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09/09/2015

O Estado Islâmico perante os olhos da Escola Inglesa

Em junho de 2014, o grupo jihadista Estado Islâmico anunciou ao mundo
que seu líder havia se autoproclamado Califa (um califado é o governo políticoreligioso orientado segundo preceitos da Lei Islâmica) da região situada entre o
noroeste do Iraque e a parte central da Síria. O anúncio veio acompanhado de
grande repercussão na comunidade internacional juntamente com o não
reconhecimento da situação por parte dos Estados soberanos do sistema
internacional. Desde então, praticamente todos os dias chegam até nós notícias
das ações do grupo, principalmente devido ao uso extremo da violência contra
minorias religiosas, determinados grupos étnicos e contra a população civil em
diversos países da região, incluindo até mesmo jornalistas e civis ocidentais. O
objetivo principal do grupo é formar um califado que englobe todo o Oriente
Médio, alçando o modelo teocrático do islamismo radical até mesmo em outras
regiões como Europa e América através de atos terroristas.
O pensamento teórico da Escola Inglesa por sua vez, busca explicar uma
série de ocorrências nas relações internacionais através da ênfase nos seres
humanos, buscando entender como o seu comportamento, ideias, crenças e
valores influenciam o modo de conduzir a política externa dos países. Para tanto,
a abordagem da sociedade internacional define um grupo de conceitos,
chamados "três erres da Escola Inglesa" buscando cada um a sua maneira,
explicar e analisar as relações entre os Estados. Vale mencionar que por mais
diferentes que os conceitos sejam entre si, não podemos afirmar que um seja
mais certo que outro e nem contar somente com um deles para entender
adequadamente as relações entre os Estados. Trata-se de uma união, um diálogo
constante entre Realismo, Racionalismo e Revolucionismo.
A perspectiva Realista considera que os Estados estão sempre em busca
de favorecer os seus próprios interesses, portanto são egoístas. As relações são
baseadas na soberania e há a presença constante de conflitos e rivalidades. Por
sua vez, está associado ao conceito de sistema internacional, quando dois ou
mais Estados utilizam cálculos baseados em seus interesses para balancear o
poder entre si.
A abordagem Racionalista defende como o próprio nome diz, a noção de
que os seres humanos são racionais, sabem reconhecer as decisões mais
acertadas, com base em erros e acertos próprios ou dos outros. Existe o diálogo
entre Estados soberanos, os quais reconhecem uns aos outros como
componentes importantes de uma sociedade internacional. Essa por sua vez,
engloba a noção de um sistema internacional onde os Estados, por terem noção
que compartilham certos interesses e valores em comum, acabam se unindo em
torno de regras e instituições, por considerarem o diálogo e a soberania externa,
elementos essenciais na sociedade internacional.

lembrando é claro. mas também além dele. "Vislumbram o surgimento de um mundo ideal. Entretanto. p. Dentro da perspectiva da Escola Inglesa temos também. Cada país vai olhar para a atual situação de uma forma mais ou menos alarmante. quando isoladas e tomadas pensando somente em um contexto mais interno.. Inglaterra e França no combate ao EI. 2006. Para tanto. os Estados buscam maximizar seu poder de ação ao mesmo tempo que adquirem maior consciência da necessidade de respeito às normas e direitos internacionais. uma governança baseada na Lei Islâmica radical.. Por outro lado. A colaboração com outros Estados em busca dessa defesa só é válida se não implicar em riscos desnecessários. A ordenação social ocorre mesmo quando não há a presença de um poder superior nos padrões que os Estados desempenham hoje. passando a ser o ponto central nas relações internacionais. A Responsabilidade Nacional pressupõe a segurança do Estado como unidade territorial e populacional única. podemos concluir que as atitudes da organização buscam a seu modo a reconstrução da ordem internacional. os teóricos dessa perspectiva acreditam que é possível os seres humanos se unirem em uma sociedade acima dos Estados. é necessário que pensemos nesse contexto partindo da visão dos Estados membros da sociedade internacional perante o Estado Islâmico. somos seres humanos” (Jackson. alianças e do direito internacional. só o que interessa é a segurança nacional. o bem-estar de seus cidadãos. que fazer referência às Três Responsabilidades da sociedade internacional.09/09/2015 Por último.. há também a tradição Revolucionista. que o Estado Islâmico encaixar-se-ia mais adequadamente dentro de uma perspectiva revolucionista severa.)" (Jackson. em especial de potências como Estados Unidos. mas é quase consenso entre todos que o EI é um inimigo a ser combatido e é nesse contexto de defender-se de uma ameaça que entram as três responsabilidades. Nesse aspecto é notável dizer que os esforços da sociedade internacional. existe também a ideia de Responsabilidade Internacional. Podemos afirmar. portanto. que essa abordagem não é a única a explicar o contexto. 221). ou em uma ideologia revolucionária (. Por último temos também a Responsabilidade Humanitária que remete aos Estados e estadistas a necessidade de preservar e respeitar os direitos humanos em seu território. p. a qual busca enquadrar os Estados e seus representantes políticos em uma noção de obrigações comuns devido ao fato de participarem da sociedade internacional através de organizações. seja com base em uma religião revolucionária (. “Antes de sermos cidadãos de um Estado e membros de seu governo. 2006.. analisando o EI como um fenômeno que busca mudanças radicais no modo como a sociedade está organizada. . adequamse a essa ideia de responsabilidade nacional. Os pensadores vão defender uma mudança para melhor no mundo através de uma mudança social revolucionária. S Ørensen.). Ao formarem as tais alianças de combate ao EI. 205). SØrensen. uma vez que estão todos sujeitos a elas. devendo zelar pelo cumprimento desses direitos em todo o mundo.

especialmente no que se refere aos primórdios do conflito envolvendo a luta pela saída do ditador sírio Bashar AlAssad e o financiamento de vários grupos radicais que combatem o regime por parte de países ocidentais e do Golfo Pérsico. Somente assim.09/09/2015 Talvez seja em relação a essa responsabilidade que a opinião pública mundial mais tem impacto na atual situação envolvendo o Estado Islâmico. mas de toda a sociedade. Para tanto. uma união real baseada não em interesses isolados. Centenas de ONGs e instituições visam conscientizar as pessoas sobre a gravidade da situação. o mundo poderá se ver livre da ameaça que o Estado Islâmico e outros grupos religiosos radicais representam. Mas não é a única e nem a que melhor explica ou que ajudará o mundo a combater o mal que toda a situação está trazendo. A visão da Escola Inglesa é somente uma das muitas que podemos utilizar atualmente para perceber o problema que é a organização Estado Islâmico. É inaceitável para grande parte da população o que vem ocorrendo principalmente na Síria e no Iraque. é necessário que a sociedade internacional se una em prol daquilo que é o melhor para todos. Violações brutais de direitos humanos. . fuga em massa de civis desses países gerando a maior crise de refugiados que a Europa já viveu desde a 2ª Guerra Mundial. a percepção cada vez maior sobre a culpa do próprio Ocidente em todo esse conflito.