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Luiz Rosado Costa

INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE - SERVIDÕES E LIMITAÇÕES ADMINITRATIVAS

A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE FUNDAMENTO I

FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
Constituição Federal de 1988:
Constituição Federal de 1988:

XXII - é garantido o direito de propriedade;

XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;

XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição;

XXV - no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano;

NOÇÕES DE CONTRATOS

A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE FUNDAMENTO II

SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO
SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO

“É a supremacia do interesse público sobre o privado, como princípio, que

retrata um dos fundamentos da intervenção estatal na propriedade”

(CARVALHO FILHO: 2012, p. 772)

NOÇÕES DE CONTRATOS

A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE - MODALIDADES

a) intervenção restritiva (limitação administrativa, servidão

administrativa, requisição, ocupação temporária e tombamento):

hipótese em que o Estado impõe restrições e condiciona o uso da propriedade,

sem, no entanto, retirá-la de seu dono. O proprietário, apesar de conservar a propriedade, não poderá utilizá-la a seu exclusivo critério, devendo subordinar-

se as imposições emanadas pelo Poder Publico.

b) intervenção supressiva (desapropriação) - hipótese em que o Estado

transfere coercitivamente para si a propriedade de terceiro, em virtude de um

dos fundamentos previstos pela lei.

NOÇÕES DE CONTRATOS

LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA
LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA

“Limitação administrativa à propriedade consiste na restrição às faculdades de usar e fruir de bem imóvel, que dá configuração ao direito privado de

propriedade, mediante ato administrativo unilateral de cunho geral”

(JUSTEN FILHO: 2014, p. 611) (grifos nossos)

NOÇÕES DE CONTRATOS

“São determinações de caráter geral, através das quais o Poder Público impõe a

proprietários indeterminados obrigações positivas, negativas ou permissivas, para o fim de condicionar as propriedades ao atendimento da função social” (CARVALHO FILHO: 2012, p. 788-9)

> O Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) instituiu diversos instrumentos que se configuram como limitação administrativa

EXEMPLOS
EXEMPLOS

Obrigação de fazer: limpar terreno. O art. 182, § 4º da CF/88 prevê uma

hipótese: § 4º É facultado ao Poder Público municipal, mediante lei específica para área incluída no plano diretor, exigir, nos termos da lei federal,

do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado,

que promova seu adequado aproveitamento”

Obrigação de não fazer: proibição de construir além de determinado número

de pavimentos (gabarito de prédios)

Permissivo: obrigação de permitir o ingresso de agentes para fiscalização

NOÇÕES DE CONTRATOS

INDENIZAÇÃO
INDENIZAÇÃO

Como são imposições de ordem geral (abrangem quantidade indeterminada de propriedades), as limitações administrativas não dão ensejo a indenização.

“Não há prejuízos individualizados, mas sacrifícios gerais a que se devem

obrigar os membros da coletividade em favor desta” (CARVALHO FILHO: 2012, p. 791)

NOÇÕES DE CONTRATOS

CARACTERÍSTICAS
CARACTERÍSTICAS

1. São atos legislativos ou administrativos de caráter geral;

2. Tem caráter de definitividade;

3. Visa a interesses públicos abstratos;

4. Ausência de indenização

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA - CONCEITO
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA - CONCEITO

“A servidão administrativa consiste num dever de suportar e de não fazer,

que recai sobre bem imóvel determinado e é imposto por ato administrativo unilateral” (JUSTEN FILHO: 2014, p. 615)

* É usualmente imposta a um imóvel em vista do seu vínculo com outro

bem imóvel.

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA – FUNDAMENTO
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA – FUNDAMENTO

Os fundamentos da servidão administrativa são os mesmos para a

intervenção do Estado na propriedade:

> SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO > FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE

“O sacrifício da propriedade cede lugar ao interesse público que inspira a atuação interventiva do Estado” (CARVALHO FILHO: 2012, p. 775)

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA SOBRE BENS MÓVEIS???
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA SOBRE BENS MÓVEIS???

Para a maior parte da doutrina (por exemplo, MARÇAL JUSTEN FILHO; JOSÉ

DOS SANTOS CARVALHO FILHO; HELY LOPES MEIRELLES; MARIA SILVIA ZANELLA DI PIETRO) a servidão administrativa só recai sobre bens imóveis.

Há, todavia, corrente minoritária que defende que ela pode recair sobre

bens móveis e serviços (por exemplo, LUCIA VALLE FIGUEIREDO, ANTÔNIO QUEIROZ TELLES, ALEXANDRE MAZZA)

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO DE DIREITO PRIVADO (art. 1378, CC) X SERVIDÃO ADMINISTRATIVA
SERVIDÃO DE DIREITO PRIVADO (art. 1378, CC) X SERVIDÃO ADMINISTRATIVA

Há duas diferenças principais:

1-) a servidão administrativa atende a interesse público, enquanto a servidão privada visa ao interesse privado; e

2-) a servidão administrativa serve o influxo de regras de direito público, ao contrário das servidões privadas, sujeitas ao direito privado.

NOÇÕES DE CONTRATOS

EXEMPLOS DE SERVIDÃO ADMINISTRATIVA
EXEMPLOS DE SERVIDÃO ADMINISTRATIVA

“São exemplos mais comuns de servidão administrativa a instalação

de redes elétricas e a implantação de gasodutos e oleodutos em áreas privadas para a execução de serviços públicos” (CARVALHO FILHO: 2012, p. 775)

NOÇÕES DE CONTRATOS

FORMAS DE INSTITUIÇÃO
FORMAS DE INSTITUIÇÃO

Há duas formas de instituição:

1- Acordo entre o proprietário e o poder público: depois de declarar a utilidade

pública para instituir a servidão, por decreto do Chefe do Poder Executivo*, o

Estado consegue o assentimento do proprietário

* Parte da doutrina considera que a servidão não se pode dar através de lei, porque ela é específica a determinada propriedade e a lei tem caráter genérico (Cf. CARVALHO FILHO: 2012, p. 778 e JUSTEN FILHO: 2014, p. 616), mas para outra parte da doutrina (Cf. DI PIETRO, Maria Sylvia: 2003, p. 148) a servidão administrativa pode decorrer diretamente de previsao legal, não precisando, neste caso, de qualquer ato jurídico para sua constituição, p. e. , a proteção no entorno dos aeroportos

NOÇÕES DE CONTRATOS

FORMAS DE INSTITUIÇÃO (2)

2- Sentença judicial: não assentindo o proprietário, o Poder Público ingressa com ação

judicial demonstrando a existência de decreto específico declaratório da utilidade pública.

de decreto específico declaratório da utilidade pública. REGISTRO DA SERVIDÃO Devem as servidões serem registradas

REGISTRO DA SERVIDÃO Devem as servidões serem registradas para atender o que dispõe a da Lei n9

6.015/1973, art. 167 (dispositivo alterado pela Lei n2 12.424/2011 e pela Lei n9

12.703/2012), para que seja oponível erga omnes.

A súmula 415 do STF liberou de registro a servidão de obras aparentes:

“Servidão de trânsito não titulada, mas tomada permanente, sobretudo pela natureza das obras realizadas, considera-se aparente, conferindo direito a proteção possessória”.

NOÇÕES DE CONTRATOS

PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA
PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA

José dos Santos Carvalho Filho defende que “à semelhança do que ocorre com a desapropriação, é de aplicar-se às servidões administrativas o princípio da hierarquia federativa” (2012, p. 776)

O fundamento seria aplicação analógica do que dispõe o art. 2º, § 2º, do Decreto-Lei 3.365/41, que trata da desapropriação.

PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA (II)
PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA (II)
PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA (II) Crítica: considerando que a previsão é expressa para desapropriação, e

Crítica: considerando que a previsão é expressa para desapropriação, e mais, que não há retirada da propriedade e que cada ente tem competências diferentes. Assim,caso o serviço fosse de competência dos Municípios e fosse preciso prestá-lo usando-se um bem do Estado, o primeiro, estando impedido de fazer servidão, teria prejudicado sua prestacao” (MARINELA: 2013, p. 897)

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA E INDENIZAÇÃO
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA E INDENIZAÇÃO

Em regra, a servidão administrativa não é indenizada porque, na maioria dos casos, não impede o uso normal da propriedade além de não ser ela hipótese de intervenção supressiva da propriedade .

Se o proprietário demonstrar efetivo prejuízo com a servidão, deverá ser indenizado em montante equivalente ao do prejuízo (e não ao do valor do imóvel, como ocorre com a desapropriação).

LÚCIA VALLE FIGUEIREDO alerta para a possibilidade de a servidão se tornar desapropriação indireta: “se a servidão aniquila a propriedade em termos de utilização pelo proprietário, estaremos diante de caso típico de desapropriação” (1995, p. 202)

em termos de utilização pelo proprietário, estaremos diante de caso típico de desapropriação” (1995, p. 202)

NOÇÕES DE CONTRATOS

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA X TOMBAMENTO
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA X TOMBAMENTO

Parte da doutrina considera o tombamento como espécie de servidão administrativa, de natureza especial, para proteção do patrimônio histórico, artístico e cultural. Nesta linha: Diógenes Gasparini e Celso Antônio Bandeira de Mello.

A doutrina majoritária (p.e. Maria Sylvia Zanella di Pietro e José dos Santos Carvalho Filho), todavia, considera o tombamento como medida autônoma com características específicas, não se confundindo com nenhuma outra espécie de intervenção restritiva.

SERVIDÃO ADMINISTRATIVA X TOMBAMENTO
SERVIDÃO ADMINISTRATIVA X TOMBAMENTO

Pontos importantes:

> O tombamento não é um direito real, como o é a servidão;

>

administrativa.

Inexistem

as

figuras

do

dominante

e

do

serviente,

intrínsecas

à

servidão