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Comarca de Goiânia

4ª Vara Criminal – Execução Penal


Gabinete da Corregedoria dos Presídios da Comarca de Goiânia

Processo: 327813-32.2009.8.09.0051 (200903278132)

Referência: Pedido de Interdição do Presídio Semiaberto

DECISÃO

A interdição parcial do presídio do regime semiaberto,

decretada por decisão deste Juízo, em 23 de outubro de 2009,

estabeleceu várias providências que deveriam ser implementadas pelo

Poder Público, inclusive fixando prazo de 120 dias para sua efetivação.

Dos presentes autos vislumbra-se a intimação do

Secretário de Segurança Pública do inteiro teor da decisão em comento,

no dia 12/11/2009 (fls. 126/127), bem como do Estado de Goiás – através

de sua Procuradoria Geral – no dia 13 do mesmo mês referido (fls.


128/129).

Isto posto, decorrido o prazo demarcado na decisão,

mais especificamente no dia 12 de março de 2010, em nova visita ao

estabelecimento prisional objeto do presente incidente, este Magistrado,

acompanhado do Promotor de Justiça da Execução Penal, de

Representante do Conselho da Comunidade e do Gerente de Segurança

Prisional da SUSEPE, pode constatar, in loco, que as situações descritas

na inspeção judicial (fls. 51) que embasaram a decisão que interditou

parcialmente o presídio subsistem e, em alguns casos, se agravaram.

A superlotação é evidente, a ausência de

encaminhamento de detentos para tratamento médico idem, o sistema de

esgoto continua sem funcionamento, não há fornecimento regular de água,

enfim, repita-se, as situações descritas na inspeção acima mencionada não

se alteraram embora decorrido o prazo fixado por este Juízo.

Ressalte-se, a bem da verdade, que o “Galpão” que está

sendo modificado para permitir a permanência de detentos que estejam

no regime semiaberto e exercendo trabalho externo está praticamento

pronto e, segundo a Gerência de Segurança do Complexo, entrará em

funcionamento dentro de poucos dias. Em inspeção no local fica evidente

que tal afirmação procede.

Em decorrência desta nova inspeção vem o Ministério

Público (fls. 150 e seguintes) requerer que sejam tomadas medidas para

dar eficácia à decisão de interdição parcial já proferida, apresentando

documento da Gerência de Segurança do Sistema Prisional que indica o


número máximo de pessoas que cada unidade envolvida nos

desdobramentos da interdição parcial poderia suportar, mais ainda,

ressalta a situação de insegurança e constantes fugas enfrentadas pela

população que hoje se encontra no semiaberto.

Quanto às constantes fugas tal fato é verdadeiro, em

especial devido à onda de violência que ali se instalou nas últimas semanas,

além do que normalmente ocorre. Os homicídios perpetrados dentro das

celas do complexo do semiaberto “novo” deixaram um saldo de

insegurança e aumento expressivo no número de fugas, incrementando um

ciclo vicioso perverso: o indivíduo que está no semiaberto sai para

trabalho externo e não volta, com medo pela própria vida; a VEP é

comunicada da fuga e incontinente expede mandado de prisão; a Polícia

cumpre o mandado e captura o evadido; este é ouvido em audiência de

justificação e, diante da situação descrita (não cometeu nenhum fato

novo, está trabalhando, não quer se envolver em qualquer problema, não

quer perder a vida) acaba por ser re-incluído e, diante do quadro que

encontra acaba por fugir novamente.

A este respeito, a constante re-inclusão do evadido

nestas situações descritas, vale deixar bem claro e explicado que não se

está incentivando ou “abonando” a fuga em si mesma. Diz a LEP que o

preso tem o dever de submeter-se à sanção imposta, cumprindo fielmente

a sua sentença (art. 39), o Estado, por seu turno, tem o dever de

propiciar as condições necessárias, estruturando-se para isso com

material técnico e físico, para que a pena cumprida seja, não só uma
reprimenda, mas condizente com o objetivado pela legislação.

Corrobora Andrei Zenkner Schimidt (Direitos, deveres

e disciplina na execução penal. In: CARVALHO, Salo de. (Org.). Crítica à

execução penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2002. p. 285.),

textualmente:

A primeira obrigação atribuída ao condenado diz respeito ao


comportamento disciplinado e cumprimento fiel da sentença.
Quanto ao primeiro aspecto só poderá se falar em
"indisciplina" carcerária nos casos em que o preso insurja-se
contra decisões e comandos que, além de emitidos pela
autoridade competente, estejam adequados às garantias
fundamentais da CF/88. Um comportamento indisciplinado do
preso pressupõe, sempre, um comportamento disciplinado do
Estado - por seus representantes. Só existe indisciplina
carcerária nos casos em que houve disciplina estatal.
Cotejando-se um comportamento disciplinado ou não à luz
dos princípios constitucionais, chegaremos à conclusão de
que só no caso de a execução penal ser regularmente
(rectius: constitucionalmente) desenvolvida é que se poderá
falar em indisciplina carcerária.

É preciso, pois, por parte do Estado, uma maior

preocupação, interesse e agilidade, nesse sentido, a fim de aproximar a

realidade prisional dos preceitos estabelecidos pela LEP.

O presídio deve ser um lugar apto a se cumprir uma

pena, nos moldes daquilo preconizado em lei e de acordo com os princípios

constitucionais e do Direito Penal, bem como de uma sociedade

democrática e humanizadora.

Dentro do presídio, o apenado deve cumprir apenas a

sanção imposta, qual seja privar-se de sua liberdade, e a julgar pelo que
isso representa, já é pena suficientemente castigante e aflitiva.

Cabe, pois, ao Estado dar as condições no mínimo

necessárias para que a execução penal possa surtir alguns dos efeitos a

que se propõe.

Há que se ter em mira que a decisão emanada deste

Juízo, determinando a interdição parcial do semiaberto “novo” tem, como

destacado na mesma, caráter administrativo1, podendo ser alterada a

qualquer momento.

Diante do exposto e em especial em decorrência da

visita realizada no complexo prisional do Regime Semiaberto no último dia

12 de março, de modo a dar maior efetividade àquela decisão e aproximá-

la mais ainda da recomendação do Conselho Nacional de Justiça

materializada no ofício nº 005 / MCGO / CNJ, encaminhado à VEP em

outubro de 2009 (cópia às fls. 52), decide este Juízo:

Manter, na íntegra, a decisão de interdição parcial do

presídio do regime semiaberto “novo”, como lançada nos presentes autos

às fls. 86 e seguintes com algumas adaptações descritas a seguir;

A segunda das medidas adotadas na decisão de

interdição parcial do presídio do regime semiaberto (fls. 104),

autorização de cumprimento de pena em regime domiciliar com prestação

de serviços à comunidade para o interno do regime aberto que se

1 Por todos os outros veja-se este julgado: (TJSC-042511 RECURSO DE AGRAVO CONTRA DECISÃO QUE DECRETA A
INTERDIÇÃO DE PRESÍDIO. Decisum efetivado com espeque no art. 65, VIII, da Lei nº 7.210/84. Matéria de cunho
administrativo e não jurisdicional, de modo que inviável o manejo de agravo. Recurso não conhecido. Agravo de Instrumento nº
2007.033725-2, 2ª Câmara Criminal do TJSC, Rel. Túlio Pinheiro. unânime, DJ 23.06.2008.)
encontra na Casa do Albergado, sofre alteração e deixa de exigir o prazo

de pelo menos 04 (quatro) meses neste regime, desta forma, a mudança

para o recolhimento domiciliar com prestação de serviço à comunidade

será automática e implicará em liberação de vagas na Casa do Albergado

para a transferência programada da Colônia Agroindustrial, como previsto

como 1ª medida na decisão de interdição parcial (fls. 102 e seguintes).

Destaque-se que todas as demais exigências da decisão anterior restam

intocadas.

Haverá fixação dos limites de ocupação dos

estabelecimentos penais, para tanto tomo como parâmetro o documento

apresentado pela Gerência de Segurança Prisional (fls. 153/154) na

seguinte forma:

I – semiaberto “novo”: 150 (cento e cinquenta) vagas

distribuídas entre as alas “A” e “B”, para os internos que não tem trabalho

externo (bloqueados) e 98 (noventa e oito) vagas para internos que

exerçam trabalho externo no novo “Galpão” que deverá ser terminado e

posto em perfeito funcionamento no prazo máximo de 15 (quinze) dias;

II – semiaberto “antigo”: transformado em espécie de

“alojamento funcional”, destinado exclusivamente aos internos do regime

semiaberto que trabalham no próprio complexo prisional, uma vez que,

segundo o documento da própria Gerência de Segurança Prisional, “a

estrutura é antiga e não recomendamos a permanência dos internos

naquela localidade, devendo ali permanecer somente os internos que


trabalham na casa, os quais poderiam ocupar a ala B, após a realização de

reparos e obras necessárias, (fls. 154). Limitado ao número de 40

(quarenta) presos.

III – Casa do Albergado: 130 (cento e trinta) vagas,

destinadas exclusivamente aos homens do regime semiaberto que já

estão exercendo trabalho externo, nos moldes da anterior decisão de

interdição parcial, retirada a exigência de prazo de 04 (quatro) meses de

exercício de trabalho externo, mantidas todas as outras. Tal decisão se

justifica pois são indivíduos que já estão de volta às ruas, saindo

livremente do sistema carcerário durante o dia e retornando para o

pernoite, sendo que a única mudança propriamente dita dirá respeito ao

local de recolhimento.

Diante da situação das unidades prisionais em comento é

imperioso que tal limitação de internos seja observada, não podendo haver

o ingresso de novos indivíduos no regime semiaberto sem a criação da

respectiva vaga, seja por progressão, seja por regime inicial de

cumprimento de pena. Quando o limite aqui definido for atingido (150 + 98

+ 40 + 130) será necessário transferir, temporária e excepcionalmente,

os internos excedentes que se encontram no regime semiaberto há mais

tempo e que ostentem bom comportamento e exerçam trabalho externo,

para recolhimento domiciliar.

Tal medida é emergencial e deve ser encarada como a

última possibilidade, ante a interdição parcial do semiaberto “novo”,


devendo ser revista assim que o Estado realizar as intervenções definidas

na mencionada decisão (fls. 106 e seguintes). Há várias decisões dos

Tribunais pátrios que, em situações extremas, admitem tal solução.2

Novamente trata-se de internos que já estão de volta às

ruas, saem livremente dos presídios para trabalhar e retornam à noite, a

mudança, propriamente dita, será quanto ao local de pernoite.

Este limite de ocupação é definido, por hora, tomando

por base a manifestação da Gerência de Segurança do Complexo Prisional

podendo ser alterado, para mais ou para menos, havendo a modificação da

situação do presídio do regime semiaberto. Nesse sentido será

determinado o envio de ofício ao Gerente de Segurança do Presídio para

que confirme estes números ora fixados, como o máximo atualmente

possível para atender a população carcerária com alguma dignidade.

O cumprimento da pena em recolhimento domiciliar para

o interno do regime semiaberto será admitida observadas as seguintes

condições:

1. A prisão domiciliar, no regime semiaberto, obedecerá a dois

critérios objetivos: antiguidade (tempo de cumprimento de pena no regime

semiaberto) e trabalho externo

2. A SUSEPE organizará e manterá uma lista nominal de todos os

2 TJMS-014986 HABEAS CORPUS - REGIME SEMIABERTO - PRESÍDIO INTERDITADO - PRETENSÃO DE


CUMPRIMENTO DO RESTANTE DA PENA EM REGIME DOMICILIAR - POSSIBILIDADE - ORDEM CONCEDIDA.A
inviabilidade de cumprimento da pena em regime semiaberto, face à interdição do Estabelecimento Penal local autoriza o
cumprimento do restante da pena em regime domiciliar. (Habeas Corpus nº 2009.025316-5/0000-00, 2ª Turma Criminal do TJMS,
Rel. Manoel Mendes Carli. unânime, DJe 29.10.2009)
presos que cumprem pena no regime semiaberto, organizada cronologicamente a partir

da data de ingresso do preso no regime;

3. Quando houver necessidade de uma nova vaga para um novo

condenado haverá uma evolução automática da lista de antiguidade, de forma que o

preso mais antigo seja o primeiro da lista para o recolhimento domiciliar;

4. Com a necessidade de liberar vagas no regime semiaberto o

diretor do estabelecimento enviará requerimento diretamente para o Juízo da VEP,

observada a lista nominal acima mencionada, em número suficiente à demanda;

5. Com o protocolo do pedido, a VEP designará de pronto data para

a audiência de aceitação das condições de ingresso no regime domiciliar, que contará

com a presença do Ministério Público, que se manifestará sobre o pedido no ato da

audiência, sem necessidade de manifestação prévia;

6. A quebra do regime semiaberto nessas circunstâncias, mesmo

que implique re-inclusão e não regressão de regime, acarretará o deslocamento do

interno para a última posição na lista de antiguidade e a perda do benefício do

recolhimento domiciliar;

7. A SUSEPE enviará relatório semanal à VEP indicando a

população carcerária de modo a atender os limites de ocupação aqui definidos;

8. O condenado do regime semiaberto autorizado à prisão

domiciliar, obedecerá as seguintes obrigações, além de outras observadas

individualmente diante das peculiaridades do caso, face ao princípio da

individualização da pena:

a) residência no endereço declarado;

b) recolhimento à residência até às 20 horas, excetuados aqueles

que estão autorizados ao estudo em horário noturno, caso em que


o recolhimento à residência deverá acontecer no máximo uma

hora após o término das aulas;

c) sair de casa somente para o local de trabalho indicado ou, no

caso de autorização específica, também para o local de estudo;

d) recolhimento à residência, em tempo integral, aos domingos e

feriados;

e) comparecimento semanal, aos sábados ou domingos, em local

designado e fiscalizado pela SUSEPE, para justificarem suas

atividades;

f) não utilização de drogas, lícitas ou ilícitas, bem como

comparecimento a programa de desintoxicação, nos casos de

dependência química;

g) o condenado autorizado a estudar em horário noturno deverá

apresentar bimestralmente comprovação de frequência e

aproveitamento das aulas;

A SUSEPE manterá equipe própria de servidores,

preparados e qualificados, para fazer o monitoramento e o

acompanhamento dos condenados autorizados ao cumprimento da pena em

prisão domiciliar, de tudo fazendo relatório periódico à VEP.

Para a efetivação destas medidas todos os apenados que

se encontram hoje no regime aberto, cumprindo pena na Casa do

Albergado serão liberados mediante aceitação das condições da prisão

domiciliar a ser feita em audiência com a participação obrigatória do


Ministério Público3 que se manifestará na própria audiência.

Como a Casa do Albergado passará a abrigar apenas

internos do semiaberto em trabalho externo, enquanto durar esta

situação de interdição parcial, não mais será possível manter em suas

dependências condenados do regime aberto.

Desse modo, com a apresentação de novos condenados,

homens ou mulheres, para início de cumprimento de pena no regime

aberto na Casa do Albergado, o funcionário fará registro disso em livro

próprio colhendo informações pessoais do apenado e encaminhando

requerimento à VEP para a realização de audiência para a aceitação das

condições de cumprimento da pena no regime aberto em recolhimento

domiciliar, com a presença do Ministério Público que se manifestará na

própria audiência, sem necessidade de manifestação prévia.

Até a realização da referida audiência o condenado ao

regime aberto será temporariamente liberado com a advertência

expressa e escrita de que se não for encontrado, ou não comparecer à

audiência, tal situação será automaticamente considerada falta grave e

ensejará a expedição de mandado de prisão e provável regressão no

regime de cumprimento de pena.

3 TJRS-296036) AGRAVO EM EXECUÇÃO. DECISÃO CONCESSIVA DO BENEFÍCIO DA PRISÃO DOMICILIAR


SEM OPORTUNIZAR A PRÉVIA MANIFESTAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. NULIDADE DECLARADA. O julgador
singular concedeu a prisão domiciliar ao ora agravado, em virtude da circunstância de ter havido interdição do estabelecimento
prisional naquela comarca, contudo, ao assim proceder, não oportunizou a prévia oitiva do Ministério Público para
manifestação, como dispõe o artigo 67 da Lei de Execução Penal. Por conseguinte, a decisão violou o princípio do processo
legal, acarretando na decretação de sua nulidade. Agravo provido.(Agravo nº 70022328207 2ª Câmara Criminal do TJRS, Rel.
José Antônio Cidade Pitrez. j. 24.04.2008, DJ 14.05.2008).
Do mesmo modo, como não será possível a permanência

de mulheres nas dependências da Casa do Albergado, por impossibilidade

de mantê-las em alojamentos separados dos homens, a mesma medida

determinada no parágrafo anterior será adotada para as mulheres

internas no regime semiaberto.

Por fim, atendam-se as seguintes determinações:

Considerando o escoamento do prazo fixado na decisão

de interdição parcial, encaminhem-se os ofícios mencionados às fls. 108

da referida decisão (Corpo de Bombeiros e Secretaria de Saúde).

Notifiquem-se, em todos os casos encaminhando cópia

desta decisão:

1. A Gerência de Segurança do Sistema

Prisional, para, com urgência, confirmar os limites de ocupação das

unidades prisionais objeto desta decisão;

2. A SUSEPE para atender as disposições

desta decisão, em especial a elaboração da lista de antiguidade dos

presos do regime semiaberto que realizem trabalho externo,

indicando a data de entrada do interno no regime semiaberto,

encaminhando à VEP, com urgência;

3. O Ministério Público;

4. O Grupo Permanente de Monitoramento,

Acompanhamento e Aperfeiçoamento do Sistema Carcerário do


Estado de Goiás, criado pelo ato normativo 003/2009, na pessoa do

seu Coordenador, Dr. Carlos Magno Rocha da Silva – 2º Juiz

Corregedor do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás;

5. O Conselho Penitenciário e o Conselho da

Comunidade;

Publique-se;

Registre-se;

Cumpra-se;

Goiânia, 22 de março de 2010.

Marcelo Lopes de Jesus


Juiz Substituto