

Assim, o ethos regimental nunca foi distinto do ethos cristão do


Templo como comunidade religiosa. Os regulamentos que prescreviam os
jejuns e os dias de
festa, a recitação do ofício e de preces pelos mortos, eram
absolutamente tão precisos quanto aqueles relacionados com selas e
rédeas. Os templários mostravam uma
particular devoção a Maria, a Mãe de Jesus: "E as horas de Nossa Senhora
deveriam ser sempre recitadas em primeiro lugar nesta casa (...) porque
Nossa Senhora foi
o começo de nossa Ordem, e nela e em honra dela, se Deus quiser, será o
fim de nossas vidas e de nossa Ordem, assim que Deus o desejar" (306).
Surgiram várias crenças
que vinculavam Maria com o Templo: por exemplo, dizia-se que a
Anunciação havia acontecido no Templo do Senhor (a Cúpula da Rocha), e
uma pedra na qual Maria descansou
ficava do lado de fora da fortaleza do Castelo Peregrino, pertencente à
Ordem do Templo. Havia capelas de Nossa. Senhora em muitas das igrejas
dos templários, e
várias de suas casas, como a de Richerenches,

eram dedicada:

a Maria: vários doadores referiam-se a Richerenches não

como o Templo, mas como "a casa da Abençoada Maria"."'

Um dos artigos mais reveladores da regra dos templários (325)


relaciona-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos
irmãos capelães, "que
têm permissão para usá-las em honra do corpo de Nosso Senhor, que eles
com freqüência seguram em suas mãos", e aos irmãos pedreiros (...) por
causa do grande sofrimento
que têm de suportar e a fim de que não firam facilmente as mãos; mas
eles não devem usá-las quando não estiveram trabalhando"."' Não se
conhece o número desses irmãos
pedreiros, mas, devido à importância das fortalezas no ultramar, suas
habilidades devem ter sido altamente apreciadas. Um castelo construído
pelos templários ou
pelos hospitalários "parecia-se com uma fortaleza por fora, enquanto por
dentro era um mosteiro". 179 Com uma guarnição relativamente pequena, um
castelo bem abastecido
poderia resistir ao cerco de um exército considerável. Caso esse
exército a ignorasse, ela poderia fazer sortidas para atacar sua
retaguarda. Os cercos umam exércitos
que muitas v--zes só podiam ser mantidos juncos por um espaço de tempo
limitado. Tropas não-mercenárias tinham de pensar na colheita e na
proteção de

sias famílias contra saqueadores que tiravam proveito de sua ausência e,


no caso dos francos, o recrutamento nos feudos restringia-se a um
Feríodo de quarenta dias.
O conflito entre cristãos e muçulmanos na Terra

tanta "raramente propiciava o espetáculo de dois

exércitos empenhados

Mapa-múndi do século XI com Jerusalém no centro e as Ilhas Britânicas no


canto
~querdo inferior, reproduzido de um volume misto de conhecimentos sobre
o mundo;
Wnchester ou Canterbury. (l3ritisla Gibr<n_~/I3rid~rrnan firt l.ibror1)
Bernardo, abade de Clairv?uY pregando a cruzada ao rei Luís VII em
Vézclay, na Borgonha, em 1146. Iluminura do século XV dd, Sebastien
iVlamerot. (Pibliothégue Aatioaale/
lkirloeznan Ai-t Librm _1,)

()assalto a Jerusalém duraste a Primeira Cruzada, em 1099.

Ilur»inara do século XIV (13iGlirthéque N<rtiouale/l3ritlgenzau ~Irt


Liltr

A pilhagens de Jerusalém após sua caTtura pelos cruzados em 1(199.


Iluminura do
século XV de Tean de Courev. (BiUiotlzégue Nationulell3rirlgezraan Ai -t
l,ibr-rn.~)

Bernardo, abade de C;lairvaux. Iluminura do século XV de Jean Pouquet no


Livro das Horas de Etienne Chevalier. (.hlzz_sée
G'ozzdé/GIraTUlozz/I3ridgerraarz 'li-1
l,ihrarl)
Hugo de Vaudemont abraçado pela esposa após seu retorno da cruzada Obra
de talha em pedra do século XII do Priorado de Belval, na Lorena.
(dlrr.,~e dc., .llouruttrtrt.;
I ì~rn~rri.;/l,nron;-(:intitulou/l3ri~l~etnrnt flrt L,ihraty0

Um cavaleiro do 7cmplo, de

um mural do século XII na capela dos templários em Cressac-sur-Charente,


na Aquitânia. (WeitlrnfelrlAtrfüve)
tr
A mesquita al-Aqsa no monte do Templo, em ,lerusalétn, chamada de Templo
de
Salomão pelos cruzados e sede dos templários até 1187. Guache sobre
papel, do
Álbum Muraqqa. (Ghester 13eatty Lihrary arzd Gallery of

l n ar Sal. na ti m

,c

Ricardo Coração de Leão enristando com Saladino, de um manuscrito do


século XI\'
ornado com iluminuras.(13rili.rh l.ibrar_rll3r-zd;zrnarz~lrtl•iGrar,y)
A torre do sino da Abadia de
Clum-, tudo o que resta da sua
d('.IIIOIição após a Revolução

Francesa de 1789.
(C,oÏrsao pnrtrirrlwlBullo~l

Reconstrução do mosteiro c: da abadia em CVuny feita por Kenneth John


Conant.

O ULTRAMAR

em destruição mútua; o verdadeiro fim da atividade militar era a captura


e a defesa de lugares fortificados". "0
Um excelente exemplo foi a grande fortaleza de Ascalão, em poder
dos califas fatímidas do Egito. Suprida por terra através da península
Sinaítica e por mar
desde Alexandria, ela protegia a estrada litorânea que conduzia ao Egito
e servia de base para ataques de surpresa a colônias cristãs. Numa
tentativa de imobilizar
Ascalão, o rei Foulques a cercara com uma roda de fortalezas em Ibelin,
Blanchegarde e Bethgibelin: esta última foi transferida para os
hospitalários e Ibelin para
um cavaleiro, provavelmente de origem italiana, que veio a ser conhecido
como "Balião, o Velho".

Em 1150, o cerco foi completado com a construção de uma


fortaleza nas ruínas de Gaza, a cidade ao sul de Ascalão onde no Antigo
Testamento Sansão fora aprisionado
pelos filisteus. Ela foi doada aos templários, que repeliram com êxito
uma tentativa dos egípcios de torná-la. O sul do reino de Jerusalém
estava agora seguro, e
o rei Balduíno III poderia começara sitiar a própria Ascalâo. Em janeiro
de 1153, ele reuniu suas forças diante da cidade, incluindo a força de
hospitalários, sob
o comando de seu mestre, Raimundo de Le Puy, e a de templários, liderada
por Bernardo de Trémélay. Sem dúvida conhecido de Bernardo de Clairvaux,
Bernardo era um
burgúndio das proximidades de Dijon que havia sido escolhido para
substituir Everardo de Barres como grão-mestre quando, no ano anterior,
Everardo se retirara como
monge para Clairvaux.
Abastecidos por mar, os egípcios em Ascalão não poderiam ser
submetidos à fome até se renderem: a cidade teria de ser tomada de
assalto. Os francos construíram
uma torre de madeira mais alta do que os muros e que foi posicionada no
setor guarnecido pelos templários. Na noite de 15 de agosto, um grupo
dos defensores fez
uma sortida a partir da cidade e ateou fogo a essa torre; mas, quando
ela estava em chamas, o vento mudou de direção e soprou as chamas contra
os muros. A alvenaria
rachou e esboroou-se e parte do muro veio abaixo. Bernardo de Trémélay,
o mestre dos templários, aproveitou essa oportunidade e conduziu
quarenta de seus homens
através da brecha; todavia, a força principal não conseguiu segui-los, e
os templários foram cercados e mortos pelos defensores. No dia seguinte,
seus corpos decapitados
foram pendurados nos muros, entre eles o do grão-mestre, Bernardo de
Trémélay.

No seu relato dessa desgraça, o cronista latino Guilherme de


Tiro escreveu que os templários se haviam .tornado vítimas de sua
própria ambição: Bernardo
de Trémélay havia ordenado a seus cavaleiros que impedissem que
quaisquer outras pessoas se juntassem a eles nesse assalto inicial,
porque queria reservar para a
sua Ordem a glória de tomar a cidade e a parte do

153
OS TEMPLÁRIOS

leão dos despojos de guerra. No entanto, a pesquisa mais recente sugere


que "a versão de Guilherme desse incidente parece estar distorcida",
tendo-se baseado nos
relatos defensivos dos comandantes latinos, que haviam sido criticados
"por não terem conseguido seguir os templários através da bre-cha";`
contudo, a calúnia propagou-se
amplamente e manchou a reputação da Ordem na Europa Ocidental.

A perda dos templários não afetou o

resultado do cerco. No dia 19 de

agosto a cidade rendeu-se ao rei Balduíno e foi evacuada pelos egípcios,


permitindo-se a seus habitantes levar consigo seus bens móveis. Para
trás iscaram enormes
quantidades de tesouros e suprimentos de armas. Para o rei Balduíno,
Ascalão era um prêmio extraordinário e sua captura marcou o ponto alto
de seu reinado. Ela foi
doada como feudo a seu irmão Amauri, conde de Jafa. A mesquita foi
consagrada como catedral e dedicada ao apóstolo Paulo.

Para substituir Bernardo de Trémélay, o capítulo dos templários


elegeu André de Montbard, o tio de Bernardo de Clairvaux que até então
tinha ocu-
pado o cargo de senescal do reino de Jerusalém. Apesar da perda de
quarenta cavaleiros, eles continuaram a guarnecer sua fortaleza em Gaza,
usando-a como uma base
a partir da qual patrulhavam as rotas seguidas pelas caravanas que
viajavam entre o Cairo e Damasco. Em 1154, o ano após a queda de
Ascalão, um contingente de templários
emboscou uma força egípcia que escoltava o vizir egípcio Abbas e seu
filho Nasir al-Din, ambos em fuga coe

um enorme tesouro, depois do fracassado golpe contra

o califa. Abbas foi


morto no ataque, mas Nasir al-Din foi feito prisioneiro pelos
templários. Mais tarde Guilherme de Tiro afirmaria que sob sua custódia
ele aprendera latim e estava
disposto a tornar-se cristão, mas isso não foi considerado pelos
templários uma razão boa o suficiente para abrirem mão da substancial
soma

E ito ofereciam por ele

de dinheiro que seus inimigos no g Nasir al-Din foi

devidamente devolvido aos partidários do califa e, tão logo chegou ao


Cairo, foi primeiro "mutilado pessoalmente" pelas quatro viúvas do
califa` e então "feito em
pedaços pela turba".'8Z

Essas acusações de cobiça contra os templários foram feitas por


cronistas que tinham interesses pessoais, como Guilherme de Tiro e
Walter Map, e desta distância
no tempo são difíceis tanto de comprovar quanto de refutar. Também não
se deve esquecer que a pilhagem era considerada uma forma legítima de
renda e provia os meios
para promover o trabalho de sua Ordem. As despesas em que as ordens
militares incorriam eram estupendas: os hospitalários estiverem à beira
da falência na década
de 1170.

154

O ULTRAMAR

André de Montbard morreu em 1156, após apenas três anos como grão tre.
Em 1158, seu sucessor, Bertrand de Blanquefort, com oitenta e irmãos e
trezentos cavaleiros
seculares, foi emboscado e capturado po força sarracena quando
atravessava o vale do Jordão.
Devido ao terreno montanhoso na Síria e na Palestina, e porque a
c de informações dos sarracenos era em geral melhor do que a dos cr
(eles usavam pombos-correios
e a maior parte da população rural era m mana), era difícil proteger-se
contra vicissitudes desse tipo. A despei sua bravura ocasionalmente
insensata, sem dúvida
inspirada pela conl em que Deus ficaria do seu lado, os templários, em
particular, e os cava francos, em geral, tornavam-se mais circunspectos
à medida que o t passava.
Eles haviam aprendido da experiência que os sarracenos tan eram hábeis
combatentes que com freqüência tiravam proveito da cor dos francos com
sua astúcia. Eles apreciavam
"que eles devessem perr cer firmes apesar dos arqueiros e do cerco,
ignorar a tentação oferecida (...) fuga simulada, preservar sua
solidariedade e coesão até que
pude escolher o momento de lançar sua carga com a certeza de atingir a
prir formação militar do inimigo (...)".Ig4A impetuosidade desenfreada
do zados primitivos
era agora coisa do passado. "De todos os homens", esc~ o diplomata
damasceno Usamah, "os francos são os mais cautelosa guerra."

A mesma circunspecção era evidente na diplomacia do rei Balduín


o mais sagaz dos reis de Jerusalém. Foulques, seu pai, fora morto du uma
caçada, quando Balduíno
era ainda criança, e, embora coroado rc

1143 por insistência dos barões, foi com grande dificuldade que se libda
tutela da mãe, Melissanda. A mais velha das três extraordinárias filh
rei Balduíno II de
Jerusalém, Melissanda, como sua irmã Alice em A quia, havia se recusado
a aceitar que, por ser mulher, lhe faltasse comp~ cia para governar. Na
década de 1140 ela
havia levado o reino de Jerusa: beira de uma guerra civil numa luta com
seu marido, Foulques de A preferindo o amigo de infância dela, o belo
senhor de Jafa, Hugo
de Le R ao "homem de meia-idade baixo, magro e ruivo que fora obrigada a
ac por interesses políticos"."' Também se dizia que, como um favor à
Hodierna, encomendara
o envenenamento de Afonso Jordão, o jovem c de Toulouse, que morrera
subitamente em Cesaréia por ocasião da Seg Cruzada-ele tinha mais
direito hereditário ao condado
de Trípoli do c marido de Hodierna, o conde Raimundo.

Em 1152, foi a vez do filho de Melissanda, o rei Balduíno III,


opor mãe, quando, nove anos após sua coroação, ele tentou governar p
mesmo. Melissanda não
estava mais disposta a abdicar a partilha de F

155

OS TEMPLÁRIOS

com o filho do que estivera com o marido. Suas divergências levaram a


uma ruptura com, em primeiro lugar, uma divisão de facto do reino e,
posteriormente, um conflito
aberto entre mãe e filho. Sitiada pelas forças de Balduíno na cidadela
em Jerusalém, Melissanda foi afinal persuadida a se render e a viver com
sua irmã, a abadessa
Joveta, em seu convento em Betânia.

Não só os contemporâneos de Melissanda, mas também mais tarde os


historiadores, ficaram impressionados por essa "mulher de fato notável,
que por mais de
trinta anos exerceu considerável poder num reino onde não havia tradição
prévia de nenhuma mulher exercendo um cargo público".I86 Para Guilherme
de Tiro, "ela era
uma mulher muito sábia, com plena experiência em quase todas as esferas
dos negócios de Estado, que vencera por completo as desvantagens de seu
sexo, de modo que
pudesse encarregar-se de importantes assuntos (...) ela administrou o
reino com tanta habilidade que se considerou com justiça que havia
igualado seus predecessores
nesse aspecto". O próprio Balduíno acabou reconhecendo as qualidades
dela, e com a confiança reforçada pela captura de Ascalão, tratou a mãe
com considerável respeito
e a envolveu nos negócios de Estado.
Mesmo antes da queda de Ascalão, ela fora convocada para reunir-
se com os principais dignitários do ultramar a fim de refletirem sobre o
futuro de sua sobrinha
Constança, a princesa viúva de Antioquia. Três anos antes, seu belo
marido, Raimundo de Poiders, tio e suposto amante de Alienor de
Aquitânia, tinha sido morto durante
uma incursão no norte de seu principado, e considerava-se de suma
importância que Constança se casasse com um líder na guerra que gozasse
de credibilidade: sugeriu-se
um normando, Jean Roger, o cunhado viúvo do imperador bizantino. Também
se esperava que ela pudesse reconciliar a irmã Hodierna com o marido, o
conde Raimundo II
de Trípoli, mas nesse caso ela fracassou de ambos os modos: Constança
recusou-se a considerar o maduro Jean Roger e Raimundo II foi
assassinado quando se dirigia
a cavalo para a cidade de Trípoli.

O assassino de Raimundo foi um membro de uma seita fanática de


muçulmanos xiitas, os assassinos, os quais, como os sicários entre os
zelotes judeus, tentavam alcançar
seus objetivos por meio da morte encoberta de seus inimigos. Seu nome
origina-se da palavra haxixe, que, de acordo com os cruzados, induzia a
um transe que tornava
os matadores alheios ao perigo. Os xiitas eram originalmente uma facção
política que acreditava que Ali, o genro de Maomé, fosse seu verdadeiro
sucessor; mas, após
a morte de Aliem 661, ela progrediu para uma seita islâmica radical
empenhada em derrubar o califado sunita de Bagdá. Perseguidos por suas
crenças, os xiitas desenvolveram
noções místicas, métodos revolucionários e aspirações messiânicas, e

156

O UL'T'RAMAR

d1 jd1 is radical eram os ismaclitas,


,v ram-se em outras facções, das quais a rna 1 1
que "elaboraram um sistema de doutrina religiosa num elevado nível
filosó
fico e produziram uma literatura que, depor de séculos de eclipse,
apenas
agora está começando de novo a obter reconhecimento de seu real valor".
181
Fundamental ao sistema ismaelita era a idéia do imã, o inspirado
e infalível descendente de Ali e Fátima por intNrmédio de Ismael. Ele
tinha acesso a conhecimentos
especiais e devia Ser obedecido sem objeção. Em princípios do século X,
um homem que alegava ter essa descendência tomou o poder no norte da
África e instituiu o
califado fatímida (de Fátima) do Cairo para rivalizar com o califado
sunita de Bagdá. No tempo das cruzadas, o império fatímida estava em
declínio. Contudo, nos
montes Elburz, no norte da Pérsia, de onde se descortinava o litoral do
mar Cáspio, um grupo de intransigentes ismaelitas sob Hassan al-S~abbah
instalou-se na inexpugnável
fortaleza de Alamut. Daí Hassan enviou seus sectários para assassinarem
os sultões sunitas e seus vizires. Além disso, enviou missionários à
Síria para conquistarem
conversos, mas também para tomarem fortalezas como bases para sua
campanha de terror. Em 1133, os assassinos compraram o castelo de Qadmus
aos muçulmanos que o haviam
conquistado aos francos. Logo em seguida, adquiriram al-Kahf; em 113,
tomaram Khariba aos francos; e, em 1142, a importante fortaleza dP
Masyaf foi conquistada aos
damascenos. Outras fortalezas caíram em ôuas mãos mais ou menos ao mesmo
tempo e colocaram-nos face a face cora os castelos das ordens militares
em Kamel, La Colée
e Krak dos Cavaleiros, e nas cidades litorâneas de Valania e Tortosa.
O ódio dos assassinos a seus inimigos muçulmanos tornou-os
sujeitos a formar alianças com os francos. Na batalha de Inab, em 1149,
um líder assassino, Ali
ibn Wafa, morreu lutando ao lado de Raimundo de Poitiers; todavia,
apenas três anos mais tarde um membro d~ mesma seita assassinou Raimundo
II de Trípoli por razões
desconhecidas. Uma vez que a rainha Melissanda era suspeita de ter
ordenado o envenenamento do jovem Afonso Jordão, conde de Toulouse, não
é impossível que ela também
tivesse incumbido os assassinos de se livrarem do difícil marido de
Hodierna.

Dessa forma, divergências teológicas entre os seguidores de


Maomé, associadas às paixões de mulheres obstinada~, acabaram afetando o
destino dos latinos
no ultramar. O exemplo mais fatídico dessas paixões veio em 11 ,53,
quando Constança regressou ao principado de Antioquia. Agora tornava-se
claro por que ela recusara
o noivo proposto pelo rei de Jerusalém e pelo Imperador de Bizâncio.
Seus olhos haviam câído sobre outro homem, Reinaldo de Châtillon, um
cavaleiro francês. Reinaldo
era o filho mais novo de Geoffroy, conde de Gien-sur-Loire, e tirou seu
título de Châtillon-sur-
OS TEMPLÁRIOS

Loire. Crê-se que tenha pdo para o Oriente com o rei Luís'JII na Segunda
Cruzada, onde permaneceu no séquito do rei Balduíno III. P.julgar pelo
seu comportamento
subseqüente, ele era desumano, audaz, excepcionalmente corajoso e quase
com certeza bonito- qualidades que conquistaram o amor de Constança e
levaram à mésalliance
do século. Era absolutamente surpreen-

dente, escreveu o arcebispo de Tiro, "que uma mulher tão fsmosa,


poderosa e bem-nascida, viúva de Um marido tão ilustre, se dignasse se
casar com uma espécie de
cavaleiro mercenário 188

Balduíno III, admi~

indo as habilidades de Reinaldo como soldado, reco-

nheceu-o como príncipe de Antioquia. Embora com relutãn~ia, o imperador


j bizantino Manuel fez o rrlesmo, em retribuição á ajuda de Reinaldo
contra os

armênios na Cilicia. Corii a ajuda dos templários, Reinaldomarchou para


o '¡ norte e tomou o porto de Alexandreta, dando-o aos teme ários. Ele
agora

estava em contenda cone o imperador Manuel devido aos subsídios a que


supunha ter direito. Encorajado pelos templários, reconciliou-se com os
armênios e decidiu
recuperar dos bizantinos aquilo a que julgava fazer jus pilhando a ilha
de Chipre. Ele precisava de fundos para wa expedição e `

decidiu extorqui-los a Aimery, o patriarca latino de Antioquia, a quem


Rei- R naldo tinha aversão pordue Aimery se tinha oposto ferozmente a
seu casamento com Constança.
Aimery recusou-se a dar-lhe dinheiro, e então Reinaldo mandou lançá-lo
na prisão, espancá-lo brutalmente e depois amarrá-lo no teto da cidadela
apés terem esfregado
mel em suas feridas para atrair

moscas.
Esse tratamento surtiu o efeito desejado: o patriarca entregou
seu dinheiro a Reinaldo, que ousou para equipar uma esquad-a. Na
primavera de 1156, com o
rei arménio Thoros,ele desembarcou comum exército em Chipre, até então
uma das mais pacíficas províncias do Império Bizantino e fonte de
suprimentos para o faminto
exército da Primeira Cruzada. Após vencer e capturar o governador da
ilha, João Comneno, sobrinho do imperador, e seu líder militar, Miguel
Bravas, o exército de
Reinaldo e Thoros passou a pilhar afilha "numa escala que talvez tivesse
deixado com inveja os °° I$`
hunos e os mongóis . Indiferentes ao fato de os cipriotGs serem
cristãos, violentaram suas mull•eres, assassinaram seus filhos e
parentes idosos, saquearam suas
igrejas conventos e seqüestraram seu gado e suas colheitas. Os
prisioneiros ou compravam a própria liberdade, ou eram levados
agrilhoados para Antioquia ou eram
mutilados e enviados para Bizãncio, num evidente gesto de desafio e
desdém.
O comportamento brutal e pirático de Reinaldo causou
consternação em Jerusalém. Ao ser üformado do encarceramento do
patriarca Aimery, o rei Balduíno 111
enviou emissários para insistirem em que =osse solto e, uma

O ULTRAMAR

vez que isso estivesse assegurado, trazerem-no para Jerusalém. A


pilhagem de Chipre foi ainda mais grave porque pôs em risco o plano de
Balduíno de uma aliança com
o Império Bizantino. A fim de selar o pacto, fora prometida a Balduíno a
princesa bizantina Teodora, de quinze anos, sobrinha do imperador, com
um imenso dote que
encheria os esvaziados cofres do reino. O casamento realizou-se em
Jerusalém em 1158.

O objetivo diplomático dessa aliança era a ajuda bizantina


contra Nur ed-Din e, para o imperador Manuel, a punição de Thoros e
Reinaldo. À aproximação de
um poderoso exército bizantino, Thoros fugiu para as montanhas, enquanto
Reinaldo se submeteu de forma abjeta. Perante uma assembléia de
príncipes visitantes e cortesãos
reunida em frente dos muros de Mamistra, Reinaldo avançou, descalço e
sem chapéu, e prostrou-se na poeira diante do imperador bizantino. Após
saborear a humilhação
de seu inimigo e impor certas condições, Manuel permitiu que o penitente
se erguesse e retornasse a Antioquia.

Embora os latinos reconhecessem que a degradação de Reinaldo


fora bem merecida, julgaram-na uma humilhação a todos eles. Balduíno
tinha alimentado a esperança
de que Reinaldo não seria tão facilmente perdoado. Para Manuel, contudo,
era melhor que Antioquia fosse governada por um homem que, quando Manuel
fizesse sua entrada
triunfal na cidade, estivesse disposto a caminhar a seu lado, conduzindo
seu cavalo, do que por outro príncipe menos submisso e com certeza menos
visivelmente seu
vassalo. Conquanto Manuel revelasse sincera afeição por Balduíno, seu
sobrinho por afinidade, as prioridades estratégicas dos dois homens não
eram as mesmas, conforme
Manuel demonstrou ao fazer um pacto com Nur ed-Din, o arquünimigo dos
latinos, contra os turcos seldjúcidas na Anatólia. Para os latinos, esse
foi mais um exemplo
da perfídia grega; todavia, entre os benefícios desse acordo para os
latinos estava a soltura de prisioneiros cristãos, entre eles o mestre
do Templo, Bertrand de
Blanquefort.

Qualquer expectativa entre os príncipes cristãos de que Reinaldo


de Châtillon tivesse aprendido de seus erros logo se revelaria
despropositada. Em novembro
de 1160, Reinaldo fez um ataque repentino aos rebanhos de gado
pertencentes sobretudo a sírios cristãos. No caminho de volta a
Antioquia com sua presa quadrúpede,
foi emboscado por uma força muçulmana sob o comando do governador de
Alepo. Reinaldo foi capturado e levado para Alepo no lombo de um camelo.
Ninguém se apresentou
para oferecer um resgate, e ele teve de ficar encarcerado pelos
dezesseis anos seguintes.

Em fevereiro de 1160, o rei Balduíno III morreu com apenas trinta e três
anos - um homem extremamente encantador, inteligente e culto, que foi
Principais fortalezas

w l.a Rochc de Rousscl w La lìoche Guillaumc w 1)arhsek

w(iaston (Baghras)

fw Port Bonnel

Antioquia

nrar Meiliterrmreo

w La Colée

M (:hastcl-Blane
AI-Arimah

Trípoli

Beirute w
Sídon w

Cauto« n Tiro

Chastellet

Acre Safad w

Haifa-~nSaffran nrardaCaNéia
Des«oir
Castelo Peregrino ('Atlit Caco
la Fèvt w w w Le Petit Gerin Cesaréiã

Nablus/r~

gafa a castel Arnald


Casal des Maios w w A Quaranrânia
!I 11 w Ahamanr (Aman)
~fòron dos w
Ascalio~ ~ Cavaleiros Jer~salém ': Maldoim (Cisterna
Rubra)

• Gaza

dos templários

na Síria e na Palestina

.morto o so >oo km
L
O 25 50 milhas

O ULTRAMAR

pranteado até mesmo por seus súditos muçulmanos e pelo governador de


Alepo, Nur ed-Din. Ele não tinha herdeiros: sua esposa, a rainha
Teodora, tinha apenas dezesseis
anos, e então retirou-se para Acre, que recebera como parte do arranjo
de casamento.
A Balduíno sucedeu seu irmão Amauri, de vinte e cinco anos, tão
alto e bem-apessoado quanto Balduíno, mas sem a erudição e o encanto
deste. Amauri, que fora
senhor de Jafa e Ascalão, estava contente de deixar os bizantinos para
proteger as fronteiras setentrionais de seu reino, e voltou sua atenção
para o sul, em direção
ao Egito. Aí, em conseqüência de uma série de golpes e contragolpes
sanguinários, o califado fatímida estava desintegrando-se e o governo do
país estava desorientado.
Poucas cidades no Sinai ou no delta do Nilo eram fortificadas, e a
possibilidade de pilhagem era estupenda; mas também havia a razão
estratégica mais urgente para
entrar em ação contra o Cairo, pois, se os latinos não preenchessem o
vácuo, Nur ed-Din com certeza o preencheria.

Em 1160, uma planejada invasão por Balduíno II fora negociada


pela promessa de um tributo anual jamais pago. Usando essa falta de
pagamento como pretexto,
no outono de 1163 Amauri invadiu o Egito à frente de uma força que
incluía um grande contingente de templários; mas os egípcios forçaram os
francos a recuar, abrindo
brechas em diques no delta do Nilo. No ano seguinte, Amauri estava de
volta ao Egito para antecipar-se a uma tomada do poder no Cairo por
Shawar, protegido de Nur
ed-Din, e chegou a um acordo com Shawar de que ambos os exércitos
deveriam retirar-se.
Aproveitando-se da ausência de Amauri, Nur ed-Din atacara o
principado de Antioquia, pondo cerco à fortaleza de Harene. Boemundo, o
jovem filho de Constança
e Raimundo de Poitiers, agora reinando como príncipe Boemundo III,
partiu com um exército misto de antioquenos, armênios e bizantinos a fim
de socorrer Harenc. Nessa
força havia um contingente de cavaleiros do Templo acompanhados de seus
sargentos, escudeiros e turcópolos. À sua aproximação, Nur ed-Din
suspendeu o cerco e retirou-se.
Contrariando os conselhos de seus companheiros mais experientes,
Boemundo saiu em perseguição desse exército muito maior e o alcançou no
dia 10 de agosto. Usando
sua tática favorita, os muçulmanos simularam uma retirada. Boemundo e
seus cavaleiros arremeteram contra eles, foram emboscados e feitos
prisioneiros ou mortos.
Dos cavaleiros do Templo, sessenta caíram na batalha e apenas sete
escaparam.
Esse revés foi sem dúvida um dos fatores que levaram os
templários a preferir seu próprio julgamento sobre questões militares ao
dos príncipes latinos. Embora
os templários estivessem comprometidos por seus estatutos a defender a
Terra Santa, o grão-mestre estava sujeito ao papa, e não ao
OS TEMPLÁRIOS

rei de Jerusalém. Para Amauri, todavia, a autonomia das ordens militares


tolhia sua conduta de guerra contra o Islã. Em 1166, uma caverna-
fortaleza na Transjordânia,
guarnecida pelos templários e que se dizia ser inexpugnável, foi sitiada
pelas forças de Nur ed-Din. Ela provavelmente tinha feito parte da
doação feita por Filipe
de Nablus, senhor da Transjordânia, quando entrou para a Ordem em
janeiro de 1166.

Ao ser informado do sítio, Amauri reuniu um exército para


aliviá-lo, mas ao chegar ao rio Jordão ele encontrou doze templários que
haviam entregado a fortaleza
sem lutar. Amauri ficou tão irado que mandou enforcar os cavaleiros.
Esse episódio, registrado na história de Guilherme de Tiro, bem poderia
ter sido um dos fatores
que azedaram as relações entre a Ordem do Templo e o rei. Em 1168,
quando Amauri decidiu-se pela invasão do Egito com o uso de todos os
meios possíveis, foi apoiado
pelo grão-mestre do Hospital, Gilberto de Assailly, e pela maioria dos
barões leigos, mas o grão-mestre do Templo, Bertrand de Blanquefort,
recusou-se categoricamente
a participar.

Motivos mesquinhos foram atribuídos aos templários para essa


decisão: afirmou-se que foi porque o plano tinha sido incentivado por
seus rivais, os hospitalários,
ou que eles tinham lucrativas transações financeiras com os mercadores
italianos que comerciavam com o Egito. Mas a quase falência do Hospital,
que sem dúvida induziu
Gilberto de Assailly a tentar compensar no Nilo os prejuízos da Ordem,
também foi uma lição prática para o Templo, que tinha tido graves
prejuízos em Antioquia e
estava totalmente comprometido com a defesa da Terra Santa, tanto no
norte, na fronteira de Amanus, quanto no sul, perto de Gaza. Também
havia o acordo de Amauri
com Shawar - os recém-chegados da França, como o conde Guilherme IV de
Nevers, que aconselhou o rei Amauri, talvez não entendessem o valor de
se manter a promessa
feita a um infiel, mas os templários já tinham suficiente compreensão
das condições locais para reconhecerem que de vez em quando a diplomacia
poderia ser mais eficaz
do que a força.

Outro exemplo da independência dos templários e de sua


disposição de frustrar os planos do rei ocorreu em 1173, quando Amauri
entrou em negociações com o
chefe dos assassinos na Síria, conhecido pelos cruzados como "O Velho da
Montanha". Tratava-se de Sinan ibn-Salman ibn-Muhammad, originário de
uma aldeia próxima
de Basta, no Iraque. Protegido de Hassan, o imã assassino de Alamut,
Sinan tornou-se o governante do enclave dos assassinos na Síria e seguia
sua própria política.
Durante trinta anos, todo governante nos califados islâmicos e em cada
Estado cristão esteve sob risco de um ataque homicida de um dos
fanáticos sectários ismaelitas
de Sinan. As exceções eram os grão-mestres das ordens militares, porque
os assassinos

O ULTRAMAR

haviam compreendido claramente que, se um fosse morto, sempre haveria


outro para assumir seu lugar.

De modo geral, por serem os inimigos de seus inimigos, os


assassinos eram tolerados pelos francos. Os templários, que poderiam ter
investido contra eles
a partir de suas bases em Tortosa, La Colée e Chastel-Blane, recebiam um
"tributo" anual de 2.000 besants dos assassinos para que estes fossem
deixados em paz. Na
década de 1160, as tendências milenárias inerentes à doutrina ismaelita
explodiram quando Hassan, o líder em Alamut, revogou a Lei de Maomé e
proclamou a Ressurreição.
Sinan promulgou a nova dispensação na Síria, e, como os anabatistas em
Münster muitos séculos depois, os eleitos abandonaram-se a um excesso de
libertinagem. "Homens
e mulheres umam-se em rodadas de bebidas, nenhum homem se abstinha de
sua irmã ou filha, as mulheres usavam roupas masculinas, e uma delas
declarou que Sinan era
Deus.` 11

Alguns anos depois da ab-rogação do Islã por Hassan, Sinan


mandou recado ao rei Amauri e ao patriarca de Jerusalém de que estava
interessado na conversão
à fé em Cristo. Para esse fim Hassan enviou um emissário, Abdullah, para
negociar um acordo com o rei. Após uma conclusão satisfatória dessas
conversações preliminares,
Abdullah iniciou a viagem de volta de Jerusalém a Massif com um salvo-
conduto do rei Amauri. Pouco depois de passar por Trípoli, seu pequeno
destacamento foi atacado
por um cavaleiro zarolho chamado Gualtério de Mesnil.

Esse atentado enfureceu o rei Amauri, que ordenou a prisão dos


culpados. O grão-mestre do Templo era agora Odon de Saint-Amand, que
havia substituído Filipe
de Nablus em 1168. Odon tinha sido um funcionário público real que
ocupara vários postos importantes antes de entrar para a

Ordem. Entre 1157 e 1159 fora prisioneiro dos muçulmanos. Sua escolha
como grão-mestre tinha sido quase com certeza para promover boas
relações com o rei Amauri,
mas agora Odon insistia nos direitos legais concedidos aos templários
pela bula papal Omne datum optimum. Seus cavaleiros estavam isentos da
jurisdição secular:
Gualtério de Mesnil tinha sido punido pela Ordem por sua transgressão, e
ela agora o enviaria a Roma para o julgamento final. Ignorando essas
sutilezas, Amauri viajou
para Sídon, onde o capítulo dos templários estava reunido, e deteve o
agressor Gualtério de Mesnil. Ele foi aprisionado em Tiro, e Sinan foi
persuadido pelos profusos
pedidos de desculpas de Amauri de que o ataque a seu embaixador não fora
um ato seu. Todavia, o incidente indispôs irrevogavelmente o rei contra
o Templo, e seu
plano de requerer ao papa e aos monarcas europeus que dissolvessem a
Ordem só foi frustrado por sua morte em 1174.
OS TEMPLÁRIOS

O que estava por trás do ataque ao embaixador assassino por


Gualtério de Vlesnil? Odon de Saint-Amand nunca assumiu a
responsabilidade de seu ato; mas, devido
ao voto de obediência feito por todo irmão cavaleiro, parece improvável
que Gualtério estivesse agindo inteiramente por iniciativa próprià. O
motivo fornecido por
Guilherme de Tiro, cronista da época, é cobiça: os templários não
estavam dispostos a perder o tributo anual de 2.000 besants que teria
prescrito com a conversão
dos assassinos. Um cronista posterior, Walter Map, sugere que eles
receavam que a paz destruísse sua raison d ëtre, matando o emissário dos
assassinos "a fim de
que (diz-se) a crença dos infiéis não se extinguisse e a paz e a união
não reinassem".'9'
Historiadores modernos"' sugerem que, uma vez que os templários
tin-iam acabado de receber uma substancial doação de Henrique, o Leão,
duque da Saxônia,
eles não teriam desafiado o rei por causa de meros 2.000 besents. É mais
provável que, por viverem próximo aos assassinos, eles pensas3em que
Amauri estivesse sendo
logrado. Mas eles não eram os únicos que não confiavam nos assassinos:
após a morte de Amauri, Raimundo III, conde de Trípoli, cujo pai tinha
sido morto pelos assassinos,
tornou-se regente do reino de Jerusalém. As negociações com Sinan não
foram retomada:, e não houve nenhum outro rumor de sua conversão à fé em
Cristo.

oÉto

Saladino

0 ano de 1174 assistiu à morte do rei Amauri de Jerusalém e de Nur ed-


Din, o poderoso governante de Alepo. Amauri, que tinha apenas trinta e
oito anos, sempre fora
desfavoravelmente comparado com seu irmão Balduíno III e havia dissipado
a força de seu reino em suas infrutíferas expedições ao Egito. Sua
estratégia para assegurar
a sobrevivência dos Estados latinos na Síria e na Palestina tinha sido a
de fazer aliança com o Império Bizantino. Isso fora obtido pelo
casamento de sua prima,
Maria de Antioquia, com o imperador Manuel e pelo seu próprio casamento
com a filha do imperador, também chamada Maria, de quem teve somente uma
filha, Isabel. Esse
apreço por Bizâncio foi demonstrado quando, após retornar de uma visita
a Constantinopla, e pouco antes de sua morte, ele adotou o traje
cerimonial do imperador
Bizantino em sua corte em Jerusalém.
O princípio hereditário era agora inconteste nos reinos latinos,
e por isso a Amauri sucedeu Balduíno IV seu filho com a primeira mulher,
Agnes de Courtenay.
Balduíno tinha treze anos e era leproso, e na opinião de alguns clérigos
a doença era a punição de Amauri por Deus por ter-se casado com sua
prima. Até Balduíno
atingir a maioridade, seu primo, o conde Raimundo III de Trípoli,
desempenhou as funções de regente.
À primeira vista, o legado de Nur ed-Din era menos seguro. Seu
filho e herdeiro, Malik as-Salih Ismail, estava com apenas onze anos e
havia pretensões rivais
dos governadores de Damasco, de Alepo, de Mossul e do Cairo sobre quem
deveria atuar como seu regente. Contudo, ao firmar sua autoridade sobre
os diferentes emirados
que antes tinham vivido às turras uns com os outros, Nur ed-Din
demonstrara que era possível para os muçulmanos unir-se contra os
francos. Além disso, havia acrescentado
uma dimensão espiritual a este fato político: parcimonioso e austero,
"com feições regulares e uma expressão triste e suave",'93 ele também
era pio e tinha elevado
sua luta contra os cristãos latinos ao nível de um jihad ou guerra
santa.
O homem que adquiriria essa combinação de ascendência espiritual
e política não seria da progênie de Nur ed-Din, mas o filho de um alto
funcio-

165
OS TEMPLÁRIOS

nário curdo que salvara a vida do pai de Nur ed-Din, Zengi, ajudando-o a
fugir através do rio Tigre, em 1143, depois de ser derrotado numa
batalha com as forças
do califa de Bagdá. Esse homem, Najm ed-Din, junto com seu irmão
Shirkuh, eram os generais de Nur ed-Din em quem ele mais confiava, e foi
Shirkuh quem frustrou as
tentativas do rei Amauri de fundar um protetorado franco no Egito. Ele
todavia o fez em estreita colaboração com o seu jovem e vigoroso
sobrinho Salad ed-Din Yusuf,
mais conhecido como Saladino. Foi Saladino quem deu o coup de grâce no
califado fatímida do Cairo, mudando a submissão espiritual dos
muçulmanos egípcios para o
califa de Bagdá. Ele firmou um domínio pessoal sobre o Egito, agindo de
forma independente de - e às vezes em desobediência a - Nur ed-Din, o
antigo amo de seu pai.

Tanto durante a sua vida quanto após a sua morte, Saladino seria
visto como um modelo de bravura e magnanimidade não só pelos muçulmanos,
mas também pelos
cristãos. As histórias de sua urbanidade e benevolência que foram
trazidas para a Europa - por exemplo, como ele deu peles a alguns de
seus prisioneiros cristãos
para mantê-los aquecidos nas masmorras de Damasco; ou como, quando
estava sitiando o castelo de Kerak em 1183, durante as festividades de
casamento de Humphrey de
Toron e da princesa Isabel, ordenou a suas manganelas que não
disparassem contra a torre onde as bodas estavam sendo celebradas -
tinham todas muita mais impacto
porque os europeus cristãos haviam até então tentado converterem
demônios seus inimigos infiéis.

Pio, moderado, generoso e compassivo, Saladino era não obstante


um estadista arguto e um comandante competente. Ele é descrito como de
baixa estatura, com
o rosto redondo, cabelos pretos e olhos escuros. Como a maioria dos
membros da elite muçulmana, era instruído, refinado e hábil com a lança
e a espada. Na juventude,
estivera mais interessado em religião do que em combate, e não restam
dúvidas de que sua guerra contra os francos cristãos foi inspirada por
um autêntico zelo religioso,
e não simplesmente por uma compreensão adquirida a partir do exemplo de
Zengi e Nur ed-Din de que os diversos Estados islâmicos só poderiam ser
induzidos a atuar
juntos em nome de um jihad.

Não foi fácil manter o conceito moral elevado na comunidade


islâmica mais ampla: ele teve de revelar-se leal não apenas a Nur ed-
Din, o amo de seu pai, mas
também ao califa de Bagdá; mesmo depois de ele ter demonstrado seu
compromisso com o Islã ao unir os diversos Estados muçulmanos contra os
latinos, muitos continuaram
a considerá-lo um usurpador. Também parece provável, como veremos, que
sua famosa magnanimidade fosse em parte uma questão de prudência. Quando
parecia oportuno
ser cruel, ele

166

SALADINO

era cruel: ordenou a crucificação de oponentes xütas no Cairo, e de vez


em quando mandava mutilar ou executar seus prisioneiros. Conquanto
viesse a respeitar e até
a admirar o altivo código dos cavaleiros francos e fosse diligente em
sua urbanidade para com príncipes e reis cristãos, ele sentia um ódio
implacável pelas ordens
militares.

Em seus esforços para frustrar a ascensão de Saladino ao poder


absoluto após a morte de Nur ed-Din, seus rivais fizeram alianças
táticas com os latinos.
O governador de Alepo persuadiu o conde Raimundo de Trípoli, que
desempenhava as funções de regente em nome do rei Balduíno IV a fazer um
ataque diversivo à cidade
de Homs e, em retribuição, concordou em libertar seus prisioneiros
cristãos em troca de resgate - entre eles o adventício cavaleiro francês
Reinaldo de Châtillon,
que desposara a princesa Constança de Aritioquia: o preço por ele fixado
foi de 120.000 dinares de ouro. 194

Se tivesse sido capaz de prever o futuro, o conde Raimundo com


certeza teria resolvido deixar esse "elefante desgarrado" nas masmorras
de Alepo. Reinaldo
agora era um príncipe sem principado: sua mulher havia morrido, talvez
de desgosto, dois anos após a captura de seu belo marido, e Antioquia
era governada por Boemundo
III, filho de Constança com o primeiro marido, Raimundo de Poitiers. Não
obstante, Reinaldo não poderia simplesmente ser relegado às fileiras de
cavaleiros mercenários,
das quais procedia: sua filha Agnes era agora rainha da Hungria, e sua
enteada Maria, imperatriz de Bizâncio. Ele estava portanto casado com a
mais rica herdeira
do reino, Estefânia de Milly, que lhe trouxe os domínios de Hebron e da
Transjordânia.

Uma das principais conseqüências da morte de Nur ed-Din e da desordem


que se lhe seguiu foi a remoção do controle que ele havia exercido sobre
os turcos seldjúcidas.
Em 1176, seu sultão Kilij Arslan II avançou contra Bizâncio. O imperador
Manuel liderou um exército contra ele, o qual foi aniquilado pelos
turcos em Miriocéfalo.
Essa derrota foi tão catastrófica quanto a de Manzikert, em 1071, que
havia levado à Primeira Cruzada. AAnatólia foi perdida para sempre para
os turcos, e a capacidade
de Bizâncio de influenciar os acontecimentos na Síria se fora com ela.
Os francos estavam agora por sua própria conta.

A situação agravou-se com as divisões dentro do reino de


Jerusalém. Embora paciente e perseverante, o jovem rei leproso Balduíno
IV não conseguia ser um
líder forte. Raimundo III de Trípoli, que, como seu parente mais
próximo, havia desempenhado as funções de regente até Balduíno atingir a
maioridade, era experiente,
cauteloso e, depois de anos como prisioneiro dos muçulmanos, falava
árabe e conhecia bem a psicologia do inimigo. Ele contava com o apoio
das famílias de boa reputação
do reino de Jerusalém,

1G7
OS TEMPLÁRIOS

mas a ele se opunham os templários e os recém-chegados à Palestina


comandados por Reinaldo de Châtillon, os quais ansiavam pela guerra e
pela conquista de novas
terras.
Conquanto se falasse muito sobre a ajuda que viria do Ocidente
sob a forma de uma nova cruzada liderada pelo rei Luís VII da França e
pelo rei Henrique 11
da Inglaterra, agora casado com a ex-mulher de Luís, Alienor de
Aquitânia, o único príncipe que apareceu na Terra Santa foi Filipe,
conde de Flandres, mas ele insistia
que tinha ido em peregrinação, e não em cruzada.
Aproveitando-se da desunião dos francos, Saladino saiu à frente
de uma força, através do deserto do Sinai, em direção à fortaleza dos
templários de Gaza.
Os templários concentraram suas forças para defendê-la, mas Saladino
passou ao largo de Gaza e sitiou Ascalão. Balduíno IV, que havia então
atingido a maioridade,
recrutou um exército para defendê-la. Ele chegou à cidade antes de
Saladmo, que, ao perceber que Jerusalém estava desprotegida, deixou uma
pequena força para conter
Balduíno e marchou para a Cidade Santa. Ao se dar conta de que tinha
sido flanqueado, Balduíno convocou de Gaza os cavaleiros do Templo,
rompeu o cerco de Ascalão
e, no dia 25 de novembro de 1177, alcançou o exército egípcio em
Montgisard. Saladino foi pego de surpresa, seu exército desintegrou-se,
e ele fugiu de volta para
o Egito.
Essa vitória foi um triunfo para os francos e talvez os tenha
encorajado a superestimar sua verdadeira força. Embora crônicas francas
relatem que o exército
era comandado por Balduíno, historiadores muçulmanos insistem que ele
era liderado por Reinaldo de Châtillon.'95 É provável que ele tenha
lutado com grande bravura
e que a vitória tenha aumentado seu prestígio.
Como lhe faltasse potencial humano para secundar essa vitória, o
rei Balduíno IV reforçou sua fronteira com Damasco, construindo um
castelo às margens do
Jordão num lugar chamado vau do Jaboc - diz-se que foi aí que Jacó lutou
com um anjo, conforme descrito no Livro do Gênesis. Sua posição
estratégica na estrada que
ligava o litoral a Damasco - de onde dominava a fértil planície de
Banyas, que até então tinha sido acessível tanto a muçulmanos quanto a
cristãos - fora reconhecida
por Saladino, que julgava ter chegado a um acordo com o rei Balduíno de
que ela deveria permanecer uma zona desmilitarizada. Contudo, Balduíno
cedeu à forte pressão
dos templários e construiu a fortaleza numa época em que Saladino estava
perturbado por dissidências entre membros de sua família.
No verão de 1179, Saladino sitiou o castelo, e Balduíno foi em
seu socorro, solicitando a Raimundo de Trípoli e aos templários, sob o
comando de Odon de
Saint-Amand, que se juntassem a ele. No dia 10 de junho, o conde
Raimundo e os templários fizeram contato com o exército de Sala-

1G8

SALADINO

dino. Impetuosamente, os templários atacaram, mas foram vencidos. Os que


conseguiram atravessar o rio Litani refugiaram-se na grande fortaleza de
$eaufort; mas entre
as baixas sofridas pelos francos incluíam-se vários cavaleiros do
Templo, e entre os que foram aprisionados estava o grão-mestre, Odon de
Saint-Amand.

Orgulhoso demais para ser trocado por um muçulmano mantido pelos


cristãos, Odon morreu no cativeiro no ano seguinte. O cronista Guilherme
de Tiro, cujo irmão
foi morto nesse combate, condenou Odon pela arrogância, que era agora
vista como um defeito comum dos cavaleiros do Templo: as ações dele eram
"ditadas pelo caráter
orgulhoso, que ele tinha de sobra"; era "um homem sem valor, orgulhoso e
arrogante, que trazia nas ventas a disposição para a ira e que não temia
a Deus nem tinha
respeito pelo ser humano"."' Sem dúvida, era exemplo de um cavaleiro que
fizera seu nome no mundo secular e mais tarde ingressara na Ordem, não
por vocação religiosa,
mas como uma manobra lateral para atingir os escalões superiores da
administração leiga da cristandade.
É impossível dizer se o capítulo dos templários que escolheu
Odon estava interessado ou não no discernimento de uma vocação sincera,
ou se tinha visto alguma
vantagem na escolha de um grão-mestre que já era uma figura de certa
estatura. Mas foi talvez em reação a Odon de Saint-Amand que os
cavaleiros escolheram como seu
sucessor um templário de carreira, Arnoldo de Torroja, que já tinha sido
mestre na Provença e na Espanha.
Tirando proveito de um armistício de dois anos ajustado entre
Saladino e o rei Balduíno IV-armistício que lhes fora imposto por uma
seca e pelo conseqüente
risco de escassez de alimentos -,Amoldo de Torroja embarcou para a
Europa com o grão-mestre do Hospital, Rogério des Moulins, e Heráclio, o
patriarca recém-eleito,
a fim de tentarem obter ajuda na Itália, na França e na Inglaterra.
Heráclio, um padre semi-analfabeto de Auvergne, tinha sido amante da mãe
do rei, a rainha Agnes,
cuja influência havia assegurado sua nomeação primeiro como arcebispo de
Cesaréia e mais tarde como patriarca de Jerusalém. Sua então amante,
Paschia de Riveri,
conhecida como Madame la Patriarchesse, era mulher de um negociante de
fazendas de Nablus.
Durante sua estada em Londres, Heráclio dedicou a nova igreja
dos templários em seu complexo a oeste da cidade: sua figura perfumada e
cheia de jóias deixou
uma má impressão e fez com que alguns dos homens que o conheceram se
perguntassem se seus irmãos cristãos no Oriente estariam em necessidade
tão extrema. Todavia,
o Templo inglês já se havia beneficiado de um grave acontecimento na
história da Inglaterra: o assassinato, em 1170, do arcebispo de
Canterbury, Tomás Becket. A
penitência imposta aos

1G9
OS TEMPLÁRIOS

quatro cavaleiros normandos que o mataram foi servirem quatorze anos com
os templários na Terra Santa. O rei Henrique 11, que os havia incitado,
não apenas fez penitência
pública na Catedral de Canterbury, como também prometeu prover os
templários com dinheiro para manter duzentos cavaleiros por ano. Em
Avranches, em 1172, como parte
de sua penitência, Henrique jurou tomar a Cruz; e embora os
acontecimentos o impedissem de cumprir sua promessa, seu testamento de
1172 deixou 20.000 marcos para
o custeio da cruzada: 5.000 para o Templo, 5.000 para o Hospital, 5.000
para ambos em conjunto, e uma quantia final de 5.000 marcos para "casas
religiosas mistas,
leprosos, reclusos e eremitas na Palestina".'9'

O grão-mestre do Templo, Arnoldo de Torroja, adoeceu em Verona,


onde faleceu em 30 de setembro de 1184. Para suceder-lhe, o capítulo dos
templários em Jerusalém
escolheu Gérard de Ridefort, um cavaleiro de o rigem flamenga ou anglo-
normanda. Parece que Gérard foi um caso clássico de um cavaleiro que
entrou para a Ordem fauce
de mieux. Ele havia chegado à Terra Santa no início da década de 1170 e
servido com Raimundo 111, conde de Trípoli. Segundo os cronistas,
Raimundo lhe garantiu que
ele receberia um feudo em seu país quando algum ficasse vago. Em 1180,
Guilherme Dorel, senhor de Botron, morreu, deixando seu feudo para a
filha Lúcia. Raimundo,
possivelmente pressionado por dívidas, voltou atrás em sua promessa a
Gérard e "vendeu" Lúcia para um mercador de Pisa chamado Plivano pelo
peso de sua noiva em
ouro. Ela lhe trouxe 10.000 besants, o que a reduziu a cerca de
63,5kg.'98

Com suas esperanças frustradas dessa forma, Gérard ingressou na


Ordem do Templo. Foi dito que mais :)u menos nessa época ele sofria de
uma grave doença,
e isso pode tê-lo des.ludido da ambição terrena, levando-o a concentrar
seu espírito no mundo vindouro. Mas o ímpeto de religiosidade não
atenuou a humilhação que
sent u como cavaleiro ao ser preterido em favor de um mercador, e o
incidente deixou-o com um profundo ressentimento contra o conde Raimundo
de Trí)oli. Por ocasião
da morte de Amoldo de Torroja, ele era o seneseal dos templários no
reino de Jerusalém.

Em março de 1185, o jovem rei leproso, Balduíno IV afinal morreu.


Sucedeu-lhe o sobrinho Balduíno V, de sete anos, filho de sua irmã
Sibila com o primeiro marido,
Guilherme de Montferrat. Raimundo de Trípoli, que já vinha exercendo as
funções de baill (governador ou ministro-chefe) de Balduíno IV, tornou-
se então o regente
de Balduíno V Nessa qualidade, ele fez um acordo com Saladino de um
arn.istício de quatro anos. Contudo, a autoridade de Raimundo foi
enfraquecida quando, logo no
ano seguinte, o jovem rei também morreu, sem deixar he'deiro óbvio.

170

SALADINO

De acordo com o testamento de Balduíno IV a sucessão deveria ser


decidida pelo papa, pelo imperador e pelos reis da Inglaterra e da
França. Mais uma vez,
entretanto, o destino dos cristãos latinos na Terra Santa viria a ser
afetado pelas emoções de uma mulher. A princesa Sibila, mãe do falecido
rei, era agora esposa
de um cavaleiro francês, Guido de Lusignan. Seu primeiro marido,
Guilherme de Montferrat, importado da Europa como um futuro rei, morrera
de malária em 1177.

A princípio, uma sondagem entre as famílias reais da Europa não


conseguiu sugerir um substituto, e durante algum tempo Sibila cogitara
de se casar com um
barão local, Balduíno de Ibelin. Todavia, o condestável do reino, Amauri
de Lusignan, que era amante de Agnes, a mãe de Sibila, tinha um irmão
mais novo chamado
Guido. Induzida pelos relatos sobre os encantos dele, Sibila mandou
trazê-lo da Europa. Quando ele chegou, ela gostou do que viu e instou
com o irmão, o rei Balduíno
IV que concordasse com o casamento deles. O rei resistiu porque podia
ver que esse fraco e incapaz filho mais novo de um conde francês era uma
escolha medíocre como
futuro governante de seu reino, mas sua mãe e sua irmã o influenciaram,
e por fim ele deu seu. consentimento: eles se casaram na Páscoa de 1180.
Seis anos mais tarde, os planos das duas mulheres se
concretizaram. Sibila convocou seus partidários a Jerusalém e foi
coroada rainha por outro dos ex-amantes
de sua mãe, o patriarca Heráclio. O grão-mestre do Hospital, que, como o
grão-mestre do Templo, conservava a chave do cofre que continha os
adereços reais, recusou-se
a exibi-lo, preferindo jogá-lo pela janela; mas o detentor da segunda
chave, Gérard de Ridefort, um dos principais defensores de Sibila e
Guido, foi buscá-lo. Assim
que foi coroada, Sibila colocou uma segunda coroa na cabeça do marido,
Guido, e então "Gérard de Ridefort gritou bem alto que essa coroa
restituía o casamento de
Botron".199

O golpe da rainha Sibila representou o triunfo dos falcões sobre


as pombas, lideradas por Raimundo de Trípoli. As pombas poderiam ter
resistido, pois correspondiam
a todos os vassalos do reino menos Reinaldo de Châtillon. Guido de
Lusignan era desprezado por todos. Raimundo propôs que coroassem a
princesa Isabel, a filha de
treze anos do rei Amauri I, que recentemente desposara Humphrey de
Toron, de dezoito anos. Foi no casamento deles no ano anterior, no
castelo de Kerak, durante o
cerco feito por Saladino, que este ordenara que suas manganelas não
disparassem contra a torre onde as festividades do casamento estavam
sendo realizadas e fora
recompensado pela mãe de Humphrey com pratos servidos na festa, os quais
ela mandou para o líder muçulmano. O cerco fora suspenso pessoalmente
pelo rei Balduíno
IV que viajava numa liteira, mas é possível que a experiência tivesse
enervado o jovem Humphrey de Toron, "um jovem de extraordinária
OS 'TEMPLÁRIOS

beleza e grande erudição, mais dotado por seus gostos para ser uma
garota do queum homem".zoo Quando Raimundo então propôs que ele fosse
feito rei, ele foi furtivamente
para Jerusalém e prestou homenagem a Guido de Luxgnan. O golpe foi um
fait accompli, e todos os barões, com exceção de Raimundo de Trípoli e
Balduíno de Ibelin,
entraram em forma.

Agora não havia mais nada para refrear os agressivos planos do


principal fabricante de reis, Reinaldo de Châtillon. O feudo da
Transjordânia, que ele hava
adquirido através do casamento e que se estendia até o golfo de Ácaba,
situava-se em ambos os lados das rotas de caravanas entre o Egito e a
Síria e dividia em dois
os domínios de Saladino. Em 1182, Reinaldo usara essa posição
estratégica para organizar um ataque repentino cuja ousadia levou ao
maior ultraje possível no mundo
muçulmano. Ele mandara construir galeras em partes, que eram testadas no
mar Morto e em seguida lançadas ao golfo de hcaba. Estas navegaram para
o sul, em direção
ao mar Vermelho, pilhando os Portos no litoral do Egito e da Arábia,
navios mercantes e até transportes que levavam peregrinos para Meca.
Após o desembarque no porto
de ar-P,aghib, um grupo de incursores partiu para a própria Meca, com a
intenção de levar consigo o corpo do profeta Maomé. Eles foram vencidos
por uma força enviada
do Egito por Malik, irmão de Saladino, e os sobreviventes forem
executados ou em Meca ou no Cairo.

Quer tenha sido um ato individual de terrorismo da parte de


Reinaldo, quer tenha sido "a parte mais ousada de uma campanha
orquestrada, da qual todas as
forças do reino participaram","' isso transformou Reinaldo num homen
marcado para Saladino, cujo papel como guardião dos Lugares Santos na
Arábia sustentava sua
autoridade no mundo muçulmano. Agora, depois da ascensão do rei Guido,
Reinaldo exacerbava seu ultraje ao atacar uma grande caravana que
viajava do Egito à Síria,
matando sua escolta de tropas egípcias. Isso foi uma violação do
armistício, e Saladino exigiu reparação, prime ro de Reinaldo, que não
recebeu seus emissários,
e depois do rei Guido, que, embora tivesse ordenado a Reinaldo que desse
satisfações, não insistiu: em grande parte, ele devia seu trono a
Reinaldo.

Para os detratores de Reinaldo, esse ataque à caravana foi um


clamoroso atode vandalismo; até mesmo seus defensores julgaram-no
"enigmático ",'02 sugerindo
que, talvez devido à escolta egípcia, Reinaldo tivesse achado que for,,.
Saladino quem violara o armistício. Fossem quais fossem seus motivos,
eles tornaram a guerra
inevitável numa época em que os Estados latinos estavam profundamente
divididos.
Havia um conflito de interesses entre os barões estabelecidos,
que queriara conservar o que tinham, e os cavaleiros recém-chegados, que
esperavam fazer fortuna
com as novas conquistas, combinado com uma divergên-

172

SALADINO

cia ideológica entre aqueles que buscavam uma conciliação com seus
vizinhos muçulmanos e aqueles para quem qualquer compromisso com os
infiéis era uma traição da
cristandade. Mesmo nessa época, era às vezes difícil distinguir entre
ambos; mas decerto o conhecimento de que Raimundo de Trípoli era fluente
em árabe e interessado
pelo estudo de textos islâmicos fez com que muitos suspeitassem de que
não estivesse integralmente comprometido com a causa cristã.

Como que para provar que as suspeitas deles estavam corretas,


Raimundo procurou obter a ajuda de Saladino contra Guido de Lusignan.
Isso ia muito além de
pedir um armistício, equivalendo a colaboração inequívoca. Como um favor
a seu possível aliado, Raimundo permitiu que uma força da cavalaria
egípcia liderada por
al-Afdal, filho de Saladino, cruzasse seu país até a Galiléia, numa
missão de reconhecimento. Combinou-se que ela seria não-beligerante e
que se moveria durante
o dia. Notícias desse acordo foram enviadas aos súditos de Raimundo e,
na fortaleza de Lã Fève, alcançaram uma delegação do rei Guido a
caminho, cujo objetivo era
buscar a reconciliação com o conde Raimundo e da qual faziam parte os
grão-mestres do Templo e do Hospital.
Gérard de Ridefort imediatamente convocou dos castelos vizinhos
noventa cavaleiros do Templo e cavalgou para Nazaré, onde quarenta
cavaleiros seculares foram
acrescentados à sua força. Além de Nazaré, eles encontraram a força
muçulmana dando de beber a seus cavalos nas fontes de Cresson. Ao ver a
sua força, o mestre do
Hospital, Rogério des Moulins, aconselhou a retirada, e o marechal do
Templo, Jacques de Mailly, concordou. Isso encolerizou Gérard de
Ridefort, que acusou o grão-mestre
do Hospital de covardia e desdenhou de Jacques de Mailly: "Vós amais em
demasia vossa cabeça loura para querer perdê-la", ao que o marechal do
Templo retrucou: "Hei
de morrer em batalha como um homem corajoso. Sois vós quem fugirá como
um traidor". A força mista de cavaleiros então investiu contra os
egípcios com um efeito catastrófico.
Jacques de Mailly e Rogério des Moulins foram ambos mortos junto com
todos os templários, à exceção de três, um deles seu grão-mestre, Gérard
de Ridefort. Os cavaleiros
seculares foram feitos prisioneiros junto com alguns cidadãos cristãos
de Nazaré que haviam deixado a cidade na esperança de pilhagem.
Para os latinos, a única vantagem desse desastre foi que ele
envergonhou Raimundo de Trípoli, levando-o a quebrar seu pacto com
Saladino e a fazer as pazes
com o rei Guido. Enquanto exércitos de todos os domínios de Saladino -
Alepo, Mossul, Damasco e Egito - convergiram para al-Ashtara, na margem
mais afastada do Jordão,
para formarem a maior força que ele jamais tivera sob seu comando, o rei
Guido proclamou uma levée en
173
OS TEMPLÁRIOS

masse, convocando todas as forças latinas para reunir-se em Acre. Em


Jerusalém, o fundo de vinte mil marcos que tinha sido mantido pelas
ordens militares em nome
do rei Henrique II da Inglaterra para financiar sua planejada cruzaua
tui usado para contratar mercenários e equipar as foras cristãs Em fins
de junho, o rei Guido
havia reunido vinte mil soldados, incluindo doze mil de cavalaria, que
eram virtualmente todos os combatentes, voluntários e mercenários,
disponíveis no ultramar:
as cidades e as fortalezas latinas ficaram vazias.
No dia 1° de julho, Saladino cruzou o Jordão em Sennabra, no
extremo sudoeste do lago Tiberíades, com trinta mil soldados de
infantaria e doze mil soldados
de cavalaria. Aí ele dividiu suas forças: metade marchou para as
montanhas a oeste, metade seguiu pela margem do lago Tiberíades. A
cidade foi tomada após um breve
assalto, mas Eschiva, a condessa de Trípoli, resistiu na cidadela e
enviou mensagem de seu apuro a Raimundo, seu marido, que estava com o
rei Guido em Acre.
Nesse ponto o indeciso rei Guido recebeu conselhos conflitantes
dos falcões e das pombas. Como ainda não soubesse que sua esposa estava
em perigo, Raimundo
aconselhou cautela, argumentando que Saladino não poderia manter unido
por muito tempo um exército tão grande no interior árido no auge do
verão. Reinaldo de Châtillon
e Gérard de Ridefort preferiam um ataque imediato para socorrer
Tiberíades, censurando Raimundo por sua covardia e por seu pacto
anterior com Saladino. Como antes,
Guido foi incapaz de rejeitar os conselhos dos dois homens que haviam
conquistado o trono para ele e ordenou ao exército cristão que avançasse
para Tiberíades. As
tropas acamparam em Seforia na tarde de 2 de julho, numa posição
estrategicamente vantajosa, com muita água e forragem para os cavalos.
Aí as encontrou o mensageiro de Tiberíades, que lhes contou do
apuro da mulher do conde Raimundo. Os filhos dela, que aí estavam com o
pai, imploraram a
Guido que fosse salvá-la, mas, como antes, Raimundo argumentou que seria
loucura abandonar a posição em que estavam: pelo bem dos reinos
cristãos, ele estava disposto
a pôr em risco sua cidade e sua mulher.
O rei e seu conselho de barões aceitaram as recomendações de
Raimundo, mas, depois que eles se recolheram à noite, Gérard de Ridefort
voltou à tenda do rei.
Como o rei Guido, questionou ele, poderia confiar num traidor? Que
desonra abandonar uma cidade que estava tão próxima! Os templários,
disse ele, prefeririam "pôr
de lado seus mantos brancos" e vender e penhorar tudo o que tinham a
perder essa oportunidade de vingar seus irmãos que haviam morrido nas
fontes de Cresson.
Incapaz de fazer frente a Gérard de Ridefort, o rei Guido
ordenou ao exército que marchasse ao raiar do dia. Tomando o rumo do
norte pelas ári-

SALADINO

das colinas em direção a Tiberíades, constantemente fustigados por


arqueiros muçulmanos, e logo debilitados pela sede, eles alcançaram a
aldeia de Lubiva. Os templários
que formavam a retaguarda solicitaram-lhe que aí pernoitassem, com o que
o rei concordou. O conde Raimundo, que liderava a vanguarda, ficou
horrorizado: "Ai meu
Deus, a guerra está terminada. Somos homens mortos. O reino está
perdido".

O poço em Lubiya estava seco. O exército acampou no árido


planalto conhecido como Comos de Hattin, de onde se descortinava a
aldeia de Hattin, onde o exército
de Saladino o esperava. À medida que a noite avançava, os muçulmanos
foram se aproximando pouco a pouco: todos os soldados que saíram à
procura de água foram pegos
e mortos. Os muçulmanos atearam fogo aos arbustos que cobriam a colina,
e a brisa levou a fumaça para o acampamento dos cristãos.
Ao alvorecer, Saladino ordenou o ataque. Enlouquecidos pela
sede, pelo calor e pela fumaça, os soldados da infantaria cristã
tentaram abrir caminho até o
lago através da hoste muçulmana e foram todos mortos ou feitos
prisioneiros. Acima deles, os cavaleiros com armadura rechaçaram várias
vezes os repetidos assaltos
da cavalaria muçulmana, mas também estavam enfraquecidos pela sede, e
cada investida reduzia seu número. Com seus cavaleiros, o conde Raimundo
arremeteu contra a
hoste muçulmana, que de repente se abriu, deixando-os passar.
Impossibilitados de regressar ao principal contingente do exército, eles
fugiram para Trípoli.

Os cavaleiros que ficaram para trás formaram um círculo em volta


do rei e fizeram muitas sortidas contra os homens de Saladino. Com eles
estava o bispo de
Acre segurando a preciosa relíquia da Verdadeira Cruz. Quando ele caiu,
a Verdadeira Cruz foi tomada. A batalha tinha terminado. O rei Guido e
os cavaleiros que
permaneceram vivos caíam agora de exaustão, e não pela espada. Os mais
eminentes dentre eles foram levados cativos para a tenda de seu
conquistador, Saladino - entre
eles o rei Guido, seu irmão Amauri, Reinaldo de Châtillon e o jovem
Humphrey de Toron. Com a extrema urbanidade pela qual era célebre,
Saladino ofereceu ao sedento
rei um copo de água de rosas, resfriada com gelo trazido do pico do
monte Hebron. Depois de beber dessa água, o rei passou o copo a Reinaldo
de Châtillon, mas, antes
que ele pudesse saciar a sede, tomaram-lhe o copo: de acordo com as
regras de hospitalidade árabe, a vida de um prisioneiro a quem se dá
comida ou água está assegurada.

Saladmo então repreendeu Reinaldo por causa de todas as suas


iniqüi-, dades e, de novo em obediência aos ensinamentos de Maomé,
ofereceu-lhe a escolha de
aceitar o Islã ou morrer. Reinaldo riu na cara dele, dizendo que era
antes Saladino quem deveria voltar-se para Cristo: "se vós acreditásseis

175
OS TEMPLÁRIOS

n'Ele, poderíeis evitar o castigo da danação eterna que não deveríeis


duvidar de que esteja preparado para vós".z°' Ao ouvir isso, Saladino
pegou sua cimiorra e
cortou a cabeça de Reinaldo.
A vida do rei Cuido e a de seus barões seculares estavam
seguras. "Uru rei não mata outro rei", declarou Saladino, "mas a
perfídia e a insolência daquele
homern foram longe demais." Eles foram conduzidos à prisão em Danlasco
com instruções de que não lhes fizessem mal. A mesma clemência, contudo,
não se estendeu aos
cavaleiros das ordens militares. "Vou purificar aterra dessas raças
impuras", disse Saladino a seu chanceler e secretário, ']mad ad-Din. Ele
recompensou com cinqüenta
Binares cada soldado que havia capturado um irmão cavaleiro e ordenou a
morte destes. Estudiosos do Alcorão, ascetas islâmicos e místicos
sufistas do séquito de
Saladino implowam-lhe que lhes fosse permitido cortar a cabeça deles.
Apenas Gérard de Fidefort, o grão-mestre dos templários, foi mantido na
prisão: aos demais
cavaleiros, a exemplo de Reinaldo de Châtillon, ofereceu-se a escolha de
apostasia ou morte. A noite toda, aos gritos selvagens dos que
pretendiam ser seus algozes,
eles se prepararam para o seu destino. Nenhum deles opou por negar a
Cristo. Ao amanhecer, 230 cavaleiros do Templo junto com seus irmãos do
Hospital foram decapitados
pelos extáticos sufrstas.

nepois de Hattin, os cristãos na Terra Santa pareciam condenados.


Alevéeen passe havia afastado as guarnições de todas as cidades e
castelos nas mãos dos latinos,
e na esteira da vitória de Saladino cinqüenta e dois ou se renderrm ou
foram tomados. A condessa de Trípoli teve permissão para partir da
cidade de Tiberíades, e
Jocelino de Courtenay, outrora um dos falcões, entregou Acre sem lutar
no dia 10 de julho. Em Ascalão, o valor dos eminent°s prisioneiros de
Saladino foi testado
quando Gérard de Ridefort e o rei Cuido foram levados até as portas da
cidade. O rei Cuido ordenou aos defens)res da cidade que se rendessem.
Responderam-lhe com
insultos, e dois cos emires de Saladino foram mortos no cerco
subseqüente. No entanto, rão havia dúvidas quanto ao resultado final, e
no dia 4 de setembro Ascalão
r.ndeu-se. Em Gaza, a guarnição de templários, obrigada por seus votos
de cbediência, rendeu-se ao comando de seu grão-mestre, Gérard de
Ridefort.

Então Saladino voltou sua atenção para o maior prêmio de todos,


a cidade ce Jerusalém. Aí uma defesa fora organizada pela rainha Sibila,
pelo patriarca Heráclio
e por Balião de Ibelin. As forças que tinham sido deixadas na cidade
eram totalmente insuficientes: havia apenas dois cavaleiros, e a crise
era tão grave que Balião
de Ibelin foi obrigado a outorgar a dignidade de cavaleiro a trinta
homens solteiros da burguesia." A cidade estava abarrotrda de
refugiados, sobretudo mulheres
e crianças, e os latinos não podiam

SALADINO

contar com a lealdade dos cristãos sírios e ortodoxos. De novo, assim


que o sítio começou, não restavam dúvidas quanto ao resultado final; mas
as ameaças de destruir
a Cúpula da Rocha e incendiar a cidade persuadiram Saladino a entrar em
negociações. Ele pediu 100.000 dinares de resgate pela população da
cidade, mas era impossível
encontrar tamanha soma de dinheiro. Foi estabelecido um preço de dez
dinares por um homem, cinco por uma mulher e um por uma criança. Trinta
mil Binares dos fundos
públicos compraram a lit)c,.-'-de de 7.000 dos que não podiam pagar. No
dia 2 de outubro de 1187, o aniversário da visita do Profeta ao Céu a
partir do monte do
Templo, Saladino fez sua entrada triunfal na cidade. Ele tratou os
conquistados com grande magnanimidade; o maior opróbrio dos cronistas
foi dirigido contra o patriarca
Heráclio e as ordens militares, em particular os templários, que se re>!
usaram a renunciar a seu próprio tesouro, e só com relutância liberaram
o que restava dos
fundos de Henrique II para salvar da escravidão os cristãos mais pobres.

O Templo foi então entregue a Saladino, e os templários foram


expulsos de sua sede na mesquita al-Aqsa. Ela foi purificada com água de
rosas e foi instalado
um púlpito que Nur ed-Din encomendara ao prever esse triunfo. Embora a
Igreja do Santo Sepulcro fosse deixada ao encargo dos cristãos ortodoxos
e jacobitas, a Cruz
foi tirada do alto da Cúpula da Rocha e arrastada em redor da cidade por
dois dias, sob os golpes dos porretes dos exultantes muçulmanos.

A generosidade de Saladino para com os cristãos latinos em Jerusalém era


tanto uma questão de prudência quanto a expressão de uma natureza
magnânima. Num tratado
militar, Discussão dos Estratagemas de Guerra, de a]-Harawi, escrito a
pedido do filho de Saladino, al-Malik, ou possivelmente do próprio
Saladino, o autor afirma
que "a afabilidade para com os não-combatentes pode ser usada como uma
demonstração de força, o que pode ajudar a intimidar o inimigo (...)".
Permitir generosamente
que as guarnições das cidades e dos castelos capturados se retirassem
para Tiro e outros centros francos foi outra demonstração dessa força,
evidenciando que o sultão
nada tinha a temer da parte de seus derrotados inimigos.z°s Em todo o
caso, os francos eram desprezíveis - "irresponsáveis, imprudentes,
insignificantes e gananciosos
(...) estando preocupados com títulos e posição social entre reis e
nobres". Al-Harawi condenou os membros do clero latino pela facilidade
com que eles anularam
os juramentos feitos a Saladino, mas expressou um austero respeito pelas
ordens militares, advertindo a Saladino que "tomasse cuidado com os
monges [das ordens do
Hospital e do Templo] (...) pois ele não pode atingir suas metas por

177
OS TEMPLÁRIOS

intermédio deles, porquanto eles têm grande fervor religiosa e não


prestam atenção às coisas deste mundo".

Será que al-Harawi estava certo em suas conjeturas? Não pode


haver a menor dúvida de que as generosas condições para a rendição de
Jerusalém aumentaram o
prestígio de Saladino e ao mesmo tempo atenuaram a vontade de alguns
cristãos latinos de resistir. Todavia, o tratamento que ele dispensava
aos cavaleiros das ordens
militares fortaleceu a resolucã, dos templários e dos hospitalários. A
grande fortaleza de Kerak, o;-lue as bodas reais tinham sido celebradas
sob o bombardeio de
Saladino em 1183, teve de ser levada à submissão pela fome, depois de um
cerco de mais ce um ano. O mesmo aconteceu com Montréal. Depois de um
mês de bombardeio,
os templários haviam entregado Safed, e os hospitalários, seu castelo em
Belvoir. Mas algumas balizas permaneceram de pé. Os hospitalários
continuaram no Krak dos
Cavaleiros e em Chastel Blane. Os templários entregaram Gaston, na
fronteira de Amanus, mas conservaram La Roche Guillaume e, embora a
cidade fosse tomada, mantiveram-se
firmes na cidadela de Tortosa.

Esses redutos, junto com as cidades litorâneas de Antioquia,


Trípoli e Tiro, permaneceram nas mãos dos cristãos. Uma esquadra
siciliana entrou no porto de
Antioquia e reforçou a guarnição de Boemundo, enquanto a situação em
Tiro se transformou com a chegada de uma força de cruzados liderada por
um príncipe alemão,
Conrado de Montferrat, que assumiu o encargo de defender a cidade. Seus
navios derrotaram uma esquadra egípcia, e no dia 1° de janeiro de 1188
Saladino abandonou
o cerco.

Em junho do mesmo ano, Saladino libertou o rei Guido, após ele


ter dado sua palavra de que deixaria seu reino. Ao receber a garantia da
Igreja de que um
juramento feito sob coação de um infiel não tinha validade, Guido reuniu
uma força composta pelos cavaleiros que também haviam sido resgatados ou
libertados e marchou
para Tiro. Conrado de Montferrat recusou-se a deixá-lo entrar: a seu
ver, a derrota de Guido lhe custara a coroa. Depois de esperar do lado
de fora dos muros por
alguns meses, Guido percebeu que teria ou de se retirar da Terra Santa
ou de fazer alguma coisa arrojada para restabelecer seu controle.

Com determinação incomum, em agosto de 1189 o rei Guido marchou


para o sul, em direção a Acre, que se havia rendido às forças de
Saladino depois de Hattin,
e começou a sitiá-la, com Gérard de Ridefort e uma força dos templários
do seu lado. Não obstante parte do exército de Saladino ainda estivesse
nas proximidades,
Guido organizou um reforçado cerco da cidade, o qual resistiu aos
assaltos a ela, "o único exemplo nas operações militares sírias do
século XII de um importante
sítio conduzido com êxito

178

SALADINO

na presença de um exército capaz de acossar os sitiantes e ajudar o~


~,iuados".z°6 A audácia do plano faz com que pareça provável que Gerárd
estivesse por trás dele,")'
e o fato de o impetuoso grão-mestre ter morrido quando lutava próximo da
cidade. em 4 de outubro de 1189, em certa medida contribuiu para salvar
sua reputação.

179
Ricardo Coração de Leão

As notícias dos desastres que haviam acontecido na Terra Santa foram


transmitidas ao papa Urbano III, que então se encontrava em Verona, por
cavaleiros das ordens
militares-os templários traziam uma carta do irmão Terence, o comandante
da Ordem do Templo na Terra Santa que fora um dos poucos a escapar
depois de Hattin. Urbano
e toda a Cúria Pontifícia ficaram atordoados com as notícias: ninguém na
Europa tinha imaginado que um revés como esse fosse possível, e eles
imediatamente admitiram
que, se Deus havia abandonado seu povo, era por causa de seus pecados. O
monge Pedro de Blois, que estava visitando a Cúria nessa ocasião,
escreveu ao rei inglês,
Henrique II, relatando como "os cardeais, com o consentimento do Senhor
Papa, resolutamente prometeram entre si que, tendo renunciado a toda a
riqueza e luxo, pregariam
a Cruz de Cristo não só por meio de palavras, mas também por meio de
atos e de exemplos".2°8 Urbano 111, quebrantado por sua dor, morreu
pouco depois.
Quando no verão de 1187 Josias, o arcebispo de Tiro, chegou a
Palermo procedente dessa cidade, enviado pelos barões do ultramar para
solicitar ajuda ao Ocidente,
e contou ao rei Guilherme II da Sicília toda a proporção da catástrofe,
o rei tirou às pressas seu fino traje de seda, vestiu um hábito de
aniagem e partiu para
um retiro penitencial por quatro dias. O sucessor do papa Urbano,
Alberto de Morra, um italiano de idade avançada que adotou o nome de
Gregório VIII, só reinou nos
dois últimos meses do ano de 1187, mas durante esse tempo redigiu um
eloqüente apelo de um armistício de sete anos entre os reis europeus ern
guerra, a hm de deixá-los
livres para uma nova cruzada. Essa encíclica, Audita tremendi, era "um
documento comovente e uma obra-prima de retórica pontifícia",z°9 e uma
reação imediata partiu
do rei Guilherme da Sicília, que enviou a frota de cinqüenta galeras que
levou ajuda ao principado de Antioquia.
Essas reações penitenciais, que eram compatíveis com a teologia
das cruzadas de Bernardo de Clairvaux, eram agora complementadas por uma
idéia mais cavalheiresca
por trás do ato de tomar a Cruz. Foi nessa época que

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

a palavra crucesignata passou a ser de uso comum, não entre clérigos,


mas entre cavaleiros leigos e príncipes. Figuras heráldicas
desconhecidas ao tempo da Primeira
Cruzada foram brasonadas em estandartes e escudos; e havia a sensação de
que na mente da nobreza européia a cruzada havia se tornado a maior
prova de coragem e virtude
- a justa definitiva contra as forças do mal, o derradeiro esforço
cavalheiresco. Assim, Pedro de Blois, que havia testemunhado a
penitência dos prelados na corte
do papa Urbano I, e sinceramente concordou com os sentimentos
penitenciais na Audita tremendi, do papa Gregório VIII, também escreveu
em sua obra Passio Regánaldi
um relato da vida e morte do pirata Reinaldo de Châtillon que o
apresenta não só como mártir, mas também como santo.

Um dos primeiros príncipes europeus que se mostraram sensíveis ao apelo


do papa foi Ricardo, conde de Portou, filho do rei Henrique II da
Inglaterra e de Alienor
de Aquitânia. O casamento de Alienor com o rei Luís VII da França fora
anulado em 1152, três anos após seu retorno da desastrosa Segunda
Cruzada. Oito semanas mais
tarde, Alienor, então com trinta anos, desposou o conde de Anjou, de
dezenove, que em 1154, com a morte de seu avô, subiu ao trono da
Inglaterra como Henrique II.
Essas rápidas segundas núpcias foram criticadas pelos subseqüentes
biógrafos de Alienor: para um, Alfred Ricard, ela simplesmente havia se
cansado da "graça quase
efeminada" de Luís e "desejava ser dominada, e como o vulgo cruamente
dizia, era uma dessas mulheres que gostam de ser espancadas".z'1 Dois
cronistas relatam que
Alienor já havia sido seduzida, ou possivelmente estuprada, pelo pai de
Henrique, o conde Godofredo de Anjou. Contudo, seu casamento com
Henrique foi a princípio
um sucesso, se avaliado pelo número de seus filhos: tendo tido apenas
duas filhas de Luís (o fracasso dela em gerar um herdeiro do sexo
masculino levou os conselheiros
capetíngios a concordar com a anulação do casamento), entre 1152 e 1167
ela deu à luz cinco filhos e três filhas de Henrique.

O terceiro desses filhos foi Ricardo, que, aos onze anos, foi
dotado com o ducado de Aquitânia, de sua mãe. Mergulhado desde a
juventude em constantes guerras
com vassalos revoltosos, Ricardo firmou sua reputação como um guerreiro
feroz, um governante impiedoso e, depois de tomar a supostamente
inexpugnável fortaleza de
Taillebourg aos vinte e um anos, um estrategista e general brilhante.
Com o passar do tempo, o casamento de sua mãe com Henrique foi
afetado pelas infidelidades dele, em particular com sua amante inglesa,
Rosamunda Clifford.
Em 1173, Alienor associou-se aos filhos numa revolta contra Henrique II.
A rebelião fracassou: os filhos submeteram-se de forma
OS TEMPLÁRIOS

abjeta a seu pai, ao passo que Alienor, capturada quando viajava a fim
de procurar refúgio com o primeiro marido, Luís VII, foi levada de volta
para a Inglaterra
e aprisionada pelos quinze anos seguintes.

A morte em 1183 de Henrique, o irmão maisvelho de Ricardo,


transformou-o em herdeiro do trono da Inglaterra, bem como do ducado de
Aquitânia e do condado
de Anjou. Nessa conjuntura, seu pai, Henrique 11, havia pedido a Ricardo
que transferisse o ducado de Aquitânia para João, seu filho caçula.
Ricardo havia recusado
e apelado para seu suserano nocional, o sucessor de Luís VII, o rei
Filipe Augusto da França. Outrora amigos, mais tarde rivais e por fim
inimigos implacáveis, as
maquinações políticas e militares de ambos os príncipes foram suspensas
pelas notícias da derrota do exército latino em Hattin e da rendição de
Jerusalém às forças
do Islã.

Precipitadamente, sem o consentimento de seu pai, Ricardo tomou


a Cruz na nova catedral de Tours, no mesmo luga: de onde seu bisavô,
Foulques de Anjou, havia
partido para se casar com a princesa Melissanda e com ela governar o
reino de Jerusalém. Filipe Augusto protestou, pois Ricardo deveria
desposar Alice, irmã do primeiro.
Mas, após ouvir um eloqüente sermão do arcebispo de Tiro, ele tomou a
Cruz. Henrique II, que há muito tinha planejado partir em cruzada e
enviado substanciais somas
de dinheiro para o reino de Jerusalém, foi forçado pelos dois jovens
príncipes a juntar-se a eles. Eles deveriam partir de Vézelay depois da
Páscoa de 1190, mas
Hen-
rique II morreu em 6 de julho de 1189, antes que pudesse cumprir sua
promessa.

Agora rei da Inglaterra e também duque da Normandia e de


Aquitânia, Ricardo tinha recursos enormes à sua disposição e traçou
meticulosos planos para a sua
cruzada. Havia grande entusiasmo popular pela cruzada, e cistercienses
como Balduíno, arcebispo de Canterbury, incentivaram a guerra santa no
estilo de Bernardo
de Clairvaux; mas já não encontramos, como na época da Primeira Cruzada,
"eremitas taciturnos e misteriosos dando conselhos aos líderes sobre
táticas militares":
até mesmo os clérigos, "que invocavam a ajuda de Deus (...) confiavam em
seus próprios recursos"."' O papa instituiu um imposto de dez por cento
sobre toda a renda
e bens móveis que veio a ser conhecido como o "dízimo saladino".
Conquanto, em última análise, a cruzada ainda dependesse da disposição
do indivíduo a arriscar sua
vida e seus bens para reconquistar os Lugares Santos, "o estímulo do
Espírito Santo agora passava de forma mais óbvia pelos canais
oficiais"."'
Uma série de príncipes menos importantes seguiu o exemplo do rei
Ricardo da Inglaterra e do rei Filipe Augusto da França e, antecipando-
se aos dois monarcas,
juntou-se ao exército cristão que sitiava Acre. Muitos deles eram
descendentes de antigos cruzados ou parentes da nobreza do ultramar:

182

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

Henrique, conde de Champagne, neto de Alienor de Aquitânia e, portanto,


sobrinho dos reis da Inglaterra e da França; Teobaldo, conde de Blois, e
Ralph, conde de
Clermont; os condes de Bar, Brienne, Fonttgny e Dreux; Iatêvão de
Sancerre e Alan de Saint-Valéry. Também havia alemães, como Luís,
margrave da Turíngia; esquadras
poderosas de Gênova e Pisa; italianos de Ravena sob seu arcebispo
Gérard; outros arcebispos de Messina e Pisa, e Balduíno de Canterbury
com 3.000 galeses; bispos
de Besançon, Blois e Toul; o arcediago de Colchester, mais tarde morto
durante uma sortida contra o acampamento de Saladino; cavaleiros de
Flandres, da Hungria e
da Dinamarca; e um contingente de Londres que, como seu predecessor
durante a Segunda Cruzada, se deteve en route para ajudar o rei
português Sancho a conquistar
aos mouros a fortaleza de Silves.

Na Alemanha, em abril de 1189, o próprio imperador do Sacro


Império Romano tomou a Cruz. Tratava-se de Frederico I de Hohenstaufen,
conhecido como Barba-Roxa,
que fora eleito rei alemão em 1152 e coroado imperador pelo papa Adriano
IV em 1155. Seu pai fora duque da Suábia e sua mãe, filha do duque da
Baviera, e na juventude
ele acompanhara seu tio Comado na desastrosa Segunda Cruzada. Seu
reinado tinha sido marcado por uma luta interminável por primazia entre
o imperador, o papa, o
rei da Sicília, o imperador bizantino e - um novo fator na equação - as
poderosas cidades lombardas lideradas por Milão.

Agora com cerca de sessenta e seis anos, Frederico era uma


figura heróica dotada de grande charme. A difícil situação da Terra
Santa não apenas inspirou
uma decisão pessoal de mais uma vez pegar sua espada para combater os
infiéis, como também exigiu dele, como o líder leigo da cristandade, uma
reação vigorosa. Até
então, os alemães tinham desempenhado um papel secundário nas cruzadas e
poucos deles haviam se estabelecido no ultramar. Todavia, Conrado de
Montferrat era parente
de Barba-Roxa, e sua corajosa defesa de Tiro havia impressionado o
imperador. Frederico enviou então um emissário a Saladino reclamando a
volta da Palestina ao domínio
cristão. A resposta de Saladino não foi além de oferecer a libertação de
todos os prisioneiros cristãos e de devolver as abadias cristãs a seus
monges.

Para Barba-Roxa, isso não bastava. Em maio de 1189, ele partiu


de Ratisbona com a "maior tropa única que algum dia sairia em
cruzada".' 14 Frederico tomara
de antemão, junto aos soberanos sobre cujo território essa tropa
marcharia, as providências para a sua passagem. Ela passou sem
incidentes pela Hungria, porém teve
dificuldades ao penetrar no Império Bizantino.

As relações entre os cristãos gregos e seus correligionários


latinos tinham se deteriorado pelos acontecimentos dos quais
Constantinopla fora palco cinco
anos antes, quando O ódio do povo à imperatriz latina, Maria de

183
OS TEMPLÁRIOS

Antioquia, regente de seu filho, o jovem imperador Aleixo, havia levado


a um pogrom de seus moradores latinos pela população grega. Nada menos
de oite:ita mil latinos
viviam na cidade:"' homens, mulheres e crianças, velhos e jovens, sãos e
doentes, foram todos atacados e muitos massacrados, suas casas e
igrejas, queimadas. O ódio
dos gregos aos latinos era tão intenso que, quando Saladino capturou
Jerusalém, o imperador bizantino, Isaac Ângelo, enviou-lhe uma mensagem
de congratulação.

Todavia, o exército de Frederico Barba-Roxa era forte demais


para se opor a ele, e na primavera Barba-Roxa conduziu-o sem ser
molestado para o outro lado
do Bósforo e entrou no território controlado pelos turcos seldjúcidas. A
exemplo do que ocorrera com os exércitos do imperador Conrado e do rei
francês Luís VII
quarenta anos antes, a não-colaboração dos gregos, o rigor do clima e a
aridez do terreno através do qual eles avançavam resultaram em grandes
perdas por sede e
fome nas forças de Frederico. No dia 18 de maio de 1190, os cruzados
alemães depararam com o exército do genro de Saladino, Malik Shah.
Travou-se batalha, mas os
turcos foram decisivamente vencidos e varridos do caminho dos cruzados.
Continuando sem empecilhos, eles então desceram pelos montes Tauro à
planície de Selência.
Enquanto cruzava o rio Selef, o imperador Frederico caiu na água e,
puxado para o fundo pelo peso de sua armadura, morreu afogado.
Sem a sua personalidade dominadora, o exército que ele havia
reunido se desagregou. Seu filho, o duque Frederico da Suábia,
prosseguiu para Antioquia com
o corpo do pai, mas muitos outros rumaram para os portos da Cilícia e da
Síria e voltaram para casa. O cadáver em decomposição de Barba-Roxa foi
enterrado na Catedral
de São Pedro, em Antioquia, mas alguns de seus ossos acompanharam os
cruzados alemães num sarcófago, na expectativa de que talvez se
alcançasse a Igreja do Santo
Sepulcro em Jerusalém, sendo afinal enterrados na catedral de Tiro.
Na Palestina, ao que restara do exército de Barba-Roxa vieram
juntar-se contingentes que tinham chegado por mar sob o comando de Luís
da Turíngia e de Leopoldo
da Áustria. Para cuidar de seus doentes e feridos, um grupo de cruzados
de Lübeck e Bremen fundou o hospital sob o patronato de Santa Maria dos
Alemães, em Jerusalém,
o qual, a exemplo do Hospital de São João, formou uma ordem de
cavaleiros que adotou a regra dos templários, bem como o mesmo hábito
branco destes, marcando-o porém
com uma cruz preta em vez de vermelha. Essa fundação foi aprovada em
1196 pelo papa Celestino 111 como a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos.

Quando os cruzados ocidentais convergiram para a Terra Santa em 1190,


Guido de Lusignan foi destituído como rei titular de Jerusalém por
Comado

184

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

de Montferrat. Apesar de seu audacioso cerco de Acre, que se tornara o


ponto focal da nova cruzada, os barões mais importantes do ultramar
nunca o tinham perdoado
por ser o consorte da rainha Sibila, por encabeçar o grupo de parvenus e
por conduzi-los à derrota em Hattin. Seus dois paladinos principais,
Reinaldo de Châtillon
e Gérard de Ridefort, estavam ambos mortos; e em 1190 sua posição
enfraqueceu-se ainda mais pela morte, por doença, de sua esposa e de
suas duas jovens filhas.

Uma vez que o direito de Guido à coroa provinha de Sibila, ele


então passou para sua sobrinha Isabel, filha do rei Amauri I. Como
vimos, Isabel casou-se
com o atraente Humphrey de Toron durante o cerco da fortaleza de Kerak
por Saladino, mas Humphrey também havia se tornado malquisto pelos
barões ao submeter-se a
Sibila e Guido. Para eles, a solução seria anular o casamento dela com
Humphrey, pretextando que ela se casara antes de atingir a idade-limite
para o consentimento,
e promover o casamento dela com Comado de Montferrat. A princesa estava
completamente feliz com o seu fraco marido, porém a mãe dela, a rainha-
mãe Maria Comneno,
sobrinha-neta de um imperador bizantino, percebeu os imperativos
políticos por trás da exigência dos barões e persuadiu a filha a levar a
cabo o plano deles. O casamento
foi anulado pelo legado pontifício em Acre, o arcebispo de Pisa, e
Isabel foi casada com Conrado pelo bispo de Beauvais.

A esse destronamento do rei Guido opuseram-se energicamente não


só a família Lusignan, mas também o suserano das Lusignans em Poitou, o
conde Ricardo, agora
rei da Inglaterra. Balduíno, o arcebispo de Canterbury, que estava no
acampamento diante de Acre, denunciou o acordo, mas morreu em 19 de
novembro de 1190, alguns
dias antes do casamento. Quando Ricardo afinal chegou a Acre, no dia 20
de abril de 1191, o fato estava consumado.

O rei Filipe Augusto da França tinha chegado sete semanas antes. As


rotas seguidas pelos dois reis tinham começado em Vézelay em julho de
1190: Filipe e seu exército
haviam então zarpado de Gênova, enquanto Ricardo se encontrara com sua
esquadra em Marselha. Ambos demoraram-se na Itália e então navegaram
para Messina, a fim de
hospedar-se na corte do rei Tancredo da Sicília - uma contenda entre
Ricardo e Tancredo fez com que os dois reis-hóspedes tomassem a cidade
de Messina, após o que
eles se desavieram na divisão da presa. Filipe também ficou enfurecido
porque Ricardo agora recusava-se a desposar Alice, a irmã de Filipe com
quem ele tratara casamento
muitos anos antes, alegando que ela fora seduzida pelo pai dele, o rei
Henrique II, de quem tivera um filho.

185
OS TEMPLÁRIOS

Na primavera, Filipe Augusto partiu de Messina e, após uma


viagem ma, chegou a Tiro. A viagem de Ricardo foi menos tranqüila: sua
esquad foi forçada a entrar
no porto de Creta, e então o vento a impeliu para o nort em direção a
Rodes. Enquanto um de seus navios naufragou na costa de Chi pre, outro,
no qual viajava sua
prometida, Berengária de Navarra, que fo trazida à Sicília pela mãe de
Ricardo, Alienor de Aquitânia, e era agora aco panhada pela irmã dele,
Joana, a rainha-mãe
da Sicília, foi forçado a entrar porto de Limassol.

O governante de Chipre, Isaac Ducás Comneno, um príncipe bizanti


renegado que nomeara a si mesmo, tinha feito aliança com Saladino e,
por' tanto, aprisionou
os cruzados náufragos. Agindo com prudência, Joana e rengária recusaram
sua proposta para desembarcarem. Quando Ricardo alcançou uma semana mais
tarde, exigiu a
libertação dos prisioneiros e, diarli. te da recusa de Isaac, preparou-
se para a guerra. Com o reforço de uma es. quadra de Acre que
transportava Guido de Lusignan,
o príncipe Leão d~' Armênia Cilícia, Boemundo de Antioquia, Humphrey de
Toron e os templád>, rios do ultramar mais antigos (os templários, a
despeito da morte de
Gérartlk de Ridefort, ainda apoiavam o rei Guido), Ricardo empreendeu
uma con:' quisto-relâmpago da ilha. Malquisto por seus súditos gregos,
Isaac Duc não conseguiu
ensaiar senão uma fraca resistência e logo se rendeu ao rei in<' glês,
com a condição de que não fosse posto a ferros; Ricardo concordou e,. em
vez disso, prendeu-o
com grilhões de prata.

Enormemente enriquecido por essa conquista, Ricardo deixou ume.


guarnição latina nas fortalezas da ilha e dois magistrados ingleses
incumbi-,
,
dos de sua administração e zarpou para a Palestina. Ele desembarcou
perto de Tiro, mas por ordem do rei Filipe Augusto e de Conrado de
Montferrat; não lhe permitiram
entrar na cidade. Por isso, navegou para o sul, rumo a~ Acre, aonde
chegou em 8 de junho, elevando o moral dos cruzados. Filipe ,, Augusto,
apesar de inteligente
e fascinado por engenhos de cerco, tambérn;t era sarcástico e
hipocondríaco, qualidades impróprias para estimular combatentes. Além
disso, era mais pobre do que
Ricardo, o qual, mesmo antes da? pilhagem de Chipre, havia esvaziado as
tesourarias da Inglaterra e de seus, domínios franceses para financiar
sua cruzada. Com esses
amplos recursos e 5 sua reputação como guerreiro, concordou-se que
Ricardo deveria assumir o ' comando da cruzada. Os templários acolheram
como irmão o amigo e vassalo
dele, Roberto de Sablé, e o elegeram seu grão-mestre.
Uma das primeiras ações do novo grão-mestre foi adquirir Chipre
de Ricardo por 100.000 besants. Ricardo recebera a notícia de que seus
magistrados na ilha
tinham sido incapazes de controlar a população grega; ele queria livrar-
se do problema e deve ter sido informado de que os templários, em

186

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

virtude de todas as depredações recentes, tinham om considerável tesouro


à sua disposição. Feito o acordo, Roberto de Sablé enviou vinte
cavaleiros com o apoio de
escudeiros e sargentos para assumirem o controle da ilha.

A principal força de templários permaneceu cdm o exército


cruzado que sitiava Acre. No dia 12 de julho de 1191, a guarniçíio
muçulmana rendeu-se: Saladino
fora incapaz de levantar o cerco. O preço a ser pago pela vida de seus
habitantes eram 200.000 besants, a libertação cie 1.500 prisioneiros
cristãos e a devolução
da relíquia da Verdadeira Cruz Comado de Montferrat conduziu os
vitoriosos cruzados para dentro da cidade. O rei Ricardo dirigiu-se para
o palácio real, e o rei
Filipe, para a fortaleza que antes estivera em poder dos templários. O
duque da Áustria colocou seu estandarte nas muralhas, próximo aos dos
reis da Inglaterra e
da França, reivindicando assim o direito de partilha do espólio; os
ingleses, por ordem! de Ricardo, rasgaram-no e lançaram-no por sobre as
muralhas dentro do fosso.
Chegou-se a uma solução conciliatória entre o rei Guido e Comado de
Montferrat: aquele reinaria até a morte, e este seria seu sucessor;
nesse meio tempo, as receitas
reais seriam partilhadas.
Com Acre agora nas mãos dos cristãos, vários cruzados decidiram
que suas promessas tinham sido cumpridas e voltararfl Para casa.
Leopoldo da Áustria foi
embora apenas dias depois de sua humilhação pelo rei Ricardo. O rei
Filipe Augusto retirou-se para Tiro com Comado de Montferrat, e então
tomou um navio para Brindisi;
ele tinha sido acometido por constantes enfermidades e não gostava do
rei inglês. Embora deitasse a maior parte de seu exército sob o comando
do duque da Borgonha,
os barões do ultramar que apoiaram Comado estavam tristes em vê-lo
partir.
Ricardo Coração de Leão ficou como o incontc-ste comandante do
exército cruzado. Ele tornou-se impaciente quando houve um obstáculo à
troca de prisioneiros
e ao pagamento da indenização. De acordo com uma fonte, Saladino pediu
aos templários que garantissem os (ermos de um acordo provisório com
Ricardo porque, por mais
que os odiasse, sabia que manteriam sua palavra.' lb Os templários
confiavam menos em Ricardo e recusaram-se a dar a Saladino a garantia
que ele solicitara. Ricardo
ficou exasperado com a procrastinação de Saladino e supervisionou
pessdalmente a execução dos prisioneiros muçulmanos: 2.700, entre eles
mulheres e crianças, foram
chacinados por seus soldados ingleses.
Para os muçulmanos, isso foi uma clara violação do acordo de
Ricardo com Saladino; para os cronistas francos, tratou-se de uma ação
necessária e até digna
de louvor dentro das convenções de gueria aceitas. Saladino, afinal de
contas, havia massacrado os cavaleiros das ordens militares após sua
vitória em Hattin. Ricardo
teria com certeza se assegurado da aquiescência dos

187
OS TEMPLÁRIOS

demais príncipes cristãos antes de empreender essa drástica ação:


preservar os prisioneiros teria retido grande parte da força latina-algo
que sem dúvi-

da entrou nos cálculos de Saladino da cruzada.

-, evitando assim o avanço mais rápido

Tendo dado cabo dos prisioneiros e reforçado as fortificações, o


exército cruzado deixou Acre e marchou para o sul pela estrada
litorânea, em direção a Haifa e Cesaréia.
Constantemente fustigada pelas forças de Saladino, a cavalaria cavalgou
em formação cerrada, com os templários na vanguarda e os hospitalários
na retaguarda. No
lado oposto ao mar, eram protegidos pela infantaria cristã, em
particular pelos arqueiros ingleses de Ricardo, e por seu turno
protegiam a tropa de animais de carga
com a bagagem, a qual era suprida pela esquadra cristã que acompanhava a
marcha do exército. Quando este saiu da floresta de Arsuf, ao sul de
Cesaréia, Saladino
organizou um ataque total, que foi rechaçado. Apesar de pequenas perdas
de ambos os lados, o resultado foi a derrota de Saladino, a primeira num
combate direto desde
Hattin.
Todavia, o exército de Saladino - embora enfraquecido e
prejudicado por defecções - não foi destruído. Ricardo avançou com suas
forças para Jafa, onde reconstruiu
as fortificações. Estava claro que nenhum dos dois exércitos era forte o
bastante para destruir o outro, e assim o conflito só poderia ser
resolvido por meio de
negociações. Foram realizadas freqüentes parlamentações com o irmão de
Saladino, al-Adil. A despeito do massacre da guarnição de Acre, Saladino
conservava um profundo
respeito pelo rei inglês. A cortesia inicial resultou em
confraternização: Ricardo propôs a al-Adil que desposasse sua irmã Joana
e que juntos eles governassem a
Palestina, com a Cidade Santa partilhada por suas duas religiões,
sugestão que ultrajou Joana e não foi levada a sério por Saladino.
Depois de passar o Natal no mosteiro de Latrun, nas colinas da
Judéia, Ricardo conduziu seu exército a menos de vinte quilômetros de
Jerusalém. Os cruzados
que tinham vindo da Europa queriam sitiar a Cidade Santa, mas os barões
do ultramar e os grão-mestres das ordens militares recomendaram
prudência: mesmo que Jerusalém
fosse tomada, como poderia ser mantida depois que Ricardo e os cruzados
partissem? Sem defesas avançadas entre a Palestina e o Sinai, ela
continuaria permanentemente
vulnerável a ataques do Egito.
Portanto, Ricardo voltou para o litoral e passou os quatro
primeiros meses de 1192 fortificando Ascalão antes de dirigir-se para
Gaza. Para o monarca inglês,
o tempo estava se esgotando: ele recebera da Inglaterra notícias
inquietantes sobre as atividades de Filipe Augusto e de seu irmão João.
Ne-

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

gociações amistosas com Saladino deram-lhe a impressão de que era


possível chegar a um acordo. Ele também estava determinado a deixar o
reino de Jerusalém com uma
clara cadeia de comando. Conquanto seu candidato à coroa preferido fosse
Guido de Lusignan, ele aceitou a decisão unânime dos barões locais de
que deveria ser Comado
de Montferrat, mas exatamente quando os preparativos para sua coroação
estavam sendo feitos, Comado foi assassinado nas ruas de Acre.

Os matadores eram assassinos, enviados por Sinan, o Velho da


Montanha. Não se sabe quais eram seus objetivos. Comado tinha provocado
a hostilidade dos assassinos
ao atacar um navio de carga que lhes pertencia e se recusara a indenizá-
los; contudo, as suspeitas também recaíram sobre o rei Ricardo. O bispo
de Beauvais, amigo
íntimo de Comado, a quem ele visitara pouco antes~` de sua morte, estava
convencido de que os matadores tinham sido contratados pelo rei inglês.
Outros argumentaram
que não era seu estilo liquidar um inimigo de maneira tão desleal; mas
ele certamente lucrou com o resultado: dentro de dois dias do
assassinato de Conrado, sua
viúva, a rainha Isabel, de vinte e um anos, foi prometida ao sobrinho de
Ricardo, o conde H-enrique de Champagne.

Para a solução definitiva dos assuntos do ultramar, só faltava


resolver a situação de Guido de Lusignan. Com a concordância de Roberto
de Sablé, decidiu-se
que, para compensar a perda do reino de Jerusalém, ele deveria ter
Chipre. Os templários não tinham tido mais êxito do que os magistrados
de Ricardo no controle
da ilha. Tinha-se constatado que os cavaleiros eram gananciosos e
impopulares, e em 4 de abril de 1192 a guarnição latina em Nicósia fora
sitiada pelos gregos. Uma
sortida havia dado conta dos insurretos, mas o incidente tinha deixado
claro que uma pequena guarnição não poderia controlar a população: "o
que era necessário,
caso se quisesse manter Chipre permanentemente, era um grande número de
homens com fortes interesses pessoais em preservar o novo regime"."' A
ilha foi portanto
devolvida ao rei Ricardo, que prontamente a revendeu a Guido de Lusignan
por 60.000 besants, o saldo devido pelos templários.
Ansioso para regressar à Europa, Ricardo pressionou ainda mais
Saladino para chegara um acordo. Seu exército tomou o castelo de Daron,
ao sul de Asca1ão;
mas em seguida, enquanto Ricardo estava em Acre, o próprio Saladino
atacou Jafa e após três dias conquistou a cidade. A guarnição retirou-se
para a cidadela e estava
a ponto de render-se, quando cinqüenta galeras pisanas e genovesas
chegaram à cidade com o rei Ricardo a bordo. Ricardo pulou na água,
seguido por apenas oitenta
cavaleiros, quatrocentos arqueiros e cerca de dois mil marinheiros
italianos, avançou lutando pelas ruas da cidade e pôs em fuga as forças
de Saladino. Antes que
essa pequena força pudesse
OS TEMPLÁRIOS

ser socorrida pelo exército principal de Ricardo, que marchava ao longo


da costa, Saladino contra-atacou. Com brilhante improvisação, Ricardo
orientou seus homens
para que resistissem a uma onda após a outra do assalto muçulmano.
"Saladino estava absorto em indignada admiração diante da
cena."z'8Quando o cavalo de Ricardo
foi morto sob a montada dele, esse modelo de cavalheirismo islâmico
enviou dois vigorosos corcéis de presente para o rei inglês:

Por sua própria bravura e táticas inspiradas, Ricardo levou a


palma, mas agora estava claro para ambos os líderes que eles estavam
empatados: nenhum conseguia
destruir o outro, e ambos tinham urgentes motivos para acabar com o
conflito. Era imperativo que Ricardo voltasse para casa, a fim de
assegurar seus domínios na
Europa, ao passo que Saladino enfrentava a perene dificuldade de manter
um grande exército em campanha. Embora ele tivesse firmado certa
supremacia moral em seu
papel de paladino do Islã, suas tropas eram com freqüência motivadas
pela expectativa de pilhagem neste mundo, em vez de recompensa no outro.
Apenas isso compensava
os perigos e as privações da campanha; e quando isso não estava prestes
a acontecer, eles julgavam difícil resistir à atração do lar.

O obstáculo a um acordo nas negociações anteriores fora sempre


Ascalão, mas agora Ricardo recuava. Ele concordou que Ascalão fosse
demolida; em troca, Saladino
garantiu o domínio cristão das cidades costeiras de Antioquia a Jafa.
Muçulmanos e cristãos deveriam ser livres para cruzar o território uns
dos outros. Peregrinos
cristãos deveriam ter liberdade para visitar Jerusalém e os outros
lugares sagrados para a religião cristã. Balião de Ibelin, Henrique de
Champagne e os mestres
do Templo e do Hospital, em nome de Ricardo, juraram manter a paz pelos
cinco anos seguintes.

Muitos dos seguidores de Ricardo foram então à Terra Santa como


peregrinos desarmados. Ricardo não. Ele regressou a Acre, resolveu seus
negócios e assistiu
à partida de sua esposa e de sua irmã para a França a bordo de um navio.
Ele próprio partiu no dia 9 de outubro, depois de uma permanência de
dezesseis meses na
Terra Santa. O vento desviou seu barco da rota, e este foi forçado a
entrar no porto da ilha bizantina de Corfu. Receando que o imperador
bizantino o tomasse como
refém, Ricardo viajou com alguns piratas rumo a Veneza - ele estava
disfarçado de templário ,e viajava com uma escolta que incluía quatro
cavaleiros do Templo.
Sua escolha da rota lhe foi imposta por importantes
acontecimentos políticos em sua ausência, em particular uma guerra entre
seu sogro, o rei Sancho de Navarra,
e Raimundo, conde de Toulouse. Isso tornava impossível desembarcarem
qualquer dos portos do Sul da França. Com a aproximação do inverno, a
longa viagem através do
estreito de Gibraltar e em redor da pe-

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO

nínsula Ibérica era arriscada demais; viajar através da Itália e subir o


vale do Reno deixá-lo-ia vulnerável à captura por seu inimigo, o
imperador Henrique VI de
Hohenstaufen.
Dirigindo-se para Veneza, o barco pirata encalhou perto de
Aquiléia, no extremo norte do mar Adriático. Daí, Ricardo e seus
companheiros tomaram o rumo do
norte através dos Alpes, disfarçados de peregrinos, mas numa estalagem
em Viena Ricardo foi reconhecido, supostamente por causa do anel de
valor exorbitante que
ainda trazia no dedo, e foi entregue a seu arquünimigo desde o cerco de
Acre, Leopoldo, duque da Áustria. O homem que comprara e vendera a ilha
de Chipre tornava-se
agora ele próprio uma mercadoria. Primeiro Leopoldo o aprisionou em seu
castelo de Dürrenstein, depois o transferiu para seu suserano, o
imperador Henrique VI, cujos
termos pára a libertação de Ricardo foram que este deveria jurar-lhe
obediência como vassalo e pagar um resgate de 150.000 marcos.
Enquanto Ricardo estava no cativeiro, seu adversário que o
admirava, Saladino, morreu. Seu amigo e ex-vassalo, o grão-mestre do
Templo, Roberto de Sablé,
também morreu. O rei Filipe Augusto e João, irmão de Ricardo, tentaram
persuadir o imperador a reter Ricardo, mas este - cortês, jovial, quase
imperturbável na sua
posição humilhante - obteve.apoio entre os príncipes da corte do
imperador alemão. Em fevereiro.de 1194, foi libertado: ele havia feito
os votos exigidos e, como
a prosperidade da Inglaterra nessa época fosse enorme, a maior parte do
seu resgate fora paga. Ao ouvir a notícia, o rei Filipe Augusto escreveu
a João: "Cuidado,
o diabo está em liberdade".

Depois de permanecer apenas um mês na Inglaterra, Ricardo


regressou à Normandia e passou os cinco anos seguintes em guerra
intermitente com vassalos rebeldes
e com o rei Filipe Augusto da França. Em 1199, durante o cerco do
castelo de Châlus, pertencente a um de seus vassalos, o visconde de
Limoges, ele foi atingido no
ombro pela flecha de uma besta e letalmente ferido. Sua mãe, Alienor,
foi chamada para ficar a seu lado, e, após confessar seus pecados e
receber os últimos sacramentos
da Igreja, Ricardo morreu no dia 6 de abril, aos quarenta e dois anos de
idade.

Nos séculos que se seguiram, Ricardo Coração de Leão foi lembrado como
um modelo de cavalheirismo, tornando-se o tema de várias lendas exóticas
e improváveis. Cada
uma delas reflete os preconceitos de seu tempo. "Se o heroísmo estiver
restrito a bravura brutal e feroz", escreveu Gibbon, "Ricardo
Plantageneta continuará a ter
posição de destaque entre os heróis de sua época." O mito mais recente,
de que Ricardo era homossexual, foi aceito por muitos historiadores,
muito embora não passa
ser investigado além de 1948,
OS TEMPLÁRIOS

mis agora se crê que seja falso. Cronistas de seu tempo antes o
criticaram devido ao seu insaciável apetite por mulheres, de modo "que
mesmo em seu leto de morte
ele mandou que lhas trouxessem, em desobediência às recomndações de seu
médico"."'

Uma crítica mais persistente de Ricardo foi a de que suas


aventuras no esrangeiro tiveram um efeito adverso no governo da
Inglaterra. "Não restan dúvidas
de que ele pensava que fosse uma coisa boa e sublime lutar por
Jeusalém", escreveu H. E. Marshall em Our Island History (A História da
Nssa Ilha), seu compêndio
para estudantes ingleses, "mas quão melhor teia sido se ele tivesse
tentado governar seu próprio país de forma pacífica e trzer felicidade
para seu povo.""' Mais
uma vez, avaliações mais recentes aGolvem Ricardo: suas
responsabilidades iam muito além da Inglaterra, o muros problemático dos
seus domínios. Não obstante seu
entusiasmo pelo ccnbate, o qual partilhava com outros cavaleiros de sua
época, ele "não era un rei cruamente belicoso, um rei inclinado à guerra
pela guerra e à
9gressã, mas um governante preocupado em empregar com inteligênciâ seus
taentos militares nos vastíssimos interesses da casa de Anjou, da qual
era o caleça".221
Embora, em retrospecto, sua luta para preservar suas possessões destro
do reino da França das usurpações dos capetíngios talvez pareça ter si(o
causa perdida, não
parecia na época.

A crítica mais notável feita a Ricardo por seus contemporâneos


fdi a de qL°. ele imprudentemente pôs em perigo sua própria pessoa ao
atirar-se à lua. Mesmo
seus inimigos, os sarracenos, julgavam insensato que um comndante tão
inspirado arriscasse sua vida em combate; pois, ao lado cia sua ouadia e
impetuosidade, havia
um gênio para o planejamento e a logística. Fc essa ousadia que fez com
que sua vida tivesse um fim prematuro. Mas isD não diminui suas façanhas
como um todo. A
conclusão do historiador coitemporâneo John Gillingham, de que "como
político, administrâdor e seihor da guerra - em suma, como rei -,ele foi
um dos mais importantes
gaemantes da história européia", ecoa o veredicto do cronista muçulmano
Ibi Athir de que "a bravura, a perspicácia, a energia e a paciência de
Ricardo furam dele
o mais extraordinário governante de seu tempo 11.222

Os Inimigos no Lado de Dentro

Uma das histórias que mais tarde se contaram a respeito de Ricardo


Coração de Leão foi;a de que, enquanto agonizava, ele jocosamente
abandonou seus principais vícios,
deixando sua avareza para os cistercienses, seu amor pelo luxo para os
frades mendicantes e seu orgulho para os cavaleiros do Tear p1o.223 O
pecado do orgulho foi
também imputado aos templários pelo contemporâneo de Ricardo, o papa
Inocêncio III, um dos homens mais notáveis que usaram a tiara pontifícia
nos dois mil anos de
história da Igreja Católica.

Eleito em 1198, com apenas trinta e sete anos de idade,


Inocêncio era filho do conde de Segni e, portanto, membro da família
patrícia romana Scotti, que
forneceu vários papas nos séculos XI e XII: o tio de Inocêncio, o papa
Clemente III, fizera-o cardeal em 1190, e tanto um sobrinho quanto um
sobrinho-neto seus se
tornariam papas. Contudo, se o nepotismo tinha sido um elemento que
fizera parte de sua ascensão, isso não significava que Inocêncio não
fosse o melhor homem para
o cargo. Ele era excepcionalmente inteligente, muito íntegro,
espirituoso, magnânimo, "agudamente alerta ao absurdo nos acontecimentos
e nas pessoas à sua volta",22`'
todavia absolutamente convencido de que, como sumo pontífice e "Vigário
de Cristo" - expressão que foi o primeiro a usar -,tinha autoridade
sobre o mundo inteiro,
"abaixo de Deus mas acima dos homens: alguém que a todos julga, mas que
não é julgado por ninguém".

Por formação, Inocêncio era canonista, o primeiro de vários


papas-advogados, mas sua maneira de tratar os assuntos nunca foi tacanha
ou pedante. Com extraordinária
energia, ele promoveu a reforma pastoral da Igreja Católica e a
elucidação de sua doutrina, que foi codificada nos decretos do Quarto
Concílio de Latrão, realizado
em 1215. Ele insistia na ortodoxia: era uma época na qual, sob a
uniformidade superficial da fé católica, havia muitas correntes ocultas
de entusiasmo religioso
e variantes do credo. A opulência e o mundanismo de muitos membros do
clero produziram desafios para a Igreja. Inocêncio era suficientemente
compreensivo para reconhecer
o valor
OS TEMPLÁRIOS

de um inovador idealista como Francisco de Assis, mas condenou e


empenhou-se em erradicar a doutrina herética dos cátaros no Languedoc.
Como todos os papas desde Urbano II, Inocêncio III era um
entusiástico partidário da guerra contra o Islã. Em 1198, logo após sua
ascensão, ele insist.u
numa nova cruzada, e em 1199 escreveu aos bispos e aos barões do
ultranar queixando-se de que os acordos com os sarracenos solapavam suas
ten:ativas de persuadir
os cristãos da Europa a tomar a Cruz. A hm de financiara cruzada, criou
um imposto de dois e meio por cento sobre a renda da Igreja. Concedeu
indulgência total,
o perdão de todos os pecados confessados não apenas para aqueles que
foram para a Palestina, como também para aqueles que enviaram
substitutos em seu lugar. A promoção
de uma guerra santa na Terra Santa acabou então aceita "como um ideal na
vida cotidiana dos europeus ocidentais";"' mas "a presença da cruzada na
Europa num estádio
tardio da Idade Média talvez fosse mais do que os exércitos de
coletores, banqueiros e burocratas que se ocupavam em juntar e
distribuir dinheiro, sem o que nada
poderia ser feito".zzb
A exemplo de Ricardo Coração de Leão, Inocêncio III tinha uma
atitude 2mbivalente para com a Ordem do Templo e estava ciente de seus
defeitos. Os papas,
como soberanos totais das ordens militares, eram constantemente
assaltados por queixas contra os cavaleiros, quer por líderes seculares,
como o rei Amauri de Jerusalém
no caso da morte dos emissários assassinos pelos templários, quer, com
mais freqüência, pelo clero, que sentia que seus direitos tinham sido
transgredidos. Uma vez
que a maioria dos cronistas da época eram clérigos, como Guilherme de
Tiro, eles provavelmente dão uma impressão exagerada do opróbrio que o
público em geral sen:ia
pelo Templo.

Algumas das acusações são absolutante triviais - por exemplo, a


de que o scar dos sinos no complexo dos hospitalários em Jerusalém
incomodava o patriarca
e deixava confusos os cônegos da Igreja do Santo Sepulcro. Outras
originam-se diretamente dos privilégios que os papas tinham concedido às
ordens militares, em particular
a isenção do pagamento de dízimos. No Terceiro Concílio de Latrão, em
1179, foram aprovados vários decretos restringindo os privilégios das
ordens militares, decretos
esses que foram mais tarde anulados pelo papa. Em 1196 o papa Celestino
III repreendeu os templários por violarem um acordo que tinham feito com
os cônegos do Santo
Sepulcro sobre a divisão de dízimos; e em 1207 o papa Inocêncio III os
censurou por desobedecerem a seus legados, tirando proveito do
privilégio de celebrar a missa
em igrejas postas sob interdito e admitindo qualquer um "que esteja
disposto a pagar dois ou três pence para ingressar numa confraria dos
templários (...) mesmo
que ele tenha sido excomungado", o que impli-

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

cava que adúlteros e usurários poderiam assegurar-se de um enterro


cristão. Segundo suas palavras, eles estavam "exalando sua cobiça por
dinheiro".22'
Poucos questionavam a própria existência das ordens militares. O
abade cisterciense de I'Etoile, perto de Poitiers, um inglês chamado
Isaac, em meados do
século XII pregou contra a "nova monstruosidade" da novamilitia,
expressão que ecoava o pequeno tratado de Bernardo de Clairvaux a favor
dos templários, De laude
novae militiae: ele denunciou aqueles que usaram a força para converter
muçulmanos e considerou como mártires aqueles que morreram enquanto
pilhavam não-cristãos.
Mais tarde, ainda no século XII, dois outros ingleses, os cronistas
Walter Map e Ralph Niger, também questionaram o uso da força para
difundir a religião cristã.
Walter Map, um inimigo dos cistercienses, criticou os templários por sua
avareza e. extravagância, contrastando esses vícios com a pobreza e a
caridade de seu fundador,
Hugo de Payns.

O ressentimento contra os templários foi exacerbado por sua


cultura do segredo. Na Terra Santa havia boas razões militares para que
suas deliberações não
fossem reveladas, mas na Europa o motivo era antes o de que eles não
queriam que seus defeitos se tornassem conhecidos. Era no capítulo que
as transgressões dos
irmãos eram confessadas e as penitências impostas; como a maioria das
instituições, os templários preferiam ocultar suas imperfeições, e por
volta de meados do século
XIII "todas as três ordens [militares] continham regulamentos que
proibiam os irmãos de tornar públicas as atas do capítulo da ordem ou de
consentir que estranhos
vissem cópias da regra"."' Um grande segredo também cercava a cerimônia
de admissão na Ordem.

Uma causa de inveja era a manifesta riqueza da Ordem do Templo,


a qual, em virtude das más notícias que vinham da Terra Santa, fazia
muitos se perguntarem
se eles estavam prestando os serviços que deles se esperavam. Ao
contrário das ordens monásticas, eles davam apenas uma pequena
contribuição ao Estado social medieval:
um dos primeiros críticos da Ordem, João de Würzburgo, admitiu que eles
distribuíam esmolas aos pobres, mas não com a mesma generosidade dos
cavaleiros do Hospital.
Como no caso dos beneditinos e dos cistercienses, dotações prévias e uma
bemsucedida administração de propriedades tinham transformado o Templo e
o Hospital em duas
das mais ricas corporações nos reinos da Europa Ocidental. Entre os
descendentes espirituais de Bento de Núrsia e Bernardo de Clairvaux,
essa riqueza havia resultado
em consideráveis compromissos com os ideais originais deles, com o
carisma da pobreza apostólica passando para as ordens de frades como os
franciscanos, até que
eles, por sua vez, foram corrompidos pelo seu êxito.
OS TEMPLÁRIOS

Apesar dessa tendência entre os religiosos, os templários viviam


num estado de severa parcimônia. Fora das capitais ou dos territórios
onde estavam

em guerra, eles não gastavam grandes somas de dinheiro em castelos


enormes e igrejas magníficas: as comunidades existentes, como a de
Richerenches, pareciam bastante
modestas, sobretudo quando comparadas com o esplendor das instituições
monásticas. Os edifícios de suas comunidades e preceptorias eram
totalmente práticos: celeiros
para armazenar os cereais, estábulos para os cavalos, dormitórios para
abrigar uma meia dúzia de irmãos que formavam o seu quadro de pessoal, e
modestas fortificações
para manter os ladrões a distância. Suas igrejas também eram modestas e
construídas como símbolos de sua missão: a característica das igrejas
dos templários e dos
hospitalários que chamava a atenção era a rotunda, copiada da Igreja do
Santo Sepulcro em Jerusalém. Ambas as ordens "competiam para serem
associadas aos olhos do
público com a defesa do lugar da Ressurreição". 229

A percepção pública das ordens militares era a de que elas eram


ricas, "mas as próprias ordens esforçavam-se por mostrar aos novos
recrutas que a vida nelas
não era tão confortável quanto a sua imagem talvez tivesse levado a
acreditar". As acusações diretas de luxure "estavam reservadas para os
clumacenses e os bispos".z3°
Na Europa, a acusação contra os templários mais digna de nota era a de
que, embora todos reivindicassem as insenções que tinham sido concedidas
à Ordem, apenas uma
pequena parte realmente pegou em armas contra o infiel. A grande maioria
eram administradores dos mais de 9.000 domínios que com o passar dos
anos haviam sido doados
à Ordem por benfeitores pios, ou os trabalhadores que neles trabalhavam,
os "homens" dos templários. As isenções da justiça e das obrigações
feudais de que gozavam
mesmo esses membros subalternos da Ordem inevitavelmente causavam
ressentimentos nos senhores feudais. De modo geral, uma vez que eram as
cortes reais que conservavam
o status privilegiado deles, as relações com os funcionários reais eram
amistosas; mas havia situações, por exemplo no Bulmer Hundred, no
condado de York, em que
os templários abusavam de seus privilégios, admitindo delinqüentes e
ladrões na Ordem e impedindo que magistrados reais efetuassem prisões.

Como os cistercienses, os próprios templários administravam suas


propriedades. Na Inglaterra, eles possuíam propriedades até em Penzance,
no oeste, ou em
lugares tão remotos quanto a ilha de Lundy. Nos condados de Li ncoln e
de York, eles contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento
da agricultura e
aliciavam recrutas das famílias que tinham doado as terras. As críticas
à Ordem eram sempre contrabalançadas pelo elogio, em particular dos
barões que retornavam
das cruzadas. Um grande nobre do Norte da Inglaterra, Rogério de
Mowbray, conde da Nortúmbria, depois de

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

ser capturado por Saladino em Hattin, teve o seu resgate pago pelo
Templo e, ao regressar, expressou sua gratidão mediante várias doações.

A reputação de probidade dos templários significava que se


confiava neles tanto para manter o dinheiro de outrem quanto para
transferi-lo para diferentes
locais. Foi por intermédio do Templo em Londres que o rei Henrique II
criou um fundo para cruzadas em Jerusalém que se revelou tão útil por
ocasião da batalha de
Hattin. Os templários também emprestavam dinheiro a indivíduos e
instituições, incluindo os judeus, mas seus principais clientes eram
reis, e seus empréstimos com
freqüência evitavam o colapso das finanças reais. Fortuitamente, os
templários se tornaram, assim, os banBueiros da cristandade e mantinham
em suas galerias subterrâneas
não só a riqueza da Ordem, mas também o tesouro de reis. O Templo de
Paris transformou-se "num dos mais importantes centros financeiros do
noroeste da Europa"."'
Sua grande torre de menagem, ou donjon, que era provida de torrinhas e
mais tarde serviria de prisão para o rei Luís XVI e a rainha Maria
Antonieta na época da Revolução
de 1789, teria tido seu equivalente no Templo de Londres onde hoje só
existe a igreja. Estima-se que em Paris cerca de quatro mil homens
marcados com a cruz da Ordem
residiam no Templo, embora poucos deles usassem o hábito branco de um
cavaleiro habilitado.

No reino de Aragão, os reis estavam constantemente tomando


dinheiro emprestado do Templo, e na França a Ordem muitas vezes tinha
dificuldade em satisfazer
as necessidades reais."' As instituições eclesiásticas estavam mais
dispostas a emprestar dinheiro à Coroa, se o Templo desse garantia do
empréstimo. Em Aragâo,
os empréstimos eram feitos com a garantia de uma renda da terra ou de um
benefício, e "com freqüência se concordava que a Ordem poderia deduzir
parte da importância
coletada para cobrir suas despesas, conforme era permitido no direito
canônico". Sobre alguns empréstimos eles cobravam juros de dez por
cento, que eram "dois por
cento menos do que o máximo permitido a agiotas cristãos em Aragão e
metade da taxa dos judeus", e embora "em alguns casos os templários
claramente obtivessem um
lucro financeiro direto dos empréstimos, em algumas outras ocasiões
parece que não o obtiveram"."'
Entre os serviços financeiros fornecidos pelos templários
estavam a provisão de anuidades e pensões. Freqüentemente a doação de
terras ou de dinheiro estipulava
que ela deveria prover à subsistência de um homem e sua esposa até eles
morrerem: "havia poucas maneiras de prover à subsistência de alguém na
velhice ou de assegurar
o bem-estar dos dependentes de alguém, a não ser fazendo uma doação a
uma instituição eclesiástica"." Também se pagava por um pacote de
benefícios temporais e espirituais:
para a

197
Comunidades e cas=elos dos templários no Ocidente

em meados do século XII

mar da Narre

-lèmplo

c'ACV
.

¡.~7émplo ~ 'femplo Uinsley _


., Cw w w wCressing =

Londres - -

,' _...::l~Sniplcy.._ .

Sommercux

- - - w - wLaon

wHcauais

oceanoAdãneico _ - .._par~wrioS„, wl.dNeuville


(:ouloursw
Nantes Urléanswl

MamlPuticr
-_ w Lá Rneneue

á Rodcz

l w Roaix
La Selvc w Saiqt-GilleswAvignon

14,5 Ibenga

Pézcnasw wwArlcs ,;:


Do cus _ __ ' wSicna

Montsauncsw w Monzón Ls-Deu


as-Deu _

Novillas ~ era ~ w

Chal Crancra ¡F, -::., w Roma

Ambelw ~ w wPalau
~w ~ w Barbará

lìemohns

w Richerenches

o zso soo km

o ~~ISp ~3qp milhas

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

salvação da alma do doador e proteção pelo Templo numa sociedade onde a


violência era endêmica, havia muito o que dizer para que se tivesse uma
cruz dos templários
na propriedade, independentemente de se estar ou não sob a
proteção nominal de um senhor feudal.

Essa função dos templários como uma forma de força policial


naturalmente tinha sido contemplada por seu fundador, Hugo de Payns:
agora ela se estendia da
escolta de peregrinos na Palestina à proteção da transferência de
dinheiro. Em julho de 1120, o papa Honório III disse a seu legado,
Pelágio, que não poderia encontrar
ninguém em quem confiasse mais para transportar uma grande soma de
dinheiro.zss Os templários também trabalhavam como funcionários civis:
encontram-se com freqüência
irmãos do Templo e do Hospital servindo a papas e reis. Como monges,
eles tinham o hábito da obediência _ç, como celibatários, nenhuma
ambição dinástica. Seu statur
como cavaleiros dava-lhes autoridade e os qualificava para assumirem
funções militares: por exemplo, o papa Urbano IV nomeou três irmãos da
Ordem do Templo para
tomarem conta de castelos nos Estados Pontifícios, e em Acre o Templo e
o Hospital eram as únicas corporações nas quais Ricardo Coração de Leão
e Filipe Augusto
confiavam. Com a sua argúcia financeira, os templários eram com
freqüência transformados em esmoleres reais pelos reis europeus.
A despeito da estrutura unitária das ordens militares, do voto
de obediência dos cavaleiros a seu grão-mestre e de sua fidelidade ao
papa, parece que se
aceitou que irmãos da mesma Ordem trabalhassem para monarcas cujos
interesses divergiam uns dos outros, ou daqueles do papa. Em quase todo
reino europeu, os templários
eram uma fonte de servidores públicos dignos de confiança, e como tais
estavam em condições de exercer influência a favor de sua Ordem. O rei
João da Inglaterra,
que sucedeu a seu irmão Ricardo, foi excomungado pelo papa e todavia foi
aconselhado pelo mestre dos templários na Inglaterra, Aimery de Saint
Maur: ele era praticamente
o único homem em quem João confiava. Da mesma forma, o imperador
Frederico II, em seus constantes conflitos com o papado, foi aconselhado
e apoiado por Hermann de
Salza, o grão-mestre dos cavaleiros teutônicos.
A presença de templários nos conselhos de papas e reis coloca as
críticas de Inocêncio III em perspectiva. Apesar de seu orgulho e do
abuso ocasional de
seus privilégios, as ordens militares tinham se tornado indispensáveis
ao governo pontifício da cristandade e, portanto, recebiam total apoio
do papa. Assim, quando
o patriarca Fulcher de Jerusalém foi a Roma a fim de persuadir o papa a
revogar alguns dos privilégios do Hospital, ele não foi bemsucedido. O
cronista Guilherme
de Tiro considerou isso suborno, mas parece mais provável que a atitude
da Cúria refletisse o crescente desencanto na

199
OS TEMPLÁRIOS

Europa coam os latinos no ultramar e que ela visse nas ordens militares
o meio mais: eficaz de atingir os objetivos da Igreja. Da mesma forma,
os decretos aprovados
pelo Terceiro Concílio de Latrão que restringiam os privilégios das
ordens militares foram revogados por papas posteriores?'

Inocêncio III foi até mais enfático na sua defesa dos


privilégios e isenções dos templários, insistindo no direito da Ordem de
construir igrejas, de ter
seus próprios cemitérios, de coletar seus próprios dízimos, e advertiu
ao clero que não interferisse nos direitos dos templários, tomando
dízimos de suas propriedades
ou pondo suas igrejas sob interdito. Denunciou bispos que tinham
aprisionado templários e insistiu que estes punissem qualquer um que
roubasse comunidades dos templários.
Suspendeu o bispo de Sídon por excorryungar o grão-mestre do Templo numa
disputa sobre as rendas da diocese de Tiberíades, renovou todos os
privilégios concedidos
ao Templo pela bula do papa Inocêncio II de 1139, Omne datum optimum, e,
dando-nos um vislumbre da maneira pela qual o ressentimento popular
contra os templários
encontrou expressão, condenou qualquer um que atacasse um cavaleiro do
Templo e o puxasse de seu cavalo.

Considerando que os papas tinham autoridade suprema sobre as


ordens militares, certa restrição se revela no fato de que há apenas uma
situação na qual eles
as envolviam em suas próprias guerras: em 1267, o papa Clemente IV
solicitou a ajuda dos hospitalários contra os alemães na Sicília. 117
Sem dúvida, onde estavam
a serviço de papas ou reis, esperava-se que os cavaleiros pertencentes
às ordens militares pegassem em armas para defender os interesses de
seus senhores, e houve
casos em que os reis de Aragão convocaram os criados dos templários, e
até mesmo os próprios cavaleiros, para lutar contra os castelhanos e os
franceses. Contudo,
isso era a exceção, não a regra. "A Coroa era claramente cautelosa em
usar os próprios templários contra os ini-
migos cristãos" e os templários eram relutantes em serem usados dessa
forma: os reis tinham de ameaçar fazer uso de duras medidas para
assegurar que suas convocações
fossem obedecidas."
Dois outros territórios onde os templários entraram em conflito
armado com seus confrades cristãos foram Chipre e a Armênia Cilícia. A
insurreição contra
os templários em Nicósia em 1192 tinha sido esmagada pela força, e mesmo
depois de a ilha ter sido revendida a Guido de Lusignan, os templários
mantiveram a fortaleza
de Gastria, a norte de Famagusta, e possuíam propriedades fortificadas
em Yermasoyia e Khirokitia, e uma casa fortificada em Limassol. Na
Cilícia, a Ordem chegou
às vias de fato com Leão, príncipe da Armênia Inferior, por causa da
fortaleza de Gaston, nos montes Amanus, de onde se avistava Antioquia.

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

1ços dois conflitos mais significativos entre cristãos nesse período, os


templários foram apenas marginalmente envolvidos. O primeiro foi a
Quarta Cruzada, que partiu
em conseqüência do primeiro apelo de ajuda à Terra Santa feito pela papa
Inocêncio III após sua ascensão e, como a Primeira Cruzada, foi liderada
por um grupo de
governantes secundários com uma linhagem de cruzados, como o conde Luís
de Blois, o conde Balduíno de Flandres e o conde Teobaldo de Champagne.

Desde a morte do imperador Barba-Roxa na Anatólia, a rota por


terra para o Oriente era considerada intransitável, e portanto
emissários desses nobres foram
a Veneza preparar a viagem por mar. O doge de Veneza, Enrico Dandolo,
embora idoso, estava longe da senilidade: ele combinou que, pela quantia
de 85.000 marcos de
prata, a república providenciaria uma frota de cinqüenta galeras e
transporte para 4.500 cavaleiros, 9.000 escudeiros e 20.000 soldados de
infantaria, com alimentos
para um ano. A data da partida foi fixada para um período de doze meses.

O objetivo aparente dessa expedição era liberar Jerusalém,


porque agora, como na época da Primeira Cruzada, os cristãos do Ocidente
só estavam dispostos
a .arriscar suas vidas pela Cidade Santa; mas numa cláusula secreta do
acordo concordava-se que a cruzada atacasse o Egito. Desde a Terceira
Cruzada difundira-se
entre os líderes dos latinos, tanto na Europa quanto no ultramar, o
consenso de que Jerusalém jamais poderia estar segura enquanto fosse
ameaçada do Cairo. Todavia,
os venezianos, que tinham lucrativos vínculos comerciais com os
ayyúbidas (sultões descendentes de Ayyub, o pai de Saladino) do Egito,
quase com certeza não tinham
intenção de apoiar um ataque no Nilo.

O conde Teobaldo de Champagne morreu no início de 1201, e o alto co-

mando dessa nova expedição escolheu como líder o marquês Bonifácio de


Montferrat. Contudo, na data estabelecida para a partida, apenas 10.000
ho-

mens haviam se reunido em Veneza e havia um déficit de 35.000 marcos na


quantia que fora prometida aos venezianos. Estes recusaram-se a reduzir
seu preço, mas concordaram
em aceitarem troca a ajuda do exército cruzado para a tomada da cidade
de Zara, na costa da Dalmácia, en coute para o Oriente. Isso foi aceito
pelo rei cristão da
Hungria, e muitos dos cruzados foram contra, entre eles o abade
cisterciense de Les-Faux-de-Cernay e um barão francês, Simão de
Montfort. Eles foram derrotados:
Zara foi tomada. Inocêncio III ficou tão ultrajado com esse ataque a um
rei cristão que excomungou todo o exército; mas, confrontado com o
colapso da cruzada, rescindiu
a sentença.
Enquanto passava o inverno em Zara, tencionando continuar rumo
ao leste na primavera, o exército cruzado foi abordado por um príncipe
grego,

201
OS TEIMPLÁRIOS

Aleixo IV Angelo, que reivindicara Io trono bizantino. Ele propôs que,


se o exército ocidental rèstituísse seu pari, ao trono, poderia garantir
a reconciliação da
Igreja Ortodoxa com a Católica, grandes subvenções e dez mil solda.':
dos bizantinos para participarem dia cruzada. A idéia interessou ao
doge:.

a
Enrico Dandolo, mas contou com a oposição das mesmas pessoas que se ti,
nham oposto ao ataque a Zara: Simião de Montfort e o abade de Les-Fauxf°
de-Cernay. Mais uma
vez, eles foram derrotados e, em conseqüência, abandonaram a cruzada.

A restauração de um governantce legítimo era uma causa justa no cânon


do direito feudal, e os bispos que acompanhavam a cruzada foram persuadi
dos a apoiá-la; mas quando a esquadra chegou à altura de Calcedônia,
de=,'.
fronte de Constantinopla, em junhco de 1203, havia outras emoções menos
1
louváveis no espírito dos guerreiros; latinos. Os franceses lembraram-se
da;'
provação do rei Luís VII e dos cavaleiros na Segunda Cruzada enquanto
mar
chavam através da Anatólia em 11418, pelo que o rei culpara a perfídia
dos
gregos; e Enrico Dandolo tinha seus próprios motivos para ter aversão
aos
gregos: perdera a visão durante os pogroms contra os latinos em
Constantino.
pia em 1182.
A lembrança dessa atrocidade ainda estava vívida na mente dos
latinos, e podemos perceber seu efeito na hiistória de Guilherme,
arcebispo de Tiro.' A princípio,
sua única crítica aos bizantinos é que eles são fracos demais para
defenderem os Lugares Santos, mas, ele os considera úteis como aliados
contra os sarracenos. Depois
dos pogroms de 1182, suas ilusões são destruídas, e ele decide que
estava errado a respeito "dos enganosos e traiçoeiros gregos", cujos
"pseudomonges e sacerdotes
sacrílegos" são não só cismáticos, mas heréticosz'9 - o epíteto mais
condenador que um clérigo medieval poderia excogitar.

Agindo sobre esse ódio latente estava "a notória ganância do


soldado medieval por pilhagem 11,24' algo que, para aqueles que vivem
numa era de exércitos
bem pagos e até tratados com mimo, parece mais repreensível do que o foi
na época. Não se tratava apenas do fato de a paixão bárbara pelo saque
ser ainda forte na
psique dos francos, mas também do fato de que todas as campanhas
militares, até certo ponto, tinham de ser custeadas por si mesmas. O que
Inocêncio III não conseguiu
reconhecer foi que, a despeito de seu imposto sobre o clero, os custos
de uma cruzada estavam além dos recursos de todos, exceto dos reis mais
ricos. Ao dar o sinal
verde a nobres de menor importância, como os condes de Blois, de
Flandres e de Champagne, talvez ele tenha contado manter maior grau de
controle pontifício sobre
a expedição do que se tivesse esperado pelos reis da Inglaterra e da
França; mas,

202

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

como a conquista de Zara havia demonstrado, seu controle era tênue, e a


cruzada escava inadequadamente provida de recursos.

Também está claro que nessa, como em todas as outras cruzadas, a


motivação penitencial estava combinada com a esperança, no espírito de
muitos dos participantes,
de que eles tanto salvariam suas almas quanto fariam fortuna: era
inteiramente aceito entre todas as pessoas que participavam desses
incessantes conflitos que o
risco deveria ter sua recompensa. Apesar disso, todavia, não pode haver
dúvida de que o que agora se seguia era "um empreendimento escandaloso
11,141 mesmo que permaneça
obscuro de quem era a culpa. Em junho de 1203, logo após sua chegada, os
cruzados atacaram os arrabaldes de Constantinopla, capturaram o subúrbio
de Galeta e quebraram
a corrente que protegia a entrada do porto da cidade, o Como de Ouro.
N.o dia 17 de julho, eles organizaram um ataque à própria
Constantinopla, mas foram rechaçados
pela guarda varangiana do imperador. Não obstante, isso foi suficiente
para assustar o imperadorAleixo III a ponto de fugir e para pôr no trono
Isaac Ângelo, o candidato
dos cruzados.

Desprezado por seus, súditos gregos como um subordinado dos


latinos, o novo imperador foi incapaz de angariar o dinheiro que havia
prometido aos cruzados
e, em janeiro de 1204, foi deposto e assassinado junto com seu filho
pela populaça enfurecida. O imperador que o substituiu, Aleixo V Ducás,
era mais da preferência
dos gregos e combateu os cruzados. Em 12 de abril de 1204, eles atacaram
a cidade, e dentro de um dia ela foi tomada. A antiga e até então
inconquistada capital
do Império Romano do Oriente foi submetida à chacina de seus habitantes
e à pilhagem de seus tesouros. Os mais apreciados eram os repositórios
de relíquias, que,
como ímãs para atrair peregrinos às igrejas da Europa, tinham muito mais
valor do que seu peso em ouro. Um dos cronistas do saque da cidade,
Gunther de Paris, descreveu
como um abade latino, ao encontrar o depósito das relíquias na Igreja de
Cristo, o Onipotente, após ameaçar de morte um sacerdote grego se ele
não lhe dissesse onde
elas estavam escondidas, "encheu as pregas de sua batina cote a presa
sagrada da igreja, a qual, rindo de felicidade, ele em seguida carregou
para o navio".242
Não apenas os tesouros de Constantinopla, como também aqueles do
Império Bizantino, foram divididos entre os conquistadores latinos. Em
16 de maio, Balduíno
de Flandres foi coroado imperador na Catedral de Santa Sofia e recebeu
terras na Trácia, em partes da Ásia Menor e em algumas das ilhas
Cíclades. Bonifácio de Montferrat
fundou um reino em Tessalonica, ao passo que os venezianos se apossaram
de algumas possessões bizantinas na conca do Adriático, de cidades na
costa do Peloponeso,
da ilha de Eubéia, de algumas ilhas jônias e de Creta. Constantinopla
foi também subdividida em

203
OS TEMPLÁRIOS

distritos, com os venezianos tomando quase metade da cidade. Enrico


Dandolo não havia apenas se vingado: ele também havia estabelecido
controle veneziano sobre as
rotas de comércio do Adriático ao mar Negro.

Nenhum dos, que haviam partido sob o comando de Bonifácio de


Montferrat foi para a Terra Santa. Todos permaneceram a fim de fazerem
valer seus direitos a
feudos na carcaça do Império Bizantino. Daí em diante, recrutas
potenciais entre os cavaleiros da Europa Ocidental sem bens de raiz que
poderiam ter tentado a sorte
na Síria e na Palestina foram desviados pelas oportunidades mais fáceis
oferecidas por feudos na Grécia. Portanto, não foram apenas os gregos
bizantinos que sofreram
com a conquista de seu império, mas também os cristãos sitiados na Terra
Santa, a quem os cruzados tinham partido para ajudar. Até mesmo os
templários, conquanto
tivessem desempenhado um papel insignificante na Quarta Cruzada,
participaram da conquista da Grécia central entre 1205 e 1210.2;3 Junto
com os hospitalários e os
cavaleiros teutônicos, eles adquiriram terras no Peloponeso e, "embora o
serviço militar que deviam prestar fosse nominal",Z'4contribuíram "para
ã defesa do império
latino de Constantinopla".'-45

O segundo conflito mais importante entre cristãos que se seguiu logo


após a conquista de Bizâncio foi a Cruzada Albigense, que recebeu esse
nome por causa da cidade
de Albi, no sudoeste da França. Esta era um centro dos cátaros,uma seita
herética que se havia estabelecido nos ricos territórios que se
estendiam do rio Ródano
aos Pireneus, conhecidos em virtude de seu dialeto francês distintivo
como o langue d'oc. As origens do catarismo se encontram na antiga
religião zoroastriana da
Pérsia. Esta afirmava que existiam dois Deuses, uma deidade benévola,
cujo reino era puro espírito, e uma malévola, que havia criado o mundo
material. Todas as coisas
materiais eram portanto intrinsecamente más, e a salvação residia em
libertar-se da carne. O budismo, o estoicismo e o neoplatonismo
revelavam certa afinidade com
essa condenação da matéria, enquanto o cristianismo, apesar de seu
apreço pela abnegação, afirmava que Deus não só aprovou sua criação
material, mas, em Jesus, tornou-se
parte da criação material quando a Palavra se fez carne.

Conceitos dualistas afetaram a crença de cristãos desde os


primórdios da Igreja. Parte de seu apelo residia na solução que eles
postulavam para o etemo enigma:
por que, se o Diabo foi criação de Deus, este continuou a permitir que
ele existisse? A condenação da carne e de todas as paixões bestiais e
egoístas que ela engendrava
parecia harmonizar-se com a doutrina de Cristo. Para os dualistas, o
celibato não era uma questão de escolha. Todo intercurso carnal era mau,
e ter filhos era cooperar
com o Demiurgo ou Diabo

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

na perpetuação da matéria. Márcion, por exemplo, um herege cristão do


século II, proibia o casamento e fazia do celibato uma condição do
batismo.

No século III, um persa, Mani, ensinou que, para se evitar


contato com o mal do mundo material, não se deveria trabalhar, nem
lutar, nem se casar. Depois
que ele foi martirizado por suas crenças pela hierarquia zoroastriana em
276, as idéias de Mam difundiram-se da Pérsia ao Império Romano e
fizeram alguns prosélitos,
como o jovem Agostinho de Hipona. No século V, uma vigorosa comunidade
de maniqueístas, os paulicianos, foi fundada na Armênia. Eles se
tornaram poderosos o suficiente
para fazerem com que os imperadores bizantinos enviassem expedições
militares contra eles e, no século X, os deportassem em massa para a
Trácia, no norte da Grécia.
Daí, suas idéias difundiram-se para a Bulgária e foram adotadas pelos
seguidores de um padre eslavo chamado Bogomilo, que fundou uma igreja
dualista nos Balcãs.
Como os paulicianos, os bogomilos rejeitavam o Antigo Testamento, o
batismo, a eucaristia, a cruz, os sacramentos e toda a estrutura da
igreja visível. Eles também
pensavam que ter filhos era colaborar com o Diabo na perpetuação da
matéria, e alguns evitavam tê-los por meio do intercurso anal: a palavra
bugger (sodomita) origina-se
de búlgaros.

Apesar da perseguição pelos imperadores ortodoxos, a Igreja


Bogomila sobreviveu até a conquista dos Balcãs pelos turcos otomanos,
quando muito dos bogomilos
bósnios tornaram-se muçulmanos. Alguns bolsões de paulicianos foram
encontrados pelas forças da Primeira Cruzada nos arredores de Antioquia
e de Trípoli, e é possível
que cruzados que retornavam à Europa Ocidental trouxessem consigo idéias
dualistas. Elas foram encontradas na terra natal dos cruzados, como
Flandres, a Renânia
e a Champagne, e foram vigorosa e efetivamente reprimidas.

No Sul da Europa, as teorias dualistas tiveram de competir com


outras idéias heterodoxas, em particular as de um mercador de Lyon
chamado Pedro Valdes, o
qual, embora não fosse dualista, rejeitou a idéia de que a graça
sacramental fosse necessária para a salvação. Ele condenou a gritante
riqueza do clero e deixou
sua mulher e seus bens para viver como eremita. Sua concepção da pobreza
como uma virtude suprema não era muito diferente da de Francisco de
Assis, e foi dito que,
se os homens santos dessa época "eram reverenciados como santos ou
excomungados como hereges, isso em grande parte parecia ser uma questão
de acaso"."' Sem dúvida,
nem sempre era fácil distinguir entre entusiasmo pela reforma,
anticlericalismo e a promoção de idéias hostis à doutrina cristã; mas o
êxito do Islã havia mostrado
0 que poderia resultar quando idéias heréticas prosseguiam irrefreadas e
eram exploradas por uma classe social emergente. O maior apoio para
aqueles que
OS TEMPLÁRIOS

atacavam a riqueza da Igreja vinha da ascendente classe de mercadores


das cidades da Lombardia, do Languedoc e da Provença.

No Languedoc havia outros fatores que favoreciam a difusão da


religião cátara. Como Bernardo de Clairvaux tinha visto ao pregar contra
Henrique de Lausanne,
a Igreja estava numa condição deplorável, com padres e bispos
negligentes, gananciosos e ignorantes, mais preocupados em esbulhar do
que em proteger seus rebanhos.
Ao mesmo tempo, o contato com as idéias islâmicas que vieram em virtude
do comércio com a Espanha moura e o destacado papel desempenhado pelos
judeus na economia
da região criaram um clima de tolerância para com outras crenças. Havia
um controle menos centralizado porque muitos dos principados menos
importantes eram mantidos
corno propriedades livres e alodiais, e não como feudos. Mesmo os barões
que possuíam feudos não tinham um único senhor feudal sequer: alguns os
receberam do conde
de Toulouse, outros dos reis de Aragão e até, nocionalmelte, do
imperador alemão. O anticlericalismo era reinante. Grande parte da
riqueza que o clero corrupto gozava
tinha sido doada pelos ancestrais da nobreza possuidora de terras, os
quais, vendo-as agora em mãos visivelmente indignas, faziam o possível
para amanhá-las de volta.
Isso resultava em constantes conflitos entre eles e os bispos locais, e
também entre eles e o papa. Portanto, não era de surpreender que uma
religião que julgava
o clero supérfluo tivesse considerável poder de atração.

O que à primeira vista parece incoerente é que "uma sociedade


turbulen:a, agitada e egoísta 11,141 talvez a mais educada, culta e
hedonista da Europa - um
refúgio para jongleurs e troubadours, os poetas do amor cortês -, tenha
se revelado tão receptiva ao desolado dualismo dos cátaros. Mas deve-se
lembrar que apenas
alguns deles, conhecidos como parfaits, viviam uma vida de abnegação
sobre-humana: para a massa de credentes, os meros crentes, a doLtrina
cátara era a de que apenas
um sacramento era necessário para a salvação e de que o último, o
consolamentum que tirava todos os pecados, tornava desnecessário
esforçar-se para ser virtuoso
até que se defrontasse com a morte. O catarismo também era uma religião
que atraía as mulheres: aos par,`aits do sexo feminino se concedia a
mesma reverência concedida
aos do sexo masculino. Como um padre francês viria a expressá-lo,
"Leshommesfont les lérésies, les femmes leur donnent cours et les rendem
immortelles" ("Os homens
podem inventar as heresias, mas são as mulheres que as difundem e as
tornam imortais").z48

Em 1167, o "papa" grego dos cátaros de Constantinopla, Niquinta,


presidiu um concílio dos fiéis fora da cidade de Saint-Félix-de-Caraman,
perto de Castelnaudary,
no Languedoc. Já nessa época havia um bispo cátaro em Albi,

OS INIMIGOS NO LADO DE DEN'rR0

e agora outros bispos eram nomeados para Toulose, Carcassonne e Agen. Os


bispos católicos no Languedoc, horrorizados pela difusão dessa seita
herética, tentaram
opor-se a ela, em vão, por meio de debates públicos. Relatos de seu
crescimento e enraizamento chegaram a Roma. Quando um zeloso castelhano,
Domingos de Gusmão,
prior dos cônegos da Catedral de Osma, visitou o papa Inocêncio III em
1205 a fim de pedir-lhe permissão para pregar o Evangelho aos pagãos que
viviam junto ao Vístula,
Inocêncio aceitou sua missão, mas a redirecionou para o sul da França.
Dois anos antes, ele apelara aos cistercienses para reconverterem os
cátaros, mas, apesar
dos seus melhores esforços, eles haviam fracassado.

Domingos, jogando o mesmo jogo dos parfaits, adotou um estilo de


vida de abjeta pobreza e rigorosa mortificação. Ele juntou-se aos
cistercienses na pregação
da fé católica ortodoxa e nos debates com os sacerdotes cátaros. Mais
uma vez a persuação não foi bem-sucedida. Inocêncio, que reconhecia
perfeitamente bem os graves
defeitos do clero católico no Languedoc, destituiu sete bispos na região
e os substituiu por incorruptíveis cistercienses, e repetidas vezes
apelou aos condes de
Toulouse que agissem, mas os condes não estavam dispostos a fazê-lo - e
provavelmente eram incapazes de fazê-lo - porque as raízes do catarismo
haviam se tornado
profundas demais. Muitos católicos tinham irmãos, irmãs, primos ou
primas que viviam vidas exemplares.

A hierarquia católica considerava o triunfo dessa religião


herética com consternação. Não se tratava simplesmente do fato de o
catarismo ter removido sua
raison d'être, embora esse bem que poderia ter sido um fator entre os
prelados do Languedoc. Tratava-se antes do fato de que as almas
colocadas por Deus sob os seus
cuidados estavam sendo induzidas à danação eterna. Os cátaros tinham um
ódio especial não só pela cruz, que julgavam blasfema por representar o
sofrimento da divindade,
mas também pela missa, que consideravam sacrílega por afirmar que na
consagração o pão se tornava a carne de Cristo. Em vez de viverem
pacificamente lado a lado
com os cristãos, eles não hesitavam em sua ambição de destruir a Igreja:
em 1207, os cátaros de Carcassonne expulsaram o bispo católico da
cidade.

Na Europa medieval, contudo, a Igreja e a sociedade eram


coincidentes; o ano era pontuado dejejuns e festas do calendário cristão
e a vida era mediada através
dos sacramentos. Os juramentos, que os cátaros condenavam, eram os
alicerces sobre os quais se baseava toda a estrutura da sociedade
feudal. A apostasia levaria
à anarquia e solaparia as instituições humanas mais fundamentais. Que
isso não era uma fantasia extravagante foi confirmado pelo ensinamento
cátaro de que o casamento,
nas palavras de um
207
OS TEMPLÁRIOS

herege apóstata, Rainier Sacchoni, era "um pecado mortal (...) tão
severamente punido por Deus quanto o adultério ou o inces t011.141

Após o fracasso de repetidas campanhas de persuasão, o papa


Inocênció solicitou ao principal governante da região, Raimundo VI,
conde de Toulouse, que extirpasse
a heresia à força. Em 1205, Raimundo prometeu fazê-lo, mas não o fez. Em
1207, depois de uma reunião com Raimundo em Saint-Gilles, na Provença, o
legado pontifício,
Pedro de Castelnau, foi morto por um homem do séquito de Raimundo. Esse
ultraje induziu Inocêncio III a proclamar uma cruzada. Seguiram-se vinte
anos de guerra,
com massacres. indiscriminados de ambos os lados que só terminaram com a
anexação do Languedoc pelo rei da França. Os cátaros foram perseguidos e
queimados, es alguns
deles alegremente confiaram às chamas seus corpos corruptos. A,'.~
heresia foi afinal destruída, mas com ela se foi o que alguns
historiadores, vêem como uma civilização
incomparavelmente refinada e culta e outros. como "uma sociedade num
avançado estádio de desintegração que ainda sèy apegava à casca de uma
civilização que por pouco
não havia desaparecido".z5

O primeiro líder da Cruzada Albigense foi Simão de Montfort, o mesmo


ca.: valeiro do norte da França que havia abandonado Bonifácio de
Montferrat e :'j os venezianos
em Zara. A certa altura, todo o Languedoc estava sob seu po-: der, e, a
exemplo dos francos na Palestina ou dos normandos em Antioquia, n ele
poderia ter fundado
uma dinastia, embora a serviço da Igreja, mas, com os mutáveis acasos da
guerra, esse prêmio lhe escapou e ele acabou sendo morto enquanto
sitiava Toulouse.

Para a nobreza nativa, quer católica, quer cátara, a cruzada foi


uma invasão da sua terra natal por um inimigo do norte; e, a despeito de
um constante fluxo
de lealdades, eles lutaram para defendê-la. Lealdades feudais e
interesses políticos ficaram inextricavelmente emaranhados com fervor
religioso, o que levou a alianças
paradoxais: o rei Pedro II de Aragão, que havia alcançado uma importante
vitória contra os muçulmanos em Lãs Navas de Tolosa em 1212, foi morto
no ano seguinte combatendo
Simão de Montfort fora dos muros de Muret.

Qual era o papel das ordens militares nessa guerra cruenta e


disputa fratricida? Tanto o Templo quanto o Hospital tinham
consideráveis propriedades na região.
Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse, tinha estado entre os
líderes da Primeira Cruzada, e não só seus descendentes, mas também seus
vassalos, haviam legado
benefícios substanciais às ordens militares, em particular o Hospital.
Todavia, a comunidade de Mas-Deu, em Roussillon, era uma das mais
importantes fortalezas do
Templo. Ambas as

OS INIMIGOS NO LADO DE DENTRO

ordens também estavam profundamente engajadas no reino de Aragão e


envolvidas na guerra contra o Islã na Espanha.

Em conseqüência, uma guerra entre Simon de Montfort, da parte do


papa, e o conde Raimundo VI e o rei Pedro II de Aragão, junto com a
maior parte da nobreza
do Languedoc, levou a um racha nas lealdades entre as ordens militares.
De modo geral, ambas tentaram permanecer neutras e como tais foram
reconhecidas pelo Tratado
de Paris, que por fim pôs termo ao conflito. Onde as ordens foram
aliciadas para o conflito, parece que o Hospital tomou o partido de
Raimundo VI e Pedro II, e o
Templo, o dos cruzados. Os templários haviam lutado com Pedro II em Lãs
Navas de Tolosa, mas "todos respeitaram incondicionalmente seus deveres
para com o papa e
a Igreja. (...) A fidelidade dos cavaleiros do Templo a Simão de
Montfort e aos cruzados jamais diminuiu":"' em 1215, encontramos Simão
hospedado na casa dos templários
fora de Montpellier.

Contudo, parece ter sido aceito que o principal compromisso dos


templários era com a guerra contra o Islã no Oriente; com certeza, o
papa Inocêncio III não
fez nenhuma tentativa de recrutá-los contra os cátaros, e a criação em
1221 por Conrado de Urach da Milícia da Fé de Jesus Cristo, uma ordem
moldada no Templo, parecia
confirmar isso. Foi possivelmente como vassalos do rei da França que
eles estavam com o príncipe Luís na tomada de Marmande, na primavera de
1219, testemunhas, se
não participantes, da chacina dos habitantes da cidade. Em 1126, o rei
Luís VIII da França, ao sitiar Avignon, investiu de plenos poderes em
sua ausência um cavaleiro
do Templo, o irmão Everardo, enviando-o a Saint-Antonin para aceitar a
rendição da cidade.212
A acusação de apoio dos templários aos cátaros, que viria a
inspirar um sem-número de teorias fabulosas em tempos modernos, é mais
crível se equiparada com
os hospitalários, mas neste caso, mais uma vez, há indícios de que eles
mostravam simpatia pela religião herética. Desde a época de sua evolução
numa ordem militar,
o Hospital tinha estreitos vínculos com os condes de Toulouse tanto na
Europa quanto no ultramar. Havia numerosos estabelecimentos no
Languedoc, ao passo que na
Síria a grande fortaleza do Krak dos Cavaleiros tinha sido doada ao
Hospital por Raimundo II de Trípoli, um bisneto de Raimundo IV de
Toulouse. Durante a CrUZadaAlblgense,
portanto, eles tendiam a sentir solidariedade pelos descendentes de seus
benfeitores, com quem os próprios cavaleiros, à diferença dos cavaleiros
do Templo, eram
com freqüência aparentados. Assim, vemos que alguns dos mais corajosos
defensores dos cátaros que pediram para receber o consolamentum de seus
parfaits também dotaram
o Hospital e além disso
OS TEMPLÁRIOS

pediram para ser admitidos como confrères, o que sugere que eles tinham
pouca compreensão de teologia ou que estavam fazendo jogo duplo.

O Hospital lucrou com seus vínculos com os inimigos da cruzada.


Depois da morte de Simão de Montfort no cerco de Toulouse e da retirada
dos cruzados, os
bispos católicos e os cistercienses retiraram-se da área e os templários
abandonaram sua comunidade na Champagne, mas os hospitalários e os
beneditinos ficaram:
os beneditinos em Alet foram mais tarde expulsos de sua abadia por
cumplicidade com os cátaros.zs3 Provavelmente, a mais clara demonstração
de suas lealdades veio
com a morte do rei Pedro II de Aragão na batalha de Muret: os
hospitalários pediram e receberam permissão para

remever seu cadáver do campo. De modo análogo, eles admitiram Raimundo


VI como confrère, e após sua morte, em 1222, ficaram com a guarda de seu
corpo, que, como
o de um excomungado, não poderiá ser enterrado ei

solo sagrado. Seu corpo permaneceu do lado de fora do priorado dos


hospitalários, enquanto Raimundo VII rogou a sucessivos papas que
permitissem que ele fosse enterrado
na capela. O corpo ainda estava lá no século XIV mas, por volta do
século XVI, "ratos haviam destruído o caixão de madeira e os ossos de
Raimundo haviam desaparecido
11.214

Frederico de Hohenstaufen

Em 1213, o papa Inocêncio III publicou uma bula, Quia maior, convocando
uma nova cruzada contra os sarracenos no Oriente. Vários fatores
sugeriam que o momento ira
propício: Simão de Montfort estava no auge da prosperidade no Languedoc;
um exército muçulmano tinha sido derrotado em Lãs Navas de Tolosa, na
Espanha; e o extraordinário
fenômeno da cruzada das crianças, em que sete mil jovens da França e da
Renânia tinham partido para libertar o Santo Sepulcro, embora mal
concebido, malfadado e
desencorajado pela Igreja, demonstrara a intensidade do entusiasmo
popular pela busca de uma guerra santa.

Mesmo o escandaloso desvio da Quarta Cruzada para Constantinopla


afigurava-se ao papa como uma desgraça com um lado positivo: todos os
poderes da cristandade
estavam agora unidos sob seu comando. Mesmo as desvantagens, como os
contínuos conflitos entre os Capetíngios e os Plantagenetas na França e
entre os Welfs e os
Hohenstaufen na Alemanha, serviam aos propósitos de Inocêncio por
afastarem quaisquer rivais do comando da cruzada. Seu chamado foi
repetido pelos 1.300 bispos que
se reuniram em Roma para o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, e
abrangentes medidas legais e administrativas foram postas em prática a
Fim de arrecadar o dinheiro
para financiar o projeto, incluindo a extensão da indulgência da cruzada
daqueles que lutassem àqueles que pagassem. Isso capacitava as mulheres
a tomar a Cruz mediante
doações e legados.zssAs mulheres também eram usadas para persuadir seus
maridos a partir em cruzada: Jacques de Vitry, cujos cavalos foram
requisitados por alguns
genoveses para uma excursão militar, pregou para suas esposas em vez de
para eles. "Os burgueses levaram meus cavalos e eu transformei suas
esposas em cruzados.""'
As quantias arrecadadas eram comadas ao irmão Haimard, o tesoureiro do
Templo em Paris.
Inocêncio morreu em 1126, antes que seus planos tivessem sido
postos em execução. Eles foram assumidos com igual entusiasmo por seu
sucessor, o cardeal Savelli,
que escolheu o título de Honório III. Já um ancião na época de sua
ascensão, Honório não possuía as qualidades de liderança e energia

OS TEMPLÁRI OS

pedirOm para ser admitidos como confz-ères, o que sugere que eles tinham
pouca compreensão de teologia ou que estiavam fazendo jogo duplo.
o Hospital lucrou com seus vínculos com os inimigos da cruzada.
Depois da morte de Simão de Montfort no cerco d e Toulouse e da retirada
dos cruzados , os
bispos católicos e os cistercienses retiraram-se da área e os templários
apandonaram sua comunidade na Charnpagne, mas os hospitalários e os
beneClltinos ficaram:
os beneditinos em Alei: foram mais tarde expulsos de sua apadia por
cumplicidade com os cátaros.z" Provavelmente, a mais clara demonstração
de suas lealdades veio
com a morte do rei Pedro II de Aragão na batalha de Muret: os
hospitalários pediram e receberam permissão para remover seu cadáver do
campo. De modo análogo, eles
admitiram Raimundo VI como confrère, e após sua morte, em 1222, ficaram
com a guarda de seu corpo, que, como o de um excomungado, não poderia
ser enterrado em solo
sagrado. Seu corpo permaneceu do lado de fora do priorado dos
hospitalários, enquanto Raimundo VII rogou a sucessivos papas que
permitissem que ele fosse enterrado
na capela. O corpo ainda estava lá no século XIV mas, por volta do
século XVI, "ratos haviam destruído o caixão de madeira e os ossos de
Raimundo haviam desaparecido".`

onze

Frederico de Hohenstaufen

Em 1213, o papa Inocêncio 111 publicou uma bula, Quia rzzaior,


convocando uma nova cruzada contra os sarracenos no Oriente. Vários
fatores sugeriam que o momento
era propício: Simão de Montfort estava no auge da prosperidade no
Languedoc; um exército muçulmano tinha sido derrotado em Las Navas de
Tolosa, na Espanha; e o extraordinário
fenômeno da cruzada das crianças, em que sete mil jovens da França e da
Renânia tinham partido para libertar o Santo Sepulcro, embora mal
concebido, malfadado e
desencorajado pela Igreja, demonstrara a intensidade do entusiasmo
popular pela busca de uma guerra santa.
Mesmo o escandaloso desvio da Quarta Cruzada para Constantinopla
afigurava-se ao papa como uma desgraça com um lado positivo: todos os
poderes da cristandade
estavam agora unidos sob seu comando. Mesmo as desvantagens, como os
contínuos conflitos entre os Capetíngios e os Plantagenetas na França e
entre os Welfs e os
Hohenstaufen na Alemanha, serviam aos propósitos de Inocêncio por
afastarem quaisquer rivais do comando da cruzada. Seu chamado foi
repetido pelos 1.300 bispos que
se reuniram em Roma para o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, e
abrangentes medidas legais e administrativas foram postas em prática a
fim de arrecadar o dinheiro
para financiar o projeto, incluindo a extensão da indulgência da cruzada
daqueles que lutassem àqueles que pagassem. Isso capacitava as mulheres
a tomar a Cruz mediante
doações e legados.z55As mulheres também eram usadas para persuadir seus
maridos a partirem cruzada: Jacques de Vitry, cujos cavalos foram
requisitados por alguns
genoveses para uma excursão militar, pregou para suas esposas em vez de
para eles. "Os burgueses levaram meus cavalos e eu transformei suas
esposas em cruzados."
-''hAs quantias arrecadadas eram confiadas ao irmão Haimard, o
tesoureiro do Templo em Paris.
Inocêncio morreu em 1126, antes que seus planos tivessem sido
postos em execução. Eles foram assumidos com igual entusiasmo por seu
sucessor, o cardeal Savelli,
que escolheu o título de Honório 111. Já um ancião na época de sua
ascensão, Honório não possuía as qualidades de liderança e energia
OS TEMPLÁRIOS

de Inocêncio. Não obstante, a cruzada tinha agora seu próprio impulso:


os cavaleiros da França e da Inglaterra podiam estar perturbardos pelas
guerras de seus reis
e pela repressão dos hereges, mas um pouco mais para o leste
contingentes austríacos e húngaros reuniram-se em Spoleto para serem
transportados para a Palestina
pelos venezianos.

O rei de Jerusalém era agora urm cavaleiro idoso da Champagne,


João de Brienne. Era um sinal do pouco prestígio do ultramar entre a
nobreza européia o fato
de ele ter sido o melhor noivo que se pôde encontrar para a princesa
Maria, herdeira do reino. Quarndo eles se casaram em 1210, ele tinha
sessenta anos e ela dezessete.
Dois anos mais tarde, Maria faleceu após dar à luz uma filha, Isabel,
conhecida como Iolanda. João agora reinava como regente de sua filha,
adotando urina política
cautelosa para com ai-Adil, irmão e sucessor de Saladino. Era do
interesse de ambos a renovação da trégua em 1212. Quando o rei André
chegou com seu contingente
de húngaros em 1217, foram feitas várias incursões em pequena escala no
território muçulmano, sem resultados significativos. Tendo cumprido suas
promessas, os húngaros
voltaram para casa através da Anatólia com uma grande quantidade de
relíquias, entre elas a cabeça de Santo Estêvão e um dos jarros das
bodas em Caná.

Durante sua estada na Terra Santa, os peregrinos austríacos e


húngaros tinham ajudado os templários e os cavaleiros teutônicos a
construir uma nova fortaleza
em Atlit, a qual, em homenagem à contribuição deles, foi chamada Castelo
Peregrino. Erguida num promontório no litoral ao sul de Haifa para
proteger a estrada, bem
como as videiras, os pomares e os campos cultivados da localidade que
eram vulneráveis a ataques de surpresa dos muçulmanos, era uma
fortificacâo formidável, com
um fosso e muralha dobrada no lado que dava para a terra. O dominicano
alemão Burkhard de Monte Sião ¡ulgou "as muralhas, os baluartes e as
barbacãs tão fortes e
acastelados, que o mundo inteiro não seria capaz de conquistá-la [a
fortaleza]"."' Dentro dos, Baluartes havia três salões e uma igreja dos
templários com rotunda.
De tcordo com o cronista Oliver de I'aderborn, a fortaleza estava
abastecida som provisões suficientes para alimentar 4.000 combatentes.

Em abril de 1218, uma esquadra da Frísia chegou a Acre,


fornecendo ao ~ei João de Jerusalém os meios para dar início a uma
invasão do Egito. No dia ?4 de
maio, a esquadra zarpou, e três dias depois os soldados desembarca-am
nas margens do Nilo defronte da cidade de Damieta. Aí eles acamparam
em 24 de agosto organizaram um bem-sucedido ataque ao forte que prote;ia
a entrada do rio. O grão-mestre dos templários, Guilherme de Chartres,
lue comandava um
significativo contingente de templários, morreu de fe)re dois dias mais
tarde. Sucedeu-lhe um experiente templário "de carrei-

FREDERICO )DE HOHENSTAUFEN

ra", Pedro de Montaigu, que tinha sido mestre da Ordem do Templo na


Provença e na Espanha e lutara nat batalha de Las Navas de Tolosa.
Após os cruzados terem estabelecido essa cabeça-de-ponte
defronte de Damieta, vieram juntar-se a eles outros contingentes da
Europa, entre eles os condes
franceses de Nevers e de Ia Marche, os condes ingleses de Chester,
Arundel, Derby e Winchester, os bispos de Paris, Laon e Angers, o
arcebispo de Paris e, por fim,
uma força de italianos liderada pelo legado do papa Honório, o cardeal
espanhol Pelág:io de Santa Lúcia.
Pelágio, como legado pontifício, estava agora no comando. Ele
era determinado e enérgico, mas presunçoso, indelicado e autocrático. O
cerco de Damieta continuou
até o verão de 1219, com as enfermidades cobrando seu tributo aos
cruzados. Incapaz de desalojá-los, o sultão al-Kamil, irmão de Saladino,
tentou reconciliar-se
com eles e, como prova de suas intenções pacíficas, permitiu que
Francisco de .Assis, que estava visitando os cruzados, transpusesse as
linhas e pregasse para ele
em seu acampamento em Fariskur. Os dois homens trocaram muitas
cortesias, mas nenhum deles foi persuadido a aceitar as crenças do
outro. Embora não disposto a tornar-se
cristão, al-Kamil, todavia, estava disposto a sacrificar Jerusalém se os
cruzados suspendessem o cerco de Damieta.
Essa oferta provocou um racha entre os cruzados: Pelágio e o
patriarca de Jerusalém eram contra qualquer pacto com o infiel, ao passo
que o rei João, com
o apoio dos barões da Palestina e da Europa, queria aceitá-lo. Os grão-
mestres das ordens militares adotaram o ponto de vista de que Jerusalém
não poderia ser mantida
a menos que a Transjordânia também fosse cedida. Isso foi inaceitável
para al-Kamil. Seus termos foram portanto rejeitados, e em 5 de novembro
os cruzados organizaram
um bem-sucedido assalto a Damieta: sua guarnição e seus cidadãos estavam
debilitados demais para resistir a eles.

Estabelecidos em Damieta, os cristãos agora aguardavam a chegada


de um exército liderado pelo imperador alemão Frederico II de
Hohenstaufen, antes de continuarem
Nilo acima. Em 1221, o duque Luís da Baviera chegou com 500 cavaleiros,
supostamente a vanguarda do exército de Frederico. Dando-se conta de que
não estavam para
chegar mais reforços, Pelágio ordenou um avanço no Egito, apesar dos
pressentimentos de João de Brienne e dos templários, que adotaram o
ponto de vista de que os
recursos dos cruzados estavam no limite máximo e a conquista do Egito
além deles. Suas objeções foram repudiadas, e o exército cruzado marchou
ao longo da margem
do Nilo em direção a Mansurá, aonde chegou uma semana mais tarde.
Enquanto eles se estabeleciam fora dos limites da cidade, contingentes
do exército de al-Kamil
moveram-se atrás deles e navios egípcios zarparam do lago de

213
OS TEMPLÁRIOS

Manzalá para interceptar a retirada dos cristãos. Os cruzados poderiam


ter rompido esse cerco lutando, se os egípcios não tivessem aberto as
comportas e inundado
o terreno que eles teriGm de cobrir. Como o grão-mestre do Templo
escreveu mais tarde ao preceptor da Ordem na Inglaterra, eles foram
"pegos como um peixe numa rede
11.211

Literalmente atolado nos pântanos do delta do Nilo, Pelágio não


teve alternativa senão pedir paz. Damieta foi abandonada e o exército
latino navegou para
Acre sem nada ter conquistado. A única concessão que al-Kamil estava
disposto a fazer a Pelágio era a devolução da relíquia da Verdadeira
Cruz, tomada por seu irmão
Saladino em Hattin; mas, quando ele solicitou que ela fosse entregue,
essa relíquia cristã mais preciosa de todas não pôde ser encontrada.

A responsabilidade pelo fracasso da Quinta Cruzada é


invariavelmente atribuída ao indelicado e voluntarioso cardeal Pelágio,
e não há dúvida de que sua natureza
abrasiva fez dele um comandante insatisfatório, quando seus cálculos
estratégicos foram distorcidos pelo fervor religioso. Contudo, os
exércitos cruzados eram sempre
fracos quando não tinham um líder militar inconteste. Ricardo Coração de
Leão havia arrostado Saladino não só pela sua coragem e carisma, mas
também por ser rei.
João de Brienne também era rei, mas sua reivindicação ao título de rei
de Jerusalém era remota demais para inspirar a lealdade dos barões da
Europa ou mesmo do ultramar,
ao passo que muitos consideravam que o status clerical de Pelágio o
tornava incapaz para comandar. O único líder inconteste que os papas,
seus legados e todos os
príncipes feudais esperaram durante a campanha foi o neto de Frederico
Barba-Roxa, o imperador Frederico II de Hohenstaufen.

Em 7 de setembro de 1228, Frederico II de Hohenstaufen desembarcou em


Acre para assumir a liderança da cruzada, quinze anos depois de ter
tomado a Cruz pela primeira
vez. Ele agora tinha trinta e seis anos e já firmara a extraordinária
reputação que lhe daria o título de stupor mundi et immutator mirabilis.
Seu pai, o imperador
Henrique VI, falecera quando ele tinha três anos de idade. Sua mãe, a
imperatriz Constança, herdeira do reino normando da Sicília, levara-o
para Palermo, onde morreu
apenas um ano mais tarde. Frederico foi criado por tutores selecionados
pelo papa Inocêncio III, o guardião nomeado por Gonstança. A falta de
afeto dos pais, junto
com a mistura de influências normandas, gregas e muçulmanas que formavam
a cultura da corte siciliana, gerou um caráter idiossincrásico num
espírito excepcionalmente
cultivado. "Ele era um homem sagaz", escreveu Salimbene, um
contemporâneo seu, "engenhoso, cúpido, caprichoso, de mau gênio. Mas às
vezes, quando desejava revelar
suas qualidades boas e corteses, consolador, es-

FREDERICO DE HOHEN:STAUFEN
pirituoso, encantador e trabalhador. "119 Ele sabia cantar e compor
música, e falava alemão, italiano, latim, grego, francês e árabe. Era um
excelente cavaleiro
e hábil falcoeiro. Salimbene o descreve; como "um homem bonito, de boa
compleição e estatura mediana"; mas os cabelos ruivos que rareavam,
herdados de seu avô, Frederico
Barba-Roxa, e seus olhos ligeiramente esbugalhados faziam-no parecer não
atraente a ulm observador muçulmano, que julgou que, "se ele tivesse
sido escravo, não teria
alcançado 200 dirhams".ze°
Na sua coroação como rei da Alemanha em Frankfurt, em 1212,
Frederico impetuosamente prometera partir em cruzada. Isso não fazia
parte dos planos de seu
guardião, o papa Inocêncio IIII, e portanto foi por essa vez ignorado.
No ano seguinte, a Inocêncio sucedeu como papa o tutor de Frederico,
Cencio Savelli, que adotou
o título de Honório III, e nos seus primeiros anos Frederico parecia ser
um submisso filho da Igreja. Seu camareiro era um cavaleiro do Templo, o
irmão Ricardo,
que antes servira ao papa na mesma função. Todavia, a rivalidade
intrínseca entre os líderes leigos e espirituais da cristandade era
exacerbada pela fato de Frederico
ser rei tanto da Alemanha quanto da Sicília. Até então, a segurança dos
Estados Pontifícios, e por conseguinte do papado, tinha sido assegurada
tirando-se partido
da rivalidade entre os dois reinos a fim de se manter um equilíbrio de
poder. Agora, com a união dos dois Estados na pessoa de Frederico, Roma
estava ameaçada de
cerco.

Igualmente ameaçador era o ceticismo que se desenvolveu no


espírito do jovem rei. Ao contrário dos monarcas do norte da Europa,
cujo aprendizado era limitado
pelo currículo estabelecido pela Igreja Católica, a educação de
Frederico em Palermo fizera com que ele se familiarizasse com idéias
árabes e bizantinas. Ambas estavam
mais desenvolvidas do que seus equivalentes latinos e levaram a uma
tolerância para com os que as esposavam, tolerância essa que contrastava
acentuadamente com os
sentimentos sectários de outros reis cristãos. O tratamento indulgente
que Frederico dispensava aos muçulmanos dentro de seu reino chocou
alguns de seus contemporâneos
católicos, mas é quase certo que resultou de considerações práticas e
ideológicas: os templários na Espanha, por exemplo, permitiam que os
muçulmanos praticassem
sua religião nas propriedades da Ordem do Templo como um estímulo para
mantê-los no país.

A dependência de seus súditos muçulmanos para com sua mercê


também os tornava mais dignos de confiança aos olhos de Frederico: ele
tinha uma guarda pessoal
sarracena. Mas essa tolerância não era uma questão de mera prudência:
para um biógrafo que o admirava, "ele possuía as qualidades inerentes ao
homem verdadeiramente
culto de qualquer era: uma sincera e profunda apreciação das
potencialidades culturais da humanidade, in-

215
OS TEMPLÁRIOS
dependentemente ce raça ou nacionalidade11.261 Mas igualmente, -orno em
qualquer era, havia ima natural progressão da tolerância para o ind
ferentismo, e do indiferentsmo
para um inequívoco ceticismo, e alguns dos contemporâneos de Fr;derico
se perguntaram se ele acreditava ot. não em Deus.

Por causa da odósa propaganda que passou a ser dirigida contra


ele por seus inimigos, é difícil distinguir fato de ficção; mas é
significativo que mesmo
seus contemporíneos muçulmanos, como o cronista damasceno Sibt Ibn
a1.Jawzi, pensassem que ele fosse "com muita certeza ateu"."' O católico
Salimbene tambémescreveu
que "ele não tinha fé em Deus" e que "se ele tivesse sido um bom
católico e amado Deus e Sua Igreja, e sua própria alma, p)ucos entre os
imleradores do mundo ter-se-iam
igualado a ele". Foi dito que Frederico zombou da Eucaristia - "Até
quando esse embuste vai continuar?" - e da doutrina da Imaculada
Conceição de Jesus: "São completamente
tolos os que (creditam que Deus poderia nascer de uma Virgem (...)
ninguém pode nasesr se a sua concepção não tiver sido precedida oelo
coito entre um homem euma
mulher". A Imaculada Conceição de Jesus, contudo, também é um dbgma da
fé islâmica; e, apesar de sua amizade com muçulmanos, Frederico não
mostrava maior respeito
por Maomé do que por Cristo, arrolando-o, junto com Moisés, como um dos
"três impostores ou embusteiros do muldo".z63

Embora essas o'')servaçôes possam ter sido exageradas por seus


inimigos papistas, elas são compatíveis com a percepção de seus amigos
muçulmanos. Em outros
aspectos, Frederico não estava em sintonia com o seu tempo. Ele revelava
um espírito científico que é mais moderno do que medieval: no prefácio
de um tratado sobre
falcoaria, De arte Uenandi, ele escreveu que "nosso objetivo neste livro
é descrever (...) aquelas coisas que são como sâo"; e de novo, noptro
contexto, "não se
deve acreditarem nada, a não ser naquilo que pode ser comprovado pela
natureza e pela força da razão". O resUtado era uma combinação do rei
Salomão, de Isaac Newton
e - se se pode confiarem seus contemporâneos - do Dr. Mengele.

O primeiro foi demonstrado pela maneira com que ele lidou com
uma acusação feita contra judeus na Alemanha, em 1235-6, do assassinato
ritual de uma criança
cristã: d exaustiva investigação que ele iniciou resultou não apenas na
absolvição deles, como também num decreto ";n Favorem Jadaeorum". Ele
também aboliu o julgamento
por ordálio de fogo, a que Francisco de Assis havia se oferecido a
submeter-se diante do sultão al-Adil para provar a verdade da religião
cristã: como um ferro incandescente
poderia ficar morno ou frio, perguntou Frederico, "sem a intervenção de
uma causa natural?".

Papa Inocêncio III. Afresco do séc VIII da Igreja do Sacro Speco (Gr

Sagrada), Subiaco, Itália. (I~ider fP,

Papa Bonifácio V11I. Estátua da Cate de Florença, agora no Museo dell'OI

del Duomo, Florença, atribuída a An di Cambio. (Gléi~lerrfi'ldllrrlrire)


Papa Clemente V, de U 7üunfo r!e 7i~rn de,4guirro, de Andrea Buonaiuti,
1365, Santa Maria Novella, Florença.
t~_ - 1 w~ 4, 14~

QtuwwtMu fatot><daetlattta-~u T

áfttxriáttaptttCr Duti^ttt»0zc
l~W r nonqucstvelei6a d

O rei buís XI da França uroferindo uma sentença.

Iluminura do século XII, de9


C)e. de Saint Patbus, na P
I lilugre.s rle .Sno Luís. (13iGliot

Cruzados sob o rei Luís XI atacam Damieta em IZ&8. Iluminura do século


XIV da (,'r8uiia (Ia França ou (le .fairrt-Uenis. (10-itish
l.iGrnr~/Bridnerurrn dr-t I,iGruro)

Cruzados expulsando cátaros de Carcassonne. Iluminura do século XIV da


Oficina do Mestre Boucicaut. (Brìtisl~

I_ibrat,1~/l3ridgerrtan , l rt l,ilmzir _y)

A Igreja do Santo Sepulcro Jerusalém. (f7rttlaon~ Ker.,tin

O projeto original para a reconstrução da Igreja do Santo Sepulcro após


a captura de
Jerusalém pela Primeira Cruzada. (Nzid~mfvl~J~lmln9wl
Pintura do século XIX de Guilherme de Glermont defendendo
Acre em 1291, da autoria de Dominique Louis Papety.
(GÚStrlo de Versalhes/I,auros-C'irUZahrz/Bridgenzazz Ai-1 GiGrar11)
O rei Filipe IV da França (Filipe, o Belo) com seus quatro filhos e seu
irmão Carlos de

Valois. Iluminura do século XIV

A queima dos templários. Iluminura do século XIV da C,'nâztira da


FrazzÇrr ou ele
(',;,r_ Ilovic l ldrìricli l.árarrll3ritloentan Art L.ibrnz'v)

Jactlucs de Molav, o último grão-mestre dos templários. Gravura de


Gheuauchet do século XIX. (C.blesvo prrrtirrzlar/Rogrz`-hodlPt/
l3rirlytozzan '4nt l,iGz nrv )

3.W.v 1'Ei té11 1iOL.1 11

avara do século XVIII ~lorjozz dos templários ~ E'aris onde o rei Luís 1
foi preso antes da sua ecução em 1793.
A fortaleza dos templários na ilha de Almourol, no rio 'èjo, em
Portugal.

A capela circular ou rotunda da fortaleza dos templários de Tomar, em


Portugal, construída em 1160 pela mestre português Gualdira pais.

FREDERICO DE HOHENSTAUFEN

Encontramos o Dr. Mengele nas experiências que ele supostamente


iniciou a fim de testar certas hipóteses. Um homem foi aprisionado num
barril de vinho para
se observar se a alma poderia ser vista deixando seu corpo quando ele
morresse. Dois homens foram mortos e em seguida eviscerados para se
estudarem os efeitos relativos
do sono e dos exercícios. Crianças foram criadas em absoluto silêncio a
fim de se descobrir se a língua materna da humanidade era o hebraico, o
grego, o árabe ou
o latim - "mas ele se esforçou em vão", escreveu Salimbene, "pois todas
as crianças morreram 11 . 264

Sua moral sexual estava em desacordo com a doutrina cristã,


embora neste caso, mais uma vez, não seja fácil distinguir entre
verdade, exagero e invenção.
O apologista do papado Nicolau de Carbio, "perito na arte da difamação
",zss acusou-o de transformar igrejas em bordéis e de usar um altar como
privada. Ele escreveu
que Frederico prostituiu não só moças, mas também rapazes, entregando-se
a "um vício vergonhoso até de pensar ou mencionar, e ainda mais
pernicioso de praticar".
De acordo com Nicolau, Frederico "disseminou seu crime, aquele de
Sodoma, abertamente, sem tentar ocultá-lo". Alguns estudiosos, talvez de
forma um tanto ingênua,
sustentaram que as duas paixões são mutuamente exclusivas. O que é
incontestável é que Frederico manteve um harém com houris muçulmanas e
cristãs e que foi pai de
vários filhos ilegítimos, entre eles Manfredo, mais tarde rei da
Sicília, e Volante, condessa de Caserta.

Assim que se livrou da tutela dos papas, Frederico aplicou suas


crenças racionais e seculares ao governo de seus domínios. Após sua
coroação como imperador
pelo papa Honório III em 1220, ele substituiu por advogados os
servidores clericais e feudais em sua administração siciliana e fundou
uma universidade em Nápoles
para treinar seus funcionários nos métodos legislativos e judiciários da
antiga administração romana. O velho papa havia outorgado a coroa
imperial a seu refratário
pupilo como uma forma de comprometê-lo com a cruzada, e não há dúvida de
que Frederico levou a sério seu dever, não porque se preocupasse se
Jerusalém estava ou
não nas mãos de cristãos, mas porque liderar uma cruzada confirmaria seu
status como o soberano supremo da cristandade. Tanto um tipo atávico dos
déspotas da Antiguidade
quanto um precursor dos ditadores dos tempos modernos, Frederico evitava
a virtude cristã da humildade e acabou acreditando em seu próprio
direito como imperador
- direito esse concedido por Deus - a uma suprema autoridade exercida
pelos imperadores romanos de antigamente. "Desde há muito tempo",
escreveu ele, "que nosso
coração nunca cessa de arder com o desejo de restabelecer na posição de
sua antiga dignidade o fundador do Império Romano e sua fundadora, a
própria Roma. 1,211

225
OS TEMPLÁRIOS

Isso inevitavelmente fez com que ele entrasse em conflito com o


papa-

do, que reivindicava a mesma, se não uma maior autoridade, e também com
as cidades da Liga Lombarda lideradas por Milão, as quais prezavam sua
independência; mas
em 1221 era do interesse tanto de Frederico II quanto de Honório III que
o imperador cumprisse sua promessa e partisse em cruzada. Repetidas
vezes Frederico adiou
sua partida. Em 1223, sua mulher, Constança de Aragão, morreu. Ela era
consideravelmente mais velha do que ele, mas trouxera consigo
inestimável ajuda quando eles
se casaram em 1209. Agora que estava livre para se casar de novo, a
princesa Iolanda de Jerusalém foi proposta como noiva. Seu pai, João de
Brienne, tinha vindo
à Europa a fim de encontrar um marido para ela, e o casamento foi
incentivado pelo grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, Hermann
de Salza.
Após uma relutância inicial, Frederico concordou. A moça, de
dezesseis anos, foi coroada rainha de Jerusalém em Acre e então trazida
para a Europa, onde
se casou com Frederico na Catedral de Brindisi em 9 de novembro de 1225.
Apesar de sua fé na razão, Frederico era governado por previsões
astrológicas, e portanto
adiou a fruição de sua jovem noiva até a manhã depois das núpcias, um
momento propício para gerar um filho de acordo com as estrelas. Ele em
seguida seduziu a prima
da rainha Iolanda e quebrou sua promessa ao pai dela de que continuaria
a ser seu regente, reivindicando seu próprio direito, como marido de
Iolanda, de ser rei.
Quando se constatou que Iolanda estava grávida, Frederico a enviou para
seu harém em Palermo, onde ela deu à luz um menino, Conrado, e alguns
dias mais tarde morreu.

Em março de 1227, foi a vez de o papa Honório III morrer.


Sucedeu-lhe outro membro da família Segni, Ugolino, que tomou o nome de
Gregório IX. Como seu tio,
o papa Inocêncio III, Gregório IX era canonista e, como legado
pontifício, tinha dado a Cruz a Frederico II na sua coroação em 1220.
Profundamente devoto, amigo
e paladino de Domingos de Gusmão e de Francisco de Assis, ele também
era, em comparação com o indiferente Honório III, determinado,
intransigente, excepcionalmente
enérgico e experiente em política. Outrora íntimo de Frederico II, ele
suspeitava de suas intenções, e quando este, depois de zarpar para a
Terra Santa, conforme
prometido em agosto de 1227, passou uma temporada em Otranto porque
estava doente, Gregório o excomungou por deixar de cumprir sua promessa.

De fato, o companheiro de Frederico, Luís IV landgrave da


Turíngia, morrera de febre, e é provável que Frederico sofresse da mesma
doença. Tendo-se recuperado
no ano seguinte, ele continuou sua viagem, sem se preocupar em esperar
até que o papa suspendesse a excomunhão, o que o fez ser excomungado de
novo. O uso evidentemente
rápido da sanção máxima da Igreja era considerado necessário por um papa
que acreditava que era,

226

FREDERICO DE HOHENSTAUFEN

sua obrigação preservar sua autoridade: Gregório IX aceitou inequivoc


mente o ponto de vista de Bernardo de Clairvaux de que, embora o impes
dor empunhasse a espada temporal, ela só poderia ser tirada de sua bain:
por ordem do papa.
Em conseqüência da segunda excomunhão, Frederico encontrou cer
grau de hostilidade entre o clero latino ao chegara Acre em 1228. A
prinl
pio, pressupôs-se que, agora que ele finalmente havia cumprido sua prome
sã da cruzada, logo se reconciliaria com a Igreja; mas Frederico não
demon
trava nenhum sinal de arrependimento, e desde sua partida a guerra rebe
tara no sul da Itália entre forças imperiais sob o comando de Reinaldo c
Spoleto e um exército
pontifício liderado pelo humilhado ex-sogro de Fr derico, o ex-rei de
Jerusalém, João de Brienne.
Em Acre o patriarca recebeu então cartas do papa Gregório IX
confi mando a sentença de excomunhão. Isso tirou a autoridade do imperad
para comandar a cruzada e, aos olhos da Igreja, anulou os juramentos de
fid lidade de seus vassalos. De qualquer modo, as forças cristãs não
eram grau
des-os barões do ultramar, cerca de 800 cavaleiros peregrinos e 10.000
sc dado de infantaria -, e dividiram-se em duas facções: uma leal ao
imper
dor e a outra à Igreja, sob o patriarca Gerold. O grão-mestre dos
cavaleirl teutônicos, Hermann de Salza, apoiou seu amigo Frederico, mas
o Templo o Hospital recusaram-se
a receber ordens do excomungado.

Da perspectiva de Frederico, esse racha nas lealdades dos


latint.s só t~ ria importado se ele tivesse contemplada uma guerra. Com
efeito, a fraque za das
forças à sua disposição reforçava sua inclinação a obter pela diplom;
cia o que não pudesse ser tomado pela força. Os augúrios eram bons. Mesm
antes de deixar a Sicília, Frederico tinha recebido em sua corte em
Palerm

o emir Fakhr ad-Din ibn as-Shaikh, um emissário do sultão do Egito, o


sobr nho de Saladino, al-Kamil - este último ofereceu devolver Jerusalém
ac cristãos em troca
de ajuda militar contra seus inimigos mais a leste. Freder
co, por sua vez, enviou o bispo de Palermo e Tomás de Acerra ao Cairo
cor presentes valiosos e protestos de amizade; Fakhr ad-Din voltou mais
um vez a Palermo, onde
ele e Frederico tornaram-se amigos íntimos.

Por ocasião da chegada de Frederico à Palestina, as


circunstâncias ti nham mudado dentro do império ayyúbida, e al-Kamil
tornara-se completa mente cônscio
do dano que seria causado à sua reputação no mundo islâmic

se ele devolvesse Jerusalém aos francos. Frederico enviou emissários


al-Kamil, agora em Nablus, para lembra-lo de sua promessa de entregar Je
rusalém. Enquanto al-Kamil prevaricava, Frederico fez esporádicas e em
su maior parte fracassadas tentativas de afirmar sua autoridade. Numa
ocasião ele tentou apossar-se
do Castelo Peregrino, mas os templários fecharam-lhe
OS TIEMPLÁRIOS

os portões. animosidade da Ordem contra o imperador foi possivelmente


exacerbad2pelo favor que ele demonstrara para com a Ordem dos Cavaleiros
Teutôrcos e pela presença,
entre os templários, de vários cavaleiros da Apúlia quese tinham
rebelado contra Frederico e em seguida procurado refúgio, tohando o
hábito branco do Templo.
Em noembro de 1228, Frederico decidiu persuadir seu amigo al-
Kamil com uma d;monstração de força. Ele partiu de Acre e marchou para o
sul. Os cavaleiros
ca Templo e do Hospital recusaram-se a colocar-se sob suas ordens, mas
seguirm um dia depois. Quando o exército chegou a Arsuf, Frederico
concordou,m delegar o comando
a líderes que não estavam sob a excomunhão da Igeja, e portanto as
ordens militares aliaram-se à força principal.
Nem Irederico nem al-Kamil desejavam uma guerra, não só porque
as forças de Federico eram insuficientes e al-Kamil estava sitiando
Damasco, mas tambén porque
eram homens de mentalidade semelhante. Durante os longos meus de
negociações, Faklnr ad-Din tinha sido o canal de freqüentes intercâmbios
entre o imperador e lo
sultão que nada tinham a ver com os assuntos imediatos. Por intermédio
de Fakhr ad-Din, Frederico pediu ao sultão que coisultasse seus eruditos
;a respeito de profundas
questões filosóficas, como', origem do universo, a ]imortalidade da alma
e a lógica de Aristóteles. Meios fervoroso como mluçulmano do que seu
irmão, Saladino, ai-Kamil
sinpatizou com esse intelectual cético e mandou-lhe presentes para
tornarsua estada na Palestinas mais agradável. "É com a maior vergonha e
desgraça`, escreveu o
patriarca (Gerold ao papa Gregório IX, "que vos comunicamos que foi dito
que o sult ão, ao saber do prazer do imperador de viver à manera dos
sarracenos, enviou-lhe
jovens cantoras e prestidigitadores, pessoas que eram não só de má
reputação, mas indignas até mesmo de serem mencionadas entre cristãos.
11261
No qu; foi provavelmente o ponto alto da ironia na história das
cruzadas, dois himens essencialmente ürreligiosos disputavam uma cidade
com a qual nenhim
deles se importava como tal, porém ambos conscientes do que ela
significava em termos do prestígio deles. "Foste tu quem instou comigo
para que fizesse esta viagem",
escreveu Frederico a ai-Kamil, segundo cronistas árab_-s. "O papa e
todos os reis do Ocidente agora sabem da minha missão. Se eu regressar
de mãos abanando, perderei
muito prestígio. Por piedade, dd_me Jerusalém, para que eu possa manter
minha cabeça erguida." Ao que al-kamil retrucou: "Se eu te entregar
Jerusalém, isso poderá
resultar não apenas numa condenação de minhas ações pelo califa, como
também numa insu:reição religiosa que ameaçaria meu trono".Z68No fim, o
senso de honra de al_Kamil
prevaleceu. Fre derico tinha ido para o Oriente a um convite seu e
qeveria receber algo errn troca. No dia 18 de fevereiro de 1229, foi

FREDERICO DE HOHENSTAUFEN

assinado um tratado que devolvia Jerusalém ao domínio cristão. També


foram cedidas Belém, uma faixa de terra da costa em Jafa, Nazaré e
partes

Galiléia que abrangiam os castelos de Montfort e Toron. Em Jerusalém,


monte do Templo, com a Cúpula da Rocha e a mesquita al-Aqsa, deveria pe
manecer em mãos muçulmanas,
com livre acesso concedido aos muçulman que quisessem ir lá para orar.
Todos os prisioneiros teriam de ser libertados, fez-se um acordo de
trégua nos dez anos seguintes.
Para chegar a esse acordo histórico, nenhum dos governantes
recebe agradecimentos: al-Kamil foi execrado por seus imãs por sua
traição do Isl enquanto no
lado cristão apenas os partidários de Frederico, sobretudo os s cilianos
e os alemães, elogiaram o tratado. "O que mais pecadores pode desejar",
perguntou o poeta
e cruzado alemão Friedank, "senão o sepulcro a gloriosa cruz?" A
resposta, na mente do patriarca, dos peregrinos cruzado e das duas
principais ordens militares,
foi um triunfo militar. Parecia reba xar o valor penitencia) do voto de
partirem cruzada o fato de que ele tivess sido cumprido sem derramamento
de sangue. No tratado,
não se fez nenht ma menção a Cristo ou à Igreja; tampouco a cidade
deveria ser purificad dos infiéis. Encolerizou em particular os
templários o fato de sua sede
n monte do Templo continuar a ser uma mesquita.
Também houve as mesmas objeções estratégicas ao acordo que unhar
sido feitas quando ele foi proposto por al-Kamil ao cardeal Pelágio
durant a Quinta Cruzada.
Jerusalém e Belém permaneceram isoladas das cidade litorâneas, ligadas
apenas por uma estreita faixa de terra. Eles tampouc queriam reconhecer
uma proeza que aumentaria
o poder de Frederico contribuindo para seu prestígio. Assim, em 17 de
março de 1229, quando Frederico fez uma entrada cerimonial na Cidade
Santa, os barões nativo
permaneceram a distância, bem como os cavaleiros do Templo e do Hospi
tal e todo o clero latino, obedientes ao interdito que fora pronunciado
con tra Jerusalém pelo
patriarca Gerold, caso o imperador Frederico passasse por suas portas.
Apenas o leal Hermann de Salza e seus cavaleiros teutôni cos e os bispos
ingleses de Winchester
e Exeter acompanhavam-no, ma; eles não ousaram desafiar o interdito.
Quando Frederico entrou na Igreja do Santo Sepulcro, não se achava
sequer um bispo ou padre.
Ele portanto

pegou a coroa do reino de Jerusalém e a colocou na própria cabeça.


Hermann de Salza então leu um discurso em latim e alemão - uma apologia
do imperador, que perdoava
o papa por opor-se a ele, prometendo fazer tudo o que estivesse em seu
poder como "Vigário de Deus na terra" que repercutiria "para honra de
Deus, da Igreja cristã
e do Império".
Depois disso, o imperador do Ocidente fez um passeio pela Cidade
Santa, visitando santuários muçulmanos e cristãos. AI-Kamil havia
ordenado aos
OS TEMIPLARIOS

mulás na mesquita al-Aqsa que se abs;tivessem de chamar os fiéis para as


orações. Frederico os censurou, afirmando que foi precisamente para
ouvir a chamada para
as orações que ele tinha ido a Jerusalém. Quando um sacerdote católico
tentou segui-lo na Cúpula da Rocha, Frederico o pôs para fora, di-

zendo: "Por Deus, se algum de vós ousar pôr os pés aqui de novo sem
permissão, eu lhe arrancarei os olhos". Quando lhe disseram que a
treliça de madeira à entrada
da Cúpula visava ai evitar a entrada de pássaros, ele disse, empregando
o ofensivo termo usado pelos muçulmanos para os francos: "Deus agora vos
enviou os porcos".
Frederico não se demorou em Jerusalém. Notícias de contratempos
na Itália tornaram imperativo seu regresso à Europa. Deixandovários
cavaleiros da Ordem Teutônica
para guarnecer a cidade, e instruções para a reconstrução de suas torres
e muralhas, ele retornou a Acre. Aí o patriarca Gerold, junto com os
templários, estava
recrutando um exército para apossar-se de Jerusalém em nome do papa e
para avançar contra o sultão de Damasco, que não tinha concordado com a
trégua.. Frederico
objetou, mas Gerold recusou-se a ouvir o imperador excomungado. A
própria Acre estava em desordem. A nobreza nativa estava furiosa por não
ter sido consultada acerca
do acordo; os venezianos e os genoveses estavam ressentidos da
preferência que Frederico demonstrara pelos pisanos, seus aliados na
Itália; e havia motins entre
a populaça contra a guarnição imperial.

Para afirmar sua autoridade, Frederico convocou todos os


cidadãos, prelados, barões e peregrinos para justificar suas próprias
ações e queixar-se da hostilidade
do patriarca e dos templários. A assembléia não foi persuadida, e
Frederico apelou para a coerção. Ele ordenou a suas tropas que fechassem
as portas da cidade a
seus inimigos, incluindo os templários, e cercou o palácio do patriarca
e a fortaleza dos templários. Ele tinha planos de seqüestrar Pedro de
Montaigu, o grão- mestre
do Templo, e João de Ibelin, senhor de Beirute, mas ambos estavam bem
protegidos demais para que tais planos fossem postos em prática.
Nomeando baillis para representarem
seus interesses, cujas boas relações com seus opositores expunham a
realidade de sua derrota, e destruindo todas as armas que poderiam ter
caído nas mãos de seus
inimigos, Frederico marcou para 1° de maio a data de sua partida. De
madrugada, quando ele se dirigia de seu palácio para o porto pela Rua do
Açougue, os zombeteiros
cidadãos de Acre cobriram-lhe de detritos.

O Reino de Acre

No seu regresso à Itália, Frederico obteve maior êxito ao frustrar os


planos do papa do que tivera ao vencer a oposição dos aliados deste no
ultramar. O exército
pontíficio que sitiava Capua sob o comando dos dois veteranos, João de
Brienne e o cardeal Pelágio, bateu em retirada e depois desintegrou-se
quando Frederico marchou
para socorrer a cidade. João de Brienne foi obrigado a fugir para a
Champagne, sua terra natal. Os templários pagaram um preço pela sua
rebeldia: suas casas na Sicília
foram tomadas pelas forças imperiais, e cem escravos muçulmanos que
pertenciam aos templários e aos hospitalários foram devolvidos aos
sarracenos sem que nenhuma
indenização fosse paga às ordens."'

O legado de Frederico à Terra Santa era uma Jerusalém livre, mas


uma Jerusalém tão estrategicamente vulnerável que "permaneceu uma cidade
aberta",2'° uma
administração imperial sob o marechal Ricardo Filangieri, que estava
constantemente em guerra com os barões nativos sob João de Ibelin tanto
na Palestina quanto
em Chipre. O rei titular de Jerusalém era Comado, filho da rainha
Iolanda com Frederico II, mas mesmo quando atingiu a maioridade Comado
não foi para o Oriente a
fim de reivindicar sua coroa, o que fez os barões declararem-na
confiscada por negligência e expulsarem Filangieri de Tiro. Alice de
Chipre foi escolhida como regente
pela Alta Corte de Jerusalém, mas o reino era na verdade governado por
uma oligarquia da nobreza franca que "desenvolveu um interesse
entusiástico e até fanático
pelo direito e pela legitimidade. Em nenhuma aristocracia cristã da
época, o conhecimento do direito e do processo consuetudinários e o
domínio das complexidades
do direito constitucional eram tão cultivados e nutridos como no reino
latino". Não havia universidades no ultramar, nem eruditos ou homens de
letras, exceto Guilherme
de Tiro. "Todas as energias intelectuais parecem ter sido concentradas
no estudo do direito. 11271
Nesse estado de pedante anarquia, as ordens militares agiam com
a autonomia de Estados soberanos. No norte, nas décadas de 1220 e 1230,
os templários tentaram
expandir-se para o território de Alepo a partir de sua

231
OS TEMPLÁRIOS

base em Gaston, nos montes Amanus, tornando-o "um território semi-


independente, no qual os templários agiam com autonomia, pouco
consultando seus senhores nominais
na Cilício".z'Z Na Síria e na Palestina, também, a riqueza e o poder dos
templários aumentaram porque a nobreza do ultramar, cujos feudos estavam
agora restritos
aos enclaves nas proximidades das cidades litorâneas, não tinha
condições de guarnecer seus castelos e portanto os transferira para as
ordens militares -em 1186,
por exemplo, Marqab, uma das maiores e mais fortes praças fortificadas
da Síria, foi vendida à Ordem do Hospital porque seu senhor já não podia
administrá-la. 273
,

Alguns membros da nobreza nativa prosperaram, notavelmente os


Ibe- ~.' lins, cujo luxuoso palácio em Beirute maravilhou um emissário
da corte imperial alemã;
mas os recursos que propiciavam esse luxo originavam-se agora r, menos
da terra do que dos lucros que poderiam ser auferidos do comércio. Acre
havia se transformado
num centro comercial em igualdade de condi- '' ções com Constantinopla e
Alexandria: a renda anual dos reis de Jerusalém proveniente de Acre era
estimada em 50.000
libras de prata e superior à do ~;á rei da Inglaterra na época.
Mercadores de Damasco para aí afluíam a fim de comerciarem com açúcar,
corantes e especiarias. Grande
parte do açúcar ,É consumido na Europa era exportada de Acre junto com
uma multiplicidade 5~` de produtos exóticos que não só abasteciam, mas
criavam um mercado
para artigos de luxo no Ocidente."' Por sua vez, os 250.000 habitantes
do ultramar proporcionavam um mercado para exportações européias, tais
como capas e boinas
da Champagne, e o interior muçulmano, para ferro, madeira, A produtos
têxteis e peles.
Também havia um ativo mercado de escravos, quer prisioneiros
muçulmanos, quer gregos, búlgaros, rutenos e valáquios importados por
mercadores das repúblicas
italianas. Estes eram vendidos como muçulmanos, já que por lei nenhum
cristão poderia se escravizado; mas os mercadores de escravos
desconsideravam esse estatuto
e os donos proibiam a conversão de seus escravos. No início do século
XIII, um bispo latino queixou-se de que "osf
.

cristãos continuamente recusavam o batismo de seus escravos muçulmanos,


'; embora estes o solicitassem com seriedade e em lágrimas";, 275 e em
1237 o papa Gregório
IX queixou-se do mesmo abuso aos bispos da Síria e aos, ;a grão-mestres
das ordens militares.
A conversão individual de muçulmanos livres também ocorria,
levando à assimilação à população síria cristã. Havia uma ampla opção de
igrejas cristãs - Católica,
Ortodoxa Grega, Maronita, Armênia, Jacobita e Nestoriana -,' mas as
tentativas ocasionais em Roma e Constantinopla para uni-las só foram
bem-sucedidas com os maronitas
no Líbano. Fossem quais fossem ~''

intenções dos papas, o clero latino estava apenas interessado numa unis

O REINO DE ACRE

com outras igrejas que assegurasse sua preeminência. Não só as igrejas


não quiseram unir-se, mas também não havia integração das diferentes
comunidades cristãs.
O tratamento que os latinos dispensavam aos cristãos nativos era um
pouco melhor do que aquele dispensado por eles aos muçulmanos, aos
judeus e aos samaritanos.z'6
Dado o grande esforço missionário da Igreja Católica nos séculos
IX e X, parece enigmático que os vitoriosos cruzados quase não se tenham
empenhado em ,,,
---erter os muçulmanos sob seu domínio. Com certeza, a conversão nunca
foi um objetivo das cruzadas em si. Embora o papa Urbano II sem dúvida
quisesse ajudar o imperador
bizantino, e talvez desviar a destrutiva agressão dos guerreiros francos
para uma causa nobre, suas intenções primárias eram, como as de Bernardo
de Clairvaux, a
reconquista cristã dos Lugares Santos e a salvação da alma do cruzado.
Foi somente no começo do século XIII que encontramos a gênese de
um esforço missionário, e, o que não é de surpreender, na Espanha, onde
o êxito da Reconquista
havia colocado um grande número de muçulmanos sob controle cristão.
Digno de nota é o fato de o bispo espanhol Diego de Osma e seu
companheiro Domingos de Gusmão
terem pedido ao papa Inocêncio III que os deixasse pregar o Evangelho
não aos sarracenos, mas aos pagãos da região do Vístula. Contudo, por
volta de 1255, Humberto
de Romans, o mestre-geral dos dominicanos, solicitou aos frades que
estudassem árabe e se empenhassem na conversão dos sarracenos.

Francisco de Assis, ao cruzar as linhas entre as forças cristãs


e muçulmanas no cerco de Damieta para pregar ao sultão al-Kamil no
Cairo, deu um exemplo
que seus frades mendicantes seguiriam, sua conduta pacífica granjeando-
lhes o privilégio de agir como os guardiães dos Lugares Santos, quando
estes voltaram ao controle
muçulmano. Todavia, Francisco de Assis não desaprovava a participação em
cruzadas. Ele admirava os heróis de Roncesvalles conforme descritos na
Canção de Rolando,
considerava como mártires aqueles que morreram combatendo o infiel,
aceitava o direito dos cristãos à Terra Santa e achava que se poderia
deduzir do Evangelho que
a cruzada era um ato legítimo de retribuição pela violenta conquista de
território cristão pelos sarracenos e por suas blasfêmias contra
Cristo.'"
Praticamente, o único bispo latino que fez uma tentativa de
converter os muçulmanos na Terra Santa foi o prelado francês Jacques de
Vltry, que foi nomeado
bispo de Acre. Ele tinha pouco apreço por seus correligionários na Terra
Santa e escreveu ao papa que os cristãos nativos tinham tanta aversão
aos latinos que preferiam
ser governados pelos muçulmanos, e que os latinos haviam se tornado
nativos, levando uma vida indolente, luxuosa e imoral. O clero local era
ganancioso e corrupto,
ao passo que os mercadores italianos

233
OS TEMPLÁRIOS

;sraam sempre às turras uns com os outros. As únicas instiuições que,ele


ulgo'a que poderia respeitar eram as ordens militares.
Conquanto Jacques de Vrtry fosse extraordinário na pregção da fé
cartóica ~os muçulmanos no ultramar, ele não a via como uma âernativa
para antpiiaro domínio
cristão pela força. Cruzado entusiástico,acompanho1u o caidã Pelágio ao
delta do Nilo. Também defendeu as ordens militares,,em particular os
templários, da acusação
de que estavam desobdec- do à in)unç0 de Jesus a Pedro no Evangelho de
Mateus para embaiinar sua espada - um argumento proposto na Europa não
apenas pelos herticos
cátaros e valdnses, como também por clérigos como Walter Map, range da
Abatdia de Sento Albano. Num de seus sermões pregados aos cavaleios do
Templlo e q,jeioram
preservados, Jacques de Vitry lhes díz que não cêem ouvidos a
taisugumentos de "falsos cristãos, sarracenos e beduínos".'8

D próprio fato de Jacques de Vitry julgar necessário


tranlüilizar os templários dessa forma sugere que eles ainda sentiam que
estavan seguindo um chamado
religioso. Embora eles apareçam nos registros históicos sobretludo
atra~ésde seu papel na guerra, ou através da atitude polítia assumida
por seuslideres, o cavaleiro
ordinário parece ter conservado a severa regra estabelecida no Concílio
de Troyes. Numa época em que as orc~ns monástiicas sáoireqüentemente
acusadas de falta de
firmeza e corrupção, nenhuma acwrção desse tipo parece ter sido feita
contra os cavaleiras. Vivendo não corro odor de incenso, mas de esterco
de cavalo, couro e
seor, eles devirem ter-se conscientizado do grau de desgaste entre os
que servirm na Palesttina e conhecido que mais cedo ou mais tarde
morreriam nas nãos dos inümigosla
sua fé.
Se olharmos mais uma vez para a regra e os atos penitenciais que
vieram aseredigidos em meados do século XII, teremos a impresúo de uma
wida aosiera, com
estrita disciplina e severa punição de qualqier transgressão dos-
egulamentos. O principal consolo humano dos cavaleiras era
provaivelrnerrea companhia dos outros
cavaleiros que tinham origen semelhantee. A amizade, como vimos, era
altamente apreciada na Ordem Cisterciense, e penebe-se pela regra que,
apesar da rivalidade
entre as duas ordens- rrivalidaJe essa que de vez em quando se
manifestava em conflito aberto -, a canrradagem dos cavaleiros e
sargentos da Ordem do Templo tambéml
era senda para com os irmãos da Ordem do Hospital. Os templários tinhalm
de obter permissão de seus superiores para comer ou beber ri,,
companhiaa de outos religiosos,
ou para visitar seus alojamentos, a menos que fosserrn os bos~italários.
Em batalha, era em volta do estandarte do Hospital que: um templário
tinha de se reunir
se perdesse de vista o estandarte militar de; sua ordem; e em 1260,
quando um contingente de templários recebeu de seu

234

O REINO DE ACRE

superior ordens para retirar-se de Jerusalém, seu comand arZ te não o


teria feito sem os hospitalários que se haviam juntado a eles.
As relações homossexuais entre os cavaleiros eram consideradas
como uma grave infração ca regra, um crime "contra a natureza e contra a
lei de Nosso Senhor".
Nos atos penitenciais, essa infração situa -se entre a perda da fé em
Cristo e a deserção no campo de batalha, todos punidos com a expulsão da
Ordem. Oestudo de
um exemplo fornecido no parágrafo 573 dos atos penite..;.:-is descreve
como, quando o caso de três irmãos no Castelo Peregrino "que cometeram
um pecado imoral e
se acariciaram mutuamente em seus aposentos à noite" foi levado à
atenção do grão-mestre, ele quis evitar levá-lo perante o capítulo do
Templo "porque o ato era
ofensivo demais". Em vez disso, eles foram convocados a Acre, onde
tiveram ele tirar seus hábitos e foram postos a `erro. Um deles, chamado
Lucas, fugiu e desertou
para os muçulmanos; o segundo tentou fugir, mas morreu durante a
tentativa; o terceiro "ficou na prisão por muito tempo"."'
Entre os principais vícios atribuídos aos templários estava a
avareza. A riqueza gerada pelas propriedades dos templários onde a
generosidade de doadores
pios tinha sido explorada por uma administração eficiente inspirou
inveja e ressentimento naqueles na Europa que ignoravam as enormes
despesas que pesavam sobre
a Ordem, não só na Terra Santa mas por toda a cristandade. O Templo,
como o Hospital, era uma força multinacional cujos fundos eram providos
por uma corporação multinacional
que combatia os inimigos da Igreja etn várias frentes. Seis cavaleiros
do Templo morreram lutando contra os mongóis na batalha de Legnica, na
Europa Oriental, em
1241. O Templo continuava a ser uma potência considerável em Portugal e
na Espanha, embora sua relativa contribuição para a Reconquista tivesse
declinado: quando
os cristãos atacaram Maiorca em 1229, os templários contribuíram com
apenas cerca de quatro por cento da força. Mesmo em Aragão se aceitava
que a principal missão
dos templários era na Terra Santa: recrutas para a Ordem, cavalos e
entre um terço e um décimo de sua receita eram enviados para o Oriente.Z

Da mesma forma que instituições de caridade modernas criam


investimentos, os templários usavam seus fundos não só para darem
continuidade à guerra contra
os sarracenos, mas também para expandirem suas propriedades no Oriente.
Quando João de Ibelin estava desesperado para arrecadar fundos a fim de
combater Frederico
II, ele obteve o dinheiro vendendo terras ao Templo e ao Hospital. Esse
reinvestimento da renda dos templários foi alvo de críticas do papa
Gregório IX: "muitas
pessoas foram forçadas à conclusão", escreveu ele ao grão-mestre, "de
que vosso principal objetivo é
aumentar vossas propriedades nas terras dos fiéis, quando deveria ser
tomar

235
OS TEMPLÁRIOS

das mãos dos infiéis as terras consagradas ao sangue de Cristo"."' Eles


também foram acusados de ser brandos com os muçulmanos, recebendo-os em
suas casas e permitindo-lhes
que rezassem a Alá nas comunidades dos templários; por ironia, essa
acusação foi feita por Frederico II numa carta a Ricardo, conde da
Comualha, em 1245.

A Ordem também gastava prodigamente na sede da sua corporação na


cidade de Acre, a qual, repudiando a administração do governador de
Frederico, Ricardo Filangieri,
era administrada por uma comuna. Os diferentes bairros da cidade eram
"repúblicas em miniatura cercadas por muralhas e torres";282 suas ruas,
conforme descritas
pelo escritor muçulmano lbn Jubayr, "estão atulhadas pela multidão de
homens, de modo que é difícil pôr o pé no chão. Ela cheira mal e é
imunda, estando repleta
de lixo e excrementos"."' O complexo do Templo ficava nos contrafortes
da cidade que davam para o mar e formava um trecho essencial às defesas
da cidade. "À entrada",
escreveu o templário de Tiro,

havia uma fortificação muito alta e forte, com muralhas muito grossas,
um bloco
de seis metros. De cada lado da fortaleza havia uma pequena torre, e em
cada
uma delas um leão passante tão grande quanto um boi cevado, todo coberto
de
ouro. O preço dos quatro leões, incluídos o material e a mão-de-obra,
era de 1.500
besants sarracenos. Era maravihoso de contemplar. Do outro lado, em
direção ao
bairro pisano, existia uma torre. Bem próximo, acima do mosteiro de
freiras de
Santa Ana, havia outra torre enorme com sinos e uma igreja maravilhosa e
altís
sima. Além disso, havia uma torre na praia. Era uma torre antiga, de cem
anos,
construída por ordem de Saladino. Aí os templários guardavam seu
tesouro. Essa
torre ficava tão perto da praia que as ondas do mar nela batiam. E
existiam muitas
outras belas habitações no Templo, que me absterei de mencionar .214

Contudo, muitas das acusações feitas contra os templários eram


contraditadas por outros. Quando o rei Jaime I de Aragão, no Segundo
Concílio de Lyon, acusou
os templários de deliberadamente atrasarem a decisão a respeito de uma
nova cruzada contra os mouros, a acusação não foi apoiada pelos demais
membros da delegação
espanhola;"5 e o franciscano inglês Roger Bacon atacou não a
pusilanimidade, mas a agressividade dos templários, que para ele impedia
a conversão de muçulmanos ao
cristianismo. Além disso, todas as ordens religiosas nesse período, com
a exceção dos cartuxos, foram criticadas por sua extravagância e pela
traição de seus objetivos
originais - o Templo, de modo geral, menos do que as ordens de monges e
frades. Os leões de ouro eram ;sem dúvida desnecessários, e Hugo de
Payns não pode ter contemplado
o mestre dos seus Pobres Soldados de Jesus Cristo vivendo num palácio;
mas a proporção de recursos destinados pelo Templo

236

O REINO DE ACRE

aos objetivos de sua fundação original teria sido comparada de forma


favorável com a de outras instituições religiosas e até com algumas
instituições de caridade
de hoje. Com certeza, os papas, embora ocasionalmente repreendessem o
Templo, eram efusivos no elogio das ordens militares em suas bulas e
continuavam a defendê-las
pela concessão de privilégios e isenções.

Também estava claro que as finanças das ordens militares foram


afetadas em conseqüência de despesas que aumentavam inexoravelmente. A

terra necessária para equipar e manter um cavaleiro burgúndio em 1180


atingia cerca de 750 acres; pelos meados do século XIII isso havia
quintuplicado, chegando
a quase 4.000 acres;"' o custo, bem como a importância

militar, transformava um cavaleiro completamente armado, com seu séquito


de escudeiros e sargentos, no equivalente de um tanque pesado de hoje.
Apesar da evidência
de que o Templo tinha com freqüência dinheiro à disposição, suas
despesas administrativas eram consideráveis: nos Estados lati-

nos do ultramar, eles guarneceram e mantinham pelo menos cinqüenta e


três castelos ou estações de posta fortificadas, que abrangiam de
grandes fortalezas, como o
Castelo Peregrino, a pequenas torres de vigia nas rotas

dos peregrinos. No apogeu da prosperidade da Ordem, existiam quase mil


comunidades dos templários na Europa e no Oriente, e cerca de 7.000 mem-

bros. Estima-se que o número de auxiliares não-professos e dependentes


tenha sido sete ou oito vezes esse número. A proporção entre pessoal de
apoio e combatentes
era de cerca de 3:2.28' Por volta de meados do século XII, a Ordem havia
construído sua própria frota de galeras, que transportava cavalos,
cereais, armas, peregrinos
e pessoal militar. As companhias de transporte tradicionais sofriam com
essa competição pelo lucrativo transporte de

peregrinos, e em 1134 a cidade de Marselha limitou os templários a um


embarque de peregrinos por ano. 288

A despeito de seu envolvimento nos aspectos financeiros, logísticos e


mffi 1
i itares da guerra, os templários não parecem ter perdido de vista seu
com-

promisso de defender a Terra Santa e reconquistar Jerusalém. Uma das


primeiras traduções do latim para o vernáculo foi a do Livro dos Juízes,
enco-

mendada pelo Templo, a fim de que, nas palavras de sua introdução, eles
pudessem aprender do "cavalheirismo" do período e ver "que honra é
portanto servir a Deus
e como Ele recompensa os seus 11.181 Uma vez que a maioria dos
cavaleiros, dos escudeiros e dos sargentos eram analfabetos, tais
leituras visavam não apenas à sua
instrução, mas a manter seu estado de ânimo. O Livro dos Juízes foi uma
boa escolha. Enquanto o Livro de Josué descreve a conquista da Terra
Prometida pelos judeus
numa série de eficazes campanhas

militares, "o Livro dos Juízes a vê como um fenômeno mais complexo e


gradual, pontuado por êxito e fracasso parciais". Havia uma íntima e
inquestioná-
OS TEMPLÁRIOS

vel identificação dos cristãos na Palestina com os israelitas de


antigamente. As narrativas do Antigo Testamento, ao contrário dos ditos
de Jesus no Novvo, entendem
que a pilhagem sistemática do inimigo é parte da guerra e, naturalmente,
que não só é permitida, mas na verdade ordenada por Deus,ZVo

Em 1239, o tratado de Frederico II com o sultão egípcio al-Kamil deveria


expirar. Ciente disso, o papa Gregório IX pregou outra cruzada. Ela foi
encorrajada pelos
reis da França e da Inglaterra, mas nenhum deles tomou a Crwz. Em vez
disso, como nos dias da Primeira Cruzada, nobres francos de mentor
importância partiram para
a Terra Santa, lideradospor Teobaldo, conde ode Champagne. Ele era primo
dos reis da Inglaterra, da França e de Chipre:, e via a cruzada como o
apogeu da bravura
cavalheiresca: "é cego", disse eile, "quem nem uma vez na vida cruzou o
mar para ir em auxílio de Deus".z9'1

A complexidade da situação política na Terra Santa confundia os


novros cruzados, e os conselhos que eles recebiam eram contraditórios.
Os ayyúlbidas estavam
era guerra uns com os outros, e Ismail, o sultão de Damascco, propôs um
acordo com os francos contra seu sobrinho Ayyub, filho de al-Kamil,
agora sultão do Cairo.
Em retribuição pela defesa da fronteira qlue dava para o deserto do
Sinai, ele lhes daria as fortalezas de Beaufort e Safeed. Antes de
Hattin, Safed pertencera aos
templários, eeles estavam agora ansiosos da sua devolução.

O acordo foi firmado, e em conseqüência as propriedades dos


latinos na Palestina eram agora mais numerosas do que em qualquer época
desde Hattin; mas o custo
foi considerável para ambas as partes. Muitos muçulmanos zelosos entre
os damascenos desertaram para os egípcios, ao passo que no lado cristão
ele levou a uma animosidade
total entre os templários e; os hospitalários, que até então tinham
formado uma frente comum contra, os lacaios de Frederico II. Ignorando o
acordo firmado com Ismail
em Damasco, os hospitalários; assinaram um tratado com Ayyub no Cairo.

Essa foi a confusa situação que Ricardo, conde da Cornualha,


sobrinho

de Ricardo Coração de Leão, irmão de rei Henrique 111 e cunhado do


imperador Frederico II, encontrou ao chegar à Terra Santa. Aos 32 anos,
ele já tinha firmado uma
reputação de coragem e competência. Ele veio com recursos consideráveis
e também com a plena autoridade do imperador, que, após a morte da
infeliz rainha Iolanda
de Jerusalém, desposara a princesa Isabel da Inglaterra.
Ricardo encontrou o reino de Jerusalém num estado de caos, mas
com tato e energia chegou a um acordo tanto com Damasco quanto com o
Egito que resultou na;
libertação de todos os prisioneiros cristãos mantidos no Cairo e na
confirmaação da posse pelos latinos das terras recentemente cedidas.

238

O REINO DE ACRE

Mas ele mal havia zarpado para a Inglaterra quando esse acordo se
desfez. O grão-mestre do Templo, Armando de Périgord, ignorou o tratado
com o Egito e em 1242 atacou
a cidade de Hebron, que tinha permanecido nas mãos dos muçulmanos. Em
seguida, após uma fraca reação dos egípcios, os templários tomaram
Nablus, queimaram sua mesquita
e mataram muitos de seus habitantes muçulmanos e também cristãos.

Quase ao mesmo tempo, o bailli imperial, Ricardo Filangieri,


tentou reimpor a autoridade de Frederico II em Acre com a ajuda dos
hospitalários. O golpe fracassou,
resultando num cerco de seis meses do Hospital composto pelas forças do
líder dos barões latinos, Balião de Ibelin, auxiliado pelos templários.
Esse conflito aberto
entre as duas ordens militares escandalizou a opinião pública na Europa,
e a culpa foi atribuída aos templários pelos cronistas que apoiavam o
grupo imperial, como
o monge da Abadia de Santo Albano, Mateus Paris. Os templários, escreveu
ele, não permitiam, que se enviasse comida ao complexo do Hospital ou
que os hospitalários
trouxessem seus mortos para fora. Eles também expulsaram os cavaleiros
teutônicos de algumas de suas propriedades: como era escandaloso que
"aqueles que se tinham
abarrotado de tantas rendas, a fim de serem capazes de atacar de modo
eficaz os sarracenos, estivessem impiamente dirigindo a violência e o
rancor contra os cristãos,
na verdade contra seus próprios irmãos, atraindo assim, da forma mais
grave, a ira de Deus sobre eles".z93
Não pode haver dúvida de que o Templo, sob Armando de Périgord,
era um grupo antümperial que apoiava Alice, a rainha de Chipre, como
regente do reino de
Jerusalém e aceitou a legalidade de se excluir Comado, filho da rainha
Iolanda com Frederico II, quando ele atingiu a maioridade em abril de
1243, argumentando que
ele não visitara a Terra Santa para reivindicar a coroa. Nisso eles não
estavam sozinhos. Os venezianos e os genoveses eram da mesma opinião, e
no verão de 1243
aliaram-se aos barões do ultramar na expulsão de Filangieri e dos
imperialistas de Tiro. Mas isso não foi necessariamente uma expressão de
inveja ou da busca de
seus próprios interesses pela Ordem. Numa carta a Roberto de Sandford
escrita em 1243, Armando de Périgord explicava os fundamentos de seu
plano de ação. Emissários
dos templários que tinham sido enviados ao Cairo estavam sendo mantidos
em virtual cativeiro. Não se podia confiar nos egípcios, que estavam
apenas ganhando tempo.
Em compensação, a aliança com Damasco havia assegurado não apenas a
devolução de várias fortalezas e extenso território, como também a
expulsão dos muçulmanos que
permaneceram em Jerusalém.
Para consolidar a aliança damascena, o príncipe muçulmano de
Homs, ai-Mansur Ibrahim, foi convidado a Acre, onde foi prodigamente
recebido no Templo. As
comemorações foram prematuras. Para conter as forças que se ali-

2i9
OS TEMPLÁRIOS

nharam contra ele, o sultão egípcio Ayyub recorreu a uma tribo selvagem
de

nômades mercenários que haviam se estabelecido perto de Edessa, os


turcos khwarezrnitas. Em junho de 1244, uma força de dez mil soldados de
cava, laria khwarezmitas
invadiu o território damasceno e, passando ao largo da pró. pria
Damasco, dirigiu-se para a Galiléia e capturou Tiberíades. No dia 11 de
junho, os khwarezmitas chegaram
a Jerusalém e romperam suas frágeis dele. sãs. Por algum tempo sua
guarnição resistiu, mas em 23 de agosto, num salvo-conduto assegurado
pelo senhor muçulmano de
Kerak, a guarnição e toda a população cristã deixaram a cidade em
direção a Jafa, e então, vendo bandeiras francas nas muralhas de
Jerusalém e imaginando que a cidade
tinha sido socorrida, regressaram, apenas para serem massacrados pelos
khwarezmitas, que estavam à sua espera. Somente trezentos deles
alcançaram Jafa.
Os khwarezmitas então saquearam a cidade, desenterraram os ossos
de Godofredo de Bouillon e dos outros reis de Jerusalém enterrados na
Igreja do Santo Sepulcro
e mataram os poucos padres que ali tinham permanecido, antes de atearem
fogo à igreja. Em seguida, após evacuarem a cidade vazia, cavalgaram
para a costa, juntando-se
ao exército egípcio do sultão Ayyub em Gaza, sob o comando de um jovem
oficial muçulmano, Rukn ad-Din Baibars.
Em 17 de outubro de 1244, numa planície arenosa perto da aldeia
de Herbiya conhecida pelos francos como Lã Forbie, essa hoste egípcia
confrontou-se com os
exércitos associados de Damasco e de Acre. As forças damascenas eram
lideradas pelo príncipe de Homs, ai-Mansur Ibrahim, e incluía um
contingente de soldados de
cavalaria beduínos sob o senhor de Kerak, anNasir. O exército cristão
era o mais considerável que tinha sido reunido desde Hattin. Havia
seiscentos cavaleiros seculares
sob Filipe de Montfort e Gualtério de 8rienne e seiscentos do Templo e
do Hospital liderados por seus grão-mestres, Armando de Pé rigord e
Guilherme de Châteauneuf.
Também havia vários cavaleiros teutônicos e um contingente de Antioquia.
Como eri7 Hattin, houve uma controvérsia entre os aliados sobre
se deveriam atacar ou permanecer na defensiva: ai-Mansur Ibrahim era a
favor da segunda alternativa,
Gualtério de Brienne, da primeira, e foi o ponto de vista de Gualtério
de Brienne que prevaleceu. O superior exército aliado avançou contra os
egípcios, mas estes
fizeram face a ele e a cavalaria khwarezmita atacou o seu flanco. As
tropas damascenas puseram-se em fuga, e com elas seguiu an-Nasir, o
senhor de Kerak. Numa questão
de horas, o exército latino foi destruído. Pelo menos 5.000 foram mortos
e 800 prisioneiros foram levados para o Egito, entre eles o grão-mestre
do Templo, Armando
de Périgord. A perda total do Templo foi de 260 a 300 cavaleiros. Dos
cavaleiros das ordens militares, apenas trinta e três templários, vinte
e seis hospitalários
e três cavaleiros teutônicos sobreviveram.

240

Luís da França

Quem agora poderia salvar a Terra Santa? Na Europa Ocidental, a acerba


rivalidade entre o papado e o imperador Frederico excluía o líder leigo
da cristandade de
reassumir o papel. Em todo o caso, Frederico sentia que seus inimigos na
Palestina, em particular os templários, tinham provocado sua própria
destruição ao quebrarem
essa cuidadosamente elaborada trégua com os ayyúbidas do Egito.
Apenas um monarca europeu estava em condições de liderar uma
nova cruzada, e este era o rei Luís IX da França. Felizmente, ou por
coincidência, no mesmo
ano da catastrófica derrota em Lã Forbie, Luís, tendo adoecido com
febre, provavelmente malária, sentiu-se bastante perto da morte e do
julgamento para se decidir,
caso se recuperasse, a tomar a Cruz.
Filho de uma mãe extraordinária, Branca de Castela, e casado com
Margarida da Provença, ambas de famílias com uma longa tradição de
serviço na guerra contra
o Islã, Luís herdara o trono da França na infância e o conservou graças
à enérgica regência de sua mãe. Aos quinze anos de idade, Luís comandara
uma campanha armada
contra o rei da Inglaterra, Henrique III. Bonito, bem-humorado,
expansivo, ocasionalmente genioso, Luís, em comparação com Frederico II,
era também profundamente
pio e impérturbado por dúvidas acerca da fé católica. No começo de seu
reinado, sob o Tratado de Paris, ele firmou o domínio francês sobre o
Languedoc e afinal pôs
termo à heresia cátara. Ele não tinha escrúpulos em usar a força para
defender a religião cristã. A seu amigo João de Joinville ele disse que
um cavaleiro, "sempre
que fica sabendo que a religião cristã é difamada, não deveria tentar
defender seus dogmas, a não ser com a espada, e que deveria enfiá-la na
barriga do patife até
onde ela pudesse penetrar ".z94Ainda que as palavras de Luís talvez não
tenham sido tão brutais como Joinville as recordou na velhice, elas
estão em marcante contraste
com os pontos de vista céticos do imperador Frederico II.
Ao contrário de Frederico, Luís tinha uma única mulher, com quem
era feliz. Seu afeto por Margarida da Provença provocou o ciúme da mãe
dele:

241
OS TEMPLÁRIOS
quando recém-casados, eeles tinham aposentos separados e só ousavam i

contrar-se nas escadas, ro'egressando a seus quartos ao serem alertados


I seus criados da aproximOção da rainha-mãe. Durante a cruzada,
Joinville provou Luís por
esperar qque a missa terminasse antes de se erguer para sau-

Jar Margarida, que acabalira de chegar como filho recém-nascido-ruas


isso tos provavelmente um sirinal de sua religiosidade, e não de
indiferença p

com a esposa. Não existem indícios de desavença: Margarida deu à luz


onze

filhos do rei.

Luís IX tinha paixão por relíquias. Ele comprou a Balduíno, o imperador

latino de Bizãncio, a Core.'oa de Espinhos e a carregou descalço pelas


ruas de Paris até a requintada calpela que construiu para abrigá-la,
Sainte-Chapelle, na ile
de Ia Cité. Ele tamlbém dotou várias instituições religiosas, entre elas

a Abadia de Royaumont, mas não se deixou intimidar pelos bispos


franceses

para intervir no conflito centre o imperador e o papa. O zelo de Luís


pela justiça e sua escrupulosa ateenção às necessidades dos pobres
firmaram sua reputação de
santidade e ctonferiram-lhe prestígio inigualável, mas foi a toma=

da da Cruz que marcou o seu reinado, pois "empreender uma cruzada


continuava a ser amais elevada expressão das idéias cavalheirescas da
aristocracia no Ocidente".
295

Assim que o juramer!lto foi feito, Luís preparou-se para a


cruzada com a mesma eficiência que demonstrara ao reprimir seus vassalos
revoltosos e ao reorganizara
administracção da França. Seu primeiro objetivo foi angariar o dinheiro
para custear suar expedição ao além-mar. Ele o fez com um imposto de um
vigésimo sobre os
recursos da Igreja e subvenções das cidades. Como o porto de Marselha na
(ocasião ficou sob a supremacia do imperador, Luís construiu uma nova
saída para o Mediterrâneo
em seu próprio território, o porto de Aigues Mortes. Foi daí que ele
embarcou para a Terra Santa em 25 de agosto de 1248. Seus irmãos e
muitos de seus vassalos seguiram-no
com relutância, bem como su;a esposa, a rainha Margarida, e seus filhos.
A França foi deixada ao encargo d mãe dele, Branca de Castela.

A Luís juntaram-se- cruzados de fora da França, tais como João


de Joinville, o senescal da C:hampagne. O ponto de reunião do exército
cruzado foi Chipre,
onde, em conseqüência de cuidadoso planejamento, haviam reunido
suprimentos para o ,exército de Luís, de cerca de 25.000 homens, entre
eles 5.000 besteiros e 2.
600 cavaleiros. O rei Luís aí permaneceu durante o inverno. Em janeiro
de 1249, ele enviou dois pregadores dominicanos como emissários ao cã
mongol> na expectativa
de que seu ascendente poder na Ásia, que diziam ser favorável ao
cristianismo, pudesse juntar forças contra o Islã.

242

IÍS DA FRANiA

Aceitando o mesmo ponto cde vista esaatégico do cardeal Pelágio,


de que era somente pela subjugaçã~jo do Egito cue a Terra Santa poderia
ser garantida, e
não dissuadido pelo fraQCasso da crtzada anterior, Luís e seu exérci-

to zarparam no fim de maio Pai rxa o delta do Nilo. Na madrugada de 5 de


junho, a esquadra latina ancoroL 1 diante de :)amieta. O exército
muçulmano, comandado por
Fakhr ad-Di nl, amigo do mperador Frederico, estava esperando em terra
firme. "Era uri-r1a visão que encantava os olhos", recordou
j1 ille na velhice, 14 pois as arn--x;~as
o'nvl do sultãoeram todas de ouro, e quando O
sol batia nelas, elas resplandeci .ym esplendidamente. A algazarra que
esse
exército fazia com seus timbales ee suas trompas sarracenas era
atemorizante
de ouvir." As forças latinas eram ì2yualmente ostentosas: a galera do
conde de

Jafa "era coberta, tanto abaixo cot,mo acima da água, com brasões que
ostentavam suas armas (...). Ele tinhas pelo mencs trezentos remadores
em sua galera; ao lado
de cada remador estava um pequeno escudo com as armas do

conde nele, e a cada escudo estaN,la presa ume flâmula com as mesmas
armas trabalhadas em ouro 11.296

Embora aconselhado a espe rw parte de sua esquadra que se havia


dispersado numa tempestade, Lu is; ordenou c desembarque e, assim que a

oriflamme foi fincada na praia, li deerou seus valeiros contra os


sarracenos, que, incapazes de resistir ao irrip)acto do assalto dos
francos, retiraram-se para
Damieta e então abandonarmm a cidade, queimando o bazar. Foi uma vitória
fácil e rápida, pela qual o roei Luís deu graças a Deus; mas, lembran-

do-se do destino da Quinta Cruzada sob o cardeal Pelágio, ele não


perseguiu os egípcios rio acima. Em vez diss,o, estabeleceu Damieta como
sua capital temporária
no ultramar, mandaryo buscar a rainha Margarida em Acre e

aguardando reforços da França liderados por seu irmão Afonso, conde de


Postou, e que as águas do Nilo baixassem.

Em 20 de novembro Luís serntiu-se disposto a mover-se mais para


o interior do Egito. Rejeitando os conselhos dos barões do ultramar para
mover-se contra
o porto de Alexandria, ele :=oi persuadido por seu irmão Roberto, conde
de Artois, a marcl-ler para o sul, ao longo da margem oriental do Nilo,
em direção a Mansurá.
Na vanguarda do seu exército escavam os cavaleiros da Ordem do Templo
sob seu grão-mestre, Guilherme de Sonnac, escolhido após a morte de
Armarld o de Périgord numa
prisão egípcia. Atrás deles vinham o conde de Artois e um contingente
inglês sob o conde de Salisbury. Guiada a uma passagenn do rio por um
beduíno apóstata, essa
força, sem esperar pelo resto do exercito conforme as instruções do rei
Luís,

atacou o acampamento sarraceno, omde o comandante, Fakhr ad-Din, estava


tomando banho. Sem esperar para Pôr sua armadura, ad-Din cavalgou para o
campo de batalha
e foi morto pelos cavaleiros da Ordem do Templo.

,JÁ 2
OS TEMPLÁRIOS

Roberto de Artois preparou-se então para perseguir até Mansurá


os sarracenos que bateram em retirada. O grão-mestre do Templo,
Guilherme de Sonnac, tentou
detê-lo. Ele já estava irritado pelo fato de o irmão do rei ter usurpado
a posição dos templários na vanguarda. Os cronistas divergem quanto ao
que aconteceu em
seguida. João de Joinville, ainda com o principal destacamento do
exército na margem sul do rio, escreveu mais tarde que Guilherme de
Sonnac insistiu para que o
conde de Artois aguardasse os templários para liderar o ataque, mas,
como o cavaleiro que segurava a rédea do conde era surdo, ele não
conseguiu passar a mensagem
adiante. De acordo com o cronista Mateus de Paris, Roberto de Artois
ouviu o grão-mestre muito bem, mas respondeu-lhe com insultos, repetindo
a calúnia de Frederico
II de que os templários não tinham interesse numa vitória total porque a
Ordem lucrava com a guerra contínua. Quando o conde de Salisbury sugeriu
que talvez o grão-mestre
dos templários tivesse a vantagem da experiência de combater os
sarracenos, Roberto de Artois disse que ele também era covarde, cravou
as esporas nos flancos de
seu cavalo e galopou à frente de seus cavaleiros franceses.

Sentindo que não tinham escolha, os templários e os cavaleiros


ingleses seguiram o conde de Artois até a cidade de Mansurá na
perseguição dos sarracenos
que bateram em retirada. Aí nem tudo era tão caótico quanto parecia.
Embora Fakhr ad-Din estivesse agora morto, o oficial comandante da
guarda mameluca de elite,
Rukn ad-Din Baibars Bundukdari, havia assumido o comando. Oferecendo
pouca resistência inicial aos cavaleiros latinos, ele esperou até que
eles tivessem penetrado
na cidade e alcançado os portões da cidadela antes de ordenar a seus
homens, que aguardavam nas ruas transversais, que atacassem os cruzados.
Incapazes de executar
manobras nas ruas estreitas, e pegos de surpresa por vigas atiradas dos
telhados, os cavaleiros foram massacrados. Trezentos cavaleiros
morreram, entre eles o conde
de Salisbury e o conde de Artois. Os templários perderam 280; apenas
dois regressaram com vida, um deles o grão-mestre Guilherme de Sonnac,
que se tinha retirado
da peleja depois de perder um olho.

Conquanto esse revés tivesse sido causado pela vanglória e


impetuosidade de Roberto de Artois, ele foi uma antecipação do que
estava por vir. Assim que o
exército principal cruzou o braço do Nilo, travou batalha com as forças
muçulmanas. Joinville, já ferido, viu o rei Luís numa estrada elevada à
frente de seu exército,
a própria imagem da bravura e da honra. "Nunca vi cavaleiro mais
distinto ou mais bonito! Sua cabeça e seus ombros pareciam elevar-se
acima de toda a sua comitiva;
ele trazia na cabeça um elmo dourado e na mão uma espada de aço
alemão."z9' Após um dia de luta feroz, os egípcios foram forçados a
voltar para Mansurá. Quando o
chefe do capítulo

LUÍS D DA FRANÇA

dos hospitalários disse a Luís que se;eu irmão Roberto de Artois "estava
agora no paraíso (...) grossas lágrimas commeçaram a cair de seus
olhos".

Naquela noite, os egípcios fizereram uma sortida a partir de


Mansurá e mais uma vez foram derrotados. NNo dia 11 de fevereiro eles
atacaram de novo, e nesse
combate Guilherme doe Sonnac, à frente dos poucos templários que
restaram, perdeu seu segundo O olho e em seguida morreu. O exército de
Luís foi quase destruído,
mas o centltro agüentou firme, e por fim os egípcios retiraram-se
novamente para Manstsurá. Agora estava claro que, embora os cruzados não
pudessem ser vencido;os,
a cidade tampouco podia ser tomada. A maior esperança de Luís residia a
no desfecho da' convulsão política no Cairo que se seguiu à morte do
su141tão Ayyub e de
seu comandante, Fakhr ad-Din. Durante oito semanas ele eesperou,
acampado diante das muralhas de Mansurá. Mas o caos na corte aytyyúbida
tinha sido evitado pela
sultana viúva, e no fim de fevereiro Turanslshah, filho de Ayyub,
regressou da Síria para assumir o comando. Transpor)rtando uma esquadra
de embarcações leves no
lombo de camelos até o l Nilo a jusante do exército cruzado, os
muçulmanos cortaram a ligação deeste com Damieta e interromperam o
suprimento de alimentos frescos.
A c doença disseminou-se no acampamento dos cruzados. O próprio Luís
sofreL;u de disenteria crônica, e seus criados, conta-nos Joinville,
porque ele era ""continuamente
obrigado a ir à privada, tiveram de cortar a parte inferior dee suas
ceroulas". Ele ordenou uma retirada para Damieta, mas, a despeito c de
sua enfermidade, recusou-se
a abandonar seus homens e fugir numa gal,,lera. Perseguido pelos
egípcios, Luís foi afinal feito prisioneiro e obrigado a t render-se.
Joinville foi salvo da morte
quando se descobriu que sua esposa cera prima do imperador Frederico.
Prisioneiros de alguma posição social forar,m mantidos para a obtenção
de resgate, e os menos
eminentes foram mortoos. Na cidade de Damieta, a guarnição pisam e
genovesa foi dissuadida de ddeserção pela rainha Margarida: a cidade foi
de inestimável vantagem
nas neggociações que se seguiram e, junto com um resgate de um milhão de
besants; ou meio milhão de livres tournois, comprou a liberdade do rei e
de seu exér;rcito.

A arrecadação de dinheiro para co pagamento desse resgate


ensejou um incidente que revela a escrupulosiddade, ou a obstinação, dos
templários. Durante a
contagem do dinheiro para pagar o depósito combinado, descobriu-se que
faltavam ao rei trinta mill livres, e disso dependia a libertação de seu
irmão, o conde de
Poitiers. João d3e Joinville sugeriu que se tornasse essa quantia
emprestada dos templários, e com a autorização do rei foi pedir o
empréstimo. O pedido foi recusado
pelo comandante do Templo, Estêvão

de Otricourt, com o pretexto de quer havia jurado jamais não ser para os
que o haviam colocadjo sob seus cuidados.

liberar dinheiro, a
OS TEMPLÁRIOS

Isso levou a uma acerba discussão entre Joinville e Otricourt,


até que o marechal do Templo, Reinaldo de Vichiers, propôs uma solução.
Os templários não
poderiam quebrar seu juramento, mas não havia nada que pudesse impedir o
rei de tomar seus fundos 2 força, em particular porque o Templo
conservava os depósitos
daquele emAcre e poderia deduzir esse empréstimo forçado quando ele
retornasse. Portanto, Joinville foi à galera dos templários, arrombou um
cofre com um machado
e tornou a Luís com o dinheiro.
Com a libertação de seu irmão garantida, o rei Luís foi com seu
séquito de navio para Acre, onde encontrou cartas de sua mãe, Branca de
Castela, instando
para que ele retornasse à França. O mesmo conselho foi dado por seus
irmãos e seus barões; mas não foi apenas um exército francês que fora
derrotado no Nilo: as
forças dos cristãos no ultramar tinham sido seriamente enfraquecidas
pelo desastre. Luís estava relutante em deixar a Terra Santa numa
situação tão perigosa ou em
abandonar os prisioneiros francos ainda mantidos no Egito; e por isso,
enquanto a maioria de seus vassalos franceses, entre eles seus irmãos,
regressou à Fança com
a sua bênção, ele permaneceu em Acre com sua esposa e filhos. O legítimo
rei de Jerusalém pode ter sido Contado, o filho de Frederico II com a
rainha Iolanda, mas
Luís foi aceito como governante defacto; e então tentou obter pela
diplomacia o que não conseguira obter pela força.

No Cairo, o poder tinha sido tomado pelo regimento de elite de


guerreiros escravos, os mamelucos. Capturados ainda meninos às tribos de
turcos kipchak que viviam
nas estepes do sul da Rússia, eram vendidos pelos mercadores de escravos
aos sultões ayyúbidas, que os educavam como uma força militar sem
vínculos e, portanto,
sem lealdades a qualquer classe ou facção. Descritos pelo cronista árabe
Ibn Wasil como "os templários do Islã",298 eles haviam obtido uma
influência sobre os sultões
ayyúbidas que se afigurava ameaçadora quando o filho de Ayyub,
Turanshah, chegou ao poder. Em 2 de maio de 1250, em meio às negociações
com o rei Luís, os mamelucos
assassinaram Turanshah e puseram fim ao domínio dos descendentes de
Saladino no Egito. Todavia, os ayyúbidas permaneceram no poder na Síria,
e, ao saber da notícia
do golpe dos mamelucos, an-Nasir Yusuf, neto de Saladino e sultão de
Alepo, ocupou Damasco e enviou imediatamente uma embaixada ao rei Luís
para pedir sua ajuda.

O rei Luís usou essa abordagem para pressionar os mamelucos a


chegarem a um acordo, enviando um emissário, João de Valenciennes, ao
Cairo. Sem que o rei
soubesse, os templários estavam seguindo uma iniciativa diplomática
própria. O ex-marechal da Ordem, Reinaldo de Vichiers, tinha

v-

LUÍS DA FRANÇA

sido eleito grão-mestre em sucessão a Guilherme de Sonnac. Reinaldo fora

sem dúvida o candidato predileto do rei Luís, pois fora preceptor dos
templários na França enquanto Luís estava preparando sua cruzada,
providenciara transporte
para as tropas dele a partir de Marselha, fora o marechal de Luís em
Chipre, seu camarada de armas no Nilo, e era padrinho do filho que a
rainha Margarida tivera
no Castelo Peregrino, o conde de Alençon.

Assim que se tornou grão-mestre, contudo, as pretensões do cargo


devem ter-lhe subido ã cabeça. Sem consultar o rei Luís, ele enviara o
mare-

chal da Ordem, Hugo de Jouey, a Damasco para negociar com o sultão a


respeito de uma disputada extensão de terra. Tendo chegado a um acordo,

Hugo retornou com um emir damasceno para que o acordo fosse ratificado
em Acre. Ao descobrir o que tinha acontecido sem o seu conhecimento, o
rei Luís teve um acesso
de fúria e insistiu não só que o tratado fosse anulado,
mas também que o grão-mestre do Templo e todos os seus cavaleiros se
humilhassem perante todo o exército, caminhando descalços pelo acampa-
mento e ajoelhando-se em submissão diante do rei. O bode expiatório foi
Hugo de Jouey, a quem Luís baniu do reino de Jerusalém - sentença que
ele não rescindiu,
apesar dos apelos do grão-mestre e da rainha. Sem dúvida, esse gesto
visava menos a firmar sua autoridade entre os latinos do que a causar
nos mamelucos a impressão
de que ele estava no comando. Sua política foi bem-sucedida: em março de
1252, todos os prisioneiros cristãos ainda mantidos pelos mamelucos
foram postos em liberdade.

Havia dois outros poderes na região com os quais Luís negociou durante
sua estada em Acre. O primeiro foi o Velho da Montanha, o líder dos
assassinos, que enviou
emissários logo após o regresso de Luís de Damieta, a fim de exigir o
tributo, ou dinheiro em troca de proteção, que eles afirmavam ter sido

pago pelo imperador Frederico, pelo rei da Hungria e pelo sultão do


Cairo. Como alternativa ao tributo, o emir sugeriu que o rei eximisse os
assassinos do tributo
que eles pagavam ao Templo e ao Hospital. Como Joinville observou ao
descrever essa negociação, os assassinos sabiam de que nada adianta-

va matar qualquer dos grão-mestres, porque outro cavaleiro, "igualmente


bom, seria posto em seu lugar 5).299

Os grão-mestres, a quem o rei convidou para essa negociação, ficaram

enfurecidos com a insolência dos assassinos e enviaram os emissários de


volta ao Velho da Montanha com a recomendação de que ele abordasse o rei
Luís de outra forma.
Dentro de duas semanas eles regressaram a Acre com generosos presentes.
O rei Luís retribuiu, dando-lhes jóias igualmente valiosas e enviando-
lhes um frade que falava
árabe, Yves le Breton, para pregar a fé cristã.
OS TEMPLÁRIOS

O segundo grupo de emissários veio dos mongóis, uma força que


dentrqh de vinte anos derrotaria o Velho da Montanha, tomando em 1256 a
até então. inexpugnável
fortaleza de Almut, pertencente aos assassinos. Os embaixa_, dores
chegaram a Acre com os dois firades dominicanos que Luís enviara ao cá
mongol sugerindo uma aliança
contra o Islã. A resposta do cã foi a exigência de que o rei francês se
tornasse soeu vassalo e enviasse "uma quantidade suficiente de dinheiro
em contribuições
anuais para que continuemos a ser vossos amigos. Se vós vos recusardes a
fazê-lo, nós vos destruiremos (...)"..; Não foi a resppsta que o rei
tinha esperado, e,
de acordo com Joinville, Luís_ "arrependeu-se amargamente de algum dia
ter enviado emissários ao grande rei dos tártaros11.300

A derrota do exército do rei Luís no delta do Nilo viu o fim da ambição


dos, latinos de retomar Jerusalém atacando a fonte do poder muçulmano.
Agora o imperativo
era obter máxima vantagem explorando as rivalidades dos poderes
islâmicos e melhorando as defesas dos territórios que os latinos ainda
possuíam. Luís portanto ordenou
a r'efortificação das cidades litorâneas de Acre, Cesaréia, Jafa e
Sídmn, cujas guarnições foram reforçadas com contingentes permanentes de
tropas francesas.

As fortalezas do interior eram agora dispendiosas demais para


serem conservadas pelos barões. feudais do ultramar e foram portanto
mantidas pelas ordens
militares: os cavaleiros teutônicos ficaram com Montfort, os
hospitalários com Belvoir e os templários com Chastel Blanc e Saphet.
Esta última tinha sido reconstruída
na década de 1240, a um custo enorme, e era agora o maior castelo no
reino de Jerusalém, dominando a Galiléia e a rota entre Damasco e Acre.
Em tempos de paz sua
guarnição era de 1.700 homens, aos quais outros 500 eram acrescentados
em tempos de guerra. Destes, 50 eram cavaleiros e 30 sargentos do
Templo, 50 turcópolos e
300 besteiros. O custo da sua construção foi orçado em 1.100.000 besants
sarracenos, e 400 escravos foram utilizados para ajudar os pedreiros
qualificados. Doze
mil mulas carregadas de cevada e grãos eram necessárias para abastecer o
castelo todo ano, e parte das provisões era agora importada das
comunidades dos templários
na Europa.'°'

Depois de completara refortificação de Sídon, o rei Luís decidiu


regressar à França. Sua presença era urgentemente necessária em seu
reino, e o patriarca
de Jerusalém e os barões locais disseram-lhe que ele tinha feito o que
podia e que deveria agora voltar para casa. No dia 24 de abril de 1254,
Luís partiu de Acre
num navio dos templários. Ele havia cumprido sua promessa da melhor
maneira possível: arriscara sua vida, quase morrera e permanecera quatro
anos na Terra Santa
após seus irmãos e barões terem partido. Ele ha-

LUÍS DA FRANÇA
via gastado uma sova de dinheiro fenomenal, estimada por sua tesourari;
real em 1,3 milhão e livres tournois, onze ou doze vezes a renda anual
de ser reino."' Havia
paz to ultramar por ocasião de sua partüda, mas a situação do; cristãos
na Terra Sinta era precária, e ele estava deixando Jerusalém na; mãos
dos infiéis.

Geoffroy de Sargines, que se tornou senescal do reino, permaneceu em


Acre para representar o rei Luís. Contudo, em conseqüência da morte do
impera. dor Frederico
II eml 250 e de seu filho Comado em 1254, o legítimo rei era agora
Conradino, filio de Comado, e não Luís IX; e embora houvesse uma
guarnição francesa sob o comando
de Godofredo, ela era insuficiente para impor ordem às facões rivais, em
particular as cidadea marítimas italianas No início de 1256,uma disputa
entre os venezianos;
e os genoveses pelc mosteiro de Saint-Sibas em Acre resultou em
conflitos armado: os templários e os cavaleiros teutônicos apoiaram os
venezianos, e os hospitalários,
os genoveses. No mesno ano morreu o grão-mestre do Templo, Reinaldo de
Vchiers, a quem su:edeu Tomás Bérard.

Em 1258, os mongóis capturaram Bagdá, assassinaram o califa e


massacraram a população.A aproximação dessa horda asiática causou pânico
entre os latinos na
Síria ena Palestina. Percebendo a insensatez de dissensão interna nessa
época, Tomás Bérard fez um pacto para marnter a paz com os outros grão-
mestres: Hugo de Revel,
do Hospital, e An no de Sangerhausen, dos Cavaleiros Teuânicos. Alepo
rendeu-se em janeiro de 1260 e Damasco capitulou em marçc. Tomás Bérard
escreveu aos dirigentes
do Templo na Europa, informando-os da devastação causada pelos mcongóis
e pedindo ajuda. A urgência era tamanha, que o mensageiro dos
templários, o irmão Amadeu,
chegou a Londres em apenas treze semanas, viajando de Dover a Londres
num único dia Ele descreveu como os mongóis usavam prisioneiros
cristãos, incluindo mulheres,
como escudo humano contra seus inimigos. A menos que fosse pr°stada
ajuda, "uma possível aniquilação em breve terse-á abatido sobre o
mundo"-3o3
As intenções dos mongóis para com os cristãos ainda não eram
claras: em Bagdá, enquanto os muçulmanos tinham sido massacrados, os
cristãos tinham sido poupados.
Foram portanto os mamelucos nos Egito que se prepararam para resistir a
eles, solicitando tanto livre passagem para seu exército quanto ajuda
dos francos. O Conselho
do Reino concordou com a primeira solicitação, mas uma aliança concreta
foi vetada pelo nnestre dos cavaleiros teutônicos, Anno de Sangerhausen.
O exército mamelluco
marchou para a Palestina e, em 3 de setembro de 1260, sob seu sultão
K:utuz, venceu o exército mongol, liderado por Kitbogha, ao sul de
Nazaré, enn Ain Jalut. Kitbogha
OS TEMPLÁRIOS

foi morto e um mês mais tarde o próprio Kutuz foi assassinado por
Baibars, o heró; de Mansurá.
AI-Malik az-Zahir Rukn ad-Din Baibars era um turco kipchak da
margem norte do mar Negro que tinha sido vendido como escravo pelos
mongóis ao sultão ayyúbida
do Cairo. Treinado como membro da guarda pessoal do sultão numa ilha do
Nilo, Baibars foi subindo de posto até tornar-se seu com4ndante e um dos
oficiais mais competentes
do exército egípcio. Foi Baib4rs quem comandou a cavalaria egípcia na
batalha de Lã Forbie em 1244. Foi também ele quem, como comandante de
Mansurá durante a cruzada
do rei Luís, fez cair numa cilada e massacrou o conde Roberto de Artois
e suo força de franceses, ingleses e cavaleiros do Templo. Foi ele ainda
quenh, junto com
outros oficiais mamelucos, assassinou o sultão ayyúbida Turatishah,
sobrinho de Saladino. Foi igualmente ele quem liderou a vanguarcla do
exército egípcio contra
os mongóis na batalha de Ain Jalut.
irritado com a recusa do sultão Kutuz de recompensá-lo com a
cidade de Alepb, Baibars assassinou seu amo e apoderou-se do trono. Ele
imediatamente se revelou
tão competente como governante quanto fora como soldado, r
(-,fortificando as cidades destruídas pelos mongóis, reconstruindo a
frota egípcia e, com o correr do tempo,
expulsando os assassinos de suas fortificações e os últimos dos
sucessores de Saladino de seus principados na Síria, unindo, como o
fizera Saladino, a Síria e o
Egito sob seu domínio.
A princípio, os latinos no ultramar não conseguiram avaliar a
importância da vitória dos mamelucos em Ain Jalut para o equilíbrio de
poder na região. Em
fevereiro, João de Ibelin e João de Giubelet, marechal do reino,
lideraram 900 cavaleiros, 1.500 turcópolos e 3.000 soldados de
infantaria, entre' eles fortes contingentes
de templários de Acre, Safed, Beaufort e do Castelo Peregrino, contra um
exército saqueador formado por membros da tribo dos turcomanos. O
exército latino foi derrotado;
o marechal do Templo, IJstêvão de Sissey, foi um dos poucos que
escaparam vivos. As negociações subseqüentes com Baibars para a
libertação dos prisioneiros cristãos
forarri arruinadas pela recusa dos templários e dos hospitalários em
entregar algurys de seus prisioneiros muçulmanos porque apreciavam suas
habilidades.

Furioso pelo que considerou uma manisfestação de cobiça


grosseira, Baibars saqueou Nazaré e atacou Acre, ferindo o senescal,
Geoffroy de Sargines, nume luta
fora das muralhas da cidade. Como os mongóis no norte da Síria aindai
eram uma ameaça em sua retaguarda, Baibars não estava em condições de
sitiar Acre, mas os francos
não podiam organizar nenhuma força que impedisse que as tropas dele se
movessem à vontade do Egito para a Palestina, e as concentrações que
eles pudessem reunir
chegavam ao conheci-

LUÍS DA FRANÇA

mento dos muçulmanos graças ao seu uso de pombos-correios. Em 1265,


Baibars apareceu de repente com um grande exército diante de Cesaréia,
cidade tão recentemente
refortificada pelo rei Luís IX. A cidade capitulou em 27 de fevereiro; a
cidadela, uma semana mais tarde. Alguns dias depois, foi a vez de Haifa,
onde os habitantes
que não haviam fugido foram mortos.
O alvo seguinte de Baibars foi o Castelo Peregrino, fortaleza
dos templários, mas enquanto a cidade fora das muralhas foi tomada e
queimada, verificou-se
que o castelo em si era inexpugnável, e assim Baibars seguiu para o

castelo de Assuf, de propriedade dos hospitalários. Aí, após os engenhos


de cerco egípcios terem feito uma brecha na muralha e um terço dos 270
cavaleiros da Ordem
do Hospital ter-se rendido, foi feito um acordo com o comandante para os
termos da rendição, acordo esse que assegurava a liberdade dos
sobreviventes e que Baibars
então infringiu, aprisionando os cavaleiros que sobreviveram.
Em junho de 1266, Baibars sitiou a grande fortaleza dos templários de

Safed. Suas fortificacçes maciças, tão recentemente reconstruídas,


resistiram ao primeiro assalto, mas o próprio tamanho do castelo
siginificava que uma grande parte
da guarnição era composta de cristãos sírios, que os emissários de
Baibars prometeram poupar se eles se rendessem. Sabendo que não
receberiam ajuda e vendo que os
soldados turcópolos estavam começan-

do a desertar, o comandante dos templários enviou um sargento sírio de


nascimento chamado Leon Cazelier para negociar a rendição. Cazelier
retornou com a garantia
de Baibars de salvo-conduto para Acre; mas a única pele que foi salva
foi a de Cazelier. Assim que os egípcios assumiram o controle do
castelo, as mulheres e as
crianças foram levadas como prisioneiras e vendidas como escravos no
Cairo, enquanto os templários foram decapitados.

A perda de Safed após um sítio de apenas dezesseis dias foi uma


catástrofe para os francos no ultramar e uma humilhação para o Templo. A
fortaleza foi refortificada
por Baibars, proporcionando aos mamelucos controle da Galiléia e dos
acessos às cidades litorâneas de Acre, Tiro e Sídon. Para impressionar
os francos com o destino
que os aguardava, as cabeças dos tem-

plários decapitados foram dispostas num círculo ao redor do castelo.


A próxima fortaleza a cair, depois de uma resistência simulada,
foi Toron. Marchando sem obstáculos até a costa mediterrânea, os
soldados de

Baibars mataram todos os cristãos que capturaram. Na primavera de 1268,


Jafa rendeu-se a um exército mameluco em menos de um dia. A guarnição
teve permissão para
retirar-se para Acre, mas a cidade foi arrasada e seus habitantes
cristãos mortos. Em seguida foi a vez da fortaleza de Beaufort,
recentemente guarnecida de templários:
ela rendeu-se no dia 18 de abril, após dez dias de bombardeio.
OS TEMPLÁRIOS

Por volta de 14 de maio, Baibars havia chegado a Antioquia, que,


a despeito de seu declínio como centro comercial, continuava a ser a
maior cidade cristã
no ultramar. Seu governante, o príncipe Boemundo, estava em Trípoli, e a
guarnição era comandada por seu condestável, Simão Mansel; mas ela era
pequena demais para
guarnecer as longas muralhas, que tinham frustrado por tanto tempo os
soldados da Primeira Cruzada. Em 18 de maio os mamelucos entraram
através de uma brecha para
tomar a cidade. As portas foram fechadas, e os habitantes, ou
massacrados ou escravizados. Os souks e as graciosas casas foram
saqueados e mais tarde abandonados.
Essa outrora grande metrópole do Império Romano, que fora o primeiro
prêmio dos cruzados latinos, jamais se recuperaria dessa devastação,
decaindo até que afinal
foi riscada do mapa-múndi.

Com a captura de Antioquia e antes de Sis, a capital da Armênia


Cilícia, pelos mamelucos, as fortalezas dos templários nos montes Amanus
ficaram expostas.
A guarnição de templários em Gaston (Baghras), o inexpugnável castelo
que guardava os portões da Síria, ao saber que Antioquia havia se
rendido após apenas alguns
dias, decidiu que seria impossível resistir. Todavia, entregar uma
fortaleza numa região de fronteira sem a permissão do grão-mestre era
uma grave infração das regras
da Ordem, e o comandante portanto resolveu resistir ao exército mameluco
da melhor maneira possível. No entanto, enquanto a comunidade estava
comendo, um dos irmãos,
Guis de Belin, saiu da fortaleza com as chaves do portão e levou-as a
Baibars, dizendo que a guarnição dos templários queria render-se.

O comandante e os cavaleiros do Templo estavam dispostos a


repudiar essa rendição não autorizada, mas os sargentos da Ordem estavam
menos resolutos. Confrontado
com a probabilidade da deserção deles, e dando-se conta de que àquela
altura Baibars deveria ter sido informado de sua frágil situação por
Guis de Belin, o comandante
ordenou a evacuação de Gaston. Nesse aspecto ele anteviu, corretamente,
as ordens do grão-mestre, que havia enviado um certo irmão Pelestort
para informar à guarnição
de Gaston que se retirasse para La Roche Guillaume, mas, não obstante,
ao chegarem a Acre, os cavaleiros de Gaston foram acusados da rendição
não autorizada do castelo.
Em virtude das circunstâncias, a punição prescrita, de expulsão do
Templo, foi reduzida à perda de seus hábitos por um ano; e poderia ter
sido ainda mais leve se
antes de saírem eles tivessem destruído as armas e os suprimentos que
tinham em Gaston .304

Ao saber da rendição de Safed em 1267, o rei Luís mais uma vez tomou a
Cruz. Todavia, a pureza das intenções do rei estava agora contaminada
pelas ambições de seu
irmão Carlos, conde de Anjou, que havia usurpado a Coroa

LUÍS DA FRANÇA

da Sicília aos Hohenstaufen com a bênção do papa. Em 1268, o jovem neto


de Frederico II, Conradino, ao tentar recuperar seu patrimônio, foi
vencido na batalha de
Tagliacozzo e em seguida executado. Carlos, com ambições de fundar um
império no Mediterrâneo oriental, persuadiu seu irmão Luís de que ele
deveria tomar Túnis como
prelúdio de uma invasão do Egito. Coma no delta do Nilo vinte anos
antes, Luís teve algum êxito no início, capturando Cartago, mas adoeceu
de novo e dessa vez não
se recuperou, morrendo em 25 de agosto de 1270. Seu corpo foi levado de
volta para a França pelo caminho de Lyon e da Abadia de Cluny, com
multidões aglomerando-se
ao longo do trajeto para prestar as últimas homenagens ao virtuoso
monarca, e em Paris seu corpo foi enterrado na Abadia de Saint-Denis, de
Suger, agora o mausoléu
dos reis capetíngios.

A cruzada de Luís desintegrou-se após sua morte, e Baibars, que se havia


retirado para o Egito para se preparar para uma possível invasão dos
franceses, poderia
agora continuar sua inexorável redução das fortalezas latinas no
Oriente. Em fevereiro de 1271, o castelo dos templários de Chastel Blanc
rendeu-se a conselho do
grão-mestre, e permitiu-se que sua guarnição se retirasse para Tortosa.
Em março, foi a vez de Krak dos Cavaleiros, a magnífica fortaleza dos
hospitalários. Ferozmente
defendida, acabou rendendo-se em 8 de abril. Outro castelo dos
hospitalários, Akkar, caiu em 1° de maio, após um cerco de duas semanas.
Baibars então marchou para
Montfort, mantida pelos cavaleiros teutônicos, que se renderam no dia 12
de junho, depois de um sítio de sete dias. Tinha sido a última fortaleza
no interior mantida
pelos francos.
As cidades litorâneas que permaneceram nas mãos dos francos
foram reforçadas por contingentes de cruzados da Europa liderados por
Teobaldo Vsconti, arcediago
de Liège, que, servindo como legado pontifício em Londres, tinha tomado
a Cruz na Catedral de São Paulo; e, ainda mais significativo, pelo
príncipe Eduardo da Inglaterra,
sobrinho de Ricardo da Cornualha e filho e herdeiro do rei Henrique III.
Com pouco mais de trinta anos, competente e enérgico, Eduardo fora
encorajado por seu pai
a cumprir os juramentos que Henrique freqüentemente fizera, mas que
nunca se sentira capaz de cumprir. Zarpando primeiro para Túnis, a fim
de juntar-se ao rei Luís,
ao chegar foi informado de que ele estava morto. Ele portanto navegou
para a Sicília, para hospedar-se na casa de seu tio, Carlos de Anjou, em
seguida para Chipre
e por fim para Acre, aonde chegou em maio de 1271, pouco depois da
rendição do Krak dos Cavaleiros.
Eduardo ficou estarrecido com a situação que encontrou no
ultramarnão só a incapacidade das forças nativas de manter as fortalezas
do interior,

253
OS TEMPLÁRIOS

mas também o zelo com que as repúblicas marítimas italianas negociavam


com o inimigo: os venezianos forneciam a Baibars o metal e a madeira de
que necessitava para
suas armas e engenhos de cerco, e os genoveses, os escravos para seus
regimentos de mamelucos, ambos com permissão da Alta Corte em Acre. Ele
descobriu que os cavaleiros
de Chipre não estavam dispostos a lutar no continente, em território
sírio, e que os mongóis, a quem enviou uma embaixada de três ingleses,
não estavam em condiçoes
de oferecer-lhe ajuda substancial. Tendo sido incapaz de persuadir os
barões ingleses a unir-se a ele numa cruzada, as próprias forças de
Eduardo estavam limitadas
a cerca de mil homens - suficientes para alguns ataques de surpresa no
território muçulmano, mas inteiramente inadequados para influenciar o
equilíbrio de poder
básico.

Baibars sabia disso, mas, com os mongóis ainda capazes de


ameaçar sua retaguarda, não estava em condições de mover-se para os
domínios cristãos da costa.
A chegada de Eduardo em maio de 1271 o havia induzido a oferecer uma
trégua a Boemundo de Trípoli, e este a aceitara com alívio. Agora, um
alio depois, chegava-se
a acordo semelhante com o reino de Acre: a integridade de seu território
seria assegurada pelos dez anos e dez meses seguintes. Nenhum lado
considerava isso um acordo
permanente: Eduardo construiu uma torre em Acre e a pôs ao encargo da
valorosa Ordem de São Eduardo), que ele fundara. Em seguida, embarcou
para a Inglaterra com
a intenção de regressar com forças mais substanciais, mas ao chegar em
casa constatou que seu pai havia morrido e que ele era agora rei,
ascendendo ao trono como
Eduardo I.

A Queda de Acre

Outro cruzado que ascendeu durante sua ausência da Europa foi o compa
ribeiro de armas de Eduardo, Teobaldo Visconti, arcediago de Liège: en
quanto ele estava em
Acre, dois emissários chegaram da Europa para infoi má-lo de que fora
escolhido como o novo papa. Após anos de altercação, o

cardeais católicos reunidos em Viterbo tinham sido trancados no Palácio


do Papas pelos prefeitos da cidade, para obriga-los a chegar a uma
decisão, en seguida expostos
ao tempo com a remoção do teto do palácio, e por fim lhe

tinham sido negadas provisões até que fizessem uma escolha.


Adotando o título de Gregório X, o papa eleito regressou
primeiro a Vi terbo e depois a Roma, que seus dois predecessores tinham
evitado, e aí fo coroado
com a tiara pontifícia em 27 de março de 1272. Em espírito, todavia
permaneceu na Palestina: ele "preservou uma vívida lembrança de Jerusa
lém e trabalhou pela sua
reconquista. Sua genuína devoção à causa da Terra Santa tornou-se a base
de sua política"."' Menos de um mês após sua ascen

são, ele convocou um concílio geral da Igreja para reunir-se em Lyon. O


item mais importante de sua agenda era uma nova cruzada, e ele pediu que
se fizessem sugestões
à luz do fracasso da expedição de Luís IX a Túnis dois anos antes.
Como requisito indispensável a uma cruzada bem-sucedida,
Gregório X fez o que pôde para reconciliar as facções em guerra na
Europa, e também

fez uma tentativa de aproximação ao imperador grego em Constantinopla,


Miguel VIII Paleólogo, convidando-o a mandar delegados a Lyon com o
objetivo de reunir as
duas igrejas. Na esteira de tantos reveses, a pregação de uma cruzada já
não se fazia sem dificuldades. Humberto de Romans, o quinto mestre-geral
da Ordem de Pregadores
de Domingos de Gusmão,

havia advertido seus frades no manual De predictatione sancte crucis de


que eles deveriam estar prontos para responder a críticas rudes e hostis
e de que seus sermões
seriam com freqüência recebidos "com zombaria e derrisão"."' Humberto
fez uma relação dos argumentos usados por seus opositores - por exemplo,
de que era incompatível
com a doutrina de Cristo matar
255
OS TEMPLÁRIOS

em nome da Igreja: "os defensores de missões pacíficas junto aos infiéis


eram bastante numerosos na época do Segundo Concílio de Lyon".3°' Até
mesmo entre aqueles
que defendiam uma nova cruzada, havia amplo consenso de que ela não
deveria ser o tipo de empreendimento popular visto durante a Primeira
Cruzada - o passagium
generale -, mas, conforme proposto por Gilberto de Tournai, uma força
expedicionária de soldados profissionais - o passagium particulare.
Apenas um monarca europeu, o rei Jaime I de Aragão, foi ao
concílio de Gregório X em Lyon, que se reuniu em 7 de maio de 1274. A
ausêncis de Eduardo 1 da
Inglaterra, ex-companheiro de armas do papa, foi uma decepção
particular, porque ele teria sido capaz de oferecer aos padres do
concílio o benefício de sua experiência.
Sem o rei Eduardo e o rei Filipe 111 da Rança, Gregório recorreu aos
conselhos dos grão-mestres das ordens militares: Hugo Revel, do
Hospital, e Guilherme de Beaujeu,
eleito grão-mestre do Templo após a morte de Tomás de Bérard no ano
anterior.
Guilherme era um templário de carreira com considerável
experiência em combate na Palestina e na administração da Ordem. Em
1261, ele tinha sido capturado
num ataque de surpresa e em seguida resgatado; fora preceptor dos
templários no condado de Trípoli em 1271 e era preceptor do reino da
Sicília ao tempo de sua eleição.
Contudo, sua ascensão quase com certeza aconteceu por causa de seus
vínculos com a coroa francesa. Seu tio havia lutado ao lado de Luís IX
no Nilo, e através de
sua avó paterna, Sibila de Hainault, era aparentado com a família real
capetíngia. Não apenas os reis franceses tinham sido a mais confiável
fonte européia de ajuda
à Terra Santa, pagando a uma força permanente de cavalleiros e besteiros
em Acre, mas, com o triunfo de Carlos de Anjou sobre seu rival
Hohenstaufen na batalha de
Tagliacozzo, o poder francês agora se estendia por todo o Mediterrâneo.
Em conseqüência, Guilherme de Beaujeu, no Concílio de Lyon, pronunciou-
se contra uma proposta
apresenta pelor rei Jaime 1 de Aragãc de enviar uma força de 500
cavaleiros e 2.000 soldados de infantaria como a vanguarda de um
passagiumgenerale, argumentando
que hordas de cruz2dos entusiásticos, mas indisciplinados e
transientes., seriam ineficazes. O que era necessário, em primeiro
lugar, era uma guarnição permanente
na 'ferra Santa, periodicamente reforçada por pequenos contingentes de
sold2dos profissionais; e, em segundo lugar, um bloqueia econômico do
Egito para solapar sua
economia.

Como condição prévia desse bloqueio, afirmou Guilherme de


Beaujeu, os cristãos teriam de firmar um domínio naval no Mediterrâneo
oriental que não dependesse
das repúblicas marítimas italianas, Veneza, Gênova e Pisa: seu comércio
com o Egito era simplesmente "llucrativo demais para que

256

A QUEDA DE ACRE
abrissem mão dele",3°8 e os venezianos até usavam Acre para seu comércio
com o Egito de petrechos de guerra proibidos procedentes da Europa.
Seguindo esses conselhos,
o Concílio de Lyon ordenou aos grão-mestres do Templo e do Hospital que
construíssem uma frota de navios de guerra.
Havia outra razão para que os templários apoiassem Carlos de
Anjou: ele comprara os direitos ao trono de Jerusalém de uma pretendente
digna de fé, Maria
de Jerusalém, por mil libras de ouro e uma pensão anual de 4.000 livres
tournois. Para os templários, e sem dúvida para o papa, um único
soberano da casa real francesa
reinando sobre um reino unido da Sicília e de Jerusalém era de longe a
melhor base política para a preservação da presença dos latinos na Terra
Santa, mas isso fez
com que a Ordem entrasse em conflito com a nobreza nativa do reino de
Acre, que apoiou a reivindicação do rei Hugo de Chipre. Quando Guilherme
de Beaujeu regressou
a Acre em setembro de 1275, ele se recusou a reconhecer a autoridade do
rei Hugo, que em conseqüência voltou para Chipre profundamente
ressentido e escreveu ao papa
queixando-se de que as ordens militares tinham tornado a Terra Santa
ingovernável.
Carlos de Anjou, que também tinha o apoio do papa Gregório X,
enviou a Acre um bailli para governarem seu nome, Rogério de San
Severino. A nobreza nativa
não viu outra opção senão aceitar a autoridade de Rogério, que ele
exercia junto com Guilherme de Beaujeu. Duas tentativas do rei Hugo de
recuperar seu posto com
forças expedicionárias a Tiro em 1289 e a Beirute em 1284 foram
frustradas, em grande parte pelos templários. O preço pago pela Ordem
foi o seqüestro ou a destruição
de suas propriedades em Chipre, que por sua vez resultaram em protestos
do papa.309
De forma mais arbitrária, Guilherme de Beaujeu também envolveu o
Templo numa prolongada disputa pela mão de uma herdeira entre Boemundo
VII de Trípoli e
seu principal vassalo, disputa essa que levou a uma guerra civil em
pequena escala. Esse conflito cruento entre os cristãos latinos numa
época em que seu reino já
se encontrava numa situação perigosa escandalizou a opinião pública
européia e minou a autoridade moral do grão-mestre do Templo, criando
"uma imagem dele como indigno
de confiança e sectário, uma imagem _ que, por seu turno, veio a se
refletir em alguns dos juízos tardios a seu respeito. e a respeito dos
últimos anos dos templários
na Palestina 11.310 '

No fim de março de 1282, toda a base da política de Guilherme


foi solapada com a revolta dos sicilianos contra Carlos de Anjou. Esta
começou com um tumulto
do lado de fora da catedral em Palermo, enquanto se entoavam as
vésperas, e levou a um ataque contra a guarnição francesa. Carlos, um
homem arrogante e insensível
que não possuía nenhuma das judiciosas quali-

257
OS TEMPLÁRIOS

dades de seu virtuoso irmão, Luís IX, já havia despertado o antagonismo


dos
sicilianos em geral com seu governo opressivo e do povo de Palermo em
particular por transferir sua capital para Nápoles, acelerando assim o
declínio econômico da
cidade. Incitado pelo pretendente rival ao trono siciliano, Pedro III de
Aragão, o povo de Palermo seguiu o exemplo do ataque aos soldados
franceses do lado de fora
da catedral com o massacre de 2.000 franceses que viviam na cidade.

O desembarque de um exército aragonês em Trapani alguns meses


mais tarde deu início a uma guerra que acabou com qualquer esperança de
ajuda aos latinos na
Terra Santa. Uma cruzada foi proclamada pelo papa Martinho IV não contra
os sarracenos, mas contra os aragoneses. Como várias outras cruzadas
pregadas contra os
inimigos do papado no século XIV ela depreciou todo o conceito de guerra
santa. Não se tratava apenas do fato de a Europa estar escandalizada por
uma guerra contra
os inimigos cristãos do papa, mas também do fato de que havia um
explícito desvio de recursos. Em 13 de dezembro de 1282, o papa Martinho
IV, um francês chamado
Simão de Brion, autorizou o rei Filipe III da França a retirar 100.000
livres tournoir do Tèmplo de Paris, arrecadados mediante o imposto das
cruzadas, para financiar
a guerra entre os sicilianos e os aragoneses. O imposto de dez por cento
sobre a Igreja que tinha sido coletado na Hungria, na Sicília, na
Sardenha, na Córsega,
na Provença e em Aragão, e que montava a 15.000 onças de ouro, foi
transmitido a Carlos de Anjou. As conseqüências para a Terra Santa foram
claras na ocasião, pelo
menos para os propagandistas antipapais. Bartolomeu de Neocastro
descreve um cavaleiro do Templo censurando o papa Nicolau IV "Vós
podíeis ter ajudado a Terra Santa
com o poder de reis e a força de outros crentes em Cristo (...) mas
preferistes atacar um rei cristão e os sicilianos cristãos, armando reis
contra um rei para reconquistar
a ilha da Sicília".31'

Na própria Terra Santa, as Vésperas Sicilianas tinham tornado


insustentável a situação do novo bailli de Carlos de Anjou, Odon
Poilechien, e os templários
transferiram seu apoio para o rei Henrique II de Chipre, filho e
herdeiro do rei Hugo. Demonstrando uma rara concórdia, os grão-mestres
dos templários, dos hospitalários
e dos cavaleiros teutônicos persuadiram Odon Poilechien a entregar-lhes
a cidadela em Acre e então eles mesmos deram-na ao rei. Seis semanas
mais tarde, depois da
coroação do jovem rei em Tiro, a corte regressou a Acre, onde a ascensão
dele foi celebrada com jogos, préstitos e torneios organizados pelos
hospitalários. A jovem
nobreza do ultramar interpretou cenas de cavalheirismo de Os Cavaleiros
da Tdvola Redonda e de A Rain14a de Femenie, em que cavaleiros vestidos
como mulheres encenaram
justas simuladas. Essas comemorações continuaram por duas semanas.

258

A QUEDA DE ACRE

Um fator que até então havia atuado em favor dos latinos na Palestina
tinha sido o caos que se seguia à morte de um líder muçulmano - por
exemplo, após a morte de
Saladino em 1193. Contudo, quando Baibars morreu em 1277, seus
ineficazes filhos foram substituídos dentro de três anos por Qalawun, o
mais competente comandante
de Baibars. O principal fator que inibira o novo sultão de mover-se em
grande número contra os francos fora um medo residual de Carlos de
Anjou: uma vez que esse
medo fora eli-

minado pelas Vésperas Sicilianas em 1282, nada restava que o impedisse


de tentar alcançar a ambição de Baibars de empurrar os francos para o
mar.
Em 1287, Qalawun enviou um de seus emires para atacar Latáquia, o úl-

timo porto no principado de Antioquia que permanecia nas mãos dos


cristãos. Não se fez nenhuma tentativa de socorrê-lo, e Latáquia rendeu-
se após um resistência
simbólica. Em 1288, aproveitando-se de uma disputa pelo

governo de Trípoli depois da morte de Boemundo IV Qalawun preparou em


segredo o assalto à cidade. Seu plano foi revelado por um espião a
serviço do Templo, o emir
al-Fakhri, e Guilherme de Beaujeu escreveu para advertir os

cidadãos de Trípoli; porém, em virtude dos seus antecendentes de má-fé


em interesse próprio, eles não acreditaram nele, e portanto o exército
de

Qalawun os encontrou despreparados. Quando as tropas mamelucas


irromperam na cidade, o comandante dos templários, Pedro de Moncada,
perma-

neceu e foi morto junto com todos os prisioneiros do sexo masculino; as


mulheres e as crianças foram levadas como escravos. Depois que a cidade
estava em suas mãos,
Qalawun ordenou que ela fosse completamente arrasada para evitar
qualquer proveito pelos francos.

Nocionalmente, o reino de Acre ainda estava protegido por uma


trégua, mas Qalawun logo encontrou um pretexto para quebrá-la. Um
entusiástico mas indisciplinado
grupo de cruzados, recém-chegado do norte da Itália,

reagiu ao rumor de que uma cristã havia sido seduzida por um sarraceno
atacando todos os muçulmanos na cidade de Acre. Os barões latinos e as
ordens militares fizeram
o possível para deter esse pogrom, mas vários muçulmanos foram mortos.
Quando Qalawun soube do massacre, ele exigiu que os canalhas lhe fossem
entregues para execução.
As autoridades em Acre recusa-

ram-se a entregar cruzados cristãos ao infiel. Guilherme de Beaujeu


propôs enviarem seu lugar todos os prisioneiros condenados mantidos nos
cárceres da cidade, mas
a proposta foi rejeitada. Em vez disso, o rei Henrique enviou emissários
a Qalawun para explicar que os lombardos eram recém-chegados e,
portanto, não haviam entendido
a lei, e que, de qualquer modo, o distúrbio tinha sido desencadeado
pelos mercadores muçulmanos.

Isso não satisfez Qalawun. Informado por seus conselheiros de


que tinha uma causa justa para quebrar a trégua, ele ordenou a seu
exército que
OS TEMPLÁRIOS

se preparasse em segredç para um assalto a Acre. Mais uma vez, o emir


al-Fakhri enviou uma mensagem a Guilherme de Beaujeu, mas novamente não
deram crédito ao grão-mestre
do Templo. Em desespero, Guilherme de Beaujeu enviou seu próprio
mensageiro ao Cairo para negociar com Qalawun, que ofereceu paz em troca
de um cequim por cada habitante
de Acre. Guilherme recomendou essa c,ferta à Alta Corte em Acre, mas ela
foi desdenhosamente rejeitada. O próprio Guilherme foi acusado de
traição e xingado pela
multidão, quando deixou a sala de audiência.
No dia 4 de novembro de 1290, Qalawun partiu para Acre à frente
de seu exército, mas adoeceu e dentro de uma semana estava morto.
Sucedeu-lhe seu filho al-Ashr~f,
que, enquanto o pai agonizava, prometeu que continuaria a guerra contra
os francos. Novos emissários de Acre, entre eles um cavaleiro do Templo,
$artolomeu Pizan,
foram lançados na prisão; e em março de 1291 os exército; de al-Ashraf
da Síria e do Egito começaram a convergir para Acre com mais de cem
engenhos de cerco, catapultas
gigantes e manganelas. Em 5 de abril o próprio al-Ashraf chegou diante
das muralhas de Acre e o cerco começou.
A cristandade tinha sido informada dos planos dos muçulmanos
contra Acre pelo menos seis mesas antes, mas pouco tinha sido feito para
intensificar suas forças
na Terra Satita. As ordens militares tinham convocado cavaleiros da
Europa; o rei Eduardo I havia enviado alguns cavaleiros sob Oto de
Grandson; e o rei Henrique,
um contingente de tropas de Chipre. No máximo, as forças cristãs
combinadas consistiam em cerca de mil cavaleiros e quatorze mil soldados
de infantaria, entre eles
os indisciplinados lombardos. A população da cidade era estimada em
aproximadamente quarenta mil, e todo homem vigoroso assumiu seu lugar
nas muralhas. Ao norte
ficava o subúrbio de Montmusard, protegido por uma muralha dobrada e um
fosso; e entre Montmusard e Acre propriamente dita havia outro fosso e
uma muralha que ligava
torres fortificadas construídas por eminentes cruzados, como o príncipe
Eduardo da Inglaterra.

A cada contingente cias forças de defesa foi designada uma seção


das muralhas. Os templários, sob Guilherme de Beaujeu, guarneceram a
seção mais ao norte,
de onde os bastiões de Montmusard avançavam até o mar. Junto a eles
estavam os h(Dspitalários e, na junção com as muralhas de Acre, os
cavaleiros reais comandados
por Arnauri, irmão do rei, reforçados pelos cavaleiros teutônicos; a
seguir, os franceses, os ingleses, os venezianos, os Pisanos e, por fim,
as tropas da Comuna
de Acre.
Em 6 de abril, o cerco começou com um bombardeio das catapultas
e manganelas do sultão. Colberto por uma saraivada de flechas disparadas
contra os defensores,
os engenheiros mamelucos avançaram a fim de solapar as

A QUEDA DE ACRE

torres e as muralhas. Embora adequadamente abastecidos de alimentos pc


mar, os cristãos não tinham armas e soldados suficientes para guarnecer
c baluartes. Na noite
de 15 de abril, Guilherme de Beaujeu liderou uma sort da para atacar o
acampamento dos muçulmanos, mas, após um êxito inicia os cavaleiros
ficaram enredados nas
cordas de retenção das barracas e forar forçados a voltar para a cidade,
deixando dezoito mortos para trás. Em 8 d maio, a primeira das torres
solapadas pelos engenheiros
muçulmanos estav a ponto de desmoronar, obrigando sua guarnição a
incendiá-la e então reta rar-se.

Durante a semana que se seguiu, outras torres começaram a


desmonc rar, e em 16 de maio os mamelucos fizeram um ataque arrojado à
Porta d~ Santo Antônio,
que foi rechaçado pelos templários e pelos hospitalários. En 15 de maio,
enquanto descansava, Guilherme de Beaujeu ficou sabendo que os mamelucos
haviam capturado
a Torre Maldita. Sem esperar para pôr tod a sua armadura, ele saiu
precipitadamente, a fim de comandar um con tra-ataque, mas foi rechaçado
e ferido. Seus confrades
do Templo leva ram-no de volta para a fortaleza dos templários no
extremo sudoeste d; cidade, onde morreu naquela noite.

O marechal dos hospitalários, Mateus de Clermont, que tinha


estado com Guilherme de Beaujeu, retornou à batalha e foi morto. O grão-
mestr< do Hospital, João
de Villiers, também foi ferido, mas não fatalmente, f levado por seus
confrades para uma galera no porto. Nos embarcadouros,
confusão era total, devido àqueles que tentavam abandonar a cidade conde
nada. O rei Henrique e seu irmão Amauri zarparam para Chipre. Oto de
Grandson e João de
Grailly apoderaram-se de um navio. Fugitivos desespe rados jogavam-se no
mar, a fim de nadarem até as galeras fundeadas ao largo O patriarca,
Nicolau de Hanape,
acolheu tantos no escaler que o estava conduzindo a uma galera, que o
pequeno bote emborcou e o patriarca morreu afogado.

Rogério de Flor, comandante de uma galera dos templários,


assentou os alicerces de sua subseqüente carreira de pirata, extorquindo
grandes somas de dinheiro
das ricas matronas de Acre por um lugar em seu barco. Mas por fim o
porto foi isolado pelas forças mamelucas que avançavam lutando pelas
ruas da cidade, matando
sem distinção homens, mulheres e crianças. Os que se esconderam em suas
casas até que a fúria da batalha tivesse cessado foram capturados e
escravizados; tantos
foram levados que o preço de uma garota no mercado de escravos em
Damasco caiu a uma dracma, e "muitas mulheres e crianças desapareceram
para sempre nos haréns dos
emires mamelucos".3'z
OS TEMPLÁRIOS

Aoanoitecer de 18 de maio, toda Acre estava nas mãos dos


muçulmanos, exceto a fortaleza dos templários no extremo da cidade que
dava para o mar. Aí os templários
restantes, sob o comando de seu marechal, Pedro de Sevrey, resistirem
com civis que se haviam refugiado atrás das muralhas maciças. Galera:
regressaram de Chipre
para mantê-los abastecidos, e sua força residual fo: suficiente para
induzir o sultão al-Ashraf a propor os termos da rendição. Foi acertado
que os templários entregariam
a fortaleza em troca do livre enbarque de todos que estavam no complexo,
junto com suas posses. Mas o emir, com cem mamelucos que foram aceitos
para supervisionar
essa trégua, apossou-se da propriedade dos civis e começou a maltratar
mulheres e crianças cristãs. Enfurecidos, os templários mataram os
mamelucos e rasgaram o
estandarte do sultão que haviam alçado acima da torre.

Naquela noite, oculto pela escuridão, o comandante dos


templários, Teobaldo Gaudin, foi ordenado pelo marechal, Pedro de
Sevrey, a tomar um navio com o tesouro
da Ordem e alguns dos civis e navegar até a fortaleza dos templárïos em
Sídon. Na manhã seguinte, o sultão al-Ashraf pediu que se reabrissem as
negociações para
a rendição dos templários. O marechal, Pedro de Sevrey, com um pequeno
grupo de cavaleiros do Templo deixou a fortale2a com um salvo-conduto a
fim de conferenciar.
Quando chegaram ao acampamento do sultão, foram capturados e
decapitados. Os que permaneceram atrás das muralhas do Templo fecharam
os portões e aguardaram o ataque
final dos muçulmanos. Em 28 de maio, parte da muralha do lado da terra
foi solapada e os muçulmanos entraram pela brecha. Os últimos defensores
foram dominados e
massacrados. Acre foi afinal conquistada.

Em Sídon, Teobaldo Gaudin foi eleito grão-mestre em sucessão a Guilherme


de Beaujeu; ele era um soldado experiente que servira durante trinta
anos na Terra Santa,
primeiro como chefe dos turcópolos, depois como comandante em Acre. Ele
permaneceu em Sídon por um mês após a queda de Acre e, quando um
exército mameluco apareceu
diante das muralhas da cidade, retirou-se com a guarnição de templários
para a cidadela, a pouca distância da praia. Tiro já se havia rendido
aos mamelucos, ao passo
que Acre, por ordem do sultão, tinha sido sistematicamente arrasada, e o
portal da Igreja de Santo André foi levado para o Cairo como uma
lembrança da gloriosa vitória
de al-Ashraf

Airda tencionando resistir, Te obaldo Gaudin zarpou para Chipre


em busca de reforços, levando consigo o tesouro da Ordem, e não
retornou. Aconselhado por
seus confrades em Chipre a abandonar Sídon, e vendo que os mamelucos
tinham começado a construir uma estrada elevada, os templários
abandonaram o castelo e navegaram
costa acima até Tortosa. Haifa ren-

A QUEDA DE ACRE

deu-se em 30 de julho; Beirute, um dia depois, e suas muralhas foram


demolidas e sua catedral transformada em mesquita. Tortosa foi evacuada
em 3 de agosto, e onze
dias mais tarde os templários retiraram-se de sua maior fortaleza, o
inexpugnável Castelo Peregrino. Tudo o que restou foi a sua guarnição na
ilha de Ruad, a duas
milhas da costa, próximo a Tortosa.
Aí os templários mantiveram uma guarnição durante os doze anos
seguintes. Nesse período, os muçulmanos arrasaram as cidades e
devastaram a terra no litoral
do Mediterrâneo. Em pouco tempo, a presença dos francos no continente
asiático eram ruínas no meio da areia.
pQRte tueS

A QUEDA DOS TEMPLÁRIOS

V
(,Z~II l~z~

O Templo no Exílio

Embora tivesse sido prevista, a queda de Acre foi um choque para a


cristandade latina e deu uma sensação de urgência aos planos do papa
Nicolau IV de uma nova cruzada.
Esta fora proclamada uns dois meses antes de a notícia chegar à Europa,
em 29 de março de 1291, e tinha se tornado possível pela solução do
imbróglio siciliano pelo
Tratado de Brignoles no mês anterior. Ela seria liderada pelo rei inglês
Eduardo I, que, tendo subjugado os galeses, sentia-se capaz de realizar
sua aspiração de
longa data de regressar à Terra Santa à frente de um exército: a data
para sua partida foi marcada para a Festa de São João Batista, 24 de
junho de 1293.
A queda de Acre não foi vista naquela época como o fim da
presença latina na Terra Santa. Havia um ponto de vista comum de que os
mongóis se revelariam a
salvação dos cristãos. A conversão ao cristianismo de alguns dos
delegados mongóis que participaram do Segundo Concílio de Lvon resultou
na esperança de que outros
pudessem seguir seu exemplo, e a crença baseada no desejo, e não em
razões lógicas, transformou a esperança em expectativa. O papa Nicolau
IV o primeiro frade franciscano
a ocupar a Sé de São Pedro, enviara um missionário franciscano, Giovanni
di Monte Corvino, à corte do Grande Kubla Khan. Além disso, ainda havia
uma presença cristã
no continente asiático, na Armênia Cilicia, e Chipre continuava nas mãos
dos francos. A estratégia do papa era reforçar esses postos avançados
cristãos e enfraquecer
o Egito com um bloqueio naval antes da cruzada do rei Eduardo.

As recriminações foram menos enérgicas, sobretudo quando


comparadas com as que haviam se seguido ao fracasso da Segunda Cruzada.
Os lombardos que haviam
dado a Qalawun um pretexto para quebrar a trégua; a decadência
pecaminosa dos habitantes do ultramar; e, entre as classes inferiores,
os procrastinadores líderes
da cristandade, foram todos responsabilizados. "Chorai, filha de Sião",
escreveu o autor de um pequeno tratado, De Exidio Urbis Acconzs,
OS TEMPLÁRIOS

Chorai sobre vossos chefes, que vos abandonaram. Chorai sobre vosso
papa, sobre vossos cardeais e prelados e sobre o clero da Igreja. Chorai
sobre vossos reis, príncipes,
barões e cavaleiros cristãos, que se chamam a si mesmos de grandes
combatentes, mas (...) deixaram essa cidade repleta de cristãos sem
defesa e abandonaram-na, deixando-a
só como um cordeiro no meio de lobos."'

A falta de firmeza moral dos cristãos foi contrastada com o


fervor religiosodos muçulmanos. Contudo, o Senhor estivera disposto a
poupar Sodoma po,r causa
de dez homens justos, e em Acre, apesar de toda a sua decadência, tinha
havido muito mais que dez. Trinta frades dominicanos na cidade tiniham
sido massacrados pelos
mamelucos após sua rendição; e um de seus colnfrades, o missionário
Ricoldo de Monte Croce, que estava em Bagdá na ocasião, foi alvo de
intenso escárnio dos muçulmanos,
para quem o fracasso de Cristo em salvar os cristãos provava que ele era
um mero homem. "Judeus e nnongóis também zombaram dos cristãos (...).
Muitos cristãos tiraram
concluisões extremas e converteram-se ao islamismo." 314

Encontrando na kasbah o conteúdo de uma igreja saqueada em Acre,


Ripoldo comprou um missal e uma cópia de A Moral do Trabalho, do papa
Gnegório, o Grande.
Ricoldo quase entrou em desespero: Maomé tinha triunfajo na terra natal
de Cristo. Tudo a seu redor era apostasia e sujeição. padres tinham sido
chacinados, freiras
transformadas em concubinas, e "se os sarracenos continuarem a fazer o
que fizeram em dois anos a Trípoli e Acre, em alguns anos não restarão
mais cristãos no mundo
inteiro".315

Na Europa, longe do escárnio dos muçulmanos, e com o destino dos


cristãos na Ásia testemunhado apenas indiretamente, ninguém teve a
temeridade de fazer de
Cristo o bode expiatório, mas houve críticas retrospectivai às
repúblicas marítimas italianas e às ordens militares. João de Villiers,
o mestre do Hospital, que
tinha sido ferido e levado para a segurança de ChiprC,, escreveu
posteriormente a Guilherme de Villaret, o hospitalário prior de Saint-
Gilles, num tom que sugere
que ele estava perfeitamente cônscio de que se julgava que deveria ter
morrido no seu posto."' A morte heróica de Guilherme de Beaujeu não
expungiu por completo
sua reputação como a principal fonte de desunião no reino latino. O papa
Nicolau IV anunciou publicamente que as disputas entre o Templo e o
Hospital haviam contribuído
para a ruína de Acre e propôs que as duas ordens fossem portanto
fundidas. Isso foi endossado por quase todos os concílios da Igreja
depois de 1201 e associado a
exigências, como as do Concílio de Canterbury que se reuniu no Templo em
Londres em fevereiro de 1292, de que uma nova cruzada fosse custeada com
os recursos financeiros
das duas ordens. Não obs-

O TEMPLO NO EXÍLIO

tante, quando Nicolau IV morreu em 1293, os resolutos planos de uma nova


cruzada morreram com ele.

A fusão proposta do Templo e do Hospital foi mal recebida pelas duas


ordens militares. Nenhuma delas queria abdicar de sua autonomia, e ambas
sentiam que estavam
sendo usadas como bodes expiatórios para o fracasso de outrem na
organização de ajuda a Acre. Ambas estavam seguras não apenas de que
eram poderosas demais para
serem coagidas a uma união, mas também de que eram indispensáveis a
qualquer cruzada futura. Não obstante, a defesa da Terra Santa tinha
sido sua raison d ëtre,
e embora sua bravura na defesa de Acre lhes tivesse dado crédito, a
rendição de Sídon e do Castelo Peregrino sem luta, ainda que sem dúvida
justificada por motivos
estratégicos, não havia aumentado seu prestígio.
Com alguma presciência, a Ordem Teutônica, após a queda de Acre,
mudara sua sede primeiro para Veneza e depois, em 1309, para Marienburg,
na Prússia, e a
partir de então lutou exclusivamente contra os prussianos e os lituanos
pagãos. O Hospital, como o Templo, buscou refúgio em Chipre, onde
possuía extensas propriedades,
estabelecendo seu convento em Limassol em 1292. Mas tendo expandido sua
frota de galeras para reforçar o bloqueio ao Egito, conforme instruído
pelo Segundo Concílio
de Lyon, os hospitalários agora procuravam uma base livre da jurisdição
do rei de Chipre. O olhar do grão-mestre, Foulques de Villaret, eleito
em 1305, caiu sobre
a ilha de Rodes.

Nominalmente ainda parte do Império Bizantino, nos últimos


trinta anos Rodes tinha sido governada por genoveses piratas. Não havia
nenhum soberano na região
do mar Egeu: o Sul da Grécia ainda era governado por príncipes latinos,
Creta e algumas das ilhas jônias por Veneza, e se fazia pouca distinção
entre comerciantes
e piratas, ou entre mercenários e bucaneiros. Em março de 1302, o Templo
em Chipre pagou um resgate de 45.000 moedas de prata para assegurar a
libertação de Guido
de Ibelin e sua família, que tinham sido seqüestrados por piratas de seu
castelo em Chipre.

Uma boa idéia do caos que reinava no Mediterrâneo nessa época é


fornecida pela carreira de Rogério de Flor, o templário que extorquiu o
tesouro
das matronas de Acre em troca de um lugar em sua galera. Segundo se
dizia, filho de Richard von der Blume, falcoeiro do imperador Frederico
II, após a queda dos
Hohenstaufen ele foi contratado, aos oito anos de idade, como taifeiro
numa galera dos templários no porto de Brindisi. Latinizando seu nome
para Rogério de Flor,
ingressou na Ordem do Templo e ascendeu ao posto de comandante da galera
Falcon.

269
OS TEMPLÁRIOS

Expulso da Ordem devido ao seu comportamento em Acre, ele


navegou para Marselha e em seguida para Gênova, onde foi posto no
comando de uma nova galera, a
Olivetta. Enormemente enriquecido, primeiro através da pirataria e
depois como líder de um bando de mercenários catalães que combatiam na
Sicília, por volta de 1302
estava no comando de uma frota de trinta e duas galeras e navios de
transporte e de uma força de 2.500 homens. Estes ele colocou à
disposição do imperador bizantino
Andrônico Paleólogo em troca da mão de sua sobrinha Maria, do título de
megas dux e, para sua Companhia Catalã, do dobro das taxas de pagamento
usuais. Após uma
vitoriosa campanha contra os turcos na Anatólia, Rogério foi
assassinado. Sua Companhia Catalã, sob um novo comandante, apossou-se do
ducado de Atenas em 1311, onde
permaneceu por senta e sete anos."'

Um de apenas pouquíssimos templários renegados cuja história foi


registrada, a rápida ascensão e a súbita queda de Rogério de Flor
revelam a relativa facilidade
com que uma bem organizada força de combatentes poderia adquirir um
domínio da sua escolha. Tirando proveito dessa anarquia, uma força de
hospitalários desembarcou
em Rodes em junho de 1306, e antes do fim do ano havia capturado a
capital, Filermo. Em 1307, o papa Clemente V sancionou sua conquista, e,
embora mais três anos
fossem necessários para subjugar a ilha inteira, o Hospital possuía um
principado bem fortificado e auto-suficiente que assegurava sua
independência de controle
externo.

Os templários não eram tão sagazes. Eles tinham propriedades


substanciais na ilha de Chipre, entre elas uma fortaleza ao norte de
Famagusta e torres fortificadas
em Limassol, Yermasoya e Khirokitia, mas não estavam em condições de
governar ou mesmo dominar a ilha. Além do mais, tinham sido punidos pelo
rei Hugo de Chipre
por apoiarem Carlos de Anjou na disputa pela coroa de Jerusalém: sua
casa em Limassol, seqüestrada pelo rei Hugo, só lhes foi devolvida
depois da intervenção do
papa Maninho IV na década de 1280.

As relações continuaram azedas após a queda de Acre, quando a


sede do Templo se mudou para Chipre: o rei Henrique dificilmente pode
ter-se sentido inclinado
a dar as boas-vindas a um influxo de cavaleiros do Templo, sargentos e
tropas auxiliares. O Capítulo Geral que se reuniu em Nicósia na esteira
do desastre contou
com a presença de 400 confrades da Ordem; e em 1300 esta foi capaz de
enviar 120 cavaleiros, 500 arqueiros e 400 serviçais para reforçarem a
guarnição na ilha de
Ruad. Como sempre, os templários foram alvo de ressentimentos devido a
seus privilégios e isenções. Em 1298, o rei Henrique II enviou uma
embaixada para se queixar
ao papa do comportamento da Ordem; e, quando ele foi obrigado a abdicar
pelos barões ciprio-

270

O TEMPLO NO EXÍLIO

tas em favor de seu irmão Amauri em 1306, os templários faziam parte do


grupo que ficou contra e1e.31s
A direção da Ordem tinha passado nessa ocasião das mãos de
Teobaldo Gaudin, que falecera em abril de 1293, para as de um novo grão-
mestre, Jacques de Molay.
Originário da pequena nobreza do Franche-Comté, parte do pós-carolíngio
reino central da Lorena, que fornecera muitos cavaleiros à Ordem, ele
era filho de João de
Longwy e parente da distinta família Rohan pelo lado materno. Tomou o
nome de Molay de uma propriedade na diocese de Besançon e fora recebido
na Ordem em Beaune,
na Borgonha, em 1265, por dois altos funcionários, Humberto de Pairaud,
mestre na Inglaterra, e Amauri de La Roche, mestre na França. Tinha
passado grande parte
de sua carreira no ultramar, mas não se sabe se estava presente ou não
durante o sítio de Acre.
Sem dúvida experiente depois de trinta anos na Ordem, e com toda
a certeza competente de muitas formas, Jacques de Molay era também
destituído de imaginação,
inflexível e não possuía a astúcia do grão-mestre do Hospital, Foulques
de Villaret. O único papel que ele conseguia conceber para o Templo era
o da vanguarda numa
reconquista da Terra Santa. Para esse fim, ele mantinha a guarnição na
ilha de Ruad, e convocou cavaleiros e sargentos da Europa, a fim de
compensar as perdas que
a Ordem sofrera em Acre.
Em 1294, Jacques de Molay viajou à Europa para tentar obter
apoio à sua Ordem. Ele estava em Roma em dezembro, num momento único na
história da Igreja Católica
Romana, quando pela primeira e última vez um papa, Celestino V abdicou,
sucedendo-lhe um de seus cardeais, com o nome de Bonifácio VIII. De
Roma, Molay viajou à
Itália central, e em seguida a Paris e Londres. Ou pessoalmente, ou por
intermédio de correspondência, ele estava em contato com todos os
monarcas da Europa Ocidental.
Tinha relações particularmente cordiais com o rei Eduardo I da
Inglaterra, que em 1302 lhe escreveu que apenas as guerras na França e
na Escócia o haviam impedido
de "ir a Jerusalém, conforme ele havia jurado (...) e nessa viagem ele
havia concentrado todo o seu coração".3'9 Eduardo isentou a Ordem de uma
proibição geral da
exportação de valores, de modo que os fundos coletados pelo Templo de
Londres pudessem ser remetidos a Chipre.
O lobby de Jacques de Molay em Roma também se revelou frutífero:
o novo papa, Bonifácio VIII, publicou uma bula determinando que o Templo
deveria gozar os
mesmos privilégios e isenções em Chipre que gozara na Terra Santa; e
Carlos II em Nápoles decretou que as exportações de alimentos dos
templários dos portos do sul
da Itália deveriam ser isentas de impostos, contanto que fossem para uso
da Ordem. Navios de carga foram cons-

271
OS TEMPLÁRIOS

truídos para transportar os carregamentos do Templo, e em 1293 seis


galeras foram compradas de Veneza. Estas faziam parte de uma esquadra
que em julho de 1300 fez
vários ataques de surpresa na costa do Egito e da Síria, e em novembro
transportou uma força de 600 cavaleiros a Ruad como base para um assalto
a Tortosa. .

Esse regresso à Terra Santa foi planejado como uma operação


combinada com os mongóis sob Il-khan Ghazan e os armênios sob o rei
Hetoum, mas quando os exércitos
deles chegaram a Tortosa em fevereiro de 1301, as forças latinas tinham
desistido de esperar e retornado a Chipre. O Templo continuou a
fortificar e abastecer Ruad,
mas os mamelucos no Egito, percebendo como ela poderia ter sido usada
como base para a reconquista da Palestina, enviaram uma frota de
dezesseis galeras para sitiá-la.
A guarnição resistiu até que se defrontou com a fome. Seu comandante, o
irmão Hugo de Dampierre, providenciou então um salvo-conduto como
condição da sua rendição,
porém mais uma vez os mamelucos não mantiveram a palavra, e os
templários foram mortos ou feitos prisioneiros. Viajantes mais tarde
relataram sobre cavaleiros do
Templo vivendo em pobreza no Cairo e, em 1340, trabalhando como
lenhadores perto do mar Negro.
O ataque a Tortosa veio na crista da onda de entusiasmo, na Europa
Ocidental, por uma nova cruzada, que contemplava o papel mais destacado
para as ordens militares,
vendo-as como "a mais importante fonte individual de projetos de
cruzadas".3z° Durante a maior parte do ano de 1300, um otimismo
inebriante havia prevalecido na
Cúria Pontifícia, onde se acreditava que Jerusalém tinha sido
conquistada pelo Il-khan mongol, Ghazan, e seria devolvida aos cristãos.
Isso era não apenas o resultado
de uma falsa crença, baseada no desejo, porque durante a primeira metade
de 1300 não restavam forças mamelucas na Síria e os mongóis controlavam
a Terra Santa; mas
o otimismo era prematuro, pois no ano seguinte os mamelucos regressaram.
Com a rendição de Ruad, a maior esperança de uma cruzada bem-
sucedida parecia residir de novo no rei da França. Filipe IV havia
ascendido ao trono em 1285,
após a morte de seu pai, Filipe III, em virtude de uma febre que
contraíra enquanto participava da "cruzada" do papa Martinho IV contra
os aragoneses. Não entusiástico
por essa guerra contra o irmão de sua finada mãe, Filipe IV ao ascender
ao trono, reconciliou-se com Aragão e concentrou suas energias na
modernização da administração
real da França. Na fase inicial de seu reinado, ele demonstrou pouco
interesse numa cruzada e, em dezembro de 1290, pediu ao papa Nicolau IV
que o desobrigasse da
responsabilidade pela custódia da Terra Santa, responsabilidade essa
herdada de seu pai.

272

O TEMPLO NO EXÍLIO

A exemplo do imperador Frederico II, Filipe IV tinha sido


afetado na infância pela morte precoce da mãe. Ele pouco vira seu pai, e
a vinda de uma madrasta
ardilosa, Maria de Brabante, quando Filipe tinha seis anos, fê-lo apenas
sentir-se menos seguro; pois quando seu irmão Luís morreu, dois anos
mais tarde, correram
rumores de que ele tinha sido envenenado por Maria de Brabante e de que
ela tencionava livrar-se de seus outros enteados de forma semelhante.
Filipe refugiou-se
cada vez mais numa religiosidade apreensiva, voltando-se para o seu pio
avô, Luís 1X, em busca de um modelo de conduta.

Casando-se aos dezesseis anos com a sua companheira de infância,


Joana de Navarra, que trouxe não só Navarra, mas também a Champagne como
dote, Luís tornou-se
rei apenas um ano mais tarde. Ele foi o décimo primeiro membro da
dinastia fundada por Hugo Capeto em 987 e, totalmente imbuído com o
elevado conceito que sua família
tinha da monarquia, contava com o apoio de cortesãos, bem como de
clérigos; para o Concílio de Sens, ele era o rei da França "mais
cristão", e para Giles de Roma,
"mais do que um homem, completamente divino".s2'

A piedade de Filipe era sincera: ele se submeteu a diferentes


penitências para mortificar sua carne, entre elas o uso do cilício.
Homem alto, bonito, reservado,
com cabelos louros e tez pálida, que fizeram com que viesse a ser
chamado de Filipe, o Belo, o rei francês era um hábil caçador e era
considerado um cavaleiro consumado.
Bernardo Saisset, bispo de Pamiers, reconhecia que Filipe era "mais
bonito do que qualquer outro homem no mundo", mas julgava que seu
comportamento arredio era uma
forma de encobrir uma cabeça vazia: "ele nada sabia, exceto encarar os
homens como uma coruja, a qual, embora seja bonita de contemplar, sob
outros aspectos é um
pássaro inútil". Essas observações resultaram na prisão do bispo em
1301, sob as acusações de blasfêmia, bruxaria, heresia, traição, simonia
e fornicação. Um historiador
contemporâneo vê em Filipe uma personalidade mais complexa, mas
igualmente sem atrativos - "uma pessoa capciosa, inflexivelmente
moralista, rigorosamente escrupulosa,
sem senso de humor, obstinada, agressiva e vingativa, que tinha medo das
conseqüências eternas de seus atos temporais".322

O casamento de Filipe com Joana de Navarra era feliz: Joana era


uma mulher enérgica e solícita, que tinha uma profunda devoção a Luís
IX, avô de seu marido.
Ela e sua mãe tornaram-se inimigas de Guichard, bispo de Troyes, o qual,
quando Joana morreu, em abril de 1305, foi acusado de assassiná-la por
meio de bruxaria
e magia negra. Filipe foi profundamente afetado pela morte dela e nunca
voltou a se casar.

273
OS 'EMPLÁRIOS

Filipe era herdeiro não apenas de uma tradição de piedade, como


também da política dos monarcas capetíngios de inexorável
desenvolvimento a expensas dos
principados ao redor, como o de Toulouse, e, dentro de seu reino, por
meio da expansão dos direitos reais a expensas da nobreza, das cidades e
da Igreja. Para historiadores
posteriores, mas também para os de seu tempo, era difícil avaliar a
influência exercida pelos ministros que executavam essa política,
favorecendo a ideologia absolutista
que marcou o reinado de Filipe. Estes eram oriundos de uma ascendente
classe de advogados, os légistes, que nada deviam à Igreja ou à nobreza,
mas derivavam seu
poder exclusivamente da mercê do rei. Na década de 1290, o mais eminente
desses ministros era Pedro Flote, guardião dos selos e chefe da
chancelaria; mas após sua
morte, em 1302, os selos foram transferidos a Guilherme de Nogaret, um
advogado procedente das imediações de Saint-Félix-deCaraman, no condado
de Toulouse.

Pouco se sabe acerca das origens e dos primeiros anos da vida de


Guilherme de Nogaret, o que levou alguns historiadores a supor que ele
tivesse algo a esconder,
possivelmente a descendência de cátaros. "Diferentes cronistas sugeriram
que o pai de Guilherme, sua mãe e vários de seus parentes tinham sido
queimados por heresia";323
sua cidade natal, Saint-Félix-deCaraman, foi onde o "papa" cátaro
Niquinta havia realizado um concílio em 1167. Se Nogaret se originava ou
não de uma família herética,
e se, caso se originasse, sua simpatia residual pelos derrotados cátaros
resultou em animosidade contra a Igreja Católica, isso não passa de
conjeturas. Sem dúvida,
teria sido imprudente de sua parte revelar qualquer simpatia pela
heresia, e na verdade mais eficaz, dada a piedade do rei Filipe,
expressar uma particular repugnância
por ela e promover seu soberano como um rei "catolicíssimo", que
descendia de "ardorosos paladinos da fé e resolutos defensores da Santa
Madre Igreja". 324

Tampouco o consenso entre historiadores contemporâneos aceita


que Filipe fosse manipulado por seus ministros, mas o vê antes como "o
poder dirigente no reinado".325
A crença de Filipe de que era um eleito de Deus não o alçou acima de
princípios políticos práticos, mas antes o tornou muito resoluto em
adquirir os meios para cumprir
seu papel divinamente determinado. O principal obstáculo era a
obstinação de seu principal vassalo, o duque da Gasconha, que era ao
mesmo tempo o rei da Inglaterra,
Eduardo I. Antes de tudo, como cruzado oficial, Eduardo era considerado
o líder natural de qualquer cruzada e, portanto, o principal soberano da
cristandade; em
segundo lugar, sua base de poder na Inglaterra permitia-lhe resistir à
política capetíngia, continuada por Filipe, de expandir seus poderes à
custa de seus vassalos.
Isso levou à guerra entre a França e a Inglaterra e o aliado da Ingla-

274

O TEMPLO NO EXÍLIO

terra, Flandres. A reconciliação com Eduardo I ocorreu em 1298, mas a


guerra em Flandres revelou-se um atoleiro. Em maio de 1302, os franceses
de Bruges foram massacrados
e a subseqüente campanha de Filipe para vingá-los terminou em derrota em
Courtrai, durante a qual Pedro Flote foi morto.

Essas guerras incorreram em enormes despesas, aumentando as


dívidas que Filipe herdara da guerra de seu pai contra Aragão - cerca de
1,5 milhão de livres
tournois. Todo expediente à disposição do monarca foi usado para
angariar fundos. As obrigações feudais foram exploradas até o limite
máximo e a força foi usada
para extorquir impostos às cidades. Quando todas as fontes aceitas e
legítimas se exauriram, os ministros do rei voltaram-se para minorias
ricas impopulares. Primeiro
foi a vez dos mercadores lombardos

que viviam em Paris, os quais, no início do reinado de Filipe, haviam


atuado como seus banqueiros, dando garantia de empréstimos com base em
tributação futura: eles
foram pouco a pouco esbulhados por meio de multas e confiscos,
culminando com desapropriação total e expulsão da França. Em

julho de 1306, foi a vez dos judeus. Seus bens foram confiscados e eles
também foram expulsos da França.

Outro expediente foi a depreciação da moeda corrente - livres, sous e

denirs. Entre 1295 e 1306, a casa da moeda real reduziu o valor da moeda
em duzentos por cento. Em junho de 1306, o rei Filipe jovialmente propôs
a volta da moeda
corrente na época de seu avô, Luís IX. O dinheiro em circulação na
França perdeu dois terços de seu valor, o que levou a distúrbios em
Paris, dos quais o rei só
escapou por ter-se refugiado no Templo da cidade.
De longe, a mais promissora fonte de receita adicional era a
Igreja Católica. Até então, ela só podia ser taxada com a permissão do
papa, mas tanto Eduardo
I na Inglaterra quanto Filipe IV na França tinham-no feito sem tal
permissão. Já por volta de 1296, as tentativas do papa Bonifácio VIII de
intervir na guerra entre
os dois reis tinham malquistado os franceses. Agora,

numa bula intitulada Clerico laicos, Bonifácio reiterava a condenação da


tributação do clero sem o consentimento do papa. A reação de Filipe foi
proibir a transferência
de todos os fundos da França para o papa em Roma. Como O papa dependia
de seus rendimentos franceses, ele não teve alternativa senão voltar
atrás, e, para selar
sua reconciliação, em 11 de agosto de 1297 declarou santo o avô de
Filipe, Luís IX.

A exemplo dos papas Inocêncio III e Gregório IX, Bonifácio VIII nascera
na cidadezinha de Anagni, ao sul de Roma. Sua família, os Caetani, não
era tão

eminente quanto os Segni, que tinham fornecido os papas anteriores, mas


ele era um homem com a mesma índole, um bacharel em direito canônico
OS TEMPLÁRIOS

por Bolonha, o qual, na década de 1260, fora em missões diplomáticas ã


França e à Inglaterra, tornando-se cardeal durante o pontificado de
Nieolau IV. Seu predecessor,
Pietro de a Morrone, que tinha reinado como Celestino V, fora outrora
eremita. Deixar-ido a reclusão de sua caverna, Pietro fundara o mosteiro
de Santa Spiritu em
Nápoles e criara vínculo com os "místicos" franciscanos, que desejavam
observar a absoluta pobreza do fundador da ordem Em 1294, quando foi
escolhido como papa,
ele estava com oitenta e quatro anos e vivia de novo sozinho numa
caverna.
A eleição de Celestino V tinha ocorrido após um longo impasse no
Colégio de Cardeais e com a expectativa de que a escolha de uma pessoa
genuinamente devota
revitalizasse a Igreja. Contudo, ele também era o candidato favorita de
Carlos II, o rei francês de Nápoles, que, contra a vontade dos cardeais,
instalou Celestino
V no Castel Nuovo, em Nápoles, e abarrotou o Colégio de Cardeais com as
pessoas que ele próprio nomeara. Embora sem dúvida virtuoso, Celestino
era também ingênuo,
sem instrução e incompetente, com insuficientes conhecimentos de latim
para acompanhar o dia-adia da administração da Igreja.
Celestino V tinha relutado em aceitar a tiara pontifícia, e já
quase em fins de 1293 tinha-se-lhe tornado claro que ele não estava à
altura do cargo. Depois
de tentar transferir o governo da Igreja para um comitê de três
cardeais, ele perguntou ao principal canonista entre os cardeais,
Benedetto Caetani, se era possível
que um papa renunciasse. Citando falsos precedentes, o cardeal redigiu
uma fórmula para sua abdicação. Num consistório em 13 de dezembro,
Celestino V renunciou à
insígnia pontifícia, na esperança de regressar à vida de eremita, mas
seu sucessor, receando que ele pudesse formar o foco de um cisma, mandou
confinar Celestino
em Castel Fuome, perto de Ferentino, onde ele faleceu em 1296. Esse
sucessor foi Benedetto Caetani, que adotou o nome Bonifácio VIII.
A reconciliação do papa Bonifácio VIII com o rei Filipe IV, que
resultou na canonização de São Luís em 1297, foi colocada sob reiterada
tensão por causa
de uma acirrada disputa entre o papa e a poderosa família Coloriria por
terras na Campanha. Os dois cardeais Coloriria que tinham apoiado a
eleição de Bonifácio
VIII voltavam-se agora contra ele, alegando que a abdicação de Celestino
tinha sido não-canônica e que ele fora assassinado pelo novo papa.
Depois de os Coloririas
terem se apropriado de uma consignação de tesouro pontifício, Bonifácio
moveu-se contra eles, arrasando seus castelos e doando suas terras a
membros da família dele.
Os cardeais Coloriria fugiram para a corte do rei Filipe, na França.
O ano de 1300 marcou o ponto alto do pontificado de Bonifácio
VIII e na época pareceu o auge das reivindicações pontifícias à
jurisdição universal. O

O TEMPLO NO EXÍLIO

papa não só prevaleceu sobre os Coloririas, mas parecia à beira de um


triunfo no Oriente: uma cruzada estava em marcha para retomar Tortosa,
ao passo que Jerusalém
deveria ser devolvida pelos mongóis à Igreja. Também era o milésimo
trecentésimo aniversário do nascimento de Cristo e, para marcar a
ocasião, o papa Bonifácio o
proclamou um ano de jubileu, prometendo total remissão dos pecados
àqueles que visitassem a Basílica de São Pedro e o Latrão após
confessarem seus pecados. Essa
foi a mais surpreendente demonstração do poder de um papa de "ligar e
desligar", desde que Urbano II pregara a Primeira Cruzada. A oferta foi
aceita por não menos
de 200.000 peregrinos: a multidão era tão densa que uma brecha teve de
ser feita no muro de Leão para deixá-la passar. O papa Bonifácio,
exultante, apareceu diante
dos peregrinos sentado no trono de Constantino, segurando espada, coroa
e cetro e gritando: "Eu sou César! "I"

O orgulho precede a queda. Em 1301, Bernardo Saisset, bispo de


Pamiers, cujos desdenhosos comentários sobre o rei Filipe IV já foram
mencionados, foi detido
por ordem do rei, lançado na prisão e, com provas obtidas após a tortura
de seus serviçais, acusado de blasfêmia, heresia, simonia e traição.
Isso foi uma clamorosa
infração da jurisdição eclesiástica e uma afronta à autoridade do papa.
Na bula Auscultafili, publicada em 5 de dezembro de 1301, o papa
Bonifácio condenou essa
violação das prerrogativas da Igreja e convocou os bispos franceses para
um sínodo em Roma. Trinta e nove ousaram comparecer, e em 18 de novembro
de 1302 o papa
Bonifácio publicou uma bula, Unam sanctam, que reiterava todas as
reivindicações à supremacia pontifícia que tinham sido feitas desde o
pontificado de Gregório VII:
"é completamente necessário à salvação", escreveu ele, "que toda
criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano".
A bula fazia citações em profusão dos escritos de papas
anteriores e de Tomás de Aquino e Bernardo de Clairvaux, o qual agora,
como o rei Luís IX, tinha
sido declarado santo. Como o rei Filipe não desse nenhuma demonstração
de estar disposto a aceitar as reivindicações da bula Unam sanctam, a
curvar-se à vontade
do sumo pontífice e a arrepender-se de seus erros, o papa Bonifácio
preparou uma bula de excomunhão. Todavia, antes que fosse publicada, ele
foi imediatamente detido
por um golpe de estupenda audácia. Enquanto Bonifácio estava em seu
palácio em Anagni, uma força de soldados franceses liderada pelo
ministro do rei Filipe, Guilherme
de Nogaret, e incluindo amigos dos dois cardeais Coloriria e seus
partidários, irrompeu no Palácio dos Papas para prender o papa.

Defendido por apenas uma pequena força de cavaleiros do Templo e


do Hospital, o papa Bonifácio, usando os adereços pontifícios completos,
desafiou seus captores
a matá-lo. "Eis aqui meu pescoço", gritou ele, "eis aqui
OS TEMPLÁRIOS

minha cabeça." Nogaret e os Coloririas rec-varam de um ato tão


irrevogável; ao invés, eles tencionavam levar Bonifácio para a França, a
fim de que fosse julgado
perante um concílio da Igreja sob as acusações que os propagandistas
deles lhe imputavam: heresia, sodomia e o assassinato do papa Celestino
V. Contudo, a notícia
da afronta se espalhou entre a população de Anagni, que se reuniu em
defesa do papa. Os franceses foram expulsos da cidade e o papa Bonifácio
VIII regressou a Roma,
mis seu espírito estava alquebrado pela humilhação. Ele morreu quatro
semanas mais tarde, e com ele morreram as aspirações dos papas ao
governo urfiversal.

O Ataque ao Templo

A "afronta" em Anagni escandalizou a Europa e foi comparada por Dante,


apesar de sua aversão a Bonifácio VIII, à recrucificação de Cristo.
Horrorizado pelo sacrilégio,
o conclave que se reuniu para escolher um sucessor excomungou os dois
cardeais Colonna e os excluiu de suas deliberações. Por unanimidade, os
demais cardeais escolheram
Niccolò Boccasino, cardealarcebispo de Óstia, mas dentro de um ano após
sua ascensão ele foi acometido de disenteria e morreu.

Os cardeais voltaram a reunir-se para escolher um sucessor, mas


havia um impasse entre aqueles que queriam vingança pelo ultraje em
Anagni e aqueles que
procuravam conciliação com os Coloririas e o rei da França. Os primeiros
estavam em maioria, mas divididos pela ambição pessoal de dois cardeais
da família Orsini.
Após onze meses de deliberações inconclusivas, os cardeais resolveram
pensar em candidatos da Igreja mais ampla. Eles estavam sujeitos à
evidente pressão externa:
o rei Carlos II de Nápoles foi a Perugia para juntar-se a uma delegação
enviada pelo rei Filipe IV da França.
Em junho de 1305, dez dos quinze cardeais chegaram a um acordo
sobre um francês, o arcebispo de Bordéus, Beltrão de Got. Terceiro filho
de Béraud de Got,
senhor de Villandraut, sua família estava profundamente envolvida no
establishment político e eclesiástico da Gasconha. Estimados por seu
suserano, o rei Eduardo
I da Inglaterra, membros da família Got tinham sido enviados em
delicadas missões diplomáticas, e o irmão mais velho de Beltrão, Béraud,
havia subido na hierarquia
da Igreja até se tornar cardeal e arcebispo de Lyon. Beltrão ascendeu no
rastro de seu irmão, tornando-se seu vigário-geral, capelão papal, bispo
e por fim arcebispo
de Bordéus.
Adotando o nome de Clemente V Beltrão de Got estava sem dúvida
cõnscio de que sua ascensão ao trono do sumo pontífice não se devia a
nenhuma qualidade positiva,
e sim porque ele era o candidato menos objetável para as diferentes
facções envolvidas. O rei Filipe IV da França tinha razão em pensar que
o novo papa seria submisso
a suas ordens. O rei Eduardo I da Inglaterra mostrou sua aprovação da
ascensão do filho de um de seus vassalos
OS TEMPLÁRIOS

cm ricos presentes para ele tanto em Bordéus quanto em Lyon, na i si


coroação. Para os italianos, no entanto, Clemente Vera uma coai reFilipe
da França, percepção
substanciada, aos seus olhos, pelo fato e] nunca pisou em Roma como
papa.

Com certeza, nos dois séculos anteriores, os papas haviam aI r~

pc apenas oitenta e dois anos, com freqüência preferindo, por r az


sade ou segurança, manter a corte em Orvieto, Viterbo, Anagni ou Ná `
rrn, de modo geral, eles haviam escolhido cidades dentro dos Estado
trios, ou de qualquer modo na Itália. Clemente V jamais cruzaria O3
e mbora ele residisse temporariamente em cidades como Lyon, Vietr
p( fim Avignon, que estavam tecnicamente fora da jurisdição do reis
c~ elas não estavam além do alcance de suas forças armadas, como de,
cairia no Concílio de Vienne.

Por que Clemente V permaneceu tão perto da França? Dois crot


itianos, Agnaldo de Tura e Giovanni Villani, escreveram que o cave Ncolò
da Prato tinha providenciado
um encontro entre Beltrão de qindo ele ainda era arcebispo de Bordéus, e
Filipe, o Belo, no qual o rei e ciara quatro condições para seu apoio: a
reconciliação com
os Colonte
ccl todos aqueles envolvidos no ultraje em Anagni; uma denúncia f al
deBonifácio VIII; a nomeação de cardeais francófilos; e uma como Se'eta,
"misteriosa e importante",
que o rei comunicaria a Beltrão dê. ot

noa data posterior.

De acordo com os teóricos desse conluio, a resposta de Beltrão à


otl rlci;linv foi: "Vós ordenareis A A„ obedecerei"; F. muito embora a
hfC~

se agora considerada imaginária, "ela reflete os motivos por trás da ele


-o d0emente conforme percebida na península Itálica".` Tarribé se
dereende de suas ações
posteriores que Clemente V satisfez as exigên
as doei: em dezembro de 1305, ele nomeou dez novos cardeais,
nove deles o reo da França, incluindo as possessões angevinas, e um da
Inglaterra. atrdos novos
cardeais eram parentes do papa e um, Arnaud de Poyannes~ m veo amigo. A
escolha deles não foi apenas uma questão de favoritismo,. as asgurava ao
novo papa uma equipe
em que podia confiar.'Z8 O balam a faR dos cardeais do reino da França
foi confirmado por uma segunda nor~açãde cinco cardeais em 1310, dois
deles sobrinhos do papa
e todoo~a Fr;ça. Mas essa preponderância de clérigos franceses não
visava t~mrte a saldar numa dívida. Antes, o cultivo de Filipe, o Belo,
pelo pape, ra pque "a
colaboração com o rei da França era (...) imperativa para a reÁ a-

~m

çãdo objetivo mais caro a Clemente: a cruzada 11.329

ZRn

'ia

O ATAQUE AO TEMPLO

O inebriáante otimismo acerca da Terra Santa que tinha prevalecid na


Cúria Pontifíci;ia, em 1300 fora exposto como uma crença baseada no
deeJo, e não em razõecs
lógicas. Os mamelucos tinham reocupado a Palestina; Nad tinha se
rendicdo, e o II-khan mongol, Ghazan, que deveria ter devolvi1°
Jerusalém aos ccristãos, proclamou
em 1304 que a religião oficial em toas os seus domínioss seria o
islamismo. O último principado cristão no contirmte asiático, a Asrmênia
Cilicia, foi atacado por
mongóis e mamelucos. •m 14 de novembrro de 1305, Clemente foi coroado
com a tiara pontifícia n,Igreja de Saint-Jusst, em Lyon, na presença do
rei Filipe, o Belo,
de seu irrla° Carlos de Valois3, de João II, duque da Bretanha, e de
Henrique, duque cF Luxemburgo; dcois dias mais tarde ele publicou uma
encíclica que procla'iava
uma nova cruzada.

Para ~ Clemente, que adotara o nome do papa anterior que


traPlhata em tamanha harmonia com São Luís, uma cruzada só poderia ser
bemsucedida se fosse liderada
pelo rei da França. Para esse fim, ele não só 'ersuadiu Filipe, o IBelo,
a tomar a Cruz, o que ele fez em Lyon em 29 de dez=cobro de 1305, maus
também trabalhou
diligentemente para resolver as entendas que poderiam impedir o
cumprimento de sua promessa, como aqcela entre a França ce a Inglaterra.
Ele serviu de intermediário
num acordo erfre Filipe IV e Edwardo I e, avaliando o peso sobre os
recursos financeiros le Filipe, concedew-lhe um décimo da renda da
Igreja na França para financiar
a cruzada - c;inco ou seis vezes a receita do rei.

A inteenção do rei Filipe nessa conjuntura era cumprir sua


promessa, não só para conquistar glória ao livrar os Lugares Santos do
infiel, mas também para
fundar um império francês no Mediterrâneo oriental. A fralueza do
imperadolr bizantino que possibilitara aos hospitalários se apossarem da
ilha de Rodes levava agora
o rei Filipe IV a cobiçar o trono do Império df Oriente para seu ürmão
Carlos de Valois. Isso talvez não estivesse de acor'1° com o plano de
(Clemente V mas a França,
Veneza, Aragão e Nápoles "estivam claramente (comprometidos com a
conquista de Constantinopla".sa°

Na mlente de Filipe, uma condição prévia para uma cruzada brm-


sucedida era ai fusão das ordens militares. Ele comandaria a Ordem
résultante dessa fuso e
um de seus filhos lhe sucederia. A idéia não era nova eP°de ser
encontrada em muitos dos tratados escritos mais ou menos nessa éli°ca
para aconselhar o papa na reconquista
da Terra Santa. De particular imf °rtância foi De
reczuperationeterresanete, da autoria de um advogado normand°> Pierre
Dubois, um propagandista do governo francês,
uma espécie de especialista em marketing político de seu tempo. Sua
proposta era em essêr{cia "um plano para o estabelecimento da hegemonia
francesa sobre o Ocidente
e o Oriente pior meio de uma cruzada".33' Essencial a esse
empreendimento era
OS TEMPLÁRIOS

a fusão do Templo e do Hospital e a utilização de seus recursos pelo rei


francês. Ominosamente, num pós-escrito a esse tratado, Dubois
acrescentou que talvez fosse
conveniente "destruir por completo a Ordem dos Templários e, para as
necessidades da justiça, aniquilá-la totalmente"."' Todavia, a idéia de
fundir as duas ordens
era quase universal: o escritor maiorquino Raimundo Lúlio, que dedicou
muito tempo e basicamente sua vida aos problemas apresentados pelo Islã,
na verdade condenou
ao inferno os que a este se opunham.
Praticamente, o único homem que se opôs à idéia foi o grão-
mestre do Templo, Jacques de Molay. Em resposta a uma solicitação do
papa Clemente V ele elaborou
um memorando expondo seus pontos de vista. Ele começou com a origem da
proposta de fundir as ordens, remontando-a ao Segundo Concílio de Lyon
em 1274. e relacionando
os papas, entre eles Bonifácio VIII, que tinham decidido contra ela.
Jacques de Molay reconhecia que haveria algumas vantagens numa fusão -
uma ordem unida estaria
em condições mais sólidas de se defender contra seus inimigos -, mas,
levando tudo em consideração, ele julgava que elas seriam mais eficazes
se continuassem separadas.
A competição entre o Templo e o Hospital era benéfica, e, embora seus
objetivos fossem semelhantes, cada uma delas tinha um ethos distinto: o
Hospital dava precedência
a sua obra de caridade, ao passo que o Templo era antes de trudo uma
força militar "fundada especialmente como uma ordem de cavalaria". Além
do mais, ele achava
que as duas ordens tinham maior probabilidade de alcançar seus objetivos
de dar esmolas, proteger os peregrinos e travar guerra contra os
sarracenos, se preservassem
sua independência.

Um segundo memorando foi apresentado por Jacques de Molay, a


pedido do papa, sobre a futura conduta da cruzada. Mais uma vez, o grão-
mestre foi contra o
ponto de vista predominante na época, o qual era favorável ao passagsum
particulare - a; restrita incursão de uma força profissional para dar
apoio às forças da
Armênia Cilícia. A lição a ser aprendida da perda de Ruad pelo Templo,
sugeriu ele, era a de que essas operações em pequena escala estavam
fadadas a fracassar. Ele
tampouco poderia reComendar uma aliança com os armênios. Nais suas
negociações com eles sobre a fronteira de Amanus, os templários tinham-
nos achado indignos de
confiança. Como eles não gostavam dos francos e suspeitavam de suas
intenções, os armênios não permitiriam qule eles entrassem em seus
castelos. Além disso, o clima
na região era tão insalubre que ele duvidava se mais do que uma fração
de um exército cruzadlo sobreviveria.

Qual, então, era a solução? Jacques de Molay propôs um


passagiumgenerale, uma cruzada em grande escala barseada no modelo
clássico, como a do

O AITAQUE AO TEMPLO

rei LuísIX. A única maneira de-- reconquistar a Terra Santa era


derrotando forças nilitares do Egito. Parca fazê-lo, os reis da França,
da Inglaterra, c Alemanha,
da Sicília e da Esparnha deveriam recrutar um exército de 12.00 a 15.000
cavaleiros e 5.000 solcdados de infantaria, que as repúblicas marít mas
itaianas transportariam
cem suas galeras até Chipre como uma bas avançaca para a reconquista daa
Palestina.
Para todos os outros panfleetários, em particular aqueles com um
pont de vista semelhante ao do rei da França, esse era um conceito de
cruzad antiquado e
completamente dlesacreditado e, considerado com a oposiçã de Jacques de
Nlolay à fusão cilas ordens, o expôs como um velho teimoso desprovido de
imaginação e eg(oísta.
Sem dúvida cônscio de que seus pontc de vista seriam impopulares,
Jaacques escreveu em seu memorando a Cele; tino V cue julgava que seria
miais fácil expressar suas
idéias na presença d papa: como a maioria dos cavaleiros na época, ele
não sabia nem ler ner escreve.

Em conseqüência, o papar Clemente V convocou os grão-mestres d


Templo e do Hospital para cornferenciarem com ele em Poitiers no Dia d
Todos os Santos, 1°
de novembrro de 1306. A reunião foi adiada porque o pap sucumbiu ao
ataque de uma gastropatia endêmica que com freqüência incapacitava por
meses de urina vez. Jacques
de Molay chegou à Europ procedente de Chipre em fins de 1306 ou
princípios de 1307 e estava e
Poitiersantes do fim de maio. IFoulques de Villaret, o grão-mestre do
Hosp: tal, foi retardado pelas operações de sua Ordem em Rodes, mas
chegou Poitiers antes do
fim de agosto. Durante a estada em Poitiers, além da dia cussão do
aborrecido assunto de uma cruzada, Jacques de Molay suscitou questão de
certas acusações (que
tinham sido feitas contra membros d Templo e pediu ao papa que
instituísse uma investigação "relacionada cor essas coisas, falsamente
atribuídas a eles, conforme
dizem, e que os absol vais, se forem considerados inocentes, como
afirmam, ou os condenais, s forem considerados culpados, ino que eles de
modo algum acreditam".

Alegações de flagrante impropriedade parecem ter sido feitas por


al guns cavaleiros que tinham sido expulsos da Ordem: Esquin de Floyran,
prior de Montfaucon; Bernardo Pelet, prior de Mas-d'Agenais; e um
cavalei ro de Gisors, Gérard de Byzol. Esquin havia primeiro contado ao
rei Jaime I de Aragão o
escândalo dentro da Ordem e, não tendo conseguido persuadi-l da verdade
de suas acusações, tinha ido até o rei Filipe da França. Filipe I`
relatou os rumores ao
papa Clemente V em Lyon, na época de sua coroaçã

em 1305, e de novo em maio de 1307, quando o rei estava em Poitiers. N


dia 24 de agosto de 1307, Clernente V escreveu ao rei Filipe IV a
respeit~
dessas acusações, dizendo que, embora "dificilmente possamos crer no qu
OS TEMPLÁRIOS

foi dito naquela ocasião", ele em seguida ouvira "muitas coisas


estranhas e inauditas" a respeito do Templo e, portanto, "não sem grande
pesar, angústia e dor no
coração" havia decido instituir uma investigação."3 Nesse ínterim,
enquanto se restabelecia, o papa pediu que não se empreendesse nenhuma
ação precipitada.
Sem dúvida satisfeito de que seu pedido de investigação tivesse
sido atendido, Jacques de- Molay viajou de Poitiers a Paris, onde, em 12
de outubro de 1307,
foi um dos que carregaram o caixão no funeral da cunhada do rei Filipe,
Catarina de Courtenay, esposa de Carlos de Valois. No dia seguinte,
sexta-feira, 13 de outubro
de 1307, ele foi preso por Guilherme de Nogaret e Reinaldo Roy no
complexo do Templo além dos limites de Paris.

Três semanas afites, o rei Filipe tinha enviado ordens secretas


a seus baillis e senescais em toda a França, ordenando a detenção de
todos os membros do
Templo por Crimes "horríveis de contemplar, terríveis de ouvir (...) uma
obra abominável, uma desgraça detestável, uma coisa quase inumana, na
verdade desprezara
por toda a humanidade". Essas ordens foram executadas com extraordinária
eficiência: cerca de 15.000 cavaleiros, sargentos, capelães, confrères,
serviçais e trabalhadores
em todos os territórios governados pelo rei da França foram arrebanhados
num único dia. Apenas cerca de duas dúzias escaparam, entre eles o
preceptor da França,
Gérard de Villiers, e Imbert Blanke, o preceptor do Auvergne. Um
cavaleiro, Pedro de Boucle, apesar de ter-se desfeito de seu hábito e se
barbeado, foi reconhecido
e preso.
A exemplo do que acontecera com os judeus e os lombardos alguns
meses antes, toda a propriedade do Templo foi seqüestrada; mas o golpe
do rei contra o Templo
foi de um tipo diferente. Os templários não eram estrangeiros como os
lombardos nem infiéis como os judeus. Eram membros de uma corporaçãó
orgulhosa e poderosa que
se encontrava sob jurisdição eclesiástica, sujeita dão ao rei, mas ao
papa. O rei Filipe havia capturado as pessoas e confiscado a propriedade
de uma ordem livre,
e, revelando que estava até muito cônscio da legalidade dúbia de sua
ação, seus mandados de prisão tinham implic-afio consulta prévia "ao
nosso mais santo padre
em Cristo, o papa".

De fato, o papa
uma indignada reprepnsão.

Vós, nosso querido filho (...) violastes, em nossa ausência, todas as


regras e deitastes a mão a pessoas e propriedades dos templários. Vós
também os aprisio-
nastes e, o que nos entristece ainda mais, não os tratastes com a devida
clemên-
cia (...) e acrescentastes ao desconsolo do encarceramento ainda outra
aflição.

(,emente V não havia sido consultado e enviou ao rei


284

O ATAQUE AO TEMPLO

Vós deitastes a mãos pessoas e propriedades que estão sob a proteção


direta da, Igreja Romana (...).dosso irrlpetuoso ato é visto por todos,
e de forma correta,
como um ato de de~espeito para conosco e a Igreja Romana.334

Clemente não disse seacred fitava ou não nas acusações feitas contra os
templários; sua objeção fo principalmente à usurpação de sua
prerrogativa e à traição de
confiança inplíci ta na ação unilateral do rei; mas aquela outra
"aflição" que ele censLra Filipe por acrescentar ao desconsolo do
encarceramento era sem dúvida
i tortura, à qual os acusados foram imediamente submetidos por outra
insttuição eclesiástica, a Inquisição.

Criada para descolrir a heresia no Languedoc, com seu quadro de


pessoal formado por frade; da Ordem de Pregadores fundada por Domingos
de

Gusmão, desde 1234 un santo canonizado, a Inquisição na França se


transformara num instrumetto de coerção nas mãos do Estado. O
inquisidor-mor, Guilherme de Paris,
era o confessor do rei Filipe e, devida à religiosidade do rei, estava
sem dúvida a par de seus planos. No domingo após a prisão dos

templários, foram pregadores dominicanos quem primeiro explicou as


razões das prisões numa r:união pública nos jardins do rei, aparecendo
ao lado dos oficiais deste.335
Para auxiliar o interrogatório pelo inquisidor, a tortura tinha
sido autorizada meio século antespelo papa Inocêncio IV Ela cessaria
abruptamente de derramar
sangue ou fraturar membros: os métodos favoritos na época eram o
cavalete, que distendia os membros de um homem a ponto de deslocar suas
articulações; e à entrapada,
por meio da qual um homem era erguido

sobre uma viga por uma corda amarrada a seus pulsos, que tinham sido
atados nas suas costas. Uma terceira técnica era esfregar gordura nas
solas dos pés e colocá-los
diante do fogo. De vez em quando, os torturadores calcula-

vam mal: os pés de Bernardo de Vado, um sacerdote da Ordem do Templo


originário de Albi, foram cão gravemente queimados que seus ossos
ficaram expostos. Um cavaleiro
da Ordem, Jacques de Soci, afirmou saber de vinte e cinco confrades que
tinham morrido "por causa de tortura e sofrimento": uma carta anônima na
biblioteca da Faculdade
Corpus Christi, em Cambridge, estima o ní,mero em trinta e quatro.

Além dessas medidas específicas para produzirem dor, os suspeitos

eram postos a ferros, passavam apenas a pão e água, e proibiam-nos de


dormir. Dado que um grande número dos presos não eram guerreiros
endureci-

dos pela batalha, mas lavradores, pastores, moageiros, ferreiros,


carpinteiros e mordomos, o choque e ~ desorientação, combinados com a
simples ameaça de tortura,
rapidamente faziam com que muitos admitissem o que quer que os oficiais
do rei e os inquisidores sugerissem. Por volta de janeiro de 1308,
OS TEMPLÁRIOS

134 dos 38 templários presos em Paris tinham admitido algumas das


acusações - ou todas elas - feitas contra eles, e foi o próprio grão-
mestre, Jacques de Molay,
que den